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Category: Garrigou-Lagrange, Réginald , O.P.Conteúdo sindicalizado

A predestinação de São José e sua eminente santidade

Qui minor est inter vos, hic major est 1.

 

Não é possível escrever um livro sobre a Santíssima Virgem sem falar da predestinação de São José, de sua eminente dignidade e perfeição, do caráter próprio de sua missão excepcional, de suas virtudes e de seu papel atual para a santificação das almas.

 

Sua preeminência sobre todos os outros santos é cada vez mais afirmada na Igreja

A doutrina segundo a qual São José é o maior dos santos depois de Maria tende a se tornar uma doutrina comumente admitida na Igreja. Ela não teme declarar o humilde carpinteiro superior em graça e em beatitude aos patriarcas, a Moisés, aos maiores profetas, a São João Batista, e ainda aos Apóstolos, a São Pedro, a São João, a São Paulo, e com mais forte razão superior em santidade aos maiores mártires e aos maiores doutores da Igreja. O menor, pela profundeza de sua humildade, é, em razão da conexão das virtudes, o maior pela elevação da sua caridade: Qui minor est inter vos, hic major est; quem é o menor entre vós, este é o maior.

Essa doutrina foi ensinada por Gerson2 e por São Bernardino de Sena 3; tornou-se cada vez mais corrente a partir do século XVI e foi admitida por Santa Teresa, pelo dominicano Isidoro de Isolanis, que parece ter escrito o primeiro tratado sobre São José 4, por São Francisco de Sales, por Suárez 5, posteriormente por Santo Afonso de Ligório 6 e, mais recentemente, pelo Cônego Sauvé 7, pelo Cardeal Lépicier 8 e por Monsenhor Sinibaldi 9; toda essa doutrina está muito bem exposta no Dictionnaire de Théologie Catholique, no artigo José (São), por M. A. Michel.

Ademais, essa doutrina recebeu a aprovação do Papa Leão XIII em sua encíclica Quamquam pluries, de 15 de agosto de 1899, escrita para proclamar o patrocínio de São José sobre a Igreja universal. Nela está dito: “Certamente a dignidade de Mãe de Deus é tão elevada que não pode haver uma maior. Mas, não obstante, como São José esteve unido à Bem-aventurada Virgem pelo vínculo matrimonial, não há dúvida que se aproximou, mais que qualquer outra pessoa, dessa dignidade supereminente pela qual a Mãe de Deus supera de tão alta todas as naturezas criadas. A união matrimonial constitui, com efeito, a maior de todas e, em razão de sua própria natureza, é acompanhada da comunicação recíproca dos bens dos esposos. Se, então, Deus deu São José por esposo à Virgem, deu-o certamente não só como companheiro na vida, como testemunha de sua virgindade e guardião de sua honra, mas também fê-lo participar pelo próprio vínculo conjugal da eminente dignidade que ela havia recebido 10.

Ao dizer Leão XIII que São José se aproximou mais que ninguém da dignidade supereminente da Mãe de Deus, pode-se deduzir que ele está, na glória, acima de todos os anjos? Não se pode afirmar com certeza; contentemo-nos em expressar a doutrina cada vez mais admitida na Igreja, dizendo: São José é o mais elevado de todos os santos no Céu, depois de Jesus e Maria; ele está entre os anjos e os arcanjos.

Na oração “A cunctis 11, a Igreja nomeia São José imediatamente após Maria e antes dos Apóstolos. Se não é mencionado no Cânon da Missa, não só tem um prefácio próprio, mas o mês de março lhe é consagrado como o protetor e defensor da Igreja universal.

A ele, num sentido muito real, ainda que oculto, foi especialmente confiada a multidão dos cristãos de todas as gerações que se sucedem. É o que expressam as belas ladainhas aprovadas pela Igreja e que resumem as suas prerrogativas: “São José, ilustre descendente de David, luz dos Patriarcas, Esposo da Mãe de Deus, casto guarda da Virgem, nutrício do Filho de Deus, zeloso defensor de Jesus, chefe da Sagrada Família; José justíssimo, castíssimo, prudentíssimo, fortíssimo, obedientíssimo, fidelíssimo, espelho de paciência, amante da pobreza, modelo dos trabalhadores, honra da vida de família, guardião das virgens, amparo das famílias, consolação dos infelizes, esperança dos enfermos, patrono dos moribundos, terror dos demônios, protetor da santa Igreja”. Ninguém é tão excelso depois de Maria.

 

A razão dessa preeminência

Qual é o princípio dessa doutrina cada vez mais admitida desde há cinco séculos?

O princípio invocado de forma cada vez mais explícita por São Bernardo, São Bernardino de Sena, Isidoro de Isolanis, Suárez e outros autores mais recentes é um princípio tão simples quanto elevado; foi formulado por Santo Tomás a propósito da plenitude de graça em Jesus e da santidade de Maria. Resume-se brevemente da seguinte forma: Uma missão divina excepcional requer uma santidade proporcionada.

Esse princípio explica porque a Santa Alma de Jesus, estando unida pessoalmente ao Verbo, à fonte de todas as graças, recebeu a plenitude absoluta de graça, que devia transbordar sobre nós, segundo as palavras de São João: “De plenitudine ejus omnes accepimus 12.

Essa é também a razão pela qual Maria, chamada a ser Mãe de Deus, recebeu desde o instante de sua concepção uma plenitude inicial de graça que já ultrapassou a graça final de todos os santos reunidos. Estando mais próxima da fonte de toda graça, ela deveria beneficiar-se disso mais que qualquer outra criatura13.

Essa é, pois, a razão pela qual os Apóstolos, mais próximos de Nosso Senhor que os santos que vieram em seguida, conheceram mais perfeitamente os mistérios da fé. Para pregar infalivelmente o Evangelho ao mundo, eles receberam em Pentecostes uma fé eminentíssima, claríssima e inabalável, princípio e base de seu apostolado 14.

Esse mesmo princípio explica também a preeminência de São José sobre todos os outros santos.

Para bem entendê-lo, deve-se notar que as obras de Deus, que provêm diretamente d’Ele, são perfeitas. Não se poderia encontrar nelas desordem ou mesmo imperfeição.

Assim aconteceu na obra divina no dia da criação, desde as mais altas hierarquias angélicas até as criaturas mais ínfimas 15. Assim ainda é com os grandes servidores de Deus que Ele mesmo escolhe, excepcional e imediatamente, sem a intermediação de nenhuma escolha humana, e que são suscitados por Ele para restaurar a obra divina perturbada pelo pecado. No princípio anteriormente enunciado, todas as palavras devem ser ponderadas e meditadas: “Uma missão divina excepcional requer uma santidade proporcionada”.

Não se trata de missão humana, por mais elevada que seja, nem de missão angélica, mas de uma missão propriamente divina, e não de uma missão ordinária, mas tão excepcional, que no caso de São José, é única no mundo em todo o transcurso dos tempos.

Compreende-se melhor ainda a verdade desse princípio, tão simples quanto elevado, quando se considera, por contraste, como são feitas costumeiramente as escolhas humanas. Os homens escolhem freqüentemente, para as mais altas funções de um governo difícil, os incapazes, os medíocres, os imprudentes. Tal atitude leva o país à ruína, se não houver uma salutar reação.

Não se encontra nada semelhante naqueles que são imediatamente escolhidos pelo próprio Deus e preparados por Ele para serem seus ministros excepcionais na obra da Redenção. O Senhor lhes dá uma santidade proporcionada, porque Ele realiza todas as coisas com medida, força e suavidade.

Como a Santa Alma de Jesus recebeu, desde o instante de sua concepção, a plenitude absoluta de graça, a qual não aumentou posteriormente; como Maria, desde o instante de sua concepção imaculada, recebeu uma plenitude inicial de graça que era já superior à graça final de todos os santos e que não cessou de aumentar até sua morte; assim também, e guardadas as proporções, São José recebeu uma plenitude relativa de graça proporcionada à sua missão, uma vez que foi direta e imediatamente escolhido, não pelos homens, nem por nenhuma criatura, mas por Deus mesmo e por Ele somente, para essa missão única no mundo. Não se pode precisar em qual momento ocorreu a santificação de São José, mas tem-se o direito de afirmar que, em virtude de sua missão, foi confirmado na graça desde seu matrimônio com a Santíssima Virgem 16.

 

A qual ordem pertence a missão excepcionalíssima de São José?

É evidente que a missão de São José ultrapassa a ordem da natureza; não só da natureza humana, mas também da natureza angélica. Seria ela unicamente da ordem da graça, como a de São João Batista, que preparou as vias da salvação, como a missão universal dos Apóstolos na Igreja para a santificação das almas ou como a missão especial dos fundadores de ordens religiosas?

Se observarmos atentamente, veremos que a missão de São José ultrapassa a ordem mesma da graça e culmina, por seu termo, com a ordem hipostática constituída pelo próprio mistério da Encarnação. Mas devemos entendê-la bem, evitando qualquer exagero e qualquer diminuição.

A ordem hipostática limita-se à missão única de Maria, a Maternidade Divina, e também, em certo sentido, à missão oculta de São José. Esse ponto de doutrina é afirmado cada vez mais explicitamente por São Bernardo, São Bernardino de Sena, pelo dominicano Isidoro de Isolanis, por Suárez e por vários autores recentes.

São Bernardo disse de São José: “Ele foi o servidor fiel e prudente que o Senhor constituiu como sustentáculo de sua Mãe, o pai nutrício de sua carne e o único cooperador fidelíssimo na Terra do grande desígnio da Encarnação” 17.

São Bernardino de Sena escreveu: “Quando Deus escolhe alguém por graça para uma missão sublime, concede-lhe todos os dons necessários para essa missão. É o que se verificou eminentemente em São José, o pai nutrício de Nosso Senhor Jesus Cristo e esposo de Maria...” 18.

Isidoro de Isolanis coloca igualmente a vocação de São José acima da dos Apóstolos; ele observa que a vocação dos Apóstolos tem por fim pregar o Evangelho, iluminar as almas e reconciliá-las, mas a vocação de São José está mais intimamente relacionada ao Cristo mesmo, uma vez que ele é o esposo da Mãe de Deus, o pai nutrício e o defensor do Salvador19.

Suárez disse também: “Certos ofícios exigem a ordem mesma da graça santificante e, nesse gênero, os Apóstolos tiveram o grau mais elevado; também tiveram necessidade de mais socorros gratuitos que os outros, sobretudo no que concerne aos dons gratuitamente dados e à sabedoria. Mas existem outros ofícios que confinam com a ordem da união hipostática, em si mais perfeita, como se vê claramente da Maternidade Divina na bem-aventurada Virgem Maria, e é a essa ordem de ofícios que pertence o ministério de São José”20.

Há alguns anos, Monsenhor Sinibaldi, Bispo titular de Tiberíades e secretário da Sagrada Congregação dos Estudos, detalhou esse ponto da doutrina. Apontou que o ministério de São José pertence, em certo sentido, por sua finalidade, à ordem hipostática: não quer dizer que São José tenha intrinsecamente cooperado, como instrumento físico do Espírito Santo, no cumprimento do mistério da Encarnação; desse ponto de vista, seu papel é muitíssimo inferior ao de Maria, Mãe de Deus; mas, enfim, foi predestinado a ser, na ordem das causas morais, o guardião e custódio da virgindade e da honra de Maria e, ao mesmo tempo, o pai sustentador e protetor do Verbo feito carne. “Sua missão pertence, por seu fim, à ordem hipostática, não por uma cooperação intrínseca, física e imediata, mas por uma cooperação extrínseca, moral e mediata (por Maria); o que é ainda, no entanto, uma verdadeira cooperação”21.

 

A predestinação de São José foi simultânea ao decreto mesmo da Encarnação

O que acabamos de dizer aparece mais claramente ainda se considerarmos que o decreto eterno da Encarnação não se refere somente à Encarnação em geral, com abstração das circunstâncias de tempo e lugar, mas à Encarnação hic et nunc, aqui e agora, quer dizer, à Encarnação do Filho de Deus que, em virtude da operação do Espírito Santo, teve de ser concebido num determinado instante pela Virgem Maria, unida a um homem da casa de David, chamado José, “Missus est angelus Gabriel a Deo in civitatem Galileae, cui nomen Nazareth, ad virginem desponsatam viro, cui nomen erat Joseph, de domo David22 “Foi enviado por Deus o anjo Gabriel a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um varão, que se chamava José, da casa de Davi”.

Tudo leva, pois, a pensar que José foi predestinado a ser o pai nutrício do Verbo feito carne antes de ser predestinado para a glória. A razão é que a predestinação de Cristo como homem à filiação divina natural é anterior à de qualquer homem eleito, porque Cristo é o primeiro dos predestinados 23. Ora, a predestinação de Cristo à filiação divina natural não é outra coisa que o decreto mesmo da Encarnação, o qual se refere à Encarnação a realizar-se hic et nunc. Esse decreto implica por si mesmo a predestinação de Maria à Maternidade Divina e a de São José para ser o pai nutrício e protetor do Filho de Deus feito homem.

Assim como a predestinação de Cristo à filiação divina natural é superior à sua predestinação à glória e a precede, como o admitem os tomistas 24, e como a predestinação de Maria à Maternidade Divina precede (in signo priori) sua predestinação à glória, como vimos no início desta obra, assim também a predestinação de José para ser o pai nutrício do Verbo feito carne precede para ele a predestinação à glória e à graça. Em outros termos: José foi predestinado ao mais alto grau de glória depois de Maria, e em seguida, ao mais alto grau de graça e de caridade, porque foi chamado a ser o digno pai nutrício e protetor do Homem Deus.

Assim se vê a sublimidade da sua missão única no mundo, uma vez que sua predestinação primeira é simultânea com o decreto mesmo da Encarnação. Isso é o que se quer dizer correntemente quando se afirma que José foi criado e posto no mundo para ser o pai nutrício do Verbo feito carne, e para que fosse um digno pai, Deus quis para ele um altíssimo grau de glória e de graça.

 

O caráter próprio da missão de São José

Esse ponto é admiravelmente exposto por Bossuet no primeiro panegírico desse grande santo (3º ponto), quando nos diz: “Entre todas as vocações, chamo a atenção para duas que, nas Escrituras, parecem diretamente opostas: a primeira, a dos Apóstolos; a segunda, a de São José. Jesus foi revelado aos Apóstolos para que O anunciassem a todo o universo: foi revelado a José para que O silenciasse e O ocultasse. Os Apóstolos são as luzes para mostrar Jesus Cristo ao mundo. José é um véu para cobri-Lo, e sob esse véu misterioso se nos oculta a virgindade de Maria e a grandeza do Salvador das almas... Quem glorifica os Apóstolos pela honra da pregação, glorifica São José pela humildade do silêncio”. A hora da manifestação do mistério da Encarnação ainda não havia chegado; essa hora teve de ser preparada por trinta anos de vida oculta.

A perfeição consiste em fazer o que Deus quer, cada um segundo sua vocação; mas no silêncio e na obscuridade, a vocação de José supera a dos Apóstolos, porque toca mais proximamente o mistério da Encarnação redentora. José, depois de Maria, esteve mais próximo que ninguém do autor da graça, e no silêncio de Belém, durante a sua estada no Egito e na casinha de Nazaré, recebeu mais graças que nenhum outro santo jamais receberá. 

Sua missão foi dupla.

Em relação à Virgem Maria, preservou sua virgindade contraindo com ela um verdadeiro matrimônio, mas absolutamente santo. O anjo do Senhor lhe disse: “José, filho de Davi, não temas receber em tua casa Maria, tua esposa, porque o que nela foi concebido é (obra) do Espírito Santo 25. Maria é certamente sua esposa; é um verdadeiro matrimônio, como explica Santo Tomás 26, mostrando suas conveniências: nenhuma suspeita devia ocorrer, por menor que fosse, quanto à honra do Filho e a da Mãe; se alguma vez essa honra estivesse em causa, José, o testemunho mais autorizado e menos suspeito, estaria lá para atestar-lhe a integridade e a pureza. Maria, ademais, encontrou em José ajuda e proteção. Ele a amava com um amor mais puro, mais devotado, com um amor teologal, pois a amava em Deus e para Deus. Era a união sem mancha mais respeitosa com a criatura mais perfeita que já existiu, na situação mais humilde, a de um pobre artesão de aldeia. José aproximou-se, então, mais intimamente que qualquer outro santo daquela que é a Mãe de Deus e a Mãe espiritual de todos os homens, do próprio José, e a distribuidora de todas as graças. A beleza de todo o universo não é nada comparada à beleza sublime da união dessas duas almas; união criada pelo Altíssimo, que encantava os anjos e alegrava o próprio Senhor.

Em relação ao Verbo feito carne, José velou por Ele, protegeu-O e contribuiu para Sua educação humana. Chamam-no de pai nutrício, ou melhor, de pai adotivo de Nosso Senhor, mas esses nomes não podem expressar plenamente essa relação misteriosa e plena de graça. É acidentalmente que um homem se torna pai adotivo ou pai nutrício de uma criança, enquanto que não foi acidentalmente que José se tornou pai nutrício do Verbo feito carne; ele foi criado e veio ao mundo para isso; esse foi o objeto primeiro de sua predestinação e a razão de todas as graças que recebeu. Bossuet exprime-o admiravelmente 27: “Quando a natureza não dá um coração paternal, onde ir buscá-lo? Numa palavra, São José, não sendo pai, como teria um coração de pai para Jesus? É aí que devemos entender que o poder divino interveio nessa obra. É por um efeito desse poder que José teve um coração de pai, e, se a natureza não proporcionou isso a ele, Deus lhe fez um com sua própria mão. Porque d’Ele está escrito que muda as inclinações para onde Lhe apraz... Ele dá um coração de carne a alguns quando os abranda pela caridade... Não dá a todos os fiéis, não um coração de escravo, mas de criança, quando lhes envia o Espírito de seu Filho? Os Apóstolos tremiam diante do menor perigo, mas Deus lhes fez um coração novo e sua coragem tornou-se invencível... Foi essa mesma mão que fez um coração de pai em José e um coração de filho em Jesus. Por isso Jesus obedecia e José n’Ele mandava sem temor. E de onde lhe vem essa ousadia de mandar em seu Criador? É que o verdadeiro Pai de Jesus Cristo, esse Deus que o engendra desde toda a eternidade, tendo escolhido o divino José para servir de pai no tempo ao Seu Filho único, fez de algum modo correr em seu seio um raio ou uma centelha desse amor infinito que Ele tem por Seu Filho, e mudou-lhe o coração, e deu-lhe um amor de pai; tanto que o justo José sente em si mesmo um coração paternal, formado de uma vez pela mão de Deus; sente também que Deus lhe ordenou usar da autoridade paternal e ousa efetivamente comandar Aquele a quem reconhece por seu Mestre”. Isso equivale a dizer que José foi predestinado primeiro para “servir de pai ao Salvador; pai que não podia ter na Terra”, e, em segundo lugar, predestinado a todos os dons que lhe foram concedidos para que fosse digno protetor do Verbo feito carne 28.

Após isso, é necessário dizer com qual fidelidade José guardou o tríplice depósito que lhe tinha sido confiado: a virgindade de Maria, a pessoa de Jesus Cristo e o segredo do Pai Eterno o da Encarnação de Seu Filho, segredo guardado até que chegou a hora da manifestação desse mistério 29.

Sua Santidade o Papa Pio XI, num discurso pronunciado na sala consistorial no dia da festa de São José, em 19 de março de 1928, dizia, depois de ter falado da missão de João Batista e da de São Pedro: “Entre essas duas missões, aparece a de São José, missão recolhida, calada, quase despercebida, desconhecida, que não devia iluminar-se senão alguns séculos mais tarde; um silêncio ao qual devia suceder, sem dúvida, mas muito tempo depois, um retumbante canto de glória. E de fato, ali onde é mais profundo o mistério, mais espessa a noite que o encobre; quanto maior o silêncio, é justamente ali que está a mais elevada missão, o mais brilhante cortejo das virtudes exigidas e dos méritos chamados, por uma feliz necessidade, a fazer-lhes eco. Missão única e altíssima essa de custodiar o Filho de Deus, o Rei do mundo, a missão de guardar a virgindade e a santidade de Maria. Missão única a de poder participar do grande mistério escondido aos olhos dos séculos e de cooperar assim na Encarnação e na Redenção!” Equivale a dizer que é em vista dessa missão única que a Providência concedeu a José todas as graças que ele recebeu; em outros termos: José foi predestinado primeiramente a servir de pai ao Salvador e, posteriormente, à glória e à graça que convinham a uma tão excepcional vocação.

 

Virtudes e dons de São José

Brilham nele, sobretudo, as virtudes da vida oculta, em grau proporcionado ao da graça santificante: a virgindade, a humildade, a pobreza, a paciência, a prudência, a fidelidade que não pode ser quebrantada por nenhum perigo a simplicidade, a fé esclarecida pelos dons do Espírito Santo, a confiança em Deus e a mais perfeita caridade. Guardou o depósito que lhe foi confiado com uma fidelidade proporcionada ao preço desse tesouro inestimável. Cumpriu o preceito: Depositum custodi, guarda o que te foi confiado.

Sobre essas virtudes da vida oculta, Bossuet faz estas considerações gerais 30: “É um vício comum nos homens entregar-se inteiramente às coisas exteriores e desprezar o interior; trabalhar para as aparências e adornos e menosprezar o efetivo e o sólido; preocupar-se com fazer parecer e não com o que deve realmente ser. Por isso são estimadas as virtudes que envolvem negócios e ocupações e exigem o trato com a sociedade; ao contrário, as virtudes ocultas e interiores, que não levam em conta o público, onde tudo se passa entre Deus e a alma, não só não são praticadas, mas não são sequer compreendidas. E, não obstante, nesse segredo reside todo o mistério da virtude verdadeira... É preciso formar um homem em seu verdadeiro sentido antes de pensar que lugar ocupará entre os outros; e se não se trabalhar sobre essa base, todas as outras virtudes, por mais brilhantes que possam ser, não serão mais que virtudes de vã ostentação... elas não formam o homem segundo o coração de Deus. Ao contrário, José, homem simples, buscou a Deus; José, homem desprendido, encontrou a Deus; José, homem reservado, desfrutou de Deus”.

A humildade de José consolidou-se ao considerar a gratuidade de sua vocação excepcional. Ele deve ter dito a si mesmo muitas vezes: por que o Altíssimo me deu Seu Filho Unigênito para custodiá-Lo, a mim, José, antes que a este ou àquele outro homem da Judéia, da Galiléia, ou de outra região e de outro século? Foi unicamente o beneplácito de Deus, beneplácito que é por si mesmo a razão e o motivo pelo qual José foi livremente preferido, escolhido e predestinado desde toda a eternidade, antes deste ou daquele outro homem, a quem o Senhor poderia ter concedido os mesmos dons e a mesma fidelidade para prepará-lo para essa excepcional missão. Vemos nessa predestinação um reflexo fiel da gratuidade da predestinação de Cristo e de Maria.

O conhecimento do valor dessa graça e de sua gratuidade absoluta, longe de prejudicar a humildade de José, confirmou-a. Ele pensava em seu coração: “O que tens que não recebeste?.

José aparece como o mais humilde de todos os santos depois de Maria; mais humilde que qualquer um dos anjos; e se é o mais humilde, é por isso mesmo o maior de todos, porque todas as virtudes estando conexas, a profundeza da humildade é proporcionada à elevação da sua caridade, como a raiz da árvore é tanto mais profunda quanto mais alta ela é: Aquele dentre vós todos que é o menor, disse Jesus, este será o maior 31.

Como nota ainda Bossuet: “Possuindo o maior dos tesouros por uma graça extraordinária do Pai Eterno, José, longe de vangloriar-se desses dons ou de revelar as suas vantagens, oculta-se o quanto pode dos olhos dos mortais, desfrutando pacificamente com Deus do mistério que lhe é revelado e das riquezas infinitas que o Altíssimo colocou a seu encargo” 32. “José tem em sua casa motivos para atrair todos os olhares da Terra, e o mundo não o conhece; possui um Deus Homem, e não diz nenhuma palavra; é testemunho de um mistério tão extraordinário, e o aprecia em segredo, sem o divulgar” 33.

Sua fé é inquebrantável, apesar da obscuridade do mistério inesperado. A palavra de Deus transmitida pelo anjo esclarece-lhe a concepção virginal do Salvador: José poderia ter hesitado em acreditar em algo tão extraordinário, mas acreditou firmemente com a simplicidade de seu coração. Por sua simplicidade e humildade, ele ascende às alturas de Deus.

A obscuridade não tarda em reaparecer: José era pobre antes de ter recebido o segredo do Altíssimo, mas tornou-se ainda mais pobre observa Bossuet   quando Jesus veio ao mundo, porque Ele veio com Sua abnegação e desprendimento de tudo para unir-Se a Deus. Não há lugar para o Salvador no último dos albergues de Belém. José deve ter sofrido ao ver que não tinha nada para oferecer a Maria e a seu Filho.

Sua confiança em Deus manifestou-se nas provações, pois a perseguição começou logo após o nascimento de Jesus. Herodes pretendia matá-Lo. O chefe da Sagrada Família devia esconder Nosso Senhor, partir para um país distante, onde ninguém o conhecia e onde não sabia como poderia ganhar a vida. Partiu, colocando toda a sua confiança na Providência.

Seu amor a Deus e às almas não cessa de crescer na vida oculta de Nazaré, pela influência constante do Verbo feito carne, o foco de graças sempre novas e sempre mais elevadas para as almas dóceis, que colocam toda a sua confiança em Deus e não põem nenhum obstáculo às graças que Ele lhes quer dar. Dissemos antes, a propósito do progresso espiritual em Maria, que a ascensão dessas almas é uniformemente acelerada, quer dizer, que se dirigem tanto mais rapidamente para Deus quanto mais se aproximam d’Ele e Deus as atrai mais a Si. Essa lei da gravitação espiritual das almas realizou-se exatamente em José; a caridade não parou de aumentar nele, sempre mais prontamente até sua morte; o progresso de seus últimos anos foi mais acelerado que o dos primeiros anos, porque encontrando-se mais perto de Deus, era mais fortemente atraído por Ele.

Com as virtudes teologais, cresceram também incessantemente nele os sete dons do Espírito Santo, que são conexos com a caridade. Os dons de inteligência e de sabedoria tornavam sua fé viva cada vez mais penetrante e deleitável. Com fórmulas extremamente simples, mas muito elevadas, sua contemplação dirigia-se à infinita bondade do Altíssimo. Essa foi, em sua simplicidade, a contemplação sobrenatural mais sublime depois da de Maria.

Essa contemplação amorosa lhe era muito doce, mas exigia a mais perfeita abnegação e o mais doloroso dos sacrifícios, quando recordava as palavras do velho Simeão: “Este menino será um sinal de contradição”, e as dirigidas a Maria: “Uma espada de dor transpassará a tua alma”. A aceitação do mistério da Redenção por meio do sofrimento apareceu para José como a consumação dolorosa do mistério da Encarnação, e ele necessitava de toda a generosidade do seu amor para oferecer a Deus, em sacrifício supremo, o Menino Jesus e sua Santíssima Mãe, a quem amava infinitamente mais que sua própria vida.

A morte de São José foi uma morte privilegiada; assim como a da Santíssima Virgem, foi disse São Francisco de Sales uma morte de amor 34. O santo admite também, com Suárez, que José estava entre os santos que, segundo São Mateus35, ressuscitaram após a Ressurreição de Nosso Senhor e manifestaram-se na cidade de Jerusalém; ele argumenta que essas ressurreições foram definitivas e que José entrou no Céu em corpo e alma. Santo Tomás é muito mais reservado sobre esse ponto: depois de ter admitido que as ressurreições que se seguiram à de Jesus foram definitivas 36, mais tarde, examinando as razões contrárias aduzidas por Santo Agostinho, concluiu que estas são muito mais sólidas 37.

 

O papel atual de São José para santificação das almas

Quanto mais humilde e oculta foi a vida do simples carpinteiro aqui na Terra, tanto mais está glorificado no Céu. Aquele a quem o Verbo feito carne esteve “submetido” aqui na Terra conserva no Céu um poder de intercessão incomparável.

O Papa Leão XIII, na encíclica Quamquam pluries, encontrou na missão de São José em relação à Sagrada Família “as razões pelas quais ele é o patrono e protetor da Igreja Universal... Do mesmo modo que Maria, a Mãe do Salvador, é Mãe espiritual de todos os cristãos... assim também José considera, como confiada a si, a multidão dos cristãos... Ele é o defensor da Santa Igreja, que é verdadeiramente a casa do Senhor e o reino de Deus na Terra”.

O que surpreende nesse papel atual de José até o fim dos tempos é que ele une admiravelmente as prerrogativas aparentemente mais opostas.

Sua influência é universal sobre toda a Igreja a qual protege e, não obstante, a exemplo da Providência, estende-se aos menores detalhes; “modelo dos trabalhadores”, está interessado em cada um dos que a ele acodem. É o mais universal dos santos por sua influência e, ao mesmo tempo, faz com que o pobre encontre o par de sapatos de que necessita.

Sua ação é evidente, sobretudo, na ordem espiritual, mas estende-se também às coisas temporais; é “o amparo das famílias, das comunidades, o consolo dos miseráveis, a esperança dos doentes”.

Vela pelos cristãos de todas as condições, de todos os países, pelos pais de família, esposos, bem como pelas virgens consagradas; pelos ricos, para inspirar-lhes uma caritativa distribuição de seus bens, bem como pelos pobres, para socorrê-los.

Está atento aos grandes pecadores e às almas mais avançadas. É o padroeiro da boa morte e das causas desesperadas; é terrível ao demônio que parece triunfar, e é também diz Santa Teresa o guia das almas interiores nas vias da oração.

Há em sua influência um reflexo maravilhoso da “Divina Sabedoria que se estende desde uma extremidade à outra do mundo, e governa todas as coisas com fortaleza e as dispõe com suavidade 38.

O esplendor de Deus esteve e permanece eternamente em São José; a graça não cessa de frutificar nele e quer fazer partícipes dela todos os que aspiram verdadeiramente “à vida oculta com Jesus Cristo em Deus 39.

  1. 1.Aquele que entre vós todos é o menor (pela sua humildade), esse é o maior (no reino dos ceús)”. Lc 9, 48.
  2. 2. Sermo in Nativ. V. Mariae, IV consideratio.
  3. 3. Sermo I de S. Joseph, c. III. Opera, Lion, 1650, t. IV, p. 254.
  4. 4. Summa de donis S. Joseph, ann. 1522, nova edição do Pe. Berthier, Roma, 1897.
  5. 5. Summa S. Tomás, IIIª, q. 29, disp. 8, sect. 1.
  6. 6. Sermone di S. Giuseppe. Discorsi morali, Napóles, 1841.
  7. 7. Saint Joseph intime, Paris, 1920.
  8. 8. Tractatus de Sancto Joseph, Paris, s. d. (1908).
  9. 9. La Grandezza di San Giuseppe, Roma, 1927, pp. 36 ss.
  10. 10. Epist. encyclica “Quamquam pluries”, de 15 de agosto de 1899: “Certe Matris Dei tam in excelso dignitas est, ut nihil fieri majus queat. Sed tamen quia intercessit Joseplio cum Virgine beatissima maritale vinculum, ad illam praestantissiman dignitatem, qua naturis creatis omnibus longissime Deipara antecellit, non est dubium quin accesserit ipse, ut nemo magis. Est enim conjugium societas necessitudoque omnium maxima, quae natura sua adjunctam habet bonorum unius cum altero communicationem. Quocirca si sponsum Virgini Deus Josephum dedit, dedit profecto non modo vitae socium, virginitatis testem, tutorem honestatis, sed etiam excelsae dignitatis ejus ipso coniugali foedere participem”.
  11. 11.A cunctis nos quæsumus Domine mentis et corporis defende periculis: et intercedente beata et gloriosa semper Virgine Dei Genitrice Maria, cum beato Joseph, beatis Apóstolis tuis Petro et Paulo, et omnibus Sanctis, salutem nobis tribue benignus et pacem; ut destructis adversitatibus et erroribus universis, Ecclesia tua secura tibi serviat libertate. Per Dominum nostrum Jesum Christum Filium tuum, qui tecum vivit et regnat in unitate Spiritus Sancti, Deus, per omnia saecula saeculorum”.
  12. 12. Jo 1, 16: “Todos nós recebemos da sua plenitude graça sobre graça”. Cf. SANTO TOMÁS, IIIª, q. 7, a. 9.
  13. 13. Cf. ibid., q. 27, a. 5.
  14. 14. Cf. ibid., IIª IIae, q. 1, a. 7, ad 4.
  15. 15. Cf. santo tomás, Iª, q. 94, a. 3.
  16. 16. Cf. Dict. Théol. cath., art. Joseph (saint), col. 1518.
  17. 17. Hom. II super Missus est, prope finem: “Fidelis, inquam, servus et prudens, quem constituit Dominus suae Matris solatium, suae carnis nutritium, solum denique in terris magni consilii coadjutorem fidelissimum”.
  18. 18. Sermo I de S. Joseph: Omnium singularium gratiarum alicui rationali creaturae communicatarum, generalis regula est: quod quandocumque divina gratia eligit aliquem ad aliquam gratiam singularem, seu ad aliquem sublimem statum, omnia charismata donet, quae illi personae sic electae et ejus officio necessariae sunt atque illam copiose decorant. Quod maxime verificatum est in sancto Joseph, putativo Patre Domini nostri Jesu Christi, et vero Sponso Reginae mundi et Dominae angelorum, quia ab aeterno electus est fidelis nutritius atque custos principalium thesaurorum suorum, scilicet Filii ejus et Sponsae suae: quod officium fidelissime prosecutus est... Si compares eum ad totam Ecclesiam Christi, nonne iste est homo electus et specialis, per quem et sub quo Christus est ordinate et honeste introductus in mundum? Si ergo Virgini Matri tota Ecclesia sancta debitrix est, quia per eam Christum suscipere digna facta est; sic proferto, post eam, huic debet gratiam et reverentiam singularem... Omnibus electis Panem de coelo, qui coelestem vitam tribuit, cum multa solertia enutrivit”.
  19. 19. Summa de Donis S. Joseph (obra muito elogiada pelo Papa Bento XIV), pars IIIª, c. XVIII. Todo esse capítulo expõe a superioridade da missão de São José sobre a missão dos Apóstolos. Ver também ibid, c. XVII “De dono plenitudinis gratiae (in S. Joseph)”.
  20. 20. Summa S. Tomás, IIIª, q. 29, disp. 8, sect. 1.
  21. 21. Cf. mons. g. sinibaldi, La Grandezza de San Giuseppe, Roma, 1927, pp. 36 ss.: “O ministério de São José e a ordem da União Hipostática... Maria nasceu para ser a Mãe de Deus... Mas o casamento virginal de Maria depende de José... De onde o ministério de José tem uma estreita relação com a constituição da ordem da União Hipostática... Celebrando sua união virginal com Maria, José prepara a Mãe de Deus, como Deus quer; e é aí que reside sua cooperação na atuação do grande Mistério. — Sua missão pertence, por seu fim, à ordem hipostática, não por uma cooperação intrínseca, física e imediata, mas por uma cooperação extrínseca, moral e mediata (por Maria); o que é ainda, no entanto, uma verdadeira cooperação”.
  22. 22. Lc 1, 26-27.
  23. 23. Cf. santo tomás, IIIª, q. 24, a. 1, 2, 3, 4.
  24. 24. In IIIam, q. 24, a. 1 e 2.
  25. 25. Mt 1, 20; item Lc 2, 5.
  26. 26. IIIª, q. 29, a. 2.
  27. 27. Primeiro panegírico de São José, segundo ponto, ed. Lebarcq, t. II, p. 135 e ss.
  28. 28. No Evangelho de São Lucas (Lc 2, 51) diz-se que o menino Jesus era “submisso” a Maria e a José. José, porém, em sua humildade, deve ter experimentado (como alguém disse) certa confusão em ser o cabeça da Sagrada Família, ele que era o mais imperfeito dos três.
  29. 29. Cf. bossuet, ibidem, no exórdio.
  30. 30. Segundo panegírico de São José, exórdio.
  31. 31. Lc 9, 48.
  32. 32. Primeiro panegírico de São José, exórdio.
  33. 33. Segundo panegírico de São José, ponto terceiro.
  34. 34. Tratado do Amor de Deus, 1. VII, c. XIII.
  35. 35. Mt 27, 52 ss.
  36. 36. IV Sent. 1. IV, dist 42, q. 1, a. 3
  37. 37. Cf. IIIª, q. 53, a. 3, ad 2.
  38. 38. Sb 8, 1.
  39. 39. Cl 3, 3.

Artigo 5: A consagração do gênero humano à Virgem Maria para a pacificação do mundo

A gravidade dos acontecimentos dos últimos anos, depois da Revolução Russa, da Revolução Espanhola e da II Guerra Mundial, mostra que almas crentes devem recorrer cada vez mais a Deus por intermédio dos grandes mediadores que Ele nos tem dado, por causa de nossa fraqueza.

Esses acontecimentos e sua atrocidade mostram de uma maneira extraordinariamente impressionante a que ponto chegam os homens quando querem prescindir absolutamente de Deus, quando querem organizar as suas vidas sem Ele, longe d’Ele, contra Ele. Quando, no lugar de crer em Deus, esperar n'Ele, amá-Lo acima de tudo e amar o próximo n’Ele, queremos acreditar na humanidade, esperar nela, amá-la de modo exclusivamente terreno, ela não tarda em se mostrar a nós com suas corrupções profundas, com suas chagas sempre abertas: o orgulho da vida, a concupiscência da carne e dos olhos, e todas as brutalidades que decorrem disso. Quando, em vez de colocar nosso fim último em Deus que pode ser simultaneamente possuído por todos, como todos podemos possuir a mesma verdade, sem nenhum prejuízo, e a mesma virtude colocamos nosso fim último nos bens deste mundo, não tardamos em perceber que esses bens dividem-nos profundamente, porque a mesma casa, o mesmo campo, o mesmo território não podem pertencer simultânea e integralmente a muitos. Quanto mais a vida é materializada, mais os apetites inferiores são estimulados, sem nenhuma subordinação a um amor mais elevado, mais os conflitos entre indivíduos, entre as classes e os povos se exasperam, até que a Terra se torna, por fim, um verdadeiro inferno.

Nosso Senhor mostra desse modo aos homens o que podem obter prescindindo d’Ele. Esses fatos são um vivo comentário destas palavras do Salvador: “Sem mim, nada podeis fazer 1. “Quem não é comigo, é contra mim, e quem não junta comigo, desperdiça 2. “Buscai, pois, em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo 3. O salmista diz igualmente: “Se o Senhor não edificar a casa, é em vão que trabalham os que a edificam. Se o Senhor não guardar a cidade, inutilmente vigia a sentinela” 4.

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Os dois grandes males da hora atual, como disse o Papa Pio XI, são por um lado o comunismo materialista e ateu, segundo o programa dos “sem Deus”, e por outro lado um nacionalismo desenfreado que quer estabelecer a supremacia dos povos mais fortes sobre os fracos, sem respeito à lei divina e natural. Daí resulta o agudíssimo conflito em que o mundo inteiro se encontra.

Para remediar tais males, os melhores e mais zelosos entre os católicos, nas nações atualmente divididas, sentem a necessidade de uma oração comum, que congregue diante de Deus as almas profundamente cristãs dos diversos países para obter que o reino de Deus e de Cristo se estabeleça cada vez mais no lugar do reino do orgulho e da ambição.

Para esse fim, oferecem-se todos os dias Missas e a adoração do Santíssimo Sacramento; essa prática foi estabelecida em distintos países de modo tão rápido e amplo que se deve ver nela o fruto de uma grande graça de Deus.

Não se obterá a pacificação exterior do mundo senão pela pacificação interior das almas, reconduzindo-as a Deus, trabalhando-se para estabelecer nelas o reino de Cristo, no mais íntimo de sua inteligência, de seu coração e de sua vontade ativa.

Para esse retorno das almas perdidas Àquele somente que as pode salvar, importa recorrer à intercessão da Virgem Maria, a Medianeira universal e Mãe de todos os homens. Diz-se dos pecadores que parecem perdidos para sempre, que se deve confiá-los a Maria, e o mesmo deve ser dito dos povos cristãos que se perdem.

Toda a influência da Bem-aventurada Virgem tem por fim conduzir as almas para seu Filho, como a missão de Cristo, mediador universal, tem por fim conduzi-las a Seu Pai.

A oração de Maria, sobretudo depois de ser elevada ao Céu, é universal no sentido mais amplo da palavra. Ela roga não só pelas almas individuais da Terra e do Purgatório, mas também pelas famílias e por todos os povos que devem viver sob o resplendor da luz do Evangelho, sob a autoridade da Igreja. Ademais, sua oração é tanto mais poderosa quanto está mais iluminada e procede do amor a Deus e às almas, que nada nem ninguém poderá atenuar ou interromper. O amor misericordioso de Maria por todos os homens supera o amor de todos os santos e anjos reunidos, assim como o poder de sua intercessão sobre o Coração de seu Filho.

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Por isso, muitíssimas almas interiores, de diferentes lugares, diante das desordens inauditas e dos trágicos sofrimentos da hora presente, sentem a necessidade de recorrer, pela intercessão de Maria Medianeira, ao Amor redentor de Cristo.

Em diversos países, particularmente nos mosteiros de vida contemplativa fervorosa, recorda-se que muitos bispos franceses reunidos em Lourdes, no segundo Congresso Mariano nacional, em 27 de julho de 1929, expuseram ao Sumo Pontífice o desejo de uma consagração do gênero humano ao Coração Imaculado de Maria. Recorda-se também que o Pe. Deschamps, S. J., em 1900, o Cardeal Richard, Arcebispo de Paris, em 1906, o Pe. Le Doré, superior geral dos Eudistas, em 1908 e 1912, e o Pe. Lintelo, S. J., em 1914, tomaram a iniciativa de reunir petições para obter do Soberano Pontífice a consagração universal do gênero humano ao Coração Imaculado de Maria.

Os bispos da França, num ato coletivo, no início da Guerra de 1914, em dezembro do mesmo ano, consagraram a França à Santíssima Virgem. O Cardeal Mercier, em 1915, em sua carta pastoral sobre Maria Medianeira, saudou a Virgem Santíssima, Mãe do gênero humano, como a Rainha do mundo. O reverendo Pe. Lucas, novo superior geral dos Eudistas, obteve, finalmente, em poucos meses, mais de trezentas mil assinaturas para acelerar, por essa consagração, a paz de Cristo no reino de Cristo.

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A fortaleza de que necessitamos na terrível perturbação em que se encontra o mundo atualmente é a oração de Maria, Mãe de todos os homens que no-la obterá do Salvador.

Sua intercessão é poderosíssima contra o espírito do mal, que opõe, uns contra os outros, os indivíduos, as classes e os povos.

Se um pacto formal e plenamente consentido com o demônio pode ter conseqüências terríveis na vida de uma alma e perdê-la para sempre, qual efeito espiritual não produzirá uma consagração a Maria feita com grande espírito de fé e freqüentemente renovada com uma fidelidade ainda maior?

Recorda-se que em dezembro de 1836, o venerável pároco de Nossa Senhora das Vitórias, em Paris, celebrando a Missa no altar da Santíssima Virgem, com o coração completamente amargurado pelo pensamento da inutilidade de seu ministério, ouviu estas palavras “Consagra tua paróquia ao Santíssimo e Imaculado Coração de Maria”, e tão logo a consagração foi feita, a paróquia foi transformada.

A súplica de Maria por nós é a de uma Mãe iluminadíssima, amantíssima e fortíssima, que vela incessantemente por seus filhos, por todos os homens chamados a receber os frutos da Redenção.

Quem consagra à Santíssima Virgem a cada dia todos os seus trabalhos, suas obras espirituais e tudo o que realiza, comprova concretamente o que dizemos. Encontra fé e esperança quando tudo parece perdido.

Ora, se a consagração individual de uma alma a Maria obtém-lhe diariamente grandes graças de luz, bondade, amor e força, quais não serão os frutos de uma consagração do gênero humano ao Salvador, feita pela própria Virgem Maria, a pedido do Pai comum dos fiéis, do Pastor Supremo? Qual não será o efeito de uma consagração assim feita, sobretudo se os fiéis de diferentes nações se unissem para viver uma fervorosa oração freqüentemente renovada no momento da Missa?

Para obter esse ato do Soberano Pontífice é necessário que um grande número de fiéis tenha compreendido as recentes lições da Providência; em outro termos, é necessário que um grande número tenha compreendido o sentido e o alcance da consagração pedida. Caso contrário, ela não poderia produzir os efeitos esperados. No plano divino, as provações terminam quando realizam os efeitos que deveriam produzir, quando as almas foram beneficiadas, assim como o Purgatório termina para as almas que são purificadas.

Como dizia uma santa religiosa 5: “Não vivemos para nós: é necessário ver em tudo os desígnios de Deus; nossas dores atuais mesmo se chegassem ao ápice e nós mesmos perecêssemos no desastre compram e preparam os triunfos futuros e seguros da Igreja... A Igreja vai assim de luta em luta e de vitória em vitória, uma sucedendo a outra, até a Eternidade, que será o triunfo definitivo”. “Porventura não era necessário que o Cristo sofresse tais coisas, e que assim entrasse na sua glória? 6; é necessário também que a Igreja e as almas passem pelo mesmo caminho. A Igreja não dura apenas um dia; quando os mártires caíam como caem os flocos de neve no inverno, não era para crer que tudo estava perdido? Não, o sangue deles preparava o triunfo do futuro”. 

No período difícil que atravessamos, a Igreja tem necessidade de almas generosíssimas e verdadeiramente santas. É Maria, a Mãe da Divina Graça, Mãe puríssima, Virgem prudentíssima e fortíssima, quem deve formá-las.

De diversos modos, Nosso Senhor sugere às almas interiores uma oração cuja forma varia, mas cuja substância é a mesma: “Neste tempo onde um espírito possuído de orgulho levado até o ateísmo busca estender-se por todos os povos, sede, Senhor, como a alma de minha alma, a vida da minha vida, dai-me uma inteligência mais profunda do mistério da Redenção e de vossas santas humilhações, o remédio de todo orgulho. Concedei-me o desejo sincero de participar, na medida exigida a mim pela Providência, nessas saudáveis humilhações, e fazei-me encontrar neste anseio a força, a paz e, quando quiserdes, a alegria, para reanimar minha coragem e a confiança em tudo o que me rodeia”.

Para adentrarmos assim praticamente nas profundezas do mistério da Redenção, é necessário que Maria que entrou nesse mistério mais que nenhuma outra criatura, ao pé da Cruz instrua-nos silenciosamente e revele-nos, na letra do Evangelho, o espírito segundo o qual ela mesma tão profundamente viveu.

Digne-se a Mãe do Salvador, por sua oração, colocar as almas dos fiéis dos diversos povos sob o glorioso resplendor da palavra de Cristo: “Dei-lhes a glória que tu me deste, para que sejam um, como também nós somos um 7.

Podemos esperar que um dia, quando a hora providencial tiver chegado, quando as almas estiverem preparadas, o Pastor Supremo, tendo em conta os votos dos bispos e dos fiéis, quererá consagrar o gênero humano ao Coração Imaculado e misericordiosíssimo de Maria, para que ela mesma nos apresente mais insistentemente a seu Filho e obtenha-nos a pacificação do mundo. Essa seria uma nova afirmação da mediação universal da Santíssima Virgem.

Dirijamo-nos a ela com total confiança; a Virgem Maria é chamada de “esperança dos desesperados”, e recorrendo a ela como a melhor e a mais esclarecida das Mães, chegaremos a Jesus como nosso único e misericordiosíssimo Salvador.

 

Nota 8

 

Escrevemos este texto em 1941, e, pouco tempo depois, Sua Santidade o Papa Pio XII fez esta consagração ao Imaculado Coração de Maria, em 08 de dezembro de 1942. Eis aqui um resumo:

“Santíssima Rainha do Rosário, vitoriosa em todas as batalhas de Deus, eis-nos aqui prostrados diante de vós, com a certeza de obter, pela imensa bondade do vosso Coração maternal, o auxílio oportuno nas calamidades presentes.

“Deixai-vos comover por tantas almas em perigo de se perderem eternamente... Obtende-nos, Mãe de misericórdia, Mãe de Deus, a paz pela qual os povos suspiram: Paz na Verdade, Paz na Justiça, Paz na caridade de Cristo. Obtende-nos, sobretudo, as graças que, num instante, podem converter os corações dos homens; essas graças que preparam e garantem a Paz.

“Estendei vossa proteção aos infiéis. Aos povos separados pelo erro ou pela discórdia, dai-lhes a paz e trazei-os de volta ao único redil de Cristo, sob o único e verdadeiro Pastor.

“Obtende paz e liberdade completa à Santa Igreja de Deus. Desenvolvei nos corações dos fiéis o amor à pureza, à prática da vida cristã e o zelo apostólico.

“Assim como ao Coração do vosso Filho Jesus foram consagrados a Igreja e todo o gênero humano, para que, colocando n’Ele todas as suas esperanças, lhes fosse sinal e penhor de vitória e salvação, do mesmo modo e para sempre, vos sejam perpetuamente consagrados também a vós e ao vosso Coração Imaculado, ó Mãe nossa e Rainha do mundo, para que o vosso amor e vossa proteção acelerem o triunfo do Reino de Deus, e que em todas as nações, pacificadas entre si e com Deus, a vós proclamem bem-aventurada e convosco entoem, de um extremo ao outro da Terra, o eterno Magnificat de glória, amor e reconhecimento ao Coração de Jesus, onde só podem encontrar a Verdade, a Vida e a Paz.”

  1. 1. Jo 15, 5.
  2. 2. Mt 12, 30.
  3. 3. Mt 6, 33.
  4. 4. Sl 126, 1.
  5. 5. madre maria de jesus, fundadora da Sociedade das Filhas do Coração de Jesus: Pensamentos da serva de Deus, Maria de Jesus (1841-1884), Roma, 1918, pp. 43 e ss., 50.
  6. 6. Lc 24, 26.
  7. 7. Jo 17, 22.
  8. 8. Preparada pelo Autor para a edição espanhola.

Artigo 4: A união mística com Maria

Uma alma fiel à devoção que acabamos de falar realiza todas as suas ações por Maria, com Maria, em Maria e para Maria, e chega assim a uma grande intimidade com Nosso Senhor 1.

Os frutos superiores dessa consagração, quando vivida plenamente, são os seguintes em relação à humildade, às três virtudes teologais e aos dons do Espírito Santo que as acompanham: recebe-se pouco a pouco uma participação na humildade e na fé da Virgem Maria, uma grande confiança em Deus por intermédio dela, e a graça do puro amor e da transformação da alma à imagem de Jesus Cristo 2.

 

Participação na humildade e na fé da Virgem Maria

Pela luz do Espírito Santo, a alma conhecerá a sua má índole, verá por experiência que é naturalmente incapaz de todo bem salutar e sobrenatural, e quais obstáculos ainda se coloca freqüentemente sem prestar atenção à ação da graça em si mesma, como conseqüência de seu amor próprio. Chegará assim ao desprezo de si mesma, do qual fala Santo Agostinho em A Cidade de Deus (L, XIV, c. 28), quando diz: “Dois amores construíram duas cidades: o amor de si, levado até o desprezo de Deus, construiu a cidade de Babilônia, enquanto que o amor de Deus, levado até o desprezo de si mesmo, construiu a cidade de Deus”.

“A humilde Maria diz São Luiz de Montfort vos dará, enfim, parte de sua profunda humildade, com que vos desprezareis a vós mesmos, sem desprezar pessoa alguma, e gostareis até de ser desprezado”3.

“A Santíssima Virgem vos dará uma parte de sua fé, a maior que já houve na Terra, maior que a de todos os patriarcas, profetas, Apóstolos e todos os santos. Agora, reinando nos Céus, ela já não tem essa fé, pois vê claramente todas as coisas em Deus, pela luz da glória... [mas] guardou-a para seus fiéis servos e servas na Igreja militante. Quanto mais, portanto, ganhardes a benevolência dessa Princesa e Virgem fiel, tanto mais profunda fé tereis em toda a vossa conduta: uma fé pura, que vos levará à despreocupação por tudo que é sensível e extraordinário; uma fé viva e animada pela caridade, que fará com que vossas ações sejam motivadas por puro amor; uma fé firme e inquebrantável como um rochedo, que vos manterá firme e constante no meio das tempestades e tormentas; uma fé ativa e penetrante 4 que, semelhante a uma chave misteriosa, vos dará entrada em todos os mistérios de Jesus Cristo, nos novíssimos do homem e no coração do próprio Deus; fé corajosa que vos fará empreender sem hesitações, e realizar grandes coisas para Deus e a salvação das almas; fé, finalmente, que será vosso fanal luminoso, vossa via divina, vosso tesouro escondido da divina Sabedoria, e vossa arma invencível, da qual vos servireis para aclarar os que jazem nas trevas e nas sombras da morte, para abrasar os tíbios e os que necessitam do ouro candente da caridade, para dar vida aos que estão mortos pelo pecado, para tocar e comover, por vossas palavras doces e poderosas, os corações de mármore e derrubar os cedros do Líbano, e para, enfim, resistir ao demônio e a todos os inimigos da salvação 5.

Página admirável, que mostra o pleno desenvolvimento da fé infusa, iluminada pelos dons da inteligência e da sabedoria; “fides donis illustrata”, como dizem os teólogos.

 

Grande confiança em Deus por meio de Maria

A confiança em Deus é a esperança fortalecida que possui uma “certeza de tendência”, a de tender precisamente à salvação. A Santíssima Virgem diz S. Grignion de Montfort vos encherá de uma grande confiança em Deus e nela própria 6: 1º, porque não vos aproximareis mais de Jesus Cristo por vós mesmos, mas sempre por intermédio dessa bondosa Mãe; 2º, porque, tendo lhe dado todos os vossos méritos, graças e satisfações, para que deles disponha à sua vontade, ela vos comunicará suas virtudes e vos revestirá de seus méritos; 3º, porque, desde que vos destes inteiramente a ela, dar-se-á a vós em troca, e isso de um modo maravilhoso, mas verdadeiro; assim podereis dizer-lhe: “Eu vos pertenço, Santíssima Virgem, salvai-me!” Podereis dizer a Deus com o salmista: “Senhor, o meu coração não se ensoberbece, nem os meus olhos se mostram altivos, nem ando atrás de coisas grandes ou demasiado altas para mim. Pelo contrário, acalmei e apazigüei a minha alma, como um menino no regaço de sua mãe: como um menino, assim está a minha alma em mim (Sl 130, 1-2)” 7.

Depois de ter-lhe dado tudo o que tendes de bom, para que ela o guarde ou o comunique a outras almas, “confiareis menos em vós e muito mais nela, que é vosso tesouro”8. Recebereis, cada vez com maior abundância, as inspirações do dom de ciência, que mostra a vaidade das coisas terrenas e nossa fragilidade e, por oposição, o valor inestimável da vida eterna e do auxílio divino, motivo formal de nossa esperança 9.

 

Graça do puro amor e da transformação da alma

Na senda dessa devoção, a caridade desenvolver-se-á mais e mais, sob a influência daquela que é chamada Mater pulchrae dilectionis 10. “Essa Mãe do amor formoso aliviará vosso coração de todo escrúpulo e de todo temor servil; ela o abrirá e alargará para correr pelo caminho dos mandamentos de seu Filho (cf. Sl 118, 32), com a santa liberdade dos filhos de Deus, e para nele introduzir o puro amor, de que ela possui o tesouro; de tal modo que não mais vos conduzireis, como o fizestes até aqui, pelo receio ao Deus de caridade, mas pelo puro amor, unicamente. Passareis a olhá-Lo como vosso bondoso Pai, tratando de agradar-Lhe incessantemente; com Ele conversareis confidentemente, à semelhança de um filho com seu pai. Se, por acaso, O ofenderdes... pedir-Lhe-eis perdão humildemente, e Lhe estendereis simplesmente a mão... e sem desfalecimentos continuareis a caminhar para Ele” 11.

A alma de Maria comunicar-se-á a vós para glorificar o Senhor e para regozijar-se n’Ele, para viver o Magnificat. O católico fiel respira, portanto, espiritualmente Maria, como o seu corpo respira o ar12. Seu espírito de sabedoria comunica-se de tal forma que o servo e filho plenamente fiel e dócil torna-se uma cópia viva de Maria, sua Mãe espiritual. Ela o tranqüiliza sobre o mistério da predestinação.

Essa comunicação produz, enfim, uma transformação da alma à imagem de Jesus Cristo 13: “Santo Agostinho chama a Santíssima Virgem de forma Dei: o molde de Deus... 14 Aquele que é lançado no molde divino fica em breve formado e moldado em Jesus Cristo... posso muito bem comparar esses diretores... a escultores que, depositando toda a confiança na própria perícia, conhecimento e arte, dão uma infinidade de marteladas e embotam o cinzel numa pedra dura, ou numa madeira áspera, para fazer a imagem de Jesus Cristo; e às vezes não conseguem dar expressão natural a Jesus Cristo, ou por falta de conhecimento ou devido a algum golpe desastrado que prejudica toda a obra. Aqueles, porém, que abraçam esse segredo da graça que lhes apresento, eu os comparo a fundidores e moldadores que, tendo encontrado o belo molde de Maria, no qual Jesus Cristo foi natural e divinamente formado, sem se fiar na própria habilidade, mas unicamente na eficiência do molde, lançam-se e perdem-se em Maria para se tornarem o retrato natural de Jesus Cristo... Mas lembrai-vos que só se lança no molde o que está fundido e líquido, isto é, que é mister destruir e fundir em vós o velho Adão, para que venha a ser o novo em Maria”.

Ninguém se cansa de citar essas palavras simples e profundas, plenas de sabor sobrenatural e que verdadeiramente vertem da fonte.

A pureza de intenção cresce, enfim, muito, por essa via, porque nos despojamos de nossas próprias intenções, ainda que boas, para mergulharmos nas da Santíssima Virgem, quer sejam conhecidas ou desconhecidas. “Por aí entrais a participar da sublimidade de suas intenções, que foram tão puras, que ela deu mais glória a Deus pela menor de suas ações, por exemplo, fiando na sua roca, dando um ponto de agulha, do que um São Lourenço estendido na grelha, por seu cruel martírio, e mesmo que todos os santos por suas mais heróicas ações...[e mais que] todos os anjos... se contariam antes as estrelas do firmamento, as gotas d’água do mar e os grãos de areia das praias [que seus méritos]... [Ao dignar-se] receber em suas mãos virginais o presente de nossas ações, dá-lhes uma beleza e brilho admiráveis; ela mesma as oferece a Jesus Cristo, e Nosso Senhor é assim mais glorificado que se nós lhas oferecêssemos por nossas mãos criminosas. Enfim, porque nunca pensais em Maria sem que ela, em vosso lugar, pense em Deus... Maria está toda em conexão com Deus, e com toda a propriedade eu a chamaria a relação de Deus, o eco de Deus, que só diz e repete Deus... Quando a louvamos, amamos, honramos ou lhe damos algo, Deus é louvado, amado, honrado, e recebe por Maria e em Maria” 15.

 

Graça da intimidade mariana

Certas almas recebem uma vida de união com Maria por uma graça singular, a propósito da qual o Pe. Neubert, marianista, reuniu vários testemunhos muito significativos16. Deve-se também citar sobre esse ponto a obra A união mística com Maria, escrita por uma monja flamenga, Maria de Santa Teresa (1623-1677), que a experimentou pessoalmente 17.

O Pe. Chaminade, que exerceu o seu sacerdócio com o maior zelo em Bordeaux durante a Revolução Francesa, e que fundou a congregação dos Marianistas, teve também essa experiência. Ele escreveu: “Existe um dom de presença habitual da Santíssima Virgem, como existe o dom da presença habitual de Deus, muito raro, é verdade, mas que pode ser alcançado, porém, com uma grande fidelidade”. Como explica o Pe. Neubert, que traz esse texto em sua coletânea (loc. cit., p. 15), trata-se da união mística normal e habitual com Maria.

O venerável L. Ed. Cestac também teve esse dom e dizia: “Eu não a vejo (Maria), mas a sinto como o cavalo sente a mão do cavalheiro que o guia”18.

É concedido a esses servos de Deus tomar assim consciência da influência que Maria exerce constantemente sobre nós, transmitindo-nos as graças atuais que nos asseguram uma constante fidelidade.

Maria de Santa Teresa disse também: “Essa doce Mãe... tomou-me sob sua maternal condução e direção, semelhante à direção da professora que conduz a mão da criança para ela aprender a escrever... Está quase sem interrupção diante de minha alma, atraindo-me de modo amável e materno, sorrindo-me, estimulando-me, conduzindo-me e instruindo-me no caminho do espírito e na prática da perfeição das virtudes. E dessa forma não perco nunca, nem por um só instante, a alegria da sua presença juntamente com a de Deus”19.

“Maria produz a vida divina por um influxo perceptível de graças operantes, previdentes, fortificantes, estimulantes e solicitantes”20. “A natureza do amor consiste em unir-se ao objeto amado... Nesse sentido, o amor terníssimo, violento, abrasador e unitivo conduz a alma que ama a Virgem Maria a viver nela, a fundir-se nela, a ela estar unida, e a outros efeitos e transformações”21. “Então Deus se revela em Maria e por ela como num espelho” 22.

E assim aconteceu durante boa parte da vida dessa serva de Deus.

Certas almas que têm uma grande intimidade mariana dizem: “Não tenho jamais experimentado a presença de Maria em mim, mas, sim, sua presença muito próxima, o mais próxima possível; e uma grande alegria ao saber que é uma presença feliz”. Conhecemos um santo cartuxo que dizia: “Eu sofro, mas ela é feliz”.

Num belíssimo artigo já citado de La Vie Spirituelle 23, diz o Pe. M. I. Nicholas, O. P., falando de um santo religioso, o Pe. Vayssière, provincial dos dominicanos de Toulouse, morto em 1940: “Maria era o meio universal, a atmosfera mesma de sua vida espiritual. Esse estado de desapego e de completa união a Deus unicamente, no qual ele vivia, foi nele estabelecido, mantido e desejado pela Virgem Maria. ‘É a Santíssima Virgem que tudo faz. Devo-lhe tudo, absolutamente tudo’, dizia freqüentemente. Maria foi a Mãe que lhe exigiu o senso de sua pequenez, a doçura suprema e mais profunda de sua renúncia, a fecundidade de seu recolhimento e a inspiradora de sua oração. Não tomou consciência de nenhuma das graças de Deus sem perceber ao mesmo tempo o caminho pelo qual elas vinham. Nem todos os santos fizeram do coração da Santíssima Virgem o centro de sua vida espiritual. Para chegar a isso, é necessária uma luz, uma revelação da Santíssima Virgem, que pressupõe uma escolha da sua parte... ‘É ela dizia que nos molda. A via da lealdade filial à Virgem Maria consiste em reviver a própria vida de Jesus em Nazaré’. O Pe. Vayssière dizia ainda: ‘Quanto mais se é menor, tanto mais se permite que ela seja Mãe. A criança estará tanto mais unida à sua mãe quanto menor e mais frágil for... A perfeição do caminho da infância no plano divino é a vida em Maria’”24.

Finalmente, muitas almas santas aqui na Terra têm num caminho doloroso uma intimidade mariana profunda e vigorosa, da qual não têm ocasião de falar. Para muitas dessas almas há uma disposição particularíssima, um impulso para Maria, um olhar seguido de sua presença sensível, às vezes num instante, como a passagem de uma mãe que vem observar na sala onde estão seus filhos, se eles cumprem bem seus deveres. Em seguida, ela comunica uma piedade inefável, inspira os sacrifícios mais generosos e as renúncias que enriquecem e permitem entrar nas profundezas do Magnificat e também do Stabat Mater.

O autor dessa seqüência deve ter tido essa intimidade mariana e sentido, de alguma forma, a influência da Mãe do Salvador, que não só nos conduz à união com Nosso Senhor, mas que, em certo sentido, cria em nós essa união pela transmissão da graça. É isso que está expresso, como já vimos, no Stabat, pela repetição do fac:Fac ut tecum lugeam; fac ut ardeat cor meum; fac ut portem Christi mortem; fac me plagis vulnerari; fac me cruce inebriari et cruore Filii; fac me tecum pie flere... crucifixi condolere, donec ego vixero”.

Aqui é onde percebemos as relações profundas da Mariologia com a vida interior verdade elementar para todo cristão; mas as verdades elementares, quando examinadas e colocadas em prática, aparecem como as mais importantes e as mais sublimes, como acontece com as verdades expressadas no Pai Nosso.

  1. 1. Cf. s. grignion, op. cit, c. VIII, a. 2.
  2. 2. Ibid., c. VII.
  3. 3. Ibid., c. VII, a. 1, p. 204
  4. 4. Diz-se mais freqüentemente: uma fé aguçada pelo dom da inteligência, que dá precisamente, como diz Santo Tomás, essa penetração.
  5. 5. Cf. Ibid., c. VII, a. 2, pp; 205-206.
  6. 6. Cf. Ibid., c. VII, a. 4, p. 207.
  7. 7. Cf. Ibid., pp. 208-209.
  8. 8. Ibid., p. 209.
  9. 9. Ver, no final do livro, uma fórmula de oblação de nós mesmos a Maria para que ela nos ofereça inteiramente a Deus, Seu Filho.
  10. 10. Eclo 24, 24: “mãe do amor formoso”.
  11. 11. Cf. s. grignion, op. cit, c. VII, a. 3, pp. 206-207.
  12. 12. Cf. Ibid., a. 5, p. 210.
  13. 13. Ibid., a. 6, pp. 212-214.
  14. 14. Sermão 208 (atribuído a Santo Agostinho): “Si formam Dei te appellem, digna existi”. “Sois digna de ser chamada o molde de Deus”.
  15. 15. Ibid., c. VII, a. 7, pp. 215-216.
  16. 16. Cf. La Vie Spirituelle, janeiro de 1937: L'union mystique à la Sainte Vierge, pp. 15-29. Cf. mais adiante no capítulo III, art. II, “sobre o modo de influência de Maria em nós”.
  17. 17. Les Cahiers de la Vierge, de maio de 1936, publicou, com o título de L’union mystique à Marie, escrito por maria de santa teresa, o texto traduzido do flamengo por Van den Bossche (Introdução à vida mariana. – A vida mariana. – A finalidade da vida mariana). Ver p. 55: “Nesta vida, a alma se transforma em Maria por fusão de amor” e, portanto, leva à intimidade com Cristo (item pp. 62-68).
  18. 18. Apud ibid., p. 19.
  19. 19. Op. cit., p. 55-56, cf. pp. 65, 67.
  20. 20. Ibid., p. 64.
  21. 21. Ibid., p. 56.
  22. 22. Ibid., p. 63.
  23. 23. La Vie Spirituelle (abril de 1941, p. 278 e ss.).
  24. 24. Art. cit., p. 281.

Artigo 3: A consagração à Maria

Em seu Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem, São Luís Grignion de Montfort distingue acertadamente vários graus da verdadeira devoção à Mãe de Deus. Não fala mais que rapidamente, no capítulo III, das formas da falsa devoção, que é totalmente exterior, presunçosa, inconstante, hipócrita ou interesseira; considera principalmente a verdadeira devoção.

Assim como as outras virtudes, essa devoção cresce em nós com a caridade, que constitui primeiro o grau dos iniciantes, depois dos que estão progredindo e, por fim, dos perfeitos. 

O primeiro grau da verdadeira devoção a Maria consiste em rezar-lhe regularmente com recolhimento, dizendo, por exemplo, a oração do Angelus de forma adequada, quando tocar o sino. No segundo grau, se iniciam os sentimentos mais perfeitos de estima, veneração, confiança e amor que levam, por exemplo, a recitar devotamente o Terço ou o Rosário a cada dia. O terceiro grau leva à doação completa à Santíssima Virgem, consagrando-se a Ela para ser completamente de Nosso Senhor, por meio de Maria 1.

 

Em quê consiste essa consagração?

Consiste em prometer a Maria de recorrer filial e constantemente a ela e de viver uma habitual dependência a seu respeito, para chegar a uma união mais íntima com Nosso Senhor e, por seu intermédio, com a Santíssima Trindade que habita em nós.

A razão é diz o Santo 2 que Deus quer servir-se de Maria na santificação das almas, depois de ter se servido dela na Sua Encarnação, e acrescenta: “Nem creio que uma pessoa possa adquirir uma união íntima com Nosso Senhor e uma perfeita fidelidade ao Espírito Santo, sem uma grande união com a Santíssima Virgem e uma grande dependência de seu socorro... Maria era cheia de graça quando o arcanjo Gabriel a saudou e a graça superabundou quando o Espírito Santo a cobriu com sua sombra inefável. E de tal modo ela aumentou essa dupla plenitude, de dia a dia, de momento a momento, que chegou a um ponto imenso e inconcebível de graça, de sorte que o Altíssimo a fez tesoureira de todos os seus bens, dispensadora de suas graças, para enobrecer, elevar e enriquecer a quem ela quiser, para fazer entrar quem ela quiser no caminho estreito do Céu... Jesus é em toda parte e sempre o fruto e o Filho de Maria; e Maria é em toda parte a verdadeira árvore que dá o fruto da vida, e a verdadeira mãe que o produz”. 

No mesmo capítulo 3, diz também o Santo: “Pode-se ainda aplicar-lhe, com mais propriedade que São Paulo aplica a si próprio, as palavras: “Quos iterum parturio, donec formetur Christus in vobis” (Gl 4, 19): Dou à luz todos os dias os filhos de Deus, até que Jesus Cristo seja neles formado em toda a plenitude de sua idade. Santo Agostinho, sobrepujando a si mesmo, e tudo o que acabo de dizer, confirma que todos os predestinados, para serem conformes à imagem do Filho de Deus, são, neste mundo, ocultos no seio da Santíssima Virgem, e aí guardados, alimentados, mantidos e engrandecidos por essa boa Mãe, até que ela os dê à glória, depois da morte, que é propriamente o dia de seu nascimento, como qualifica a Igreja a morte dos justos. Ó mistério de graça, que os réprobos desconhecem e os predestinados conhecem muito pouco”.

Maria é, com efeito, sua mãe espiritual, os dá à luz espiritualmente, e seu nascimento espiritual definitivo é, após sua morte, a sua entrada na glória.

Concebe-se, é claro, que seria uma falta de humildade não recorrer freqüentemente à Medianeira universal que a Providência nos deu como uma verdadeira Mãe espiritual para formar o Cristo em nós, ou para formar-nos espiritualmente à imagem e semelhança do Filho de Deus.

A Teologia não pode deixar de reconhecer a perfeita legitimidade dessa consagração 4, legitimidade essa baseada nos dois títulos de Maria: o de Mãe de todos os homens e de Rainha.

Essa forma mais elevada de devoção à Santíssima Virgem, que é um reconhecimento prático da sua mediação universal, é uma garantia de sua particular proteção. Predispõe-nos a recorrer filial e perpetuamente a ela, à contemplação e à imitação das suas virtudes e de sua perfeita união a Nosso Senhor.

Na prática dessa dependência total com respeito à Virgem Maria, pode-se incluir, como indica o Santo de Montfort, o abandono e a entrega à Santíssima Virgem de tudo o que há de comunicável às outras almas em nossas boas obras, para que ela disponha segundo a vontade de seu divino Filho e para Sua maior glória. Aconselha, de fato, esta fórmula de consagração 5: “Escolho-vos neste dia, ó Maria Santíssima, em presença de toda a corte celeste, por minha Mãe e Senhora. Entrego-vos e consagro-vos, como escravo, meu corpo e minha alma, meus bens interiores e exteriores, e até o valor de minhas boas obras passadas, presentes e futuras, deixando-vos um pleno e inteiro direito de dispor de mim e de tudo o que me pertence, sem exceção, segundo vosso beneplácito, para a maior glória de Deus, no tempo e na eternidade”.

Esse abandono é, na realidade, a prática do que se tem chamado ato heróico, sem que exista aqui um voto, mas apenas uma promessa feita à Virgem 6.

Somos assim aconselhados a entregar a Maria nossos bens exteriores, se os temos, para que ela nos preserve de todo apego às coisas terrenas e nos inspire a fazer o melhor uso deles. Convém que lhe consagremos nosso corpo e nossos sentidos, para que ela os conserve em perfeita pureza, e convém também que lhe entreguemos nossa alma, nossas faculdades, nossos bens espirituais, virtudes e méritos e todas as nossas boas obras passadas, presentes e futuras.

Como entregaremos nossos méritos à Santíssima Virgem para que ela os disponha em benefício das outras almas na Terra ou no Purgatório? A Teologia explica isso facilmente, distinguindo em nossas boas obras o que há de incomunicável aos outros e o que há de comunicável.

 

O que há de comunicável em nossas boas obras?

Em primeiro lugar, o que há nelas de incomunicável é o mérito de condigno, que constitui, em justiça, um direito a um aumento de graça e à vida eterna. Esse mérito, estritamente pessoal, é incomunicável; difere nisso dos méritos de Nosso Senhor, que, em justiça, nos tem comunicado os seus méritos, porque foi constituído cabeça da humanidade 7.

Se, portanto, oferecemos a Maria nossos méritos de condigno, não é para que ela os comunique a outras almas, mas para que os conserve para nós, ajude-nos a fazê-los frutificar e, se tivermos a desgraça de perdê-los por um pecado mortal, para que nos obtenha a graça de uma contrição verdadeiramente fervorosa, que nos faça recobrar, não só o estado de graça, mas o grau de graça perdido 8.

Mas em nossas boas obras existe algo de comunicável às outras almas da Terra ou do Purgatório 9. Primeiro, o mérito de conveniência, de congruo proprie, que é também, como vimos antes 10, um mérito propriamente dito, baseado in jure amicabili, nos direitos de amizade que unem Deus à alma em estado de graça. Assim, uma mãe cristã, por sua vida virtuosa, pode merecer por um mérito de conveniência, como Santa Mônica, a conversão de seu filho. Deus, tendo presentes as intenções puras e as boas obras dessa excelente mãe, que Lhe está unida pela caridade, deu a seu filho, por causa dela, a graça da conversão 11.

Do mesmo modo, podemos e devemos rezar pelo próximo, pela sua conversão e aperfeiçoamento, pelos agonizantes e pelas almas do Purgatório. Aqui, ao valor impetratório da oração acrescenta-se o mérito de que falamos.

Podemos satisfazer, por fim, com uma satisfação de conveniência, de congruo, pelos outros, aceitar as contrariedades cotidianas para ajudá-los a expiar as suas faltas; podemos até mesmo, se recebermos a inspiração, aceitar voluntariamente a pena merecida pelos seus pecados, como a Virgem Maria fez por nós ao pé da Cruz, e alcançar-lhes, desse modo, a misericórdia de Deus 12. Os santos têm feito isso freqüentemente: Santa Catarina de Sena, por exemplo, disse a um jovem senense que tinha o coração cheio de ódio contra seus adversários políticos: “Pedro, eu tomo sobre mim os teus pecados e farei penitência em teu lugar, mas conceda-me uma graça: confessa-te”. “Eu o fiz recentemente”, disse o jovem. “Não é verdade, respondeu a santa, pois há sete anos não te confessas”, e começou a enumerar-lhe todas as faltas de sua vida. Aturdido e surpreso, ele arrependeu-se e perdoou os seus inimigos. Sem termos uma tão grande generosidade quanto a de uma Santa Catarina de Sena, podemos aceitar as penas diárias que se apresentam para ajudar outras almas a pagar suas dívidas à justiça divina.

Podemos também lucrar indulgências para as almas do Purgatório, abrir-lhes o tesouro dos méritos e das satisfações de Cristo e dos santos, e acelerar, assim, a sua libertação.

Há, portanto, em nossas boas obras, três coisas que são comunicáveis às outras almas: o mérito de conveniência, a oração e a satisfação. Pode acontecer, além disso, que um único e mesmo ato, como uma oração unida à austeridade ou à mortificação (tal como a adoração noturna, as Matinas ditas à noite ou uma Via Crucis), tenha um tríplice valor: meritório, satisfatório e impetratório, sem falar das indulgências.

Se oferecemos assim à Virgem Maria tudo o que existe de comunicável em nossas boas obras, não nos surpreenderemos que ela nos envie cruzes proporcionadas às nossas forças auxiliadas pela graça, para fazer-nos trabalhar, assim, na salvação das almas.

A quem convém aconselhar essa consagração e esse abandono? Não seria prudente aconselhá-la àqueles que a fariam por sentimentalismo ou por orgulho espiritual e não compreenderiam o seu alcance. Mas convém sugerir às almas verdadeiramente piedosas e fervorosas que a façam, primeiramente por alguns dias, depois por um tempo maior e, quando estiverem imbuídas de seu espírito, por toda a vida.

Mas objeta-se às vezes: fazer esse abandono é espoliar-se e não poder pagar nossa própria dívida, o que aumentará o nosso tempo de Purgatório. Essa foi a objeção feita pelo demônio a Santa Brígida quando ela se dispunha a realizar essa ação. Mas Nosso Senhor fê-la compreender que era uma objeção de amor próprio, que esquece a bondade da Virgem Maria; ela não se deixará vencer em generosidade e nos ajudará muito mais. Desprendendo-nos assim de nossos bens, receberemos da Santíssima Virgem cem por um. E mesmo o amor que atesta esse ato generoso obtém-nos já a remissão de uma parte do nosso Purgatório.

Outras pessoas objetam ainda: como rezar, então, pelos nossos pais, irmãos e irmãs, por nossos amigos e conhecidos, se entregamos de uma vez por todas as nossas orações a Maria?

Isso é esquecer que Maria conhece, melhor que nós, nossos deveres de caridade, e que será a primeira a recordá-los a nós. Mas entre nossos pais e amigos na Terra ou no Purgatório, existem almas que têm necessidade urgente de orações e de satisfações, e ignoramos quem sejam essas almas, enquanto que a Santíssima Virgem as conhece e poderá assim beneficiá-las com o que é comunicável em nossas boas obras, se nós a ela tudo abandonarmos 13.

Assim concebida, essa consagração e esse abandono fazem-nos penetrar cada vez mais, sob a direção de Maria, no mistério da comunhão dos santos. Essa prática é uma perfeita renovação das promessas do batismo 14.

 

Frutos dessa consagração

Essa devoção diz o Santo de Montfort 15 nos põe inteiramente ao serviço de Deus, nos leva a imitar o exemplo dado por Jesus Cristo, que quis ser submisso com respeito à sua santa Mãe (Lc 2, 51). Ela nos proporciona a especial proteção de Maria, que purifica e embeleza nossas boas obras ao apresentá-las a Seu Filho. Conduz-nos à união com Nosso Senhor; é um caminho fácil, curto, perfeito e seguro. Dá uma grande liberdade interior, alcança grandes bens ao próximo e é um meio admirável de perseverança. No livro, cada um desses pontos é desenvolvido da forma mais prática.

Está escrito particularmente no capítulo V 16: “É um caminho fácil; é um caminho que Jesus Cristo abriu quando veio a nós, e no qual não há obstáculo que nos impeça de chegar a Ele. Pode-se, é verdade, chegar a Ele por outros caminhos; mas encontram-se muito mais cruzes e mortes estranhas, e muito mais empecilhos, que dificilmente se vencem. Será preciso passar por noites obscuras, por combates e agonias terríveis, escalar montanhas escarpadas, pisando espinhos agudos, atravessar desertos horríveis. Enquanto que pelo caminho de Maria passa-se com muito mais doçura e tranqüilidade.

“Aí se encontram, sem dúvida, rudes combates a travar, e dificuldades enormes a vencer. Mas essa boa Mãe e Senhora está sempre tão próxima e presente a seus fiéis servos, para alumiá-los em suas trevas, esclarecê-los em suas dúvidas, encorajá-los em seus receios, sustê-los em seus combates e dificuldades, que, em verdade, esse caminho virginal para chegar a Jesus Cristo é um caminho de rosas e de mel, em vista de outros caminhos”. Vê-se acrescenta pelos santos que mais particularmente têm seguido essa via: Santo Efrém, São João Damasceno, São Bernardo, São Bernardino, São Boaventura, São Francisco de Sales etc.

O piedoso escritor reconhece, um pouco mais adiante, que os servos de Maria “recebem dela as maiores graças e favores do Céu, isto é, as cruzes; mas sustento que são também os servidores de Maria que levam essas cruzes com mais facilidade, mérito e glória; e mais que, onde outro qualquer pararia mil vezes e até cairia, eles não se detêm e, ao contrário, avançam sempre”, porque são mais ajudados pela Mãe de Deus, que lhes obtém, em suas provações, a unção do puro amor. Coisa extraordinária: a Santíssima Virgem torna mais fácil levar a cruz e mais meritório; mais fácil, porque nos ampara em sua infinita mansidão e paciência; mais meritório, porque nos obtém uma imensa caridade, que é o princípio do mérito.

Pode-se dizer também que é um caminho contrário ao “arrivismo”, pela humildade que exige, e até aparenta ser um fracasso, como o observado na vida de Nosso Senhor, mas tem grandes vantagens sobrenaturais.

“É um caminho curto... Avançamos mais, em pouco tempo de submissão e dependência a Maria, do que em anos inteiros de vontade própria e contando apenas com o próprio esforço; (...) avançará a passos de gigante em direção a Jesus Cristo, pelo mesmo caminho, que, como está escrito (Sl 18,6), Jesus trilhou para vir a nós (...) em poucos anos, se atinge a plenitude da idade de Jesus Cristo” 17.

“É um caminho perfeito, escolhido pelo próprio Deus. “O Altíssimo desceu perfeita e divinamente até nós por meio da humilde Maria, sem nada perder de sua divindade e santidade; e é por Maria que os pequeninos devem subir perfeita e divinamente ao Altíssimo sem recear coisa alguma” 18.

É, finalmente, um caminho seguro, porque a Santíssima Virgem preserva das ilusões do demônio, das ilusões da fantasia e das ilusões do sentimentalismo; ela acalma e regula a nossa sensibilidade, dá a esta um objeto puríssimo e santíssimo, e a subordina plenamente à vontade vivificada pela caridade, em vista da união com Deus.

Encontra-se aqui uma grande liberdade interior, que é a recompensa da dependência completa em que a alma se colocou. Os escrúpulos são eliminados, o coração dilata-se pela confiança e pelo amor terno e filial. O Santo cita uma passagem histórica que leu na vida da Madre Inês de Langeac, dominicana, que, “sofrendo tormentos de espírito, ouviu uma voz que lhe disse que, se ela quisesse livrar-se de todos os seus sofrimentos e ser protegida contra todos os seus inimigos, se fizesse quanto antes escrava de Jesus e de Sua Mãe Santíssima... Depois desse ato, todas as suas penas e escrúpulos cessaram, e ela se achou numa grande paz e bem-estar de coração, e isso a levou a ensinar essa devoção a muitas outras pessoas... entre outros, a M. Olier, que instituiu o seminário de São Sulpício, e a muitos outros padres e eclesiásticos do mesmo seminário” 19. Nesse seminário também foi educado São Luís Grignion.

Finalmente, diz ele 20, essa devoção, que proporciona tão grandes bens ao próximo, é um meio admirável de perseverança para quem a pratica, porque “confiamos à Santíssima Virgem, fiel por excelência, tudo o que possuímos... É em sua fidelidade que confiamos... para que ela conserve e aumente nossas virtudes e méritos, a despeito do demônio, do mundo e da carne, que envidam todos os esforços para no-los arrebatar”. Reconhecemos que somos muito fracos e miseráveis para conservá-los por nós mesmos. “Embora me entendais, almas predestinadas, falo mais abertamente. Não confieis o ouro de vossa caridade, a prata de vossa pureza, as águas das graças celestes, nem os vinhos de vossos méritos e virtudes a um saco roto, a um cofre velho e quebrado, a um vaso contaminado e corrompido, como vós sois; porque sereis pilhados pelos ladrões, isto é, os demônios, que buscam e espreitam, noite e dia, o momento próprio para o ataque; estragareis, com o mau odor do amor-próprio, da confiança própria e da vontade própria, tudo o que Deus vos dá de mais puro.

“Depositai, derramai no seio e no coração de Maria todos os vossos tesouros, todas as vossas graças e virtudes. Maria é um vaso espiritual, um vaso honorífico, um vaso insigne de devoção: vas spirituale, vas honorabile, vas insigne devotionis...

“As almas, porém, que não nasceram do sangue, nem da vontade da carne (Jo 1,13), mas de Deus e de Maria, me compreendem e apreciam; e é para elas, afinal, que eu escrevo...

“Se uma alma se lhe entrega [a Maria] sem reserva, ela se dá a essa alma também sem reserva”, e a faz encontrar o caminho que conduz os predestinados à perseverança final 21.

Tais são os frutos dessa consagração; Maria ama os que a ela se confiam totalmente, preserva-os, dirige-os, defende-os, protege-os e intercede por eles 22. Convém que nos ofereçamos a ela para que ela mesma nos ofereça a seu Filho segundo a plenitude de sua prudência e de seu zelo.

A Virgem Maria também produz em seus protegidos os frutos mais elevados, que são propriamente de ordem mística, como veremos 23.

  1. 1. Por isso São Luís Grignion de Montfort diz na própria fórmula da consagração: “Consagração de si mesmo a Jesus Cristo por meio de Maria”, mas no decorrer do livro repete com freqüência e de forma mais breve: “Consagração a Maria”, subtendendo-se: a Jesus por meio dela. São Luís apresenta desde o início de sua obra esta observação (op. cit., c. I, art. 2, nº 64) que se explica numa época em que o jansenismo, inimigo da devoção a Maria, tinha adeptos em todos os lugares: “Falo, porém, dos cristãos católicos, e mesmo de doutores entre os católicos que exercem a profissão de ensinar aos outros a verdade, e no entanto não Vos conhecem, Senhor, nem a Vossa Mãe Santíssima, a não ser de um modo especulativo, seco, estéril e indiferente. Esses senhores raras vezes falam de Maria e da devoção que se lhe deve ter, porque, dizem, receiam que se abuse dessa devoção e que se Vos ofenda, honrando excessivamente Vossa Mãe Santíssima... Às vezes metem-se a falar da devoção à Vossa Mãe Santíssima, não, porém, para assentá-la e propagá-la, e sim para destruir os abusos que dela se fazem”. Acreditam que Maria é um impedimento para alcançar a união divina, quando, ao contrário, toda a sua influência não tem outra finalidade que conduzir-nos a esta. Cf. também ibid, c. III. a. 1, parágrafo 1: “Os devotos críticos” – O Santo não exagerou a característica, pois foi a época em que esses “devotos críticos” procuravam divulgar entre os fiéis o panfleto ou libelo de Windenfelt, intitulado Avisos salutares da B. V. Maria a seus indiscretos. Cf. terrien, op. Cit., IV, p. 478.

    m. boudon, pelo contrário, prelado de Evreux, morto em odor de santidade, escreveu A santa escravidão da admirável Mãe de Deus, e o cardeal de Bérulle divulgou também essa devoção com seus escritos.

  2. 2. Ibid., c. I, a. 1, nº 44.
  3. 3. Ibid., c. I, a. 1, nº 33.
  4. 4. Cf. Dictionnaire de Théol. cath., art. Marie, col. 2470. A doutrina do Tratado de são luís grignion de montfort e às vezes até suas próprias expressões foram repetidas pelo Papa Pio X em sua encíclica Ad diem illum, de 2 de fevereiro de 1904, sobre Maria, Medianeira universal. Nessa encíclica, é dito que “Maria, associada a Nosso Senhor, nos mereceu com um mérito de conveniência todas as coisas que Ele próprio nos mereceu em justiça, de condigno, e que ela é a distribuidora de todas as graças”.
  5. 5. Ibid., Apêndice.
  6. 6. Mesmo os religiosos que já tenham feito os votos solenes de pobreza, castidade e obediência podem, evidentemente, fazer essa promessa, que os levará a penetrar mais intimamente no mistério da comunhão dos santos.
  7. 7. Cf. santo tomás, Iª IIae, q. 114, a. 6: “Por mérito condigno, ninguém, salvo Cristo, pode merecer para outrem a primeira graça”.
  8. 8. Ensina, com efeito, santo tomás, com os antigos teólogos, IIIª, q. 89, a. 2: “O penitente recebe uma graça maior ou menor, segundo seja maior ou menor a sua contrição. Pode acontecer que sua contrição seja proporcional a um maior grau de graça que aquele perdido; outras vezes pode ser proporcional a uma graça igual; enfim, outras, a uma menor. Por isso o penitente ora ressurge com maior graça que primeiro tivera; ora, com graça igual; e ora, enfim, com menor. E o mesmo ocorre com as virtudes resultantes da graça habitual”.
  9. 9. Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem, cap. IV, a. 1.
  10. 10. IIª Parte, c. II, a. 2: “Maria nos mereceu com um mérito de conveniência o que Jesus Cristo nos mereceu em estrita justiça”.
  11. 11. Cf. santo tomás, Iª IIae, q. 114, a. 6: “Por mérito côngruo, porém, podemos merecer para outrem a primeira graça”.
  12. 12. Cf. santo tomás, IIIª, q. 14, a. 1; q. 48, a. 2; Suppl., q. 13, a. 2: “quando dois homens estão unidos pela caridade, um pode satisfazer por outro”.
  13. 13. Cf. grignion de montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, c. IV. Respostas a algumas objeções – Ed. Vozes (Petrópolis), 40ª edição.
  14. 14. Cf. ibid., c. IV, a. 2.
  15. 15. Cf. ibid., c. V.
  16. 16. Ibid., c. V, a. 5, p. 146.
  17. 17. Ibid., pp. 149-151. São Francisco de Assis, certo dia, teve uma visão na qual seus filhos esforçavam-se em vão para alcançar Nosso Senhor por uma escada íngreme que subia diretamente até Ele; Jesus mostrou-lhe, então, outra escada, de inclinação mais suave, em cujo ápice estava a Virgem Maria e lhe disse: Aconselha teus filhos para que tomem a escada da minha Mãe.
  18. 18. Ibid., pp. 151-152.
  19. 19. Ibid., a. 6, pp. 164-165.
  20. 20. Ibid., a. 8, pp. 168-169.
  21. 21. Ibid., pp. 173-176.
  22. 22. Ibid., c. VI, a. 2.
  23. 23. Ibid., c. VII. - De acordo com o Santo, ibid. c. I, a. 2, parágrafo 3, a devoção à Santíssima Virgem será particularmente necessária nos últimos tempos, em que Satanás fará grandes esforços para seduzir, se pudesse, aos próprios eleitos (Mt 24, 24). “Se os predestinados iniciam-se, com a graça e a luz do Espírito Santo, na prática interior e perfeita dessa devoção, verão, portanto, claramente, tanto quanto o permite a fé, a estrela do mar, e chegarão ao porto seguro seguindo sua direção, apesar das tempestades e dos piratas. Conhecerão a magnificência dessa Rainha e se consagrarão inteiramente a seu serviço, como “súditos e escravos de amor” para combater o que São Paulo chama de “escravidão do pecado” (Rm 6, 20). Experimentarão suas doçuras e bondades maternais e amá-la-ão ternamente como seus filhos prediletos (ibid., c. I, a. 2). A fórmula “santa escravidão”, usada pelo Santo, foi algumas vezes criticada; mas não se pode esquecer que é uma escravidão de amor, a qual, longe de diminuir o caráter filial de nosso amor a Maria, o acentua. Como observou Mons. Garnier, Bispo de Luzón, numa carta pastoral de 11 de março de 1922, se existem no mundo milhares de escravos do respeito humano, da ambição, do dinheiro e de outras paixões mais vergonhosas, também há, felizmente, escravos da palavra dada, da consciência e do dever. A santa escravidão pertence a este último grupo. É apenas uma metáfora, que se opõe à escravidão do pecado.

Artigo 2: O Rosário, escola de contemplação

Entre as formas habituais da devoção mariana como o Angelus, o Ofício da Santíssima Virgem e o Rosário, falaremos especialmente desta última, enquanto nos dispõe e conduz à contemplação dos grandes mistérios da salvação.

É, depois do Santo Sacrifício da Missa, uma das mais belas orações e das mais eficazes, com a condição de bem entendê-la e de vivê-la verdadeiramente.

Acontece freqüentemente que o Terço, uma das três partes do Rosário, torna-se uma oração automática, durante a qual o espírito, não estando ocupado o bastante das coisas divinas, é vítima das distrações; oração, algumas vezes, precipitada e sem espírito, ou pela qual se pedem bens temporais sem nenhuma relação com os bens espirituais, a santificação e a salvação.

Então, ao ouvir recitar assim de uma forma demasiado mecânica e negligente o Terço, alguém se pergunta: o que resta, nessa oração, feita dessa forma, dos ensinamentos contidos nas grandes e numerosas encíclicas de Leão XIII sobre o Rosário, que Pio XI recordava numa de suas últimas cartas apostólicas antes de sua morte? 

Pode-se sem dúvida fazer uma boa oração, pensando confusamente na bondade de Deus e na graça pedida, mas para render ao Terço sua alma e sua vida, deve-se recordar que ele não é mais que uma das três partes do Rosário, e que deve ser acompanhado da meditação muito fácil, aliás dos mistérios gozosos, dolorosos e gloriosos, que nos recordam toda a vida de Nosso Senhor, de Sua Mãe Santíssima e da elevação de ambos ao Céu.

 

Os três grandes mistérios da salvação

Os quinze mistérios do Rosário, assim divididos em três grupos, não são outra coisa que os diversos aspectos dos três grandes mistérios da salvação: o da Encarnação, o da Redenção e o da Vida Eterna.

O mistério da Encarnação nos é lembrado pelas alegrias da Anunciação, da Visitação, da Natividade de Jesus, por sua apresentação no templo e seu encontro no meio dos doutores.

O mistério da Redenção nos é representado pelos diversos momentos da Paixão: a agonia de Jesus no Jardim das Oliveiras, a flagelação, a coroação de espinhos, o caminho do Calvário com a Cruz às costas, a Crucificação.

O mistério da Vida Eterna nos é recordado pela Ressurreição, Ascensão, Pentecostes, a Assunção de Maria e seu coroamento no Céu.

É todo o Credo que passa diante de nossos olhos, não de forma abstrata, por meio de fórmulas dogmáticas, mas de uma forma concreta pela vida de Cristo, que descende até nós e sobe ao Seu Pai para conduzir-nos a Ele. É todo o dogma cristão, em sua elevação e esplendor, para que possamos assim, todos os dias, penetrá-lo, saboreá-lo e alimentar nossas almas com ele.

Por isso, o Rosário é uma escola de contemplação, pois nos eleva pouco a pouco acima da oração vocal e da meditação ponderada ou discursiva. Os teólogos antigos compararam esse movimento da contemplação ao movimento em espiral 1, que descrevem algumas aves, como a andorinha por exemplo, para se elevar cada vez mais alto. Esse movimento em espiral é também como um caminho que serpenteia a montanha para tornar mais fácil a subida. Os mistérios gozosos da infância do Salvador conduzem à sua Paixão e sua Paixão ao Céu.

É, portanto, uma oração elevadíssima, se for bem compreendida, pois recoloca todo o dogma diante de nossos olhos de maneira acessível a todos.

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O Rosário é também muito prático, porque nos recorda toda a moral e a espiritualidade cristã, contempladas desde o alto pela imitação de Jesus Redentor e de Maria Medianeira, que são nossos grandes modelos.

Esses mistérios devem de fato reproduzir-se em nossa vida, numa certa medida desejada para cada um de nós pela Divina Providência. Cada mistério nos recorda uma virtude, sobretudo a humildade, a confiança, a paciência e a caridade.

Pode-se mesmo dizer que há três momentos em nossa viagem para Deus: contemplamos primeiro o fim último, de onde nasce o desejo da salvação e a alegria que o acompanha; isso é o que contemplamos nos mistérios gozosos, a boa nova da Encarnação do Filho de Deus que nos abre o caminho da salvação.

Devemos então colocar os meios muitas vezes penosos e dolorosos para a libertação do pecado e a conquista do Céu. Isso é o que nos repetem os mistérios dolorosos.

Descansamos, afinal, no fim último conquistado, na vida eterna, cujo prelúdio deve ser a vida presente. É isso que contemplamos nos mistérios gloriosos.

O Rosário é, assim, muito prático, pois nos toma em meio às nossas alegrias demasiado humanas, às vezes perigosas, para fazer-nos pensar naquelas muito mais elevadas da vinda do Salvador. Também nos apanha em meio aos nossos sofrimentos freqüentemente insensatos, às vezes agoniantes, quase sempre mal suportados, para recordar-nos que Jesus sofreu muito mais que nós e por amor a nós, e para que aprendamos a segui-Lo, carregando a cruz que a Divina Providência escolheu para nos purificar. O Rosário, finalmente, nos toma em meio às nossas esperanças demasiado terrenas, para fazer-nos pensar no verdadeiro objeto da esperança cristã, na vida eterna e nas graças necessárias para alcançá-la, por meio do cumprimento dos dois grandes preceitos do amor a Deus e ao próximo.

O Rosário bem compreendido é, portanto, não somente uma oração de súplica, mas uma oração de adoração ante o pensamento do mistério da Encarnação, uma oração de reparação, recordando a Paixão do Salvador, uma oração de ação de graças, ao pensar nos mistérios gloriosos que continuam reproduzindo-se incessantemente pela entrada dos eleitos no Céu.

 

O Rosário e a oração contemplativa

Deve-se recitar o Rosário de uma forma mais simples ainda e mais elevada, contemplando pelos olhos da fé a Jesus sempre vivo, que não cessa de interceder por nós e que influi sempre sobre nós, seja sob a forma da Sua vida infantil, da Sua vida dolorosa, ou da Sua vida gloriosa. Ele vem atualmente a nós para que assemelhemo-nos a Ele. Detenhamos o olhar de nosso espírito sobre o de Nosso Senhor, que se fixa em nós. Seu olhar está não só pleno de inteligência e de bondade, senão que é o olhar mesmo de Deus, que purifica, pacifica e santifica. É o olhar de nosso juiz, porém, mais ainda de nosso Salvador, de nosso melhor amigo, do verdadeiro esposo de nossa alma. O Rosário assim recitado na solidão e no silêncio transforma-se numa conversa muito frutuosa com Jesus, sempre vivo para vivificar-nos e atrair-nos a Ele. É também uma conversa com Maria, que nos conduz à intimidade de seu Filho.

Vê-se freqüentemente na vida dos santos que Jesus vem a eles, primeiro, para reproduzir neles mesmos Sua vida de criança, depois Sua vida oculta, em seguida Sua vida apostólica e, finalmente, Sua vida dolorosa, antes de fazê-los participar de Sua vida gloriosa. Pelo Rosário, Ele vem a nós de uma forma semelhante, de modo que essa oração bem recitada se transforma pouco a pouco numa conversa íntima com Jesus e Maria.

Explica-se então que os santos tenham visto no Rosário uma escola de contemplação 2.

Algumas pessoas objetam que não se pode pensar nas palavras e contemplar os mistérios ao mesmo tempo. A isso se responde freqüentemente: não é necessário refletir nas palavras da Ave Maria quando se medita ou contempla espiritualmente este ou aquele mistério. Essas palavras são como uma cantilena, que adormece os ouvidos, isola-nos dos ruídos do mundo, enquanto os dedos estão ocupados em desfiar as contas do Terço e indicam-nos materialmente em qual dezena estamos. Assim, a imaginação está ocupada enquanto a inteligência e a vontade estão unidas a Deus.

Têm-se objetado também que a forma monótona do Terço gera o automatismo. Essa objeção, que concerne ao Terço mal recitado, não tem razão de ser contra o Rosário, que nos familiariza com os diversos mistérios da salvação, recordando-nos, em nossas alegrias, tristezas e esperanças, como esses mistérios devem reproduzir-se em nós.

Toda oração pode degenerar em automatismo, até o Ordinário da Missa e o Prólogo do Evangelho de São João lido todos os dias no final do Santo Sacrifício. Mas isso provém não certamente de que essas orações sublimes sejam imperfeitas, mas de que não as dizemos como se deve, com fé, confiança e amor.

 

O espírito do Rosário tal qual foi concebido

Para melhor compreender o que deve ser o Rosário, deve-se recordar como São Domingos o concebeu sob a inspiração da Santíssima Virgem, no momento em que o sul da França era devastado pela heresia Albigense, imbuída dos erros maniqueístas, que negava a bondade infinita e a onipotência de Deus pela afirmação da existência de um princípio do mal muitas vezes triunfante.

Não só a moral cristã foi atacada, mas também o dogma, os grandes mistérios da criação, da Encarnação redentora, da vinda do Espírito Santo e da vida eterna à qual somos todos chamados.

Foi então que a Santíssima Virgem revelou a São Domingos um modo de pregação até então desconhecido, que Maria disse-lhe ser para o futuro uma das armas mais poderosas para lutar contra o erro e a adversidade. Arma muito humilde e simples, que faz o incrédulo sorrir, porque não compreende os mistérios de Deus.

Sob a inspiração que havia recebido, São Domingos dirigiu-se aos povos e cidades heréticas, reuniu as multidões e pregava-lhes sobre os mistérios da salvação, da Encarnação, da Redenção e da vida eterna. Como Maria havia lhe inspirado, distinguiu os três tipos de mistérios: gozosos, dolorosos e gloriosos. Pregava alguns momentos sobre cada um desses quinze mistérios e, após cada pregação, fazia-lhes recitar uma dezena de Ave-Marias, um pouco como se reza hoje a hora santa, em muitas partes intercaladas de orações ou de cantos religiosos.

Então, o que a palavra do pregador não conseguia fazer admitir, a doce oração da Ave Maria introduzia no fundo dos corações. Esse gênero de pregação foi o mais frutuoso 3

Essa forma de oração foi pregada com grande zelo na França pelo Bem-aventurado Alano de la Roche e, em seguida, por São Luís Grignion de Montfort, sobretudo em Vendée e em Poitiers.

Se vivermos dessa oração, as nossas alegrias, tristezas e esperanças serão purificadas, elevadas e sobrenaturalizadas; veremos cada vez mais claro, ao contemplar esses mistérios, que Jesus, nosso Salvador e nosso modelo, quer nos assemelhar a Ele; comunicar, primeiramente, um pouco da Sua vida na infância e da Sua vida oculta; em seguida, alguma semelhança com Sua vida dolorosa, para fazer-nos participar, por fim, de Sua vida gloriosa na eternidade.

  1. 1. Motuus obliquus (aut in forma spirae), diferente do movimento reto e do movimento circular. Cf. santo tomás, IIª, q. 180, a. 6. O movimento em linha reta eleva-se diretamente de um fato sensível, narrado, por exemplo, numa parábola como a do filho pródigo, à contemplação da misericórdia divina. O movimento em espiral eleva-se progressivamente pelos diversos mistérios da salvação até Deus, a quem eles nos conduzem. O movimento circular é semelhante ao da águia que chega aos cumes no ar e descreve aí muitas vezes o mesmo círculo, ou plana contemplando o sol e todo o horizonte que sua vista possa abarcar.
  2. 2. Na obra La Vie Spirituelle, de abril de 1941, o Pe. m. j. nicolas, o. p. escreveu sobre um santo religioso que morreu sendo provincial dos dominicanos de Toulouse, o Pe. Vayssière: “A graça da intimidade mariana que havia recebido, ele a devia, em primeiro lugar, ao estado de humildade ao qual se tinha reduzido e em qual havia consentido. Mas a devia também ao Rosário. Nos longos dias de solidão na Sainte-Baume (uma montanha do Var, onde se diz que Maria Madalena havia se retirado), ele tinha o costume de recitar vários Rosários durante o dia, às vezes até seis. Não era uma recitação mecânica e superficial; dizia-o muitas vezes de joelhos, punha nele todos os seus sentidos, saboreava-o, desejava-o e estava convencido de que no Rosário se encontra tudo o que se pode desejar na oração: «Recitai cada dezena – dizia – mais comungando que refletindo com a graça do mistério, e vivendo do espírito de Jesus e de Maria tal como nos apresenta o correspondente mistério... O Rosário é a comunhão da tarde (em outro lugar... diz que é a comunhão de todo o dia), que traduz em luzes e em resoluções fecundas a comunhão da manhã. Não é somente uma série de Ave-Marias recitadas com devoção, é Jesus Cristo revivendo na alma pela ação maternal de Maria». Vivia, portanto, dessa forma, num ciclo contínuo do Rosário, “envolto” por Cristo e Maria – segundo sua expressão – comungando em cada um dos estados da graça e penetrando, por esse meio, nos abismos do coração de Deus: «O Rosário é um encadeamento de amor entre Maria e a Trindade». Compreende-se que o Rosário tenha se tornado, para ele, uma contemplação, um caminho para a união pura com Deus, uma necessidade semelhante à da comunhão”.
  3. 3. O primeiro fruto do Rosário foi a vitória dos cruzados contra os albigenses em Muret. Enquanto Simão de Montfort lutava à frente dos cruzados, São Domingos, retirado numa igreja, implorava o auxílio de Maria e o conseguiu. Os hereges acabaram sendo derrotados. Foi o triunfo completo da fé sobre o erro.

Artigo 1: O culto de hiperdulia e seus benefícios

O culto em geral é uma honra tributada com submissão e dependência a uma pessoa que nos é superior e por causa de sua excelência 1. Quer seja somente interior ou exterior ao mesmo tempo, o culto difere, portanto, segundo a excelência mesma da pessoa à qual é devido. A Deus, por causa de sua excelência infinita de primeiro princípio e soberano Senhor de todas as coisas, é devido o culto supremo de latria ou de adoração, o ato da virtude da religião. Este é devido também à Humanidade do Salvador enquanto esta pertence à pessoa incriada do Verbo e, de uma forma relativa, ao crucifixo e a outras imagens do Salvador, pelo fato de representá-lo.

Às pessoas criadas que têm certa excelência é devido um culto chamado de dulia ou de respeito, que é o ato da virtude de dulia subordinada à da religião. Já na ordem natural, deve-se respeito aos pais, aos reis, a um chefe do exército, a um professor, a um sábio e, na ordem sobrenatural, deve-se a veneração aos santos, por causa da excelência de suas virtudes cuja heroicidade é reconhecida pela Igreja. Esse culto prestado aos servos de Deus honra o próprio Deus, que se manifesta por meio deles e que nos atrai para Si por eles 2. O Concílio de Trento defende a veneração dos santos contra os protestantes, que querem ver nesse culto um ato de superstição3.

Ademais, ensina-se comumente na Igreja que à Santíssima Virgem é devido um culto de hiperdulia ou de dulia suprema, em virtude de sua eminente dignidade de Mãe de Deus 4.

 

Natureza e fundamento desse culto

Existem, em relação ao culto devido à Maria, dois desvios absolutamente contrários um ao outro. Segundo o testemunho de Santo Epifânio 5, os coliridianos quiseram render à Santíssima Virgem um culto propriamente divino e oferecer-lhe sacrifícios. Esse erro mereceu o nome de Mariolatria, mas teve pouca duração.

Os protestantes, ao contrário, têm declarado que o culto de hiperdulia rendido pelos católicos à Santíssima Virgem Maria é uma superstição.

É fácil responder que o culto de latria ou de adoração somente pode ser tributado a Deus; se a Humanidade de Jesus é adorada é porque está unida pessoalmente ao Verbo, e se é rendido um culto de adoração relativa ao crucifixo é porque este representa Nosso Senhor 6. É claro, com efeito, que o crucifixo ou as imagens do Salvador não têm outra excelência que a de O representar. Se esse culto de adoração fosse rendido relativamente à Santíssima Virgem por causa de sua relação com o Verbo feito carne, isso seria facilmente compreendido por muitos como uma adoração que se endereça a Maria por causa de sua própria excelência, e seria assim ocasião de erro grave de idolatria, como observou Santo Tomás 7.

O culto devido a Maria é, portanto, um culto de dulia. Esse ponto de doutrina é mesmo de fé, segundo o Magistério universal da Igreja; de onde a condenação de três proposições contrárias de Molinos8.

Ademais, é uma doutrina comum e certa que se deve a Maria um culto eminente de dulia, ou hiperdulia, que lhe é próprio, por ser ela a Mãe de Deus. Esse é o ensinamento tradicional que aparece cada vez mais explicitamente nos escritos de São Modesto9 no século VII e São João Damasceno 10 no século VIII. Posteriormente em Santo Tomás 11, São Boaventura 12, Scot 13, Suárez 14 e em quase todos os teólogos católicos 15. A Sagrada Congregação dos Ritos confirmou-o num decreto de 01 de junho de 188416 e a liturgia também, no Ofício da Santíssima Virgem 17.

Vê-se por aí que o culto de hiperdulia é devido formalmente à Virgem Maria pela razão de que ela é a Mãe de Deus, porque a Maternidade Divina é, por seu termo, de ordem hipostática, muitíssimo superior à ordem da graça e da glória. Se, então, a Santíssima Virgem tivesse recebido somente a plenitude de graça e de glória sem ser a Mãe de Deus, ou em outras palavras, se fosse superior aos santos somente pelo grau de glória final e consumada, esse culto especial de hiperdulia não lhe seria devido18.

Enfim, é uma doutrina muito provável e muito comum que esse culto de hiperdulia não é somente um grau superior do culto de dulia devido aos santos, senão que é especificamente distinto, como a Maternidade Divina é, por seu termo de ordem hipostática, especificamente distinta do grau da graça e da glória 19.

Esse culto de hiperdulia é rendido à Virgem formalmente porque ela é a Mãe de Deus, Mãe do Salvador; contudo, é porque tem esse título supremo que merece ser chamada de Mãe de todos os homens, de Medianeira Universal e de Corredentora.

 

Quais são os frutos desse culto?

É atraída sobre os que rendem esse culto à Mãe de Deus uma imensa benevolência da sua parte, e são levados a imitar suas virtudes; também são conduzidos eficazmente à salvação, porque Maria pode obter a graça da perseverança final aos que lhe imploram fielmente. Isso porque a verdadeira devoção à Santíssima Virgem é considerada comumente como um dos sinais de predestinação. Ainda que não dê uma certeza absoluta e infalível de se estar salvo 20, essa devoção nos dá a firme esperança de obter a salvação. Essa firme esperança baseia-se no grande poder de intercessão de Maria e em sua grande benevolência para aqueles que a invocam 21. Nesse sentido, Santo Afonso afirma 22 que é moralmente impossível que estes se percam se, ao desejo de emenda, acrescentam a fidelidade em honrar a Mãe de Deus e encomendam-se à sua proteção. Se houver apenas vagos desejos de romper com o pecado, não há, portanto, ainda, um sinal provável de predestinação. Mas se os pecadores se esforçam em abandonar o pecado em que estão, e se buscam para isso a ajuda de Maria, ela não deixará de socorrê-los e de devolvê-los à graça de Deus. Assim fala com Santo Afonso23 a generalidade dos teólogos mais recentes.

De um modo geral, na Igreja, esse culto rendido à Virgem Maria confirma os fundamentos da fé, pelo fato de que deriva da fé na Encarnação redentora e evita, portanto, as heresias; também se diz de Maria: “Cuncta haereses interemisti in mundo”. Essa devoção conduz à santidade pela imitação das virtudes da Santíssima Virgem e glorifica Nosso Senhor ao honrar a Sua Mãe.

 

Objeções

Os racionalistas objetaram que a origem primitiva do culto religioso à Virgem Maria parece dever ser atribuída à influência das concepções semipagãs introduzidas na Igreja pelas conversões em massa realizadas no século IV.

Essa teoria foi já mencionada e contestada por São Pedro Canísio em sua obra De Maria Deipara Virgine 24. Foi examinada recentemente no Dictionnaire Apologétique, artigo Mariolâtrie 25, e no Dictionnaire de Théologie catholique, artigo Marie 26, pelo Pe. Merkelbach 27 e pelos autores por ele citados.

É certíssimo que, do ponto de vista dogmático, o culto à Santíssima Virgem não veio do paganismo no século IV, mas está fundado na excelência mesma de Cristo. No Ocidente, pelo menos desde o século II, as palavras natus ex Maria Virgine estão inseridas no símbolo que era explicado aos catecúmenos. Desde a época de São Justino, Santo Irineu e Tertuliano, Maria, a Mãe do Salvador, é chamada a nova Eva, a Mãe espiritual dos cristãos. Esse culto nasceu espontaneamente nos fiéis em razão de sua fé no mistério da Encarnação redentora 28.

Do ponto de vista histórico, deve-se acrescentar que tanto a primeira representação da Virgem tendo o menino Jesus sobre seu peito como a pintura da Anunciação, encontradas no cemitério de Priscila, em Roma, segundo o juízo dos mais competentes, remontam ao século II; outras obras são do século III, isto é, anteriores à conversão em massa dos pagãos, ocorrida no século IV 29.

Ademais, o culto à Virgem Maria é totalmente diferente do culto a Ísis no Egito, a Ártemis em Éfeso e a Ishtar na Babilônia; essas deusas representavam realmente a vida e a fecundidade natural da terra, e em seu culto mesclavam-se ritos e práticas imorais, e não o amor à castidade e à virgindade.

Além disso, os pagãos consideravam o objeto desses cultos como deusas, enquanto que Maria sempre foi considerada como apenas uma criatura que deu ao Verbo feito carne sua natureza humana.

Se existem certas analogias, são puramente exteriores, pelo fato de que todo culto, verdadeiro ou falso, tem certa conformidade com algumas aspirações do coração e se exprime por meio de imagens; mas não há nenhuma imitação. Por fim, sendo a Igreja tão oposta à religião pagã, não se pode fazer uma tal suposição.

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A objeção dos protestantes, segundo a qual o culto a Maria prejudica o culto a Deus, carece de fundamento. A Igreja Católica sustenta com efeito que o culto de latria ou de adoração é rendido exclusivamente a Deus, e a devoção à Santíssima Virgem, longe de opor-se ao culto divino, favorece-o, pois reconhece que Deus é o autor de todos os dons que veneramos em Maria; a honra prestada à Mãe converte-se em honra ao seu Filho e a Medianeira universal permite-nos entender melhor que Deus é o autor de todas as graças.

A experiência mostra, além disso, que a fé na divindade de Cristo conserva-se entre os católicos que praticam o culto a Maria, enquanto que desaparece entre os protestantes. Todos os santos, por fim, têm unido o culto a Nosso Senhor ao de Sua Mãe.

A devoção a Maria, sendo mais sensível, é mais intensa em certas pessoas que a devoção a Deus, mas o culto divino lhe é superior, uma vez que Deus é amado sobre todas as coisas com um amor de estima, que tende a se tornar mais intenso e que o é na medida em que a alma vive mais da vida espiritual desprendida dos sentidos.

A confiança em Maria, Mãe de Misericórdia, e no poder de sua intercessão, longe de diminuir a confiança em Deus, a aumenta. Se a confiança que os peregrinos de Ars tinham em São Joao Maria Vianney, no lugar de diminuir sua confiança em Deus, a aumentava, com mais forte razão a aumentará aquela confiança que os fiéis têm em Maria. Essas objeções, portanto, não têm absolutamente nenhum fundamento.

O culto de hiperdulia, pelo contrário, baseia-se na fé na divindade de Cristo, a qual se expressa no título mais glorioso de Maria, o de Mãe de Deus.

Seria uma falta de humildade diz São Luís Grignion de Montfort desprezar os mediadores que Deus nos envia por causa da nossa fraqueza. Longe de prejudicar a nossa intimidade com Deus, dispõe-nos a ela. Como Jesus nada faz nas almas que não seja para conduzi-las a seu Pai, da mesma forma, Maria não exerce sua influência nas inteligências e nos corações que não seja para conduzi-los à intimidade de seu Filho. Deus quis servir-se de Maria constantemente para a santificação das almas.

  1. 1. Cf. santo tomás, IIª IIae, q. 81, a. 1, ad 4, e a. 4; q. 92, a. 2. O culto é, portanto, mais que uma honra, é uma honra tributada com submissão por um inferior a outro, que lhe é superior. Deus honra os santos, mas não lhes presta culto, e, da mesma forma, o professor com relação aos seus alunos.
  2. 2. Cf. santo tomás, IIª IIae, q. 103, a. 4.
  3. 3. Cf. Denzinger, nº n.º 941, 952, 984.
  4. 4. Cf. Denzinger, nº 1255 ss., 1316, 1570. Segundo j. b. rossi, Roma sotterranea cristiana, Roma, 1911, t. III, p. 65 e ss. e 252, além de marucchi, Eléments d'Archeologie chrétienne, 2ª ed., 1911, pp. 211 e ss., as primeiras representações da Santíssima Virgem com o menino Jesus, encontradas nas catacumbas de Roma, datam dos séculos II, III e IV. A partir dessa época, santo epifânio (in Haer., 79) fala desse culto, condenando o erro dos coliridianos que o transformam em adoração. A instituição de festas especiais em honra de Maria parece remontar ao século IV. são gregório nazianzeno menciona esse culto (in Orat. XXIV, XI, P.G., t. XXXV, col. 1181; também santo ambrósio, De institutione virg., XIII, 83, P.L., t. XVI, col. 825. Existem treze orações a Maria atribuídas a Santo Efrém ( 378) na edição de Assemani. Posteriormente, esse culto aparece difundido no Oriente e no Ocidente.
  5. 5. Haer., 78-79.
  6. 6. cf. Santo Tomás, IIIª, q. 25, a. 3 e 5.
  7. 7. Ibid., a. 3, ad 3.
  8. 8. Denzinger, nº 1255 ss., 1316.
  9. 9. Encomium in B. V.; P. G., t. LXXXVI, c. 3303.
  10. 10. De fide orthod., IV, 15; P. G., XCIV, c. 1164, 1168; De imaginibus, orat. I, 14; P. G., ibid., c. 1214; In dormit. B. M. V., hom. II; P. G., XCVI, c. 741.
  11. 11. IIª IIae, q. 103, a. 4, ad 2: “A hiperdulia é a mais importante espécie de dulia tomada em sentido geral. Pois, devemos ao homem a máxima reverência por causa das suas afinidades com Deus”. — Item IIIª, q. 25, a. 5: “Sendo, porém, a bem-aventurada Virgem uma criatura racional, em si mesma, não lhe devemos a adoração de latria, mas só a veneração de dulia. De maneira mais eminente, contudo, que às outras criaturas, por ser Mãe de Deus. E por isso dizemos que lhe é devida, não qualquer dulia, mas a hiperdulia”.
  12. 12. In III Sent., d. 9, a. 1, q. 3:  “Ex hoc quod Mater Dei est, praelata est coeteris creaturis, et eam prae coeteris decens est honorari et venerari. Hic autem honor consuevit a magistris hyperdulia vocari”.
  13. 13. In III Sent., dist. 9, q. unic.
  14. 14. In IIIam, disp. XXII, sect. 11, n. 4.
  15. 15. Cf. Dict. Théol., art. Marie, cc. 2449-2452.
  16. 16. “Eminentiori veneratione, supra caeteros sanctos colit Ecclesia Reginam et Dominam angelorum, cui in quantum ipsa est Mater Dei... debetur, non qualiscumque dulia, sed hyperdulia”.
  17. 17.Felix namque es, sacra Virgo Maria, et omni laude dignissima, quia ex te ortus est sol Justitiae, Christus Deus noster”.
  18. 18. A maioria dos teólogos, nesse ponto, distancia-se de vazquez, que sustentou, em IIIam t. I, disp. C, c. II, que Maria é honrada com o culto de hiperdulia principalmente por sua eminente dignidade. É uma conseqüência de sua opinião que atribuía à graça santificante uma dignidade superior à graça da Maternidade Divina. Não considerou corretamente que a Maternidade Divina é, por sua finalidade, de ordem hipostática. Cf. Dict. Théol., art. Marie, c. 2452 e ss.
  19. 19. Essa é a opinião do Pe. merkelbach, op. cit, pp. 402, 405. Muitos teólogos interpretam no mesmo sentido as palavras de santo tomás, IIª IIae, q 103, a. 4, ad 2: “A hiperdulia é a mais importante espécie de dulia tomada em sentido geral. Pois, devemos ao homem a máxima reverência por causa das suas afinidades com Deus”.
  20. 20. Proposição condenada pelo Concílio de Trento, Denzinger, nº 805. “Ninguém, além do mais, enquanto vive nesta condição mortal, deve presumir do arcano mistério da predestinação divina a ponto de se julgar, seguramente, no número dos predestinados, como se fosse verdade que quem foi justificado ou não pode mais pecar ou, se pecar, deve contar com um seguro arrependimento. Pois não se pode saber a quem Deus escolheu para si, senão por uma especial revelação”.
  21. 21. Dict. Théol. cath., art. Marie, c. 2458.
  22. 22. Glória de Maria, Iª p., c. VIII.
  23. 23. Ibid., Iª p., c. I. 4. Cf. terrien, op. cit., t. IV, pp. 291 e ss.
  24. 24. De Maria Deipara Virgine, 1. V, c. XV, 1584, Lion, pp. 519 e ss.
  25. 25. Dict. Apologétique, art. Mariolâtrie, col. 319 e ss.
  26. 26. Dict. théol. cath., art. Marie, col. 2445 e ss.
  27. 27. Merkelbach, op. cit., pp. 408 e ss.
  28. 28. Deve-se dizer com o pe. hugon, Tract. Dogmatici, 1926, t. II, p. 791, que esse culto a Maria foi inclusive preparado pela saudação do anjo no dia da Anunciação: Ave, gratia plena; pela saudação de Isabel, quando disse à Maria, por inspiração do Espírito Santo: Bendita sois vós entre as mulheres (Lc 2, 42), palavras encontradas na saudação angélica tal como a recitam todos os fiéis. Ademais, diz-se do menino Jesus (Lc 2, 51) que lhe era submisso; o que equivale a dizer que nosso próprio Senhor nos deu o exemplo de obediência e respeito à sua Mãe.
  29. 29. Cf. marucchi, Eléments d'Archeologie chrétienne, 2ª ed., Roma, 1906, pp. 323 e ss.

A Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem

Falaremos neste capítulo: 1º, do culto de hiperdulia devido à Mãe de Deus; 2º, das formas habituais da devoção mariana, especialmente do Rosário, como escola de contemplação; 3º, da consagração à Virgem Maria tal qual explica São Luís Grignion de Montfort; 4º, da união íntima e mística com a Santíssima Virgem.

Artigo 2: Aspectos particulares da realeza de Maria

Essa doutrina da realeza universal da Mãe de Deus concretiza-se mais se considerarmos seus diversos aspectos expressos nas litanias lauretanas: “Rainha dos anjos, dos patriarcas, dos profetas, dos Apóstolos, dos mártires, dos confessores, das virgens, de todos os santos, Rainha da Paz”.

 

Rainha dos anjos

Maria é rainha dos anjos porque a sua missão é superior a deles; ela é Mãe de Deus, de quem os anjos são apenas servidores. Ela encontra-se tanto mais elevada sobre eles quanto o é a diferença que existe entre o nome de mãe e o de servidor. Somente ela, com Deus Pai, pode dizer a Jesus Cristo: “Tu és meu Filho, eu te gerei”.

Ela é, então, superior aos anjos por sua plenitude de graça e de glória, que supera a de todos os anjos reunidos. Maria supera-os por sua pureza, pois a recebeu não só para si mesma, mas para comunicá-la aos outros. Foi a mais perfeita e pronta na obediência aos mandamentos de Deus e em seguir os Seus conselhos. Cooperando na redenção da humanidade, em união com Nosso Senhor, mereceu por um mérito de conveniência até para os próprios anjos as graças acidentais pelas quais eles nos ajudam no caminho da salvação, e a alegria que eles experimentam por tomar parte nela. Isso é certo, se recordamos que Maria mereceu de congruo tudo o que Jesus Cristo mereceu de condigno.

Como disse Justino de Miechow 1, se os anjos têm servido a Nosso Senhor, quanto mais o fez a Virgem Maria, que O concebeu, deu-O à luz, alimentou-O em seus braços, levou-O para o Egito para preservá-Lo da ira de Herodes.

Ademais, os anjos não têm outra função que a guarda de um homem ou de uma comunidade, enquanto que Maria é a guardiã celestial de todo o gênero humano e de cada um de nós em particular.

Se os anjos são mensageiros de Deus, esse privilégio pertence a Maria de uma maneira muito superior, pois ela nos trouxe não só uma palavra criada, expressão do pensamento divino, mas a Palavra incriada, que é o Verbo feito carne.

Os arcanjos são destinados a guardar esta ou aquela cidade, mas a Santíssima Virgem protege todas as cidades e todas as igrejas que nelas se encontram. Muitíssimas cidades colocaram-se sob sua proteção.

Os principados estão à frente das províncias, mas a Virgem Maria toma sob sua proteção a Igreja inteira.

As potestades afugentam os demônios; Maria esmaga a cabeça da serpente infernal; ela é terrível para os demônios pela imensidão de sua humildade e pelo ardor de sua caridade.

As virtudes operam milagres, como instrumentos do Altíssimo, mas o maior milagre foi conceber o Verbo de Deus encarnado para a nossa salvação.

As dominações comandam os anjos inferiores; Maria comanda todos os coros dos anjos.

Os tronos são espíritos nos quais Deus habita de uma maneira mais íntima; Maria, que deu o nascimento a Nosso Senhor, é a sede da Sabedoria e a Santíssima Trindade habita nela de modo muitíssimo mais íntimo que nos anjos mais elevados, quer dizer, segundo o grau de graça consumado que ela recebeu.

Os querubins brilham pelo esplendor da sua ciência; mas a Santíssima Virgem penetrou mais profundamente nos mistérios divinos e possui a luz da glória e a visão beatífica num grau muito superior ao mais perfeito dos querubins. Ademais, trouxe em seu seio “Aquele em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência de Deus”. Ela conversou familiarmente com Ele por mais de trinta anos aqui na Terra, e no Céu está mais perto Dele que ninguém.

Os serafins ardem em fogo de santo amor; mas a viva chama da caridade é muito mais ardente no coração de Maria. Ela ama a Deus mais que todas as criaturas juntas, pois o ama não só como seu Criador e Pai, mas também como seu menino, como seu Filho querido e legitimamente adorado.

Ela é, portanto, verdadeiramente Rainha dos anjos; eles a servem com fidelidade, rodeiam-na de veneração, admiram sua terna solicitude em guardar cada um de nós, em velar sobre as nações e sobre a Igreja inteira; os serafins admiram a intensidade do seu amor, seu zelo pela glória de Deus e pela salvação das almas. Assim fala Justino de Miechow, cujo tratado acabamos de resumir.

 

Rainha dos patriarcas

Depois de tudo o que foi exposto, não se poderia evidentemente duvidar da superioridade de Maria sobre Adão inocente. Ela recebeu a graça num grau muito mais elevado e possuiu mesmo os principais efeitos da justiça original: a perfeita subordinação da sensibilidade às faculdades superiores ― inteligência e vontade ― como a subordinação constante destas a Deus, a quem amava sobre todas as coisas. A caridade de Maria, desde o primeiro instante de sua concepção, superou em muito a de Adão inocente; ela havia recebido, ademais, ainda que numa carne passível e mortal, o privilégio de evitar todo pecado, mesmo o mais leve.

Sua intimidade com Deus superou em muito também a que tiveram Abel, Noé, Abraão, Isaac, Jacó e José. O ato mais heróico de Abraão foi aquele pelo qual já se preparava para imolar seu filho Isaac, que era o filho da promessa. Com um mérito infinitamente maior, Maria ofereceu seu Filho que lhe era incomparavelmente mais caro que a sua própria vida, e não desceu um anjo do Céu para impedir, como no caso de Isaac, a imolação sangrenta de Nosso Senhor na Cruz.

Maria brilha entre os patriarcas como um astro sem igual, por seu título de Mãe de Deus, pela elevação da sua caridade e pela heroicidade de todas as suas virtudes.

 

Rainha dos profetas

A profecia, em sentido próprio, é o dom de conhecer com certeza e de prever o futuro pela inspiração divina. Esse dom foi conferido a Abraão, a Moisés, a Davi, a Elias, a Eliseu, aos profetas maiores, Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel, e aos doze profetas menores. No Novo Testamento, São João e São Paulo foram ambos profetas e Apóstolos. Esse dom de predizer o futuro não foi próprio e exclusivo de homens: a Escritura o reconhece em Maria (irmã de Moisés), Débora, Ana (mãe de Samuel) e Isabel (mãe de São João Batista).

Maria é a rainha dos profetas, pois não só previu o futuro, quando cantou o Magnificat: “Todas as nações me chamarão bem-aventurada”, mas também os profetas que anunciaram o mistério da Encarnação falaram dela: Aquele que os profetas têm anunciado, ela teve a honra de concebê-Lo, carregá-Lo em seu seio, alimentá-Lo, abraçá-Lo contra seu coração, de habitar muito tempo com Ele, de entender Suas palavras sobre o mistério do Reino de Deus, palavras cujo sentido penetrou mais profundamente que os discípulos de Emaús e que os próprios Apóstolos.

Ela teve o dom da profecia no grau mais elevado depois de Jesus, e ao mesmo tempo a inteligência perfeita da plenitude da revelação que Nosso Senhor veio trazer ao mundo.

 

Rainha dos Apóstolos

Trata-se dos doze Apóstolos escolhidos pelo Salvador para pregar o Evangelho e fundar a Igreja nascente. Como a Virgem Maria é chamada de sua rainha?

A dignidade de Mãe de Deus, sendo por seu fim de ordem hipostática, ultrapassa a dos Apóstolos. O apostolado é um ministério 2. Ora, segundo a observação de Santo Alberto Magno, a Santíssima Virgem não é somente ministra de Deus, mas, em sua qualidade de Mãe do Salvador, Lhe é mais intimamente associada 3.

Ademais, depois da Ascensão, os Apóstolos tinham ainda necessidade de orientações, de conselhos, de ajuda, e ninguém melhor que Maria poderia prodigalizar-lhes. Ela os consolou na tristeza imensa que provaram após a partida de Nosso Senhor para o Céu, quando se sentiram sozinhos e impotentes para trabalhar na evangelização do mundo pagão, em meio a dificuldades insuperáveis, com a perspectiva das perseguições anunciadas. Jesus deixou-lhes Sua Mãe para fortalecê-los. Ela foi para eles, como se disse, um segundo Paráclito, um Paráclito visível, uma medianeira garantida; foi sua estrela no meio da tempestade. Cumpriu os deveres de uma Mãe em relação a eles. Nenhum deles saía de sua presença sem ter sido iluminado, consolado e sem se sentir melhor e mais forte.

Por seu exemplo em suportar as calúnias, por sua experiência das coisas divinas, ela os amparou contra as injúrias, os escárnios, as perseguições e, por suas preces, alcançou-lhes a graça da perseverança até o martírio.

Não há pessoa mais misericordiosa que ela, mais valente nas provações, mais humilde, mais piedosa, mais caridosa.

Enfim, ninguém melhor que ela poderia falar-lhes da concepção virginal de Cristo, de seu nascimento, de sua infância, da vida oculta em Nazaré e do que tinha sofrido a Santa Alma do Salvador na Cruz. Isso é o que leva Santo Ambrósio 4 a dizer: “Não é extraordinário que São João tenha nos falado sobre o mistério da Encarnação melhor que os outros; ele se encontrava diante da própria fonte dos segredos celestiais” 5. Ele relata no quarto evangelho a intimidade da Mãe de Deus, em cuja intimidade viveu.

 

Rainha dos mártires

Esse título foi dado à Virgem Maria por Santo Efrém, São Jerônimo, Santo Ildefonso, Santo Anselmo e São Bernardo. Trata-se do martírio do coração ou de desejo, anunciado pelo velho Simeão: “Uma espada de dor transpassará a tua alma6.

Sua dor foi proporcionada a seu amor por seu Filho, quando O chamavam de sedutor do povo, violador da lei, possuído pelo demônio e quando preferiram Barrabás a Ele; quando O viu pregado na Cruz, torturado pela coroa de espinhos, pela sede e por todas as angústias de Sua Alma de sacerdote e de vítima.

Todos os golpes que seu Filho flagelado e crucificado recebia, Maria os recebia em si mesma, pois ela e Cristo formavam um só, pela profundidade de seu amor por Ele. Como disse Bossuet: “uma só cruz bastava assim para que ambos fossem mártires”. Ambos ofereciam um só e o mesmo sacrifício, e como ela amava seu Filho mais que a si mesma, sofria mais que se tivesse sido torturada ela mesma pelos verdugos.

Suportou esse martírio para confessar a fé no mistério da Encarnação redentora, e nela, nesse momento, a fé da Igreja permaneceu firme, viva, ardente e intensa, mais que em todos os mártires.

Deve-se acrescentar que a causa de todos os sofrimentos de Maria foi a mesma da Paixão de seu Filho: a acumulação dos crimes da humanidade e a ingratidão dos homens que tornariam esses sofrimentos parcialmente inúteis.

Não se deve esquecer tampouco que a Virgem Maria sofreu após a concepção do Salvador, mais ainda após a profecia do velho Simeão, e depois de uma maneira muito mais acerba durante a vida pública de Jesus, vendo a crescente oposição dos fariseus, que deveria chegar ao paroxismo durante a Paixão e ao pé da Cruz.

Embora tenha ficado repleta de uma imensa dor, seu zelo pela glória de Deus e pela salvação das almas proporcionou-lhe uma santa alegria ao ver seu Filho consumar a Sua obra redentora pelo mais perfeito dos holocaustos.

Enfim, Maria ampara os mártires em seu suplício: se é chamada de Nossa Senhora da Boa Morte, é porque vela pelos moribundos que a invocam e, com mais forte razão, assiste aqueles que morrem para que confessem sua fé em Cristo Redentor.

 

Rainha dos confessores. Maria e os sacerdotes

Maria é a rainha de todos os que confessam a fé em Cristo, porque ela mesma a confessou mais fervorosamente que ninguém desde a Anunciação até a morte de Jesus, e até depois da Assunção.

Mas convém falar aqui sobretudo do papel que Maria desempenha em relação aos sacerdotes, os ministros de Cristo. O sacerdote, para representar verdadeiramente Nosso Senhor ― que ele deve tornar presente no altar e oferecer sacramentalmente na Missa ― deve unir-se cada vez mais aos sentimentos de Cristo, à oblação sempre viva ao Sagrado Coração de Jesus, “que não cessa de interceder por nós”. O sacerdote, ademais, deve distribuir, pelos diversos sacramentos, o fruto dos méritos de Cristo e o de Sua Mãe Santíssima.

Maria tem também um zelo particular pela santificação dos sacerdotes. Vê neles a participação do sacerdócio de seu Filho e vela muito especialmente por suas almas, para que façam frutificar a graça de sua ordenação, para que se tornem uma viva imagem do Salvador.

Ela os guarda contra os perigos que os cercam, reanima-os com grande bondade se chegam a vacilar. Ama-os como a filhos prediletos, assim como amou São João, que lhe foi confiado pelo próprio Cristo no Calvário. Ela atrai seus corações para elevá-los e conduzi-los cada vez mais à intimidade do Cristo, para que um dia possam dizer com toda verdade: “E vivo, já não eu; mas é Cristo que vive em mim7.

Assiste-os sobretudo no altar, para que adquiram uma consciência cada vez mais clara do que deve ser sua união ao Sacerdote principal do sacrifício da Missa. Maria está espiritualmente presente a essa oblação sacramental, que perpetua substancialmente o sacrifício da Cruz e distribui as graças atuais que os dispõem a celebrá-la com o devido recolhimento e a entrega generosa de si mesmos, pois o sacerdote não só participa no sacerdócio do Salvador, mas também em sua vida de vítima, na medida que lhe é exigida pela Providência.

Por isso, Maria forma e modela o coração dos sacerdotes à imagem do Coração de Jesus 8

Ademais, juntamente com Ele, desperta vocações sacerdotais e as cultiva, pois onde não há sacerdote, não há batismo, não há absolvição, não há Missa, não há matrimônio católico, não há extrema unção, não há sequer vida católica; é o retrocesso ao paganismo.

Assim como Cristo quis servir-se de Maria para que ela o ajudasse na obra da Redenção, quer também servir-se dos sacerdotes, e Maria forma-os na santidade. Comprova-se isso particularmente pela vida de alguns santos como São João Evangelista, Santo Efrém, São João Damasceno, São Bernardo, São Domingos ― o apóstolo do Rosário ― São Bernardino de Sena, Santo Afonso, São Luís Grignion de Montfort e muitos outros santos.

 

Rainha das virgens

Maria e almas consagradas 

Maria é a rainha das virgens porque teve a virgindade no grau mais eminente e porque a conservou na concepção e no parto do Salvador, e continuou virgem também após o parto. Por conseguinte, ela faz as almas compreenderem o valor da virgindade, que não é somente, como o pudor, uma louvável inclinação da sensibilidade, mas uma virtude, quer dizer, uma força espiritual 9. Ela lhes mostra que a virgindade consagrada a Deus é superior à simples castidade, porque promete a Deus a integridade do corpo e a pureza do coração por toda a vida, o que levou Santo Tomás a dizer que a virgindade está para a castidade assim como a munificência está para a mera liberalidade, pois é uma entrega excelente de si mesmo que manifesta uma perfeita generosidade.

Maria preserva as virgens em meio dos perigos, sustenta-as em suas lutas e as conduz, se são fiéis, a uma grande intimidade com seu Filho.

Qual o papel de Maria em relação às almas consagradas? Essas almas são chamadas pela Igreja de “esposas de Cristo”. Seu perfeito modelo é, evidentemente, a Santíssima Virgem. Pelo seu exemplo, devem ter, em união com Nosso Senhor, uma vida de oração e de reparação ou de imolação pelo mundo e pelos pecadores. Devem também consolar os aflitos, recordando o que lhes diz o Evangelho: que a consolação que proporcionam sobrenaturalmente aos membros sofredores de Cristo, é a Cristo que o proporcionam, para fazê-lo esquecer tantas ingratidões, indiferenças e até mesmo profanações.

Desnecessário dizer que essas almas devem se esforçar para levar uma vida que reproduza as virtudes de Maria e continue, em certa medida, o seu papel em relação a Nosso Senhor e aos fiéis.

Se as almas consagradas sabem e querem seguir essa direção, seguirão os passos de Maria e encontrarão nela uma compensação magnífica a todas as renúncias e privações, aceitas em conjunto, e que parecem às vezes demasiado pesadas quando se apresentam dia após dia.

A Santíssima Virgem faz também as virgens consagradas a Deus compreenderem que podem humildemente aspirar a uma maternidade espiritual, que é um reflexo da de Maria, em relação às crianças abandonadas, aos pobres, aos pecadores, que têm necessidade de encontrar a assistência de uma grande bondade sobrenatural. Jesus fez alusão a essa maternidade espiritual quando disse: “porque tive fome e destes-me de comer; tive sede e destes-me de beber; era peregrino e recolhestes-me; nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; estava no cárcere e fostes visitar-me10. 

Essa maternidade espiritual se exerce também na vida contemplativa e reparadora, pelo apostolado da oração e do sofrimento, que fecunda aquele da pregação para a conversão dos pecadores e a extensão do reino de Cristo. Essa maternidade oculta e silenciosa tem seus grandes sacrifícios, mas a Santíssima Virgem inspira como devem ser oferecidos e faz entrever sua fecundidade.

Maria, por fim, assiste as mães cristãs para que, depois de terem dado a vida a seus filhos, formem as almas destes na vida da fé, da confiança e do amor a Deus, para que retornem quando se encontrarem desorientados, como fez Santa Mônica em relação a Santo Agostinho.

Vemos, assim, qual é a realeza universal da Mãe de Deus: ela é a Rainha de todos os santos, por sua missão única no plano da Providência, pela perfeição da graça e da glória e pela sublimidade de suas virtudes.

Ela é a Rainha de todos os santos conhecidos e desconhecidos, de todos os que estão no Céu, canonizados, beatificados ou não, e de todos aqueles que se santificam na Terra, dos quais conhece a predestinação, as provações, as alegrias, a perseverança e os frutos, que serão para eles uma coroa para a eternidade 11.

  1. 1. Collationes in Litanias B. M. Virginis, sobre a invocação: Regina Angelorum, ora pro nobis.
  2. 2. 1Cor 4, 1: “Que os homens nos considerem, pois, como simples operários de Cristo e administradores dos mistérios de Deus”. – 2 Cor 3, 6: “Ele é que nos fez aptos para ser ministros da Nova Aliança, não a da letra, e sim a do Espírito. Porque a letra mata, mas o Espírito vivifica”.
  3. 3. Mariale, q. 42: “B. Virgo Maria non est assumpta in ministerium a Domino, sed in consortium et in adjutorium, secundum illum: Faciamus ei adjutorium simile sibi”.
  4. 4. Livro da instituição das Virgens, cap. IX.
  5. 5. Essas observações são também um resumo das palavras de justino de miechow em suas Collationes in litanias B. M. V.
  6. 6. Lc 2, 35.
  7. 7. Gl 2, 20.
  8. 8. são luis grignion de montfort demonstra muito bem isso em seu Tratado sobre a verdadeira devoção à Santíssima. Virgem, c. I, a. 1, e a. 2, no início.
  9. 9. Santo Tomás observa que a virtude da castidade e da virgindade são superiores ao pudor, assim como a virtude da misericórdia é superior à piedade sensível.
  10. 10. Mt 25, 35-36.
  11. 11. O pe. duperray, diretor espiritual do Seminário menor de São Gildas (Charlieu, Loire) escreveu uma excelente comunicação para o XI Congresso Nacional de Recrutamento Sacerdotal, que ocorreu em Lourdes, de 01 a 04 de agosto de 1935 (Imprensa da Gruta, Lourdes): La dévotion a Marie et la culture des vocations.

    Diz ele à página 5: “O sacerdote e o futuro sacerdote de Deus são mais que simples cristãos, são os continuadores de Cristo, outros ‘São João’ chamados a amar a Virgem Maria com um grande carinho e seguros de ser amados pela Santíssima Virgem como discípulos prediletos. Nossos seminaristas têm, portanto, em primeiro lugar, as graças da escolha para amar a Santíssima Virgem, para que Maria encontre em seus corações os mesmos sentimentos de Jesus; por outro lado, nossos seminaristas podem ter certeza de uma predileção especial da Virgem que quer formar neles outros Cristos”. O autor desse excelente opúsculo demonstra qual é a influência de Maria na crise de crescimento do seminarista. Cita as reflexões de um seminarista do terceiro ano, aluno de 15 anos, nas quais mostra como essa crise foi vencida felizmente com o auxílio de nossa Mãe do céu. A intimidade com Maria procura a cada dia novas graças para chegar ao cume do sacerdócio. Sob a sombra protetora de seu manto se desenvolve o zelo apostólico do amanhã. Observa o mesmo autor, à página 10, o benefício de um colóquio mariano, à noite, antes de dormir. Em vez de um exame de consciência – que é uma espécie de monólogo à maneira dos filósofos pagãos, um informe severo de nossas faltas do dia – propõe uma revisão encantadora, na companhia de nossa Mãe do céu, de tudo o que foi feito de forma errada e, sobretudo, do que foi bem executado durante o dia, isto é, um verdadeiro colóquio espiritual”. Outra observação não menos justa, à página 12: “Quando um dos meus orientados, sentindo em seu coração a necessidade do carinho e das ternuras femininas, hesita entre a vocação para o sacerdócio e a vocação para o matrimônio, procuro fazê-lo descobrir a resposta às necessidades de seu coração numa verdadeira devoção mariana. Tenho a convicção de ter conseguido, por esse meio, algumas vocações”. À página 14: “Aqui, como em outros lugares, não se elimina bem o que não é substituído; o remédio negativo é insuficiente. O verdadeiro problema está na devida ordenação das tendências do coração (amores sobrenaturais, familiares, boas amizades...)”.

    “Não vês nisso também o auxílio precioso do ideal mariano para dar ao nosso seminário esse selo de discrição tão requintado, quando se chega a encontrá-lo?”

    “A verdadeira pureza, diz o Pe. de Foucauld, não consiste nesse estado neutro em que não se pertence a ninguém, mas nesse estado em que alguém adere totalmente a Deus”.

Artigo 1: Sua realeza em geral

Pode-se dizer que a Santíssima Virgem, sobretudo depois da Assunção e de seu coroamento no Céu, participa da realeza universal de Deus, no sentido em que, de uma forma subordinada a Cristo, ela é propriamente falando rainha de todas as criaturas?1

Desde logo é possível chamá-la assim, no sentido impróprio da palavra, pelo fato que, por suas qualidades espirituais, por sua plenitude de graça, de glória e de caridade, ela é superior a todas as outras criaturas. Diz-se, no sentido impróprio da palavra, que o leão é o rei dos animais não dotados de razão, para significar somente sua superioridade sobre eles.

Pode-se também dizer, ao menos em sentido amplo, que Maria é rainha do universo porque é a Mãe de Cristo Rei.

Mas esse título também lhe seria conveniente em sentido próprio por ter recebido a autoridade e o poder reais? Teria a Virgem Maria, por Cristo e subordinada a Ele, não somente uma primazia de honra sobre os santos e os anjos, mas um verdadeiro poder para governar os homens e os anjos?

Se forem examinados os diversos testemunhos da Tradição aduzidos pela pregação universal, pelos Padres, Papas, pela liturgia, e tendo em conta as razões teológicas invocadas pelos Doutores, deve-se responder afirmativamente.

Os Padres do Oriente e do Ocidente têm freqüentemente chamado Maria de Domina, Regina, Regina nostrae salutis; particularmente no Oriente, Santo Efrém2, São Germano de Constantinopla 3, Santo André de Creta 4 e São João Damasceno 5; no Ocidente, São Pedro Crisólogo 6, São Beda o Venerável 7, Santo Anselmo 8, São Pedro Damião 9 e São Bernardo 10.

Posteriormente esses títulos aparecem com muita freqüência em todos os teólogos: Santo Alberto Magno 11, São Boaventura, Santo Tomás 12, Gerson, São Bernardino de Sena, Dionísio o Cartuxo, São Pedro Canísio, Suárez, São Luiz Grignion de Montfort e Santo Afonso.

Os Sumos Pontífices têm sempre empregado as mesmas expressões 13

A liturgia romana e as liturgias orientais proclamam igualmente Maria como Rainha do Céu, Rainha dos Anjos, Rainha do mundo, Rainha de todos os santos. Entre os mistérios do Rosário, comumente recitados na Igreja desde o século XIII, o último de todos é o da coroação de Maria no Céu, que foi representado por um dos mais belos afrescos do Bem-aventurado Angélico de Fiésole.

Finalmente, as razões teológicas invocadas pelos teólogos para mostrar que a realeza universal de Maria lhe é conveniente no sentido próprio da palavra são verdadeiramente conclusivas. Elas se reduzem às três seguintes.

Jesus Cristo homem, visto que sua personalidade é divina pela união hipostática, é Rei do universo. Ora, a Virgem Maria, como Mãe de Deus feito homem, pertence à ordem da união hipostática e participa da dignidade de seu Filho, porque a pessoa de Jesus é o fim mesmo da Maternidade Divina. Ela participa, portanto, conaturalmente em sua qualidade de Mãe de Deus, de sua realeza universal 14. E, por gratidão, Cristo deve reconhecer essa prerrogativa àquela que Lhe deu a Sua natureza humana.

Ademais, Jesus Cristo é Rei do universo por sua plenitude de graça e por sua vitória no Calvário sobre o demônio e sobre o pecado; vitória de sua humildade e de sua obediência até a morte de cruz, pela qual “Deus o exaltou, e lhe deu um nome que está acima de todo nome, para que, ao nome de Jesus, se dobre todo o joelho no Céu, na Terra e no inferno, e toda língua confesse que o Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Pai15. A Santíssima Virgem, no Calvário sobretudo, unindo-se aos sofrimentos e às humilhações do Verbo feito carne, associou-se o mais intimamente possível à sua vitória sobre o demônio e sobre o pecado e, depois, ao triunfo sobre a morte. Ela está, portanto, associada também verdadeiramente à realeza universal de Nosso Senhor.

Chega-se à mesma conclusão quando se considera a estreitíssima relação que une a Santíssima Virgem com Deus Pai ― ela é a primeira filha adotiva, a mais elevada em graça ― e com o Espírito Santo ― pois é por Sua obra que concebeu o Verbo feito carne.

Tem-se objetado: a mãe de um rei, chamada freqüentemente de rainha mãe, não é de fato rainha em sentido próprio; não possui, por esse fato, a autoridade real; da mesma forma, a Mãe de Cristo Rei não participa, pelo mesmo motivo, propriamente falando, da realeza de seu Filho.

Vimos anteriormente a resposta que foi dada a essa objeção: não há comparação, pois a mãe de um rei foi apenas a mãe de um menino que mais tarde tornou-se rei, enquanto que Maria é Mãe de Deus feito homem que, desde o instante de Sua concepção, é, pela união hipostática e pela plenitude de graça, Rei do universo. Ademais, Maria foi associada o mais intimamente possível à vitória de Cristo sobre o demônio e o pecado, em razão da qual Ele tem essa realeza universal por direito de conquista, apesar de que já a tinha por direito de herança, como Filho de Deus. Maria está, portanto, associada também à sua realeza universal em sentido próprio, embora de uma forma subordinada a Cristo.

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Numerosas conseqüências derivam dessa verdade. Como Rei Universal, Jesus tem o poder de estabelecer e de promulgar a Nova Lei, de propor a doutrina revelada e de julgar os vivos e os mortos, mais ainda porque possui o poder de dar a graça santificante que nos mereceu, a fé, a esperança, a caridade e as demais virtudes para observarmos a lei divina 16. Maria participa de sua realeza universal de uma maneira interior e oculta, enquanto nos dispensa todas as graças que recebemos e que ela nos mereceu em união com seu Filho. Ela participa também exteriormente de duas maneiras: na primeira, quando deu outrora o exemplo de todas as virtudes e contribuiu para iluminar por suas palavras os Apóstolos; na segunda maneira, continua iluminando-nos quando, por exemplo, manifesta-se exteriormente em santuários como Lourdes, La Salette, Fátima e em outros lugares. Mas os teólogos notam que Maria não parece participar especialmente no poder judicial que impõe a pena merecida pelo pecado, pois a Tradição nunca chama a Virgem Maria de “Rainha da justiça”, mas “Rainha da misericórdia, o que lhe convém na qualidade de Medianeira de todas as graças 17. Parece estar reservado a Jesus o poder judicial 18, que lhe convém como “juiz dos vivos e dos mortos” 19.

Maria passou a ter um direito essencial a essa realeza universal depois que se tornou a Mãe de Deus. Entretanto, segundo as disposições da Providência, ela deveria também merecê-lo unindo-se ao sacrifício de seu Filho, e não o exerceu plenamente até ser elevada e coroada no Céu como Rainha de toda a criação.

É uma realeza mais espiritual e sobrenatural que temporal e natural, ainda que se estenda secundariamente às coisas temporais consideradas em sua relação com a santificação e salvação das almas.

Essa realeza se exerce na Terra pela distribuição de todas as graças que recebemos e pelas intervenções de Maria nos santuários onde ela multiplica os seus benefícios. Também a exerce no Céu em relação aos bem-aventurados, cuja glória essencial depende dos méritos do Salvador e dos de Sua Mãe Santíssima. A glória acidental dos bem-aventurados e a dos anjos aumenta também pela luz que ela lhes comunica, pela alegria que experimentam com a sua presença, por tudo o que faz para a salvação das almas. Maria manifesta aos anjos e aos santos as vontades e os desejos de Cristo para a extensão de Seu reino.

Maria exerce essa realeza, como dissemos, no Purgatório, no sentido em que leva os fiéis da Terra a rogar pelas almas detidas nesse lugar de tormentos; ela nos inspira a mandarmos oferecer Missas por essas almas; também apresenta a Deus os nossos sufrágios, aumentando assim o seu valor. Ela aplica também, em nome do Senhor, o fruto dos méritos e satisfações de Cristo e seus próprios méritos e satisfações a essas almas que sofrem.

A Santíssima Virgem, por fim, exerce sua realeza em relação aos demônios, que são obrigados a reconhecer, tremendo, seu imenso poder, pois pode eliminar as tentações que eles provocam, fazer evitar suas armadilhas e rejeitar os seus ataques; “os demônios sofrem mais ― diz São Luís Grignion de Montfort ―  ao verem-se vencidos pela humildade de Maria que ao serem imediatamente aniquilados pela onipotência divina”. Seu reino de misericórdia estende-se também, como vimos, ao inferno, no sentido em que os condenados são menos punidos do que merecem 20

  1. 1. Cf. de gruyter, De B. Maria Regina, Buscoduci, 1934; garénaux, La Royauté de Marie, Paris, 1935; m. j. nicolas, La Vierge reine, em Revue Thomiste, 1939; b. H. Merkelbach, Mariologia, 1939, p. 382.
  2. 2. Opera, III, grego 534, 536, 545, 548; siríaco, p. 415.
  3. 3. Hom. I et II in Praes., I et II in Dorm.
  4. 4. Hom. I et II in Dorm.
  5. 5. Hom. I et III in Dorm.
  6. 6. Sermo 142.
  7. 7. In Luc, I.
  8. 8. Orat. 52.
  9. 9. In. Ann. B. M. V.; Serm. 44.
  10. 10. Serm. in Ass. e Dominica infra Oct. Ass.
  11. 11. Mariale, q. 43, parágrafo 2: “Virgo assumpta est in salutis auxilium et in regni consortium... habet coronam trimphantis et militantis Ecclesiae, unde... est regina et domina angelorum..., imperatrix totius mundi...; in ipsa est plenitudo potestatis ccelestis perpetuo ex auctoritate ordinaria..., legitima dominandi potestas ad ligandum et solvendum per imperium...; totam habet B. Virgo potestatem in coelo, et in purgatorio et in inferno... Ad eodem dominio et regno a quo Filius accepit nomen regis, et ipsa regina ... B. Virgo vere et jure et proprie est domina omnium quae sunt in misericordia Dei, ergo proprie est regina misericordiae... ipsa enim ejusdem regni regina cujus ipse est rex”. Cf. ibid., q. 158, 162, 165.
  12. 12. In exposit. Salutationis Angelicae.
  13. 13. Gregório II, em sua carta a São Germano de Constantinopla, lida no II Concílio de Nicéia (787), chama a Virgem Maria de Senhora de todas as coisas; nesse mesmo Concílio, foram aprovadas as estátuas erguidas em honra de Nossa Senhora. Leão XIII, em suas encíclicas, emprega freqüentemente os termos rainha e senhora de tudo (enc. Jucunda semper; enc. Fidentem; enc. Magnae Dei Matris; enc. Adjutricem populi) - E igualmente Pio X, na enc. Ad diem illum: “Apresentou-se Maria à sua destra”.
  14. 14. Cf. merkelbach, o. p. cit., p. 385.
  15. 15. Fl 2, 9-11; também é dito em Cl 2, 15: “e, despojando os principados e potestades (infernais), levou-os (cativos) gloriosamente, triunfando em público deles em si mesmo (pela Cruz)”.
  16. 16. Pio XI, encíclica Quas primas, 11 de dezembro de 1925 (Denzinger, nº 2194) diz que por isso Jesus é o Rei das inteligências, dos corações e das vontades, enquanto que a Nova Lei não é principalmente uma lei escrita, mas uma lei impressa nas almas pela própria graça. Cf. santo tomás, Iª IIae, q. 106, a. 1.
  17. 17. Cf. santo alberto magno, Mariale, q. 43, parágrafo 2.
  18. 18. Jo 5, 26-27: “Porque assim como o Pai tem a vida em si mesmo, assim deu ao Filho ter vida em si mesmo, e deu-lhe o poder de julgar, porque é o Filho do Homem”.
  19. 19. At 10, 42. Cf. santo tomás, IIIª, q. 59, a. 1.
  20. 20. Cf. santo tomás, Iª, q. 21, a. 4, ad 1: “Na danação dos réprobos, manifesta-se a misericórdia não, certo, perdoando totalmente, mas de algum modo, aliviando, por punir aquém do merecido”. Essa interpretação da misericórdia divina não é independente, de maneira alguma, dos méritos de Cristo e de Maria, obtidos antes.[/fn e que, em certos dias, como pode ser o da Assunção, seus tormentos são mitigados ou tornam-se menos penosos de suportar.

    Esse último ponto demonstra que a realeza de Maria é verdadeiramente universal, pois não existe nenhum lugar em que ela não exerça sua soberania de alguma maneira.

A realeza universal de Maria

Segundo a linguagem da Igreja, em sua liturgia e na pregação universal, a Santíssima Virgem não é somente Mãe e Medianeira, mas Rainha de todos os homens, dos anjos e de todo o universo.

Em qual sentido essa realeza universal é atribuída à Virgem Maria? Num sentido próprio ou num sentido metafórico?

Deve-se primeiro recordar que somente Deus, como autor de todas as coisas, tem por Sua essência mesma a realeza universal sobre todas as criaturas, e que as governa para conduzi-las ao seu fim. Mas Cristo e Maria participam nessa realeza universal. Como?

Cristo, mesmo enquanto homem, participa por três razões: em razão de sua personalidade divina1, da plenitude da graça que transborda sobre nós e sobre os anjos, e por sua vitória sobre o pecado, sobre o demônio e sobre a morte2. Ele é Rei de todos os homens e de todas as criaturas, incluindo os anjos, que são “seus anjos”, isto é, os seus núncios ou embaixadores. Disse Jesus, falando sobre sua segunda vinda: “Então verão o Filho do homem vir sobre as nuvens com grande poder e glória. E enviará logo os seus anjos e juntará os seus escolhidos dos quatro ventos, desde a extremidade da Terra até a extremidade do Céu”3. Cristo é, de fato, o Filho de Deus, não por adoção, mas por natureza, enquanto que os anjos não são mais que servidores e filhos adotivos de Deus.

Jesus também disse: “Todo poder me foi dado no Céu e na Terra4; e no Apocalipse é chamado de “Rei dos reis e Senhor dos senhores5.

Como a Virgem Maria, subordinada a Cristo e por Ele, participa nessa realeza universal? É rainha no sentido próprio da palavra?

  1. 1. Cf. Pio XI, enc. Quas primas, de 11 de dezembro de 1925 (Denzinger, nº 2194): “Sua realeza se fundamenta naquela maravilhosa união que se chama hipostática. Donde se segue que Cristo não apenas deve ser adorado por anjos e homens, mas também que anjos e homens devem obedecer e estar sujeitos a seu império de Homem: pois a título somente da união hipostática, Cristo obtém o poder sobre todas as criaturas”. A Humanidade de Cristo, pela sua união pessoal com o Verbo, merece a mesma adoração e participa no reinado universal de Deus sobre todas as criaturas. Cristo, enquanto homem, foi predestinado a ser o Filho de Deus, não por adoção, mas por natureza, enquanto que os anjos e os homens são apenas filhos adotivos.
  2. 2. Porque aceitou por amor as humilhações da Paixão (Fl 2, 8-11), “humilhou-se a si mesmo, feito obediente até à morte, e morte de cruz. Por isso também Deus o exaltou, e lhe deu um nome que está acima de todo nome, para que, ao nome de Jesus, se dobre todo o joelho no Céu, na Terra e no inferno, e toda a língua confesse que o Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Pai”.
  3. 3. Mc 13, 26.
  4. 4. Mt 28, 18.
  5. 5. Ap 19, 16.
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