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CAMPANHA DE ROSÁRIOS PELAS ELEIÇÕES

 

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Category: Dom Lourenço Fleichman, OSBConteúdo sindicalizado

Prefácio ao livro A Descoberta do Outro

Como já é do conhecimento de muitos acaba de ser reeditado o primeiro livro de Gustavo Corção - A Descoberta do Outro. Durante muitos anos várias editoras procuraram em vão os herdeiros de Corção para pedir autorização de publicar esta obra-prima do nosso fundador e mestre. Agora foi acordado à Vide Editorial. Mérito deles.

Não posso deixar de recomendar vivamente a leitura deste livro e a Editora Permanência não deixará de promover sua venda. Por outro lado, resta-nos uma ponta de tristeza pois, sendo os herdeiros espirituais do pensamento e do combate de Gustavo Corção, seria muito mais coerente e natural que nós pudéssemos difundir a obra de Gustavo Corção. Mas não nos foi acordada essa possibilidade. 

No intuito de aconselhar a leitura e de assinalar os aspectos mais importantes desse livro único no seu gênero, e para ajudar o leitor menos acostumado com as belas letras, escrevi o Prefácio que segue. 

Foi aos dezesseis anos que eu li pela primeira vez A Descoberta do Outro. Abri-o como quem abre um testamento, tão grande era a presença do autor em minha vida. Em casa o chamávamos Vovô Corção, pois de fato ele fora um pai para o meu próprio pai. O pensamento e a obra de Gustavo Corção tornaram-se como uma herança espiritual que recebi enquanto crescia, e que assumi na Permanência.

Ao longo desses 40 anos reli este livrinho dezenas de vezes, ora por gosto, ora por estudo. Em 1980, por exemplo, foi para ajudar na revisão da edição francesa, publicada em 1987. Mais recentemente, colaborei na preparação de uma matéria sobre Gustavo Corção, na Revista Conhecimento Prático de Literatura[1], e mais uma vez fui buscar o primeiro livro do grande escritor para ilustrar o artigo que escrevi para a ocasião.

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50 anos da Permanência

50 Anos da Permanência

​Dom Lourenço Fleichman OSB

No dia 29 de setembro de 2017 a Permanência completou 49 anos. Isso significa que já entramos no quinqüagésimo ano de existência, que se completará em 29 de setembro de 2018.

A inauguração da Permanência se realizou por uma missa celebrada pela então Arcebispo do Rio de Janeiro, o Cardeal Dom Jaime Câmara. Essa missa foi celebrada no auditório da primeira sede do nosso movimento, na rua das Laranjeiras.

Igualmente fora realizada uma cerimônia no auditório do Ministério da Educação e Cultura, na presença de muitas autoridades civis e religiosas, onde Gustavo Corção lançara o movimento católico, anunciando para setembro o primeiro número da Revista Permanência.

Eram outros tempos! Os jornais da época anunciaram o lançamento do movimento Permanência e de sua Revista com chamadas nas primeiras páginas. O catolicismo ainda fazia parte da civilização, mesmo sendo um aspecto apenas cultural da nossa Religião.

Seriam outros tempos? Nem tanto. O Concílio Vaticano II já tinha aberto as portas da Igreja ao mundo, abraçara-o e já se tornara cúmplice das suas liberdades, dos seus valores igualitários, da sua marcha para a socialização. O ciclope do fim do mundo já nascera e cuspia seu fogo que tudo destruiu.

Enfim, o cisma

Dom Lourenço Fleichman OSB

Em 1976, amigos franceses enviaram a Gustavo Corção notícias de um bispo italiano que escrevera para seus padres e fiéis denunciando o comunismo. Os amigos que enviaram a auspiciosa notícia ao jornalista e escritor católico estavam entusiasmados com a novidade, achando que aquela reação podia significar uma mudança de ares na Igreja.

Gustavo Corção escreveu sobre o fato um artigo em que mostrava aos seus amigos e leitores que o entusiasmo não era cabível. Antes de mostrar quão superficial era a crítica do bispo ao comunismo, Corção explicou:

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Pode a Igreja morrer?

Dom Lourenço Fleichman OSB

Muitas pessoas me pedem que atualize com mais freqüência o site. Confesso que não tenho conseguido me dedicar mais a este apostolado, levado pelo excesso de trabalho nas quatro capelas sob minha responsabilidade, nas revisões doutrinárias dos livros que editamos e na cura das almas. Estamos iniciando agora o projeto do Colégio São Bernardo, a primeira escola da Tradição no Brasil, sobre a qual falaremos a seu tempo.

Felizmente tenho a ajuda de uma equipe atuante no que toca a produção da Revista Permanência, de outra forma não conseguiria manter o ritmo dos lançamentos trimensais. Confesso que é um trabalho que nos traz muita satisfação.

Agora mesmo assistimos a mais um grave escândalo do ecumenismo desenfreado. A reunião promovida pelo papa Francisco I dentro do Vaticano, no domingo de Pentecostes é apenas um gemido naturalista, um grunhido da História, dentro da obra destruidora do Vaticano II.

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Editorial: O Brasil na Encruzilhada

Editorial da Revista Permanência 307

Na medida em que se aproxima o dia da eleição presidencial no Brasil, aumenta a inquietação, ou devemos dizer, certa angústia brota no coração do brasileiro. Terá sido em vão vivermos quatro anos de um governo que, em muitos pontos, pensa e age como nós pensamos e agimos? Os brasileiros serão tão levianos a ponto de deixarem escapar a oportunidade de consolidar o que o atual governo iniciou?

Pobre governo! Infelizmente os bravos conservadores que estão em volta do presidente Jair Bolsonaro, e ele próprio, não conseguem elevar seu conhecimento e sua ação muito além da noção de liberdade e de democracia liberal que move a vida política dos países ocidentais. O vazio liberal não lhes permite fundamentar o seu governo sobre bases sólidas e duradouras, pois insiste em manter aberta a possibilidade do retorno do mal que eles mesmos combateram.

É muito impressionante o fato de Gustavo Corção ter se convertido ao catolicismo em 1939 tendo viva a ideia de que o Liberalismo não era capaz de trazer a solução para a questão política dos povos. No seu primeiro livro, A Descoberta do Outro, ele escreve:

O subjetivismo gera duas consequências inevitáveis: o liberalismo burguês, que se protege atrás do dinheiro e da satisfação dos sentidos, e o voluntarismo fanático que sai à procura do poder. Produz trustes e revoluções; capitalismo e anticapitalismo; comunismo e anticomunismo.” [1]

Vai além da sua análise a consequência do Liberalismo; mais do que produzir o poder do capitalismo selvagem ou o poder da tirania comunista, o Liberalismo produz a deformação espiritual do homem, pois estabelece como essência aquilo que é acidente, qualidade. Ou, por outra, inebria-se diante da capacidade que temos de escolher, deixando de lado o que foi escolhido. O homem não é liberdade, mas alma espiritual racional. Conhece de modo especulativo, e ama de modo concreto; parte do fato sensível que lhe penetra alma adentro pela visão, pela audição, pelo olfato, pelo paladar ou pelo tato, gera de modo intelectual um conceito e dá nome à coisa conhecida. Uma vez a luz do conhecimento tendo sido acesa, com a inteligência iluminada pelo sol da verdade, dá-se início ao espetáculo da usina de amor, ou se preferir o leitor, do movimento de todo o ser em busca do objeto. Que se trate de uma criança correndo para o colo da mãe na leveza do seu primeiro ano de vida, ou de um pesado soldado, montanha de músculos e força, em busca da vitória na batalha, o ato espiritual que moveu a pessoa é um ato da vontade humana na busca da posse do bem.

O leitor atento perguntará: onde entra a liberdade? Entra na capacidade de mover-se pela vontade, é uma qualidade da nossa vontade. A razão humana, a diferença específica que define o ser humano – animal racional – inclui a capacidade de escolher entre a ou b, entre dois bens apresentados pela inteligência como sendo a verdade. Os pensadores antigos sabiam que essa capacidade só podia ser posta em ação se todas as opções em pauta representassem o bem. Os liberais, por sua vez, vão apresentar a liberdade total levando o homem a escolher entre o bem e o mal. Ensina a esse respeito o Papa Pio XII, falando sobre as técnicas da mídia:

 

O mal moral, certamente, não pode provir de Deus, perfeição absoluta; nem das técnicas em si mesmas, que são dons preciosos Seus; mas só do homem, que, sendo dotado de liberdade, abusa [...] e difunde conscientemente o mal moral, colocando-se do lado do príncipe das trevas e constituindo-se inimigo de Deus: "Foi um homem inimigo que fez isto".[2]

O erro do liberal é não atribuir nenhum limite a essa capacidade de escolha, elevando ao trono da alma humana aquilo que é apenas uma qualidade do seu amor, ato da sua vontade. Se somos livres, então ninguém pode limitar o meu querer, a minha vontade. Mas como a tese levaria a humanidade ao caos, perceberam a necessidade de um limite. E aconteceu, nessa passagem, um erro de direção. Não entenderam que o limite à nossa liberdade devia provir do alto. O mesmo Deus criador que fez o homem do barro e soprou vida no seu corpo inerte, impôs os limites morais que deveriam reger os atos humanos. Recusando essa dependência de Deus, os filósofos iluministas inventaram um limite rasteiro, humano, imposto pela lei dos homens, para não seguirem a Lei de Deus. E preconizaram a liberdade total, desde que não fira a paz social. Os princípios liberais foram assim forjados e levaram os homens a crer em falácias como: a minha liberdade termina onde começa a do meu vizinho. Errado! Basta elevar nosso olhar para Deus e perceberemos que a minha liberdade e a liberdade do meu vizinho terminam onde a Lei moral de Deus impõe limites para os atos humanos. E ela diz: “não matarás”, “não fornicarás”, não furtarás”, e os demais Mandamentos de Deus e da Igreja.

Pobre governo – dizíamos acima. Mesmo com suas preocupações conservadoras, mesmo compreendendo o mal que o socialismo traz a uma nação, falta ao governo Bolsonaro o conhecimento desses princípios que norteiam a ação política. Formado e envolvido no ambiente liberal da vida política, resta ao nosso Presidente alguma intuição, certo bom senso humano e bom, que o traz de volta à realidade, e o afasta dos excessos do seu próprio liberalismo. Clama pela verdade como princípio da liberdade, e nisso ele tem razão; por outro lado não escapa das garras liberais e positivistas na crença de um poder que emanaria do povo, supostamente devendo ser exercido pelo povo. E neste ponto encontramos uma dificuldade que necessita de análise.

Por um lado, sabemos que todo poder vem de Deus e os governantes exercem esse poder em nome de Deus, ou deveriam exercê-lo. E como a democracia liberal nega este princípio, até que ponto podemos agir no mundo político, adotarmos as práticas da democracia liberal, entrarmos no jogo político? Um católico conseguiria se filiar a um partido político, candidatar-se a um cargo, exercer suas nobres funções a serviço da Pátria, tendo consciência de que não seria em função dos princípios católicos, mas em nome da mesma democracia liberal que nos governa desde a Revolução Francesa?

Nesse caso ele deveria saber que está numa corda bamba, que todos os dias estará diante de situações em que o juízo político deverá ser exercido com extremo cuidado para não cair na lógica liberal e, por outro lado, não se trancar dentro de um moralismo que destruiria qualquer pretensão política. Também não lhe serviria de nada o fideísmo protestante que aponta o céu com o dedo como se a ação política pudesse ser tratada como uma comemoração de jogador de futebol.

Não temos como esconder a gravidade da situação. Ficarmos à mercê do jogo político entre socialistas de diversas colorações, ou conservadores sem formação e sem critérios mais profundos pode nos deixar abandonados, e vermos as piores e mais iníquas leis serem promulgadas, ou chefes de Estado tomarem decisões inaceitáveis. Ou ainda, juízes corruptos rebaixarem a Justiça à prostituição do dinheiro. Por outro lado, termos católicos bem formados nas funções políticas poderia servir de bloqueio do que há de pior na política atual dos povos. Mas correriam o risco de se queimarem ao entrar no fogo. Este é o impasse em que estamos!

Não podemos deixar de constatar que o resultado prático dos exemplos de católicos que se dedicaram à ação política ou social não é dos mais brilhantes. No mundo neoconservador vemos muitas ilusões e equívocos em aspectos importantes da vida humana. Equívocos que diminuem a eficácia do trabalho de almas bem-intencionadas e generosas. Quantos educadores procuram fundar escolas que tirem as crianças da deformação socializante da educação moderna! Mas a proposta desses católicos exagera muitas vezes num retorno a uma educação medieval e especulativa que não corresponde às necessidades da formação atual. Ou propõem um ensino todo ele calcado na Religião, como se o catolicismo exigisse de todos só pensar e só estudar temas e exemplos religiosos. Há um risco muito grande da corda romper no lado mais fraco onde os autores terminariam contaminados pelos falsos princípios, e os alunos perderiam a fé nos anos difíceis da adolescência, por excesso de religiosidade nos anos dóceis da infância.

No âmbito da vida política, no nosso modo de ver, de nada adianta um discurso na Câmara dos deputados que terminaria com Vivas a Cristo-Rei, e por outro lado, o político adotar princípios da democracia liberal, onde a doutrina católica é deixada de lado – et pour cause – visto que as regras do jogo exigem a aceitação da liberdade ao erro e ao mal.

Há necessidade de uma avaliação mais ponderada, onde as virtudes da Prudência e da Justiça estejam presentes de modo a equilibrar a vida. Como lá diz o Eclesiaste:[3]

“Todas as coisas têm o seu tempo, todas elas passam debaixo do céu segundo o termo que a cada uma foi prescrito. Há tempo de nascer, e tempo de morrer. Há tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou. Há tempo de matar, e tempo de sarar. Há tempo de destruir, e tempo de edificar. Há tempo de chorar, e tempo de rir. Há tempo de se afligir, e tempo de dançar. Há tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar. Há tempo de dar abraços, e tempo de se afastar deles. Há tempo de adquirir, e tempo de perder. Há tempo de guardar, e tempo de lançar fora. Há tempo de rasgar, e tempo de coser. Há tempo de calar, e tempo de falar. Há tempo de amor, e tempo de ódio. Há tempo de guerra, e tempo de paz.”

Ao longo de tantos anos de combate percebemos que não podemos imaginar situações práticas ideais e lutarmos com excesso de energia para que elas venham a se concretizar num mundo em que elas já não são mais aceitas. Tomamos aqui o exemplo da monarquia na política dos povos.

Quando se tem a oportunidade de morar por alguns anos em outros países percebemos que a ideia da monarquia continua presente nos meios católicos conservadores. Se o ideal monárquico fosse a certeza de que um rei católico encarna o ideal do governo submisso a Nosso Senhor Jesus Cristo, mas que não há condições práticas para o retorno a esse ideal, talvez os monarquistas católicos obtivessem melhores resultados em suas campanhas e ações. Mas é completamente ilusório pensar que um rei católico poderia governar qualquer país ocidental, como um São Luiz governou a França. No máximo conseguiriam a monarquia parlamentarista onde a figura do rei já não teria o poder efetivo. E estaríamos diante de uma monarquia “democrática”.

Por razões que não podemos avaliar, Deus permitiu que os reis perdessem suas coroas, e muitas vezes perdessem suas cabeças coroadas; já não há ambiente espiritual nas almas dos povos que inclinem os homens a venerar o seu rei, a entender o quanto de paternidade existiu nos governos católicos da Idade Média. Pois não bastaria uma determinação do Congresso Nacional adotando um regime monárquico. Faltaria ainda um povo humilde e submisso à autoridade. Faltaria igualmente um mundo em que um governante conduziria seu povo pelo caminho da verdade e da justiça, sem que os organismos internacionais o tentassem impedir. Mas já não é assim há mais de duzentos anos.

O que fazer? Ao formular esta questão ocorre-nos mais uma vez esta impressionante passagem de Gustavo Corção em seu O Século do Nada, na perplexidade do grande pensador diante da decadência do mundo e da Igreja, e da única fonte de solução:

Que fazer? Lutar. Combater. Clamar. Guerrear. Mas lutar sabendo que lutamos não somente contra a carne e o mundo, mas contra o principado das trevas. É preciso gritar por cima dos telhados que, se o cristianismo se diluir, se a Igreja tiver ainda menos visível o ouro de sua santa visibilidade, se seu brilho se empanar pela estupidez e pela perversidade de seus levitas, o mundo se tornará por um milénio espantosamente, inacreditavelmente, inimaginavelmente estúpido e cruel.

Roguemos, pois, a Deus, com todas as forças; desfaçamo-nos em lágrimas de rogo e gritemos a súplica que nos estala o coração: enviai-nos Senhor, ainda este século, um reforço de grandes santos, de grandes soldados que queiram dar a vida, no sangue ou na mortificação de cada dia, pela honra e glória de Nosso Senhor Jesus Cristo. Compadecei-vos, Senhor, de nossa extrema miséria, e sacudi os homens para que eles saibam quem é o Senhor![4]

 

Nesse contexto a Permanência iniciou a campanha de Rosários pelas eleições de outubro. Temos a convicção que a Divina Providência governa o mundo com sua Sabedoria e Majestade. Cabe a Deus Nosso Senhor determinar se teremos ou não a chance de fortalecer a vida das nossas famílias em torno dos princípios católicos. Para tanto será necessário mostrarmos a Deus que merecemos tamanha graça, que nosso esforço de vida espiritual, de conversão dos nossos maus costumes, da boa educação transmitida a nossos filhos, na pureza, na civilidade, na prática da única Religião revelada por Deus para a nossa salvação, merece o agrado de Deus por todo esse povo que um dia foi marcado pela fé na doutrina de Deus e de sua Igreja.

 

Mesmo se os católicos fiéis são poucos, poderão realizar grandes feitos espirituais pela oração fervorosa a Nossa Senhora Aparecida, nossa Padroeira, como pedimos na oração que está na abertura desse número da Revista Permanência.

 

Nesse momento de grandes dúvidas e angústias, não podemos nos apegar à nossa opinião pessoal sobre tal ou tal candidato, pois o que conta na vida de uma sociedade, é o Bem Comum: o conjunto de atitudes dos membros dessa sociedade, cada qual cumprindo o seu dever, todos trabalhando no sentido de buscar o bem. Este bem não se encontra na posição política, na escolha de um partido político, ou mesmo na simpatia que se possa ter por um candidato. O Bem Comum se encontra na posse dos meios adequados para alcançar a finalidade mais elevada da nossa Pátria: a bênção de Deus que só pode vir pela fé na doutrina revelada, o patrimônio físico e moral da nação, e as virtudes consequentes de Justiça e de Paz entre nossas famílias e nossas cidades.

 

Mesmo sabendo das limitações espirituais e filosóficas do Presidente Bolsonaro, não podemos deixar de aprovar com ênfase os quatro anos do seu corajoso governo. Neste número da Revista Permanência procuramos realçar as conquistas alcançadas por ele, as quais não se limitam a armações partidárias com vistas à reeleição. Bolsonaro deixa um legado impressionante de cuidados duradouros a milhões de brasileiros. O Brasil passa a ocupar um lugar de destaque na política mundial, apesar dos fortes e constantes ataques sofridos pelo atual governo. Seu conservadorismo abre possibilidades reais de escaparmos da destruição da família, pelo menos por mais alguns anos. Por isso não há espaço para dúvidas sobre o caminho que o brasileiro deve trilhar para o Bem Comum da Pátria.

 

Precisamos crescer espiritualmente. Precisamos de mestres espirituais que nos ensinem a refletir e a orar, medindo todas as coisas pela balança da justiça divina.

 


[1] Gustavo Corção, A Descoberta do Outro, cap. Equações sem homogeneidade. Vide Ed. 2017.

[2] Pio XII, Encíclica Miranda prorsus, 8/9/1957.

[3] Ecl. 3, 1 a 8.

[4] Gustavo Corção, O Século do Nada, Record, 1973 – pag. 436.

Lutar, Clamar e guerrear

Editorial da Revista Permanência 303

Queremos que este Editorial da Revista 303 ressoe como uma ode de louvor à Santa Igreja Católica, como manifestação do nosso agradecimento a Deus e a Nosso Senhor Jesus Cristo por nos terem protegido contra a obra de destruição da Santa Igreja, através de milhares de textos, encíclicas, bulas e afins que levantaram barreiras sólidas, por vezes inabaláveis, de proteção ao dogma católico, à santa Liturgia, ou à prática da vida cristã.

Queremos relembrar aquele ano longínquo, perdido nas brumas do tempo, em que um papa santo, inspirado do alto, escreveu a Bula Quo Primum Tempore, para declarar e ordenar que a Santa Missa católica jamais poderia perder sua força, sua eficácia e sua estrutura de santificação herdada diretamente dos Apóstolos e transmitida fielmente pelos papas e bispos católicos ao longo dos últimos dois mil anos.

Queremos levar nossos leitores ao velho ano de 1975, quando Gustavo Corção e seus companheiros da Permanência, publicaram na revista nº 84-85 a tradução em português da Bula de S. Pio V e os dois trabalhos de comentários à Bula escritos pelo padre francês, Raymond Dulac, publicados na Revista Itineraires. Assim fomos formados pelos nossos maiores, assim temos o dever de transmitir aquilo que recebemos, o Depósito Sagrado, intacto, brilhante, Pedra angular na construção do Templo da Santa Igreja.

Naqueles anos antigos, o pequeno grupo de fiéis que não aceitava a ideia de se tornar protestante precisou de toda a coragem do mundo para resistir aos ataques oriundos do único lugar de onde jamais poderiam surgir: da casa do pai, das autoridades da Igreja. Papas e bispos apontavam para nós o dedo acusador, com o desprezo próprio dos inimigos da fé. De onde viria toda a gana com que nos atacam? Por quê? Por quê?

Corríamos da avalanche como os habitantes da pequena cidade nas montanhas correm da neve e das pedras que descem morro abaixo soterrando tudo. Nossas almas estavam sendo soterradas pelos escombros de um progressismo imposto sob ameaças pelas autoridades, cuspidos em nossas faces por padres laicizados, freirinhas de saias profanas, e pelos falsos amigos que nos abandonavam um após o outro.

A solidão era outro sofrimento. – Como pode? Todos estão errados e só vocês certos? – diziam nos momentos de calorosas discussões. Éramos poucos, tão poucos, e tínhamos medo por estarmos sós. Nesses momentos só tínhamos o recurso da oração, do nosso Terço, ou das reuniões que mantínhamos nas primeiras sextas-feiras do mês, em honra do Sagrado Coração de Jesus.

A missa de sempre era esporádica – hoje temos um padre corajoso a celebrar escondido nas catacumbas modernas, como nos tempos da Revolução Francesa. Amanhã não temos missa, e somos obrigados a santificar nosso domingo pelo Terço e pela oração.

No meio de toda essa angústia, de todo o drama que vivemos, algo nos levava a perseverar. Estudávamos e líamos tudo que se escrevia em francês sobre a crise da Igreja e sobre os grandes defensores da fé. A figura bondosa e franca de Gustavo Corção, aquele pai e amigo dos seus alunos, levantava-se combatente, guerreiro de Deus e da santa Religião, e resumia em si o conhecimento mais profundo das verdades da fé, o gosto de ensinar e passar adiante o que estudara, a sabedoria do santo a aconselhar seus amigos, e os golpes mortais do polemista, lógico e sábio, capaz de derrotar os mais astutos inimigos da fé.

Não há como relembrar este drama, não há como tentar reconstruir para os nossos leitores o ambiente pesado e tenso de um combate que não cessava nunca, sem trazer a figura de Dom Marcel Lefebvre. Pode parecer inacreditável, e de fato é, mas somos obrigados a lembrar que a insignificante Permanência recebeu a honra de manter relações de profunda amizade com o bispo de Ecône. Já contamos essa história no nosso número comemorativo dos 50 anos, mas é preciso salientar o tanto de coragem e de vigor que adquirimos diante do exemplo de um único bispo a resistir diante de todos, enfrentando os erros do papa que nós enfrentávamos, guardando a santa missa que nós amávamos, refugiando-se nas montanhas suíças como nós nos refugiávamos na mata atlântica carioca. Ecône soava aos nossos ouvidos como um canto de esperança.

Foi assim que, no ano de 1974, Gustavo Corção escreveu alguns artigos nos jornais em que colaborava, contando a história de Dom Marcel Lefebvre, defendendo a coragem daquele bispo solitário a combater pela fé contra todos os seus inimigos. A primeira visita de Dom Lefebvre à Permanência foi em agosto de 1979. É entre nós que ele escreverá, juntamente com Dom Antônio de Castro Mayer, a Carta Aberta ao Papa João Paulo II, o famoso Manifesto Episcopal, no qual os dois defensores da fé faziam uma análise crítica ao novo Código de Direito Canônico. Estávamos em 1983.

E assim atravessamos três longas décadas, no combate e na solidão. Enquanto isso, os papas e bispos começavam a se preocupar com o crescimento dos movimentos fiéis à Tradição, sobretudo com a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, a obra de restauração do sacerdócio católico empreendida por Dom Marcel Lefebvre a partir de 1970. Diversas vezes as autoridades da Igreja armaram situações para atrair a Fraternidade e levá-la a aceitar os erros do concílio, a aceitar a missa nova e todo o resto. Mas a proteção divina parecia evidente, e a Fraternidade permanecia firme como uma rocha.

O exemplo mais patente deste combate nos anos 1980 foi a grave questão da sagração episcopal dos quatro bispos da Fraternidade. O número de ordenações sacerdotais continuava impressionando as autoridades. Em Ecône, Dom Marcel Lefebvre ordenava entre 20 e 30 seminaristas por ano, fora as ordenações realizadas também nos EUA e na Argentina. O sermão do dia das ordenações de 1987 levou o Cardeal Ratzinger a procurar a Dom Lefebvre para conversar sobre a situação da Igreja. Daí resultou o famoso protocolo de 5 de maio de 1988, que estabelecia certos parâmetros iniciais para uma conversa mais profunda. E logo veio a retirada da assinatura do bispo diante das evidências de que o Vaticano estava apenas querendo enquadrar a Fraternidade São Pio X nos moldes de Vaticano II.

Estes eram os dramas que vivíamos nessa época. A presença do bispo defensor da fé era um sustento que trazia a paz necessária para o nosso combate. E a coragem manifestada por ele ao anunciar a sagração para o dia 30 de junho de 1988, confirmava a nossa fé e aliviava as nossas penas. Aconteceu naquele dia o mais importante evento da fé católica da segunda metade do século XX. A Divina Providência nos dava quatro novos bispos para suprir as necessidades espirituais dos fiéis.

Ao longo desses anos de combate, cada instituição, cada mosteiro, cada grupo de fiéis organizou-se em associações civis sem fins lucrativos, para poderem se estabelecer em igrejas, capelas, ou casas, sem serem impedidos pelo bispo local. Era claro que os entraves que os bispos montavam contra a Tradição só tinham um fundamento, uma razão de ser: eles não suportavam a Tradição e queriam subverter a fé na onda modernista do concílio. Isso era inadmissível para qualquer alma católica, era um abuso de autoridade que legitimava a adoção de medidas independentes da autoridade abusiva dos bispos diocesanos, para salvaguardar a fé católica.

Assim viviam os católicos perseguidos nesses longos anos. Não podemos negar que a pressão exercida contra a fé surtiu um efeito salutar pelo aumento dos estudos sobre a vida da Igreja, maior apreço pela Liturgia tradicional, além de uma vida de piedade que voltou a ser o centro da vida dos católicos fiéis.

Enquanto isso, as autoridades do Vaticano, os papas, a Cúria Romana, os bispos diocesanos, continuavam sua rota invariável, evolutiva, destruidora. Tudo pelo Concílio, tudo em torno dessa nova religião liberal e ecumênica. A tática variava, mas o objetivo era sempre o mesmo. Dentro dessa variação, chegamos na eleição do Cardeal Joseph Ratzinger ao Sumo Pontificado. O século já tinha terminado, um novo milênio começado, carregado de ideais humanistas, ecologistas e ilusórios. Bento XVI representava um estilo de vida mais centrado, mais intelectual, apesar de o novo papa manter os mesmos princípios dos seus predecessores pós Concílio Vaticano II.

Em 2007 o papa surpreendeu a todos ao publicar o Motu Proprio Summorum Pontificum, que mudaria nosso combate pelos anos a seguir. Não podemos deixar de assinalar o fato de o papa afirmar, pela primeira vez desde 1969, que a missa de sempre, também chamada de tridentina, ou de missa de São Pio V, nunca tinha sido revogada. A questão que se levanta é: então, por que razão, durante 40 anos nos acusaram de desobediência, de cisma, nos excomungaram, nos marginalizaram, sob o pretexto de que a missa estava proibida?

O fato é que o Motu Proprio de Bento XVI mudou a face da Terra. Em poucos anos a missa de São Pio V, restrita até então aos grupos ligados à Fraternidade São Pio X, espalhou-se por toda parte. Os bispos queriam atrair os fiéis que se tinham afastado das paróquias por conta dos abusos e da missa nova. Mas o que se viu foi o contrário: fortes da autorização do papa para a missa da Tradição, muitos fiéis se sentiram mais à vontade e se aproximaram das nossas Capelas. Descobriram atônitos o tamanho da crise, e procuraram recuperar o tempo perdido.

Com a renúncia de Bento XVI e a eleição de Francisco, subiu ao trono pontifício um perfeito liberal. A liberdade total move as intenções do papa, e a Fraternidade São Pio X recebeu alguns benefícios desse espírito liberal, no que toca a aceitação dos padres da Fraternidade pelos bispos diocesanos. O papa chegou a afirmar que, sendo receptivo para com protestantes que não são católicos, porque não seria também para com a Fraternidade São Pio X, que é católica! Foi assim que ele determinou que os padres da Fraternidade estavam aptos para ouvir confissões e para assistir validamente aos casamentos.

Os padres da Fraternidade e todos os que gravitam em torno dela, sabem perfeitamente que suas confissões e seus casamentos são válidos, e que não precisavam dessas autorizações do papa para exercerem válida e licitamente o seu ministério sacerdotal. Estas disposições eram, no entanto, importantes para que os bispos aceitassem este fato, e para que os fiéis não tivessem medo de se aproximar dos nossos sacramentos. Por outro lado, esta nova situação não era isenta de perigos para o nosso combate. De fato, as coisas se tornavam mais ambíguas e alguns sacerdotes da Tradição não aceitaram bem estas novas disposições do papa, com medo de serem envolvidos na trama da legalidade que os poderia conduzir àquela armadilha de caírem na aceitação do concílio. Era preciso muito cuidado e atenção para manter a fé, o afastamento das novidades do concílio, e a liberdade a duras penas conquistada na prática da Tradição. De um modo geral, após um início tenso e temeroso, a situação se estabilizou, e conseguimos guardar o bom espírito no combate pela fé.

O que de fato aconteceu foi um aumento significativo de novos fiéis nos nossos centros de missa, nossas capelas e Priorados. A Tradição saía da toca, por assim dizer, mostrava-se à luz do dia, ocupava um espaço na vida dos católicos.

Após esses anos em que as perseguições contra a fé haviam diminuído de intensidade, eis-nos de volta à lide. Como nos tempos das grandes perseguições romanas, também para nós a perseguição aumenta e diminui, segue em vagas de maior ou menor intensidade. Felizmente, em todas elas, cada vez que as autoridades de Roma se levantam contra os defensores do dogma, constatamos um aumento do interesse pela verdadeira fé e pela Tradição, um movimento de conversão, de retorno ao catolicismo dos santos.

Devemos reconhecer que o próprio Papa Francisco ajudou muito este movimento de conversão ao produzir em seus Sínodos e em suas declarações situações repetidamente escandalosas, o que levou muitos bispos e cardeais a se levantarem, pela primeira vez desde o Concílio, contra o papa reinante. No Sínodo da Família, em 2015, vimos alguns bispos se unirem no lançamento de um livro contra aquele escândalo que aprovara a recepção da comunhão sacramental por pessoas divorciadas e vivendo em adultério. Em 2019, foi a vez do escândalo ainda maior do Sínodo da Amazônia, que levou o Vaticano a promover o culto pagão da Pacha Mama dentro dos seus muros, e a escandalosa religião pagã do ecologismo amazônico.

Nas dioceses os escândalos são igualmente constantes. A cidade do Rio de Janeiro foi palco de uma missa escandalosa na morte de certo artista homossexual, aplaudida por toda a mídia, e aprovada pelo cardeal arcebispo da cidade. Em toda parte, bispos desobedecem à disciplina ainda vigente nas Congregações romanas e celebram casamentos entre pessoas do mesmo sexo, sem que o Papa Francisco dê os ares de sua indignação. Mas esse tipo de situação dura há mais de 50 anos, e a lista de escândalos encheria muitos livros. Para Francisco nada disso tem importância: o grande perigo é a missa católica, é a Tradição.

A reação de alguns bispos tem sido ainda mais forte. Alguns se aproximaram ainda mais da Fraternidade São Pio X, passaram a elogiar a Dom Marcel Lefebvre e sua obra, como é o caso do Mgr. Schneider e de Mgr. Viganò. Por mais que estes bispos não comunguem em todos os pontos com a defesa da fé mantida pelos padres e fiéis da Tradição ao longo dos últimos 60 anos, já é um consolo saber que eles não nos atacam, e hoje compreendem nosso combate.

O Motu Proprio Traditionis Custodes representa um retrocesso calculado e frio, um ataque frontal contra a missa católica, inspirado por alguma força infernal assustada com o constante retorno das almas às práticas religiosas da Tradição católica.

As intenções apresentadas pelo papa no início deste documento parecem querer desfazer uma situação criada pelo Motu Proprio Summorum Pontificum, de Bento XVI, o qual deu autonomia a todos os padres para celebrarem a missa de sempre, independentemente da autorização do bispo diocesano. Na prática, esta independência dos sacerdotes não se verificou, e os bispos sempre determinaram se haveria ou não a missa tridentina, quando, onde, e por qual sacerdote ela seria celebrada. Ao anular esta prerrogativa, Francisco dá um golpe na própria existência da missa dentro da Igreja, relegada por ele a uma peça de museu, a qual só poderá ser retirada do armário para uso, dentro de condições quase impossíveis.

A partir daí, o Papa Francisco demonstra que seu documento não pode ser considerado um documento papal, objeto do magistério da Igreja Católica. E todas as colocações que ele faz sobre a unidade da Igreja, sobre a guarda da tradição e o bem dos fiéis, só farão sentido se considerarmos que ele não fala ali da Igreja Católica, Apostólica e Romana, mas tem em mente outra instituição, essa falsa igreja de Vaticano II que usurpa o lugar da Igreja Católica. Traditionis Custodes é um documento da Outra.

Os demônios vivem nas trevas, na mentira, no mais profundo orgulho, e por isso não enxergam muito bem as consequências dos seus golpes malignos e erram muitas vezes. Acreditamos que não será diferente com o Motu Proprio do Papa Francisco. O êxodo de fiéis na procura pela Religião Católica, a verdadeira, só fez aumentar depois desta atitude do papa. Uma hora veremos Nosso Senhor Jesus Cristo manifestar a verdade sobre a sua Igreja diante de todo o mundo, e a fé católica voltará a brilhar para todos. Diremos, enfim: vejam! Não estamos sós, valeu a pena esperar por tantos anos, Nosso Senhor Jesus Cristo combate por nós, pela verdade e pela Santa Igreja.

Terminamos este Editorial com a citação que Gustavo Corção usou ao terminar o seu O Século do Nada:

“Que fazer? Lutar. Combater. Clamar. Guerrear. Mas lutar sabendo que lutamos não somente contra a carne e o mundo, mas contra o principado das trevas. É preciso gritar por cima dos telhados que, se o cristianismo se diluir, se a Igreja tiver ainda menos visível o ouro de sua santa visibilidade, se seu brilho se empanar pela estupidez e pela perversidade de seus levitas, o mundo se tornará por um milênio espantosamente, inacreditavelmente, inimaginavelmente estúpido e cruel.

Roguemos, pois, a Deus, com todas as forças; desfaçamo-nos em lágrimas de rogo e gritemos a súplica que nos estala o coração: enviai-nos Senhor, ainda este século, um reforço de grandes santos de grandes soldados que queiram dar a vida, no sangue ou na mortificação de cada dia, pela honra e glória de Nosso Senhor Jesus Cristo. Compadecei-vos, Senhor, de nossa extrema miséria, e sacudi os homens para que eles saibam quem é o Senhor!”

Alívios e alertas

Dom Lourenço Fleichman, OSB

Certos anos passam na rapidez vertiginosa e estranha que nos angustia. Outros teimam em não terminar. Dizem que 1968 foi um desses anos que não terminou. A Revolução mostrou sua face gélida e diabólica em diversas partes do mundo, numa tentativa desesperada de destruir de vez a Civilização Católica. Talvez tenha conseguido em parte, mas não devemos desesperar da misericórdia de Deus. Para Ele, nada é impossível.

Devemos rezar para que 2018 alcance rapidamente o seu termo e ceda o lugar para o que lhe há de seguir. No fundo, o que muda quando adentramos em 1º de janeiro? Será a noite da virada diferente de qualquer outra? Espera a Divina Providência a chegada do limiar da convenção humana para dar novas graças ou receber novas orações? Deus, que vive no presente eterno não se incomodaria com esses detalhes não fosse seu singular cuidado em agradar aos homens, esperando que assim estes se inclinem mais a agradar a Deus. Por isso podemos crer nas especiais graças de um novo ano, de um novo nascimento, de uma luz qualquer que brilhe nesse mundo dos homens.

A crise inicial

Ainda no 1º semestre, o ano de 2018 nos trouxe graves apreensões. Os caminhoneiros de todo o Brasil paralisaram nosso país de modo ilícito e irresponsável, sob o olhar conivente dos democratas de carteirinha que, por escrúpulos ou por malícia, não enviaram as tropas para livrar nossas estradas e nossa liberdade. O país ficou escravo de uma casta sedenta de privilégios.

Naquela ocasião reunimos um grupo de colaboradores da Permanência a fim de elaborar um texto explicativo da posição oficial da Permanência diante daquela situação de terríveis consequências para o Brasil. O editorial de hoje retoma partes daquele texto que ainda não tinha sido publicado.

Critérios de avaliação

O primeiro critério de avaliação dos princípios que regem a política dos povos é a própria Revelação, o que Deus revelou aos homens.

São Pedro, em sua Epístola, diz com todas as letras: “Servos, sede submissos a toda instituição humana, por amor de Deus”. Pesem as palavras do Apóstolo: há motivo sobrenatural – o amor de Deus – para critério de nossa atitude social e política. O texto continua: “... quer ao rei, como a soberano, quer aos governadores como enviados por ele para tomar vingança dos malfeitores e para louvar os bons; porque esta é a vontade de Deus, que fazendo o bem, façais emudecer a ignorância dos insensatos; procedendo como homens livres, e não como tendo a liberdade por véu para encobrir a malícia, mas como servos de Deus”. 1

E o primeiro papa continua nesse tema: “Servos sede obedientes aos vossos senhores (empregados sede obedientes aos vossos patrões), com todo o temor, não só aos bons e moderados, mas também aos agressivos. Porque é uma graça o suportar alguém as contrariedades, sofrendo injustamente, pelo conhecimento do que deve a Deus”.

Dois motivos sobrenaturais são, pois, apresentados: obedecer por amor a Deus e obedecer para suportar com paciência a Cruz desta vida.

São Paulo não é menos enfático, na epístola aos Romanos:

“Não há autoridade que não venha de Deus, e as que existem foram estabelecidas por Deus. De modo que aquele que se revolta contra a autoridade, opõe-se à ordem estabelecida por Deus. E os que se opõem atrairão sobre si a condenação”. (...) “Dai a cada um o que lhe é devido: o imposto a quem é devido; a taxa a quem é devida; a reverência a quem é devida; a honra a quem é devida”. 2

Após verificar como a Revelação nos instrui, devemos procurar o pensamento da Igreja na Tradição, sobretudo no ensinamento dos papas ao longo da vida da Igreja, para discernir como aqueles princípios foram sendo aplicados com o passar dos séculos.

Ao mesmo tempo não podemos interpretar ao proveito de nossas opiniões o parecer doutrinário e moral consignado nos textos do Magistério. Esse sempre foi o erro dos modernistas, tal como aparece no pensamento do Card. Joseph Ratzinger, por exemplo, ao afirmar que os textos dos papas antigos serviam para a Igreja daquela época, mas com as circunstâncias atuais eles já não teriam valor.

Esse não é o pensamento da Igreja, que atribui aos textos do Magistério valor de verdade a ser seguida, variando apenas a gravidade do pecado no caso de se recusar essa verdade.

No caso da paralisação dos caminhoneiros, em maio de 2018, chegaram a dizer que as greves condenadas por Leão XIII na Rerum Novarum seriam de outra natureza das greves atuais, e que por isso o ensinamento de João Paulo II e do Novo Catecismo seriam corretos, quando dão às greves a legitimidade recusada pelos papas antigos. Porém, não há nada na história do século XIX que indique greves mais violentas do que as atuais. Esse argumento não é válido, e o que devemos concluir é que, assim como a doutrina da Igreja foi dissolvida com o liberalismo do Concilio Vaticano II, no que toca o ecumenismo ou a liberdade religiosa, assim também os princípios católicos, que sempre nortearam a ação política, desviaram-se para uma espécie de socialização que nasce com João XXIII e continua até os dias do Papa Francisco.

De fato, quando a Igreja ensina a doutrina da Verdade, ela o faz através de princípios que são sempre verdadeiros, e devemos ter uma devoção toda especial para com essa orientação, rechaçando as inovações modernistas.

“Porquanto não é lícito desprezar o poder legítimo, seja qual for a pessoa em que ele resida, mais do que resistir à vontade de Deus; ora, os que lhe resistem correm por si mesmos para sua perda. ‘Quem resiste ao poder resiste à ordem estabelecida por Deus, e os que lhe resistem atraem a si mesmos a condenação” (Rom 5, 2)Assim, pois, sacudir a obediência e revolucionar a sociedade por meio da sedição é um crime de lesa-majestade, não só humana, mas divina”. 3

Ainda Leão XIII, condenando o comunismo por desprezar a autoridade divina e humana:

“Nada deixam intacto ou inteiro do que foi sabiamente estabelecido pelas leis divinas e humanas para a segurança e honra da vidaEnquanto censuram a obediência devida às autoridades às quais o Apóstolo nos ensina que toda a alma deve ser sujeita e que receberam por empréstimo de Deus o direito de mandar, eles pregam a igualdade absoluta de todos os homens no que diz respeito aos direitos e deveres”. 4

Alguém perguntaria quando se torna lícito fazer alguma manifestação contra os governantes ou contra os patrões? O mesmo papa responde em outra encíclica;

“A única razão que os homens têm para não obedecer é quando algo demandado por eles repugna abertamente ao direito natural ou ao direito divino; porquanto não podem ser mandadas e nem executadas todas aquelas coisas que violam a Lei natural ou a vontade de Deus. Se, pois, suceder que o homem se veja obrigado a fazer uma das duas coisas, ou seja, ou desprezar os mandamentos de Deus ou desprezar a ordem dos príncipes, ele deve obedecer a Jesus Cristo, que nos manda dar a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus (Mt. 22, 21), e, a exemplo dos Apóstolos, responder vigorosamente; ‘Importa obedecer mais a Deus do que aos homens’ (Atos 5, 29)”. 5

Mas isso não é motivo para qualquer greve ou paralisação. Muitas vezes ao trabalhador é pedida a virtude da paciência e a visão do Bem Comum, mais do que seus interesses particulares ou corporativos.

“O trabalho muito prolongado e pesado e uma retribuição mesquinha dão, não poucas vezes, aos operários ocasião de greves. É preciso que o Estado ponha cobro a esta desordem grave e freqüente, porque estas greves causam danos não só aos patrões e aos mesmos operários, mas também ao comércio e aos interesses comuns; e em razão das violências e tumultos, a que de ordinário dão ocasião, põem muitas vezes em risco a tranqüilidade pública.

Na mesma encíclica o papa tinha dito um pouco antes: “importa à salvação comum e particular que a ordem e a paz reinem por toda a parte (...) É por isso que os operários, abandonando o trabalho ou suspendendo-o por greves, ameaçam a tranqüilidade pública”. 6

O texto da Rerum Novarum é tão atual que parece ter sido escrito para os dias de hoje. Eles são opostos em todos os pontos às concessões admitidas pelos papas mais recentes. Vejam que a Igreja, partindo de São Paulo, considera que os homens devem ter um espírito de obediência aos governantes, quaisquer que sejam, limitando essa obediência apenas aos casos em que estes nos obrigariam a atos contrários à Lei de Deus, ou seja, o Decálogo, ou à Lei Natural, inscrita nos corações de todos os homens, de qualquer tempo e de qualquer lugar.

A noção de Bem Comum

Logo o Brasil entrou em época de campanha eleitoral, a qual, por tensa e densa que foi, parece ter levado um tempo muito maior do que os poucos meses que de fato se passaram. Procuramos, então, adaptar aquele trabalho inicial, alargando seu leque de considerações para uma visão mais geral sobre a política católica, que servisse de critério para os eleitores interessados em porem em prática os princípios da filosofia política da Igreja na sua Tradição bi-milenar.

Agora que a escolha do novo chefe da nação ficou definida, podemos voltar a esse estudo com mais calma para lembrarmos dos princípios católicos que regem nossos atos morais na vida individual e na vida política.

Uma das noções mais difíceis de se compreender dentro do ambiente da democracia liberal moderna é a de Bem Comum. Os liberais interpretam o Bem Comum de dois modos equivocados: em primeiro lugar consideram equivocadamente o voto como sendo o sinal mais eficaz da vontade do povo, e a partir daí, entendem “Bem Comum” como sendo essa vontade expressa pelo voto, pela maioria, pelo número. Nada mais contrário à verdadeira noção de Bem Comum, a qual, como o termo mesmo já expressa, é necessariamente o Bem. Ora, quem fixa como meta o bem, em qualquer obra que realize, considera em primeiro lugar o fim a ser alcançado. Como o fim último do homem no seu ser ou em qualquer coisa que faça é Deus, a Beatitude, todas as obras humanas necessitam dessa meta, desse fim último alcançado que gera o repouso e a felicidade eterna.

Assim, o critério para sabermos se algo, ou um ato, faz parte do Bem, é provar que ele obedece à Lei eterna de Deus, obedece aos Mandamentos de Deus e à Igreja Católica, a qual recebeu, e apenas ela recebeu, autoridade divina sobre a orientação dos homens e das nações. Esse lado prático do Bem orienta o homem na escolha dos meios a serem adotados para alcançar o bem particular que lhe é devido.

A outra interpretação equivocada de Bem Comum é vê-lo como sendo o bem pessoal ampliado ao máximo pelas liberdades totais. Quanto mais livre, mais independente e mais rico. Espalha-se a riqueza material e com isso todos ficam felizes e satisfeitos. Logicamente essa autonomia afasta drasticamente o homem do seu fim último, e o orienta a uma atuação política contrária muitas vezes ao Bem que vem de Deus e nos conduz a Ele.

Por outro lado, os socialistas e comunistas interpretam o Bem Comum com essa visão estereotipada que considera o Estado Socialista como sendo o único bem do povo, o único provedor, o único dono, o único produtor. Quanto mais Estado, mais dependência e menos necessidade de possuir. O resultado é a pobreza geral na qual todos os povos socialistas caíram.

Alívios

Cabe lançarmos um olhar para os últimos anos do nosso Brasil. Quando o sr. Aécio Neves perdeu a eleição em 2014, os liberais que adoram a democracia ficaram sem chão. Como o Brasil vivia há anos sem uma política verdadeira, dominado que estava pelas esquerdas desde Fernando Henrique Cardoso, parecia que o domínio do PT continuaria por muitos anos ainda. Não contam nunca com a vontade de Deus, não acreditam na Providência divina.

As coisas se precipitaram rapidamente e conhecemos dois anos do governo Michel Temer em que muitas coisas começaram a serem consertadas no Brasil. Pode ser que o sr. Temer seja tão ladrão quanto os demais, e que termine na prisão. Mas o trabalho que fez à frente do governo devolveu ao país um projeto sério. Enquanto o governo do PT já tinha abandonado o país ao retorno da inflação galopante, Temer conseguiu em um ano levar a inflação a percentuais espetaculares e estimulantes, além de diminuir pela primeira vez, desde o início da era PT, o desemprego no país. Além disso alavancou o cadáver da Petrobrás, nos livrou do domínio dos sindicatos, preparou a reforma da Previdência, a qual só não foi votada por causa do crime cometido pelo sr. Janot, de lançar ao ventilador da mídia as acusações contra o presidente que frearam as possibilidades políticas de Temer e do Brasil.

Hoje, quando Jair Bolsonaro se prepara para assumir a presidência, deve agradecer ao seu predecessor por ter tirado o Brasil do fundo buraco em que o PT o havia precipitado. E Bolsonaro parece saber disso.

Não podemos fechar o ano de 2018 sem mencionar a mudança impressionante que tem acontecido com a política do nosso país. As multidões que se sentiam asfixiadas pelo PT, acuadas e escondidas, parecem ter despertado. Os resultados das eleições foram lições dadas aos antigos políticos que abusaram e traíram o país com seu projeto de perpetuar-se no poder. O PT sobretudo, foi rechaçado fortemente, e todas as mentiras lançadas sobre golpe e volta de suposta ditadura foram desfeitas pela verdade.

Apesar de muitas atitudes fanatizadas de certos grupos, o fato é que temos hoje um presidente da República capaz de entender o que é o Bem Comum, de estabelecer seus ministros com esse critério específico de buscar o Bem, a Lei Natural em primeiro lugar, e apesar de seus equívocos causados pelo protestantismo de sua mulher, pelo menos ele tem sabido se portar corretamente, atribuindo a Deus a orientação do Brasil no caminho da verdade e do Bem.

Alertas

Algumas das idéias levantadas nessa fase de transição do governo soam límpidas, naturais e benfazejas. Outras nos afligem e nos deixam um sabor agridoce diante do que virá pela frente. Estamos na iminência de vermos equipes técnicas e competentes darem rumos novos ao Brasil, aliviando de diversas formas as crises que se abateram sobre a nação. Ao mesmo tempo, ainda não é possível avaliar corretamente o que significa a presença tão forte dos protestantes na orientação do novo governo. Não nos iludamos. Historicamente, quando os protestantes encontram meios, fazem de tudo para denegrir, atrapalhar ou mesmo perseguir a Igreja. É verdade que a ausência de padres, bispos, autoridades católicas no apoio a Bolsonaro só contribuiu para a presença de pastores protestantes. Mas eles não são os únicos.

Há também uma nova direita chamada “conservadora” que se pretende católica, mas que segue orientações de hereges notórios, de adeptos de religiões comparadas, de seguidores de René Guénon e outros. A Permanência não poderia se alinhar com esse tipo de pensamento, pois ele rompe com a fé íntegra, falsifica a noção de Religião e conduz os homens a caminhos ruins para o pensamento e para a vida prática.

Continuamos cumprindo nosso papel de formação católica do pensamento, dentro da orientação dada pela Igreja e pelos papas até as vésperas do Concílio Vaticano II. A Tradição, para um católico, significa Revelação transmitida oralmente, verdades de fé infalível que não foram escritas, mas transmitidas pela Igreja por obra do Divino Espírito Santo. Esperamos que o novo governo de Jair Bolsonaro saiba esquivar-se de tantos enganos que o cercam tentando abocanhar poder na nova oportunidade.

Resta-nos manter nossa Esperança na Divina Providência, sabendo que Nosso Senhor é o Rei das nações, e Ele só pode abrir as portas, e elas necessariamente se abrirão; fechá-las e serão fechadas com toda a certeza. Nesse Tempo do Advento e Natal ouviremos as grandes Antífonas Ó, com que a Igreja conclama Nosso Senhor para vir, para se encarnar. Com uma delas terminamos esse Editorial, pedindo ao Menino Jesus, Rei e Senhor do Brasil, que olhe por nossos governantes e pelo povo brasileiro.

“Ó chave de Davi e cetro da casa de Israel, que abres e ninguém fecha, que fechas e ninguém abre. Vinde tirar do cárcere o prisioneiro que está nas trevas e na sombra da morte.” (Antífona do dia 20)

  1. 1. Iª Pe 2, 13 e seg. 
  2. 2. Rom. 13, 1 a 5.
  3. 3. Leão XIII, Immortale Dei.
  4. 4. Leão XIII, Quod Apostolici Muneris
  5. 5. Leão XIII, Diuturnum illud
  6. 6. Leão XIII, Rerum Novarum, 1891

Entre Papas e Cardeais

Dom Lourenço Fleichman, OSB

Eis que, surpreendentemente, nos preparamos para conhecer o sexto papa do Concílio Vaticano II. Tendo já ultrapassado a marca dos 50 anos do seu início (1962), não podemos dizer que as coisas, no meio dessa crise, sejam previsíveis. Ainda há espaço para sustos e surpresas.

O papa Pio XII1 morreu em outubro de 1958. Com ele morria uma visão ainda tradicional da vida da Igreja, da moral, da liturgia, dos dogmas e da influência impressionante que a Igreja mantinha há dois mil anos sobre os caminhos da humanidade. Mesmo sendo constantemente perseguida e maltratada, os maus não conseguiam avançar sem freios e sem limites, porque havia uma palavra divina, um homem vestido de branco, sentado na Cátedra de S. Pedro, e que servia de consciência para todos os povos, para governantes e súditos, mesmo quando estes já não eram mais católicos.

Não que fosse obedecido e amado. Mas era uma referência, e o mundo não se entregava ao mal sem temer a condenação que viria da Igreja. Com isso, a decadência era contida; seguia seu curso, é verdade, mas em ritmo mais lento.

Foi eleito, então, para o trono de São Pedro, o cardeal Roncalli, o papa João XXIII2. Descrito por seus historiadores como um homem simples, amigável, quebrando protocolos, conversando com todos, ficou conhecido como o “bom” papa João. Na verdade, seu espírito ecumenista data de muito tempo, como aparece em suas atividades de jovem bispo, na Bulgária, quando iniciou relações com os ortodoxos daquele país, ou em Paris, como Núncio. Em suas encíclicas, João XXIII dará provas de um pensamento liberal e equivocado, ao tentar assimilar as tendências de um mundo socialista para torná-lo aceitável dentro de uma doutrina católica que, para ele, devia ser aberta e tolerante. O resultado são textos dúbios, calcados em preocupações temporais de certa paz e de concórdia, isentas das exigências próprias do reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo.  Desenvolvia assim temas caros à maçonaria, como direitos humanos, dignidade da pessoa e afins, que fugiam completamente das preocupações espirituais de um catolismo tradicional, voltado para a defesa do depósito da fé e da Revelação sobrenatural .

João XXIII fará, então, a convocação do Concílio Vaticano II, e depois de propagar como finalidade a não condenação das heresias modernas, desejou um concílio voltado para conversas pastorais, troca de experiências e um otimismo beato sobre o futuro da Igreja. Pior do que isso foi a cumplicidade do chefe da Igreja com os revolucionários que tomaram de assalto o Concílio, sob a batuta do Cardeal Lienart. Logo no início do Concílio, este prelado exigiu a substituição dos textos já preparados para debate, por outros, liberais, que um grupo de bispos já havia preparado em segredo e por debaixo dos panos. João XXIII aceitou tal revolução, assim como aceitou outras que viriam em seguida, dando a esses progressistas da Aliança Europeia o domínio completo das ações do concílio3.

No meio de tantas ambigüidades, aberturas e revoluções, não se pode admirar que o Concílio Vaticano II tenha estabelecido uma nova religião dentro de Roma e na alma do povo católico. O resultado terrível foi a perda da fé generalizada, a destruição da doutrina tradicional da Igreja, e a diminuição constante da sua autoridade moral e espiritual sobre os desígnios da humanidade.

Apesar de ter escrito textos com ideais maçônicos, visões naturalistas sobre a vida social e política, de ter mesmo mantido certas relações com a maçonaria, não se conhece provas cabais de que tenha sido, ele próprio, maçon. Não nos parece fonte fidedigna um ou dois livros escritos por maçons, onde se afirma tal relação. Claro está que interessa a esta seita secreta vangloriar-se de ter tido um papa no seu grêmio, o que tira desses autores qualquer valor histórico.

O cardeal Montini4 era Patriarca de Milão quando foi eleito no lugar de João XXIII. A porta do erro e da decadência tinha sido entreaberta por João XXIII, ela será escancarada por Paulo VI. Quando trabalhava na Secretaria de Estado do Vaticano, o bispo Montini recebera um castigo grave por ter mantido contatos com os comunistas de Moscou nas costas de Pio XII. Será afastado de Roma. O erro de Pio XII foi ter dado a este bispo desobediente uma diocese cardinalícia, mesmo não tendo recebido esta honraria do papa Pacelli. Será cardeal no 1º consistório de João XXIII, abrindo caminho para a sua eleição, poucos anos depois.

Com Paulo VI a Igreja verá um tempo de destruições. Todo o belo edifício doutrinário e sacramental da Igreja será demolido. Não sobrará pedra sobre pedra. Todos os sacramentos serão reformulados segundo o novo espírito, a missa nova será assinada, sendo mais um culto protestante do que verdadeira missa; a disciplina eclesiástica será tão mitigada que os escândalos sexuais começarão a surgir de todos os lados. A fé será ultrajada, com padres e bispos deturpando a divindade de Nosso Senhor, a perpétua virgindade de Maria, a natureza da revelação, a sacralidade dos ritos e sua eficácia. Enfim, tudo será abalado. A destruição será o resultado de um grande terremoto religioso. E o povo fiel perderá a fé sobrenatural e até mesmo a noção do que seja essa fé.

De João Paulo I5 só podemos dizer que deu a impressão de querer reverter o quadro de destruição, senão na questão de fé, pelo menos nas influências maçônicas dentro do Vaticano. Não teve tempo. Seu pontificado durou 33 dias, e muitos afirmam que foi assassinado.

João Paulo II6 dará continuidade à obra do Concílio Vaticano II, cabendo a ele a reconstrução de todo o edifício destruído por Paulo VI, mas agora com o novo espírito do Concílio. Terminará a reforma dos sacramentos, fará um novo Código de Direito Canônico, prosseguirá a reforma completa da Cúria Romana, publicará o novo Catecismo oficial, nova tradução oficial da Bíblia, nova Via Sacra, modificando até mesmo o Rosário da Virgem Maria. Além disso, levará o ecumenismo ao seu ponto mais afastado da verdadeira fé católica, instituindo os encontros de Assis, onde todas as religiões enviam seus chefes para rezarem juntos, significando que pouco importa a religião de cada um. Desse encontro heretizante, surgirá o que o papa chamou de “espírito de Assis”, um novo espírito que passa a governar a Igreja de Vaticano II.

Finalmente, Bento XVI7, que ainda é papa quando escrevemos esse editorial, apesar de ter tido algumas atitudes mais conservadoras, jamais renunciou à obra do Concílio, nem mesmo se permitiu diminuir a influência deste sobre seu pensamento e seus atos.

Suas encíclicas dão prova dessa influência constante do Concílio, mesmo dos textos claramente opostos à doutrina católica, como Gaudium et Spes, freqüentemente citado pelo papa. Tomemos como exemplo a primeira encíclica, Deus Caritas est8 , onde Bento XVI envereda por certa tese acadêmica sobre a noção de amor. Mas não consegue se livrar dela ao abordar a questão do amor como está no Novo Testamento, e faz comparações do amor divino em termos de Eros e Agape, no mínimo, inconvenientes.

Essa tendência intelectualista de escrever teses aparece também nas demais encíclicas do papa. Em Spes Salvi9, a erudição é grande, mas o espírito católico fica de lado, jamais encontrando a definição clara do dogma católico sobre a virtude da Esperança. Em Caritas in Veritate10, o papa faz o elogio da Populorum Progressio11,  de Paulo VI, sobre a política e desenvolvimento dos povos, sob o enfoque liberal do Concílio Vaticano II.

Em nenhum momento Bento XVI apresenta a doutrina católica pelo seu dogma, por aquilo que ela tem de imutável e eterno. Sempre reflexões, aberturas, autores estrangeiros ao catolicismo e mesmo inimigos da fé são convidados à mesa de “discussões” de Bento XVI. O grande sucesso desses textos junto aos novos católicos desse mundo de hoje deve-se mais à imensa ignorância que se tem da verdadeira fé, do que à fidelidade da doutrina ali contida.

Todos os seus livros, mesmo aqueles contendo erros graves de tempos mais progressistas, foram reeditados depois de se ter tornado papa, e jamais ouvimos de sua boca um sinal de querer mudar o que antes escrevera.

Se, por um lado, escreveu o Motu Proprio Summorum Pontificum, em 2007, afirmando que a missa tradicional nunca fora ab-rogada e pode ser celebrada, não se vê interesse, no Vaticano, em defender a causa de tantos padres que são perseguidos por seus bispos diocesanos e impedidos de celebrar a missa de sempre. De certa forma, o Motu Próprio serviu para confirmar e estender a perseguição, pois ela agora se aplica também a padres diocesanos mais conservadores.

Mais tarde, em 2009, teve a coragem de levantar as falsas excomunhões impostas aos quatro bispos da Fraternidade São Pio X, mas logo viu-se obrigado a dar explicações numa carta que escreveu a todo o clero. Ainda aqui, Vaticano II era como um manto que cobria todo o pensamento do papa.

 

Finalmente, ordenou que se recebesse uma comissão teológica da Fraternidade S. Pio X, para debater os pontos de litígio apresentados por esta. Após dois anos de debates, o impasse impediu que se prolongassem as conversas, pois os representantes do Vaticano não aceitavam que a doutrina progressista do Vaticano II se opunha à Tradição católica. Queriam de todas as maneiras forçar o pensamento em aceitar que Vaticano II estaria na continuidade da Tradição, mesmo diante de evidentes contradições.

Dessas conversas surgiram, em 2011-2012, tentativas de um entendimento prático que daria à Fraternidade um estatuto oficial reconhecido por Roma. Mas após meses de grandes angústias nos meios tradicionais, o próprio papa encerrou a conversa, afirmando, em carta pessoal ao Superior Geral da Fraternidade, que a aceitação do Vaticano II, dos ritos novos, do novo espírito, era exigência para um reconhecimento da Fraternidade.

Agora, diante da surpresa da renúncia do papa, nos deparamos com mais uma grave questão. O tempo todo, Bento XVI se refere ao seu ministério. Sempre que fala da renúncia, refere-se a esse ministério petrino. Temos a impressão que os próprios papas desse catolicismo deformado já não acreditam muito na realidade que lhes foi imposta pelo Divino Espírito Santo. Falam como se tivessem aceito uma função, como um acionista de grande empresa aceitaria ser Diretor Presidente por certo tempo. Aliás, faz parte da linguagem transformada pelo Vaticano II, chamar a esse ministério, de “serviço”, o que só vem reforçar essa triste impressão. E essa constatação nos faz lembrar aquelas palavras antigas de Mons. Marcel Lefebvre, quando afirmava que nós, os que guardamos a Tradição contra os detratores da Igreja, somos os verdadeiros defensores do papa e do papado. Eles próprios já não acreditam mais no poder sobrenatural do sucessor de Pedro.

O pontificado de Bento XVI não trouxe nenhuma solução aos graves problemas de fé que assolam a Igreja há décadas. O estilo tornou-se mais comportado, mais conservador na liturgia, mais intelectual nos escritos; porém, o naturalismo horizontal, o ecumenismo irenista onde cada qual encontra o seu deus e se sente bem, o liberalismo político e social e a oposição constante à Tradição da Igreja, continuaram até o fim. E a crise não terminou.

Estes são os papas do Vaticano II. Eles o fizeram, prosseguiram, impuseram ao povo católico sem se preocuparem se era da vontade de Deus ou para a salvação das almas. Da noite para o dia, uma missa sem sacrifício e sem cruz foi imposta, sob penas severas, a todos os padres. Muitas almas perderam a fé, escandalizadas pelo que viam acontecer na Igreja. Outras a perderam por terem absorvido o novo espírito de Vaticano II, tornando-se protestantes sem se darem conta. Paralelamente, o laicismo invadiu toda a Igreja, causando um esvaziamento impressionante dos mosteiros e casas religiosas. Muitos conventos fecharam as portas e foram vendidos para se tornarem museus ou escolas. O número de católicos foi diminuindo em todo o mundo e já não podemos mais falar de uma Civilização ocidental Católica, aquela impressionante herança dos mil anos de Idade Média, que formaram a Europa e o mundo católico.

Enquanto isso, os papas e bispos, ao longo desses últimos 50 anos, nunca conseguiram enxergar a realidade do mundo segundo a verdade de Deus. A todo momento interpretam os desastres, acidentes, guerras e tudo o mais com palavras pacifistas, moles, sem eficácia e sem sentido. Raras vezes atribuem os escândalos ao pecado e nunca se ouve um chefe católico se preocupar com a condenação eterna das almas. Só falam de uma falsa paz, só pregam a concórdia nessa vida, só se preocupam com o corpo do homem e sua felicidade na terra, e de salvar as aparências de certa “decência” boazinha.

Um novo papa será eleito. Humanamente não há nada que nos incline a achar que algum dos cardeais possa vir a restaurar a Igreja e ajudar as almas a se salvarem. Todos eles, para chegarem onde estão, aderiram de todo o coração aos desmandos desse maldito concílio que tanto mal trouxe para a Igreja e para as almas. Estão, pois, certos de que devem continuar a propagar esse Humanismo com tintas de religiosidade, que tudo contaminou.

Não temos preferências. Se for eleito um péssimo cardeal, progressista, destruidor, as coisas podem ficar mais claras, a evidência da falta de fé ficaria mais patente, o que nos ajudaria a segurar melhor a espada do bom combate. Por outro lado, a perseguição se tornaria mais amarga, e nós teríamos apenas a graça divina como sustento, o que já é nossa condição há 50 anos. Se for eleito um cardeal “conservador”, veremos as mesmas ambigüidades atuais perdurarem na Igreja. Cada vez que o papa falar em latim, ou celebrar uma missa mais conservadora, os blogs conservadores de plantão darão urras de alegria e dirão que o papa está restaurando a Igreja.

Mas Deus vomita os mornos e não aceita que a defesa da sua Igreja seja feita por homens cegos, ingênuos e débeis. Porque a restauração da Igreja só poderá ser realizada quando nós merecermos, por nossos sacrifícios e dores oferecidas, pelas humilhações e perseguições suportadas, pela constância das nossas orações e das nossas lágrimas. Somente assim o Divino Espírito Santo realizará o milagre da conversão de um papa. Sem essa conversão espetacular, espiritual, sem que o papa entenda na fé, ao menos em parte, todo o enlace da crise atual, não haverá grandes mudanças no horizonte da Igreja.

Peçamos a São José, esposo da Virgem Maria, protetor da Santa Igreja, e a São Miguel Arcanjo, chefe da milícia celeste, que nos permita ver com nossos olhos, ouvir com nossos ouvidos, o dia abençoado em que tal conversão chegará ao coração do sucessor de São Pedro.

(Editorial da Revista Permanência 269)

  1. 1. Eugênio Pacelli (1876-1958)
  2. 2. Angelo Giuseppe Roncalli (1881-1963)
  3. 3. Cf. Wiltgen, Ralph, S.V.D., O Reno se lança no tibre, Ed. Permanência
  4. 4. Giovanni Battista Enrico Antonio Maria Montini (1897-1978)
  5. 5. Albino Luciani (1912-1978)
  6. 6. Karol Józef Wojtyła (1920-2005)
  7. 7. Joseph Alois Ratzinger (1927-2005)
  8. 8. 25 de dezembro de 2005
  9. 9. 30 de novembro de 2007
  10. 10. 29 de junho de 2009
  11. 11. 26 de março de 1967

Formação e deformação do homem

O texto a seguir é a transcrição adaptada e completada de uma conferência pronunciada a um grupo de rapazes católicos, na Capela Nossa Senhora da Conceição, em janeiro de 2012. Foi mantido o estilo coloquial.

 

Introdução

O meu propósito nesta conferência é tratar um problema muito sério que ocorre na vida de todos, de todas as famílias, de todos os casais. Vocês bem sabem, e não vou entrar neste detalhe, que a sociedade moderna não ataca apenas a religião e a fé, mas perverte também a natureza das coisas. No comportamento dos homens também existem distorções graves, fruto desses duzentos anos de liberalismo e dos quinhentos anos de espírito revolucionário. As transformações foram se fixando e atingiram aspectos essenciais da vida social. Assim, a tese que quero apresentar para vocês é a seguinte: “vocês não são homens”.

Por que posso dizer isso? Porque a atitude geral dos homens casados não é mais uma atitude de homem. E se assim ocorre, se a maioria dos jovens casados ingressa na vida familiar sem uma atitude de homem, é porque não estão sendo formados como homens. Apesar de freqüentarem a Capela, de serem católicos e estudarem o catecismo, vocês respiram esse ambiente cultural decadente. Por isso, preciso alertá-los antes, para que saibam agir como homens agora. Será que as mulheres os aceitarão, quando perceberem que vocês recuperaram a condição e as atitudes próprias dos homens? Talvez não. Será preciso, por outro lado, formar as mulheres, o que é outra tarefa necessária na reeducação da sociedade católica.

O problema não é saber se são homens por terem vida masculina, por usarem calças compridas e agirem exteriormente como homens. Não é a voz grossa ou a força física que falta na nossa sociedade. Eu diria mesmo que quanto menor a atitude essencialmente masculina, mais o homem engrossa a voz e ameaça com os punhos, para tentar impor-se pelo temor. Trata-se de saber o que é ser homem, o que isso significa. O mundo perdeu essa noção, e vocês a perderam juntos.

Paralelamente, o mundo levou a mulher a ocupar o lugar dos homens, a ocupar o vazio deixado pelo homem nos estudos, no trabalho, na prática da autoridade; e isso altera os fundamentos da sociedade.

Há, portanto, um movimento duplo e simultâneo, no qual as atitudes de chefia, de autoridade, de força moral e de referencial da sociedade bascularam do lado masculino para o lado feminino. Elas assumiram esse papel sem que vocês se dessem conta; ou melhor, insensivelmente, os homens deixaram para elas o papel de comando da sociedade.

Não discuto, de modo algum, a maior ou menor capacidade das mulheres de exercerem a chefia e a autoridade. Estou pronto para reconhecer a grandeza delas. O que me ocupa aqui é um problema de ordem superior, espiritual, causado por uma deficiência da natureza humana, tal como foi criada por Deus, e das conseqüências desastrosas que ela tem causado na vida da sociedade.

 

A Casa

Tudo começa dentro de casa: é onde recebemos educação. E aqui acontece a primeira deficiência: a falta ou a recusa de educação.

Gostaria de deixar claro que não podemos considerar como educação o mesmo que é pregado pelos governantes atuais. Segundo eles, o que falta ao Brasil é educação. Para remediar, pretendem investir em maior número de escolas, ou de vagas universitárias, como se escolaridade desse ao homem a verdadeira educação. De que adianta dar um diploma a todos, se nas escolas e nas famílias já não se transmite o caráter reto? Nem sempre os povos sem escolaridade foram povos mal educados. Hoje, ao contrário, quando a escolaridade se espalhou e universalizou, o que mais se encontra pelo mundo é a falta de caráter e de virtudes.

Nosso propósito é analisar a ausência de virtudes na educação moral dispensada pelos pais e pelas escolas.

Ora, dentro do conceito de educação, deveríamos pensar em obediência – é a primeira virtude que nos é exigida na vida. Deveríamos todos aprender a obedecer desde o berço, mas crescemos sem conhecer essa virtude, porque os pais não sabem se impor. A televisão, a internet, os jornais dizem aos pais que eles têm de dar liberdade à criança, não podem castigar, não podem repreender. Com isso, a criança não sabe obedecer, porque os pais não sabem mandar. Como tudo na vida moderna, é pelo lado subjetivo que se encara o exercício da educação, e ficam com pena, não podem dar uma palmada simples, que serviria perfeitamente como linguagem muito bem conhecida de uma criança que não despertou ainda para as ideias universais. Quando a desobediência e a arrogância dos filhos mal educados começar a ficar mais grave, aí os pais exercerão sua autoridade de modo excessivo e bruto, porque foram guardando a raiva, sempre subjetiva, até que não agüentam mais e explodem com violência.

Deveríamos pensar também na virtude da justiça: ela nos ensina a dar a cada um segundo os seus méritos e segundo a sua qualidade. Dentro de casa é que se aprende a verdadeira justiça. E o primeiro ato de justiça é dar aos pais a submissão que lhes é devida; dar a si mesmo a condição de subordinado, de filho, condição igualmente devida às crianças. Hoje, dentro de casa, ela já não existe, porque cada um morde o seu pedaço, cada um quer a sua parte, e todos vivem do egoísmo. O mundo moderno, individualista e subjetivista, produz o egoísmo, e por isso ele vai querer ensinar a justiça no comunismo, que é o regime do inferno levado à vida social. É aí, na política esquerdista, fomentadora das maiores injustiças que o mundo já conheceu, que se ouve falar de justiça, mas de uma noção deturpada, porque dentro de casa já não se ensina mais. Os próprios pais se consideram em igualdade em relação aos filhos, a quem atribuem pseudo-direitos e mínimos deveres.

Outra virtude que será demolida pela sociedade atual é a amizade. Também ela é uma virtude. Eis outra coisa que o mundo moderno tira da alma. Ora, a amizade se produz no convívio dentro de casa, sobretudo entre irmãos. Uma casa onde as crianças devem conviver com seus irmãos, devem partilhar de seus bens, devem aprender a generosidade para com o próximo, é uma fonte de amizade verdadeira, que será um dia aplicada ao próximo.

A vida familiar, na convivência entre um grupo de irmãos, também produz atritos. É preciso aprender a lidar com os atritos. Mais tarde, a sociedade e até mesmo o mercado de trabalho será cruel com quem não souber suportar o próximo. As pessoas, em casa, não sabem mais suportar os atritos. Fecham-se em seu amor-próprio, na desobediência, nas injustiças e não conseguem mais um mínimo de paz. Os filhos que aprendem a obediência, a justiça, a amizade, aprendem também a suportar as ordens mais pesadas e os defeitos dos seus irmãos.

Outra virtude que se deveria aprender em casa é a ordem, a boa ordenação das coisas, a hierarquia e o respeito. Mas isso já é sabido: desde os anos 60 que os filhos se colocam no mesmo nível dos pais, numa guerra insana contra seu próprio lar. O que vemos, nos dias de hoje, é a criança dar ordens aos pais, e estes os servirem como se fossem seus empregados. Tiram dos filhos a capacidade de reagir diante das situações da vida, tolhem as iniciativas humanas, a começar pelo copo d’água que se apressam em buscar quando a criança grita, deitada num sofá: — Mãe, traz água!!!! São raras as famílias em que os pais ensinam a seus filhos o espírito de sacrifício.

Há certos ritos naturais na vida da casa, que também se devem ensinar às crianças: saber se levantar quando uma visita chega; saber comer à mesa com a família reunida, e não vendo televisão; os meninos não irem à mesa sem camisa, as meninas não usarem roupas indecentes, etc. Tudo isso são coisas muito importantes na formação do caráter.

Desapareceram também, na casa, a oração e a piedade. É dentro de casa, pequenino, que se aprende a rezar. E quando não se aprende pequenino a rezar, não se aprende mais. Por uma graça, alguém, muito mais velho, é sacudido por Deus e se converte. Conseguirá perseverar? Claro que existem casos de perseverança na vida católica e na oração, entre convertidos adultos, mas é difícil, tudo fica mais difícil. Se a piedade e a regra da oração não forem ensinadas no berço, é bem mais difícil perseverar. Aqueles que receberam isso desde a pequena infância, agradeçam a Deus; aqueles que não receberam, saibam que não existe verdadeira vida de homem sem piedade. Vocês são católicos, batizados, precisam estar em contato com Deus. Isso influenciará cada uma das etapas de suas vidas.

Piedade não é ir a Missa todo domingo: isso é obrigação estrita de todo católico; piedade é a prática do catolicismo: o homem católico confia em Deus, tem uma relação com Deus. Não basta dizer: “Ah! Eu Creio” – é pouco; “Eu vou à Missa” – é pouco; “Mas é Missa de São Pio V” – ainda é pouco. É preciso mais do que isso. É preciso amar a Deus em tudo, com todas as forças, fazer d’Ele a referência primeira das nossas vidas. E esta referência precisa estar presente em todas as etapas, em todas as idades. Isso se aprende em casa.

A criança é deformada dentro de casa. Não o é por falta de amor dos pais, não é isso. Os pais amam seus filhos, mas amam de um amor errado. O equívoco está em achar que o amor sentimental é o verdadeiro amor que vem do espírito racional. Tudo isso nós podemos colocar como sendo causado pelo sentimento. Vocês não são homens. Por quê? Porque vivem dos sentimentos e não da razão. O demônio é um anjo esperto; ele quer levar todo mundo para o inferno; sabe que é pelos sentimentos que ele pega o homem. É pelos sentimentos que pecamos. O pecado vem pelo sentimento. Quando não se consegue mais dominar os sentimentos pela razão, então o homem deixa de ser homem, age como animal irracional, e cai no pecado.

Com Adão e Eva foi exatamente assim. Foram criados numa situação de natureza íntegra: a razão humana dominava as paixões. Quando Adão e Eva pecaram, a integridade se rompeu, a natureza tornou-se decaída. Nós nascemos, por castigo de Deus, com o pecado original. Duas coisas que estão juntas: a mancha do pecado original e a natureza decaída. O Batismo limpa a mancha, não muda a natureza, que continua decaída.

É por isso que não somos verdadeiramente homens, porque, se definimos o homem como um animal racional, então a razão deveria imperar sobre aquilo que é animal. Porque os animais também têm sentimentos. Todos têm algum tipo de sensibilidade, ainda que seja a menor de todas, que é a sensibilidade física. Sentem fome, sentem necessidades e vão em busca do necessário, movidos pelo instinto. Deus lhes deu o instinto para isso; a nós, não. Para nós, Deus deu a razão. E é pela razão que vamos em busca das nossas necessidades. Também pela razão devemos controlar nossos sentimentos animais para obedecer à Lei do Criador.

Porém, com a natureza decaída, a situação se inverte, e não a dominamos mais. Impera dentro de nós a lei das paixões: “Porque eu não faço o bem que quero, mas o mal que não quero” 1.

E como podemos fazer com que volte a razão a dominar? Pela graça. Só a graça, essa criação de Deus soprada dentro de nós, pode restaurar nossa condição humana. Mas ela é instável, não é algo que se tenha em definitivo, pois somos levados a pecar quando esquecemos de ter em Deus nossa referência principal.

Formar homens significa inverter a tendência da natureza decaída, devolver à razão o reinado sobre os sentimentos, em todas as situações que se apresentarem diante de nós. Somos homens, somos racionais, por isso precisamos aprender a dominar a nós mesmos para, em seguida, dominar as situações da vida que se apresentarem diante de nós.

 

Escola

Se dentro de casa não aprendemos essas coisas, não é na escola que as iremos aprender. Ao contrário, na escola de hoje, somente reforçaremos a desordem, a inimizade, a injustiça, o egoísmo. A escola de hoje é formadora de vícios, porque não nos dá o que deveríamos receber. Somos forçados ao sentimento. Freqüentemente lemos nos jornais afirmações como esta: “o homem precisa viver de paixão”. Está errado. O homem precisa aprender a dominar suas paixões, orientá-las pela razão. Muitos psicólogos modernos acusam a Igreja de querer uma condenação sumária das paixões, o que teria provocado os distúrbios que se encontram na juventude. Mas isso não é verdade. A Igreja sempre ensinou que as paixões fazem parte da natureza sensível do homem. Em si, elas não são nem boas nem más, seriam neutras se não houvesse sempre uma polarização dos nossos atos entre o bem e o mal. Acontece que a natureza decaída se inclina com facilidade ao mal, movida por paixões desregradas. Se nossa natureza inclinada ao mal não fizer um esforço de elevação espiritual, cairá no pecado, na desobediência, na impureza ou na avareza. Essa é a situação da natureza decaída em Adão e Eva.

Os pais de vocês, quando se converteram, aprenderam algo sobre esse combate espiritual, mas não souberam aplicá-lo na educação dos seus filhos: podem ter tentado ensinar algo disso, mas não tudo. Às vezes dão aos filhos essa compreensão, mas esquecem de ensinar a piedade. Ora, como vocês vão sobreviver sem a piedade? Como vocês vão conseguir a graça, que é o único meio de manter a razão reinando sobre os sentimentos? Vocês sabem o que os pais dizem? “Não dá tempo para ensinar tudo”. Se eu pergunto: “você reza com seus filhos?” — “Não consigo, não dá tempo”. Mas eu pergunto: por que não dá tempo?

Vamos ver que alguns dos problemas que encontramos em casa, também os encontramos na escola.

Mas na escola damos um passo a mais na nossa vida social. Nela aprendemos uma coisa que, infelizmente, em casa já não se aprende. Na escola temos obrigações a cumprir. O ideal é que as crianças tenham suas tarefas e obrigações em casa, mas isso é raro.

Com essas obrigações aprende-se a fazer sacrifícios. Aprende-se a superar suas próprias deficiências e a desenvolver seus talentos: saber lidar com as vitórias e com as derrotas. É na escola que a criança deveria perceber que tem um desafio a realizar, boas notas, bom estudo, bom comportamento. Se ela repetir de ano, sentirá o remorso e o arrependimento, a vontade de melhorar e recuperar o tempo perdido.

A amizade e os atritos serão vividos de um modo novo, na escola. Uma coisa é ter atritos com o irmãozinho, outra coisa bem diferente é não se entender bem com alguém que pode bater em você, ou prejudicar sua estabilidade no convívio com os demais. Na escola a criança deverá aprender a firmar suas amizades com aqueles que merecem. Muitas vezes as amizades são fontes de muitos erros, de negligências e pecados. Toda criança bem educada conseguirá conciliar a alegria e o senso lúdico com a obediência, a honestidade e a pureza.

Qual a finalidade da escola? Qual a finalidade da família? A educação recebida em casa ou na escola deve desenvolver o caráter, a honra, e a Fé. Essas coisas se aprendem e passam a fazer parte da nossa natureza. A criança deve tornar-se um homem que não mente, que preza a honestidade em tudo o que faz, e que procura conviver com os amigos.

Na escola, a finalidade primeira é o estudo. Uma formação complementar à vida em família e que deveria ser subordinada à orientação moral ensinada pelos pais. A escola hoje, na verdade, já não tem mais o papel que deveria ter.

A escola hoje é dominada pelo Estado. Existe uma usurpação, por parte do Estado, do poder de ensinar. A criança tem de ir para a aula, tem de estar na escola. No fundo existe uma intenção de tirar dos pais o dever de criar e educar os filhos. A proibição, no Brasil, do home-schooling é significativa. Na cabeça deles, os pais não podem dar aulas porque o Estado é o responsável. Cuidado! Esse erro vai entrando, vai entrando dentro da gente, e perde-se a noção da verdade. Quem tem a obrigação de educar é a Igreja, na ordem sobrenatural, e são os pais, na ordem natural. Essa é a ordem estabelecida por Deus desde a criação do mundo. A escola é complementar, recebe dos pais delegação para atender seus filhos. O Estado nosso, que se impõe como educador, é comunista, é socialista, e manipula as consciências.

Aprende-se, tanto em casa como na escola, uma certa cultura. Quando falo de cultura, quero dizer aprender a ler. Não me refiro a aprender o alfabeto, a ser alfabetizado; digo aprender a ler, compreender que é através da leitura dos grandes clássicos, da verdadeira literatura, que aprendemos a conhecer a vida, aprendemos, pelo exemplo, o bem e o mal, e também adquirimos a capacidade de bem escrever. Cabe aos pais ter uma biblioteca ou usar uma biblioteca verdadeira para dar aos filhos essa formação de leitura.

Mas isso lhes parece muito chato: por que irão ensinar à criança o gosto da boa leitura, se podem apertar um botão e colocá-la diante de imagens vivas e cativantes da televisão ou de um computador? Então existe um problema aqui também na formação da criança, na formação da cultura. Temos aqui uma questão de cultura, tanto na literatura quanto na música. E temos também uma questão de Fé.

Dirão vocês: escola e Fé? Ora, a obrigação de toda escola deveria ser dar a Deus o verdadeiro culto, que é o culto católico. Temos de receber na escola uma complementação da casa, tanto na parte do convívio, da obediência, amizade, da formação do caráter, como da cultura e da Fé.

Quando eu era criança, estudava num colégio católico de leigos, não eram religiosos. Todo mês de maio, por exemplo, um menino e uma menina eram escolhidos para serem “Guardiães de Nossa Senhora”. A cada semana novas crianças eram escolhidas; uma coisa aparentemente boba, mas era a maior honra que podíamos ter no colégio. Quando a educação é feita com Fé, os pequenos ritos e gestos têm uma importância enorme, nunca mais se esquece. Meus antigos colegas de Primário, mesmo os que não guardaram a Fé, lembram-se ainda hoje: “Gostávamos de ser Guardiães de Nossa Senhora”. Cabe à escola nos dar algo da verdadeira Fé, do estudo sério e da formação complementar do caráter.

Os pais precisam ter conhecimento da escola em que matricularão seus filhos, devem saber o que procurar quando vão escolher uma escola. Não se trata de buscar aquela que vai levar o filho ao primeiro lugar no vestibular, não é isso. Além do bom nível de ensino e da disciplina, ela deveria oferecer o complemento de uma educação católica para seus filhos.

Com a crise de Fé que se espalhou dentro da Igreja, arma-se um novo problema, pois as escolas religiosas já não são aptas para dar às crianças uma educação que inclua a perseverança na Fé. De tal forma os erros do Concílio Vaticano II estão impregnados nessas escolas, que elas servem mais para arrancar a Fé do coração das crianças.

Os pais deverão procurar institutos de leigos com boa disciplina e bom nível de estudo, de pessoas sérias que se preocupem com a formação da família tradicional, e depois eles mesmos devem complementar em casa o que a escola não proporciona. Isso exige dos pais espírito de sacrifício, em casa. Em vez de gastar seu tempo com o Facebook, os pais têm a obrigação de se sentar com os filhos para ver as notas, acompanhar de perto os livros que são analisados na escola, e ensinar-lhes em casa as disciplinas que a Escola não ensina, como a vida dos santos, catecismo, história da Igreja, e diversas outras atividades culturais importantes. Nesse sentido, adquire grande importância o curso de Catecismo da Capela, ou de qualquer Priorado tradicional. Os pais não podem negligenciar essa formação dos seus filhos, pois na crise da adolescência a base moral e religiosa adquirida na infância será de grande valor.

E eu termino este capítulo sobre a Escola, voltando à casa, para lembrar a grave necessidade de se organizar a oração do Terço em família, além de se criar um ambiente de respeito e de interesse pelas coisas da Igreja. Talvez possam fazer em casa pequenos gestos ou cerimônias que marquem as crianças. No Natal, por exemplo, mostrar para a criança pequena o Presépio e, no dia 24 de dezembro, na Noite de Natal, colocar o Menino Jesus no Presépio, com uma pequena oração ou um cântico de Natal. Pequenos gestos que formam a Fé, e que podem se repetir em outras ocasiões.

 

Faculdade

O significado de estudo na faculdade não é o mesmo da Escola. Temos uma técnica a aprender. Devemos aprender as coisas que serão úteis para o trabalho honesto, com vistas a uma remuneração suficiente para o nosso sustento e o da nossa família. Mas é preciso evitar a visão marxista do homem trabalhador no sentido de ser uma força produtiva. Vivemos num mundo que respira o socialismo, que esquece o sentido espiritual do trabalho, que é o resgate da condição de pecado da humanidade. “A terra será maldita por tua causa; tirarás dela o sustento com trabalhos penosos todos os dias da tua vida” 2.

O fato é que vamos aprender uma técnica para possuir uma profissão. Vocês vão considerar as oportunidades e seguir uma carreira. Na faculdade continua havendo um problema com a justiça, com a obediência, apesar de que isso diminui um pouco, pois o regime agora é de maior liberdade. Por outro lado, os esquerdistas tentarão convencê-los de que os jovens podem consertar o mundo injusto, segundo eles causado pelos monstros capitalistas. Falarão da justiça social e do bem do Povo, uma entidade sem forma e sem lei, que lhes serve perfeitamente para a Revolução.

O convívio na faculdade parece mais maduro, mas está ainda longe da maturidade adulta. Continuará a vida de amizades assim como os atritos. A piedade não poderia, nessa hora, diminuir, mas é o que, em geral, acontece: o mundo abre-se para o jovem como se fosse um sonho; ele aspira à autonomia, aos amores da vida, à posse do dinheiro e da liberdade. Pela primeira vez a educação recebida na infância vai mostrar para que serve, pois será preciso saber lidar com esses anseios e paixões mais fortes. Aqueles que aprenderam desde cedo a obedecer, a ser equitativos e justos, a dividir com os outros da casa e da escola, passarão pela faculdade sem cair num deslumbramento perigoso.

Aqui aparece mais um problema na vida do jovem, a relação com o dinheiro. Todo o mundo moderno vive em torno do dinheiro. Como os homens perderam a noção da vida eterna e desta vida passageira neste mundo, vão concentrar nas riquezas materiais o fim de suas vidas. Fazem do dinheiro o seu deus.

Ora, nós não trabalhamos pelo dinheiro. É preciso que o católico saiba que há um problema moral relacionado ao dinheiro. Nosso sentimento nos inclina à posse de bens, isso é natural. Faz parte daquilo que chamamos de concupiscência. Nesse caso, é a concupiscência dos olhos que nos inclina de modo exagerado à busca pelo dinheiro e pelos bens. Pelas inclinações perversas da nossa natureza decaída, temos uma dificuldade para nos conter; pela falta de moralidade do mundo em que vivemos, somos literalmente empurrados ao pecado pela explosão de ofertas de toda espécie, sobretudo dos objetos e aparelhos eletrônicos que invadiram a nossa sociedade.

Se alguém disser, numa roda de amigos, que não se interessa pelo dinheiro, que prefere uma vida modesta, é chamado de louco.

Mas não podemos esquecer o exemplo dado por Nosso Senhor nos Evangelhos, pela vida pobre que viveu, pelo pouco que possuiu, e pela dificuldade extrema que declarou haver para que um rico entre no Céu. A pobreza levada aos extremos é ruim, pois gera a falta do mínimo necessário para se viver em paz e em certa harmonia espiritual e material. Porém, a riqueza posta como centro da vida gera tantas obrigações e falsas necessidades, que o homem perde também a paz, vive estressado e doente, cria inimigos e falsos amigos, e não tem tempo para cuidar da sua salvação eterna.

É preciso ainda saber que muitos homens não levam jeito para lidar com muito dinheiro. Se cada um souber se contentar com aquela vida que parece ser a melhor para si, seguindo os passos da Divina Providência, certamente terá paz mais segura.

 

Vocação religiosa

Um dia alguém recebe de Deus um chamado. É muito difícil haver um chamado para a vocação se a criança não for educada com princípios católicos, em casa, na escola e na faculdade. Sempre que posso eu alerto os pais de família, porque não formaram seus filhos para a vocação. Isso é um problema que vocês vão ter de enfrentar. Por que não formaram seus filhos para a vocação? Porque os formaram para ganhar dinheiro.

Eles os formaram para ter mulheres, viver no prazer ou para o sexo? Não, absolutamente. É verdade que, em geral, foram fracos quando não limitaram o uso da televisão, da internet, as noitadas em ambientes sensuais, atravessando a madrugada, toda essa vida social decadente e imoral que se vê hoje, e que leva ao pecado. Contudo, não foi essa a intenção primeira deles. Tiveram falta de visão? Sim, mas não era essa a intenção. A conseqüência dessa fraqueza é uma vida estéril, vazia, sem busca da verdade, sem amor pela oração, e sem vocações nas nossas famílias da Tradição.

Vocês podem objetar que o mundo é assim, exige que se viva dessa maneira. Respondo: nem tanto, nem tão pouco; é possível conviver com os amigos, jogar bola, se divertir, e não pecar. O pecado é como um muro: podemos chegar bem perto, até bater com a cabeça nele, mas não podemos ir além, senão, não somos homens. O homem quando peca, não é homem. Não tem mais a razão iluminada pela graça, dominando sobre os sentimentos; ele inverteu o seu reino interior e perdeu sua qualidade de filho de Deus.

A vocação é o fruto da presença de Deus. A maioria das vocações é uma graça que Deus dá apesar de o jovem ter vivido dessa forma. Quando há algo dentro do coração do homem que é dócil a esse chamado de Deus, o jovem abandona tudo e segue a Cristo. Mas acontece o contrário, quando há algo que não é dócil, porque preso ao vício, preso aos prazeres, preso ao gosto do dinheiro, preso ao gosto da liberdade. E a vocação morre na esterilidade da semente do espírito.

Eu falei da presença de Deus, de Jesus Cristo. Qual a relação do homem católico com Jesus Cristo, que é homem? É preciso que o católico tenha alguma relação com Jesus Cristo: relação séria, de homem a homem. Às vezes é preciso sentar-se diante de nosso pai, e ter uma conversa de homem a homem, já não mais de criança. O problema é que Jesus virou uma espécie de mito para a gente. Ele está no crucifixo, está no altar. Aos domingos vamos à Missa, comungamos; sabemos mais ou menos que se trata da Presença Real de Jesus, mas não estamos mais ligados a nada. Vocês não têm a seriedade de olhar para Ele e dizer: “Eis O homem”. Tenho de me espelhar n’Ele, Ele é o meu modelo. Tudo aquilo que posso dizer sobre minha virilidade, Ele possui em perfeição. Tudo o que posso dizer sobre meu modo de ser homem, Ele se encarnou para me ensinar. Tudo o que tenho como preocupação de homem, posso falar com Ele, pois serei ouvido. É na Fé, é verdade. Mas é preciso passar pela Fé para podermos ter com Ele a conversa eterna que iniciaremos na porta do Paraíso. Um dia morreremos, e quando isso ocorrer, Ele estará lá, sentado em seu trono. Então, chegaremos. A quem puder olhar nos seus olhos e dizer: –“Senhor, estou aqui. Posso entrar no vosso Reino? Fui fiel para poder entrar, lutei para poder entrar, fiz tudo para poder entrar”, Ele vai olhar nos seus olhos e dirá: “Entre, venha tomar parte no Reino que lhe foi preparado desde o princípio”. Porém, se o homem começar a desviar o olho, a não poder encará-Lo face a face, Ele dirá: “Afaste-se de mim, maldito, e vá para o fogo do inferno”.

Então, estamos na faculdade, na profissão, em casa, estudando, praticamos esporte... Ele tem de ter participação nisso.

Vocês talvez não tenham sido chamados à vocação, mas precisam ter uma relação com Jesus Cristo, como todo católico.

 

O que na educação ajuda a vocação religiosa?

Piedade, honra, Fé, educação, aprender a rezar... O pai deve perder tempo com o filho, saber que não pode ficar pendurado na internet, com seus amigos: ele tem de perder tempo com o filho. A primeira coisa que vão tentar colocar na cabeça de vocês é que ter filhos atrapalha. Todo mundo vai dizer isso para vocês: filho atrapalha, atrapalha o meu projeto de vida. Ora, quem disse que Deus quer esse seu projeto de vida? Você perguntou para Ele? Ele disse que tem de ser assim?

Ter filhos não atrapalha, porque o filho é o fruto do casamento, é a razão de ser da vida familiar. Ter filhos, para um jovem casal moderno, é reverter a situação de decadência, é sermos homens de verdade. Parece que eu avancei um pouco ao falar do casamento, mas não faz mal. Voltaremos a falar no assunto.

 

Esporte

Dentro de tudo isso entra a questão do esporte. É uma questão menor, podemos dizer assim, mas pode ser perigosa. Pode significar saúde e bem estar. Aqueles que não gostam de praticar esporte devem se esforçar para fazer alguma atividade física, porque o mundo moderno corrompe o corpo e a alma; sim, corrompe o corpo também. Não temos medida na comida, não temos medida na bebida. O mundo moderno é profundamente intemperante.

O homem antigo não precisava praticar esporte. A vida já era um esporte: ele cortava lenha, roçava a terra, andava a cavalo, tudo nele era esforço. A vida era um combate físico, de modo que o homem era saudável naturalmente. Hoje, não: o homem fica sentado atrás de uma cadeira, na escola toda, na faculdade toda e também na profissão: computador, computador, computador. Assim, vai atrofiando, desenvolvendo dores, gordura etc. Dessa intemperança pecaminosa surge a grave preguiça, a inversão da noite e do dia, a perda do ritmo natural do sono restaurador.

Mas, além da saúde, existe a paixão. E a paixão vicia, é sentimento sobrepondo-se à razão. Quando o esporte significa uma paixão, ele acarreta muitos erros e faltas, a começar pelos estudos e demais obrigações. O esporte é saudável, é gostoso, mas tem de se tomar cuidado. Outro problema relacionado com o esporte é a vaidade com o corpo. Chega a ser doentio o cuidado que vemos em rapazes ligados ao esporte, ou às academias de ginástica, onde se promove o culto do corpo. Muitos católicos se deixam levar por erros grosseiros como este.

Muitas vezes, por outro lado, encontra-se na prática do esporte a formação do sentido de justiça que pode ser uma virtude. O espírito de sacrifício e de superação também podem estar presentes, assim como o aprendizado da aceitação virtuosa da vitória e da derrota, como vimos na escola. Também podemos ver os jovens desenvolverem as amizades, o sentido da ordem, da hierarquia e da camaradagem.

A piedade muitas vezes cai muito, pode desaparecer por completo. É muito bom viajar com os amigos, competir, mas é preciso lembrar que temos nossas obrigações religiosas. O 3º Mandamento é uma obrigação estrita, e não podemos faltar à missa por causa de uma competição. Quando estamos no meio do mundo, temos obrigação de rezar. O católico tem obrigação de rezar, pois não seria normal estarmos numa casa e nunca nos dirigirmos ao dono da casa. Deus é o Senhor do nosso coração, e devemos todos os dias dar a Ele o nosso tributo de amor, que se manifesta pela obediência aos seus Mandamentos e pela oração.

 

Meu trabalho, minha profissão

A dedicação. Um dia acordamos e estamos formados. Vamos aprender que não podemos fazer somente o que queremos. É preciso acordar cedo. Dedicação. O profissional dedicado vai ser visto pelo patrão, vai buscar a perfeição: não apenas a obrigação, mas o gosto de fazer a coisa bem feita, não pela vaidade.

Cuidado com o comunismo. Aqui o comunismo vai atuar muito forte: virá o sindicato, o Procon, a tentação de tudo resolver nos tribunais. Tentarão impingir nas suas cabeças que o patrão é necessariamente usurpador e mau; o espírito de vingança será a tônica do ensinamento comunista. Todo mundo tem isso hoje no sangue. Somos deformados. Em alguns casos pode ser necessário entrar na justiça, mas em geral, não é esta a atitude de um homem católico. Cuidado com o desejo de se dar bem na vida. Já vi muitos católicos, que freqüentam a Missa, entrarem na justiça contra o patrão. Às vezes o patrão faz algo que não deveria fazer, isso pode acontecer; mas é preciso suportar com paciência muitas injustiças, e a vida continua. Não se pode querer tudo no rigor da justiça, sabem por quê? Porque acabaremos achando que essa vingança mesquinha é o normal da vida, e não saberemos agir de outra forma. Leiam o Evangelho. O que custa todo dia ler um pedacinho do Evangelho? Nele, aprendemos a conhecer esse homem, que é também Deus, e nos ensina a viver como verdadeiros homens. Ora, lá no Evangelho lemos a história do sujeito que devia uma boa quantia, suplicou ao patrão e teve a dívida perdoada. Logo em seguida, esse mesmo homem encontrou um companheiro que lhe devia um valor insignificante, bateu nele e o colocou na prisão. O patrão, ao saber disso, chamou-o e disse: “Eu não perdoei a sua dívida, que era muito maior? Por que você não teve misericórdia com ele?”. Eis o Evangelho, e ele é contra o sindicato, contra o comunismo, contra esse mundo de aproveitamentos mesquinhos em que se vive hoje.

Qual a finalidade da profissão? Subsistência, viver, comer; isso significa ganhar dinheiro. Agora, esse dinheiro é diferente daquele outro. Isso aqui é nossa obrigação: é preciso ganhar dinheiro. E esse dinheiro precisa ser ganho com a razão dominando os sentimentos.

Existe ainda outro ato de justiça nosso para com o patrão. Quantas tentações as pessoas têm de roubar. “Não faz falta, não”. Ora, não faz falta, mas não é seu. É preciso manter a seriedade da propriedade. Nosso Senhor vai pedir contas disso. Vocês sabem que quando alguém se confessa de furto, o padre explica ao penitente sobre a obrigação da devolução. Não basta se confessar, é preciso devolver; a justiça de Deus o exige.

Por outro lado, pode acontecer de um católico se deparar com alguma exigência contrária à moral ou à fé. A alma católica precisa ponderar com cuidado, pedir conselho, e uma vez ficando estabelecido que aquele ato é, em si mesmo, um pecado, conversar com seus chefes e explicar sua dificuldade de consciência. Atos ilícitos com contratos, favorecimento de abortos, e outros tipos de exigências não podem ser realizadas.

Por fim, é preciso considerar que o mundo moderno levou o homem a divinizar o trabalho, talvez por causa do apego exagerado, que ele mesmo criou, ao dinheiro. O fato é que muitos pais de família negligenciam o tempo que deveriam dedicar aos filhos e à esposa, para ganhar mais dinheiro. Muitas vezes até mesmo o descanso dominical e a missa ficam relegados a segundo plano. Somos levados insensivelmente a considerar as obrigações familiares e religiosas como algo secundário, como um peso e um estorvo para a nossa vida. Para aprofundar essa noção, recomendamos a leitura do artigo “A Casa”, de Gustavo Corção. Tenhamos um grande apego às nossas famílias. O ambiente familiar deve ser de tal forma preservado que a volta para casa seja sempre acompanhada de alegria e de repouso. O mundo moderno empurra o homem para fora de si mesmo, para a perda da vida interior, ao mesmo tempo em que o empurra para a rua, para o exterior da sua casa, do seu casulo onde são alimentadas as amizades profundas e a piedade.

 

Casamento

Eu digo para vocês que não são homens, também por causa da relação que têm com a mulher. Dirão vocês: “É o contrário. É por isso mesmo que somos homens: é natural ao homem buscar a mulher”. É verdade, mas quando nessa busca deixam que imperem os sentimentos, a coisa se complica, porque gera o pecado.

A mulher, em princípio, é a companheira. Adão procurou, entre todos os seres, uma companhia para si e não a encontrou. Deus, então, tirou a costela de Adão e fez a mulher. Adão reconheceu em Eva o osso dos seus ossos, a carne da sua carne. Chamou-a de mulher da sua carne. Virago. “Vir” significa homem, em latim. Aquela que veio do homem.

Ela é complemento, porque de fato preenche a vida do homem. E esse complemento começa como uma fortaleza que deve ser conquistada. A relação do homem começa com uma conquista, e não é qualquer mulher que deve ser conquistada.

Que significa conquistar uma mulher? Para quê? É uma ordem da natureza a conquista da mulher, para que ela seja companheira, para que ela seja o complemento. Por causa dessa finalidade, a fortaleza deve ser vencida e conquistada. Esse ímpeto que conduz o homem à conquista do seu castelo é o amor.

O que o mundo moderno faz neste ponto, esse mundo sem lei e sem honra, é viver de paixões, extravasar as paixões na busca da mulher. Isso não é o verdadeiro amor, que está na formação de uma companheira, de um complemento. Porque uma coisa é a conquista de uma fortaleza – lugar forte, estável, definitivo – outra coisa é possuir um “carrinho de mão”.

Uso aqui a figura de um carrinho de mão para mostrar a instabilidade, a coisa cambiante e cambaleante.

A mulher de hoje, que é conquistada pela juventude, é “carrinho de mão”. Tem rodinha. Rotatividade. O verdadeiro amor só pode ser por uma fortaleza, que se conquista para ser sua, para ser sua morada e seu domínio. Aparece aqui a veracidade desse bem do casamento, tal como Deus o instituiu no Paraíso, que é a indissolubilidade. Todo casamento é indissolúvel, porque é a conquista de uma fortaleza amada, que se tornou sua morada definitiva.

Como se realiza essa conquista? Vocês sabem muito bem que no passado, no regime de casamento natural, ele passava a existir a partir da união carnal. Se um homem e uma mulher tiveram relações, consideravam-se casados. Nós, católicos, batizados, temos um sacramento. O sacramento do Matrimônio gera uma graça sobrenatural que sela a união do casal. Nosso Senhor instituiu um sacramento próprio para isso, próprio para o amor, próprio para o sexo, próprio para a conquista da fortaleza. É um sacramento, e se é assim, se é um sacramento, se a conquista da fortaleza vem pela graça, olhem então para Jesus Cristo e perguntem se vocês podem namorar como o mundo hoje namora. Vale a pena fazer isso? Essa é a questão: Perguntem a Jesus Cristo. Vocês não estão sendo homens quando levam uma vida de pecado, quando se entregam a qualquer coisa. Vocês têm uma casa para formar. Não percebem que tendo com a mulher uma relação banalizada, estão destruindo essa fortaleza? Não estão considerando os fundamentos da sua casa futura? A mulher que não é a fortaleza a ser conquistada, é casa sem muralha, é porta aberta, onde os homens entram e saem ao sabor das paixões e sentimentos.

Os jovens de hoje diminuem tudo quando não percebem que a mulher é a porta aberta ao pecado. Vocês vão ter de criar um casulo, criar asas coloridas, como a borboleta. Quando um homem se une a uma mulher, ele a possui. Mas isso não acontece nesses namoros sexuais modernos. Ele a levou para casa? Vai dar comida para ela? Vai ter filhos com ela? Claro que não; então, eles não possuem a mulher, não é amor verdadeiro. Não tem Jesus Cristo. Não tem finalidade.

E eu já ouço a resposta: “Ah! Mas eu a amo”. É claro que ama! Qualquer homem ama uma mulher que está em seus braços. Mas não é o verdadeiro amor. É um amor de sentimento, uma paixão que une a carne, mas não é a conquista de uma fortaleza. É a conquista de um carrinho de mão. Um a mais, na coleção dessa falsa virilidade.

Quando isso é feito com a finalidade própria, então a razão domina sobre os sentimentos. O homem possui a mulher nesse sentido profundo de que falei, e o sentimento de posse é verdadeiro. Há uma falsa posse no sentimento que vem a um homem quando tem relações com uma mulher que não é a sua esposa, que não é a sua escolhida, a sua companheira conquistada.

O mundo da Revolução em que vivemos propaga que, quanto maior o número de mulheres com quem um homem tem relações, mais viris são. É o contrário disso: eles são menos homens. Qual a mulher que quer hoje ser possuída? Pergunto aos que têm condições para já estarem casados: Por que até hoje não se casaram? Porque a mulher não quer. Ela tem profissão, ela quer se formar, quer manter sua liberdade. Então vocês não as possuíram. Na hora que vocês conquistarem a fortaleza, a mulher se entrega, e ela só quer uma coisa: ser do homem. E aí ela se casa. Hoje em dia ninguém se casa por causa disso. Não existe o verdadeiro amor. Portanto, não existe verdadeiro sexo. É tudo uma enganação, um prazer passageiro e egoísta. Não é posse, não é a conquista da fortaleza. Isso tem de ser visto, isso precisa ser analisado de modo muito profundo diante de Jesus Cristo.

A formação da família passa por essa crise profunda, em que a mulher se igualou ao homem na busca de uma profissão, no dinheiro que quer ganhar, deixando de lado o maior bem que é a maternidade e a transmissão aos filhos do caráter e da honra, que é a verdadeira educação. Quando ela considera o casamento um bem para si mesma, une-se de modo instável ao seu namorado, considerando mais a manutenção da sua vida própria do que a doação de si mesma ao seu marido. Ele, por sua vez, deformado pela falsa ideia de masculinidade que lhe passaram, não saberá viver como verdadeiro homem. Os dois terão diante de si o desafio de voltar à casa, e nem sempre saberão como realizar este retorno.

 

Voltamos à casa

Tudo começa dentro de casa, para a criança que se tornará um homem adulto. Após todas as etapas que procuramos analisar, voltamos à casa, à nova casa criada pelo casamento. Ao longo da vida de criança até alcançar a idade adulta, a grande questão será a formação da cabeça do homem. É aqui que eu queria chegar. Toda esta conferência foi feita para analisarmos como os homens, hoje, iniciam sua vida de casados. Vocês não são homens porque a cabeça de vocês é deformada. Não sabem mais possuir. Digo isso porque, quando chegam na casa, não são chefes, não são autoridade, não são pais. Continuam sendo garotos mimados, egoístas, agora em disputa com a mulher para ver quem, no igualitarismo moderno, vence a queda de braço.

 

Qual a característica de um chefe em casa?

Em primeiro lugar, o papel do chefe da casa é comandar a sua casa, amar sua esposa, educar seus filhos. Em seguida existe a grande obrigação de dar subsistência à casa. Que a mulher ajude nesse ponto, como o homem ajuda a cuidar dos filhos, entende-se, apesar de que deve haver um esforço da sociedade familiar para proteger e priorizar a permanência da mãe junto a seus filhos. Que o homem se lembre de que cabe a ele essa obrigação, e a ela a obrigação própria da maternidade. Um primeiro ponto muito importante para a boa formação do lar é a harmonia das tarefas e das funções.

O pai precisa saber que ele dominou, ele conquistou a fortaleza, ele adquiriu a autoridade. Essa autoridade não significa que a mulher não seja companheira dele. Os dois se completam, mas não como duas peças de uma máquina. A vida da esposa é, ao mesmo tempo, complementar e subordinada à vida do marido. A analogia que poderíamos tomar seria a relação entre a cabeça e o coração. Um não vive sem o outro, mas a cabeça é mais do que o coração. Nela reside a inteligência, o conhecimento e a visão. Sem o sangue bombeado pelo coração, a cabeça morre, mas sem a cabeça, a bomba de sangue não serviria para nada. Essa harmonia está na essência da casa, ela é muito mais do que uma harmonia de agir, de bom entendimento entre os dois. A essência da família está nessa relação de autoridade e de subordinação. Ela é bela e profunda e o casal ganharia muito se compreendesse a riqueza que existe nesse fundamento espiritual da família.

Os dois mandam nos filhos, os dois têm autoridade sobre os filhos, mas entre os dois existe uma hierarquia. Ele é o chefe da casa, mas o homem de hoje não sabe mais ser chefe, ser cabeça. Não foi formado dentro dessa perspectiva. As mulheres trabalham, estudam, têm altas posições nas empresas, e quando chegam em casa não sabem mais se posicionar diante do marido. A mulher enfrenta o marido porque tem vontade própria. O marido reclama da mulher porque tem suas atividades próprias e a casa atrapalha. O filho enfrenta os pais. Tudo é invertido.

Então, o sujeito chega com a noiva para se preparar para o casamento (muitas vezes já vivem como marido e mulher). O padre explica “Adão e Eva... Pecado Original... Deus deu Eva para Adão... instituiu o casamento natural... Jesus Cristo elevou o casamento ao nível de sacramento, um ato sagrado... formação da família”. Casam-se, e logo começa a briga. “Eu quero isso”, “eu quero aquilo”, “eu quero assim”, etc. Perdeu-se a ordem das coisas. O homem com seus sentimentos, vontades e gostos; e a mulher, com seus sentimentos, vontades e gostos vão fazer uma mistura. Casamento hoje é mistura. Na hora em que os sentimentos, vontades e gostos do homem não derem certo com os da mulher – porque sentimento, vontades e gostos são coisas que variam – acaba o casamento. Não é isso o casamento. Casamento é passar por cima dos sentimentos, vontades e gostos porque existe algo chamado família, e família é mais do que o homem e mais do que a mulher. Existe um bem comum, e esse bem comum o homem tem obrigação de preservar. Ele, em primeiro lugar, porque é o chefe: Deus vai lhe pedir contas do que fez com sua família. Se Deus instituiu a reforma da razão sobre os sentimentos por meio do sacramento do Matrimônio, é porque Jesus Cristo tinha, para com a família, algo de muito forte, e confia ao homem algo que é d’Ele: “Eu te dou esta família, homem, chefe, para você cuidar, para propagar o gênero humano, para levar isso adiante, até o dia em que Eu tenha a corte celeste completa e acabe com esse mundo passageiro, para todos viverem na glória do Paraíso, enquanto os pecadores irão para o inferno”. Jesus Cristo tinha uma intenção muito forte, e Ele põe isso na mão do homem, na chefia da família. O homem esqueceu que ele tem essa responsabilidade. Hoje é tudo vivido no mesmo nível, no igualitarismo. Ouvem o que o padre tem para dizer, a doutrina bimilenar da Igreja, mas não sabem pôr em prática, porque o mundo não deixa. A mulher também não sabe mais o que significa essa subordinação, revolta-se contra ela como se trabalhar num escritório ou num projeto qualquer também não lhe trouxesse submissão às autoridades. Perdeu a noção de que, subordinada àquele que ama, àquele que a ama, e voltada para o bem dos filhos a quem deu à luz, viveria mais feliz do que no deserto de um mundo cruel e implacável. Como disse Gustavo Corção, elas acharam mais interessante arrumar um fichário do que arrumar a gaveta do armário.

Esta situação significa um desequilíbrio grave nas forças naturais da sociedade, no fundamento da família. O convívio dos meninos com meninas da mesma idade, continuando na adolescência e na juventude alterou completamente a relação entre os dois sexos. A saudável diferença de idades que existia antigamente, quando as mulheres casavam-se com homens mais velhos, desapareceu quase por completo, pois o convívio diário atrai os jovens da mesma sala da escola ou da faculdade. Como a psicologia da mulher é mais amadurecida do que a do homem, elas acabam tendo mais dificuldades para a função que lhes é própria na hierarquia da família, enquanto os homens se acomodam, sem perceber, numa confortável dependência da mulher mais madura do que eles.

Jamais a humanidade conheceu época tão desequilibrada como a atual. O meio século que nos separa do final da 2ª Guerra Mundial abriu um abismo entre o mundo moderno e o anterior. Estamos em uma nova civilização que já não tem mais nada de cristã. Está destruída a família, está destruído o homem e também a mulher. Este novo mundo é formado por uma geração de homens que perderam a noção da fortaleza própria do homem; uma geração de mulheres que perdeu o gosto pela maternidade e pela grande aventura de educar filhos, para que recomecem, mais tarde, o ciclo da vida social, pela fundação de uma nova família.

Os católicos podem resistir a essa destruição. Mesmo não tendo mais o Evangelho como critério da civilização, podemos mantê-lo como critério das nossas casas, da educação dada aos filhos, das escolas que possamos fundar e do mundo empresarial que consigamos formar.

No final da nossa formação, recomeçamos todo o processo: casa, escola, faculdade, vocação, esporte, profissão... Mas agora são vocês, e não seus pais. São vocês com suas esposas e com os filhos que vieram do casamento. Porque vocês souberam ser homens, souberam vencer o mundo, reverter a situação que o mundo trouxe para a vida de vocês.

Então, vocês vão viver a vida sabendo que têm uma finalidade, que é assumir o turno de vocês na construção da civilização cristã.

Essa é a realidade em que se vive hoje. Pensem nessas coisas e considerem isso de um modo profundo na vida de vocês. Não sei se tem solução para toda a sociedade, pois isso depende de um milagre, e nem sempre os homens merecem os milagres. Mas certamente existe uma solução pontual para cada um de vocês. Basta que procurem voluntariamente a formação necessária e a vida virtuosa que, só ela pode nos dar a graça divina necessária para a restauração do homem ainda nessa vida, e a conquista do céu, na vida eterna.

  1. 1. S. Paulo Rom, VII, 19.. E mais adiante o Apóstolo completa: “Mas vejo nos meus membros uma outra lei que se opõe à lei do meu espírito” Idem, VII, 23.
  2. 2. Gn 3, 17

Burguês, mundano e soberbo

Dom Lourenço Fleichman, OSB

A Permanência nasceu das aulas de Gustavo Corção. Nasceu da necessidade de dar continuidade ao trabalho de formação intelectual iniciado no Centro Dom Vital, onde Corção ensinou a doutrina Tomista durante muitos anos. Da decomposição dos princípios e intenções do seu fundador, Jackson de Figueiredo, devido às inclinações marxistas do então presidente, Alceu Amoroso Lima, não restou outra solução a Corção e a seus alunos senão abandonar aquele alto lugar de estudos católicos. Estávamos em tempos do Concílio Vaticano II. Alguns anos mais tarde seria fundada a nossa Permanência. Tinha sede em Laranjeiras, onde o Cardeal Dom Jaime Câmara celebrou a missa inaugural, em 29 de setembro de 1968. Os trabalhos foram iniciados com o lançamento da Revista Permanência, modesta no tamanho, grande no conteúdo, e que levou a todo o Brasil ao longo de 22 anos, a doutrina da Tradição católica, segura, apaziguadora, infalível. Como nossos leitores sabem, retomamos a publicação da Revista no Natal de 2011.

No último mês de novembro foi realizada numa fazenda perto de Taubaté, S.P., a Jornada de Formação, organizadas pela Fraternidade São Pio X, com a colaboração da Permanência, e que reuniu cerca de oitenta pessoas, entre jovens e adultos. O tema desse ano foi, justamente, a formação intelectual do católico, seus estudos, a necessidade de se aprofundar o catecismo para respondermos aos questionamentos constantes das pessoas que nos cercam, no trabalho, na escola, nas ruas da cidade.

As conferências estiveram a cargo dos padres que trabalham no Brasil, mas foram enriquecidas pela vinda do Pe. Alvaro Calderón, professor no Seminário N. Sra Corredentora, em La Reja, Argentina, um dos principais teólogos da Fraternidade S. Pio X.

Sua conferência tratou de interessante paralelo entre as quatro Notas da Igreja, Una, Santa, Católica e Apostólica, e a família católica. Por esta analogia mostrou com clareza a diferença entre a família católica e a família liberal.

Se nossas famílias da Tradição não estiverem atentas com o modo de interagir com o mundo liberal, serão contaminadas e porão em risco os fundamentos da sua essência, perdendo, em seguida, o caminho para alcançar o seu fim último, que é a salvação dos seus membros.

Para evitar a contaminação com o espírito liberal e os erros modernos, devemos considerar com toda a atenção o que está acontecendo hoje com a humanidade, em termos civilizacionais.

No seu livro Dois Amores Duas Cidades, Gustavo Corção explica o aparecimento, no século XIV, do principal personagem dos tempos modernos, após a quebra da Idade Média católica:

“Entra em cena agora o personagem que desempenha o papel mais importante dos tempos modernos; ou melhor, o personagem cujo tipo, cuja índole, cujos códigos, em resumo, cujo espírito constitui um dos mais característicos fatores da nova civilização. Trata-se do “burguês”, que é o invasor dos tempos modernos pelas forças da Renascença e da Reforma, como os bárbaros foram os invasores do Império Romano. (...) Queremos dizer que surgiu um novo ideal coletivo, que diferenciou-se um novo super-ego, ou que ascendeu ao firmamento da mitologia do tempo um novo arquétipo.” 1

A força civilizacional do espírito burguês, característica da quebra da civilização do homem interior, do homem católico, produziu a civilização do homem exterior, do homem moderno, como explica Corção. Esse homem burguês produzirá na sociedade uma vida voltada para o enriquecimento e para a boa aparência; a moral burguesa estabelecerá suas regras de conduta, seu comportamento estereotipado, rígido e falso, isento de Deus, mas ainda envolvido em um ambiente estoico de domínio de si e desprezo das fraquezas humanas.

Mais tarde, nos séculos XVIII e XIX, o espírito burguês não conseguirá mais manter as aparências de uma falsa moralidade sem Deus, e deixará transparecer sem maiores escrúpulos o mundanismo sensual que culminará, no final do século XIX, na manifestação de homens importantes da cultura e da política, mergulhados no homossexualismo e no adultério generalizado.

Apesar da reação antimodernista de São Pio X e do crescimento, na primeira metade do século XX, do catolicismo tradicional, a Revolução triunfou no Concílio Vaticano II, derrubando as muralhas espirituais e morais que a Igreja Católica representava na tentativa de manter viva a Civilização Católica Ocidental. Ainda não se conseguiu medir com precisão a gravidade e o alcance civilizacional dos desmandos dos papas e bispos que atacaram com força total a Tradição da Igreja, precipitando-a na mais grave crise de toda a sua história, e abandonando seu papel de represar a decadência da humanidade caminhando para o inferno.

Mas o tempo passa inexorável e insistente, deixando para trás os séculos que se reputavam grandiosos e inovadores. O novo século, o nosso eletrônico e digital século XXI, modificou profundamente o homem em seus interesses e em seu comportamento.  Deu a ele ferramentas novas que moldaram a humanidade no que talvez seja seu derradeiro estado.

O espírito burguês surgido no século XIV iniciou uma civilização fundada na concupiscência dos olhos, na busca das riquezas e das aparências enganadoras; mesmo as grandes navegações, que tanto nos encantam por diversos aspectos, não deixaram de ser uma busca intensa pelas riquezas do oriente e pelas novidades do mundo lá fora. Mercantilismo dominante, produção do dinheiro e aparecimento do Capitalismo materialista, que mistura à liberdade própria do espírito humano, a ganância das paixões isentas da Lei de Deus.

O enriquecimento brutal das nações não podia deixar de ser seguido por certo conforto e deleites da vida. O espírito mundano será um passo a mais, a conseqüência natural do dinheiro fácil. Por isso a civilização nova será movida agora também pela concupiscência da carne.

Nesse início de século XXI, estamos assistindo ao aparecimento de um novo homem, de uma nova civilização, ou, se preferirem, do acabamento dessa civilização moderna iniciada há mais de setecentos anos atrás. Depois de estabelecer na cultura e nas artes, nas casas e nas tabernas, nas cidades e no campo, um mundo marcado pelas riquezas e pelos prazeres, o homem respira, hoje, por todos os poros, a soberba da vida; a última concupiscência que faltava como força de civilização, como preparação para o Anti-Cristo. Com ela termina a formação desse homem sem Deus, sem família, sem Pátria.

Este é o principal aspecto do que estamos vivendo hoje. Impregnou-se nas almas uma nova mitologia, como falava Corção acima; não mais homens isolados que vivem do orgulho ou do egoísmo, mas a própria civilização que erigiu a soberba da vida como sistema, completando assim o quadro em que aparece o Adão terminal, o terceiro Adão, o autor do que Corção chamou de “pecado terminal”, fonte do século do desamor.

Esta civilização fundamentada no Amor-próprio, depois de ter desviado seus olhos e interesses das coisas do alto para buscar as riquezas da terra; depois de ter desviado seus atos da fortaleza e pureza da vida para mergulhar nos prazeres da carne, volta-se agora para a destruição de toda e qualquer autoridade, para o achincalhe do 4º Mandamento.

“Vêem-se tendências contestatárias, torrentes de recusa e de protesto atiradas contra o passado, contra a tradição, contra o pai. As novas gerações são solicitadas a manifestarem sua maioridade com a bofetada na mãe e a morte do Pai”...

“O mundo moderno, nos seus pruridos revolucionários, é anticristão porque é todo orientado por uma soberba rejeição do Pai. E para maior escárnio inventaram uma fraternidade revolucionária baseada na decapitação do Rei, já que não tinham à mão a própria cabeça do Pai que está no Céu.” 2

No advento das grandes Revoluções, o desprezo pela autoridade do pai era assunto dos salões e dos livros de filósofos iluministas; tornou-se lei quando os revolucionários ocuparam o poder; hoje está presente no ar que se respira e ocupou as almas de modo universal. Mesmo nas melhores famílias católicas, formadas em torno das Capelas tradicionais, reina este espírito de soberba que se manifesta pela completa autonomia de pensamento, de decisões e de gostos.

Jovens dos dois sexos, às vezes crianças, adultos e velhos, todos partem do princípio de que cada um tem sua opinião, que todos têm o direito de manifestá-la livremente, e que as tradicionais instituições reguladoras e orientadoras das almas: a família, a paróquia, a escola, já não podem mais se manifestar.

O amor-próprio manifesta-se, em primeiro lugar, na nossa inteligência, estabelecendo o reino da opinião. Seria útil que o leitor retorne à leitura de alguns capítulos do livro A Descoberta do Outro, onde Gustavo Corção explica o processo da opinião na alma humana. A inteligência fica cega e não consegue enxergar a verdade.

Em seguida, o amor-próprio age na nossa vontade inclinando-a a tomar decisões baseadas em suas próprias opiniões, causando equívocos e erros difíceis de serem revertidos.

Finalmente, o amor-próprio excita nossa sensibilidade, causando paixões exageradas que nos impedem de perceber o erro das decisões da vontade e o vazio da argumentação das opiniões.

Os prodígios do Anti-Cristo foram então oferecidos a esta geração, filhos do orgulho. Abriu-se para o homem atual grande quantidade de ferramentas modernas, digitais, suficientes para que a civilização da soberba se manifestasse de modo integral e completo. Esse ambiente generalizado de blogs e facebooks era tudo o que o homem dessa civilização precisava para vomitar suas opiniões sobre tudo e sobre todos.

Não há mais regras, não há mais leis, não há mais espírito de obediência ou de humildade. Cada um encontra em sua casa, em sua vida, no trabalho ou na condução, o meio de estar conectado em tempo integral, ocupando sua mente e seus interesses com o mais superficial, raso e vazio oceano de mediocridades. Sente o prazer irresistível da força fictícia e enganadora, da aparência de autonomia de pensamento, de liberdade de escolhas, de impressão de erudição, falsa cultura de uma alma inebriada do seu próprio nada.

Trazemos um exemplo marcante ocorrido recentemente no ambiente da Tradição e que ainda incendeia as almas. Advertimos o caro leitor para o fato de não estarmos ocupados com o mérito da questão, mas tão somente com o método adotado pelo homem do orgulho e da soberba no caso vertente. Pela primeira vez desde a sua fundação, a Fraternidade São Pio X atravessou uma crise interna sem ter conseguido guardar um único segredo. Diante da exposição constante na internet, dos mais sigilosos documentos, se enganaria o leitor que imaginasse a existência de um sussurro que fosse, soprado ao pé do ouvido, e que não tivesse sido revelado. Não houve. Como se a casa de Monsenhor Marcel Lefebvre tivesse virado um botequim ou uma rua de vila, tornou-se proibido guardar segredo; uma espécie de “permissão” parecida dada para que cada um tirasse suas conclusões apressadas, totalmente fora do alcance de qualquer autoridade sobre esta terra, e mesmo no céu.

Não é difícil entender por que este ano ficou famoso pela enxurrada de falsos doutores, cada qual ocupado na estranha tarefa de tornar pública e notória sua própria opinião, exposta na vitrine da internet de blogs e facebooks. Em cada um desses casos não se encontra nenhum vínculo verdadeiro com uma autoridade qualquer. Ei-lo o homem pós-moderno, o homem sem limites, sem leis, sem freios. Desembestou pelas ladeiras e curvas desse mundo e já não consegue mais parar. Em algum lugar será encontrado meio morto, levado pela fúria do seu falso saber, enganado por suas próprias decisões. E quando um anjo se aproximar, ouvirá da sua boca cheia de terra, num último sorriso, a confissão do seu pecado: “eu sou um gênio”.

A alma que se conhece a si mesma se humilha. Nada vê, com efeito, de que possa se orgulhar. Ela alimenta dentro de si o doce fruto de uma ardente caridade, conhecendo nela a bondade sem limites de Deus.” (Santa Catarina de Sena, Carta ao Papa Gregório XI)

A humildade recomenda a pequenez dos meios, sem recomendar a pequenez dos fins. Quanto aos fins, é tão magnânima como a magnanimidade. Santa Teresinha do Menino Jesus escolheu a pequena Via, porque queria ir mais longe e mais alto” (Gustavo Corção, Dois Amores Duas Cidades, Vol. II, parte I, cap. 3, pag. 109-110)

 

(Editorial da Revista Permanência 268)

  1. 1. Agir, Rio de Janeiro, 1967. Vol. II, Parte II, cap. IV, pág. 172-173
  2. 2. Gustavo Corção, artigo O Quarto Mandamento, Revista Permanência nº 59, set. 1973, pág. 11
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