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CAMPANHA DE ROSÁRIOS PELAS ELEIÇÕES

 

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Irmã Maria-Marta Chambon e a devoção às Santas Chagas

Pe. Garrigou-Lagrange, OP

A vida desta brava irmã conversa da Visitação de Chambéry, nascida em 1841, falecida em 1907, foi escrita em 1928 com muito zelo, precisão e piedade pelas religiosas desse convento, conforme as notas deixadas pelas superioras. Este livro, que traz nas páginas iniciais a autorização e um precioso elogio de Mons. Castellan, arcebispo de Chambéry, contém sobretudo exemplos de piedade e virtude, e apresenta uma vida profundamente marcada à semelhança de Jesus crucificado, com algumas imperfeições involuntárias, que subsistem até o fim na serva de Deus, a fim escondê-la.

Julgamos útil assinalar aqui alguns traços desta fisionomia espiritual: as graças dos primeiros anos; aquilo que parece bem ser sua missão especial: fazer recordar ao mundo a devoção às santas chagas do Salvador; suas virtudes cristãs, particularmente, a mortificação, a humildade, a obediência, a simplicidade e as virtudes teologais. Há nesta vida uma grande lição para os nossos tempos.

 

Primeiros anos e vocação

Françoise Chambon nasceu em Croix-Rouge, pequenina aldeia verdejante situada perto de Chambéry, em 6 de março de 1841. Neste mesmo dia, tornou-se ela filha de Deus pelo santo batismo. Pobreza extrema, mesmo miséria, reinava no lar onde sua mãe lhe deu à luz, semelhança notável com a penúria de Belém. Destinada a seguir o divino Mestre em suas humilhações, esta criança privilegiada reproduzia-lhe os traços desde a aurora de sua vida. Pequenina, o pensamento de Deus lhe absorve, lhe invade, ao ponto de deixar fugir a única cabra confiada aos seus cuidados. Seus pais, honestos, piedosos e trabalhadores, transmitiram aos seus filhos os sentimentos de fé profunda, o espírito de dever, o amor do trabalho. Seu pai, homem simples e reto, trabalhador rude, dedicava-se à agricultura ou trabalhava na pedreira das proximidades. Pelo trabalho, sua família atingiu certo bem estar material.

Sua mãe tinha gosto em levar a pequena primogênita às cerimônias da Via Sacra. Uma tia estimulava igualmente seu pendor pela oração. Numa Sexta-feira Santa, levou-a à adoração da Cruz. Françoise tinha oito ou nove anos. Solicitada pela tia, e apesar do grande cansaço, diz os cinco Pater com os braços em cruz. Neste momento, Nosso Senhor aparece-lhe pela primeira vez, crucificado, a carne em pedaços, coberto de sangue. Esta visão causou-lhe grande impressão e acendeu na sua alma ardente caridade. Comungar tornou-se, a partir de então, seu maior desejo. Logo aprende oralmente seu catecismo, pois jamais soube ler nem escrever. Foram a estas poucas noções elementares que se restringiu toda sua instrução. Françoise, possuída do amor de Jesus, sente nascer nela a necessidade de mortificar-se...o amor quer comunicar-se! “Mãe, roga ela, dá-me a sopa antes de pôr-lhe manteiga” (p. 11). De noite, quando todos repousam, ela levanta-se para rezar longo tempo, joelhos sobre a terra nua.

Os sacrifícios preparam-na para sua primeira comunhão, que foi para ela um acontecimento decisivo. “Ao comungar, dizia ela, foi o menino Jesus que vi e recebi... Oh! Como fiquei feliz!... Ele me disse que sempre que eu comungasse seria assim... Era o céu! Tem-se o paraíso no coração”(pp 12-13).

Aquele que se regozija com os humildes manifestar-se-á a esta alma predestinada, quer carregando sua cruz, quer sob a forma de uma adorável criança. Ele mesmo se incumbirá da direção de sua vida interior, e purificará, instruí-la-á e imprimirá nela os traços de sua Infância e Paixão.

A Paixão do Salvador é o grande motivo de Françoise. Ela só pensa em Jesus, quer “ocupar-se somente dele, viver como os anjos... não considerar mais as coisas do mundo...” (p. 15).

Não demora a aspirar à vida religiosa. Sua saúde, de aparência pouco robusta, foi um obstáculo a sua admissão ao Carmelo. Encaminha-se à Visitação de Chambéry, onde ingressa no ano de 1862. Françoise tinha vinte e um anos. Era aí que Deus a queria, entre as filhas da Visitação, cuja vocação é a de reproduzir a vida escondida de Nosso Senhor, adorá-lo e imitar a humildade do Verbo Encarnado. “Erigidas no Monte Calvário, devem crucificar-se com Nosso Senhor” (Constituição XLIV). Veremos a que ponto Nosso Senhor realiza este programa nessa alma de elite.

A nova postulante foi inicialmente admitida entre as moças do serviço de pensionato. Foi aí, na prática dos mais humildes trabalhos, um pouco à margem da comunidade, que a veremos levar uma vida de sofrimento e apostolado. Sua tomada de hábito ocorreu no dia 29 de abril de 1863, quando recebeu o nome de Irmã Maria-Marta. O ano seguinte foi o da sua profissão.

É preciso reconhecer que a Irmã Maria-Marta não possuía as graças da natureza, os charmes do espírito, que atraem a simpatia e favorecem as relações. De caráter rude e pouco refinado, temperamento vivo, vontade tenaz e pensamento limitado, suas características exteriores pouco amáveis tornavam a pobre irmã, por vezes, fatigante. Apesar dos esforços que fazia, suas imperfeições subsistiram até o fim de sua vida: Nosso Senhor servia-se delas como de um meio para mantê-la na obscuridade. Queixava-se delas ao divino Mestre: “Com todas as vossas graças, não me tirastes todos os meus defeitos” – “Tuas imperfeições, respondia-lhe, são a grande prova de que vem de Deus aquilo que se passa em ti. Jamais as tirarei; são o manto que esconde meus dons. Tens desejo de se ocultar? Muito mais o tenho eu” (p. 30). Contudo, como soube modelar essa alma a seu gosto, cultivá-la em sua tão simples inteligência, ocupando-a com as verdades eternas, encher esse coração de desejo do divino, de sede de sacrifício, de amor pelas almas!

 

O tesouro das Santas Chagas

Nosso Senhor fê-la conhecer os tesouros infinitos guardados nas suas Chagas, e instava-a a oferecê-los sem cessar a Deus Pai pelas necessidades da Igreja e de sua comunidade, para a conversão dos pecadores e para retirar almas do purgatório. “Com minhas Chagas, disse-lhe, tens todas as riquezas do céu para distribuir na terra”. “Deves fazer valer as riquezas de minhas santas Chagas”. “Tua riqueza é minha santa Paixão” (pp. 54-55).

Nosso Senhor queixa-se do esquecimento por parte das almas de suas sagradas feridas; elas não sabem colher-lhes os frutos, e chegam a menosprezá-las. E seu amor misericordioso elegeu uma pobre religiosa, Irmã Maria-Marta, para fazer lembrar as almas da devoção às suas Chagas. Não é ela particularmente conveniente nesses tempos tão atribulados? Não é chegado o momento de espalhar nesse pobre e confuso mundo os méritos infinitos do sangue redentor?

“Eu te escolhi, diz a Irmã Maria-Marta, para fazer despertar a devoção à minha santa Paixão no tempo infeliz em que vives” (p. 61). Quantas almas meditam na Paixão de Cristo? Quão pouco são os que estimam a Cruz, ou, se a contemplam, querem carregá-la! No entanto, é ela a verdadeira escola de amor, escola austera na qual Nosso Senhor formará sua fiel discípula.

Eu te escolhi, diz ainda Jesus, para fazer valer os méritos de minha santa Paixão para todos; mas quero que tu mantenhas-te escondida. A mim caberá mais tarde de dar a conhecer que é por este meio que o mundo se salvará – e pelas mãos de minha Mãe Imaculada” (p. 61). “Minha filha, o mundo será mais ou menos atribulado conforme tu cumpras teu dever. Tu és escolhida para satisfazer minha justiça” (p. 61)

Mostrando-lhe suas Chagas: “Não desvies os olhos de cima deste livro e aprenderás mais que os grandes sábios. A oração às santas Chagas compreende tudo” (p. 61).

Segundo os testemunhos recolhidos de sua vida, Nosso Senhor fez com que ela participasse da sua crucifixão, imprimiu-lhe na carne os sagrados estigmas, alimentou-a unicamente com a Eucaristia por mais de quatro anos, enquanto seu amor a crucificava, na alma e no corpo, associando-a a sua obra redentora. Veremos como, por sua vez, Irmã Maria-Marta responde ao apelo do Mestre com todo o fervor e generosidade do seu amor.

 

Via Crucis

Bem parece que esta alma eleita, transparente como o cristal, não teria tanta necessidade de purificação para si mesma, mas as provações serão proporcionadas à sua missão apostólica e reparadora.

O divino Mestre convida-a a passar as noites estendida sobre o assoalho da sua cela. Tendo obtido de sua superiora permissão para tanto, que lhe fora inicialmente negada, dorme sobre a terra nua, e isto ao longo dos anos. Nosso Senhor vai além: é um rude cilício que ela deve usar noite e dia, que lhe causa muito sofrimento. A pedido e conforme as indicações do Mestre, faz uma coroa de espinhos muito pontiagudos e usa-a de noite. Doravante, carregada de vivas dores, não tem mais onde repousar a cabeça. Uma noite, no fim das forças, a esposa do Crucificado queixa-se ao seu Salvador. “Minha filha, persevere com mais força”, diz-lhe. Irmã Maria-Marta obedece corajosamente. Desta vez, Aquele que não se deixa vencer em generosidade, contenta-se com um simples aquiescer: e ela já não sente dor nenhuma. O dia em que Nosso Senhor disser-lhe: “Tua coroa não te faz mais sofrer o bastante” (p. 193), ela a trocará por um cinturão com pontas de ferro. Ei-la, estendida sobre o assoalho, coroada de espinhos, os braços em cruz, viva imagem do divino Crucificado. Nosso Senhor uniu desse modo a Irmã Maria-Marta à sua Paixão, que não pode fazer mais do que como Ele, com Ele. Seu coração abrasa-se de amor. Não realiza em si mesma o desejo do Salvador? “Gostaria de ver todas as minhas esposas como crucifixos!” (p. 76). Contudo, em certos momentos, a natureza se desespera; a pobre religiosa sente a tentação de abandonar essa intolerável coroa. Nosso Senhor aparece-lhe então em sofrimentos atrozes, a fronte traspassada de espinhos. “Minha filha, não abandone a minha coroa”, reprova-lhe amorosamente o Salvador (p. 194). Confusa, Irmã Maria-Marta retoma-a; cura-se de toda a recaída. Esposa, deve compartilhar a vida de seu divino Esposo, vida de sofrimentos e imolações; deve morrer a si mesma para viver somente para Ele.

“Elege em tudo e por onde for o que mais mortificar-te”, diz-lhe Jesus (p. 190). Sempre dócil, esta alma heróica escolhia, em tudo, o menos agradável, o mais penoso.

Nosso Senhor assedia a Irmã Maria-Marta com exigências, convida-a a sacrificar seu sono para velar perante o Santo Sacramento. Exausta, vemo-la solicitar um pouco de repouso aos seus superiores, mas eles, conhecendo o desejo formal de Nosso Senhor, conduzem-na a seu posto de oração, à tribuna.

Nosso Senhor aparece-lhe um dia em seu estado de crucificado, embebido em vinagre e fel. Irmã Maria-Marta afligiu-se tanto que jamais pôde esquecer. “É preciso, dizia o Mestre, que me mates a sede com tua mortificação” (p. 191). Contudo, a brava religiosa só tinha pensamentos para Jesus, desejava salvar almas para Ele. Apesar das suas vigílias, dos sofrimentos contínuos, permanecia fiel a todos os seus deveres, a ponto das superioras julgarem que fazia o trabalho de duas pessoas. Deus era toda a sua força. A esta mortificação exterior, juntava a mortificação de uma minuciosa fidelidade à Regra: sempre modesta, silenciosa, recolhida, percebia-se que estava ela mergulhada em profunda contemplação.

 

“Ele é tudo”

Nosso Senhor deliciava-se com esta alma límpida: “Tu não conheces mais o mal do que a criancinha antes de chegar à idade da razão”, dizia-lhe (p. 206). Aquele que se compraz com os lírios conservou este coração puro, sem o menor conhecimento do mundo. Ela podia dizer a uma de suas companheiras: “Ah, sim! Ele é todo amor, o bom Deus! Quando era pequenina, já me fazia compreender. Ele me deu tanto! Do mundo, não conheço nada, só conheço a Ele. Ah! eu o amo tanto!” (p. 209).

Todo seu pensamento era para Cristo. Por Ele, evitava toda reflexão inútil. Por ele, guardava seu coração desapegado. Certo dia, Jesus repreendeu-a severamente por procurar uma pequena satisfação do coração: “Ser religiosa, minha filha, significa ter banido de seu coração todo o criado... significa ver Jesus em tudo, seu Esposo, significa procurá-lo unicamente...Teu objetivo tem de ser o de estar face a face comigo” (pp. 210-211). A uma das irmãs que lhe indagava a razão das predileções divinas, respondeu: “Ah, minha irmã! eu sou ignorante, tenho um coração simples, sem estofo... tenho, portanto, um coração desapegado: Ele é tudo! Não busco nada... nada... não quero nada, não preciso de nada, não desejo nada, meu coração é livre” (pp. 209-210).

Puro, livre, o coração da Irmã Maria-Marta pertencia somente a Deus, seu pensamento ocupava-se apenas de seu objeto de amor. Semelhante a chama pura que sobe sempre, a alma desta esposa de Cristo eleva-se, degrau por degrau, rumo à perfeição do amor.

 

Combates

Nosso Senhor ensinara à Irmã Maria-Marta a fórmula para oferecer as santas Chagas; mas fazer com que a comunidade a adotasse não foi coisa fácil para as superioras. Descobre-se a origem destas invocações. O zelo da regra faz com que todas se alarmem. Não se podia tolerar que uma jovem noviça conversa se impusesse de tal modo. Quantos sofrimentos, vexações para Irmã Maria-Marta e suas devotadas superioras! Ela não demonstrava senão paciência, humildade, mansidão. Nosso Senhor encorajava, tranquilizava-a: “Maiores os obstáculos e dificuldades, mais abundantes as minhas graças” (p. 92). Nosso Senhor amava muito esta comunidade de Chambéry, apesar das críticas levantadas pela pretensa inovação. Críticas compreensíveis, diga-se. As religiosas da Visitação tinham suas Regras e Constituições como um legado sagrado de seus santos Fundadores. “Não lhes é permitido absolutamente, sob qualquer pretexto que for, incumbir-se de orações outras das que estão aqui assinaladas” (Constituição XVIII). Não se poderia ir contra isso. Deus permite, pois, essas contradições para lançar à luz do dia a virtude de sua privilegiada e aumentar seus méritos.

Uma vida tão extraordinária faz-nos compreender igualmente a atitude reservada dos superiores, e os defeitos que se verificavam sempre na humilde noviça conversa não deixam de espantar. Daí os murmúrios, recriminações. Irmã Maria-Marta sofria muito. Sustentada pelo dom da força, suportava tudo em silêncio: jamais uma alusão, uma queixa, e isso por quarenta anos! Mas quão mais dolorosa a provação que lhe veio de um superior mal informado por relatos imprudentes de algumas religiosas. O golpe foi duro. Entre outros, a comunhão quotidiana foi negada à Irmã Maria-Marta. Humildemente, ela se submete às ordens recebidas.

 

O Selo de Deus

Recordava-se ela da palavra de seu Mestre: “A vós (religiosas) só perguntarei uma coisa: o quanto obedeceram” (p. 204). A exemplo daquele que foi obediente até a morte, Irmã Maria-Marta conforma-se em tudo heroicamente à vontade divina, sancionada pela obediênca. Sua perfeita docilidade foi notável. Sacrificou sua vontade inteiramente às exigências de Nosso Senhor. Mestre absoluto, podia exercer sobre ela todos seus direitos. A Santíssima Virgem diz-lhe um dia: “Não quero que faças ato algum, por melhor que te pareça, fora desta obediência” (p. 110).

Se suas superioras recusam-se a conceder o que lhes pedia, a humilde Irmã inclinava-se sem insistir. “A obediência, para ela, é tudo” (p. 45), afirma sua superiora. Nunca uma réplica, nunca uma discussão diante dos mais duros sacrifícios. Somente esta palavra, obediência, poderia tirar-lhe de suas longas contemplações. É o sentimento unânime de seus confessores: “Ela seguia sempre literalmente as opiniões que lhe eram dadas” (p. 218). À luz das instruções divinas, Irmã Maria-Marta aprendera a pronta e simples obediência. Um dia, doente e acamada, sua superiora lhe diz: “Amanhã estarás boa” (p. 216). A dócil menina tomou o encorajamento por uma ordem. Nosso Senhor, contente com esta fé tão simples, curou-a no mesmo instante. Alimentou-se e retornou, no dia seguinte, a suas ocupações.

Quantas vezes as superioras recorreram à sua intercessão diante de Nosso Senhor! O vinho se avinagrava nos tonéis, as batatas apodreciam no porão, por obediência Irmã Maria-Marta incumbia-se de buscar a solução. Fazendo o sinal da cruz, ela invocava a Santíssima Trindade, as santas Chagas e tudo se restaurava: o vinho tornava-se bom, o bolor sobre as batatas secava. O Senhor atendia a todos seus desejos.

E era nas coisas espirituais, assim como com nas materiais; as superioras sempre experimentavam a eficácia das suas orações. Ela tinha o culto da autoridade – nela via Deus. Nosso Senhor lhe havia frequentemente repetido: “Minha filha, em tua superiora estou eu” (p. 215).

A abertura de coração, a confiança para com sua superiora, são traços distintivos de uma filha da Visitação. Para Irmã Maria-Marta Chambon, assaltada por dúvidas e temores, a palavra de sua superiora era infalível e sobremaneira eficaz. O demônio tenta-a a esse respeito; persuadindo-a de que era uma cruz para suas superioras, e por isso começa a evitá-las. Irmã Maria-Marta chega a experimentar repugnância extrema por sua superiora; não ousa mais aproximar-se e queixava-se disso a Nosso Senhor. “Se te afastares de tua superiora, errarás e perderás a verdadeira luz” (p. 217).

Amava muito sua regra, suas constituições. O temor de afastar-se delas por suas austeridades causava-lhe grande sofrimento. O santo Fundador da Visitação quis, com efeito, que o espírito de sacrifício interior e de perfeito abandono à vontade de Deus substituísse jejuns e outras mortificações exteriores do tipo, salvo em casos muito raros, desejados particularmente por Deus. São Francisco de Sales veio reconfortar sua estimada filha: “Segue o caminho que Jesus te traçou, esta é a Regra” (p. 85).

 

“Mestre, eu sou vossa pobre”

Irmã Maria-Marta não escreveu nada, não manteve conversações sábias, mas soube humilhar-se. Nosso Senhor pergunta-lhe um dia: “Minha filha, queres ser crucificada ou antes ser glorificada?” – “Bom Mestre, mais desejo ser crucificada”, responde, com ímpeto de coração (p. 76). Não busca a sua glória, mas o desprezo e a cruz. Pequenina, penetrada de sua insignificância, de sua indignidade, lançava-se no abismo do seu nada, querendo desaparecer. Viveu segundo a palavra de sua santa Fundadora: “O principal cuidado da alma deve ser o de humilhar-se”. Sua grande preocupação é sempre o temor de ser notada: vida escondida, humildade, esta é sua marca característica. Ademais, Nosso Senhor inclinava-a a isto. Ele humilhava-a severamente, repreendia as menores faltas: “Tu não serás uma verdadeira esposa se não amares a humilhação”. (p. 174)

“... A fim de te preparares a receber minhas graças, precisarás te aniquilar muito, pois só tenho olhos para o coração humilde!” (p. 174). Certo dia, extenuada de fadigas, após uma noite de sofrimentos, Irmã Maria-Marta para na porta do coro: “Bom Mestre, eu sou vossa pobre, dai-me esmolas, dai-me forças”, suplicava (p. 175). A humilde irmã não falava dos favores divinos que recebia senão com extrema repugnância. Tanto mais o Senhor cumulava-a de dons, tanto mais se apequenava. Mostrava-se ela ávida de correções, sempre a primeira a humilhar-se, a reconhecer e reparar seus erros, pois seu exterior guardara suas asperezas; daí os desencontros, os pequenos tropeços de sua natureza, tantas ocasiões de humilhações, de méritos. Por outro lado, as superioras não a poupavam. Irmã Maria-Marta, ao desprezar profundamente a si mesma, compreendia todo o benefício que daí tirava para sua alma e alegrava-se da glória que rendia a Deus. 

O Espírito Santo, pela iluminação dos dons de ciência e de inteligência, esclarecia-a mais e mais. Então, sentia-se como que esmagada sob o peso da grandeza divina e de sua própria miséria, sob a visão cada vez mais profunda de seus defeitos.

“Ó meu Jesus, dizia a Irmã, espero tudo de Vós somente, pois não sou senão miséria” (p. 171).

A mesma luz faz descobrir manchas nas nossas melhores ações. “Somos cheios de imperfeições, dizia ela, não há, na verdade, nada de bom em nós. – Quando nos vemos diante de Deus, não somos mais que pecado, miséria... mesmo aquilo que julgamos fazer bem, mesmo as ações mais santas, tudo é corrompido por nosso amor próprio...” (p. 186). Para retirar-lhe todo o amor próprio, Nosso Senhor mostrava-lhe por vezes, como num quadro, as qualidades bem superiores de suas irmãs, depois, humilhando-a: “Ser humilhada e tratada como mereces, eis o único desejo que deves ter” (p. 174), “Meu coração só age no selo da humildade” (p. 175). Um dia, lavando a louça, Irmã Maria-Marta viu-se de repente rodeada das Visitandinas do céu e de uma falange de santos. Cheia de alegria, falou-lhes: “Quereis transmitir uma palavra a Nosso Senhor? Dizei-lhe que sou... pecadora” (p. 175). Consciente de sua própria fraqueza, confiava totalmente no Salvador, esperando tudo dele pelos méritos infinitos de suas santas Chagas. Assim também, durante uma conversa com Nosso Senhor, Irmã Maria-Marta viu-se transportada ao céu e os santos, colocando-a num lugar de honra entre eles, cantavam em coro: “O menor torna-se o maior” (p. 188). Deus exalta os humildes!

 

Vida Teologal

Irmã Maria-Marta, enquanto imitava Jesus crucificado, trilhava a via da infância espiritual, tão propícia ao progresso e ao perfeito desenvolvimento das virtudes teologais. Com a simplicidade da criança, ela crê em Deus, espera nele e ama-o de todo seu coração.

Este espírito de fé espontânea inspira todos seus atos, todas as circunstâncias da sua vida: doenças, contradições, provações de todo gênero. Vê Deus em todas as coisas e não desperdiça parcela alguma da cruz.

A santa Missa, para ela, é a renovação do calvário. Irmã Maria-Marta vive do drama que se desenrola no altar, une-se à divina Vítima que recebe na santa comunhão com um fervor, com um amor cada vez maior. Deus faz com que ela viva dos mistérios da Santíssima Trindade, da Redenção, da Eucaristia. Ela vai o mais longe. Imersa em contemplação, é-lhe penoso voltar-se às coisas da terra. Contudo, chega o dia em que o divino sol dos espíritos se esconde, se obscurece. Desamparada, Irmã Maria-Marta sofre, busca seu Senhor e seu Deus. Estes abandonos torturam-na. Jesus, enfim, retorna: “purifiquei-te inteira ao abandonar-te” (p. 266). Outras vezes, após dias de sofrimento inauditos, Nosso Senhor, tendo-a unido a sua agonia e a seu abandono na cruz, diz-lhe: “Minha filha, chorei no jardim das Oliveiras e sobre a cruz em meu grande abandono” (p. 267).

Frequentemente, recebe rudes assaltos do espírito das trevas. Apresentando-se certo dia cinco vezes a ela sob uma forma corporal, Satanás diz-lhe: “Não há Deus!... De que servem tuas orações, não há Deus”. Irmã Maria-Marta responde-lhe: “Creio que há um Deus e que Ele é meu Esposo! Ele é meu Esposo! Meu alimento...” (p. 269). Ditas estas palavras, o demônio some numa fumaça. Perturbava-lhe também de mil maneiras com sugestões contra a autoridade, contra a humildade, contra a eficácia da oração, sempre tentando desencorajá-la, desviá-la de seu caminho. Mas esta humilde religiosa mantém-se firme no meio das trevas e lutas; fiel à sua missão, orava sem cessar com espírito de fé cada vez maior. Sua oração era ouvida, como demonstram-no as muitas conversões alcançadas.

“A terra nada é, minha filha, dizia Jesus a sua esposa, a terra inteira é um nada... olha para o céu! O céu é o único digno de teus desejos! Lembra-te da tua morada e não te esqueças de que pertences à grande família do céu...” (p. 292). Irmã Maria-Marta deseja sobretudo partir para ver a Deus. O inimigo de todo o bem aproveita-se para procurar desviá-la do único objeto de sua esperança. “O céu não é para ti”, diz-lhe (p. 265). A serva de Deus tem sua réplica, tão pronta como ingênua. Lança mão de mil astúcias para confundi-la: “bruxa hipócrita! enganas aos demais e és enganada...” (p. 264). Debocha de sua prática de oferecer as santas Chagas, chega até ao ponto de agredi-la. Irmã Maria-Marta sofre tormentos horríveis, julga ser joguete de ilusões. Torturada em sua alma e em seu corpo, embora sempre valente, repete com confiança invencível as invocações às santas Chagas. Tudo espera pelos méritos infinitos de seu Salvador. Fixando o olhar em Deus somente, abandona-se nos seus braços como uma criança, sem deixar de cumprir fielmente a missão que o Senhor lhe confiara. Como o Mestre não haveria de responder a tanta generosidade? Conduzindo-a ao seu Coração, sua doce voz lhe diz: “Minha bem-amada, estarás aqui agora e na eternidade” (p. 266)

Irmã Maria-Marta compreendera esta palavra de seu adorado Mestre: “Minha filha, ama-me acima de tudo, por mim mesmo” (p. 71). Com grande generosidade, respondia a este amor infinito que a atraía cada vez mais fortemente.

“Ensinar-te-ei a amar-me, dizia Jesus, pois não sabes como fazê-lo: a ciência do amor é dada à alma que considera o divino Crucificado e lhe fala, do coração ao coração” (p. 231). Com tocante bondade, ensina-a a rezar: “Descobre meu segredo de amor a alma que se une e entretém-se comigo no fundo se seu coração” (p. 231). “Minha união contigo é teu único bem: aqui é o teu progresso...” (p. 233). Toda sua vida foi um martírio de amor. Jesus crucificado possuíra seu coração. Podia Ele dizer-lhe: “Modelei teu coração para mim e segundo minha vontade. Tirei toda a consideração pelas criaturas... Coloquei nele a simplicidade da criança” (p. 168). “És a bem-amada de meu coração. Doravante, só amarás e respiraras pelo meu coração” (p. 72). Inteiramente livre, isenta de todo entrave humano, consumida pelo amor que a transforma, experimenta cada vez mais a fome de Deus: “Beati qui esuriunt et sitiunt justitiam”.

O chamado torna-se mais insistente: “Filhinha, suba o calvário comigo” “Quero-te vítima de pé” (p. 234) “Também tu, carrega os pecados dos homens” (p. 271). O amor busca a semelhança, e a união com o Salvador só se realiza na cruz. O amor transformante realizou sua obra. Marcada à imagem do Cristo, associada à sua missão redentora, a doce vítima segue, passo a passo, as pegadas de seu Mestre. Como Ele, oferece-se pelos pecadores, roga por eles, vive suas lutas, experimenta, nela mesma, suas dores e angústias. Certo dia, dá à sua superiora o nome do doente da paróquia que tantos sofrimentos lhe custava. Após sua morte, julgou ouvir dele as seguintes palavras:  “Foi por mim que tanto sofrestes. O demônio trabalhava pela perda da minha alma. Devo-te minha salvação: meu lugar era o inferno e, se estou no céu, é pelos méritos das chagas de Jesus que invocaste por mim” (p. 270).

A alma de Irmã Maria-Marta irradiava caridade ao seu redor. Interessava-se por cada uma de suas Irmãs. Sua dedicação não conhecia cálculos nem limites. Sabia às suas custas realizar o desejo de Jesus: “Jamais preocupar-se contigo, jamais recusar um serviço” (p. 236). Nosso Senhor pedia mais: “Deves a cada dia pagar as dívidas de cada alma desta comunidade para com minha justiça... Serás a vítima que expiará cada dia o pecado de todas” (p. 140). Que amor desinteressado não seria preciso para cumprir sua missão reparadora? O aproximar da morte de uma Irmã era sempre marcado por maior intensidade de sofrimentos: Irmã Maria-Marta, pela oração e pela imolação, supria o que lhe restava reparar.

Seu zelo apostólico levava-a a rezar constantemente e a sofrer pelas intenções do Vigário de Cristo e por todos os fiéis. Quantas almas do purgatório não se beneficiaram de suas orações? Um dia, na vigília da Ascensão, Nosso Senhor diz-lhe: “Não contes descansar hoje, pois muitas almas devem, pelos teus sofrimentos, chegar ao céu para ver o meu triunfo” (p. 256). Outro dia: “Minha filha, pela rude tentação que sofreste e por teu abandono interior, muitos pecadores se converteram e muitas almas do Purgatório foram para o céu... teu sofrimento era necessário para isso” (p. 268). Quantas noites não passou ela em oração pelos agonizantes! Nosso Senhor mostrava-os à Irmã: “Estás incumbida de todas estas almas, é preciso que lhes obtenha uma boa morte” (p. 253). Buscar a glória de Deus, a salvação das almas, tal era sua única ambição: “Meu Jesus, tenho sede das almas por vossa glória” (p. 253).

Verdadeira filha da santa Igreja, ultrapassava os muros de seu estreito claustro para cultivar os campos do Senhor. Sentindo-se cumulada dos pecados dos homens, esmagada sob o peso da justiça divina, clama: “Deus meu, não olheis nossa miséria, mas a vossa misericórdia!” (p. 251).

Jesus, por sua vez, instava-a: “Vem, conquiste almas!” (p. 248) Mostrando os pecadores por todo o mundo: “Mostro-os a fim de que não percas tempo algum” (p. 250). E a fervente missionária passava suas noites a colher almas. O sangue divino era o preço. Com firmeza dizia sua grande oração: o oferecimento das santas Chagas de nosso Salvador, que prometera renovar a cada dez minutos (p. 75).

Não se encontram aqui a heroicidade das virtudes teologais e morais, tanto quanto podemos julgar, até que a Igreja se pronuncie?

 

*

Conformada na sua vida a Jesus crucificado, a humilde esposa também o foi na sua morte. Combate supremo, em que as súplicas angustiadas à Mãe do céu nos permitem adivinhar o isolamento do coração, o abandono com Jesus na cruz, faz-nos lembrar a palavra que o Senhor um dia lhe dirigiu: ”Na cruz, no auge de meus sofrimentos, estava só... Eis por que quis que tu sofresses assim” (p. 267)

Por Maria, ela obteve esta última vitória sobre o inimigo, sobre o pecado. Esta Mãe celestial veio enfim buscá-la em 21 de março de 1907, nas primeiras vésperas de sua Compaixão.

 

*

Por meio de sua humilde serva, o divino Mestre dirige-se a nós: “Uma única gota do meu Precioso Sangue basta para purificar a terra, e não pensais nisso!” (p. 62). “A Chaga de meu Sagrado Coração abre-se largamente para conter todas as vossas necessidades!” (p. 79).

Toda esta vida é um apelo para lembrar-nos dos dons de Deus. O sangue redentor é de valor infinito.

Repetindo-nos isto a cada página, esta vida heróica nos faz sentir que nossa fé, que deveria nutrir-se cada vez mais desta verdade revelada, na maioria das vezes, é superficial. Ultrapassa pouco as fórmulas conservadas na memória e repetidas respeitosamente. Não atinge suficientemente as realidades divinas que exprimem.

Dignai-vos, ó Senhor, pela intercessão desta brava religiosa, conceder-nos algo ao menos de sua fé tão penetrante, tão estimulante, de sua contemplação do mistério da Cruz, perpetuada em substância sobre o altar durante a Missa!

Desta fé procede a firme esperança, o amor ardente de Deus e das almas, do qual precisamos nas tristezas da hora presente.

No momento em que o espírito de independência absoluta, de orgulho, levado até ao ateísmo, procura espalhar-se sobre a terra e sobre os países mais católicos, o Senhor sugere a muitas almas interiores rezar como o fazia a humilde conversa da Visitação de Chambéry. Ele as convida a pedir uma inteligência mais profunda do mistério da Redenção e o desejo de participar, na medida desejada para cada um de nós pela Providência, de suas santas humilhações, remédio a todos os orgulhos. O Senhor faz entrever a estas almas, como o fez a esta de que acabamos de falar, que encontrarão neste sincero desejo a força, a paz e, por vezes, a alegria, para suportar os sofrimentos que sobrevirem e encorajar os demais.

( La vie spirituelle, LIII, 150-168, 1937. Tradução: Permanência)

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