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Category: Garrigou-Lagrange, Réginald , O.P.Conteúdo sindicalizado

A plenitude de graças no instante da Encarnação e depois

Garrigou Lagrange, O.P.

[Nota da Permanência: O texto da semana é a continuação do livro "A Mãe do Salvador e nossa vida interior", do dominicano Garrigou-Lagrange, um dos maiores teólogos do século XX e um grande autor espiritual. A bonita magem que escolhemos para ilustrar esse artigo é de Sano di Pietro, da escola de Siena. A tradução é de Ricardo Bellei] 

 

Neste capítulo falaremos do progresso espiritual de Maria até a Anunciação, do aumento considerável da graça que ocorreu nela no instante da Encarnação e de sua virgindade perpétua; em seguida, do aumento sucessivo da caridade em certas horas mais importantes de sua vida, sobretudo no Calvário; e finalmente da inteligência de Maria, de sua sabedoria, de suas principais virtudes e de seus carismas ou graças denominadas gratis datae, gratuitamente concedidas e em certo modo exteriores, como a profecia e o discernimento de espíritos.

 

   

A plenitude inicial da graça em Maria

 Ave, gratia plena.

(Lc, 1, 28).

 

Depois de termos visto quão sublime é Maria por seu título de Mãe de Deus, razão de todos os privilégios que lhes foram conferidos, convém considerar qual é o significado e o alcance das palavras que lhe foram ditas pelo Arcanjo Gabriel no dia da Anunciação: “Deus te salve, cheia de graça; o Senhor é contigo; bendita és tu entre as mulheres1. Para compreendermos o significado dessas palavras ditas em nome de Deus, consideraremos:

1º, as diferentes plenitudes de graça;

2º, o privilégio da Imaculada Conceição;

3º, a sublimidade da primeira graça em Maria. 

 

 

  1. 1. Lc 1, 28.

A eminente dignidade da maternidade divina

 

Pe. Garrigou-Lagrange, OP

 

As duas grandes verdades que, na doutrina revelada sobre a Virgem Maria, dominam tudo como dois picos e de onde derivam todas as outras, são a Maternidade Divina e a plenitude da graça, afirmadas ambas pelo Evangelho e pelos Concílios.

Para compreender bem sua importância, será bom compará-las, inquirindo qual das duas é a primeira e da qual tudo deriva na Mariologia. O que há de mais grandioso em Maria: sua Maternidade Divina, seu título de Mãe de Deus, ou a plenitude da graça?(Continue a ler)

 

 

 

Pecados de ignorância, fraqueza e malícia

Garrigou Lagrange, O.P.

Espalha-se, em alguns lugares, a opinião de que apenas o pecado de malícia é mortal, e que os pecados de ignorância e fraqueza jamais o são. É importante recordar, acerca deste ponto, o ensinamento da teologia, tal como se encontra formulado por Santo Tomás de Aquino na sua Suma Teológica (Ia-IIae, q. 76, 77, 78).

O pecado de ignorância é o que provém de ignorância voluntária e culpável, chamada ignorância vencível. O pecado de fraqueza é o que provém de forte paixão, que diminui a liberdade e obriga a vontade a dar seu consentimento. Quanto ao pecado de malícia, é o que se comete com plena liberdade “quasi de industria”, com aplicação e frequentemente com premeditação, sem paixão, nem ignorância. Recordemos o que Santo Tomás nos ensina sobre cada um deles. (Continue a ler)

Caridade e bem-aventuranças

 

Garrigou-Lagrange, OP

 

 

Introdução

A perfeição cristã, segundo o testemunho do Evangelho e das Epístolas, consiste especialmente na caridade que nos une a Deus1. Essa virtude corresponde ao maior dos Mandamentos, que é o do amor de Deus. Também foi dito: “quem permanece na caridade, permanece em Deus, e Deus nele2. E ainda: “sobretudo, porém, tende caridade, que é o vínculo da perfeição3.

Os teólogos perguntaram-se sobre se, para alcançar a perfeição propriamente dita, não a dos iniciantes, ou a das almas em progresso, mas a que caracteriza a via unitiva, seria preciso grande caridade, ou se poderia obtê-la sem grau elevado dessa virtude.

Alguns autores4 sustentaram que não seria preciso alto grau de caridade para a perfeição propriamente dita, visto que, segundo Santo Tomás “a caridade, mesmo em grau inferior, é capaz de vencer todas as tentações”5.  (Continue a ler)

  1. 1. Cf. S. Tomás, IIa IIae, q. 184, a. 1.
  2. 2. 1Jo 4, 16.
  3. 3. Cl 3, 14.
  4. 4. Entre eles, é preciso citar Suarez, de Statu perfectionis, 1. 1, c. 4, nº. 11, 12, 20. Essa opinião invocaram alguns que não queriam admitir que a perfeição cristã requer grande caridade e os dons do Espírito Santo em grau proporcional; em outras palavras, que a contemplação infusa procedente da fé viva iluminada pelos dons está na via normal da santidade e é como que o prelúdio normal da visão beatífica.
  5. 5. Cf. III Sent., d. 31, q. 1, a. 3; IIIa q. 62, a. 6, ad 3.

Dever de reparação

Pe. Garrigou-Lagrange, OP

 

“Alter alterius onera portate”.

Levais os fardos uns dos outros

Gl 6.

 

    Tratamos recentemente do dever do reconhecimento, convém falar agora do dever de reparação. A reparação da ofensa feita a Deus é geralmente chamada em teologia de “satisfação”. Os fiéis instruídos costumam conhecer suficientemente bem a doutrina do mérito; porém, é menos conhecida a doutrina da satisfação ou reparação, que, se lembra a do mérito, dela difere, contudo. Os fiéis crêem firmemente que Jesus satisfez por nós em estrita justiça, que a Santíssima Virgem satisfez por nós de uma satisfação de conveniência; mas conhecem menos o lugar que a satisfação deve ocupar nas nossas vidas.

    Lembremos sobre esse ponto os princípios; veremos em seguida como o católico em estado de graça pode satisfazer ou reparar por si e pelo próximo. (Continue a leitura)

A obrigação de buscar a perfeição da caridade

Pe. Garrigou-Lagrange, OP

Estado e dificuldade da questão: não se está tratando da perfeição ínfima, que exclui apenas os pecados mortais, nem tão-somente da perfeição média, que exclui os mortais e os veniais plenamente deliberados, mas da perfeição propriamente dita, que exclui imperfeições deliberadas e atos imperfeitos; logo, não é meramente o convite à perfeição propriamente dita pois, quanto a isso, não há dúvida: todos homens estão convidados à perfeição propriamente dita.

A questão versa sobre a existência de uma obrigação geral de todos católicos tenderem à perfeição da caridade. Não é, contudo, uma obrigação especial, cuja violação seria um pecado especial, como no estado religioso, mas de uma obrigação geral.

A dificuldade surge quando queremos conciliar certas sentenças de Nosso Senhor que, num primeiro momento, parecem contradizer-se.

Por um lado, Cristo aconselha o adolescente rico (Mt 19, 21): “Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, e dá aos pobres... e vem e segue-me”. Estas palavras – “Se queres ser perfeito” – parecem exprimir um conselho, não uma obrigação. Logo, todos os católicos não estão obrigados a buscar a perfeição; aparentemente, somente aqueles que já prometeram seguir os conselhos evangélicos estariam obrigados a buscar a perfeição 1

Por outro lado, declara Cristo a todos (Mt 5, 48): “Sede pois perfeitos, como também vosso Pai celestial é perfeito”.  (continue a ler)

  1. 1. Sobre esta dificuldade, ver Suma Teológica IIa IIae, q. 184, a. 3 ad 1.

Artigo 3: A consagração à Maria

Em seu Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem, São Luís Grignion de Montfort distingue acertadamente vários graus da verdadeira devoção à Mãe de Deus. Não fala mais que rapidamente, no capítulo III, das formas da falsa devoção, que é totalmente exterior, presunçosa, inconstante, hipócrita ou interesseira; considera principalmente a verdadeira devoção.

Assim como as outras virtudes, essa devoção cresce em nós com a caridade, que constitui primeiro o grau dos iniciantes, depois dos que estão progredindo e, por fim, dos perfeitos. 

O primeiro grau da verdadeira devoção a Maria consiste em rezar-lhe regularmente com recolhimento, dizendo, por exemplo, a oração do Angelus de forma adequada, quando tocar o sino. No segundo grau, se iniciam os sentimentos mais perfeitos de estima, veneração, confiança e amor que levam, por exemplo, a recitar devotamente o Terço ou o Rosário a cada dia. O terceiro grau leva à doação completa à Santíssima Virgem, consagrando-se a Ela para ser completamente de Nosso Senhor, por meio de Maria 1.

 

Em quê consiste essa consagração?

Consiste em prometer a Maria de recorrer filial e constantemente a ela e de viver uma habitual dependência a seu respeito, para chegar a uma união mais íntima com Nosso Senhor e, por seu intermédio, com a Santíssima Trindade que habita em nós.

A razão é diz o Santo 2 que Deus quer servir-se de Maria na santificação das almas, depois de ter se servido dela na Sua Encarnação, e acrescenta: “Nem creio que uma pessoa possa adquirir uma união íntima com Nosso Senhor e uma perfeita fidelidade ao Espírito Santo, sem uma grande união com a Santíssima Virgem e uma grande dependência de seu socorro... Maria era cheia de graça quando o arcanjo Gabriel a saudou e a graça superabundou quando o Espírito Santo a cobriu com sua sombra inefável. E de tal modo ela aumentou essa dupla plenitude, de dia a dia, de momento a momento, que chegou a um ponto imenso e inconcebível de graça, de sorte que o Altíssimo a fez tesoureira de todos os seus bens, dispensadora de suas graças, para enobrecer, elevar e enriquecer a quem ela quiser, para fazer entrar quem ela quiser no caminho estreito do Céu... Jesus é em toda parte e sempre o fruto e o Filho de Maria; e Maria é em toda parte a verdadeira árvore que dá o fruto da vida, e a verdadeira mãe que o produz”. 

No mesmo capítulo 3, diz também o Santo: “Pode-se ainda aplicar-lhe, com mais propriedade que São Paulo aplica a si próprio, as palavras: “Quos iterum parturio, donec formetur Christus in vobis” (Gl 4, 19): Dou à luz todos os dias os filhos de Deus, até que Jesus Cristo seja neles formado em toda a plenitude de sua idade. Santo Agostinho, sobrepujando a si mesmo, e tudo o que acabo de dizer, confirma que todos os predestinados, para serem conformes à imagem do Filho de Deus, são, neste mundo, ocultos no seio da Santíssima Virgem, e aí guardados, alimentados, mantidos e engrandecidos por essa boa Mãe, até que ela os dê à glória, depois da morte, que é propriamente o dia de seu nascimento, como qualifica a Igreja a morte dos justos. Ó mistério de graça, que os réprobos desconhecem e os predestinados conhecem muito pouco”.

Maria é, com efeito, sua mãe espiritual, os dá à luz espiritualmente, e seu nascimento espiritual definitivo é, após sua morte, a sua entrada na glória.

Concebe-se, é claro, que seria uma falta de humildade não recorrer freqüentemente à Medianeira universal que a Providência nos deu como uma verdadeira Mãe espiritual para formar o Cristo em nós, ou para formar-nos espiritualmente à imagem e semelhança do Filho de Deus.

A Teologia não pode deixar de reconhecer a perfeita legitimidade dessa consagração 4, legitimidade essa baseada nos dois títulos de Maria: o de Mãe de todos os homens e de Rainha.

Essa forma mais elevada de devoção à Santíssima Virgem, que é um reconhecimento prático da sua mediação universal, é uma garantia de sua particular proteção. Predispõe-nos a recorrer filial e perpetuamente a ela, à contemplação e à imitação das suas virtudes e de sua perfeita união a Nosso Senhor.

Na prática dessa dependência total com respeito à Virgem Maria, pode-se incluir, como indica o Santo de Montfort, o abandono e a entrega à Santíssima Virgem de tudo o que há de comunicável às outras almas em nossas boas obras, para que ela disponha segundo a vontade de seu divino Filho e para Sua maior glória. Aconselha, de fato, esta fórmula de consagração 5: “Escolho-vos neste dia, ó Maria Santíssima, em presença de toda a corte celeste, por minha Mãe e Senhora. Entrego-vos e consagro-vos, como escravo, meu corpo e minha alma, meus bens interiores e exteriores, e até o valor de minhas boas obras passadas, presentes e futuras, deixando-vos um pleno e inteiro direito de dispor de mim e de tudo o que me pertence, sem exceção, segundo vosso beneplácito, para a maior glória de Deus, no tempo e na eternidade”.

Esse abandono é, na realidade, a prática do que se tem chamado ato heróico, sem que exista aqui um voto, mas apenas uma promessa feita à Virgem 6.

Somos assim aconselhados a entregar a Maria nossos bens exteriores, se os temos, para que ela nos preserve de todo apego às coisas terrenas e nos inspire a fazer o melhor uso deles. Convém que lhe consagremos nosso corpo e nossos sentidos, para que ela os conserve em perfeita pureza, e convém também que lhe entreguemos nossa alma, nossas faculdades, nossos bens espirituais, virtudes e méritos e todas as nossas boas obras passadas, presentes e futuras.

Como entregaremos nossos méritos à Santíssima Virgem para que ela os disponha em benefício das outras almas na Terra ou no Purgatório? A Teologia explica isso facilmente, distinguindo em nossas boas obras o que há de incomunicável aos outros e o que há de comunicável.

 

O que há de comunicável em nossas boas obras?

Em primeiro lugar, o que há nelas de incomunicável é o mérito de condigno, que constitui, em justiça, um direito a um aumento de graça e à vida eterna. Esse mérito, estritamente pessoal, é incomunicável; difere nisso dos méritos de Nosso Senhor, que, em justiça, nos tem comunicado os seus méritos, porque foi constituído cabeça da humanidade 7.

Se, portanto, oferecemos a Maria nossos méritos de condigno, não é para que ela os comunique a outras almas, mas para que os conserve para nós, ajude-nos a fazê-los frutificar e, se tivermos a desgraça de perdê-los por um pecado mortal, para que nos obtenha a graça de uma contrição verdadeiramente fervorosa, que nos faça recobrar, não só o estado de graça, mas o grau de graça perdido 8.

Mas em nossas boas obras existe algo de comunicável às outras almas da Terra ou do Purgatório 9. Primeiro, o mérito de conveniência, de congruo proprie, que é também, como vimos antes 10, um mérito propriamente dito, baseado in jure amicabili, nos direitos de amizade que unem Deus à alma em estado de graça. Assim, uma mãe cristã, por sua vida virtuosa, pode merecer por um mérito de conveniência, como Santa Mônica, a conversão de seu filho. Deus, tendo presentes as intenções puras e as boas obras dessa excelente mãe, que Lhe está unida pela caridade, deu a seu filho, por causa dela, a graça da conversão 11.

Do mesmo modo, podemos e devemos rezar pelo próximo, pela sua conversão e aperfeiçoamento, pelos agonizantes e pelas almas do Purgatório. Aqui, ao valor impetratório da oração acrescenta-se o mérito de que falamos.

Podemos satisfazer, por fim, com uma satisfação de conveniência, de congruo, pelos outros, aceitar as contrariedades cotidianas para ajudá-los a expiar as suas faltas; podemos até mesmo, se recebermos a inspiração, aceitar voluntariamente a pena merecida pelos seus pecados, como a Virgem Maria fez por nós ao pé da Cruz, e alcançar-lhes, desse modo, a misericórdia de Deus 12. Os santos têm feito isso freqüentemente: Santa Catarina de Sena, por exemplo, disse a um jovem senense que tinha o coração cheio de ódio contra seus adversários políticos: “Pedro, eu tomo sobre mim os teus pecados e farei penitência em teu lugar, mas conceda-me uma graça: confessa-te”. “Eu o fiz recentemente”, disse o jovem. “Não é verdade, respondeu a santa, pois há sete anos não te confessas”, e começou a enumerar-lhe todas as faltas de sua vida. Aturdido e surpreso, ele arrependeu-se e perdoou os seus inimigos. Sem termos uma tão grande generosidade quanto a de uma Santa Catarina de Sena, podemos aceitar as penas diárias que se apresentam para ajudar outras almas a pagar suas dívidas à justiça divina.

Podemos também lucrar indulgências para as almas do Purgatório, abrir-lhes o tesouro dos méritos e das satisfações de Cristo e dos santos, e acelerar, assim, a sua libertação.

Há, portanto, em nossas boas obras, três coisas que são comunicáveis às outras almas: o mérito de conveniência, a oração e a satisfação. Pode acontecer, além disso, que um único e mesmo ato, como uma oração unida à austeridade ou à mortificação (tal como a adoração noturna, as Matinas ditas à noite ou uma Via Crucis), tenha um tríplice valor: meritório, satisfatório e impetratório, sem falar das indulgências.

Se oferecemos assim à Virgem Maria tudo o que existe de comunicável em nossas boas obras, não nos surpreenderemos que ela nos envie cruzes proporcionadas às nossas forças auxiliadas pela graça, para fazer-nos trabalhar, assim, na salvação das almas.

A quem convém aconselhar essa consagração e esse abandono? Não seria prudente aconselhá-la àqueles que a fariam por sentimentalismo ou por orgulho espiritual e não compreenderiam o seu alcance. Mas convém sugerir às almas verdadeiramente piedosas e fervorosas que a façam, primeiramente por alguns dias, depois por um tempo maior e, quando estiverem imbuídas de seu espírito, por toda a vida.

Mas objeta-se às vezes: fazer esse abandono é espoliar-se e não poder pagar nossa própria dívida, o que aumentará o nosso tempo de Purgatório. Essa foi a objeção feita pelo demônio a Santa Brígida quando ela se dispunha a realizar essa ação. Mas Nosso Senhor fê-la compreender que era uma objeção de amor próprio, que esquece a bondade da Virgem Maria; ela não se deixará vencer em generosidade e nos ajudará muito mais. Desprendendo-nos assim de nossos bens, receberemos da Santíssima Virgem cem por um. E mesmo o amor que atesta esse ato generoso obtém-nos já a remissão de uma parte do nosso Purgatório.

Outras pessoas objetam ainda: como rezar, então, pelos nossos pais, irmãos e irmãs, por nossos amigos e conhecidos, se entregamos de uma vez por todas as nossas orações a Maria?

Isso é esquecer que Maria conhece, melhor que nós, nossos deveres de caridade, e que será a primeira a recordá-los a nós. Mas entre nossos pais e amigos na Terra ou no Purgatório, existem almas que têm necessidade urgente de orações e de satisfações, e ignoramos quem sejam essas almas, enquanto que a Santíssima Virgem as conhece e poderá assim beneficiá-las com o que é comunicável em nossas boas obras, se nós a ela tudo abandonarmos 13.

Assim concebida, essa consagração e esse abandono fazem-nos penetrar cada vez mais, sob a direção de Maria, no mistério da comunhão dos santos. Essa prática é uma perfeita renovação das promessas do batismo 14.

 

Frutos dessa consagração

Essa devoção diz o Santo de Montfort 15 nos põe inteiramente ao serviço de Deus, nos leva a imitar o exemplo dado por Jesus Cristo, que quis ser submisso com respeito à sua santa Mãe (Lc 2, 51). Ela nos proporciona a especial proteção de Maria, que purifica e embeleza nossas boas obras ao apresentá-las a Seu Filho. Conduz-nos à união com Nosso Senhor; é um caminho fácil, curto, perfeito e seguro. Dá uma grande liberdade interior, alcança grandes bens ao próximo e é um meio admirável de perseverança. No livro, cada um desses pontos é desenvolvido da forma mais prática.

Está escrito particularmente no capítulo V 16: “É um caminho fácil; é um caminho que Jesus Cristo abriu quando veio a nós, e no qual não há obstáculo que nos impeça de chegar a Ele. Pode-se, é verdade, chegar a Ele por outros caminhos; mas encontram-se muito mais cruzes e mortes estranhas, e muito mais empecilhos, que dificilmente se vencem. Será preciso passar por noites obscuras, por combates e agonias terríveis, escalar montanhas escarpadas, pisando espinhos agudos, atravessar desertos horríveis. Enquanto que pelo caminho de Maria passa-se com muito mais doçura e tranqüilidade.

“Aí se encontram, sem dúvida, rudes combates a travar, e dificuldades enormes a vencer. Mas essa boa Mãe e Senhora está sempre tão próxima e presente a seus fiéis servos, para alumiá-los em suas trevas, esclarecê-los em suas dúvidas, encorajá-los em seus receios, sustê-los em seus combates e dificuldades, que, em verdade, esse caminho virginal para chegar a Jesus Cristo é um caminho de rosas e de mel, em vista de outros caminhos”. Vê-se acrescenta pelos santos que mais particularmente têm seguido essa via: Santo Efrém, São João Damasceno, São Bernardo, São Bernardino, São Boaventura, São Francisco de Sales etc.

O piedoso escritor reconhece, um pouco mais adiante, que os servos de Maria “recebem dela as maiores graças e favores do Céu, isto é, as cruzes; mas sustento que são também os servidores de Maria que levam essas cruzes com mais facilidade, mérito e glória; e mais que, onde outro qualquer pararia mil vezes e até cairia, eles não se detêm e, ao contrário, avançam sempre”, porque são mais ajudados pela Mãe de Deus, que lhes obtém, em suas provações, a unção do puro amor. Coisa extraordinária: a Santíssima Virgem torna mais fácil levar a cruz e mais meritório; mais fácil, porque nos ampara em sua infinita mansidão e paciência; mais meritório, porque nos obtém uma imensa caridade, que é o princípio do mérito.

Pode-se dizer também que é um caminho contrário ao “arrivismo”, pela humildade que exige, e até aparenta ser um fracasso, como o observado na vida de Nosso Senhor, mas tem grandes vantagens sobrenaturais.

“É um caminho curto... Avançamos mais, em pouco tempo de submissão e dependência a Maria, do que em anos inteiros de vontade própria e contando apenas com o próprio esforço; (...) avançará a passos de gigante em direção a Jesus Cristo, pelo mesmo caminho, que, como está escrito (Sl 18,6), Jesus trilhou para vir a nós (...) em poucos anos, se atinge a plenitude da idade de Jesus Cristo” 17.

“É um caminho perfeito, escolhido pelo próprio Deus. “O Altíssimo desceu perfeita e divinamente até nós por meio da humilde Maria, sem nada perder de sua divindade e santidade; e é por Maria que os pequeninos devem subir perfeita e divinamente ao Altíssimo sem recear coisa alguma” 18.

É, finalmente, um caminho seguro, porque a Santíssima Virgem preserva das ilusões do demônio, das ilusões da fantasia e das ilusões do sentimentalismo; ela acalma e regula a nossa sensibilidade, dá a esta um objeto puríssimo e santíssimo, e a subordina plenamente à vontade vivificada pela caridade, em vista da união com Deus.

Encontra-se aqui uma grande liberdade interior, que é a recompensa da dependência completa em que a alma se colocou. Os escrúpulos são eliminados, o coração dilata-se pela confiança e pelo amor terno e filial. O Santo cita uma passagem histórica que leu na vida da Madre Inês de Langeac, dominicana, que, “sofrendo tormentos de espírito, ouviu uma voz que lhe disse que, se ela quisesse livrar-se de todos os seus sofrimentos e ser protegida contra todos os seus inimigos, se fizesse quanto antes escrava de Jesus e de Sua Mãe Santíssima... Depois desse ato, todas as suas penas e escrúpulos cessaram, e ela se achou numa grande paz e bem-estar de coração, e isso a levou a ensinar essa devoção a muitas outras pessoas... entre outros, a M. Olier, que instituiu o seminário de São Sulpício, e a muitos outros padres e eclesiásticos do mesmo seminário” 19. Nesse seminário também foi educado São Luís Grignion.

Finalmente, diz ele 20, essa devoção, que proporciona tão grandes bens ao próximo, é um meio admirável de perseverança para quem a pratica, porque “confiamos à Santíssima Virgem, fiel por excelência, tudo o que possuímos... É em sua fidelidade que confiamos... para que ela conserve e aumente nossas virtudes e méritos, a despeito do demônio, do mundo e da carne, que envidam todos os esforços para no-los arrebatar”. Reconhecemos que somos muito fracos e miseráveis para conservá-los por nós mesmos. “Embora me entendais, almas predestinadas, falo mais abertamente. Não confieis o ouro de vossa caridade, a prata de vossa pureza, as águas das graças celestes, nem os vinhos de vossos méritos e virtudes a um saco roto, a um cofre velho e quebrado, a um vaso contaminado e corrompido, como vós sois; porque sereis pilhados pelos ladrões, isto é, os demônios, que buscam e espreitam, noite e dia, o momento próprio para o ataque; estragareis, com o mau odor do amor-próprio, da confiança própria e da vontade própria, tudo o que Deus vos dá de mais puro.

“Depositai, derramai no seio e no coração de Maria todos os vossos tesouros, todas as vossas graças e virtudes. Maria é um vaso espiritual, um vaso honorífico, um vaso insigne de devoção: vas spirituale, vas honorabile, vas insigne devotionis...

“As almas, porém, que não nasceram do sangue, nem da vontade da carne (Jo 1,13), mas de Deus e de Maria, me compreendem e apreciam; e é para elas, afinal, que eu escrevo...

“Se uma alma se lhe entrega [a Maria] sem reserva, ela se dá a essa alma também sem reserva”, e a faz encontrar o caminho que conduz os predestinados à perseverança final 21.

Tais são os frutos dessa consagração; Maria ama os que a ela se confiam totalmente, preserva-os, dirige-os, defende-os, protege-os e intercede por eles 22. Convém que nos ofereçamos a ela para que ela mesma nos ofereça a seu Filho segundo a plenitude de sua prudência e de seu zelo.

A Virgem Maria também produz em seus protegidos os frutos mais elevados, que são propriamente de ordem mística, como veremos 23.

  1. 1. Por isso São Luís Grignion de Montfort diz na própria fórmula da consagração: “Consagração de si mesmo a Jesus Cristo por meio de Maria”, mas no decorrer do livro repete com freqüência e de forma mais breve: “Consagração a Maria”, subtendendo-se: a Jesus por meio dela. São Luís apresenta desde o início de sua obra esta observação (op. cit., c. I, art. 2, nº 64) que se explica numa época em que o jansenismo, inimigo da devoção a Maria, tinha adeptos em todos os lugares: “Falo, porém, dos cristãos católicos, e mesmo de doutores entre os católicos que exercem a profissão de ensinar aos outros a verdade, e no entanto não Vos conhecem, Senhor, nem a Vossa Mãe Santíssima, a não ser de um modo especulativo, seco, estéril e indiferente. Esses senhores raras vezes falam de Maria e da devoção que se lhe deve ter, porque, dizem, receiam que se abuse dessa devoção e que se Vos ofenda, honrando excessivamente Vossa Mãe Santíssima... Às vezes metem-se a falar da devoção à Vossa Mãe Santíssima, não, porém, para assentá-la e propagá-la, e sim para destruir os abusos que dela se fazem”. Acreditam que Maria é um impedimento para alcançar a união divina, quando, ao contrário, toda a sua influência não tem outra finalidade que conduzir-nos a esta. Cf. também ibid, c. III. a. 1, parágrafo 1: “Os devotos críticos” – O Santo não exagerou a característica, pois foi a época em que esses “devotos críticos” procuravam divulgar entre os fiéis o panfleto ou libelo de Windenfelt, intitulado Avisos salutares da B. V. Maria a seus indiscretos. Cf. terrien, op. Cit., IV, p. 478.

    m. boudon, pelo contrário, prelado de Evreux, morto em odor de santidade, escreveu A santa escravidão da admirável Mãe de Deus, e o cardeal de Bérulle divulgou também essa devoção com seus escritos.

  2. 2. Ibid., c. I, a. 1, nº 44.
  3. 3. Ibid., c. I, a. 1, nº 33.
  4. 4. Cf. Dictionnaire de Théol. cath., art. Marie, col. 2470. A doutrina do Tratado de são luís grignion de montfort e às vezes até suas próprias expressões foram repetidas pelo Papa Pio X em sua encíclica Ad diem illum, de 2 de fevereiro de 1904, sobre Maria, Medianeira universal. Nessa encíclica, é dito que “Maria, associada a Nosso Senhor, nos mereceu com um mérito de conveniência todas as coisas que Ele próprio nos mereceu em justiça, de condigno, e que ela é a distribuidora de todas as graças”.
  5. 5. Ibid., Apêndice.
  6. 6. Mesmo os religiosos que já tenham feito os votos solenes de pobreza, castidade e obediência podem, evidentemente, fazer essa promessa, que os levará a penetrar mais intimamente no mistério da comunhão dos santos.
  7. 7. Cf. santo tomás, Iª IIae, q. 114, a. 6: “Por mérito condigno, ninguém, salvo Cristo, pode merecer para outrem a primeira graça”.
  8. 8. Ensina, com efeito, santo tomás, com os antigos teólogos, IIIª, q. 89, a. 2: “O penitente recebe uma graça maior ou menor, segundo seja maior ou menor a sua contrição. Pode acontecer que sua contrição seja proporcional a um maior grau de graça que aquele perdido; outras vezes pode ser proporcional a uma graça igual; enfim, outras, a uma menor. Por isso o penitente ora ressurge com maior graça que primeiro tivera; ora, com graça igual; e ora, enfim, com menor. E o mesmo ocorre com as virtudes resultantes da graça habitual”.
  9. 9. Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem, cap. IV, a. 1.
  10. 10. IIª Parte, c. II, a. 2: “Maria nos mereceu com um mérito de conveniência o que Jesus Cristo nos mereceu em estrita justiça”.
  11. 11. Cf. santo tomás, Iª IIae, q. 114, a. 6: “Por mérito côngruo, porém, podemos merecer para outrem a primeira graça”.
  12. 12. Cf. santo tomás, IIIª, q. 14, a. 1; q. 48, a. 2; Suppl., q. 13, a. 2: “quando dois homens estão unidos pela caridade, um pode satisfazer por outro”.
  13. 13. Cf. grignion de montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, c. IV. Respostas a algumas objeções – Ed. Vozes (Petrópolis), 40ª edição.
  14. 14. Cf. ibid., c. IV, a. 2.
  15. 15. Cf. ibid., c. V.
  16. 16. Ibid., c. V, a. 5, p. 146.
  17. 17. Ibid., pp. 149-151. São Francisco de Assis, certo dia, teve uma visão na qual seus filhos esforçavam-se em vão para alcançar Nosso Senhor por uma escada íngreme que subia diretamente até Ele; Jesus mostrou-lhe, então, outra escada, de inclinação mais suave, em cujo ápice estava a Virgem Maria e lhe disse: Aconselha teus filhos para que tomem a escada da minha Mãe.
  18. 18. Ibid., pp. 151-152.
  19. 19. Ibid., a. 6, pp. 164-165.
  20. 20. Ibid., a. 8, pp. 168-169.
  21. 21. Ibid., pp. 173-176.
  22. 22. Ibid., c. VI, a. 2.
  23. 23. Ibid., c. VII. - De acordo com o Santo, ibid. c. I, a. 2, parágrafo 3, a devoção à Santíssima Virgem será particularmente necessária nos últimos tempos, em que Satanás fará grandes esforços para seduzir, se pudesse, aos próprios eleitos (Mt 24, 24). “Se os predestinados iniciam-se, com a graça e a luz do Espírito Santo, na prática interior e perfeita dessa devoção, verão, portanto, claramente, tanto quanto o permite a fé, a estrela do mar, e chegarão ao porto seguro seguindo sua direção, apesar das tempestades e dos piratas. Conhecerão a magnificência dessa Rainha e se consagrarão inteiramente a seu serviço, como “súditos e escravos de amor” para combater o que São Paulo chama de “escravidão do pecado” (Rm 6, 20). Experimentarão suas doçuras e bondades maternais e amá-la-ão ternamente como seus filhos prediletos (ibid., c. I, a. 2). A fórmula “santa escravidão”, usada pelo Santo, foi algumas vezes criticada; mas não se pode esquecer que é uma escravidão de amor, a qual, longe de diminuir o caráter filial de nosso amor a Maria, o acentua. Como observou Mons. Garnier, Bispo de Luzón, numa carta pastoral de 11 de março de 1922, se existem no mundo milhares de escravos do respeito humano, da ambição, do dinheiro e de outras paixões mais vergonhosas, também há, felizmente, escravos da palavra dada, da consciência e do dever. A santa escravidão pertence a este último grupo. É apenas uma metáfora, que se opõe à escravidão do pecado.

Artigo 2: O Rosário, escola de contemplação

Entre as formas habituais da devoção mariana como o Angelus, o Ofício da Santíssima Virgem e o Rosário, falaremos especialmente desta última, enquanto nos dispõe e conduz à contemplação dos grandes mistérios da salvação.

É, depois do Santo Sacrifício da Missa, uma das mais belas orações e das mais eficazes, com a condição de bem entendê-la e de vivê-la verdadeiramente.

Acontece freqüentemente que o Terço, uma das três partes do Rosário, torna-se uma oração automática, durante a qual o espírito, não estando ocupado o bastante das coisas divinas, é vítima das distrações; oração, algumas vezes, precipitada e sem espírito, ou pela qual se pedem bens temporais sem nenhuma relação com os bens espirituais, a santificação e a salvação.

Então, ao ouvir recitar assim de uma forma demasiado mecânica e negligente o Terço, alguém se pergunta: o que resta, nessa oração, feita dessa forma, dos ensinamentos contidos nas grandes e numerosas encíclicas de Leão XIII sobre o Rosário, que Pio XI recordava numa de suas últimas cartas apostólicas antes de sua morte? 

Pode-se sem dúvida fazer uma boa oração, pensando confusamente na bondade de Deus e na graça pedida, mas para render ao Terço sua alma e sua vida, deve-se recordar que ele não é mais que uma das três partes do Rosário, e que deve ser acompanhado da meditação muito fácil, aliás dos mistérios gozosos, dolorosos e gloriosos, que nos recordam toda a vida de Nosso Senhor, de Sua Mãe Santíssima e da elevação de ambos ao Céu.

 

Os três grandes mistérios da salvação

Os quinze mistérios do Rosário, assim divididos em três grupos, não são outra coisa que os diversos aspectos dos três grandes mistérios da salvação: o da Encarnação, o da Redenção e o da Vida Eterna.

O mistério da Encarnação nos é lembrado pelas alegrias da Anunciação, da Visitação, da Natividade de Jesus, por sua apresentação no templo e seu encontro no meio dos doutores.

O mistério da Redenção nos é representado pelos diversos momentos da Paixão: a agonia de Jesus no Jardim das Oliveiras, a flagelação, a coroação de espinhos, o caminho do Calvário com a Cruz às costas, a Crucificação.

O mistério da Vida Eterna nos é recordado pela Ressurreição, Ascensão, Pentecostes, a Assunção de Maria e seu coroamento no Céu.

É todo o Credo que passa diante de nossos olhos, não de forma abstrata, por meio de fórmulas dogmáticas, mas de uma forma concreta pela vida de Cristo, que descende até nós e sobe ao Seu Pai para conduzir-nos a Ele. É todo o dogma cristão, em sua elevação e esplendor, para que possamos assim, todos os dias, penetrá-lo, saboreá-lo e alimentar nossas almas com ele.

Por isso, o Rosário é uma escola de contemplação, pois nos eleva pouco a pouco acima da oração vocal e da meditação ponderada ou discursiva. Os teólogos antigos compararam esse movimento da contemplação ao movimento em espiral 1, que descrevem algumas aves, como a andorinha por exemplo, para se elevar cada vez mais alto. Esse movimento em espiral é também como um caminho que serpenteia a montanha para tornar mais fácil a subida. Os mistérios gozosos da infância do Salvador conduzem à sua Paixão e sua Paixão ao Céu.

É, portanto, uma oração elevadíssima, se for bem compreendida, pois recoloca todo o dogma diante de nossos olhos de maneira acessível a todos.

*

*   *

O Rosário é também muito prático, porque nos recorda toda a moral e a espiritualidade cristã, contempladas desde o alto pela imitação de Jesus Redentor e de Maria Medianeira, que são nossos grandes modelos.

Esses mistérios devem de fato reproduzir-se em nossa vida, numa certa medida desejada para cada um de nós pela Divina Providência. Cada mistério nos recorda uma virtude, sobretudo a humildade, a confiança, a paciência e a caridade.

Pode-se mesmo dizer que há três momentos em nossa viagem para Deus: contemplamos primeiro o fim último, de onde nasce o desejo da salvação e a alegria que o acompanha; isso é o que contemplamos nos mistérios gozosos, a boa nova da Encarnação do Filho de Deus que nos abre o caminho da salvação.

Devemos então colocar os meios muitas vezes penosos e dolorosos para a libertação do pecado e a conquista do Céu. Isso é o que nos repetem os mistérios dolorosos.

Descansamos, afinal, no fim último conquistado, na vida eterna, cujo prelúdio deve ser a vida presente. É isso que contemplamos nos mistérios gloriosos.

O Rosário é, assim, muito prático, pois nos toma em meio às nossas alegrias demasiado humanas, às vezes perigosas, para fazer-nos pensar naquelas muito mais elevadas da vinda do Salvador. Também nos apanha em meio aos nossos sofrimentos freqüentemente insensatos, às vezes agoniantes, quase sempre mal suportados, para recordar-nos que Jesus sofreu muito mais que nós e por amor a nós, e para que aprendamos a segui-Lo, carregando a cruz que a Divina Providência escolheu para nos purificar. O Rosário, finalmente, nos toma em meio às nossas esperanças demasiado terrenas, para fazer-nos pensar no verdadeiro objeto da esperança cristã, na vida eterna e nas graças necessárias para alcançá-la, por meio do cumprimento dos dois grandes preceitos do amor a Deus e ao próximo.

O Rosário bem compreendido é, portanto, não somente uma oração de súplica, mas uma oração de adoração ante o pensamento do mistério da Encarnação, uma oração de reparação, recordando a Paixão do Salvador, uma oração de ação de graças, ao pensar nos mistérios gloriosos que continuam reproduzindo-se incessantemente pela entrada dos eleitos no Céu.

 

O Rosário e a oração contemplativa

Deve-se recitar o Rosário de uma forma mais simples ainda e mais elevada, contemplando pelos olhos da fé a Jesus sempre vivo, que não cessa de interceder por nós e que influi sempre sobre nós, seja sob a forma da Sua vida infantil, da Sua vida dolorosa, ou da Sua vida gloriosa. Ele vem atualmente a nós para que assemelhemo-nos a Ele. Detenhamos o olhar de nosso espírito sobre o de Nosso Senhor, que se fixa em nós. Seu olhar está não só pleno de inteligência e de bondade, senão que é o olhar mesmo de Deus, que purifica, pacifica e santifica. É o olhar de nosso juiz, porém, mais ainda de nosso Salvador, de nosso melhor amigo, do verdadeiro esposo de nossa alma. O Rosário assim recitado na solidão e no silêncio transforma-se numa conversa muito frutuosa com Jesus, sempre vivo para vivificar-nos e atrair-nos a Ele. É também uma conversa com Maria, que nos conduz à intimidade de seu Filho.

Vê-se freqüentemente na vida dos santos que Jesus vem a eles, primeiro, para reproduzir neles mesmos Sua vida de criança, depois Sua vida oculta, em seguida Sua vida apostólica e, finalmente, Sua vida dolorosa, antes de fazê-los participar de Sua vida gloriosa. Pelo Rosário, Ele vem a nós de uma forma semelhante, de modo que essa oração bem recitada se transforma pouco a pouco numa conversa íntima com Jesus e Maria.

Explica-se então que os santos tenham visto no Rosário uma escola de contemplação 2.

Algumas pessoas objetam que não se pode pensar nas palavras e contemplar os mistérios ao mesmo tempo. A isso se responde freqüentemente: não é necessário refletir nas palavras da Ave Maria quando se medita ou contempla espiritualmente este ou aquele mistério. Essas palavras são como uma cantilena, que adormece os ouvidos, isola-nos dos ruídos do mundo, enquanto os dedos estão ocupados em desfiar as contas do Terço e indicam-nos materialmente em qual dezena estamos. Assim, a imaginação está ocupada enquanto a inteligência e a vontade estão unidas a Deus.

Têm-se objetado também que a forma monótona do Terço gera o automatismo. Essa objeção, que concerne ao Terço mal recitado, não tem razão de ser contra o Rosário, que nos familiariza com os diversos mistérios da salvação, recordando-nos, em nossas alegrias, tristezas e esperanças, como esses mistérios devem reproduzir-se em nós.

Toda oração pode degenerar em automatismo, até o Ordinário da Missa e o Prólogo do Evangelho de São João lido todos os dias no final do Santo Sacrifício. Mas isso provém não certamente de que essas orações sublimes sejam imperfeitas, mas de que não as dizemos como se deve, com fé, confiança e amor.

 

O espírito do Rosário tal qual foi concebido

Para melhor compreender o que deve ser o Rosário, deve-se recordar como São Domingos o concebeu sob a inspiração da Santíssima Virgem, no momento em que o sul da França era devastado pela heresia Albigense, imbuída dos erros maniqueístas, que negava a bondade infinita e a onipotência de Deus pela afirmação da existência de um princípio do mal muitas vezes triunfante.

Não só a moral cristã foi atacada, mas também o dogma, os grandes mistérios da criação, da Encarnação redentora, da vinda do Espírito Santo e da vida eterna à qual somos todos chamados.

Foi então que a Santíssima Virgem revelou a São Domingos um modo de pregação até então desconhecido, que Maria disse-lhe ser para o futuro uma das armas mais poderosas para lutar contra o erro e a adversidade. Arma muito humilde e simples, que faz o incrédulo sorrir, porque não compreende os mistérios de Deus.

Sob a inspiração que havia recebido, São Domingos dirigiu-se aos povos e cidades heréticas, reuniu as multidões e pregava-lhes sobre os mistérios da salvação, da Encarnação, da Redenção e da vida eterna. Como Maria havia lhe inspirado, distinguiu os três tipos de mistérios: gozosos, dolorosos e gloriosos. Pregava alguns momentos sobre cada um desses quinze mistérios e, após cada pregação, fazia-lhes recitar uma dezena de Ave-Marias, um pouco como se reza hoje a hora santa, em muitas partes intercaladas de orações ou de cantos religiosos.

Então, o que a palavra do pregador não conseguia fazer admitir, a doce oração da Ave Maria introduzia no fundo dos corações. Esse gênero de pregação foi o mais frutuoso 3

Essa forma de oração foi pregada com grande zelo na França pelo Bem-aventurado Alano de la Roche e, em seguida, por São Luís Grignion de Montfort, sobretudo em Vendée e em Poitiers.

Se vivermos dessa oração, as nossas alegrias, tristezas e esperanças serão purificadas, elevadas e sobrenaturalizadas; veremos cada vez mais claro, ao contemplar esses mistérios, que Jesus, nosso Salvador e nosso modelo, quer nos assemelhar a Ele; comunicar, primeiramente, um pouco da Sua vida na infância e da Sua vida oculta; em seguida, alguma semelhança com Sua vida dolorosa, para fazer-nos participar, por fim, de Sua vida gloriosa na eternidade.

  1. 1. Motuus obliquus (aut in forma spirae), diferente do movimento reto e do movimento circular. Cf. santo tomás, IIª, q. 180, a. 6. O movimento em linha reta eleva-se diretamente de um fato sensível, narrado, por exemplo, numa parábola como a do filho pródigo, à contemplação da misericórdia divina. O movimento em espiral eleva-se progressivamente pelos diversos mistérios da salvação até Deus, a quem eles nos conduzem. O movimento circular é semelhante ao da águia que chega aos cumes no ar e descreve aí muitas vezes o mesmo círculo, ou plana contemplando o sol e todo o horizonte que sua vista possa abarcar.
  2. 2. Na obra La Vie Spirituelle, de abril de 1941, o Pe. m. j. nicolas, o. p. escreveu sobre um santo religioso que morreu sendo provincial dos dominicanos de Toulouse, o Pe. Vayssière: “A graça da intimidade mariana que havia recebido, ele a devia, em primeiro lugar, ao estado de humildade ao qual se tinha reduzido e em qual havia consentido. Mas a devia também ao Rosário. Nos longos dias de solidão na Sainte-Baume (uma montanha do Var, onde se diz que Maria Madalena havia se retirado), ele tinha o costume de recitar vários Rosários durante o dia, às vezes até seis. Não era uma recitação mecânica e superficial; dizia-o muitas vezes de joelhos, punha nele todos os seus sentidos, saboreava-o, desejava-o e estava convencido de que no Rosário se encontra tudo o que se pode desejar na oração: «Recitai cada dezena – dizia – mais comungando que refletindo com a graça do mistério, e vivendo do espírito de Jesus e de Maria tal como nos apresenta o correspondente mistério... O Rosário é a comunhão da tarde (em outro lugar... diz que é a comunhão de todo o dia), que traduz em luzes e em resoluções fecundas a comunhão da manhã. Não é somente uma série de Ave-Marias recitadas com devoção, é Jesus Cristo revivendo na alma pela ação maternal de Maria». Vivia, portanto, dessa forma, num ciclo contínuo do Rosário, “envolto” por Cristo e Maria – segundo sua expressão – comungando em cada um dos estados da graça e penetrando, por esse meio, nos abismos do coração de Deus: «O Rosário é um encadeamento de amor entre Maria e a Trindade». Compreende-se que o Rosário tenha se tornado, para ele, uma contemplação, um caminho para a união pura com Deus, uma necessidade semelhante à da comunhão”.
  3. 3. O primeiro fruto do Rosário foi a vitória dos cruzados contra os albigenses em Muret. Enquanto Simão de Montfort lutava à frente dos cruzados, São Domingos, retirado numa igreja, implorava o auxílio de Maria e o conseguiu. Os hereges acabaram sendo derrotados. Foi o triunfo completo da fé sobre o erro.

Artigo 1: O culto de hiperdulia e seus benefícios

O culto em geral é uma honra tributada com submissão e dependência a uma pessoa que nos é superior e por causa de sua excelência 1. Quer seja somente interior ou exterior ao mesmo tempo, o culto difere, portanto, segundo a excelência mesma da pessoa à qual é devido. A Deus, por causa de sua excelência infinita de primeiro princípio e soberano Senhor de todas as coisas, é devido o culto supremo de latria ou de adoração, o ato da virtude da religião. Este é devido também à Humanidade do Salvador enquanto esta pertence à pessoa incriada do Verbo e, de uma forma relativa, ao crucifixo e a outras imagens do Salvador, pelo fato de representá-lo.

Às pessoas criadas que têm certa excelência é devido um culto chamado de dulia ou de respeito, que é o ato da virtude de dulia subordinada à da religião. Já na ordem natural, deve-se respeito aos pais, aos reis, a um chefe do exército, a um professor, a um sábio e, na ordem sobrenatural, deve-se a veneração aos santos, por causa da excelência de suas virtudes cuja heroicidade é reconhecida pela Igreja. Esse culto prestado aos servos de Deus honra o próprio Deus, que se manifesta por meio deles e que nos atrai para Si por eles 2. O Concílio de Trento defende a veneração dos santos contra os protestantes, que querem ver nesse culto um ato de superstição3.

Ademais, ensina-se comumente na Igreja que à Santíssima Virgem é devido um culto de hiperdulia ou de dulia suprema, em virtude de sua eminente dignidade de Mãe de Deus 4.

 

Natureza e fundamento desse culto

Existem, em relação ao culto devido à Maria, dois desvios absolutamente contrários um ao outro. Segundo o testemunho de Santo Epifânio 5, os coliridianos quiseram render à Santíssima Virgem um culto propriamente divino e oferecer-lhe sacrifícios. Esse erro mereceu o nome de Mariolatria, mas teve pouca duração.

Os protestantes, ao contrário, têm declarado que o culto de hiperdulia rendido pelos católicos à Santíssima Virgem Maria é uma superstição.

É fácil responder que o culto de latria ou de adoração somente pode ser tributado a Deus; se a Humanidade de Jesus é adorada é porque está unida pessoalmente ao Verbo, e se é rendido um culto de adoração relativa ao crucifixo é porque este representa Nosso Senhor 6. É claro, com efeito, que o crucifixo ou as imagens do Salvador não têm outra excelência que a de O representar. Se esse culto de adoração fosse rendido relativamente à Santíssima Virgem por causa de sua relação com o Verbo feito carne, isso seria facilmente compreendido por muitos como uma adoração que se endereça a Maria por causa de sua própria excelência, e seria assim ocasião de erro grave de idolatria, como observou Santo Tomás 7.

O culto devido a Maria é, portanto, um culto de dulia. Esse ponto de doutrina é mesmo de fé, segundo o Magistério universal da Igreja; de onde a condenação de três proposições contrárias de Molinos8.

Ademais, é uma doutrina comum e certa que se deve a Maria um culto eminente de dulia, ou hiperdulia, que lhe é próprio, por ser ela a Mãe de Deus. Esse é o ensinamento tradicional que aparece cada vez mais explicitamente nos escritos de São Modesto9 no século VII e São João Damasceno 10 no século VIII. Posteriormente em Santo Tomás 11, São Boaventura 12, Scot 13, Suárez 14 e em quase todos os teólogos católicos 15. A Sagrada Congregação dos Ritos confirmou-o num decreto de 01 de junho de 188416 e a liturgia também, no Ofício da Santíssima Virgem 17.

Vê-se por aí que o culto de hiperdulia é devido formalmente à Virgem Maria pela razão de que ela é a Mãe de Deus, porque a Maternidade Divina é, por seu termo, de ordem hipostática, muitíssimo superior à ordem da graça e da glória. Se, então, a Santíssima Virgem tivesse recebido somente a plenitude de graça e de glória sem ser a Mãe de Deus, ou em outras palavras, se fosse superior aos santos somente pelo grau de glória final e consumada, esse culto especial de hiperdulia não lhe seria devido18.

Enfim, é uma doutrina muito provável e muito comum que esse culto de hiperdulia não é somente um grau superior do culto de dulia devido aos santos, senão que é especificamente distinto, como a Maternidade Divina é, por seu termo de ordem hipostática, especificamente distinta do grau da graça e da glória 19.

Esse culto de hiperdulia é rendido à Virgem formalmente porque ela é a Mãe de Deus, Mãe do Salvador; contudo, é porque tem esse título supremo que merece ser chamada de Mãe de todos os homens, de Medianeira Universal e de Corredentora.

 

Quais são os frutos desse culto?

É atraída sobre os que rendem esse culto à Mãe de Deus uma imensa benevolência da sua parte, e são levados a imitar suas virtudes; também são conduzidos eficazmente à salvação, porque Maria pode obter a graça da perseverança final aos que lhe imploram fielmente. Isso porque a verdadeira devoção à Santíssima Virgem é considerada comumente como um dos sinais de predestinação. Ainda que não dê uma certeza absoluta e infalível de se estar salvo 20, essa devoção nos dá a firme esperança de obter a salvação. Essa firme esperança baseia-se no grande poder de intercessão de Maria e em sua grande benevolência para aqueles que a invocam 21. Nesse sentido, Santo Afonso afirma 22 que é moralmente impossível que estes se percam se, ao desejo de emenda, acrescentam a fidelidade em honrar a Mãe de Deus e encomendam-se à sua proteção. Se houver apenas vagos desejos de romper com o pecado, não há, portanto, ainda, um sinal provável de predestinação. Mas se os pecadores se esforçam em abandonar o pecado em que estão, e se buscam para isso a ajuda de Maria, ela não deixará de socorrê-los e de devolvê-los à graça de Deus. Assim fala com Santo Afonso23 a generalidade dos teólogos mais recentes.

De um modo geral, na Igreja, esse culto rendido à Virgem Maria confirma os fundamentos da fé, pelo fato de que deriva da fé na Encarnação redentora e evita, portanto, as heresias; também se diz de Maria: “Cuncta haereses interemisti in mundo”. Essa devoção conduz à santidade pela imitação das virtudes da Santíssima Virgem e glorifica Nosso Senhor ao honrar a Sua Mãe.

 

Objeções

Os racionalistas objetaram que a origem primitiva do culto religioso à Virgem Maria parece dever ser atribuída à influência das concepções semipagãs introduzidas na Igreja pelas conversões em massa realizadas no século IV.

Essa teoria foi já mencionada e contestada por São Pedro Canísio em sua obra De Maria Deipara Virgine 24. Foi examinada recentemente no Dictionnaire Apologétique, artigo Mariolâtrie 25, e no Dictionnaire de Théologie catholique, artigo Marie 26, pelo Pe. Merkelbach 27 e pelos autores por ele citados.

É certíssimo que, do ponto de vista dogmático, o culto à Santíssima Virgem não veio do paganismo no século IV, mas está fundado na excelência mesma de Cristo. No Ocidente, pelo menos desde o século II, as palavras natus ex Maria Virgine estão inseridas no símbolo que era explicado aos catecúmenos. Desde a época de São Justino, Santo Irineu e Tertuliano, Maria, a Mãe do Salvador, é chamada a nova Eva, a Mãe espiritual dos cristãos. Esse culto nasceu espontaneamente nos fiéis em razão de sua fé no mistério da Encarnação redentora 28.

Do ponto de vista histórico, deve-se acrescentar que tanto a primeira representação da Virgem tendo o menino Jesus sobre seu peito como a pintura da Anunciação, encontradas no cemitério de Priscila, em Roma, segundo o juízo dos mais competentes, remontam ao século II; outras obras são do século III, isto é, anteriores à conversão em massa dos pagãos, ocorrida no século IV 29.

Ademais, o culto à Virgem Maria é totalmente diferente do culto a Ísis no Egito, a Ártemis em Éfeso e a Ishtar na Babilônia; essas deusas representavam realmente a vida e a fecundidade natural da terra, e em seu culto mesclavam-se ritos e práticas imorais, e não o amor à castidade e à virgindade.

Além disso, os pagãos consideravam o objeto desses cultos como deusas, enquanto que Maria sempre foi considerada como apenas uma criatura que deu ao Verbo feito carne sua natureza humana.

Se existem certas analogias, são puramente exteriores, pelo fato de que todo culto, verdadeiro ou falso, tem certa conformidade com algumas aspirações do coração e se exprime por meio de imagens; mas não há nenhuma imitação. Por fim, sendo a Igreja tão oposta à religião pagã, não se pode fazer uma tal suposição.

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*   *

A objeção dos protestantes, segundo a qual o culto a Maria prejudica o culto a Deus, carece de fundamento. A Igreja Católica sustenta com efeito que o culto de latria ou de adoração é rendido exclusivamente a Deus, e a devoção à Santíssima Virgem, longe de opor-se ao culto divino, favorece-o, pois reconhece que Deus é o autor de todos os dons que veneramos em Maria; a honra prestada à Mãe converte-se em honra ao seu Filho e a Medianeira universal permite-nos entender melhor que Deus é o autor de todas as graças.

A experiência mostra, além disso, que a fé na divindade de Cristo conserva-se entre os católicos que praticam o culto a Maria, enquanto que desaparece entre os protestantes. Todos os santos, por fim, têm unido o culto a Nosso Senhor ao de Sua Mãe.

A devoção a Maria, sendo mais sensível, é mais intensa em certas pessoas que a devoção a Deus, mas o culto divino lhe é superior, uma vez que Deus é amado sobre todas as coisas com um amor de estima, que tende a se tornar mais intenso e que o é na medida em que a alma vive mais da vida espiritual desprendida dos sentidos.

A confiança em Maria, Mãe de Misericórdia, e no poder de sua intercessão, longe de diminuir a confiança em Deus, a aumenta. Se a confiança que os peregrinos de Ars tinham em São Joao Maria Vianney, no lugar de diminuir sua confiança em Deus, a aumentava, com mais forte razão a aumentará aquela confiança que os fiéis têm em Maria. Essas objeções, portanto, não têm absolutamente nenhum fundamento.

O culto de hiperdulia, pelo contrário, baseia-se na fé na divindade de Cristo, a qual se expressa no título mais glorioso de Maria, o de Mãe de Deus.

Seria uma falta de humildade diz São Luís Grignion de Montfort desprezar os mediadores que Deus nos envia por causa da nossa fraqueza. Longe de prejudicar a nossa intimidade com Deus, dispõe-nos a ela. Como Jesus nada faz nas almas que não seja para conduzi-las a seu Pai, da mesma forma, Maria não exerce sua influência nas inteligências e nos corações que não seja para conduzi-los à intimidade de seu Filho. Deus quis servir-se de Maria constantemente para a santificação das almas.

  1. 1. Cf. santo tomás, IIª IIae, q. 81, a. 1, ad 4, e a. 4; q. 92, a. 2. O culto é, portanto, mais que uma honra, é uma honra tributada com submissão por um inferior a outro, que lhe é superior. Deus honra os santos, mas não lhes presta culto, e, da mesma forma, o professor com relação aos seus alunos.
  2. 2. Cf. santo tomás, IIª IIae, q. 103, a. 4.
  3. 3. Cf. Denzinger, nº n.º 941, 952, 984.
  4. 4. Cf. Denzinger, nº 1255 ss., 1316, 1570. Segundo j. b. rossi, Roma sotterranea cristiana, Roma, 1911, t. III, p. 65 e ss. e 252, além de marucchi, Eléments d'Archeologie chrétienne, 2ª ed., 1911, pp. 211 e ss., as primeiras representações da Santíssima Virgem com o menino Jesus, encontradas nas catacumbas de Roma, datam dos séculos II, III e IV. A partir dessa época, santo epifânio (in Haer., 79) fala desse culto, condenando o erro dos coliridianos que o transformam em adoração. A instituição de festas especiais em honra de Maria parece remontar ao século IV. são gregório nazianzeno menciona esse culto (in Orat. XXIV, XI, P.G., t. XXXV, col. 1181; também santo ambrósio, De institutione virg., XIII, 83, P.L., t. XVI, col. 825. Existem treze orações a Maria atribuídas a Santo Efrém ( 378) na edição de Assemani. Posteriormente, esse culto aparece difundido no Oriente e no Ocidente.
  5. 5. Haer., 78-79.
  6. 6. cf. Santo Tomás, IIIª, q. 25, a. 3 e 5.
  7. 7. Ibid., a. 3, ad 3.
  8. 8. Denzinger, nº 1255 ss., 1316.
  9. 9. Encomium in B. V.; P. G., t. LXXXVI, c. 3303.
  10. 10. De fide orthod., IV, 15; P. G., XCIV, c. 1164, 1168; De imaginibus, orat. I, 14; P. G., ibid., c. 1214; In dormit. B. M. V., hom. II; P. G., XCVI, c. 741.
  11. 11. IIª IIae, q. 103, a. 4, ad 2: “A hiperdulia é a mais importante espécie de dulia tomada em sentido geral. Pois, devemos ao homem a máxima reverência por causa das suas afinidades com Deus”. — Item IIIª, q. 25, a. 5: “Sendo, porém, a bem-aventurada Virgem uma criatura racional, em si mesma, não lhe devemos a adoração de latria, mas só a veneração de dulia. De maneira mais eminente, contudo, que às outras criaturas, por ser Mãe de Deus. E por isso dizemos que lhe é devida, não qualquer dulia, mas a hiperdulia”.
  12. 12. In III Sent., d. 9, a. 1, q. 3:  “Ex hoc quod Mater Dei est, praelata est coeteris creaturis, et eam prae coeteris decens est honorari et venerari. Hic autem honor consuevit a magistris hyperdulia vocari”.
  13. 13. In III Sent., dist. 9, q. unic.
  14. 14. In IIIam, disp. XXII, sect. 11, n. 4.
  15. 15. Cf. Dict. Théol., art. Marie, cc. 2449-2452.
  16. 16. “Eminentiori veneratione, supra caeteros sanctos colit Ecclesia Reginam et Dominam angelorum, cui in quantum ipsa est Mater Dei... debetur, non qualiscumque dulia, sed hyperdulia”.
  17. 17.Felix namque es, sacra Virgo Maria, et omni laude dignissima, quia ex te ortus est sol Justitiae, Christus Deus noster”.
  18. 18. A maioria dos teólogos, nesse ponto, distancia-se de vazquez, que sustentou, em IIIam t. I, disp. C, c. II, que Maria é honrada com o culto de hiperdulia principalmente por sua eminente dignidade. É uma conseqüência de sua opinião que atribuía à graça santificante uma dignidade superior à graça da Maternidade Divina. Não considerou corretamente que a Maternidade Divina é, por sua finalidade, de ordem hipostática. Cf. Dict. Théol., art. Marie, c. 2452 e ss.
  19. 19. Essa é a opinião do Pe. merkelbach, op. cit, pp. 402, 405. Muitos teólogos interpretam no mesmo sentido as palavras de santo tomás, IIª IIae, q 103, a. 4, ad 2: “A hiperdulia é a mais importante espécie de dulia tomada em sentido geral. Pois, devemos ao homem a máxima reverência por causa das suas afinidades com Deus”.
  20. 20. Proposição condenada pelo Concílio de Trento, Denzinger, nº 805. “Ninguém, além do mais, enquanto vive nesta condição mortal, deve presumir do arcano mistério da predestinação divina a ponto de se julgar, seguramente, no número dos predestinados, como se fosse verdade que quem foi justificado ou não pode mais pecar ou, se pecar, deve contar com um seguro arrependimento. Pois não se pode saber a quem Deus escolheu para si, senão por uma especial revelação”.
  21. 21. Dict. Théol. cath., art. Marie, c. 2458.
  22. 22. Glória de Maria, Iª p., c. VIII.
  23. 23. Ibid., Iª p., c. I. 4. Cf. terrien, op. cit., t. IV, pp. 291 e ss.
  24. 24. De Maria Deipara Virgine, 1. V, c. XV, 1584, Lion, pp. 519 e ss.
  25. 25. Dict. Apologétique, art. Mariolâtrie, col. 319 e ss.
  26. 26. Dict. théol. cath., art. Marie, col. 2445 e ss.
  27. 27. Merkelbach, op. cit., pp. 408 e ss.
  28. 28. Deve-se dizer com o pe. hugon, Tract. Dogmatici, 1926, t. II, p. 791, que esse culto a Maria foi inclusive preparado pela saudação do anjo no dia da Anunciação: Ave, gratia plena; pela saudação de Isabel, quando disse à Maria, por inspiração do Espírito Santo: Bendita sois vós entre as mulheres (Lc 2, 42), palavras encontradas na saudação angélica tal como a recitam todos os fiéis. Ademais, diz-se do menino Jesus (Lc 2, 51) que lhe era submisso; o que equivale a dizer que nosso próprio Senhor nos deu o exemplo de obediência e respeito à sua Mãe.
  29. 29. Cf. marucchi, Eléments d'Archeologie chrétienne, 2ª ed., Roma, 1906, pp. 323 e ss.
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