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Introdução à festa do Nascimento do Senhor

O Verbo desde toda a eternidade gerado pelo Pai elevou à união pessoal com Ele o fruto bendito do seio virginal de Maria; quer dizer que a natureza humana e a natureza divina se ligaram em Jesus na unidade duma só pessoa que é a segunda da Santíssima Trindade e visto que quando se fala de filiação é a pessoa que se designa, deve dizer-se que Jesus é o Filho de Deus, porque a sua Pessoa é divina: É Verbo incarnado. Daqui se segue que Maria é com razão chamada Mãe de Deus, não porque ela tenha gerado o Verbo, mas porque gerou a humanidade que o Verbo uniu a Si no mistério da Incarnação. Compreendemos então que a Igreja cante na Missa o solene Intróito: “Tu és meu Filho, hoje Te gerei”.

Filho eterno do Pai, constantemente gerado por Ele na eternidade, Cristo continua a sê-lO no dia do seu nascimento sobre a Terra, revestido da nossa humanidade. É no meio da noite que Maria dá à luz o Filho divino e O coloca no presépio. Por isso celebra-se a Missa à meia noite, e a estação faz-se na Basílica de Santa Maria Maior, no altar onde se conservam as relíquias do presépio.

Este nascimento de Cristo em plena noite é simbólico: “Deus nascido de Deus, Luz nascido da Luz” (Credo), Cristo dissipa as trevas do pecado; “É a verdadeira luz” cujo esplendor ilumina os olhos da nossa alma, para que, enquanto conhecemos a Deus de uma maneira visível, por Ele sejamos arrebatados ao amor das coisas invisíveis. Veio arrancar-nos à impiedade e aos prazeres do mundo e ensinar-nos a merecer, pela dignidade da vida neste mundo, a feliz esperança que nos foi prometida. Será em plena luz que se realizará a vinda da glória de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo. Natal, é a aparição na noite do mundo da Luz divina, cujo fulgor, em nós, e em volta de nós, se estende até ao fim dos tempos.

 

Do Evangelho: Por que, pergunta São Gregório, esse recenseamento, no momento do nascimento do Senhor, senão para nos dar a entender que é a aparição na carne d’Aquele que, um dia, deve recensear na eternidade os seus eleitos? (Matinas). O aparecimento do Homem Deus durante a noite é a figura da sua vinda no fim do mundo. Di-lo o próprio Jesus: No meio da noite far-se-á ouvir um clamor. Eis que vem o Esposo, ide ao seu encontro e as almas que tiverem esperado por Ele entrarão para as bodas eternas, enquanto que às outras dirá: Não vos conheço (parábola das dez virgens).

 

 Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

A humildade de São Pedro

Irmão Michel André

Uma das últimas aparições de Cristo, antes de Sua Ascensão, é relatada por São João no último capítulo de seu Evangelho e aconteceu às margens do rio Tiberíades. Aqui estão alguns versos sobre ela:

“Após comerem (após a segunda pesca milagrosa, Jesus os fez fritar peixe no fogo), Jesus disse a Pedro: ‘Simão, filho de João, tu me amas mais que estes?’ Ele respondeu e Lhe disse: ‘Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo’ Ele perguntou uma segunda vez: ‘Simão, filho de João, tu me amas?’ Pedro Lhe respondeu: ‘Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo’ Ele perguntou uma terceira vez: ‘Simão, filho de João, tu me amas?’ Pedro se contristou por Ele ter perguntado a terceira vez e respondeu: ‘Senhor, Tu sabes todas as coisas, Tu sabes que Te amo’ E Jesus lhe disse: ‘Apascenta minhas ovelhas’” (Jo 21,15-17). O que significa dizer: sede Pastor, o chefe de todos os Bispos e Padres, representados pelas ovelhas.

Nesse comovente diálogo, não sabemos o que é mais admirável: o tato de Jesus ou a humildade de seu apóstolo.

Voltemos um pouco no tempo. Os quatro evangelistas escrevem sobre a tripla negação de Pedro, embora nenhum deles a tenha testemunhado. Poderíamos sequer jamais saber desse acontecimento! Portanto, foi de Pedro (e apenas dele) que tomaram conhecimento de sua queda!

E isso explica por que os detalhes são relatados de maneira diferente pelos quatro evangelistas. É interessante notar que as maldições só se encontram em Mateus e Marcos (discípulos de São Pedro). O Evangelho de São Lucas é mais discreto; o de São João é mais ameno ainda.

Pedro não conseguiu guardar sua queda em segredo. Ainda que apenas para mostrar sua tristeza profunda, teve de confessar esse triste acontecimento.

A narração, então, foi feita de maneiras diferentes pelas pessoas por 10, 20, 40 anos. Uma coisa é certa: em três ocasiões, Pedro negou ser discípulo de Jesus! Assustador!

E ele quis que sua negação fosse conhecida por toda a Igreja, pois ela tinha sido uma das maiores causas dos sofrimentos de Cristo!

Imaginemos a dor atroz que Pedro sentiu após a morte do Salvador; ele, o apóstolo escolhido entre os doze para ser o líder, havia negado seu Mestre!

Agora, foi porque ele O amava mais que tudo que Pedro seguiu Jesus para o palácio do Sumo Sacerdote. Se Pedro tivesse amado Jesus menos, teria permanecido escondido, teria fugido junto com os outros apóstolos após a prisão no Getshêmane e jamais teria ido ao palácio para tentar ouvir alguma novidade.

Sabemos de São Lucas que, após a terceira negação, o Salvador olhou para Pedro, perdido na multidão. A gentileza desse olhar, cheio de misericórdia, foi mais insuportável que qualquer admoestação verbal. Pedro saiu do palácio imediatamente e chorou copiosamente!

Mas era tarde demais: não podemos apagar o passado. E Pedro havia cometido uma falta irreparável!

Ele estava inconsolável: “A última coisa que Jesus viu de mim foi minha negação; as últimas palavras que me ouviu proferir foram: ‘não conheço este homem!’ Minha covardia aumentou o horror de Seu sofrimento. Ela foi mais cruel para Ele que os sofrimentos atrozes de Suas mãos e Seus pés traspassados pelos cravos na cruz!” Pedro não teria como consertar sua queda!

Reparemos que o apóstolo não mostrou a extensão de sua humildade ao admitir a seus amigos e companhias sua tripla ofensa.

O tamanho de sua humildade reside no fato de que, apesar de indigno – e ele estava ciente de sua indignidade – permaneceu no posto que seu Mestre lhe havia confiado.

O que teríamos feito em seu lugar? Teríamos renunciado; teríamos fugido de Jerusalém e nos escondido em algum lugar remoto, para esconder nossa vergonha...

De acordo com os critérios do mundo, Pedro deveria ter desaparecido para pagar por seu pecado...

Um exemplo típico da falsa honra humana, que é hipnotizada e centrada em si mesmo até no arrependimento. Ao invés de enxergar no pecado o ultraje feito a Deus, só enxergamos a confusão, a degradação, que é orgulho puro; orgulho ferido e rancor! O oposto do arrependimento.

Pedro, o traidor, lembrou-se da advertência de seu Mestre: Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como o trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua confiança não desfaleça; e tu, por tua vez, confirma os teus irmãos (Lc 22, 31-32).

A fé e o amor de Pedro não foram obscurecidos por seu pecado, pois ele era humilde. Ele permanece em seu posto, cheio de tristeza, mas fiel.

Quando, portanto, vamos reconhecer que mesmo nossos pecados estão abarcados pela misericórdia de Deus?

Pedro não mentiu quando declarou, no cenáculo, que estava pronto para morrer por Jesus. E veio a morrer de forma terrível no martírio.

Mas, enquanto isso, Deus preparou para ele uma morte mais difícil: morrer para si mesmo! Sua honra humana precisava ser quebrada, e era necessário que não restasse mais nada nele que enxergasse como sendo sua lealdade, sua coragem, sua grandiosidade.

Ele não poderia ser mais que um pobre homem sem méritos. Então, morto para si mesmo, viverá apenas por Jesus e para Jesus.

Foi assim que Nosso Senhor o reabilitou publicamente: Simão, filho de João, tu me amas mais que estes?

“Estes” são seus irmãos de apostolado, dos quais ele errou ao dizer no cenáculo: “Ainda que estes Te abandonem, eu jamais O abandonarei!”

Portanto, que falta feliz que o purificou de seu orgulho. Ele responde de maneira simples agora, sem se comparar com os outros: “Senhor, Tu sabes que eu Te amo”

Ele aprendeu a lição, e o Mestre, agora, não mais fará referência aos outros em sua segunda pergunta.

Mas por que uma terceira vez? Nosso Senhor não duvida de sua sinceridade, pois, em duas ocasiões, o confirmou em seu papel de pastor.

Pedro entende. Seus olhos mal conseguem conter as lágrimas. Mas, sem revolta, abandona-se ao Seu Juiz: “Senhor, Tu sabes todas as coisas; Tu sabes que Te amo”

Que exemplo para nós! Nossos pecados, irreparáveis em si mesmos, foram abarcados pela morte de Cristo!

Tomemos nota de que com gentileza e clemência Jesus tornou Seu perdão conhecido.

Se as três perguntas representam as três negações nunca foi mencionado.

Nós, quando ofendidos, só sabemos falar de admoestar o ofensor. Nosso Senhor ofendido só pensa em resgatar o amor do culpado.

Outra coisa: Jesus não tenta obter promessas para o futuro. Ele não fala a Pedro do passado ou do futuro.

Que diferença comparado com os julgamentos dos homens que, para perdoar, exigem promessas, condições, garantias!

Pedro, publicamente reabilitado, agora está apto a viver novamente como apóstolo fiel, mas Jesus não busca a garantia de sua fidelidade no futuro: Ele a busca no presente, nos sentimentos presentes de Seu discípulo.

Seríamos os desgraçados mais ingratos se concluíssemos, diante desse caso, que o pecado é uma ninharia e que tudo estaria perdoado assim que mudássemos de comportamento.

Não: entre a negação de Pedro e seu perdão algo capital, maravilhoso aconteceu, que alguns tendem a esquecer até na Missa...

A morte e a ressurreição de Cristo aconteceram.

Todos os nossos pecados, todas as nossas negações resultam no Calvário e só são perdoadas pela morte de Cristo. E só temos a garantia dessa reparação na ressurreição de Jesus Cristo.

Lembremos o que dizia São Paulo: “Se Cristo não tivesse ressuscitado dos mortos, vós ainda estaríeis em pecado”

O pecador só é reabilitado porque condena completamente seus pecados, que causaram a morte de Cristo e porque Cristo o absolve de seus pecados e o lava em Seu sangue.

E só podemos estar mortos para o pecado se Jesus Cristo viver em nós através de Sua graça.

Portanto, evitemos fazer promessas a Deus baseados apenas na nossa coragem: quantas vezes fracassamos nessa seara!

Ao invés, escutemos Jesus fazer a cada um de nós a mesma pergunta que fez a Pedro: não “Vós fostes ingratos e não Me amastes”, nem “Vós Me amareis para sempre?” mas “hoje, aqui e agora, vós Me amais?”

Trata-se de imitar a humildade e Pedro e não confiar em nós mesmos; trata-se de substituir nossa presunção por um amor humilde e fervoroso a Ele, que nos trouxe o perdão – por Sua Cruz – porque Ele nos ama com um amor divino.

Trata-se de dizer a Jesus toda manhã: “Senhor, Vós somente sabeis o futuro; Vós me conheceis melhor que eu mesmo, Vós sabeis que eu quero, hoje, amar-Vos com todo o meu coração e trabalhar e viver para Vos agradar por Vosso amor”

(Rector´s letters - St. Thomas Aquinas Seminary, set/21)

O Sagrado Coração de Jesus

Gustavo Corção

 

Como vimos no artigo anterior, todas as fontes visíveis da salvação para a vida eterna nasceram do Coração vulnerado de Jesus. E agora é no coração do Coração de Jesus que todos nós, tão sobrecarregados, devemos procurar alívio, paz e doutrina que nos norteie para a Casa do Pai.

A consciência mais viva do culto do Coração de Jesus nos aparece com a manifestação revelada a Lutgarda d’Aywières, que esperava sentada o moço com quem iniciara um namoro quando de repente viu diante de si a figura de Jesus a lhe mostrar o peito vulnerado e o sangue fresco e a lhe dizer: “Não procures mais os agrados de um vão amor. Olha, vê, contempla para sempre o que deves amar e porque deves amá-lo”. “Hic jugiter contemplare quid diligas, et cur diligis”.

A jovem Lutgada tornou-se monja beneditina e hoje, embora esquecida, permanece na galeria dos santos canonizados que a Igreja nos propõe como primeiros degraus da imitação de Cristo. Santa Lutgarda, ora por nós.

Um século mais tarde é no mosteiro beneditino de Helfta, em Saxe, que uma grande e sábia abadessa chamada Gertrude de Hackeborn (1231-1292) teve perto dela uma irmã Matilde, e foi nesse mosteiro tão santamente preparado que ambas tiveram a alegria de receber outra Matilde e outra Gertrude que se tornaram grandes santas, famosas pela intimidade que tiveram com o Coração de Jesus.

No fim de sua vida, Matilde, que não tinha a educação apurada das monjas, e só escrevia, e mal, em baixo-alemão, deixou esta página de um diálogo que teve com o Senhor Jesus:

— Dize-me o que me trazes tu, minha rainha.

— Senhor, trago-vos uma joia maior do que as montanhas, mais vasta que o mundo, mais profunda que o mar, mais alta do que as nuvens e mais bela do que o Sol, mais rica do que todas as estrelas, e mais pesada do que a terra inteira.

— E como se chama essa joia, ó filha, imagem de minha divindade, honrada por minha humanidade, ornada pelo Espirito Santo? Que joia me trazes?

— Senhor, a joia que vos ofereço se chama: alegria de meu coração. Arranquei-a do mundo, guardei-a comigo recusada a todas as criaturas, mas agora já não aguento carrega-la. Onde devo depositá-la Senhor?

— A alegria de teu coração não pode pousar senão no meu Coração divino que bate em peito de homem. Somente aí serás consolada e abrasada por meu Espírito.

Gertrude recebeu os mesmos favores do céu, e deixou-os consignados no Arauto do Amor divino, que foi um registro de toda a vida espiritual do mosteiro, mais do que história de sua própria alma. E vemos brilhar, no mais belo dos séculos, essa casa religiosa que o Coração de Jesus visitou com tanta intimidade.

Na família franciscana encontramos, ainda no século XIII, Margarida de Cortone e Ângela de Foligno que viveram a fundo a devoção da chaga aberta sobre o Coração de Jesus.

No século XIV, tão agitado e perturbado, arrefece a lembrança do Coração de Jesus, mas no meio das tormentas do Cisma vê-se passar a figura inflamada de Catarina de Sena, e ouve-se sua voz inesquecível a gritar que segue um rastro de Sangue. Ao seu próprio confessor ela escreve dizendo seu ardente “desejo de vê-lo sufocado, afogado no doce Sangue do Filho de Deus” e acrescentando: “Quero vê-lo inserido no flanco aberto do Filho de Deus, esse flanco que é um jarro aberto cheio de odor e até capaz de perfumar o pecado. Ali repousa a doce esposa num leito de Sangue e Fogo. Ali se vê e se manifesta o segredo do Coração do Filho de Deus. Nesta botelha de tampa perfurada se dessedenta e se inebria todo desejo enamorado, e ela nos dá alegria, nos ilumina o entendimento, nos enche a memória que aí se satura, a tal ponto, que já não poderá mais reter, entender e amar outra coisa que não seja o doce e bom Jesus, sangue e fogo, amor sem preço”

Nos tempos modernos é João Eudes (1601-1680) que retoma a devoção do Coração de Jesus associando-o ao Coração de Maria. Mas é Margarida Maria Alacocque (1647-1690) quem dará ao mundo o que chamaríamos de “mensagem” do Sagrado Coração. De 27 de dezembro de 1673 a 21 de julho de 1675, Margarida Maria é cumulada de revelações e é incumbida da difusão universal dessa devoção, que deverá ter suas práticas mensais, e festa anual celebrada com solenidade litúrgica. As dificuldades dessa difusão eram enormes para uma religiosa enclausurada, mas é preciso que o mundo inteiro possa escutar os queixumes e os pedidos de reparação de um Coração divino vulnerado por nossas ofensas, e por nós apaixonado.

A Igreja, porém, é vagarosa; e é melhor que o seja porque, se aos seus missionários convém correr como escravos de Deus e dos pobres, à Igreja hierárquica convém o vagar majestoso dos reis.

Dois séculos passaram até que Pio IX, em 1856, estendesse o culto do Sagrado Coração à Igreja Universal. Gradativamente o culto atingiu os mais altos graus da solenidade ritual. Leão XIII, em 1899, por instigação da irmã Maria Droste zu Vischering, do Bom Pastor de Porto, consagrou o gênero humano ao Coração de Jesus, com uma bela fórmula que se recomendava à recitação pública. Pio XI, em 1928, inseriu a festa no ciclo do temporal e concedeu-lhe uma oitava privilegiada.

Associou-se ao culto do Sagrado Coração a prática da comunhão em cada primeira sexta-feira do mês. E assim se vê que a Igreja solicitamente multiplicou os modos de nos unirmos melhor ao Coração de Jesus. Santa Catarina de Sena fez a experiência mística da troca de corações. São João Evangelista, o discípulo tão amado, teve o privilégio de reclinar-se no peito de Jesus e ouvir o seu Coração. A Virgem Santíssima de cujo coração nascera Jesus, “guardava todas aquelas palavras no seu coração” e, portanto, abrira para todo o gênero humano o caminho de volta ao Paraíso, que é o Coração de Jesus.

E a sorte do mundo depende essencialmente da presença catalisadora da Igreja, e da presença, na Igreja, de um pequeno rebanho que seja o sal do mundo e que se mantenha unido, consciente e fervorosamente unido ao Coração de Jesus.

Sem isto o mundo conhecerá dias de crueldade e de degradação inimagináveis, ainda que os ativistas multipliquem seus programas sociológicos e seus pronunciamentos temporais. Nosso torturado e transviado mundo não precisa de padres e bispos que se ocupem de problemas temporais com esquecimento do “único necessário”; e por mais forte razão não precisa de padres e bispos que, nos problemas sociais e políticos, correm atrás das mais perversas soluções. Há muita gente cuidando da máquina do mundo, e por isso precisamos de uns poucos que deem o testemunho de outra ciência e outra sabedoria que transbordam do Coração de Jesus. “Cor Jesu, in quo sunt omnes thesauri sapientiae et scienciae, miserere nobis”.

 

(O Globo, 26/06/71)

Há provas de que os cristãos primitivos rendiam culto aos santos e veneravam suas relíquias?

Pe. Juan Iscara, FSSPX

“Culto” é a manifestação pública da honra dada em memória de um Santo pela comunidade dos fiéis e ratificada pela autoridade eclesiástica.

Desde os primórdios da Igreja, os corpos dos mártires eram resgatados por fiéis piedosos, que corriam risco de vida às vezes, e recebiam um sepultamento honroso. Até mesmo suas roupas ensanguentadas eram resgatadas e preservadas com veneração. Portanto, os Atos Proconsulares do martírio de São Cipriano relatam que os fiéis de Cartago espalharam linho próximo a ele, para coletar o sangue derramado em sua decapitação.

Os mártires foram os primeiros a se tornar objeto de veneração da Igreja local, porque o martírio é a expressão mais elevada da fé e a comunhão mais íntima no mistério de Cristo. Eles eram solenemente lembrados nos aniversários de suas mortes, que os cristãos consideravam seu dies natalis, o dia de seu nascimento no Céu. Esse louvor e comemoração periódicos vinha sempre em conjunto com a celebração do sacrifício eucarístico, como testemunhado no Século III pelas Constituições Apostólicas. Era uma Eucaristia alegre pelo triunfo de Cristo em um dos membros de Seu Corpo Místico.

A disposição dos cristãos de honrar e comemorar os mártires é claramente observada no relato do martírio de São Policarpo de Esmirna (falecido em 155):

Coletamos seus ossos, mais preciosos que as joias mais raras e mais puros que ouro e depositamo-los em um local adequado, onde, reunidos conforme a oportunidade nos permitisse, com alegria, o Senhor nos dava a chance de celebrar o aniversário de seu martírio, tanto em memória daqueles que já haviam terminado seu curso, quanto pelo treinamento e preparação daqueles que ainda estavam por imitar seus caminhos (Martyrium Polycarpi, 18).

A mesma narração, claramente, esclarece a natureza do culto oferecido ao mártir:

A Cristo, de fato, sendo Filho de Deus, adoramos; mas os mártires, como discípulos e seguidores do Senhor, nós os amamos em razão de sua afeição pelo Rei e Mestre, de Quem possamos também ser companheiros e discípulos! (Martyrium Polycarpi, 17).

A veneração especial dos mártires também se manifesta nas inscrições em cemitérios. Inscrições cristãs antigas têm muitas orações pelos mortos, suplicando os favores de Deus por eles – Requiescat in pace, Vivat in Christo, “Descanse em paz”, “Que ele viva em Cristo”. Mas, como o martírio abriu as portas do Céu para eles, as orações diretamente aos mártires advieram espontaneamente da consciência do povo cristão, pedindo-lhes que intercedam por nós. Portanto, por exemplo, sob a Basílica de São Sebastião em Roma, do ano aproximado de 260, encontra-se uma inscrição: Paule et Petre, petite pro Victore, “Pedro e Paulo, rogai por Victor”. Na catacumba de Praetextatus, outra pede pela intercessão dos mortos perante Deus: Succurrite cum judicabitis, “Auxiliai-nos quando chegardes ao juiz”. E, na Igreja de Santa Sabina, do ano aproximado de 300: “Ático, descansai em paz, seguro em vossa segurança, e rogai por nossos pecados.”

Santo Agostinho, claramente, distingue essas duas formas de oração.

Se lembramos os mártires, tomando nossos lugares na mesa do Senhor, não é para rezar por eles, como pelos outros mortos que descansam em paz. É para que eles rezem por nós e para que sigamos seus caminhos. Pois eles atingiram aquele amor do qual diz o Senhor que não pode haver outro maior. Eles ofereceram a seus irmãos aquilo que receberam na mesa do Senhor.

Além de rezar pedindo sua intercessão, o culto dos Santos também se manifestava pela veneração de seus restos e de suas imagens, uma veneração que logo adquiriu um caráter litúrgico.

Embora escrevesse séculos mais tarde, Santo Tomás de Aquino expressa a razão da prática da Igreja a esse respeito desde os tempos mais remotos:

Por onde é claro que quem tem afeto por outrem venera-lhe também o que dele resta depois da morte; e não só o corpo ou partes do corpo, mas também certos bens exteriores, como as vestes e outros semelhantes. Ora, é manifesto que devemos venerar os santos de Deus como membros de Cristo, filhos e amigos de Deus e nossos intercessores, por isso devemos lhes venerar quais relíquias com a honra devida em memória deles; e sobretudo os seus corpos, que foram os templos e os órgãos do Espírito Santo, que neles habitou e operou, e hão de assemelhar-se ao corpo de Cristo pela glória da ressurreição. Por isso, o próprio Deus honra convenientemente essas relíquias, fazendo milagres na presença delas (Summa Theologiae, III, q. 25, a.6).*

Na Igreja primitiva, as catacumbas eram, acima de tudo, os locais de sepultamento dos mártires. Contrariamente às lendas, se os cristãos em Roma se reuniam nas catacumbas para celebrar a Eucaristia, era menos para se esconder (pois as catacumbas eram locais muito públicos) do que para estar próximos às tumbas dos mártires. Os fiéis estavam dispostos e até competiam para serem enterrados ad martyres, ad sanctos, “próximo aos mártires, aos santos”. Como São Paulino de Nola explicou, quando decidiu enterrar seu filho Celso próximo aos mártires de Complutum, ele desejava fazê-lo “para que, pela proximidade do sangue dos mártires, ele possa adquirir a virtude que purifica nossas almas como o fogo”.

Nas circunstâncias, as tumbas em si se tornaram altares. Dessa primeira Liturgia, quase ditada pelo layout das catacumbas, adveio a ideia de que não poderia haver celebração real sem a presença protetiva do corpo, ou, ao menos, algum resto de um mártir.

De acordo com o Liber Pontificalis, o Papa São Félix I (falecido em 274) transformou o costume em uma obrigação. Ao final do Século IV, Santo Ambrósio de Milão respeitosamente depositou os corpos dos mártires sob o altar:

Que as vítimas triunfantes tomem seu lugar onde Cristo Se oferece como vítima. No altar, Ele sofreu por todos e, abaixo, aqueles que Ele redimiu por Sua Paixão.

O 5º Concílio de Cartago, em 401, formalizou essa prática, tornando compulsório que todo altar tivesse relíquias, chegando até mesmo a ordenar a destruição dos altares que não as tivessem. Desde essa data, não pode haver consagração do altar sem que haja relíquias ali. O traslado solene dos restos dos Santos torna-se parte da Liturgia da dedicação das Igrejas até os dias atuais.

Infelizmente, a piedade popular, se transviada, arrisca transformar o culto das relíquias em superstição. No Século IX, Vigilâncio, um Padre de Toulouse, chegou a condenar como idolatria. Mas São Jerônimo (falecido em 420) escreveu uma carta severa, Contra Vigilantium, na qual explicava que damos honra às relíquias dos mártires para adorar Aquele pelo Qual eles foram mártires.

Todos os Padres da Igreja apoiavam com sua autoridade e iluminavam com sua ciência tão estimável veneração. No Oriente, São João Crisóstomo (falecido em 407) fez-se seu inspirado cantor:

Quereis experimentar delícias inexplicáveis? Vinde às tumbas dos mártires, curvai-vos humildemente ante seus ossos sagrados, beijai devotamente o relicário que os contém, lede os combates que travaram, os traços edificantes de sua fé e de sua coragem [...] e vós sentireis os efeitos de sua poderosa intercessão com Deus (Homilia I sobre os Mártires)

A piedade cristã primitiva também honrava as imagens dos Santos: pinturas em cemitérios, mosáicos nas Basílicas. Essas representações não eram, originalmente, objeto de veneração, mas parte de uma decoração que dava glória e servia de lembrete das virtudes a serem praticadas. Foi o Oriente que desenvolveu a Teologia do ícone, sustentando a legitimidade de sua veneração contra os imperadores iconoclastas.

 

Devemos fazer proselitismo?

Pe. Bernard de Lacoste, FSSPX

 

O Papa Francisco frequentemente e com muita energia condena o proselitismo dos católicos. Esse tema volta e meia reaparece nos seus comunicados orais e escritos. Por que uma tal insistência? Qual é a doutrina católica nessa matéria?

 

1. O sentido da palavra proselitismo

O termo deriva de “prosélito”, que etimologicamente significa “recém vindo a um país estrangeiro”. Essa palavra é usada na Bíblia para designar os gentios ou não-judeus que viviam de modo estável com o povo de Israel, e tinham o propósito de entrar na Aliança e observar a lei de Moisés. Daí, passou para a linguagem cristã. O proselitismo é a atitude daqueles que buscam converter os demais para a sua fé. Nos nossos dias, o termo adquiriu uma conotação negativa e designa um comportamento frequentemente agressivo, desprovido de respeito pelos outros. É assimilado a uma propaganda intempestiva e mesmo a uma certa violência destinada a fazer novos adeptos. O uso corrente da palavra nos leva a fazer as distinções seguintes:

Quanto ao modo, é preciso distinguir um bom proselitismo, que usa da mansidão e busca convencer respeitando a liberdade do interlocutor; e o mau proselitismo, agressivo, violento e ameaçador.

Quanto ao fim procurado, deve-se distinguir entre o proselitismo louvável, que visa o bem da pessoa; e o condenável, que procura explorar o próximo em proveito de uma seita.

É evidente que os dois significados negativos do termo (quanto ao modo e quanto ao fim) não correspondem ao espírito católico. Todo católico deve rejeitar esses proselitismos. O espírito missionário se inspira na caridade teologal e rejeita a agressividade sectária.

Mas, para além dessa conotação pejorativa, compreendido como uma simples tentativa de convencer alguém a se tornar católico, com o recurso de argumentos racionais; esse comportamento é católico? O Papa Francisco responde negativamente, como demonstram as citações abaixo.

 

2. O que diz o Papa Francisco

No avião, retornando de Bangladesh, no dia 2 de dezembro de 2017, o papa disse: “A paz começa a se romper neste campo quando começa o proselitismo. E existem tantos modos de proselitismo. Isto não é Evangelho”[1].

Durante as Jornada Mundial da Juventude, na Cracóvia, um jovem o interrogou sobre a conduta que deveria ter com um bom amigo ateu, “o que devo fazer para mudá-lo, para convertê-lo?”. O papa respondeu-lhe prontamente: “A última coisa que tu deves fazer é dizer algo. Tu vives o Evangelho e se ele te perguntar porque fazes isto, podes explicar a ele porque o fazes e deixe que o Espírito Santo o atraia”[2] A conversão só pode vir da “força e da mansidão do Espírito Santo”, e não de uma tentativa de “convencer mentalmente, com apologética, razão”.

O Papa Francisco declarou também, na Conferência de Imprensa de 21 de junho de 2018: “no movimento ecumênico, devemos tirar do dicionário uma palavra – proselitismo. É claro? Não pode haver ecumenismo com proselitismo, é preciso escolher: ou és de espírito ecumênico, ou és um ‘proselitista’”[3].

Do mesmo modo, em Marrocos, 31 de março de 2019: “Os caminhos da missão não passam pelo proselitismo, que sempre leva a um beco sem saída [...] A Igreja cresce não por proselitismo, mas por testemunho”[4].

No seu discurso de maio de 2019, o papa alertou para uma confusão possível entre evangelização e proselitismo. “Evangelização é testemunho de Jesus Cristo, morto e ressuscitado. É Ele quem atrai [...] Não é procurar novos sócios para esta “sociedade católica”, não, é mostrar Jesus; que Ele se mostre na minha pessoa, no meu comportamento; e abrir espaços a Jesus com a minha vida.”[5]

A evangelização liberta, enquanto o proselitismo faz perder a liberdade, afirmou o papa em setembro do mesmo ano[6].

Não se trata de um ensinamento novo. Bento XVI, numa homilia de 13 de março de 2007, no Brasil, disse: “A Igreja não faz proselitismo. Ela cresce muito mais por ‘atração’: como Cristo ‘atrai todos a si’ com a força do seu amor, que culminou no sacrifício da Cruz, assim a Igreja cumpre a sua missão na medida em que, associada a Cristo, cumpre a sua obra conformando-se em espírito e concretamente com a caridade do seu Senhor”[7].

Em 1986, João Paulo II se dirigia nesses termos aos participantes de um colóquio teológico judaico-cristão: “Vosso colóquio pode ajudar a evitar o erro do sincretismo, a confusão da nossa identidade recíproca de crentes, a sombra e suspeição de proselitismo. Efetivamente, levais adiante as perspectivas do Concílio Vaticano Secundo, que também tem sido o tema dos documentos posteriores da Comissão da Santa Sé pelas relações religiosas com o judaísmo”[8]. Também escreveu em 28 de junho de 2003: “Ao mesmo tempo, desejo uma vez mais asseverar aos pastores, aos irmãos e irmãs das Igrejas Ortodoxas que a nova evangelização não deve de modo algum ser confundida com o proselitismo, sem com isto negar o dever do respeito da verdade, liberdade e dignidade de cada pessoa”[9].

Essas citações mostram que o Papa Francisco, na mesma linha dos seus dois predecessores, não se opõe à evangelização. Ele encoraja mesmo os católicos a serem missionários, como se lê em Evangelii Gaudium (cap. 5), mas compreende o termo evangelização em sentido restrito: mostrar o exemplo de vida católica, ser um testemunho do Evangelho por seu comportamento. Em revanche, não quer que os católicos lancem mão de argumentos para convencer os não-católicos a abraçarem o catolicismo. Em outros termos, se alguém quer se converter ao catolicismo, o processo tem de ser espontâneo, sem que algum católico o tenha ocasionado por meio de uma discussão. O uso da apologética para favorecer uma conversão é condenado.

Assinalemos que o Papa João Paulo II foi mais longe ao condenar não apenas a tentativa de conversão por meio de argumentos apologéticos, mas mesmo toda a tentativa de conversão no que concerne os judeus: “Cada uma de nossas religiões [católica e judia], na plena consciência dos laços que as unem, e em primeiro lugar aquele laço de que fala o Concílio, quer ser reconhecida e respeitada na sua identidade própria, para além de todo sincretismo e de toda apropriação equívoca”[10]. Diz ainda aos judeus: “Sim, por meio da minha voz, a Igreja Católica, fiel ao que o Segundo Concílio Ecumênico do Vaticano declarou, reconhece o valor do testemunho religioso do vosso povo”[11]. “Será necessário precisar, sobretudo para aqueles que se mantém céticos, e até mesmo hostis, que esta aproximação não há de confundir-se com certo relativismo religioso e menos ainda com uma perda da identidade? [...] Deus conceda aos cristãos e aos judeus encontrarem-se mais, realizarem trocas em profundidade e a partir da identidade de uns e de outros, sem nunca a obscurecerem de nenhum lado, mas procurando verdadeiramente a vontade de Deus que se revelou!”[12]

Bento XVI diz exatamente a mesma coisa aos judeus: “mesmo nos aspectos que, em virtude da nossa íntima convicção de fé, nos distinguem uns dos outros aliás, de forma específica em tais aspectos devemos respeitar-nos e amar-nos reciprocamente”[13].

 

3. Aplicação prática

Esse ensinamento dos papas recentes não ficou apenas na teoria. Foi posto em prática no apostolado. Já em 1993, os representantes da Igreja católica se comprometeram a não procurar a conversão dos cismáticos ortodoxos. Eis o que a Santa Sé assinou nos acordos de Balamand (no. 22): “Nós o rejeitamos [o uniatismo] como método de procura da unidade. (...) A ação pastoral da Igreja católica, quer latina, quer oriental, não procura mais fazer com que os fiéis passem de uma Igreja à outra; em outras palavras, não visa mais o proselitismo entre os ortodoxos. Visa responder às necessidades espirituais dos seus próprios fiéis e não tem nenhuma vontade de expansão às custas da Igreja ortodoxa”[14].

A mesma prática foi ensinada com respeito aos judeus: não se deve mais buscar convertê-los ao catolicismo. É o que lemos no documento da Comissão pelas relações religiosas com o judaísmo, datado de 10 de dezembro de 2015: “A Igreja católica não conduz e não promove nenhuma ação missionária institucional específica em direção dos judeus”[15].

Está claro: ainda que haja um testemunho, não é para converter.

 

4. Uma insistência impressionante

Se proselitismo é algo bem comum entre os muçulmanos ou entre as seitas, não é entre os católicos do século XXI, donde uma legítima interrogação sobre a pertinência das proposições do papa. O vaticanista Sandro Magister observa com exatidão: “Se por ‘proselitismo’, o Papa Francisco entende uma atividade missionária exercida de modo exagerado, forçado, que se mediria pelo número de novos batizados, onde terá ele encontrado algo do tipo para classificar como um real ‘perigo’ ‘ressurgindo’ no seio da Igreja católica? Mistério. Porque, se há uma realidade incontestável na Igreja desses últimos cinquenta anos, não é o excesso, mas antes o colapso do esforço missionário.”

 

5. Um ensinamento que não é católico

O termo proselitismo não é usado habitualmente na Igreja. Fala-se antes em espírito missionário ou apostolado. Mas, se considerarmos a realidade designada por essa palavra, é fácil constatar que o proselitismo foi praticado por muitos santos. Pensemos, por exemplo, no século II d.C., em São Justino, espírito aberto e conhecedor das filosofias do seu tempo. Após sua conversão ao cristianismo, usou de toda a sua energia, pela palavra e pela pluma, para converter os não-cristãos, notadamente os judeus, à religião de Cristo. Basta ler o seu Diálogo com o judeu Trifão para constatar com que ardor argumenta a fim de convencer que apenas a religião católica é a verdadeira. Ele foi detido em Roma por seu proselitismo e executado no ano 166, pois não queria renegar a sua fé. Mencionemos também São Francisco de Sales que, por seu proselitismo, converteu a quase totalidade da província do Chablais, que era protestante, ao catolicismo. E que dizer dos santos Martinho, Bonifácio, São Francisco Xavier, Pedro Canísio, Josaphat etc? Conta-se que São Domingos, em 1204, foi confrontado no Languedoc com a heresia albigense. Sentia-se tomado de uma profunda compaixão por aquelas almas abusadas, que marchavam para a perdição eterna. Uma noite, numa hospedaria de Toulouse, compreendeu que o estalajadeiro era cátaro. “Domingos soube consertar essas inconsequências e confusões. Com força, discutiu sem fraquejar. Com amor, soube persuadir. O homem não pôde resistir ao Espírito que falava por aquela boca de tanta convicção. Ao raiar do dia, aceitou a luz. Domingos partiu feliz de ter ganho um irmão, transtornado pelo contato íntimo com a heresia, entusiasmado com esse primeiro sucesso apostólico para além das fronteiras da sua Castela”[16]. É de temer que o Papa Francisco condene o zelo de São Domingos pela conversão das almas.

 

6. O que diz Santo Tomás?

Ao se interrogar sobre os debates públicos entre católicos e hereges, o Doutor Angélico escreve: “Não se deve discutir sobre os artigos da fé, como duvidando deles; mas para manifestar-lhes a verdade e refutar os erros. Por isso é necessário, para a confirmação da fé, disputar às vezes com os infiéis; ora, defendendo a fé, conforme aquilo da Escritura: Sempre aparelhados para responder a todo o que vos pedir razão daquela esperança que há em vós. Ora, para convencer os errados, segundo ainda a Escritura: Para que passa exortar conforme à sã doutrina, e convencer aos que contradizem”[17].

Santo Tomás, eco fiel da Tradição, reconhece aqui a legitimidade da discussão e do debate com o fim de convencer o herege da verdade do catolicismo.

 

7. O que diz o Magistério da Igreja?

O Papa Pio XI em Mortalium ânimos, mostrou que o único ecumenismo católico é aquele que consiste não em um diálogo inter-religioso mutuamente enriquecedor, mas no zelo pelo retorno dos desviados ao único aprisco: “não é lícito promover a união dos cristãos de outro modo senão promovendo o retorno dos dissidentes à única verdadeira Igreja de Cristo, dado que outrora, infelizmente, eles se apartaram dela.”[18]

E São Pio X escreveu na Carta ao Sillon, em 1910: “... se Jesus foi bom para os transviados e os pecadores, não respeitou suas convicções errôneas por sinceras que parecessem; amou-os a todos para os instruir, converter e salvar”[19].

Esse ensinamento se funda em uma verdade que os papas sempre recordaram, e sobre a qual Pio IX muito insistiu: “Conhecemos perfeitamente o dogma católico, a saber, que fora da Igreja ninguém pode ser salvo”[20]. É essa convicção que levou os apóstolos e, após eles, milhares de católicos, a evangelizar os infiéis, a arriscar suas vidas e mesmo de derramar seu sangue para tirar os desviados dos seus erros e lhes transmitir o ensinamento da Igreja. Tal foi a resposta a ordem de Cristo: “Ide, pois, ensinai todas as gentes, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, ensinando-as a observar todas as coisas que vos mandei.”[21]

 

8. A fonte desse erro

A recusa de toda forma de proselitismo tem origem nos erros eclesiológicos do concílio vaticano II. Recusando o dogma “Fora da Igreja não há salvação”, os modernistas pretendem que “pela sua encarnação, Ele, o Filho de Deus, uniu-se de certo modo a cada homem”[22]. João Paulo II concluiu: “E no Espírito Santo, cada indivíduo, cada povo tornou-se — através da Cruz e da Ressurreição de Cristo — filho de Deus, participante da vida divina e herdeiro da vida eterna”[23]

Ao invés de dizer que a Igreja de Cristo é a Igreja católica, o concílio escreveu que a Igreja de Cristo “subsiste” na Igreja católica[24], deixando entender que a Igreja de Cristo se estenderia para além da Igreja católica, de modo imperfeito, graças aos elementos de Igreja presentes nas outras confissões cristãs. Mencionemos, enfim, essa afirmação inaceitável do concílio: “O espírito de Cristo não se recusa servir-se delas [das Igrejas e comunidades separadas] como meios de salvação”[25].

Esses erros destruíram o espírito missionário. Se é possível salvar-se sem ser católico, para que se dar ao trabalho de buscar converter os infiéis? No máximo, ajudar o homem a tomar consciência da sua dignidade divina.

 

9. Conclusão

Se por proselitismo compreendemos o zelo ardente pela conversão das almas ao catolicismo, esse proselitismo é católico. É o espírito missionário. É o espírito dos apóstolos. É um efeito da caridade para com o próximo. Se o meu próximo está em erro e em vias de danação, farei tudo o que depender de mim para esclarecê-lo e reconduzi-lo ao bom caminho. Para tanto, rezarei por ele, darei bom exemplo e mesmo, ainda que desagrade ao Papa Francisco, buscarei falar-lhe e tentar convencer-lhe, com delicadeza e prudência, de que Cristo fundou uma única religião, fora da qual não há salvação.

 

(Courrier de Rome, nov/2021 - Tradução: Pemanência)

 


[2] Ibidem.

[10] Anzitutto, ciascuna delle nostre religioni, nella piena consapevolezza dei molti legami che la uniscono all’altra, e in primo luogo di quel “legame” di cui parla il Concilio, vuole essere riconosciuta e rispettata nella propria identità, al di là di ogni sincretismo e di ogni equivoca appropriazione.

[16] M. H. Vicaire, Histoire de saint Dominique.

[17] Suma Teológica, IIa. IIae, q. 10 art. 7 ad 3. (http://permanencia.org.br/drupal/node/4764)

[19] Carta Apostólica Notre Charge Apostolique, 25 de agosto de 1910.

[20] Encíclica Quanto Conficiamur, 10 de agosto de 1863.

[21] Mt 28,19.

[24] Lumen Gentium no. 8.

[25] Unitatis Redintegratio no. 9.

Dois capítulos de "Vendéia 1793 - Uma família de 'bandidos'"

[Nota da Permanência: apresentamos a seguir dois capítulos do livro "Vendéia 1793 - Uma família de 'bandidos'". Trata-se de uma história real. A Sra. Marie de Sainte Hermine narra o que viu e viveu ao lado dos seus parentes durante a Guerra da Vendeia e o Terror Revolucionário. Um livro imperdível à venda na nossa livraria ]

 

Capítulo XXV

A prisão de Geneviève

Depois da batalha que entregou Fougères ao exército católico, a cavalaria vendeana, da qual o Marquês de Sérant e Jacques Bureau faziam parte, perseguiu vigorosamente os republicanos. Duas horas depois, ao regressarem ao povoado, cruzaram com o sr. Henri que saía pela estrada de Rennes para examinar as posições onde seria aconselhável estabelecer as tropas, caso o inimigo fizesse um retorno ofensivo. O Generalíssimo, de quem meu cunhado era então ajudante de ordens, lhe pediu que o acompanhasse com alguns cavaleiros para servir-lhe de escolta. Jacques Bureau, é claro, seguiu seu mestre.

A viagem do sr. de La Rochejaquelein continuou por várias horas, e Arthur só pôde retornar a Fougères tarde da noite.

Enquanto ele galopava pelo campo com o sr. Henri, Geneviève era tomada por uma mortal inquietude. Fazia muito tempo que a batalha havia terminado e o seu marido não havia retornado, ele que sempre voltava imediatamente para ela, depois de cada ação, para livrá-la de suas angústias!

Ansiosa, ela questionava todos os cavaleiros que encontrava; ninguém podia lhe dizer o que havia acontecido com o sr. de Sérant.

Sem poder aguentar mais, procurou Pierre Bureau. Meu cunhado lhe tinha dado a responsabilidade especial de zelar pela segurança de sua esposa; assim, o rapaz, fora dos dias de batalha, estava sempre a seu serviço. “Venha comigo”, disse-lhe ela, “o sr. de Sérant ainda não voltou e nem o seu irmão. Estou em uma inquietude mortal. Foi na direção de Avranches que eles perseguiram o inimigo: devo ir ao seu encontro”.

Pierre logo atrelou Fauvette e Mignon, e alguns minutos depois, Geneviève e seu pajem estavam deixando a cidade.

Vocês sabem que laços recíprocos de apego respeitoso e afeto maternal uniam o filho dos Bureau e a jovem Marquesa de Sérant. Há vários dias que ela procurava uma ocasião favorável para lembrar a esse jovem da horrível vingança que ele havia exercido contra Urbain, e tentar inclinar seu coração ao arrependimento.

Depois de alguns momentos de silêncio, ela lhe disse suavemente:

– Você sabia, meu amigo, que eu estava com muito medo por você durante a batalha de Laval?

– Verdade? minha senhora; e por quê?

– Porque, meu pobre jovem, você cometeu, há duas semanas, um grande pecado ao atentar uma atroz vingança ao seu inimigo... você pediu perdão ao bom Deus?

– Oh! sim, senhora marquesa. Veja, no primeiro momento, eu estava loucamente perdido. Eu dizia assim: “Foi bem-feito, mesmo assim... Você vingou o pai e Joséphine!”. E aí, depois, me remoeu a consciência. Então eu falava assim: “Mas se o bom Deus te pegasse, te levaria sei lá pra onde!”. E então os rapazes lá de casa quase deram as costas para mim! “Você não agiu como um bom cristão”, me disseram. “Isto é verdade”, eu disse a eles. Mas senhora, eu perdi a cabeça; eu via tudo vermelho, tudo vermelho... mas eu sinto muito por isso, agora! Então, quando vi que íamos pegar os Azuis de novo, disse: “Isso não; temos que nos limpar”. Daí que fui procurar o vigário de Liré, a senhora sabe muito bem, o padre Rochard, que veio para junto da gente, e eu falei tudo para ele... no momento, não sobrou nada. Não desejo isso para ninguém. Sem isso, veja bem, não estaria no pensamento de Deus de nos perdoar.

– Você fez bem, meu rapaz – respondeu Geneviève sorrindo com a ingenuidade da confissão. – Agora vou ficar tranquila em relação a você. Se você morrer, sua alma, pelo menos, será salva.

– Claro, minha senhora. Nos dias de hoje, é quase melhor ir para o bom Deus do que ficar por aqui, com tantas pessoas más que existem.

No entanto, nossos dois cavaleiros haviam avançado até o ponto em que a perseguição ao inimigo havia cessado e todas as suas buscas foram infrutíferas. Cada vez mais perturbada, minha irmã decidiu voltar para a cidade, na esperança de que seu marido tivesse voltado durante sua ausência.

Após alguns momentos ela cavalgou em direção a Fougères. De repente, enquanto ela seguia um caminho entre dois arbustos, balas assobiaram em seus ouvidos e clamores ecoaram à direita e à esquerda. Alguns segundos depois, uma dúzia de hussardos republicanos avançou, de sabre em punho, sobre a jovem e seu criado.

Pierre se defendeu com raiva e, sob seus furiosos golpes, quatro cavaleiros inimigos comeram terra; mas finalmente, sucumbindo ao número, o heroico rapaz, coberto de feridas, caiu por terra, morrendo. Os republicanos então se lançaram sobre Geneviève que, certamente, teria sofrido o mesmo destino, se não fosse a intervenção do oficial que comandava o destacamento e que obrigou seus soldados a recolocar o sabre na bainha. Então ele se aproximou da minha irmã, ajudando-a a desmontar: “Quem é você, cidadã?”, ele perguntou asperamente.

“Antes de responder, senhor”, respondeu Geneviève em tom suplicante, “rogo-lhe que me permita socorrer este jovem que acabou de dar sua vida para me defender”. Ela apontou para Pierre Bureau, que, estendido no meio da estrada, com o peito perfurado pelos golpes do sabre, estava a ponto de expirar. “Que seja!”, disse friamente o oficial.

Minha irmã apressou-se em tirar proveito da permissão e, correndo em direção ao ferido, levantou-o delicadamente nos braços, com a ajuda de um hussardo republicano e deitou-o na grama ao pé de um carvalho, a poucos passos de distância do lugar onde ele havia caído. O jovem vendeano parecia ter perdido a consciência.

– Você pode me ouvir, meu querido? – disse-lhe ela; sou eu, sua senhora, que estou perto de você para cuidar e curar você, se isso agradar a Deus.

Pierre abriu os olhos e olhou para Geneviève com uma expressão de amargo pesar:

– Oh! Perdoe-me, senhora marquesa – disse ele com esforço; desculpe por ter defendido a senhora tão mal e por deixá-la nas mãos desses miseráveis! O que vai pensar o Pai, lá em cima, quando descobrir que não consegui salvar minha boa senhora? Ele não ficará contente comigo!

– Deixa disso, meu pequeno Pierre, e pense apenas no bom Deus.

Mas a mesma preocupação ainda o obcecava. Geneviève então, entrando nos pensamentos ingênuos do jovem, disse sorrindo, para acalmá-lo:

– Se seu pai te repreende, diga-lhe de minha parte que você se comportou muito bem, que você me defendeu corajosamente e que ele pode se orgulhar de você. Está mais tranquilo agora?

– Oh! sim, senhora marquesa – disse o jovem ferido, que, com tal garantia, acalmou-se repentinamente.

– Você se arrepende de seus pecados, não é?

– Oh! lá, sim.

– Porque você ama a Deus de todo o coração?

– Com certeza, minha senhora.

– Você perdoa seus inimigos?

– Ah sim, para agradar ao bom Jesus.

– Vá então para o céu, meu filho; invejo o teu destino, porque todos os teus males vão acabar. Reze por nós lá em cima, para que Deus tenha misericórdia de nós também.

Pierre estava visivelmente abatido; a morte era iminente.

– Oh! senhora...  marquesa – sussurrou novamente; eu teria mesmo muito prazer em vê-la bem longe daqui... vou pedir isso ao bom Deus!

O jovem vendeano acabara de expirar. Geneviève fechou seus olhos; então, depois de ter dito uma curta e fervorosa oração junto ao cadáver, ela se levantou e aproximou-se do comandante republicano, que parecia muito comovido: “Eu vos agradeço, senhor”, disse-lhe ela.

O oficial azul olhou para ela com uma expressão de pena muito nítida. Era um velho capitão, de quarenta e cinco a cinquenta anos, cujo heroico bigode não conseguia esconder por muito tempo sua boa índole. Geneviève entendeu que não havia caído nas mãos de um inimigo cruel e essa constatação a tranquilizou um pouco.

A um sinal de seu líder, os hussardos afastaram-se e permaneceram distantes, fora da escuta; por isso foi em tom bastante ameno e, por assim dizer, paternal, que se deu o interrogatório.

– Qual é o seu nome, senhora? – O oficial perguntou suavemente.

A jovem não tinha nada a esconder; seu crime era evidente.

– Geneviève de Sérant – respondeu num tom digno e simples. O comandante estremeceu.

– Pobre jovem!... – Ele suspirou. – Perdoe-me, senhorita... ou senhora, visto esse nome familiar... – retomou depois de um momento. – Eu sou pai, você vê; tenho uma filha que deve ter a sua idade. Ela fica lá no Sul e teme muito pela vida do seu velho papai... eu queria te salvar, acredite; mas infelizmente! meus hussardos são patifes perfeitos que me denunciariam e eu entregaria a minha cabeça se deixasse você escapar. Aqui está tudo o que posso fazer: você montará em seu cavalo e nos seguirá até Rennes. Lá, vou entregá-lo ao Representante da Convenção, delegado para assuntos departamentais. Ele não é um homem tão ruim... ele já fez favores... a algumas pessoas... espero que ele poupe sua vida. Vou defender seu caso calorosamente, mas não há nada mais que eu possa fazer.

Geneviève agradeceu tristemente.

– Não quero que o senhor se exponha por mim, e rezarei a Deus para que recompense sua boa vontade.

Por ordem do capitão, os hussardos montaram a cavalo e se prepararam para partir. Geneviève subiu em Fauvette, cuja sela estava firmemente presa, à direita e à esquerda, à sela de dois cavaleiros. Mignon, o cavalo do pobre Pierre, foi mantido na coleira por um dos homens da escolta.

 

 

Capítulo XXVI

Pobre Geneviève

Eram cerca de cinco da tarde quando a tropa retomou a marcha. Por volta das oito horas ela chegou à aldeia de Sainte-Luce, situada a meio caminho entre Rennes e Fougères. O capitão Bernard – esse era o nome do oficial Azul – percebendo que sua prisioneira estava tomada pelo cansaço e pela dor, quis dar a ela um pouco de descanso. “Vamos passar a noite nesta aldeia”, disse ele, “e amanhã de manhã terminaremos nossa jornada”.

Os hussardos apearam e seu líder bateu à porta da casa mais próxima. Era a casa de uma corajosa camponesa chamada Jeanne Robin, que desde sua viuvez morava lá com o pequeno Jean-Marie, seu único filho, com mais ou menos dez anos. À primeira palavra que o senhor Bernard lhe disse, mostrou-se bastante disposta a dar comida e abrigo à vendeana, cuja tristeza e cansaço lhe estimularam sobremaneira a piedade.

Antes de deixar a prisioneira aos cuidados de sua anfitriã caridosa, o capitão lembrou-lhe que ela teria que partir cedo no dia seguinte porque ele deveria chegar a Rennes antes do meio-dia e acrescentou: “Sou obrigado a confiscar seus cavalos. Eles são boas presas. Mas não quero levá-los comigo; pois são animais magníficos e o representante certamente os atribuiria a si mesmo, embora eles sejam propriedade de meu regimento. Portanto, vou deixá-los nesta aldeia, e vou levá-los de volta depois de amanhã à noite, de passagem”.

Como essa declaração pareceu afetar Geneviève, ele continuou: “Claro que a senhora não vai viajar a pé; vai montar de garupa atrás de mim. Meu dever me obriga”, acrescentou retirando-se, “a colocar uma sentinela em cada uma das portas desta casa, na rua da aldeia e para o lado dos campos. Lamento, senhora, o rigor das instruções, mas não posso evitar”.

Esse capitão Bernard, que certamente não era um homem mau, sem dúvida tinha uma forte dose de ingenuidade. Sua prisioneira percebeu isso rapidamente e como ela não podia esperar que ele a entregasse pura e simplesmente em liberdade, dada a pusilanimidade de caráter do oficial azul, ela decidiu, ao menos, aproveitar-se da simplicidade do bom homem para tentar alertar Arthur do perigo que a ameaçava.

Assim que o sr. Bernard desapareceu, a viúva Robin, posta por Geneviève a par da situação, expressou-lhe, em palavras simples e comoventes, a simpatia que seu triste destino lhe inspirava. A excelente mulher apressou-se em preparar-lhe o jantar e a pôr à disposição o único quarto de seu pobre alojamento.

– Meu filho e eu dormiremos no sótão – disse ela; e como Geneviève se opunha, ela continuou:

– Estamos felizes por poder vos servir. Nós também somos monarquistas nesta aldeia; mas o que podemos fazer, quando há tantos iníquos ao nosso redor?

– Bem, minha boa amiga – exclamou Geneviève, muito feliz por ver sua anfitriã com tão boas disposições – talvez você possa me prestar um imenso serviço... seria para levar o quanto antes a Fougères, algumas palavras que escreverei a lápis, se não tiver tinta para me dar. É para meu marido que está no acampamento dos vendeanos (se ele ainda estiver neste mundo!). Você conhece alguém que aceitaria levar minha carta?

Jeanne Robin refletiu por alguns momentos e disse:

– Eu posso ajudá-la. Agora é impossível sairmos daqui; as sentinelas nos impediriam; mas amanhã de manhã, assim que vocês forem embora, meu pequeno Jean-Marie levará seu recado – e ela apontou para seu filho, um garotinho afável e esperto que estava sentado na lareira e olhando para a estranha com seus grandes olhos meio escondidos por uma floresta de cabelos loiros.

– Você tem certeza? – disse Geneviève; uma criança dessa idade ir tão longe!

– Acho que a senhora faria bem em aceitar mesmo assim – respondeu Jeanne Robin. – Meu Jean-Marie não é robusto; mas senhora! ele é um rapazinho que vale por dois – acrescentou ela com doce orgulho. – Se a senhora visse como ele conduz seu burro até o mercado de Saint-Aubin-du-Cormier! E depois, as crianças... não se presta atenção neles; passam para todo lado... não é, meu Jean-Marie? – continuou, se dirigindo ao lourinho que estava ouvindo com todos os seus ouvidos – não é verdade, meu menino, que você irá, no burro, a Fougères, levando uma carta da senhora para o marido?

– Sim, mamãe – respondeu a criança com voz clara e confiante.

– Você vai dizer assim....

– Diga-nos, por favor, senhora, o nome do seu marido.

– Marquês de Sérant – disse Geneviève. – Aliás, vou colocar o nome sobre o endereço, e a criança, se não souber ler, pode mostrar ao primeiro soldado da Vendéia que encontrar.

– Como quiser, senhora – respondeu a boa mulher; mas Jean-Marie não esquecerá o nome. É só ouvir alguma coisa e isso fica para sempre na sua cabeça. Vamos, Jean-Marie, diga à senhora o que você vai fazer amanhã de manhã, quando os soldados tiverem partido.

A criança se levantou; seus olhos azuis brilhavam de coragem e orgulho.

– Vou vigiar os soldados amanhã – disse ele com sua voz perolada – e assim que eles forem embora, vou pegar Coco e correr direto sem parar para Fougères. Lá perguntarei pelo Marquês de Sérant e entregarei a ele a carta que a senhora vai escrever.

– Perfeitamente! meu pequeno amigo – exclamou Geneviève, acariciando os cabelos louros de Jean-Marie; vejo que posso ter total confiança em você. Se não encontrar o Marquês de Sérant, pergunte pelo general, sr. de La Rochejaquelein, e entregue-lhe a minha carta... você se lembrará?

– Oh! Sim senhora.

– Veja! – continuou dirigindo-se à mãe – certamente foi o bom Deus que me enviou a vocês.

Reanimada pela esperança de se comunicar com o marido, minha irmã concordou em comer um pouco; depois começou a preparar seu bilhete e como a viúva Robin não tinha nem tinta nem papel para lhe oferecer, ela rasgou uma folha de sua caderneta e escreveu a lápis.

Reencontrei essa carta entre os papéis que minha irmã me deu no mesmo dia de sua morte. Quase não está legível agora; mas eu a transcrevi há muito tempo.

Sainte-Luce (esse é o nome desta pequena aldeia),

5 de novembro, I793: 10 horas da noite

"Meu amado Arthur,

É a sua pobre Geneviève quem lhe escreve, de um pequeno quarto de camponês, numa aldeia remota, mais ou menos a meio caminho entre Rennes e Fougères. Como fui parar aqui? Parece-me que estou sonhando... vou explicar-lhe tão brevemente quanto possível; pois, no momento em que você receber essas linhas, seu tempo será precioso.

Ah! meu amigo, estou falando com você... e nem sei se você ainda está neste mundo e se este pequeno bilhete vai alcançá-lo! Minhas lágrimas cobrem meus olhos e mal consigo distinguir os caracteres que traço.

Imagine que, nesta tarde, devorada pela angústia de não ter te visto voltar depois do combate, resolvi ir ao seu encontro com Pierre Bureau. Surpreendida, no caminho, pelos hussardos republicanos, sou sua prisioneira agora, depois de ter visto o heroico jovem que me acompanhava, morrer sob seus golpes enquanto me defendia. Diga a Jacques que ele cumpriu valentemente seu dever e que morreu em meus braços como um bom cristão. Agora os republicanos vão me levar a Rennes, para me entregar ao representante em missão naquela cidade. Eu serei levada para a casa dele. Parece que às vezes ele nos poupa. Se ele não estiver bem-disposto, a morte me espera. Mas tenha coragem, meu amigo e confie na bondade de Deus. Ele lhe dará, não duvide, os meios para me salvar. Sei que assim que receber minha carta, você correrá para libertar sua esposa com toda sua audácia tantas vezes manifestada. Queira Deus ajudá-lo a conseguir e nos reunir novamente neste mundo!

Um detalhe importante: levaram minha querida Fauvette; deixaram-na aqui com Mignon e os republicanos devem retomá-los em três dias, ao passar de novo pela aldeia. Como você pode precisar das pernas dela para me tirar das garras desses inimigos cruéis, tente, portanto, libertar este pobre animal também. Minha boa anfitriã, que me cobre de atenções maternais, estará esperando por você amanhã, o dia todo, na estrada e lhe mostrará onde os republicanos puseram nossos cavalos.

Adeus, meu querido, meu amado marido; eu sei que dor imensa você sentirá quando souber que sua pobre esposa está nas mãos de tais bandidos. Julgo sua aflição por aquilo que eu mesmo sinto. No entanto, não torne as coisas piores. Até agora não fui maltratada e o líder da tropa que me leva é um bom homem que parece lamentar muito ter-me levado. Vendo meu cansaço e minha tristeza, ele me concedeu esta noite para descansar um pouco. Este sr. Bernard me parece possuir uma dose pouco comum de simplicidade. Foi graças a esta qualidade, preciosa para nós, nessas circunstâncias, que pude saber por sua própria boca o lugar para onde deveria ser levada, a hora da nossa chegada a Rennes (onze horas da manhã, acredito), e os outros detalhes que lhe dou.

Recompensa, por favor, meu mensageiro (um menino de dez anos). Ele pegará a estrada para encontrá-lo, mas só amanhã, depois que partirmos para Rennes; porque temos duas sentinelas à nossa porta, e a criança seria presa e minha carta tomada, se tentasse sair nessa noite. Adeus, à Deus.

Sua Geneviève, desolada, que espera por você.

 

No entanto, Jeanne Robin exortava minha irmã a repousar, o que lhe era tão necessário.

– Vamos minha senhora! – dizia alegremente – deves dormir, e imediatamente. Acho que, na próxima noite, seu marido terá feito sua parte e que os dois galoparão, virando as costas para a cidade de Rennes. Amanhã – acrescentou ela – vou esperar o dia todo na minha porta, para ver o seu senhor chegar. Já sei que levaram seus animais para a casa do François, o pedreiro, a dois passos daqui. Esse homem é um dos nossos amigos. Ele nos devolverá quando quisermos. E depois rezarei terços o dia todo, para que a Santíssima Virgem a tire dessa situação.

Geneviève agradeceu efusivamente à excelente mulher e lhe disse:

– Eu gostaria muito de recompensar sua generosidade e a de Jean-Marie; mas os republicanos tiraram minha bolsa e minha maleta... não tenho mais nada.

– Dinheiro para isso! – exclamou a boa mulher; não diga mais nada sobre isso, minha senhora, senão ficarei inteiramente zangada. Vamos! boa noite e durma bem; o quarto é seu: eu ficarei lá em cima com o meu filho. Até amanhã!

O dia tinha sido tão cansativo que Geneviève, apesar das preocupações, logo adormeceu profundamente. Esse descanso lhe fez um grande bem, e agora ela estava fortalecida pela esperança da libertação. Ela conhecia a habilidade e o destemor de seu marido e de Jacques Bureau, e tinha certeza de que fariam prodígios para salvá-la.

Na manhã seguinte, depois de comer um pouco, ela se despediu da viúva Robin; depois, percebendo pela janela o capitão que viera buscá-la, se inclinou para o pequeno Jean-Marie, beijou-o na testa e disse-lhe: “Não se esqueça, meu pequeno, que minha vida e a felicidade do sr. de Sérant estão nas suas mãos”. Jean-Marie ergueu seu olhar límpido e profundo para ela. “Confie em mim, senhora”, disse ele gravemente.

Dois minutos depois, Geneviève montou atrás do capitão e o pelotão de hussardos tomou, a trote, o caminho para Rennes.

Eram cerca de onze horas quando as tropas chegaram aos portões da cidade. O capitão Bernard conduziu imediatamente sua prisioneira ao gabinete do Representante, na rua da Moeda. Pretendia pleitear, sem se comprometer muito, a causa da senhora de Sérant, a quem havia recomendado que não dissesse seu verdadeiro nome, nem seu título; por isso, quando soube que o membro da Convenção Nacional não estava em casa e que só voltaria bem tarde da noite, ficou muito desapontado. Não sabendo o que fazer com Geneviève, decidiu confiá-la ao porteiro do edifício, depois de ter tomado todas as precauções para tornar inútil qualquer tentativa de fuga. O medo do capitão Bernard servia de instrumento para vis empreendimentos, apesar de detestar os excessos da Revolução. Pessoas com esse caráter não eram raros naquela época. Existem menos hoje em dia?

Brutus Souriceau – esse era o nome do zelador a quem o oficial Azul entregara sua prisioneira – era um homem de cinquenta anos, talhado como Hércules e de aparência assustadora. Republicano feroz, abominava os aristocratas e frequentava assiduamente os jacobinos mais exaltados. O Representante da Convenção o encarregava sempre da custódia dos prisioneiros que mantinha temporariamente em seu domicílio e nunca se ouviu dizer que o formidável carcereiro tivesse deixado que ocorresse uma fuga.

Esse republicano austero tinha, porém, uma fraqueza: ele amava o suco da videira e quando se entregava a abundantes libações, o que não era absolutamente raro, desmaiava miseravelmente no local mesmo do combate, perto das garrafas, e, derrotado, dormia profundamente como uma pedra.

Depois da “diva” garrafa, o seu mais terno carinho ia para a sua esposa, a digna senhora Olympe, que, já viúva de um primeiro marido, não tinha ficado com o coração insensível aos suspiros do Hércules bretão e tinha-lhe dado sua mão, alguns meses antes, no frescor de suas cinquenta e duas primaveras. Mas a lua-de-mel tinha passado rapidamente e a amada esposa já sentia muitas vezes a força do braço conjugal. Além disso, nas horas em que a embriaguez reduzia seu senhor e mestre à sua mercê, o que normalmente acontecia sempre no último dia da semana, Olympe se vingava e conscienciosamente devolvia a seu querido Brutus os golpes e as feridas recebidas durante a semana. Na manhã seguinte, o bom homem acordava, com os olhos escurecidos e o nariz machucado. Mas, como não se lembrava de absolutamente nada do que lhe acontecera no dia anterior, Olympe, com ar ingênuo, descartava facilmente todas as suspeitas, e o bêbado naturalmente atribuía suas desventuras aos espinhos e às pedras do caminho.

A senhora Souriceau, que havia recebido uma certa educação na juventude, era, aliás, uma honesta mulher, cujo entusiasmo republicano não estava, nem de perto, em sintonia com o de seu marido; e era essa falta de harmonia que causava, na maioria das vezes, problemas ao casal.

No último dia da semana (no decadi), Olympe trabalhava como carcereira, no lugar do seu homem, ocupado então em correr pelos cabarés da cidade, e aproveitava seu poder efêmero para facilitar a vida dos presos daquele dia, sem chegar, porém, a dar-lhes a chave da prisão.

Para completar o retrato da mãe Souriceau, digamos que, tagarela aos excessos, ela contava histórias sem fim, protestando a cada instante, o quanto amava o silêncio: uma mania inocente compensada por suas boas qualidades. Infelizmente, o dia em que Geneviève chegou a Rennes não era o último dia da semana e seu feroz guardião desfrutava de todas as suas faculdades. A pedido do capitão Bernard, apressou-se em conduzir sua prisioneira a um quarto no terceiro andar, onde a trancou com uma fechadura dupla.

– Na gaiola, o lindo pássaro! – exclamou com um tom irônico, sacudindo seu molho de chaves ruidosamente – é caça para a guilhotina que o senhor nos trouxe, capitão! Não há perigo dela fugir – acrescentou –, a menos que ela tenha asas ou queira bater a cabeça no chão.

Antes de se retirar, o capitão Bernard, seguindo as indicações do carcereiro, colocou um soldado em sentinela na entrada do corredor, outro no meio da escada e um terceiro no pátio interno da casa. Depois, com a consciência tranquila, foi embora muito satisfeito consigo mesmo, amaldiçoando os excessos dos perseguidores e sentindo pena do destino de suas vítimas. O pobre homem realmente acreditava ter realizado um ato heroico e, meu Deus, talvez não estivesse totalmente errado, dado seu caráter medroso e excessivamente pacífico.

Sozinha no quarto que servia de prisão, Geneviève logo sentiu cair toda a sua energia e o horror de sua situação apareceu claramente aos seus olhos. Ela estava à mercê de um tirano cruel, que mandava suas vítimas para o cadafalso ou para a liberdade, dependendo do humor do momento. Ele deveria voltar para casa naquela mesma noite e, se estivesse mal-disposto, a entregaria ao carrasco no dia seguinte. Sem dúvida, ela esperava uma intervenção do marido para a noite seguinte: mas quanto agora parecia-lhe frágil essa esperança que a sustentara até então! Arthur havia recebido sua carta? Ele estaria em Rennes esta noite? E, sobretudo, como ele poderia alcançá-la e arrancá-la da fúria de seus inimigos? O sucesso agora parecia impossível para ela. Esta casa estava tão bem protegida! O Marquês de Sérant nem chegaria perto da sua masmorra e se perderia desnecessariamente tentando salvá-la. Oh! como ela se culpava por tê-lo chamado para ajudá-la! Não teria sido melhor ter se submetido ao seu destino com resignação, sem fazê-lo perecer com ela? E o que seria de seu pobre Louis, sem seu pai e sua mãe para protegê-lo?

Um profundo desânimo tomou conta da jovem. Deus, então, a havia abandonado! Qual era a utilidade, agora, de amá-Lo, orar e servi-Lo, se Ele nada fazia para libertar seus servos? Por que a deixou cair nas mãos daqueles miseráveis... ela que havia deixado tudo para garantir a salvação eterna de seu marido? Estaria ela presa, às vésperas de ser levada à morte, se esta Providência de que tanto falamos realmente cuidasse de nós? Ela se sentia invadida por tentações de blasfêmia e pensamentos de revolta contra a justiça de Deus. Por um momento, no limite de sua força e coragem, abriu a janela e seu olhar mergulhou nas pedras da calçada que dava para a sua cela. Atraída para o abismo, sentia um desejo horrível de acabar com seus tormentos, livrando-se da vida. Mas, de repente, a fé adormecida durante esta tempestade despertou em sua alma, e a pobre cativa, repelindo a tentação com horror, se ajoelhou, implorando a Nosso Senhor que a perdoasse por sua falta de confiança e submissão.

A oração restituiu-lhe a calma e a paz. Ela se rendeu inteiramente à vontade de Deus para a vida e para a morte, implorando-lhe armá-la contra todas as fraquezas do corpo e da alma.

Na angústia profunda em que se debatera há pouco, ela rejeitou os alimentos que lhe foram trazidos; mas quando triunfou sobre o terrível ataque do inferno e a ajuda divina tranquilizou sua alma, ela disse a si mesma que deveria conservar suas forças na expectativa do cansaço que logo teria que suportar, se Deus permitisse que seu marido conseguisse chegar a ela. Sem dúvida, era impossível prever que meios seriam utilizados para sua libertação; mas precisaria, em todo caso, de toda a sua energia para auxiliar a ação dos seus defensores. Feitas essas reflexões, decidiu comer, e quando recuperou as forças corporais, pôs-se a rezar com fervor.

Aprendendo a dizer obrigado

Irmãs da Fraternidade Sacerdotal São Pio X

 

Jeremias desembrulha o presente de aniversário, olha para a história em quadrinhos que ganhou: "Ah! Essa já tenho..." Larga o pacote ao lado, enquanto seus pais, levemente ofendidos, não ousam dizer nada: "Ele ao menos poderia ter dito obrigado..."

É Natal, mas o Sr.e a Sra. Durand estão sozinhos: as crianças cresceram, foram embora. O dia passa sem que nenhuma delas pense em ligar, ainda que para desejar um rápido feliz Natal. "Pelo menos poderiam ter pensado na sua mãe", resmunga o Sr. Durand.

Esses dois exemplos (imaginários?) mostram que a gratidão mais elementar não é mais natural para nós desde o pecado original. Três obstáculos se juntam para isso.

O primeiro é o orgulho. Se devemos ser gratos, é por um serviço recebido, e recebido muitas vezes porque não conseguimos prestá-lo a nós mesmos: há uma inferioridade que estamos relutantes em reconhecer. Aqui somos constituídos devedores, dependentes dos outros, e nossa autoestima dá um passo atrás. Essa é a razão pela qual algumas crianças sentem embaraço e teimosamente se recusam a pronunciar educadamente o 'muito obrigado' que a mãe pede. O que fazer? Armar-se de paciência e coragem para não ceder: mamãe não vai soltar o prato da Paulinha que acabou de servir até ouvir o devido agradecimento.

O segundo obstáculo é o egoísmo. A criança mimada não sabe ser grata: Como saberia, já que é o centro do mundo e tudo lhe é devido? A oração será aqui de grande ajuda para ensinar a criança a reconhecer todos os benefícios gratuitos de que é cumulada: "Obrigado Deus, porque o Senhor me deu um pai e uma mãe, uma casa e a verdadeira missa no domingo". Em nosso rosário, constummos acrescentar um pedido a cada dezena, e isso é excelente; Mas, às vezes, não esquecemos a oração de Ação de Graças?

O terceiro obstáculo, finalmente, é a preguiça. Pedro recebeu de seu padrinho um carrinho com controle remoto, com que adora brincar. "Ele é legal, seu padrinho, não é?" -- "Sim, muito legal!" -- "Você vai escrever uma carta para ele agradecendo?" Diante dessa perspectiva, o entusiasmo da criança desaparece... Como Pedro ainda é pequeno, mamãe não vai exigir uma carta formal, com uma escrita rebuscada que repugne o dever de gratidão. Um belo desenho do fundo do coração será suficiente. Mas, quando Pedro crescer, terá de aprender a exprimir o seu reconhecimento nas formas exigidas pela boa educação: uma mensagem de agradecimento rabiscada em um guardanapo não sai do fundo do coração.

Ao educar os filhos para a gratidão, as mães às vezes encontram uma dificuldade: dão o melhor de si em sua tarefa de mães, mas sentem que, afinal, apenas cumprem o seu dever, e não pensam em exigir reconhecimento por aquilo que de bom grado fazem. De certa forma, estão absolutamente corretas: não se pode exigir reconhecimento tão estritamente quanto se exige obediência. No entanto, a gratidão é um dever estrito das crianças.

Os exemplos que vamos dar mostrarão, de modo geral, várias formas pelas quais um coração grato e engenhoso pode expressar o seu reconhecimento:

Na família Dupond, o pai era o cabeça dos pequenos conspiradores que preparavam como supresa para a mamãe um dia de "férias": nada de cozinha, nada de louça, nada de faxina no Dia das Mães, para agradecer por tudo que ela fez nos outros 364 dias do ano.

Para o aniversário do pai, a mãe discretamente inspirou algumas idéias para as crianças: Domitila fará o bolo favorito do pai, Teresa recitará o poema que escreveu; já os meninos vão lavar bem o carro: papai trabalha tanto para pagar boas escolas ...

Clarinha acaba de saber que sua madrinha, que tantas vezes a mima, está esperando seu primeiro filho: com a mãe, está aprendendo a tricotar para fazer um par de botinhas para o bebê.

Dom prior comemora os 25 anos de sacerdócio. Toda a família quer se juntar à surpresa: os meninos serviram a missa de ação de graças da manhã impecavelmente; as meninas fizeram com a mamãe uma barraquinha para a feira da tarde e papai estava no comitê organizador do presente.

Bento é convidado a passar o fim de semana com o amigo; para agradecer a mãe do amigo, leva um cesto de cerejas do jardim, foi ele mesmo quem as colheu.

Para o aniversário de dona Regina, a professora, as mães chegaram a um acordo e as crianças ofereceram uma grande caixa de biscoitos que elas mesmas prepararam.

As bodas de ouro de vovô e vovó foram preparadas há meses! Todos os netos encenaram uma peça, os mais velhos cuidaram dos cenários e dos figurinos, além de acompanharem do ensaio dos menores.

Uma família que sabe agradecer é uma família cheia de amor e felicidade. Obrigada, meu Deus, por todas essas boas famílias unidas, porque a gratidão aquece os corações.

(Fideliter, no. 200, março-abril de 2011)

Há provas históricas de que os cristãos primitivos rezavam para Nossa Senhora?

Pe. Juan Carlos Iscara, FSSPX

 

Há um pequeno problema quando falamos de “Igreja primitiva” ou “cristãos primitivos”. O começo desse período histórico é claro: a fundação da Igreja, Pentecostes; mas, quando esse período acaba? Para responder a essa pergunta de forma mais segura, vamos nos ater às provas da devoção a Nossa Senhora nos relativamente obscuros Séculos II e III até o reconhecimento magisterial da maternidade divina no Concílio de Éfeso, em 431.

Nas Escrituras, Maria aparece de forma velada nas profecias do Antigo Testamento, sendo exposta nos primeiros capítulos do Evangelho de São Lucas; então, ela volta a uma relativa obscuridade durante o ministério de Cristo e reaparece no Apocalipse. Esse padrão de exposições e obscuridades, de alguma maneira, repetiu-se no desenvolvimento da doutrina e da devoção mariana durante os primeiros séculos da Igreja.

Os primeiros cristãos pregavam um Deus, encarnado em Cristo, criador e redentor, ao contrário da multiplicidade dos deuses pagãos. Nos primórdios dessa pregação, enfatizar a pessoa da Virgem-Mãe poderia ter criado confusão, comparações infelizes ou sincretismos com os mitos pagãos*. Mas, por outro lado, a humanidade e a maternidade de Maria tinham que ser enfatizadas para expor a realidade da Encarnação de Cristo como Homem-Deus, principalmente contra aquelas heresias antigas que negavam a humanidade de Cristo.

Portanto, os Padres dos Séculos II e III enfatizaram apenas com o passar do tempo a excepcionalidade de Maria, sua santidade, os privilégios extraordinários que lhes foram dados por Deus para cumprir sua missão única e universal ao lado de seu Filho. Eles tornam claro que sua doutrina mariana não era supérflua ou uma opinião teológica, mas necessária para preservar a integridade da fé, pois Maria está intimamente unida ao mistério da união das naturezas humana e divina em Cristo. Portanto, nas primeiras profissões de fé, a confissão de Cristo estava inseparavelmente unida à confissão da excepcionalidade de Maria.

O primeiro grande teólogo, Santo Irineu de Lyon (falecido em 202), ao traçar um paralelo entre Eva e Maria, enfatizou essa excepcionalidade. Maria cooperou na obra de nossa salvação: ela “se tornou causa de salvação para si mesma e para toda a raça humana”. Como ela é “o ventre puro que regenera os homens em Deus”, ela se tornou “a advogada de Eva” perante Cristo.

Esses temas foram melhor desenvolvidos por Orígenes em meados do Século III, não apenas se dirigindo a Maria como “Mãe de Deus”, mas, baseado no fato de que ela era a “nova Eva”, também se dirigindo a ela como “mãe dos fiéis”. Sendo duplamente santificada por uma consagração dupla (a descida do Espírito Santo em sua alma e de seu Filho em seu ventre), ela se tornou um canal ativo do Espírito Santo para a santificação dos homens.

Enquanto a compreensão teológica do papel de Maria na economia da salvação se desenvolvia nesses séculos, também a piedade mariana se desenvolvia em correspondência a ela, gerando o recurso à sua intercessão.

A primeira prova dessa piedade dos fiéis é encontrada na decoração e nas inscrições das catacumbas cristãs. As mais antigas e importantes são das catacumbas romanas (Priscilla, Agnes, Coemeterium majus), dos Séculos III e IV, representando a Virgem com seu Filho, ou a adoração dos Reis Magos, com um homem de pé atrás da Virgem e apontando para uma estrela, ou mesmo a Anunciação.

Essas são representações claras, “literais” de passagens evangélicas e da Mãe e de seu Filho, apontando diretamente para o mistério da Encarnação, pois a imagem afirma o que a heresia nega, tanto a realidade da natureza humana de Cristo, quanto a maternidade divina de Maria. Portanto, essas imagens não eram objetos de veneração, mas um sinal de reconhecimento, uma profissão de fé e uma esperança e um convite aos visitantes para rezarem por aqueles enterrados ali.

Nos tempos em que essas imagens começaram a ser pintadas nas catacumbas romanas, isto é, pelo Século II, um peregrino veio à Cidade, Abércio, Bispo de Hierápolis na Phrygia Salutaris (um nome grande do que, hoje, é uma pequena cidade na atual Turquia). Sendo um homem velho, ao retornar de sua longa jornada, ele preparou essa tumba, com uma inscrição que, hoje, está no Museu de Latrão. A inscrição dá testemunho, em termos velados, não apenas da difusão do Cristianismo, da preeminência da Sé de Roma, do Batismo e da Eucaristia, mas também menciona Nossa Senhora:

A fé me levou adiante em todos os locais, e, em todos os locais, providenciou, como meu alimento, um Peixe de grande tamanho e perfeito, que uma Santa Virgem apanhou com suas mãos de uma fonte, e essa fé sempre dá a seus amigos o alimento, dispondo de um vinho de grande virtude, ministrando-lhe misturado com o pão.

A menção do “Peixe” é um acrônimo para Iēsous Christos, Theou Yios, Sōtēr, “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”, como Santo Agostinho explica (De Civ. Dei, XVIII:23), e a Virgem é a que trouxe Cristo a nós.

De quase um século mais tarde, temos um fragmento de um papiro egípcio em grego, hoje na Biblioteca John Rylands, Manchester, Reino Unido. Ele data de 250-280, um período de perseguições metódicas e cada vez mais violentas (Valeriano, Décio, até chegarmos a Diocleciano). Ele contém uma versão de uma oração que ainda rezamos, o Sub tuum prasesidium:

Sob vossa proteção nos refugiamos, ó Santa Mãe de Deus! Não desprezeis nossas súplicas em nossas necessidades, mas livrai-nos do mal, puríssima e beatíssima.

Ela expressa a fé da Igreja em Nossa Senhora de maneira simples, sucinta. Ela é a Mãe de Deus, a Theotokos, “portadora de Deus”, Deipara, Dei Genitrix, “a que dá nascimento a Deus”. Ela tem um poder inaudito de intercessão – embora ainda não se lhe tenha dado o título ainda, ela é reconhecida como Mediatrix de todas as graças. Finalmente, ela é a “única bem aventurada”, escolhida especialmente por Deus, e “a única pura”, perpetuamente virgem.

Ao fim do Século IV, no Império Romano do Oriente (Império Bizantino), a festa litúrgica em honra de Nossa Senhora mais antiga de que se tem registro era celebrada no dia após o Natal.

Nos Séculos IV e V, as orações litúrgicas em uso no Oriente ajuntavam, à moda oriental, os termos de louvor a Maria e invocavam sua intercessão. Por exemplo, na Liturgia Antioquena dos Doze Apóstolos:

Celebremos o memorial da toda pura, imaculada, gloriosíssima, bem aventurada Senhora, Mãe de Deus e sempre virgem Maria; que sejamos protegidos do mal por suas orações e súplicas, e que a misericórdia esteja sobre nós em ambos os mundos.

Finalmente, em 22 de Junho de 431, o concílio ecumênico reunido em Éfeso declarou, solenemente: “Se alguém não confessar que Emmanuel é Deus em verdade e que, portanto, a Santíssima Virgem é Mãe de Deus (pois ela trouxe consigo, carnalmente, o Verbo de Deus tornado carne), seja anátema”. A devoção do povo a Nossa Senhora era tamanha que, quando essa frase se espalhou pela cidade, espontaneamente, uma multidão alegre se reuniu na Igreja de Santa Maria, onde o Concílio aconteceu, e acompanhou os padres conciliares na saída, em procissão, com tochas.

Até Éfeso, o discurso teológico sobre Maria estava intimamente conectado à expressão de verdades cristológicas, mas, após Éfeso, a atenção se voltou para Maria em si, e uma veneração triunfante da Theotokos se espalhou como fogo nas Artes, na Liturgia e nas devoções populares.

 

ADENDO DA PERMANÊNCIA:

Tudo o que o Pe. Iscara afirma nesse ponto é verdadeiro; porém, apenas para ilustrar que os cristãos sempre creram e praticaram o culto mariano desde os tempos mais remotos (e que, portanto, essa crença é apostólica), tomamos a liberdade de reunir as seguintes citações:

- Santo Inácio de Antioquia (Séculos I e II): “Existe apenas um médico, carnal e espiritual, gerado e não gerado, Deus feito carne, Filho de Maria e Filho de Deus, vida verdadeira na morte, vida primeira passível e agora impassível, Jesus Cristo Nosso Senhor” (Epístola aos Efésios, Capítulo 7)

“Nosso Deus, Jesus Cristo, foi, de acordo com os desígnios de Deus, concebido no ventre de Maria, da linhagem de Davi, mas pelo Espírito Santo” (Capítulo 18);

“A virgindade de Maria estava escondida do príncipe deste mundo, bem como o nascimento de seu Filho e a morte do Senhor; três mistérios concebidos em silêncio pelo Senhor”; perceba-se que Santo Inácio compara a virgindade de Maria com a própria Paixão de Cristo (Capítulo 19);

- Santo Aristides de Atenas (Século II): “Os cristãos, portanto, remontam o princípio de sua religião em Jesus, o Messias; e Ele é chamado de Filho do Deus Altíssimo. E está dito que Deus desceu do Céu, e de uma virgem hebraica assumiu e cobriu-se da carne [...] “(Apologia de Aristides)

- São Justino Mártir (Século II): “[...] Jesus Cristo, o Filho de Deus, nasceu sem pecado, de uma virgem da linhagem de Abraão” (Diálogo com Trifo, Capítulo 23)

“[...] de acordo com a vontade do Pai, era necessário que elas [as tradições judaicas] tivessem seu fim com Ele, que nasceu de uma virgem, da família de Abraão e da tribo de Judá (Capítulo 43)

“Contemplai: a virgem conceberá e terá um filho, e seu nome será Emmanuel” (Capítulo 43)

“É evidente a todos que, na raça de Abraão, ninguém nasceu de uma virgem de acordo com a carne, nem se diz que alguém tenha nascido de uma virgem, exceto Cristo, Nosso Senhor. Mas, como vós e vossos professores ousais afirmar que, na profecia de Isaías, não está dito ‘contemplai: a virgem conceberá’, mas ‘contemplai: a jovem mulher conceberá e terá um filho’, e como vós explicais a profecia como se falasse de Ezequias, eu me proporei a debater esse ponto com vós em oposição a vós e a mostrar que essa passagem faz referência Àquele que reconhecemos como Cristo (Capítulo 43); o restante do Diálogo faz outras referências a essa profecia de Isaías, atribuindo-a a Cristo, bem como ao fato de que Cristo nasceu de uma virgem

- São Dionísio Areopagita (Século I): “Que [referindo-se a Cristo), sendo concebido, formado e gerado pelo Espírito Santo e do sangue virginal da Virgem Maria, santa mãe de Deus, era verdadeiro Homem [...] (Liturgia de São Dionísio, Bispo de Atenas); o mesmo Santo chega a afirmar que, quando a viu, tê-la-ia tomado por uma divindade – devido aos seus secretos atrativos e à sua beleza incomparável – se a fé, em que estivesse bem confirmado, não lhe tivesse garantido o contrário (Tratado da Verdadeira Devoção, São Luís Maria Grignion de Montfort);

- “[…] E ele [São Gabriel] revelou a Maria como, nela, deveria nascer o mistério supremo divino de Deus” (Da Hierarquia Celestial, Caput IV, Seção IV)

Terra da Santa Cruz

Gustavo Corção

 

O Brasil nasceu quando no mundo se abriam os engalanados portões de um novo humanismo contestatário e orgulhoso, que pretendeu ser o porta-estandarte de uma nova e brilhante civilização marcada pela maioridade do homem e pela senectude de Deus; nasceu quando a Europa ainda se enfeitava com as flores e os ouropéis da Rinacita e já se preparava para a passeata da Reforma, mas quis Deus que o berço esplêndido em que nascia uma das mais belas nações do mundo, talvez futuro exemplo de outras mais gloriosas e vetustas, merecesse a proteção de anjos tutelares e a marca indelével do Sinal da Santa Cruz.

*   *   *

O povo brasileiro nasceu persignando-se, ajoelhando-se, e logo na primeira missa agradecendo a Deus e reconhecendo em Jesus Cristo o único Rei dos reis. Já no mesmo grande continente que tem nome glorioso e apocalíptico de Novo Mundo, que é pseudônimo do Céu, cantara a voz piedosa de Colombo: “Te Deum laudámus: te Dominum confítemur...”

*   *   *

Mas é no Brasil, Terra de Santa Cruz, que em maior extensão e com maior constância se perpetuará ao longo de toda a sua história essa atitude fundamental de Ação de Graças e o hábito profundo, nem sempre santo, mas sempre humilde, de viver a presença de Deus.

*   *   *

Não ignoro que o santo nome de Deus é mil vezes por segundo usado em vão em todo o ocidente; não ignoro que o nome de Deus tornou-se em francês, espanhol e português palavra vã, som, caco, sufixo sem a menor ressonância de eternidade, mas ouso crer que nos vasos capilares da alma brasileira ficou mais do que um hábito verbal, no que se revela quando o ignoto chofer de taxi, que emerge do desconhecido e logo mergulha no imenso anonimato, nos diz — “vai com Deus!”, como tantas e tantas vezes já ouvi. Creio que milhões de vezes por minuto se diz por todo esse imenso Brasil, “vai com Deus”. E creio que essa saudação ou forma de despedida seja mais do que um simples sinal de nossa cordialidade. Há de ser também um difuso e persistente sinal de consciência coletiva da presença de Deus, sem a qual a história dos povos desanda num sinistro espetáculo de circo ou num ensaio do inferno.

*   *   *

Toda a história do Brasil é marcada por atos públicos da realeza de Cristo. Quando o Príncipe Regente, futuro D. João VI, aqui desembarcou, já com a lúcida intenção de abrir as portas e os portos de um novo império, seu primeiro cuidado foi o de promover um TE DEUM de Ação de Graças a que assistiu com toda a comitiva. Quatorze anos depois D. Pedro I determina que a independência seja sempre celebrada com esse hino sagrado, que mais tarde inspiraria Gonçalves Dias e seria a oração predileta de Joaquim Nabuco.

*   *   *

Com a vitória do Brasil sobre o comunismo, em abril de 1964, consagrou-se de modo espetacular e milagrosa a vitória de Cristo Rei — vitória que não nos cansamos de agradecer e admirar, e que o mundo na sua especializada estupidez para o que há de admirável no Reino de Cristo e para o que há de detestável no comunismo não se cansa de denegrir — porque o comunismo, como se tornou evidente no sangrento episódio do México e na sangrenta guerra civil espanhola, foi sempre adivinhado como especial inimigo pelos milhares de mártires que morreram gritando: Viva Cristo Rei!

Não é de admirar que logo o primeiro governo nascido dessa miraculosa intervenção, por decreto do presidente Humberto Castelo Branco, de 19 de novembro de 1965 e depois pela lei n° 9110 de 22 de setembro de 1966 tenha instituído o Dia Nacional de Ação de Graças a ser celebrado na quarta quinta-feira de novembro. 

*   *   *

Santo Ambrósio, bispo de Milão, para combater os últimos remanescentes do arianismo, quis ganhar o coração do povo com hinos religiosos que alcançaram grande sucesso. À heresia que destronava Cristo e negava sua divindade, o povo respondia cantando louvores à Trindade. O TE DEUM que lhe é atribuído, segundo F. Cayré A. A., é posterior e pertence a Nicetas de Remesiana; mas a ideia ambrosiana está de pé.

Combatamos os inimigos da Igreja cantando os hinos litúrgicos que trazem ao coração do povo os grandes mistérios da Fé. E no dia 23 do corrente, quinta-feira, (hoje) compareçamos à Igreja da Candelária, às 18 horas, para assistir à comemoração do Dia Nacional de Ação de Graças, celebrada por Sua Eminência Reverendíssima o Sr. Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Eugênio Salles, com a presença do Sr. Presidente da República e Senhora, Emílio Garrastazu Médici, do Sr. Ministro de Estado da Justiça e Senhora, Alfredo Buzaid, e demais autoridades, e rezemos a Deus para que o povo brasileiro, bem conduzido por seus pastores e seus governantes, aliados nessa obra de louvor a Deus, saiba opor uma invencível resistência à onda de perversão que quer contestar a Realeza de Cristo.

 

(O Globo, 25/11/1971)

Há imperfeições na Mãe de Deus?

Foi ninguém menos que um Doutor Católico, um Padre da Igreja, que identificou alguns fatos que atribuiu à Santíssima Virgem como imperfeições, durante o encontro do Menino Jesus no Templo e, também, nas Bodas de Caná. Trata-se de São João Crisóstomo.

Em sentido contrário, deve-se dizer que a Santíssima Virgem nunca cometeu a menor imperfeição. As razões explicando isso são inúmeras.

Primeiro, porque a Mãe de Deus não tinha a “fonte do pecado” – também chamada de concupiscência – que é uma das causas principais das imperfeições. Essa ausência está ligada à sua imunidade ao pecado original.

Além disso, a virgem das virgens possuía a virtude perfeita em razão da graça que lhe havia sido dada. Ela também estava destinada a ser um modelo de santidade, porque Nossa Senhora é a primeira dos redimidos: é conveniente que seja ela, que tem o primado na ordem da santidade, deveria incorporá-la em sua perfeição consumada

Finalmente, sua perfeita prudência sempre determinou sua atividade na maneira que estava mais conformada à vontade de Deus.

É por isso que Santo Tomás de Aquino não hesita em dizer que São João Crisóstomo foi longe demais em seu escrito. E, embora São Pio V tenha ordenado que fossem republicadas as obras do grande doutor, pediu que as passagens incriminadas não fossem incluídas.

 

A Mãe de Deus possuía impecabilidade

Mas a maior razão explicando a ausência de pecado e imperfeições em Maria é que ela era impecável.

O Concílio de Trento, na Sessão VI, Cânone 23, afirma: “Se alguém disser que... em sua vida, [um homem] pode evitar todos os pecados, até mesmo os veniais, exceto por um privilégio especial de Deus, como a Igreja sustenta em relação à Santíssima Virgem: seja anátema”

De sua parte, Santo Tomás reconhece a confirmação na graça em razão da adequação à Mãe de Deus. Impecabilidade consiste em não poder pecar em razão de uma capacidade interior. Ela se distingue da confirmação na graça, que é manter o estado de graça até a morte, em outras palavras, não cometer pecado mortal: essa graça se explica pela ajuda externa de Deus. Mas a impecabilidade requer uma causa interna no sujeito, que evita o pecado.

Isso é, claramente, o caso do Verbo Encarnado, Jesus Cristo: é uma impossibilidade a pessoa divina cometer um pecado. No caso do homem-Deus, a visão beatífica e a virtude perfeita são acrescidas à personalidade divina.

A impecabilidade também existe, em grau menor, nos que já foram salvos: inundados pela luz da glória, eles não podem mais pecar. Seria impossível possuir a visão beatífica e pecar.

Em grau menor, a impecabilidade advém da grande dificuldade de pecar que resulta do dom de uma graça especial. Ela inclina tanto uma pessoa ao bem que se torna quase impossível romper com ele. Deus deu uma assistência especial a Sua Mãe, que removeu de todas as causas do pecado.

Essa doutrina permite uma compreensão mais profunda dessas palavras magníficas do Papa Pio IX em Ineffabilis Deus: “fê-la alvo de tanto amor, a ponto de se comprazer nela com singularíssima benevolência. Por isto cumulou-a admiravelmente, mais do que todos os Anjos e a todos os Santos, da abundância de todos os dons celestes, tirados do tesouro da sua Divindade. Assim, sempre absolutamente livre de toda mancha de pecado, toda bela e perfeita, ela possui uma tal plenitude de inocência e de santidade que, depois da de Deus, não se pode conceber outra maior, e cuja profundeza, afora de Deus, nenhuma mente pode chegar a compreender”.

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