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Category: PensamentoConteúdo sindicalizado

A crise das elites

Marcel de Corte

Com esse título abrangente e ambicioso demais, gostaria de falar com a maior simplicidade possível sobre coisas conhecidas e, principalmente, sobre coisas desconhecidas, que só se tornaram desconhecidas por causa do mundo moderno. Hoje conhecemos muitas coisas que nossos pais ignoravam. A civilização atual, que é essencialmente uma civilização do livro ou do impresso, a cada dia introduz nos cérebros uma massa de conhecimentos que digerimos mais ou menos bem, ou melhor, nem tão bem assim. Estendem-se tais conhecimentos a objetos tão numerosos que a multidão deles amedrontaria as gerações que nos precederam. Para tanto, comparem-se os estudos que se exigiam dos médicos há trinta ou quarenta anos, com os que se exigem atualmente – e isso vale para todas as profissões. Em contrário, segundo uma lei bem simples, expressa no provérbio “um prego empurra o outro”, esse afluxo de informações submergiu certas evidências elementares e as relegou ao esquecimento. Os leigos e os cientistas já não conhecem, por ex., os nomes das quatro virtudes cardeais que outrora o comum do povo conseguia apontar nos vitrais ou nas estátuas das catedrais. Recobriu-se de sombras uma área imensa do saber; em todo lugar regrediu o saber moral, o saber propriamente humano. (Continue a ler)

Soa o dobre por Notre Dame

Dom Lourenço Fleichman OSB

Acompanhei um pouco a situação em Paris pelos jornais franceses, e me parece importante escrever para os meus fiéis e leitores do site, para lhes falar um pouco sobre esse acontecimento estranho do incêndio de Notre Dame de Paris.

Muitas catedrais, igrejas, mosteiros queimaram em incêndios antes desse. Muitos terremotos derrubaram suas flechas monumentais, como vimos hoje cair a de Paris. 

Mas não posso deixar de considerar que essa destruição tem um caráter diferente. Antes do fogo destruir esta Citadela da Fé católica, há muito tempo já desaparecera o fogo que a levantara há cerca de 1.000 anos atrás.

Quando leio nos jornais os políticos falando de cultura, de Europa, de arte, não posso deixar de pensar na culpa que esses senhores têm por tudo o que foi jogado fora de civilização católica, dos mil anos da Cristandade, da Idade Média. Não posso impedir que brote no coração o ódio por essa Revolução que há 250 anos destrói o que nossos heróis construíram, para pasmo do mundo moderno, pelo simples amor a Nosso Senhor Jesus Cristo, a sua Mãe Maria, e a sua Esposa, a Santa Igreja  Católica Apostólica Romana.

Não posso deixar de odiar com todas as forças da alma esse Modernismo de Vaticano II, que ainda hoje derruba as simbólicas cruzes da fé nos corações.

Na verdade o mundo moderno e a Igreja modernista não merecem esses monumentos da fé antiga, pois que a repudiaram com desprezo e violência.

Era normal que, na Apostasia Geral em que vivemos, os marcos da fé de outrora fossem desaparecendo, como destruídos foram os Sacramentos, as Orações, o Sacerdócio, as igrejas e tudo o mais que ocupava pela vida interior esses mesmos monumentos.

Mas a vida continua.

Já estão arrecadando o dinheiro da reconstrução. Muito dinheiro. Já anunciaram que reunirão os melhores artífices do mundo para refazer o que foi destruído pelas chamas. De que serve? Levantarão uma Catedral do Pluralismo revolucionário. Cantarão loas à Fraternidade universal. Incensarão a deusa Liberdade no altar da nova Notre Dame. E todos, unidos pela Igualdade sem Jesus crucificado, soltarão fogos no dia da inauguração. 

No limiar da nossa Semana Santa, quando nos preparamos para o luto litúrgico pela Paixão e Morte de Cristo, soa o dobre por Notre Dame.

E mais uma vez choramos a destruição da fé.

Domingo que vem nos alegraremos com Cristo Ressuscitado, e poderemos tratar da nossa salvação eterna, nos nossos esconderijos, nas nossas catacumbas da Tradição.

Anarquismo e progressismo

Gustavo Corção

A crise de nosso tempo poderia ter este título que encerra uma grotesca contradição, e que tem seu tipo representativo mais cômico nos descendentes de Bakunin que começaram na Espanha a infiltração e a perseguição religiosa antes dos comunistas marxistas. Romanticamente se apresentavam como militantes de um mundo novo munidos de uma pistola na mão direita e da enciclopédia na esquerda. O programa era sucinto: beber o sangue dos últimos padres na cabeça craniana do último dos reis.

Lembrando a alta que os títulos dos revolucionários tiveram na convulsão de 1789, que nos foi inculcada como feito de glória universal, seria melhor, naquele retrato do herói anarquista, trocar a pistola pela guilhotina, mas a imagem que já me parecia insustentável com a enciclopédia na mão esquerda, fica decididamente inimaginável se na direita quisermos colocar a aparatosa guilhotina.

Mas, sob o ponto de vista do valor simbólico, insisto na guilhotina, e quem quiser se apegar à figura romântica desenhe na imaginação um Robot gigantesco portando na mão direita uma guilhotina, e na esquerda a Britânica ou a Barsa. E insisto na guilhotina porque o supremo ideal do anarquista é a decapitação, e não a morte qualquer produzida por uma bala nas partes baixas, ou nas obras mortas do corpo humano. Não foi por mero acaso que nos primórdios da Revolução Francesa o doutor Guillotin inventou a guilhotina, e até submeteu-a à apreciação do rei Luis XVI que tinha pendores para a mecânica e para a serralheria.

Não sei se é apócrifa a anedota; mas a Guilhotina tornou-se uma sólida realidade. E tornou-se o símbolo da democracia liberal que contesta o princípio da autoridade em nome de “virtudes cristãs enlouquecidas”. Autoridade está para a cabeça como a idéia para a imagem ou para o símbolo. Chefe quer dizer “pessoa investida de autoridade”, e quer dizer cabeça. Em francês a primeira e direta significação do termo é a de cabeça: “Le chef de saint Jean-Baptiste...”, e a significação derivada é a de autoridade moral.

E enquanto permanecemos na consideração de termos e de imagens aproveitamos para assinalar o curioso aspecto do ideal democrático baseado no igualitarismo. Não podendo evitar um mínimo de organização social ou de hierarquia, tal regime, para não ser autocrático, tem de ser dirigido por decapitados ou por acéfalos. A segunda solução, ao longo da história, pareceu mais prática e já houve um espirituoso, não me lembra quem, que chegou à fórmula do regime anarco-democrático: um povo de decapitados dirigido por uma dúzia de acéfalos. (continue a ler)

A reação católica

Mons. Louis-Gaston de Ségur

Somos reacionários? Não, se por reacionários entendemos os espíritos amuados, sempre ocupados em lamentar o passado, o antigo regime, a Idade Média. “Ninguém, bem dizia o bom Nicodemos, pode retornar ao ventre de sua mãe para nascer novamente”; sabemo-lo muito bem, e não desejamos o impossível.

Sim, somos reacionários, se se entende por isso os homens de fé e de coração, católicos antes de tudo, que não transigem nenhum princípio, não abandonam nenhuma verdade, respeitando, em meio às blasfêmias e ruínas revolucionárias, a ordem social estabelecida por Deus, decididos a não recuar um passo sequer diante das exigências de um mundo pervertido, e guardando como um dever de consciência a reação anti-revolucionária.

Dizemo-lo a toda hora, a Revolução é o grande perigo que ameaça a Igreja hoje. Seja o que digam os mistificadores, este perigo está às nossas portas, no ar que respiramos, em nossas ideias íntimas. À véspera de grandes catástrofes, sempre se encontram estes incompreensíveis cegos, surdos e mudos, que querem nada ver, nada compreender. “Está tudo bem, dizem eles; o mundo jamais foi tão esclarecido, a fortuna pública tão próspera, o exército tão bravo, a administração melhor organizada, a indústria mais florescente, as comunicações mais rápidas, a pátria mais unida”. Eles não enxergam, não querem ver que esta ordem material acoberta uma profunda desordem moral, e que a mina prestes a desabar é a base do edifício. Mistificados e mistificadores, eles abandonam a defesa, deixam-na aos demais e oferecem à Revolução a Igreja desarmada. (continue a ler)

Prefácio ao livro A Descoberta do Outro

Como já é do conhecimento de muitos acaba de ser reeditado o primeiro livro de Gustavo Corção - A Descoberta do Outro. Durante muitos anos várias editoras procuraram em vão os herdeiros de Corção para pedir autorização de publicar esta obra-prima do nosso fundador e mestre. Agora foi acordado à Vide Editorial. Mérito deles.

Não posso deixar de recomendar vivamente a leitura deste livro e a Editora Permanência não deixará de promover sua venda. Por outro lado, resta-nos uma ponta de tristeza pois, sendo os herdeiros espirituais do pensamento e do combate de Gustavo Corção, seria muito mais coerente e natural que nós pudéssemos difundir a obra de Gustavo Corção. Mas não nos foi acordada essa possibilidade. 

No intuito de aconselhar a leitura e de assinalar os aspectos mais importantes desse livro único no seu gênero, e para ajudar o leitor menos acostumado com as belas letras, escrevi o Prefácio que segue. 

Foi aos dezesseis anos que eu li pela primeira vez A Descoberta do Outro. Abri-o como quem abre um testamento, tão grande era a presença do autor em minha vida. Em casa o chamávamos Vovô Corção, pois de fato ele fora um pai para o meu próprio pai. O pensamento e a obra de Gustavo Corção tornaram-se como uma herança espiritual que recebi enquanto crescia, e que assumi na Permanência.

Ao longo desses 40 anos reli este livrinho dezenas de vezes, ora por gosto, ora por estudo. Em 1980, por exemplo, foi para ajudar na revisão da edição francesa, publicada em 1987. Mais recentemente, colaborei na preparação de uma matéria sobre Gustavo Corção, na Revista Conhecimento Prático de Literatura[1], e mais uma vez fui buscar o primeiro livro do grande escritor para ilustrar o artigo que escrevi para a ocasião.

(Clique aqui para continuar a leitura)

Civilização católica e erros modernos

Donoso Cortés

 

CARTA AO CARDEAL FORNARI

 

Eminentíssimo Senhor:

Antes de submeter à alta penetração de Vossa Eminência as breves indicações que houve por bem pedir-me em carta de maio último, parece-me conveniente assinalar aqui os limites que me impus a mim mesmo na redação destas indicações.

Entre os erros contemporâneos não há nenhum que não se reduza a uma heresia; e entre as heresias contemporâneas não há nenhuma que não se reduza a outra, condenada de há muito pela Igreja. Nos erros passados, a Igreja condenou os erros presentes e os erros futuros. Idênticos entre si quando considerados sob o prisma de sua natureza e de sua origem, os erros oferecem, todavia, o espetáculo de uma variedade portentosa quando vistos através de suas aplicações. Meu propósito hoje é considerá-los mais pelo lado de suas aplicações do que pelo de sua natureza e origem; mais pelo que tem de político e social do que pelo que tem de puramente religioso; mais pelo que tem de diverso do que pelo de idêntico; mais pelo que tem de mutável do que pelo de absoluto.

Tradição, tradição católica e falsa tradição

 

Paolo Pasqualucci

Sumário:

1. A noção de tradição. 2. Tradição cristã e não “judaico-cristã”.  3. Definição da Tradição católica. 4. A Tradição católica não contém nada de secreto, ela não é esotérica. 5. A noção esotérica da tradição é irracional e falsa. 5a. A inversão do significado da Cruz por René Guénon.

Em geral, todos consideram bem conhecido o sentido da palavra “tradição”. Nós, todavia, julgamos importante defini-lo corretamente. É o que faremos neste artigo.

1. A noção de tradição.

Antes de tudo, a idéia de tradição compreende a de certos valores transmitidos e preservados ao longo de gerações. Transmitidos e preservados, ou seja, ensinados e apresentados como valores a se respeitar, visto que constituem o fundamento inalterável de uma determinada concepção de mundo e, conseqüentemente, do modo de viver de uma sociedade — compreendida globalmente enquanto povo. Com efeito, a tradição se materializa nos costumes. A idéia de tradição está, portanto, ligada à de valor e costume. Não há aqui lugar para uma definição subjetiva do que é o valor: o valor preservado pela Tradição é precisamente aquele que se impõe pelo fato de fundar essa mesma tradição e de pertencer-lhe, a despeito do que pensam os indivíduos, que devem reconhecê-la e obedecê-la.  Leia mais

Vida intelectual versus vida de curiosidade

(Esta conferência foi proferida na Jornada de Formação do MJCB em 2012. Apresentamos aqui a sua transcrição).

 

Pe. Luiz Cláudio Camargo FSSPX

A obra que estamos propondo realizar em nossos priorados consiste exatamente na idéia da universidade: versus unum. A universidade é a reunião de todas as faculdades, iluminadas pela Teologia. A nossa vida precisa alcançar essa unidade mais elevada, e o lugar privilegiado para isso, na situação em que nos encontramos hoje, são os nossos priorados.

Quero comparar aqui os elementos normais da vida intelectual — o ato, a estrutura da vida interior — com a sua deformação. Gostaria de comparar a vida intelectual com a vida de curiosidade, e daí tentar tirar os conselhos práticos para a vida especulativa. 

Pode-se dizer que há duas partes no esforço intelectual. Em primeiro lugar, há o que se pode chamar de studium, o estudo. Em latim, a palavra studium significa esforço. É interessante notar que toda a primeira parte, a do esforço intelectual, por causa da união e da relação entre o corpo e a alma, é necessária para se chegar ao ato específico em que a inteligência enxerga o seu objeto. Ela exige um esforço muito grande. O modo pelo qual chegamos ao conhecimento é um modo laborioso, chamamo-lo de modo racional. É necessário ruminar até se chegar ao saber. Em seguida, temos um ato próprio, específico, e o efeito próprio pelo qual a inteligência vê o seu objeto, alcança-o, pode ser chamado de gaudium. Então, alcança-se a idéia e a alma repousa. Leia mais

Pode a Igreja morrer?

Dom Lourenço Fleichman OSB

Muitas pessoas me pedem que atualize com mais freqüência o site. Confesso que não tenho conseguido me dedicar mais a este apostolado, levado pelo excesso de trabalho nas quatro capelas sob minha responsabilidade, nas revisões doutrinárias dos livros que editamos e na cura das almas. Estamos iniciando agora o projeto do Colégio São Bernardo, a primeira escola da Tradição no Brasil, sobre a qual falaremos a seu tempo.

Felizmente tenho a ajuda de uma equipe atuante no que toca a produção da Revista Permanência, de outra forma não conseguiria manter o ritmo dos lançamentos trimensais. Confesso que é um trabalho que nos traz muita satisfação.

Agora mesmo assistimos a mais um grave escândalo do ecumenismo desenfreado. A reunião promovida pelo papa Francisco I dentro do Vaticano, no domingo de Pentecostes é apenas um gemido naturalista, um grunhido da História, dentro da obra destruidora do Vaticano II.

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O Pôncio Pilatos de ontem e os de hoje

Pe. Jean Dominique, O. P.

 

Na sua Encíclica Pascendi Dominici Gregis, São Pio X resumiu o fundamento filosófico da heresia modernista com esses dois termos: agnosticismo e imanência vital. Ele apontava o dedo para as duas atitudes fundamentais do pensamento moderno, que são a recusa do conhecimento especulativo e uma hipertrofia da causalidade. Para bem compreender o espírito do nosso tempo e poder confrontá-lo, convém nos aprofundarmos nesses dois falsos princípios que se encontram na origem de tantos erros. Para ajudar nossos leitores nessa tarefa, propomos uma parábola sobre o agnosticismo, que não é mais do que uma forma derivada do ceticismo.

 

Uma parábola moderna -- o Senhor Philosophus

Os jornais traziam uma triste notícia. Um jovem de cerca de trinta anos fora massacrado, há pouco tempo, por um bando de malfeitores nas redondezas de Jerusalém. A crueldade dessa execução sumária e o renome desse jovem judeu deram ao ocorrido uma repercussão internacional. O Senhor Philosophus, detetive de reputação, foi incumbido de identificar os criminosos e localizar o seu líder. Pôs na cabeça o seu chapéu de feltro, armou-se de sua lupa e de sua lanterna de bolso e, sem mais delongas, lançou-se ao trabalho. Confiando na sua longa experiência e nas suas fontes de informação, nosso homem contava resolver o assunto em pouco tempo. Mas teve de deixar o seu otimismo de lado ao depara-se com uma multidão heterogênea de suspeitos e com testemunhos aparentemente contraditórios. Busquemos acompanhá-lo na sua investigação.

A vítima tinha precisamente trinta e três anos no momento do atentado. Vinha do norte de Israel de uma localidade chamada Nazaré. Sua mãe, presente no lugar do suplício, chamava-se Maria, e seu nome era Jesus.

Quem, portanto, poderia ter cometido uma tal abominação, condenar ao suplício da cruz um homem dotado de tão boa reputação? O Senhor Philosophus seguiu todas as pistas que se lhe apresentaram: os Palestinos?  Os próprios Judeus? Os Romanos que ocupavam a região? Um dos amigos do defunto chamado Judas? A covardia dos seus discípulos que o abandonaram diante do perigo? Soluções as mais contraditórias disputavam o espírito do detetive, sem que ele pudesse resolvê-las de modo categórico.

Ao cabo de muitos dias e noites de trabalho, após ter perseguido escrupulosamente os menores indícios que lhe pudessem conduzir a alguma conclusão, esgotado de tanto esforço sem resultado, Sr. Philosophus ingressou, num belo dia, na sala de reunião dos adeptos desse Jesus. Na esperança de obter um pouco de repouso, sentou-se confortavelmente num banco dessa igreja, abriu mecanicamente um livro que lá estava e, com ar distraído, leu uma página... e tudo mudou subitamente.

Ali, naquela página aberta por acaso, o criminoso tinha deixado seus traços! Repetidas vezes, e vagarosamente, o brilhante detetive repassou com sua lupa o texto em questão. Não havia mais dúvida: ele encontrara a solução do enigma.

 

A profissão de fé dos católicos

O texto que aqui mencionamos é conhecido dos católicos, é o Credo, sua profissão de fé. Ele merece uma leitura lenta, atenta – ser lido de lupa. Desse modo, ele revelará os tesouros que contém. Tudo é belo nesse Credo, é como uma sinfonia maravilhosa. Lá encontramos a glória de Deus, a bem-aventurança do Pai, do Filho e do Espírito Santo, a Encarnação do Verbo eterno, a virgindade perpétua e fecunda de Maria, o mistério tão consolador da remissão dos pecados e a promessa da vida eterna no céu.

Encantado pelo charme desse texto luminoso, o detetive tinha quase se esquecido das suas preocupações, e mesmo da missão de que fora incumbido de encontrar o assassino. Foi então que se deparou com a palavra que lhe revelaria o segredo que buscava. No meio da profissão de fé da Igreja, escondido no meio de verdades tão elevadas e reconfortantes, enquanto os católicos cantam de todo o seu coração infantil a bondade e a beleza de Deus, surge uma frase curiosa: “Sub Pontio Pilato passus et sepultus est” (Padeceu e foi sepultado sob Pôncio Pilatos). Este inciso aparece subitamente, como um convidado indesejável numa reunião de família, como um furúnculo num belo nariz, como o cabelo da cozinheira na sopa. Ora, essa dissonância, esse aparente erro de digitação permanecerá no Credo até o fim do mundo.

O fato é digno de nota. Pois, nessa profissão de fé, não se fala absolutamente da covardia de Pedro, nem da maldade de Judas, nem do ódio invejoso dos príncipes dos sacerdotes. Só Pilatos é citado no tribunal da história.

Podemos então imaginar a alegria do nosso detetive. Após sua descoberta sensacional, ele se ergueu prontamente, seguro de encontrar o culpado. Encontrar o esconderijo de desse Pilatos será moleza.

No entanto, nosso homem se depara com uma nova dificuldade. Ao abrir as páginas amarelas da cidade vizinha, encontra um senhor Pilchoswki, um Pilhart, e um Pikal. Entre esses nomes, não está o de Pilatos, que é o que procura. Então, expande a sua investigação e lança mão de todos os meios mais sofisticados -- tudo em vão. Por toda a parte, nenhum traço de Pilatos. Ele se desloca até Forez, para o Monte Pilatos onde, dizem os antigos, o célebre governador romano terminou os seus dias. Mas a lenda não foi de grande ajuda. Sobretudo uma vez que os suíços reivindicam o mesmo privilégio que os stéphanois. O seu Pilatusberg, próximo de Lucerna, seria indubitavelmente a derradeira morada do famoso malfeitor. O Sr. Philosophus se viu obrigado a render-se à evidência: o Pilatos que procura se esconde sob um falso nome, possui documentos falsos.

 

Pilatos nos quatro Evangelhos

Para identificar o assassino de Jesus, o detetive decidiu consultar as Sagradas Escrituras. Um exame cuidadoso lhe indicava quatro pistas: com efeito, falava-se de Pilatos nos quatro Evangelhos. Ele se lançou, portanto, à tarefa e, de lupa nas mãos, leu as páginas indicadas. Infelizmente, nem São Mateus, nem São Marcos, nem São Lucas lhe forneceram informações significativas. Havia motivo para se desencorajar.

Após ter utilizado todo o seu savoir faire, ter consagrado tanto esforço e tempo, ter posto em obra os meios mais modernos de investigação, nosso detetive profissional estava prestes a declarar derrota e desistir. Maquinalmente, mais por dever profissional do que por esperança genuína, Sr. Philosophus consultou a última página que ainda poderia lhe ajudar, leu o capítulo décimo oitavo do Evangelho segundo São João. E aí, contra toda esperança, recebeu a luz, descobriu a solução para o apaixonante enigma e conseguiu identificar Pôncio Pilatos. De agora em diante podia anunciar ao mundo quem matou Jesus.

Eis o famoso texto que nos revela a personalidade de Pilatos:

“Tornou, pois, Pilatos a entrar no Pretório e chamou Jesus, e disse-lhe: Tu és o rei dos judeus?”

Jesus respondeu:

“Tu dizes isso de ti mesmo, ou foram outros que to disseram de mim?”

Pilatos respondeu:

“Porventura sou eu judeu? A tua nação e os pontífices são os que te entregaram nas minhas mãos. Que fizeste tu?”

Jesus respondeu:

“O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, certamente que os meus ministros se haviam de esforçar para que eu não fosse entregue aos judeus; mas o meu reino não é daqui.”

Pilatos lhe disse:

“Logo tu és rei?”

Jesus respondeu:

“Tu o dizes, sou rei. Nasci, e vim ao mundo para dar testemunho da verdade; todo o que está pela verdade, ouve a minha voz.”

Pilatos lhe disse:

“O que é a verdade?”

Tendo dito isso, saiu novamente para ir encontrar os judeus, e lhes disse: “Não encontro nele crime algum. Ora é costume que eu, pela Páscoa, vos solte um prisioneiro; quereis, pois, que eu vos solte o rei dos judeus?”[1]

 

“O que é a verdade?”

A marca distintiva de Pôncio Pilatos, a sua impressão digital, por assim dizer, está toda nessa curta questão: “O que é a verdade?” Foi assim que ele entrou para história, foi esse estado de espírito que o levou a entregar Jesus aos verdugos.

Convém reler atentamente essa passagem decisiva para compreender o seu sentido.

O governador romano foi intimado pelos príncipes dos sacerdotes e pela multidão a condenar Jesus a morte. Como bom conhecedor das leis, Pilatos não poderia condenar um homem sem um motivo adequado. Interroga, portanto, o acusado para compreender melhor a natureza da acusação: “Tu és o rei dos judeus?”, o que pode ser compreendido como uma afirmação disfarçada: “Tu és realmente o rei dos judeus, não é?”. Se Jesus é efetivamente o rei dos judeus, Pilatos se encontra, portanto, diante de um caso de sedição de um povo dominado contra o seu legítimo chefe, o que daria ao processo um curso inteiramente novo. 

Com sua resposta, Jesus quer que Pilatos reflita. “Tu dizes isso de ti mesmo?” -- Ou seja, trata-se de um juízo pessoal, autêntico, fundamentado, ou repetes sem refletir os rumores dos que te rodeiam -- “ou foram outros que to disseram de mim?”. A coisa é grave demais para ser tratada de modo tão frívolo, ela não diz respeito apenas ao povo judeus, mas a ti mesmo, Pilatos, e àquele a quem representas, o Imperador.

A resposta de Pilatos mostra que ele indefere. “Porventura sou eu judeu?” – o pleito é um assunto interno do teu povo e quero jugá-lo desse modo. Se tu és o rei dos judeus, tua autoridade se encerra nos limites desse povo, a querela só diz respeito aos judeus. “Que fizeste tu?” – Tratemos o problema de modo puramente jurídico.

O versículo seguinte realmente foi capaz de assustar Pilatos: “O meu reino não é deste mundo”, o que significa, entre outras coisas, que ele está acima desse mundo, acima de todos os reinos e impérios desse mundo. O que se passa hoje em Jerusalém diz respeito a todos os povos da terra. Daí a questão apressada e inquieta de Pilatos: “Logo tu és rei?” -- Procuremos limitar o problema ao pequeno povo judeu. O governo romano está disposto a sustentar a autoridade legítima das terras sob sua ocupação, mas se ela pretende possuir uma autoridade superior, o problema se torna espinhoso.

Ora, é esse precisamente o caso. O reino de Jesus é o reino da verdade. “Nasci, e vim ao mundo para dar testemunho da verdade.” – este reino ultrapassa, portanto, os limites de toda realeza terrestre. Tudo que é verdadeiro lhe está submetido. “Todo o que está pela verdade, ouve a minha voz.”  -- Se tua autoridade é verdadeira, Pilatos, ela está sob minhas mãos. “Tu não terias poder algum sobre mim, se te não fosse dado do alto”[2], lhe dirá Jesus em breve.

Pilatos entende do que se trata, entende que, em nome da verdade, esse Jesus pretende possuir autoridade não apenas sobre os judeus, mas sobre o próprio governo e sobre aquele a quem representa, o Imperador de Roma. É nesse momento que Pilatos revela o fundo do seu pensamento e do seu ser: “O que é a verdade?” O que não significa absolutamente: “como seria interessante falar sobre a verdade, diga-me, o que é a verdade?”; mas antes: “não convém nem interessa falar sobre a verdade” – A verdade não tem nada a ver com o assunto em tela, nem com minha autoridade, nem com a religião. Tratar da verdade está fora de questão. Pilatos traduz aqui a atitude profundamente cética que caracterizava o pensamento dos romanos do seu tempo, o ceticismo enfadado diante da verdade e de suas pretensões.

Ora, foi precisamente essa palavra que condenou Jesus a morte. Jesus realmente padeceu “sob Pôncio Pilatos”, foi crucificado em razão do seu ceticismo.

A sequência do relato o mostra claramente. Após esta resposta evasiva, Pilatos se volta para os acusadores e lhes propõe escolher entre Barrabás e Jesus. Pouco importa a verdade, “não encontro nele crime algum”, pouco importa a inocência de um ou de outro, desde que a lei e as aparências sejam salvas. Eu lavo minhas mãos.

Portanto, foi o medo da verdade e das suas exigências, foi o espírito de dúvida e de indiferença em face de toda verdade especulativa, foi também o respeito humano decorrente, a arma com a qual Pilatos matou Jesus.

Esse ceticismo se encontra em todas as épocas

Mas a história mostra à saciedade que o ceticismo não é um fenômeno passageiro ou localizado, mas se verifica em todas as épocas e em todas as regiões do mundo. É um erro que aflige boa parte da humanidade e é um dos principais motores da história, é o algoz de Jesus e da sua Igreja. Esse estado de espírito ainda segue atual.

Poderíamos apontar todas as escolas de pensamento, todos os filósofos que reivindicam de modo mais ou menos explícito o ceticismo... Cronologicamente, foi o Oriente e o budismo que aparecem primeiro na cena da história. Em seguida vieram os sofistas gregos, depois os da Roma imperial. Na grande época da escolástica e no nominalismo também tiveram adeptos do ceticismo. A filosofia moderna não tem nada a invejar também...

A história demostrou claramente as constantes e os frutos da mentalidade cética, e permite esboçar uma resposta, ou melhor, uma terapia que dê aos espíritos céticos o gosto da verdade: não temamos a verdade e as suas exigências, calquemos aos pés o respeito humano que foi a arma com a qual Pilatos matou Jesus!

 


[1] Jo 18, 33-40.

[2] Jo 19, 11.

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