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Category: PensamentoConteúdo sindicalizado

A crise das elites

Marcel de Corte

Com esse título abrangente e ambicioso demais, gostaria de falar com a maior simplicidade possível sobre coisas conhecidas e, principalmente, sobre coisas desconhecidas, que só se tornaram desconhecidas por causa do mundo moderno. Hoje conhecemos muitas coisas que nossos pais ignoravam. A civilização atual, que é essencialmente uma civilização do livro ou do impresso, a cada dia introduz nos cérebros uma massa de conhecimentos que digerimos mais ou menos bem, ou melhor, nem tão bem assim. Estendem-se tais conhecimentos a objetos tão numerosos que a multidão deles amedrontaria as gerações que nos precederam. Para tanto, comparem-se os estudos que se exigiam dos médicos há trinta ou quarenta anos, com os que se exigem atualmente – e isso vale para todas as profissões. Em contrário, segundo uma lei bem simples, expressa no provérbio “um prego empurra o outro”, esse afluxo de informações submergiu certas evidências elementares e as relegou ao esquecimento. Os leigos e os cientistas já não conhecem, por ex., os nomes das quatro virtudes cardeais que outrora o comum do povo conseguia apontar nos vitrais ou nas estátuas das catedrais. Recobriu-se de sombras uma área imensa do saber; em todo lugar regrediu o saber moral, o saber propriamente humano. (Continue a ler)

Soa o dobre por Notre Dame

Dom Lourenço Fleichman OSB

Acompanhei um pouco a situação em Paris pelos jornais franceses, e me parece importante escrever para os meus fiéis e leitores do site, para lhes falar um pouco sobre esse acontecimento estranho do incêndio de Notre Dame de Paris.

Muitas catedrais, igrejas, mosteiros queimaram em incêndios antes desse. Muitos terremotos derrubaram suas flechas monumentais, como vimos hoje cair a de Paris. 

Mas não posso deixar de considerar que essa destruição tem um caráter diferente. Antes do fogo destruir esta Citadela da Fé católica, há muito tempo já desaparecera o fogo que a levantara há cerca de 1.000 anos atrás.

Quando leio nos jornais os políticos falando de cultura, de Europa, de arte, não posso deixar de pensar na culpa que esses senhores têm por tudo o que foi jogado fora de civilização católica, dos mil anos da Cristandade, da Idade Média. Não posso impedir que brote no coração o ódio por essa Revolução que há 250 anos destrói o que nossos heróis construíram, para pasmo do mundo moderno, pelo simples amor a Nosso Senhor Jesus Cristo, a sua Mãe Maria, e a sua Esposa, a Santa Igreja  Católica Apostólica Romana.

Não posso deixar de odiar com todas as forças da alma esse Modernismo de Vaticano II, que ainda hoje derruba as simbólicas cruzes da fé nos corações.

Na verdade o mundo moderno e a Igreja modernista não merecem esses monumentos da fé antiga, pois que a repudiaram com desprezo e violência.

Era normal que, na Apostasia Geral em que vivemos, os marcos da fé de outrora fossem desaparecendo, como destruídos foram os Sacramentos, as Orações, o Sacerdócio, as igrejas e tudo o mais que ocupava pela vida interior esses mesmos monumentos.

Mas a vida continua.

Já estão arrecadando o dinheiro da reconstrução. Muito dinheiro. Já anunciaram que reunirão os melhores artífices do mundo para refazer o que foi destruído pelas chamas. De que serve? Levantarão uma Catedral do Pluralismo revolucionário. Cantarão loas à Fraternidade universal. Incensarão a deusa Liberdade no altar da nova Notre Dame. E todos, unidos pela Igualdade sem Jesus crucificado, soltarão fogos no dia da inauguração. 

No limiar da nossa Semana Santa, quando nos preparamos para o luto litúrgico pela Paixão e Morte de Cristo, soa o dobre por Notre Dame.

E mais uma vez choramos a destruição da fé.

Domingo que vem nos alegraremos com Cristo Ressuscitado, e poderemos tratar da nossa salvação eterna, nos nossos esconderijos, nas nossas catacumbas da Tradição.

Anarquismo e progressismo

Gustavo Corção

A crise de nosso tempo poderia ter este título que encerra uma grotesca contradição, e que tem seu tipo representativo mais cômico nos descendentes de Bakunin que começaram na Espanha a infiltração e a perseguição religiosa antes dos comunistas marxistas. Romanticamente se apresentavam como militantes de um mundo novo munidos de uma pistola na mão direita e da enciclopédia na esquerda. O programa era sucinto: beber o sangue dos últimos padres na cabeça craniana do último dos reis.

Lembrando a alta que os títulos dos revolucionários tiveram na convulsão de 1789, que nos foi inculcada como feito de glória universal, seria melhor, naquele retrato do herói anarquista, trocar a pistola pela guilhotina, mas a imagem que já me parecia insustentável com a enciclopédia na mão esquerda, fica decididamente inimaginável se na direita quisermos colocar a aparatosa guilhotina.

Mas, sob o ponto de vista do valor simbólico, insisto na guilhotina, e quem quiser se apegar à figura romântica desenhe na imaginação um Robot gigantesco portando na mão direita uma guilhotina, e na esquerda a Britânica ou a Barsa. E insisto na guilhotina porque o supremo ideal do anarquista é a decapitação, e não a morte qualquer produzida por uma bala nas partes baixas, ou nas obras mortas do corpo humano. Não foi por mero acaso que nos primórdios da Revolução Francesa o doutor Guillotin inventou a guilhotina, e até submeteu-a à apreciação do rei Luis XVI que tinha pendores para a mecânica e para a serralheria.

Não sei se é apócrifa a anedota; mas a Guilhotina tornou-se uma sólida realidade. E tornou-se o símbolo da democracia liberal que contesta o princípio da autoridade em nome de “virtudes cristãs enlouquecidas”. Autoridade está para a cabeça como a idéia para a imagem ou para o símbolo. Chefe quer dizer “pessoa investida de autoridade”, e quer dizer cabeça. Em francês a primeira e direta significação do termo é a de cabeça: “Le chef de saint Jean-Baptiste...”, e a significação derivada é a de autoridade moral.

E enquanto permanecemos na consideração de termos e de imagens aproveitamos para assinalar o curioso aspecto do ideal democrático baseado no igualitarismo. Não podendo evitar um mínimo de organização social ou de hierarquia, tal regime, para não ser autocrático, tem de ser dirigido por decapitados ou por acéfalos. A segunda solução, ao longo da história, pareceu mais prática e já houve um espirituoso, não me lembra quem, que chegou à fórmula do regime anarco-democrático: um povo de decapitados dirigido por uma dúzia de acéfalos. (continue a ler)

A reação católica

Mons. Louis-Gaston de Ségur

Somos reacionários? Não, se por reacionários entendemos os espíritos amuados, sempre ocupados em lamentar o passado, o antigo regime, a Idade Média. “Ninguém, bem dizia o bom Nicodemos, pode retornar ao ventre de sua mãe para nascer novamente”; sabemo-lo muito bem, e não desejamos o impossível.

Sim, somos reacionários, se se entende por isso os homens de fé e de coração, católicos antes de tudo, que não transigem nenhum princípio, não abandonam nenhuma verdade, respeitando, em meio às blasfêmias e ruínas revolucionárias, a ordem social estabelecida por Deus, decididos a não recuar um passo sequer diante das exigências de um mundo pervertido, e guardando como um dever de consciência a reação anti-revolucionária.

Dizemo-lo a toda hora, a Revolução é o grande perigo que ameaça a Igreja hoje. Seja o que digam os mistificadores, este perigo está às nossas portas, no ar que respiramos, em nossas ideias íntimas. À véspera de grandes catástrofes, sempre se encontram estes incompreensíveis cegos, surdos e mudos, que querem nada ver, nada compreender. “Está tudo bem, dizem eles; o mundo jamais foi tão esclarecido, a fortuna pública tão próspera, o exército tão bravo, a administração melhor organizada, a indústria mais florescente, as comunicações mais rápidas, a pátria mais unida”. Eles não enxergam, não querem ver que esta ordem material acoberta uma profunda desordem moral, e que a mina prestes a desabar é a base do edifício. Mistificados e mistificadores, eles abandonam a defesa, deixam-na aos demais e oferecem à Revolução a Igreja desarmada. (continue a ler)

Prefácio ao livro A Descoberta do Outro

Como já é do conhecimento de muitos acaba de ser reeditado o primeiro livro de Gustavo Corção - A Descoberta do Outro. Durante muitos anos várias editoras procuraram em vão os herdeiros de Corção para pedir autorização de publicar esta obra-prima do nosso fundador e mestre. Agora foi acordado à Vide Editorial. Mérito deles.

Não posso deixar de recomendar vivamente a leitura deste livro e a Editora Permanência não deixará de promover sua venda. Por outro lado, resta-nos uma ponta de tristeza pois, sendo os herdeiros espirituais do pensamento e do combate de Gustavo Corção, seria muito mais coerente e natural que nós pudéssemos difundir a obra de Gustavo Corção. Mas não nos foi acordada essa possibilidade. 

No intuito de aconselhar a leitura e de assinalar os aspectos mais importantes desse livro único no seu gênero, e para ajudar o leitor menos acostumado com as belas letras, escrevi o Prefácio que segue. 

Foi aos dezesseis anos que eu li pela primeira vez A Descoberta do Outro. Abri-o como quem abre um testamento, tão grande era a presença do autor em minha vida. Em casa o chamávamos Vovô Corção, pois de fato ele fora um pai para o meu próprio pai. O pensamento e a obra de Gustavo Corção tornaram-se como uma herança espiritual que recebi enquanto crescia, e que assumi na Permanência.

Ao longo desses 40 anos reli este livrinho dezenas de vezes, ora por gosto, ora por estudo. Em 1980, por exemplo, foi para ajudar na revisão da edição francesa, publicada em 1987. Mais recentemente, colaborei na preparação de uma matéria sobre Gustavo Corção, na Revista Conhecimento Prático de Literatura[1], e mais uma vez fui buscar o primeiro livro do grande escritor para ilustrar o artigo que escrevi para a ocasião.

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Civilização católica e erros modernos

Donoso Cortés

 

CARTA AO CARDEAL FORNARI

 

Eminentíssimo Senhor:

Antes de submeter à alta penetração de Vossa Eminência as breves indicações que houve por bem pedir-me em carta de maio último, parece-me conveniente assinalar aqui os limites que me impus a mim mesmo na redação destas indicações.

Entre os erros contemporâneos não há nenhum que não se reduza a uma heresia; e entre as heresias contemporâneas não há nenhuma que não se reduza a outra, condenada de há muito pela Igreja. Nos erros passados, a Igreja condenou os erros presentes e os erros futuros. Idênticos entre si quando considerados sob o prisma de sua natureza e de sua origem, os erros oferecem, todavia, o espetáculo de uma variedade portentosa quando vistos através de suas aplicações. Meu propósito hoje é considerá-los mais pelo lado de suas aplicações do que pelo de sua natureza e origem; mais pelo que tem de político e social do que pelo que tem de puramente religioso; mais pelo que tem de diverso do que pelo de idêntico; mais pelo que tem de mutável do que pelo de absoluto.

Tradição, tradição católica e falsa tradição

 

Paolo Pasqualucci

Sumário:

1. A noção de tradição. 2. Tradição cristã e não “judaico-cristã”.  3. Definição da Tradição católica. 4. A Tradição católica não contém nada de secreto, ela não é esotérica. 5. A noção esotérica da tradição é irracional e falsa. 5a. A inversão do significado da Cruz por René Guénon.

Em geral, todos consideram bem conhecido o sentido da palavra “tradição”. Nós, todavia, julgamos importante defini-lo corretamente. É o que faremos neste artigo.

1. A noção de tradição.

Antes de tudo, a idéia de tradição compreende a de certos valores transmitidos e preservados ao longo de gerações. Transmitidos e preservados, ou seja, ensinados e apresentados como valores a se respeitar, visto que constituem o fundamento inalterável de uma determinada concepção de mundo e, conseqüentemente, do modo de viver de uma sociedade — compreendida globalmente enquanto povo. Com efeito, a tradição se materializa nos costumes. A idéia de tradição está, portanto, ligada à de valor e costume. Não há aqui lugar para uma definição subjetiva do que é o valor: o valor preservado pela Tradição é precisamente aquele que se impõe pelo fato de fundar essa mesma tradição e de pertencer-lhe, a despeito do que pensam os indivíduos, que devem reconhecê-la e obedecê-la.  Leia mais

Vida intelectual versus vida de curiosidade

(Esta conferência foi proferida na Jornada de Formação do MJCB em 2012. Apresentamos aqui a sua transcrição).

 

Pe. Luiz Cláudio Camargo FSSPX

A obra que estamos propondo realizar em nossos priorados consiste exatamente na idéia da universidade: versus unum. A universidade é a reunião de todas as faculdades, iluminadas pela Teologia. A nossa vida precisa alcançar essa unidade mais elevada, e o lugar privilegiado para isso, na situação em que nos encontramos hoje, são os nossos priorados.

Quero comparar aqui os elementos normais da vida intelectual — o ato, a estrutura da vida interior — com a sua deformação. Gostaria de comparar a vida intelectual com a vida de curiosidade, e daí tentar tirar os conselhos práticos para a vida especulativa. 

Pode-se dizer que há duas partes no esforço intelectual. Em primeiro lugar, há o que se pode chamar de studium, o estudo. Em latim, a palavra studium significa esforço. É interessante notar que toda a primeira parte, a do esforço intelectual, por causa da união e da relação entre o corpo e a alma, é necessária para se chegar ao ato específico em que a inteligência enxerga o seu objeto. Ela exige um esforço muito grande. O modo pelo qual chegamos ao conhecimento é um modo laborioso, chamamo-lo de modo racional. É necessário ruminar até se chegar ao saber. Em seguida, temos um ato próprio, específico, e o efeito próprio pelo qual a inteligência vê o seu objeto, alcança-o, pode ser chamado de gaudium. Então, alcança-se a idéia e a alma repousa. Leia mais

Pode a Igreja morrer?

Dom Lourenço Fleichman OSB

Muitas pessoas me pedem que atualize com mais freqüência o site. Confesso que não tenho conseguido me dedicar mais a este apostolado, levado pelo excesso de trabalho nas quatro capelas sob minha responsabilidade, nas revisões doutrinárias dos livros que editamos e na cura das almas. Estamos iniciando agora o projeto do Colégio São Bernardo, a primeira escola da Tradição no Brasil, sobre a qual falaremos a seu tempo.

Felizmente tenho a ajuda de uma equipe atuante no que toca a produção da Revista Permanência, de outra forma não conseguiria manter o ritmo dos lançamentos trimensais. Confesso que é um trabalho que nos traz muita satisfação.

Agora mesmo assistimos a mais um grave escândalo do ecumenismo desenfreado. A reunião promovida pelo papa Francisco I dentro do Vaticano, no domingo de Pentecostes é apenas um gemido naturalista, um grunhido da História, dentro da obra destruidora do Vaticano II.

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O patriotismo é uma virtude cristã?

 Pe. François-Marie Chautard, FSSPX

 

“Se o catolicismo fosse inimigo da pátria, 

não seria uma religião divina”.

São Pio X 1

 

Desagrade ou não a Jean-Jacques Rousseau, o homem é um animal social.

Portanto, não seria coerente tratar da perfeição moral sem examinar as relações que o homem estabelece com Deus e seus semelhantes.

Essas relações envolvem vínculos, trocas, deveres e direitos; daí existir no homem uma virtude que lhe permite cumprir retamente seus distintos deveres para com Deus, a sociedade e o próximo: a virtude da justiça.

É incontestável que os deveres variam em função das diferentes formas de relações: o dever para com o bem comum da sociedade não é o mesmo que o dever para com um simples bem particular. Igualmente, os deveres variam segundo as pessoas: Deus, os pais, ou desconhecidos. Eis por que a justiça ramifica-se em várias espécies e partes.

Ora, uma virtude que se tornou desconhecida a muitos, por causa da ingratidão cristalizada do espírito moderno, é a virtude da piedade para com a nação, a pátria.

Ao examinar a virtude da justiça, pela qual “a vontade se dispõe a dar a cada um o que lhe é de direito”, Santo Tomás examina seus beneficiários, que são variados e de diversas ordens. Por exemplo, o comerciante a quem se deve pagar uma quantia exata cobrada por um objeto comprado. É um caso bastante simples, pois o que é devido – o valor – é algo preciso, exato. Uma vez que o comprador pagou a fatura, quitou seu dever em toda a justiça.

Neste caso, a dívida repara estritamente a justiça, pois quita uma dívida precisa (pagar uma quantia exata). Mas quando se trata de Deus, dos pais ou da nação, poderíamos   alguma vez nos julgarmos quites? Poderíamos aplicar essa justiça? Poderíamos, por exemplo, em toda a justiça prestar o culto devido a Deus? Ou recompensar aos pais um bem equivalente ao da vida que nos deram, sem falar na educação?

É claro que não. Por isso algumas espécies de justiça não têm a sua medida perfeita, visto que não se pode pagar plenamente o que é devido. É o caso de três virtudes:

- a religião: Devemos um culto a Deus, mas sozinhos jamais chegaríamos a honrá-lo na medida que a sua grandeza exige, bem como não poderíamos jamais retribuir-Lhe suficientemente e lhe dar tanto quanto nos deu 2.

- a piedade: Essa espécie de justiça reconhece a dívida de gratidão para com nossos pais, entendidos tanto no sentido estrito como no sentido amplo (ancestrais e pátria). Santo Tomás exprime-se assim: “A piedade, que se deve principalmente aos pais, deve se estender também a todos os que têm conosco vínculo de sangue, pois somos descendentes dos mesmos parentes; em seguida, deve se estender aos compatriotas, porque têm em comum conosco a mesma terra natal.” 3 

- a observância: Consiste no reconhecimento e na honra devidas às pessoas de grande mérito e grande virtude, ou seja, os grandes homens de uma nação: santos, heróis militares, estadistas etc. Pois bem, jamais se recompensa suficientemente uma virtude vivida em grau excelente. 

Mas o fato de não se conseguir recompensá-la suficientemente não faz disto algo dispensável. Muito pelo contrário. Como o homem jamais conseguiria restituir a Deus, aos pais ou a pátria o tanto que deles recebeu, ele nunca está quite e, portanto, deveria se pôr a praticar diligentemente essa virtude!

 

Em que consiste a piedade “patriótica”?

Essa piedade não é o fervor com que se reza a Deus, mas sim a veneração que se tem para com os pais e a pátria, porque estão no princípio de nossa existência. Segundo Cícero, “a piedade é o exato cumprimento de nossos deveres para com os pais e os amigos de nossa pátria.”

Somos herdeiros e devedores. Assim o ensina Santo Tomás, com sua clareza habitual: “O homem é constituído devedor a diferentes títulos para com os outros, segundo a excelência diversa deles e os benefícios diversos que deles recebeu.

“Ora, em ambos os casos o lugar supremo pertence a Deus, por ser excelentíssimo e o princípio primeiro que nos deu o ser e nos governa.

“Mas, em segundo lugar, este título convém a nossos pais e a nossa pátria, dos quais e na qual recebemos a vida e a educação. Portanto, depois de Deus, somos devedores sobretudo dos pais e da pátria. Em consequência, assim como o fim da religião é prestar culto a Deus, assim também, num degrau inferior, o objeto da piedade é prestá-lo aos pais e à pátria. Ademais, o culto dos pais se estende ao que prestamos a todos da mesma ascendência, como o demonstra Aristóteles. Ora, o culto da pátria abrange o prestado a todos os cidadãos e a todos os amigos dela. Por isso a eles se estende de maneira principal a piedade.”4

Normalmente, quando falamos em “culto”, referimo-nos ao culto destinado a Deus, pois a honra devida ao pai e, por fim, a toda a autoridade, faz parte da honra rendida a Deus, já que toda autoridade criada é um reflexo da autoridade divina 5. É por isso que a apostasia hoje reinante está necessariamente acompanhada de uma crise de autoridade. Do mesmo modo, a restauração dos direitos do pai ou de qualquer autoridade só poderá ter resultados duradouros com a restauração dos direitos de Deus.

Enfim, como “as relações entre consanguíneos e concidadãos tocam mais intimamente os princípios da nossa existência do que as relações de amizade”6, a honra e a piedade devem se dirigir antes de tudo aos pais e às autoridades. Quando certos católicos defendem que a Igreja deveria abster-se de toda consideração política, manifestam assim o senso estreito e raquítico de sua virtude da justiça.

 

A pátria, princípio de nosso ser

Falta definir o que entendemos por pátria. Primeiramente, é a terra dos pais. Charles Péguy assim a definia: “A pátria é certa extensão de terra onde se fala uma língua, onde os costumes podem reinar; é um espírito, uma alma, um culto, é a porção de terra onde uma alma pode respirar. É a terra que se tornou nosso lar”. A essa noção da pátria carnal, o Rev. Pe. de Chivré acrescenta um complemento oportuno:

Na origem de uma pátria, há uma escolha, um casamento psicológico, um ‘noivado’ moral, entre um homem e um lugar, e o que compõe a pátria é o resultado entre o elemento temporal que se adotou e a ligação livre e definitiva do humano a esse elemento. Uma terra escolhida por um homem, na qual ele decidiu realizar atividades que unem a terra a si: eis a pátria.

Existem, então, dois elementos: um carnal e outro livre e psicológico. Esta escolha da pátria traz consigo oportunidades de ação proporcionadas pela terra, o mar, a montanha, as minas, etc. A terra é um princípio de atividade. O Estado, responsável pela pátria, tem como primeiro dever obrigar a terra a fornecer seu máximo de atividade ao homem7.

Mas, para além da terra, há a herança dos pais, que não é somente o solo, mas o sangue, os bens, os princípios, a religião: os deuses de nossos pais.

Em seu comentário sobre o artigo de Santo Tomás citado acima, Caetano insiste na noção de princípio que fundamenta essa virtude. A pátria é para nós um princípio e inicialmente talvez isso nos surpreenda. Mas ao refleti-lo bem, não somos dependentes do passado da nação? Se somos católicos, não o devemos a nossos avós? Os costumes católicos aos quais nos habituamos, não os herdamos de nossos pais? Nossa língua, precisa e estruturante para o espírito, não é um patrimônio legado por nossos antepassados? As igrejas, os palácios, os monumentos que embelezam nossas cidades, não contribuem para criar uma atmosfera à qual não damos mais atenção hoje? Porventura a fé gravada nas pedras de nossas igrejas do interior, dos muros de nossos casarões antigos, de nossos cruzeiros do campo, não conta nada na transmissão da civilização e da cultura católicas? Quem quer que já tenha viajado, mesmo pouco, sabe o quão forte e durável é a marca deixada pela sociedade em seus membros: o homem é formado sobre um passado e não faz senão construir sobre esse passado, essa herança. É preciso ter uma mentalidade de adolescente para imaginar que um homem pode se construir sozinho, amputando suas raízes.

Esse culto dos pais encontrava-se tão enraizado na Antiguidade pagã que estava no fundamento de todas as sociedades e do direito das sociedades 8. A antiguidade havia até caído no excesso contrário, oferecendo um culto divino aos pais. A Igreja o corrigiu, mas salientou o que ele tinha de nobre:

Depois de Deus, diz Santo Tomás, é a nossos pais e à pátria a quem mais devemos (IIa IIae, q.101, a.1). O verdadeiro patriotismo é a virtude moral da piedade filial, que, iluminada pela fé sobrenatural e a prudência cristã, como se vê em um São Luís ou uma Santa Joana d’Arc, é uma virtude infusa, uma virtude perfeitamente subordinada ao amor de Deus e de todos os homens nele.9

 

Quais os meios de se prestar culto à pátria e aos pais?

Antes de tudo, presta-se culto10 à pátria e aos pais perpetuando a lembrança e rendendo honra aos ancestrais e heróis. Aí, a comemoração dos heróis da guerra de 1914 é um ato de justiça elementar para com aqueles que combateram até verem libertado o solo da pátria, a herança dos pais 11. E, para numerosos soldados cristãos, esse sangue derramado pela França o foi em reparação aos crimes da França anticlerical e maçônica. E foram até à morte nesse espírito. “Sabemos bem que a nossa missão é redimir a França pelo sangue”, escreveu Psichari 12.

 

História nacional e virtude da piedade

Esta gratidão pelo passado requer o conhecimento da história do próprio país. Um homem que desconhece a história de sua pátria é um inculto na pele de um ingrato. Pode-se mensurar aqui o quanto a deterioração do ensino de história contribui para minar a piedade nacional. Além do que, no caso da França, fundada pelo batismo de Clóvis, a dimensão cristã é tão forte que não se pode compreender a sua história sem conhecer o seu passado religioso. É importante então conhecer os santos nacionais e locais e prestar-lhes culto. Aqui, ainda, nestes tempos de crescente globalização, é fundamental trazer à nação a lembrança dessa lição de bom senso, tão ancorada no espírito de nossos antepassados!

Além do dever de lembrarmo-nos de nossos ancestrais, é preciso honrar as autoridades legítimas, ato de justiça chamado observância. É necessário aqui um esclarecimento, já que a baixíssima qualidade dos governantes atuais nos faz duvidar desse dever. Santo Tomás já previra a objeção e a respondeu deste modo: “Os superiores maus não são honrados por causa da excelência de sua virtude própria, mas por causa de sua eminente dignidade, que faz deles ministros de Deus. E também porque neles é honrada toda a comunidade, de que são superiores.” 13

 

A transmissão do patrimônio

Está implícito que essa virtude da piedade supõe a transmissão de um patrimônio. Ora, essa transmissão se dá antes de tudo pela família e pela pátria. Estava tão ancorada na Antiguidade pagã – entre os indianos, gregos e romanos – que o celibato era ali rigorosamente proibido, como já lembramos. Com efeito, a transmissão da vida é a propagação do bem comum. Recorramos mais uma vez à explicação de Santo Tomás: 

A geração humana tem múltiplos fins: em primeiro lugar a continuidade da espécie, a continuidade também de um certo bem político, ou seja, a continuidade de um povo numa mesma cidade; a continuidade também da Igreja, que é o agrupamento dos fiéis. Tal geração deve, pois, obedecer a leis diversas. Ordenada ao bem natural, à continuidade da espécie, a geração está ordenada para esse fim pela natureza que a ela inclina: diz-se, neste sentido, que é um ofício de natureza. Ordenada ao bem da cidade, está submissa às disposições de lei civil. Ordenada ao bem da Igreja, ela deverá submeter-se ao governo eclesiástico.14

Outra vez, podemos mensurar o quanto uma sociedade contraceptiva e abortista é inimiga da pátria.

Essa transmissão do patrimônio é também a transmissão dos princípios civilizacionais. A fé, evidentemente, e a história, da qual já tratamos, mas também os sãos costumes nacionais e, por fim, a conservação dos monumentos materiais do país.

Sobre isso, espanta-nos a imprudência com a qual herdeiros muitas vezes dilapidam seu patrimônio familiar. Outrora se apegava à terra, aos móveis, aos bens dos familiares, mas nossos contemporâneos parecem não lhes dar muito valor, preferindo bens puramente financeiros e, portanto, impessoais. Se ao menos os desprezassem para entrar em um mosteiro, por amor à pátria celeste!

Está claro, enfim, que a virtude da piedade filial inclina o homem a trabalhar pelo bem comum da Cidade e não só pelo de sua própria família, de seus correligionários, de seu clã ou partido. E isso vai desde o respeito pelos costumes, pela propriedade e pelas preferências nacionais, até o sacrifício de dar o sangue pela pátria.

Assim o ensinaram os papas. Segundo Bento XV: “Se a caridade deve se estender a todos os homens, mesmo a nossos inimigos, ela quer que amemos especialmente os que estão unidos conosco pelos vínculos de uma pátria comum.” (Carta de 15 de julho de 1919). E Pio XII, em sua encíclica Summi Pontificatus (1939), acrescenta: “Existe uma ordem estabelecida por Deus segundo à qual deve-se ter um amor mais intenso e fazer o bem primeiramente aos que estão unidos conosco por vínculos especiais. O Divino Mestre deu o exemplo dessa preferência por sua terra e sua pátria quando chorou sobre ‘a iminente destruição da Cidade Santa’.”

 

O dom de piedade

Se a piedade é uma virtude, é também um dom do Espírito Santo. Este último certamente não tem por fim o dever de piedade para com a pátria. No entanto, na medida em que esse dom inclina a alma a ver em Deus um pai e, nos outros cristãos, irmãos, ele contribui grandemente para a vida em sociedade.

Quanto à justiça exercida para com os homens, esse dom ajuda-nos a abrandar o que poderia haver de áspero na virtude da justiça e coloca um bálsamo nas relações, muitas vezes áridas, entre os homens. O dom de piedade traz consigo um suave unguento que aperfeiçoa a justiça e dá-lhe um rosto humano.

É a flor da civilização cristã, conclui Dom Lefebvre. Onde quer que falte essa graça do Espírito Santo, há o risco de se recair num mundanismo, no qual as manifestações exteriores de simpatia para com o próximo são muitas vezes falsas ou exageradas, onde falta-lhes sinceridade, onde são meras formalidades, ao passo que a civilização cristã é inspirada pelo Espírito santo, pelo verdadeiro espírito de humildade e caridade, de amor ao próximo e de amor a Deus, amor inspirado por Deus. 15

(Le Chardonnet, N. 300, julho-agosto-setembro 2014)

  1. 1. Alocução Nous vous remercions, 19 de abril de 1909.
  2. 2. Através de Jesus Cristo, porém, isto é possível, pois o sacrifício da Missa rende a Deus uma honra infinita.
  3. 3. II Sent. d.33, q.3, a.4, q.1, ad2.
  4. 4. IIa. IIae. q. 101, a. 1, c.
  5. 5. Ibidem, ad 1um.
  6. 6. Ibidem, ad 3um.
  7. 7. Pe. De Chivré, Le Mal, Carnets spirituels n.19, dezembro de 2008, pág.45;
  8. 8. Cf. Fustel de Coulanges, La cité antique, diversas reedições. O autor mostra que as leis da família e da cidade estavam ligadas ao culto dos antigos. O casamento, por exemplo, era obrigatório, porque evitá-lo significaria extinguir o culto dos filhos aos pais; as filhas estavam excluídas da herança paterna porque estavam destinadas a se unirem em casamento ao homem de outra família e, portanto, a abandonar o culto de seus pais pelo culto dos pais de seu marido.
  9. 9. Pe. Garrigou-Lagrange, L’amour de Dieu et la croix de Jesus, tomo I, Les Éditions Militia, 1953, pág.265.
  10. 10. Cf. IIa IIae, q. 102, a. 3.
  11. 11. [N. do E] O presente artigo foi escrito por um francês para um público francês.
  12. 12. Citado pelo Pe. Jean-Dominique, O.P., Le Père Roger-Thomas Calmel, Clovis, 2013, pág. 35.
  13. 13. IIa. IIae. q. 103, a. 2, ad 2.
  14. 14. Contra Gentes, L.4, q.78.
  15. 15. Monsenhor Lefebvre, La sainteté sacerdotal, Clovis, 2008, pág. 258.
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