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Índice de autores

O massacre de Katyn

Gustavo Corção

 

Há uma certa faceta de humor negro na ingenuidade com que os jornais da semana passada publicaram, como sensacionais, as declarações de um judeu, Abraão Vidro, difundidas por um jornal de Israel, sobre o já tristemente famoso massacre de Katyn. Ou então haverá mais um exemplo da universal conjuração organizada para inocentar os comunistas dos crimes de guerra. Há realmente uma misteriosa conspiração que não somente exalta o papel dos comunistas na guerra como também esquece seus crimes mais clamorosos.

No caso presente o obscurantíssimo autor destas mal traçadas linhas pode lembrar que anos atrás já escreveu nestas mesmas colunas sobre o horroroso massacre de 12.000 oficiais poloneses fuzilados pelos russos em abril de 1943, e enterrados no bosque de Katyn. É portanto bem antiga a novidade da declaração sensacional de Abraão Vidro, mas nunca é demais insistir nas façanhas praticadas pelos soviéticos na II Guerra.

Mais recentemente, no decurso dos estudos que andei fazendo para um livro que está quase terminado, descobri num livro de René Pellerin, intitulado Un écrivain nommé Brasilach, não apenas a maravilhosa figura de Robert Brasillach como também sua reportagem verdadeiramente sensacional publicada em 9 de julho de 1943, no hebdomadário Je suis Partout, com o título J’ai vu les fosses de Katyn.

Nesse tempo a França estava parcialmente ocupada pelos alemães e em estado de armistício assinado pelo Marechal Pétain. Brasillach combatera corajosamente em defesa de sua pátria, mas logo após o armistício e a liberação dos primeiros prisioneiros voltou a Paris e abertamente aceitou o governo de Vichy, que todos os bispos da França apoiaram, e repeliu sempre, como escritor, o fantasioso governo da França Livre que na verdade só existiu para efeitos publicitários, para acrescentar à cruz de Winston Churchill a Cruz de Lorena, e para trazer um bálsamo ilusório às chagas do patriotismo francês tão duramente humilhado. Lembro estas coisas para frisar que a posição de Brasillach era perfeitamente admissível e normal, embora o mundo inteiro tenha sido condicionado durante anos para achar que traía a França quem ficasse com Pétain e desprezasse De Gaulle.

Mas voltemos ao bosque de Katyn que Brasillach viu e cheirou. Sim, cheirou. Mais da metade do artigo publicado em Je suis Partout se detém no intolerável cheiro que o tomara de chofre como primeira e inesquecível impressão. O chofer do carro em que viajava prevenira-o e fizera este reparo: depois da primeira visita a Katyn passara dois dias sem conseguir comer. E era um homem rude, que fizera a guerra.

“Cheiro maciço, cheiro negro e azedo, inesquecível cheiro de carniça. Algo de ainda vivo e animal longamente apodrecido naquela terra que não devora logo os cadáveres. Eles lá estão, apertados, compactos, e deles sobe esta coisa que poderíamos delimitar em seus contornos, que quase poderíamos pegar e sentir o seu peso.... Ah! Eu gostaria de fazer um pouco desse cheiro atravessar a fumaça do incenso e chegar às narinas dos arcebispos bolchevizantes...”

Brasillach pagará caro por esse artigo imprudentemente escrito em 1943. O moço transbordante de vida generosa, o poeta admirável e o admirável patriota que vivera sempre enfrentando a morte, na guerra espanhola e depois na guerra contra Hitler em defesa de sua pátria, nunca soube agasalhar-se e precaver-se. Quando a derrota de Hitler se delineava claramente, e finalmente quando De Gaulle recebeu, dos norte-americanos, Paris libertada e intacta, numa bandeja, e agradeceu aos russos, e mais tarde conseguiu convencer o tolo mundo inteiro de que fora ele próprio o libertador de Paris, Brasillach esteve sempre a denunciar o impostor e a caricaturar a Resistance onde se iniciou o concubinato dos católicos com os comunistas.

Seus amigos tentaram convencê-lo da necessidade de fugir para a Suíça. Providenciaram todos os papéis, mas Brasillach não quis deixar sua mãe, sua irmã, não quis deixar a França. Consentiu em esconder-se, mas aquela raça de franceses que, no dizer de Bernanos, não conseguiram mortos estrumar a terra que vivos não souberam defender, pôs em prática um infalível expediente para pegar Brasillach: prenderam sua mãe, como refém. No dia seguinte, Brasillach apresentava-se e era preso, e logo condenado como traidor da pátria pelos comunistas, judeus e democrata-cristãos comunizantes.

*  *   *

É preciso lembrar o bosque de Katyn onde os soviéticos deixaram um sinal que será encoberto, apagado, mas inexoravelmente de tantos em tantos anos voltará para esclarecer não apenas o martírio da Polônia, como também para relembrar o que aconteceu num governo francês comuno-católico: 110.000 franceses foram sumariamente condenados como colaboracionistas, e executados. Muitos por terem recusado atos de sabotagem de serviços públicos exigidos por grupos da Resistance. Entre esses 110.000 franceses assassinados durante a Épuration brilhará sempre a figura de Robert Brasillach que, em face da morte, na prisão de Fresnes, deixou escritos poemas de peregrina beleza, com que a verdadeira França respondia à França do pacto franco-soviético. Sim, no mesmo ano que Brasillach morria fuzilado como traidor, os intelectuais de gauche cantavam hinos à U.R.S.S. que os libertara, e Georges Bidault dirigia a Mesdames et Messieurs um discurso em que comunicava o pacto franco-soviético, simétrico daquele que anos atrás Molotov e Ribbentrop assinaram.

E o Tribunal de Nuremberg? Ah! Sim. Houve um tribunal de Nuremberg contra os crimes de guerra. É preciso lembrar o Tribunal de Nuremberg; é preciso relembrar que na primeira sessão desse tribunal, com a cumplicidade dos norte-americanos, ingleses e franceses, e sob A PRESIDÊNCIA DE UM GENERAL SOVIÉTICO, foi escamoteado e arquivado o dossiê do Massacre de Katyn.

 

(O Globo, 31/07/1971)

O cristianismo que não morrerá

Gustavo Corção

As reflexões que no artigo de quinta-feira andamos fazendo, despertadas pela releitura de uma página de Chesterton, levam-nos à conclusão de que haverá arrefecimento do cristianismo todas as vezes que os homens se afligirem, se envergonharem ou se cansarem de o sentir tão incôngruo em relação ao curso da história, e daí tirarem a intenção de afeiçoá-lo àquele andamento.

A crise de nossos dias, a mais ampla e profunda de toda a história da Igreja, começou por um propósito de aggiornamento. O cristianismo estava envelhecido, a Igreja esclerosada, e o bravo mundo moderno passou a interessar-se prodigiosamente por sua renovação. Reformas... reformas... reformas... O pastor anglicano John Robinson, que andou por aqui a fazer conferências, escreveu um volume inteiro para explicar que hoje, na era espacial, não é possível ter a mesma idéia de Deus “fora de nós” tida e mantida pelos antigos. Eis o que diz na tradução portuguesa esse tipo bem representativo de nossa época: “Enquanto não tinham sido explorados, ou era possível explorar (por meio de radiotelescópios, se não com foguetões) os últimos recantos do Cosmos, ainda se podia localizar Deus mentalmente nalguma terra incógnita. Mas agora parece não haver lugar para Ele, não apenas na estalagem, mas em parte alguma do universo: é que já não há lugares vazios.”

É difícil, em tão poucas linhas, dizer mais densa coleção de asneiras sobre a presença de Deus que, para esse notável anglicano, ao que se vê, sempre esteve no limbo das primeiras imagens infantis. O reverendo (que o Prof. Cândido Mendes Almeida importou quando por aqui é abundantíssimo o similar nacional), fascinado por leituras de vulgarizações, e esquecido da presença de Deus em todas as coisas como causa primeira, e como sustentador de todas as existências, pensa que o homem já explorou todos os recantos do universo!

O leitor encontrará no livro Progresso e Progressismo, AGIR, p. 130, e seguintes, considerações mais desenvolvidas sobre o autor anglicano e sua obra Honest to God que foi best-seller em vários idiomas.

No momento quero deter a atenção do leitor diante deste bonzo “a atualidade” que tem mais adoradores do que todos os Budas do oriente. Passou pelos seminários, pelas salas de capítulo, pelos claustros mais serenos e austeros um frenesi de atualização, um furor indecente de se prosternarem todos diante de um Hoje tornado suprema divindade. Ninguém percebe, nem tenta demonstrar as vantagens da substituição de tais fórmulas por tais outras. Não são mais claras, não são mais belas, mas são reformadas e nisto consiste sua suprema nobreza.

***

Há mil maneiras de tentar banalizar o cristianismo. A mais ampla mas também mais humilde e mais triste é aquela produzida pelo fato de não sermos santos, ou de serem tão poucos os que realizam desde já, aqui e agora, ao menos em algumas cintilações, a maravilhosa e permanente novidade que é Cristo Jesus; mas a mais espessamente estúpida é aquela que, não vendo a supernal, a transcendental Novidade, quer submeter o cristianismo à tirânica frivolidade das pequeninas coisas novas com que o homem tece e borda sua frágil atualidade que já nasce em processo de envelhecimento.

Nunca se falou com tanto garbo no “mundo moderno” e em suas terríveis exigências, mas ninguém se dá ao cuidado de especificar essa modernidade, nem ao cuidado de esconder suas espetaculares misérias. Ninguém, evidentemente, contestará que os veículos hoje são muito mais rápidos do que o cavalo de Carlos Magno, ou o burrico que São Bernardo montou para ir aonde o chamavam, e onde confundiria o bom mas trêfego Abelardo. Eu não preciso fazer malabarismos de imaginação para rever a figura do Santo abade de Claraval, e para imaginar as santas cogitações com que se preparava para defender a Sagrada Doutrina enquanto o bom burrico o ia levando no mesmo doce ritmo com que um outro irmão burro mil anos atrás levara ao Egito, Nossa Senhora e o Menino Jesus. O que preciso fazer esforço para imaginar é o quadro atualizado de um São Bernardo a sair de seu mosteiro, num Fusca a 120 quilômetros por hora. Não digo que seja impossível. Metafisicamente é possível que um grande santo de hoje dirija um carro; mas tudo parece contraindicar que esse veículo possa proporcionar ao hipotético santo o mesmo lazer para a meditação, como também tudo leva a crer que a velocidade do veículo não possa modificar o bom fundamento da argumentação que venceria Abelardo.

Curioso progresso! O que hoje se vê todos os dias são revoadas de Abelardos, e de sub-Abelardos, que a mil quilômetros por hora atravessam os oceanos para se reunirem em congressos, sínodos, conferências, onde serão propostas mil pequenas e efêmeras renovações por dia. E é com esse frenético ativismo que querem atualizar o Cristianismo; e é com essa submissão ao século que querem vitalizá-lo. Depressa se desencantam de correr e voar, e então, para reduzir o Cristianismo a um puro humanismo, resolvem anunciar a morte de Deus.

Mas o menino Jesus, no mesmo ritmo lento de outrora, continua a nascer virginalmente todas as manhãs nas almas submissas, e continua a ressuscitar triunfalmente todas as manhãs para deixar em nós o anúncio de nossa própria ressurreição. E nisto pomos todo o fervor de nossa Fé: passarão os impérios, as máquinas do mundo, mas esse cristianismo sempre pequenino, manso, único e eterno não passará.

(O Globo, 14/8/71)

Sermão sobre a falsa vergonha de se confessar os pecados

São João Crisóstomo

 

Todos nós, irmãos, sabemos que Nosso Senhor Jesus Cristo é bom, clemente, misericordioso, e não deseja a morte do pecador, mas que este se converta e viva. Vigiai, todos, e estai preparados, pois não sabeis a hora em que Nosso Senhor virá. Vinde, escutai suas palavras: arrependei-vos, pois se aproxima o reino dos céus. De resto, irmãos, o Juízo Final está às portas; haverá muitas lágrimas, gemidos e preces; sendo a oração necessária não apenas hoje, mas também amanhã.

A oração é, pois, o tesouro infinito de todo o bem, porto de calmaria, causa de tranquilidade, remédio do espírito, santificação do corpo e da alma; a oração abre as portas do céu, aproxima de Deus todos os homens, pequeno e grande, rico e pobre, e todo aquele que, com todo o coração, rezar todos os dias, tornar-se-á tão grande quanto os anjos.

Contudo, que dizem muitos com indiferença?

Sou pecador – um diz – oprimido e coberto de desonra. Não me atrevo a contemplar a grandeza do céu, pois pequei muito por pensamentos, palavras e obras, desperdiçando todos os dias, todas as horas de minha vida em coisas vãs. Com que liberdade posso me aproximar da igreja? Como abrirei minha boca indigna e impura? Como moverei meus lábios e pedirei perdão pelas minhas indignas ações perante Deus?

Assim vos fala satanás? Aprendei isto: Cristo não veio para chamar o justo, mas o pecador, pois assim diz: não vim para chamar os justos, mas os pecadores ao arrependimento.

Sou pecador – outro diz – como aproximar-me-ei da igreja e lá me tornarei justo? Dizes belas palavras que ouço, mas não as guardo. Que vantagem há para mim? Pois eu vos digo: se guardais ou não, apenas vinde à igreja e ouvi a leitura da Palavra Divina. Asseguro-lhes que se vós vos aproximardes da igreja, ouvirdes o Santo Evangelho e o ensinamento dos Apóstolos, ainda que tenhais o coração duro como pedra e o espírito selvagem como fera, sereis convencidos.

Sois pecador? Vinde à igreja, prostrai-vos, lamentai-vos, chorai. Pecastes? Confessai a Deus vossos pecados. Dizei consigo mesmo ‘pequei’; falai a Deus, que vos conhece antes mesmo de nascerdes, sobre o exame do vosso coração. Confessai aqui, sozinho, para não serdes acusado diante da miríade dos anjos e dos homens no dia do Juízo. Dizei-me o que vos parece melhor: confessar os pecados ao vosso pai espiritual estando sozinho na igreja, ou tê-los públicos no dia do Juízo diante dos anjos?

Sois pecador? Dizei apenas ‘pequei’ e nada mais vos será exigido além do arrependimento e da confissão. Que dificuldade sentis em dizer convosco mesmo ‘pequei’? Acaso vos envergonhais? Estais arrependidos e quereis ser salvo e disso vos envergonhais? E quando pecáveis, não vos envergonháveis? Quando praticáveis a impureza, não vos envergonháveis? Quando cometíeis adultério, não vos envergonháveis? Quando cobiçáveis a mulher do próximo, quando oprimíeis a viúva e desprezáveis o pobre não vos envergonháveis? Quando tomáveis o nome de Deus em vão, e levantáveis falso testemunho, quando fazíeis falsos juramentos, quando vos ocupáveis de toda espécie de obras más, odiadas por Deus, não vos envergonháveis?

Ó, amigos, como, tendo um Deus tão bom, negligenciai-o e não vos converteis? Cristo diz: não roubeis, não forniqueis, não cometeis adultério, não mateis, não levanteis falso testemunho, honrai vossos pais, amai vosso próximo como a vós mesmos, sede mansos, piedosos, pacientes, pacíficos e sereis julgados dignos do reino dos céus. Entretanto, quem segue tais mandamentos? Quem os dá ouvidos? Quem presta atenção? O diabo aconselha exatamente o contrário, e mesmo que saibamos que ofendemos a Deus dando ouvidos ao inimigo, ainda assim caímos nas tentações. Como escravos, atados nas mãos e nos pés, caminhamos, nos sujeitando à carne.

Eis que todos desperdiçamos a juventude da nossa alma; eis que envelhecemos e nos acostumamos ao pecado. Esforcemo-nos em praticar o bem para que sejamos achados dignos do reino dos céus, porque o diabo leva para o fogo e o castigo eternos e nós estamos caminhando para ele toda vez que pecamos.  

O que quereis vós? Ser como Cristo ou como o demônio? Desejais ser como Cristo? Então cessai de viver licenciosamente, cessai com as extravagâncias, com a luxúria, com os roubos, com a glutonaria, com os prazeres da carne, com os adultérios, com as zombarias, com as mentiras, com as bajulações. Não vos enganeis: nada disso entra no reino dos céus. Mas, se por outro lado, desejais ser como o demônio, e ir para o fogo da geena, vivei como quereis, nada vos impede. Trocareis os bens celestiais por desejos maus, impurezas, adultérios, glutonarias, imoralidades, e toda sorte de prazeres demoníacos. Pois se o Evangelho não vos convence, se a lei não vos corrige, se não confiais nos profetas, se não acreditais nos apóstolos, se não vos aproveitais dos conselhos dos patriarcas, então afrontais a Igreja de Deus e vos tornais semelhante à prostituta, trocando todo o Bem pelo mundo. Assim, já não desejais a salvação, nem a herança futura no dia do Senhor. Fugirão de vós naquela hora quando comparecerdes despido e constrangido no tribunal de Cristo diante dos anjos e dos homens, cobertos de vexame. Ali, o que será revelado? O que será exposto sobre vossa injustiça? Deus não pode ser escarnecido. Então ouvireis: atai-lhes as mãos e os pés e atirai-lhes nas trevas exteriores. Lá haverá choro e ranger de dentes. Quem, portanto, não lamentará? Quem não chorará por causa dos prazeres efêmeros após o castigo eterno?

Não vos enganeis. Deus não pode ser escarnecido. Está escrito: nem os devassos, nem os adúlteros, nem os maldizentes, nem os soberbos, nem os bêbedos, nem os injustos, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os idólatras, nem os blasfemos, nem os avaros terão parte no reino dos céus. Considerai todas essas coisas, irmãos, afastando-vos dessas práticas indignas, e que não tarde a ser derretida a frieza dos vossos corações para que fujais da ira futura e vos aproximeis do céu e da bem-aventurança eterna. Que possa descer sobre todos nós a graça e o amor de Nosso Senhor Jesus Cristo, que vive com o Pai e o Espírito Santo pelos séculos dos séculos. Amém.

 

Tradução: Vanessa Almeida

Fonte: CRISÓSTOMO, João. De Oratione. In: J.-P. Migne, Patrologiae cursus completus (series Graeca) (MPG) 62, Paris: Migne, 1857-1866: 737-740.
Retrieved from: http://stephanus.tlg.uci.edu/Iris/Cite?2062:322:0.

Irmão Nuno de Santa Maria, o Condestável invencível

Pe. Bertrand Labouche, FSSPX

 

Por estes vos darei um Nuno fero,
Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço

(Lusíadas, canto 1, 12)

 

No dia 6 de novembro, é festejado em Portugal e na Ordem do Carmelo, Nuno Álvares Pereira, herói português e santo do século XV, nomeado aos 25 anos general-em-chefe do reino, vencedor de todas as suas batalhas, um homem de oração e de união com Deus.

Certamente, todos vocês que já estiveram em Fátima notaram as belas estátuas de santos que se erguem sobre a grande colunata em frente à basílica do santuário.

Estes santos distinguiram-se pela devoção a Nossa Senhora (São Bernardo, São Luís Maria, São João Bosco...) ou/e fazem parte das glórias de Portugal: Santo António de Lisboa, Santa Beatriz, Beato Nuno Álvares etc. Retenhamos esse nome.

Beatificado por Bento XV em janeiro de 1918, sua missão era semelhante à de Santa Joana D'Arc: salvar a independência da pátria, sob a bandeira dos santos nomes de Jesus e de Maria, e pelo exemplo católico levado ao heroísmo.

Morreu no mesmo ano em que ela, no dia 1 de novembro de 1431. Suas armas foram a oração e a espada.

Sim, este homem, cavaleiro armado aos 13 anos, vencedor de todas as batalhas, ilustre estrategista da "Batalha dos Atoleiros", nomeado aos 25 anos general-em-chefe do reino, aquele que possuía, após as suas vitórias , a maior fortuna da época em termos de terras e bens, era essencialmente um homem de oração, de união com Deus.

A 15 de agosto de 1423, a Ordem Carmelita deu-lhe as boas-vindas em Lisboa, aos cinquenta anos, como humilde irmão porteiro; tornar-se-á irmão Nuno de Santa Maria (imagine um Foch, um Duguesclin com o hábito de irmão leigo para sempre).

Exatamente, a ação desse homem foi compatível com sua oração. Foi um verdadeiro homem de ação, porque a sua ação, alimentada, engendrada pela oração, foi aquela desejada por Deus “que tudo faz com ordem, peso e medida”.

ORAÇÃO, AÇÃO: o mundo vê entre ambas não mais que um contraste ridículo; enquanto, na realidade, o que há é harmonia, uma maravilhosa harmonia, que conquista o próximo ... Pensemos o que poderia ser a união da oração com a ação em Nosso Senhor Jesus Cristo!

Na biografia do Beato Nuno, lemos que os soldados inimigos vinham à noite ao acampamento do grande general português, simplesmente "para ver quem ele era!" "quem era aquele que não hesitava em distribuir trigo ... ao inimigo faminto!...”

À pergunta: "Por que você nunca perde uma batalha?" Respondia: "Para me derrotar, basta impedir-me de receber antes a Comunhão! "

Um dia, no auge da batalha, quando tudo parecia perdido, Nuno Alvares desapareceu por detrás de algumas pedras e começou a rezar. Quando um soldado perturbado veio procurá-lo, saiu como um leão e, arrastando seus homens, derrotou o inimigo.

A ação (poderíamos substituir: o exemplo, o apostolado, o cumprimento do dever do Estado) exige necessariamente a oração, senão se transforma em agitação, enfraquecemos a nós mesmos.

E a verdadeira oração, por exemplo, o nosso Rosário quotidiano, engendra um “bom trabalho”, uma ação profunda, benéfica, duradoura, mais rica, porque então é Deus que age como quer.

São Francisco de Sales, prevendo que teria um dia seria particularmente agitado, aumentava o tempo da oração matinal.

Hoje, o homem destrói e não edifica, porque não reza; uma alma que não reza condena sua ação à esterilidade, perde seu tempo, antes de se perder. A oração é exatamente o oposto de perder tempo.

“Batalha de Aljubarrota”: foi o combate decisivo que o nosso santo cavaleiro venceu, salvando Portugal da colonização espanhola. D. João I mandou erigir então um ex-voto, segundo a sua promessa, no mesmo local, um magnífico mosteiro, dedicado à Nossa Senhora da Vitória: trata-se do mosteiro da "Batalha", ao lado do qual se encontra a imponente estátua equestre do invencível Condestável. A vitória foi conquistada a poucos quilómetros de Fátima, onde Nossa Senhora do Rosário, "mais forte que um exército alinhado em batalha", veio, 500 anos depois das lutas do Beato Nuno para suscitar outros cavaleiros...

Lei-Ming-Yuan

Gustavo Corção

 

Nesses dias andei pela China. Mais precisamente e graças ao livro de Chanoine Jacques Leclercq (Vie du Père Lebbe — Casterman, 1955), fiz na minha poltrona uma viagem no espaço e no tempo, e andei pela China de quarenta anos atrás, tentando acompanhar, como me permitissem as pernas da imaginação a incrível, a fabulosa trajetória do personagem meteórico que no Ocidente se chamou Vicente Lebbe, e que milhões de chineses, com amor e veneração chamaram Lei-Ming-Yuan, que quer dizer trovão-que-canta-ao-longe.

Vicente Lebbe foi padre lazarista e missionário da China. Sua grande originalidade consistiu em levar a sério, alegremente, o fato de ser lazarista e o fato de ser missionário. Mas a sua suprema originalidade consistiu em levar a sério a China. Foi sempre o que Chesterton chamava “um super-vivo”. Direto como um pássaro, autêntico como uma flor, ágil como um gato, o Pe. Lebbe, em quarenta anos de lutas, de contrariedades, de perseguições, de trabalhos, de perigos nas viagens e nas guerras, guardou intacto o fogo que nos retratos se vê brilhar, com invencível alegria, nos seus olhos de menino.

Foi aos onze anos no colégio da Bélgica que sua alma, num pulo, tomou a resolução definitiva. Tinham-lhe indicado a leitura da vida do bem-aventurado Jean Gabriel Perboyre, lazarista, morto na China em 1840 como testemunha de Cristo. Terminada a leitura, o menino exclamou: “serei lazarista, e missionário na China”. Doze anos mais tarde, vencendo uma série de preconceitos e de hábitos eclesiásticos, e graças ao inesperado apoio de um velho bispo, embarca, ainda seminarista, para o país dos seus sonhos. Durante a viagem vai aprendendo o chinês. Chegará a falar tão bem o idioma, e a conhecer tão intimamente os costumes e os hábitos chineses que mais tarde só saberão pelas feições que ele é um estrangeiro. Coisa que aliás o magoava. “Não olhem para o meu nariz, mas para o coração que é chinês”.

Em outubro de 1901 ordena-se padre e escreve à família anunciando que agora é padre chinês da Igreja na China. E nos cartões de sua ordenação imprime o conselho de Paulo a Timóteo: “Tu vero labora...”

Outra coisa a ser tomada ao pé da letra. E do mesmo apóstolo dos gentios tira o Pe. Lebbe as diretrizes da ação missionária. “Sim, sendo livre fiz-me escravo a fim de ganhar o maior número. Fui judeu como os judeus para ganhar os judeus, com os sujeitos à lei, eu que não estou sujeito à lei, sujeitei-me a fim de ganhar os que estão sujeitos à lei; e com aqueles que estão sem lei, como estivesse eu sem lei, embora esteja submetido à lei de Deus e ao Cristo, tornei-me sem lei para ganhar os que estão sem lei. Fiz-me fraco para com os fracos ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos a fim de salvar a todos...” (1Cor 9, 20-22)

Mas logo ao desembarcar Vicente Lebbe começa a descobrir com assombro que os missionários europeus não parecem muito apegados ao exemplo paulino. Descia a escada do navio, lépido e esperançoso, quando ouviu um padre mais velho dizer-lhe que entregasse a mala a um coolie. Um missionário não devia carregar a própria mala.... Mais tarde, em Na-Kia-Chwang, onde seria ordenado, observa que os padres chineses não comem à mesa dos europeus. E em tudo o mais, o que é chinês é desprezível e subalterno para a superior raça branca que fazia o favor de trazer a civilização e o Evangelho.

Vicente Lebbe, via com seus próprios olhos, que nesse tempo sofriam longa e cruel enfermidade, via, concretizado, brutalmente corporificado, espessamente realizado, o secular equívoco de uma civilização fundada no orgulho e no direito da força. E com maior tristeza esbarrava com o equívoco ainda mais grave: o da vinculação que insidiosamente se estabelecera entre os estatutos dessa civilização e os costumes dos homens da Igreja. Sob o falacioso pretexto de coordenação de esforços para a prática do bem, tantas vezes invocado pelos que aspiram ao conforto de uma religião oficializada, os padres missionários franceses se comportavam como meros funcionários a serviço dos superiores interesses do Protetorado. Provavelmente julgavam que essa subordinação era vantajosa para a pregação do Evangelho, e que outra não era a doutrina relativa às autoridades constituídas e à união da Igreja com o Estado. E assim a Cruz de Cristo chegava aos chineses acompanhada da bandeira francesa, e às vezes protegida pelos canhões. Custa a entender que alguém escolhesse a espinhosa vocação missionária sem nela incluir uma fraterna ternura pelos povos a que se levava o Evangelho. Custa a crer que não lhes ocorresse a ideia da transcendência da Igreja, ou até a ideia mais chã de que, para um chinês, pode haver uma dignidade e um brio de ser chinês. Mas é com essas coisas dificilmente críveis que se desenrolou, através dos séculos, a história trágica da Igreja. A grande, a permanente tentação é a da vinculação da Igreja, aos quadros temporais, é a da recusa da transcendência de sua vocação.

Comentando a recente e vergonhosa história do colonialismo na China, o cônego Leclercq diz sem rebuços:

“Foi a França que interveio a favor das missões e obteve em 1846 um edito de tolerância. Desse dia em diante os missionários tornaram-se clientes da França. Já a guerra do ópio se assinalava por vantagens concedidas às missões. Toda a história das relações entre a China e o Ocidente será doravante marcada pela predominância da força (...). As missões se prendem nessa engrenagem (...). A confusão entre a religião cristã e a política europeia se torna inextrincável. Os missionários aproveitam a força da Europa, e armazenam os ódios...

Mas a maior parte dos missionários não vê nisso algum mal. Bons europeus eles acreditam ingenuamente na superioridade de tudo que é europeu (...). Juntava-se a isto o nacionalismo, produto do século XIX. A França tinha assumido o protetorado das missões, aliás sem ouvir a Santa Sé.

A maior parte dos missionários eram franceses e sentiam-se inclinados a favorecer a política expansionista de seu país, tudo fazendo para que vingasse na China, o amor pela França e o conhecimento da língua francesa, e ao mesmo tempo, o amor pelo Cristo e o conhecimento da religião”.

Mas adiante o cônego Leclercq não hesita em dizer: “Depois de tudo o que dissemos, o que espanta é que ainda existam cristãos na China, e que ainda se observem conversões, e até que muitos cristãos chineses tenham um fervor que raramente se encontra na Europa”.

Ora, é nesse enorme mundo tão maltratado pela chamada civilização cristã, é nesse imenso mundo de expectativas decepcionadas que desembarca em 1901, um pobre magricela, doente, quase cego, com a ideia de ser chinês entre os chineses, para ganhar os chineses. Com paciência fremente, com benignidade candente, com obediência sobrenatural em grau heroico, o Pe. Lebbe começa a mais espantosa vida de que já ouvi falar. Dia a dia realiza uma entrega, uma doação, um desgaste que nos deixa atônitos. “Le Père Lebbe se despense! ” ... diz simplesmente o cônego Leclercq. Seria melhor, talvez, dizer, que o Pe. Lebbe se queima, se incendeia, e corre a China incendiando e queimando.

Seria ainda melhor, talvez, dizer que ele se gasta numa combustão mais profunda, como o urânio nos reatores nucleares, para frisar a colossal desproporção entre a energia que produz e a magra energia que a alimenta. Lendo essa vida espantosa, percorrendo nas páginas do livro a progressão geométrica dos feitos, chegamos a pensar que o conhecido e austero tratadista de Direito Natural perdeu a noção da medida, ou perdeu a razão. Quando, porém, se considera o nome e o veredito que merece o autor, então... então vêm-nos a impressão arrebatadora de uma divina loucura. Dir-se-ia que o Pe. Lebbe foi designado para compensar sozinho, com a única força da Graça entre tantos espinhos na carne, o himalaia de erros, de omissões, de tolices, de burrices, de perversidades semiconscientes e de crueldades voluntárias de quatro séculos de civilização. Dir-se-ia que Deus deixou o Pe. Lebbe aprender depressa o chinês, e providenciou quem lhe desse uma velha bicicleta, para que ele assim armado, com sua magreza e sua pobreza, pagasse a dívida atrasada, a dívida terrível contraída pelas grandes nações do mundo ocidental; para que ele sozinho com a força da Graça, devolvesse às missões a comprometida transcendência, e à civilização colonizadora a perdida dignidade; para que ele, com seu rabinho e seu longo cachimbo, neutralizasse de algum misterioso e insondável modo o horror da guerra do ópio, só comparável em hediondez aos horrores produzidos pelos regimes autoritários.

Toda a obra do Pe. Lebbe na China, de que tentaremos dar um esboço em outro artigo, girou em torno da universalidade da Igreja e do direito dos chineses formarem sua Igreja. Sua ideia fixa, que viu realizada através de um milhão de dificuldades, era a de ver constituído o episcopado chinês. Os prudentes mandavam informações contrárias a Roma. Ameaçavam com o cisma. Gabavam a vantagem do paternalismo, mas o Pe. Lebbe teve a alegria, no fim da vida, de ver sagrados seis bispos chineses, seis bispos escolhidos por ele, nomeados com um pedaço de lápis que ele depois guardou como relíquia.

Vê-se em tudo o que nos conta o cônego Leclercq que a vida do Pe. Lebbe tem o mais autêntico e clássico espírito paulino, e ao mesmo tempo a melhor marca da atualidade.

Como São Paulo, o Pe. Lebbe combate, com as santas armas da paciência e da obediência, os privilegiados que se julgam donos dos evangelhos.

Como São Paulo, choca-se com os corações circuncisos que tem desprezo pelos gentios, ou que, na melhor das hipóteses, vê nos chineses alguma coisa a ser cuidada, do alto, com benevolente paternalismo. E as cenas que o cônego Leclercq descreve no seu livro, a cada instante nos transportam para os séculos da Igreja-Mártir, ou para os claros dias dos Atos dos Apóstolos. Com uma pequena diferença apenas. Aqueles que todos os dias, com um só coração se reuniam no templo, e partindo o pão com júbilo e simplicidade, louvavam a Deus, e cujo número o Senhor cada dia aumentava por onde passava o Pe. Lebbe, eram um pouco diferentes dos que cercavam Pedro e Paulo: tinham os olhos oblíquos e pele dourada...   

 

 

(Diário de Notícias, 06/10/1957)

Introdução ao sexto domingo da Epifania

“Revelarei coisas que ficaram ocultas desde a criação do mundo”

 

Paramentos verdes

 

Deus, diz S. Paulo, falou-nos pelo seu Filho, a quem constitui herdeiro de tudo, e o qual, sendo o esplendor da glória do Pai e a figura da sua substância e conservando tudo por meio da sua palavra, quis operar a purificação dos pecados, e está agora sentado à direita de Deus. A nenhum dos anjos disse Deus: “Tu és meu Filho, hoje mesmo te gerei”. E quando O enviou ao mundo, disse: “Que os anjos todos O adorem”. O Apóstolo, comenta S. Atanásio, declara Jesus superior aos anjos para evidenciar a diferença que existe entre a natureza de Filho e a de criaturas. A Missa de hoje revela igualmente a divindade de Cristo, tão claramente expressa no Ofício de Matinas, como acabamos de ver. É Deus, porque revela as coisas ocultas em Deus e que o mundo ignora. A sua palavra é divina, porque tem o condão de apaziguar a tempestade das paixões e é capaz de produzir na alma de quem a receber maravilhas de fé, de esperança e de caridade. A Igreja é também divina. Pega em raiz divina, na palavra do Senhor, e está admiravelmente figurada nas três medidas de farinha que a força expansiva do fermento leveda, e no grão de mostarda, a mais pequenas das sementes, que em breve se torna árvore frondosa onde as aves do céu gostam de nidificar.

Meditemos com frequência o Evangelho para que nos penetre e transforme, e para que se torne, na nossa alma e na nossa vida, árvore frondosa a vergar de frutos de santidade. Desta maneira trabalharemos eficazmente no alargamento do Reino de Deus.

Do Evangelho: Pelo homem que semeia, se entende geralmente, diz S. Jerônimo, o Salvador que semeia nas almas a palavra de Deus, a semente prodigiosa do Evangelho. Neste mundo que se desagrega, falta esta semente e parece que o semeador divino já recolheu. Na imensa lavra só andam sombras a envolver de névoa as ervas daninhas do campo solitário. É preciso chamar, chamar pelo dono do campo, que venha e mande semeadores, semeadores de vida nova, semeadores do Evangelho e de mais nada.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

O encolhimento do universo

Pe. Robert Brucciani, FSSPX

 

Queridos fiéis,

Os astrônomos dizem que o universo está se expandindo. Isso é verdadeiro no sentido físico, mas, em várias outras maneiras, ele, na verdade, está encolhendo.

 

Nos sentidos

Primeiro, nos sentidos. Porque podemos voar até praticamente qualquer ponto do mundo dentro de 24 horas, a terra parece ter reduzido dramaticamente em tamanho. De modo semelhante, com a habilidade de conversar com qualquer pessoa no planeta em segundos, todos se tornaram nossos próximos. Com tecnologias incríveis de vídeo, áudio e nuvens, todo o mundo visível e audível está, potencialmente, diante de nossos olhos e nossos ouvidos. O mundo, certamente, encolheu.

Há benefícios nesse encolhimento, mas também há custos: pois nenhum destino é tão apreciado quanto aquele conquistado através da prudência e da fortaleza; nenhuma conversa é tão significativa quanto aquela olho no olho; nenhuma cena é tão intensa quanto aquela assistida pessoalmente. O universo tecnológico é menor, mais barato, mais rápido e mais malvado. Ele nos rouba experiências reais e rouba-nos tempo precioso.

 

Na Filosofia

Não apenas nos sentidos o universo encolheu: no intelecto também. Na compreensão filosófica do homem moderno do universo, houve um grande achatamento desde a reforma protestante, depois no iluminismo racionalista, e no ateísmo comunista. Para o homem moderno, hoje, não há:

 

-- ordem sobrenatural (não há Deus nem religião)

-- ordem espiritual (não há alma, não há anjos) e

-- Lei Natural (não há finalidade, verdade, moralidade ou humanidade – alguém pode se identificar com o que quiser: homem, mulher, negro, branco, gato ou cachorro), e não há

-- dados de uma verdade objetiva cognoscível (tudo está na mente, e nada pode ser conhecido)

 

Só há matéria e forças físicas no universo do homem moderno. O homem, portanto, é apenas uma justaposição fortuita de moléculas. Que universo triste: sem beleza, sem verdade, sem esperança, sem céu.

 

Na educação

A educação clássica da gramática (trabalho de memória), dialética (raciocínio) e retórica (comunicação) foi completamente abandonada. Os estudantes recebem alguns blocos de informação crua (sem memorização), devem sentir ao invés de raciocinar, e usam frases de efeito ao invés de discurso. Eles também são imbuídos da ideologia liberal.

Não apenas possuem pouco conhecimento do universo: os estudantes, normalmente, têm pouco conhecimento de si mesmos, pois todos tiram nota 10, todos recebem prêmios, todos ouvem que estão cheios de direitos e se sentem privilegiados.

As universidades não lidam mais com o conhecimento universal, mas treinam seus estudantes em áreas cada vez mais especializadas; não ensinam a ver o quadro geral, mas a trabalhar para empresas globais em sua busca por lucro. Poucos se importam com as questões universais do ser, da finalidade e do sentido da vida.

 

Nas relações sociais

O encolhimento do universe dos sentidos necessariamente influencia o universo das relações sociais.

Conversamos rosto a rosto com cada vez menos pessoas que em qualquer outro período. Nós nos enclausuramos em veículos de metal e tornamo-nos estranhos à vizinhança, às lojas locais, até mesmo àqueles que estão na casa ao lado.

Damos tanto tempo à comunicação e ao entretenimento virtuais que temos pouco tempo para atividades sociais reais, amizades reais, clubes reais, sociedades, enriquecimento cultural real através de passatempos e recreações.

A sociedade está saindo da era da família nuclear para a mentalmente insalubre era do indivíduo atômico. Cada vez menos crianças nascem nas famílias graças à contracepção e à guerra econômica, política e cultural contra a família. Há, agora, apenas 1.56 nascimentos por mulher na Inglaterra de acordo com as últimas estatísticas. Não ajuda em nada a situação a realidade de cada vez menos casamentos (e mais tardios), além do número crescente de casamentos arruinados.

Há algum tempo, era normal haver três gerações vivendo na mesma casa. Hoje, os filhos mudam-se logo que se tornam economicamente capazes de fazê-lo, e os avós são jogados em um asilo, porque não há ninguém para cuidar deles.

Isolamento, solidão, problemas de saúde mental são marcas dos nossos tempos. Para muitas almas, seu universo social desabou.

 

Em nossas vidas cotidianas

Diversidade é a palavra moderna para homogeneidade. A cultura se tornou superficial e homogênea em todo o mundo: separados da geografia, da história, da fé; separados da Lei Natural e da razão.

Comemos as mesmas comidas ao longo do ano e em todo o mundo; usamos a mesma linguagem, vestimos as mesmas roupas, praticamos os mesmos esportes. Fazemos compras nos mesmos lugares e compramos os mesmos produtos globais, fabricados por empresas globais.

Elegemos os mesmos politicos – fantoches em débito com outra força política – e a maioria dos homens têm as mesmas aspirações: copiar os ícones bidimensionais apresentados a nós pela mídia global. A moralidade predominante é liberal. A religião predominante é “nenhuma”. Nosso universo, hoje, é culturalmente muito apertado.

 

No Estado

O abandono da religião, o pessimismo filosófico, a educação deficitária, a atomização social e a concentração de poder são ingredientes do universo mais visivelmente restritivo, que é a tirania.

Liberdades estão sendo corroídas tão rapidamente em nossos dias que todo mundo vive apenas a um passo de ser processado pelas mais variadas razões, intencionalmente ou não. Estamos submetidos a uma vigilância crescente, tanto de nossos movimentos quanto de nossas crenças, e estamos sendo coagidos a permitir que o Estado edite nosso DNA, estamos sendo forçados a cooperar com a cultura da morte: tudo isso com uma eficácia demoníaca tão grande, que concluímos que Satã, de fato, é o grande artífice desse movimento.

O homem moderno vive agora em um universo muito pequeno. O universo encolheu tanto, que o homem se encontra em um confinamento espiritual solitário pelo seu modernismo e, em breve, pode encontrar-se em confinamento físico pelas mãos de um Estado faminto. Quando isso acontecer, o encolhimento de seu universo estará completo.

 

Eles não podem aprisionar o espírito

Mas para nós, queridos fiéis, embora não possamos evitar todos os efeitos da tecnologia moderna, da filosofia moderna, da cultura moderna e do Estado moderno, nossas almas jamais poderão ser aprisionadas se seguirmos a razão, a Lei Natural e a religião revelada por Nosso Senhor Jesus Cristo.

O fundamento da verdadeira liberdade é a participação ativa no Corpo Místico de Cristo. Ela, necessariamente, implica em desapego do pecado, que é a escravidão às paixões; ela, necessariamente, implica na adesão à doutrina, aos sacramentos e ao governo da Igreja Católica, que levará o homem à sua perfeição suprema na Visão Beatífica de Deus.

Se nos mantivermos próximos da Igreja, então, apesar de atrair a atenção indesejada do Estado, teremos paz interior.

Impérios terrenos erguem-se e caem, e é interessante notar que sua duração diminui conforme as tecnologias avançam. O Império Soviético durou por, apenas, 70 anos, o que significa que a juventude de hoje, provavelmente, assistirá ao fim da tirania da Cultura da Morte, hoje em ascensão. O universo encolherá por mais algum tempo ainda, mas aqueles que possuem a liberdade dos filhos de Deus jamais estarão confinados.

 

In Jesu et Maria,

Pe. Robert Brucciani

A hora da China

Gustavo Corção

 

Abra o mapa da China, leitor, e considere a imensidão desse país junto ao qual o nosso fica pequeno. Observe depois sua forma regular, maciça, compacta, e note que todos os grandes rios correm com uniforme direção para o litoral convexo, relativamente exíguo, que parece um ventre aos nove meses de gravidez. A China é grande e redonda. É um mundo.

Nas primeiras páginas de sua História da França, Michelet diz que no princípio a história é geografia. Mais tarde, e com maior cópia de razões científicas, Toynbee explicará a lentidão da marcha asiática pela predominância das terras e dos transportes terrestres sobre os mares e a navegação. Realmente, tudo parece indicar que o surto de progresso do mundo ocidental em boa medida se deve à navegação. Embora seja bípede e terrestre, foi no mar que o homem se espalhou, e foi com as caravelas, ao mar e ao vento, que o homem afirmou o senhorio do mundo. Desde a antiguidade, e durante a Idade Média, a história da civilização ocidental transcorre numa espécie de anfiteatro de povos em torno do Mediterrâneo. Na Renascença a Europa se abre. Há uma extroversão, digamos uma explosão. A forma fechada e nuclear da antiga civilização se mudou em forma estrelada. De côncava e mediterrânea, a civilização se torna, convexa e atlântica. De Florença desloca-se para Antuérpia a primazia comercial.

Examinando o mapa-múndi e pensando nos últimos dois mil anos de história, somos levados a crer numa correlação entre os feitos dos povos e a forma dos territórios. É nos países de desenhos irregulares, de saliências e reentrâncias, de penínsulas e golfos, que surgem as grandes iniciativas. A Grécia é uma palma de mão aberta sobre o Egeu; A Itália é a bota de sete léguas de onde se alastrará o Império. Dir-se-ia que a terra assim configurada possui o poder das pontas. Dir-se-ia que dos cabos e das penínsulas saem jorros de iniciativas que irão fecundar os golfos. Comparemos os desenhos da Europa com os contornos da África e da Ásia. E observemos o que acontece no novo mundo quando a Europa transbordou. É ainda na América do Norte, mais recortada, mais irregular, que o ímpeto europeu encontra o melhor terreno. A América do Sul, com seu único promontório perdido nas brumas do cabo Horn, será um continente de países subdesenvolvidos. É claro que há outros fatores a considerar, mas não deixa de ser estranha a constância da correlação. E quando volvemos a imaginação para os dias longínquos em que o continente americano se povoou com tribos oriundas da Ásia, é lá ao Norte, no rendilhado Estreito de Bering, entre duas penínsulas, que ocorre o transbordamento dos povos asiáticos.  

Ora, a China é maciça, regular, redonda. A china é imensamente terrestre. Daí talvez o seu atraso medido na cronometria europeia. Durante os séculos em que predominou a civilização marítima, que culminou com a apoteose imperial sustentada pela esquadra inglesa, a China esteve à mercê da exploração dos ávidos europeus. E esteve à mercê de sua orgulhosa proteção.

Mas os tempos passam. A grande iniciativa europeia amortece, o inicial “handicap” se faz menos sentir, e as próprias máquinas produzidas pela civilização ocidental, tornando fáceis as comunicações por terra e pelo ar, vêm oferecer oportunidades novas aos países atrasados. E é nesse momento, quando soa a hora da China, que lá desembarca aquele personagem candente e meteórico que foi o Pe. Vicente Lebbe.

Como disse em artigo anterior, o Pe. Lebbe parece ter a missão de corrigir sozinho os erros de séculos de uma civilização que oficializou os egoísmos e os abusos da força. Seu ideal supremo foi o de desvencilhar a pregação evangélica dos vínculos políticos, e o de estabelecer na China um episcopado chinês. Em quarenta e tantos anos de vida prodigiosa o Pe. Lebbe se multiplica. Começa muito modestamente por trabalhos de catequese num lugarejo do Norte. A semente cresce. Os resultados se avolumam. E quando a gente pensa que a atividade do Pe. Lebbe já chegou a um ponto quase inadmissível, ele se duplica, se triplica.

Tudo na sua vida é marcado por uma estranha capacidade de multiplicar. Vejam, por exemplo, aquela história tocante, que repete a do bom samaritano. O Pe. Lebbe encontra um pobre homem caído numa estrada. Salta da bicicleta e cuida dele. O homem vai-se embora. Meses depois o Pe. Lebbe recebe uma carta contando que o homem, chegando em casa, converteu toda a aldeia e pede um padre. Do lugarejo insignificante passa o Pe. Lebbe para Tientsin, e aí se desdobra em um novo tipo de atividade. Funda um centro de cultura, como o nosso Centro Dom Vital. Em poucos meses ocupa nove salas onde todos os dias faz conferências para os letrados. Escreve em jornais. Entra em contato com os poderosos, e atende a todos os humildes. Com seu amor pelos chineses, cria dificuldades com as autoridades francesas, e consequentemente com os seus superiores. Toda a organização burocratizada dos missionários europeus tem medo do Pe. Lebbe. Todos desejam vê-lo afastado. Vê-lo inutilizado. Os medíocres não toleram a presença daquele homem de fogo que pretende levar até as últimas consequências os evangelhos e as epístolas paulinas. Conseguem puni-lo. Pe. Lebbe cometeu imprudências num jornal de Tientsin, e indispôs-se com o cônsul francês. É mandado para longe. Obedece, mas não se corrige da mania de pensar que os chineses são homens como os franceses e muito menos da mania de atender a todo o mundo. Onde ele chega, ainda que nenhum aparelho de propaganda o anuncie, começa logo uma efervescência como se realmente ele carregasse consigo um misterioso trovão de longo alcance: Lei Ming Yuan, trovão que canta ao longe. Recomeçam os casos, os incômodos, e os seus burocratizados superiores o enviam para mais longe ainda, para o Sul, onde a língua é diferente e onde ainda não chegou o ribombo do seu coração. O Pe. Lebbe obedece, mas não se corrige. Em sofrimentos cruciantes adapta-se e reaprende o idioma, e recomeça o incêndio das almas. O único jeito é devolvê-lo à Europa. Devolveram-no e suspiram aliviados, mas na Europa o Pe. Lebbe trabalha duas vezes mais, três vezes mais, pela causa dos estudantes chineses. Ajuda, ensina, faz campanhas para obter fundos, conta histórias do Oriente, faz conferências. Passa dias sem comer e dias sem dormir. Quando o convidam para um jantar come como três, e todos se admiram porque tinham ouvido falar no seu ascetismo. Mas ele comia por três dias. E também dormia por toda a parte justamente porque nunca dormia direito. Uma vez foi convidado para fazer conferência num colégio de religiosas e, tendo chegado com certo adiantamento, foi levado a um parlatório onde pediram que aguardasse a hora da conferência. Sentou-se e dormiu. Meia hora depois foi preciso sacudir-lhe e jogar-lhe água na cabeça para que ele acordasse. Estremunhado olhou em volta, perguntou em que país estava e qual era o tema anunciado para a conferência. Chegou a Roma o canto do trovão. É ouvido por um cardeal que agradece ao Pe. Lebbe sua exemplar obediência e que lhe anuncia a próxima realização do seu ideal. Não só um bispo chinês será sagrado, mas seis.

— Foi a sua obediência que salvou tudo... que Deus abençoou...

E o Pe. Lebbe, sucumbido de emoção, só pôde gemer:

— Oh!

Tratava-se agora de escolher os nomes dos padres chineses mais indicados para a dignidade episcopal. O Cardeal Van Rossum pede ao Pe. Lebbe um toco de lápis e escreve os nomes que ele dita: Chao, Ch’eng, Ch’en, Li... Mas a sua emoção é forte demais. Declara que devem existir outros. E inundado de lágrimas, guarda como relíquia o toco de lápis.

A sagração dos bispos chineses estava marcada para 24 de outubro, festa de Cristo Rei. O Papa transferiu-a para o dia 18, por diversos motivos, e sem saber que nesse dia se completavam os vinte e cinco anos de sacerdócio do Pe. Lebbe.

Volta para a China, e é designado para Kao-kya-chwang, e aí recomeça seu trabalho de catequese e de apostolado. Retoma a bicicleta, e estranha um esquisito cansaço nas pernas depois de trinta quilômetros. Não se lembra que tem sessenta anos. Retomando a ideia iniciada em Tientsin, lança a Ação Católica. Funda um sem-número de grupos como os tantos que por iniciativas diversas apareceram no mundo ocidental. A JUC, a AUC, a JFC, a JIC, e tantas outras siglas nossas conhecidas, surgem na China por iniciativa do Pe. Lebbe. Tem voz para letrados, para estudantes, e para camponeses. É tudo para todos. E para equilibrar e completar essa imensa atividade, funda um mosteiro para uma nova ordem de religiosos: os irmãozinhos de João Batista. À semelhança do Père Foucauld na África, o Pe. Lebbe enche de Petits Fréres a China. Funda depois uma casa religiosa para mulheres...

Em 18 de setembro de 1931 as tropas japonesas invadem a Manchúria, e então começa uma nova fase, uma incrível e fantástica maneira de envelhecer, na vida do Pe. Lebbe. Movimenta seus mais próximos fiéis e organiza o serviço de padiolas e de cruz vermelha. Está entre os soldados, animando, confortando, convertendo, batizando, e carregando os feridos. Nesse ponto da leitura, como já disse em outro artigo, a gente tem a impressão de que o austero Cônego Jacques Leclercq, conhecido tratadista de Direito Natural, enlouqueceu. Sim, enlouqueceu e está tentando nos inculcar, como verdadeira, uma história no gênero das do Barão de Münchhausen. É demais! E se o leitor quer ter uma ideia leia o livro impossível de resumir: Vie du Père Lebbe, Chanoine J. Leclercq, Casterman.

Ouvi dizer que havia aqui perto um padre do Verbo Divino que estivera na China. Fui entrevistá-lo. Quando lhe falei no Pe. Lebbe o velhinho animou-se, brilharam-lhe os olhos, e disse: “Era um homem de fogo...”

Mas agora, irresistivelmente, nos vem uma ideia triste. De que valeu tudo isto? Parece que o Pe. Lebbe chegou atrasado e não conseguiu neutralizar quatro séculos de estupidez e de orgulho europeu. Parece que sua obra se perdeu. A China de hoje recebeu da Rússia uma influência aparentemente mais eficaz.... Estava eu nesse desânimo quando li no livro do Cônego Leclercq esta simples frase: “lembremo-nos, entretanto, que o comunismo não recebeu nenhuma promessa de eternidade...”. É verdade. Temos de esperar. Duzentos ou trezentos anos. As sementes do Pe. Lebbe hão de frutificar na hora que Deus marcou para a China, e quem sabe se não é daquele grande ventre amarelo que nascerá uma nova e grande civilização cristã?

 

(Estado de São Paulo, 13/10/1957)

Introdução ao quinto domingo depois da Epifania

“Enquanto dormiam, veio o inimigo e semeou a cizânia”

 

Paramentos verdes

A nossa vocação à Fé é uma graça. Fomos chamados por misericórdia a fazer parte do Corpo Místico do Senhor, e é necessário agora, em virtude deste procedimento do Senhor para conosco e da nossa própria natureza renovada de membros de Cristo, é necessário, digo, que usemos da misericórdia com todos. Esta caridade perfeita é difícil, sem dúvida. Supõe a perseverança e o esforço continuado e faz-nos muitas vezes deixar sangue no caminho, porque o Reino de Deus na terra está em via de consumação. Ainda não é perfeito. E entre o trigo louro da seara que ondeia em vagas inebriantes de bondade, lá aparece o joio, que nos morde com fereza indomada de pragana estéril. Mas não nos compete arrancá-lo. Não. Transformá-lo em trigo, sim. E podemo-lo fazer se o regarmos com o sangue da nossa dor e da nossa caridade. Às vezes há joio, que o é, por falta de quem lhe dê sangue.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

 

Octobri Mense

CARTA ENCÍCLICA
OCTOBRI MENSE
DE SUA SANTIDADE
PAPA LEÃO XIII
A TODOS OS NOSSOS VENERÁVEIS
IRMÃOS, OS PATRIARCAS,
PRIMAZES, ARCEBISPOS
E BISPOS DO ORBE CATÓLICO,
EM GRAÇA E COMUNHÃO
COM A SÉ APOSTÓLICA

SOBRE O ROSÁRIO DE NOSSA SENHORA

 

Veneráveis Irmãos,
Saúde e Bênção Apostólica.

Convite ao Rosário

1. Ao aproximar-se o mês de Outubro, já agora consagrado à beatíssima Virgem, é para Nós coisa sumamente grata relembrar as solícitas recomendações que, nos anos precedentes, vos dirigimos, ó Veneráveis Irmãos, a fim de que em toda parte os fiéis, impelidos pelo vosso zelo autorizado, se volvessem, com reavivada piedade, para a grande Mãe de Deus, para a poderosa auxiliadora do povo cristão; a ela recorrendo suplicantes, durante o mês inteiro, com o rito do santo Rosário: Rosário que a Igreja habitualmente usou e divulgou, sobretudo nos tempos mais tempestuosos; e sempre com o desejado êxito.

2. Temos a peito manifestar-vos, também este ano, o mesmo desejo, e renovar-vos a mesma exortação. Impele-nos a isto urgentemente, e a isso nos estimula, o Nosso amor à Igreja, cujas angústias, antes que se aligeirarem, crescem cada dia mais em número e em aspereza.

Males que afligem a Igreja

3. A todos são conhecidos os males que Nós deploramos: a luta desapiedada contra os sagrados e intangíveis dogmas, que a Igreja guarda e transmite; a zombaria da integridade da virtude cristã, que a Igreja defende; a trama de calúnias de mil modos urdidas; o ódio fomentado contra a sagrada ordem dos bispos, e principalmente contra o Romano Pontífice; os ataques dirigidos, com a mais impudente audácia e a criminosa impiedade, contra a própria divindade de Cristo, no intuito de extirpar pelas raízes e de destruir a obra divina da Redenção, que força alguma poderá jamais destruir nem cancelar.

4. Estes ataques não são, certamente, uma novidade para a Igreja militante. Porquanto, depois do aviso dado por Cristo aos Apóstolos, ela sabe que, para instruir os homens no caminho da verdade e guiá-los à salvação eterna, ela deve todo dia descer a campo e travar combate. E, na realidade, nos séculos ela sempre lutou intrepidamente até ao martírio, considerando como sua precípua alegria e glória o poder unir o seu sangue ao do seu Fundador: no qual está depositada a segura esperança da prometida vitória.

5. Por outra parte, entretanto, não podemos ocultar nos o profundo senso de tristeza que penetra os melhores, ante esta contínua tensão de batalha. De fato, é motivo de imensa tristeza ver o grande número dos que, pela perversidade dos erros e por esta insolente atitude contra Deus, são arrastados para longe e impelidos para o abismo; o grande número dos que, pondo num mesmo plano todas as formas de religião, pode-se dizer que já estão na iminência de abandonar a fé divina; o número notável dos que são cristãos só de nome, e não cumprem os deveres da sua fé.

E ainda mais nos aflige e nos atormenta o ânimo o considerarmos que a causa principal de tais ruinosos tais ruinosos e deploráveis males está na exclusão completa da Igreja das ordenações sociais, enquanto de propósito se hostiliza a sua salutar influencia. E nisto é de reconhecer um grande e merecido castigo de Deus, o qual cega miseravelmente as nações que se afastam d’Ele.

A necessidade da oração 

6. Este estado de coisas mostra, com evidência sempre maior, o quanto é necessário que os católicos orem e supliquem a Deus com fervor e perseverança "sem nunca cessar" (1Tim 5, 17); e não somente em particular, porém ainda mais em público. Reunidos nos sagrados templos, conjurem Deus a se dignar, na sua infinita bondade, de livrar a sua Igreja "dos homens insolentes e malvados" (2 Tim 3, 2), e a reconduzir os povos ao caminho da salvação e da razão, na luz e no amor de Cristo.

7. Espetáculo incrível e maravilhoso! Enquanto o mundo percorre o seu caminho tormentoso, fiado nas suas riquezas, na sua força, nas suas armas e no seu engenho, a Igreja, com passo veloz e seguro, atravessa os séculos, depositando a sua confiança somente em Deus, a quem, de dia e de noite, ergue o olhar e estende as mãos súplices. Porque, embora na sua prudência não desdenhe os socorros humanos que, pela bondade divina, os tempos lhe oferecem, todavia não é nestes meios que ela deposita a sua principal esperança; mas sim na oração, coletiva e insistente, elevada ao seu Deus. Nesta fonte ela alimenta e fortifica a sua vida; porque, elevando-se, mediante a oração assídua, acima das vicissitudes humanas, e mantendo-se constantemente unida a Deus, é-lhe dado viver, plácida e tranqüila, da própria vida de Cristo. E nisto ela é fiel imagem de Cristo, a quem o horror dos tormentos, sofridos pelo nosso bem, nada diminuiu nem tirou da beatíssima luz e da felicidade que lhe são próprias.

Exemplos de oração na Sagrada Escritura

8. Este grande ensinamento do cristianismo sempre foi escrupulosamente praticado pelos cristãos dignos deste nome. Quando à Igreja ou a quem lhe regia os supremos destinos estava iminente algum perigo, mercê da perfídia e da violência de homens perversos, então com maior insistência e freqüência elevavam os cristãos suas preces a Deus.

9. De tal costume achamos luminoso exemplo nos fiéis da Igreja nascente, exemplo digno de ser proposto à imitação de todos os pósteros. Pedro, Vigário de Cristo, Pontífice supremo de toda a Igreja, por ordem do ímpio Herodes fora lançado no cárcere, e destinado a segura morte. Ninguém estava em condições de lhe levar auxílio para o subtrair àquele perigo. Mas não faltava esse auxílio único que a devota oração sabe obter de Deus. Como nos testemunha a Sagrada Escritura, a Igreja elevava a Deus fervorosíssimas preces por ele: "Mas a Igreja fazia a Deus contínuas preces por ele" (At 12, 5). E tanto mais ardente se tornava o empenho da sua oração, quanto mais grave era a angústia que eles experimentavam por aquela desventura. Todos sabem que essas preces foram atendidas. Antes, todos os anos o povo cristão celebra sempre com agradecida alegria a lembrança da miraculosa libertação de S. Pedro.

10. Outro exemplo, ainda mais luminoso, antes divino, dá-no-lo o próprio Cristo, que se propusera encaminhar e formar na perfeição a sua Igreja não só com os novos preceitos, mas também com a sua vida. Durante e curso de toda a sua vida Ele se dedicara mui freqüente e longamente à oração.

Mas, nas suas horas supremas, quando, no horto de Getsêmani, a sua alma foi invadida de uma angústia imensa e oprimida por uma tristeza mortal, Ele não somente orava, porém "orava mais intensamente" (Lc 22, 43). E isto Ele fez não para si mesmo, pois, como Deus, nada podia temer e de nada precisava; mas fê-lo para nossa vantagem, e para vantagem da sua Igreja, cujas futuras orações e futuras lágrimas desde então Ele generosamente fazia suas, tornando fecundas umas e outras com a sua graça.

Maria mediadora de todas as graças

11. Mas, depois que, por virtude do mistério da Cruz, foi realizar a salvação do gênero humano, e depois que, com o triunfo de Cristo, a Igreja foi plenamente constituída dispensadora da sua salvação, desde então a Providência preparou e estabeleceu para este novo povo uma ordem nova.

12. As disposições da divina Sabedoria devem ser olhadas com profunda veneração. O Filho eterno de Deus, querendo assumir a natureza humana para redimi-la e nobilitá-la, e portanto para contrair um místico consórcio com o gênero humano, não deu cumprimento a este seu desígnio senão depois de obter o livre consentimento daquela que fora designada para sua Mãe, e que, em certo sentido, representava todo o gênero humano; segundo a célebre e veracíssima sentença do Aquinate: "Por meio da Anunciação aguardava-se o consentimento da Virgem, em nome e em representação de toda a natureza humana" (S. Tomás, 3, q. 30, a. 1).

Por conseqüência, pode-se com toda verdade e rigor afirmar que, por divina disposição, nada nos pode ser comunicado, do imenso tesouro da graça de Cristo - sabe-se que "a glória e a verdade vieram de Jesus Cristo" (Jo 1, 17), - senão por meio de Maria. De modo que, assim como ninguém pode achegar-se ao Pai Supremo senão por meio do Filho, assim também, ordinariamente, ninguém pode achegar-se a Cristo senão por meio de sua Mãe.

13. Quanta sabedoria e misericórdia resplandece nesta disposição da Divina Providência! Que compreensão da debilidade e fragilidade humana! De fato, nós cremos na infinita bondade de Cristo, e por ela lhe rendemos louvor; mas também cremos na sua infinita justiça, e desta temos temor. Sentimos uma profunda gratidão pelo amor do Salvador, que por nós deu generosamente o seu Sangue e a sua vida; mas, ao mesmo tempo, tememo-lo no seu caráter de juiz inexorável. Apreensivos pela consciência dos nossos pecados, precisamos, por isto, de um intercessor e de um patrono que, de um lado, goze em alto grau do favor divino, e, de outro, seja de ânimo tão benévolo que a ninguém recuse o seu patrocínio, nem mesmo aos mais desesperados, e ao mesmo tempo infunda confiança na divina clemência àqueles que, abatidos, jazem no desconforto.

Mãe de Deus e Mãe dos homens

14. Pois bem: essa eminentíssima criatura é justamente Maria: certamente Ela é poderosa, porque é Mãe de Deus onipotente, porém - o que é mais consolador -é amorosa, de uma extrema benevolência, de uma indulgência sem limites. Tal no-la deu o próprio Deus, que, havendo-a escolhido para Mãe de seu Unigênito, infundiu-lhe, por isso mesmo, sentimentos requintadamente maternos, capazes somente de bondade e de perdão. Tal no-la mostrou Jesus, quer quando consentiu em ser sujeito e obedecer a Maria, como um filho a sua mãe, quer quando, do alto da Cruz, confiou às suas amorosas solicitudes todo o gênero humano, na pessoa do discípulo João. Tal, enfim, se mostrou ela mesma quando, acolhendo generosamente a pesada herança que lhe deixava seu Filho moribundo, desde aquele momento começou a cumprir, para com todos, os seus deveres de Mãe.

O recurso a Maria na tradição cristã

15. Este plano de terna misericórdia executado por Deus em Maria e ratificado por Cristo com a sua última vontade, foi desde o início compreendido com imensa alegria pelos santos Apóstolos e pelos primeiros fiéis; foi compreendido e ensinado pelos venerandos Padres da Igreja; foi concordemente compreendido, em todos os tempos, pelo povo cristão. E mesmo quando a tradição e a literatura se calassem, esta verdade seria igualmente atestada com grandíssima eloquência pela voz que irrompe do coração de cada cristão.

Sem uma fé divina não se explicaria o imperioso impulso que nos impele e docemente nos arrasta para Maria; o vivo desejo, ou, melhor, a necessidade que sentimos de procurar refúgio na proteção e no auxílio daquela a quem podemos confiar plenamente os nossos projetos e as nossas ações, a nossa inocência e o nosso pensamento, os nossos tormentos e as nossas alegrias, as nossas preces e os nossos votos, em suma todas as nossas coisas; a doce esperança e a confiança, por nós nutridas, de que aquilo que seria menos aceito a Deus, porque apresentado por nós, indignos pecadores, poderá tornar-se-lhe agradabilíssimo se o confiarmos a sua Mãe Santíssima.

Quanto mais a alma se alegra com a verdade e suavidade destes pensamentos, outro tanto se entristece por causa daqueles que, privados da fé divina, não honram Maria: antes, não a consideram nem mesmo como Mãe. E ainda mais se contrista o Nosso coração por causa daqueles que, embora participantes da santa fé, ousam acusar os bons de excessivo e exagerado culto para com Maria, ofendendo com isto grandemente a piedade filial.

16. Portanto, no meio da tempestade de males que tão duramente atormentam a Igreja, todos os devotos filhos desta mesma Igreja vêem claramente que urgente dever têm de orar insistentemente a Deus onipotente, e, sobretudo, de que modo devem aplicar-se a isso para que as suas preces tenham máxima eficácia. Seguindo o exemplo de nossos piedosíssimos pais e antepassados, recorramos a Maria, nossa santa Rainha; e, concordemente, supliquemos a Maria, Mãe de Jesus Cristo e Mãe nossa: "Mostra-te nossa Mãe, e por meio de ti acolha nossas preces Aquele que, nascido para nós, quis ser teu Filho" (Da sagrada liturgia).

Excelência do Rosário

17. Ora, como quer que, entre a diversas formas e maneiras de honrar a divina Mãe, são de preferir aquelas que por si mesmas são julgadas mais excelentes e a ela mais agradáveis, apraz-nos expressamente apontar e vivamente recomendar o santo Rosário. A este modo de orar foi dado, na linguagem comum, o nome de "coroa", porque ela também recorda, num feliz enredo, os grandes mistérios de Jesus e de Maria: as suas alegrias, as suas dores e os seus triunfos. Se os fiéis meditarem e contemplarem devotamente, na ordem, devida, estes augustos mistérios, haurirão deles um admirável auxílio, quer em alimentar a sua fé e em preservá-la da ignorância e do contágio dos erros, quer em elevar e fortalecer o vigor do seu espírito.

De feito, por esse modo o pensamento e a memória de quem reza são, à luz da fé, atraídos com suavíssimo ardor para estes mistérios. Neles concentrados e imersos, nunca se cansarão de admirar a obra inenarrável da Redenção humana, levada a efeito a tão caro preço e com uma sucessão de tão grandes acontecimentos. E, diante destas provas da divina caridade, a alma se inflamará de amor e de gratidão, consolidará e aumentará a sua esperança, e avidamente visará à recompensa celeste, preparada por Cristo para aqueles que se Lhe houverem unido pela imitação dos seus exemplos e pela participação das suas dores. E, enquanto isso, com os lábios se pronunciam as orações ensinadas pelo próprio Cristo, pelo Arcanjo Gabriel e pela Igreja. Orações tão cheias de louvores e de salutares aspirações não poderão ser repetidas e continuadas, na sua vária e determinada ordem, sem produzirem sempre novos e suaves frutos de piedade.

Origem e glórias do Rosário

18. Que, pois, a própria Rainha do Céu haja ligado a esta oração uma grande eficácia, demonstra-o o fato de haver ela sido instituída e propagada pelo ínclito S. Domingos, por impulso e inspiração dela, em tempos especialmente tristes para a causa católica, e bem pouco diferentes dos nossos, e instituída como um instrumento de guerra eficacíssimo para combater os inimigos da fé.

19. Com efeito, a seita herética dos Albigenses, ora sorrateira, ora abertamente, invadira numerosas regiões; espantosa descendência dos Maniqueus, repetia ela os monstruosos erros destes, e renovava as suas hostilidades, as suas violências e o seu ódio profundo contra a Igreja. Contra essa turba tão perniciosa e arrogante, já agora pouco ou nada se podia contar com os auxílios humanos, quando o socorro veio manifestamente de Deus, por meio do Rosário de Maria.

Assim, graças à Virgem, gloriosa e debeladora de todas as heresias, as forças dos ímpios foram abatidas e quebradas, e a fé de muitíssimos ficou salva e intacta. E pede-se dizer que semelhantes fatos se verificaram no seio de todos os povos. Quantos perigos conjurados! Quantos benefícios alcançados! A história antiga e moderna aí está para o demonstrar com os mais luminosos testemunhos.

Difusão e vitalidade do Rosário

20. Porém outra prova evidente também nos é fornecida pelo fato de, apenas instituída a oração do Rosário, haver-se a sua prática em brevíssimo tempo propagado por toda parte, entre toda classe de pessoas. E, de feito, se é verdade que o povo cristão tem achado diversas formas e títulos insignes para honrar a Mãe de Deus, que sozinha se eleva, entre todas as criaturas, por tantas excelsas prerrogativas, todavia é inegável que os fiéis sempre amaram de modo todo particular o título do Rosário: isto é, essa maneira de orar que é considerada como a senha da nossa fé e o compêndio do culto a ela devido.

E têm-na praticado particularmente e em público, no interior das casas e no seio das famílias; instituindo confrarias, consagrando altares, promovendo solenes procissões; convencidos de que de nenhum outro modo poderiam melhor honrar as suas festas e merecer o seu patrocínio e as suas graças.

21. Nem passe em silêncio um fato que focaliza uma particular providência de Nossa Senhora acerca do Rosário. E é este. Quando, com o correr do tempo, no seio de algum povo pareceu enfraquecer-se o gosto pela piedade, e relaxar-se também a prática desta oração, mal se desenhou, pelo lado do Estado, algum gravíssimo perigo, ou se apresentou qualquer necessidade pública, por voto unânime foi a prática do Rosário, de preferência a outras manifestações religiosas, que foi como que por encanto revocada a uso e recolocada no seu lugar de honra, com geral benefício. E desta asserção não se faz mister ir buscar as provas no passado, porque temos ao alcance da mão uma insigne nos nossos dias.

Como dissemos desde o princípio, estes nossos tempos são cheios de amargura para a Igreja de Deus, e ainda mais para Nós, chamado pela Providência Divina a governá-la. Ora, justamente nestes tempos é que nos é dado notar e admirar, em toda parte do orbe católico, um fervoroso despertar na prática e na devoção do Rosário. E, visto que este fato, antes que à diligência humana, se deve efetivamente atribuir a Deus, que dirige e conduz os homens, isto consola, e levanta o Nosso ânimo, enchendo-o de grande confiança em que, pela intercessão de Maria, a Igreja poderá alcançar novos e mais extensos triunfos.

Como se deve orar

22. Há alguns que crêem as coisas que havemos relembrado; mas, depois, vendo não haver sido ainda alcançado nada daquilo que se esperava - e em primeiro lugar a paz e a tranqüilidade da Igreja, antes, vendo a situação tornar-se sempre mais ameaçadora, como que cansados e desconfiados diminuem a assiduidade e o ardor da sua oração. Mas estes deveriam, em primeiro lugar, refletir, e fazer com que as orações por eles dirigidas a Deus sejam dotadas dos requisitos que, segundo o preceito de Cristo Senhor Nosso, são necessários.

E, depois, se as suas orações fossem realmente tais, deveriam eles além disso considerar que é coisa indigna e culposa o querer fixar a Deus o momento e o modo de vir em nosso socorro, a Deus que não nos deve nada; tanto que, quando Ele atende a quem lhe ora, e quando "coroa os nossos méritos, na realidade não coroa outra coisa senão os seus próprios dons" (S. Agostinho, Epistola 194 al. 105 ad Sixtum, c. 5, n. 19); e, quando não secunda os nossos desejos, comporta-se providencialmente como um bom pai para com seus filhos, o qual tem piedade da estultícia destes, e olha sempre à sua verdadeira utilidade.

A oração pela Igreja e a oração da Igreja

23. Mas Deus acolhe benignamente e atende as orações que amparadas pela intercessão dos Santos, devotamente lhe erguemos para torná-lo propício à sua Igreja; seja quando para a sua Igreja pedimos os bens mais altos e eternos, seja quando pedimos bens importantes e temporais, mas, em todo caso, úteis àqueles. Com efeito, a tais orações adita valor e imensa eficácia, com suas orações e seus méritos, Nosso Senhor Jesus Cristo, que "amou a Igreja e deu-se a si mesmo por ela, com o fim de santificá-la... para fazer aparecer diante de Si mesmo, gloriosa, a Igreja" (Ef 5, 25-27); Ele que lhe é o Pontífice supremo, santo, inocente, "sempre estando vivo, para poder interceder por nós"; Ele que, nas suas orações e súplicas - cremo-lo por fé divina - sempre consegue o seu intento.

24. Portanto, no que diz respeito aos interesses da Igreja, é sabido que as mais das vezes ela deve lutar com adversários formidáveis por ódio e poder; e sobejas vezes deve ela doer-se de que pelos seus inimigos lhe sejam arrancados os seus bens, limitada e oprimida a sua liberdade, atacada e desprezada a sua autoridade, e, em suma, infligidos danos e violências de todo gênero.

E, se nos perguntarem por que razão a maldade destes não chega ao cúmulo de injustiça que eles se propõem e se esforçam por atingir, e, de outra parte, por que razão a Igreja, mesmo no meio de tantas vicissitudes, refulge sempre, conquanto de modos diversos, da mesma grandeza e da mesma glória, e continua a progredir, justo é atribuir à verdadeira causa de um e de outro fato ao poder da oração unânime da Igreja; não podendo humanamente explicar-se como a iniquidade, mesmo tão descarada, seja contida dentro de limites tão estreitos ao passo que a Igreja, embora mantida em opressão, alcança sem embargo, tão esplêndidos triunfos.

E isto aparece ainda mais evidente no campo desses bens de que a Igreja se serve para conduzir os homens à posse do bem supremo. Visto haver ela nascido justamente para esta missão, a sua oração deve ter uma grande eficácia em obter que se cumpra perfeitamente sobre os homens o desígnio da providência e misericórdia de Deus; de modo que, quando os homens oram com a Igreja e por meio da Igreja, em definitivo impetram e obtêm aquilo que "desde a eternidade Deus onipotente dispusera conceder" (S. Tomás, II-II, q. 83, a. 2: de S. Greg. Magno).

Os milagres da oração

25. Neste mundo a mente humana falha em face dos excelsos planos da Divina Providência; mas dia virá em que o próprio Deus, na sua grande bondade, nos manifestará as causas e o enredo dos acontecimentos; e então aparecerá claramente que poderosa eficácia de impetração teve nesta ordem de coisas o dever da oração.

Então ver-se-á que foi justamente por virtude da oração que muitos, mesmo em meio à grande corrupção do mundo depravado, se conservaram puros e isentos "de toda contaminação de carne e de espírito, realizando a santificação no temor de Deus" (2 Cor, 7, 1); que outros, quando estavam a ponto de ceder ao mal, não somente se contiveram, mas do perigo e da tentação tiraram um acréscimo de virtude; que outros, já derrubados, por um estímulo interior foram impelidos a levantar-se e a lançar-se no amplexo de Deus misericordioso.

26. Por isto Nós conjuramos todos a quererem meditar atentamente estas verdades; a não se deixarem seduzir pelos ardis do antigo inimigo; a nunca abandonarem, por motivo algum, a prática da oração; antes os exortamos a perseverarem nela, sem nunca se cansarem. E, em primeiro lugar, lembrem-se de implorar o mais alto de todos os bens: a salvação eterna de todos, e a incolumidade da Igreja. Depois disto poderão invocar de Deus os outros bens que concernem à prosperidade temporal; contanto que sejam resignados à sua justíssima vontade, e que, atendidos ou não nas suas orações, saibam render-Lhe graças como ao mais benfazejo dos pais.

Por último, recomendamo-lhes orarem com esse espírito de religião e de piedade que sempre convém quando se trata com Deus: como costumavam fazer os Santos, e como fazia o nosso próprio Redentor e Mestre, "com fortes gritos e lágrimas" (Heb 5, 7).

Com a oração, a mortificação

27. A esta altura, a dor e o afeto de Pai impele-nos a implorar de Deus, dador de todos os bens, para todos os filhos da Igreja, não somente o espírito da oração, mas também o da mortificação. Isto fazendo de todo coração, Nós exortamos todos, com a mesma solicitude, a praticarem esta virtude, tão estreitamente unida à outra.

Porquanto, se a oração conforta a alma, robustece-a e eleva-a às coisas celestes, a mortificação habitua-nos a dominar-nos a nós mesmos, e especialmente o corpo, que, por motivo de antiga culpa, é o mais perigoso inimigo da razão e da lei evangélica. Há entre estas virtudes - como é evidente um nexo indissolúvel. Elas se ajudam reciprocamente, e juntas tendem ao mesmo fim, que é o de desapegar o homem, nascido para o Céu, das coisas caducas deste mundo, para elevá-lo quase a uma celeste intimidade com Deus. Ao contrário, aquele que tem o ânimo aceso pelas paixões e amolecido pelos prazeres tem náusea das alegrias celestes, que nunca experimentou. A sua oração não passa de uma voz fria e lânguida, certamente indigna de ser escutada por Deus.

O exemplo dos santos

28. Temos sob os olhos os exemplos de mortificação a nós deixados pelos Santos. Pois bem: era justamente esse espírito de mortificação que tornava aceitas a Deus as suas orações; tanto que, como nos atesta a história sagrada, eles tiveram até mesmo o poder de operar milagres. Esses Santos eram assíduos em regular e refrear a mente, o coração e as paixões; submetiam-se sempre com grande docilidade e humildade à doutrina de Cristo, aos ensinamentos e aos preceitos da sua Igreja; nada queriam, nada recusavam, sem antes haver sondado a vontade de Deus; nas suas ações não se propunham outro escopo senão a maior glória de Deus; continham e reprimiam energicamente os apetites da carne; tratavam o próprio corpo duramente e sem piedade; e, por amor da virtude, abstinham-se até mesmo das coisas por si mesmas lícitas. Assim podiam com razão aplicar a si mesmos as palavras que o Apóstolo Paulo dizia de si: "já que a nossa cidadania é nos céus" (Filip 3, 20); e, pela mesma razão, as suas orações eram tão eficazes em lhe tornar Deus propício e benigno.

Necessidades da penitência

29. Certamente, nem a todos é dada a possibilidade, nem todos têm a obrigação de fazer o mesmo; mas cada um é obrigado, segundo o seu poder, a mortificar a sua vida e os seus costumes. Exige-o a justiça divina, à qual é dada estrita satisfação das culpas cometidas; e é preferível dar essa satisfação enquanto se está em vida, com penitências voluntárias, porque assim também se tem o mérito da virtude.

Além disto, já que nós todos estamos unidos e vivemos no corpo místico de Cristo, que é a Igreja, daí se segue, consoante S. Paulo, que, tal como os gozos, assim também as dores de um membro são comuns a todos os outros membros: quer dizer que os irmãos cristãos devem vir voluntariamente em auxílio dos outros irmãos nas suas enfermidades espirituais ou corporais, e, na medida em que estiver em seu poder, cuidar da cura deles; "os membros tenham a mesma solicitude uns com os outros; e, se um membro sofre, sofrem com ele todos os membros; ou, se tem glória um membro, todos os membros se regozijam com ele.

Ora, vós sois corpo de Cristo, e particularmente sois membros deste" (1 Cor 12,25-27). Nesta prova que a caridade nos pede, de expiarmos as culpas de outrem, a exemplo de Jesus Cristo, que com imenso amor deu a sua vida para redimir todos do pecado, está esse grande vínculo de perfeição que une estreitamente os fiéis entre si, com os Santos e com Deus.

30. Em suma, o espírito da santa mortificação é tão vário, industrioso e extenso, que qualquer um desde que animado de piedade e de boa vontade pode praticá-lo com muita freqüência e sem esforço excessivo.

Exortações e esperanças 

31. Depois do que até aqui expusemos, não nos resta, Veneráveis Irmãos, senão esperar dos Nossos avisos e das Nossas exortações o êxito mais consolador. E de fato o esperamos da vossa singular e profunda piedade para com a augusta Mãe de Deus, da vossa solicitude e do vosso zelo pelo rebanho a vós confiado. E já a nossa alma se alegra em prever frutos felizes e abundantes, como aqueles que os católicos souberam colher da sua notável piedade para com Maria. Que, pois, graças aos vossos convites, às vossas recomendações e ao vosso exemplo, os fiéis, especialmente no próximo mês, acorram e se reúnam em torno dos altares, solenemente ornados, da augusta Rainha, da benigníssima Mãe; e com coração filial lhe entreteçam e lhe ofereçam místicas coroas com a recitação, a ela tão grata, do Rosário.

De Nossa parte, confirmamos e ratificamos não só as prescrições já outras vezes dadas a propósito, mas também as sagradas Indulgências já concedidas (Encíclica "Supremi Apostolatus", 1 Set. 1883. Encíclica "Superiore Anno", 30 Ag. 1884; Decreto S. R. C. "Inter Plurimos", 20 Ag. 1885; Encíclica "Quanquam Pluries", 15 Ag. 1889). Oh! como será belo e vantajoso o espetáculo de milhões de fiéis que, em todo o orbe católico - nas cidades, nas aldeias, nos campos, em terra e no mar, - fundindo juntos os seus louvores e as suas preces, os seus pensamentos e as suas vozes, saudarem a todas as horas do dia Maria, invocarem Maria, e tudo esperarem de Maria! Roguem-lhe todos, com confiança, queira Ela obter de seu Filho que as nações transviadas voltem às instituições e aos princípios cristãos, nos quais assenta a base do bem-estar público, e da qual jorram os benefícios da desejada paz e da verdadeira felicidade.

Porém ainda mais insistentemente lhe peçam aquilo que deve estar no ápice dos desejos de todos os bons, ou seja a liberdade da Igreja e a pacífica posse dessa liberdade, de que ela não se serve senão para proporcionar aos homens o bem supremo. Desta liberdade, nem indivíduos nem Estados sofreram jamais dano algum; antes, dela hauriram sempre inúmeros e inestimáveis benefícios.

32. Finalmente, Veneráveis Irmãos, que pela intercessão da Rainha do Rosário Deus vos conceda os favores e as graças celestes, das quais possais haurir, em sempre maior abundância, auxílio e força para cumprirdes santamente os deveres do vosso ministério pastoral. E delas seja penhor e auspício a Bênção Apostólica que de coração concedemos a vós, ao vosso clero e ao povo confiado aos vossos cuidados.

Dado em Roma, junto a S. Pedro, a 22 de Setembro de 1891, décimo quarto ano do Nosso Pontificado.

 

LEÃO PP. XIII

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