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Para que existem as nações

Gustavo Corção

Andei estes dias pensando no problema do um e do múltiplo que divide as filosofias e as mentalidades. Nas filosofias de inspiração nominalista, infensas às idéias universais, predomina a tendência de valorizar a diversidade; nas filosofias de inspiração aristotélico-tomista, ao contrário, ensina-se que a perfeição de uma coisa deve ser procurada na sua maior unidade, desde que saibamos distinguir entre unidade vista do lado da forma e uniformidade tomada do lado da matéria.

É errado, e meio tolo, atribuir à diversidade, ao pluralismo, um título de nobreza, e dizer, como diz o professor Anísio Teixeira, que uma sociedade se torna mais evoluída na medida em que se torna mais complexa e mais diferenciada. Chega a dizer que haveria vantagem, para o Brasil, se em lugar da predominância católica nós tivéssemos uma solução maior, um estoque mais variado de credos. Ora, parece-nos fácil provar a falta de consistência de tal opinião. Afirmando o que afirma, o conhecido autor de livros sobre pedagogia professa, simplesmente, um total ceticismo religioso, e deseja a diversidade dos credos como se nenhum deles pretendesse conter verdades, e de fato as contivesse. Duvidamos que o professor Anísio Teixeira desejasse para o Brasil, para o desenvolvimento, para a emancipação econômica e cultural do Brasil, um pluralismo científico, uma diversidade de opiniões a respeito do funcionamento do fígado, das causas do câncer, e das propriedades do triângulo retângulo. É claro, amigo leitor, que também nós desejamos o pluralismo no campo do direito de pesquisar, mas é claríssimo que só diremos que há progresso científico na proporção em que se unificam os conhecimentos e as opiniões.

Há entretanto certas diversidades que têm uma significação de riqueza e de perfeição, além daquela que tem o título precário de direito de pesquisa. A variedade de indivíduos concretos dentro de uma espécie, a variedade das rosas, por exemplo, é uma riqueza, é, digamos assim, um belo esforço que as existências concretas realizam para exprimir o conteúdo total de uma essência. Para conhecer um pouco o que é uma rosa, qual é o pensamento de Deus que ganha corpo na rainha das flores, é preciso ter visto muitas pétalas, muitos matizes, muitas raças diferentes do mesmo sonho divino. A diversidade aí é um discurso, é um poema que se estende para com muitas palavras dizer uma coisa. No fundo da questão como se vê, há sempre o primado da unidade, mas no caso que tomamos como exemplo a diversidade não tem o sentido melancólico, amargo, que tem o da diversidade de opiniões toleradas enquanto não se acha a verdade única de uma coisa. E o que disse da rosa vale também para o homem. A perfeição da humanidade-essência se realiza na humanidade-existência. A riqueza da idéia “homem”, que Deus concebeu e criou, não cabe num só individuo, não se esgota no mais belo, no mais talentoso dos homens. Foi preciso deixar a história correr. Foi preciso deixar nascer um Mozart, um Gauss, uma Catarina de Sena, um Paulo de Tarso, um Einstein, e muitos outros exemplares mais obscuros, foi preciso deixar nascer o rapaz que dias atrás me contava que não aceitara um trabalho com o triplo de sua remuneração atual, porque precisava fazer certas coisas que sua consciência desaconselhava, foi preciso multiplicarem-se os talentos, as inclinações, as vocações, as nomeações de Deus, para que a vasta multidão, numa espécie de longo e ardoroso discurso, explicasse aos astros, aos anjos, a toda a criação, o que é este ser espantoso, absurdo, incongruente, maravilhoso, que um deles definiu como “animal racional”. A definição essencial é breve, mas a explanação, para corresponder à profundidade de tão singela definição, teve de ser extensa como a história da humanidade.

Essa diversidade, que é uma explicação, uma demonstração prática e existencial de uma natureza definida por uma fórmula universal – essa diversidade que pertence à didática de Deus, é boa, é excelente, e nem sequer representa uma tolerância, uma expectativa, um alargamento à espera de uma unidade maior. Não. A diversidade da multiplicação de indivíduos da mesma espécie, ao mesmo tempo que dilata os limites da definição, fortifica os vínculos da unidade interna da coisa. Ao contrário do que pensa o nominalista, nós sentimos ainda mais forte a unidade de natureza humana quando passeamos pelo imenso jardim onde nasceram e desabrocharam as flores da humanidade. Cada vez mais entendemos, sentimos, penetramos a idéia de um ser que pelo gênero pertence à animalidade e pela espécie pertence à racionalidade.

E o que dizemos para os homens diremos também para as nações. A variedade delas é uma riqueza, desde que seja vista naquela perspectiva que enriquece e fortifica a unidade. Para que existem as nações? Para si mesmas? Para serem poderosas potências armadas e engenhos mortíferos e enfeitadas com bandeiras e hinos? Para serem temas de discursos? Para trazerem cores diversas à cartografia, e tornarem as etapas mais agradáveis? Para que existirá o Brasil? Para o sr. Negrão de Lima ser embaixador dele em outra nação que por sua vez manda embaixadores para o Brasil? Existirá o Brasil, como nação, como pátria, para as crianças de colégio fazerem composições patrióticas, e para os construtores de Brasília se encherem de lucro à custa da mesma idéia ensinada nos colégios? Existirá para o hino, para a bandeira?

Parece-nos claro que, se fosse para tais serventias, melhor seria que houvesse um só país, falando uma só língua. A transcendental utilidade, a finalidade das nações tem de ser procurada mais alto e na mesma direção em que se explica a diversidade dos homens. Além da variedade de pessoa para pessoa, a idéia de homem, pensada e criada por Deus, precisa da variedade de grupos. Existem nações com timbres culturais diferentes, como existem instrumentos diversos da mesma sinfonia. E cada nação trás ao mundo a contribuição preciosa de um timbre, de um matiz, de um odor que compõe a grande apoteose do plano de Deus, no centro da qual está a Cruz do Salvador como grande síntese do pensamento de Deus sobre o Homem, ou melhor, do pensamento de Deus tornado Homem.

Em palavras mais frias diremos que as nações têm vocações diversas na partitura, e idênticas no objetivo final que é a glória de Deus e a exposição universal das obras e feitos do homem, que se completará no dia do juízo final. Por aí se vê que as nações, não só para as trocas imediatas de utilidades, existem, umas para outras numa grande e essencial solidariedade. E é nessa perspectiva que deveriam ser armados todos os problemas nacionais, e não na mesquinha e tola perspectiva do egoísmo coletivo que faz da nação um fim em si mesma.

E qual será, nessa ordem de idéias, a razão de ser do Brasil? Qual será a vocação coletiva, a vocação nacional deste povo que anda perplexo, tonto, sem saber o que fazer de seu imenso território, e sem o tipo de almas que aqui vive, trabalha, canta, chora e ri. E ri, e chora, com um sotaque espiritual diferente dos outros povos. E dança como o francês ou o russo não sabem dançar. Dizem que o Garrincha, assistindo um jogo dos russos, sorria com ar de certa superioridade, e quando lhe perguntaram se não estava com medo do treinadíssimo time soviético, respondeu: -- “Não. Eles são duros de cadeiras.” E era verdade. Eles não tinham os requebros de nossa astúcia física, a flexibilidade de nossa graça felina, certamente serão duros de cadeiras em muitas outras coisas em que somos graciosos e ágeis.

A verdade manda confessar que, fora do futebol, pouca coisa trouxemos para a tal apoteose da essência humana. Qual será a riqueza de que estamos incumbidos? Qual será a partitura que devemos executar no maravilhoso concerto que tem por ouvintes as hierarquias dos anjos?

Por mais insensato que possa parecer tal idéia aos que vivem estudando os chamados problemas brasileiros, é nesta perspectiva profética, teológica, metafísica, que deveriam estar situados todas as pesquisas. Há problemas imediatos, como o socorro devido às vítimas do nordeste, mas há o grau de problema da vocação, da direção geral, que anda esquecido, ou que está sob a ameaça de uma trágica apostasia. E aqui – deixando para outro dia a continuação desta louca conversa – ouso dizer o que penso de um Brasil que trai a sua vocação e que se desvia dos caminhos de Deus. Rasguem as vestes os fariseus do nacionalismo materialista (aliás outro não há), dêem-me os títulos que quiserem: ouso dizer que prefiro vê-lo apagado do mapa, afundado na terra, tragado pelo mar, do que vê-lo instalado num desenvolvimento que nem sequer trás a felicidade material, animal, das multidões, e que volta as costas ao chamamento de Deus e à esperança dos homens.

"Um escritor irlandês e apóstolo de Cristo Rei" - nota biográfica do Pe. Denis Fahey

Pe. Dominique Bourmaud, FSSPX

 

Em 3 de julho de 1883, veio ao mundo o homem que muitos consideram o Apóstolo do século XX para o Reinado Social de Cristo Rei, o Pe. Denis Fahey, nascido de uma família católica irlandesa verdadeiramente devota e num ambiente ― Golden, Condado de Tipperary ― repleto dos valores da verdadeira Fé. Em sua infância, certamente ouviu muitos relatos dos sofrimentos de seus ancestrais pela Fé católica, num passado não muito distante. Denis Fahey entrou na Congregação do Espírito Santo, que o desenvolveu em seus anos de formação.

 

A formação de um Apóstolo

Enviado para estudar em Roma, sua aguda inteligência floresceu; porém, mais importante ainda, sua fé na Igreja Católica como Corpo Místico de Cristo se aprofundou. O estudo da história, vista do ponto de vista da Fé, “que lança uma nova luz sobre tudo”, mostrou a Fahey o verdadeiro significado do mundo e do homem. Deus sabe bem como o homem deve funcionar. O homem só pode alcançar paz na Terra e felicidade eterna no Céu ao viver como Deus quis que vivesse como indivíduo e cidadão.

O secularismo, conforme definido no Webster’s Dictionary, propõe que a conduta moral deve ser determinada exclusivamente em vista do bem-estar social. É uma visão da vida baseada na premissa de que a religião e considerações sobre Deus e a vida futura devem ser excluídas. Seu outro nome é naturalismo, tão perigoso para as almas. Em seu livro The Kingship of Christ and Organized Naturalism,[1] o Pe. Fahey cita o Cardeal Pie: “Por onde quer que o sopro do naturalismo tenha passado, a própria fonte da vida cristã ressecou.” Não pode haver ilustração mais clara dessa verdade do que a agenda secular promovendo leis que introduziram o divórcio, o aborto e a sodomia em quase todos os países do Ocidente.

Trata-se do imemorial conflito entre Luz e Trevas, Bem e Mal, Cristianismo e Paganismo. O Pe. Fahey anteviu-o e lutou durante toda a sua vida para repelir o ataque a Cristo e à sua Igreja. Certa vez, numa palestra para os estudantes do Espírito Santo, comentando alguns ataques escandalosos que sofria da mídia, declarou: “Eu só disse o que ficaria feliz em dizer no Julgamento”. Esse destemido defensor dos direitos de Deus sabia ter bom humor. Seus estudantes têm carinhosas lembranças de seu mestre:

“Foi como professor de filosofia que a maioria de nós encontrou o Padre Fahey pela primeira vez. Sentíamos que estávamos diante de alguém que era grande porque era bom ― bom com a bondade de Deus. Tinha um raro senso de humor que se expressava freqüentemente com tiradas sobre si mesmo, mas nunca sobre os outros. Estava acostumado a receber muita correspondência da Inglaterra e dos Estados Unidos, grande parte dela de não-católicos, escritores de várias áreas da ciência social, que buscavam seu conselho e crítica. Certo dia, segurando um maço de tal correspondência, observou com sua voz aguda: ‘Eles dizem que o Padre Fahey tem uma abelha no boné,[2] mas agora vêm todos procurando por mel!!’”

 

Firme pelo reinado de Cristo

Porque não aprovou o Artigo 44 da Constituição irlandesa de 1937, foi chamado de “antipatriótico” por muitos.[3] Mas, assinalando que sua desaprovação fluía dos princípios da doutrina social católica tão inevitavelmente quanto a água jorrava de uma fonte, o Pe. Fahey explicava: “Os papas colocaram a premissa maior, o Artigo 44 colocou a premissa menor ― e todos vieram em cima de mim porque tirei a conclusão!” O humor da situação era o humor de alguém versado em lógica. Como padre irlandês, entretanto, percebeu muito perspicazmente a infidelidade a Cristo contida no Artigo 44. Isso assombrava suas horas de vigília e perturbava seus breves momentos de repouso.

Profundamente irlandês como era, o Pe. Fahey tinha carinho por suas raízes em Tipperary. Os moradores locais falavam com afeto e orgulho justificado do “Padre Denis”. Seus sermões aos domingos, durante suas estadias temporárias em sua paróquia de origem, eram ansiosamente aguardados. Conhecia sua audiência e talvez por isso um de seus ouvintes pudesse prestar-lhe uma homenagem e fazer, ao mesmo tempo, uma importante distinção: “É um homem de Tipperary, o Padre Denis, e o hurling[4] está no seu sangue. Ele nunca nos atrasa no domingo da final em Munster[5] e não se incomoda em pedalar 25 milhas para estar, ele mesmo, presente lá!”

Forçado a escrever sua defesa, o Pe. Fahey nos dá uma visão interessante e reveladora sobre seus dias de estudante em Roma durante o pontificado de São Pio X:

“Estando em Roma, comecei a me dar conta mais plenamente do significado real da história do mundo como narrativa da aceitação e da rejeição do programa de Nosso Senhor para a ordem social. Costumava pedir permissão para ficar na Capela da Confissão[6] enquanto os outros estudantes iam passear pela Basílica. Gastava tempo lá percorrendo a história do mundo e prometia repetidamente a São Pedro que se eu tivesse a chance, ensinaria a verdade sobre o seu Mestre da forma como ele e seus sucessores, os romanos pontífices, queriam que fosse feito. Isso é o que tenho me esforçado para fazer e o que estou fazendo.”

Apesar de seus escritos serem, à primeira vista, tão variados, indo desde um tratado sobre oração mental até um livro sobre dinheiro, há continuidade e consistência entre eles. Desaprovou o Artigo 44 porque este não podia ser reconciliado com o ensinamento tradicional dos soberanos pontífices sobre os Direitos Sociais de Cristo Rei. Opôs-se à maçonaria porque esta sustentava uma oposição organizada e insidiosa à influência do Corpo Místico na sociedade. Expunha e deplorava as maquinações das Finanças Internacionais como uma perversão da ordem divina. Dinheiro nas mãos de uma pequena mas poderosa minoria, em vez de estar a serviço de uma vida familiar próspera, significava impor a milhões de pessoas condições iníquas e hostis à vida da Graça.

Além de seus deveres de sacerdote, professor e escritor, o Pe. Fahey engajou-se em considerável “ativismo”. Fundou a Maria Duce [“Com Maria Nossa Líder”], uma organização composta por clérigos e leigos de mentalidade semelhante, cujo propósito era combater o marxismo cultural que começava a se infiltrar e corromper a vida irlandesa. Detestada por modernistas até hoje, a Maria Duce empreendeu ações concretas para organizar protestos, petições políticas e para distribuir material escrito. Seu periódico mais incisivo, Fiat, dava nome aos bois e mantinha registros daqueles que buscavam poluir e destruir a vida tradicional irlandesa.

 

Desafiando a mídia em nome da Verdade

Por causa de seus livros, o Pe. Fahey ganhou seguidores internacionais, especialmente nos Estados Unidos, onde sua obra recebeu notoriedade por meio de sua associação com o Pe. Charles Coughlin, apresentador de rádio, que freqüentemente citava passagens de livros do Pe. Fahey em suas transmissões e nas páginas de sua publicação, Social Justice. Apesar de Pe. Coughlin ter interrompido seu popular programa de rádio em 1942 (mesmo ano, por coincidência, em que Pe. Fahey iniciou a Maria Duce), principalmente por causa de pressões das autoridades da Igreja devido a suas críticas à Administração Roosevelt e a seu suposto “anti-semitismo”, o Pe. Fahey continuou suas atividades mesmo com a crescente frieza dos eclesiásticos irlandeses em relação a seus empreendimentos.

Pe. Fahey entendeu melhor do que a maioria como o cinema, a televisão, o rádio, a música e a indústria gráfica eram usados pelos inimigos de Cristo Rei para subverter a sociedade. Valendo-se da Maria Duce, procurou enfrentar e se opor a esses meios de comunicação de massa. Seria quase impossível negar que a revolução cultural que varreu o Ocidente durante os anos 60 tenha sido produzida, em grande medida, pelas forças que controlavam a mídia. Esta, pela metade do século XX, já teria se tornado tão importante na formação da opinião, valores e costumes públicos quanto escolas, igrejas, academia e governos. Foram luminares como o Pe. Fahey e os papas pré-Vaticano II que entenderam e combateram o que estava acontecendo em sua própria época. Infelizmente, aquele combate se ausentou dos corações e mentes de muitos ocidentais que abandonaram a defesa de sua sociedade contra a investida dos marxistas culturais.

Ao examinar esses feitos, pode-se ficar tentado a pensar no Pe. Fahey como o perpétuo oponente, condenando isto, deplorando aquilo. Um estudo cuidadoso do homem e de seu ensinamento revela a lógica daquela oposição, a saber, sua inabalável lealdade a Cristo. Talvez sua maior desvantagem, humanamente falando, tenha sido sua sabedoria. Ele sabia demais! Alguns achavam que era anormal. Certo dia, ouviram-no dizer a respeito de um ataque recente: “Tenho estudado o problema por 40 anos e acontece que é possível que eu esteja certo apesar de tudo.” Havia se dado conta intimamente e quase visceralmente de que as idéias determinam o curso da história. Assim, penetrava sem esforço através da cortina de fumaça da propaganda política e via Satanás manobrando seus agentes para mais um ataque à vida divina da Graça.

 

O que podemos aprender com seu exemplo?

O que católicos tradicionais podem aprender com esse herói? Enquanto a Igreja pós-conciliar apresenta Cristo erroneamente como alguém “água-com-açúcar”, a Sagrada Escritura O revela freqüentemente como uma figura combativa. Seguindo os passos de seu divino Mestre, o Pe. Fahey era um lutador. Enquanto o mundo e mesmo homens da Igreja o contradiziam, ele continuava a batalha. Para ele, a idéia de ceder, sejam lá quais fossem as propostas sedutoras oferecidas, era anátema.

O Pe. Fahey entendia que, se Cristo não fosse o Rei dos corações, mentes e sociedades criadas pelo homem, a humanidade estaria, no fim das contas, condenada. Afligia-se por sua amada Irlanda ao vê-la afastar-se mais e mais da antiga Fé, e alertava que, se uma reversão espiritual não acontecesse, seus compatriotas seriam varridos pelas convulsões culturais que sobreviriam. O lamentável estado do catolicismo hoje na Ilha da Esmeralda só demonstra o quanto o padre estava certo. Hoje em dia, os que esperam fazer mais uma vez do ideal de Cristo Rei o caráter governante da sociedade precisam assumir a mentalidade do infatigável Pe. Fahey. Isso também exige que aprendamos esses princípios católicos e os defendamos como as muralhas da cidade.

(The Angelus, 447. Tradução: Permanência)

 

[1] “O Reino de Cristo e o Naturalismo Organizado”, obra não publicada em português. [N. do T.]

[2] “a bee in his bonnet”, expressão que significa que alguém fala sem parar sobre um assunto que considera muito importante. [N. do T.]

[3] No Artigo 44 da Constituição irlandesa de 1937, o Estado reconhecia uma indefinida “posição especial” da Igreja Católica “como guardiã da Fé professada pela grande maioria dos cidadãos”, mas reconhecia também “a Igreja da Irlanda, a Igreja Presbiteriana da Irlanda, a Igreja Metodista da Irlanda, a Sociedade Religiosa de Amigos na Irlanda, assim como as Congregações Judias e outras denominações religiosas existentes na Irlanda”. [N. do T.]

[4] Hurling é o esporte nacional da Irlanda, parecido com o hockey. [N. do T.]

[5] Geralmente no segundo domingo de julho. [N. do T.]

[6] Localizada no coração da Basílica de São Pedro, sob o altar-mor. [N. do T.]

A cruzada albigense (parte II)

Esse texto foi extraído da obra apologética de Jean Guiraud, Histoire partiale, histoire vraie (Beauchesne Editions, 1912). Jean Guiraud desmantela, parte por parte, os falsos argumentos do anticlericalismo. O primeiro artigo resumiu os argumentos dos anticlericais e mostrou suas contradições. O segundo examina a doutrina dos albigenses.

 

Hostilidade com o Cristianismo

De suas doutrinas metafísicas e teológicas, [extraímos que] os albigenses praticavam uma moralidade em oposição formal à moralidade cristã, e Aulard e Debidour estão grosseiramente errados quando nos apresentam suas pretensões como sendo um desejo de “trazer de volta a moralidade cristã à pureza perfeita”; na realidade, suas ideias morais eram o oposto do ideal cristão, e nenhuma reconciliação era possível entre ambas.

Quaisquer que tenham sido as diferentes maneiras através das quais os cristãos tentaram colocar seus princípios em prática, porém, a teoria que a Igreja nos apresenta da vida, de seu valor e do objetivo em direção à qual ela deve se organizar podem ser resumidas em um pequeno conjunto de proposições.

Para a Igreja, a vida neste mundo não é nada além de um teste. Inclinado ao mal pelos maus instintos de sua natureza decaída, pelas seduções e fraquezas da carne e pelas tentações do demônio, o homem é chamado ao bem pela Lei Divina, pelas boas tendências que a queda original não conseguiu fazer desaparecerem completamente nele e, especialmente, pela assistência divina que pode ter ao pedi-la e que aumenta exponencialmente a força da vontade humana, sem destruir sua liberdade ou responsabilidade, e que chamamos de graça.

A perfeição consiste em superar os maus instintos da carne, para que o corpo permaneça o que deve ser, o servo da alma; em subordinar todos os movimentos da alma à caridade, isto é, ao amor de Deus, de tal modo que Deus seja tanto o começo, quanto o fim do homem, de suas energias, de suas ações.

Para isso, devemos aceitar as provações da vida com resignação, atravessando-as com coragem e fazendo de todas as circunstâncias na quais nos encontramos oportunidades de santificação e salvação. Quem, portanto, não vê que para o cristão a vida tem um valor infinito, pois ela lhe dá os meios de adquirir a santidade e a bem-aventurança eterna que é consequência dela? Quem não enxerga que, para o cristão, as ações mais vulgares adquirem uma nobreza sobrenatural quando, feitas por Deus, elas se tornam um reflexo da eternidade, “sub specie aeternitatis”?

 

Suas doutrinas teológicas e metafísicas

A ideia de vida que o albigense extraía de sua concepção de Deus e do universo era bastante diferente. Procedendo da crença no bem e no mal através de uma dupla criação, o homem era uma contradição viva: o corpo e a alma que o compunham jamais poderiam ser reconciliados.

Alegar a pretensão de harmonizar ambos era tão absurda quanto querer unir dois opostos: dia e noite, bem e mal, Deus e Satã. No corpo, a alma não era nada além de um prisioneiro, e seu tormento era tão grande quanto o das tristes pessoas que estivessem unidas aos corpos. Só poderia achar paz aquele que recuperasse sua vida espiritual, e só seria capaz de fazê-lo através da separação do corpo.

O divórcio desses dois elementos irreconciliáveis, isto é, a morte – a morte não apenas como algo que se tolera, mas adorada como uma bênção – era o primeiro passo em direção à felicidade. Tudo que a precedia era miséria e tirania. Esse mundo não era nada além de uma prisão, e as ações humanas eram deploráveis porque, praticadas por um corpo corrupto, carregavam consigo o estigma dessa corrupção.

 

Sua moral: Negação do casamento

A teoria albigense do casamento era a consequência lógica de sua ideia profundamente pessimista da vida. Se a vida, como ensinavam, era o maior mal, não bastava querer destruí-la em si mesmo através do suicídio ou do nirvana; também era necessário tomar precauções para não a comunicar a novos seres, que se tornavam partícipes na desgraça comum da humanidade, ao trazê-los à existência.

Além disso, quando os cátaros conferiam a iniciação do Consolamentum, eles faziam o neófito submeter-se a um voto de castidade perpétua. Os ministros albigenses repetiam, continuamente, que um homem pecava com sua mulher como pecaria com qualquer outra, o contrato e o sacramento do matrimônio sendo para eles apenas uma legalização e regularização da devassidão.

Na feroz intransigência de sua castidade, os puros do Século XIII encontraram a fórmula hoje adotada pelos apoiadores da livre união e do direito a todo prazer sexual: “Matrimonium est meretricium” – “o casamento é o concubinato legalizado”.

(Continua)

Introdução ao décimo quarto domingo de Pentecostes

“Salomão jamais se vestiu como um destes lírios” (Evangelho).

 

Paramentos verdes

 

As lições do Breviário são tiradas do Livro do Eclesiástico, se o domingo vem no mês de agosto, ou de Jó, se vem no de setembro. S. Gregório comentando o Eclesiástico, diz assim: “Há homens que se entregam inteiramente à sedução dos bens materiais, ignorantes sem dúvida ou pelo menos esquecidos do tesouro deslumbrante e inexaurível que a matéria vela. Sem a saudade dos bens que ficam para além e que eles culpavelmente perderam, sentem-se felizes, os mesquinhos, com um punhado de terra. Criados para a luz da verdade, não sentem dentro de si o desejo de a olhar, de a compreender, de se perderem nela. Desorientados no meio dos prazeres em que se precipitaram, chegam a pensar que lhes é pátria o exílio em que vivem e que é luz radiosa a treva que os envolve. Ao contrário, os eleitos para quem os bens da Terra não têm valor algum, procuram sem descanso, entre as areias agitadas deste deserto amargo, a pérola preciosa que a sua alma anseia. Presos à Terra pela carne que também é terra, debatem-se na ânsia de se libertarem, absolutamente determinados a desprezar o que passa para recolher o que permanece”.

Quanto a Jó, é o tipo genuíno do homem desprendido da terra e da perfeita resignação na vontade adorável de Deus: “Se de Deus recebemos a fortuna, dizia ele, porque não havemos de também aceitar o revés, se for servido no-lo mandar? ”

A Missa de hoje abunda nestes pensamentos. O Espírito Santo, que a Igreja recebeu no dia de Pentecostes, formou em nós o homem novo que se opõe e procura destruir as inveteradas tendências do velho homem — que são as intemperanças da carne e a busca insaciável da riqueza para as satisfazer. O Espírito de Deus, o espírito de liberdade que habita em nós e nos torna filhos do Pai e irmãos de Nosso Senhor Jesus Cristo, segrega-nos da servidão ignóbil do pecado, porque os que pertencem a Jesus Cristo, crucificaram a própria carne com os seus vícios e baixezas. Caminham no Espírito e não satisfazem os instintos da carne, porque a carne está em oposição irredutível com o espírito.

Convencido da verdade evangélica de que ninguém pode servir a dois senhores, o cristão põe-se de guarda contra si mesmo, contra as velhas paixões amortecidas talvez nas cinzas funerárias do velho homem, não vão às vezes ressuscitarem. “O que se deixa escravizar pelos bens deste mundo, diz S. Agostinho, está às ordens dum senhor duro e terrível. Está debaixo da tirania do demônio. Sem dúvida, ele não o ama, pois quem é que pode amar o demônio? Todavia, suporta-o. Por outro lado, também não odeia Deus. Ninguém odeia Deus no fundo de sua consciência. No entanto, despreza-O e não O teme, como se estivesse seguro de estar perdoado. Mas o Espírito Santo põe-nos de atalaia contra estes perigos, quando nos diz pelo profeta que a misericórdia de Deus é infinita e que a sua paciência nos convida à penitência. Se alguém pois quer amar a Deus em sinceridade e verdade, se alguém tem o desejo normal de ser feliz, considere a sentença do Senhor, procure em primeiro lugar o Reino de Deus, e tudo o mais lhe virá por acréscimo”.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

A Guerra Fútil da Outra contra o Catolicismo

Robert Morrison

 

Como vários católicos atentos observaram, o Motu Proprio Traditionis Custodes, de Francisco, encerrou abruptamente a confusa campanha da “hermenêutica da continuidade”, que tinha por objetivo convencer o mundo de que, apesar de tudo o que transparecia, as reformas do Vaticano II estavam em continuidade com a religião Católica de sempre. Como deixa claro a carta que acompanha Traditionis Custodes, é necessário escolher entre as crenças e práticas que os católicos mantiveram por quase dois mil anos e aquelas que decorreram do Vaticano II. Ora, se fossem as mesmas, por que seria necessário escolher entre elas?

Ao passo que a tentativa de eliminar a ruptura entre o Catolicismo e a religião animada pelo Vaticano II (a Outra[1]) tenha sido sempre irremediavelmente frustrante e fútil, avaliar as diferenças entre as duas religiões é, em comparação, simples e iluminador. Para esse fim, vale considerar: o papel da Outra na guerra movida por Satanás; como e por que as duas religiões são diferentes; o propósito da nova religião; por que o Catolicismo é a única religião rejeitada pela Outra; e, finalmente, quão incoerente é a Outra.

 

O papel da Outra na guerra movida por Satanás

Poderíamos nos ver tentados a considerar a situação atual da Igreja como uma refutação de sua indefectibilidade. De fato, muitos abandonam a Fé porque acreditam erroneamente que a Igreja foi derrotada. Todavia, Deus tem nos dado razões abundantes para nos mantermos firmes na Fé, mesmo se parece que os inimigos triunfaram: temos a promessa de Nosso Senhor de que as portas do inferno não prevalecerão (Mt 16, 18), e dois mil anos de história onde vemos a Igreja resistir a assaltos aparentemente insuportáveis.

Além disso, há importantes aparições da Santíssima Virgem Maria trazendo avisos proféticos sobre a infiltração na Igreja. No início do século XVII, María del Buen Suceso de La Purificación (comumente conhecida como Nossa Senhora do Bonsucesso) apareceu à Venerável Madre Mariana de Jesus Torres, uma freira de clausura do Convento Real da Imaculada Conceição em Quito, Equador. Sua mensagem a respeito de eventos que ocorreriam no século XX é de particular interesse para os católicos de hoje:

“Nesse momento supremo de necessidade da Igreja, aquele que deve falar, calará. Tempos funestos sobrevirão, nos quais aqueles que deveriam defender em justiça os direitos da Igreja sem temor servil nem respeito humano, darão as mãos aos inimigos da Igreja para fazer o que estes querem. Ai do erro do sábio, ai daquele que governa a Igreja, o pastor do rebanho que meu Santíssimo Filho lhe confiou! Mas quando eles parecerem triunfantes; quando a autoridade abusar de seu poder, cometendo injustiças e oprimindo os fracos, sua queda estará próxima. Paralisados, serão atirados ao chão.”

Claramente Nossa Senhora quis que entendêssemos que haveria um tempo em que pareceria que as autoridades visíveis da Igreja “dariam as mãos aos inimigos da Igreja para fazer o que estes querem”. E ainda assim, não conseguimos detectar ali nenhum sinal de que essas calamidades significariam que a Igreja teria deixado de ser Igreja ou que teria perdido a proteção do Espírito Santo.

Sob a mesma luz das aparições marianas, revelando que a Igreja prevalecerá apesar dos assaltos diabólicos, podemos considerar a visão do Papa Leão XIII de que Deus daria a Satanás uma janela de tempo para que este tentasse destruir a Igreja. Essa visão levou o papa a compor a grande oração a São Miguel Arcanjo incluída nas Orações Leoninas, assim como um exorcismo contra Satanás, que inclui a seguinte passagem (na versão original):

“As hostes astuciosíssimas encheram de amargura a Igreja, Esposa Imaculada do Cordeiro, e inebriaram-na com absinto; puseram-se em obras para realizar todos os seus ímpios desígnios. Ali onde está constituída a Sede do Beatíssimo Pedro e Cátedra da Verdade para iluminar os povos, aí colocaram o trono de abominação da sua impiedade, para que, ferido o Pastor, dispersassem as ovelhas.”

Certamente o Papa Leão XIII não considerava que uma situação tão terrível na Igreja representasse uma negação da consoladora doutrina da indefectibilidade. E nem nós devemos fazê-lo. Antes, à medida que vemos os assaltos contra a Igreja aumentarem, devemos multiplicar nossos esforços para aceitar toda graça com que Deus nos cumulará.

O estabelecimento da Outra em oposição ao Catolicismo é uma das mais importantes realizações de Satanás e de seus lacaios na guerra contra Deus. Satanás busca insultar a Deus e Sua Igreja e levar para o inferno tantas almas quanto possível. Mas sabemos com certeza que, no fim, Satanás perderá — temos de lutar para nos encontrarmos do lado vencedor, aderindo sempre ao verdadeiro Catolicismo, custe o que custar.

 

Como e por que as duas religiões são diferentes

Não fosse pela continuidade visível do papado (que, é claro, os sedevacantistas negam), seria auto-evidente que o Catolicismo e a Outra são religiões diferentes: as crenças de uma estão frequentemente em desacordo com as da outra, e quase não há semelhança entre as práticas litúrgicas das duas religiões. Nenhum Santo do período anterior ao Vaticano II reconheceria a Outra como católica; nenhum profeta da Outra aceita realmente as crenças que os mártires morreram para proteger.

Além das diferenças entre crenças e práticas litúrgicas, há uma profunda disparidade na forma como seus adeptos creem nas verdades professadas por essas religiões. No Ato de Fé, podemos ver a base católica para crer:

“Senhor Deus, creio firmemente que há um só Deus em três pessoas realmente distintas, Pai, Filho e Espírito Santo; que dá o céu aos bons e o inferno aos maus, para sempre. Creio que o Filho de Deus se fez homem, padeceu e morreu na cruz para nos salvar, e ao terceiro dia ressuscitou. Creio em tudo mais que crê e ensina a Igreja Católica, Apostólica, Romana, porque Vós, ó Deus, revelastes todas essas coisas; Vós, que sois a eterna verdade e sabedoria que não pode enganar nem ser enganada.”

O Ato de Fé contém certas Verdades católicas, e naturalmente omite muitas outras — mas cremos “em tudo mais que crê e ensina a Igreja Católica” porque Deus, que não pode enganar nem ser enganado, as revelou. Uma vez que vemos a Igreja como o organismo estabelecido por Jesus para transmitir fielmente a Fé a todas as pessoas até o fim dos tempos, cremos baseados na autoridade da Igreja e sabemos que possuímos a mesma Fé que possuiu cada católico que foi para o Céu.

E na Outra, como se crê? Felizmente essa religião tem apenas sessenta anos de idade, então deveria ser relativamente fácil rastrear suas crenças até chegar àquelas de seus pais fundadores. Infelizmente, entretanto, as crenças da Outra mudam o tempo todo. Mesmo quando as crenças permanecem as mesmas, isso talvez só aconteça porque um grupo de bispos não obteve os votos necessários para persuadir outro grupo de bispos de que a religião deve mudar.

Esse processo de mudança contínua é, na verdade, um aspecto importante dessa religião. Em seu discurso de encerramento do Vaticano II, o Papa Paulo VI falou sobre o amor da nova religião pela mudança perpétua:

“Nunca talvez como no tempo deste Concílio a Igreja se sentiu na necessidade de conhecer, avizinhar-se, julgar retamente, penetrar, servir e transmitir a mensagem evangélica, e, por assim dizer, atingir a sociedade humana que a rodeia, seguindo-a na sua rápida e contínua mudança.”

Não temos a menor ideia das mudanças que ocorrerão amanhã, porque apenas uma coisa é certa na Outra: não pode haver qualquer retorno ao verdadeiro Catolicismo!

 

O propósito da nova religião

Se nos dermos conta de que a verdadeira mente por trás da Outra é o Príncipe das trevas, poderemos ver que o propósito da nova religião não pode ser outro senão insultar a Deus e à Sua Igreja e levar almas para o inferno. Mas os agentes humanos da nova religião não acreditam mais no inferno (exceto, talvez, como um destino para aqueles terríveis católicos tradicionalistas), então geralmente buscam outro propósito para promover a Outra.

Podemos ver os propósitos dos agentes humanos em várias declarações proeminentes do próprio Vaticano II:

“A isto se propõe o Concílio Ecumênico Vaticano II, que, ao mesmo tempo que une as melhores energias da Igreja e se empenha por fazer acolher pelos homens mais favoravelmente o anúncio da salvação, como que prepara e consolida o caminho para aquela unidade do gênero humano, que se requer como fundamento necessário para que a cidade terrestre se conforme à semelhança da celeste.” [João XXIII – Discurso de abertura do Vaticano II]

“Em virtude da sua missão de iluminar o mundo inteiro com a mensagem de Cristo e de reunir sob um só Espírito todos os homens, de qualquer nação, raça ou cultura, a Igreja constitui um sinal daquela fraternidade que torna possível e fortalece o diálogo sincero.” [Gaudium et Spes, Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Moderno]

“Promover a unidade é, efetivamente, algo que se harmoniza com a missão essencial da Igreja, pois ela é, ‘em Cristo, como que o sacramento ou sinal e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano’. Ela própria manifesta assim ao mundo que a verdadeira união social eterna flui da união dos espíritos e dos corações, daquela fé e caridade em que indissoluvelmente se funda, no Espírito Santo, a sua própria unidade.” [Gaudium et Spes, Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Moderno]

“O humanismo laico e profano apareceu, finalmente, em toda a sua terrível estatura, e por assim dizer desafiou o Concílio para a luta. A religião que é o culto de Deus que quis ser homem, e a religião — porque o é — que é o culto do homem que quer ser Deus, encontraram-se. Que aconteceu? Combate, luta, anátema? Tudo isso poderia ter-se dado, mas de fato não se deu. (...) A descoberta e a consideração renovada das necessidades humanas — que são tanto mais molestas quanto mais se levanta o filho desta terra — absorveram toda a atenção deste Concílio. Vós, humanistas do nosso tempo, que negais as verdades transcendentes, dai ao Concílio ao menos este louvor e reconhecei este nosso humanismo novo: também nós — e nós mais do que ninguém — somos cultores do homem. [Paulo VI – Discurso de encerramento do Vaticano II]

O propósito da nova religião é unir e servir a todos os homens, o que só pode ser feito removendo do Catolicismo tudo o que o mundo rejeita. Em seu Prometeu: A Religião do Homem, o Pe. Álvaro Calderón descreve a nova religião como “a Religião do Homem”, construída sobre os princípios do humanismo (que Paulo VI ratificou acima). O Pe. Calderón identifica uma mudança chave que precisava ser feita no Catolicismo para criar a nova religião:

“Tudo que o humanismo precisava para tornar o Evangelho amável e tirar proveito de seus benefícios era dissolver a Cruz de Cristo. Para o humanismo integral, o grande defeito do cristianismo medieval, em certo sentido o seu único, foi ter centrado o mistério de Cristo no Sacrifício, tingindo a religião com um matiz negativo, tão repugnante ao coração do homem. (...) O Verbo se fez homem para satisfazer a dívida dos homens com Deus, pois por sua obediência até a morte glorificou-O infinitamente, e trouxe aos pecadores a possibilidade da redenção. Para abolir a necessidade do preço de sangue, os magos do humanismo anularam a nota de débito. Se o pecado não nos deixa em dívida com Deus, o sacrifício da Cruz é um pormenor desnecessário no mistério de Cristo, e podemos deixá-lo de lado.”

Uma vez que se remove a Cruz de Cristo, com todas as suas implicações doutrinais e morais, a religião se torna muito mais confortável e aceitável para não-católicos. Quantas novidades trazidas pela Outra realmente permaneceriam de pé se seus proponentes ainda acreditassem e ensinassem que qualquer um que queira salvar sua alma tem de tomar sua cruz e seguir Jesus?

Cada mudança feita em nome do Espírito do Vaticano II tentou esvaziar o Catolicismo para desenvolver uma religião falsificada que possa avançar os objetivos globalistas com a autoridade visível da Igreja Católica. Assim, em vez de erradicar o pecado, podemos desviar o foco para a erradicação das emissões de carbono; em vez de ensinar o Evangelho às nações, podemos abraçar todos os homens do jeito que estão (contanto que estejam vacinados, é claro). A Outra é a força mais importante na tentativa de convencer a humanidade a abandonar sua resistência às demandas da Nova Ordem Mundial. Se, ao olhar para Roma, o mundo visse o verdadeiro Catolicismo em vez da Outra, o grande Reset jamais teria chance de êxito.

 

Por que o Catolicismo é a única religião rejeitada pela Outra?

Sabemos, pelo Encontro de Oração do Papa João Paulo II em Assis, que a nova religião abraça todas as outras. Francisco, é claro, voltou a enfatizar isso de várias maneiras.

O documento Nostra Aetate, do Vaticano II, forneceu a base para esses esforços de aceitação de todas as religiões, ainda que reserve um papel especial para Cristo:

“A Igreja Católica nada rejeita do que nessas religiões existe de verdadeiro e santo. Olha com sincero respeito esses modos de agir e viver, esses preceitos e doutrinas que, embora se afastem em muitos pontos daqueles que ela própria segue e propõe, todavia, refletem não raramente um raio da verdade que ilumina todos os homens. No entanto, ela anuncia, e tem mesmo obrigação de anunciar incessantemente Cristo, “caminho, verdade e vida” (Jo 14,6), em quem os homens encontram a plenitude da vida religiosa e no qual Deus reconciliou consigo todas as coisas (cf. 2 Cor 5, 18-19). Exorta, por isso, os seus filhos a que, com prudência e caridade, pelo diálogo e colaboração com os seguidores de outras religiões, dando testemunho da vida e fé cristãs, reconheçam, conservem e promovam os bens espirituais e morais e os valores sócio-culturais que entre eles se encontram. A Igreja olha também com estima para os muçulmanos.”

Isso estabelece um padrão bastante baixo para que uma religião seja aceita pela Outra. Sem dúvida, então, a Outra deveria aceitar o Catolicismo, certo? Mas agora vemos, mais claramente que nunca, que a religião chamada Catolicismo é a única que Francisco não aceita mais. Isso é necessário porque, se o Catolicismo é aceito, todas as outras religiões devem ser recusadas. A observação do Pe. Calderón a esse respeito é perspicaz:

“O inimigo mortal do ‘humanismo integral’ é o catolicismo integral, em particular o tomismo, porque este possui de verdade todos os benefícios que aquele possui de aparência, além de saber de cor os seus sofismas.”

Tendo subvertido a Fé para servir a toda a humanidade, os inovadores têm de silenciar aqueles que realmente sabem que isso é heresia. Assim, o Catolicismo é a única religião que tem de ser esmagada pela Outra.

 

Quão incoerente é a Outra?

Pode-se pensar que a nova religião é apenas tão estulta quanto qualquer seita protestante média, com sua rejeição da Verdade católica em favor de crenças modificadas para se adequarem aos caprichos dos homens. Entretanto, diferentemente das seitas protestantes, a Outra tenta reter sua identidade católica para que possa servir melhor aos interesses da Nova Ordem Mundial. Por isso, a Outra sofre de uma esquizofrenia que seria cômica se não fosse tão destrutiva.

Assim, por exemplo, em nome da promoção da unidade católica, Francisco promulga Traditionis Custodes para banir a mais importante e visível fonte de unidade da Igreja, a Missa Tridentina. Então, em vez de uma Missa que conecte católicos uns com os outros mundo afora e ao longo da história da Igreja, o que resta é o Novus Ordo, que serve como um símbolo visível de divisão entre todos os católicos. É evidente que o Novus Ordo não apenas divorcia o católico de hoje dos católicos que viveram ao longo dos séculos, mas também de seus irmãos católicos que estão do outro lado do mundo. E porque Satanás tem um prazer perverso em escarnecer da Igreja, o Novus Ordo também é diferente de paróquia para paróquia dentro da mesma diocese; e diferente dentro da mesma paróquia dependendo do celebrante; e diferente até para um mesmo celebrante dependendo de qual versão das “Orações Eucarísticas” ele decide dizer num determinado dia.

Por pior que seja a situação litúrgica da Outra, temos de nos perguntar se a situação doutrinal — ao menos na prática — não é ainda mais incoerente. Há salvação fora da Igreja? Existe um inferno? Mulheres devem ser sacerdotes? Uniões simplesmente civis são louváveis? O pecado mortal deve impedir que alguém receba a Comunhão? Existe mesmo algo chamado pecado mortal?

Em cima disso tudo, adicionemos a incansável busca da Outra pela feiura na arte, na arquitetura e na música. Tragicamente, a obsessão da Outra pela feiura estética é comparada apenas à sua grotesca imoralidade.

Temos ouvido dizer que na nova religião 2+2=5, mas dizer isso é muito generoso. O paralelo adequado para a nova religião é dizer que 2+2=5, ou 7, ou talvez infinito, ou um Volkswagen, ou sua canção favorita, ou qualquer outra coisa que você queira, exceto 4. Se isso soa despropositado, pergunte a si mesmo por que não podemos manter as crenças e práticas que todos os Santos reconheceriam como católicas. Como pode o Catolicismo ter sido o único caminho de salvação ao longo de dois mil anos, e então — por meio de decretos de homens imorais — tornar-se o único banido?

Agora é evidente que Deus precisará intervir de maneira extraordinária para livrar a Igreja do flagelo da Outra, mas não estamos impotentes. Fomos avisados de que estes dias chegariam e que precisaríamos nos voltar para a Bem-aventurada Virgem Maria em busca de auxílio para perseverarmos. Que ela possa esmagar a cabeça de Satanás e a Outra que ele tenta impor sobre a Igreja! Rainha do Santíssimo Rosário, rogai por nós!

(Fonte: The Remnant Newspaper. Tradução: Permanência)


[1] O autor utiliza, no original em inglês, o neologismo Vatican2ism. Em nossa versão, optamos pela expressão “a Outra”, termo utilizado por Gustavo Corção na década de 1970 para designar a nova religião de Vaticano II.

A cruzada albigense (parte I)

[Esse texto foi extraído da obra apologética Histoire partiale, histoire vraie por Jean Guiraud (Beauchesne Editions, 1912). Em uma época em que os livros-texto da Terceira República começavam a dar uma explicação parcial da História da Igreja e de tudo relacionado a ela, Jean Guiraud começou a desmantelar, um a um, os falsos argumentos do anticlericalismo.

Em sua obra Histoire partial, histoire vraie (História Parcial, História Verdadeira), ele dedicou um Capítulo a cada tema. Em cada Capítulo, ele começa citando vários trechos questionáveis de livros didáticos antes de refutá-los.]

 

Aulard et Debidour (Cours Supérieur, p. 91).

“A seita dos cátaros (ou puros)... condenou a corrupção e os excessos da Igreja e pretendia, enquanto simplificava o culto, trazer a moralidade cristã de volta a uma pureza perfeita... O Papa Inocêncio III ordenou uma cruzada contra eles em 1208 que durou mais de 20 anos e foi, apenas, uma grande roubalheira. Grandes cidades foram queimadas, populações inteiras foram massacradas, sem que nem mulheres, nem crianças fossem poupadas; todo o Sul da França foi pilhado, incendiado e manchado de sangue”

(Cours Moyen, p. 29)

“Os Albigenses, a população do Sul da França que não entendia a religião cristã da mesma maneira que os católicos, foram exterminados no Século XIII por vontade do Papa Inocêncio III”

(Récits familiers, p. 71)

“O clero havia se tornado muito corrupto, então parte das pessoas demandava que a Igreja fosse submetida a uma reforma, cujos apoiadores, muitos especialmente no Sul da França, eram geralmente chamados de albigenses... Os cruzados do Norte se comportaram com ferocidade; eles queimaram seus prisioneiros às centenas”

Brossolette (Cours Moyen, p. 22).

“Os albigenses não praticavam mais integralmente a religião católica... Béziers, Narbonne, Toulouse foram saqueadas”

Quatro imagens: 1. Os hereges do Sul escarnecendo de São Domingos; 2. O Conde de Toulouse fazendo penitência e apanhando dos Padres; 3. O saque de Béziers; 4. A caverna de Ombrives, onde os albigenses estavam aglomerados.

Devinat (Cours élémentaire, p. 58).

“Por chamado do Papa, que não conseguiu convertê-los, os cavaleiros do Norte da França atacaram os albigenses”

(Cours Moyen, p. 14).

“O Papa, primeiramente, enviou monges para pregarem, especialmente um monge espanhol chamado Domingos; mas os hereges... não se submeteram. Portanto, o Papa recorreu à espada”

Calvet (Cours Moyen, p. 42).

“Foi um assassinato horrível” p. 36 “Os habitantes do Languedoc tornaram-se suspeitos de heresia” (Cf. Cours préparatoire, p. 36)

(Cours élémentaire, p. 58). “No Sul da França, a Igreja não era amada; dizia-se que os Padres escondiam sua tonsura para não serem insultados... Os habitantes, de fato, eram hereges... O Papa Inocêncio III enviou um legado ao Conde de Toulouse, Raymond VI, para tentar trazê-lo de volta à fé. O legado foi assassinado... Indignado, o Papa pregou uma Cruzada.”

Gauthier et Deschamps (Cours Supérieur, p. 34).

“Os albigenses… pessoas simples, de costumes pacíficos, mas não austeros, que viviam fora da Igreja. Por chamado de Inocêncio III, milhares de saqueadores do Norte atacaram o lindo país dos troubadours... O chefe dos saqueadores, Simon de Montfort, como pagamento por seus serviços, recebeu do Papa as propriedades do infeliz Conde de Toulouse... Aqueles que resistiram foram torturados e, então, queimados vivos em um calabouço... Essa guerra monstruosa, injustificável, que destruiu a brilhante civilização do Sul... Unificou a França occitana e a França de oïl”

(Cours Moyen, p. 12). “Luís VIII cometeu o erro de participar na cruzada abominável”

Guiot et Mane (Cours Supérieur, p. 86).

“Os Albigenses, população feliz, pacificamente viciada em comerciar, que cultivou a poesia, a sonora e harmoniosa língua dos troubadours... Morte a eles!... Eles tinham ideias consideradas heréticas”

(Cours Moyen, p. 52).

“A prosperidade das cidades do Languedoc causaram inveja nos senhores do Norte; os habitantes do Sul foram acusados de heresia”

Rogie et Despiques (Cours Supérieur, p. 131)

“A doutrina dos Albigenses pretendia restaurar a pureza e a simplicidade dos costumes dos primeiros homens”

*

A Cruzada contra os albigenses é um dos grandes fatos históricos utilizados pelos livros-textos e historiadores “seculares” para acusar a Igreja de maneira severa. Para acentuar sua aversão, põem toda a responsabilidade na Santa Sé, enquanto, por outro lado, pintam um quadro idílico das crenças e costumes dos albigenses.

Antes de examinar a sinceridade dos argumentos que eles usaram em ambos os casos, é necessário fazer uma observação preliminar.

 

Contradições anticlericais sobre os albigenses

Primeiramente, salientemos que todos os nossos autores se contradizem tanto, que basta confrontarmos uns com os outros para tornar dúbias suas versões.

Se crermos em Aulard, Debidour, Rogie e Despiques, os albigenses pretendiam reformar a mores [os costumes] do clero. Austeros, enamorados da virtude e da santidade, estariam escandalizados pela vida relaxada mantida no Sul da França pela Igreja Católica e teriam pretendido remediá-la trazendo-a de volta às práticas puras do Cristianismo primitivo.

No sentido contrário, Gautier e Deschamps escrevem que os albigenses eram pessoas simples, de costumes pacíficos e não muito austeros. Qual a origem, portanto, da luta, e de quem é a responsabilidade? É da Igreja, que, por fanatismo, travou uma guerra contra homens pacíficos e indefesos, dizem Aulard e Debidour, Devinat, Gauthier e Deschamps.

Foram os senhores do Norte que, movidos por ganância, tomaram a defesa da ortodoxia como um pretexto e atiraram-se às populações cujas fortunas e terras eles cobiçavam, dizem Guiot e Mane.

E, quando a Igreja pregou a Cruzada contra os albigenses, qual era o motivo dela? Fanatismo, insinuam os autores mais “seculares” . Irritação por não conseguir converter o Sul, diz Devinat. O desejo de vingar o legado assassinado por ordem do Conde de Toulouse, diz Calvet.

Essas contradições nos provam que os problemas levantados pela Cruzada albigense foram múltiplos e complexos; a maioria dos historiadores só analisou um lado da questão. O amigo da verdade científica deve considerar todos.

Quando o fizer, perceberá que os fatos são mais complexos do que nossos historiadores simplórios geralmente pensam, e que as responsabilidades incumbem a várias pessoas em uma guerra que foi tanto religiosa quanto política, cujos combatentes haviam entrado em ação pelos motivos mais díspares: fé e ambição, o serviço de Deus e o amor da pilhagem, e que, finalmente, foi controlada tanto pelos chefes do feudalismo leigo, quanto pelos representantes da Igreja.

Culpar o Catolicismo por eventos que foram inspirados em política feudal, atos de crueldade e espoliação guiados por ganância e ambição seria supremamente injusto, especialmente se se mostrar que a Igreja protestou contra todos esses eventos e condenou esses atos. Portanto, é com as maiores precauções que devemos nos aproximar dessa delicada questão que envolveu a todos, libertando-nos de nossos preconceitos parciais e paixões, para deixar apenas os textos falarem.

Acerca das crenças e costumes dos albigenses os julgamentos proferidos pelos historiadores anti-católicos são os mais contraditórios.

Calvet nos diz que eles foram apenas “suspeitos de heresia”, Guiot e Mane que eles tinham “ideias consideradas heréticas”, e Brossolette “que eles não praticavam, integralmente, a religião católica.”

A conclusão que esses autores querem sugerir é que a repressão foi bárbara e odienta, pois foi covarde, e as nuances que distinguiam os albigenses dos católicos eram quase imperceptíveis.

Gauthier e Deschamps, ao contrário, nos dizem que os albigenses “permaneceram fora da Igreja”. Nessas duas afirmações, contraditórias ou, no mínimo, bastante diferentes umas das outras, aquela de Gauthier e Deschamps é a verdadeira.

Na realidade, a metafísica e a teologia dos cátaros divergia da metafísica e teologia católica. A Igreja ensina que Deus é um, os catáros, que havia dois deuses, o deus bom e o deus mau, ambos eternos, igualmente poderosos e em luta constante um contra o outro.

A Igreja diz que nosso mundo foi criado por Deus por seu amor, e que o homem recebeu a existência de seu Criador para o seu bem.

Os cátaros pregavam que a natureza e o homem são obras do deus mau, de quem são fantoches e vítimas, nas quais ele constantemente exerce sua maldade. Para os católicos, Cristo é Deus, vindo a este mundo para expiar o pecado original da humanidade através da obra da Redenção. Para os cátaros, era um eon (poder spiritual) ou uma emanação distante da divindade, que veio trazer ao homem o conhecimento das suas origens e, portanto, para o tirar, não por virtude ou pelo seu sangue, mas apenas por sua doutrina, da servidão miserável em que o homem vive. Portanto, por qualquer lado que olharmos, havia um antagonismo declarado entre Cristianismo e albigensianismo.

< continua >

Introdução ao décimo terceiro domingo de Pentecostes

 “Levanta-te, vai; a tua fé te salvou” (Evangelho).

 

Paramentos verdes

 

Continua a Santa Igreja a ler os Livros Sapienciais começados no domingo passado e abre hoje pela celebrada sentença do sábio: “Vaidade das vaidades e tudo é vaidade”. Quando Salomão se deixou arrastar na onda subversiva do amor às coisas da Terra, pensou e chegou a convencer-se de que eram realmente grandes e admiráveis. E nesta convicção, não se poupou a trabalhos e cuidados para amontoar ouro e construir palácios e se proporcionar os mais requintados prazeres. Mas quando voltou a si mesmo e pôde contemplar, à luz da sabedoria divina, o abismo tenebroso e o nada que era aquilo tudo, arrancou esse grito sublime e verdadeiramente digno do Céu: “Vaidade das vaidades e tudo é vaidade”. E se não podemos exigir de Salomão uma sabedoria perfeita, visto que viveu na lei antiga que não vedava de todo estas coisas, que diremos de nós que somos chamados a uma vida mais alta, senão que devemos imitar as virtudes celestes que são só espírito e inteligência?

Toda a Missa de hoje anda precisamente à volta deste ponto e procura excitar em nós a fé em Jesus Cristo, o único que nos poderá arrancar desta miséria. Já no Antigo Testamento, diz S. Paulo, era a fé em Jesus Cristo que salvava. Existia a lei, é verdade, mas era por si impotente para resgatar e Abraão salvou-se pela fé. O Evangelho diz-nos o mesmo. Curou o Senhor dez leprosos e só um voltou a render-Lhe graças; os nove, diz S. Agostinho, talvez tenham julgado rebaixar-se se dessem graças. E porque as não deram foram rejeitados. O outro que voltou foi acolhido na Igreja de Deus. Assim aos judeus por seu orgulho perderam também o reino que os profetas lhes anunciaram e o Filho de Deus veio abrir. Pelo contrário, nós todos, descendentes dos gentios, dissemos a Jesus que ponhamos n’Ele toda a nossa esperança e que Ele nos salvaria e alentaria com o maná do Seu corpo Santíssimo até chegarmos à pátria que antevemos para além do deserto desta vida terrena.   

Do Evangelho: Queriam os judeus impor a lei mosaica a todos os cristãos como princípio necessário e indispensável à salvação. S. Paulo demonstra na Epístola com argumentos decisivos que só a fé em Jesus Cristo nos pode salvar e de nenhum modo a lei do Sinai, e recorda as promessas concernentes a Abraão e à sua descendência, quer dizer, a Cristo e a todos os que fossem membros de Cristo pela Fé, pela Esperança e pela Caridade.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

O cristianismo que não morrerá

Gustavo Corção

As reflexões que no artigo de quinta-feira andamos fazendo, despertadas pela releitura de uma página de Chesterton, levam-nos à conclusão de que haverá arrefecimento do cristianismo todas as vezes que os homens se afligirem, se envergonharem ou se cansarem de o sentir tão incôngruo em relação ao curso da história, e daí tirarem a intenção de afeiçoá-lo àquele andamento.

A crise de nossos dias, a mais ampla e profunda de toda a história da Igreja, começou por um propósito de aggiornamento. O cristianismo estava envelhecido, a Igreja esclerosada, e o bravo mundo moderno passou a interessar-se prodigiosamente por sua renovação. Reformas... reformas... reformas... O pastor anglicano John Robinson, que andou por aqui a fazer conferências, escreveu um volume inteiro para explicar que hoje, na era espacial, não é possível ter a mesma idéia de Deus “fora de nós” tida e mantida pelos antigos. Eis o que diz na tradução portuguesa esse tipo bem representativo de nossa época: “Enquanto não tinham sido explorados, ou era possível explorar (por meio de radiotelescópios, se não com foguetões) os últimos recantos do Cosmos, ainda se podia localizar Deus mentalmente nalguma terra incógnita. Mas agora parece não haver lugar para Ele, não apenas na estalagem, mas em parte alguma do universo: é que já não há lugares vazios.”

É difícil, em tão poucas linhas, dizer mais densa coleção de asneiras sobre a presença de Deus que, para esse notável anglicano, ao que se vê, sempre esteve no limbo das primeiras imagens infantis. O reverendo (que o Prof. Cândido Mendes Almeida importou quando por aqui é abundantíssimo o similar nacional), fascinado por leituras de vulgarizações, e esquecido da presença de Deus em todas as coisas como causa primeira, e como sustentador de todas as existências, pensa que o homem já explorou todos os recantos do universo!

O leitor encontrará no livro Progresso e Progressismo, AGIR, p. 130, e seguintes, considerações mais desenvolvidas sobre o autor anglicano e sua obra Honest to God que foi best-seller em vários idiomas.

No momento quero deter a atenção do leitor diante deste bonzo “a atualidade” que tem mais adoradores do que todos os Budas do oriente. Passou pelos seminários, pelas salas de capítulo, pelos claustros mais serenos e austeros um frenesi de atualização, um furor indecente de se prosternarem todos diante de um Hoje tornado suprema divindade. Ninguém percebe, nem tenta demonstrar as vantagens da substituição de tais fórmulas por tais outras. Não são mais claras, não são mais belas, mas são reformadas e nisto consiste sua suprema nobreza.

***

Há mil maneiras de tentar banalizar o cristianismo. A mais ampla mas também mais humilde e mais triste é aquela produzida pelo fato de não sermos santos, ou de serem tão poucos os que realizam desde já, aqui e agora, ao menos em algumas cintilações, a maravilhosa e permanente novidade que é Cristo Jesus; mas a mais espessamente estúpida é aquela que, não vendo a supernal, a transcendental Novidade, quer submeter o cristianismo à tirânica frivolidade das pequeninas coisas novas com que o homem tece e borda sua frágil atualidade que já nasce em processo de envelhecimento.

Nunca se falou com tanto garbo no “mundo moderno” e em suas terríveis exigências, mas ninguém se dá ao cuidado de especificar essa modernidade, nem ao cuidado de esconder suas espetaculares misérias. Ninguém, evidentemente, contestará que os veículos hoje são muito mais rápidos do que o cavalo de Carlos Magno, ou o burrico que São Bernardo montou para ir aonde o chamavam, e onde confundiria o bom mas trêfego Abelardo. Eu não preciso fazer malabarismos de imaginação para rever a figura do Santo abade de Claraval, e para imaginar as santas cogitações com que se preparava para defender a Sagrada Doutrina enquanto o bom burrico o ia levando no mesmo doce ritmo com que um outro irmão burro mil anos atrás levara ao Egito, Nossa Senhora e o Menino Jesus. O que preciso fazer esforço para imaginar é o quadro atualizado de um São Bernardo a sair de seu mosteiro, num Fusca a 120 quilômetros por hora. Não digo que seja impossível. Metafisicamente é possível que um grande santo de hoje dirija um carro; mas tudo parece contraindicar que esse veículo possa proporcionar ao hipotético santo o mesmo lazer para a meditação, como também tudo leva a crer que a velocidade do veículo não possa modificar o bom fundamento da argumentação que venceria Abelardo.

Curioso progresso! O que hoje se vê todos os dias são revoadas de Abelardos, e de sub-Abelardos, que a mil quilômetros por hora atravessam os oceanos para se reunirem em congressos, sínodos, conferências, onde serão propostas mil pequenas e efêmeras renovações por dia. E é com esse frenético ativismo que querem atualizar o Cristianismo; e é com essa submissão ao século que querem vitalizá-lo. Depressa se desencantam de correr e voar, e então, para reduzir o Cristianismo a um puro humanismo, resolvem anunciar a morte de Deus.

Mas o menino Jesus, no mesmo ritmo lento de outrora, continua a nascer virginalmente todas as manhãs nas almas submissas, e continua a ressuscitar triunfalmente todas as manhãs para deixar em nós o anúncio de nossa própria ressurreição. E nisto pomos todo o fervor de nossa Fé: passarão os impérios, as máquinas do mundo, mas esse cristianismo sempre pequenino, manso, único e eterno não passará.

(O Globo, 14/8/71)

"O monstro do tomismo" - nota biográfica do Pe. Garrigou-Lagrange

Pe. Dominique Bourmaud, FSSPX

[Nota da Permanência: O leitor interessado encontrará neste site muitos artigos teológicos e espirituais do dominicano Garrigou-Lagrange, monstro do tomismo]

 

O Pe. Reginald Garrigou-Lagrange (1877-1964) nasceu no Sul da França, mas mudou-se freqüentemente, acompanhando as numerosas mudanças de posto de seu pai, como coletor de impostos. Após estudar medicina, ouviu o chamado divino e juntou-se à província dominicana de Paris, tendo estudado em Flavigny (atualmente Seminário Francês da FSSPX). Suas pesquisas o levaram a buscar estudos filosóficos na Sorbonne, Paris, e a estudar os escritores modernos. Seus interesses acadêmicos permitiram-lhe ser formado em encontros com mentes de primeira classe como o Pe. Ambroise Gardeil, o Pe. Norberto del Prado e Juan Arintero.

 

Realizações intelectuais

Uma formação tão poderosa fez com que fosse escolhido para ministrar um curso sobre apologética no Instituto Angelicum de Roma aos 32 anos, cujo conteúdo veio a ser depois reunido num livro em latim, de dois volumes, intitulado De revelatione. Em seguida, foi chamado a ministrar cursos sobre dogma e alguns sobre filosofia, mas também deu aulas populares sobre teologia ascética e mística. Para o encanto de seus alunos, deu vários cursos de 1909 a 1960, mesmo quando já havia ultrapassado os 80 anos, mantendo grande entusiasmo. Seus cursos de teologia eram notáveis: abria amplos panoramas para os seus ouvintes e sabia como conectar os mestres da ciência especulativa com os da espiritualidade. Era uma mostra viva da harmonia entre as três sabedorias: filosófica, teológica e mística.

O Pe. Garrigou foi nomeado consultor do Santo Ofício em 1955. Longe de ser uma sinecura, esse trabalho lhe exigia esforço semanal de pesquisa sobre questões doutrinais nos arquivos secretos que lhe eram fornecidos pela Congregação. Desfrutou da mestria do Cardeal Ottaviani, particularmente sua arte na condução da discussão e na sumarização de questões, teses e argumentos. Amigo de grandes autores franceses, como Jacques Maritain e Henri Ghéon, Garrigou-Lagrange foi um escritor prolífico, cuja qualidade do ensino manteve-se sempre em pé de igualdade com a quantidade produzida. Além de inúmeros artigos para a Revue Thomiste e a revista Angelicum, escreveu 23 obras substanciais.

 

Um escritor espiritual

Além das obras em latim, que reúnem seus cursos formais de filosofia e teologia dados no Angelicum, os leitores podem se surpreender vendo muitos títulos sobre tópicos puramente espirituais. Aos muito famosos Les Trois âges de la vie intérieure, La Mère du Sauveur et notre vie intérieure e L’amour de Dieu et la croix de Jésus, junta-se uma obra menos conhecida intitulada De Sanctificatione sacerdotum secundum nostri temporis exigentias.

Foi no Angelicum, entre os anos 1909 e 1910, que conheceu Juan Gonzalez-Arintero, O.P., e leu sua Evolución mística. Arintero foi uma das figuras mais proeminentes do catolicismo na Espanha e participou da tentativa, no início do século XX, de restaurar a vida contemplativa à sua antiga glória. Juntamente com ele, Garrigou-Lagrange desempenhou um papel central em chamar a atenção para a natureza da contemplação e para nosso chamado universal, ainda que remoto, a ela. Num ponto mais controverso, sobre a natureza da contemplação, sua posição era muito clara: contemplação significava contemplação infusa, um conhecimento amoroso ou sabedoria que vem de Deus; um dom da presença amorosa de Deus, expressa tão claramente por São João da Cruz, Santa Teresa d’Ávila e outros místicos.

Pode-se dizer sobre suas obras aquilo que ele mesmo escreveu no prefácio de seu De Christo Salvatore: que seu único objetivo era lançar luz a partir dos princípios formulados por Santo Tomás de Aquino. Tinha bons motivos para manter esse método conservador:

“Aqui, como em qualquer outro lugar, temos de nos mover do mais certo e conhecido para o menos conhecido, do fácil para o difícil. Por outro lado, se estudássemos de forma dramática e cativante os tópicos difíceis por suas antinomias, poderíamos terminar, como aconteceu com muitos protestantes, negando as verdades mais fáceis e certas. A história da filosofia e da teologia mostra que freqüentemente é isso que acontece. Temos de destacar também que, se nas coisas humanas, onde o verdadeiro e o falso, o bem e o mal, estão misturados, a simplicidade é superficial e nos expõe ao erro, nas coisas divinas, ao contrário, onde há apenas verdade e bem, a simplicidade une-se perfeitamente à profundidade e à elevação, chegando mesmo a, sozinha, ser capaz de conduzir a essa elevação.”

 

Garrigou e Maritain

Os dominicanos enviaram o Pe. Garrigou a Paris, para estudar na Sorbonne. Foi no curso de filosofia de Henri Bergson, provavelmente no Collège de France, que conheceu Jacques Maritain. Este, por sua vez, é único entre os tomistas, por se tratar de um convertido; filósofo existencialista em sua juventude, foi seu encontro com o tomismo que o atraiu para a Igreja. Em geral, Maritain foi um sólido filósofo tomista. Mesmo Garrigou, inquestionavelmente um dos melhores tomistas do século passado e diretor espiritual de Maritain durante certo tempo, tece-lhe elogios por suas obras filosóficas.

Não fica claro quando a amizade que havia unido esses homens começou a rachar. A divisão quanto à condenação da Action Française em 1926 foi provavelmente um ponto de partida. Maritain, que havia se envolvido com o socialismo na juventude, tendia a apoiar os revolucionários espanhóis contra Franco e, na França, Charles de Gaulle em vez de Pétain. Essas visões políticas opostas aumentaram o atrito. Quando compreendeu a posição liberal de seu amigo, Garrigou-Lagrange aconselhou-o a deixar as questões políticas de lado e a se dedicar à sua especialidade, a filosofia tomista. Na época de Humanismo Integral, em que Maritain defendia a liberdade religiosa como um direito humano natural, a amizade tinha acabado. Diz-se que quando Maritain, o convertido, tentou persuadir o super-tradicional Garrigou-Lagrange sobre a democracia, este se indignou e disse algo como: “Agora você resolveu dar lição a nós, que somos católicos há séculos, sobre uma nova doutrina social católica?!?” Maritain esperou que Garrigou pedisse desculpas, mas ele nunca o fez.

Há um livro que resume o relacionamento entre os dois famosos tomistas, chamado The Sacred Monster of Thomism (O Monstro Sagrado do Tomismo), de Richard Peddicord; deve, porém, ser lido com cuidado, pois o autor é bem “maritainiano” em sua abordagem política.

 

Combate ao neomodernismo

Durante sua longa vida, o Pe. Garrigou sempre viu o modernismo como o inimigo número um. Explica a revista L’Ami du Clergé: “Ele considerava uma questão de consciência refutar o modernismo e todas as suas aplicações. Seria falso crer que fosse naturalmente beligerante... mas tinha um tal amor pela Verdade que não podia vê-la ameaçada sem partir para a luta com toda a sua coragem e o seu talento.” Foi isso que o motivou a escrever um livro em defesa da Fé e da filosofia perene, Le sens commun, e também Dieu, son existence et sa nature.[1]

Marcel de Corte, o grande filósofo belga do século XX, foi salvo dos disparates modernistas pelos escritos de Garrigou: “Continuei a crer porque vi que me era impossível abandonar a Fé sem negar ao mesmo tempo esse realismo que a minha raça havia depositado na profundeza mais íntima de meu ser.” De Corte continua com um severo diagnóstico do pensamento moderno:

“Está chegando o tempo em que a única filosofia que será excluída da sociedade cristã será aquela que comandou, por mais de mil anos, seu desenvolvimento intelectual. A filosofia dos intelectuais cristãos de hoje é tudo o que se pode querer, menos grega e tomista: parece que os panfletos relativos à ‘filosofia’ imanente e à mitologia da evolução universal submergiram quase todas as mentes. É necessário ter uma alma de ferro para caminhar sozinho na antiga estrada real do pensamento tradicional católico. Hoje, é o realismo, a metafísica do senso comum, a firme adesão à evidência e aos primeiros princípios dos seres e do pensamento que são corpos estranhos, inassimiláveis e até perigosos nas estruturas sociais do catolicismo presente. Não nos surpreendamos. Como disse o Cardeal de Retz: ‘É uma constante que todos queiram ser enganados’.”

Ao lidar com o neomodernismo, Garrigou ficou em evidência ao escrever La synthèse thomiste, com um apêndice, La nouvelle théologie où va-t-elle?,[2] que concluía com estas fortes palavras:

“Não consideramos que os escritores que acabamos de descrever tenham abandonado a doutrina de Santo Tomás; eles nunca aderiram a ela, nunca a entenderam realmente. Essa observação é dolorosa e preocupante. Como tal maneira de ensino poderia formar algo além de céticos? De fato, eles não propõem qualquer alternativa à doutrina de Santo Tomás. Aonde vai a nova teologia? Aonde, senão descendo a ladeira do ceticismo, da fantasia e da heresia?”

Após ter aparecido na revista Angelicum, esse artigo foi recebido com sarcasmo e insultos, o que revela que o autor acertou em cheio. Em sua defesa, escreveu outros artigos, como L’immutabilité des vérités définies et le surnaturel e Le Monogénisme n’est-il nullement révélé, pas même implicitement?.[3] Como se pode ver, eles iriam formar a base para a encíclica Humani Generis de Pio XII, que foi um syllabus de erros neomodernistas.

A estima que Pio XII sentia por Garrigou-Lagrange levou-o a escrever por ocasião do 80º aniversário deste:

“Uma razão mais forte leva-nos a oferecer nossas congratulações e felicitações àqueles que, por seus talentos e ciência, realçam o nome católico e obtêm um merecido favor de nossa parte... Estamos bem cientes da eminente piedade com que cumpres teus deveres religiosos, do renome que tens adquirido a serviço da filosofia tomista e da teologia sagrada, essa teologia que tens ensinado por cinqüenta anos, quarenta e oito deles nesse refúgio romano da sagrada doutrina chamado Angelicum. Temos sido freqüentemente testemunhas do talento e zelo com que tens, por palavra e por escritos, defendido e salvaguardado a integridade do dogma cristão.”

(The Angelus, 445. Tradução: Permanência)


[1] “O senso comum” e “Deus, sua existência e sua natureza”. [N. do T.]

[2] A síntese tomista, com seu apêndice “Aonde vai a nova teologia?” (Ver em http://permanencia.org.br/drupal/node/881) . [N. do T.]

[3] “A imutabilidade das verdades definidas e o sobrenatural” e “O Monogenismo não é de forma alguma revelado, nem mesmo implicitamente?”. [N. do T.]

Esperamos muito de nosso diretor espiritual, mas o que devemos fazer para colhermos os benefícios espirituais de sua direção?

Pe. Juan Carlos Iscara, FSSPX

A primeira e mais importante obrigação do dirigido é total sinceridade e transparência do coração, porque, sem isso, é completamente impossível que a direção produza frutos. O diretor precisa saber tudo: tentações, fraquezas, propósitos, boas e más inclinações, dificuldades e estímulos, triunfos e derrotas, esperanças e ilusões – tudo deve ser revelado com humildade e simplicidade. Alguns autores espirituais até recomendam que se revele a falta de confiança que se pode estar começando a ter em relação ao diretor.

É errado – e inútil para fins espirituais – revelar apenas coisas boas ou menos más, revelando nossas maiores misérias e pecados apenas a outro Padre. Sem sinceridade e abertura, seria melhor abandonar uma direção espiritual que, nesse caso, será pura e simples hipocrisia, enganação e desperdício de tempo.

Porém, não é necessário exagerar. Tudo que é importante para a vida espiritual deve ser revelado com total sinceridade ao diretor; mas seria um exagero evidente dar-lhe contas até dos menores detalhes da vida íntima da pessoa dirigida. Muitas coisas de menor importância podem e devem ser resolvidas pelo dirigido.

Ela também requer total docilidade e obediência ao diretor. Sem essa mansidão e obediência, a direção seria totalmente ineficaz e um desperdício de tempo. Embora seja verdade que o diretor não tem jurisdição sobre seu dirigido (como um superior religioso tem sobre seus inferiores), ele precisa de uma obediência nas matérias que dizem respeito à direção, sob pena de encerrar a direção ali mesmo. Como dirigidos, precisamos obedecer simplesmente, sem distinções, restrições ou usando nossas próprias interpretações.

Muito pior que desobediência seria manipular a direção, para que o diretor não pergunte mais do que nós queremos. São João da Cruz condena severamente esse abuso. Porém, não seria contrário à obediência manifestar nossas opiniões e até mesmo, respeitosamente, manifestar discordâncias, mas obedecer assim mesmo se o diretor insistir apesar delas.

Também devemos ser perseverantes. A direção está completamente esterilizada, praticamente anulada, se mudarmos frequentemente de diretor por razões fúteis ou inconsistentes; se passarmos longos períodos sem direção; se frequentemente mudamos exercícios, métodos e procedimentos de santificação; se nos deixamos levar pelo calor do momento ou por nossos caprichos na prática das regras recebidas pelo diretor; etc., etc.

Finalmente, o dirigido não pode esquecer que, se seu diretor está obrigado a manter o selo sacramental ou segredo natural, o dirigido também está obrigado a manter uma discrição especial em relação a seu diretor. Mais especificamente, o dirigido não deve revelar aos outros os conselhos, normas ou conselho particular recebido de seu diretor, mesmo para edificar o próximo. O conselho particular dado a certa alma e tendo em vista sua especial psicologia e temperamento pode não ser adequado a outras almas colocadas em circunstâncias diferentes ou dotadas de temperamento diferente. Infelizmente, muitos problemas, discórdias, invejas por parte das outras almas e mil outras inconveniências, às vezes, advêm da falta de discrição dos penitentes!

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