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CAMPANHA DE ROSÁRIOS PELAS ELEIÇÕES

 

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Category: EspiritualidadeConteúdo sindicalizado

Mil Ave-Marias a Nossa Senhora de Fátima

1.000 Ave-Marias hoje

Hoje, dia 13 de maio, aniversário da primeira aparição de Nossa Senhora aos três pastorinhos, serão rezadas 1.000 Ave-Marias na Capela Nossa Senhora da Conceição, em Niterói (portão fechado).

Serão transmitidos no Youtube pelo link: https://youtu.be/yzaLciDbKkg

Horário: a partir das 14:30

Intenção: o fim do flagelo do Coronavirus - saúde para nossas famílias - cura dos enfermos - conversão dos pecadores - pelas almas do Purgatório.

Acompanhe da sua casa. Reúna toda a família. A oração é a única certeza que temos no meio da grade confusão em que está o mundo.

Dom Lourenço Fleichman

Deus marcou encontro conosco

     

O texto de Gustavo Corção que publicamos aqui é parte de um ciclo de conferências realizadas em Belo Horizonte na década de 1950. Apesar de não estar completo, não deixa de ser um exemplar importante das atividades do grande escritor católico, numa época em que Corção era requisitado para constantes palestras, entrevistas e artigos. Depois o mundo girou, os polos foram deslocados, os homens tornaram-se cúmplices da Revolução num mundo evolutivo e estagnado no nada. Já não lhes interessava a firmeza da verdade e da fé que Gustavo Corção guardou e ensinou até a morte.

Editora Permanência

 

 

A tibieza

Pe. Michel André

 

“Ninguém pode servir a dois senhores: odiará a um e amará ao outro;
ou se apegará a um e desprezará o outro”. (Mt 6, 24).

 

A exemplo de alguns Padres da Igreja, pode-se ver em Mamon, o falso deus sobre que fala Nosso Senhor, não apenas o dinheiro, mas também outros apegos terrestres, materiais, que entravam o progresso espiritual.

Quero-vos falar da tibieza, doença da alma muito comum – ela contagia a metade ou bem três quartos dos cristãos que estão em estado de graça; e isso é realmente terrível, já que é preciso crer nas palavras da Escritura: “Deus vomita os mornos de sua boca”, i. é, ele os expulsa para longe de si, e por conseqüência, essas almas estão em grande perigo de cair no inferno eterno, caso não mudem de vida.

Ora, a tibieza, que afeta tanto os clérigos – i. é, os padres e os bispos – quanto os laicos, se encontra em três tipo de pessoas:

  1. Em primeiro lugar, as que saíram duma má vida, em estado de pecado mortal, para retornar a uma vida normal, em estado de  graça. Mas então, satisfeitas consigo mesmas, cessam os esforços e não querem mais se elevar...
  2. Há aquelas que, depois de atingirem uma vida fervorosa, amiúde bem jovens, esfriam para uma vida de tibieza, de mediocridade. Deus vela para que não despenhem para muito baixo! É o caso de inúmeros religiosos, se se levar em conta as palavras da Imitação, e a experiência cotidiana!
  3. Finalmente, há o caso dos cristãos que naturalmente são felizes: eles nunca buscaram se tornar melhores. Deve-se pois sacudir-lhes a indolência, o torpor – eles dormem!; mais das vezes, só de uma coisa precisam: um bom diretor espiritual, que lhes apontará os caminhos da vida perfeita.

Mas em que consiste esta terrível doença espiritual, ignorada por tantos cristãos, e contudo tão difundida? Quais são os sintomas, entre os “bons” cristãos? (Contine a ler)

Confraria dos Homens para a Castidade

Dom Lourenço Fleichman OSB
Capelão responsável

 

A Confraria dos Homens para a Castidade é uma iniciativa da Capela Nossa Senhora da Conceição, de propor a todos os homens católicos, jovens e adultos, solteiros, casados ou viúvos, um combate mais eficaz e duradouro contra a pornografia e os pecados de impureza que assolam a sociedade moderna de modo assustador. S. Excelência, Dom Alfonso de Galarreta aprovou oficialmente a criação da Confraria.

Oferecemos esta Confraria, este combate singular, aos homens e não às mulheres, por acreditarmos que os homens devem recuperar seu papel na sociedade familiar e na sociedade civil. Papel este deixado de lado por 200 anos de Liberalismo, de hedonismo e de decadência moral da humanidade. Se um homem recupera sua saúde espiritual e a fortaleza própria do seu estado, as mulheres de sua casa, sejam elas mãe, irmãs, esposa ou filhas, seguirão o exemplo dos homens fortes e castos. O resultado esperado é o restabelecimento da ordem da natureza na sociedade, com os homens sendo valorosos, fortes, virtuosos, e as mulheres se espelhando no belo exemplo dos soldados de Cristo para serem elas também santas e virtuosas.

Mas, por favor, não vejam nessa distinção nenhuma sombra de desprezo ou diminuição do papel das mulheres. Não se trata de nada disso, pois é uma questão de vida espiritual, e não de vida social. A espiritualidade masculina é diferente da espiritualidade feminina. A Confraria trabalha nos homens, para favorecer toda a sociedade. Os homens castos elevarão a casa e a cidade a uma vida sob o domínio da graça. Isso é o que importa. (Continue a ler)

Conferências sobre a santidade (iv)

Nota da Permanência: Pe. Matéo proferiu estas conferências às superioras de diversas comunidades religiosas do Canadá, na província do Québec, em 1945. Embora endereçadas às almas consagradas, estas conferências são utilíssimas aos leigos, havendo estes tão-somente de fazer as devidas substituições, como “almas consagradas” por “almas batizadas”, “comunidade” por “família”, “vida religiosa” por “vida cristã” e assim por diante.

Pe. Matéo Crawley-Boevey

 

Santidade pela via comum

 

A santidade é possível a todos

É formidável que um pregador lhes incuta coragem e força durante o retiro. Com frequência sofremos tentações de desânimo, porque não conseguimos emendar-nos, mesmo depois de anos e anos. Viver em luta às vezes é deprimente, mormente se percebemos as misérias, feiuras e lacunas de nossa alma. Deixem para lá os cálculos, porque é ridículo: cálculos são para a ciência e não para a vida espiritual. A tentação do desânimo vem do pensamento sobre a persistência das misérias pessoais após anos dentro do convento. Escutem: a santidade é um dever, e dever sempre possível; portanto, é possível tornar-se santo. Se não, estaríamos dizendo a Nosso Senhor: “Estais louco? Vós ordenais o impossível!” Nada disso: a santidade não só é possível, como dever de vocação; na verdade é o único, pois tudo se inclui nele. Assim, repito: A santidade é possível a todas, porque é um dever da vocação de vocês.

 

Deus nos dá os meios para a santidade

Fizeram vocês os três votos só para não cometer pecado mortal? Ingressaram no convento só para evitar o mal? Não, vieram aqui para se tornarem santas, pois é esta a lei dos conselhos evangélicos. Geralmente se pergunta se isto ou aquilo é permitido, se em determinado caso é ou não pecado. Nosso dever não é contentar-nos em evitar o pecado. Existem coisas que são boas em si mesmas, como quem sabe os perfumes, mas não são boas para mim nem para vocês; se querem ser boas, abandonem dez, cem coisas belas e boas e sigam-me. Nosso Senhor não exige um grama a mais; porém, se vocês pedirem dez quilos, ele lhes dará mais dez graças em acréscimo; se ele lhes exigir um trabalho de gigante, dar-lhes-á uma força de gigante. Jesus é sabedoria, justiça e amor, por isso se ele exigir dez, jamais lhes dará menos de dez; e se exigir cinqüenta, não lhes dará menos de cinqüenta. Quiçá ele lhes peça um extra, a exemplo dos mártires; se assim for, dar-lhes-á uma graça extra. Os mártires receberam o chamado e com ele a graça correspondente. Quando ele lhes pede dez, dá-lhes sempre dez, quando não vinte.

A revolução na Espanha era uma guerra entre vermelhos e brancos; no fundo, era uma guerra contra os católicos: 16.000 padres e 12 bispos foram chacinados, afora as 200.000 pessoas mortas, e não houve nem um apóstata sequer, fosse ele padre, religiosa, seminarista, noviço, homem ou mocinha! É este um fenômeno singular na história da Igreja. Se há trinta anos alguém previsse: “Acontecerá daqui a alguns anos atrocidades; vocês serão maltratados e assassinados”, teriam essas pessoas a coragem então demonstrada?

Certo dia uma menininha de onze anos, cujo pai ia à Missa todas as manhãs, foi detida por um revolucionário: “Escute, minha menina, se você puser com bastante cuidado aqui (ele tinha um crucifixo na mão) só um pouquinho da lama do seu pezinho, não vai ser trucidada”. Ela deu um grito e, de fronte erguida, declarou: “Não, nunca, jamais”. Colocaram-na no paredão...

 

O grande meio

Como é reconfortante pensar que a santidade é possível para todos e que devemos esforçar-nos para nos transformar em santos!

Mas por que caminho, rota ou meio?

O caminho? Ele é o caminho! Vocês não conseguiriam imitar João Batista, que não come nem dorme. Por isso, siga a Ele. Seremos santos, como Santa Margarida Maria ou Santa Teresinha, se andarmos no singelo caminho de Nazaré, na vereda banal do dever cotidiano; a superiora, no dever de estado de superiora; a instrutora de turma, no dever de estado de instrutora; a cozinheira, no dever de estado de cozinheira. A vida de santidade não é uma estrada em ziguezague, mas o dever de estado, e o dever de estado é uma simples linha reta, que se vai elevando mais e mais. O caminho da santidade é a simplicidade de Nazaré no cumprimento do dever próprio e particular a cada um.

É possível um homem ser um camponês paupérrimo e magnânimo; é possível uma mulher ser humilde mas virtuosa e magnânima.

Nazaré era um cantinho do paraíso onde os três – a trindade terrestre – viveram a vida simples e obscura, no cumprimento do dever de estado! Só eles são santos de verdade. Aquele varão que está serrando a madeira é José; aquela mulher que com modéstia arruma a casa é Maria; e aquela criança, incomparável criança, é Jesus. Sim, os únicos santos, muitos mais simples e humildes que vocês e eu. Que fazem eles? A que se dedicam? Ao governo dos povos? Não: cumprem o dever de estado, e o cumprem durante trinta anos, escondidos, ignorados, sem glória. Quantos são os que querem operar milagres, quando é a vida de obscuridade que nos leva à santidade! O dever de estado de cada um é o caminho da santidade. Não existem duas categorias de religiosas: a irmã conversa está tão obrigada à santidade quanto a superiora; mas a superiora se santificará no cumprimento do dever de superiora, e a cozinheira no de cozinheira. Não esqueçam que os três santos de Nazaré são maiores que todos os santos do céu. Visitei a fonte onde Maria ia retirar água, e comecei a imaginar na simplicidade daquela grandiosa mulher, a Virgem, que não fez milagres e nunca viveu uma só hora de glória terrestre; imaginei também em São José, homem simples, de vida operosa e humilde.

 

Santidade e auréola

Há muitos equívocos sobre a santidade, e talvez vocês mesmas alimentem erros a respeito dela. Os santos seriam criaturas com auréolas! Existem muitos deles que não possuem auréola e ainda assim são santos, pois que milagres e visões não fazem santos1. A santidade é um milagre de fé e amor. Há santos sem auréola e auréola sem santos. A rainha dos santos não tinha auréola nem operou milagres. Judas tinha auréola e operou milagres, e ele não é santo. Prestem atenção: joguem no cesto as biografias desconcertantes, que amiúde são poesia e às vezes besteira. Recusem as narrativas que empurram a santidade para fora do caminho de Nazaré. Joguem fora as revelações de Catarina Eymerich, de Maria de Ágreda e de outras mais! Vocês oferecem e transmitem essas revelações ridículas, e as noviças engolem isso e ficam divagando: “Nunca fiz milagres, nunca tive visões!” Sem divagações, por favor, e mais doutrina. Sem êxtases – sus! – pois os nossos conventos já estão empesteados de visionárias e histéricas. Maria, a Virgem de Nazaré, sem milagres, sem visões, era a rainha da fé; e José, um santo de fé, sem êxtases.

Certo dia uma senhora me veio bater à porta: “Trago-lhe uma mensagem do Sacratíssimo Coração de Jesus. – Não recebo mensagens do Sacratíssimo Coração de Jesus, vindas de uma palhaça como você. Vá lavar o rosto (ela estava toda maquiada).”

Outra veio procurar-me: “Padre, o senhor me disse A, mas Nosso Senhor me disse B! – Então vá se confessar com Nosso Senhor, se não dizemos a mesma coisa.”

 

Carismas não significam santidade

Nazaré, Nazaré! Caminho simples, estrada real. Francisco de Assis não é santo porque carregava os estigmas, que são apenas um carisma. Deus pode dar carismas, ou seja, presentes, mas carismas não significam santidade. Podemos ter o presente e não sermos santos.

Vivemos numa época de fantasia e histeria; a guerra acentuou tais fraquezas. Declara a Igreja: vivam da fé e amem a Deus, e não: tenham visões e façam milagres! Deixem de lado as visões e os estigmas, que não provam nada, e andem pelo caminho simples de Nazaré. Oh, como Nazaré é bela! Não havia êxtases, mas o batido caminho do dever. Nazaré, a estrada real! Vocês podem ser grandes santos exatamente onde estão.

Um médico de Milão, bom católico, morreu de súbito num vagão de trem. Aparentemente era um médico como outro qualquer, mas que coração tinha ele! Vivia só para Deus. Um chefe de estação italiano, que logo será beatificado, cumpriu durante a vida inteira o seu humilde dever cotidiano, e recusava até as promoções; era um contemplativo. Madre Cabrini, canonizada vinte e dois anos após a morte, era graciosa, sorridente, amável, divertida; ela seguiu o caminho usual do trabalho e da oração no cumprimento do dever de estado. Alguém pode perguntar porque tal fundador ou fundadora não está canonizado; talvez porque a comunidade não é o que devia ser.

 

Um homem nasce artista, mas não santo

Na cerimônia de canonização de Teresinha, o papa declarou que a santa de Lisieux nos deu três lições importantes:

1. A santidade é um dever;

2. O dever tem de ser cumprido na vida cotidiana;

3. A santidade é sempre amor.

Por vezes encontramos deslumbradas que são joguete do diabo: três irmãs abandonaram a comunidade para bancarem as contemplativas; após algumas semanas retornaram.

Tenho vocação de trapista, tenho alma de trapista, mas sou um judeu errante: é a vontade de Deus!

Certo dia alguém me disse: “Rezo pela sua conversão – Agradeço, mas comece pela sua!” Pois é, o diabo em tudo mete os chifres e o rabo: uma religiosa contemplativa, que estava doente, comungava da mão de um anjo – era o diabo! Ela estava era possuída; Roma a desligou do convento. Já vi santos e demônios; é ridículo uma senhora diretora de padres!

Fé, amor e vontade de Deus. Nada acima da vontade de Deus, que é o supremo amor. Ensinem às suas filhas o caminho simples, e não admitam nada extra. Se alguém deixa de comer e dormir, perde o rumo. Não é possível ser carmelita, quando se administra um hospital. À morte de Teresinha, uma de suas companheiras perguntou: “Que escreveremos sobre essa irmãzinha, se nem boa religiosa foi?” Talvez quem falava assim tivesse visões, mas não viu bem. Nenhum santo, exceto Maria, nasceu santo. Teresa d’Ávila se tornou Santa Teresa d’Ávila. Agostinho se tornou Santo Agostinho. Ambos nasceram gênios, mas se tornaram santos pelo esforço pessoal. E Teresinha? Ela também não nasceu santa, porém trabalhou dia após dia a fim de ser uma. Um homem nasce artista, mas não santo: os santos se tornaram santos trabalhando. Transformem-se em santos aos pouquinhos, a exemplo do alvorecer do sol. José Sarto era uma boa criança mas comum; quando se tornou padre, elevou-se; quando bispo, continuou elevando-se; quando patriarca de Veneza, elevou-se ainda mais; quando papa (Pio X), já era santo! Carecemos de santos.

Com uma vontade viril, tornamo-nos santos. Todos os santos tiveram defeitos: as vidas de santos já prontos só servem para ganhar dinheiro. Nisso há muita fantasia; a curiosidade é um doença. Que dizer da vida de Teresa Neumann 2? Os fatos são verdadeiros, mas a Igreja não se pronunciou; então, aguardemos, pois nada nos garante que os fatos sejam divinos.

Vocês podem ser santas tão grandiosas quanto Margarida Maria e Teresinha, seguindo o batido caminho do dever, e o livrinho das regras e constituições: façam isso e viverão. Não tenho reparos a fazer ao que a Igreja aprovou para cada obra; por isso, não lhes digo para que sejam carmelitas ou outra coisa mas, onde estiverem, tornem-se santas se valendo da regra.

Vivam a vida simples de Nazaré, com humildade e amor ao dever; e lá onde estiverem, superiora ou irmãs conversas, imitem a trindade da terra: Jesus, Maria e José; lá onde estiverem, amem quem tanto as amou.

  1. 1. O Pe. Matéo entende aqui a palavra “auréola” em sentido extenso: reputação exterior de santidade, carismas extraordinários (N.E.).
  2. 2. Teresa Neumann: mística alemã (1898-1962) (N.E.)

A leitura espiritual

Pe. Reid Hennick, FSSPX

Se há uma coisa cuja especial necessidade as condições modernas geraram, é a prática frequente da leitura espiritual

Assim escreveu o abade cisterciense Eugene Boylan em 1946, em This Tremendous Lover, ao analisar o colapso da infraestrutura espiritual do mundo. Embora ler ou outra forma de instrução sempre ter sido necessário, ele prossegue:

a instrução oral, a opinião comum dos homens, o exemplo do próximo e as tendências da vida em geral têm um papel menor na formação e instrução dos católicos que em épocas passadas. As pessoas não vão mais ouvir sermões como antigamente; não se fala mais sobre religião, ao menos não com seriedade; nossos próximos, frequentemente, têm ideais longe de serem católicos – se é que eles têm algum ideal; e há pouco ao nosso redor que seja de auxílio direto para nos incitar ou nos ajudar a encontrar Deus

Em suma, ao deixar Deus de fora, nosso novo ambiente não é capaz de nada além de nos afastar d'Ele. Ele é positivamente inóspito ao crescimento espiritual. De nossa parte, portanto, “há uma necessidade urgente de fazer esforço pessoal para restaurar o equilíbrio, mantendo as realidades da eternidade em nossas mentes” (Boylan)

A leitura espiritual é o corretivo requerido. Na verdade, para o católico educado,

é quase essencial para seu progresso, senão para sua salvação. Para nossas mentes, essa prática está no mesmo nível de importância da oração mental e de outros exercícios devocionais, e ela, na verdade, está tão ligada a esses outros exercícios, especialmente o essencial de oração mental, que, sem ela – a não ser que se encontre um substituto – não há possibilidade de avançar na vida espiritual; até mesmo a perseverança na vida espiritual torna-se muito duvidosa (Boylan)

A leitura espiritual, portanto, pede esforço para a “assídua e atenta leitura de livros espirituais” (cf. Antonio Royo Marín, A Teologia da Perfeição Cristã). Ela demanda uma concentração distinta.

 

O maior impecilho

Das várias forças em questão quando se trata de nosso afastamento do divino, algumas são particularmente corrosivas. Na visão do abade quando escrevia, tinha um papel central nelas o jornal. Ele baseava sua análise tanto no conteúdo, quanto na própria estrutura da mídia em si: “… uma longa série de itens que dificilmente seriam mais eficientes para atrair atenção e concentração para este mundo e as coisas deste mundo” Embora se possa questionar a veracidade de muito do que é publicado, “dificilmente se pode negar que o que é publicado é apresentado de modo a capturar a imaginação do leitor” (Boylan)

A era da informação revelou a verdadeira extensão dessa crítica. De fato, da perspectiva do Século XXI, o poder cativante do jornal é irrelevante quando comparado com a torrente audiovisual do WhatsApp, Twitter, Instagram, YouTube e Netflix. Não há nada mais subversivo para a vida de recolhimento que esse aparato do Vale do Silício. Novamente, assim como o conteúdo destruidor de almas, o próprio método de apresentação destrói a alma.

 

Os ingredientes do pensamento

Para aferir adequadamente os perigos aqui, devemos estar atentos à nossa configuração psicológica. Nesse tocante, as visões de Platão e Aristóteles são indispensáveis.

O homem é um animal racional. Ainda nesse sentido: há uma certa dualidade em sua natureza. Como ele é racional, sua mente lida com universais – objetos intangíveis do pensamento; como ele é um animal, seus sentidos lidam com singulares – impressões materiais do aqui e do agora. Independentemente disso, sua experiência cognitiva é profundamente unificada. Seu intelecto pode transcender os meros dados sensitivos e descobrir o sentido das coisas em si mesmas, e esse pensamento sempre está auxiliado pelos sentidos. Aqui reside a importância da imaginação.

A imaginação alimenta o pensamento. É nosso depósito de singulares, nossa plantação de divagações pré-articuladas. Uma imaginação ordenada e domada facilita as investigações da mente; uma imaginação frenética e sobrecarregada as inibe. Enquanto as experiências orgânicas, estáveis da vida deixam uma impressão benévola na imaginação, os enredamentos constantes e artificiais da mídia moderna a estrangulam, de modo a ficar submissa. Uma vez submetida, a imaginação – e, portanto, a mente – torna-se um território ocupado. Sugestões impróprias e inoportunas moldam a consciência e endurecem nossos pensamentos, inclinados a Deus por natureza, ao calor do momento presente. Assim, tornamo-nos prisioneiros do plano dos singulares.

Qual é “a fonte de todos os males e erros da vida intelectual hoje?” (Boylan) É a perda da habilidade de pensamento abstrato deliberado e prolongado. Isso não significa que não pensamos mais, mas que, devido a uma imaginação superestimulada, pensamos dentro de uma névoa de distrações. Nós somos, como T.S. Elliot dizia, “… distraídos da distração pela distração” (.. Burnt Norton”)

 

De quem é a culpa?

Seria isso uma consequência inevitável de viver na era da informação? Seria isso “a morte do espírito… o preço do progresso?” (Eric Voegelin, A Nova Ciência da Política) Não! Nós não somos míseras vítimas infelizes das circunstâncias. O que o Pe. Francis Remler pensava sobre o sofrimento em geral aplica-se às nossas moléstias modernas:

Não temos dúvida de que provavelmente a metade, senão mais, das misérias de nossos tempos desapareceriam rapidamente da face da terra se as pessoas, universalmente, fossem induzidas a cumprir fielmente apenas duas condições: que elas vivam de acordo com os ditames da razão reta e do bom senso, observando as leis fundamentais da saúde e do bem estar, e que elas façam um esforço sincero de moldar sua conduta moral de acordo com os Dez Mandamentos e as máximas do Evangelho (Why Must I Suffer?)

Verdade seja dita, nossas indiscrições passadas bastam para explicar nossa imaginação sabotada no presente. Nossas compulsões indesejadas realmente são inexplicáveis? Será que nossas ansiedades e temores sobre o futuro não têm alguma relação com a leitura desses sites que só anunciam desgraças? Será que nossa mania de buscar defeitos em nós mesmos não tem a ver com fofoca e o uso de redes sociais? Nossas fantasias com programas de TV sexualmente sugestivos? Será, ao menos, que nossa névoa mental não tem algo a ver com um fluxo ininterrupto de mensagens de textos?

O trauma autoinfligido decorrente de tratarmos como nossos superiores esses dispositivos dispensadores de distrações é óbvio. Recusar-nos a modificar nosso relacionamento com a mídia moderna é um patente abandono do dever, tanto natural quanto sobrenatural. Se não pudermos nos desconectar da matrix completamente, devemos ajustar nosso comportamento nela. Isso é obrigatório, um sine qua non, se queremos adotar a prática da leitura espiritual, ou alguma outra que gerará frutos. Pois a leitura espiritual, por si mesma, não pode abafar essa cacofonia toda. A imersão imoderada na mídia moderna

produz um desgosto, não apenas pelas coisas que realmente importam, mas também pelo estilo e modo nos quais essas coisas são apresentados nos livros espirituais. O resultado é que, quando alguém, por um esforço, força a si mesmo a abrir um livro espiritual, é necessário um esforço ainda maior para o manter aberto, e não fechá-lo com um bocejo (Boylan)

Sacudir-nos e sair dessa inércia – na realidade, um efeito colateral da intemperança – não é fácil. (Ah, se ao menos tivéssemos apetite por outra coisa!) Ainda assim, a leitura espiritual, aquela atividade que, no início, achamos tão desgostosa, contém, em si, o impulso de que necessitamos tão desesperadamente.

 

O antídoto

Santo Tomás de Aquino ensina que: “… o remédio mais eficiente contra a intemperança é não mergulhar na consideração dos singulares” (IIa IIae, q. 142, a.3). Portanto, devemos “focar no oposto dos singulares – nomeadamente, os universais” (Kevin Vost, The One-Minute Aquinas). Em outras palavras, nós temos êxito em contrabalancear nossa imaginação complacente ao cultivar, ao invés, a vida da mente. Atingimos isso através da leitura espiritual, pois, de todas as ocupações,

aquelas de tipo intelectual são particularmente aptas a controlar a sensualidade. A razão é que a aplicação de uma faculdade enfraquece o exercício de outras faculdades, além do fato de que atos intelectuais removem das paixões sensuais o objeto que as alimenta (Jordan Aumann, Spiritual Theology)

A imaginação adora os singulares. Ela adora essas recompensas imediatas sensuais e, se desinibida, entrega-se ao nosso hábito de mergulhar cada vez mais nesses canais de diversão. Ainda assim, esses desvios nunca levam a um destino verdadeiramente feliz. Em contraste, embora os prazeres decorrentes da leitura espiritual sejam, sem sombra de dúvidas, menos emocionantes, eles trazem uma recompensa infinitamente maior. Pois eles alimentam as necessidades mais profundas da mente. A leitura espiritual nos leva ao reino dos universais. Ela fortalece ruminações do verdadeiro, do bom e do belo, independentemente de nossos apetites impacientes. Ela nos ajuda a transcender o importunante momento presente e a ter todas as experiências que apontam para a eternidade. Nós, católicos, lemos

para manter o sobrenatural em nossas mentes, para desenvolver e manter o senso de realidade das coisas que conhecemos pela fé, para manter nossa atenção na vida eterna de nossa alma ao invés de nossos interesses temporais, e, acima de tudo, para manter viva, em nós, a memória e presença de Nosso Senhor, para que possamos viver em união com Ele, falando com Ele, trabalhando com Ele, descansando com Ele, sempre rezando a Ele e n'Ele (Boylan)

 

O que acontecerá?

Como Dom Boylan deu a entender fortemente há mais de 70 anos, em nossos tempos, a leitura espiritual é uma prática mais de preceito que de conselho. Mas cumprir esse preceito envolve mais do que ter um livro nas mãos.

Como era Seu costume quando pregava, Nosso Senhor vem a nós

Não em uma cidade ou em um fórum, mas em uma montanha e no deserto; instruindo-nos a … separar-nos dos tumultos da vida ordinária, e isso de modo especial quando vamos estudar a sabedoria” (São João Crisóstomo, Homilias sobre Mateus)

A leitura espiritual tanto requer quanto possibilita nossa separação do mundano, nossa rejeição ativa de “tudo que inibe as afeições da mente de tender integralmente a Deus” (IIa IIae, q.184, a.2) Na mesma vertente, São Paulo nos exorta: “Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é santo, tudo o que é amável, tudo o que é de bom nome, qualquer virtude, qualquer coisa digna de louvor da disciplina, seja isto o objeto dos vossos pensamentos” (Fl 4,8)

… Nenhum homem pode servir a dois senhores” (Mt 6,24) Então o que é mais provável que “guarde os vossos corações e os vossos espíritos em Jesus Cristo” (Fl 4,7): o Novo Testamento, ou a Netflix? Porque não pode ser os dois.

Conferências sobre a santidade (III)

Nota da Permanência: O Padre Matéo proferiu estas conferências às superioras de diversas comunidades religiosas do Canadá, na província do Québec, em 1945. Embora endereçadas às almas consagradas, estas conferências são utilíssimas aos leigos, havendo estes tão-somente de fazer as devidas substituições, como “almas consagradas” por “almas batizadas”, “comunidade” por “família”, “vida religiosa” por “vida cristã” e assim por diante. 

Pe. Matteo Crawley-Boevey

 

Pensamento na eternidade

Certo dia um grande pregador dominicano que passava por Ávila consultara Santa Teresa sobre o tema das pregações. “Pregue sobre o que quiser, disse-lhe ela, mas sempre tenha o pensamento na eternidade, pois não existe missão sem pensamento na eternidade.” Pois então, nada de retiro sem o pensamento na eternidade. Eis o que veremos uns dez minutos antes de comparecer diante do tribunal. Durante os estertores acontece uma batalha, uma luta: o moribundo apreende com impressionante nitidez a sua vida inteira e, nesse momento de extraordinária lucidez, descortina-se para ele a eternidade...

Certa vez um jovem marquês divertia-se num baile noturno, onde se reuniam mais de quinhentas pessoas. De súbito exclamou: “Eu vejo, eu vejo! Oh, oh! ...” Acercam-no as pessoas: “Que viu você? – Eu vi, eu vi! – Mas viu o quê? – Vi o juiz e o tribunal; vi a eternidade. Ah, como somos loucos! Sim, loucos, pois dançamos às bordas do abismo eterno!” Acharam que havia surtado. Ele, no entanto, exigia: “Mandem vir o tabelião, para fazer o meu testamento! Estou morto, deem os meus bens aos jesuítas etc.” Atenderam aos desejos dele. Pouco tempo depois ele se retirou numa gruta da floresta, onde levava vida de bicho mas alegre como um passarinho.

Bem-aventurados os que já estão preparados! Muitos ainda não estão prontos, até entre as almas consagradas. Se vocês são complacentes consigo mesmas, será dureza, mas se forem rigorosas, será leve. Julguemo-nos a nós enquanto há tempo: vejamos a partir de agora o que veremos às portas da eternidade, na hora da agonia, dez minutos antes de morrer. Nada melhor que repassar a nossa vida.

Apresento-lhes três pinturas ou quadros:

A brevidade da vida – Vocês tinham sete ou oito anos; lembrem-se da primeira confissão, da primeira comunhão... Parece que está longe, mas na verdade foi ontem. Neste ínterim, a vida passou como um sonho. Onde estaremos daqui a trinta anos? Como é bom sentir-se sacudido por um pensamento cristão! Se temos medo de acompanhar um enterro, talvez signifique que ainda não estamos prontos. Vocês aconselham as suas filhas, mas será que estão preparadas? Ah, as ilusões da vida!

Certa feita uma moça de vinte e quatro anos, casada havia sete meses, estava para morrer, mas ela não aceitava: “Oh, não posso morrer, não quero morrer, sou jovem demais!” – O pensamento da morte deveria ser a nossa alegria.

Uma criança de dez anos, bastante doente, preparava-se para morrer; fui visitá-la e lhe perguntei: “Você tem medo da morte? – Não, me respondeu ela, não tenho medo de morrer, mas do que vem depois.” Ela tinha razão. O mistério é o depois. Quando uma pessoa é religiosa de verdade, a morte não é assustadora. Compreendam isso à luz do retiro: se vocês negligenciaram as orações e a vida interior, pensem no que verão à hora da morte. Há algo de sagrado na morte, mas infelizmente somos qual o capitão que estimula a que outros embarquem, enquanto ele fica na praia...

Havia um moço de vinte e oito anos que escalava uma montanha, subindo e subindo a cada passo. De repente deu com o pé em falso e escorregou, caindo vertente abaixo, apesar de em vão tentar agarrar-se às saliências da encosta. Onde foi ele parar? Foi até às bordas do abismo! Deteve-o uma pedrinha. Alçaram-no dali com uso de cabos, conseguindo-o tirar daquela situação. Ficou com os cabelos totalmente brancos.

Tudo é vaidade, exceto Deus – Renunciamos ao casamento, instituição sagrada; renunciamos à vida de família, instituição excelente – e apegamo-nos a bibelôs ridículos. Somos uns loucos! Vaidade é orgulhar-se do próprio talento; vaidade orgulhar-se das próprias qualidades; vaidade orgulhar-se das alegrias sensíveis: música, poesia, pintura; vaidade orgulhar-se de um encargo ou honraria, pois tudo passa. A pior das mancadas é chegar à morte sem nunca haver pensado a sério em formar santas. Quantos remorsos sentirão! Vocês são superioras; talvez já tenham sentido o leve contentamento e o discreto perfume da elevação. Pois bem, o Juiz Supremo lhes pedirá contas do encargo... Bem-aventurada quem enxerga claramente antes da morte! O Papa Celestino abandonou o pontificado dizendo: “Quero ir para a solidão e salvar a minha alma.” A única realidade da vida é a morte, só ela. Tudo passa, tudo some, tudo foge, mas só ela permanece.

Certo moço, conde e oficial das forças armadas, casara com uma jovem marquesa. Alguns anos depois, aquele moço, cujo casamento abençoei, pediu-me para que se entronizasse o Sacratíssimo Coração de Jesus em seu lar. Falei algo sobre a devoção ao Sagrado Coração e o modo de viver a entronização. Estavam todos de joelhos: o pai, a mãe, os irmãos; as irmãs também estavam presentes. Pregava eu: “A única realidade é o Sacratíssimo Coração de Jesus, é Ele a única realidade, a única!” Quando menos se esperava, uma luz iluminou o conde, que escutava uma voz como a lhe dizer: “Deixa tudo, deixa tudo”. A luz e a voz o perseguiam; depois de alguns dias, a jovem marquesa, que já havia sonhado com o Carmelo, sentira também o chamado. Escreveram ambos a Roma; a resposta demorou um ano. No dia 8 de dezembro de 1918 ou 1919 despediram-se e cantaram o Magnificat. Ela escolheu um Carmelo flamengo, para que ficasse mais isolada; hoje é ela a priora de lá. Já ele é o meu superior geral. Caso vocês conservem apegos, cortem-nos antes de morrer. Não haja em suas vidas o menor laço.

O pecado – Já cometeram algum pecado mortal durante a vida? O pecado é uma triste realidade. Para a glória do rei, temam o pecado! Transformar-se num leproso mefítico, embora apavorante, é aceitável; já o pecado é o pior dos males para vocês e suas filhas.

 

A grande prova da existência do inferno

Qual é o argumento mais poderoso para provar existência do inferno e a eternidade dele? Algo de mais poderoso que a palavra de Nosso Senhor? O crucifixo. Um Deus se crucifica por diversão? Não, ele morre como um bandido para nos poupar do inferno. Nosso Senhor fala no Evangelho mais de dez vezes acerca da geena e do fogo: “Temei a geena... sereis lançados ao fogo do inferno.” Porém, a morte do Cristo para salvar-nos desse fogo cala ainda mais forte. Quem contradita o Eterno é louco ou canalha. Existem livros que nos instruem sobre o inferno afirmando que todos os demônios estão presentes à hora da morte. Por que não dizem que quem estará lá conosco é o Salvador, o Bem-Amado, o que derramou sangue para nos salvar? Vocês são o espólio do Senhor, assim para que escapem de Seus braços seria preciso que fizessem força, pois Ele não as abandonará tão facilmente. O temor filial é dom, graça, prudência e humildade. Esperem n’ Ele, confiem n’Ele sempre mais, esperem! Até os canalhas devem esperar nele. Ele aguarda, aguarda mais um segundo, ainda outro, para que vocês lhe declarem: “Eu Vos amo!” Os nomes de vocês estão gravados no coração de Jesus desde o batismo, ou melhor, desde a profissão. Ninguém será capaz de apagá-los de lá, a menos que vocês mesmas o façam. Vocês hão de enxergar tais nomes no momento da agonia! Hão de morrer como São José, nos braços de Nosso Senhor, com a cabeça apoiada sobre o peito dele. Não é morte morrer assim!

Há alguns meses, uma humilde irmãzinha, serva dos pobres, morreu em grande júbilo, cantando. Só quem é humilde e confiante morre assim. A religiosa é religiosa, esposa e rainha para sempre. Sejam santas na vida e na morte, e a morte não será morte, pois passarão da vida de consagradas cá embaixo à glória de prediletas lá em cima, ao lado dele.

Ad sum? - sobre a vocação religiosa

Caro _________,

Talvez lhe cause confusão o título dessa carta. "Ad sum" é a resposta que você daria em Latim caso seu nome fosse chamado em uma lista. Durante a cerimônia de ordenação sacerdotal, o Padre assistente lê os nomes dos candidatos para ordenação, ao que os ordenandos respondem "Ad sum!", ou "presente!".

Tecnicamente, este será o momento da sua vocação, caso se decida entregar-se ao sacerdócio; é o momento em que se é chamado em nome do bispo para receber o sacramento das Ordens Sagradas. É a culminação de uma jornada normalmente cheia de obstáculos e dúvidas, exigências e sacrifícios; uma jornada que o mundo não compreende.

 

Ordem Sagrada

"ad sum" que você responderá perante o bispo, os ministros e os fiéis, será apenas a manifestação exterior do "ad sum" interior, normalmente repetido desde que se tomou a decisão de entrar no seminário. Perante o bispo, com uma vela na mão direita, a casula dobrada sobre o braço esquerdo, estará você, que se preparou para este momento abandonando o mundo, abandonando seu estilo de vida e abandonando seus trajes exteriores para se tornar um filho adotivo da Igreja pela cerimônia da tonsura, para se aproximar do altar pelas quatro ordens menores, para alcançar o limiar do sacerdócio pelas ordens maiores do subdiaconato e do diaconato, para que, após muita oração, estudo e prática das virtudes, você esteja pronto para receber o maior dom que Deus pode dar a um homem: o sacerdócio sacramental, que não é nada mais que a participação no sacerdócio de Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

Ordem na hierarquia

O sacramento chama-se ordem porque insere o recipiente numa ordem, que é a hierarquia de ministros sagrados (subdiácono, diácono, padre, bispo). A ordenação ao diaconato e ao episcopado também fazem parte do sacramento da Ordem. Todas as três ordenações - ao diaconato, ao presbiterato e ao episcopado - imprimem um caráter na alma, que marca o ordenando de acordo com sua ordem.

 

Ordenado a Cristo

Receber a ordem significa ser ordenado (configurado) a Cristo como mediador entre Deus e o homem. Dizemos que o padre participa do sacerdócio de Jesus Cristo, que é o sacerdote do Novo Testamento. O padre, portanto, na pessoa de Cristo, oferece o Divino Sacrifício a Deus em nome do homem e atrai as graças celestiais para ordenar o homem e toda a sociedade a Deus.

 

Ordem no homem

O padre não é só um canal de Deus ao homem e do homem a Deus; ele se entrega a Deus juntamente com Cristo como vítima. Ele também se entrega ao homem, juntamente com Cristo, como mestre, governante e santificador. Em sua relação com o homem, seu propósito é trazer a humanidade de volta a Deus, tanto como indivíduos quanto coletivamente em sociedade. Por essa razão, também, nós podemos dizer que o sacramento da Ordem recebe justamente esse nome, porque seu propósito é colocar ordem no mundo - nos indivíduos, nas famílias, nas comunidades, nas nações, em toda a sociedade - para que elas possam chegar a Deus.

A ordem não é apenas uma ordem de ações (comportamento moral), mas também uma ordem do ser. Um homem ordenado a Deus no seu ser está incorporado ao Corpo Místico de Cristo pela graça santificante. Em resumo, o padre é aquele que trabalha para restaurar todas as coisas em Cristo (o lema papal de São Pio X: Instaurare omnia in Christo).

 

A necessidade da Ordem

No mundo contemporâneo, ao invés de se mover em direção a uma recapitulação em Cristo, a humanidade parece se distanciar de Deus com uma determinação demoníaca. A cultura da morte, da qual a cultura "woke" é a última subespécie, está em ascensão despótica em todo o mundo – até dentro da Igreja Católica. As maiores potências do mundo estão unidas na criação de uma "nova ordem mundial", que, na verdade, é apenas uma continuação da velha desordem da rebelião de Lúcifer contra Deus; e a única maneira de reverter esse movimento é através do sacramento da Ordem.

Precisamos de mais jovens dispostos a dizer "ad sum" O futuro eterno de muitas almas e da História do mundo depende disso. Apenas pense: um padre ordenado aos 26 anos e que viva até os 80, rezará mais de 20 mil Missas em sua vida, ouvirá, talvez, umas 30 mil confissões, dará a comunhão umas 500 mil vezes, batizará, talvez, 500 almas, casará uns 100 casais, catequizará centenas de crianças e adultos e enterrará umas 500 almas. Toda vocação, portanto, é um fato que muda o mundo.

 

A escolha é sua

"Ad sum" – primeiro no seu coração e, depois, diante do bispo no dia de sua ordenação – a escolha é sua. Não espere por um trovão damasceno, ou por algum sinal extraordinário; a vocação é escolha sua.

Se não houver obstáculos insuperáveis no seu caminho ao sacerdócio (como responsabilidades, ou dependentes, ou se você for muito notório), e se você tiver todos os requisitos morais e virtudes intelectuais, a única coisa que o impedirá de dizer " ad sum" é a sua vontade, porque a escolha é sua.

Você já me ouviu falar isso antes: a vocação não é totalmente objetiva (algo de que se possa ter uma certeza metafísica), nem é completamente subjetiva (algo para ser encontrada em sinais e sentimentos misteriosos); é sua escolha, baseada tanto na sua capacidade e na sua disposição de auto sacrifício a Deus e a tudo que Ele ama.

 

Sua coragem

Portanto, meu caro ________, pense nesse chamado a dizer "ad sum" ao bispo. Se isso lhe assustar, lembre-se que não se pode ser corajoso sem experimentar o medo; e sei o quanto você valoriza a virtude da fortaleza.

 

Minhas bênçãos,

In Jesu et Maria,

Pe. Robert Brucciani

Conferências sobre a Santidade (I)

Pe. Matéo Crawley-Boevey

 

Nota da Permanência: O Padre Matéo proferiu estas conferências às superioras de diversas comunidades religiosas do Canadá, na província do Québec, em 1945. Embora endereçadas às almas consagradas, estas conferências são utilíssimas aos leigos, havendo estes tão-somente de fazer as devidas substituições, como “almas consagradas” por “almas batizadas”, “comunidade” por “família”, “vida religiosa” por “vida cristã” e assim por diante. 

 

Inclinar-se à santidade

Como vocês são religiosas, falemos sobre a vida religiosa; comecemos pelo começo. A vida religiosa é uma pedra angular. O padre não é um homem como outro qualquer, mas é um super-homem, um homem divinizado. Uma religiosa como vocês não é uma dama fina e inteligente, de forma nenhuma, mas sim uma pessoa consagrada a Deus; vocês são esposas e rainhas do rei Jesus, não servas, e muito menos escravas. Bem sei que vocês são insignificantes grãos de areia, mas Jesus as escolheu, de modo que a consagração é um casamento, não porque vocês o tenham pretendido, mas porque Jesus o quis assim. Essa união com Jesus é um casamento divino.

Certa feita uma religiosa ensinava a uma princesa a quem teve de repreender; a princesinha, irritada, recusava-se a obedecer e encolerizada disse: “Esqueceu-se de que sou filha do rei de França?”, ao que a religiosa respondeu: “Esqueceu-se de que sou esposa do rei dos reis, diante de quem o seu paizinho se ajoelha?”

A quem muito foi dado, muito será cobrado: o milionário não será cobrado como o servo. Vocês não serão julgadas como escravas mas prediletas. Cobrará o rei: “Recebeste tesouros, por isso vem prestar contas do diadema e do manto real.” Essa frase lhes deve provocar calafrios. A principal glória da vida religiosa é a de que vocês são as minhas prediletas, lhes diz Jesus, minhas pombas e filhinhas do coração. Quando morrerem, Jesus não perguntará se vocês instruíam cinqüenta alunas ou administravam um grande hospital, mas: “Amaste-me tu como uma rainha? Agiste como minha predileta?” Ele não dirá: “Vê as minhas mãos e os meus pés, que os impuros, os maus e os ímpios machucaram”; não, o primeiro sofrimento lhe virá das almas consagradas! “Tu me juraste que serias santa: que fizeste do juramento?”

Não pensamos o suficiente nessa queixa de Nosso Senhor em Paray-le-Monial. Normalmente se reclama de que as obras não vão para frente, de que há algo de errado com as irmãs, mas Nosso Senhor bem que poderia perguntar: “Recordas-te da tua profissão? Prometeste ser santa e, depois de quarenta anos, ainda não és.” Profissão significa convento e religião; por que entrei no convento? Vocês afirmam: “Para salvar a minha alma ou salvar almas.” Salvar a minha alma? Quem lhes disse que os três votos são necessários para ir ao céu? Então, papai e mãe vão ao inferno, pois eles não fizeram os três votos! O batismo, a penitência e a comunhão são suficientes para que papai e mamãe se salvem, bem como milhares de cristãos pelo mundo. Mas vocês insistem: “Vim para salvar as almas.” Pois bem! Salvar almas é conseqüência, pois as salvarão à medida de sua santidade.

Vocês entraram no convento para se tornarem santas: eis o princípio e o cerne da vida religiosa. Vocês são religiosas para que sejam santas e mais nada, o resto já está contido nisto. Ninguém está aqui para se instruir ou curar as feridas, mas para se transformar em santo; o único ideal da vida religiosa é amar como amaram os santos, ou seja, ser um santo com S maiúsculo a todo o custo. A pobreza, a castidade e a obediência são os três votos que me ajudarão; diariamente, com a graça de Deus, subirei, subirei e me tornarei santa. Se alguém já lhes disse isso, bem-aventuradas são; se esta é a primeira vez, mãos à obra. Ninguém está aqui para brincar de teatro, música, literatura e quejandos, mas para ser santa. Esta é a instrução que vocês devem transmitir às noviças. Não se tornar uma pessoa má não é um ideal, mas é o mínimo; se a mulher é religiosa apenas para evitar o pecado, está perdendo tempo.

 

“Senhor, dai-nos a vitória”

Quando visitei o papa, ele me perguntou: “Padre, que mais o inquietou nas suas palestras pelo mundo?” Fiquei hesitante. “– Fale, fale. – A falta de santos, a falta de santos.” Só o céu canoniza, só ele o rei que sabe de tudo; mas onde estão os seus santos canonizados? Agora chegou o momento: abandonem tudo o mais e se tornem santas!

Vou citar-lhes um episódio ocorrido durante a 1ª Guerra Mundial [1914-1918]: uma boa irmã, mas não santa, que tinha dois irmãos de sangue oficiais, repetia sempre entre gemidos: “Senhor, dai-nos a vitória! Nossa vitória, Senhor!” Certo dia escutou ela uma voz que saia do tabernáculo: “De que vitória falas? – Da vitória das nossas forças armadas. – Deixa isso comigo, disse Jesus; eu sou o Mestre, por isso suplique antes a minha vitória. – Que vitória, Senhor? – Quê? Tu, que és religiosa, não sabes qual é a minha vitória? A minha vitória é que tu sejas uma santa, pois boas irmãs como tu tenho para dar e vender.”

Como os santos nos fazem falta, o mundo definha porque estão faltando santos!

O primeiro dever da religiosa é santificar-se e oferecer ao próximo algo da própria fartura santificando-o. Não sejam modernistas: é errado aceitar moças para enfermeiras ou instrutoras. Necessitamos de noviças, assim se constitui erro grave a falta de rigor na escolha delas. A melhor religiosa, essa será a melhor instrutora e enfermeira; o resto vem em acréscimo. Perguntar-se-ão as religiosas: “Nós, santas? Não passamos de um fardo de misérias.” Pobre Jesus! Quando ele as escolheu, não sabia que eram miseráveis? Estava ele cego, sonolento, com a vista embaçada? Jesus não dorme, pois ele é justiça e sabedoria; Jesus as enxergou tais quais eram, sabia o que eram e, porque nunca se engana, as escolheu, para que se tornassem santas.

Acompanhando o chamado vêm as graças de estado; se a moça a quem chamei não consegue aumentar o resplendor das estrelas, eu, Jesus, que sou o guia dela, consigo. Ele nos concedeu milhares de graças para que sejamos santos! Quantos grandes santos receberam menos que nós! Nasceram com três centavos e morreram milionários; foram generosos e se tornaram sóis gloriosos. Talvez São Francisco de Assis e Santa Margarida Maria tenham sido menos favorecidos que nós, porém foram fidelíssimos ao capitalizar os dons de Deus! Sejam exigentes com as meninas que acolherem; quiçá percam umas cinco ou dez, mas seriam cinco ou dez noviças em demasia. Uma moça de dezenove anos costumava travar relações com religiosas não santas; convidaram-na a ingressar ao convento, contudo ela respondeu: “Ser religiosa é só isso? Vou ficar com a minha família.” Por vezes é assim que as boas almas se afastam.

 

A graça, a generosidade e a educação

Antes de tudo, é a graça que faz os santos. Jesus não pede mais do que podemos dar; mas se ele nos pede nos dá. Dá dez vezes mais que o necessário. O purgatório ficará cheio até a boca com almas que viveram vinte, trinta, quarenta anos no convento sem saber que a graça de Deus as ajudava e sem haver feito frutificá-la. Vocês são capazes de serem muito maiores que a singela Teresinha, apesar de serem apenas singelas cristãs. A santidade se baseia em graças superabundantes. Ninguém exige que uma pedrinha voe, mas com a graça de Deus é possível.

A santidade se baseia em generosidade: elevemo-nos cada vez mais, não fiquemos parados, nunca. Criemos asas, quais pássaros, que começam a voar aos poucos, e nos elevemos sempre. Teresinha, que se alçou tão alto em apenas vinte e quatro anos, dá-nos uma lição. Que fez ela? Escutem: “Nunca recusei nada ao bom Deus, desde a idade de quatro anos.” Talvez ela tenha recebido um capital menor que o de vocês e o meu, mas ela aumentou esse capital. Se vocês têm remorsos de haverem recusado muitas coisas do bom Deus, bem, a partir deste retiro vocês já não recusarão nada, progredindo no caminho de Teresinha: doação total, coração em troca de coração. Não ingressamos nas ordens apenas para que não sejamos impuros ou maus, porque, passado bastante tempo, conseguimos renunciar o pecado; de fato, renunciamos coisas excelentes: o casamento, a vida de família; mas nós nos limitamos, e porque nos limitamos, limitando a doação total, não somos totalmente de Jesus, e só dele.

A santidade se baseia na educação religiosa. Para que se formem os jovens nessa doação total, força é lembrarem-se dos santos: é essa a sua responsabilidade. Uma barra de ouro tem de ser purificada e cinzelada, a fim de que se transforme em cálice. O esforço e a labuta da boa vontade, diariamente, é o que faz os santos. Vocês precisam amar o esforço e torná-lo amável.

Um de nossos padres, provincial durante alguns anos – e morto em odor de santidade, envolto numa atmosfera de humildade e paz –, fora um moço altivo e orgulhoso, cheio de defeitos. Aos pouquinhos se transformou em santo, pelo esforço cotidiano. Aquele moço colérico, que tinha enormes defeitos e qualidades enormes, ao fim da vida se tornara um repositório de bondade e tranqüilidade, amado por todos e lamentado com soluços pelos religiosos que lhe assistiram à partida para o céu.

Sim, a santidade se baseia na educação também. Não basta ser uma boa irmã e contentar-se com isso, mas tentar imitar Teresinha. Eu lhes imploro, em nome do Sacratíssimo Coração de Jesus, para que vocês se tornem santas, pois é este o seu único dever, e só este.

Se vocês confiam mais na menina que tem vocação para boa mestra do que para boa religiosa, expiarão tal erro.

Vivemos aos trancos e barrancos, por isso desejaríamos sempre diminuir as exigências da religião, deixar a vida correr frouxa. Que pena! Há cem anos éramos mais religiosos. Que fazem vocês, se não trabalham na santidade? Deste modo se perde a glória de Deus, a de vocês e a das almas. Os padres devem ser o Cristo da paróquia, e também vocês devem ser um pouco como ele, sendo assim muito mais religiosas. Convençam-se em ser religiosas acima de tudo, e ainda assim considerem que talvez não estejam entre as primeiras almas da paróquia. É impossível Jesus reinar contra mim e vocês, pois vocês e suas comunidades são a guarda real do rei; portanto, despertem a luz e o calor nos corações e nas comunidades... Jesus não nos exige milagres, senão o milagre do amor, que é a ambição de ser santo custe o que custar. Quem salvará o nosso país? Não serão os políticos mas os santos. Um Cura d’Ars é mais glorioso para a França que mil Napoleões.

Realizaram vocês os esforços amorosos que lhes espera o rei, a exemplo de Teresinha ou Bernadete? Nem todos podem ser artistas, mas podem ser santos. Se não há santos nos conventos, onde encontrá-los? Se não há água nas fontes, onde bebê-la? Se não há flores nos jardins, onde colhê-las? Se não há árvores das florestas, onde buscá-las? Se não há estrelas no firmamento, onde fitá-las? A fonte é o convento, o jardim é o convento, a floresta é o convento, e o céu é o convento. Catarina Tekakwitha se elevou bastante; ela era uma pequena iroquesa; quiçá ela será considerada santa antes de vocês, mesmo sendo uma selvagenzinha! Se Deus quiser, tomara que ela as ultrapasse; Catarina não era religiosa, mas um passarinho da floresta. Já vocês são estrelas do firmamento. De direito, a santidade é sua; de fato, é dela.

Deus lhes está chamando, assim tratem de se elevar com asas de águia, pois Jesus, o rei, quer o milagre de sua santificação. O único objetivo de vocês serem religiosas é a glória de Deus. Urge que todas e cada uma sejam santas, e eduquem as suas filhas, pois ninguém dá o que não tem: sejam santas para transmitir a santidade.

 

“A missa na intenção de vocês é a minha grande pregação”

A doutrina do Sacratíssimo Coração de Jesus é uma teologia inteira por si só; reparem bem: o amor do Cristo é o dogma, o meu amor é a moral. Essa teologia se resume em três cenas: a manjedoura, a cruz e o altar. O quadro da missa que está neste local é obra de um padre belga; ele suprimiu os pormenores que distrairiam o fiel da missa: não há flores nem anjos, mas somente o sacrifício.

Suplico-lhes a esmola de uma oração ou de uma via crucis em favor das almas pecadoras dos consagrados, que precisam de luz imensa para retornarem a Deus; depois, durante o retiro, o Rosário da Santíssima Virgem. Celebro a missa durante a comunhão para ajudá-las a dar graças a Nosso Senhor. A missa na intenção de vocês é a minha grande pregação; só aí espero fazer alguma coisa pelas suas comunidades. Aqui, uso a minha língua; mas a melhor pregação é a do Senhor na missa. Essa pregação cala mais e melhor nos corações, pois quem lhas dá é o Sacratíssimo Coração de Jesus. Supliquem ao Sacratíssimo Coração de Jesus para que lhes deem luzes.

(Tradução: Permanência / Revista Permanência 274)

O Sagrado Coração de Jesus

Gustavo Corção

 

Como vimos no artigo anterior, todas as fontes visíveis da salvação para a vida eterna nasceram do Coração vulnerado de Jesus. E agora é no coração do Coração de Jesus que todos nós, tão sobrecarregados, devemos procurar alívio, paz e doutrina que nos norteie para a Casa do Pai.

A consciência mais viva do culto do Coração de Jesus nos aparece com a manifestação revelada a Lutgarda d’Aywières, que esperava sentada o moço com quem iniciara um namoro quando de repente viu diante de si a figura de Jesus a lhe mostrar o peito vulnerado e o sangue fresco e a lhe dizer: “Não procures mais os agrados de um vão amor. Olha, vê, contempla para sempre o que deves amar e porque deves amá-lo”. “Hic jugiter contemplare quid diligas, et cur diligis”.

A jovem Lutgada tornou-se monja beneditina e hoje, embora esquecida, permanece na galeria dos santos canonizados que a Igreja nos propõe como primeiros degraus da imitação de Cristo. Santa Lutgarda, ora por nós.

Um século mais tarde é no mosteiro beneditino de Helfta, em Saxe, que uma grande e sábia abadessa chamada Gertrude de Hackeborn (1231-1292) teve perto dela uma irmã Matilde, e foi nesse mosteiro tão santamente preparado que ambas tiveram a alegria de receber outra Matilde e outra Gertrude que se tornaram grandes santas, famosas pela intimidade que tiveram com o Coração de Jesus.

No fim de sua vida, Matilde, que não tinha a educação apurada das monjas, e só escrevia, e mal, em baixo-alemão, deixou esta página de um diálogo que teve com o Senhor Jesus:

— Dize-me o que me trazes tu, minha rainha.

— Senhor, trago-vos uma joia maior do que as montanhas, mais vasta que o mundo, mais profunda que o mar, mais alta do que as nuvens e mais bela do que o Sol, mais rica do que todas as estrelas, e mais pesada do que a terra inteira.

— E como se chama essa joia, ó filha, imagem de minha divindade, honrada por minha humanidade, ornada pelo Espirito Santo? Que joia me trazes?

— Senhor, a joia que vos ofereço se chama: alegria de meu coração. Arranquei-a do mundo, guardei-a comigo recusada a todas as criaturas, mas agora já não aguento carrega-la. Onde devo depositá-la Senhor?

— A alegria de teu coração não pode pousar senão no meu Coração divino que bate em peito de homem. Somente aí serás consolada e abrasada por meu Espírito.

Gertrude recebeu os mesmos favores do céu, e deixou-os consignados no Arauto do Amor divino, que foi um registro de toda a vida espiritual do mosteiro, mais do que história de sua própria alma. E vemos brilhar, no mais belo dos séculos, essa casa religiosa que o Coração de Jesus visitou com tanta intimidade.

Na família franciscana encontramos, ainda no século XIII, Margarida de Cortone e Ângela de Foligno que viveram a fundo a devoção da chaga aberta sobre o Coração de Jesus.

No século XIV, tão agitado e perturbado, arrefece a lembrança do Coração de Jesus, mas no meio das tormentas do Cisma vê-se passar a figura inflamada de Catarina de Sena, e ouve-se sua voz inesquecível a gritar que segue um rastro de Sangue. Ao seu próprio confessor ela escreve dizendo seu ardente “desejo de vê-lo sufocado, afogado no doce Sangue do Filho de Deus” e acrescentando: “Quero vê-lo inserido no flanco aberto do Filho de Deus, esse flanco que é um jarro aberto cheio de odor e até capaz de perfumar o pecado. Ali repousa a doce esposa num leito de Sangue e Fogo. Ali se vê e se manifesta o segredo do Coração do Filho de Deus. Nesta botelha de tampa perfurada se dessedenta e se inebria todo desejo enamorado, e ela nos dá alegria, nos ilumina o entendimento, nos enche a memória que aí se satura, a tal ponto, que já não poderá mais reter, entender e amar outra coisa que não seja o doce e bom Jesus, sangue e fogo, amor sem preço”

Nos tempos modernos é João Eudes (1601-1680) que retoma a devoção do Coração de Jesus associando-o ao Coração de Maria. Mas é Margarida Maria Alacocque (1647-1690) quem dará ao mundo o que chamaríamos de “mensagem” do Sagrado Coração. De 27 de dezembro de 1673 a 21 de julho de 1675, Margarida Maria é cumulada de revelações e é incumbida da difusão universal dessa devoção, que deverá ter suas práticas mensais, e festa anual celebrada com solenidade litúrgica. As dificuldades dessa difusão eram enormes para uma religiosa enclausurada, mas é preciso que o mundo inteiro possa escutar os queixumes e os pedidos de reparação de um Coração divino vulnerado por nossas ofensas, e por nós apaixonado.

A Igreja, porém, é vagarosa; e é melhor que o seja porque, se aos seus missionários convém correr como escravos de Deus e dos pobres, à Igreja hierárquica convém o vagar majestoso dos reis.

Dois séculos passaram até que Pio IX, em 1856, estendesse o culto do Sagrado Coração à Igreja Universal. Gradativamente o culto atingiu os mais altos graus da solenidade ritual. Leão XIII, em 1899, por instigação da irmã Maria Droste zu Vischering, do Bom Pastor de Porto, consagrou o gênero humano ao Coração de Jesus, com uma bela fórmula que se recomendava à recitação pública. Pio XI, em 1928, inseriu a festa no ciclo do temporal e concedeu-lhe uma oitava privilegiada.

Associou-se ao culto do Sagrado Coração a prática da comunhão em cada primeira sexta-feira do mês. E assim se vê que a Igreja solicitamente multiplicou os modos de nos unirmos melhor ao Coração de Jesus. Santa Catarina de Sena fez a experiência mística da troca de corações. São João Evangelista, o discípulo tão amado, teve o privilégio de reclinar-se no peito de Jesus e ouvir o seu Coração. A Virgem Santíssima de cujo coração nascera Jesus, “guardava todas aquelas palavras no seu coração” e, portanto, abrira para todo o gênero humano o caminho de volta ao Paraíso, que é o Coração de Jesus.

E a sorte do mundo depende essencialmente da presença catalisadora da Igreja, e da presença, na Igreja, de um pequeno rebanho que seja o sal do mundo e que se mantenha unido, consciente e fervorosamente unido ao Coração de Jesus.

Sem isto o mundo conhecerá dias de crueldade e de degradação inimagináveis, ainda que os ativistas multipliquem seus programas sociológicos e seus pronunciamentos temporais. Nosso torturado e transviado mundo não precisa de padres e bispos que se ocupem de problemas temporais com esquecimento do “único necessário”; e por mais forte razão não precisa de padres e bispos que, nos problemas sociais e políticos, correm atrás das mais perversas soluções. Há muita gente cuidando da máquina do mundo, e por isso precisamos de uns poucos que deem o testemunho de outra ciência e outra sabedoria que transbordam do Coração de Jesus. “Cor Jesu, in quo sunt omnes thesauri sapientiae et scienciae, miserere nobis”.

 

(O Globo, 26/06/71)

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