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Category: HistóriaConteúdo sindicalizado

O que o ocidente medieval deve aos árabes, e o que não lhes deve

Jean Sévillia

Professor substituto de história e doutor em letras, Sylvain Gouguenheim ensina história medieval na prestigiosa École normale supérieure de Lyon. Até pouco tempo, era ele um professor sem história. Estimado pelos estudantes, reconheciam-no os seus pares como um especialista em Idade Média alemã. As suas doutas publicações e livros — sobre Hidelgarda de Bingen, mística da região da Renânia no século XII, sobre o terror do ano mil ou sobre os cavaleiros teutônicos[1] — granjeavam respeito para este medievalista que também é germanista.

Em 2008 a curiosidade o levou a pesquisar a transmissão da cultura helênica na Idade Média. Desempenharam os árabes um papel no processo, ninguém o ignora, mas em que medida? Um lugar comum reza que o conhecimento antigo, depois de desaparecer da Europa em razão da queda do Império Romano, refugiou-se no mundo muçulmano que, ao traduzir para o árabe os textos gregos, transmitiram-nos ao Ocidente – transmissão que possibilitou o florescimento da cultura ocidental.

A mulher sem alma

 

Régine Pernoud

 

Em 1975, “ano internacional da mulher”, o ritmo de referências à Idade Média tornou-se estonteante; a imagem da Idade Média, dos tempos obscuros de onde se emerge, como a Verdade de um poço, impunha-se a todos os espíritos e fornecia um tema básico para os discursos, colóquios, simpósios e seminários de todos os tipos. Como eu mencionasse, um dia, em sociedade, o nome de Eleonora de Aquitânia, obtive logo aprovações entusiásticas: “Que personagem admirável! — exclamou um dos presentes. Numa época em que as mulheres só pensavam em ter filhos...”. Eu lhe fiz uma observação sobre o fato de que Eleonora parecia haver pensado assim pois teve dez e, considerando sua personalidade, isto não poderia ter ocorrido por simples advertência. O entusiasmo tornou-se um pouco menor.

 

A situação da mulher, na França medieval, é na atualidade assunto mais ou menos novo: poucos estudos sérios lhe foram consagrados, pode-se mesmo dizer que se os poderia contar pelos dedos. A sociedade Jean Bodin, cujos trabalhos são tão notáveis, editou em 1959-1962 dois grossos volumes (respectivamente 346 e 770 páginas) sobre a mulher. Todas as civilizações são sucessivamente examinadas. A mulher é estudada na sociedade do Sião, ou de acordo com os vários direitos cuneiformes, ou no Direito malikité-magrebino, mas, para o nosso Ocidente medieval, não se contam mais do que dez páginas relativas ao Direito canônico, outras dez ao período que vai do século XIII ao fim do século XVII, um estudo consagrado aos tempos clássicos até o Código Civil, um outro, a monarquia Franca, e trabalhos mais pormenorizados sobre a Itália, a Bélgica e a Inglaterra, na Idade Média. E eis tudo. O período feudal é completamente esquecido.

 

É igualmente inútil procurar nesta obra um estudo sobre a mulher nas sociedades célticas, onde, estamos certos, ela tinha um papel contrastante com o confinamento a que estava sujeita nas sociedades do tipo clássico greco-romano. No que se refere aos celtas, para os historiadores de nossa época, o homem e a mulher se encontravam num pé de igualdade completa, tanto que não se ressalta nunca nem um nem outro. Aos celtas, de uma vez por todas, foi recusado o direito de existir.

 

No entanto, impõe-se uma imagem, à qual já tive ocasião de me referir.1.Não é, em realidade, surpreendente pensar que nos tempos feudais a rainha é coroada como o rei, geralmente em Reims, às vezes em outra catedral do domínio real (em Sens, como Margarida de Provence), mas sempre pelas mãos do arcebispo de Reims? Dito de outra forma, atribuía-se à coroação da rainha tanto valor quanto à do rei. Ora, a última rainha a ser coroada foi Maria de Medicis; ela o foi, aliás, tardiamente, em 1610, na véspera do assassinato de seu marido, Henrique IV; a cerimônia ocorreu em Paris, segundo um costume consagrado nos séculos anteriores (atingir Reims representava então um feito militar por causa das guerras anglo-francesas). E, além disso, desde os tempos medievais (o termo é tomado aqui em oposição a tempos feudais), a coroação da rainha tinha-se tornado menos importante que a do rei; numa época em que a guerra se alastrava pela França de forma endêmica (a famosa Guerra dos Cem Anos), as necessidades militares começaram a ter primazia entre todas as preocupações, por ser o rei, antes de tudo, o “chefe da guerra”. Tanto assim é que, no século XVII, a rainha desaparece literalmente da cena em proveito da favorita. Basta lembrar qual foi o destino de Maria Teresa ou o de Maria Leszcynska para se convencer. E quando a última rainha quis retomar uma parte deste poder, lhe foi dada ocasião de se arrepender, pois ela se chamava Maria Antonieta (é justo lembrar que a última favorita, a Du Barry, reuniu-se à última rainha no cadafalso).

 

Esta rápida visão do papel das rainhas dá idéia bem exata do que se passou com as mulheres; o lugar que elas ocuparam na sociedade; a influência que exerceram seguiu, exatamente, um traçado paralelo. Enquanto uma Eleonora de Aquitânia, uma Branca de Castela dominam realmente seus séculos, exercem poder sem contestação no caso de ausência do rei, doente ou morto, e têm suas chancelarias, suas alfândegas, seus campos de atividade pessoal (que poderia ser reivindicado como um fecundo exemplo para os movimentos feministas de nosso tempo), a mulher, nos tempos clássicos, foi relegada a um segundo plano; exerce influência só na clandestinidade e se encontra notoriamente excluída de toda função política ou administrativa. Ela é mesmo tida como incapaz de reinar, de suceder no feudo ou no domínio, principalmente nos países latinos e, finalmente, em nosso Código, de exercer qualquer direito sobre seus bens pessoais.

 

É, como sempre, na História do Direito que se deve procurar os fatos e seu significado, ou seja, a razão desta decadência que se transformou, com o século XIX, no desaparecimento total do papel da mulher, principalmente na França. Sua influência diminui paralelamente à ascensão do Direito romano nos estudos jurídicos, depois nas instituições e, por fim, nos costumes. É um apagar progressivo do qual se pode seguir as principais etapas, pelo menos na França, muito bem.

 

Curiosamente a primeira disposição que afasta a mulher da sucessão ao trono foi tomada por Filipe, o Belo. É verdade que este rei estava sob a influência dos legisladores meridionais, que tinham literalmente invadido a corte de França, o começo do século XIV, e que, representantes típicos da burguesia das cidades notadamente das do Sul mais voltadas para o comércio, redescobriram o Direito romano com uma verdadeira avidez intelectual.

 

Esse Direito concebido por militares, funcionários, comerciantes, conferia aos proprietários o jus utendi et abutendi, o direito de usar e abusar, em completa contradição com o Direito consuetudinário de então, mas eminentemente favorável aos que detinham riquezas, principalmente móveis. Àqueles, com razão, esta legislação parecia infinitamente superior aos costumes existentes para assegurar e garantir bens, tráficos e negócios. O Direito romano do qual vemos renascer a influência na Itália, em Bolonha principalmente, foi a grande tentação do período medieval; ele foi estudado com entusiasmo não só pela burguesia das cidades, mas, também, por todos os que viam nele um instrumento de centralização e de autoridade. Ele se ressente, com efeito, de suas origens imperialistas e, por que não dizer, colonialistas. Ele é o Direito, por excelência, dos que querem firmar uma autoridade central estatizada. Também é reivindicado, adotado, estendido para as potências que procuravam, então, a centralização: pelo imperador, primeiro, depois pelo Papa. Em meados do século XIII, o imperador Frederico II, cujas tendências eram as de um monarca, fez deste tipo de direito a lei comum dos países germânicos. A universidade que ele funda em Nápoles — a única que os súditos do imperador estavam daí em diante autorizados a freqüentar — ministra o estudo do Direito romano, tão bem que esse Direito regeu as instituições e os costumes dos países germânicos numa época em que o Ocidente não o admitia ainda.2. Apenas ao longo do século XVII é que o estudo do Direito romano, precisamente, porque era o Direito imperial, será admitido na Universidade de Paris. É verdade que, muito antes, era ensinado em Toulouse, e que, favorecido pela admiração exagerada que se sente, no século XVI, pela Antiguidade, tinha começado a impregnar os hábitos e a modificar profundamente os costumes e as mentalidades, na própria França.

 

Ora, o Direito romano não é favorável à mulher, nem tampouco à criança. É um direito monárquico, que só admite um fim. É o direito do pater familias, pai, proprietário e, em sua casa, grande-sacerdote, chefe da família com poderes sagrados, sem limites no que concerne a seus filhos; tem sobre eles direito de vida e de morte — e da mesma forma sobre sua mulher, apesar das limitações, tardiamente introduzidas sob o Baixo Império.

 

Apoiando-se no Direito romano é que juristas como Dumoulin, por seus tratados e seus ensinamentos, contribuem, por sua vez, para estender o poder do Estado centralizado e também — o que nos interessa aqui — para restringir a liberdade da mulher e da sua capacidade de ação, principalmente no casamento. A influência deste direito será tão forte que, no século XVI, a maioridade, que era aos doze anos para as meninas e quatorze para os rapazes, na maior parte dos costumes, vai ser transferida para a mesma idade fixada em Roma, isto é, vinte e cinco anos (em Roma, a maioridade não importava muito, pois o poder do pai sobre os filhos perdurava durante toda a vida). Era uma nítida regressão sobre o Direito consuetudinário, que permitia à criança adquirir, muito jovem, uma verdadeira autonomia, sem que, por isso, a solidariedade da família lhe fosse negada. Nesta estrutura, o pai tinha autoridade de gerente, não de proprietário: ele não tinha o poder de deserdar seu filho mais velho e era o costume que, nas famílias nobres ou de homens comuns, regulava a devolução dos bens, em um sentido que mostra claramente o poder que a mulher conservava sobre o que lhe pertencia: no caso de um casal morrer sem herdeiros diretos, os bens provenientes do pai iam para a família paterna, mas os provenientes da mãe voltavam para a família materna, segundo o adágio bem conhecido do Direito consuetudinário: paterna paternis, materna maternis.

 

No século XVII já se constata uma profunda evolução neste ponto de vista: os filhos, considerados como menores até vinte e cinco anos, continuam sob a autoridade do pai e a característica de propriedade tendente a tornar-se monopólio do pai não faz mais do que se firmar. O Código de Napoleão dá o último retoque a este dispositivo e dá um sentido imperativo às tendências que começaram a se firmar desde o fim da época medieval. Lembremos que apenas no fim do século XVII a mulher toma obrigatoriamente o nome do marido; e, também, que é somente com o Concílio de Trento, portanto na segunda metade do século XVI, que o consentimento dos pais torna-se necessário para o casamento de adolescentes; tanto quanto se tornou indispensável a sanção da Igreja. Ao velho adágio dos tempos anteriores:

 

Beber, comer, dormir juntos

Fazem o casamento, me parece

 

junta-se:

 

Mas é preciso passar pela Igreja.

 

Não nos esqueceremos de destacar aqui o número de uniões devidamente arranjadas pela família nos tempos feudais: os exemplos são abundantes realmente, moças e rapazes, noivos desde o berço, prometidos um ao outro. Também não faltou quem quisesse argumentar com o fato de que as mulheres não eram livres na época; o que é fácil de retrucar, pois que, deste ponto de vista, rapazes e moças se encontravam em pé de igualdade rigorosa, porque se dispõe do futuro esposo absolutamente do mesmo modo que da futura esposa. Deste modo, é incontestável que ocorria, então, o que ainda hoje acontece em dois terços do mundo, isto é, que as uniões, em sua grande maioria, eram arranjadas pelas famílias. E nas famílias nobres, especialmente as reais, essas disposições faziam, de algum modo, parte das responsabilidades de nascimento, porque um casamento entre dois herdeiros de feudo ou de reinos era considerado como o melhor meio de selar um tratado de paz, assegurar amizade recíproca e, também, de garantir para o futuro uma herança vultosa.

 

Uma força lutou contra estas uniões impostas, e esta foi a Igreja; ela multiplicou, no Direito canônico, as causas de nulidade, reclamou sem cessar a liberdade para os que se unem, um com relação ao outro e, com freqüência, mostrou-se bastante indulgente ao tolerar, na realidade, a ruptura de laços impostos — muito mais nesta época do que mais tarde, notemos. O resultado é a constatação que provém da simples evidência de que o progresso da livre escolha do esposo acompanhou em toda parte o progresso da difusão do Cristianismo. Hoje, em países cristãos, esta liberdade, tão justamente reclamada, é reconhecida pelas leis, enquanto que, nos países muçulmanos ou nos países do Extremo Oriente, esta liberdade, que nos parece essencial, não existe ou só recentemente foi concedida.3

 

Isto nos leva a discutir o slogan: “Igreja hostil à mulher”. Não nos demoraremos em questionar a afirmação acima, o que exigiria um volume à parte; não iremos mais discutir as tolices evidentes4 que foram proferidas sobre o assunto. “Não foi senão no século XV que a Igreja admitiu que a mulher tinha alma”, afirmava candidamente, um dia no rádio, não sei que romancista certamente cheio de boas intenções, mas cuja informação apresentava algumas lacunas! Assim, durante séculos, batizou-se, confessou-se e ministrou-se a Eucaristia a seres sem alma! Neste caso, por que não aos animais? É estranho que os primeiros mártires honrados como santos tenham sido mulheres e não homens. Santa Agnes, Santa Cecília, Santa Ágata e tantas outras. É verdadeiramente triste que Santa Blandina ou Santa Genoveva tenham sido desprovidas de uma alma imortal. É surpreendente que uma das mais antigas pinturas das catacumbas (no cemitério de Priscille) representasse, precisamente, a Virgem com o Menino, bem designado pela estrela e pelo profeta Isaías. Enfim, em quem acreditar, nos que reprovam na Igreja medieval justamente o culto da Virgem Maria, ou naqueles que julgam que a Virgem Maria era, então, considerada como uma criatura sem alma?

 

Sem nos demorarmos, portanto, nestas tolices, recordaremos aqui que algumas mulheres (que nada designavam particularmente, pela família ou pelo nascimento, pois que vinham, como diríamos atualmente, de todas as camadas sociais, como, por exemplo, a pastora de Nanterre) usufruíram na Igreja, e justamente por sua função na Igreja, de um extraordinário poder na Idade Média. Certas abadessas eram senhoras feudais cujo poder era respeitado do mesmo modo que o de outros senhores; algumas usavam o báculo como os bispos; administravam, muitas vezes, vastos territórios com cidades e paróquias... Um exemplo, entre mil outros: no meio do século XII, cartulários nos permitem seguir a formação do mosteiro de Paraclet, cuja superiora é Heloisa; basta percorre-los para constatar que a vida de uma abadessa, na época, comporta todo um aspecto administrativo: as doações que se acumulam, que permitiam perceber ora o dízimo de um vinhedo, ora o direito às taxas sobre o feno e o trigo, aqui o direito de usufruir uma granja, e lá o direito de pastagem na floresta... Sua atividade é, também, a de um usufruidor, ou seja, a de um senhor. Quer dizer que, a par de suas funções religiosas, algumas mulheres exerciam, mesmo na vida laica, um poder que muitos homens invejariam no presente.

 

Por outro lado, constata-se que as religiosas desta época — sobre as quais, digamos de passagem, ainda nos faltam estudos sérios — são na maioria mulheres extremamente instruídas, que poderiam rivalizar, em sabedoria, com os monges mais letrados do tempo. A própria Heloísa conhece e ensina às monjas o grego e o hebraico. É de uma abadia de mulheres, a de Gandersheim, que provém um manuscrito do século X contendo seis comédias, em prosa rimada, imitação de Terêncio, e que são atribuídas à famosa abadessa Hrostsvitha, da qual, há muito tempo, conhecemos a influência sobre o desenvolvimento literário nos países germânicos. Estas comédias, provavelmente representadas pelas religiosas, são, do ponto de vista da história dramática, consideradas como prova de uma tradição escolar que terá contribuído para o desenvolvimento do teatro na Idade Média. Digamos, de passagem, que muitos mosteiros de homens e de mulheres ministravam instrução às crianças da região.

 

É surpreendente, também, constatar que a mais conhecida enciclopédia do século XII é da autoria de uma religiosa, a abadessa Herrade de Landsberg. É a famosa Hortus deliciarum (Jardim das delícias) na qual os eruditos retiravam os ensinamentos mais corretos sobre o avanço das técnicas, em sua época. Poder-se-ia dizer o mesmo das obras da celebre Hildegarde de Bingen. Enfim, uma outra religiosa, Gertrude de Helfa, no século XIII, conta-nos como se sentiu feliz ao passar de estado de gramaticista ao de teóloga, isto é, depois de ter percorrido o ciclo de estudos preparatórios ela galgara o ciclo superior, como se fazia na Universidade. O que prova que, ainda no século XIII, os conventos de mulheres permaneciam sendo o que sempre foram desde São Jerônimo, que instituiu o primeiro dentre eles, a comunidade de Belém: lugares de oração, mas, também, de ciência religiosa, de exegese, de erudição; estuda-se a Escritura Sagrada, considerada como a base de todo conhecimento e, também, os elementos de saber religioso e profano. As religiosas são moças instruídas; portanto, entrar para o convento é o caminho normal para as que querem desenvolver seus conhecimentos além do nível comum. O que parece extraordinário em Heloísa é que, em sua juventude, não sendo religiosa e não desejando claramente entrar para o convento, procurava, todavia, estudos muito áridos, ao invés de se contentar com a vida mais frívola, mais despreocupada, de uma jovem desejando “viver no século”. A carta que Pedro, o Venerável lhe enviou o diz expressamente.

 

Mas há algo mais surpreendente. Se quisermos fazer uma idéia exata do lugar ocupado pela mulher na Igreja dos tempos feudais, é preciso perguntarmo-nos o que se diria, em nosso século XX, de conventos de homens colocados sob a direção de uma mulher. Um projeto deste gênero teria, em nosso tempo, alguma possibilidade de se realizar? E, no entanto, isto foi realizado com pleno sucesso, e sem provocar o menor escândalo, na Igreja por Robert d’Arbrissel, em Fontevrault, nos primeiros anos do século XII. Tendo resolvido fixar a incrível multidão de homens e mulheres que se arrastava atrás dele — porque ele foi um dos maiores pregadores de todos os tempos —, Robert d’Abrissel decidiu fundar dois conventos, um de homens, outro de mulheres;5 entre eles se elevava a Igreja, único lugar em que monges e monjas podiam se encontrar. Ora, este mosteiro duplo foi colocado sob a autoridade, não de um abade, mas de uma abadessa. Esta, por vontade do fundador, devia ser viúva, tendo tido a experiência do casamento. Para completar, digamos que a primeira abadessa que presidiu os destinos da Ordem de Fontevrault, Petronila de Chemillé, tinha 22 anos. Não acreditamos que, mesmo nos dias de hoje, semelhante audácia tivesse a menor oportunidade de ser considerada ao menos uma única vez.

 

Se se examinam os fatos, uma conclusão se impõe: durante todo o período feudal, o lugar da mulher na igreja apresentou algumas diferenças daquele ocupado pelo homem (e em que medida não seria esta uma prova de sabedoria: levar em conta que o homem e a mulher são duas criaturas equivalentes, mas diferentes?), mas este foi um lugar eminente, que simboliza, por outro lado, perfeitamente o culto, insigne também, prestado à Virgem entre todos os santos. E é pouco surpreendente que a época termine por uma figura de mulher: a de Joana D’Arc, que, seja dito de passagem, não poderia, jamais, nos séculos seguintes, obter a audiência e suscitar a confiança que conseguiu, afinal.

 

É surpreendente, também, observar a rigidez que se produziu ao redor da mulher no extremo fim do século XIII. É por uma medida bastante significativa que, em 1298, o Papa Bonifácio VII decide para as monjas (cartuxas, cistercienses) a clausura total e rigorosa que elas conheceram a partir daí. Em seguida, não se admitirá mais que a religiosa se misture com o mundo. Não se tolerarão mais estas leigas consagradas, que foram as penitentes, no século XIII, que levavam uma vida igual a todos, mas que se consagravam por um voto religioso. No século XVII, principalmente, veremos as religiosas da Visitação, destinadas, por sua fundadora, a se misturarem com a vida quotidiana, obrigadas a se conformar com a mesma clausura das carmelitas; tanto que São Vicente de Paulo, para permitir às Irmãs de Caridade prestar serviço aos pobres, tratar dos doentes e cuidar das famílias necessitadas, evitará tratá-las como religiosas e de fazê-las proferir os votos: seu destino foi, então, de Visitadoras. Não se poderia mais conceber que uma mulher tendo decidido consagrar sua vida a Deus não fosse enclausurada; enquanto que, nas novas ordens criadas para os homens, por exemplo os Jesuítas, estes permaneciam no mundo.

 

Basta dizer que o status da mulher na Igreja é exatamente o mesmo que na sociedade civil e que tudo o que lhe conferia alguma autonomia, alguma independência, alguma instrução, lhe foi, pouco a pouco, retirado depois da Idade Média. Ora, como ao mesmo tempo a universidade — que admite apenas os homens — tenta concentrar o saber e o ensino, os conventos deixam, de modo gradativo, de ser os centros de estudo que tinham sido anteriormente; digamos que eles param, também, e muito rapidamente, de ser centros de oração.

 

A mulher se encontra, portanto, excluída da vida eclesiástica, como da vida intelectual. O movimento se precipita quando, no começo do século XVI, o rei de França mantém nas mãos a nomeação de abadessas e abades. O melhor exemplo continua sendo a Ordem de Fontevrault, que se torna um asilo para as velhas amantes do rei. Asilo onde se leva daí em diante uma vida cada vez menos edificante, porque a clausura tão rigorosa não demora a sofrer grandes alterações, confessadas ou não. Se algumas ordens, como a do Carmelo ou de Santa Clara, guardam sua pureza graças a reformas, a maior parte dos mosteiros de mulheres, no fim do Antigo Regime, é de casas de recolhimento onde as filhas caçulas de grandes famílias recebem muitas visitas e onde se jogam cartas e outros “jogos proibidos”, até tarde da noite.

 

Faltaria falar das mulheres que não eram nem grandes damas nem abadessas, nem mesmo monjas: camponesas ou citadinas, mães de família ou trabalhadoras. Inútil dizer que, para ser corretamente tratada, a questão reclamaria muitos volumes e, também, que exigiria trabalhos preliminares, que não foram feitos. Seria indispensável pesquisar não somente as coleções sobre os costumes ou os estatutos das cidades, mas, também, os cartulários, os documentos judiciários ou, ainda, os inquéritos ordenados por São Luís; 6 destacam-se aí, colhidos na vida quotidiana, mil pequenos pormenores colhidos ao acaso e sem ordem preconcebida, que nos mostram homens e mulheres através dos menores atos de suas existências: aqui a queixa de uma cabeleireira, ali a de uma salineira (comércio do sal), de uma moleira, da viúva de um agricultor, de uma castelã, da mulher de um cruzado, etc.

 

É por documentos deste gênero que se pode, peça por peça, reconstituir, como em um mosaico, a história real. Ela nos parece aí, é inútil dizer, muito diferente das canções de gesta, dos romances de cavalaria ou das fontes literárias que tão freqüentemente tomamos por fontes históricas!

 

O quadro que se delineia da reunião desses documentos nos apresenta mais de um traço surpreendente, pois vemos, por exemplo, mulheres votarem como homens em assembléias urbanas ou nas das comunas rurais. Freqüentemente, no divertimos em conferências ou palestras diversas, citando o caso de Gaillardine de Fréchou, que diante de um arrendamento proposto aos habitantes de Cauterets, nos Pirineus, pela Abadia de Saint-Savin, foi a única a votar não, quando todo o resto da população votou sim. O voto das mulheres nem sempre é expressamente mencionado, mas isto pode ser porque não se via necessidade em faze-lo. Quando os textos permitem diferenciar a origem dos votos, percebe-se que, em certas regiões, tão diferentes como as comunas bearnenses, certas cidades de Champanha, ou algumas cidades do leste como Pont-à-Mousson, ou ainda na Touraine, na ocasião dos Estados-Gerais de 1308, as mulheres são explicitamente citadas entre os votantes, sem que isto seja apresentado como um uso particular do local. Nos estatutos das cidades indica-se, em geral, que os votos são recolhidos na assembléia dos habitantes sem nenhuma especificação; às vezes, faz-se menção da idade, indicando, como em Aurillac, que o direito de voto é exercido com a idade de vinte anos, ou em Embrun, a partir de quatorze anos. Acrescentamos a isto que, como geralmente os votos se fazem por fogo, quer dizer, lar, lareira, por casa, de preferência a por indivíduo, é aquele que representa o “fogo”, portanto, o pai de família, que é chamado a representar os seus; se é o pai de família que é naturalmente seu chefe, fica bem claro que sua autoridade é a de um gerente e de um administrador, não a de um proprietário.

 

Nas atas de notários é muito freqüente ver uma mulher casada agir por si mesma, abrir, por exemplo, uma loja ou uma venda, e isto sem ser obrigada a apresentar uma autorização do marido. Enfim, os registros de impostos (nós diríamos, os registros de coletor), desde que foram conservados, como é o caso de Paris, no fim do século XIII, mostram multidão de mulheres exercendo funções: professora, médica, boticária, estucadora, tintureira, copista, miniaturista, encadernadora, etc.

 

Não é senão no fim do século XVI, por um decreto do Parlamento, datado de 1593, que a mulher será afastada explicitamente de toda a função no Estado. A influência crescente do Direito romano não tarda, então, a confinar a mulher no que foi sempre seu domínio privilegiado: os cuidados domésticos e a educação dos filhos. Até o momento em que isto, também lhe será retirado por lei, porque, destaquemos, com o Código de Napoleão ela já não é nem mesmo a senhora de seus próprios bens e desempenha, em sua casa, papel subalterno. Embora desde Montaigne até Jean-Jacques Rousseau sejam os homens que elaborem tratados sobre a educação, o primeiro, publicado na França foi de uma mulher, Dhuoda, que o elaborou (em versos latinos) por volta de 841-843, para uso de seus filhos. 7

 

Há alguns anos, certas discussões ocorridas a respeito da questão da autoridade paterna, na França, foram muito desconcertantes para o historiador da Idade Média; realmente, a idéia de que foi necessária uma lei para dar à mulher direito de olhar pela educação de seus filhos teria parecido paradoxal nos tempos feudais. A comunidade conjugal, pai e mãe, exercia conjuntamente, então, a função da educação e da proteção dos filhos, assim como, eventualmente, a administração de seus bens. É verdade que a família era concebida em um sentido mais amplo; esta educação causa infinitamente menos problemas, porque ela se faz no meio de um contexto vital, de uma comunidade familiar mais abrangente e mais diversificada do que hoje, pois não está reduzida à célula inicial pai-mãe-criança, mas comporta também os avós, colaterais, domésticos no sentido etimológico do termo. O que não impede que a criança tenha, eventualmente, sua personalidade jurídica distinta; assim, se ela herda bens próprios (legados, por exemplo, por um tio), estes são administrados pela comunidade familiar, que, em seguida, deverá prestar-lhe conta.

 

Poder-se-ia multiplicar assim os exemplos, com pormenores fornecidos pela história do Direito e dos costumes, atestando a degradação do lugar ocupado pela mulher entre os costumes feudais e o triunfo de uma legislação “à romana”, da qual nosso Código ainda está impregnado. Seria melhor que, na época em que os moralistas queriam ver “a mulher em casa”, fosse mais indicado inverter a proposição e exigir que o lar fosse da mulher.

 

A reação só chegou em nossos tempos. Entretanto, ela é, digamo-lo, muito decepcionante: tudo se passa como se a mulher, eufórica pela idéia de ter penetrado no mundo masculino, continuasse incapaz da força da imaginação suplementar, que lhe seria necessária, para levar a este mundo seu traço particular, precisamente aquele que faz falta à nossa sociedade. Basta-lhe imitar o homem, ser julgada capaz de exercer as mesmas funções, adotar os comportamentos e até os hábitos de vestir do seu parceiro, sem mesmo se questionar sobre o que é realmente contestável e o que deveria ser contestado. Seria o caso de se perguntar se ela não está movida por uma admiração inconsciente, o que podemos considerar excessivo, por um mundo masculino que ela acredita necessário e suficiente copiar com tanta exatidão quanto possível, seja perdendo ela própria sua identidade, ou negando antecipadamente sua originalidade.

 

Tais constatações levaram-nos bem longe do mundo feudal; elas podem, em todo o caso, levar ao desejo que este mundo feudal seja um pouco mais bem conhecido, dos que crêem, de boa fé, que a mulher “sai enfim da Idade Média”: elas têm muito que fazer para reencontrar o lugar que foi seu nos tempos da rainha Eleonora ou da rainha Branca...

 

 Idade Média: O Que Não Nos Ensinaram, Capítulo VI, Editora Agir, Rio de Janeiro 1978.

 

 



Notas:

 

 P. Riché, Dhuoda Manuel pour mon fils, Paris, Ed. du Cerf, 1975.

 

 

 



 

 

 

  1. 1. Histoire de la bourgeoisie, op. Cit., t. II, pp. 30-31.
  2. 2. [ Paradoxalmente, os países germânicos foram modelados pelo Direito romano, enquanto que, na França, embora desagrade aos que continuam presos ao mito de “raça latina”, os costumes eram formados por hábitos que acreditamos “germânicos” e que devíamos antes chamar “célticos”.
  3. 3. “A legislação muçulmana proíbe à mulher o que ela reivindica, atualmente, e que chama de seus direitos, o que não constitui senão uma agressão contra os direitos que foram conferidos apenas aos homens”. Assim se exprimia, em 1952, em uma publicação intitulada Al Mistri, o Xeque Hasanam Makhluf (ver La Documentation française, n° 2418, 31 de maio de 1952, p. 4).
  4. 4. Não pensamos que fosse necessário, quando da primeira edição deste livro, lembrar as origens desta ridícula afirmação. Mas acontece que, ouvindo-a recentemente (1989), este esclarecimento parece útil. Gregório de Tour, na sua Histoire des Francs (História dos Francos), cap. 91, conta que o Sínodo de Mâcon de 486, ao qual ele não assistiu — diga-se de passagem —, um dos prelados fez notar “que não se devia compreender as mulheres sob o nome dos homens”, dando à palavra homoo sentido restrito do latim vir. Acrescenta que, consultando a Sagrada Escritura, “os argumentos dos bispos o fizeram reconhecer” essa falsa interpretação, o que “fez cessar a discussão”. Mas os autores da Grande Enciclopédia do século XVIII iriam explorar este pequeno incidente (que sequer consta dos cânones do Concílio) para deixar crer que se recusava à mulher a natureza...
  5. 5. Houve, daí em diante, numerosas ordens duplas na época, principalmente nos países anglo-saxões e na Espanha.
  6. 6. Iniciativa sem precedente, e também sem futuro, que consistia em fazer supervisionar, pelo rei, sua própria administração, dirigindo-se diretamente aos administradores: o rei enviava aos lugares os pesquisadores, unicamente encarregados de recolher as palavras das pessoas sem importância, que tinham motivos de reclamar dos agentes reais, e reformar assim, no local, os abusos cometidos; em outras palavras, era o caminho eficaz que remediou os defeitos do estatismo.
  7. 7. . Riché, Dhuoda Manuel pour mon fils, Paris, Ed. du Cerf, 1975.

Verdade e impostura do Colonialismo

Os fenícios foram os maiores navegadores e comerciantes da antiguidade. Percorrendo todo o Mediterrâneo, estabeleceram importantes entrepostos na península ibérica, fornecendo apreciável contingente para a mescla de raças que sempre caracterizou a formação das populações aí radicadas. Apertados, num exíguo território, entre o mar e as montanhas, atenderam ao apelo das águas serenas e límpidas que banhavam as costas asiáticas, européias e africanas, retirando-as da agitação já então constante na Ásia Menor e abrindo-lhes amplíssimas perspectivas no comércio internacional.

Para refrescar a memória

Agosto 22, 2010 escrito por drupal_migrador

Reconhecimento dos judeus no passado:

"No governo de Napoleão, em 1806, foi convocada uma assembléia dos judeus do Império da França e do Reino da Itália. Tratava-se duma Assembléia dos Notáveis, pessoas importantes e respeitadas, representantes oficiais e autorizadas das comunidades judaicas dos diferentes países. Durante os trabalhos, um dos membros, M. Avigdor, a 30 de maio de 1806, fez um discurso, aprovado por toda a assembléia, no qual ele agradecia calorosamente ao Papa e ao Clero católico pela proteção dispensada aos judeus no decurso dos séculos, tendo-os acolhido nos Estados da Igreja quando tinham sido expulsos dos outros Estados e por ter contribuído, em vista disso, para proteger a sua identidade nacional. Esta comunicação se encontra no livro do sacerdote francês de origem judaica, Joseph Lémann, datado dos fins do século XIX, com o título de "Napoleão e os judeus", e reeditado pela Casa Avalon. Limitamo-nos a citar alguns trechos significativos dele, expostos cronologicamente, em particular:

Um grande milagre de Fátima: A renovação espiritual e política de Portugal

Preâmbulo: grandezas e renúncias do Portugal católico, das origens a 1917.

 
 
Uma terra de eleição.
 
A Rainha do céu jamais faz algo por acaso. Assim, não foi sem razão que, em 1917, escolheu Portugal para trazer ao mundo a devoção ao seu Coração Imaculado: Portugal sempre foi uma terra mariana.

Entrevista com Julio Fleichman

 A CRISE É DE FÉ

Alguns anos antes de falecer, após 35 anos de militância como presidente da Permanência, Júlio Fleichman narrou sua trajetória ao lado de Gustavo Corção — o mais firme de nossos polemistas católicos — os eventos decisivos na formação de seu posicionamento diante desta terrível crise de nosso tempo, e de seu combate aos inimigos da Igreja.

 

Hoje, os membros de Permanência e os novos católicos que vão se convertendo à defesa da Tradição, reúnem-se na Capela S. Miguel Arcanjo, às sextas e domingos, no Cosme Velho, para assistir a "Missa de sempre" — a Missa Tridentina, celebrada por D. Lourenço Fleichman, OSB — e prosseguir no combate.

  

Como foi o seu encontro com Gustavo Corção? Como o senhor chegou a conhecê-lo?
LEIA A CONTINUAÇÃO

História da Inquisição

Não deve o católico envergonhar-se de sua história, que é bela, que é grandiosa. Não deve ceder em face dos ataques dos que, ignorando de todo a nossa história, repetem e propagam "lendas negras", criadas com o fim declarado de subverter nossa Fé e nosso amor à Santa Madre Igreja. 
  
Não deve deixar-se confundir ao ver, como ocorreu recentemente -- para o nosso estupor e tristeza -- os mais altos membros do clero, o próprio Papa, prostarem-se em pedidos de perdão pelos "erros da inquisição", dando ao mundo apóstata mais essa satisfação e dando crédito a tantas calúnias e imposturas que circulam contra a Igreja.     
  
Vários santos foram grandes inquisidores: S. João Capistrano, S. Domingos e S. Pio V, para citarmos apenas alguns. É a inquisição intrinsecamente má? O que é verdadeiro e o que é falso em tudo o que se tem dito a seu respeito? O texto abaixo, extraído do manual de Apologética do Pe. W. Devivier, recomendado nada mais nada menos por S. Pio X, responde a todas estas perguntas.

A Igreja e os índios

A IGREJA, OPRESSORA DOS ÍNDIOS?
 
Vimos, nos capítulos precedentes, quão pouco sério era responsabilizar a Igreja pela morte do Império Romano e da cultura antiga, como pela difusão, até nossos dias, do “Mal romano”. Precisamos agora considerar uma acusação que se coloca em exata continuidade com as precedentes e que logrou, ainda mais, instalar-se na opinião, mesmo católica.

O processo de Galileu

Como se sabe, o Papa João Paulo II fez, por três vezes, deploráveis afirmações públicas: a primeira em 10 de novembro de 1979, diante da Academia Pontifícia de Ciências, quando o Papa declarou que o assunto “Galileu” deveria ser objeto de um “reconhecimento leal” das duas partes antagônicas (presumimos que se refira à Igreja, de um lado, e aos seus inimigos, do outro) quanto aos “erros” de ambas. Temos assim que a conduta de um Papa, Urbano VIII, e a de um santo, São Roberto Belarmino, eminente doutor da Igreja e de todo o ensinamento oficial da Igreja até 1960, ficaram submetidos ao descrédito por parte do próprio Papa atualmente reinante. Esta atitude, aliás, foi mais tarde reiterada, quando o Papa atual, mais duas vezes, pronunciou publicamente declarações semelhantes: a primeira, relativa a Lutero (em que se fala agora apenas dos “erros” da Igreja e praticamente se admite uma revisão da condenação de Lutero), feita por ocasião da visita papal à Alemanha, e a segunda, relativa à Inquisição, digamos melhor, à Santa Inquisição, também desmoralizada por João Paulo II quando visitou a Espanha. João Paulo II mostra-se assim digno discípulo de Paulo VI (a quem chamou um dos maiores Papas da Igreja de todos os tempos), o qual devolveu aos turcos (que turcos? perguntou, na época, Gustavo Corção) as bandeiras gloriosamente conquistadas pelos combatentes católicos em Lepanto sob a proteção de Nossa Senhora, invocada na oração do Rosário pelo grande Papa São Pio V. O presente artigo foi solicitado pela revista De Rome et d'Ailleurs, de Paris, ao professor George Salet, professor de Mecânica dos Sólidos Deformáveis de diversos institutos de ciência e de engenharia da França. O prof. Salet é autor de um livro1 em que a falência do conceito de evolução biológica é demonstrada pelas descobertas dos biólogos entre 1953 e 1960, os quais definitivamente eliminaram essa noção como explicação do aparecimento da vida. Publicamos o trabalho que se segue em homenagem à Igreja de sempre.
 
Redação da Revista Permanência, 1982

 

SUMÁRIO

I — Generalidades
II — O papel dos homens da Igreja na edificação da ciência moderna
III — A posição da Igreja
IV — Quem era Galileu?
V — As pretensas provas de Galileu
VI — Belarmino, Urbano VIII, Galileu e o método científico
 
I — GENERALIDADES
Não se pode proferir um julgamento equilibrado sobre essa deplorável questão se não se evocam os dois pontos seguintes:
 
1) No início do séc. XVII, nem Galileu nem ninguém tinha condições de produzir uma prova qualquer do movimento da Terra. Este movimento colidia até com uma dificuldade científica que fez recuar o grande astrônomo Tyche-Brahe: a ausência de qualquer paralaxe estelar2
 
A atual concepção cosmológica só se tornou bastante provável quando NEWTON, no início do século XVIII, estabeleceu as leis da Mecânica, de que resulta que nem o Sol nem a Terra são imóveis, mas o centro de gravidade do sistema solar é que é imóvel3.
 
As verdadeiras provas do movimento da Terra, isto é, as provas experimentais diretas, só mais tarde foram apresentadas. BRADLEY descobriu, em 1721, um fenômeno que ele não compreendeu muito bem, e que denominou, por isso, “aberração das estrelas fixas” (o nome ficou). Ele percebeu em seguida que havia apresentado a prova de que a Terra descrevia anualmente uma órbita, cujo diâmetro é igual ao percurso da luz em cerca de 17 minutos.
 
Em 1851, FOUCAULT pôs em evidência a rotação da Terra em torno de si mesma por uma experiência célebre e pública, na qual o plano de oscilação de um pêndulo dava uma volta completa em 24/sen L horas, sendo L a latitude do lugar (logo em 24 horas no Pólo, como era de esperar)4.
 
2) A segunda coisa que não deve esquecer-se é que, nessa época, a filosofia de Aristóteles, revista e corrigida por Santo Tomás de Aquino, a física de Aristóteles e a teologia católica pareciam, a muitos, constituir um só bloco.
 
Os peripatéticos5 eram poderosos nas universidades, e, desde S. Tomás, Aristóteles tornara-se uma espécie de Padre da Igreja, a ponto de o fato de pô-lo em dúvida parecer a muitos questionar a doutrina católica. Infelizmente, a física e a astronomia de Aristóteles não estavam à altura de sua filosofia6. Ele ensinara, entre outros, dois erros estreitamente ligados entre si:
 
a) Os corpos celestes possuem natureza diferente da das corpos terrestres e não obedecem às mesmas leis. Eles são “incorruptíveis”, enquanto os corpos “sublunares” são corruptíveis.
 
b) A Terra é imóvel, no centro do Mundo.
 
Se Galileu, como veremos mais pormenorizadamente, jamais trouxe em favor do movimento da Terra senão argumentos especiosos, deve-se, em compensação, louvá-lo por ter contribuído para a demolição do dogma da incorruptibilidade dos corpos celestes, mostrando, com a ajuda da luneta astronômica inventada em sua época, que as manchas do Sol são defeitos do astro e não pequenos planetas vizinhos, e que a Lua, como a Terra, possui montanhas. E os peripatéticos não se deixaram enganar, porque alguns deles, por despeito, se recusaram a olhar através da luneta! Galileu contribuiu, portanto, para a ruína do geocentrismo, mas somente de maneira indireta.
 
A ATITUDE DA IGREJA
 
A despeito dos peripatéticos, que se julgavam mais católicos que o Papa, a Igreja, como veremos, jamais mostrara, até Galileu, nenhuma hostilidade às idéias cosmológicas. Essas idéias tinham sido sustentadas, ademais, por padres e bispos, antes do caso Galileu.
 
É fora de dúvida que as intrigas dos peripatéticos desempenharam papel importante na condenação de Galileu, mas o primeiro e maior responsável por sua condenação foi o próprio Galileu. Que o leitor reflita bem no seguinte:
 
— Em 1613, Galileu em sua “Carta referente às manchas solares” toma publicamente posição em favor do movimento da Terra. Ele é felicitado pelos Cardeais Borromeu e Barberini, o futuro Urbano VIII7.
 
— Em 5 de março de 1616, a Congregação do Índex, num decreto apresentado in forma communi, suspende o livro de COPÉRNICO, que viera a lume 73 anos antes, até que lhe façam algumas correções insignificantes, o que foi feito. Em compensação, ela condena um livro do Pe. Foscarini que trata do movimento da Terra misturando a Sagrada Escritura com a questão. Galileu não é citado.
 
— Em 28 de agosto de 1620, o cardeal BARBERINI, o futuro Urbano VIII, endereça a Galileu o “Adulatio Perniciosa”, poema composto em sua honra8.
 
— Em 1624, o Cardeal BARBERINI é eleito Papa. Galileu vai a Roma, onde tem seis encontros com Urbano VIII. Ele retorna com uma pensão para seu filho, um quadro precioso, uma medalha de ouro e prata e uma carta de apresentação para o novo Grão-Duque de Toscana, na qual Urbano VIII exalta as virtudes de Galileu, “esse grande homem cuja reputação brilha nos céus e se estende por toda a Terra”9.
 
— Em 1633, Urbano VIII acusa Galileu perante o Santo Ofício, que o condena à prisão perpétua (pena que jamais foi executada).
 
Assim, Urbano VIII, que sabia muito bem que Galileu sustentava o movimento da Terra desde 1613, felicita-o em 1624, após, portanto, o decreto de 1616, e depois propõe sua condenação, em 1633.
 
Que ocorreu? Antes de explicar o fato, abriremos um parêntese importante.
 
II — O PAPEL DOS HOMENS DA IGREJA NA EDIFICAÇÃO DA CIÊNCIA MODERNA
 
Ainda que geralmente ligados à filosofia de Aristóteles, nem todos os homens da Igreja aceitavam docilmente sua física e o geocentrismo. E, contrariamente a uma lenda teimosa que lança à Igreja a pecha de obscurantismo, foram os homens da Igreja que, muito antes de Galileu, desempenharam papel de primeira plana na edificação da ciência moderna.
 
Citarei quatro nomes, todos anteriores a Galileu, cuja penetração foi, como veremos, muito superior à de Galileu:
 
— Jean BURIDAN, Cônego de Arras em 1342;
 
— Nicolau de CUSA, Bispo de Brixen (Tirol) em 1450;
 
— Nicolau ORESME, Bispo de Lisieux em 1377;
 
— Nicolau COPÉRNICO, Cônego de Friburgo (1472-1543).
 
Veremos mais adiante a contribuição dos dois primeiros à questão do princípio de inércia, que está estreitamente ligado ao movimento da Terra. Vejamos o trabalho dos dois últimos.
 
ORESME, Bispo de Lisieux (1330-1382)
 
Houve, em todas as épocas, pensadores que afirmaram o movimento da Terra, notadamente Pitágoras e Aristarco, muito antes de Jesus Cristo.
 
O Cônego COPÉRNICO, que morreu 21 anos antes do nascimento de Galileu, é freqüentemente considerado o inventor da idéia do movimento da Terra, mas ele teve predecessores dentro da própria Igreja, e notadamente, no século XIV, ORESME, bispo de Lisieux. Em seu Tratado do Céu e do Mundo, obra escrita em francês e não em latim, a pedido expresso do Rei Carlos V10, discute e reduz a nada as objeções de Aristóteles e, numa intuição estupenda, descreve muito exatamente o que viram efetivamente os astronautas americanos quando, da Lua, contemplaram o nosso planeta.
 
Oresme refuta sete argumentos em moda à sua época contra a rotação da Terra, e escreve desassombradamente:
 
1º) “É mais racional pensar que cada corpo e cada elemento do Mundo, excetuado o Céu, está animado em seu lugar natural de um movimento de rotação.”
 
2°) “O movimento de rotação da Terra é um movimento natural.”
 
[...]
 
5º) “Todas as visadas, todas as conjunções, todas as oposições, constelações e influências do Céu permanecem imutadas, quando se supõe que o movimento do Céu não é senão aparente e o da Terra o verdadeiro.”11
 
Oresme rejeita as objeções extraídas da Sagrada Escritura, dizendo o que Leão XIII ensinará oficialmente cinco séculos mais tarde na encíclica Providentissimus:
 
“Quanto à Sagrada Escritura, que diz que o Sol gira etc., poderá dizer-se que ela se conforma, nesta parte, com a maneira do comum falar humano, como ela o faz em vários lugares, como onde está escrito que Deus se arrependeu e se irou e repousou e outras coisas que não são como soa a palavra”12.
 
Nossos modernos anuários astronômicos dão as horas do “nascer”, do “pôr” e da “passagem pelo meridiano” dos corpos celestes, e ninguém pretendeu que eles ensinassem por isso a realidade do movimento aparente dos astros. Oresme prossegue:
 
“Na hipótese da fixidez da Terra, as estrelas atingiriam velocidades inadmissíveis”13.
 
E ele conclui finalmente que tais considerações “são benéficas para a defesa de nossa fé”.
 
Longe de incorrer nas condenações papais, Oresme, após os seus trabalhos, foi nomeado bispo de Lisieux14.
 
COPÉRNICO
 
Talvez seja bom lembrar que Copérnico era Cônego da Santa Igreja e que jamais teve sombra de dificuldade com as autoridades religiosas. Ao contrário, foi convidado em 1514, com outros astrônomos e matemáticos, a tomar parte no Concílio de Latrão encarregado da reforma do Calendário, mas declinou do convite15.
 
Em 1532, o secretário particular do Papa proferiu, diante de seleto auditório e nos jardins do Vaticano, uma lição sobre o sistema de Copérnico, que foi acolhido com entusiasmo16.
 
Temendo reações desfavoráveis, Copérnico contentou-se em fazer circular entre o mundo sábio um manuscrito: Commentariolus, que despertou imenso interesse. E é um alto prelado — o Cardeal Schoenberg — que ocupou um cargo de confiança sob três Papas, que o levou a imprimir, por intermédio de uma carta que Copérnico reproduziu em sua obra, seu De revolutionibus orbium coelestium, que finalmente apareceu em 1543, ano de sua morte.
 
A Igreja não levantou objeções a esta obra, dedicada ao Papa Paulo III.
 
Em 1614, 71 anos após a morte do Cônego, um religioso em um sermão atacou Copérnico e Galileu. Tendo-se queixado este último ao Geral da Ordem dos Irmãos Pregadores, dele recebeu uma carta de desculpas onde o Geral dizia expressamente:
 
“Infelizmente preciso responder por todas as idiotices que fazem ou podem fazer trinta ou quarenta mil Irmãos!”17
 
Sustenta-se freqüentemente que esta ausência de oposição à obra de Copérnico é devida ao prefácio que o Editor, OSIANDER, redigiu (sem o consentimento de Copérnico, ao que parece) e que declarava expressamente que o autor falava hipoteticamente. Isso contradiz formalmente a dedicatória a Paulo III, onde Copérnico declarava:
 
“Perguntei a mim mesmo se devia publicar essas reflexões escritas para provar o movimento da Terra.”
 
De fato, Copérnico, do mesmo modo que Galileu, nada havia provado, mas isso assegura que ele jamais ocultou que, em seu espírito, o movimento da Terra não era somente uma hipótese, mas uma realidade.
 
Veremos, no entanto, por que, a despeito do prefácio de Osiander e do erro de Galileu, a obra de Copérnico foi colocada no Índex 73 anos após a sua morte. Entretanto, ela foi, logo após, dele retirada, depois que lhe fizeram, a pedido do Santo Ofício, algumas modificações insignificantes.
 
O CÔNEGO BURIDAN E O BISPO DE CUSA
 
Cito dois homens da Igreja porque eles contradisseram a filosofia peripatética em um ponto muito importante que está em relação com o movimento da Terra. Foram eles, com efeito, e não Galileu, que formularam um princípio fundamental da Mecânica moderna: o princípio de inércia, não em sua forma totalmente correta, que devemos a Descartes, mas numa forma suficiente para constituir uma verdadeira revolução.
 
O princípio de inércia
 
Se o cavalo pára de puxar a carroça, esta pára. Donde este erro de Aristóteles, que persistiu durante cerca de 20 séculos: todo móvel pára desde que desapareça a força que o solicita. Certamente, é exato que é preciso uma força para pôr um corpo em movimento, mas sabemos agora que, na ausência de qualquer força motriz ou resistente, um corpo qualquer prossegue indefinidamente sua marcha em linha reta e com velocidade constante. É o que se chama princípio de inércia, cuja descoberta se atribui erroneamente a Galileu. Se dele teve alguma intuição, Galileu na realidade o desconheceu, como veremos mais tarde.
 
No rasto de FILOPON, do século VII, BURIDAN, reitor da Universidade de Paris, depois Cônego de Arras, declarou que, quando o arqueiro lança a sua flecha, ele imprime-lhe certo impetusproporcional ao seu volume, à sua densidade e à velocidade imprimida (ou pelo menos função crescente dessas quantidades).
 
Buridan acrescentava que se o impetus não fosse diminuído e destruído por alguma coisa contrária, que a ele resistisse, ou então por algo que inclinasse o móvel para um movimento diferente, o impetus duraria indefinidamente.
 
Substituamos impetus pela nossa moderna “quantidade de movimento = mv” ou nossa “força viva = mv2”, e teremos encontrado o essencial da teoria moderna.
 
E eis o que é capital: desdenhando a natureza incorruptível dos astros, afirmada por Aristóteles, Buridan não hesita em aplicar-lhes a noção de impetus. Deus, diz ele, imprimiu inicialmente aos corpos celestes certo impetus, que desde então os move.
 
Ele acrescenta que, se o impetus comunicado aos corpos terrestres se vai enfraquecendo pela ação das forças resistentes que eles encontram, o mesmo não acontece aos astros, cujo movimento não é perturbado por coisa alguma, podendo portanto seu impetus conservar-se indefinidamente.
 
Um século mais tarde, Nicolau de Cusa (1401-1464), Bispo de Brixen (Tirol), retomou a doutrina de Buridan, ajuntando-lhe diversas considerações teológicas que aqui não nos interessam18.
 
Buridan e De Cusa parecem ter acreditado que, na ausência de força, o movimento de um móvel pode perpetuar-se, segundo um círculo, o que é inexato. Mas é certo que Galileu cometeu o mesmo erro. A despeito disso, Buridan e De Cusa fizeram com que a ciência desse um passo decisivo, e a Universidade de Paris não deixou de apoiar-se em sua doutrina19.
 
Pierre DUHEM, o grande sábio e historiador das ciências, não hesitou em concluir:
 
“Ora, Jean Buridan teve a incrível audácia de dizer: os movimentos dos céus estão submetidos às mesmas leis dos movimentos das coisas cá de baixo, a causa que mantém as revoluções das esferas celestes é a mesma que mantém a rotação do rebolo do ferreiro; há uma Mecânica única pela qual se regem todas as coisas criadas, a esfera do Sol e o pião que o menino põe em rotação. Jamais houve, talvez, no domínio da ciência física, revolução tão profunda, tão fecunda quanto esta”20.
 
Acrescento que Buridan e De Cusa discutiram longamente em suas obras a questão do movimento da Terra e, por falta de provas, continuaram a defender as clássicas posições. Esta questão, porém, era livremente debatida em sua época, nos meios eclesiásticos, sem que a Igreja fizesse a menor objeção.
 
BEDA, O VENERÁVEL
 
A esses homens da Igreja que foram precursores em matéria científica, é preciso ajuntar, se se crê em Philippe Decourt21, BEDA, O VENERÁVEL, que formulou uma teoria das marés bem mais justas que a apresentada por Galileu 900 anos DEPOIS.
 
CONCLUSÃO
 
Como se vê, os eclesiásticos não eram tão escravos da filosofia peripatética quanto nos querem fazer crer. Houve até alguns que, na edificação da ciência, desempenharam papel não negligenciável. Ademais, veremos que, na época, os astrônomos jesuítas eram quase todos adeptos do movimento da Terra e que, por causa das provocações de Galileu, dele se afastaram.
 
III — A POSIÇÃO DA IGREJA
 
À primeira vista, a condenação de Galileu parece, pois, em contradição com a atitude anterior da Igreja. De fato, essa atitude não mudou, e os princípios sobre os quais a Igreja assentara a sua ação foram reafirmados por Pio XII, como a seu tempo veremos.
 
Para compreender o que se passou, convém lembrar que a Igreja tem cuidados pastorais. Entre seus filhos, se há sábios, há também os simples, que são particularmente caros ao coração de Deus.
 
Os simples são tão aptos quanto os sábios a compreender a verdade religiosa (muitas vezes mais do que eles). Mas o que eles não compreendem é a mudança repentina, em qualquer plano. Vimos o que ocorreu com a reforma litúrgica atual, que, em poucos anos, esvaziou os santuários!
 
A Igreja sempre professou que, tendo Deus por autor, a Bíblia não poderia encerrar o menor erro. Ela continua a professar que as narrações históricas da Sagrada Escritura devem ser, salvo caso de necessidade manifesta e evidente, interpretadas literalmente22. Ela condenou a cômoda teoria que declarava que a inerrância bíblica dizia respeito apenas ao elemento religioso23. É certo que, se encontrássemos na Bíblia um ensinamento perfeitamente claro e explícito sobre questões de astronomia, deveríamos aceitá-lo. No entanto, não tendo a Bíblia, como objeto, a finalidade de ensinar-nos como Deus ordenou o Cosmo, tal ensinamento nela não se encontra.
 
Como já assinalava, no século XIV, Oresme, Bispo de Lisieux, os autores sagrados, quando falam de movimento do Sol, conformam-se com a maneira do “comum falar humano”. Deus narrou o que qualquer pessoa poderia ver, e o fez exatamente. Acaso acusaremos de erro científico os cientistas que, como todo o mundo, falam do “pôr do Sol?” Tal como os sábios e os anuários astronômicos24, Deus descreve as aparências, o que é a única maneira de ser compreendido em todas as épocas, sem trair a verdade em nada. Não é pois trair o sentido literal pensar que, segundo a expressão de Oresme, as coisas não são “como soa a letra”. Não é trair o sentido literal bem compreendido dizer que as passagens da Bíblia onde se trata do movimento do Sol são compatíveis tanto com o movimento real quanto com o movimento aparente, que qualquer pessoa pode verificar25
 
 
Infelizmente, os Padres da Igreja não haviam feito essas distinções, inúteis em sua época, e (até onde podemos estar seguros do seu pensamento profundo) eles sempre compreenderam as passagens da Sagrada Escritura onde se trata do movimento do Sol em seu sentido literal mais estrito. Nada de estranho, portanto, que clérigos e leigos de mentalidade primária opusessem a Bíblia à teoria do movimento da Terra. Já vimos como eles foram censurados pela autoridade26.
 
Mas, pelo erro comum dos peripatéticos e de Galileu, essa questão de interpretação da Escritura, que até então só interessara aos especialistas, começou a fazer muito barulho. A Igreja, pois, foi obrigada a precisar sua posição. Ela o fez pela boca do Cardeal BELARMINO, Geral da Companhia de Jesus e Consultor do Santo Ofício. Este deu as seguintes diretrizes, cuja sabedoria é digna de admiração, diante das quais, porém, Galileu jamais se inclinou.
 
1.°) A Igreja solicitava, antes de tudo, que os sábios permanecessem no terreno científico e não misturassem Sagrada Escritura com o problema.
 
Essa solicitação, contra a qual se insurgiu Galileu27, era motivada por razões pastorais evidentes. De fato, as pessoas da Igreja tinham ensinado, geralmente, o geocentrismo e deixaram crer, imprudentemente, que a imobilidade da Terra era afirmada pela Escritura. A Igreja não podia então, sem escandalizar os simples, proclamar inopinadamente — urbi et orbi — que muitos de seus representantes se tinham enganados durante séculos. Ela pedia, pois, muito sabiamente, que se evitasse “passionalizar” o debate, misturando um problema científico com questões de exegese com que os católicos, em sua imensa maioria, pouco se ocupavam. Diríamos hoje que a Igreja desconfiava dos “mass media”.
 
Ela reservava para si, no caso de que a teoria do movimento da Terra fosse correta, o direito de ensinar, ela mesma, lenta e prudentemente, que as passagens litigiosas da Bíblia não implicavam, por si mesmas, a imobilidade nem o movimento da Terra. Não que a inerrância bíblica se refira exclusivamente às questões religiosas, tese cuja condenação foi firmemente lembrada por Leão XIII, mas simplesmente porque se havia atribuído a essas passagens mais do que elas diziam na realidade.
 
2.°) A segunda razão de interditar aos sábios invocar a Escritura Sagrada era a expansão do protestantismo. A Igreja sempre reivindicou (e continua a fazê-lo) o direito exclusivo de interpretar infalivelmente as Escrituras. Permitir naquela época que qualquer pessoa discutisse o seu sentido pareceria favorecer o princípio do livre exame dos protestantes. O Cardeal Dini resumia essa posição da Igreja por intermédio de uma fórmula figurada: “Pode-se escrever livremente, desde que se permaneça fora da sacristia”. Os Cardeais Belarmino e Del Monte, ademais, asseguraram que Galileu nada tinha que temer desde que se ativesse ao âmbito da física e da matemática e evitasse tocar nas interpretações da Bíblia28. Mas Galileu recusou-se, obstinadamente, a compreender isso.
 
3º) Envenenando-se a querela entre Galileu e os peripatéticos, a Igreja, pela boca de Belarmino, foi levada a dar aos sábios o seguinte conselho: “Enquanto não tiverdes encontrado verdadeiras provas de vossas teorias, apresentai-as como simples hipóteses de trabalho.” Indignaram-se contra semelhante pedido, que é, no entanto, conforme com o verdadeiro espírito científico. Voltarei ao assunto no § VI.
 
Notar-se-á, por outro lado, que, para grande escândalo de tudo o que a Igreja comporta como elementos avançados, Pio XII, na encíclica Humani Generis, de 12 de agosto de 1950, tomou a mesma posição a propósito da teoria da evolução29.
 
Belarmino, Urbano VIII, Pio XII e todos os sábios dignos desse nome concordam com este princípio de honestidade e bom senso: só se pode apresentar como hipótese aquilo que não está provado.
 
Galileu, porém, como veremos no § V, insistiu em apresentar provas que nada provavam e que contradiziam o que ele mesmo ensinava!
 
Ele supunha, além disso, que uma hipótese é demonstrada quando está de acordo com os fatos, esquecendo completamente que ocorre amiúde — e era o caso — hipóteses diferentes poderem explicar os fatos conhecidos. Neste caso, somente a descoberta de novos fatos é que pode, por vezes, eliminar certas hipóteses30.
 
Veremos no § VII que foi URBANO VIII quem, demonstrando espírito verdadeiramente científico, lembrou a Galileu esses princípios incontestáveis. Mas este, dominado pela paixão, nada quis ouvir.
 
CONCLUSÃO
 
Estabelece, portanto, a história que, até 1616, a Igreja não somente não criticara a teoria do movimento da Terra, mas que seus membros mais eminentes, incluindo Papas, se apaixonaram por essas questões e encorajaram vivamente os sábios a prosseguir em suas pesquisas.
 
Parece, pois, que KOESTLER tinha razão ao afirmar que o conflito entre a Igreja e os partidários do movimento da Terra não era inevitável31. Nada de desagradável se teria produzido, se não fosse a intromissão de um pretensioso agitado, impulsionado não sei por que demônio, chamado Galileu.
 
IV — QUEM ERA GALILEU
 
Galileu faz parte, incontestavelmente, daqueles sábios que, pela contribuição de novas idéias, fazem com que a ciência avance de maneira decisiva. Numa época em que a Dinâmica era inexistente, ele teve o mérito de descobrir alguns princípios justos que serviram de ponto de partida para que outros construíssem esta “Mecânica racional” sem a qual os engenheiros seriam incapazes de construir motores, aviões e foguetes interplanetários. Se bem que não tenha descoberto a luneta, Galileu construiu uma e soube com ela fazer descobertas astronômicas importantes.
 
Prestada essa justa homenagem à sua memória, o historiador não pode deixar de verificar que muito se exagerou sua contribuição à ciência, e tem-se o direito de pensar que foi por causa do “caso” que se ampliaram, singularmente, os seus méritos! Em primeiro lugar, é certo que se lhe têm atribuído certas descobertas que ele jamais fez32.
 
Não se pode negar, por outro lado, que, a despeito das descobertas astronômicas feitas com a ajuda da luneta, sua contribuição à Astronomia teórica foi não somente nula, mas negativa. Empenhou-se, com efeito, quer em ignorar, quer em desacreditar a obra imortal de seu contemporâneo KEPLER, que, na seqüência das excelentes observações do astrônomo dinamarquês TYCHO-BRAHE, descobrira que as órbitas planetárias são, aproximadamente, elipses cujos focos são ocupados pelo Sol e que são percorridas com velocidades variáveis, cuja lei foi descoberta por Kepler.
 
Ora, Galileu ensinou sempre que os planetas descrevem círculos com velocidade uniforme. Isso o levou a afirmar que os cometas são simples fenômenos meteorológicos e a qualificá-los de “falsos planetas à Tycho”! Ele atacou, também, a reputação de Tycho-Brahe, falando de suas “pretensas observações!”33
 
Os panegiristas de Galileu sempre calam essa desonestidade intelectual. Pois, enfim, não era precisa esperar Kepler nos dizer que os planetas não descrevem círculos em torno do Sol. Copérnico sabia muito bem que os planetas se movem segundo “ovais”, e foi isso o que o obrigou a imaginar um sistema de “deferentes”, “epiciclos” e “excêntricos”, que acabaram sendomais complicados que o de Ptolomeu, uma vez que comportava 48 epiciclos em lugar de 40!34
 
Copérnico não ignorava, com efeito, que o sistema de Ptolomeu permitia prever as posições dos planetas com aproximação de um quarto de grau, e é por isso que ele quis propor um sistema que explicasse tão bem as observações quanto o antigo.
 
Mas Galileu, que fizera do heliocentrismo propriedade sua, preferiu uma vulgarização desonesta ao rigor científico. Desprezando Kepler e Copérnico, insistiu nas trajetórias circulares, sem sequer dizer que se tratava de uma aproximação, já que recomendar os sistemas propostos por esses dois sábios teria mostrado a fraqueza de seu único argumento: a teoria heliocêntrica era mais simples que a teoria geocêntrica35.
 
ERA GALILEU UM SÁBIO ÍNTEGRO?
 
Este silêncio sobre Kepler e sobre as complicações do sistema de Copérnico permite indagar acerca da honestidade intelectual de Galileu. Veremos mais adiante que ele cometeu um grande número de erros científicos que dificilmente se explicam pela ignorância. Tudo mostra que Galileu tinha grande preocupação com a sua própria glória e que, para preservá-la, não hesitou em usar de argumentos especiosos, chegando até, como veremos, a contradizer-se abertamente. O fato é tão patente que Maurice CLAVELIN, apesar de grande panegirista de Galileu, consagrou, em sua obra36, cinco páginas para evidenciar que os princípios que Galileu invocou na 4a. jornada do Diálogo (1632) para fundamentar uma teoria das marés destinada a provar o movimento da Terra estavam em contradição com os expostos na 2a. jornada da mesma obra.
 
Galileu foi acusado por seus contemporâneos de apropriar-se de descobertas alheias, notadamente a das manchas solares. E o acusado respondeu-lhes com estas linhas, que soam mal na boca de um sábio:
 
“O senhor nada pode quanto a isso, Sr. Sarsi; foi-me dado, a mim somente, descobrir todos os novos fenômenos do céu, e nada ficou para os outros. Tal é a verdade, que nem a malícia nem a inveja poderão abafar.”37
 
Sabemos por uma carta endereçada a Kepler, em 4 de agosto de 1597, que Galileu, nessa época, defendia o movimento da terra, e isso, dizia ele, havia anos. Ele próprio acrescentava que fora a doutrina de Copérnico que lhe permitira explicar vários fenômenos naturais inexplicáveis, dizia, pelas teorias correntes. Ora, é demonstrado por um tratado, que ele compôs para os seus alunos e do qual subsiste uma cópia manuscrita, datada de 1606, que nesta época, nove anos após a carta a Kepler, Galileu mobilizava todos os argumentos tradicionais contra a rotação da terra: a rotação desintegraria a Terra, as nuvens permaneceriam imóveis etc., todos os argumentos que ele próprio refutara (se acreditarmos em sua carta a Kepler), muito tempo antes38.
 
Somente após 16 anos da carta a Kepler é que Galileu se declarou publicamente favorável ao movimento da Terra. Ele mesmo nos deu as razões de suas hesitações: o geocentrismo era tão universalmente aceito, que ele temia simplesmente parecer ridículo! Em 1613, porém, ele compreendeu que as descobertas feitas com a luneta astronômica, as manchas solares e as montanhas lunares, notadamente, contrariavam o dogma peripatético duma diferença de natureza entre os corpos celestes e os corpos terrestres; ele compreendeu que, derrogado esse dogma, nada mais se opunha a fazer da Terra um planeta como os demais, e que, conseqüentemente, o principal argumento do geocentrismo desapareceria.
 
Tornou-se, então, campeão incondicional do movimento da Terra e identificou-se de tal modo com esta causa, que, instado pela Igreja a apresentar provas que ele não possuía, não hesitou em usar argumentos os mais especiosos ou manifestamente falsos. Percebe-se que Galileu nada tinha desse mártir da verdade com o qual se tenta identificá-lo.
 
GALILEU POLEMISTA
 
Galileu, que escrevia admiravelmente, era um polemista temível, e que não hesitava em utilizar processos que hoje desconsiderariam qualquer cientista. Seu método consistia em ridicularizar o adversário, o que ele sempre fazia, com ou sem razão. Eis um exemplo. Tendo Grassi sustentado que as balas de canhão se aqueciam pelo atrito, o que era perfeitamente correto, Galileu contestou-o, ladeando a questão. Grassi de fato cometera a imprudência de citar em apoio de sua tese uma estranha narração segundo a qual os babilônios coziam os ovos fazendo-os girar rapidamente na extremidade de uma funda. Eis a resposta, que é um modelo do gênero:
 
“Se Grassi quer fazer-me crer, com Suidas, que os babilônios coziam seus ovos fazendo-os girar em suas fundas, acerto, mas devo dizer que a causa desse efeito não é de modo algum aquela que ele sugere. A fim de descobrir a verdadeira causa, raciocino da seguinte maneira: se não obtemos o resultado que outros obtiveram antes, é porque em nossas operações falta algo que os fazia ter êxito. E, se esse algo nos falta, talvez seja a verdadeira causa. Ora, não carecemos nem de ovos, nem de fundas, nem de robustos finórios para fazê-las girar; entretanto, nossos ovos não cozinham, eles até esfriam mais rapidamente se antes foram aquecidos. E como nada nos falta, exceto sermos babilônios, é pois o fato de ser babilônio e não o atrito que é a causa do cozimento dos ovos.”
 
Compreende-se, facilmente, que com tais métodos Galileu tenha feito inimigos por toda a parte. Ele voltou as costas à ordem inteira dos jesuítas, cujos astrônomos eram quase todos adeptos do movimento da Terra.
 
Eis um exemplo do estilo de Galileu. No Diálogo, aparecido em 1632 (Galileu tinha 68 anos e já tinha tido tempo para corrigir-se!), ele trata aqueles que não admitem o movimento da Terra como “pigmeus mentais”, “idiotas estúpidos”, “indignos do nome de seres humanos”!39
 
Mas o cúmulo é isto:
 
A HISTÓRIA DO IMPRIMATUR
 
Já disse que o Papa Urbano VIII tinha a maior admiração por Galileu, pois que quatro anos após a condenação de 1616 ele não hesitou, quando era ainda Cardeal, em compor uma ode em sua honra.
 
Ora, Galileu conseguiu a façanha de indispor-se com o Papa! Julgando fazer com que seus adversários acreditassem que a Igreja adotara todas as suas opiniões, Galileu solicitara, por volta de 1630, o Imprimatur para a grande obra que ele meditava.
 
Como notou Philippe DECOURT40, esse Imprimatur não era necessário, uma vez que se tratava, pelo menos em princípio, de obra puramente científica. Embora Cônego, Copérnico não o solicitara, assim como o Pe. dominicano Campanella, ao publicar, em 1622, sua apologia de Galileu. O próprio Galileu dispensou o Imprimatur quando publicou um novo livro, cinco anos após sua condenação.
 
Urbano VIII cometeu o erro de prometer ao amigo o Imprimatur pedido, mas ele estabeleceu condições, o que era normal. Estas nada mais eram do que as já formuladas 15 anos antes por BELARMINO:
 
1º) Ater-se unicamente ao ponto de vista científico e, já que não existiam provas válidas na época, apresentar a teoria do movimento da Terra como simples hipótese de trabalho.
 
2º) Não misturar com a questão a Teologia e a Sagrada Escritura.
 
Ora, Galileu publicou sua obra em que era mencionado o Imprimatur, mas, por causa das quarentenas provocadas pela peste e também de certos mal-entendidos, os censores só lhe tinham podido ler o prefácio e a conclusão.
 
Logo se percebeu que Galileu não respeitara as condições apresentadas para a concessão do Imprimatur, uma vez que todos puderam verificar, lendo o Diálogo, que ele considerava os partidários do geocentrismo “idiotas estúpidos”, “pigmeus mentais” etc.
 
Cego pelo orgulho, Galileu não titubeou em escarnecer do Papa, pondo na boca de “Simplício”, que, no diálogo, fazia o papel de idiota da aldeia, os excelentes argumentos que Urbano VIII usara para tentar convencer o amigo de que as provas aduzidas em apoio do movimento da Terra nada valiam. Desenvolverei esse aspecto da questão mais adiante.
 
Ainda que Urbano VIII fosse um santo, ele não podia deixar passar esses insultos públicos dirigidos ao Trono Pontifício, isso sem levar em conta que os inimigos de Galileu —havia tantos! — tinham aproveitado a ocasião para cair sobre ele. Após uma tentativa de abafar o assunto, Urbano VIII conduziu seu amigo à Inquisição, que o condenou em 1633 a penas que, graças à intervenção do Papa, não passaram de penas de princípios41.
 
V — OS ERROS, A MÁ FÉ E AS PRETENSAS PROVAS DE GALILEU
 
FORÇA CENTRÍFUGA CONTRA DOGMA DO CÍRCULO
 
Hoje, qualquer ginasiano sabe que, com igual velocidade angular, a força centrífuga cresce com a maior distância do centro de rotação. Parece pois totalmente impossível que o Sol, a Lua e as estrelas, que se encontram a enormes distâncias da Terra, possam realizar uma revolução em 24 horas. Força alguma no mundo poderia retê-los. Se o firmamento girasse, em 24 horas, em torno da Terra, todos os astros escapariam como a pedra escapa de uma funda, e o céu perderia todos os seus astros em algumas horas. Mas, na época, reinava o “dogma do circulo”, que Galileu sempre aceitou sem discussão. Pensava-se então, e Galileu antes de todos, que não era necessária força alguma para obrigar os corpos celestes a girar em torno da Terra em 24 horas.
 
A despeito de trabalhos em que ele quase chegou a uma concepção correta da força centrífuga, Galileu sempre professou na obra em que se encontram as piores contradições que o movimento natural dos corpos é o círculo. Limitar-me-ei a citar Maurice CLAVELIN, grande enaltecedor de Galileu (sou eu que destaco em todas as citações):
 
“Fazendo dele (o movimento circular) o único movimento capaz de conservar um mundo ordenado, Galileu não tornava somente muito difícil uma interpretação mecânica dos movimentos planetários: ele enunciava algo que perturbava gravemente a própria ciência astronômica. A polêmica em que se meteu, a propósito dos cometas, e onde se vê o movimento circular transformar-se, em favor de sua função ordenadora, numa verdadeira condição de possibilidade para a existência dos corpos celestes, fornecerá disso uma ilustração tão clara quanto desconcertante.”42
 
De fato, por julgar que, na ausência de forças, os corpos celestes se movem em círculos, achou Galileu que os cometas não eram astros, mas simples fenômenos meteorológicos.
 
“[...] do ponto de vista estritamente geométrico, era possível atribuir aos cometas trajetórias elípticas muito alongadas e reconhecer-lhes assim a existência. Que Galileu não tenha sequer examinado essa eventualidade confirma que, se os cometas não têm lugar no céu, é em razão de sua incompatibilidade com o movimento circular, e de seu desacordo com a ordem do Mundo, ou até com sua simplicidade.”43
 
[...]
 
“Não esqueçamos, com efeito, que, pelo seu poder de conservar a ordem, o movimento circular tende a representar para Galileu um movimento natural, incapaz, portanto, por definição, de produzir perturbações; por outro lado, essa identificação do movimento circular como um movimento natural, desviando a atenção da força centrípeta, única a poder impedir o aparecimento de um efeito centrífugo, não favorecia pensar nesse efeito em si mesmo, como uma força sui generis que cresce necessariamente com a velocidade e a massa do corpo movido.”44
 
É evidente, portanto, que Galileu e seus contemporâneos não viam impossibilidade alguma numa rotação de todo o céu em 24 horas, impossibilidade decorrente de uma força centrífuga, que eles ignoravam e que teria dispersado todos os corpos celestes.
 
Maurice Clevelin observa, mui sagazmente, que, se essa falsa concepção da inércia permitiu a Galileu mostrar a possibilidade da rotação da Terra em torno de si mesma, ela o levou, ao mesmo tempo, a negar a possibilidade de qualquer prova experimental desta rotação:
 
“[...] sua concepção dos sistemas de inércia permite-lhe certamente estabelecer a possibilidade do movimento diurno, levando-o, porém, a negar a existência de fenômenos onde uma mecânica mais bem concebida teria percebido a prova de tal movimento. Ironia da história: essas perturbações que os peripatéticos julgavam necessárias, mas cuja ausência excluía, na opinião deles, o movimento da Terra, Galileu as proclamou impossíveis, ao passo que não somente elas existem mas demonstram que a Terra não é imóvel! Assim, no mesmo instante em que ele tornava concebível o movimento diurno, Galileu proibia-se a si próprio de trazer-lhe a prova.”45
 
Ironia da história, de fato! No entanto, bastava um monumento elevado, uma longa corda e uma pedra, coisas que, na época, não faltavam, para construir o pêndulo imaginado por Foucault dois séculos mais tarde e apresentar a prova irrecusável da rotação da Terra! Mas Galileu e seus contemporâneos, mergulhados, em sua maioria, no dogma do círculo, não imaginaram isso.
 
A MÁ-FÉ CIENTIFICA DE GALILEU
 
Um sábio tem o direito de enganar-se, e, de fato, raros são aqueles que jamais cometeram erros. Mas é necessário que seja cometido de boa-fé para que o erro seja perdoável. Ora, os fatos mostram que Galileu não sugeriu senão argumentos especiosos, que não resistiam a um exame atento, ou então argumentos que se contradiziam visivelmente. Citarei cinco deles, particularmente gritantes:
 
1º — Os argumentos fundados na não equivalência das hipóteses cosmológicas.
2° — A prova pela fixidez do eixo de rotação do Sol.
3° — A prova pelas marés.
4° — As contradições na explicação dos ventos alísios.
5° — As contradições no comentário do milagre de Josué.
 
A recusa da equivalência das hipóteses cosmológicas
 
Já disse que Galileu teve o mérito de descobrir, graças à luneta que acabava de ser inventada pelos holandeses, certo número de fenômenos antes desconhecidos.
 
— Ele mostrou claramente que a Lua não é lisa e luminosa por si mesma, como acreditavam certos peripatéticos, mas que era cortada de montanhas, cujas sombras podiam ser observadas.
 
— Observando atentamente as manchas solares, mostrou que esse astro gira em torno de si mesmo em 25 dias, em torno de um eixo de direção fixa.
 
— Descobriu as fases de Vênus, que provam não ser esse planeta luminoso por si mesmo, mas refletir a luz do Sol.
 
— Mostrou que o diâmetro aparente dos planetas varia, podendo essa variação, no caso de Vênus, ir de 1 a 6. Daí resulta que os planetas não se encontram a uma distância constante da Terra (mas ninguém duvidava disso).
 
— Galileu encontrou a verdadeira explicação da “cor cinzenta” da Lua, quando Lua Nova.
 
Tudo isso foi demonstrado por raciocínios corretos baseados em observações minuciosas e bem feitas, e constitui, sem dúvida alguma, um belo trabalho científico.
 
Galileu sublinhou que essas descobertas, ou pelo menos as relativas às montanhas da Lua e às manchas solares, eram dificilmente compatíveis com a doutrina peripatética da perfeição dos corpos celestes e de uma diferença de natureza com os corpos “sublunares”. A hipótese de que todo o Cosmo era regido pelas mesmas leis reforçava-se com isso; já disse, porém, que ela não era nova e fora sustentada muito antes de Galileu, notadamente pelo Cônego Buridan e pelo Bispo Nicolau de Cusa.
 
Se ele se houvesse circunscrito a essas conclusões, não se poderia deixar de admirar o talento e espírito científico de Galileu. Mas a má-fé começa quando ele insiste em dizer que essas descobertas só eram explicáveis no sistema de Copérnico. Ora, isso não passava de uma mentira, e Galileu bem o sabia.
 
Os quatro sistemas de concepção do Mundo
 
É simplificar as coisas dizer que, na época de Galileu, só havia dois sistemas para explicar o Mundo. Havia quatro, em verdade.
 
— O sistema de Ptolomeu, que reinou durante catorze séculos por razões que examinaremos.
— O sistema de Copérnico (séc. XVI).
— O sistema geocêntrico de Tycho-Brahe (séc. XVI).
— O sistema heliocêntrico de Galileu (séc. XVII).
 
Todos esses sistemas eram falsos, pois todos supunham um centro imóvel: Sol ou Terra. Mas os três primeiros tinham o mérito de explicar com exatidão todos os movimentos celestes. Não era o caso do sistema de Galileu, porque, contrariamente aos três outros, ele assinalava aos planetas órbitas circulares.
 
O sistema de Ptolomeu
 
Ptolomeu foi um astrônomo e geógrafo que viveu no século II. Hoje se escarnece dele, mas era um autêntico sábio, cuja imensa obra científica abrangeu a Óptica, a Música e a Matemática. Ele é o autor do primeiro tratado de trigonometria esférica46.
 
Indagam os modernos como um sistema cosmológico tão absurdo quanto o de Ptolomeu (dizem eles) pôde reinar durante catorze séculos sem contestação. A resposta é muito simples: é porque ele permitia prever comodamente as posições dos planetas com uma precisão de um quarto de grau. Ptolomeu sabia, evidentemente, que os planetas avançam na abóbada celeste, recuam em seguida para avançar de novo um pouco mais longe, e assim sucessivamente. Ele imaginou explicar esses movimentos complexos por meio de uma combinação de movimentos circulares uniformes.
 
Diz-se que Ptolomeu agira assim porque, tal como Copérnico e o próprio Galileu, ele possuía a mística do círculo. É possível, mas há explicações mais em relação com a mentalidade científica de que toda a obra de Ptolomeu dá testemunho. Não deve esquecer-se, com efeito, que a finalidade a que ele visava era fornecer um método que permitisse prever antecipadamente as posições dos planetas na abóbada celeste. Se ele escolheu combinações de movimentos circulares, é talvez, muito simplesmente, porque esse meio de previsão lhe pareceu mais simples de aplicar.
 
Deferentes, epiciclos, excêntricos
 
Negligenciando alguns pormenores (equantes), pode dizer-se, em linguagem moderna, que no sistema de Ptolomeu um planeta, em dado momento, está na extremidade de um vetor que tem sua origem no centro da Terra e que é a soma geométrica de vários vetores que giram, cada um deles, num plano, com a velocidade angular constante. O círculo descrito pela extremidade do primeiro vetor é deferente (por vezes chamado excêntrico por razões que é inútil mencionar aqui). As extremidades dos outros vetores percorrem curvas complicadas denominadas epiciclos.
 
Como a soma geométrica de todos esses vetores é independente da ordem em que são considerados, não há finalmente nenhuma diferença entre “deferentes”, “epiciclos” e “excêntricos”, e utilizarei em seguida o termo único de epiciclos.
 
Tudo seria muito simples, se os planetas descrevessem, com velocidade constante, círculos centrados no Sol. Ptolomeu então poderia explicar o movimento do Sol e da Lua com um só movimento circular, e o movimento de cada um dos cinco planetas com dois (tendo um dos vetores por comprimento, a distância da Terra ao Sol, e girando em um ano no plano da eclíptica). Ao todo, portanto, doze epiciclos.47
 
No entanto, Ptolomeu e Copérnico (contrariamente a Galileu, que sempre fingiu ignorá-lo) sabiam muito bem que os planetas descrevem “ovais”, em que o Sol não ocupa o centro. Ptolomeu precisou então, para explicar convenientemente o movimento dos planetas, aumentar para 40 o número de epiciclos.
 
Era, evidentemente, muito complicado. A representação de uma curva por uma soma geométrica de movimentos ficou sendo um verdadeiro quebra-cabeça geométrico. Não se pode deixar de admirar Ptolomeu, pois, de certo modo, teve êxito. Mas repito que a utilização do sistema era muito simples e até infinitamente mais simples que a de todos os outros sistemas inventados ulteriormente48.
 
O sistema de Copérnico49
 
Baseava-se no mesmo princípio dos epiciclos, como o de Ptolomeu. Por diversas razões e, em especial, em vista do fato de o Sol não ocupar o centro das “ovais planetárias”, ele tomou para origem de seu sistema de epiciclos um ponto exterior ao Sol. O resultado é que ele não pode dar conta do movimento de Vênus, cuja órbita é, excepcionalmente, um círculo quase perfeito, senão utilizando nove epiciclos. Quanto a Mercúrio, cuja órbita é muito elíptica, ele teve de recorrer a 11 epiciclos para representar seu movimento. Em suma, Copérnico, que se gabara, em seu Commentariolus, de reduzir de 40 para 34 o número de epiciclos de Ptolomeu, teve de aumentá-lo para 48.
 
Vê-se, portanto, que o sistema de Copérnico era mais complicado que o de Ptolomeu. Ademais, não sendo ele geocêntrico, não era utilizável, pelo menos sem cálculos complicados, para a previsão das posições dos planetas na abóbada celeste50.
 
O sistema de Tycho-Brahe
 
Trata-se de um astrônomo dinamarquês (1546-1601) que passou toda a vida fazendo observações astronômicas minuciosas que permitiram a Kepler descobrir suas célebres leis.
 
Tycho-Brahe sabia muito bem que nada permitia estabelecer se era a Terra ou o Sol que era imóvel, e até se havia realmente um objeto imóvel no sistema solar. Ele adotou, no entanto, o geocentrismo, porque não conseguiu, a despeito das observações minuciosas, encontrar a menor paralaxe em nenhuma estrela. Ele não ignorava que esta ausência de paralaxe não provava a imobilidade da Terra, pois que ela podia interpretar-se, também, supondo as estrelas a enorme distância do sistema solar. Mas não imaginou que pudessem estar a distâncias tão fantásticas como de fato estão51.
 
Tycho-Brahe forneceu catálogos de observações que só puderam ser utilizados por meio das leis de Kepler.
 
O sistema de Galileu
 
Ele era viciado na base pela afirmação de que os planetas são animados de movimentos circulares uniformes centrados no Sol. Tratava-se, pois, de uma aproximação muito grosseira, que possuía o mérito da simplicidade, mas que Galileu jamais distinguiu do sistema muito mais exato, embora terrivelmente complexo, de Copérnico. É por isso que ele pôde alegar, como argumento para o heliocentrismo, a simplicidade do sistema de Copérnico.
 
Mas, além de não ser a simplicidade critério de verdade, era induzir seus leitores a erro, uma vez que todos os astrônomos sabiam que a realidade estava longe de ser tão simples e que, para explicá-la convenientemente, Copérnico imaginara um sistema ainda mais complicado que o de Ptolomeu. Mas, como diz Koestler, ninguém lera a obra de Copérnico, escrita em latim, e Galileu podia muito bem dizer o que bem entendesse.
 
A equivalência das hipóteses
 
Se nos colocamos unicamente no ponto de vista da Cinemática, as expressões “movimento” e “velocidade” só têm sentido quando referidas a alguma coisa considerada como fixa, convencionalmente52. O mesmo não ocorre no campo da Dinâmica. Sabemos hoje que a “aceleração” tem caráter absoluto53.
 
No século XVII, porém, ignorava-se que, em virtude das leis de Newton, todos os objetos do sistema solar são “acelerados”. Nenhum deles, pois, é imóvel, o que condena tanto o geocentrismo quanto o heliocentrismo, ou, mais exatamente, condena este último a ser apenas uma aproximação54.
 
Não se podia, portanto, naquela época, falar legitimamente senão de movimentos relativos dos objetos do sistema solar, movimentos que poderiam ser descritos considerando-se como fixo qualquer um desses objetos ou qualquer sistema de eixos. É certo, portanto, que no início do século XVII, em que se ignoravam as leis de Newton, tanto quanto o fenômeno da “aberração das estrelas fixas”, geocentrismo, heliocentrismo, “jupiterocentrismo” ou “lunocentrismo” constituíam sistemas equivalentes, entre os quais era impossível escolher mediante a observação55
 
A recusa da equivalência das hipóteses
 
Entretanto, Galileu recusou, durante toda a vida, admitir a equivalência cinemática dos sistemas geocêntrico e heliocêntrico e, portanto, a impossibilidade de escolher entre eles mediante observações astronômicas. Por exemplo, ele afirmou que as fases de Vênus e as variações do diâmetro aparente dos planetas eram explicáveis unicamente pelo heliocentrismo, e esse erro continua a imprimir-se hoje. É assim que, numa obra coletiva em honra de Galileu, publicada com o concurso da Academia de Ciências, pode-se ler, sob a assinatura de E. NAMER, estas linhas desconcertantes (sou eu quem destaca):
 
“Ocorre o mesmo com as fases e as dimensões de Vênus: com efeito, com o telescópio não somente são visíveis as fases de Vênus, mas se vêem ainda grandes diferenças entre uma Vênus pequena, quando está ‘cheia’, e uma Vênus imensa, quando é um delgado crescente. Essas variações consideráveis de forma e dimensão, Galileu ilustrou-as e comentou-as numa carta a Paolo Sarpi. Essas deduções astronômicas e todas as outras são possíveis no quadro do sistema de Copérnico; não o são no sistema de Aristóteles e de Ptolomeu, a menos que se construíssem, de propósito, os epiciclos, os excêntricos, os deferentes, ou outros círculos, para obrigar Vênus, pelo duplo esforço do metafísico e do geômetra, a girar em torno da Terra; é, pois, inexato dizer que todos os sistemas podem explicar as mesmas aparências.”56
 
Mais inspirado, Maurice CLAVELIN nos diz, na mesma obra (p. 133), que Galileu sabia muito bem que, do ponto de vista estritamente geométrico, ela (a equivalência das hipóteses) era irrecusável. (Ele mentia, pois, quando fazia crer o contrário).
 
Mas, sem se dar conta de que se contradiz, Maurice CLAVELIN vai cair na mesma esparrela, escrevendo um pouco mais adiante (p. 150) (sou eu quem destaca):
 
“Comparemos, por exemplo, a maneira como um partidário de Ptolomeu e um partidário de Copérnico poderiam reagir, em 1610, à descoberta das fases de Vênus. Para os primeiros nada permitiria prever tal fenômeno, impossível aliás se a Terra é o centro único em tomo do qual giram os corpos celestes. Uma modificação importante do esquema geocêntrico torna-se indispensável, e convir-se-á que Vênus, constituindo exceção, descreve uma trajetória circular em torno do Sol, o qual continua a deslocar-se em volta da Terra.”
 
Ignoraria Maurice CLAVELIN, verdadeiramente, que essa “modificação importante do esquema geocêntrico” tinha sido feita catorze séculos antes pelo próprio Ptolomeu, cujos epiciclos, tomados em ordem conveniente, faziam precisamente girar Vênus em torno do Sol, que, por seu turno, girava em torno da Terra? Admitindo, como única condição, que Vênus não é luminoso por si mesmo e apenas reflete a luz do Sol, o sistema de Ptolomeu permite prever-lhe as fases tão bem quanto o de Copérnico. Por que Galileu recusou admitir a equivalência das hipóteses?
 
Maurice CLAVELIN apresentou a si mesmo esta pergunta e tentou a ela responder num capítulo de 25 páginas da obra citada, onde se contam 10 páginas do próprio Galileu57.
 
Como era de esperar, Clavelin, nessas páginas difíceis, não conseguiu resgatar Galileu, de maneira convincente, de sua desonestidade intelectual, coisa indigna de um sábio. Dessas 25 páginas, retemos a confissão de que Galileu adotou o sistema de Copérnico por razões unicamente filosóficas.
 
“Desse modo pressentimos que, por trás da adesão apaixonada ao copernicismo, existe uma concepção da ciência, de sua unidade, e, certamente, de sua autonomia, que está em questão. Se Galileu escolheu a doutrina heliocêntrica, é pois, segundo toda a probabilidade, porque ela corresponde a um ideal de inteligibilidade superior, em sua opinião, ao ideal proclamado pela doutrina geométrica de então” (p. 135).
 
Evidentemente, uma teoria científica não deve ser contraditória (o geocentrismo não o era de modo algum). Mas, se fôssemos julgar as teorias pelo critério da inteligibilidade, a ciência não teria conhecido a atração universal, considerada ininteligível pelo próprio Newton58, nem a mecânica ondulatória, na qual o dualismo onda-corpúsculo, solidamente provado, desafia o entendimento de todos os sábios. Maurice Clavelin termina seu capítulo por essa espantosa conclusão:
 
“Censurar Galileu por não ter escolhido a solução hipotética de Osiander ou de Belarmino seria censurá-lo, substancialmente, por não ter permanecido paripatético.”
 
Conclusão espantosa, disse, mas que nos confirma ter sido por razões filosóficas que Galileu rejeitou a equivalência das hipóteses cientificamente demonstrada.
 
Tem-se, contudo, o direito de questionar o valor de uma filosofia que levou Galileu a afirmar que os planetas se movem em círculos, quando Kepler, Copérnico e o próprio Ptolomeu tinham reconhecido que isso era incompatível com a observação. A ciência só progride quando confia mais na observação do que na filosofia59, e sempre me disseram que Galileu era o pai dessa idéia. Ora, todo o seu comportamento na questão do movimento da Terra mostra que ele atribuiu à observação o que ela jamais disse naquela época.
 
A PROVA PELA FIXIDEZ DO EIXO DE ROTAÇÃO DO SOL
 
Sabe-se que Galileu mostrou, em conseqüência de observações minuciosas das manchas solares descobertas por Fabricius, que esse astro gira em torno de si mesmo em 25 dias, em torno de um eixo de direção fixa. Ora, isso prova, declara Galileu na terceira Jornada do Diálogo, que o Sol é imóvel, pois, se ele girasse em torno da Terra, seu eixo não poderia conservar uma direção fixa.
 
Ignorava Galileu que a Terra, cujo movimento ele afirmava, gira também em torno de si mesma e que, em sua rotação em volta do Sol, seu eixo de rotação mantém uma direção fixa, o que explica as estações?60 Koestler, que é dos poucos autores que destacaram essa desonestidade intelectual, é nesse ponto severíssimo, e é difícil não dar-lhe razão:
 
“Não há dúvida nenhuma tampouco de que, com esse argumento (das manchas solares), ele tentava embrulhar e enganar o leitor. Apresentar a inclinação constante do eixo de um corpo em rotação como uma hipótese nova e inconcebível, enquanto todos os sábios, desde Pitágoras, reconheciam nisso a razão pela qual o verão sucede ao inverno; complicar esse problema simples por meio da novidade das manchas solares e de suas curvas, recobrindo com uma falsa simplicidade as complicações de Copérnico — tudo isso fazia parte de uma estratégia fundada no desprezo que sentia Galileu pela inteligência de seus contemporâneos”61
 
A PROVA PELAS MARÉS
 
Desde que abertamente tomou o partido do heliocentrismo, Galileu insinuou que possuía, mas guardava segredo no momento, uma “prova conclusiva” do duplo movimento da Terra: era a prova pelas marés. Revelou-a por volta de 1615.
 
Em vista dos conhecimentos da época, não se poderia censurar Galileu por ter sido incapaz de estabelecer uma teoria correta das marés. Isto, porém, não lhe dava o direito de desdenhar a observação e o bom senso. Qualquer pescador bretão sabe, de fato, que a hora e a altura da maré dependem da fase da Lua. Para concluir daí que o astro noturno tem algo que ver com o fenômeno, há um passo apenas que dar, e que foi dado por sábios ou ignorantes. No século VII, por exemplo, BEDA, O VENERÁVEL62 atribuíra as marés à ação da Lua e forneceu métodos para prevê-Ias em um porto. Sem grande mérito, tão evidente era a coisa, KEPLER, contemporâneo de Galileu, explicou as marés pela ação conjunta do Sol e da Lua, e esteve a um passo de formular, antes de Newton, a lei da gravitação universal. Todas as pessoas de bom senso, portanto, explicavam as marés pela ação da Lua, todas exceto Galileu, que escarnecia de Kepler nestes termos:
 
“Malgrado seu espírito aberto e penetrante, ele (Kepler) deu ouvidos e seu assentimento ao poder da Lua sobre as águas, às propriedades ocultas (a gravitação) e outras patranhas.63
 
Galileu atribuía as marés à combinação dos movimentos de rotação da Terra em torno de si mesma e em torno do Sol. Resulta desse duplo movimento que a velocidade de um ponto da Terra passa por um máximo ao meio-dia e por um mínimo à meia-noite. A essa variação de velocidade e à inércia do mar atribuiu Galileu as marés.
 
Tal idéia não é absurda a priori, e, respeitados os conhecimentos da época, não se poderia culpar Galileu por não ter sabido, como hoje, por que as variações de velocidade que ele invocava não poderiam produzir nenhum efeito mecânico. Mas Galileu não tinha o direito de sustentar semelhante teoria por duas razões:
 
1º) Objetou-se-lhe imediatamente que, se a teoria fosse verdadeira, só haveria, em determinado lugar, uma maré por dia, sempre, e até certo ponto, da mesma altura64 e sempre à mesma hora. Ora, todo o mundo sabe que há duas marés por dia, que sua altura varia consideravelmente durante uma lunação e que, finalmente, a hora da maré cheia muda todos os dias.
 
Ora, é um princípio admitido por todos os cientistas que uma teoria que não explica os fenômenos deve ser rejeitada ou corrigida. Com mais fortes razões não pode servir de prova para coisa alguma. É surpreendente que um cientista tido como criador do método experimental tenha podido desprezar desse modo a experiência.
 
2º) Galileu, ademais, contradizia-se. Os peripatéticos haviam-lhe objetado que a rotação da Terra se traduziria por diversos efeitos mecânicos: a Terra estouraria, a atmosfera, as nuvens, os pássaros, os corpos não cairiam verticalmente etc. A resposta da Mecânica moderna é que, se a força centrífuga não estoura a Terra, ela, no entanto, diminui ligeiramente a gravidade; ela prevê que os corpos não caem totalmente na vertical, o que foi verificado etc.
 
Por seu turno, Galileu responde que, movendo-se os corpos naturalmente em círculo, a rotação da Terra não poderia provocar nenhum fenômeno mecânico. Sabe-se que a resposta era falsa, mas o erro era perdoável. O que não o é, é ter ele pretendido ao mesmo tempo que a rotação da Terra provoca o gigantesco fenômeno das marés! Em outros termos, Galileu declara possível o movimento da Terra em virtude de um princípio que ele nega para provar esse movimento! Maurice Clavelin, apesar de grande panegirista de Galileu, notou essa contradição (sou eu quem destaca):
 
“Sem avançar mais nessa explicação das marés, é fácil compreender que ela introduz no interior do Diálogo uma verdadeira ruptura. Toda a segunda Jornada tende a provar, com o auxílio do princípio de conservação do movimento, que a rotação diurna não pode provocar perturbação alguma e que, numa Terra em movimento, tudo ocorreria da mesma maneira que numa Terra em repouso. Ao explicar as marés pelo duplo movimento da Terra, Galileu abandona, portanto, a idéia de que a Terra, animada de movimento diurno, seja um sistema inercial. Mas, sobretudo, em nome de que considerações reservar unicamente aos oceanos a capacidade de traduzir, por um movimento de fluxo e refluxo, as variações de velocidade sofridas por cada parte da Terra, uma vez por dia? Se a explicação de Galileu fosse exata, na realidade todos os corpos não rigidamente ligados à Terra deveriam, cada 24 horas, ser alternativamente projetados para frente e para trás... Galileu não percebe que a quarta Jornada do Diálogo é incompatível com a segunda, e que não é possível invocar simultaneamente o princípio de conservação para anular os argumentos tradicionais e explicar as marés.”65
 
Apresentando semelhantes “provas”, Galileu desservia a causa que queria defender. De fato, Belarmino, Urbano VIII, os membros do Santo Ofício e os mesmos peripatéticos não eram imbecis. Verificando que o campeão do copernicismo defendia seu ponto de vista com tais argumentos, eles só podiam agarrar-se à idéia de que a teoria do movimento da Terra decididamente não tinha apoio em nada!
 
CONTRADIÇÃO NA EXPLICAÇÃO DOS VENTOS ALÍSIOS
 
Galileu apresentou os ventos alísios como prova do movimento da Terra, e não estava errado. Mas, de novo, esta prova se opõe à sua afirmação de que o movimenta da Terra não pode produzir nenhum efeito mecânico. Deixo a palavra a Maurice Clavelin (é meu os destaques):
 
“Todavia, não somente são incorretas as razões invocadas por Galileu, mas também são inconciliáveis com as conclusões da segunda Jornada. Para ver nos ventos alísios uma conseqüência do movimento diurno, Galileu obriga-se a modificar inteiramente suas idéias sobre o comportamento do ar. Na segunda Jornada, o ar, como todos os corpos terrestres, tem o poder de conservar indefinidamente o movimento circular uniforme, correspondente ao movimento diurno, desde que o tenha adquirido; o ar caracteriza-se, pois, por uma inércia total, assim como os corpos sólidos ou os líquidos, qual a água. Na quarta Jornada, em compensação, e sem que essa mudança de atitude seja motivada explicitamente, o ar torna-se, em virtude de sua tenuidade, um corpo que uma força infinitesimal basta para pôr em movimento, mas que também “é totalmente incapaz de conservar o movimento desde que cesse de agir o motor”; ele exige, portanto, para acompanhar a rotação diurna, o impulso direto das asperidades que existem na superfície da Terra.”66
 
Em outros termos, Galileu utiliza ou abandona o princípio de inércia segundo as necessidades de suas demonstrações!
 
CONTRADIÇÕES NO COMENTÁRIO DO MILAGRE DE JOSUÉ67
 
Galileu não se propõe aqui provar o movimento da Terra, mas somente mostrar que a narração bíblica da parada do Sol por Josué se compreende muito melhor no sistema de Copérnico que no de Ptolomeu. O que Galileu escreveu a respeito do assunto é de pasmar, e tem-se o direito de perguntar se se está na presença de um sábio, com todo o domínio de sua razão, ou diante de uma personagem que zomba de seu leitor.
 
O objeto da ciência é a determinação e o estudo das leis da natureza. Sendo o milagre uma derrogação, imprevisível e diretamente desejada por Deus, dessas leis, o cientista nada tem que dizer sobre isto; tem somente o dever, quando possível, de constatá-lo.
 
No entanto, ter-se-ia admitido muito bem que Galileu, analisando de mais perto o milagre de Josué, declarasse que Deus teria miraculosamente detido, por várias horas, a rotação da Terra e impedido, por milagre também, a destruição, pela inércia, de todos os seus habitantes.
 
Mas não foi isso o que imaginou Galileu. Ele declarou friamente que Deus deteve miraculosamente a rotação do Sol em torno de si mesmo! Eu repito: a rotação do Sol em torno de si mesmo (que se realiza em 25 dias). Ouçamo-lo falar das conseqüências:
 
“Se o movimento do coração num animal se detém, todos os outros movimentos dos membros param também. Da mesma maneira, se a rotação do Sol parasse, a de todos os planetas cessaria.”
 
Assim, Galileu nos diz imperturbavelmente que, quando Josué ordenou que o Sol e a Lua detivessem o seu curso (Josué X, 12-13), foi a rotação do Sol que ele paralisou, o que, por uma conseqüência natural, acarretou a imobilização de todos os objetos do sistema solar!
 
“Sendo o Sol, ao mesmo tempo, fonte de luz e princípio dos movimentos, quando Deus quis que, ao comando de Josué, todo o sistema do Mundo permanecesse imóvel, durante inúmeras horas, no mesmo estado, bastou-Lhe deter o Sol. De fato, tornando-se este imóvel, todos os outros movimentos pararam. A Terra, a Lua e o Sol ficaram na mesma posição, com todos os outros planetas.”68
 
Insisto: segundo Galileu, o milagre não é a parada da Terra, é o da rotação do Sol, e é esta parada que implicou, por uma conseqüência da modo algum miraculosa, a imobilidade da Terra.
 
Haveria, portanto, segundo Galileu, um liame entre o movimento dos planetas e a rotação do Sol, o que suporia uma ação à distância. Notemos que essa teoria não é absurda a priori, pois que é por uma ação à distância que o Sol obriga os planetas a descrever órbitas quase elípticas. Mas, além de gratuita a teoria, é surpreendente, para dizer o mínimo, encontrá-la sob a pena de Galileu, pelas razões seguintes:
 
1º) Galileu anatematizara Kepler por ter acreditado em tolices, como a ação à distância da Lua, pela qual se explicavam as marés. E agora ele introduz uma ação à distância do Sol, tão impensável quanto a outra!
 
2°) Uma parada da Terra não miraculosa está em oposição total não somente com o princípio da inércia corretamente formulado mas também com o princípio de inércia, tal como Galileu o compreendia, uma vez que, opondo-se nisso aos peripatéticos, ele sustentara, nas pegadas de Buridan e De Cusa, que não é necessária força alguma, ação alguma para entreter o movimento da Terra. E agora ele sustenta a teoria peripatética da necessidade de um motor — o Sol em rotação — para manter o movimento da Terra e dos planetas!
 
Acrescento que Galileu sabia muito bem que, em virtude da inércia, uma parada da Terra não miraculosa destruiria tudo em sua superfície.69
 
Lendo tais coisas sob a pena de Galileu, a gente esfrega os olhos e pergunta se não se está sonhando!
 
RESUMO — CONCLUSÃO
 
Maurice Clavelin classificou os argumentos apresentados por Galileu em favor do movimento da Terra em três categorias70:
 
1º) Galileu mostrou, primeiramente, “a vaidade daquela parte da filosofia natural tradicional em que o geocentrismo encontrara até então um suporte físico incontestado”.
 
É bastante exato, e expliquei mais acima por que Galileu, com suas descobertas astronômicas, contribuíra bastante para a derrocada de uma doutrina que afirmava não serem os astros e os corpos sublunares da mesma natureza e não obedecerem às mesmas leis. Mas não resultava disso que o geocentrismo fosse falso.
 
2º) Galileu respondeu (de maneira nem sempre justa) às objeções científicas feitas pelos peripatéticos contra o movimento da Terra. Mas possibilidade não quer dizer realidade. É bom lembrar, ademais, como já mostrei mais acima, que Galileu refutou as objeções ao movimento da Terra admitindo princípios que ele se apressou a renegar para provar esse movimento!
 
3º) Enfim, vimos que Galileu pretendeu provar cientificamente o movimento da Terra por argumentos tão especiosos, que eles levantaram dúvidas quanto à sua boa-fé.
 
Concluirei, pois, com Maurice Clavelin:
 
“Esses argumentos estão longe de ser negligenciáveis. No entanto, por mais impressionantes que tenham sido aos olhos de Galileu, não é menos verdade que nenhum deles é conclusivo. Que a filosofia natural peripatética seja falsa, que nenhuma das objeções levantadas contra o movimento da Terra seja válida, que a observação concorde no conjunto com o copernicismo, nada disso, contudo, impede que um sistema geocêntrico permaneça perfeitamente capaz de salvar todos os fenômenos aparentes. Somente a mecânica celeste de Newton, mostrando a impossibilidade física de uma cosmologia geocêntrica, inclinará definitivamente a balança em favor da representação heliocêntrica, mas esta na sua versão kepleriana, isto é, sob uma forma que Galileu jamais defendeu expressamente71. Portanto, é fora de dúvida que, afirmando a verdade de facto do copernicismo, Galileu claramente ultrapassou o que autorizavam suas descobertas ou seus próprios progressos na ciência do movimento.”72
 
Por fim, acrescento: a ausência de qualquer paralaxe das estrelas obrigava os astrônomos a admitir quer o geocentrismo, quer distâncias julgadas inverossímeis para as estrelas. Por outro lado, o movimento da Terra recebe o testemunho imediato de nossos sentidos. Compreende-se que, ainda aos olhos dos sábios, a imobilidade da Terra, nesse século XVII, tenha parecido mais provável que o seu movimento.
 
VI — BELARMINO, URBANO VIII, GALILEU E O MÉTODO CIENTÍFICO
 
Mostrarei, neste capítulo, que foram Belarmino e Urbano VIII, e não Galileu, que, nessa questão do movimento da Terra, encarnaram o espírito científico, tal como hoje se concebe.
 
Isso foi afirmado, no início do século, por um sábio e historiador das ciências, antigo aluno da Escola Normal Superior e membro do Instituto, Pierre DUREM73.
 
Mas, como Maurice Clavelin recusa esse julgamento, creio necessário retomar a questão e mostrar que a evolução da ciência, a partir de 1908, nada tem feito senão confirmar a posição de Pierre Duhem.
 
SÃO ROBERTO BELARMINO
 
Entre outras funções, o Cardeal Belarmino era, na época, Geral dos Jesuítas, Consultor do Santo Ofício e Mestre de questões controvertidas no Colégio Romano. Sabe-se que o assunto Galileu foi apresentado durante todo o século XIX como prova do espírito “obscurantista” e “retrógrado” da Igreja, a ponto de os católicos baixarem a cabeça quando o assunto era evocado diante deles. Não podemos, portanto, duvidar de que, quando se falou, no século XX, de pôr nos altares o principal adversário de Galileu, numerosos cardeais tenham objetado que essa canonização era singularmente inoportuna, pois pareceria mostrar ao Mundo que a Igreja ainda perseverava no “obscurantismo” e no desprezo da ciência.
 
Ora, Pio XI, que era muito entendido em matéria de ciência e que fundara a Academia Pontifícia de Ciências, pensava de maneira diferente. Belarmino foi canonizado em 1931, isto é, numa época em que ninguém duvidava do movimento da Terra. Esse único fato leva a refletir e a indagar seriamente se a atitude de Belarmino para com Galileu não era inteiramente justificada.
 
A carta de Belarmino de 12 de abril de 1615
 
Esta carta, endereçada ao Pe. Foscarini e agradecendo o envio de sua obra acerca do sistema de Copérnico, era de fato destinada a Galileu. Correndo o risco de ser acusado de tê-las isolado de seu contexto, reproduzirei e comentarei duas passagens da carta que nos interessam do ponto de vista científico74.
 
Primeira passagem
 
“Parece-me que Vossa Reverência e o Sr. Galileu agem prudentemente, contentando-se em falar hipoteticamente e não afirmativamente, como sempre entendi que Copérnico fez.”75
 
Um cientista do século XX não falaria de maneira diferente. Lembro que se considera hoje que uma teoria científica tem dois objetivos:
 
— Permitir prever os fenômenos tão exatamente quanto possível.
 
— Dar, se ela pode, uma descrição tão adequada quanto possível da realidade, no caso de que esta realidade não seja acessível, diretamente, aos nossos sentidos76.
 
Uma teoria científica deve ser primeiramente imaginada pelo cientista. É a descrição de uma realidade suposta (descrição que é, aliás, raramente adequada)77.
 
Uma teoria científica não passa de uma hipótese, de início pelo menos. A teoria científica será rejeitada ou corrigida, se se perceber que aquilo que se pode deduzir dela não concorda com os dados da observação e da experiência. Se, ao contrário, uma teoria científica permite, durante dezenas de anos, prever exatamente os fenômenos, ela será considerada uma aquisição definitiva da Ciência, mas do ponto de vista operacional somente78. De fato, jamais estaremos totalmente certos de que outra teoria, que descreva a realidade de maneira diferente, não colha os mesmos êxitos.
 
Mas é certo que, quando duas ou várias teorias explicam todas as observações conhecidas, então é ilegítimo escolher entre elas, enquanto novas observações não eliminarem uma delas79.
 
Em sua imensa maioria, os cientistas atuais recusam os argumentos filosóficos e em particular a racionalidade e a inteligibilidade reclamadas por Galileu; a única condição que eles estabelecem, a priori, é a não contradição das hipóteses80. Se esta não contradição é provada, o único critério da adequação de uma teoria científica ao real é seu valor operacional ou prático. Infelizmente, esse critério é negativo, pois, se ele permite eliminar com certeza, jamais permite acatar uma teoria de maneira totalmente legítima. Em termos rigorosos, a teoria científica mais solidamente fundada jamais deixará de ser uma hipótese extremamente provável. Mas ocorre freqüentemente que esta probabilidade equivalha à certeza. É o caso atual da teoria do movimento da Terra, mas, repito, isso não era verdadeiro no tempo de Galileu.
 
Considerados os conhecimentos da época, o pedido dirigido a Galileu de contentar-se em falar hipoteticamente estava, portanto, não somente conforme ao bom senso, mas conforme ao método científico atual. Pierre Duhem falava da mesma maneira há 72 anos (os destaques são meus):
 
“Muitos filósofos, desde Giordano Bruno, censuraram duramente André Osiander pelo prefácio que ele colocou no frontispício do livro de Copérnico. Os avisos dados a Galileu por Belarmino e Urbano VIII não foram tratados com menos rigor desde o dia em que foram publicados. Os físicos de nosso tempo pesaram mais minuciosamente que seus predecessores o valor exato das hipóteses empregadas em Astronomia e na Física; eles viram dissipar-se muitas ilusões que, havia pouco ainda, eram tidas como certezas; é necessário reconhecer, hoje, que alógica estava do lado de Osiander, de Belarmino e de Urbano VIII e não do lado de Kepler e Galileu; aqueles viram o exato valor do método experimental, enquanto estes se enganaram quanto a ele.”
 
Os panegiristas de Galileu recusam esse julgamento. Maurice Clavelin julga poder ladeá-lo, declarando (sou eu quem destaca):
 
“Duhem só consegue atribuir a Osiander e Belarmino uma perfeita inteligência das teorias científicas isolando deliberadamente suas conclusões das premissas de que derivam em linha reta. Essas premissas, na realidade, nada mais são do que aquelas da filosofia natural tradicional; longe de ser inspirada por uma reflexão autêntica acerca das teorias científicas enquanto tais, a solução preconizada pelos filósofos e teólogos hostis ao copernicismo limita-se a reafirmar a antiga oposição do físico e do astrônomo e a necessária preeminência do primeiro sobre o segundo.”81
 
Supondo que Clavelin tenha razão, não se pode deixar de louvar esta filosofia natural tradicional por ter conduzido Belarmino a tal conclusão conforme à honestidade e ao bom senso: não se deve apresentar senão como hipótese aquilo que não se pode provar.
 
Segunda passagem da carta de Belarmino
 
“Se tivéssemos uma prova verdadeiramente conclusiva de que o Sol está no centro do Universo, de que a Terra está no terceiro Céu e de que o Sol não gira em torno da Terra, mas a Terra em torno do Sol, nesse caso deveríamos proceder com a maior circunspeção, explicando as passagens da Escritura que parecem ensinar o contrário, e admitir que não as compreendemos, em vez de declarar falsa uma opinião que se provou verdadeira. Mas, por minha conta, não acreditarei que haja tais provas até que me deixem vê-las. Dizer que as coisas se passariam do mesmo modo se o Sol se achasse, por hipótese, no centro do Universo e a Terra no terceiro Céu não constitui prova.”
 
Esta passagem mostra, primeiramente, o respeito que Belarmino tinha pela verdadeira ciência. Ele não hesita em dizer, com efeito, que, se houvesse uma prova científica do movimenta da Terra, as pessoas da Igreja não relutariam em confessar que se tinham enganado em interpretar certas passagens da Bíblia em sentido literal muito estrito. Esta última alínea basta para demonstrar a improcedência das acusações de “obscurantismo” lançadas contra a Igreja no século XIX.
 
Vê-se em seguida a lucidez com que Belarmino denuncia o sofisma de Galileu, que pretendia dar como prova do movimento da Terra fatos que poderiam ser explicados, da mesma maneira, pelo geocentrismo.
 
Em face dos argumentos sofisticados que apresentara Galileu, compreende-se muito bem as declarações de Belarmino. Assim, pressionado por Belarmino, Galileu respondeu que tinha as provas mas se recusava a revelá-las, sob pretexto de que seus adversários eram demasiado estúpidos para compreendê-las. Eis as linhas inacreditáveis que ele endereçou, um mês depois, ao Cardeal Dini:
 
“Em minha opinião, o meio mais seguro e mais rápido de provar que a posição de Copérnico não é contrária à Escritura seria dar uma pilha de provas que demonstrassem que ela é verdadeira e que a posição oposta é insustentável; assim como as verdades não podem entrar em conflito, a verdade de Copérnico deve ser perfeitamente coerente com a Bíblia. Mas,como posso fazer isso, sem perder meu tempo, quando esses peripatéticos se mostram incapazes de seguir os raciocínios mais simples e mais fáceis?82
 
Infelizmente, não foi somente aos peripatéticos que Galileu recusou revelar suas provas, mas também aos astrônomos jesuítas e a Belarmino. Como demonstrei acima, a verdade é que ele não possuía as provas. É transparente que, nesse duelo entre Belarmino e Galileu, foi o primeiro que deu prova de espírito científico moderno e não o segundo.
 
URBANO VIII
 
Deve-se ressaltar, primeiramente, que, quando Galileu resolveu escrever sua grande obra sobre o sistema de Copérnico, por volta de 1630, quis dar-lhe por título: “Diálogo acerca do Fluxo e Refluxo do Mar”. Este singular título se explica pelo fato de que Galileu pretendia insistir muito na prova “conclusiva” (prova do movimento da Terra pelas marés), com a qual ele tinha esperado, em 1615, convencer o Papa Paulo V. Sabe-se que foi Urbano VIII quem convenceu Galileu a adotar como título: Diálogo acerca dos Dois Sistemas do Mundo. Isto prova duas coisas:
 
— Urbano VIII compreendera perfeitamente que a prova pelas marés nada valia, o que mostra muito bem que seu julgamento, ainda o científico, era superior ao de Galileu.
 
— Isto confirma, ademais, que Urbano VIII não era hostil ao sistema de Copérnico e a uma discussão científica acerca de seu valor.
 
Mas é acerca da própria concepção de uma teoria científica que Urbano VIII mostrou sua espantosa superioridade em termos modernos. Em suas conversações com Galileu, ele tentou convencê-lo, em vão, de que o fato de predizer exatamente os fenômenos não basta para justificar uma hipótese. Dir-se-á que sustentar este ponto de vista não era muito difícil, uma vez que os sistemas de Ptolomeu e de Copérnico, ainda que correspondendo a realidades diferentes, explicavam, ambos, o movimento aparente dos astros. Mas, ainda assim, era preciso conhecer o assunto, e é notável que Urbano VIII, a despeito de suas ocupações, tivesse compreendido com rapidez o que Galileu jamais quis admitir.
 
Urbano chegou a acrescentar algo que nenhum cientista moderno recusará: ainda que, no momento, só se conheça uma hipótese que possa explicar os fatos, esta, nem por isso, estará provada. Seu raciocínio era o seguinte:
 
“Admitindo que uma hipótese explique de maneira satisfatória certos fenômenos, ela não é necessariamente justa, pois Deus é poderosíssimo e pode ter produzido esses fenômenos por meios inteiramente diferentes e inacessíveis ao espírito humano.”83
 
O cientista moderno suprimirá a referência a Deus, que não é essencial, e dirá mais ou menos a mesma coisa, assim:
 
“Admitindo que uma hipótese explique de maneira satisfatória certos fenômenos, nem por isso corresponde ela à realidade, pois esses fenômenos podem resultar de outra hipótese, que o espírito humano não tenha ainda examinado ou que seja incapaz de conceber.”
 
Sabe-se que no Diálogo Galileu pôs em cena três personagens. Dentre elas, uma representa o idiota da aldeia, Simplício, ridicularizado pelos demais, continuamente. Ora, Galileu teve a inconsciência de pôr na boca de Simplício a excelente afirmação científica do Papa acima citada, apresentando-o como “uma pessoa muito eminente e muito douta, diante da qual se deve calar”84. É difícil ser, ao mesmo tempo, tão pouco científico e tão insolente85.
 
CONCLUSÃO
 
É certo, pois, que, pondo de lado o deplorável processo de 1633, os homens da Igreja e em particular Belarmino e Urbano VIII se comportaram como pastores prudentes e verdadeiros sábios. Mas é Galileu que estava com a razão, repete-se obstinadamente! Digo de novo: não confundamos as datas. Não se podia exigir que Belarmino e Urbano VIII antecipassem as descobertas de NEWTON, BRADLEY e FOUCAULT. Insistindo em argumentos cujo caráter especioso todas as pessoas de bom senso percebiam, Galileu não podia reforçar senão a convicção de que a teoria da rotação da Terra se apoiava em brisa.
 
(Traduzido por Afonso dos Santos. Fonte: De Rome et d'Ailleurs, maio, junho e julho de 1980, números 11/12). 
(Revista PERMANÊNCIA, 1982, novembro/dezembro, números 168/169)

 

  1. 1. Hasard et Certitude, 2ª. Edição, 1973. — Difundido por Téqui.
  2. 2. Chama-se “paralaxe” o ângulo sob o qual se veria da estrela a órbita da Terra. Esse ângulo, mensurável, é praticamente nulo para as estrelas, porque estas se encontram a enormes distâncias.
  3. 3. De fato, levado por uma velocidade uniforme de 20 km/s para um ponto do céu chamado “Ápex”. Em razão de sua massa, cerca de mil vezes superior à massa dos planetas, o Sol jamais se afasta desse centro de gravidade, mas executa em torno dele um movimento particularmente complexo.
  4. 4. Encontrar-se-á uma exposição mais minuciosa das provas do movimento da Terra em dois de meus artigos publicados nos números 82 e 83 de La Pensée Catholique (dezembro 1962/janeiro 1963).
  5. 5. Assim denominavam-se os discípulos de Aristóteles, porque o Mestre ensinava, ao que parece, passeando com seus alunos.
  6. 6. Sentimo-nos hoje perplexos quando lemos sob a pena de Aristóteles que, para alturas iguais, o tempo de queda de um corpo é inversamente proporcional à sua massa. Imediatamente dizemos: Como essas pessoas não tiveram a idéia de deixar cair, simultaneamente, de uma janela, uma bilha e uma grande pedra? Elas teriam verificado, facilmente, que esses dois “pesados”, como então se dizia, chegam ao solo praticamente ao mesmo tempo! Esquece-se que, durante 20 séculos, se evitou experimentar e que, salvo em astronomia, se observava muito mal. Pode-se compreender esta atitude imaginando que a Ciência não tinha, então, o caráter utilitário que tem hoje e considerando que os filósofos de então se interessavam muito mais pelas causas do que pelos efeitos. O que os atraía não era a lei da queda dos corpos, mas saber por que caíam. Na realidade, responderam tão mal a essa segunda questão quanto à primeira.
  7. 7. Arthur Koestler, Les somnambules, Calman-Lévy, 1961, p. 413.
  8. 8. Galilée — aspects de as vie et de son oeuvre, obra coletiva publicada em 1966 com o concurso da Academia das Ciências, p. 10.
  9. 9. Koestler, op. Cit., p. 454.
  10. 10. Philipe Decourt, “Archives Internationales Claude Bernard” — La Véritable histoire Du procès de Galilée, p. 19.
  11. 11. René Dugas, Maître de conférence à l´École Polytechnique — Histoire de la Mécanique, Dunod, 1950, PP. 63-64.
  12. 12. Citado por Pierre Duhem, Les systèmes du Monde, tomo IX, p. 344.
  13. 13. Esta afirmação que Oresme, evidentemente, não podia justificar era profundamente justa, pois que as estrelas estão a distâncias tais, que sua velocidade ultrapassaria a da luz, coisa que sabemos, desde Einstein, ser impossível.
  14. 14. René Dugas, op. cit., PP. 63-64.
  15. 15. Arthur Koestler, Les somnambules, Calman-Lévy, 1961, p. 138.
  16. 16. Idem, p. 144.
  17. 17. Idem, p. 422.
  18. 18. É interessante notar que, cinco séculos antes de Einstein, Nicolau de cusa afirmara ser o Universo simultaneamente finito e ilimitado. (Dugas, op. Cit., p. 70).
  19. 19. Maurice Clavelin, grande entusiasta de Galileu, contestou essa prioridade de Buridan e Cusa assinalada e longamente comentada pelo grande sábio e historiador das ciências Pierre Duem (Histoire dês doctrines cosmologiques de Platon à Copernic, tomo VII, PP. 328-340). A argumentação de Clavelin consiste em dizer que, em lugar de se contentar com a verdade experimental (ou pelo menos com parte dela, como fez Galileu, nosso Cônego e nosso Bispo acrescentaram que era o impetus engendrado na substância do projétil que entretinha seu movimento. Assim, declara Clavelin, Buridan e De Cusa partilharam do erro de Aristóteles acerca da necessidade de um motor para entreter o movimento. Isso é brincar com as palavras. O erro de Aristóteles foi ter acreditado que era necessário um motor exterior ao móvel para sustentar seu movimento, o que acarretou absurdos, como sustentar que é o ar que impulsionava a flecha e afirmar correlativamente que o “movimento violento” era impossível ao váculo! Muito antes de Galileu, Buridan e De Cusa haviam retificado esse erro. O fato de ter acrescentado à verdade experimental que o impetus engendrado na substância do projétil representa o motor interno nada tira aos seus méritos, pois o que eles tinham acrescentado é uma proposição filosófica de modo algum absurda, mas inverificável e que em nada diminui a verdade científica que proclamaram. A maior parte dos sábios atuais estima que a perpetuação do movimento na ausência de qualquer força é uma coisa profundamente misteriosa. Diante dessa verificação experimental, tem-se o direito de escolher três atitudes: Limitar-se a verificar o fato – é a atitude positivista; dizer que não se sabe por que continua o movimento – é a atitude da maioria dos sábios atuais; dar uma explicação filosófica qualquer, mas inverificável, como o fizeram Buridan e De Cusa. Não se tem o direito de contestar a prioridade de Buridan e De Cusa sob o pretexto de que eles acrescentaram à verificação exata dos fatos uma explicação filosófica de modo algum absurda, a qual os positivistas julgam inútil (e é de fato inútil) à ciência. Em suma, não se tem o direito de contestar a um sábio a prioridade de uma descoberta científica sob o pretexto de que ele a tenha aditado de uma interpretação filosófica inverificável.
  20. 20. Pierre Duhem (1861-1916), antigo aluno da Escola Normal Superior, membro da Academia das Ciências, Histoire dês doctrines cosmologiques de Platon à Aristote, tomo BII, PP. 328-340.
  21. 21. Op. Cit., p. 55.
  22. 22. Eis um exemplo de interpretação literal impossível: “Moisés nos diz que, antes do Dilúvio, Deus se arrependeu de ter criado o homem (Gn 6, 91). Ora, Deus não poderia arrepender-se, sendo imutável.”
  23. 23. Em especial, pela boca de Leão XIII, na encíclica Providentissimus.
  24. 24. O Conhecimento do Tempo, publicação anual que está nas mãos de todos os navegadores, dá as coordenadas geocêntricas dos astros.
  25. 25. Não penso faltar com o respeito ao Santo Padre ao deplorar que, em sua alocução de 10 de novembro de 1979, ele tenha erigido Galileu como mestre de pensamento em matéria de exegese e declaro que o ponto de vista desse sábio sobre a Sagrada Escritura foi confirmado pela presença, na Bíblia, de “gêneros literários” diferentes, presença reconhecida por Pio XII em sua encíclica Divino Afflante Spiritu. Preferir-se-ia que o Santo Padre lembrasse que Bento XV na encíclica Spiritus Paraclitus, de 1920, embora reconhecesse a justeza da teoria dos “gêneros literários”, “enquanto se encerra em certos limites”, havia firmemente condenado o abuso que dela se fazia já no início do século. Hoje, “gênero literário” tornou-se a palavra mágica que certos exegetas se contentem em utilizar para resolver todas as dificuldades. E pode-se dizer, na esteira de Bento XV, que muitos se servem hoje dessa expressão de maneira que implica demolir o princípio de inerrância bíblica. Melhor seria que, em lugar de referir-se unicamente ao princípio justo, mas ambíguo, dos “gêneros literários”, o Santo Padre tivesse simplesmente relembrado a encíclica Providentissimus, de Leão XIII, de 1893, que é e permanece a carta fundamental de qualquer exegese séria da Bíblia.
  26. 26. Citei, mais acima, a carta de desculpas que o Geral dos Irmãos Pregadores dirigiu a Galileu em conseqüência de um ataque ao movimento da Terra feito em nome da Bíblia pelo Pe. Caccini, em outubro de 1614.
  27. 27. Carta de Galileu ao Cardeal Dini de maio de 1615: “Gostaria tanto quanto possível de mostrar que eles se enganam, mas fecham-me a boca, ordenam-me que não me ocupe da Bíblia”(Koestler, op. Cit., p. 432). Um mês depois, porém, em carta à Grande Duquesa, à qual ele deu grande publicidade, Galileu discutia abundantemente o assunto.
  28. 28. Koestler, op. Cit., p. 428.
  29. 29. Eis um extrato dessa encíclica: “Hipótese não é ciência. Resta-nos dizer algumas palavras sobre questões que se referem às ciências positivas, mas que estão em relação mais ou menos estrita com as verdades da Fé. Muitos, com efeito, reclamam, com insistência, que a religião católica tenha em grande conta essas disciplinas. O que, sem dúvida alguma, é coisa louvável, quando se trata de fatos verdadeiramente estabelecidos; mas, quando se trata de hipóteses que tocam no ensino da Sagrada Escritura ou da Tradição, ainda que tenham algum fundamento científico, é preciso acolhe-las com prudência. Se tais hipóteses se opusessem direta ou indiretamente à doutrina revelada por Deus, seriam um postulado totalmente inaceitável.
  30. 30. Veremos mais tarde que fato algum, na época, permitia escolher entre os sistemas de Copérnico (Sol imóvel) e o de Tycho-Brahe (Terra imóvel).
  31. 31. Koestler, op. Cit., p. 408.
  32. 32. Eis a lista elaborada por Koestler do que foi falsamente atribuído a Galileu: “Na mitografia racionalista, ele transforma-se na Donzela de Orleães da Ciência, ou no São Jorge que esmagou o dragão da Inquisição. Contudo, não é muito surpreendente que a glória desse homem de gênio repouse em descobertas que ele jamais fez e em façanhas que jamais realizou. Contrariamente à afirmação de muitos manuais, ainda que recentes, da história das ciências, Galileu não inventou o telescópio, nem o microscópio, nem o termômetro, nem o relógio de pêndulo. Ele não descobriu a lei da inércia; nem o paralelogramo de forças ou de movimentos; nem as manchas solares. Não trouxe nenhuma contribuição à astronomia teórica, não deixou cair peso algum do alto da Torre de Pisa, não demonstrou a verdade do sistema de Copérnico. Não foi torturado pela Inquisição, não sofreu nos latíbulos da Inquisição, não disse “eppur si muove”, não foi mártir da ciência”.
  33. 33. Koestler, op. Cit., p. 450.
  34. 34. Idem, PP. 65 e 545 — Koestler dá o pormenor dos epiciclos introduzidos por Copérnico, e ver-se-à mais tarde que este utilizava nove epiciclos (digo nove) para explicar o movimento da Terra!
  35. 35. Lembro mais uma vez que se sabe, desde Newton, que o Sol não é imóvel, mas descreve em torno do centro de gravidade do sistema solar um movimento particularmente complexo.
  36. 36. Maurice Clavelin, La philosophie naturelle de Galilée, Armand Collin, 1968, Apêndice IV, PP. 478-482.
  37. 37. Essas linhas são extraídas de Il saggiatore, que apareceu em 1623, em resposta a uma brochura de Grassi, de 1619, onde este, entre outras coisas, acusava Galileu de apropriar-se de descobertas que não lhe pertenciam (Koestler, op. Cit., p. 472.)
  38. 38. Koestler, op. cit., PP. 340-341.
  39. 39. Idem, p. 467.
  40. 40. Idem, p. 62.
  41. 41. Ao arrepio das regras, nem sequer foi aprisionado durante o processo. Foi alojado suntuosamente em Roma, e chegaram a pôr, à sua disposição, uma carruagem para que ele pudesse visitar comodamente Roma e seus arredores!
  42. 42. M. Clavelin, op. cit, PP. 219-220.
  43. 43. Idem, p. 222.
  44. 44. Idem, PP. 252-253.
  45. 45. Idem, PP. 258-259.
  46. 46. Sua obra mais importante é o Almagesto. Foi traduzido para o francês no início do século XIX pelo astrônomo Delambre.
  47. 47. Os epiciclos não têm, evidentemente, nenhuma realidade física: trata-se, no espírito de Ptolomeu, de um simples meio geométrico de cálculo. Só é real o movimento resultante do astro. Sob pretexto de que Ptolomeu utilizou para Marte, Júpiter e Saturno deferente de raio igual à distância média desses planetas à Terra, pretendeu-se que ele havia feito esses planetas girar em torno do nosso globo. Tais críticas denotam total incompreensão da questão. Como a soma geométrica de vários vetores é independente da ordem em que são tomados esses vetores, pode-se tomar um deferente de raio igual à distância do planeta ao Sol, tanto quanto se pode tomar uma distância igual à da Terra ao Sol. Essa crítica equivale mais ou menos a isso: como 1 + 9 = 10, a gente se engana escrevendo 9 + 1 = 10.
  48. 48. Digo de certo modo porque se pode mostrar hoje que não é possível representar exatamente uma órbita percorrida segundo a lei de velocidade de Kepler pelo processo de Ptolomeu, ainda que com um número infinito de epiciclos. No entanto, utilizando os meios matemáticos modernos, pode-se chegar à precisão obtida por Ptolomeu com menor número de epiciclos.
  49. 49. As informações que se seguem são extraídas da obra de Koestler (já referida, p. 545), que parece ser o único dos contemporâneos que leu a obra de Copérnico.
  50. 50. Repito que o nosso moderno Conhecimento do tempo dá as coordenadas geocêntricas dos planetas, pois são as únicas de que se necessita.
  51. 51. Pode-se mostrar hoje que a estrela mais próxima está cem mil vezes mais afastada do Sol do que o está a Terra.
  52. 52. Considera-se hoje como fixo um sistema de eixos ligados às estrelas. Deslocando-se as estrelas em todos os sentidos, é necessário, para determiná-las, levar em conta esses movimentos. De qualquer modo, em relação a esses eixos, o sistema solar se desloca com velocidade de 20 km/seg.
  53. 53. Lembro que um movimento circular uniforme é um movimento acelerado. Só o movimento retilíneo uniforme é desprovido de aceleração.
  54. 54. É o centro de gravidade do sistema solar que é “não acelerado”. Mas, como a massa total dos planetas e dos satélites é igual, mais ou menos, a um milésimo somente da massa do Sol, este não se afasta muito do centro de gravidade.
  55. 55. Os leitores pouco familiarizados com essas questões de mecânica compreenderão o problema da maneira seguinte: — Imaginemos um aparelho mecânico que represente o sistema solar e no qual pequenas esferas façam as vezes da Terra e dos planetas e girem em torno de uma esfera que figura o Sol. Suponhamos que esse sistema esteja instalado no grande salão de um navio. Se o navio está imóvel, a esfera-Sol estará imóvel também, e teremos uma boa representação do sistema de Copérnico. Suponhamos agora que o navio esteja em movimento em qualquer direção e com qualquer velocidade. Nada mais estará imóvel em nosso aparelho, mas é claro que nada terá mudado para os observadores situados no navio, porque as posições relativas das esferas que representam os objetos do sistema solar são totalmente independentes dos movimentos do navio. Obriguemos agora o navio a deslocar-se constantemente com uma velocidade oposta à da esfera-Terra (o que quer dizer que o navio deverá descrever um círculo que tem por raio a distância da esfera-Sol à esfera-Terra, portanto um círculo muito menor que o navio). Resultará disso que a esfera-Terra ficará imóvel e teremos uma representação do sistema geocêntrico. Mas, se os observadores situados no salão do navio ignoram se o navio está imóvel ou em movimento, ser-lhes-à impossível dizer se é a esfera-Sol ou a esfera-Terra que está imóvel e até afirmar que haja um objeto imóvel no aparelho.
  56. 56. Galilée, PUF, 1967, p. 179. É de notar a completa incompreensão do autor quanto ao significado dos “epiciclos, deferentes e outros círculos”, destinados, segundo ele, a “obrigar Vênus, pela dupla virtude do metafísico e do geômetra”, a girar em torno da Terra. Prosseguindo no mesmo tom, ter-se-ia podido escrever que Copérnico, em razão de seus epiciclos, teria obrigado a Lua a girar em torno do Sol.
  57. 57. Galilée, op. cit., PP. 127-153. Maurice Clavelin: Galilée et Le refus de l´equivalence dês hypothèses.
  58. 58. Eis um texto muito curioso de Newton: “Que a gravitação seja inata, inerente e essencial à matéria, de modo que um corpo possa agir sobre outro à distância, no vácuo, sem mediação alguma, através da qual e pela qual sua ação e sua força possam passar de um a outro, é para mim absurdo tão grande, que creio que homem algum dotado de uma faculdade competente de pensar em matéria de filosofia nisso poderá cair” (citado por Koestler, op. cit., p. 323). É bom que Newton não tenha rejeitado esse “absurdo” e o tenha utilizado como meio de cálculo, com sucesso que ultrapassou todas as suas esperanças.
  59. 59. [N. da P.] A maneira correta de dizer isso é “... confia mais na observação do que na pura lógica.”.
  60. 60. Com exceção da “notação” e da “precessão dos equinócios”, fenômenos muito lentos, hoje inteiramente explicados pela ação do Sol e da Lua sobre a dilatação equatorial da Terra.
  61. 61. Koestler, op. cit, PP. 460-461.
  62. 62. Philipe Decourt, op. cit, p. 55.
  63. 63. Koestler, op. cit., p. 461.
  64. 64. Na teoria de Galileu, a causa única que podia provocar uma variação na altura das marés era a inclinação do eixo de rotação da Terra sobre a eclíptica. Nem isso, porém, poderia explicar as variações mensais da altura.
  65. 65. M. Clavelin, op. cit., p. 480.
  66. 66. Idem, p. 481.
  67. 67. Carta à duquesa Christina, de 1614. Tradução do Pe. Russo. Galilée, aspect de as vie et de son oeuvre, obra coletiva publicada em 1966 com o concurso da Academia de Ciências.
  68. 68. Galilée, op. cit., p. 358.
  69. 69. Os guerreiros de Josué, assim como os outros homens, participavam dos dois movimentos da Terra, notadamente de seu movimento de rotação em torno do Sol, que lhe imprime uma velocidade linear de 30 km/s mais ou menos. É fácil calcular que, para que homens e coisas não fossem projetados longe pela parada desse movimento, seria preciso que essa parada fosse progressiva e feita numa dezena de horas pelo menos. Se a ordem de Josué fosse executada instantaneamente ou mesmo somente em alguns minutos, tudo seria destruído sobre a Terra, montanhas, cidades, florestas etc. A sorte dos homens seria idêntica à dos passageiros do Concorde que se chocasse com uma montanha.
  70. 70. Galilée, op. cit., p. 127.
  71. 71. É uma versão que Galileu sempre combateu expressamente.
  72. 72. Galilée, op. cit., p. 129.
  73. 73. Pierre Durem, Essai sur la notion de théorie physique de Platon à Galilée, Hermann, Paris, 1908.
  74. 74. Utilizei a tradução integral dessa carta feita por Santillana, autor inteiramente favorável a Galileu, na obra Le Procés de Galilée, club Du meilleur livre, 1955, p. 119.
  75. 75. É patente que Belarmino foi enganado pelo prefácio que Osiander fez à obra de Copérnico, ao contrário do que este diz, porque ele afirma, em sua dedicatória a Paulo III, que o movimento da Terra é uma realidade. Deve-se ressaltar que, sem dúvida, por diplomacia, Belarmino finge acreditar em sua carta que Galileu falou hipoteticamente, quando, na realidade, ele afirmou categoricamente o movimento da Terra.
  76. 76. Uma realidade acessível aos nossos sentidos é apenas objeto de técnica. Não é preciso, por exemplo, nenhuma teoria científica para medir as dimensões do Globo: são suficientes teodolitos e um bom tratado de trigonometria. Ao contrário, a teoria atômica é uma teoria científica, pois é impossível ver os átomos e até provar diretamente que a matéria é descontínua.
  77. 77. Parece estar definitivamente provado que, na escala atômica pelo menos, nossas representações mentais surgidas da observação do mundo em nossa escala, não poderiam corresponder inteiramente à realidade.
  78. 78. Como exemplo de teoria definitivamente acolhida pela ciência sob o ponto de vista operativo, citarei a mecânica de Newton, o eletromagnetismo de Maxwell e a relatividade restrita de Einstein.
  79. 79. A mecânica newtoniana e a relatividade generalizada de Einstein permitem, ambas, prever os movimentos dos planetas e dos engenhos espaciais com farta precisão. Os astrônomos e engenheiros fazem então seus cálculos com a teoria mais simples, que é a de Newton, mas o sábio espera que novas observações lhe permitam pronunciar-se.
  80. 80. Pretendeu-se no início do século, rejeitar a teoria da relatividade restrita de Einstein, porque se fundava em hipóteses contraditórias. Há muito tempo já se fez justiça, e os espetaculares êxitos registrados por essa teoria nos últimos 75 anos obrigam a considerá-la uma aquisição definitiva da Ciência, pelo menos sob a ótica operativa.
  81. 81. Galilée, op. cit., p. 133.
  82. 82. Koestler, op. cit., PP. 431-432.
  83. 83. Koestler, op. cit., p. 455.
  84. 84. Idem, p. 458.
  85. 85. Que se não objete aqui que as duas outras personagens do Diálogo não refutaram Simplício. Eles não o fizeram simplesmente porque nada havia que responder. Galileu utiliza aqui seu procedimento constante: ridicularizar o adversário em lugar de refutá-lo. O processo é muito hábil, mas seria preciso que Galileu estivesse cego de orgulho para não compreender que não se escarnece de um amigo, sobretudo se esse amigo é o Papa.
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