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Category: Dom Lourenço Fleichman, OSBConteúdo sindicalizado

Miragem ou visibilidade

Dentro deste ambiente pesado em que voltamos a viver hoje, doze anos depois, diante da ameaça de vermos nossos companheiros de combate fazerem acordo com o Vaticano, venho tirar dos arquivos empoeirados da memória, dos arquivos dessa velha Permanência, tão pequena, tão mal falada em certos meios, porém sempre fiel, algumas gotas de luz e claridade. Volto-me ao velho mestre Corção, que, sozinho e isolado neste Rio de Janeiro dos anos 70, recebeu graças impressionantes para nos guiar no meio da confusão e da discórdia, sem padres, sem bispos, sem igrejas, sem missa. Coisas da graça, coisas da vida interior. E Gustavo Corção exprimiu em poucas linhas de um artigo a chave de um delicado problema de fé que se nos impõe hoje: como podemos nos levantar contra as autoridades do Vaticano se a Igreja Católica é essencialmente visível nessa hierarquia? De onde nos vem o direito e mesmo o dever de não querer negociar com as autoridades do Vaticano, sem cair no cisma ou num certo gosto de estar na marginalidade?

Trata-se da visibilidade da Igreja. A Igreja não é uma sociedade puramente espiritual, ela é essencialmente visível. Essa visibilidade faz parte da sua santidade, é um raio de luz que do céu, da coroa de pedras preciosas que orna a Cabeça Sagrada de Jesus Cristo, resplandece dentro da sua Igreja, para que todos a vejam, linda e bela, sem rugas nem manchas. Imaculada.

Essa verdade que se encontra em S. Paulo e nos Padres da Igreja, explicitada de modo admirável pelo Papa Pio XII, na encíclica Mystici Corporis, de 1943, assim como por Leão XIII, em Satis Cognitum, de 1896,  esbarra sempre numa pedra-de-tropeço que já derrubou e continua derrubando muitos leais combatentes da fé.

Quando ouvimos falar em visibilidade, a tendência nossa é olhar em volta e ver o que se enxerga. E o que vemos, antes de tudo, o que aparece em primeiro lugar na Igreja? É a sua hierarquia: o Papa e os Bispos, as instituições que governam a Igreja. Se nossa atenção para essa verdade não for atraída para um estudo mais aprofundado, vamos passar afoitos sem nos darmos conta do fundo do problema. Que a hierarquia católica seja manifestação da visibilidade da Igreja é coisa evidente. Mas é preciso explicitar isso.

A Visibilidade do Corpo da Igreja

Como todo corpo, o da Igreja é visível. Trata-se dos seus membros, dos homens que a compõem e das instituições humanas estabelecidas pelas autoridades para transmitir seu governo. Aliás, o Papa Pio XII ensina que não é apenas a hierarquia eclesiástica que compõe essa visibilidade. O Papa cita os pais de família, que, eles também, manifestam a visibilidade da Igreja ao formar as almas dos seus filhos como bons católicos, pela oração comum da família, pelo catecismo, pela freqüência aos sacramentos.

A Visibilidade do Corpo Místico de Cristo

Mas a Igreja não é apenas visível no seu corpo, nos seus membros. O grande mistério da Santa Visibilidade da Igreja está naquilo que não aparece com evidência humana, mas que sabemos por revelação divina, no mistério da fé: a Igreja é visível sobretudo nos seus traços sobrenaturais. Ou seja, na sua santidade e nos seus sacramentos, na graça que ela distribui a todos os batizados, na unidade de doutrina que ela ensina, em todos os seus aspectos divinos, naquilo que ela é: Corpo Místico de Cristo.

Podemos compreender um pouco melhor esse delicado ponto se prestarmos atenção a Jesus crucificado. Os homens, naquele dia, perderam a visibilidade do corpo de Cristo, pois que o viam morto na Cruz. Tanto é assim que os discípulos de Emaús iam tristes pelo caminho, achando que tudo estava perdido. Por que razão Jesus devia criticá-los duramente na conversa que mantém com eles no caminho de Jericó? Não era verdade o que viam? Jesus não morrera? Como podiam eles saber que aquele corpo morto não havia de assim permanecer?

Ó estultos e tardos em compreender!

Foi com essas palavras duras que Jesus sacudiu suas almas para lhes advertir: olhem para aquele homem morto com os olhos da fé, e creiam! Tenham fé sobrenatural, pois por detrás das aparências da morte do corpo existe a fé, a fé que lhes vem pelos ouvidos, daquilo que eu lhes falei: que no terceiro dia ressuscitaria. Homens de pouca fé! Olhem a visibilidade do meu Corpo Místico, se a visibilidade do meu corpo físico vier a apagar-se. Deixem de lado as coisas evidentes para a natureza e apeguem-se àquilo que não é evidente e que exige uma fé íntegra e total. Creio na Igreja Católica.

Ó Senhora minha, Esposa Mística de meu Deus, como pude temer e fugir assim? Como pude abandonar-vos no momento dessa crucifixão, dando ouvidos aos que sacudiam o cadáver de um corpo apodrecido e já sem a seiva da fé? É para jurar, é para jurar, pelo amor de meu Deus, pelo amor de meu Jesus por mim crucificado, que não vos abandonarei na hora derradeira; que estarei de pé como esteve São João representando-nos junto a vosso Esposo divino. Estarei de pé, na dor e na angústia, como esteve a doce Mãe de vosso Esposo, a Virgem Maria. É a ela que recorro, é a ela que busco com os olhos da fé, minha Mãe, para que me ensine, no colo, a ser forte, a espantar para longe o naturalismo, que me ameaça e que me conduz com agrados ao cadáver de uma hierarquia moribunda, esse Sinédrio dos últimos tempos.

Todos os Papas que falaram sobre a visibilidade da Igreja, ao ensinar que o Papa e os Bispos são os representantes e o canal dessa visibilidade, pelo triplo poder de santificar, ensinar e governar, supõem que esta hierarquia ensina, santifica e governa com a fé católica e pela fé católica. É por isso que já não podemos usar esse critério de visibilidade, esse critério das coisas evidentes e naturais. É por causa da perda da fé, por causa dos quarenta anos de ensinamentos e atos contrários à fé, que eles já não gozam da nossa confiança de filhos. Não dizemos que eles não sejam legítimos membros da hierarquia. O que dizemos é que, mesmo sendo, já não servem de critério de visibilidade da Igreja. E isso não diminui essencialmente essa visibilidade. É claro que, se isso acontecesse, a Igreja estaria derrotada. Mas não acontece justamente porque a essência da visibilidade supõe a fé; a essência da visibilidade não é a coisa natural e evidente, e sim o mistério de uma instituição que é visível naquilo mesmo que nela é invisível. E essa visibilidade permanece intacta enquanto existir uma só alma que seja com a graça santificante no coração. Permanece viva, clara, forte e infalível enquanto permanecer um só altar em que o verdadeiro sacrifício seja celebrado. Morre a hierarquia, desaparece o que é dos homens, mas permanece visível, para quem quiser ver, a Santa Visibilidade da Imaculada Esposa de Cristo.

Se Jesus pôde morrer e desaparecer aos olhos dos seus apóstolos e isso não significou a derrota do Filho de Deus, porque permanecia visível e viva a união hipostática das duas naturezas (mistério), assim também podemos assistir sem  medo à morte do corpo da Igreja, desaparecendo o corpo visível e mortal, pecador e fraco, desde que nossa fé nos traga a certeza de que a Santa Visibilidade da Igreja permanece no mistério da Esposa de Cristo, na sua fé, na sua doutrina, nos seus sacramentos, na graça santificante e, se Deus assim nos conceder, até em três ou quatro bispos santos que sirvam para nós de bastão, de pastores, na travessia do deserto. E estejamos atentos pois muitas miragens poderão querer nos enganar.

Não nos encantemos, pois, com idéias falsas sobre a visibilidade da Igreja, idéias que no fundo denotam perda da fé, e nos lançam na detestável companhia dos lapsi, da Roma antiga, que, sem admitir doutrinas contrárias ao cristianismo, iam por fraqueza e diplomacia queimar um incensozinho ao imperador. Caíram quanto à fé, enquanto os mártires foram às feras! Que venham as feras do Vaticano, e que a graça de Deus nos ampare na terrível perseguição e na tentação.

O artigo de que falei no início, de Gustavo Corção, é A Descoberta da Outra

O desemprego e a Cruz

E vem essa CNBB dos bispos do Brasil nos falar de desemprego, na linguagem marxista e materialista que lhe é costumeira. Quanta cegueira! O desemprego tem suas raízes numa crise que nem de longe é econômica: é a crise nascida no séc. XIV, que deu origem ao chamado Nominalismo, que levou os homens a abandonarem a "direita via", vivendo já no Humanismo que punha o próprio homem no centro dos seus interesses. Querem saber o próximo passo? É a quebra da Europa católica pelo protestantismo, é a Renascença, com seu pensamento e sua arte carregada de paganismo beato.

Nesta altura da vida da humanidade, o cristianismo medieval já tinha ficado para trás há séculos. E com ele, perdeu-se a noção de uma sociedade católica, onde os homens buscavam primeiro o Reino de Deus e sua Justiça, viviam pobremente, contentavam-se com pouco, mas eram felizes e alegres.

Estava eu neste pensamento quando tocou o telefone:

Dom Lourenço, a companhia onde eu trabalho está mandando dezenas de funcionários embora. Talvez eu perca o emprego!

O contágio!

É a única explicação. Estamos vivendo uma espécie de contágio que não atinge o corpo, mas as forças espirituais da alma. Na antiguidade, os homens iam acompanhando passo a passo o caminho da peste. Hoje levou um pai, amanhã, será a vez do vizinho, do pároco, do amigo.

Eram felizes, os antigos, porque morriam no flagelo. A nós está reservado sofrer uma terrível doença que penetra no fundo de nossas almas, que arrasta pouco a pouco, espalhando-se como um câncer, sem escolha, sem marcar dia nem hora. E o tormento perdura pelos anos a fio:

«E naqueles dias os homens buscarão a morte e não a encontrarão; desejarão morrer, e a morte fugirá deles» (Apoc. 9, 6)

Esta doença tem mais de uma característica. Ela começa pela cegueira espiritual, que leva as melhores pessoas a não verem que o mal está dentro de suas casas, dentro de suas vidas. E todos vão se divertir, e adotam os prazeres do mundo e suas riquezas, seu orgulho idiota contra a santidade da Igreja. Mal sabem eles que são peças de um jogo, escravos de uma ordem mundial, acéfala e monstruosa, saída direto das trevas do Inferno para o derradeiro combate contra o Rei do Céu e da Terra.

Depois de se entregarem a esta cegueira, entram na lógica do erro e, já sem forças, se vêem obrigados a amar as riquezas, as posições de destaque, as maravilhas do mundo:

– Faço sucesso, ganho muito dinheiro, sou bem sucedido, isso é meu direito!

– Já no meu caso, como não faço sucesso, como perdi meu emprego, tenho o direito de reclamar! Vou entrar na justiça!

É um vício. Se adquire pela prática constante dos mesmos atos, e pela adoção da espiritualidade moderna, que nada mais é do que escravidão aos desígnios do diabo.

Mas eles não enchergam e, pior, desejam viver assim.

Dentro deste contexto aparece o flagelo terrível que atinge a todos indiscriminadamente, bons e maus, ricos e pobres, brancos e pretos: o desemprego, que é filho do excesso de emprego.

Já ouço o clamor público, mas estou longe dele. Saí deste mundo e é do alto que procuro analisá-lo. Sem um certo recuo fica difícil conhecer a verdade dos fatos, como a beleza de um quadro.

Digo que é o excesso de emprego que gera o desemprego. Primeiro devido ao mundo materialista mergulhado no vício de possuir e gozar que descrevi acima. Depois, devido ao abandono da verdadeira noção de família, do papel de cada um na vida da sociedade. A mãe já não é mais mãe, a mulher já não é mais esposa. Não vou discutir isso agora, e peço às senhoras que não se levantem para essa discussão. Remeto-vos ao texto de Gustavo Corção que se encontra no cap. VI do livro As Fronteiras da Técnica, e que está editado aqui mesmo em A Vocação da Mulher. A verdade é que eles buscaram esta situação, derrubando os padrões da sociedade católica, ou pelo menos da moral católica, que ainda vigorava no início dos anos sessenta. Agora choram, choramingam, sem saber o que vai acontecer; lavam-se, escovam-se, como que querendo desgrudar do corpo essa lepra, mas ela não atinge o corpo e sim a alma.

«...e todo servo e livre se esconderam nas cavernas e entre os penhascos dos montes; e diziam aos montes e aos rochedos: caí sobre nós e escondei-nos da face daquele que está sentado sobre o trono e da ira do Cordeiro; porque chegou o grande dia da ira de ambos, e quem poderá subsistir». (Apocalipse, VI, 16)

Remédio para o corpo, medicina, de nada vale.

Remédio para a alma. É o que é preciso. Mas o demônio, na sua esperteza, minou as forças da alma, ao longo dos anos, levando os homens a viver nesta miragem do mundo belo, cheio de prazeres e coisas lindas e gostosas. Viciou o homem, de modo que o remédio espiritual tem para ele, hoje, um amargor insuportável. E ele foge. E fugindo, perde a única tábua de salvação, que é o retorno aos parâmetros essenciais da vida humana: Deus e a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo.

O que vou lhes dizer agora são pensamentos que me foram vindo diante de um mundo que beira a caduquice, a barbárie mais abjeta, a loucura coletiva. Não sou profeta do Apocalipse, apenas olho para o mundo que temos diante de nós com os olhos da objetividade, da clareza de um pensamento assentado em bases filosóficas e doutrinárias ensinadas ao longo de dois mil anos de catolicismo.

E pergunto: vocês vêem na atitude dos homens comuns, dos magistrados e governantes, dos padres, algo que lhes inspire confiança quanto ao futuro? Não digo certeza, digo inspirar uma certa e tênue esperança de que o caminho esteja certo.

Não tenho nada de pessimista, e devo lhes dizer que esta palavra nada significa quando nos deparamos com um mundo enlouquecido como está o nosso.

Eis o que vejo.

Nosso Senhor, na sua grande misericórdia, tem nos dado sinais de que está separando o joio do trigo. Ele ceifa neste momento e recolherá ao seu celeiro o grão bom, deitando fogo na palha e na erva daninha. E que sinais são esses?

O primeiro sinal é o flagelo da Aids que castiga os maus e purifica os bons no que toca a concupiscência da carne. Eis o que nos ensina S. Paulo: «Porque as suas próprias mulheres mudaram o uso natural em outro uso, que é contra a natureza. E, do mesmo modo, também os homens, deixando o uso natural da mulher, arderam nos desejos, mutuamente, cometendo homens com homens a torpeza, e recebendo em si mesmos a paga que era devida ao seu desregramento.»

Com este flagelo, Deus nos alerta para que pratiquemos a virtude da castidade, cada um segundo o seu estado, fugindo com força e gana dos pecados e dos prazeres ilícitos de uma sociedade liberada dos antigos tabus, ou seja, da lei de Deus. Que os casais usem corretamente dos direitos matrimoniais, que os adolescentes fujam sem medo das intimidades ilícitas dos namoros sexuais, que as crianças sejam afastadas da televisão que lhes ensinam que tudo é lindo num mundo alegre e feliz onde reina a liberdade total, sem Deus, sem os ultrapassados 10 mandamentos, sem pais.

O segundo flagelo é o que nos ocupa mais particularmente aqui. Ele atinge em cheio a concupiscência dos olhos, castigando os homens que só pensam em riquezas, em bem estar, em dinheiro, em ser dono disso, em comprar aquilo. É a atitude que vem se agravando desde o século XIV, de resumir a vida no dinheiro, o que acarreta em estabelecer parâmetros de classificação dos homens pela produtividade. Não interessa mais se ele é virtuoso e honesto ou se, ao contrário, desonesto e vicioso. O que conta é a relação custo/benefício. E a massificação realizada pela mídia, hoje agravada pela Internet, iguala todos os homens no que toca a procura. Todos querem porque todos assistem aos mesmos programas de televisão. Basta perceber o que ocorre na época do Natal. De Ipanema a Madureira, de São Gonçalo a Tijuca, nos prédios, nos condomínios ou nas favelas, todas as crianças brincam com os mesmos brinquedos.

E nós, como escaparemos disso, como receberemos este flagelo do desemprego (ou do excesso de necessidade de emprego) de modo a purificar a concupiscência dos olhos? Creio que só há um caminho, para isso. É a virtude da pobreza, que brota da gruta de Belém e se derrama sobre nós da Cruz do Gólgota. Com dinheiro ou sem dinheiro, o pobre Jesus exige de nós a comunhão na sua Santa Pobreza. Possuir como se não possuísse, viver no mundo como se não vivesse. Renunciar aos bens materiais, ao supérfluo, por amor de Deus, porque a Ele pertencem, como tudo o mais. Estarmos submissos à sua Santa Vontade, como Jó, simplex et rectus, que dizia no meio de sua amargura: «Nu saí do ventre de minha mãe e nu me tornarei para lá; o Senhor o deu, o Senhor o tirou, como foi do agrado do Senhor, assim sucedeu; bendito seja o Nome do Senhor». (Jó, 1,20). Me parece que Nosso Senhor pede que sejamos mais modestos no uso dos bens materiais.

A grande confusão que paira sobre a humanidade, seguindo esta linha de raciocínio, é que faltaria um flagelo para o castigo dos maus e purificação dos eleitos. Este último flagelo agiria sobre a última e mais terrível das concupiscências, a soberba da vida. A carne, as riquezas, o poder, assim se dividem os pecados dos homens.

Não há dúvida que já vivemos dentro de um ambiente de orgulho total, de ódio ao próximo, de busca desenfreada de poder. Não apenas por governantes estúpidos e corruptos. São todos que assim agem. Este ambiente é o que mais se assemelha ao inferno, por isso é o pior e mais terrível flagelo que poderia cair sobre os homens. Esse ambiente de soberba universal já existe e exerce sua influência em tudo o que se realiza hoje sobre a terra. Mas não me parece que já seja um flagelo, pois ainda não é imposto individualmente a cada um, sem escolha, sem dia nem hora marcada. Já respiramos o seu ar, mas talvez ainda não estejamos vendo o seu rosto demoníaco. A não ser que, pela soberba atingir essencialmente à alma e não ao corpo, já estejamos vivendo este derradeiro flagelo, sem no entanto percebe-lo. Contra ele, o único remédio é a virtude da obediência, pela qual nos submetemos de bom grado aos mandamentos de Deus, à orientação segura da Igreja Católica, fiéis ao que Ela sempre ensinou, cheios de profunda humildade, desconfiando e desprezando nossas próprias opiniões.

Desde já estejamos no combate contra este flagelo horrível, contra os três flagelos dos fins dos tempos. Dentro de nossas casas, em nossas vidas, participemos das coisas do mundo com cuidado, desconfiando das nossas próprias forças para resistir a tamanho mal, pedindo socorro numa oração constante para que Deus tenha pena de nós. Os remédios que apresentei estão no Evangelho: são os três conselhos de perfeição que Jesus nos ensina.

Tenhamos uma certeza, porém: existe um lugar, um único lugar, onde estaremos ao abrigo de forças tão destruidoras da nossa alma. Junto à Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. É lá, com Maria, nossa boa Mãe, de pé diante de seu Filho crucificado que receberemos as luzes necessárias para escapar da morte eterna. É lá, neste Calvário eterno que é a Santa Igreja, junto à Cruz da Santa Tradição, que receberemos a vida de Jesus ressuscitado, que permanece conosco na Sagrada Hóstia até a consumação dos séculos. Com esta vida, viveremos. «Nós devemos gloriar-nos na Cruz de N. S. Jesus Cristo, em quem está, para nós, a salvação, vida e ressurreição; por Ele fomos salvos e nos tornamos livres» (Gálatas, 6,14).

Temos pela frente três dias Santos para acompanhar a Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor, na Semana Santa. Depois de nos termos preparado, pela Quaresma, ressuscitemos com Ele, cantemos o nosso Alleluia, cheios da única esperança verdadeira. A vida da graça, semente de glória, que nos é dada hoje para a vida eterna.  

Visita a uma exposição

Quando me recomendaram visitar a exposição Brasil 500 anos - Arte Barroca, realizada no Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro, alertaram-me para alguns detalhes que poderiam me desagradar. Fui e saí chocado com o que vi, e principalmente com o que ouvi.
 
A exposição, realizada com todo o requinte da modernidade, agrupa um impressionante acervo de estátuas barrocas, todas religiosas, cada uma delas merecendo do visitante alguns bons momentos de olhar contemplativo, silencioso, para poder assimilar na lentidão de nossas parcas almas, a grandeza do que estes grandes homens fizeram antes de nós.
 
Mas toda essa impressionante grandeza é jogada no chão, achatada, pela parvoíce, pela pequenez, pela submissão ao modismo (que é falsa cultura), dos curadores. E quando digo que é achatada, não falo apenas no sentido figurado,  mas até fisicamente, pois inventaram uma entrada e saída onde somos forçados a nos abaixar, talvez para procurar nos nossos intestinos algum traço dos tempos dos macacos!
 
Quando entramos na primeira sala temos a impressão que a mostra será excelente. Uma naveta de carregar incenso litúrgico, de prata, pequenina como é, enche literalmente a sala toda. É aqui que devemos nos abaixar e vai tudo por água abaixo. Na sala seguinte um ambiente escuro ornado por centenas de paus, troncos lisos, formando um cenário com pretensões ecológicas ou lá o que seja, abriga aqui e ali algumas estátuas barrocas. Esse cenário passaria desapercebido não fosse a sonorização, que nos lança de supetão, não no ambiente barroco e católico do século XVII ou XVIII, mas num sincretismo religioso pseudo-ecumênico, onde os sons misturam gregoriano com batuque do candomblé, o berimbau com as cordas de uma viola da gamba. E isso não é uma sucessão de músicas diferentes, mas uma mixagem que joga nossa alma num liquidificador espiritual, de onde só sentimos uma única sensação: ir embora o mais rápido possível. E só não saímos correndo de verdade porque as imagens são belíssimas e merecem o esforço e o sacrifício.
 
As outras salas são ornadas com uma espécie de campo florido, composto de bolas de papel colorido fixados no alto de pontas de vergalhão. Se já não é mais a ecologia, não saberia dizer o que quiseram representar; o fato é que a pobreza do cenário nada tinha de religioso, de espiritual, o que era necessário para bem apreciar obras de arte religiosa de um tempo revoluto. Senti muitas saudades da Mostra dos Espanhóis.
 
Duas coisas mantinham-se como na sala anterior: a beleza sem par da estatuária e o distúrbio mental e espiritual causado pela mistura das músicas.
 
Ao nos aproximarmos do fim, entramos numa sala onde foram expostas as pratarias cinzeladas e o ouro cintilante dos objetos litúrgicos. Belíssimos. A curiosidade dessa vez fica por conta da forma como são expostas as peças. Andamos sobre um piso de vidro blindex e as peças ficam debaixo do vidro. Invenção apenas desnecessária e "modernosa", se não tivessem tido o mau-gosto (já não é o primeiro) de expor uma imagem de Jesus Cristo crucificado, debaixo dos nossos pés! Para quê? Só para dar o gostinho aos infiéis de dizer que "pisaram" em Cristo? Pois é o que os curadores dessa exposição fizeram com a desfiguração do Barroco Brasileiro que ali criaram. E digo isso levado pelo choque que senti ao entrar na última sala. Ali estava estampada a razão de ser daquela música sincretista e irracional: a última sala é dedicada à macumba, às imagens da macumba; e no fundo dela, uma parede inteira com a foto do Cristo coberto de plástico que a afronta, o sacrilégio e o desrespeito dos carnavalescos levaram para o Carnaval alguns anos atrás. Nessa eu não fiquei. Mas entendi o porquê daquela música: a grande mensagem da mostra Barroco Brasileiro é de nos fazer crer que a continuação da arte religiosa brasileira encontra-se na macumba, e que a cultura desse povo é o carnaval!
 
Dizem que cada povo tem o governo que merece. Pois também é verdade dizer que cada povo tem a cultura que merece. E a cultura da barbárie é falsa cultura, como o culto dos demônios e dos espíritos é falso culto. E se essa é a cultura do Brasil de  hoje, então não existe mais cultura no Brasil.
 
Foi o que procurei dizer numa carta que deixei aos curadores, lá no museu. Carta que certamente não será lida. E se for, não mudará nada, pois os homens não querem mais conhecer a verdade e desconhecem que o Belo é o eterno esplendor da Verdade que é Deus.
 


Nossa posição sobre a crise da Igreja

Para chegarmos a ter uma noção mais exata do que seja a nossa condição de católicos, hoje, consideremos a Igreja como existia na época ainda recente do papa Pio XII. Apesar das diversas dificuldades que vinham criar obstáculos à vida normal da Igreja, esta conseguia manter as almas no caminho do céu. Quantas ocasiões de aumentar a fé e a piedade dos fiéis: Congressos Eucarísticos, Encíclicas papais reiterando a doutrina de sempre da Igreja, grandes colégios formando jovens católicos e universidades comandadas por sacerdotes seguros e determinados. Se olharmos para o quadro de bispos que compunham o episcopado tanto aqui no Brasil como em outros países, ficamos impressionados com a qualidade de alma, a firmeza na fé de tantos deles. Havia os liberais, mas estavam sob o controle da Igreja que velava para que as almas não recebessem doutrinas e ensinamentos perniciosos à fé.

As igrejas estavam cheias e por toda parte havia associações católicas para o estudo da doutrina ou para ajudar seus associados a viver melhor a vida cristã: Apostolado da Oração, Filhas de Maria, Congregação Mariana, Cruzada Eucarística e outras formadas por associações de leigos, como foi outrora o Centro Dom Vital, o Legionário etc. Grandes homens brilharam em nossa sociedade, como Jackson de Figueiredo, Carlos de Laet, Gustavo Corção, etc.

A Igreja, nesta época, apesar de estar juridicamente separada do Estado em praticamente todos os países, continuava exercendo uma saudável influência na formação dos costumes, e servia também de muralha contra os excessos dos mundanos, dos racionalistas e ateus de diversos matizes.

As almas recebiam da Igreja todo o necessário para alcançar a vida eterna: sacramentos, ensinamentos, orientações espirituais, orientações sociais e políticas. Tudo isso seguramente estabelecido de acordo com os dogmas da nossa fé, com o que sempre, em todo lugar e por todos havia até então sido ensinado pela Igreja. Era essa a nossa grande segurança; era essa nossa maior alegria.

Ora, este quadro que acabo de lembrar acima, nada mais é do que a vida católica tal como deve ser ensinada sempre pela Igreja. Esta é a vida de que precisamos para alcançar nosso fim último que é a vida divina, no céu. E se a Igreja Católica, em sua essência, Corpo Místico de Cristo, é nossa Mãe e nos traz sempre todo esse conjunto de vida e santidade, já na sua parte humana, na sua hierarquia, nos homens que a governam, cabe-lhe um dever, uma obrigação recebida da boca de seu fundador divino, Nosso Senhor Jesus Cristo, de dar às almas este alimento diverso e salutar. Mesmo o Novo Código de Direito Canônico explicita esse dever:

 
«Os fiéis têm o direito de receber dos Pastores sagrados a ajuda dos bens espirituais da Igreja, especialmente os provenientes da Palavra de Deus e dos Sacramentos» (cânon 213 do Código de Direito Canônico).

Assim como um pai de família, antes de exigir amor e confiança da parte de seus filhos, tem por obrigação lhes dar sustento material e moral, segurança e educação, assim também a hierarquia católica só pode exigir de seus filhos, dos seus fiéis, amor, caridade, confiança e obediência, na medida em que trouxer para eles a firmeza da fé, a proteção contra os erros, a defesa contra as instituições mundanas criadas para perverter a humanidade. Não me parece difícil considerar assim as coisas porque são noções de respeito à própria natureza do homem e da sociedade humana. Aplica-se a qualquer sociedade, seja ela familiar, religiosa, empresarial ou governamental.

Hoje, quando nos acusam de desobedecer ao papa ou aos bispos; quando nos caluniam chamando-nos de cismáticos, as pessoas cometem um erro simples: exigem de nós uma atitude que só cabe num ambiente onde se preserva o mais importante, onde o dogma da  fé seria preservado e ensinado como nos tempos antigos, seja de São Pio X, ou Pio XI, ou Pio XII. Acontece que entre a morte de Pio XII e nós espalham-se quarenta anos. E esses quarenta anos foram e continuam sendo de um terremoto avassalador que derrubou a  fé!

Ao longo desses quarenta anos foram diversos os aspectos da destruição. No início, nos anos 60, tímida, ainda misturada com algum resto de catolicismo. Já nos anos 70 foi avassaladora, derrubando e destruindo costumes, dogmas, imagens, devoções; época de grandes perseguições contra todos os que queriam permanecer fiéis. Veio, em seguida João Paulo II e a revolução abriu-se para um ecumenismo desenfreado jogando a quase totalidade dos católicos num profundo ceticismo, no indiferentismo religioso que considera qualquer religião como verdadeira. Ao mesmo tempo, tendo tudo destruído do que era tradicional, iniciou-se uma espécie de reconstrução em novas bases, com fundamentos ecumênicos da nova Igreja mundialista: uma nova bíblia foi elaborada, um novo Direito Canônico, a nova Missa, novo Catecismo, novas devoções a Nossa Senhora, novos ritos de sacramentos. Essa reconstrução foi feita sob o comando do Cardeal Ratzinguer, que soube dar a estas novidades certa roupagem antiga escondendo realidades completamente novas e contrárias ao dogma da fé.

Esta é a questão principal: a partir do Papa João XXIII até o papa João Paulo II, sem exceções, o catolicismo foi sendo esvaziado de sua seiva, de sua vida, de sua fé. Todas as instituições católicas levantadas ao longo de dois mil anos para nos proporcionar a salvação eterna foram destruídas, postas abaixo, por essa nova hierarquia saída do Concílio Vaticano II.

Ora, se os membros da hierarquia não cumprem mais o seu sagrado dever de nos alimentar com a fé de sempre, como podem exigir aquela obediência, submissão, amor e confiança? Como podem nos acusar de não ter o espírito católico porque não queremos seguir ao papa ou aos bispos, se estes chefes não cumprem o seu dever em matéria gravíssima? Como podem exigir dos católicos que digam que Vaticano II é um concílio católico se foi nesta reunião solene de bispos que se delineou a destruição total do catolicismo operada de dentro da Igreja? Como podem exigir de nós que aceitemos uma missa nova que na teoria e na prática "se afasta no seu conjunto como no detalhe, da teologia católica da missa" como declarou ao Papa Paulo VI (com a devida demonstração teológica) o cardeal Ottaviani, então pró-prefeito do Santo Ofício? Um católico não pode ficar indiferente a estas graves questões que põem em risco a sua fé e a sua salvação, sem correr o risco de ouvir, de Nosso Senhor Jesus Cristo, no dia do Juízo Final, a condenação e o castigo por não termos defendido nossa fé, como é nossa mais grave obrigação.

Como muitos dos nossos leitores podem não ter vivido o ambiente de destruição operado pela hierarquia ao longo desses anos, proponho listar, sem pretensões de seguir ordem cronológica e sem pretender também abranger tudo, exemplos dessa obra perversa que destruiu a nossa fé católica. Assinalo que a longa lista é apenas um esboço sem desenvolvimento algum. Cada um desses itens poderia ser desdobrado e multiplicado em milhares de escândalos e erros. Veja a lista aqui.

Isso posto, ficando claro que a destruição do catolicismo é uma realidade, cabe ao fiel tomar uma atitude de defesa da fé. Isso não significa que estejamos recusando a autoridade do papa ou dos bispos; não significa que estejamos aqui afirmando que João Paulo II não é papa. E àqueles que dizem caluniosamente que somos sede-vacantistas só na prática, respondo que fica fácil esquivar-se da análise dessa situação que acabo de descrever, fazendo fumaça para tapar a vista dos fiéis. O que significa ser cismático na prática? Se em nossas missas o papa João Paulo II é nomeado, no cânon, assim como os bispos diocesanos, como podemos ter um espírito cismático ou sede-vacantista? Nada mais fácil seria omitir-se os nomes dos chefes da hierarquia, pois que são orações da missa ditas em silêncio. Ninguém perceberia. Mas isso não acontece. E como podem ser cismáticos fiéis que vão a Roma rezar pelo Papa no Ano Santo?

Para se guardar a honestidade e a boa fé é preciso encontrar outros caminhos para nos criticarem. Esse não tem fundamento. Se querem afirmar que estamos errados, provem. Levantem uma tese, mostrem que não existe crise, tragam seus argumentos. Se acham que a obediência ao papa e aos bispos não depende do depósito da fé, que provem isso com os argumentos teológicos que a situação exige! E a explicação correta é essa falta de confiança, esse repúdio vigoroso e total do erro que nos é ensinado há quarenta anos pelas autoridades da Igreja. De modo que se alguém pretende exigir de nós uma mudança de atitude em relação a essas autoridades, comece provando que elas já não ensinam mais os erros de Vaticano II. Comece explicando a tremenda contradição que existe entre Assis e o Catolicismo, entre Neo-catecumenal e Igreja Católica. Comece mostrando que essas autoridades já não ensinam mais o ecumenismo devastador da Religião, já não consideram mais a falsidade da liberdade religiosa, já não pregam mais a democracia no governo da Igreja, já castigam os escândalos que se repetem há quarenta anos nas celebrações e nos seminários.

Se alguns acham que, apesar dessa grave falência da essência do catolicismo, devemos, mesmo assim, obedecer ao papa e manter uma situação de legalismo como se a Igreja vivesse no tempo de Pio XII, digo que estão invertendo os valores em matéria grave. Estão dando maior importância ao jurídico em detrimento da fé. Podem trazer tantas citações quanto quiserem de entrevistas e conferências de Dom Antônio ou de Dom Lefebvre, onde estes dois grandes defensores da fé teriam falado de modo mais diplomático sobre as autoridades. E sempre responderei pedindo uma só citação onde eles teriam dito que seja preciso reatar juridicamente com o Vaticano sem que de Roma nos venha uma palavra confirmando a fé católica e condenando os erros hoje ensinados. Ao contrário são diversas as ocasiões em que exigiram a fé íntegra e total antes de conceder um assentimento e submissão às autoridades.

Esta é, portanto a nossa posição diante da crise da Igreja. Caso nosso leitor deseje desenvolver seus conhecimentos sobre estas dolorosas realidades, recomendo a leitura dos demais textos do nosso índice sobre a crise da Igreja, o índice de artigos, assim como os artigos de Gustavo Corção que se encontram em www.gustavocorcao.permanencia.org.br. Até quando vai durar esta crise? Não sabemos, nem cabe a nós determinar o dia ou a hora. Aos soldados que nós somos pede Nosso Senhor que estejamos alertas, em combate, porque os dias são maus. Que a Virgem Maria nos proteja no combate e que possamos dizer com S. Paulo: "guardei a fé" !

Não pecarás contra a castidade

Na volta às aulas deste ano de 1999, ficou patente o quanto estamos à mercê de um poder que nos escraviza. Já há muito que as aulas de ciências servem para corromper a inocência das crianças, desde as primeiras séries. Vestindo a máscara do assunto "científico", livros para crianças de 8 anos descrevem a reprodução humana sem o menor cuidado com as alminhas delicadas de crianças inocentes, mas que carregam a inclinação da concupiscência e as levam a ter curiosidades perigosas.

A cada ano aquele assunto voltará, sob diversos aspectos, mantendo a atenção da criança na fonte de pecados contra a pureza do corpo.

Mas o que vimos este ano ultrapassou todos os limites. Leia mais

Depois de ter estudado todos esses anos este assunto, depois de terem suas forças minadas, ouvindo os professores falarem (científicamente!) sempre sobre isso, as crianças de 12-13 anos que ingressaram na 7ª série tiveram que comprar livros de ciências sobre o corpo humano. Mais uma vez vão falar do assunto. Porém, desta vez, aquilo que era ciência passou a ser Moral. Dentro do livro, em páginas de coloração diferente, bem destacado, introduziu-se uma verdadeira aula sobre pecados diversos contra o 6º mandamento da lei de Deus: não pecar contra a Castidade. Com ilustrações e desenhos de alta qualidade, o autor ultrapassa todas as barreiras da ética profissional, invade o campo alheio para deixar de lado a ciência do corpo e querer falar sobre a ciência da alma! Que autoridade tem esse autor, ou o diretor da escola que adota este livro, ou um professor que ouse falar destas coisas para meninas de 12 anos, que autoridade, repito, têm eles para falar sobre relacionamento sexual e ensinar as crianças a pecar?

Mas eles são materialistas, não acreditam em nada que não seja palpável e mensurável, não acreditam mais na alma, criada à imagem e à semelhança de Deus, ou seja, espiritual, inteligente e livre. Como pode um cérebro, um mecanismo, um corpo animal, conhecer como nós conhecemos, e amar livremente (conscientemente) como nós amamos, isso eles não explicam e nem podem explicar. Mentem! Inventam mágicas inexplicáveis cientificamente segundo as quais o cérebro foi evoluindo, evoluindo e, aos poucos começou a pensar.....

Logo, nada mais somos do que animais evoluídos e por isso, devemos usar do sexo como animais!Claro! Não existe a alma racional para impor aos sentidos uma razão elevada, uma finalidade sobrenatural. A dúvida é que eles não explicam porque, sendo tão evoluídos, eles ensinam aos homens um comportamento sexual tão degradante e baixo, inexistente no mundo animal. Se os homens seguissem o exemplo da natureza dos animais, que respeitam totalmente as finalidades criadas por Deus, não pecariam tanto!

Mas voltemos à escola pervertedora de crianças.

Falta ainda analisar a atitude dos pais diante desta monstruosidade.

Não existe nada que me faça entender que um pai, ou uma mãe, deva assistir ao envenenamento de seus filhos sem nada fazer. Eu bem sei que as crianças não aprendem estas coisas somente nestes livros, que é preciso acompanhar passo a passo as descobertas que elas fazem, e ir conversando, instruindo de modo católico, dando-lhes a consciência do pecado e a simplicidade da confissão, quando caírem. Quantas vezes eu mesmo ensinei assim.

Mas existem limites.

Uma coisa é a escola ensinar antes da hora, um aspecto natural do nosso organismo que, em si, nada tem de errado. Por ser ensinado antes da hora pode provocar curiosidades e mesmo pecados. Neste caso, pode acontecer que a única saída seja conversas e explicações para defender os filhos.

Outra coisa inteiramente diferente é a escola ensinar a pecar, pura e simplesmente. Neste caso, só existe uma atitude possível. Puxar a espada! Qualquer outra atitude seria uma fraqueza pecaminosa da parte dos pais.

Creio que a diferença entre as duas atitudes postas em negrito é bastante clara. Essa diferença estabelece o tipo de ação, assim como a responsabilidade dos pais em reagir à altura da gravidade da contaminação.

Daí vem a orientação que dei aos pais de rasgarem estas páginas dos livros antes das crianças lerem, e de se organizarem para que seus filhos não assistam às aulas que os professores derem sobre isso. Mais uma vez: eles não têm autoridade para ensinar a Moral, para ensinar quando um ato humano é bom e quando ele é mau. A moralidade dos nossos atos vem de Deus, de sua Lei Santa, da natureza criada e dirigida por Ele só. Por isso, só a Igreja Católica, única religião Revelada por Deus, pode nos dizer o que é certo e o que é errado. E os pais têm obrigação de ensinar assim aos filhos.

Vá para o Limbo!

Depois que o papa Bento XVI recusou-se a assinar o documento que falsifica a doutrina sobre o Limbo das crianças mortas sem batismo, chega-nos agora a notícia de que o documento acaba de ser publicado com a autorização do Pontífice. Método típico da Revolução, que toma atalhos extra-oficiais apimentados com uma ou duas mentiras difíceis de serem confirmadas. Ou será que, de fato, teria o papa autorizado a publicação? Por enquanto não encontrei nenhuma versão oficial da notícia, mas o texto é citado pelas agências de informação. Leia mais

 

Quanta asneira dizem esses falsos teólogos! Quanta arrogância e pretensão, de querer enganar o povo fiel com argumentos tendenciosos e de falsa doutrina. Basta uma formação média na doutrina para sentir o cheiro da heresia. Iniciam seu raciocínio com a questão da vontade de Deus. Dizem estes senhores que Deus é misericordioso e quer a salvação de todos os homens. Dizendo assim, parece que a Igreja Católica, de tantos santos doutores, de um Sto Anselmo que festejamos neste dia 21 de abril, de um São Tomás de Aquino, de tantos santos papas, não percebeu, ao longo de seus dois mil anos, a límpida verdade. Ora, ora... descobriram a pólvora! Deus quer a salvação de todos os homens! Pois eu digo que se Jesus Cristo estivesse diante desta tal comissão, diria: "Raça de víboras"! porque não apresentam aos fiéis a doutrina completa sobre a vontade de Deus? Porque não dizem que, na sua vontade absoluta, sim, Deus só pode querer a salvação de todos os homens. Mas na sua vontade aplicada, ou seja, diante da realidade de cada um dos homens, a vontade de Deus como que respeita as circunstâncias das causas segundas, da vontade livre do homem, da situação das almas, dos atropelos da vida. A vontade de Deus só se torna eficaz com a colaboração do homem. Se assim não fosse, seríamos robôs, e não seres criados à imagem e semelhança de Deus.

 

Depois de falsificar assim o princípio básico do raciocínio, a quadrilha de "teólogos" parte para outra frente de combate revolucinário: a doutrina do Limbo seria apenas uma hipótese teológica. Desconhecem estes bastardos da fé o modo como a doutrina da Igreja forma sua unidade coesa e sólida? Claro que sabem. Mas escondem e querem impor a novidade a qualquer preço, e escondem a verdade. E onde está a verdade? É dogma ou não é dogma? A verdade é que a teologia católica não é feita apenas de dogmas. Existem muitas verdades anexas aos dogmas, as quais, se forem negadas, atingem em cheio o dogma a que elas se referem. Por isso elas são intocáveis, não havendo autoridade neste mundo que as possa mudar. No caso do Limbo, o dogma do pecado original e o dogma da necessidade do batismo para a salvação. Com que autoridade podem eles sair por aí, numa revista americana, com ou sem o aval do Vaticano, dizendo que o Limbo é uma hipótese? Hipótese é Vaticano II, meus senhores! Hipótese é esta tese revolucinária, anti-católica, herética e que só serve ao senhor das Trevas. E porque razão pretendem estes modernistas evolucionistas, prestidigitadores, que os católicos deixem de dar seu assentimento de fé ao que a Igreja sempre ensinou, com a garantia de dois mil anos de santos e santidade, para aderir a eles? E por quanto tempo, pergunto eu, deveriam os católicos "obedecer" a estas fantasias? Até que um próximo passo seja dado e um documento novo venha acrescentar que, na verdade, não é só o Limbo que não existe, mas o inferno também?

 

Do mesmo modo, ao afirmar que é pela misericórdia de Deus que se estabelece esta novidade, mostram o total desconhecimento dos dogmas referentes a Deus. Reduzem a misericórdia divina a um sentimento humano, onde Deus teria pena das crianças mortas sem batismo, como se fosse possível para Deus ter sentimentos de pena e agir como um homem poderoso que agracia um criminoso que lhe pede perdão. Quanta fantasia. E dizem que são teólogos! Os autores tentam afirmar que esta doutrina não atinge o dogma do pecado original. Vamos mostrar que atinge sim.

 

A questão do Limbo está ligada intimamente à doutrina da necessidade do batismo para se entrar no Céu. Isto é um dogma da nossa fé, declarado explicitamente por Nosso Senhor a Nicodemos: "Em verdade, em verdade te digo: quem não renascer da água e do Espírito Santo não entrará no Reino de Deus. O que nasceu da carne é carne e o que nasceu do Espírito é espírito." (S. Jo, 3,5) Já aqui nos deparamos com uma justificativa dos modernistas de quererem acabar com o Limbo. De fato, depois de Vaticano II, estabeleceu-se a prática de deixar o batismo para um momento em que a pessoa possa escolher. Prática certamente diabólica, pela qual muitas almas, já contaminadas pelas tentações, tomaram o caminho do pecado e se embrenharam nas trevas do inferno. Porque, se é indiferente às crianças antes da idade da razão, morrerem com ou sem batismo, então desaparece a necessidade de batizar-se desde o nascimento. Mas não é esta a Tradição dos Apóstolos: "A Igreja recebeu dos Apóstolos a Tradição de batizar também as criancinhas" (Orígines, Ad Rom. VI,6). E o Concílio de Trento determinará que sejam batizadas as crianças recém-nascidas "ex traditione Apostolorum" (Dec. sobre o Pecado Original, 4). Sejamos honestos: não se pode dizer que o Limbo não existe porque Deus, na sua misericórdia, leva as almas das crianças para o céu mesmo sem batismo e, ao mesmo tempo, afirmar que esta nova doutrina não afeta o dogma do pecado original e da necessidade do batismo.

 

Vários erros grosseiros são cometidos por esta super "Comissão Teológica Internacional", da Congregação para a Doutrina da Fé. Segundo as citações apresentadas pela imprensa, um dos membros "acrescentou que os muitos fatores analisados oferecem a suficiente base teológica e litúrgica para se acreditar que as crianças que morrem sem batismo se salvarão e gozarão da visão beatífica". Pelo visto estas razões teológicas são tão fracas quanto o argumento levantado na notícia: Para este membro da Comissão, no caso das crianças mortas antes da idade da razão, a misericórdia de Deus prevalece sobre o pecado. Oh! trevas da ignorância; Oh! astúcia do antigo inimigo! A quem querem estes senhores enganar? Pois quem foi que disse que as crianças mortas sem batismo vão para o Limbo por causa do pecado? Este senhor acaba de provar que o Limbo existe, pois se a razão da não existência do Limbo é uma suposta prevalência da misericórdia sobre o pecado, basta assinalar a doutrina católica que dá razões bem diferentes para a existência do Limbo e todo o trabalho desta comissão será posto a nu diante de todos, como mais uma armação contra a fé católica.

 

De fato, o que obriga a existência do Limbo é a ausência de vida sobrenatural antes do batismo. Esta ausência se deve à presença do pecado original, sua marca na alma. Mas a presença do pecado original não significa que exista a culpa do pecado original, sendo esta atribuída a Adão e Eva. Não havendo a culpa, não há como se contrapor a este pecado a misericórdia de Deus. Esta só poderia ser apresentada como argumento diante de pecados pessoais, com a culpa correspondente. Mas, por definição, estes pecados atuais não existem na alma das crianças antes da idade da razão. Não há como negar, isso é dogma da nossa fé (e eles afirmam que o Limbo nada tem a ver com o dogma!) Quando um bebê nasce, ele possui a alma espiritual em estado natural: capacidade de conhecer, pela razão natural, e capacidade de amar, por atos livres da sua vontade. Mas ela não está apta, apenas por sua natureza, a ter em si a presença de Deus, a graça santificante, a posse do Divino Espírito Santo. Em outras palavras: ela não é o templo da Santíssima Trindade. Deus Nosso Senhor quis que só mediante o batismo nos fosse dada, em acréscimo, esta capacidade de vida sobrenatural. (cf. S. Marcos 16, 15)  Se alguém achar isso injusto, que vá se entender com Nosso Senhor lá na porta do céu. Não temos o que discutir o que é Revelado por Deus, basta-nos o ato de fé; e o batismo é o meio de obter a vida da graça, sendo, certamente, o melhor para nós, o mais fácil, o mais comum, o mais usual. As Sagradas Escrituras nos trouxeram pelo menos um exemplo maravilhoso desta imensa bondade e misericórdia de Deus, que facilitou a entrada de tantas almas na visão beatífica: o batismo é dado com água, e qualquer pessoa pode batizar. Foi na estrada de Gaza, onde viajava o eunuco da Rainha da Etiópia, sentado em um carro, lendo o livro de Isaías. A ele foi enviado o diácono Felipe, por obra do Espírito Santo. E ali mesmo, na beira da estrada, o pobre homem pergunta a  Felipe: "Eis água, que motivo me impede de ser batizado". (Atos, 8, 26) E Felipe o batiza, na beira da estrada, em açude ou riacho, e o milagre se consuma: aquela alma já não é um pagão, já não é incapaz da graça, mas tornou-se luminosa, filho de Deus, plenamente apta para a vida sobrenatural e mergulhada nela. E este milagre, os falsos teólogos querem roubar das criancinhas, atacando um dos flancos da muralha protetora da fé, que é o Limbo.

 

O que é o Limbo?

 

Diante da guerra levantada contra a doutrina católica sobre o Limbo, as pessoas sem formação tendem a pensar que este lugar é um castigo, quando na verdade não é. Trata-se de um lugar apropriado para a capacidade de uma alma humana impedida, pela presença do pecado original, de ter a vida sobrenatural. E o que acontece com esta alma, no Limbo? Ela vai agir segundo as suas capacidades naturais, e isto vai depender da idade em que tiver morrido. Se chegou a desenvolver um pouco sua inteligência e sua vontade, poderá receber algum conhecimento natural de Deus e dos eleitos do paraíso, que lhe trará uma felicidade natural compatível com o seu estado. É, portanto, um lugar de paz, de felicidade natural. Não é um lugar de visão beatífica, porém isso não afeta as almas dali, pois elas não têm nem mesmo a noção do que seja a visão beatífica, não podendo assim desejá-la ou sentir inveja dos eleitos do Paraíso. Ao contrário, Deus pode perfeitamente alegrar estas alminhas permitindo que algum lampejo da luz do Céu venha iluminar este lugar, como fogos de artifício para que batam palmas ao Criador.

 

Onde querem chegar?

 

Vários erros modernistas, da Nova Teologia de Henri de Lubac, von Balthasar e outros exigem as mudanças que esta comissão tenta empurrar goela abaixo aos católicos. Toda a Nova Teologia e Vaticano II baseiam-se na redução da ordem sobrenatural à ordem natural. Ou seja, a graça e a glória do céu deixariam de ser acréscimos sobrenaturais dados gratuitamente por Deus, para fazerem parte da própria natureza do homem. A partir daí, fica fácil introduzir outras novidades, como a salvação universal de todos os homens, já ao nascer, ou ainda o emparelhamento de todas as religiões como sendo eficazes para salvar os homens. De fato, se as crianças mortas sem batismo vão necessariamente para o céu, já não se faz necessária a fé católica, abre-se a porta para o ecumenismo radical e alucinado proposto durante mais de trinta anos por João Paulo II. Abre-se também as portas para canonizações de pessoas que, pelos critérios católicos, nunca alcançariam os altares. O próprio João Paulo II, absurdamente proposto para ser beatificado; Madre Tereza de Calcutá, a queridinha da mídia mundial, que proibia que fossem batizados, em seus hospitais, as crianças em perigo de morte vindas de outras religiões. Se elas iriam para o céu, então esta atitude seria tolerável, mas se a doutrina verdadeira, do Limbo, é a tradicional, então esta religiosa nunca poderá ser canonizada pelos ritos tradicionais, tendo impedido tantas e tantas alminhas de irem para o céu.

 

Ainda na questão das intenções destes agentes do mal, devemos assinalar a frase citada na imprensa: "o limbo representava um "problema pastoral urgente", pois há cada vez mais crianças que nascem de pais não católicos e que não são batizados e também "outras que não nasceram ao serem vítimas de abortos". A se confirmar o teor desta afirmação, estamos diante de um curioso critério dogmático: já que Vaticano II derrubou a fé católica no mundo inteiro, aumentou consideravelmente o número de crianças nascidas de pais não católicos. Cabe então, segundo a frase citada, uma modificação no dogma católico, para arrombar a porta do céu, explodir tudo, deixar entrar todo mundo, batizado ou não batizado, vindos de pais católicos ou não. É impressionante a pretenção dos desvairados: arrombaram as portas da Igreja com sua "abertura ao mundo" e com isso acham, sem se darem conta do ridículo, que abriram também as portas do céu.

 

Não estamos mais em 1965, ou em 1969. Naqueles dias, os católicos engoliram a heresia progressista sem perceber e hoje já não sabem mais o que são. Diante destes fatos urge ao católico armar-se com a armadura de Deus, resistindo-lhes fortes na fé, com a espada da verdade, o elmo da salvação, a alegria no coração no bom combate, na esperança da salvação, na vida eterna do céu.

 

 

Ainda existe, na alma católica, verdadeira oração? Sermão do primeiro Domingo da Paixão

Após ter feito o sermão do 1º Domingo da Paixão, deste ano de 2006, pareceu-me importante transmitir aos nossos leitores alguns dos dados apresentados naquela ocasião aos paroquianos da Capela Nossa Senhora da Conceição, em Niterói, e da Capela São Miguel, no Rio. Estamos vivendo tempos estranhos e é preciso vigilância e atenção para não sermos levados de roldão pelo mundo.

Quando entramos na igreja no Primeiro Domingo da Paixão, e sentimos um certo choque com a austeridade penitencial do velamento das imagens, vem imediatamente à alma a questão: qual o objetivo da Santa Igreja ao cobrir as imagens, tirá-las de diante dos nossos olhos, justamente no momento em que ela levanta bem alto o estandarte da Santa Cruz?

Pois o que a Igreja busca com esta situação nova e tão desconfortável para nós é levar nossa oração a uma fé mais profunda, para que o tempo da Cruz não nos pareça apenas uma comemoração, um aniversário, mas esteja presente com sua carga de dor, de confusão e obscuridade.

O que vem a ser Rezar ?

Mas se é para medir e regular nossa oração, caberia a cada um de nós perguntarmos: e eu rezo? O tempo da Quaresma serviu para melhorar minha oração?

Para responder a esta pergunta é necessário saber o que seja rezar. Ora, tanto o Catecismo como os santos doutores nos falam sobre a boa oração. Diz lá, então, a doutrina perene:

- Rezar é elevar a alma a Deus.

Santo Agostinho nos dará uma compreensão melhor ao afirmar:

- Rezar é ter uma intenção afetiva do espírito para Deus.

Outros santos dirão:

- Rezar é ter uma conversa íntima com Deus.

Ora, estas definições ou explicações se completam maravilhosamente e nos ajudarão a medir o nosso grau de oração, a sabermos se, de fato, rezamos de verdade ou não.

Ainda se encontra quem reze?

Mas a experiência de qualquer sacerdote, nos dias de hoje, deixa-nos assustados, a ponto de podermos interrogar: - O que está acontecendo conosco? Onde estão as almas que rezam de verdade? E se muitos adultos ainda guardam o costume salutar de recolher-se, todos os dias, diante de Deus, já os adolescentes, os jovens, deixando a idade da infância, porque abandonam tão facilmente a prática da oração que nos dá o céu? Onde encontraremos oração que seja elevação da alma, intenção afetiva, ou conversa íntima com Deus?

Não! Não! O que vemos hoje nestas almas é uma oração pesada, um coração irritado, uma oração rápida e mecânica.

Mas se é pesada por causa da contrariedade que se sente em rezar, então não se eleva.


Se vem carregada com irritação, nunca será uma intenção afetiva.

Se é mecânica, não se pode pensar em conversa íntima com Deus.

Que quadro desolador o que encontramos nas almas. Passaram-se quatro semanas da Quaresma e nada! O mundo segue seu curso e as almas não se converteram!

Pergunto então, assustado e solene: O que falta à oração da grande maioria dos homens?

O que falta é o AMOR! Falta o Amor do espírito que busca o Espírito do Amor, o Deus que é Caritas, que é Caridade!

Todo amor é um apetite. Se nosso amor vai em busca das coisas sensíveis, será um amor baixo, sensível, humano, animal. Estaremos de corpo e alma entregues às coisas deste mundo, e este amor toma conta do nosso coração, elimina a Presença de Deus, e causa o pecado.

Mas se inclinarmos nosso corpo e nossa alma para o bem, para agradar a Deus em tudo, mesmo quando estamos fazendo algo de humano, estaremos intencionalizando nossos atos na direção de Deus, dando uma intenção nova, elevada, vivificante. Nestes atos de amor espiritual encontraremos a união com Deus, a Presença de Deus em tudo que fazemos, mesmo se não estivermos, naquela hora, pensando Nele.

Por que não se consegue mais rezar?

Devemos então nos perguntar, levando adiante esta pesquisa dos nossos corações:

Porque não se consegue mais rezar direito, segundo a elevação da alma, as intenções santas e a intimidade de Deus?

Porque somos constantemente SEDUZIDOS.

Os nossos três inimigos , o demônio, o mundo e a carne armaram uma guerra sutil e subterrânea que invade nosso coração, nosso corpo, nossas intenções, com todo tipo de sedução. Atraem nossa atenção para afastar-nos do gosto pelas coisas santas, pela vida de Deus.

Como somos seduzidos?

Pelos VÍCIOS. Somos seduzidos todos os dias por vícios antigos e por vícios modernos.

Os vícios antigos são aqueles conhecidos de todos: excesso de bebida, gula, sensualidade, preguiça e todo tipo de vícios capitais.


Os vícios modernos são: a televisão, os video-games, o uso de Messengers, orkut e Internet, telefone celular e todo tipo de modernidade que provoca atitudes compulsivas. Todas estas coisas desviam as almas de seus compromissos, tornando-as agressivas, estressadas, desobedientes, preguiçosas e "burrificadas".

Formaram uma vida em torno de nós que nos prende, ligados 24 horas por dia: trabalho, dinheiro, saúde, esportes, e os novos vícios, tirando todo o tempo que poderíamos ter para rezar, ler bons livros, pensarmos na nossa salvação eterna. Como rezar bem numa vida assim?

Então passamos quatro semanas da Quaresma onde se constata que, se alguns fizeram algum esforço de penitência e oração, a grande maioria nem se lembra de que os católicos são chamados com toda urgência a se converterem. Continuam no churrasquinho da sexta-feira, nas festas, em muitos pecados. Até quando vamos viver como se a vida da Igreja fosse uma OPÇÃO? Quando muito um dever secundário que realizamos com aquele espírito de revolta de que falamos acima. Como rezar se não combatemos a sedução?

É preciso rezar sempre

Eis o que ensina Nosso Senhor: "Oportet semper orare - É preciso rezar sempre". E os santos doutores concluirão: "Quem reza se salva, quem não reza fecha as portas do Paraíso".

Então, católico, levante as armas capazes de vencer o sedutor das almas, capaz de dobrar tua cerviz dura e revoltada. Falta-te o Espírito de Fé!
Não se trata exatamente da fé. A Fé pode ser considerada como o conjunto de verdades reveladas por Deus; é o que os teólogos chamam o Objeto da Fé. Dentro de nós, se produz pela graça divina os Atos de Fé, que são as marcas da nossa adesão ao Objeto da fé, a tudo que Deus nos revelou e a Igreja ensina.

Mas a arma poderosa para combater a sedução dos vícios anti-oração é o Espírito de Fé, que consiste em tomar a fé que está, como um dom divino, colocada em nossas almas, e aplicá-la a todos os momentos, situações, encontros, diversões que fazemos ao longo do dia e da vida. Pelo Espírito de fé fica estabelecida em nossas vidas a Presença de Deus. Esta presença de Deus é que nos aproxima Dele, tornando nosso coração mais próximo, mais íntimo, preparando-o para as conversas sublimes, para a afeição amorosa e para a elevação de nossas almas na verdadeira e pura oração.

É preciso, portanto, intencionalizar todos os nossos atos, transformá-los em armas de combate contra os vícios que nos devoram. É preciso forçar o desejo do nosso coração e todos os sentimentos dele para que não impeçam o momento da oração, da meditação, da leitura espiritual que abre nossas mentes para as coisas divinas.

É preciso acreditar que, perdendo tempo com Deus, o trabalho renderá muito mais  e compensará ao cêntuplo o tempo perdido. Ao contrário, quando não rezamos, acabamos presas fáceis para os vícios modernos e perdemos mais tempo do que seria o da oração.

Meditação sobre a morte

Se ainda agora, depois de pensar nestas coisas, neste diagnóstico terrível que mostra o céu fechado, ainda assim não conseguir se desvencilhar da malha viciosa, então, vamos pensar na morte. Por que não? Afinal de contas, estamos no tempo da Paixão, de luto pela morte de Nosso Salvador. Imaginemos, então, que estamos perto da morte, ou que um ente querido, um filho, um esposo, a mulher, tenha acabado de falecer. Parece duro, pensar nestas coisas? Pior é continuar vivendo sem rezar! O terrível peso que a alma sente pela perda joga por terra todos aqueles vícios horríveis que prendiam a alma. Então, de repente, ela percebe o quanto era fraca, envenenada, ridícula, por não conseguir se dominar e produzir algo de sólido e elevado. A morte nos atrai para o essencial, e é exatamente isso que a Igreja deseja quando vela as imagens no Tempo da Paixão. O Essencial é Cristo, sua Paixão, sua morte na Cruz para nos salvar. O essencial é vivermos unidos todo tempo a Jesus, e dizer com o Apóstolo: "Já não sou  eu que vivo, é Cristo que vive em mim".

Cabe a cada um de nós mostrarmos aos nossos adolescentes, aos nossos filhos, que é bom rezar. É bom querer rezar. E, mais do que tudo, é muito bom amarmos a oração porque por ela aprendemos a amar a Deus em sua própria intimidade.

A psicologia do amor

No mundo em que vivemos é moeda corrente as pessoas só quererem fazer o que lhes agrada. Que seja por prazer do corpo, ou pelo prazer de ter dinheiro, ou pelo prazer de se sentir influente, livre e independente, somos formados, à nossa revelia, a detestar as coisas árduas, maçantes, rotineiras, obrigatórias. Que elas tenham um quê de dificuldade ninguém discute. Que a nossa tendência seja a de diminuir a dureza das suas realizações, é compreensível. O que não pode ser é a revolta tomar conta do nosso coração sempre que temos alguma coisa obrigatória a fazer. No fim das contas, tudo o que é de nosso dever é feito com pressa, de qualquer maneira, sem a atenção necessária ou pelo dinheiro que vamos receber. A revolta a que me refiro não é necessariamente uma revolta barulhenta e explosiva. Pode ser apenas o sentimento surdo e escondido de um ódio acumulado.

A condição mínima

A recente visita de Dom Bernard Fellay, superior da Fraternidade S. Pio X, ao Papa Bento XVI levantou algumas interrogações, algumas curiosidades. Alguns esperavam que algo de concreto acontecesse, um início de acordo. Não atinaram que a visita nada mais era do que uma prática normal, de cortesia mútua; o bispo responsável por uma obra como a Fraternidade, acusado injustamente de ser cismática, vem pessoalmente mostrar ao Papa que não há cisma, apesar de haver, sim, muitos pontos de afastamento, de discordâncias, causadas pelas novidades, pelos graves erros de Vaticano II. Mas diante desta movimentação dos espíritos desses últimos dias, um leitor me perguntou qual seria a condição mínima para que houvesse, enfim, um acordo entre o Vaticano e a Fraternidade São Pio X, depois deste primeiro encontro do Papa com Dom Fellay.

Como avaliar? Quais os critérios para se definir um mínimo que permita alcançar este entendimento com o Vaticano? Seria a liberação da missa de S. Pio V a todos os padres, sem necessidades de permissões? Ou a anulação do ato de excomunhão? Estas foram as duas condições colocadas pela Fraternidade ao Card. Ratzinger, no ano 2000 para um início de conversa. Não creio que sejam "condições mínimas" para o acordo. Seriam, antes, atitudes de boa vontade da parte do Vaticano, coisa que até hoje não ocorreu.

O que aconteceria se fosse liberada assim a missa? Se nossa perspectiva fosse a de certos "conservadores", deveríamos considerar que o aumento das missas tradicionais levaria a um esvaziamento das nossas capelas, pois muitos diriam: se podemos ter a missa tradicional com Roma, porque tê-la sem Roma? Mas devemos constatar que esta dialética já existe e as capelas não se esvaziaram. Não deixa de ser curioso que em várias dioceses onde há missas da Fraternidade S. Pio X ou grupos afins, se tenha iniciado uma missa tradicional "oficial". Rio, Niterói, São Paulo, Santa Maria, Belo Horizonte. E eu pergunto: - porque não se esvaziaram as capelas da Fraternidade? Porque não é só a missa que nos distancia da Igreja de Vaticano II. Vejam o que diz o jornalista italiano Vittorio Messori, no jornal Corriere della Sera de 27/8: "Não se trata aqui apenas de liturgia em latim: existe uma eclesiologia e, com ela, uma teologia que hoje diverge".

Na nossa perspectiva, que não é a destes neo-conservadores, a multiplicação das missas de S. Pio V, com ou sem um acordo com Roma, poderia induzir os fiéis a considerar que tudo está resolvido, ficando de lado o mais importante deste combate de quarenta anos, que é a defesa da fé, diminuída e mesmo destruída em todos os poros da vida da Igreja. O que nos distancia de modo tão radical do Vaticano II é a essência do catolicismo, como dizia Gustavo Corção. É o que diz também o superior da Fraternidade S. Pio X para o distrito da Itália, Padre Nely, citado pelo mesmo Messori: "Não seria possível para nós deixar de denunciar os erros. Nosso papel é o de vigiar para que a ortodoxia seja respeitada".

Logo, devemos concluir que a liberação da Missa não é uma condição mínima para um acordo. A questão da excomunhão, por seu lado, não tem peso para ser esta condição visto que ela só foi colocada por Dom Fellay a João Paulo II para que seja devolvida a honra dos defensores da fé, manchada por este ato jurídico-disciplinar sem fundamento no direito canônico (cf. tese de doutorado do Pe. Gerald Murray)

Examinando a trajetória dos grupos tradicionais que fizeram o acordo com o Vaticano, constata-se que todos eles, quer se trate dos acordos de 1988 quer se trate dos padres de Campos, em 2002, tiveram que dar alguma coisa em troca, pelo direito de celebrar a missa tradicional ou de serem erigidos em abadias, administrações etc. Tiveram que aceitar Vaticano II, seus ritos, seus santos, sua missa. Todos eles mudaram bruscamente de linguagem e de atitude diante de tudo o que o Concílio e o  pós-Concílio produziu. Hoje, todos sabem, a Fraternidade São Pedro já não existe tal como surgiu, em 30 de junho de 1988. A intervenção do Vaticano no ano 2000 impôs novos chefes e novas práticas. No Barroux, a mesma coisa aconteceu, de modo talvez mais ameno, mas o atual jovem abade deixou claro que ali as duas missas são igualmente respeitadas e celebradas. Em Campos já não causa nem mais escândalo as fotos de Dom Fernando Rifan concelebrando a missa nova, assim como a aceitação total de toda a "espiritualidade" do Vaticano, que seja o novo Rosário, ou a devoção ao liberal Escrivá de Balaguer.

Parece-me, portanto, claro que a condição mínima para um acordo é que não haja, com a Fraternidade, a duplicidade que vemos nos acordos anteriores. Tanto Dom Gerard Calvet, como os padres de S. Pedro ou os padres de Campos repetiram incansavelmente que estavam sendo aceitos como eram, "sem contra-partida". E isso era falso. Era falso porque os agentes do Vaticano foram dúbios ou era falso porque os padres e religiosos foram dúbios com seus fiéis? O Cardeal Mayer foi claro quando propôs o acordo ao Barroux, em 1988. Disse que Dom Marcel Lefebvre não poderia mais pisar no Mosteiro de Santa Madalena, diante de um Dom Gerard que tentava de todos os modos esquivar-se da questão. E Dom Fernando Rifan? O que há de mais dúbio do que os três meses passados em Roma, possíveis promessas não confessáveis, possíveis concelebrações não confirmadas, antes daquelas que conhecemos? O que há de mais dúbio do que a tentativa de dividir o pensamento de Dom Antônio de Castro Mayer como se o grande defensor da fé fosse instável e incoerente em suas posições doutrinárias, como está sendo Dom Rifan e seus padres?

O fato é que só há um caminho para a reconciliação e este caminho me parece cheio de muitos e complexos obstáculos: o Vaticano não poderá exigir de Dom Fellay e da Fraternidade que mude seu discurso, que altere o tom de suas críticas à obra nefasta e herética de Vaticano II. Propor à Fraternidade o mesmo esquema de acordo já vivido me parece ilusório; pretender que a Fraternidade venha a aceitar a missa nova, mesmo quando "rezada corretamente", me parece ingênuo e inútil. A doce firmeza com que os bispos da Fraternidade mantém a exigência de um catolicismo totalmente verdadeiro e tradicional é a prova da continuidade, da perseverança, da presença espiritual de seu fundador, o venerado Dom Marcel Lefebvre.

Parece-me ilustrar bem estas considerações o que escreve, em mais uma citação, Messori: "o distanciamento teológico se agravou tanto nas últimas décadas que, humanamente falando, uma cura total da fratura parece impossível. Qualquer que seja a solução proposta pelos canonistas (prelazia pessoal, administração apostólica, ordem religiosa etc), os discípulos de Mons. Lefebvre não poderiam viver numa espécie de Igreja paralela, ignorando o que se produz em volta dela". Ora, para evitar este entrave é que os conservadores que fizeram o tal acordo com o Vaticano agem como se na Igreja existissem "guichês" para todos os gostos e necessidades: guichê da TL, guichê da RCC, guichê da Opus Dei, guichê de Taizê e... guichê da Tradição. Estão aí, ainda, os ecos da última JMJ para provar. Ecos, aliás, dissonantes e agressivos da música rock, pop, gospel, e protestante, misturadas ao lindo gregoriano do guichê da Tradição. Mas é justamente o que não passa pela cabeça dos bispos da Fraternidade, aceitar que se rebaixe assim a santidade da Igreja, que se diminua de modo tão iníquo a fé católica.

Cabe diante da situação uma verdadeira esperança de milagre. Cabe um esforço de orações para que a graça divina trabalhe nos corações e faça as autoridades devolverem a todos os fiéis o acesso à verdadeira Igreja Católica, esta que é prisioneira do autoritarismo e da marginalização, esta que é isenta de todas as manchas e rugas do mundo que se vieram grudar nela depois do Concílio, como um câncer espiritual que a devora.

O monstrengo que chia

Estamos debaixo de uma verdadeira avalanche. Ouvimos o ruído estrondoso de uma montanha que despenca morro abaixo, sobre os homens: a maioria acha lindo e bate palmas; outros poucos choram e pedem a Deus "que as montanhas caiam sobre nós". Será de neve, a avalanche, como nos Andes? Ou de lama e rochas, como na serra de Petrópolis? Será de lixo e barracos como nas favelas cariocas? Apesar de todas estas avalanches serem graves e horríveis, falo aqui de outro tipo de destruição. A humanidade, orgulhosamente fincada em pés de barro, achando-se forte como o ferro e rica como o ouro, ousou gritar no desfiladeiro e se alegra com o rufar da neve, da lama, do lixo e de tudo o mais. Porque não restará pedra sobre pedra quando a vingança de Deus se levantar.

 

Esta avalanche provocada por sérios cientistas de jaleco branco, provocada por não tão sérios políticos de terno e gravata, está em todos os jornais, em todas as revistas de nosso pobre país. Está liberada a manipulação de cadáveres, de inocentes criancinhas abortadas. Depois do assassinato, vem a feira. O produto do assassinato é, assim, posto nas prateleiras da feira da esquina, onde os embriões humanos, aqueles mesmos que poderiam, amanhã ser um grande homem, bom, honesto, santo talvez, e que teve sua existência roubada antes mesmo da luz, antes mesmo da tosse e do choro, do abrir dos olhos para ver os olhos da mãe, estes bebês vão virar remédio! Dizem que já viram cosméticos num mercado macabro e paralelo. Agora vão ser sopinhas nutritivas.

 

Não vou entrar aqui nos detalhes da coisa, do monstro horrendo que nos devora sob os aplausos do mundo. Quisera antes tremer como o homem do leme diante do monstrengo do fim do mundo, tremer mas lutar, em nome d´El Rei e Senhor de toda a terra, e do céu e do mar:

"O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,

E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»





Um corpo sem cérebro tem alma?

 

Podem juntar todos os argumentos que estes homens maus e desgraçados lançam enganando a gente simples. Todos juntos não valem um graveto de palha. Começa que são materialistas até o fundo da alma. E sendo materialistas, querem nos impingir a falsa idéia de que um corpo humano sem cérebro não é humano, logo poderia ser abortado. Falso. Um corpo humano, no primeiro momento de sua existência, ou seja, na primeira divisão celular que ocorre quando as células reprodutoras do homem se unem às da mulher, neste momento em que se forma maravilhosamente o código genético que nunca mais será alterado, até a morte; neste momento em que todas as características do homem maduro já estão presentes, neste momento em que não existe nem cérebro, nem coração, nem órgão algum, Deus, o Criador dos homens e do mundo, sopra, num ato único de criação, particular, daquele ser, uma alma imortal, espiritual, racional. A presença desta alma é atestada pela nossa própria reflexão, pela própria observação do ateu que afirma não existir a alma. Só um ser dotado de alma espiritual seria capaz de escrever um artigo para tentar provar a não existência da alma racional. Só um ser dotado de vontade livre e espiritual, e não de instinto material, poderia tomar uma decisão tão grave de enfiar uma ferramenta dentro do útero de uma mulher para estraçalhar a cabeça de uma criancinha inocente, linda, maravilhosamente viva, que se debate defendendo sua vida, como se fora um adulto nas mãos de inimigos cruéis. O assassino cruel tem nas mãos a ferramenta da contradição e o castigo clama aos céus. O ato pecaminoso que comete é a prova da nulidade de seus argumentos.

 

Mas eles não se dão por vencidos,  lá vem os materialistas enlouquecidos insistir que um embrião sem cérebro não é humano, que pode ser abortado. Vamos tentar entender a argumentação. Se eles dizem que não é humano porque não têm cérebro, significa que, para essa gente, é o cérebro que define o homem. Se tem cérebro é humano, se não tem cérebro não é. Para um materialista, faz sentido, pois onde poderia ele se apoiar para explicar a vida? No centro de comandos dos sinais vitais. É compreensível, mas é pobre como explicação, é falso. Mas a questão é, como já assinalei acima, que o fato do organismo humano ter um centro nervoso que explique seus atos, seus movimentos físicos e psíquicos, não dá razão de um único pensamento racional. Não há nada na matéria que possa explicar como uma criança, olhando um ser estranho, pergunte para seu pai: — Pai, isso é bicho ou gente? A formulação da questão onde aparecem conceitos racionais definindo seres diferentes só é possível a partir de algo que está acima do centro nervoso ou do bater do coração. O simples bom senso permite que se entenda isso com facilidade, mas esta sabedoria popular parece faltar nos políticos e cientistas ateus. Ou será que eles entendem, mas têm outros interesses inconfessáveis? Imaginem um quadro de botões para apagar e acender um jogo de luzes. Dizer que o cérebro é a razão da vida, significaria dizer que o quadro de botões explica a luz. Do mesmo modo que o coração não explica a vida, apenas bombeia o sangue que alimenta os órgãos, assim também o cérebro, apenas abre e fecha comandos. Poderíamos imaginar que o funcionário de uma estrada de ferro que move com uma alavanca os trilhos para desviar o trem para determinada direção seria a razão essencial da viagem?

 

Como se combinam corpo e alma

 

Se o cérebro é matéria, faz-se necessário encontrar a forma substancial que explique o seu funcionamento. Desde Aristóteles que o homem aprendeu que todo ente material não possui na própria matéria a razão do seu ser. Todo ser material precisa da forma substancial para explicar o que ele é. O corpo humano, portanto, precisa de uma forma que explique e defina o ser humano e todas as suas faculdades. O cérebro só é causa dos impulsos nervosos, ou seja, algo material e físico; nada tem a dizer sobre uma série de atos que se constata no agir humano e que ultrapassam o domínio da matéria: o saber intelectual, o querer livre que comporta uma escolha, a renúncia de um bem material por escolha de um bem espiritual etc. A forma substancial do homem precisa dar razão também desta atividade espiritual, que se constata tão facilmente. Logo deve-se concluir na existência de uma forma substancial espiritual, capaz de todos os atos não materiais. Esta forma substancial é a alma. O termo procede de "coisa animada" e por isso será usada por Aristóteles de modo analógico em cada nível de atividade vital: a alma vegetativa explica como um ser material consegue atividades vitais nos vegetais; alma sensitiva explica como um ser material consegue atividades sensíveis e vitais nos animais; alma espiritual explica como um ser material consegue atividades espirituais, sensíveis e vitais, no homem. É na seqüência deste raciocínio que se alcança a compreensão da imortalidade da alma. Pois se as atividades espirituais do homem não têm sua origem na matéria (que se decompõe), mas sim na alma espiritual criada por Deus na concepção, então deve permanecer mesmo quando o organismo material falha, causando a morte, ou seja, a separação daquela matéria de sua forma substancial que a organizava, a mantinha na vida, a fazia agir.

 

A morte cerebral

 

Se é na origem da vida, no embrião, que a sociedade apóstata descarrega todo o seu ódio e loucura, na outra ponta da vida também estará presente a fraude do homem brincando de Deus. Tudo começou com os transplantes de coração, mas acontece também com transplante de fígado e outros órgãos vitais. Para que estes órgãos sejam viáveis para um transplante, é necessário que o coração do doador ainda esteja batendo, que o sangue ainda corra em suas veias, em outras palavras: que o doador esteja VIVO. Evidentemente a prática das doações de órgãos vitais trouxe para o mundo da medicina interesses que passam longe da cura dos doentes. Um mercado impressionante se estabeleceu nos grandes países e é a peso de ouro que este tipo de operação é feita. Era preciso continuar matando doadores para que as pesquisas continuassem e o mercado não se extinguisse. Calaram o crime e inventaram rapidamente um subterfúgio: a morte cerebral. A sociedade, por estar adormecida e sedada pelos prazeres, pela televisão, pelo grande objetivo de enriquecer, não percebeu o engano e foi engolindo a falsa noção de morte que estes senhores inventaram. Quando o cérebro não apresenta mais determinado nível de atividade nervosa, considera-se que a pessoa está morta e começa a carnificina, sob os eufemismos de "caridade", "benemérito da humanidade" e "salvador de vidas", que são passados para as famílias, em geral já anestesiadas pela dor do momento. A guerra é tão absurda que os organismos internacionais e os governos calam os cientistas que têm provado que certos tratamentos como a hipotermia (diminuição da temperatura do corpo) têm trazido grande número de "mortos cerebrais" de volta às atividades cerebrais. Se voltam é porque não estavam mortos. E se arrancam seus órgãos neste estado, estão assassinando. Portanto, não permitam que se faça o retalhamento dos seus doentes em coma profundo. Se não for possível que voltem, pelo menos que possam morrer em paz, assistidos por um padre para a salvação de suas almas.

 

Eutanásia

 

Evidentemente estamos entrando à galope na era da eutanásia. Hollywood está aí, desprezando o sucesso estrondoso do excelente filme "A Paixão de Cristo" para elevar à gloria dois filmes de propaganda de eutanásia ou suicídio assistido, como gostam de dizer. Já passou o aborto, já passou o homossexualismo, agora chegamos à escolha da morte. O homem que já se acha no direito de matar as criancinhas inocentes agora exige aos berros o direito de matar a si mesmo quando achar razoável. Não é preciso conversarmos sobre o que seja razoável ou não; Deus só é Senhor da vida e da morte. Nossa vida nos foi dada por Ele e só Ele pode tomá-la da volta. Nós somos depositários e temos contas a prestar no dia do juízo. É preciso viver num mundo pagão e sem razões profundas como é o neo-paganismo atual para achar que uma doença sem solução seja motivo para buscar a morte. Não é. Todo sofrimento tem uma razão, a qual se refere necessariamente com o resgate do gênero humano realizado por Jesus na Cruz. Ele deu sua vida por nós num sofrimento infinitas vezes maior do que qualquer sofrimento nosso, pois somava ao martírio terrível do seu corpo a expiação espiritual do peso tremendo de todos os pecados. Se os homens soubessem o que é o dogma da Comunhão dos Santos, não perderiam um minuto de sofrimento sem oferecer. Se soubessem que todos os nossos atos atuam sobre as almas do nosso próximo, por ação da pura vontade divina, que aplica uma oração, um sacrifício oferecido, para o bem de outros que, muitas vezes, nem conhecemos. É como uma grande equilíbrio espiritual onde o fiel da balança é a vontade divina, o coração de Deus amolecido pela dor de seus filhos que oferecem uns pelos outros. É preciso lembrar aos nossos velhinhos que eles têm uma razão muito forte para suportar o peso da idade, da doença, das dores. Eles podem carregar o mundo nas costas, converter os piores pecadores, salvar almas para o céu. Nossa missão aqui na terra só termina na hora da morte, quando Deus nos chama para o descanso eterno. Não aceitem os falsos argumentos da televisão. Estudem e mostrem aos familiares e amigos que só Deus pode nos dar a recompensa.

 

Porque a morte é a separação da alma e do corpo quando o corpo não tem mais organização material suficiente para ser "animado". A morte não é um dado da religião. Vamos deixar as coisas claras. Nem a questão da morte cerebral, nem a eutanásia, nem o aborto, nem a manipulação de embriões são temas apenas religiosos. Não é preciso invocar nenhum tratado de teologia, nem passagem da Bíblia ou texto do Magistério para se rechaçar com todas as forças tais crimes. Estamos lidando com argumentação filosófica, natural, horizontal e humana. E se o Papa aparece diante do mundo como um ferrenho defensor do "direito à vida", não significa que ele o faça porque é o chefe da Igreja. Ele o faz porque é homem e assim como ele, todos os homens, de qualquer credo que for, devem também fazer. A moral católica vem reforçar a argumentação com os dados da Revelação e com o ensinamento infalível da Tradição. Mas não significa, de modo algum, que a defesa destes valores da vida humana seja uma "opção" de tal ou tal credo religioso. Portanto, o pecado existe para todos e se não houver uma conversão de tudo isso, em breve o castigo de Deus cairá sobre a humanidade.

 

Existe um direito à vida?

 

Costuma-se alegar como motivo para combater o aborto, o direito à vida. Os que assim argumentam costumam afirmar que a vida é um bem sagrado, um direito absoluto e o que há de mais importante para o homem. Apesar de compreender a boa intenção desta argumentação, não posso deixar de salientar que não me parece correto o argumento. É verdade que, estando vivos, existe um certo direito civil de desenvolvermos esta vida, de podermos viver em paz, de termos alimento para saciar a nossa fome etc. Mas este "direito" é da ordem civil, no trato entre homens dentro de uma sociedade. Mas quando argumentamos sobre aborto, eutanásia ou morte cerebral, estamos, antes de tudo, diante de Deus. E neste caso, devemos lembrar que recebemos a vida de Deus sem mérito algum da nossa parte. Existimos mas poderíamos perfeitamente não existir. E se não temos méritos, também não temos direitos. Antes, ao contrário, temos muitos deveres para com Deus e para com o próximo, seja ele a sociedade civil ou o padeiro da esquina. O que quero dizer é que nossa argumentação para condenar o aborto, o uso dos embriões, a eutanásia e tudo mais, é que estas coisas são crimes e pecados contra a Lei Santa de Deus, que foi inscrita nos corações de todos os homens, chamada Lei Natural; que foi explicitada na Revelação do Antigo Testamento, nos dez mandamentos, e que foi santificada pela doutrina salvífica do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. E para que serve uma doutrina de salvação? Para nos dar uma vida feliz e com saúde, como se costuma desejar? Não me parece. A vida para nós só pode ser um bem imenso e absoluto se estivermos falando da Vida Eterna! A vida, em si mesmo, não é sagrada. Ela faz parte da ordem natural. Torna-se sagrada pelo Santo Batismo, quando recebemos a vida sobrenatural, divina, dentro de nós, nos transformando e nos tornando aptos para a Vida Eterna. E é nela, na Beatitude de Deus, no Céu, na Visão beatífica que estaremos descobrindo no próprio Deus a razão de ser de tantos sofrimentos neste vale de lágrimas.

 

 

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