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Por que Cristo quis nascer de uma mulher?

Os Padres da Igreja se fizeram essa pergunta por muito tempo: por que Deus escolheu encarnar-se, nascer de uma mulher? Cristo, o novo Adão, poderia, de fato, ter sido criado como um adulto, como o primeiro homem. Essa pergunta nos dá ocasião para meditar e contemplar o plano que Deus escolheu ao querer a Virgem Maria como sua mãe.

As razões são fáceis de descobrir. As profecias sobre o Messias anunciaram que Ele nasceria de uma mulher, bem como o protoevangelho (Gn 3,15), que anuncia a inimizade entre o Messias e Sua Mãe com a serpente, isto é, o demônio. Essas profecias deviam ser cumpridas.

O fato de que o poder divino seria melhor demonstrado se o Salvador nascesse de uma mulher é outra razão: Deus triunfa através de uma criatura, o que manifesta Seu soberano poder, capaz de usar instrumentos frágeis para as maiores obras.

Uma terceira razão é que, entre as criaturas, apenas uma mulher poderia se tornar a Mãe de Deus. A natureza humana permite ao Filho de Deus encontrar uma mulher, uma pessoa que Lhe dará aquela natureza que será oferecida em holocausto para a glória de Deus e a salvação da humanidade.

Os Padres e teólogos descobriram outras razões maravilhosas.

Uma razão muito importante é atestar a verdade da Encarnação. Muitos hereges, como os docetistas, alegaram que Jesus Cristo não era homem, que Ele apenas “atravessou” pela Virgem Maria. A afirmação da maternidade divina refuta essas fantasias.

Além disso, a natureza humana é corporal e espiritual e envolve o fato de que o corpo procede da maternidade: contrariamente às alegações dos hereges mencionados acima, possuir uma natureza verdadeiramente humana não diminui a dignidade do Verbo.

De modo semelhante, a vida familiar é parte da nossa natureza: toda criança nasce numa família. Não há imperfeições nessa situação. É apropriado, portanto, que o Verbo Encarnado assuma uma vida familiar.

Essa vida familiar gerou a oportunidade do Verbo Encarnado servir de modelo de piedade filial.

Santo Agostinho deu outra boa razão: a humanidade é honrada em um representante masculino, um homem que é Deus, e em um representante feminino, uma mulher revestida da dignidade de Mãe de Deus.

Outra boa razão diz respeito ao casamento místico da humanidade com o Verbo: o Fiat de Maria foi dado em nome de toda a humanidade.

Quanto à salvação da humanidade, o fato de que o Verbo Encarnado Se tornou homem, descendente de Adão de acordo com a carne, nascido de mulher, colocou-O em posição de mediador: Ele é aceito pelas duas partes que Ele conecta, Céu e terra, Deus e os homens.

Finalmente, para que a expiação do Messias possa ser aceita por Deus como advindo dos pecadores que O ofenderam, era necessário que Ele pudesse estar com os pecadores: é isso que Isaías e São Paulo dizem. Não que Ele seja um pecador, mas em razão de sua natureza humana e de sua origem em Adão.

É claro que todas essas razões não nos fornecem a resposta à questão indagada. Mas elas a explicam e ilustram, e permitem-nos adentrar os segredos de Deus sobre Seu Filho encarnado e Sua mãe.

Introdução ao décimo sétimo domingo de Pentecostes

“Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Evangelho)

 

Paramentos verdes

 

A história de Tobias que se lê por esta altura no Ofício divino coincide frequentemente com este domingo. Julgamos, pois, conveniente estuda-la para estabelecer, conforme o nosso plano, a íntima união que existe e que muitas vezes não se nota entre o Breviário e o Missal.

Tobias terá vivido no tempo de Salmanasar pelos fins do século VIII antes de Cristo, ao tempo das deportações dos israelitas do Norte para a Síria. Foi homem pobre, observava todas as coisas conforme a Lei de Deus. Porém, depois que chegou à idade varonil casou-se com Ana, mulher da sua tribo, e teve dela um filho, a quem deu o seu nome e ensinou desde a infância a temer a Deus e a abster-se do pecado. Levado cativo para Nínive, Tobias não esqueceu o nome do Senhor e visitando os seus irmãos de exílio e de raça, dava-lhes salutares conselhos e distribuía com eles do seu pouco.

Dava de comer aos famintos, vestia os nus e sepultava com paternal solicitude os que morriam enfermos ou ao cutelo do tirano. “E Deus para acrescentar a sua coroa e dar aos homens um nobre exemplo de paciência e fidelidade, quis que ele cegasse já no fim dos seus dias”. E continua a Escritura: “tendo temido o Senhor desde a infância e andado sempre na sua Lei, não se contristou nem se revoltou contra Deus por causa da chaga com que o feriu, mas ficou imóvel no temor do Senhor, dando graças a Deus todos os dias da sua vida”

Somos filhos de santos, dizia, e esperamos a vida que Deus prometeu aos que põem N’Ele a sua esperança. E como a esposa o insultasse, Tobias gemeu dentro da sua alma e orou ao Senhor quase pelas palavras do Intróito de hoje: “Senhor, Vós sois justo e todos os vossos juízos são retos. Tratai o vosso servo segundo a vossa misericórdia”. Depois, voltando-se para o seu filho: “Meu filho, guarda no teu coração o nome do Senhor e foge de consentires no pecado. Dá esmola do que tens e não desvies a tua face do que tem fome. Faz todo o bem que puderes. O que não queres que te façam, livra-te de o fazeres a alguém”. Em resumo, o amor de Deus e do próximo, na sua realização magnífica, tal como a Epístola e o Evangelho de hoje no-lo aconselham. Amarás ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu espírito e ao próximo como a ti mesmo (Evangelho). Praticai em tudo a humildade, a mansidão e a paciência. Sofrei-vos mutuamente e sede solícitos em vos conservar unidos nos vínculos da paz. Praticando estes sapientíssimos conselhos poderemos exclamar um dia com o velho Tobias ao recobrar a vista do corpo: “Ó Jerusalém, tu hás de brilhar como os astros e todas as nações virão adorar dentro dos teus muros o Deus de Israel. As tuas praças serão pavimentadas de pedras preciosas e nas tuas ruas ressoará para sempre o Aleluia eterno” Assim é a Jerusalém celeste e o reino de Deus na Terra, a Igreja Católica, Apostólica, Romana. “Quem a abençoar será bendito”. Todos são chamados a formar nela um só corpo, animado dum só espírito, que é o mesmo Espírito Santo que lhe foi infundido no dia de Pentecostes. “Todos temos a mesma Esperança, a mesma Fé e o mesmo Batismo”

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

A denúncia de Dom Lefebvre

A prova dos nove

Não se pode negar honestamente – a menos que se queira ir contra as evidências – que o Concílio Vaticano II retomou em seus documentos principais, com maior ou menor mimetismo, grande parte das posições seja dos primeiros modernistas, seja de seus sucessores da nouvelle théologie. 

Em apoio ao que acabamos de dizer, parece-nos conveniente expor aqui algumas declarações significativas sobre a matéria, feitas por representantes qualificados da “nova teologia” hoje triunfante, ou ainda por personalidades da esfera maçônica e comunista.

N o verão de 1976, por exemplo, o L´Osservatore Romano (quotidiano oficial da Santa Sé) dedicou a sua famosa “terceira página” a um artigo celebrando o modernista Tommaso Gallarati-Scotti, no qual o quotidiano reconhecia:

“Nos últimos anos, uma grande consolação lhe veio [a Gallarati-Scotti – n. d. r] do Concílio Vaticano II, porque sentiu que as amarguras experimentadas em sua juventude [por causa da condenação do modernismo – n. d. r.] não foram sofridas em vão: a Igreja avançava por um caminho áspero e difícil, mas no qual muitas coisas, outrora esperadas, se tornavam realidade viva.”1

Ora, se o Vaticano II representou uma ‘consolação’ para o modernista impenitente Tommaso Gallarati-Scotti e se o L´Osservatore Romano pôde tranquilamente elogia-lo no período pós-conciliar, fica claro qual julgamento fazer – ao menos para aqueles que não procuram se cegar voluntariamente – acerca de um Concílio que transformou em “realidades vivas” as posições modernistas; e é fácil compreender quem manda hoje na Igreja.

Por seu lado, o dominicano subversivo Yves Congar (logo nomeado cardeal, evidentemente pelos “méritos” adquiridos) exultava afirmando que, com o Vaticano II, “a Igreja fez sua pacífica revolução de outubro.”2

Edward Schillebeeckx o.p., enfim, era more solito ainda mais explícito:

“...Vaticano II foi uma espécie de confirmação do que tinham feito os teólogos [neo-modernistas, n.d.r] antes do Concílio: Rahner, Chenu, Congar e outros; [...] não foi de modo algum o ponto de partida de uma nova teologia, mas somente o selo do que certos teólogos tinham feito antes do Concílio; teólogos que tinham sido condenados, afastados do ensino, exilados, foram os responsáveis pela teologia que triunfou no Concílio. [...] O Concílio foi um compromisso. Por um lado, foi um Concílio liberal, que consagrou os novos valores modernos da democracia, da tolerância, da liberdade. Todas as grandes idéias da revolução americana e francesa, combatidas durante gerações pelos papas, bem como todos os valores democráticos foram aceitos pelo Concílio. Por outro lado, o concílio não conseguiu dar uma resposta ao fermento de revolta que já se anunciava. [...] Ele aceitou nossa teologia, nos confirmando em nossa pesquisa teológica. Nós nos sentimos livres como teólogos e liberados das suspeitas, do espírito de inquisição e de condenação. O espírito de Humani Generis (1950) pesava sobre nós, essa encíclica de Pio XII que condenou Le Saulchoir e la Fourvière: as escolas dos dominicanos e dos jesuítas [Congar, Chenu, Lubac e amigos – n. d. r.]. Nós éramos todos suspeitos antes do Concílio e o Concílio nos liberou.”3

Quando se fala em clareza...

“A extraordinária abertura do Concílio – escreveu o número especial de Propaganda do Partido Comunista italiano por ocasião de seu congresso de 1964 – justamente comparado aos Estados Gerais de 1789, mostrou ao mundo inteiro que a velha Bastilha político-religiosa fora abalada em suas fundações. [...] Apareceu uma possibilidade, até então imprevista, de nos aproximarmos, através de manobras adaptadas, de nossa vitória final.”4

Yves Marsaudon, alto dignatário maçom também entoou seu canto de vitória pelo triunfo dos “valores” maçônicos acolhidos pelo Vaticano II:

“Se existisse ainda algumas ilhotas em comunhão de pensamento com a época da Inquisição, elas seriam afogadas pela maré ascendente do ecumenismo e do liberalismo, cuja consequência das mais tangíveis será a inversão das barreiras espirituais que ainda dividem o mundo. Desejamos do fundo do coração o sucesso da Revolução de João XXIII5

E para os que não estão completamente convencidos, eis o final: “Os católicos não devem esquecer de que todos os caminhos [isto é, todas as religiões – n. d. r.] conduzem a Deus, e eles devem se manter nessa corajosa noção de liberdade de pensamento que – a este respeito pode-se realmente falar de revolução, partindo de nossas lojas maçônicas – se estendeu magnificamente acima da cúpula de São Pedro”; depois do Vaticano II, naturalmente, e é por isso que Marsaudon pôde concluir, exultante: “todo maçom digno do nome [...] não fará outra coisa senão se alegrar sem nenhuma restrição dos resultados irreversíveis do Concílio.”6

“Sem nenhuma restrição”. Está claro o suficiente?

Os partidários da nova “Igreja conciliar” e do “irreversível caminho ecumênico” estão em boa companhia.

 

Adesão da “Igreja Conciliar” à Maçonaria

Fica claro o porquê de, por ocasião da morte de Paulo VI, o Grão Mestre do Grande Oriente italiano (e “bispo” da esotérica “Igreja gnóstica” na Itália), Giordano Gamberini, ter podido escrever a guisa de elogio fúnebre do papa: “Para nós, trata-se da morte daquele que derrubou a condenação de Clemente XII e de seus sucessores. É, pois, a primeira vez – na história da maçonaria moderna – que morre o Chefe da maior religião ocidental sem que esteja em estado de hostilidade com os maçons. [...] pela primeira vez na história, os maçons podem prestar homenagem no túmulo do papa, sem ambiguidade nem contradição.”7

De resto, a abertura feita pelo Vaticano II aos “valores” do iluminismo e a “dois séculos de cultura liberal” (Cardeal Ratzinger), com a política de mãos estendidas para a maçonaria, que é a guardiã e a representante mais importante desses valores, havia sido programada bem antes. É o que nos diz o célebre religioso Pe. Rosario Esposito (abertamente pró-maçom) que numa carta enviada ao Grão Mestre Gamberini, e publicada em La Rivista Massonica, escreveu: “Caro Gamberini, apreciei, mesmo na sua frieza cartesiana, o seu editorial sobre a morte do papa [Paulo VI – n. d. r.]. Julgo que ele teria gostado, pois nunca teve medo de nada. [...] O dominicano Pe. Félix Morlion, muito conhecido como fundador da Universidade Internacional “Pro Deo” [...], me relatou um dia ter conversado com o então Monsenhor Montini acerca das relações desastrosas entre a Igreja e a maçonaria. Montini lhe teria dito: “Não passará uma geração e, entre as duas sociedades, a paz se estabelecerá”. O episódio já tinha sido narrado, sem citar o nome do pontífice, em um artigo publicado em “Vie Pastorale”, de dezembro de 1974. Agora que o pontífice morreu, não há razão de se manter o segredo. E a previsão – ou antes, a decisão – cumpriu-se plenamente...”8

A “paz”, como vimos, efetivamente ocorreu, mas com a rendição incondicional da Igreja católica, em nome da qual, após a obra de demolição iniciada por João XXIII, Paulo VI e os homens do Vaticano II, abusando de sua autoridade, aceitaram e impuseram aos fiéis o liberalismo e o laicismo de Estado (Dignitatis Humanae), o falso ecumenismo (Lumen Gentium I, 8; Unitatis Redintegratio; Nostra Aetate) e a mentalidade democrática antropocêntrica (Lumen Gentium III, 22) que sempre fora o estandarte da ideologia laico-maçônica.

O estandarte das filhas da viúva, como gostam de se definir os maçons, foi içado triunfalmente sobre a cúpula de São Pedro. O vírus da AIDS iluminista e neo-modernista fora inoculado nas veias do mundo católico, e todas as suas defesas imunitárias iriam desaparecer, uma após a outra.

 

A denúncia de Dom Marcel Lefebvre

No dia 20 de dezembro de 1966, numa carta-resposta ao Cardeal Ottaviani, Prefeito do Santo Ofício, que, alarmado pela súbita e universal explosão da crise no seio do clero e entre os fiéis, enviara um questionário a esse respeito aos bispos do mundo inteiro, Dom Marcel Lefebvre apontou abertamente a causa, a saber: as “novidades” do Concílio Vaticano II.

Reproduzimos aqui longos trechos desta carta:

“[...] Creio que é meu dever vos expor de modo claro – escrevia o prelado francês – o resultado das minhas conversas com muitos bispos, padres e leigos da Europa e da África, e das minhas leituras em países de língua inglesa e francesa.

Seguiria com gosto a ordem das verdades anunciadas na vossa carta, mas ouso dizer que o mal presente me parece bem mais grave do que a negação ou o questionamento de uma verdade da nossa fé. Ele se manifesta atualmente por meio de uma confusão extrema das ideias, na desagregação das instituições da Igreja, instituições religiosas, seminários, escolas católicas, em suma, daquilo que representou o permanente sustento da Igreja, mas isso não é senão a continuação lógica das heresias e dos erros que minam a Igreja há muitos séculos, em particular após o liberalismo do século passado, que buscou a todo preço conciliar a Igreja com as ideias que desaguaram na Revolução.

A Igreja avançou na medida em que se opôs a essas ideias, que vão contra a sã filosofia e a teologia; ao contrário, cada comprometimento com o pensamento subversivo provocou um alinhamento da Igreja com o direito comum e o risco de torná-la escrava das sociedades civis.

Por outro lado, cada vez que grupos católicos se deixaram levar por esses mitos, os papas corajosamente lhes reconduziram ao bom caminho, lhes esclareceram e, quando preciso, lhes condenaram. O liberalismo católico foi condenado por Pio IX, o sillon por São Pio X, o comunismo por Pio XI e o neomodernismo por Pio XII. Graças a essa vigilância admirável, a Igreja se consolidou e se desenvolveu. As conversões de pagãos e de protestantes eram numerosas; a heresia estava em completa derrota, os Estados aceitaram a legislação católica.

Mas, certos grupos de eclesiásticos, impregnados dessas falsas doutrinas, lograram divulgá-las na Ação Católica e nos seminários, graças a uma certa indulgência dos bispos e a uma tolerância de certos Dicastérios romanos. Não passou muito tempo e os bispos foram escolhidos do meio desses padres. E aqui entramos na questão do Concílio. As comissões preparatórias dedicaram-se a proclamar a verdade em face dos erros, para fazer com que desaparecessem da Igreja. Isso teria sido o fim do protestantismo e o início de uma nova era fecunda para a Igreja. Ao contrário, essa preparação foi odiosamente rejeitada para dar lugar à maior tragédia que a Igreja jamais sucumbiu. Assistimos ao matrimônio da Igreja com as ideias liberais. Negaríamos as evidências se fechássemos os olhos e não afirmássemos corajosamente que o Concílio permitiu que aqueles que professam erros e tendências condenadas pelos papas que citamos, crer legitimamente que as suas doutrinas agora são aprovadas. [...] Em regra quase geral, quando o Concílio inovou, enfraqueceu a certeza das verdades ensinadas pelo Magistério autêntico da Igreja como pertencentes ao tesouro da Tradição. Quer se trate da transmissão da jurisdição dos bispos, das duas fontes da Revelação, da inspiração das Escrituras, da necessidade da graça para a justificação, da necessidade do batismo católico, da vida da graça nos heréticos, cismáticos e pagãos, dos fins do matrimônio, da liberdade religiosa, dos novíssimos etc., sobre esses pontos fundamentais, a doutrina tradicional era clara e ensinada de forma unânime nas universidades católicas. Ao contrário, numerosos textos do Concílio agora permitem que se duvide dessas verdades.

As consequências foram rapidamente tiradas e aplicadas na vida da Igreja.

- Dúvidas sobre a necessidade da Igreja e dos sacramentos provocaram o desaparecimento das vocações sacerdotais.

- Dúvidas sobre a necessidade e a natureza da conversão de todas as almas estão em vias de provocar o desaparecimento das vocações religiosas, a ruína da espiritualidade tradicional nos noviciados, a inutilidade das missões.

- Dúvidas sobre a legitimidade da autoridade e a exigência da obediência, causadas pela exaltação da dignidade humana, da autonomia da consciência, da liberdade, estão em vias de atingir todas as sociedades, a começar pela Igreja, as sociedades religiosas, as dioceses, a sociedade civil, a família. O orgulho tem por consequência todas as concupiscências dos olhos e da carne. Isso talvez seja uma das constatações mais assustadoras de nossa época: ver a que decadência moral chegaram a maior parte das publicações católicas. Nelas se fala sem nenhum pudor da sexualidade, da limitação da natalidade por todos os meios, da legitimidade do divórcio, da educação mista, do flerte como meios necessários para a educação católica, questiona-se o celibato sacerdotal etc.

- Dúvidas sobre a necessidade da graça para a salvação estão em vias de provocar o desprezo do batismo, agora adiado, o abandono do sacramento da penitência. De resto, trata-se sobretudo de um comportamento dos padres, e não dos fiéis. Ocorre o mesmo com respeito à Presença Real: são os padres que agem como se não cressem mais, escondendo o tabernáculo, suprimindo todos os sinais de respeito relacionados ao Santíssimo Sacramento e todas as cerimônias em sua honra.

- Dúvidas sobre a necessidade da Igreja, fonte única de salvação, sobre a Igreja católica, única religião verdadeira, decorrentes das declarações sobre o ecumenismo e a liberdade religiosa, destruindo a autoridade do Magistério da Igreja. Roma, com efeito, não é mais a única e necessária “Magistra Veritatis” (Mestra da Verdade)

É preciso concluir, portanto, constrangidos pela evidência dos fatos, que o Concílio favoreceu de modo inconcebível, a difusão dos erros liberais. A fé, a moral, a disciplina foram atingidos nos seus fundamentos, segundo as previsões de todos os papas. A destruição da Igreja avança a passos largos.

Por ter concedido uma autoridade exagerada às conferências episcopais, o Soberano Pontífice tornou-se impotente. Quantos exemplos dolorosos em um único ano!

Contudo, o sucessor de Pedro, e ele apenas, pode salvar a Igreja. Que o Santo Padre se cerque de valorosos defensores da fé, que os designe às dioceses mais importantes. Que se digne a proclamar, por meio de documentos importantes, a verdade, para combater o erro sem temor das contradições, sem medo de cismas, sem receio de pôr em questão as disposições pastorais do Concílio.”

Esse diagnóstico preciso e doloroso de Dom Lefebvre – inútil recordá-lo – caiu no vazio mais absoluto.

  1. 1. Osservatore Romano, 7 de junho de 1976.
  2. 2. Yves Congar, Le Concilie jour a jour. Paris, pág. 215.
  3. 3. Entrevista em Jesus, maio de 1993.
  4. 4. Citado in Mons. R. Graber, Saint Athanase et l´Église de notre temps, ed. Civiltà, Brescia 1974, pág. 73.
  5. 5. Y. Marsaudon, L´oecumenisme vu par um franc-maçon de tradition, ed. Vitiano, Paris, 1964.
  6. 6. Ibidem
  7. 7. La Rivista Massonica, julho, 1978, n. 5, p. 290.
  8. 8. La Rivista Massonica, agosto de 1978, n. 6, pp. 371-372.

A independência do Brasil

Gustavo Corção

A independência das nações não pode ser definida nem medida em termos de autossuficiência econômica. Sendo uma categoria antes de tudo política, e portanto moral, a independência de uma nação consiste na sua autonomia política como nação, na consciência nacional dessa autonomia, e, para ser efetiva, no reconhecimento pacífico dessa autonomia pelas outras nações, e principalmente por aquelas a que anteriormente estava vinculada essa nação.

No vocabulário da moderna civilização, marcada pelo funesto princípio da vital inimizade entre os homens, de Hobbes a Marx, essa autonomia das nações é enfaticamente chamada de soberania. Este termo vem carregado de uma espécie de macroegoísmo, que é a característica principal da civilização nascida do humanismo renascentista e protestante, que já anunciava, há quatro séculos, a revolta idolátrica da anti-Igreja que hoje adora um bizarro bonzo chamado Homem Moderno.

Por paradoxo, essa mesma filosofia política que exalta as “soberanias” nacionais, a partir de uma “descoberta do Homem”, obscurece a lei natural que pede o concurso e a convergência de todas as nações no bem comum mundial.

E a partir dessas considerações cabe a pergunta: será sempre um bem, para a própria nação e para o mundo, a sua independência? A essa pergunta responderemos tranquilamente contra toda a onda desencadeada pelas esquerdas e concentradas no vácuo chamado ONU. A independência, como processo de consciência e afirmação de maioridade, pede toda uma constelação de condições, e só se reduz a um lema de brutal simplificação nos momentos históricos marcados pela estupidificação.

Parece-me claro que, para a mais bela manifestação da grande aventura humana neste mundo, Deus quer a diferenciação de nações, como quer a variedade de rosas e de pássaros. Nessa variedade, cada grupo nacional terá uma missão, uma vocação, um papel especial, um especial timbre da mesma grande voz. Mas eu creio que há nações que indubitavelmente se constituem para esse testemunho do homem, e para esse louvor de Deus, enquanto outras há que nasceram ao acaso, e ao acaso dos ventos se desfizeram. O frenesi anticolonialista é indubitavelmente uma das muitas asneiras de nosso bravo século; mas o reconhecimento do valor e do papel transcendente das nações autônomas é lema da mais sábia filosofia.

No caso do Brasil parece-me transluminosamente clara a glória de sua independência, e a mim me parece mais clara essa evidência por duas razões principais, uma que está na origem histórica, cujos 150 anos agora festejamos, e outra que está no desenrolar da nossa história, e principalmente na atualíssima proclamação que vale por uma confirmação profunda de nossa verdadeira independência.

A primeira razão reside na feição singularmente pacífica e continuadora, que deu à nossa maioridade um caráter único no continente. Devo declarar, para desfazer qualquer equívoco, que não pertenço à família espiritual dos que se molestam por esse caráter de continuidade luso-brasileira de nossa independência, e muito menos dos que se entusiasmam com as influência do iluminismo e do revolucionarismo produzidos pelo século XVIII, que, para meus parentes espirituais, foi o menor dos séculos, a despeito dos seus “filósofos”, enciclopedistas e revolucionários; ou foi o mais chato dos séculos precisamente por causa desses “filósofos” e de todos os pedantíssimos iluminados. Não me aquece o sangue a ideia de ter sido Pedro I pressionado pelos que daqueles iluminismos se inspiravam; antes o aquece a ideia de descendermos de Nuno Álvares Pereira.

É digno de nota o fato de terem sido nobremente ponderadas e pacíficas as independências dos dois grandes países americanos. Se é verdade que os norte-americanos tinham queixas sérias da metrópole, não é menos verdade que souberam exprimir sua Declaração de Independência nos mais sóbrios e serenos termos: “Quando, no curso dos acontecimentos humanos, sente-se um povo compelido a dissolver os laços políticos  que o ligavam a outro povo, e a assumir, entre as várias nações do mundo, uma independente e igualada situação, à qual tem direito pelas leis da natureza e pela lei de Deus, um decente respeito pela opinião de toda a humanidade exige que esse povo declare as causas que o compelem à independência.”

A independência do Brasil, por suas razões profundas e a despeito de todas as intrigas com que se tecem as histórias superficiais dos povos, foi a transmissão de um legado, e só merece ser hoje comemorada festivamente se esse legado foi dignamente cumprido. Ora, é aqui que cabe inserir a segunda razão que concorre para nos rejubilarmos especialmente nesta Semana da Pátria de 1972

***

Hoje o Brasil, graças ao movimento de 64, emancipou-se do mais cruel e estúpido imperialismo: o da ideologia revolucionária que, no mundo inteiro, inebria os “intelectuais” e envenena as fontes de informação. Sim, o que está poluído – como gritou o doutor Thomas Stockmann, no “Inimigo do Povo” de Ibsen – não é o ar que respiramos, nem são as fontes d´água que bebemos, é antes a trama de informações e o sistema de comunicações da civilização em agonia. E dentro deste envoltório o Brasil deu ao mundo inteiro uma lição de real independência. Resistindo à mais volumosa e eficiente cadeia de calúnias e pressões, o Brasil de hoje repeliu os adversários de sua vocação e proclamou, ou melhor, confirmou gloriosamente seus cento e cinquenta anos de independência. O Brasil será um baluarte dos valores cristãos, ou não será o Brasil. Rezemos a Deus pedindo que nossos governantes, a tempo e contratempo, e a despeito das dificuldades criadas por alguns bispos e arcebispos, persevere na defesa dos valores humanos e divinos, e corajosamente mantenha e amplie sua independência.

(O Globo, 7/9/72)

"Acaso eram eles mais pecadores do que vós?"

-- E logo nas vésperas de Natal! Murmurou a meu lado alguém. O jornal escancarava a notícia: TERREMOTO EM MANÁGUA. E os mortos e feridos já empilhados em cifras, amortalhados para as estatísticas. Na família reunida para a noite feliz houve um silêncio e passou um frêmito, como na história da Morte da Máscara Vermelha, de Edgard Poe. Cada um de nós sentia a presença da Intrusa, que não fora convidada, e que não era da família porque família se define por casamentos e nascimentos, e não por falecimentos. A Intrusa, que rejeitamos com o instinto e com a Fé, estava ali a nos espionar. Ou a trazer algum recado?

Em menos de um mês tivemos cortada, esmagada contra um poste, uma vida maravilhosamente bela e generosa que saíra de casa para fazer compras, isto é, para amamentar a família enorme. No dia seguinte, na mesma rua, quase na mesma hora, outra vida em flor era pisada pelo mesmo e mais mortífero dos inventos de que se gabam os homens, e com que sonham os moços. Há estatísticas que provam e dão ao fato brutal a auréola dos algarismos: acima das guerras, das calamidades, e de qualquer doença, o mais mortífero engenho é esse lustroso brinquedo de quatro rodas com que os homens de nosso tempo graduam as importâncias sociais.

Nesta mesma quinzena ou vintena desaba o supermercado que ainda fizera o favor de avisar a catástrofe com uma miniatura de terremoto. Em vão. Os homens deste século de ida à Lua estão seguros de si a multiplicar as torres de Babel. Nesse entretempo, aqui e ali, pingam da estratosfera aviões maravilhosamente modernos, com suas máquinas perfeitas, seus passageiros muito cônscios do século XX e suas aeromoças sequestradas pela necessidade para o serviço do otimismo universal.

A intrusa está ali a querer também seu presente de Natal, e nós a sentimos dentro de nós, mal escondida. De vez em quando, como feto de cinco meses, ela se mexe dentro de nós, e nossa atenção, fugazmente desviada do circo e da máquina do mundo, enverga-se sobre si mesma e ausculta-se. Passou? Passou. Ela se encolhe e a atenção abre as janelas para o variado e divertido espetáculo do fim do ano. Os orgulhosos vivos, sem se sentirem grávidos da própria mortal fragilidade, passam a pé, ou nos automóveis, todos com a mesma fundamental convicção: o chão é o chão, sólido, constante, antigo, eterno. A terra é a terra, regaço de rochas com que se pode contar, e em que nem precisamos pensar. Ela está ali “Elle est lá”, dizia Claudel pensando naquela que estava “stabat” ao pé da cruz. Mas nós somos filhos de duas mães, uma que nos quer inteiros, e outra que nos quer dilacerados...

Passou? Passou. E a atenção abre as janelas. Mas desta vez é da própria janela, como um mau hálito, que entra o bafo da morte de um supermercado inteiro. Ele estava pousado sobre o chão, firmado na terra, e de repente a terra mesma o rejeita, o enjeita. E agora, Santo Deus! é uma cidade que se agita numa dança macabra em cima de um chão enlouquecido. Trinta mil mortos. Duzentos mil feridos. E logo os elementos que o homem julgara domesticados entram na conjuração: a água inunda, o fogo cresta, o ar sufoca, e a terra mastiga os seus filhos. Como retornar agora o ritmo do “otimismo” que hoje no mundo católico é uma virtude teologal? É só fechar a janela, dobrar o jornal, e recomeçar a festa do príncipe Próspero. Vem-me à lembrança o que escrevi em Dois Amores, Duas Cidades (vol. II, pág. 297): “Foi nos princípios do século XVIII que surgiu a filosofia e o vocábulo “otimismo”. Todo o ocidente, inebriado de iluminismo, e da convicção de viver no Grand Siècle, num curioso e sinistro paradoxo, diminuía o homem e aumentava a confiança no homem, acinzentava os horizontes e sorria para nesgas de um azul imaginário. Foi o terremoto de Lisboa em 1755 que soou na Europa como um despertador. Voltaire esfrega os olhos e começa a desconfiar que sonhou.

Em Candide, Cacambo pergunta o que é otimismo. – Helás! Diz Candide, c´est la rage de soutenir que tout est bien quand tout est mal.1

Aquele terremoto foi efetivamente mais do que uma catástrofe física, foi um escândalo cultural que vinha mostrar “em pleno século XVIII” que o homem é apenas homem, e apenas um pouco mais forte do que as moscas. Aliás, em caso de terremoto, torna-se até mais fraco, porque as moscas dependem menos da firmeza do chão.

Mais perto de nós, em 1936, outra crise de otimismo correu o mundo e a França, em noitadas de prazer com o Front Populaire, descarregava no humor trágico toda sua insouciance e cantava, à beira dos abismos: “Tout va três bien Madame la Marquise”.

Agora, nesta cômica “era pós-conciliar”, ou “era espacial”, ou “era da imagem” ou “era do já era”, novo ataque de estupidez entra na história com as cores rosadas do otimismo. Vemos com pavor acumularem-se as provas de soberba do homem que pomposamente e pedantemente recusa o senhorio de Deus.

Será tudo isto um castigo de Deus? – perguntou-me uma filha.

Não pertenço ao grupo espiritual dos que imediatamente, horrorizados, repeliriam a idéia de um castigo divino; mas no caso prefiro pensar no terrível mistério da permissão divina, e decididamente prefiro ouvir a lição que Jesus nos deixou para tais casos. Quando chegaram diversos com a horrorosa notícia das violências praticadas por soldados romanos contra os galileus, cujo sangue Pilatos assim misturava ao do sacrifício que faziam (Lc 13, 1). Jesus – para desespero dos atuais teólogos da Revolução – sem dar nenhuma resposta ao aspecto do odioso abuso imperialista, sem parecer sequer ter ouvido este aspecto do acontecimento, dá aos recém-vindos uma resposta desconcertante que vai diretamente ao centro da questão, isto é, daquilo em razão de que se encarnou por obra do Espírito Santo, nasceu de Maria Virgem e padecerá sob Pôncio Pilatos, por nós homens, e para nossa salvação.

Nesta vigília de Natal pareceu-me ouvir o Menino Jesus repetir: -- Acaso eram as vítimas de Manágua mais pecadores do que vós? Digo-vos eu que não. Acaso eram mais pecadores do que vós os dezoito esmagados na queda da torre de Siloé? (...) Digo-vos que não e que, se não fizerdes penitência, todos perecereis...” E em outros textos: “Vigiai e orai porque não sabeis a hora.”

(O Globo, 28/12/1972)

  1. 1. Ai de mim! É a raiva de sustentar que tudo vai bem quando tudo vai mal. (N. da P.)

Introdução ao décimo sexto domingo de Pentecostes

 “Tomando este homem pela mão, Ele o curou” (Evangelho)

 

Paramentos verdes

 

Costuma ler-se por esta altura no Ofício de Matinas, a história de Jó. Continuemos a nossa tarefa de estudo comparativo do texto do Missal e do Breviário.

Jó é o tipo do homem justo que o espírito do mal persegue e humilha para o excitar à revolta contra Deus. E assim acontece de fato deixar a Providência por um pouco a alma nas mãos de Satanás para confessar na dor e na desgraça a sabedoria de Deus e submeter-se incondicionalmente à sua vontade. Privado de todos os bens e abandonado só sobre o monturo, exposto às vaias dos maus e ao riso até dos seus amigos, o pobre Jó submetia-se confiadamente aos juízos insondáveis de Deus e implorava a sua misericórdia. O Salmo do Intróito pode considerar-se a expressão exata da sua angústia. Era assim realmente que Jó orava. Ele é o grito de todas as almas atribuladas. “Tende piedade de mim, Senhor. Tenho gritado por Vós durante todo o dia. Baixai o ouvido e escutai-me. Sou pobre e nada tenho de meu”.

O Ofertório e a Comunhão exprimem de maneira surpreendentemente exata os sentimentos do grande perseguido da desventura: “Deitai sobre mim o vosso olhar e vinde em meu auxílio. Confundi e humilhai diante de mim aqueles que querem tirar-me a vida. Senhor, não esqueci a vossa justiça. Vós conduzistes os meus passos desde a juventude. Agora que estou velho, não me abandoneis, Senhor”. Deus, diziam os amigos de Jó para encorajá-lo, exalta os humildes e levanta e cura os aflitos de coração. E o Evangelho da Missa de hoje repete: “Todo o que se exaltar será humilhado, e todo o que se humilhar, será exaltado”

Deus, com efeito, depois de provar Jó com as maiores humilhações, eleva-o de novo e dá-lhe o dobro de tudo quanto anteriormente possuía. Jó é figura de Cristo que, depois das humilhações do Gólgota, seria exaltado com a apoteose da ressurreição. É ainda figura de todo cristão, que terá lugar de honra no banquete de núpcias do Cordeiro se na terra praticar com amor e com fé a virtude da humildade. O orgulho, diz S. Tomás, é um vício pelo qual o homem se eleva contra a razão acima do que realmente é. O orgulho assenta consequentemente no erro e na ilusão. A humildade, pelo contrário, funda-se na mesma verdade. É uma virtude que modera os ímpetos da alma e a inibe de se elevar acima do que é. É por isso que o orgulho também se chama soberba — “superbia”. A alma verdadeiramente humilde aceita submissamente o lugar que lhe cabe e que Deus, verdade suprema e infalível, lhe consignou. Humildade nas palavras, na conversa, nos atos, nas provas, é a humildade genuína que Jó nos ensina e que o Senhor no Evangelho de hoje nos aconselha. Vendo como os fariseus escolhiam os primeiros lugares, quis fazer-lhes compreender o mal grave de que estavam tomados e levá-los por este modo a procurar a cura. Curou, com efeito, primeiramente um hidrópico inflado no mal e procurou depois, velando a lâmina do escalpelo na gaze sutil duma parábola, curar a hidropisia espiritual dessas pobres almas cegas e condutoras de cegos. O mundo só se encontra bem na exaltação e na enfatuação permanente do orgulho e esquece-se de que a humildade é condição indispensável para entrar no Reino de Deus. É esta virtude que a oração da Missa nos inculca e é-nos admiravelmente exposta na Epístola. Sem merecimento nenhum da nossa parte, explica o Apóstolo aos Efésios, mas unicamente para servirmos a glória de Deus, o Senhor escolheu-nos e fez de nós, de filhos da ira, que éramos, herdeiros do Seu Reino.

Do Evangelho: “Vai e põe-te no último lugar”; não quer dizer que o superior se deva colocar abaixo dos subordinados e expor à irrisão a autoridade; mas que se deve sempre lembrar da sentença que diz: “Quanto maior fores, mais humilde te mostra e encontrarás graça na presença de Deus”

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

"Novidades conciliares": Dignitatis Humanae, Gaudium et Spes, Lumen Gentium cap. 3.

Dignitatis Humanae

Uma enésima reviravolta doutrinal aconteceu na declaração Dignitatis Humanae sobre a liberdade religiosa, na qual os Padres conciliares e os redatores do documento (sobretudo o jesuíta Courtney Murray, Mons. Pavan e o dominicano Hamer) proclamaram, em contradição patente com as condenações constantes da Santa Sé, que “a pessoa humana tem direito à liberdade religiosa [...] de tal sorte que, em matéria religiosa, ninguém seja forçado a agir contra sua consciência, nem impedido de agir, dentro dos justos limites, segundo sua consciência, em privado ou em público, sozinho ou associado a outros.

“[O Concílio Vaticano II] declara que o direito à liberdade religiosa tem seu fundamento na própria dignidade da pessoa humana [...] Este direito [...] deve ser reconhecido de tal maneira que constitua um direito civil.”1

O documento conciliar afirma a seguir: “O direito à liberdade religiosa não é fundado numa disposição subjetiva da pessoa, mas em sua própria natureza”, razão pela qual este direito persiste “mesmo naqueles que não satisfazem à obrigação de buscar a verdade e aderir a ela: seu exercício não pode ser entravado desde que a ordem pública esteja resguardada.”2

Dignitatis Humanae afirma então o direito a não ser impedido de professar publicamente e promover ativamente uma religião falsa, designando este direito como um direito inalienável fundado sobre a dignidade da própria natureza do homem.

É em sentido diametralmente oposto que o Magistério constante da Igreja sempre se exprimira, como resumiu o Papa Leão XIII: “Se a inteligência aderiu a opiniões falsas, se a vontade escolheu o mal e se apega a ele, nem uma nem a outra atinge sua perfeição, todas as duas decaem de sua dignidade nativa e se corrompem. Então não é permitido divulgar e expor aos olhos dos homens o que é contrário à virtude e à verdade, e muito menos ainda colocar esta licença sob a tutela e a proteção das leis”3. O Papa Pio XII reafirmou também, pela enésima vez, nove anos apenas antes do início do Concílio Vaticano II, a eterna doutrina católica: “O que não corresponde à verdade e à lei moral não tem objetivamente nenhum direito à existência, nem à propaganda, nem à ação.”4

Segundo Dignitatis Humanae, ao contrário, até a seita dos “Filhos de Deus” (hoje “Família de amor”), que pratica a prostituição e a pedofilia; até os discípulos de seitas satânicas (com que lógica discriminá-los dos outros “portadores de direito”?), assim como qualquer outra pseudo “confissão religiosa” teriam o direito estrito de não serem impedidos de praticar o mal, desde que uma hipócrita “ordem pública” seja resguardada; dito de outro modo, basta-lhes a simples legalidade exterior, o beneplácito de um Estado agnóstico, ateu na prática. O documento insiste e precisa ainda, com inacreditável insolência, que “seria fazer injúria à pessoa humana e à própria ordem estabelecida por Deus para os seres humanos recusar ao homem o livre exercício da religião na sociedade desde que a justa ordem pública seja resguardada”5 e “o poder civil [...] ultrapassa seus limites se atribui-se o direito de dirigir ou impedir os atos religiosos” (exteriores e públicos).6

Consequentemente:

Segundo Dignitatis Huamane a Santa Igreja Católica teria durante quase dois milênios feito “injúria à pessoa humana e à própria ordem estabelecida por Deus”, pois ela sempre negou, por um lado, o direito ao exercício público das falsas religiões e, por outro, sempre inculcou o princípio segundo o qual o Estado, dada a possibilidade de distinguir a verdadeira religião das falsas, tem o dever de apoiá-la e reconhece-la até juridicamente como a única verdadeira, além do dever de impedir o exercício público dos falsos cultos (que podem, no máximo e em certos casos, para evitar males maiores, serem apenas tolerados; o que se tolera continua a ser sempre falso e permanece um mal, enquanto o que tem direito só pode ser aquilo que tem caráter de verdadeiro e de bom).

Dignitatis Humanae promoveu o agnosticismo do Estado, isto é, o ateísmo prático do Estado, que não teria mais nenhum dever em relação ao verdadeiro Deus e à verdadeira religião, nem mesmo o de conformar suas leis com as de Cristo, já que deve permanecer – sempre segundo Dignitatis Humanae, naturalmente – acima dos partidos para garantir que “não ocorra nenhuma discriminação” entre os cidadãos por motivos religiosos.7

Mas – gostaríamos de perguntar à hierarquia “conciliar” fomentadora deste liberalismo “católico” – uma vez aprovado o agnosticismo-ateísmo de Estado, uma vez declarada a incapacidade ou incompetência presumida deste último para emitir julgamentos em matéria religiosa (e, portanto, para distinguir entre o erro e a verdade, e consequentemente também entre o bem e o mal), como se poderá pretender que este Estado garanta uma ordem pública justa?8

As contradições e absurdos de Dignitatis Humanae são evidentes e os resultados concretos e amedrontadores desta ideologia católico-liberal que os Padres do Vaticano II quiseram impor, em contradição com o Magistério eterno e para agradar ao “mundo moderno”, estão hoje sob os olhos de todos: o ateísmo laico do Estado, tão exaltado pelos “Padres conciliares” triunfa hoje por todos os lados, sabotando a Igreja, corrompendo as almas, destruindo – sempre com o discurso enganador e o sorriso nos lábios – a sociedade católica e as famílias através da pornografia distribuída a mão cheias, pela promoção de leis favorecendo divórcio e aborto, por uma escola do Estado que produz permanentemente novos cidadãos “democratas” impregnados até a medula de idéias maçônicas e iluministas etc., e pouco se importando – senão, como seria um Estado leigo? – com os apelos e as lamentações estéreis e contraditórias dos “papas conciliares” em matéria de contracepção, divórcio, aborto, homossexualidade, manipulações genéticas, eutanásia, liberação da droga...

A audácia chegou ao auge, entretanto, quando os redatores de Dignitatis Humanae, na introdução (que Paulo VI mandou acrescentar para tentar tranquilizar os que se opunham a esse texto), na qual se assegurava que a Declaração “não traz nenhum prejuízo à doutrina católica tradicional sobre o dever moral do homem e das associações a respeito da verdadeira religião e da única Igreja de Cristo”.9 Basta, ao contrário, ler os documentos da Santa Sé sobre este assunto, de Gregório XVI a Pio XII – sem falar dos mais antigos – para perceber exatamente o contrário: todos os Papas precedentes condenam o que Paulo VI e os “Padres do Vaticano II” aprovam e vice-versa.

 

Gaudium et Spes

Na Constituição pastoral Gaudium et Spes sobre o mundo contemporâneo, os padres conciliares anunciaram ao mundo que “... o Concílio se propõe antes de tudo a julgar nessa luz os valores mais considerados por nossos contemporâneos e ligá-los a sua fonte divina. Pois estes valores, na medida em que procedem do engenho humano, que é um dom de Deus, são muito bons; mas não é raro que a corrupção do coração humano os afaste da ordem desejada: é por isso que eles necessitam ser purificados”.10

Esses famosos “valores considerados por nossos contemporâneos” e que constituem a base ideológica da Gaudium et Spes, não são outra coisa senão a liberdade, a igualdade e a fraternidade (o tríptico da Revolução maçônica francesa de 1789), das quais o documento conciliar tratou de modo difuso. Gaudium et Spes é, em suma, o documento oficial exprimindo a vontade dos homens do Vaticano II de se reconciliar com as Revoluções de 1776 (Estados Unidos) e de 1789 (França), promotoras destes pseudo “valores”. A obra de decantação do espírito anticristão – larvado ou virulento – que os regenerasse (a “purificação” evocada acima) permitiria, segundo os relatores da Gaudium et Spes, a sua introdução na doutrina e na práxis da Igreja: esta se reconciliaria plenamente com o “mundo moderno” neopagão, nascido precisamente destas Revoluções e impregnado destes “valores”.

Infelizmente para os “Padres conciliares”, diante destas admiráveis perspectivas de pacificação e de fraternidade universal erigidas sobre bases naturalistas e, portanto, maçônicas, se armavam as barreiras das múltiplas condenações dos Soberanos Pontífices contra o espírito da Revolução, matriz dos “valores” em questão, dos quais os papas tinham demonstrado que eles eram inseparáveis. Eis, por exemplo, as palavras claras e precisas com que o Papa Bento XV tinha condenado as “novas idéias” da Revolução francesa, tão caras aos “padres do Vaticano II”:

“Depois dos três primeiros séculos desde as origens da Igreja, ao longo dos quais o sangue dos cristãos fecundou toda a terra, pode-se dizer que jamais a Igreja correu perigo semelhante a este que se manifestou no fim do século dezoito, ocasião em que uma filosofia em delírio, prolongamento da heresia e da apostasia dos Inovadores, adquiriu sobre os espíritos um poder universal de sedução e provocou um abalo profundo, com o propósito determinado de fazer ruir os fundamentos cristãos da sociedade, não somente na França, mas pouco a pouco em todas as nações”.11

Antes dele, São Pio X tinha afirmado sem possibilidade de equívoco:

“Nosso cargo apostólico nos impõe velar sobre a pureza da fé e sobre a integridade da disciplina católica, de preservar os fiéis dos perigos do erro e do mal, sobretudo quando o erro e o mal lhes são apresentados numa linguagem fascinante, que, dissimulando o caráter vago das idéias e o equívoco das expressões sob o ardor do sentimento e da sonoridade das palavras, pode inflamar os corações por ideais sedutores, mas funestos. Tais foram em tempos recentes as doutrinas dos pretensos filósofos do século dezoito, as da Revolução e do liberalismo, tantas vezes condenadas”.12

Mas, para os “novos teólogos” autores da Gaudium et Spes (entre os quais figurava infelizmente também o Padre conciliar Karol Wojtyla), tudo isso não passava de uma “doutrina velha” da Igreja do passado, ainda fechada em seu “dogmatismo” arcaico, e que devia de agora em diante dar lugar à nova Igreja conciliar, pronta a fazer as pazes com todos os inimigos de Deus.

O espírito naturalista e antropocêntrico da Revolução que invadiu a Gaudium et Spes emerge, em uma leitura atenta, em diversas passagens do documento, apesar de mergulhado no habitual contexto “tranquilizador”, aparentemente ainda católico.

Este espírito não católico, antropocêntrico, se nota, por exemplo – simples ponta de um iceberg – na afirmação ambígua segundo a qual “crentes e não crentes estão geralmente de acordo sobre este ponto: tudo sobre a terra deve estar ordenado para o homem, seu centro e seu cume”.13 Ou ainda quando se procurava fazer crer que o homem é “a única criatura sobre a terra que Deus quis por si mesma”14, contra o ensinamento da Revelação, pela qual Deus criou tudo para Si15, pois o fim último de toda criatura é Deus e não o homem.

Gaudium et Spes se apresentava em suma como um documento que, apesar das habituais precauções adotadas pelos redatores, queria evidentemente romper com o ensinamento da Igreja e negar as condenações dos Soberanos Pontífices contra o mundo moderno, isto é, contra o pensamento moderno que quer substituir Deus pelo homem. De resto, o “novo teólogo” Joseph Ratzinger admitia isso francamente: “Se se procura um diagnóstico global do texto [Gaudium et Spes – n.d.r], poder-se-ia dizer que ele é (ligado como os textos sobre a liberdade religiosa e sobre as religiões do mundo) uma revisão do Syllabus de Pio IX, uma espécie de contra-Syllabus [...]. Contentemo-nos com a constatação de que o texto desempenha o papel de um contra-Syllabus na medida em que representa uma tentativa de reconciliação oficial com o mundo tal como ele se tornou desde 1789”.16

É difícil compreender com que lógica Paulo VI pôde depois falar da “abertura ao mundo” programada pelo Vaticano II como de “uma verdadeira invasão do pensamento mundano na Igreja”17, lamentando-se da presença da “fumaça de Satanás” no “Templo de Deus”.18

 

Lumen Gentium, c. 3

No capítulo 3, no. 22 da Lumen Gentium, aparecem os resultados evidentes do esforço titânico dos novos modernistas para atacar o Primado jurisdicional do Soberano Pontífice.

A ala liberal modernista do Concílio conseguiu comprometer o dogma do Primado papal de jurisdição graças à introdução da noção de “colegialidade episcopal”, que implica a necessidade de um governo colegial da Igreja: o Papa dividiria o poder de agora em diante com os bispos, praticamente em igualdade com eles, reduzindo seu Primado a um simples primado de honra (como “Primus inter pares”, primeiro entre os iguais)

Aqui também o intuito “ecumênico” dos conjurados é claro: uma vez eliminado o Primado de jurisdição (isto é, de governo) do Papa, a Igreja católica se tornaria finalmente aceitável por aqueles – ortodoxos e protestantes – que não queriam e não querem reconhecer a autoridade suprema do Vigário de Cristo. Mas tal Igreja—e isso é evidente para todo mundo, a não ser para os “Padres do Vaticano II” – não seria mais aquela que Nosso Senhor Jesus Cristo fundou sobre Pedro e seus sucessores, apesar de que, para falar como Pio XII, tudo teria sido “unificado, mas para a ruína”.19

A reação de um grupo de cardeais e de bispos do Coetus Internationalis Patrum conseguiu parcialmente abrandar o golpe e convencer Paulo VI a precisar o sentido do texto – afastando a interpretação abertamente democrática proposta pelos neo-modernistas – pelo acréscimo de uma Nota explicativa praevia que, entretanto, num estilo montiniano clássico, deixava intacto o texto do documento.20

Assim se conseguiu evitar o pior, ao menos por curto tempo, mas o abalo tinha sido forte demais e os primeiros desabamentos começaram a se manifestar com rapidez.

Se é verdade que a ala progressista do Concílio não chegou a obter a capitulação completa do Papado (difícil demais de obter de improviso sem uma lavagem cerebral prévia e progressiva dos fiéis), conseguiu, entretanto, plantar sólidas premissas para isso, começando a introduzir na Igreja o vírus da democracia, da assembléia e do Sínodo (concretizado logo depois no parlamentarismo do Sínodo dos bispos, das Conferências episcopais, dos diversos Conselhos – presbiteriais, pastorais etc.) que mais tarde explodiram no pós-Concílio. Se bem que a proposta feita pelo próprio João Paulo II (!) de mudar o modo de exercício do Primado papal e, portanto, de aniquilá-lo na prática – ainda que, como costuma ocorrer, por vias alternativas e em etapas progressivas – para agradar aos habituais heréticos impenitentes e irredutíveis (cf. Encíclica Ut unum sint), não constitua outra coisa senão o fruto quase maduro desta colegialidade herética.

 

A confissão de Paulo VI: o discurso de encerramento do Vaticano II

Ainda que não se trate de um documento conciliar no sentido estrito, é interessante trazer algumas passagens realmente significativas da homilia pronunciada por Paulo VI por ocasião do encerramento do seu Concílio¸em sete de dezembro de 1965.

Feliz com os resultados obtidos, Paulo VI se deixou levar a confissões que, pondo em relevo o espírito não católico no qual os trabalhos conciliares tinham sido conduzidos, deveriam ser suficientes para abrir os olhos de bastante gente. “O humanismo laico profano – exclamou Paulo VI – apareceu enfim com sua verdadeira estatura e, num certo sentido, desafiou o Concílio. A religião do Deus que se fez homem se encontrou com a religião (porque é uma religião) do homem que se fez Deus. O que aconteceu? Um choque, uma luta, um anátema? Tudo isso poderia ter acontecido, mas não aconteceu [...] Reconheçam ao menos este mérito, vós humanistas modernos, que renunciai a transcendência das coisas supremas, e sabei reconhecer nosso humanismo: nós também, nós mais do que qualquer outro, nós temos o culto do homem.”

Um discurso completamente nas antípodas do grito do Apóstolo dos Gentios, que exclamou: “Se alguém não ama o Senhor, que seja anátema”21, não hesitando em pôr os fiéis em guarda contra o “filho da perdição”, o Anticristo que, no meio da apostasia geral, se oporá e elevará “acima de tudo que se chama Deus ou objeto de culto até a se sentar em pessoa no Templo de Deus, se tornando a si mesmo por Deus”22 Mas eis, ao contrário, que Paulo VI se apresenta com seu Vaticano II que, em vez de lançar o anátema contra o humanismo moderno (isto é, contra a “religião do homem que se faz Deus” como o Anticristo), o abraça fraternalmente. Não mais excomunhões, não mais Syllabus – triste herança dos sombrios tempos pré-conciliares – mas uma união híbrida e sacrílega entre o catolicismo e o mundo anticristão, entre a Igreja e as ideias da Revolução.

Não era difícil prever o que aconteceria: derrubadas as muralhas que separam a Igreja do mundo, isto é, as barreiras entre a Verdade e o erro, e entre o bem e o mal, o rebanho se dispersaria. Os Papas “conciliares”, enganados por uma falsa teologia e pelos complôs dos inimigos jurados da Igreja, se transformariam paulatinamente em capelães da Nova Ordem Mundial maçônica, novos Pontífices de uma super igreja ecumênica e liberal, reduzida a uma simples fachada, lugar de reencontro de todas as religiões. A paz sobrenatural prometida por Jesus Cristo a seus fiéis se transformaria em uma paz completamente terrestre para unir todos os povos na apostasia, da qual o encontro inter-religioso de oração em Assis, em 1986, não passou de um primeiro sinal.

 

(Continua)

  1. 1. DH no. 2/a.
  2. 2. DH no. 2/b.
  3. 3. Encíclica Immortale Dei.
  4. 4. Alocação Ci riesce, 6 de dezembro de 1953.
  5. 5. DH no. 3/d.
  6. 6. DH no. 3/e.
  7. 7. DH no. 6/d.
  8. 8. DH no. 3 e no. 7/c.
  9. 9. DH no. 1/d.
  10. 10. GS no. 11/b.
  11. 11. Carta Anno iam exeunte, 7 de março de 1917.
  12. 12. Nosso cargo apostólico – carta sobre “O Sillon”, 25 de agosto de 1910.
  13. 13. GS no. 12/a.
  14. 14. GS no. 24/d.
  15. 15. Col 1, 16.
  16. 16. J. Ratzinger, Les príncipes de la théologie catholique, ed. Téqui, 1982, pág. 426.
  17. 17. 23 de novembro de 1973.
  18. 18. 30 de junho de 1972.
  19. 19. Humani Generis.
  20. 20. Paulo VI adotará mais tarde a mesma tática “dupla face” em relação ao Novo catecismo holandês herético dos anos 70
  21. 21. 1Cor 16, 22.
  22. 22. 2Ts 2, 3-4.

A cruzada albigense (parte III)

Esse texto foi extraído da obra apologética de Jean Guiraud, Histoire partiale, histoire vraie (Beauchesne Editions, 1912). Jean Guiraud desmantela, parte por parte, os falsos argumentos do anticlericalismo, dedicando um capítulo ao tema da Cruzada contra os Albigenses. Na primeira parte, resumiu os argumentos dos anticlericais e mostrou suas contradições. Na segunda e na terceira parte, examina a doutrina dos albigenses.]

 

Após analisar a moralidade do albigensianismo e sua negação do casamento, devemos tomar nota de sua licenciosidade fundamental e sua rejeição da família.

 

Casamento e libertinismo

Os hereges tinham tanta aversão ao casamento que chegaram ao ponto de declarar que o libertinismo era preferível a ele e que era mais grave “praticar o ato carnal com a própria esposa do que com outra mulher”.

E isso não era nenhuma brincadeira, pois davam a essa opinião uma justificativa em perfeita concordância com seus princípios. Frequentemente ocorre -- diziam eles -- de um homem ter vergonha de seus pecados; desse modo, ao pecar, o faz em segredo. Portanto, sempre é possível que venha a se arrepender e a cessar o pecado; por essa razão, o libertinismo é quase sempre oculto e temporário.

Ao contrário, o que é particularmente grave no estado de casamento, é que não se tem vergonha dele e que não se pensa em abandoná-lo, pois não se suspeita do mal que é praticado dentro dele. Isso explica a condescendência estranha que os “Perfeitos” demonstravam com as desordens de seus seguidores.

Eles mesmos faziam profissão de castidade perpétua, fugindo com horror da mínima ocasião de impureza; e, ainda assim, aceitavam as concubinas dos crentes na sua sociedade e as deixavam participar dos ritos mais sagrados, mesmo quando não tinham intenção de emendar suas vidas.

Os crentes mesmos não tinham problemas em manter suas amantes enquanto aceitavam o direcionamento dos "Perfeitos". Entre os crentes que, por volta de 1240, compareceram à pregação de Bertrand Marty em Montségur, podemos distinguir vários falsos casais: “Guillelma Calveta, amante de Pierre Vitalis, Willelmus Raimundi de Roqua e Arnauda, sua amante, Pierre Aura e Boneta e o amante de sua esposa, Raimunda, amante de Othon de Massabrac”

Essas concubinas e bastardos, que aparecem tão frequentemente nas assembleias cátaras, foram a causa desses hereges serem acusados da torpeza mais imunda. Dizia-se que suas rigorosas doutrinas eram apenas uma máscara, debaixo da qual os piores excessos estavam escondidos. Gauthier e Deschamps fazem eco dessas acusação quando apresentam os albigenses como um povo simples, de moral pacífica e não austera.

Por outro lado, é certo que as populações, com muita frequência, deixavam-se seduzir pela impressão de austeridade que os "Perfeitos" lhes transmitiam, e isso é mencionado por Aulard e Debidour, Rogie e Despiques quando falam da pura moral desses hereges.

É fácil resolver essa aparente contradição lembrando que havia dois tipos de albigenses: os crentes, que simpatizavam com as doutrinas cátaras e não estavam totalmente sob sua influência; e os "Perfeitos", que aderiam integralmente a ela e praticavam-na em suas prescrições.

Enquanto os crentes não tivessem recebido a iniciação completa, se fosse necessário, poderiam viver com uma mulher, porém fora do laço do casamento. Qualquer ato sexual era indubitavelmente mau, mas a coabitação poderia ser tolerada, jamais o casamento, pois, se acontecesse uma iniciação completa, seria mais fácil romper um laço ilegal.

 

Negação da família.

Desnecessário aprofundar-se nas consequências antissociais de tal doutrina. Ela visava, nada mais nada menos, que a supressão do elemento essencial de toda a sociedade, a família, ao tornar toda a humanidade numa vasta congregação religiosa sem recrutamento e sem futuro.

Embora aguardando o advento desse estado de coisas, que deveria emergir do triunfo das ideias cátaras, os "Perfeitos", gradativamente, quebraram, como resultado do progresso de seu apostolado, os laços familiares já formados.

Se quisessem ser salvo, antes de se submeter à lei de castidade rigorosa, o marido devia abandonar a esposa, a esposa, o marido, os pais deviam abandonar os filhos, fugindo de um lar que lhes inspirava apenas horror, pois a heresia lhes ensinava “que ninguém pode ser salvo mantendo-se em companhia de seu pai e de sua mãe”. E, portanto, toda moralidade doméstica desaparecia, juntamente com a família, que era sua raison d’être.

Esse ódio da família era, além disso, entre os albigenses, apenas uma forma particular de sua aversão a tudo que fosse estranho à sua seita. Eles se abstinham de relações com todos que não pensassem do mesmo modo que eles, exceto quando julgavam possível conquistá-los às suas doutrinas, e faziam as mesmas recomendações aos crentes.

No dia do exame de consciência ou apparelhamentum, que acontecia todo mês, exigiam dos crentes um relato severo das relações que haviam mantido com os infiéis. E isso é compreensível: eles só tinham como homem aquele que, como eles, havia se tornado, pelo consolamentum, um filho de Deus.

Quanto aos outros, que haviam permanecido no mundo mau, eles, de algum modo, pertenciam a outra raça e eram estranhos, para não dizer inimigos.

(Continua)

Introdução ao décimo quinto domingo de Pentecostes

 “Jovem, eu te ordeno, levanta-te” (Evangelho)

 

Paramentos verdes

 

 As lições deste domingo são geralmente do livro de Jó, desse venerável patriarca da Idumeia, que Satanás quis experimentar com danada tenção de ver se realmente servia a Deus com desinteresse ou porque o tinha cumulado de bens e de riqueza. Um dia, diz o Livro sagrado, Satanás apresentou-se diante de Deus e disse-Lhe: Corri a Terra toda e encontrei o vosso servo Jó, que Vós tendes protegido e enriquecido de consideráveis riquezas. Estendei, no entanto, um pouco a Vossa mão e tocai-lhe, que sempre quero ver se ele não Vos bendiz só por diante. E o Senhor respondeu-lhe: Vai e faze-lhe quanto esteja no teu poder, mas não lhe tires a vida. Partiu Satanás e depois de o privar de todos os bens, feriu-o com uma chaga terrível e purulenta desde a planta dos pés até a cabeça. É pensando na malícia de Satanás que a Igreja pede hoje ao Senhor que nos defenda das insídias do espírito das trevas. Jó clamava: “Na casa dos mortos é a minha morada e o meu leito num lugar tenebroso. Disse ao pus, tu és o meu pai; e aos vermes, vós sois a minha mãe e a minha irmã. Consumiu-se a minha carne como um vestido roído pela traça e os ossos pegaram-se-me à pele. Tende compaixão de mim, vós ao menos que sois meus amigos, porque a mão do Senhor feriu-me”. Porém, ninguém atendia ao seu apelo, e, desiludido dos homens falsos e ingratos, voltou-se para Deus, entoando o mais belo cântico de esperança que jamais se ouviu sobre a Terra: “Eu sei que vive o meu Redentor, que me ressuscitará da terra no último dia. Então, serei revestido novamente da minha pele e verei o meu Deus. Eu mesmo O verei e contemplarei com os meus olhos. Esta esperança vive dentro de mim”.

A Santa Igreja, de que Jó é figura, tem a consciência dos ataques incessantes com que o demônio pretende destruí-la, e não cessa de pedir a Deus que a proteja, que a conduza e a defenda. A sua voz é ainda o eco da oração de Jó, a confissão humilde da sua impotência e a esperança invencível n’Aquele que é poderoso e cheio de entranhas de misericórdia com os que O invocam.

A Epístola é uma exortação fremente e ansiosa a que andemos nos caminhos do Senhor e sejamos fiéis às inspirações do Espírito. Se vivemos no Espírito, andemos também em conformidade com Ele, quer dizer, sejamos mais humildes, tenhamos mais caridade com os que saem do caminho da justiça e pensemos que somos fracos também e que havemos de prestar apertada conta dos nossos pecados e não dos pecados dos outros.

O Evangelho, segundo a interpretação unânime dos Padres, é um símbolo admirável da Igreja, deplorando os seus filhos que vivem em pecado mortal e pedindo Àquele que veio à Terra para perdoar, que se amercie deles e os ressuscite.

Do Evangelho: Se a ressurreição deste jovem, diz S. Agostinho, alegrou a viúva, sua mãe, também a Santa Igreja, que é mãe de todos os homens, se alegra com as ressurreições espirituais que se operam todos os dias nas almas de seus filhos. Choram-se as mortes que se veem, a morte que menos importa, a do corpo; e ninguém pensa nem pressente sequer essas mortes terríveis que se passam dentro da consciência de cada um. Todavia, Aquele que vê estes mortos, pensa neles.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

A queda do Afeganistão e o ressurgimento do Islamismo radical

William Kilpatrick

 

Enquanto escrevo este artigo, as notícias narram que Kabul caiu nas mãos dos Talibãs, que o presidente do Afeganistão está foragido e que o novo governo será nomeado de Emirado Islâmico do Afeganistão. Enquanto isso, está sendo noticiado que a Embaixada dos EUA foi evacuada, mas não está claro, ainda, se os funcionários da Embaixada conseguiram sair do país.

Até ontem [15 de Agosto de 2020], muitos na administração Biden estavam dizendo que nada disso iria acontecer, ou que, se acontecesse, não aconteceria em um longo tempo. Mas está acontecendo agora. E a velocidade da tomada nos deve levar a fazer uma reflexão.

Nos últimos dois anos, houve uma cascata de eventos súbitos para os quais poucos estavam preparados – levantes violentos em centenas de cidades americanas, uma elevação do crime, uma pandemia mundial, a eleição controversa de um presidente alienado da realidade, o ressurgimento de tensões raciais e uma invasão de centenas de milhares de imigrantes ilegais na nossa fronteira do Sul. Mais chocante que tudo, as rédeas do governo americano, agora, estão nas mãos de esquerdistas.

Desde uma perspectiva histórica, tudo ocorreu em um piscar de olhos. E – ao menos para a maioria dos americanos – foi tudo inesperado.

A rápida e inesperada derrota do governo afegão deveria servir de aviso para o fato de que tempos mais turbulentos e perigosos estão à vista. Não é uma previsão difícil de se fazer. Nossa derrota no Afeganistão advém, de várias maneiras, da ilusão mesma dos “woke”(**) que permitiu à anarquia e ao caos moral crescerem e prosperarem nos EUA.

De fato, muitos de nossos erros de cálculo no Afeganistão parecem estar fundados diretamente no mesmo tipo de pensamento mágico que, agora, permeia nossas escolas, nossos conselhos municipais e até mesmo nossas Forças Armadas. Em tempos de crise, nós dependemos de que nossos militares estejam sempre um passo à frente ao lidarem com um inimigo como os Talibãs. Mas, agora, parece que nossas Forças Armadas foi uma das primeiras instituições a sucumbir à doutrina “woke” – isto é, ao wishful thinking. Como os ativistas radicais que pediam o corte de verbas da polícia, generais radicais, entusiasticamente, apoiaram programas que levaram a um desarmamento moral das tropas.

Em vez de aumentar o moral, a coesão das unidades e a prontidão,  solaparam essas qualidades ao introduzir treinamento em teoria racial crítica, racismo sistemático, preconceito com brancos e orgulho LGBT. É claro, como o bom senso indica, tais programas serviram apenas para aumentar as divisões entre as tropas: negros contra brancos, cristãos e conservadores contra liberais e esquerdistas etc. A "grande ideia" da Força Aérea para aumentar o moral foi trazer drag queens para entreter os aviadores. As pessoas que sancionaram esses bizarros programas de treinamento não eram funcionários do baixo escalão, mas do topo do topo. O Secretário de Defesa Lloyd Austin presidiu um evento de “orgulho gay” no Pentágono e, em outra ocasião, anunciou que combater a mudança climática era a maior prioridade dos militares. Por outro lado, o General Mark Milley, o Estado-Maior Conjunto dos EUA e ex-comandante das nossas tropas no Afeganistão, parece pensar que a “supremacia branca” é a maior ameaça a nossa nação. Posições semelhantes têm sido adotadas pelo Comandante da Marinha, Almirante Michael Gilday, pelo Estado-Maior da Força Aérea, Charles Q. Brown Jr., e por vários outros oficiais de alta patente.

Com toda essa engenharia social em suas mentes, não é de espantar que os generais não tivessem muito tempo para pensar na ameaça dos Talibãs. Além disso, esse tipo de doutrinação a que nossas tropas têm sido submetidas não apenas solapa a coesão, a unidade e o moral da tropa (suicídios estão em alta recorde), mas também distrói a lógica por trás da defesa do próprio país. Se a sua pátria é apresentada como a nação mais preconceituosa e racista da história, por que arriscar a vida lutando por ela? Se os EUA não são melhores que os Talibãs (ou o ISIS, ou Al-Qaeda), então que direito temos de intervir?

Esses mitos “woke” inibiram muito a eficiência dos militares no Afeganistão e em outros lugares. Mas a ilusão mais perigosa na qual acreditam tanto os militares, quanto governos sucessivos diz respeito ao Islã em si. É a ilusão de que o Islã é uma religião de paz. A noção ilusória de que a cultura e a religião islâmicas não são diferentes da nossa, ou que os muçulmanos devotos querem o mesmo que o Ocidente – liberdade de consciência, tolerância de opiniões divergentes, democracia e a igualdade de homens e mulheres.

Qualquer um que tenha conhecimento do Corão, da Hadith e da Sharia ou da história do Islã sabe que, quanto mais devoto um muçulmano é, menos provável será que queira alguma dessas coisas. Muitos de nossos politicos, porém, não são pessoas religiosas, de modo que tendem a subestimar a importância da religião na vida das pessoas. Ora, o Talibã, Al-Qaeda, ISIS, Boko Haram e afins são profundamente religiosos. Eles não estão lutando, apenas, por terra, ou por recursos naturais, mas por Allah. As guerras que travam são guerras religiosas. E um dos princípios maiores da religião deles é que o mundo inteiro deve estar submetido a Allah. Como o comandante do Talibã Muhammed Arif Mustafa, recentemente, afirmou: “É nossa crença que, um dia... A lei islâmica virá não apenas para o Afeganistão, mas para todo o mundo... a Jihad não terminará até o fim dos tempos”. Por essa razão, a maioria desses incentivos oferecidos pelos EUA e pela OTAN, que lembram uma cenoura penduradas num graveto, simplesmente não funcionarão – e menos ainda o aviso de Jen Psaki de que os Talibãs estão correndo risco de perder prestígio perante a “comunidade internacional”.

A ameaça do Islã tem sido muito subestimada, porque pouquíssimos realmente tentaram compreender o Islã, seu fundador beligerante e seu ethos guerreiro. Embora gerações de americanos tenham se entusiasmado com filmes de James Bond estrelando vilões maus que buscam a dominação global, parecem esquecidos da possibilidade de que ideologias na vida real, de fato, busquem essa dominação global. E, ainda assim, uma das lições mais claras da História é que é exatamente isso que o Islã quer.

Um indício da falta de entendimento do Islã e de suas ambições globais é que o significado dos atentados de 11/09 está sumindo da memória. Muitos da geração “woke” eram, apenas, bebês no tempo dos ataques, então não experimentaram a sensação de choque e pavor sentida por muitos americanos por anos após o ataque. Mas esse medo desapareceu com o passar do tempo. Recentemente, muitas das famílias das vítimas do 11/09 se sentiram ultrajadas com alegações da mídia de que os acontecimentos no Capitólio de 6 de Janeiro, que resultaram em uma morte, foram piores que os ataques do 11/09, que deixaram quase 3 mil mortos e geraram guerras.

Haverá outro 11/09? Infelizmente, seria difícil dizer o contrário. Devido a nossa relutância em tirar lições daquele acontecimento, parece que estamos fadados a receber lições ainda mais duras. Dado o modo rápido e decisivo com que o Talibã retomou o Afeganistão, outro ataque parece bastante provável.

De fato, parece provável que, agora, testemunharemos um ressurgimento poderoso da atividade islâmica de jihad em todo o mundo. A partida humilhante das forças americanas do Afeganistão será tomada como um sinal da vontade de Allah por muitos muçulmanos ao redor do mundo. Alguns dos aliados dos EUA a interpretarão como um sinal de que não podem mais confiar nos EUA, e alguns optarão por tomar uma posição mais neutra na guerra contra o terrorismo islâmico. Assim como o exército afegão acabou se rendendo ao Talibã, também podemos esperar que outros povos em terras que estão combatendo jihadistas abandonarão a luta e aceitarão o duro jugo da Sharia, para não correrem o risco de perder tudo.

Aqui, nos EUA, devemos nos perguntar se estamos prontos para outro ataque da mesma magnitude que o 11/09. A Polícia de Nova York, por exemplo, está preparada? Eles estão seriamente desmoralizados com o fracasso do prefeito progressita em lhes dar apoio. Enquanto isso, muitos policiais abandonaram a corporação ou aposentaram-se mais cedo em razão do sentimento antipolicial, de taxas crescentes de criminalidade e das tentativas de cortes de verbas da polícia. Estarão eles de prontidão [para os ataques terroristas], ou estarão preocupados com outras coisas, tentando defender-se de ataques físicos ou verbais?

Ainda que a polícia americana se mantenha firme, e quanto ao resto do mundo? Como Osama bin Laden uma vez observou, os homens, naturalmente, preferirão um cavalo forte a um cavalo fraco. E, cada vez mais, o Islã radical parece ser o cavalo forte. A Turquia, a China, o Paquistão e o Irã já sinalizaram que reconhecerão o Talibã como o governo legítimo do Afeganistão. Todos eles estão prontos a fornecer armas e dinheiro ao Talibã. Enquanto isso, o Talibã adquiriu armas – fuzis americanos, artilharia, Humvees, drones e helicópteros abandonados pelo exército afegão em debandada. Eles também libertaram cerca de 5 mil prisioneiros Talibãs e Al-Qaeda experientes em combates da Base Aérea de Bagram. Inspirados em seus ímans e no Corão, esses lutadores não estarão muito inclinados a se aposentarem e a viverem vidas pacíficas daqui em diante.

Para muitos muçulmanos – especialmente muçulmanos jovens – a vitória será fonte de inspiração para aderir à jihad, e o número de recrutamentos provavelmente explodirá. O sangue fresco poderia virar a balança em muitas áreas em combate – por exemplo, em partes da África, as Filipinas e a Índia.

A Índia, é claro, tem armas nucleares – várias delas. E isso traz outra possibilidade assustadora. Ao derrotar o exército afegão, os Talibãs adquiriram um considerável número de armas avançadas. Outras forças islâmicas poderiam adquirir armas nucleares de governos que se renderem em outras partes do mundo? A Índia é uma possibilidade, mas ela daria uma luta dura. A Índia tem uma longa lembrança de conquistas islâmicas passadas e não se renderá tão facilmente.

Mas boa parte da Europa é outra história. Há sinais de que seus povos estão perdendo a vontade de resistir. A Europa tem uma população envelhecida, e, em anos recentes, tem mostrado uma propensão a tentar agradar ao Islã. Enquanto isso, a população muçulmana da Europa continua a crescer e é uma população muito mais jovem. Em outras palavras, grande parte dos muçulmanos europeus estão em idade de combate.

Tanto a França quanto a Inglaterra têm armas nucleares e sistemas avançados aptos a lança-las, mas, obviamente, tais armas nunca foram adquiridas para o tipo de situação que, hoje, os franceses e os ingleses enfrentam. Mas é cogitável que essas armas poderiam cair nas mãos dos islâmicos, se algum desses países sucumbisse à islamização. Ambos os países sofreram mais ataques jihadistas – alguns com números impressionantes de mortos – que os EUA. E alguns, como o escritor francês Mihcel Houellebecq, acreditam que a França está pronta para se render.

E, ainda que a Europa se mantenha firme, e quanto ao EUA? Como mencionei acima, os generais americanos têm ideias muito estranhas de qual sua missão. Se os líderes militares americanos são burros o suficiente para cair na teoria racial crítica, na ameaça de um golpe branco supremacista, nos méritos do neomarxismo e no papel crucial que os drag queens desempenham para aumentar o moral, então eles cairão em qualquer invenção.

Um sinal de que é assim é que o Pentágono, recentemente, nomeou seis muçulmanos radicais (um terço do total) ao recém criado “Grupo de Trabalhos para Conter o Extremismo”. O grupo recebeu a tarefa de eliminar os extremistas (conservadores, cristãos e patriotas) das linhas dos militares. Então, muçulmanos extremistas receberam a tarefa de eliminar das Forças Armadas seus soldados mais leais e patriotas. É um caso clássico da raposa guardando o galinheiro. E isso está acontecendo apesar do fato de que, em várias ocasiões, muçulmanos extremistas se infiltraram em bases das Forças americanas, com consequências mortais.

Quando estavam em campanha pela presidência, Joe Biden prometeu nomear muçulmanos para posições governamentais “em todos os níveis”. Mas parece que os muçulmanos já estão servindo em todos os níveis do governo estadual e federal. Alguns deles, sem sombra de dúvidas, estão servindo lealmente, mas alguns podem estar servindo a outros interesses. Em seu livro de 2015, Catastrophic Failure, o analista de segurança, Major Stephen Coughlin falou de infiltração considerável do Pentágono pela Irmandade Muçulmana. Em 2016, Philip Haney escreveu sobre uma penetração parecida no Department of Homeland Security em seu livro See Something, Say Nothing. Em 2020, enquanto escrevia a continuação do livro, Haney foi encontrado morto com um ferimento de tiro em uma estrada. Não é apenas uma paranoia que evita que as pessoas digam o que veem. Em muitos casos, é um medo real de que o que provavelmente aconteceu a Haney possa acontecer a elas.

Apenas recentemente os americanos acordaram para o fato de que os comunistas chineses, por anos, têm exercido influência considerável nas universidades, empresas e pessoas em altas posições de governo. Algum dia acordaremos e descobriremos que radicais islâmicos têm conduzido operações de influência semelhantes na sociedade americana?

Mas a coisa mais curiosa é que essas operações de influência dificilmente são necessárias. Isso porque uma maioria na academia, mídia e establishments políticos, há muito tempo, venderam-se ao mito de que o Islã verdadeiro é pacífico, tolerante e moderado em essência. Além disso, eles fizeram tudo ao seu alcance para cancelar e silenciar aqueles que não acreditam no mito – as pessoas que eles desqualificam como “islamófobos”.

Essa manhã, uma das manchetes na minha TV dizia: “Autoridades: Talibã tomou o poder mais rápido que o esperado” Muitas coisas estão acontecendo mais rápido que o esperado. É provável que a influência da China e do Islã pelo resto do mundo continuará a crescer mais rápido que o esperado.

Mas não é para você perceber isso. A vitória de domingo do Talibã sacudiu os americanos anestesiados. Mas várias dessas sacudidas já aconteceram ao longo do anos, e, após cada uma, nós voltamos a dormir. A maioria dos americanos têm menos medo do Islã que de ofender a ideologia “woke” – menos medo do Islã que de ser considerados “islamófobos”.

O que precisamos temer, porém, não é a “islamofobia”, mas o retorno do Talibã, da Al-Qaeda, do ISIS e a aliança dos três com a China, Turquia, Irã, Paquistão e vários outras potências que desejam nossa derrota.

 

**N.T.: O termo “woke” refere-se à ideologia progressista americana contemporânea, bem como aos americanos que a ela aderem

 

Tradução: Permanência / Fonte:Catholic Family News / A pintura que ilustra este artigo é de R. Moinvoisin 

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