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CAMPANHA DE ROSÁRIOS PELAS ELEIÇÕES

 

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Category: Meditações e sermõesConteúdo sindicalizado

Naquele dia

Pe. Luis Cláudio Camargo - FSSPX

“Naquele dia os montes destilarão doçura e das colinas manará leite e mel. Porque virá o grande Profeta que renovará Jerusalém. E tu, Belém, terra de Judá, não serás a menor, pois de ti sairá o Rei que virá para reger meu povo Israel”.

 

 “Na Igreja latina – diz Dom Guéranger em seu livro “O ano litúrgico”1 – dá-se o nome de Advento2 ao tempo destinado pela Igreja à preparação dos fiéis para a celebração da Festa do Natal, aniversário do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. O mistério deste grande dia merecia, sem dúvida, um prelúdio de oração e penitência. Contudo, é impossível assinalar com precisão a instituição primeira deste tempo de preparação, que recebeu mais tarde o nome de Advento”.

O Advento é, então, o tempo da preparação para a vinda de Nosso Senhor. Tempo de preparação, de espera, de penitência curiosamente misturada com alegria. 

Santo Tomás, em um sermão que pronunciou no 1º Domingo de Advento, em Paris, por volta de 1270, comentando as palavras do profeta Malaquias – “Eis que teu Rei vem a ti com mansidão” – diz: “Para não cair em nenhuma ambigüidade, deveis saber que a vinda de Cristo pode entender-se de quatro maneiras: Sua vinda à carne ou Encarnação; Sua vinda a nossa alma; Sua vinda no momento da morte dos justos; Sua vinda final para julgar todos os homens”. 

Na liturgia apresentam-se todos estes aspectos de modo muito profundo. Dizia também Santo Tomás que por cada uma destas vindas de Cristo, a Igreja celebra os quatro domingos do Advento. (Continue a ler)

  1. 1. G. Oudin et Cie, Editeurs. 1911.
  2. 2. Do latim Adventus, que significa Vinda. Dá-se ao exercício de preparação o nome do próprio acontecimento a que se propõe preparar.

Dos costumes divinos

[O opúsculo DOS COSTUMES DIVINOS é o LXII da EDIÇÃO ROMANA  das obras de Santo Tomas de Aquino (publicada em 1570 por ordem de São Pio V).

Hoje, não mais se atribui este texto ao Doutor Angélico, sendo desconhecido o seu autor. Contudo, quem quer que o tenha escrito, é interprete fiel de sua doutrina e, por sua elevação e ingenuidade, remetem-nos ao próprio santo Tomás.]

 

 

“Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48). A Santa Escritura nunca nos ordena e nos aconselha algo de impossível. Por essa palavra, o Senhor Jesus não nos manda fazer as próprias obras e os costumes de Deus, os quais ninguém pode atingir de maneira perfeita.

Mas nos convida a nos calcarmos neles o mais possível procurando imitá-los. Nos o podemos, com o socorro da graça, e devemos. E como diz o bispo João, nada convém mais ao homem do que imitar seu criador e executar, segundo a medida de seu poder, a obra de Deus. (Leia mais)

Media Vita

Pe. Luis Cláudio Camargo - FSSPX

 

Eis aqui que no meio da vida nos assaltou a morte. 

Que auxilio procurar, senão a Vós, Senhor, que por nossos pecados com razão vos irritais?

Deus Santo, Deus forte, Salvador misericordioso, não nos entregueis à morte amarga. 

Em Vós nossos pais esperaram; esperaram e livraste-los. 

A Vós clamaram nossos pais; clamaram e não foram confundidos 1.

 

Introdução

A preparação litúrgica para a festa da Páscoa se divide em muitas partes. Inicia-se com o tempo da Septuagésima (preparação remota que compreende três domingos) e se prolonga com o tempo da Quaresma propriamente dito (que compreende quatro domingos). Com a aproximação da festa principal do ano litúrgico nos deparamos com o tempo da Paixão (preparação imediata com dois domingos: 1º Domingo da Paixão e Domingo de Ramos). No fim desta última semana - Semana Maior- estão os dias mais importantes do ano: Quinta Feira Santa (Instituição da Eucaristia), Sexta feira Santa (Morte de N. Senhor), Sábado Santo (Vigília Solene) e o Domingo da Ressurreição.

Uma análise de todos os textos litúrgicos seria de grande interesse, porém, nos parece importante, antes de entrar em tal análise, fazer o leitor encontrar os pontos de unificação de todos esses elementos. A prática das penitências quaresmais é certamente um dos principais. Queremos no presente artigo atrair a atenção sobre este ponto tão crucial. (Continue a leitura)

  1. 1. Responsório do tempo da Septuagésima.

O Presente Natal da Virgem Maria

Dom Lourenço Fleichman OSB

 

Desde o início do Advento temos meditado nos mistérios da Virgem Maria. Escolhi Nossa Senhora como objeto de nossa preparação ao Natal e tenho procurado acompanhá-la em todos os cuidados e prerrogativas com que foi agraciada por Deus. 

A vida extraordinária da Mãe de Deus começa com o mistério da sua concepção imaculada, preservada que foi do Pecado Original. Consideramos este primeiro pecado transmitido a todos os filhos de Adão e Eva como um óbice, um obstáculo à graça divina introduzido na alma de todos os filhos de Adão e Eva, por modo de geração. Todas as almas criadas por Deus para animar um corpo concebido neste mundo trazem essa tara, esse defeito inicial, pelo fato mesmo de terem sido gerados. Como a natureza humana em Adão e Eva deixou o Jardim do Éden ferida e decaída, tendo perdido a graça e também os dons preternaturais, era natural que todos nascessem sem o domínio da razão sobre as concupiscências. A natureza humana, depois do pecado, perdeu seu estado de integridade, tornando-se decaída. Além desse estado de miséria que nos arrasta tantas vezes ao pecado, Deus quis que nascêssemos todos com a mancha daquele pecado que nossos primeiros pais cometeram desgraçadamente. (Continue a ler)

Panegírico de São Francisco de Assis

 Bossuet

(Pregado em Metz no dia 4 de outubro de 1665)

Sublime e celeste loucura de São Francisco, que lhe faz colocar as suas riquezas na pobreza, as suas delícias nos sofrimentos, a sua glória na humilhação.

Si quis videtur inter vos sapiens esse in hoc saeculo, stultus Fiat ut sit sapiens.

"Se no meio de vós há alguém sábio segundo o século, faça-se louco para ser sábio" (1Cor 3, 18).

O Salvador Jesus Cristo, cristãos, deu um amplo assunto de discussão, ainda que de modo bem diverso, a quatro sorte de pessoas: aos judeus, aos gentios, aos hereges e aos fiéis. Os judeus, preocupados com essa opinião mal fundada do Messias vir ao mundo com pompa real, prevenidos por essa falsa crença, aproximam-se do Salvador. Viram-no reduzido à mais completa simplicidade, sem nada do que impressiona os sentidos, um pobre homem sem fausto e sem glória: desprezaram-no. “Jesus lhes era um escândalo: Judaeis quidem scandalum, diz o grande apóstolo[2]. Os gentios por sua vez, que se tinham por autores e senhores da boa filosofia, e que, desde longos séculos, viram brilhar no meio deles os espíritos mais célebres do mundo, quiseram examinar a Jesus Cristo segundo as máximas recebidas pelos sábios da terra. Mas, ouvindo falar de um Deus feito homem, que vivera miseravelmente, que fora pregado em uma cruz, fizeram dele um objeto de escárnio. “Jesus foi para eles uma loucura,” Gentibus autem stultitiam, continua São Paulo.  Leia mais

Sou católico, eis a minha glória

Cravos utilizados na crucificaçãoExiste uma atitude freqüente entre nós e, no entanto, profundamente absurda: o sentirmos vergonha de sermos católicos. A isso se chama respeito humano.

Ora, quem tem vergonha de estar com boa saúde? Quem tem vergonha de possuir um emprego interessante e bem remunerado? Ou uma família amorosa? Ninguém, evidentemente. Ao contrário, sentimos orgulho de nossas riquezas naturais (a saúde, a vida profissional, a família), e temos mesmo a tendência de ostentá-las.

Por que bizarrice do espírito humano, então, acontece de sentirmos vergonha das riquezas sobrenaturais que são nossas, da nossa fé católica, da graça divina? Podemos nos acanhar delas? É incompreensível, e contudo é um mal demasiadamente difundido entre os católicos. 

A falta, o vício que deveria nos ameaçar, em boa lógica, não deveria ser a vergonha, mas antes a jactância, o orgulho. Se sou amigo de um rei, de um homem político, de uma estrela do cinema ou da música, de uma atleta famoso, quero proclamá-lo por cima dos telhados. Por que, então, se sou amigo de Jesus Cristo, Filho de Deus, Rei dos reis e Senhor dos senhores, tenho antes a tendência de escondê-lo? O respeito humano é, em si mesmo, a coisa mais imbecil e inconveniente: e contudo, ele nos paralisa a cada dia.  Leia mais

Quem pode ser salvo?

Pauper peregrinus

Para ir para o céu, precisamos de três virtudes teológicas: fé, esperança e caridade. Para convivermos bem com o próximo, porém, qualidades mais básicas bastam: simpatia, doçura, decência e honestidade básicas. Porém, como vemos o próximo e não vemos o céu, as pessoas facilmente imaginam que essas qualidades mais básicas são “o que realmente conta”. Partindo desse pensamento, basta um pequeno salto para supor que todo mundo que não seja um completo canalha provavelmente acabará indo para o céu.

Esse tipo de pensamento é a morte da evangelização. Se nosso irmão não católico, e mesmo não cristão, provavelmente está bem do jeito que está, por que se dar ao trabalho de tentar trazê-lo para a Igreja? Não será melhor deixá-lo em paz, uma vez que, tornando-se católico, terá de crer, fazer e evitar uma série de coisas que até então desconhecia? Por essa lógica, seria cruel levar-lhe a luz!

Obviamente, esse pensamento é ilógico. A verdade nos liberta e o erro nos aprisiona. O Evangelho não é um fardo do qual queremos poupar o próximo; é a graça de Deus e vida eterna. Jesus Cristo não é apenas mais um entre outros, nem mesmo um “caminho privilegiado”, como disse recentemente certo bispo americano: Ele é o caminho para o Pai, e não podemos atravessar esse caminho sem O conhecer.

Infelizmente, o indiferentismo, apesar de ter sido condenado em termos muito severos por vários papas do século XIX, infiltrou-se na Igreja Católica no século XX e tornou-se intelectualmente respeitável. Um dos que reagiram com força contra ele foi o padre jesuíta, Leonard Feeney (1897-1978). Sua história é bem conhecida: insistindo na interpretação literal do axioma “fora da Igreja não há salvação”, ele se tornou um bem sucedido capelão para estudantes na Universidade de Harvard. Pais protestantes estavam irritados ao ver seus filhos convertendo-se a Roma. O Cardeal Cushing, Arcebispo de Boston, sentiu que o Pe. Feeney e seus seguidores estavam se expressando de modo muito enfático e solicitou uma carta do Santo Ofício acerca do caso.

A carta chegou no dia 8 de Agosto de 1949. Ela demonstrava espanto com os ensinamentos do Padre Feeney e explicava que, em certas circunstâncias, uma pessoa poderia fazer parte da Igreja Católica por um “desejo implícito” de pertencer a ela. O próprio Padre Feeney foi convocado a Roma. Antes de ir perguntou, de modo bastante razoável, se estava sendo convocado para um julgamento e, em caso afirmativo, por qual crime seria julgado. Finalmente, em 1953, recebeu sua resposta: um decreto de excomunhão. Ele foi condenado não por faltar contra a fé, mas por recusar as convocações de Roma. Frank Sheed, amigo do padre excomungado e fundador da publicação Sheed & Ward, chegaria a comentar: “O Pe. Feeney foi silenciado, mas não recebeu sua resposta”.

Essa história um tanto trágica transformou-se em farsa em novembro de 1972. Um bispo, enviado da Santa Sé, veio ver o padre, já velho e doente, para buscar sua reconciliação. Alguém sugeriu que o Pe. Feeney e sua comunidade cantasse o Credo Atanasiano. Trata-se do credo que começa com as palavras: “Quem desejar ser salvo, precisa, antes de tudo, ter a Fé Católica”. Quando terminaram o cântico, foi-lhe dito que finalmente se reconciliara com a Igreja. Ele morreu no dia 30 de janeiro de 1977.

É difícil não simpatizar com Leonard Feeney. Nenhum protestante jamais se converteu ao ouvir que poderia perfeitamente estar em ignorância invencível. É dever dos padres explicar aos homens a mensagem divina na sua totalidade, o que inclui o dever de crer nessa mensagem e de entrar na Igreja Católica se quiserem salvar suas almas. “Renunciamos coisas que a vergonha manda ocultar”, dizia São Paulo, “[não] adulterando a palavra de Deus”.

Há, porém, três questões distintas que não podem ser confundidas, embora o sejam com frequência, até por alguns teólogos: (1) É possível salvar-se sem o batismo de água? (2) É possível salvar-se sem ser católico, ou ao menos sem a intenção explícita de se tornar? (3) É possível salvar-se sem a crença explícita em Cristo? No que segue, responderei às perguntas, deixando as posições do Padre Feeney sobre cada uma dessas questões a seus biógrafos.

1. Deixando de lado o caso especial do martírio, que os Padres da Igreja exaltam por seu poder de remover o pecado, podemos dizer que há provas para crer no “batismo de desejo” na Igreja primitiva, mas que ninguém considerava isso um ponto de fé. Os dois Padres mais citados nesse tema são Santo Agostinho e Santo Ambrósio. O Imperador Valentiniano II, que havia bravamente resistido às demandas de senadores pagãos para restaurar sua antiga religião, queria ser batizado, mas morreu violentamente enquanto ainda era catecúmeno. Santo Ambrósio falou, em um panegírico funeral, que ele havia sido lavado por seu desejo, assim como os mártires o são pelo sangue. Ainda assim, o mesmo santo afirma, em outro lugar, ao menos como regra geral, que, embora os catecúmenos já possam crer no poder da Cruz, seus pecados não são lavados sem a água batismal.

Santo Agostinho, em uma obra sobre o batismo, diz que, após refletir sobre o tema, parece-lhe que a fé e a conversão do coração podem suprir o batismo se alguma crise repentina impede que o sacramento seja ministrado antes da morte. Ainda assim, ele, como Santo Ambrósio, também afirma a regra geral de que, por mais avançado que esteja um catecúmeno, não estará livre do peso de seus pecados sem o batismo. Ele não retratou nenhuma das opiniões no fim de sua vida, no livro que escreveu para corrigir erros que haviam sido cometidos em sua extensa obra.

Essa posição nuançada veio a ser adotada no Ocidente de forma geral. São Bernardo, no Século XII, surpreendeu-se ao ouvir pessoas negando peremptoriamente a possibilidade de salvação dos catecúmenos, e Santo Tomás de Aquino concorda com ele. Ainda assim, esse “batismo de desejo”, aparentemente, não é mencionado pelos padres orientais, e sua existência não foi definida pela Igreja. Os católicos estão livres para crer que Deus, de alguma forma, garantirá que todos aqueles predestinados serão lavados nas águas batismais antes de morrerem; mas não podem alegar que isso faça parte da fé.

2. Todos esses santos, porém, referiam-se a católicos catecúmenos. É possível encontrar, em seus escritos, algo que indique que as pessoas batizadas em corpos não católicos podem ser salvas? Dificilmente. Santo Agostinho chega a mencionar de passagem que devemos pensar de modo muito diferente sobre aqueles que cresceram em tais corpos do que aqueles que abandonaram a Igreja para se juntar ou fundá-los. Mas o que devemos pensar deles? Se pessoas nascidas dentro desses grupos são validamente batizadas e recebem os ensinamentos corretos acerca da Trindade ou da Encarnação, e, especialmente, se têm os sacramentos da confissão e da Santa Eucaristia para ajudá-los a obedecer os mandamentos, não podemos excluir a possibilidade de que ao menos alguns deles estejam em estado de graça, e, portanto, que suas almas, embora não seus corpos, estejam na Igreja. Eles seriam como soldados irregulares, combatendo do lado correto, porém sem saber quem são seus comandantes.

3. Quando, porém, se trata daqueles que não conhecem Cristo, não podemos ter sequer essa esperança incerta. Aquele que tem o Filho tem a vida; aquele que não tem o Filho não tem a vida. Não podemos nos tornar amigos de Deus, salvo ao aceitar Sua oferta de perdão. Antes da Sexta-Feira Santa, a humanidade foi convidada a aceitar a redenção que viria um dia. Desde a Sexta-Feira Santa, a humanidade é convidada a aceitar a redenção que já chegou: mas ninguém pode fazer isso sem ter ouvido sobre o Redentor. Como poderão crer nAquele de quem não ouviram, indaga São Paulo. Até mesmo o Papa João Paulo II, apesar de seus encontros transviados em Assis, declarou em seu ensinamento oficial: “A distinção entre a fé teológica e o tipo de crença das outras religiões deve ser mantida com firmeza” (Dominus Iesus, 17). E, como o Concílio de Trento ensina, ecoando São Paulo, a fé teológica é necessária para que o homem seja justificado e agrade a Deus.

Ainda assim, essas pessoas, sendo detentoras do Espírito Santo, responderão, mais cedo ou mais tarde, à pregação da Igreja, de Quem Ele é a alma. O que é mais uma razão para que os pastores da Igreja os convidem de volta ao lar! É impossível aprovar o costume moderno de padres e bispos católicos de pregar a grupos de não católicos e não fazer esse convite.

Fora da Igreja, não há salvação. Os teólogos podem oferecer explicações aqui ou ali sobre essas gloriosas palavras. Mas os pregadores, como Noé, deveriam simplesmente convidar os homens a entrar nela antes que seja tarde demais.

(The Angelus, Maio 2022)

Conferências sobre a santidade (II)

Nota da Permanência: O Padre Matéo proferiu estas conferências às superioras de diversas comunidades religiosas do Canadá, na província do Québec, em 1945. Embora endereçadas às almas consagradas, estas conferências são utilíssimas aos leigos, havendo estes tão-somente de fazer as devidas substituições, como “almas consagradas” por “almas batizadas”, “comunidade” por “família”, “vida religiosa” por “vida cristã” e assim por diante. 

 

Pe. Mateo Crawley-Boevey

 

O grande perigo da mediocridade

Não prego sobre o inferno, pois não é a minha missão; porém lhes darei uma conferência sobre a mediocridade. Certa vez me dizia um arcebispo após essa pregação: “Se o senhor me desse um tapa na cara, o efeito seria o mesmo! Ah, se soubesse como chorei!” O grande perigo, o único nos conventos, é a mediocridade, pois nos conventos existem poucos riscos: o mundo mundano só lhes afeta de leve, assim não se constitui em perigo imediato, mas no jardim do Senhor há um perigo enorme – a mediocridade, que é um mal horrível e terrível, porque é um mal de hipocrisia. Se fosse um escândalo, gritaríamos: “Cuidado!”, contudo a mediocridade não é escandalosa. Ela é semelhante ao diabético. Que está doente no diabético? Não é o coração, o estômago ou a cabeça, antes é um envenenamento do sangue, que começa a ser substituído por açúcar, sem provocar muita dor; ainda assim o corpo não está são mas doente. Essa é a forma de ação da mediocridade, que para as comunidades é pior que a lepra. Assemelha-se ela a pecados como a blasfêmia e a impureza? Não, pois não é o coração nem o estômago que estão doentes, e sim a alma inteira que está estragada, porque perdeu a noção de vida religiosa. Essa condição perdeu muitos religiosos e religiosas; é a peste do clero e das comunidades.

 

 

O minimismo

 

Em que consiste ele? Essa doença, que chamo de minimismo, consiste em barganhar com Deus: “Senhor, não me peçais isso. Que me estais pedindo, Senhor? O Senhor me pedis cem, mas só vos darei vinte, ficai contente! Onde já se viu, eu santa? Sou uma irmã muito boazinha, e isso já basta, Senhor”. Não afirmamos isso com a boca, mas com a própria vida, oferecendo tão-só o indispensável para que não sejamos ruins.

 

A vida religiosa é doação total, coração em troca de coração, vida em troca de vida; é amar a Deus loucamente, para que Ele seja amado e vocês se tornem santas. Já a mediocridade é exatamente o contrário: “Não tenho pretensões à santa; estou contente de ser uma mera irmã boazinha; e vós, Jesus, ficai satisfeito, pois é só isso!” Fizeste os três votos apenas para seres uma irmã boazinha vestida de freira? – diria Jesus. Senão, vejamos. Vocês, religiosas, são capazes de realizar um milagre? Não, porque não são santas; estão vestidas de rainha e, ainda assim, ousam comportarem-se como servas. Vivam como rainhas. Eu, que sou cego, digo: “Sejam santas”; e Ele, Jesus, que não é cego, lhes diz a mesma coisa. Não imitem aquela tola, religiosa só de nome, que confessava: “Tenho medo de lhe dar um dedo, pois poderá querer os cinco, e mais tarde os dez.” Que raciocínio! Elevem-se, custe o que custar, nos braços de Jesus. Estejam certas de que vocês foram escolhidas para avivar a faísca [do amor], a fim de elevarem-se a si e elevarem os outros.

 

Na mediocridade há dupla injustiça. Nosso Senhor me dá um milhão e, em lugar de capitalizá-lo, limito-me a esbanjá-lo. Assim põe-se a perder a glória de Deus e as almas! Vocês não são fervorosas, por isso [a oração] não surte efeitos para si nem para os outros; ninguém dá o que não tem. E que darão à comunidade? A comunidade está com fome e frio; se é assim, deem-lhe o coração de Teresinha. Se a superiora não ambiciona a santidade, falta aquecimento central; vocês só produzem faíscas, quando em verdade precisam ser fogo para atear fogo.

 

Que falta na vida cristã? Não são conferências, confrarias ou medalhas, antes são os Cura d’Ars que faltam, em 95% dos casos. Todos costumam dizer que fazem o possível e o impossível. Será verdade? Já são santas? Vocês poderiam sair deste retiro verdadeiras labaredas para si mesmas e as suas comunidades! Um carro não anda sem gasolina; a gasolina, que é a vida espiritual e o amor a Deus, está em falta; esse é o motivo da falta de santos.

 

No convento a superiora reclama de que nada vai para frente; mas existe lá alguma Santa Teresinha? Não? Então, o que está faltando é um santo. Tenham a confiança e o amor de Teresinha, pois este é o segredo da fecundidade e do apostolado.

 

 

Vivam como milionárias

 

Dizia certo padre agonizante: “Ah, morrer assim, morrer assim! – Qual o problema, se o senhor sempre agiu bem... Trinta e oito anos de sofrimentos e trabalhos pela glória de Deus. Fique em paz! Deus é tão bom! – Ah, é verdade, respondeu ele, padeci muitos, bastantes trabalhos, mas amei tão pouco a Nosso Senhor, estive tão longe de ser santo.”

 

Escutaram: “Amei tão pouco a Nosso Senhor”. Muito trabalho e pouco amor. Não é o muito trabalho que salva, mas o coração fervoroso de Teresinha. Teresa d’Ávila nem sempre percorreu o caminho que conduz ao alto; ela conheceu a mediocridade durante os anos de convento. Ah mediocridade maldita, que nos corta as asas! Deus lhes amou a ponto de provocar inveja aos anjos; Ele as apelida de “minhas prediletas”, o que nem os anjos mereceram ouvir, mas vocês ousam não corresponder à altura, amando-O de volta. Os anjos conhecem o catecismo, e se mordem de inveja santa do amor que Jesus dedica a vocês.

 

Se no rótulo da garrafa está gravado: “Mediocridade”, nele tratem de escrever em letras garrafais: horrível veneno. Substituamos o rótulo e então ponhamos: Ingratidão; isso mesmo, a mediocridade é uma in-gra-ti-dão. Vocês afirmam que são pobres, contudo estão dizendo besteira, tolices; vivem como mulherezinhas pobres, o que é bom, mas nada além disso. Na verdade, vocês são milionárias, por isso vivam como milionárias. As almas religiosas somos as que, na maioria dos casos, demonstramos a pior das ingratidões, porque não vivemos segundo o desejo do rei Jesus. Uma religiosa que se contenta com ser moça boazinha e não ambiciona elevar-se, é uma ingrata. Ah, se eu pudesse molhar a minha pena no sangue do Sacratíssimo Coração de Jesus! Lutem, lutem contra a doença da mediocridade. Que vocês pensariam de Santa Gertrude, Santa Matilde e Santa Teresa se elas tivessem sido apenas Boa Gertrude, Boa Matilde e Boa Teresa? Não seriam santas. Temam o pecado de ingratidão, pois ela é a lança que vocês retiram das mãos de Longino para ferir o Sacratíssimo Coração de Jesus.

 

Num monastério da Europa, a madre assistente ia morrer. Ela provinha duma família riquíssima; assim lhe enviaram dois médicos que a visitavam de duas a três vezes por dia. Certa noite, os médicos advertiram a comunidade: “A agonia virá em breve, ordenem que lhe deem a extrema-unção.” Às cinco horas despedem-se da doente, dizendo-lhe adeus, pois não passaria das dez. Às dez e meia a comunidade se recolheu, deixando duas companheiras para cuidar da doente. Por um instante, as enfermeiras improvisadas vão até à cozinha; quando retornam ao quarto, deparam-se com a doente aos soluços. Que aconteceu? Disse a doente, enfim: “Vi Jesus, o rei, ferido; disse-me ele: ‘Ingrata, ingrata! Deste-me apenas migalhas de amor. Ingratas como tu há aos montes; dirás que me viu, mas como não acreditariam em ti, pois falariam que tiveste um pesadelo, ou que foi a febre, bem, para provar a ti e a elas que sou Eu mesmo, vou curar-te.’”

 

Talvez o rei nos dissesse a mesma coisa: “Ingrata! Cansei de dar-te presentes, mas tu... que me deste?” Se em lugar desta imagem estivesse Nosso Senhor em pessoa e lhes falasse, quiçá lhes diria isto: “Ah, quantas ingratas! Vede as minhas chagas abertas: são elas o meu amor por vós; onde está o vosso amor por mim? Moças comportadas vestidas de freira existem por aí a mancheias, porém busco em vão aquelas que me amam.” Sim, faltam santos. Ninguém cai de súbito no pecado, pois a morte espiritual nunca é súbita; vamos escorregando, limitando a doação total, descendo cada vez mais, sempre ladeira abaixo. A mediocridade é um perigo enorme. Maldita mediocridade, que causa imensas devastações!

 

Uma santa superiora é um poço de Jacó sempre ressumante, é um cálice repleto e transbordante. Esta alma de oração e amor a Deus tem a oferecer mais que todos os predicadores. Uma superiora inteligente, desenvolta, ágil secretária, excelente administradora, boa financista e sem fervor – é uma névoa fria a encobrir a comunidade. A santidade da superiora é a luz e o calor das religiosas. Ela os encontrará no Sacratíssimo Coração de Jesus.

 

Precisamos realizar a conversão definitiva! O abandono da mediocridade talvez seja a conversão mais difícil. É mais fácil converter um maçom que um padre. Uma irmã que acha que nem todos podem ser santos é dificílima de converter. Costumamos dizer a Jesus para que veja as nossas obras e tenha piedade de nós. Mas só as obras? Jesus bem poderia responder: “Construíste palácios para as crianças e os doentes, mas eu ainda moro num estábulo como um pobre mendigo... para mim uma capelinha, para eles belos salões! Falta aos corações de minhas esposas e prediletas a santidade.”

 

Um retiro é capaz de mudar comunidades inteiras; um retiro de cinco dias significa cinqüenta anos de graças para as comunidades de vocês. Vivam uma vida nova, pois nem tudo nela é belo. A distância entre a mediocridade e a santidade é maior que entre a maldade e a mediocridade. É um erro gravíssimo da alma religiosa acreditar na licitude da mediocridade. Façam violência ao Sacratíssimo Coração de Jesus para que o Paráclito venha sobre vocês, a fim de que compreendam o que há de horrível na mediocridade.

 

 

Contrição sem angústia

Há de se fazer o retiro com paz e alegria. O jansenismo não é cristão: ele acha que somos crianças a quem se deve amedrontar; mas não é isso que Nosso Senhor nos apregoa. A angústia não é cristã, mas nos é lícita uma santa tristeza. A dor e a contrição, ainda que sejam culpadas, deem-se em espírito de alegria: Nosso Senhor não veio para sufocar ou esmagar as irmãs. A contrição e o arrependimento são maiores à medida que vocês estejam calmas e em paz. Quem se aproxima de Deus, aproxima-se do céu, e lá não existe angústia.

Se vocês conseguirem enxergar melhor e perceberem que nem sempre cumpriram o dever, encontrarão repouso no arrependimento sincero, e paz na humilhação que as faltas ocasionam. A inquietação cheira a enxofre e a diabo: Deus nunca inquieta, mas revela o que é preciso para a boa condução da alma. O arrependimento verdadeiro é a descoberta de repouso no coração. A Igreja condenou o jansenismo; prefiro um protestante a um jansenista...

O Sinal da Besta

Pe. Gabriel Billecocq, FSSPX
 
 
Caros amigos e benfeitores,
 
A seguir, um sermão do Pe. Gabriel Billecocq, FSSPX, no último domingo depois de Pentecostes, 21 de novembro de 2021, na Igreja de São Nicolas-du-Chardonnet em Paris. É um texto bastante equilibrado, um aviso salutar para que evitemos os excessos aos quais podemos nos inclinar eventualmente nestes tempos difíceis, e um aviso ainda mais salutar para que foquemos na única coisa necessária: Deus e Sua vontade.
 
In Christo Sacerdote et Maria,
 
Pe. Yves Le Roux
 
 
 
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém.
 
Meus queridos fiéis,
 
Hoje, a Igreja nos dá uma visão verdadeiramente apocalíptica no Evangelho, com Nosso Senhor descrevendo o que, aparentemente, é o fim dos tempos -- tempos difíceis, dolorosos, aqueles dias, que serão abreviados em consideração dos eleitos, como Nosso Senhor mesmo nos diz.
 
Todos nós temos uma pequena curiosidade de saber como essas coisas vão acontecer, como o fim dos tempos vai se dar, e talvez alguns de vocês tenham sido curiosos o suficiente para apanhar o Livro do Apocalipse e tentar lê-lo e adivinhar de maneira mais concreta, mais material, como essas coisas acontecerão. Vocês devem ter lido sobre as famosas bestas do Apocalipse e sobre a "marca da Besta", o sinal da Besta.
 
Meus queridos fiéis, nossa curiosidade sobre essas coisas pode ser mórbida às vezes. A curiosidade mórbida existe: uma curiosidade que nos inclina mais ao pecado do que ao que é belo e bom. Nós podemos constatar com nossos próprios olhos, há exemplos em abundância ao nosso redor. É triste ver quantos jovens se inclinam a más imagens, ao invés de ler o Evangelho ou de se interessar pelo que Nosso Senhor fez durante Sua vida. E temos que reconhecer que nós, também, podemos ser afetados por essa curiosidade mórbida quando pensamos no fim dos tempos, imaginando como o Anticristo será, como ele nascerá, quem ele será, como poderemos reconhecê-lo, qual será a marca do Anticristo... E vocês sabem que as pessoas, hoje, estão fazendo todo tipo de especulação sobre essas coisas. E também está dito no Apocalipse que cada um dos eleitos estará marcado com o sinal de Deus -- e nenhum dos fiéis jamais veio me perguntar qual será o sinal de Deus. Todo mundo só pergunta "Qual o sinal do demônio? Qual a marca da Besta?" Ninguém se pergunta "Qual será o sinal de Deus?" Meus queridos irmãos, isso é apenas um exemplo de como nossa curiosidade facilmente se inclina em direção ao mau e feio do que ao bom e belo, e isso é uma coisa triste.
 
Então, para aquietar essa curiosidade toda um pouco, vamos hoje falar sobre esse sinal da Besta, como ele aparece no Apocalipse e como alguns Padres da Igreja o compreendem. Ouvimos falar muito dessas coisas hoje em dia, infelizmente, graças a tudo que está havendo no mundo.
 
É verdade que o Apocalipse inclui aquela famosa passagem segundo a qual aqueles que seguem a Besta terão uma marca na sua testa e no seu braço, e que eles não poderão comprar nada se não tiverem essa marca. Muitas pessoas estão imaginando que a vacina pode ser a marca da Besta -- da mesma maneira que essas mesmas pessoas imaginaram que os cartões de crédito eram a Besta, e, depois, se perguntaram se os códigos de barras eram, talvez, o sinal da Besta.
 
Então, o Apocalipse acrescenta o nome da Besta, dizendo que é um nome de homem, e o número do seu nome é 666 (seiscentos e sessenta e seis). As pessoas também especulam sobre essas expressões encontradas no Apocalipse.
 
Primeiramente, a marca a Besta é um selo na mão e na testa, e Santo Agostinho explica o que isso significa. Santo Agostinho não descreve esse selo como uma marca visível ao olho, como uma tatuagem ou um chip inserido no nosso corpo. Ele diz que a marca na mão e o caráter na testa significam dois modos de pertencer ao demônio.
 
O primeiro modo de pertencer é a marca na testa, que representa pertencer através da confissão aberta. O primeiro modo de pertencer à Besta é a marca na testa, ou seja, ao proclamar, abertamente, que a Besta é toda-poderosa e, ao mesmo tempo, negar que Deus é todo-poderoso. Outro Padre da Igreja dá a mesma interpretação, a de que uma das marcas da Besta é a negação: a negação de Deus, a negação de Sua onipotência, a negação de que Deus criou o mundo, a negação de Sua Encarnação, negação da Redenção... Em uma palavra, essa marca na testa significa a apostasia, a apostasia do coração. A testa é aquilo que aparece abertamente, e Santo Agostinho explica que o que aparece em nossa testa é o que mostramos no exterior daquilo que está no nosso interior, da mesma maneira que o sinal do cristão é o sinal da cruz, que começamos na nossa testa com nossa mão. Então, assim como o sinal do cristão é o sinal da cruz, através do qual o cristão mostra exteriormente que ele pertence a Jesus Cristo, que ele quer seguir Jesus Cristo, Seu Mestre, e carregar sua cruz; da mesma maneira, o primeiro sinal do demônio, aquela marca na testa, significa que um homem nega Deus abertamente e afirma que o demônio é todo-poderoso.
 
A segunda marca é aquela na mão. Novamente, aqui Santo Agostinho explica que essa marca não é algum tipo de tatuagem ou um chip inserido na mão da pessoa. Explica que, na Escritura, as mãos representam as obras. A segunda marca de pertencimento à Besta são as ações más, as obras do pecado. Aquele que pertence à Besta é aquele que segue o demônio fazendo o mal, praticando o mal, a obra do pecado.
 
Meus queridos fiéis, aí está para vocês o significado dessas marcas, dos sinais da Besta.
 
A nossa salvação não é mais material do que nosso combate, mas sim espiritual. Então, nosso pertencimento a Deus ou ao demônio não é, em essência, algo material. Essencialmente, não é ao inscrever algo em nosso corpo que pertencemos ao demônio, da mesma maneira que não é essencialmente ao inscrever algo em nosso corpo que nos faz pertencer a deus. A primeira marca do nosso pertencimento a Deus é um caráter, um caráter indelével, impresso em nossa alma pelo batismo. Essa é a primeira marca do pertencimento do cristão a Deus. E é esse caráter que lhe dá acesso aos demais sacramentos. A marca do pertencimento à Besta também é um caráter da alma, não um caráter indelével, graças a Deus, mas o caráter de uma vontade que se inclina ao mal e comete o pecado.
 
Nosso combate é espiritual, assim como nosso pertencimento a Deus é espiritual. E pertencer ao demônio também é um fato espiritual. Pertencemos a Deus através da graça, e esse é o sinal pelo qual reconhecemos os eleitos de Deus. Os eleitos são aqueles marcados pelo sinal da graça, em outras palavras, o sinal da caridade, do amor de Deus e da vida de Deus. Pertencer ao demônio significa o pecado. Pertence ao demônio aquele homem que não tem o amor de Deus nele, mas apenas o amor das coisas terrenas, materiais, sensíveis, ou mesmo simplesmente humanas, sem nada além disso.
 
Quanto a esse número, 666 (seiscentos e sessenta e seis), do qual o Apocalipse fala, o Apocalipse também diz que esse número da Besta é "o número de um homem". Santo Irineu talvez seja quem dá a melhor explicação para esse número. Muitas pessoas tentaram encontrar esse número literalmente, ou encontrar o nome que ele contém, da mesma maneira que os rabinos faziam, pois os números na Escritura sempre têm algum tipo de simbolismo. Há até mesmo uma ciência que dá a interpretação dos números. Santo Irineu vai além disso.
 
Os Padres da Igreja estão em consenso quanto ao fato de que esse nome nos permanecerá desconhecido até que o Anticristo apareça. Essa profecia do Apocalipse é como qualquer outra profecia: ela só se tornará clara quando cumprida. Mas Santo Irineu ainda explica que o número 666 está cheio de simbolismos, assim como o número de 144 mil eleitos contados no Apocalipse, 12 mil de cada tribo, como ouvimos na Festa de Todos os Santos. Os números na Escritura, realmente, são simbólicos. O número 7 representa uma perfeição, 8 representa uma plenitude, e 6 representa uma imperfeição. Não apenas qualquer imperfeição, mas os Padres dizem que parar a contagem em seis representa impedir o número de atingir a Deus [que seria a perfeição, representada pelo número 7]. Então o número seis indica não algum tipo de imperfeição natural inerente à criatura, mas um direcionamento do homem a ele mesmo. E Santo Irineu vai além, explicando que o 6 triplo representa um triplo direcionamento do homem a si mesmo: não apenas um pecado da alma, isto é, do intelecto e da alma, mas também um terceiro pecado, que ele chama de pecado do espírito.
 
O pecado do corpo, como sabemos, são todos aqueles pecados que se encontram espalhados hoje em dia -- não há necessidade de nos alongarmos nesse ponto -- [como] os pecados contra a natureza, aqueles pecados que pedem vingança aos Céus. O pecado da alma, isto é, o do intelecto e da vontade, corresponde ao pecado do homem de hoje, que evita que o intelecto atinja a verdade. -- E aqui, meus caros fiéis, precisamos agradecer àqueles que se devotam aos nossos filhos e a dar-lhes uma educação genuína nas verdades que os levam a Jesus Cristo. Mas esse pecado da alma, o de fazer tudo para evitar que a criança atinja a verdade, também afeta a vontade. É outro aspecto daqueles programas de educação modernos, evitar que a criança conheça a verdade, conheça o bem e como ela pode praticar o bem.
 
O último dos três "seis" representa o pecado do espírito, o pecado de nos fecharmos a Deus; é o pecado através do qual o homem recusa a Deus. Esse pecado corresponde à abominação da desolação no Templo Sagrado, talvez como vemos hoje nessa Missa nova, na qual a adoração está completamente direcionada ao homem.
 
Meus queridos fiéis, vocês podem ver como os Padres da Igreja explicam essas palavras misteriosas do Apocalipse, que permanecem misteriosas nos dias de hoje. Precisamos parar de correr atrás de interpretações, uma mais assustadora que a outra. Não importam as dificuldades que estamos enfrentando hoje, não importa as mentiras e erros que nos são apresentados -- e muitos erros e mentiras nos são apresentados! -- não importa quão perigosos sejam alguns produtos que os homens querem injetar em nós, não esqueçamos que a marca da Besta é algo espiritual: ela é o pecado. Pertencemos ao demônio pelo pecado; pertencemos a Deus pela graça e pela caridade.
 
Aí está, meus queridos fiéis. Nosso Senhor é muito claro nesse ponto e nos diz: "Não temais aqueles que podem matar o corpo" -- e disso nós temos, hoje, uma aplicação direta -- "não temais aqueles que podem matar o corpo; ao invés, temei Aquele que tem o poder de atirar ao fogo eterno". E, novamente, Nosso Senhor diz isso a Seus Apóstolos antes de os deixar "Tende coragem; eu venci o mundo". Não temos nada a temer das coisas materiais deste mundo. Devemos temer o pecado. Não devemos temer a morte do corpo; devemos temer a morte eterna.
 
É verdade, meus queridos fiéis, que o futuro nos é desconhecido, e ele pode parecer bastante sombrio. Ainda assim, há coisas que sabemos com certeza absoluta: Deus é nosso Pai, Deus não esquece Seus filhos, Deus protege Seus filhos, Deus alimenta Seus filhos.
 
Não importa as provações que tenhamos de enfrentar, tenhamos uma confiança perfeita: não sabemos os sofrimentos que estão vindo, mas sabemos com certeza absoluta que a graça jamais nos abandonará. Essa é a nossa esperança e a nossa alegria nesse mundo de tristezas.
 
Amém.
 
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém.

Exercícios Práticos Para a Via Sacra

S. Leonardo de Porto Maurício

Preparação

De joelhos ao pé do altar, o oficiante recita em voz alta as orações seguintes:

 

Oração

Actiones nostras, quaesumus, Domine,aspirando praeveni, et adjuvando prosequere., ut cuncta nostra oratio et operatio a te semper incipiat et per te coepta finiatur. Per Christum Dominum nostrum. Amen1.

 

Ato de Contrição

Ó meu Jesus Cristo afável, porque sois infinitamente bom e misericordioso, eu Vos amo acima de todas as coisas; arrependo-me de todo o coração de Vos haver ofendido, Vós que sois o soberano bem. Por isso Vos ofereço este exercício piedoso, em memória do percurso doloroso a caminho do Calvário, o qual fizestes por amor a mim, pecador indigno.

Eu me proponho a lucrar todas as indulgências anexas a este exercício e, para tanto, tenho a intenção de rezar pelas finalidades em razão das quais foram concedidas tantas benesses.

Humildemente imploro a Vossa assistência, ó meu Divino Salvador, para terminar este santo exercício de modo a que obtenha a misericórdia nesta vida e a glória no século vindouro. Amém.

Ao sair do altar, entoa-se o Stabat ou outro cântico.

 

1ª Estação - Jesus é condenado à morte

 

V. Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi;

R. Quia per sanctam Crucem tuam redemisti mundum2.

A primeira estação representa a casa e o pretório de Pilatos, onde Jesus Cristo foi condenado à morte.

Consideremos a submissão admirável com que Jesus, a inocência em pessoa, recebe a injusta sentença. Lembrai-vos de que foram os vossos pecados que ditaram a decisão, que foram as vossas blasfêmias, malícias e licenças as palavras deicidas que convenceram o juiz iníquo a proferir a condenação. Voltemos nosso olhar ao Deus cheio de amor, e com a alma repleta da mais viva dor, digamos a Ele por lágrimas mais do que por palavras:

Jesus amável, a que excessos Vos levou o Vosso amor por nós! É mesmo verdade que quisestes ser encarcerado, acorrentado, vergastado e condenado à morte infame em benefício de criaturas tão indignas? Ah, tamanho sacrifício comove meu coração insensível e me faz detestar os pecados, em particular os pecados da língua! Sim, Jesus amado, eu os detesto! Enquanto durar esta via dolorosa, diante de Vós eu sempre hei de chorar e lamentar por eles, repetindo: Ó meu Jesus, tende piedade de mim! Jesus, misericórdia!

Pater. Ave. Gloria3

 

V. Miserere nostri, Domine;

R. Miserere nostri.

V. Fidelium animae per misericordiam Dei requiescant in pace.

R. Amen4.

 

Quanta maldade sofre o autor da vida,

De Quem eu testemunho a crua sorte!

Mas pior que dos judeus a perfídia

É o meu pecado, que o condena à morte.

 

 

2ª Estação - Jesus toma a cruz aos ombros

 

V. Adoramus te, Christe, etc.

A segunda estação representa o lugar onde o Divino Salvador tomou o pesado fardo da cruz.

Consideremos com que enlevo Jesus abraça a cruz, com que mansidão suporta os cruéis tormentos dos carrascos e os ultrajes do populacho em fúria. Vós, porém, não sabeis suportar a pena mais suave; vós fugis à vista dos menores sofrimentos. Esqueceis que, sem a cruz, não sereis admitidos na morada gloriosa? Ah, lamentai a vossa cegueira e, prostrados aos pés do Divino Redentor, declarai:

Cabe a mim, ó Jesus, e não a Vós, carregar essa cruz tão opressiva e dolorosa, fabricada com as traves dos meus pecados. Meu amável Salvador, dai-me forças para, daqui por diante, abraçar as cruzes que tanto mereci, por causa da minha infidelidade; concedei-me a graça de morrer aninhado na cruz e de repetir, osculando com afeto o Santo Lenho, as palavras de Santa Teresa: “Sofrer ou morrer! Sofrer ou morrer!”

Pater. Ave. Gloria etc.

Vejo Jesus sob o madeiro

Levar golpes do Pai exasperado;

Deus sentencia Nele o meu erro;

Ele sofre mas eu que sou culpado.

 

3ª Estação - Jesus cai pela primeira vez

 

V. Adoramus te, Christe, etc.

A terceira estação representa a primeira queda de Jesus sob o peso da cruz.

Contemplemos Jesus na via dolorosa; o sangue escorria das Suas feridas e enfraquecia-O; por isso, Ele cai no chão pela primeira vez. Com que furor os carrascos Lhe puseram de pé, empurram-n’O e redobraram os golpes! E Jesus amável não abria a boca, mas sofria em silêncio; já vós, diante da mínima contrariedade, vós vos entregais aos murmúrios e aos queixumes amargos, até mesmo às blasfêmias. Detestai, de uma vez por todas, as impaciências e o orgulho, e pedi ao benévolo Salvador que Ele perdoe as vossas quedas:

Ó bom Jesus, amável Redentor, vedes a Vossos pés um grande pecador, o pior dos pecadores que há sobre a terra. Oh, são muitas as quedas culpáveis de que posso me acusar! Quantas vezes não me precipitei no abismo das iniqüidades! Dignai-vos, ó Jesus, estender-me a mão firme para retirar-me deste precipício; ajudai-me, estou implorando, ajudai-me, a fim de que eu, pelo resto da vida, evite a recaída no pecado mortal e mereça, pela graça de uma santa morte, ser feliz convosco pelos séculos dos séculos.

Pater. Ave. Gloria etc.

 

Jesus se inclina e tomba sob o fardo;

levantam-n’O entre gritos de furor.

Esta queda me cura do pecado,

me encoraja e me infunde mais fervor.

 

4ª Estação - Jesus se encontra com Sua mãe santíssima

 

V. Adoramus te, Christe, etc.

A quarta estação representa o lugar onde Jesus encontra Sua Divina Mãe mergulhada em profundíssima aflição.

Ah, quantos acréscimos de penas nos corações de Jesus e de Maria, quando o Filho e a Mãe se entrecruzam no caminho do Calvário! – Alma ingrata! Que fizeram contigo, meu Jesus? Vos diz a mãe aflita. – Que fizeram contigo, Minha pobre mãe? responde o benévolo Filho. Ah, renuncie ao pecado quem seja a causa de Nosso sofrimento! – Qual a vossa resposta? Rendei-vos a estas sentidas reprimendas e confessai:

Ó adorável Filho de Maria! Ó Divina Mãe de Jesus! Eis-me aqui prostrado a Vossos pés, confundido e atormentado pela dor. Confesso a minha perfídia: sou eu o infeliz que forjei com meus pecados a espada cruel que atravessou os Vossos corações. Ah, arrependo-me do fundo do coração e imploro o perdão a um e a outro. Misericórdia, ó Jesus amado, misericórdia, ó Maria, misericórdia! Protegido sob o manto da Vossa misericórdia, não cairei mais em pecado, mas meditarei dia e noite nos Vossos sofrimentos e nas Vossas dores.

Pater. Ave. Gloria etc.

 

Ó Mãe suave e terna e generosa!

Vós O encontrais num hórrido momento!

Sofreríeis u’a dor menos penosa,

Se vós compartilhásseis Seu tormento.

 

5ª Estação - Simão o Cirineu ajuda Jesus a carregar a Cruz

 

V. Adoramus te, Christe, etc.

A quinta estação representa o lugar onde o Cirineu foi obrigado a carregar aos ombros a cruz de Jesus.

Colocai-vos no lugar do Cirineu que, apegado demais às comodidades passageiras desta vida, leva com repugnância e pesar a cruz de Jesus. Espantai de uma vez por todas o torpor indolente e consolai o vosso Salvador do peso a esmagá-l’O; abraçai de boa vontade as provações que vêm das mãos de Deus, e declarai a vossa disposição em sofrê-las com paciência, rendendo graças a Ele. Dirigi ao Salvador esta oração:

Ó Jesus amável! Eu Vos agradeço as inúmeras e proveitosas ocasiões que me destes para sofrer por Vós e para me enriquecer com méritos; ó meu Deus, fazei-me ganhar os bens verdadeiros e eternos do século vindouro, suportando com paciência os aparentes males desta vida, e que chorando convosco nesta terra, seja eu considerado digno de partilhar Convosco a felicidade do Paraíso.

Pater. Ave. Gloria etc.

 

Gozo maior não há para um mortal

Que mitigar as dores de Jesus;

Nossos pecados são todo Seu mal,

Que se consola ao levarmos a cruz.

 

 

6ª Estação - A mulher piedosa enxuga a face de Jesus.

 

V. Adoramus te, Christe, etc.

A sexta estação representa Sta. Verônica a enxugar o adorável rosto de Jesus com um pano de linho.

Considerai os traços desfigurados do Senhor que se imprimiram no linho; enlevados com tal visão, esforçai-vos em reproduzir bem dentro d’alma a misteriosa imagem. Felizes sereis se levardes Jesus impresso n’alma! E ainda mais felizes, se vós morrerdes carregando este precioso penhor de salvação! Para conseguirdes graça tão excelente, dirigi-vos a Ele requerendo:

Ó meu Salvador! Eu imploro que Vos digneis imprimir em meu coração a Vossa imagem sagrada, para que eu pense em Vós sem parar, e chore sem parar as minhas iniqüidades, tendo sempre diante dos olhos a Vossa paixão dolorosa. Faço votos de alimentar-me com o pão das lágrimas até o último suspiro, e de detestar para sempre e cada vez mais os meus erros passados.

Pater. Ave. Gloria etc.

 

Com meus pecados, manchei-lhe a figura

De escarros vis, de sangue e de suor

Mas a minha alma retrata a pintura

Do Seu semblante que eu lavo com dor.

 

7ª Estação - Jesus cai pela segunda vez

 

V. Adoramus te, Christe, etc.

A sétima estação nos recorda o lugar onde Jesus caiu pela segunda vez sob o peso da cruz.

Contemplai o Divino Salvador estendido sobre a terra, aniquilado de sofrimentos, calcado aos pés dos carrascos, insultado pelo populacho, e tende em conta que foi o vosso orgulho que O derrubou, e que foi a vossa arrogância e altivez que O humilhou até o chão. Ah, baixai a vossa fronte soberba, e com sincera contrição do passado, fazei votos de, daqui por diante, pôr-se abaixo de todas as criaturas; instai pois a Jesus:

Ó meu adorável Redentor! Ainda que Vos veja deitado na poeira, reconheço a Vossa onipotência, e Vos imploro a destruição dos meus pensamentos de orgulho, de ambição e de autoestima; fazei que, a partir de agora, eu aceite de bom grado a abjeção e o desprezo, sem nunca perder de vista a lembrança dos meus pecados, que me deveriam cobrir de confusão. Por meio da humildade sincera e verdadeira, a única agradável a Vós, possa eu Vos consolar das humilhações que por mim suportastes!

Pater. Ave. Gloria etc.

 

Fraco, esgotado, grande fardo O arrasta,

Cai sob a cruz nosso Cristo esmagado;

Pobre de mim, se Sua mão régia e casta

Só removesse uma vez meu pecado.

 

 

8ª Estação - Jesus responde à compaixão que Lhe testemunham as filhas de Jerusalém.

 

V. Adoramus te, Christe, etc.

A oitava estação representa o local onde Jesus testemunhara Sua compaixão às filhas de Jerusalém, que lamentavam aqueles sofrimentos.

Considerai que tendes duas razões para chorar: deveis chorar por Jesus, que tanto sofre por vós; e deveis chorar por vós mesmos, que só sentis prazer quando O ofendeis. Todavia, diante de tanto sofrimento, vós, homens ingratos, permaneceis insensíveis! Pelo menos, ao ver Jesus testemunhar tamanha compaixão com as pobres mulheres de Jerusalém, recuperai a confiança e, impregnado de dor e arrependimento, suplicai a Ele:

Ó meu Salvador amável! Por que não se quebra o meu coração nem se derrete em lágrimas? Ó Jesus, são lágrimas o que Vos peço, lágrimas de arrependimento e de compaixão! Possa eu, com água nos olhos e dor no fundo do coração, merecer a compaixão que testemunhastes às filhas de Israel! Ah, dignai-Vos, como única consolação, lançar sobre mim, durante a minha vida, um olhar benfazejo, a fim de que eu possa Vos contemplar cheio de confiança na hora da morte.

Pater. Ave. Gloria etc.

 

Força é sofrer, e falta-me valor;

Mas a cruz paga ao crente grão salário:

Um pranto amargo aos passos do Senhor,

Estilado a caminho do Calvário.

 

9ª Estação - Jesus cai pela terceira vez

 

V. Adoramus te, Christe, etc.

A nona estação representa o lugar onde nosso bom Salvador caiu pela terceira vez sob o peso da cruz.

Quão dolorosa deve ter sido a terceira queda do Salvador! Considerai com que ódio os carrascos, semelhantes a tigres furiosos, rasgavam-Lhe as carnes e O arrastavam na poeira do chão; vede como eles vergastam e pisam este Manso Cordeiro, que não abre a boca para reclamar. Ah, pecado maldito, que maltratou assim o Filho de Deus! Não merece as vossas lágrimas, pecador, um Deus esmagado de ultrajes e opróbrios? Dizei a Ele, chorando:

Ó Deus Todo-Poderoso, que com um só dedo sustentais os céus e a terra! Quem vos derrubou de rosto no chão? Ah, eu sei: foram as minhas recaídas e as minhas iniqüidades sem conta; a cada pecado que cometo, acrescento-Lhe um novo tormento. Mas eis que estou aqui prostrado a Vossos pés, decidido em acabar com esta vida desordenada, e com lágrimas e suspiros repetirei cem, mil vezes: Daqui em diante, sem mais pecados, ó meu Deus! Não, pecado nunca mais!

Pater. Ave. Gloria etc.

 

Cheio de dor Jesus inda tropeça;

Parece aniquilá-l’O a exaustão;

Mas esta queda é cheia de promessa,

Ele a oferece em prol do meu perdão.

 

 

10ª Estação - Jesus é despojado dos vestidos e bebe o fel

 

V. Adoramus te, Christe, etc.

A décima estação representa o lugar onde Jesus foi despojado dos vestidos e bebeu o fel amargo.

Considerai todos os tomentos que Jesus suporta de uma só vez: a Sua carne colada às vestes é arrancada aos pedaços, e a Sua boca está infectada com um fel amargo e nojento. Às dores se junta a vergonha de se ver exposto naquele estado, à vista da multidão que O insulta. Eis aí como o Salvador expia a vossa imodéstia e vaidade, o vosso ciúme cheio de fel e a vossa intemperança. Como ainda não vos pungiu a compaixão? Ah, lançai-vos aos pés de Jesus despojado por amor a vós e lamentai:

Ó Jesus, vítima inocente, sofreis um horrível aniquilamento! Vós estais coberto de sangue e feridas, embebido em amargura, e eu mergulhado nos prazeres, na vaidade e nas amenidades. Ah, eu não estou no bom caminho. Forçai-me a mudar de vida: misturai amarguras aos prazeres da vida presente, para que daqui em diante eu beba com avidez as águas amargas da Vossa Paixão dolorosa, e assim mereça um dia desfrutar convosco as delícias do paraíso.

Pater. Ave. Gloria etc.

 

Quem se quer vencer, tome uma atitude:

Suporte mudo todo o sofrimento!

Jesus quis se alcançasse tal virtude

Pelas dores de Seu despojamento.

 

 

11ª Estação - Jesus é pregado à cruz

 

V. Adoramus te, Christe, etc.

A décima-primeira estação representa o lugar onde Jesus foi pregado à cruz, sob o olhar de Sua Mãe Santíssima.

Considerai as dores excessivas que o Salvador teve de suportar, quando os cravos Lhe perfuraram os pés e as mãos: rasgaram-se as carnes, deslocaram-se os ossos e contraíram-se os nervos com sofrimentos indizíveis. Como vossas entranhas não se comovem, diante de um suplício tão cruel e da lembrança das vossas iniqüidades, que são a causa destes sofrimentos? Ao menos, exprimi o vosso arrependimento, recitando entre lágrimas:

Ó Jesus, crucificado por mim, abrandai este coração endurecido, e infiltrai nele o amor e o temor. Visto que os meus pecados enterraram os cravos em Vossos sagrados membros, fazei que a penitência e a mortificação, tal como um carrasco, crucifique todas as minhas paixões desregradas, a fim de que um dia, após ter a felicidade de viver e morrer pregado à cruz convosco, o Senhor me admita, para que eu reine junto a Vós na glória celeste.

Pater. Ave. Gloria etc.

 

Cravado no patíbulo que infama,

Jesus sofre um suplício nunca ouvido;

Tu podes Lhe acalmar a angústia d’alma,

Se assentires sofrer com teu Amigo.

 

12ª Estação - Jesus morre na cruz

 

V. Adoramus te, Christe, etc.

A décima-segunda estação representa o Calvário, onde elevado na cruz Jesus expirou.

Levantai os olhos e contemplai o vosso amável Salvador suspenso entre o céu e a terra por três cravos; escutai as palavras que saem da Sua boca moribunda: Ele reza por quem o ofende, dá o paraíso a quem o pede, confia a Sua Divina Mãe a São João e encomenda a Sua alma ao Pai – depois inclina a cabeça e expira. Jesus morreu! E morreu na cruz por amor a mim! E vós, o que estais experimentando? Ah, não queirais sair desta estação sem vos comover e converter. Abraçai a cruz de Jesus e declarai a Ele:

Meu amantíssimo Jesus, eu reconheço e confesso: foram as minhas inúmeras iniquidades que executaram a Vossa pena e retiraram a Vossa vida; sim, o traidor que Vos crucificou fui eu, por isso não mereço perdão. Mas quando Vos escutei rezando por Vossos carrascos, a minha alma ficou num instante cheia de consolação! Que farei eu por Vós, que tanto fazeis por nós? Eis-me aqui disposto a tudo, sobretudo a perdoar a quem me tenha ofendido. Sim, meu Deus, por amor a Vós eu perdoo todos os meus inimigos, acolhendo-os e desejando-lhes todo o bem, para que eu tenha a esperança de escutar de Vós, no meu último momento: Hodie mecum eris in paradiso. “Ainda hoje estarás comigo no Paraíso.”

Pater. Ave. Gloria etc.

 

 

Se Jesus Cristo expira em sacrifício,

Por Ele tenho muito que sofrer;

Se é impossível segui-lo no suplício,

Ao menos no amor Dele hei de morrer.

 

 

13ª Estação - Jesus é descido da cruz

 

V. Adoramus te, Christe, etc.

A décima-terceira estação representa o lugar onde Jesus foi descido da Cruz e deposto entre os braços da Sua aflita Mãe.

Considerai a espada dolorosa que traspassou o coração desta Mãe inconsolável, tão logo Ela recebeu entre os braços o corpo inanimado do Seu Divino Filho. Ela contempla uma a uma as chagas que O cobrem, e a visão das úlceras punge o sangue das feridas do Seu coração maternal. Qual foi o mais mortal e cruel dos punhais para este brando coração? Foi o pecado, que tirou a vida do seu bem amado Filho. Por isso, detestai o maldito pecado, e misturai as vossas lágrimas com as da Virgem desolada, declarando a Ela:

Ó Rainha dos Mártires, quando serei digno de compreender Vossas dores e de compartilhá-las, trazendo-as sempre no meu coração? Ah, ó Mãe das Dores, dai-me lágrimas para chorar dia e noite os desregramentos criminosos que Vos causaram tanto sofrimento; e depois de passar a minha vida a chorar, a amar e esperar, que eu expire de dor para viver convosco por toda a eternidade.

Pater. Ave. Gloria etc.

 

Coração generoso, que na vida

Crucificou-se até o desenlace!

Ó Filho de Maria, tua guarida

Espero, inda que a morte me chamasse.

 

 

14ª Estação - Jesus é depositado na tumba

 

V. Adoramus te, Christe, etc.

A última estação representa o santo sepulcro onde foi depositado o adorável corpo de Jesus.

Considerai os gemidos inexprimíveis de São João, de Maria Madalena, das outras santas mulheres e de todos os discípulos do Salvador, logo que O encerraram na tumba; considerai sobretudo a desolação extremada do Coração de Maria, quando se viu privada do Seu Filho bem amado. Diante de tantas lágrimas e suspiros, vós experimentais pouquíssimos sentimentos de piedade e compaixão. Reanimai o vosso fervor, beijai com humildade a pedra que fecha a tumba sagrada, esforçai-vos em deixar ali depositado o vosso coração e, soltando profundos gemidos, rogai ao Salvador para que o guarde junto ao Dele:

Ó Jesus misericordioso! Que só por amor a mim quisestes percorrer o doloroso caminho do Calvário, eu Vos adoro dentro deste sepulcro em que vos encerraram, mas antes quisera eu vos amortalhar bem dentro do meu coração, a fim de ressuscitar convosco para uma vida nova e de perseverar até o final na Vossa graça. Concedei-me, rogo-Vos pelos méritos da Vossa paixão que acabei de meditar, concedei-me seja o meu último alimento, antes de expirar, a Divina Eucaristia, e sejam as minhas últimas palavras “Jesus e Maria”; confunda-se o meu último suspiro com aquele que exalastes por mim na cruz para que, animado de uma fé viva, esperança firme e caridade ardente, morra eu convosco, a fim de ser convosco admitido a reinar por séculos de séculos. Assim seja.

 

Morta pra si, enterrada pro mundo,

No corpo uma alma em vil, triste estadia;

Com Jesus goza um silêncio profundo,

E humilde espera ver a glória um dia.

 

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Se se fizer a Via Sacra fora da Igreja, ao retornar a ela os fieis podem cantar algumas estrofes do Stabat Mater. Assim que a procissão chegar ao pé do altar, termina-se com a seguinte oração:

 

V. Ora pro nobis, Virgo dolorosissima,

R. Ut digni efficiamur promissionibus Christi5.

Oremus: Interveniat pro nobis, quaesumus, Domine Jesu Christe, nunc et in hora mortis nostrae apud tuam clementiam beata Virgo Maria, cujus sacratissima animam, in hora tuae passionis, doloris gladius pertransivit. Qui vivis et regnas Deus in saecula saeculorum. Amen6.

Apesar de constar em alguns livrinhos, não é necessário recitar ao final os cinco Pai-Nossos e as cinco Ave-Marias. Depois da oração precedente, o padre voltando-se aos fieis adverte que todos os que fizeram a Via Sacra com devoção lucraram as indulgências anexas a ele, exorta-os a retornar no dia em que acontecerá de novo o exercício e os despede abençoando-os com o sinal da cruz.

  1. 1. [N. da P.] “Senhor, começai pela vossa inspiração e continuai pelo vosso auxílio as nossas ações; para que todas as nossa orações e operações sempre em Vós comecem e em Vós terminem. Amém.” Venerável oração que se encontra incluída na Ladainha de Todos os Santos.
  2. 2. [N. da P.] “V. Nós vos adoramos e bendizemos, ó Cristo / R. Porque por vossa santa Cruz redimistes o mundo.”
  3. 3. [N. da P.] Indicação para rezar 1 Pai Nosso. 1 Ave-Maria. 1 Glória ao Pai.
  4. 4. [N. da P.] V. Tende misericórdia de nós, Senhor / R. Tende misericórdia de nós. / V. Que as almas dos fiéis, pela misericódia de Deus, descansem em pás. / R. Amém.
  5. 5. [N. da P.] V. Rogai por nós, Virgem dolorosíssima; R. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.
  6. 6. [N. da P.] “Ó Senhor Jesus Cristo, que perante vossa clemência possa rogar por nós, agora e na hora de nossa morte, a beatíssima Virgem Maria, cuja alma santíssima fora transpassada por uma espada de dor, na hora da vossa paixão. Vos que, sendo Deus, viveis e reinais nos séculos dos séculos. Amém.”
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