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6. O que resta do pecado original depois do batismo

Capítulo sexto

O que resta do pecado original depois do batismo.

 

O pecado original é destruído, arrasado pelo batismo: nada resta no homem batizado, absolutamente nada, que fira a amizade dele com Deus. No entanto, a concupiscência ou inclinação para o pecado permanece nos batizados. Deus quis deixá-la para nos dar o mérito de lutar contra ela e vencê-la. A concupiscência não prejudica aqueles que lhe resistem pela graça de Nosso Senhor Jesus Cristo. Antes, torna-se para eles uma ocasião de mérito e um título a mais para a recompensa eterna.[1]

A concupiscência não é sequer um resto de pecado; mas, mesmo sem o ser, inclina nossa vontade em direção ao pecado, e se não lhe resistirmos com coragem, ela acaba por nos fazer perder a graça e cair na danação eterna.

Suas seduções são poderosas: ela nos bajula, ela nos faz crer que sua voz é a voz da natureza, e sob esse pretexto seduz a muitos.

Só a fé pode nos esclarecer acerca da concupiscência. Para os que não têm fé, trata-se de um enigma indecifrável. Eles se perguntam de onde viriam tantas inclinações do tipo, se não fossem naturais: sem poder descobrir sua origem, sua natureza íntima, acabam por pensar que elas são inseparáveis da natureza, que elas são a natureza mesma e, portanto, que são legítimas.

Tamanho erro acarreta conseqüências formidáveis.  Pois, como quase todas as leis foram feitas para barrar a expansão dessas inclinações funestas, ao declarar que essas inclinações são legítimas, segue-se que tais leis são abusivas.

E não faltam pessoas que não recuem diante de conseqüências tão desastrosas. Para elas, o mal está na sociedade e o bem nos indivíduos: o mal está nas leis, e o bem na natureza. Tudo o que conhecemos como socialismo tem aí seu ponto de partida: e é preciso que se diga que sua razão de ser é a ignorância. Um pouco de catecismo bastaria para curar todo o socialismo do mundo.

Não pretendemos que todas as legislações sejam perfeitas: longe disso, nós pensamos que, ao contrário, todas as legislações são passíveis de aperfeiçoamento. Mas acrescentamos que o indivíduo é o pior. A cura do corpo social deve começar pelo indivíduo: e quando os indivíduos se emendarem, a correção da sociedade se dará sem dificuldade nem abalos.

Só a Igreja pode trabalhar para a emenda do indivíduo; é por isso que os Estados desejosos de paz social deveriam se aplicar a atribuir à Igreja toda liberdade de ação: daí se seguiria necessariamente um aperfeiçoamento do estado moral dos povos e todos se beneficiariam invariavelmente. Vê-se com nitidez que ao entravar a liberdade da Igreja, os Estados apenas criam dificuldades para si mesmos e preparam catástrofes, que serão tão mais certas quanto mais a ação salutar da Igreja sobre os indivíduos for impedida.

Não queremos nos alongar mais sobre tais considerações, mas não poderíamos deixar de indicá-las, pois decorrem naturalmente de nossa exposição.

Concluamos então que a noção de pecado original é uma noção não apenas salutar, mas indispensável tanto para o indivíduo quanto para a sociedade. Vejamos agora em que pé estão as sociedades e os indivíduos no que diz respeito a este dogma capital do Catolicismo.

 


[1] Ao cair no pecado a alma de Adão ficou manchada pela culpa do seu pecado. Porém, outras consequências se seguiram: a perda dos dons preternaturais, e a ferida da natureza humana, a qual passa do estado de integridade, ao estado de natureza decaída. Ao receber o batismo, a alma tem o pecado original destruído. Mas o batismo age sobre aquela alma em particular, nada acrescentando à natureza humana, a qual continua decaída. Daí as três concupiscências que nos inclinam ao pecado. Vide cap. 8. (Nota da E.)

5. O pecado original é propriamente um pecado

Capítulo quinto

O pecado original é real e propriamente um pecado.

 

O santo Concílio de Trento, no quinto de seus cânones relativos ao pecado original, afirma:

“Se alguém negar que, pela graça de Jesus Cristo Senhor Nosso, o Batismo confira a remissão do reato do pecado original, ou declarar ainda que não suprime tudo o que tem verdadeira e própria razão de pecado, mas que este é tão-somente resvalado ou não imputado – seja anátema!”[1]

Nessas palavras graves e solenes com que o santo Concílio reafirma a doutrina católica, devemos reconhecer a insistência com que se esforça por nos inculcar a realidade do pecado original, que se torna próprio a cada um de nós, e sua remissão plena e inteira pelo batismo.

Mas nós queremos destacar especialmente estas palavras: “tudo o que tem verdadeira e própria razão de pecado”, pelas quais o Concílio – ou melhor, o Espírito Santo, falando pelo Concílio – nos faz saber que o pecado original é real e propriamente um pecado.

Não há pois que duvidar ou hesitar, nem buscar subterfúgios. O Apóstolo diz muito claramente em sua Epístola: “Pelo pecado de um só, incorreram todos os homens na condenação” (Rom 5, 18). É preciso entender a palavra “condenação” não como metáfora, mas em seu sentido próprio e real. A criança que nasce de Adão é realmente um pecador.

A criança que nasce de uma família real nasce realmente príncipe: e essa qualidade de príncipe ele a tira de seu próprio nascimento. Do mesmo modo, o filho de Adão nasce pecador e seu pecado lhe vem de seu próprio nascimento: o pecado lhe é transfundido, assim como ao filho do rei é transfundido a nobreza, o principado, a realeza. Do mesmo modo que a nobreza, a realeza são bens hereditários em certas famílias, o pecado de Adão tornou-se hereditário em sua descendência.

Dito isto, podem-se levantar questões intermináveis e perguntar-se: como? Mas é preciso saber que em todas as coisas a última palavra é de Deus, e somente d’Ele. E é assim não somente quanto à questão do pecado original, não somente quanto a todos os dogmas da fé, mas quanto a todas as coisas, mesmo as mais naturais e comuns.

Quem então sabe como a alma se une ao corpo? É um segredo de Deus e, no entanto, o fato está diante de nossos olhos, e o aceitamos sem titubear.

Quem sabe como o pão que comemos se transforma em carne e osso, em unhas e cabelos em nosso corpo? Ninguém sabe como, e, no entanto, o fato está diante dos nossos olhos, e ninguém sequer sonha em contestá-lo, ainda que esse como nos escape.

Do mesmo modo, na questão do pecado original, nós conhecemos o fato pela revelação de Deus, mas o como nos escapa, assim como ocorre em outros casos, e nem por isso devemos hesitar em crer na palavra de Deus. E o cristão que se recusa a crer na verdade revelada porque não compreende o como das coisas, será tão pouco razoável quanto o homem que se recusasse a comer porque não vê como o pão é necessário para a conservação da vida.

 

 


[1] Eis o texto original: “Si quis per Iesu Christi Domini nostri gratiam quae in baptismate confertur reatum originalis peccati remitti negat aut etiam asserit non tolli totum id quod veram et propriam peccati rationem habet sed illud dicit tantum radi aut non imputari: anathema sit.” [N. do E.]

4. Doutrina do Concílio de Trento

Capítulo quarto

Doutrina do Concílio de Trento.

 

Vamos agora ouvir o que a santa Igreja nos ensina sobre a doutrina do pecado original: para isso bastará traduzir a quinta sessão do Concílio de Trento. Ela se compõe de um preâmbulo, cânones e, finalmente, de uma declaração relativa à Santíssima Virgem. Vejamos de início o preâmbulo:

“Para que nossa santa fé católica, sem a qual é impossível agradar a Deus (Heb 11. 6), purgada de todo erro, conserve-se íntegra e pura em sua sinceridade, e para que o provo cristão não se deixe agitar por qualquer vento de doutrina (Ef 4, 14), pois a antiga serpente, inimiga perpétua do gênero humano, entre os muitos males que em nossos dias perturbam a Igreja de Deus, não hesitou suscitar acerca do pecado original e seu remédio tanto novas como antigas discórdias, o sacrossanto Concílio Ecumênico e Geral de Trento, legitimamente reunido no Espírito Santo, e presidido pelos mesmos três Legados da Sé Apostólica, desejando desde já reconduzir os que laboram em erro e confirmar os vacilantes, tendo seguido os testemunhos das Sagradas Escrituras, dos Santos Padres, dos mais autorizados Concílios, bem como o julgamento e o consenso da própria Igreja, estabelece, confessa e declara o que segue: (...).”[1]

Para compreender esta linguagem, é preciso se dar conta do estado da sociedade em meados do século XVI. Estava-se ainda sob a influência de um grande movimento literário, moral e religioso chamado Renascença.

A Renascença começara pelas letras. Pretendeu pôr em destaque e prestar homenagem às belas-letras e, por conseqüência, aos bons autores. Exaltava e cantava Demóstenes e Cícero, Homero e Virgílio, Platão e Sêneca, e uma multidão de outros autores.

Ao lerem esses autores, os renascentistas assimilavam suas idéias, e estas não eram católicas, mas simplesmente pagãs. O paganismo puro e simples ingressou portanto na sociedade cristã. Passou-se então a negar o pecado original. E daí à negação de tudo, visto que o pecado original de um lado e a Redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo de outro é todo o cristianismo.

Quando então o Concílio diz que em seu tempo antigas discórdias sobre o pecado original eram suscitadas, referia-se a alguns heréticos que então renovavam a antiga heresia de Pelágio, a qual negava pura e simplesmente o pecado original.

A esta heresia antiga se juntavam outras novas, por obra de Lutero e Calvino. Esses inovadores pretendiam que o o pecado original subsistia mesmo depois do batismo, que o batismo nos valia apenas a não-imputação do pecado, mas não o apagava realmente.

Por onde se vê que o espírito humano se presta a todos os excessos: alguns buscavam provar que o pecado original não existia, enquanto outros sustentavam que ele subsistia mesmo depois do batismo.

Posta entre inimigos de sentimentos tão opostos e tão miseravelmente errados a respeito do pecado original e do seu remédio que é o batismo, a Igreja, pela boca do Concílio, ensina a uns e a outros, e, ao mesmo tempo, a todos os fiéis, a doutrina pura e sem mácula das divinas Escrituras, dos Santos Padres e dos Concílios mais autorizados.

Esses Concílios são aqueles realizados contra os antigos pelagianos, a saber, os Concílios de Cartago, Milevi e, sobretudo, o segundo Concílio de Orange, no qual a doutrina do pecado original foi afirmada nos termos de que se apropriará o Concílio de Trento. Podemos lê-los no primeiro de seus cânones:

“Se alguém não confessar que Adão, o primeiro homem, após ter transgredido o mandado de Deus no paraíso, perdeu imediatamente a santidade e a justiça em que fora constituído; e que pela sua prevaricação incorreu na ira e na indignação de Deus, e por isso na morte com que Deus antes lhe havia ameaçado e, com a morte, na escravidão e no jugo daquele que desde então teve o império da morte (Heb 2, 14), a saber, o demônio; e que Adão por aquela ofensa foi segundo o corpo e a alma mudado para pior – seja anátema!”[2]

 

Como se pode ver, o Concílio nos instrui aqui sobre o estado de Adão antes e depois da queda. Antes de sua queda, ele possuía a santidade e a justiça. Pensa-se geralmente que Deus as deu a ele desde sua criação; entretanto, como certos autores católicos ensinavam que Deus havia primeiro criado Adão segundo a natureza, depois o havia elevado à santidade e à justiça que nós chamamos de original, o santo Concílio, não desejando condená-los, se contentou em dizer que Adão foi constituído nesse estado: ele não diz criado. Com isso, o santo Concílio nos permite perceber melhor sua diferença com respeito aos dons da ordem natural: mostra-nos que a graça de Adão era verdadeiramente uma graça sobrenatural, não devida à sua natureza.

Adão caiu, e por sua própria culpa perdeu a graça, a santidade e a justiça que compunham seu mérito diante de Deus. Decaído da amizade de Deus, incorreu em sua cólera e indignação: de imortal que era pela graça, tornou-se mortal segundo a condição da sua natureza. E de servidor livre de seu Criador, tornou-se escravo de Satanás, a quem obedecera.

A queda foi horrivelmente grande: o homem inteiro se ressente dela, ele foi deteriorado por inteiro, segundo seu corpo e sua alma. Segundo o corpo, tornou-se sujeito às doenças e, finalmente, à morte. Segundo a alma, ele foi despido dos dons da graça, e de todos os bens que lhe resultavam da presença desse dom sobrenatural.

Tendo sua alma rompido o jugo tão doce de sua dependência para com Deus, submeteu-se ao estranho jugo da concupiscência: e ele, que no Paraíso era puro e feliz, quase como os anjos no Céu, ele que andava nu e não se ruborizava, assim que pecou conheceu a vergonha, e foi obrigado a cobrir-se! Deus jogou-lhe uma pele de animal, e ele escondeu sua vergonha. Ele a cobriu, mas não a eliminou. Ela permanece!

Em seguida, Adão se tornou escravo de Satanás segundo o corpo e segundo a alma, e, por conseqüência, ele tinha de viver na morada do próprio demônio, lá onde a escravidão é eterna, sob o mais perverso dos mestres, num lugar de fogo.

O segundo cânone do Concílio de Trento relativo ao pecado original foi concebido nos termos seguintes:

“Se alguém sustentar que a prevaricação de Adão prejudicou somente a ele e não à sua descendência; e que a santidade e a justiça que recebera de Deus e perdera pelo pecado, foi perdida somente para ele mas não para nós; ou que estando ele manchado pelo pecado de desobediência, transmitiu a todo gênero humano tão-somente a morte e as penas corporais, não porém o mesmo pecado, que é a morte da alma – seja anátema!"[3]

Toda a doutrina de Pelágio é aqui derrubada e fulminada com o anátema. Ele reconhecia que Adão havia pecado e sido despido da justiça original, mas pretendia que a queda de Adão fora, para sua descendência, apenas um mau exemplo, nada mais.

Os discípulos do heresiarca, confrontados por toda parte com os anátemas da Igreja, consentiram em reconhecer que o pecado de Adão prejudicara todo o gênero humano; mas, quando instados a confessar que mal nos causara o pecado de nosso primeiro pai, reconheciam que Adão nos havia transmitido as penas de seu pecado, os sofrimentos, a doença, a morte, mas não queriam reconhecer que Adão nos transmitira o seu próprio pecado, com a ignorância e a concupiscência que são, a um tempo, a conseqüência dele e o seu indício cruelmente revelador. Em uma palavra, eles reconheciam que Adão nos transmitira a morte do corpo, mas não a morte da alma ou o pecado propriamente dito.

Os antigos Concílios condenaram as doutrinas pelagianas, e o Concílio de Trento, observando que essas mesmas doutrinas ressurgiam no século XVI, condena-as de novo se apropriando dos próprios termos dos Concílios anteriores.

A razão humana não tem dificuldade em reconhecer que nós herdamos as penas incorridas por Adão, as punições inflingidas ao seu pecado: nós concebemos isso facilmente porque vemos se realizar sob nossos olhos fatos absolutamente correspondentes: uma pena infligida a um pai lança a desonra sobre seus filhos; nós vemos isso e ninguém sonha em levantar objeções a esse dado moral que, no entanto, é bastante duro, durus sermo.

Mas o que não é concebível tão facilmente é que Adão nos transmitiu não apenas as penas do pecado, mas o próprio pecado. Instruídos pela divina revelação, nós aceitamos a doutrina do pecado original e, com a garantia da palavra divina, a fé repousa nesta verdade.

Depois de conduzir a razão a se submeter à razão de Deus, a fé provoca a razão a procurar o como daquilo que crê. Segundo as palavras profundas de Santo Anselmo, a fé busca a inteligência, a fé procura compreender, fides quaerit intellectum.

Aqui o papel da razão cresce, porque, ajudada pela razão de Deus, ela se eleva acima de si mesma, e se pergunta como é possível que o pecado de Adão tenha se tornado  pecado nosso. Sozinha diante dessa grande questão, a razão tem de confessar sua impotência; mas, ajudada pela fé, a razão pode avançar sem temeridade. Eis o caminho que pode fazer e como ela procede.

O Concílio de Trento vem em nosso auxílio de um modo que não poderia ser mais satisfatório, dizendo: "O pecado de Adão, sendo único em sua origem, transvasou para todos por geração e não por imitação, e é próprio a cada um”[4].

Nós nos perguntávamos como o pecado de Adão passava para cada criança, e o Santo Concílio nos responde: “Por transvasamento, pela própria geração.” Abre-se assim à razão uma via de conhecimento absolutamente nova, absolutamente sobre-humana, absolutamente divina. A geração é uma espécie de duplicação de Adão: e este último, no ato mesmo da geração, engendra à sua imagem e semelhança, segundo as palavras das Escrituras (Gn 5, 3). Adão decaído engendra decaídos, Adão pecador verte nos seus filhos tanto a sua natureza como o seu pecado.

Eis um exemplo que nos ajudará a compreender essa importante verdade: um linotipista comete um erro numa gráfica. A página montada é enviada à impressora; a impressora é posta em movimento e todos os os exemplares que nos chegam às mãos reproduzem o erro inicial.

Sob a imagem do prote (protos, primeiro), reconhecemos Adão; sob a imagem da impressão, reconhecemos a geração; e sob aquela dos exemplares, reconhecemos todos os filhos de Adão.

Único na sua origem, o erro inicial torna-se próprio a cada um dos exemplares. Por aí, compreendemos, tanto quanto nos é possível no momento, o transvasamento do pecado original.

 


[1] Eis o texto original: “Ut fides nostra Catholica, sine qua impossibile est placere Deo: purgatis erroribus, in sua sinceritate integra et illibata permaneat, et ne populus Christianus omni vento doctrinae circumferatur; cum Serpens ille antiquus, humani generis perpetuus hostis, inter plurima mala, quibus Ecclesia Dei his nostris temporibus perturbatur, etiam de peccato originali, ejusque remedio non solum nova; sed vetera etiam dissidia excitaverit: sacrosanta oecumenica, et generalis Tridentina Synodus in Spiritu Sancto legitime congregata praesentibus in ea eisdem tribus Aspostolicae Sedis Legatis, jam ad revocandos errantes, et nutantes confirmandos accedere volens, sacrarum Scripturarum, et sanctorum Patrum, ac probatissimorum Conciliorum testimonia et ipsius Ecclesiae judicium, et consensum secuta, haec de ipso peccato originali statuit, fatetur, ac declarat.” [N. do E.]

[2] Eis o texto original: “Si quis non confitetur, primum hominem Adam, cum mandatum Dei in paradiso fuisset transgressus, statim sanctitatem et justitiam, in qua constitutus fuerat, amisise, incurrisseque per offensam praevaricationis hujumodi iram, et indignationem Dei, atque ideo mortem, quam antea illi comminatus fuerat Deus: et cum morte captivitatem sub ejus potestate, qui mortis deinde habuit imperium hoc est, diaboli, totumque Adam, per illam praevaricationis offensam, secundum corpus et animam in deterius commutatum fuisse; anathema sit.” [N. do E.]

[3] Eis o texto original: “Si quis Adae praevaricationem sibi soli, et non ejus propagini asserit nocuisse, et acceptam a Deo sanctitatem, et justitiam, quam perdidit, sibi soli, et non nobis etiam eum perdidisse, aut inquinatum illum per inobedientiae peccatum, mortem et poenas corporis tantum in omne genus humanum transfudisse, non autem et peccatum, quod mors est animae: anathema sit.” [N. do E.]

[4] Eis o texto original: “Si quis hoc Adae peccatum quod origine unum est et propagatione non imitatione transfusum omnibus inest unicuique proprium [...] negat [...] anathema sit” - cânone terceiro [N. do E.]

3. O pecado original é um veneno

Capítulo terceiro

O pecado e o estado de pecado; o pecado original é um veneno.

 

Tudo o que dissemos antes sobre o pecado original não é mais do que uma espécie de introdução à exposição da doutrina católica sobre essa grave questão. Contudo, antes de seguir, resta-nos fazer uma observação de importância capital.

Uma coisa é o pecado, outra é o estado de pecado.

O pecado, tomando a palavra em seu sentido estrito, é o ato em si pelo qual se dá a desobediência a Deus; é o homem que se separa da vontade de Deus para seguir a inspiração enganadora de sua vontade própria.

O estado de pecado é a conseqüência do ato: é o que fica na alma depois da desobediência, a saber, a perda da graça, a sujeira, a inimizade de Deus, e tudo que disso pode resultar.

O ato do pecado dura o tempo de cometer a falta: o estado de pecado dura até a remissão da falta. Adão comeu o fruto proibido, este foi o ato do pecado: quando o ato foi realizado e o pecado consumado, Adão entrou em estado de pecado.

Pelos méritos do Salvador que lhe foi prometido, e em quem ele acreditou, Adão recebeu o arrependimento e o perdão por sua enorme falta: mas se ele foi reerguido, ele o foi pessoalmente: decaída com ele, a natureza não foi reerguida senão em Nosso Senhor Jesus Cristo.

O antigo Adão nos transmitiu sua natureza, mas sua natureza caída: pois ele nos gerou, não em virtude da graça que o reergueu, mas em virtude de sua natureza que se viciara. Todos os que nascem dele, nascem da carne e do sangue, e todos necessitam renascer para que a regeneração em Jesus Cristo os purifique da sujeira inerente à geração de Adão.

Nós dissemos que os antigos rabinos chamavam o pecado original de “veneno”. É um nome bastante exato. De fato, quando um veneno é inoculado em algum ponto de nosso corpo, ele tende a contaminar o corpo todo. Do mesmo modo, quando, por malícia da velha serpente, o veneno foi inoculado em nossos primeiros pais, ele não se limitou a eles, mas se espalhou por todo o corpo do qual eles eram as cabeças, isto é, à humanidade inteira.

É pelo ato mesmo da geração que o veneno é transmitido, e se transmite e se transmitirá enquanto durar a humanidade. Há aí uma dinâmica venenosa: o homem enrubesce dela e se esconde. Fosse ele pessoalmente um santo, não faria diferença: o indivíduo não conta aqui, pois é na natureza que está a concupiscência, e na concupiscência, o veneno. E o veneno é o pecado original.

São Tomás, com sua concisão peculiar, ensina essa mesma doutrina quando diz: Libido transmittit originale peccatum in prolem: é a concupiscência que transmite o pecado original à criança. O Concílio de Trento, que citaremos mais adiante, nos ensina o mesmo.

Depois destas preliminares, nós ouviremos a grande voz da Igreja nos ensinando, com a autoridade do próprio Deus, a doutrina sobre o pecado original.

 

2. Misérias da natureza e contradições do homem

Capítulo segundo

O pecado original nos é igualmente indicado pelas misérias da natureza, as contradições que o homem encontra em si mesmo e sobretudo pela vergonha.

 

Os geólogos, depois de estudar atentamente o globo terrestre, constataram que ele sofreu grandes revoluções, como o atestam ainda hoje os restos de plantas, animais e mesmo de corpos humanos enterrados em grandes profundidades. O estudo do homem demonstrou igualmente que ele também sofreu uma revolução considerável; e assim como pelo estudo das camadas terrestres podemos constatar a natureza e a extensão das perturbações de nosso planeta, da mesma forma, pelo exame atento do estado de nossa humanidade, somos levados a pensar que ela não é mais o que era ao surgir das mãos do Criador: ela também teve de passar por eventos que modificaram sensivelmente sua natureza e as condições de sua existência.

Tomemos o homem em seu nascimento. Não é doloroso constatar que o rei da criação, o homem, vem ao mundo em condições realmente inferiores às dos animais? O animal assim que nasce já procura a mama de sua mãe e imediatamente sai à luta de sua conservação. O homem, ao contrário, nasce em tal estado de fraqueza e impotência que, sem o socorro de outrem, socorro que sua própria mãe, maltratada pela dor, lhe seria incapaz de dar, ele estaria inexoravelmente condenado a morrer.

Há mais: a impotência desse primeiro instante não cessará logo no primeiro dia de vida: ela se estenderá por muito tempo, certamente para muito além do seu primeiro ano de vida.

Assim é com o corpo. Quanto à alma, o homem está numa condição ainda mais miserável, e será preciso esperar alguns anos até que atinja o pleno uso da razão.

Essas considerações nos conduzem a reconhecer que o homem, superior aos animais em tantas coisas, é inferior a eles em outras tantas, e somos forçados a concluir que as coisas para ele não são mais como devem ter sido primitivamente. O homem não parece estar em seu estado primitivo e normal, ele sofreu uma queda.

Continuemos nosso exame. O homem cresce, e a partir do momento em que adquire consciência de si mesmo, eis que nele se revelam fenômenos inexplicáveis. Há no homem como que dois homens. Um aspira ao alto, outro é atraído pelo baixo. Um é o homem da razão; outro é o homem da paixão. Ele sabe o que é a verdade, mas eis que nele se revela uma inclinação para a mentira. Quem ensinou à criança a arte de mentir? Ela mente uma vez, e para defender sua mentira, precisava mentir uma segunda vez. E se lhe mentem, ela se irrita, reivindicando, como razão, o direito inquestionável de que lhe digam a verdade.

Há no homem um verdadeiro dualismo. Mesmo tendo o conhecimento do bem, e o desejando segundo as melhores tendências de sua natureza, ele sucumbe à atração do mal, embora deteste o mal.

Os próprios pagãos o sublinharam. “Eu vejo o que é bom, dizia Ovídio, eu o vejo e o aprovo. E, no entanto, eu obedeço ao mal.”

Como explicar as contradições de nossa natureza, sem reconhecer que essa pobre natureza sofreu uma grande alteração. E que ela hoje se encontra em uma via que não é senão um desvio?

Ademais, é preciso reconhecer que essa alteração, que esse desvio não é um fato do indivíduo, mas da própria natureza humana, o que é bem mais grave. Pois se fosse um fato do individuo e não da natureza, teríamos ao menos a felicidade de ver indivíduos isentos do mal comum, o que não se dá. A natureza é a mesma em todos, e em todos ela é enferma.

É preciso então ir mais longe em nossa investigação sobre o mal em nós. Para remate do triste quadro de nossas misérias, diremos que o homem traz em si um sentimento inexorável que certamente não é obra de Deus: a vergonha. A vergonha se impõe a todos, ela adere à obra de Deus, e assim como nada saberia fazer com que ela desaparecesse, não há nada que humanamente a possa explicar. Como então ela está lá? Deus não poderia dotar o homem da cruel necessidade de se enrubescer da obra de seu Criador. A vergonha não é então obra de Deus; ela adere ao homem em conseqüência da obra do homem. E aqui é preciso dizer que essa vergonha não é tão-somente do indivíduo, mas da natureza humana. Mais uma vez, é preciso que reconheçamos que não é o homem que é enfermo, mas sua natureza.

Ouçamos as palavras graves e profundamente filosóficas de Pascal:

“As grandezas e misérias do homem são tão visíveis, que é preciso necessariamente que a verdadeira religião nos ensine tanto que haja algum grande princípio de grandeza no homem como algum grande princípio de miséria. Se o homem jamais tivesse se corrompido, ele, em sua inocência, gozaria com segurança da verdade e da felicidade. E se o homem nunca tivesse sido senão corrompido, não teria nenhuma idéia nem da verdade nem da beatitude.

“O que essa avidez e essa impotência clamam, senão que outrora houve no homem uma verdadeira felicidade, da qual só lhe restam, agora, a marca e o vestígio todo vazio, que ele tenta inutilmente preencher com tudo o que o rodeia, porque esse abismo infinito só pode ser preenchido com um objeto infinito e imutável, isto é, com o próprio Deus?

"Coisa assombrosa, no entanto, que o mistério mais distanciado do nosso conhecimento, que é o da transmissão do pecado [original], seja uma coisa sem a qual não podemos ter nenhum conhecimento de nós mesmos (…) Sem esse mistério, que é o mais incompreensível de todos, somos incompreensíveis a nós mesmos. O nó da nossa condição tira seus contornos e desdobramentos nesse abismo. De sorte que o homem é mais inconcebível sem esse mistério do que esse mistério é inconcebível ao homem.”

(Pensamentos, cap. 15, art. 7).

1. Traços do conhecimento do pecado original entre os antigos

Capítulo primeiro

Traços do conhecimento do pecado original entre os hindus, os persas, os assírios, os egípcios, os chineses, os nativos da América, os gregos e os romanos; entre os judeus e entre os muçulmanos.

 

Nós conhecemos uma família – diremos seu nome – uma família em que o pai errou miseravelmente; ele perdeu tudo que é possível perder, inclusive a honra: Cum in honore esset, non intellexit (Sl 48, 13).

O erro do chefe da família tornou-se a herança de seus filhos: ele os empobreceu e os envergonhou singularmente. Os filhos não podiam sequer olhar uns aos outros. Que digo eu? Eles não podiam sequer se olhar a si mesmos sem enrubescer. Os mais velhos da família sabiam: conheciam a causa da desonra, e da indigência e da vergonha; os mais novos nada sabiam da causa de sua desgraça, mas suspeitavam que uma grande tragédia havia acontecido, pois eles carregavam a vergonha. Se os primeiros tinham o conhecimento e a inteligência da situação, os outros dela tinham ao menos o sentimento, e o sentimento era a vergonha.

Expliquemos a parábola: a família é nossa família, é todo o gênero humano. Adão, nosso pai, cometeu um pecado, um pecado enorme, um pecado imenso. Ele perdeu seus bens, que deveriam ser nossos bens, e nos legou sua vergonha que se tornou nossa vergonha.

Os mais velhos da família são aqueles a quem Deus fez como tais, e lhes restituiu parte dos bens perdidos na origem; trata-se daqueles a quem Deus restituiu a fé.

Os mais novos são aqueles que permaneceram no estado em que a desgraça original os deixou.

Os primeiros lêem em sua fé, na fé que Deus lhes deu, lhes restituiu, a história completa da família, sua felicidade inicial, sua grande fortuna de origem, depois a queda e as conseqüências da queda. Eles sabem.

Os outros, os que não têm a fé, nem por isso sofrem menos as conseqüências da queda.  Eles têm o sentimento, a vergonha, e ainda que não saibam claramente o que se passou, conservam ao menos algumas lembranças da história da família.

Nosso propósito é recolher essas lembranças, e nos servir delas como um primeiro raio de luz, uma introdução ao conhecimento pleno e íntegro do pecado original, tal como o possuem, pela graça de Deus, os homens que têm a fé.

Em nosso primeiro contato com os deserdados da família, começaremos pelos hindus.

Os hindus, como provam seus livros mais antigos, consideravam a condição primeira da humanidade como um estado de felicidade e imortalidade. Yama, o primeiro homem, cedendo aos apelos de sua irmã Yami, cometeu uma falta que o lançou, a ele e à humanidade inteira, na imundície e na escravidão.

A grande falta fora aconselhada por seres superiores, divindades, assim como por Yami.

Em um de seus hinos, diz-se: “Nós buscamos com nossos sacrifícios ganhar a imortalidade que foi perdida por Yama”.

Os antigos persas possuíam conhecimentos preciosos sobre a unidade de Deus, a Santíssima Trindade, o Salvador futuro. Eles sabiam também do paraíso terrestre, que eles definiam como “um lugar de natureza agradável onde, contudo, nem tudo foi alegria”. Nesse lugar, Deus fizera crescer uma infinidade de árvores úteis, salutares, e no meio delas a árvore da vida. Lá habitava o homem chamado Yama, o primeiro homem, a quem, diziam, deus convidara a conversar com ele.

Porém o mais maligno de todos os espíritos, a serpente, o mentiroso, o enganador dos mortais, fez Yama cair na desobediência e, em seguida, na morte. A prerrogativa da imortalidade foi perdida para ele e para toda a humanidade.

Os babilônios e os assírios conheciam também a queda, inclusive a queda dos anjos, que chamavam de revolução dos anjos.

De acordo com seus monumentos mais antigos, eles sabiam que o homem fora criado num estado de perfeição, usufruindo da companhia de Deus; mas o dragão Tiamat levou o homem ao pecado: ao saber disso Deus irou-se, porque o homem corrompera sua pureza. O homem foi então punido com a morte, e por causa do pecado todos os males irromperam no homem.

Recentemente, foi encontrado um desenho da mais alta Antigüidade, onde estão representados dois personagens sentados de cada lado de uma árvore e que estendem suas mãos para o fruto dessa árvore, enquanto uma serpente se ergue atrás da mulher.

O Egito só se tornou mais conhecido há pouco tempo, mas entre os monumentos de sua religião primitiva destaca-se o papiro de Turim chamado Ritual Fúnebre. Nele se lê: “Existe um que é santíssimo, que criou tudo que há na terra, que governa os dias”.

Entre os egipícios encontramos também a noção da serpente inimiga de Deus, a noção de um cordeiro imolado para a remissão dos pecados, assim como a esperança num salvador, o que implica a queda original da humanidade[1].

Os chineses são mais explícitos. Em hebraico, o nome ‘Adão’ significa “terra roxa”: ora, os chineses chamam o primeiro homem de Hoang-Chi. Hoang significa “terra roxa”, e Chi, “senhor” ou “patriarca”. A primeira mulher é chamada de Louy-Tsou. Tsou significa a matriarca, a avó ou bisavó, e louy, aquela que arrasta os outros para o mal.

Em chinês, Kong-Hong significa o arquiteto de todo o mal; e é representado pela cabeça de um homem com os cabelos cor de fogo e o corpo de uma serpente. Em um livro muito antigo é dito: homem e não-homem, serpente e não-serpente, ele não passa de mentira e engano.

Um autor chinês, Lopi, diz ainda que ele (Kong-Hong) foi o primeiro dos rebeldes, que ele destruiu os laços que uniam o céu e a terra, e que, orgulhoso da sua sabedoria, atribuía a si só todas as virtudes.

Os chineses sabiam também de um jardim maravilhoso situado, diziam, ao pé da porta fechada do céu. No meio do jardim está a fonte da imortalidade, e ela jorra de quatro rios. Eles falam também da Grande Era da natureza perfeita. Não havia nem calamidades, nem doenças, nem morte. A mulher, diziam, levou o gênero humano à perdição, foi ela a causa de todos os males.

A respeitos dos índios da América, M. de Humbolt escreveu: “… o grupo representa a mulher da serpente. Os mexicanos a vêem como a mãe do gênero humano. Sempre a vemos representada relacionada com uma grande serpente.” Outro autor conta que, na Pensilvânia, um violento temporal derrubou um enorme carvalho e sob suas raízes descobriu-se uma grande pedra, onde estavam gravadas diversas figuras, entre elas, duas formas humanas separadas por uma árvore, uma delas tendo à mão umas frutas. Esses mesmos mexicanos mergulhavam na água a criança recém-nascida, dizendo: “Que este banho possa purificar teu coração!” Desse modo, eles seguem uma prática universal, como já vimos ao tratar do Batismo[2].

Os gregos e os romanos, povos mais próximos de nós, mas que receberam de seus ancestrais as doutrinas primitivas, tinham noção da mancha original; por isso também mergulhavam os bebês na água. Platão diz claramente que aquele que morrer sem se purificar pelos ritos expiatórios (Teletai) será precipitado no abismo do inferno; em contrapartida, o homem purificado será recebido na morada dos deuses (Phédon).

Fiel à mesma doutrina, Virgílio representa, chorando no inferno, os bebês que a morte levou deste mundo em suas primeiras horas, isto é, antes que recebessem a purificação. Entre os romanos, a purificação acontecia no nono dia para os meninos e no oitavo para as meninas (Eneida, VI).

Acabamos de percorrer rapidamente o mundo antigo e em toda parte constatamos a lembrança da queda original. Ferida no coração, a humanidade sente seu ferimento e em toda parte sofre as conseqüências formidáveis.

Herdeiros das promessas de Deus, portadores das revelações divinas e de todas as esperanças do mundo, os judeus tinham sobre esse ponto uma doutrina mais luminosa, e noções mais exatas: eles sabiam.

Os doutores da Sinagoga nos transmitiram os ensinamentos de seus pais, e estão em todos os aspectos em perfeito acordo com a doutrina católica. Aliás, sabemos que a doutrina da Igreja se diz católica exatamente porque pertence a todos os tempos e a todos os lugares.

Drachi, uma rabino convertido à fé católica, em seu livro “Harmonia entre a Igreja e a Sinagoga”, nos legou em suas páginas um tratado do pecado original segundo os rabinos. Vamos resumi-lo rapidamente.

O Tentador, segundo eles, é o anjo decaído: a serpente e o anjo caído são um só, e causaram a morte do mundo inteiro.

A Sinagoga sempre ensinou que o pecado de Adão e Eva foi ligado à sua posteridade, a qual existia virtualmente nos primeiros pais. Tal doutrina é transmitida pelo seguinte mito: “No momento em que a serpente se juntou à Eva, lançou nela uma sujeira que continua a infectar seus filhos.” Freqüentemente os livros rabínicos falam da sujeira com que a serpente conspurcou Eva. Tal sujeira é também chamada de veneno.

Em um comentário místico sobre o Livro de Ruth, lê-se: “A sujeira foi jogada em Adão e Eva pela velha serpente: essa sujeira é pois a verdadeira origem das gerações saídas de Adão e Eva. É o que ouvimos dos nossos doutores, que o receberam de seus predecessores, que já o receberam de outros e outros remontando até à boca do profeta Elias.”

O Rabi Menahhem de Recanati explica como se dá a transmissão do pecado original: “No dia em que o primeiro homem foi criado, toda a Criação foi consumada; Adão foi portanto a conclusão do sistema do mundo, e a súmula do gênero humano, que ele contém em germe. Desse modo, quando ele pecou, todo o gênero humano pecou com ele; é assim que nós carregamos a pena de sua iniqüidade.”

Segundo os mesmos rabinos, o pecado original está indicado nas seguintes passagens das Escrituras:

I. No Gênesis (Gn 6, 5), ele é chamado de o mal: “Deus, vendo que era grande a malícia dos homens sobre a terra, e que todos os pensamentos do seu coração estavam continuamente aplicados ao mal (…)”. É daí que os judeus tomaram o nome de pecado original: eles o chamavam simplesmente: o mal, hará, ou ainda inclinação ao mal: Yetser hará. Como mais adiante se lê no mesmo livro (Gn 8, 21)[3].

II. Os judeus também chamavam o pecado original de um nome tomado do Deuteronômio (10, 16): Circumcidite igitur praeputium cordis vestri… Isto é, a incircuncisão do coração: expressão bastante enérgica e significativa, indicando, à maneira judaica, que a natureza do mal que o gênero humano traz no coração é uma sujeira.

III. Os filhos de Israel chamavam ainda o pecado original de coração de pedra, seguindo as palavras do profeta Ezequiel: “Derramarei sobre vós uma água pura, e sereis purificados de todas as vossas imundícies; purificar-vos-ei de todos os vossos ídolos. Dar-vos-ei um coração novo e porei um novo espírito no meio de vós; tirarei da vossa carne o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne” (Ez 36, 25-26). O coração de carne é um coração dotado de vida e de sentimento; o coração de pedra é insensível, é a própria morte: é o estado dos homens que não receberam a água pura e purificadora do batismo.

IV. Os antigos, como nós mesmos, também encontravam nestas palavras de Jó a doutrina do pecado original: “Quem pode fazer sair o puro do impuro? Ninguém” (Jó 14, 4). Impuro é o homem tal como o fez Adão, é o homem caído.

V. Uma passagem do profeta Joel era explicada pelo pecado original. Diz o profeta: “Afastarei de vós aquele que vem da parte do Aquilão” (Jl, 2, 20). No estilo dos profetas, o Norte ou o Aquilão é o mal, assim como o Sul ou o Noto é o bem. Também os doutores da Sinagoga entendiam a palavra de Joel como se referindo ao pecado original. O sábio rabino David Kimhhi diz sobre o tema: “Nossos mestres, de feliz lembrança, expõem esse versículo sobre o tempo do Cristo da seguinte maneira: ‘Afastarei de vós aquele que vem da parte do Aquilão’ - O lugar do mal se oculta e reside no coração do homem.”

Os doutores da Sinagoga determinaram de modo muito preciso a doutrina sobre o pecado original. Eis algumas passagens do Talmude[4] sobre o tema: “A partir de que momento a maldosa concupiscência (ou o pecado original) domina o homem? É depois do seu nascimento ou desde o tempo de sua formação (ietsira)? Resposta: Desde o tempo de sua formação.” “Enquanto viverem os justos terão de combater sua concupiscência.” “No mundo futuro, não haverá concupiscência.” Com freqüência, o “mundo futuro” designa o tempo do Messias; então não haverá mais pecado original por causa da água pura anunciada por Ezequiel. Se, por mundo futuro, entende-se a vida eterna, é certo que toda concupiscência será destruída. “No tempo que virá, diz ainda o Talmude, Deus fará vir a maldosa concupiscência e a matará diante dos olhos dos justos e diante dos olhos dos ímpios.”

VI. Os antigos viam também a doutrina do pecado original no versículo 7 do salmo Miserere, quando Davi diz: “Eis que nasci na culpa, e minha mãe concebeu-me no pecado”. Nada se poderia dizer de mais claro: a Sinagoga entende esse versículo assim como o compreende a Igreja.

Essas doutrinas tão profundamente enraizadas na consciência humana, solidamente apoiadas na tradição mosaica, penetraram até ao fundo o Islamismo. Maomé, seu pretenso profeta, escreveu a respeito da Virgem, em seu Corão: “Os anjos disseram à Maria: Certamente Deus vos escolheu e vos fez pura.” E o grande comentador do Corão Djelal-Eddin, dá em suas próprias palavras a seguinte explicação: “É da Tradição que ninguém vem ao mundo sem que Satã o toque no momento do nascimento. É o que os faz cair num choro cheio de lágrimas. Porém Maria e seu Filho permaneceram isentos.”

 


[1] Para mais detalhes sobre todos os povos que mencionamos acima, ver Paganisme et Revelation, do Dr. Fisscher.

[2] Bulletin de la Sainte Esperance, t. I, pp. 414-415.

[3] O autor refere-se certamente à passagem seguinte das Escrituras: “[...] os sentidos e os pensamentos do coração do homem são inclinados para o mal desde a sua mocidade” [N. do E.]

[4] O Talmude é uma compilação em 10 volumes in-fólio contendo os ensinamentos dos rabinos. Para eles, a Bíblia é como a água, o Talmude como o vinho.

Breve introdução

Breve introdução

O Naturalismo é a grande heresia do presente. Nós a temos combatido sem pena, sem descanso, sem misericórdia. É a negação completa de todo o Cristianismo, de tudo em que cremos, de tudo que esperamos, de tudo que amamos. E como não há nada mais atacado pelo naturalismo contemporâneo do que o pecado original, é nosso propósito oferecer um tratado sobre o pecado original.[1]

Devemos advertir nossos leitores que não lhes daremos verdades diminuídas. Diremos a verdade sem fraquejar e sem nada esconder. Diminuir as verdades sob o pretexto de torná-las mais fáceis e aceitáveis, nos parece simplesmente uma traição: que Deus nos poupe de tamanha desgraça!

 

[1] Veja “O Naturalismo” na Revista Permanência 280, p. 56. [N. do E.]

O Pecado Original

O Pecado Original

Pe. Emmanuel-André, OSB

[seguido de uma nota sobre o limbo]

 

Exercícios Práticos Para a Via Sacra

S. Leonardo de Porto Maurício

Preparação

De joelhos ao pé do altar, o oficiante recita em voz alta as orações seguintes:

 

Oração

Actiones nostras, quaesumus, Domine,aspirando praeveni, et adjuvando prosequere., ut cuncta nostra oratio et operatio a te semper incipiat et per te coepta finiatur. Per Christum Dominum nostrum. Amen1.

 

Ato de Contrição

Ó meu Jesus Cristo afável, porque sois infinitamente bom e misericordioso, eu Vos amo acima de todas as coisas; arrependo-me de todo o coração de Vos haver ofendido, Vós que sois o soberano bem. Por isso Vos ofereço este exercício piedoso, em memória do percurso doloroso a caminho do Calvário, o qual fizestes por amor a mim, pecador indigno.

Eu me proponho a lucrar todas as indulgências anexas a este exercício e, para tanto, tenho a intenção de rezar pelas finalidades em razão das quais foram concedidas tantas benesses.

Humildemente imploro a Vossa assistência, ó meu Divino Salvador, para terminar este santo exercício de modo a que obtenha a misericórdia nesta vida e a glória no século vindouro. Amém.

Ao sair do altar, entoa-se o Stabat ou outro cântico.

 

1ª Estação - Jesus é condenado à morte

 

V. Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi;

R. Quia per sanctam Crucem tuam redemisti mundum2.

A primeira estação representa a casa e o pretório de Pilatos, onde Jesus Cristo foi condenado à morte.

Consideremos a submissão admirável com que Jesus, a inocência em pessoa, recebe a injusta sentença. Lembrai-vos de que foram os vossos pecados que ditaram a decisão, que foram as vossas blasfêmias, malícias e licenças as palavras deicidas que convenceram o juiz iníquo a proferir a condenação. Voltemos nosso olhar ao Deus cheio de amor, e com a alma repleta da mais viva dor, digamos a Ele por lágrimas mais do que por palavras:

Jesus amável, a que excessos Vos levou o Vosso amor por nós! É mesmo verdade que quisestes ser encarcerado, acorrentado, vergastado e condenado à morte infame em benefício de criaturas tão indignas? Ah, tamanho sacrifício comove meu coração insensível e me faz detestar os pecados, em particular os pecados da língua! Sim, Jesus amado, eu os detesto! Enquanto durar esta via dolorosa, diante de Vós eu sempre hei de chorar e lamentar por eles, repetindo: Ó meu Jesus, tende piedade de mim! Jesus, misericórdia!

Pater. Ave. Gloria3

 

V. Miserere nostri, Domine;

R. Miserere nostri.

V. Fidelium animae per misericordiam Dei requiescant in pace.

R. Amen4.

 

Quanta maldade sofre o autor da vida,

De Quem eu testemunho a crua sorte!

Mas pior que dos judeus a perfídia

É o meu pecado, que o condena à morte.

 

 

2ª Estação - Jesus toma a cruz aos ombros

 

V. Adoramus te, Christe, etc.

A segunda estação representa o lugar onde o Divino Salvador tomou o pesado fardo da cruz.

Consideremos com que enlevo Jesus abraça a cruz, com que mansidão suporta os cruéis tormentos dos carrascos e os ultrajes do populacho em fúria. Vós, porém, não sabeis suportar a pena mais suave; vós fugis à vista dos menores sofrimentos. Esqueceis que, sem a cruz, não sereis admitidos na morada gloriosa? Ah, lamentai a vossa cegueira e, prostrados aos pés do Divino Redentor, declarai:

Cabe a mim, ó Jesus, e não a Vós, carregar essa cruz tão opressiva e dolorosa, fabricada com as traves dos meus pecados. Meu amável Salvador, dai-me forças para, daqui por diante, abraçar as cruzes que tanto mereci, por causa da minha infidelidade; concedei-me a graça de morrer aninhado na cruz e de repetir, osculando com afeto o Santo Lenho, as palavras de Santa Teresa: “Sofrer ou morrer! Sofrer ou morrer!”

Pater. Ave. Gloria etc.

Vejo Jesus sob o madeiro

Levar golpes do Pai exasperado;

Deus sentencia Nele o meu erro;

Ele sofre mas eu que sou culpado.

 

3ª Estação - Jesus cai pela primeira vez

 

V. Adoramus te, Christe, etc.

A terceira estação representa a primeira queda de Jesus sob o peso da cruz.

Contemplemos Jesus na via dolorosa; o sangue escorria das Suas feridas e enfraquecia-O; por isso, Ele cai no chão pela primeira vez. Com que furor os carrascos Lhe puseram de pé, empurram-n’O e redobraram os golpes! E Jesus amável não abria a boca, mas sofria em silêncio; já vós, diante da mínima contrariedade, vós vos entregais aos murmúrios e aos queixumes amargos, até mesmo às blasfêmias. Detestai, de uma vez por todas, as impaciências e o orgulho, e pedi ao benévolo Salvador que Ele perdoe as vossas quedas:

Ó bom Jesus, amável Redentor, vedes a Vossos pés um grande pecador, o pior dos pecadores que há sobre a terra. Oh, são muitas as quedas culpáveis de que posso me acusar! Quantas vezes não me precipitei no abismo das iniqüidades! Dignai-vos, ó Jesus, estender-me a mão firme para retirar-me deste precipício; ajudai-me, estou implorando, ajudai-me, a fim de que eu, pelo resto da vida, evite a recaída no pecado mortal e mereça, pela graça de uma santa morte, ser feliz convosco pelos séculos dos séculos.

Pater. Ave. Gloria etc.

 

Jesus se inclina e tomba sob o fardo;

levantam-n’O entre gritos de furor.

Esta queda me cura do pecado,

me encoraja e me infunde mais fervor.

 

4ª Estação - Jesus se encontra com Sua mãe santíssima

 

V. Adoramus te, Christe, etc.

A quarta estação representa o lugar onde Jesus encontra Sua Divina Mãe mergulhada em profundíssima aflição.

Ah, quantos acréscimos de penas nos corações de Jesus e de Maria, quando o Filho e a Mãe se entrecruzam no caminho do Calvário! – Alma ingrata! Que fizeram contigo, meu Jesus? Vos diz a mãe aflita. – Que fizeram contigo, Minha pobre mãe? responde o benévolo Filho. Ah, renuncie ao pecado quem seja a causa de Nosso sofrimento! – Qual a vossa resposta? Rendei-vos a estas sentidas reprimendas e confessai:

Ó adorável Filho de Maria! Ó Divina Mãe de Jesus! Eis-me aqui prostrado a Vossos pés, confundido e atormentado pela dor. Confesso a minha perfídia: sou eu o infeliz que forjei com meus pecados a espada cruel que atravessou os Vossos corações. Ah, arrependo-me do fundo do coração e imploro o perdão a um e a outro. Misericórdia, ó Jesus amado, misericórdia, ó Maria, misericórdia! Protegido sob o manto da Vossa misericórdia, não cairei mais em pecado, mas meditarei dia e noite nos Vossos sofrimentos e nas Vossas dores.

Pater. Ave. Gloria etc.

 

Ó Mãe suave e terna e generosa!

Vós O encontrais num hórrido momento!

Sofreríeis u’a dor menos penosa,

Se vós compartilhásseis Seu tormento.

 

5ª Estação - Simão o Cirineu ajuda Jesus a carregar a Cruz

 

V. Adoramus te, Christe, etc.

A quinta estação representa o lugar onde o Cirineu foi obrigado a carregar aos ombros a cruz de Jesus.

Colocai-vos no lugar do Cirineu que, apegado demais às comodidades passageiras desta vida, leva com repugnância e pesar a cruz de Jesus. Espantai de uma vez por todas o torpor indolente e consolai o vosso Salvador do peso a esmagá-l’O; abraçai de boa vontade as provações que vêm das mãos de Deus, e declarai a vossa disposição em sofrê-las com paciência, rendendo graças a Ele. Dirigi ao Salvador esta oração:

Ó Jesus amável! Eu Vos agradeço as inúmeras e proveitosas ocasiões que me destes para sofrer por Vós e para me enriquecer com méritos; ó meu Deus, fazei-me ganhar os bens verdadeiros e eternos do século vindouro, suportando com paciência os aparentes males desta vida, e que chorando convosco nesta terra, seja eu considerado digno de partilhar Convosco a felicidade do Paraíso.

Pater. Ave. Gloria etc.

 

Gozo maior não há para um mortal

Que mitigar as dores de Jesus;

Nossos pecados são todo Seu mal,

Que se consola ao levarmos a cruz.

 

 

6ª Estação - A mulher piedosa enxuga a face de Jesus.

 

V. Adoramus te, Christe, etc.

A sexta estação representa Sta. Verônica a enxugar o adorável rosto de Jesus com um pano de linho.

Considerai os traços desfigurados do Senhor que se imprimiram no linho; enlevados com tal visão, esforçai-vos em reproduzir bem dentro d’alma a misteriosa imagem. Felizes sereis se levardes Jesus impresso n’alma! E ainda mais felizes, se vós morrerdes carregando este precioso penhor de salvação! Para conseguirdes graça tão excelente, dirigi-vos a Ele requerendo:

Ó meu Salvador! Eu imploro que Vos digneis imprimir em meu coração a Vossa imagem sagrada, para que eu pense em Vós sem parar, e chore sem parar as minhas iniqüidades, tendo sempre diante dos olhos a Vossa paixão dolorosa. Faço votos de alimentar-me com o pão das lágrimas até o último suspiro, e de detestar para sempre e cada vez mais os meus erros passados.

Pater. Ave. Gloria etc.

 

Com meus pecados, manchei-lhe a figura

De escarros vis, de sangue e de suor

Mas a minha alma retrata a pintura

Do Seu semblante que eu lavo com dor.

 

7ª Estação - Jesus cai pela segunda vez

 

V. Adoramus te, Christe, etc.

A sétima estação nos recorda o lugar onde Jesus caiu pela segunda vez sob o peso da cruz.

Contemplai o Divino Salvador estendido sobre a terra, aniquilado de sofrimentos, calcado aos pés dos carrascos, insultado pelo populacho, e tende em conta que foi o vosso orgulho que O derrubou, e que foi a vossa arrogância e altivez que O humilhou até o chão. Ah, baixai a vossa fronte soberba, e com sincera contrição do passado, fazei votos de, daqui por diante, pôr-se abaixo de todas as criaturas; instai pois a Jesus:

Ó meu adorável Redentor! Ainda que Vos veja deitado na poeira, reconheço a Vossa onipotência, e Vos imploro a destruição dos meus pensamentos de orgulho, de ambição e de autoestima; fazei que, a partir de agora, eu aceite de bom grado a abjeção e o desprezo, sem nunca perder de vista a lembrança dos meus pecados, que me deveriam cobrir de confusão. Por meio da humildade sincera e verdadeira, a única agradável a Vós, possa eu Vos consolar das humilhações que por mim suportastes!

Pater. Ave. Gloria etc.

 

Fraco, esgotado, grande fardo O arrasta,

Cai sob a cruz nosso Cristo esmagado;

Pobre de mim, se Sua mão régia e casta

Só removesse uma vez meu pecado.

 

 

8ª Estação - Jesus responde à compaixão que Lhe testemunham as filhas de Jerusalém.

 

V. Adoramus te, Christe, etc.

A oitava estação representa o local onde Jesus testemunhara Sua compaixão às filhas de Jerusalém, que lamentavam aqueles sofrimentos.

Considerai que tendes duas razões para chorar: deveis chorar por Jesus, que tanto sofre por vós; e deveis chorar por vós mesmos, que só sentis prazer quando O ofendeis. Todavia, diante de tanto sofrimento, vós, homens ingratos, permaneceis insensíveis! Pelo menos, ao ver Jesus testemunhar tamanha compaixão com as pobres mulheres de Jerusalém, recuperai a confiança e, impregnado de dor e arrependimento, suplicai a Ele:

Ó meu Salvador amável! Por que não se quebra o meu coração nem se derrete em lágrimas? Ó Jesus, são lágrimas o que Vos peço, lágrimas de arrependimento e de compaixão! Possa eu, com água nos olhos e dor no fundo do coração, merecer a compaixão que testemunhastes às filhas de Israel! Ah, dignai-Vos, como única consolação, lançar sobre mim, durante a minha vida, um olhar benfazejo, a fim de que eu possa Vos contemplar cheio de confiança na hora da morte.

Pater. Ave. Gloria etc.

 

Força é sofrer, e falta-me valor;

Mas a cruz paga ao crente grão salário:

Um pranto amargo aos passos do Senhor,

Estilado a caminho do Calvário.

 

9ª Estação - Jesus cai pela terceira vez

 

V. Adoramus te, Christe, etc.

A nona estação representa o lugar onde nosso bom Salvador caiu pela terceira vez sob o peso da cruz.

Quão dolorosa deve ter sido a terceira queda do Salvador! Considerai com que ódio os carrascos, semelhantes a tigres furiosos, rasgavam-Lhe as carnes e O arrastavam na poeira do chão; vede como eles vergastam e pisam este Manso Cordeiro, que não abre a boca para reclamar. Ah, pecado maldito, que maltratou assim o Filho de Deus! Não merece as vossas lágrimas, pecador, um Deus esmagado de ultrajes e opróbrios? Dizei a Ele, chorando:

Ó Deus Todo-Poderoso, que com um só dedo sustentais os céus e a terra! Quem vos derrubou de rosto no chão? Ah, eu sei: foram as minhas recaídas e as minhas iniqüidades sem conta; a cada pecado que cometo, acrescento-Lhe um novo tormento. Mas eis que estou aqui prostrado a Vossos pés, decidido em acabar com esta vida desordenada, e com lágrimas e suspiros repetirei cem, mil vezes: Daqui em diante, sem mais pecados, ó meu Deus! Não, pecado nunca mais!

Pater. Ave. Gloria etc.

 

Cheio de dor Jesus inda tropeça;

Parece aniquilá-l’O a exaustão;

Mas esta queda é cheia de promessa,

Ele a oferece em prol do meu perdão.

 

 

10ª Estação - Jesus é despojado dos vestidos e bebe o fel

 

V. Adoramus te, Christe, etc.

A décima estação representa o lugar onde Jesus foi despojado dos vestidos e bebeu o fel amargo.

Considerai todos os tomentos que Jesus suporta de uma só vez: a Sua carne colada às vestes é arrancada aos pedaços, e a Sua boca está infectada com um fel amargo e nojento. Às dores se junta a vergonha de se ver exposto naquele estado, à vista da multidão que O insulta. Eis aí como o Salvador expia a vossa imodéstia e vaidade, o vosso ciúme cheio de fel e a vossa intemperança. Como ainda não vos pungiu a compaixão? Ah, lançai-vos aos pés de Jesus despojado por amor a vós e lamentai:

Ó Jesus, vítima inocente, sofreis um horrível aniquilamento! Vós estais coberto de sangue e feridas, embebido em amargura, e eu mergulhado nos prazeres, na vaidade e nas amenidades. Ah, eu não estou no bom caminho. Forçai-me a mudar de vida: misturai amarguras aos prazeres da vida presente, para que daqui em diante eu beba com avidez as águas amargas da Vossa Paixão dolorosa, e assim mereça um dia desfrutar convosco as delícias do paraíso.

Pater. Ave. Gloria etc.

 

Quem se quer vencer, tome uma atitude:

Suporte mudo todo o sofrimento!

Jesus quis se alcançasse tal virtude

Pelas dores de Seu despojamento.

 

 

11ª Estação - Jesus é pregado à cruz

 

V. Adoramus te, Christe, etc.

A décima-primeira estação representa o lugar onde Jesus foi pregado à cruz, sob o olhar de Sua Mãe Santíssima.

Considerai as dores excessivas que o Salvador teve de suportar, quando os cravos Lhe perfuraram os pés e as mãos: rasgaram-se as carnes, deslocaram-se os ossos e contraíram-se os nervos com sofrimentos indizíveis. Como vossas entranhas não se comovem, diante de um suplício tão cruel e da lembrança das vossas iniqüidades, que são a causa destes sofrimentos? Ao menos, exprimi o vosso arrependimento, recitando entre lágrimas:

Ó Jesus, crucificado por mim, abrandai este coração endurecido, e infiltrai nele o amor e o temor. Visto que os meus pecados enterraram os cravos em Vossos sagrados membros, fazei que a penitência e a mortificação, tal como um carrasco, crucifique todas as minhas paixões desregradas, a fim de que um dia, após ter a felicidade de viver e morrer pregado à cruz convosco, o Senhor me admita, para que eu reine junto a Vós na glória celeste.

Pater. Ave. Gloria etc.

 

Cravado no patíbulo que infama,

Jesus sofre um suplício nunca ouvido;

Tu podes Lhe acalmar a angústia d’alma,

Se assentires sofrer com teu Amigo.

 

12ª Estação - Jesus morre na cruz

 

V. Adoramus te, Christe, etc.

A décima-segunda estação representa o Calvário, onde elevado na cruz Jesus expirou.

Levantai os olhos e contemplai o vosso amável Salvador suspenso entre o céu e a terra por três cravos; escutai as palavras que saem da Sua boca moribunda: Ele reza por quem o ofende, dá o paraíso a quem o pede, confia a Sua Divina Mãe a São João e encomenda a Sua alma ao Pai – depois inclina a cabeça e expira. Jesus morreu! E morreu na cruz por amor a mim! E vós, o que estais experimentando? Ah, não queirais sair desta estação sem vos comover e converter. Abraçai a cruz de Jesus e declarai a Ele:

Meu amantíssimo Jesus, eu reconheço e confesso: foram as minhas inúmeras iniquidades que executaram a Vossa pena e retiraram a Vossa vida; sim, o traidor que Vos crucificou fui eu, por isso não mereço perdão. Mas quando Vos escutei rezando por Vossos carrascos, a minha alma ficou num instante cheia de consolação! Que farei eu por Vós, que tanto fazeis por nós? Eis-me aqui disposto a tudo, sobretudo a perdoar a quem me tenha ofendido. Sim, meu Deus, por amor a Vós eu perdoo todos os meus inimigos, acolhendo-os e desejando-lhes todo o bem, para que eu tenha a esperança de escutar de Vós, no meu último momento: Hodie mecum eris in paradiso. “Ainda hoje estarás comigo no Paraíso.”

Pater. Ave. Gloria etc.

 

 

Se Jesus Cristo expira em sacrifício,

Por Ele tenho muito que sofrer;

Se é impossível segui-lo no suplício,

Ao menos no amor Dele hei de morrer.

 

 

13ª Estação - Jesus é descido da cruz

 

V. Adoramus te, Christe, etc.

A décima-terceira estação representa o lugar onde Jesus foi descido da Cruz e deposto entre os braços da Sua aflita Mãe.

Considerai a espada dolorosa que traspassou o coração desta Mãe inconsolável, tão logo Ela recebeu entre os braços o corpo inanimado do Seu Divino Filho. Ela contempla uma a uma as chagas que O cobrem, e a visão das úlceras punge o sangue das feridas do Seu coração maternal. Qual foi o mais mortal e cruel dos punhais para este brando coração? Foi o pecado, que tirou a vida do seu bem amado Filho. Por isso, detestai o maldito pecado, e misturai as vossas lágrimas com as da Virgem desolada, declarando a Ela:

Ó Rainha dos Mártires, quando serei digno de compreender Vossas dores e de compartilhá-las, trazendo-as sempre no meu coração? Ah, ó Mãe das Dores, dai-me lágrimas para chorar dia e noite os desregramentos criminosos que Vos causaram tanto sofrimento; e depois de passar a minha vida a chorar, a amar e esperar, que eu expire de dor para viver convosco por toda a eternidade.

Pater. Ave. Gloria etc.

 

Coração generoso, que na vida

Crucificou-se até o desenlace!

Ó Filho de Maria, tua guarida

Espero, inda que a morte me chamasse.

 

 

14ª Estação - Jesus é depositado na tumba

 

V. Adoramus te, Christe, etc.

A última estação representa o santo sepulcro onde foi depositado o adorável corpo de Jesus.

Considerai os gemidos inexprimíveis de São João, de Maria Madalena, das outras santas mulheres e de todos os discípulos do Salvador, logo que O encerraram na tumba; considerai sobretudo a desolação extremada do Coração de Maria, quando se viu privada do Seu Filho bem amado. Diante de tantas lágrimas e suspiros, vós experimentais pouquíssimos sentimentos de piedade e compaixão. Reanimai o vosso fervor, beijai com humildade a pedra que fecha a tumba sagrada, esforçai-vos em deixar ali depositado o vosso coração e, soltando profundos gemidos, rogai ao Salvador para que o guarde junto ao Dele:

Ó Jesus misericordioso! Que só por amor a mim quisestes percorrer o doloroso caminho do Calvário, eu Vos adoro dentro deste sepulcro em que vos encerraram, mas antes quisera eu vos amortalhar bem dentro do meu coração, a fim de ressuscitar convosco para uma vida nova e de perseverar até o final na Vossa graça. Concedei-me, rogo-Vos pelos méritos da Vossa paixão que acabei de meditar, concedei-me seja o meu último alimento, antes de expirar, a Divina Eucaristia, e sejam as minhas últimas palavras “Jesus e Maria”; confunda-se o meu último suspiro com aquele que exalastes por mim na cruz para que, animado de uma fé viva, esperança firme e caridade ardente, morra eu convosco, a fim de ser convosco admitido a reinar por séculos de séculos. Assim seja.

 

Morta pra si, enterrada pro mundo,

No corpo uma alma em vil, triste estadia;

Com Jesus goza um silêncio profundo,

E humilde espera ver a glória um dia.

 

*

*   *

 

Se se fizer a Via Sacra fora da Igreja, ao retornar a ela os fieis podem cantar algumas estrofes do Stabat Mater. Assim que a procissão chegar ao pé do altar, termina-se com a seguinte oração:

 

V. Ora pro nobis, Virgo dolorosissima,

R. Ut digni efficiamur promissionibus Christi5.

Oremus: Interveniat pro nobis, quaesumus, Domine Jesu Christe, nunc et in hora mortis nostrae apud tuam clementiam beata Virgo Maria, cujus sacratissima animam, in hora tuae passionis, doloris gladius pertransivit. Qui vivis et regnas Deus in saecula saeculorum. Amen6.

Apesar de constar em alguns livrinhos, não é necessário recitar ao final os cinco Pai-Nossos e as cinco Ave-Marias. Depois da oração precedente, o padre voltando-se aos fieis adverte que todos os que fizeram a Via Sacra com devoção lucraram as indulgências anexas a ele, exorta-os a retornar no dia em que acontecerá de novo o exercício e os despede abençoando-os com o sinal da cruz.

  1. 1. [N. da P.] “Senhor, começai pela vossa inspiração e continuai pelo vosso auxílio as nossas ações; para que todas as nossa orações e operações sempre em Vós comecem e em Vós terminem. Amém.” Venerável oração que se encontra incluída na Ladainha de Todos os Santos.
  2. 2. [N. da P.] “V. Nós vos adoramos e bendizemos, ó Cristo / R. Porque por vossa santa Cruz redimistes o mundo.”
  3. 3. [N. da P.] Indicação para rezar 1 Pai Nosso. 1 Ave-Maria. 1 Glória ao Pai.
  4. 4. [N. da P.] V. Tende misericórdia de nós, Senhor / R. Tende misericórdia de nós. / V. Que as almas dos fiéis, pela misericódia de Deus, descansem em pás. / R. Amém.
  5. 5. [N. da P.] V. Rogai por nós, Virgem dolorosíssima; R. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.
  6. 6. [N. da P.] “Ó Senhor Jesus Cristo, que perante vossa clemência possa rogar por nós, agora e na hora de nossa morte, a beatíssima Virgem Maria, cuja alma santíssima fora transpassada por uma espada de dor, na hora da vossa paixão. Vos que, sendo Deus, viveis e reinais nos séculos dos séculos. Amém.”

Olavo de Carvalho e o Catolicismo

Editorial Revista Permanência 305

Quando Olavo de Carvalho faleceu certas pessoas manifestaram de modo enfático seus sentimentos em relação ao falecido. Seus inimigos não esconderam sua maldosa felicidade, enquanto seus discípulos extrapolaram todos os limites da sensatez, clamando por “canonização”.

Uma vez baixada a poeira e acalmados os ânimos de uns e de outros, me parece necessário esclarecer alguns pontos do que se tem falado sobre o falecido, em especial sobre sua relação com o catolicismo, de modo que as orações pela salvação de sua alma, não incline a um sentimentalismo cego e equivocado os católicos que lhe tributam algum tipo de agradecimento. Não é a primeira vez na história que antigos discípulos se veem obrigados a se afastarem de um mestre por causa da verdadeira conversão, apesar de guardarem o reconhecimento de ter sido ele um instrumento provisório e natural da conversão à fé.

Um exemplo muito parecido com o de Olavo de Carvalho é o de Henri Bergson. No fim do século XIX e início do século XX, Bergson rompeu com o materialismo cientificista da época, ensinando uma filosofia espiritualista, não católica. Sua sala de aula no Collège de France, em Paris, ficava lotada de entusiastas seguidores. Muitos se converteram ao catolicismo, e não são nomes quaisquer: Charles Peguy, Ernest Psichari, Henri Massis ou Jacques Maritain, entre outros, se converteram e se afastaram do antigo professor. Como hoje, alguns deles procuraram manter relações com o antigo mestre, por motivos sentimentais, e foram criticados pelos colegas que perceberam que continuar a frequentá-lo os levariam a diminuir o brilho de sua fé católica.

Gostaria de deixar claro que a análise que segue não tem um foco subjetivo, uma crítica à pessoa Olavo de Carvalho. Nosso intuito é analisar de modo objetivo alguns aspectos do pensamento do autor. E isso por duas razões principais: a primeira, porque Olavo de Carvalho frequentou as missas na Capela São Miguel, da Permanência, durante mais de um ano, entre 1997 e 1999. A segunda razão vem do fato dele ter sido um homem público, um professor que teve influência real na formação do pensamento “conservador” atual, ou se preferirem, na formação de um pensamento “de direita”, inexistente no Brasil desde o fim do governo militar. Somos católicos e devemos rezar para que tenha morrido na graça de Deus, como também devemos considerar sua atuação como homem público diante do que ensina a doutrina de sempre da Igreja.

Que ele tenha adotado práticas de vida católica, parece certo, pelo testemunho dos seus próximos, mas isso não é suficiente para fazer dele um católico de verdade. A questão é mais profunda, e só poderia ser resolvida diante de uma clara profissão de fé católica, com a recusa do que ensinou no passado sobre as religiões e seitas, e a humilde submissão à Igreja Católica, reconhecida como detentora da verdade, da única Revelação, do único caminho de salvação.

 

Olavo de Carvalho na Permanência

Em algum momento de 1996, um dos antigos membros da Permanência procurou Olavo de Carvalho na faculdade em que ele dava aula, e pediu um autógrafo no exemplar de O Imbecil Coletivo, que fora publicado um pouco antes. Contava o nosso colaborador ter perguntado ao autor onde ele assistia à missa. Olavo teria respondido: “Eu não gosto muito de padres”. O professor ouviu essa resposta: “Acho que o senhor vai gostar do meu padre. Pode encontrá-lo neste endereço”.

Algum tempo depois, Olavo de Carvalho batia à porta da Capela São Miguel, onde assistiu missa com alguma frequência, aos domingos, até sua ida para a Romênia, cerca de um ano e meio depois.

Alguns anos antes, Olavo de Carvalho tinha participado de uma tariqa muçulmana. Sua formação religiosa girava em torno da ideia de unidade transcendente das religiões e de cursos sobre religiões comparadas, como sempre de muita erudição cultural e nenhum aprofundamento doutrinário. Conhecia a Igreja Católica por fora, como uma casca exterior. Mas nunca vivera a fé como um católico deve viver.

Parece necessário explicar melhor essa questão da religião na vida dos homens. A natureza humana nasce com uma inclinação natural a Deus, chamada de sentimento religioso. Por fazer parte da natureza humana, este sentimento está presente em todos os homens, e explica a razão de todos os homens terem certa noção de que Deus existe, e que Ele recompensa os bons e castiga os maus. As religiões pagãs nascem desse sentimento natural, quando os homens procuram prestar algum tipo de culto a Deus, e inventam cerimônias diversas, indo do culto dos antepassados ou do oferecimento de um sacrifício de animais, a ritos bizarros incluindo sacrifício do filho recém-nascido, e coisas parecidas.

Os esotéricos confundem esse sentimento religioso natural com as chamadas ideias inatas, oriundas de certa “revelação” primordial que teria sido dada a Adão e transmitida aos homens por iniciação esotérica, explicando a unidade transcendental das religiões. Vejam nesta expressão a palavra transcendental: para eles, toda religião, qualquer que seja, é uma manifestação ritual de uma ideia única, transcendente, vinda de Deus. Por isso Olavo de Carvalho orientava seus discípulos a praticarem a religião tradicional na qual teriam nascido, qualquer uma delas. Evidentemente isso contraria o dogma católico.

O mestre detém os segredos dessa “revelação” que ele ensina na sua “metafísica”. Toda doutrina religiosa passa a ser inferior à sua “metafísica”, visto que brota dela. No caso de Olavo de Carvalho, ele chegava a inverter o papel da filosofia, afirmando ser a Teologia serva da Filosofia.

Porém, a doutrina católica ensina e define como dogma de fé1:

- O homem possui em sua razão natural a capacidade de conhecer a existência de Deus.

- Isso significa que não é necessária a revelação, ou ideias inatas, para que o homem conheça a existência de Deus.

- O homem não é capaz de agradar a Deus sem a ajuda da graça sobrenatural.

- A vida sobrenatural da graça é um dom gratuito de Deus, elevação e participação do homem na vida divina, não necessária à natureza humana, mas fruto do amor infinito de Deus pelos homens.

- Só existe um meio ordinário de se receber a graça santificante, através da fé em Nosso Senhor Jesus Cristo recebida no Batismo católico, e no ensinamento da Igreja Católica, única Religião revelada por Deus para a salvação dos homens.

Indo à Capela São Miguel, Olavo manifestava uma conversão ao catolicismo? Talvez seja possível dizer que uma graça lhe fora oferecida nesse sentido. Havia algo acontecendo. Rezava, acompanhava a missa num velho missal Latim-português, porém havia empecilhos que talvez o impedissem de ir adiante num movimento de verdadeira conversão.

Olavo não conhecia a doutrina católica. Para um professor como ele, dotado de um poder de intuição muito grande, de muita erudição e de ideais filosóficos muito autônomos e independentes, voltar ao estudo do catecismo exigiria uma grandeza de alma que ele nunca conseguiu demonstrar.

Há, pois, um primeiro ponto de doutrina que seria preciso buscar no ensino mais recente de Olavo de Carvalho, para se poder dizer que ele se converteu ao Catolicismo: o que ensinou, nos últimos anos, sobre a Revelação de uma única e verdadeira Igreja? Onde Olavo de Carvalho ensinou, por aula gravada ou por escrito, sua fé na Santa Igreja, ou seja, sua submissão pacífica e amorosa ao ensinamento constante da Igreja Católica?

Por outro lado, são variados os exemplos de ensinamentos fortemente contrários ao Catolicismo, sobre os quais não parece ter havido retratações ou correções. Mesmo já tendo compreendido que a distinção entre esoterismo e exoterismo não se aplica ao catolicismo, Olavo manteve sua crença na astrologia, chegando a afirmar:

Apesar de algumas deficiências no modelo astrológico, foi ele quem estruturou a humanidade pelo menos a partir do império egípcio-babilônico, o que significa, no mínimo, cinco mil anos de história. A Astrologia é um elemento obrigatório, por isto quem não a estudou, não estudou nada, é um analfabeto, um estúpido. 2

O católico sabe que para realizar a salvação do gênero humano, prometida a Adão na porta do paraíso perdido, Deus revelou-se através dos patriarcas e profetas, nos tempos antigos, e através do seu próprio Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, em nossos dias; esta Revelação foi transmitida à única Igreja fundada por Cristo, a Igreja Católica, única detentora das quatro notas essenciais – una, santa, católica e apostólica – que definem ser ela a Religião revelada por Deus, excluindo todas as outras. E que o católico recebe no Batismo o dom gratuito da fé sobrenatural, que consiste na adesão total e completa da sua alma à doutrina do Evangelho e ao Magistério da Igreja. 3

Olavo de Carvalho se afastou da Permanência quando foi para a Romênia. Chegou um dia na Capela São Miguel e perguntou se poderiam indicar algum amigo em Paris, que o pudesse abrigar por uma semana. Estava de mudança para a Romênia porque fora alertado por alguns militares que o MST o jurara de morte. Hoje compreendo, diante do que acontecerá pela frente, que aquele motivo talvez não tenha sido o verdadeiro. Olavo vendeu tudo o que tinha no Brasil e partiu afirmando que não voltaria mais.

O que aconteceu no tempo em que esteve fora não podemos saber ao certo. No seu retorno, não voltou mais à Capela São Miguel, não entrou em contato, e alguns dos seus alunos ficaram assustados, pois Olavo passara a exigir deles uma atitude de “discípulos” e não mais de alunos. Exigia deles, entre outras coisas, um engajamento com suas ideias. Estávamos no início de 2000, e Olavo deu uma entrevista à Revista República em que afirmava:

Revista República - Qual sua religião?
Olavo - Eu sou ecumenista radical:
católico-protestante-islâmico-judaico-budista-hinduísta. Eu acredito que
essas religiões têm todas um núcleo de verdade metafísica que é eterno,
revelado, que o ser humano não poderia ter inventado. Acredito que não se
inventam religiões e que elas não vão poder se dissipar.
4

Devemos anotar essa característica da sua vida: frequentou diversas seitas, navegou de religião em religião, jamais declarando publicamente ter renunciado a qualquer uma delas. Como ele mesmo afirma na entrevista ao site Porto do Céu, ele deixa uma seita e passa a outra não porque reconheceu seus erros, mas porque superou a sua “sabedoria”.

 

Os métodos do Olavo

Há certas atitudes de Olavo de Carvalho que se repetem em diversas ocasiões e que fogem da moral católica. Muitas vezes elas escondem a sua verdadeira intenção por detrás de uma fachada, outras vezes são simplesmente rasteiras e ignóbeis, feitas para chocar e avaliar sua influência. Em todas elas Olavo se posicionava como um homem despreocupado com qualquer regra moral, com qualquer ensinamento católico. Ou, se preferirem, Olavo de Carvalho defendia uma filosofia só sua, e agia segundo uma moral também inventada por ele mesmo. Era considerado bem aquilo que Olavo determinava ser o bem; era verdade aquilo que Olavo dissera ser verdade. A fé católica ficava a léguas de distância.

- A manipulação da verdade – Olavo era capaz de silenciar sobre algum ponto do seu discurso, por alguma razão de conveniência, e relançar esse mesmo ponto, tempos depois. Isso aconteceu no caso de um artigo em que afirmava que os quatro bispos da Fraternidade São Pio X tinham sido levados ao seminário pelo indiano Rama Coomaraswamy. Imaginem o impacto que isso podia causar no mundo do catolicismo tradicional. Mas não era verdade. Publicamos, então, um artigo que nossos leitores podem verificar no link em nota, rebatendo a falsa afirmação do Olavo5. Este enfiou a viola no saco, fez grandes declarações na internet de que Julio Fleichman era aquele grande católico que ele conhecera e, dois anos depois, relançou a mesma ideia, como se fosse a pura verdade.

- A eliminação dos intermediários – Olavo formava seus discípulos na desconfiança de autoridades naturais, pais, sacerdotes ou professores. Aproveitava-se da situação de decadência de instituições como a família, as universidades ou a Igreja, para tornar-se ele próprio o assunto único nas conversas dos seus alunos, sua única referência. Na relação com a Igreja, seus alunos ficavam impedidos de conhecer o simples catecismo ou a verdadeira Tradição católica, e passavam a tratar com os padres como meros administradores de sacramentos. Infelizmente essa atitude é percebida pelos padres da Tradição em alunos ou ex-alunos de Olavo que se converteram e se aproximaram dos Priorados. São marcados pela autonomia do pensamento e pela soberba.

- A “fritura” dos adversários. Muito característico dos métodos de Olavo de Carvalho era o modo como “fritava” qualquer um que ousasse levantar uma opinião contrária ou uma crítica a alguma afirmação sua. O “professor” lançava publicamente contra sua vítima um ataque demolidor, usando palavras duras, xingamentos grosseiros e descabidos, que só deixava uma opção para o sujeito: desaparecer daquele curso, daquele meio. Com a maior tranquilidade, Olavo deixava de lado o mérito da questão e caía com força sobre a pessoa que ousara levantar uma opinião contrária à sua. Virtudes como humildade, caridade, e atitudes oriundas do Evangelho não eram sequer cogitadas.

Dentro desse contexto cabe assinalar a calúnia, frequentemente usada como instrumento de combate contra opositores do seu pensamento. Os seus alunos são testemunhas disso.

- Um dos aspectos mais importantes dos métodos com que defendia suas ideias e sua autoridade de mestre é o fato de escapar propositadamente de qualquer definição mais precisa do seu pensamento. Hoje guénoniano, amanhã contra René Guénon; hoje astrólogo, amanhã cristão; hoje “ultra-ecumenista”, amanhã rezando o Terço. Olavo formou uma espécie de biblioteca de onde extraía argumentos para rebater qualquer crítica, fosse ela num sentido ou em outro.

Mas a fé católica não tem abertura para qualquer tipo de duplicidade. “Mas seja o vosso falar: Sim, sim; não, não; porque tudo o que daqui passa, procede do mal” 6. Isso vem do fato de que, uma vez a alma tendo recebido de Deus o dom sobrenatural da Fé, ela realiza uma adesão do seu conhecimento e da sua vontade à totalidade da Revelação, de tudo que Deus disse de si mesmo através de certos homens, e do que Ele entregou como Depósito da verdade à sua Igreja, fundada no Sangue de Jesus Cristo. E o motivo dessa entrega, dessa submissão, não vem de qualquer evidência racional, iniciática ou científica, do objeto material da fé, mas sim da autoridade de Deus se revelando. É verdade porque Deus disse que é assim. E se eu creio porque Deus disse, então não posso negar nada, não posso acatar um dogma e negar outro.

É justamente este tipo de adesão que não encontramos nos ensinamentos, mesmo mais recentes de Olavo de Carvalho.

Há vídeos dele falando sobre o amor de Deus. Apesar de algumas passagens corresponderem à doutrina católica, outras se afastam do dogma da fé. Quando Olavo fala da Confissão, mostra não compreender a essência deste Sacramento, e orienta seus alunos num sentido diferente do que ensina a Igreja, causando o descrédito do aluno no ensinamento constante da Esposa de Cristo. Em dado momento, Olavo afirma que no caso da Confissão, prefere seguir o pensamento do Pe. Pio, quando este diz: “Confia em Deus e deixa o resto por Sua conta”. Uma citação como essa, ou quando cita Santo Agostinho, dá ao aluno a impressão de que Olavo é perfeitamente católico, mas ele não percebe que a citação é truncada. O padre Pio afirmava esse tipo de conselho, mas nunca para induzir seus penitentes a não fazerem um exame de consciência detalhado, como pretende Olavo de Carvalho.

Há uma espécie de falsa mística de fundo modernista, imanentista. Ensina Olavo certo existencialismo, vida da alma marcada pela “experiência do eu”, em que a alma se encontra “dentro de Deus”, só e isolada, isenta de qualquer juízo de terceiros sobre seus atos. É uma situação muito cômoda, sem dúvida, mas que conduz seus discípulos a desprezarem o ensinamento católico sobre a vida da alma, sobre a oração, sobre a realidade do pecado e a necessidade da confissão completa dos seus pecados.

Os católicos que guardam um laço afetivo com Olavo de Carvalho devem ter a coragem de olhar para o seu ensinamento de modo reto, sem sentimentalismos. Devem escolher a segurança do dogma católico contra as ondulações e variações de uma gnose herética. Na sua posição de professor, de pensador, de filósofo, Olavo de Carvalho deve prestar mais contas a Deus sobre sua fé e sua conduta do que um simples homem. Se foi como católico que ele se apresentou ao Juízo de Deus, rezamos para que tenha pedido perdão dos seus pecados e dos erros que ensinou por tantos anos.

 

  1. 1. O Concílio Vaticano I define estes pontos como dogma de fé, na sua Constituição Dogmática sobre a Fé Católica, de 1870.
  2. 2. Entrevista a Roberta Tórtora, site de astrologia Porto do Céu, Recife, junho 2000.
  3. 3. Cf. São Paulo, Epístola aos Hebreus.
  4. 4. Revista República, fevereiro de 2000.
  5. 5. http://permanencia.org.br/drupal/node/1912
  6. 6. S. Mateus, 5, 37.
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