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A Rússia e os países do Leste Europe foram os principais teatros do confronto entre o Cristianismo e o comunismo. Mas, a ideia que fazemos desses episódios é, em geral, muito vaga. É certo que os horrores dos gulags acabaram por se tornar conhecidos no Ocidente, mas o marxismo lançou mão de muitas outras armas para arrancar a crença dos corações, como veremos em seguida. Tentaremos também descobrir a história da Igreja Católica na União Soviética, largamente ocultada pela Igreja Russa cismática. Finalmente, nós nos voltaremos para alguns personagens que ilustram magnificamente a alma católica desses povos (Cardeal Mindszenty etc).
1. As armas do comunismo contra a religião
1.1 - Leis e medidas administrativas
Após a revolução de 1917, aprovou-se um conjunto de leis e decretos. A partir de 1918, eles vão seguir um itinerário marcado pelo retrocesso e pela restrição, alegando a “liberdade de consciência”, a “liberdade de profissão religiosa” (1929) e, em seguida, a “liberdade de culto religioso” (1936). Toda essa legislação oficial, no entanto, era freqüentemente “esquecida" pelas autoridades, que invocavam toda sorte de crimes para condenar aqueles que ainda ousavam crer em Deus e praticar a religião. A essas leis fundamentais somam-se as numerosas medidas administrativas referidas em instruções secretas, além de ordens dadas em viva-voz pelos representantes do governo, sem que houvesse oficialmente qualquer linha escrita. Essa confusão jurídica permitia a cada um julgar segundo o seu alvitre, em detrimento dos cristãos.
Com a nova coleção de leis que se seguiu à revolução de 1918, o governo se dedicou inicialmente a destruir a família a fim de melhor destruir a ordem social existente, e substitui-la por uma versão plenamente comunista. Uma vez que as famílias preparam os cidadãos de amanhã, era importante suprimir a influência dos pais “reacionários” sobre os filhos, de modo a torná-los verdadeiros militantes do Partido. Nesse preciso momento, dispensava-se a coerência na política familiar. Seguindo as necessidades econômicas ou demográficas, as leis poderiam ser adaptadas, mas sempre em vistas de um mesmo fim: a conquista da sociedade pelo governo soviético, e o triunfo da causa do Partido. A estrutura familiar era visada em três pontos:
— O próprio laço do matrimônio: a partir de 1918 o casamento religioso foi abolido, apenas o registro civil era legal. Do mesmo modo, o concubinato ou a poligamia foram legalizados, e o divórcio, autorizado e simplificado.
— A “liberação” da mulher: “O sucesso de uma revolução depende do nível de participação das mulheres” dizia Lenin. Como a mulher é a base da família, todos os meios serão empregados para tirá-la de casa e impedi-la de cumprir a missão de mãe. Era preciso “liberar a mulher da escravidão do marido e dos afazeres domésticos”, considerados por Lenin como uma “escravidão, um jugo embrutecedor, humilhante, eterno, exclusivo”. O aborto foi legalizado em 1920, e a contracepção encorajada. “As mulheres devem ser retiradas da reprodução para servirem à produção”, afirmava Alexandra Kollontaï. Percebe-se a estima que tinham pelas mulheres! Para que a mãe pudesse ser emancipada e fosse trabalhar como os homens, abriam creches e jardins de infância. Os trabalhos domésticos ainda a esperavam em casa, ao retornar do trabalho.
— Os filhos: “A criança pertence à sociedade, não aos pais” (Nikolai Bukharin). Por conseguinte, a criança devia sair da sua família para ser educada pela sociedade. A escola tornou-se obrigatória, dos 7 aos 18 anos. Claro que a escola era monopólio do Estado e, portanto, ateia e violentamente antirreligiosa. A criança era assim instrumentalizada ao serviço do Partido.
Quando julgaram que todos os laços que uniam a família haviam sido suficientemente destruídos (laços entre os esposos e entre pais e filhos), o governo mudou a política. É verdade que, a partir de 1936, a economia e a demografia conheceram uma situação catastrófica na esteira dessa política. Lançou-se uma campanha em favor da família numerosa; proibiram novamente o aborto antes de tornarem a legalizá-lo em 1955. Concederam-se ajudas e recompensas às mães de famílias numerosas. A maternidade se tornou um dever, “uma função social” da mulher". Balançando ao sabor das leis e das propagandas, a família se transformou numa ferramenta nas mãos do Partido para moldar a nova sociedade soviética ateia.
No que se refere ao culto, as igrejas e os locais de culto tiveram de ser registrados nas instâncias governamentais, mas muitas vezes foram para a clandestinidade. Todos os padres precisavam de uma “permissão de ministério”, que lhes era retirada no primeiro passo em falso. Todo padre que exercesse o sacerdócio clandestinamente, sem essa autorização, sujeitava-se a uma condenação penal. Era-lhe interdito o exercício do ministério em domicílio e, se fosse autorizado a visitar as famílias, não poderia falar com elas sobre religião! Os confiscos das propriedades e a supressão das obras da Igreja Católica se multiplicaram, com o objetivo de abafar o apostolado.
O balanço apresentado na seguinte tabela é eloquente:
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1939
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1953
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Paróquias
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6.930
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1.200
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Igrejas, capelas
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10.321
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1.500
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Seminários
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18
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Todos fechados
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Casas religiosas
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1.019
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Todas fechadas
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Escolas
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20.316
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Todos requisitados ou nacionalizados
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Hospitais, orfanatos
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1.520
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Todos requisitados
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Livrarias, editoras
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70
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Todos requisitados ou nacionalizados
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Publicações
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110
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Todas suprimidas
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Associações católicas
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3.000
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Todas suprimidas
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Construções e terrenos
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Todos confiscados
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No que se refere à juventude, a legislação era ainda mais restritiva. Desde 1921, o ensino religioso foi dificultado aos menores de 18 anos. A partir de 1929, proibiu-se levar crianças aos ofícios religiosos e de reuni-las para recreações ou para qualquer outra atividade. Em 1932, proscreveu-se o ensino de religião às crianças, salvo pelos próprios pais, o que impedia os padres ou qualquer outra pessoa de dar aulas de catecismo. Reputava-se uma perversão o ensino religioso dispensado às crianças.
Finalmente, proibiu-se a posse de “literatura clandestina” e sobretudo a colaboração na sua edição, ou seja, todos os quatro Evangelhos, os livros espirituais, as revistas católicas ou todo registro de conotação religiosa.
1.2. A doutrinação
A segunda arma poderosíssima de que o Estado dispunha para neutralizar e para eliminar toda influência religiosa era a doutrinação, sob todas as formas e em todos os domínios. A despeito de todas as formas de propaganda pela mídia, pela imprensa, pelos slogans publicitários, o Estado criou um ambiente que fez do comunismo o único horizonte visível e possível. Desde a infância, o cidadão era envolvido pelo sistema soviético.
A partir dos sete anos, a escola é obrigatória, mas muitas vezes é a partir do ingresso numa creche aos três anos, e mais tarde numa universidade, que as crianças são moldadas segundo a concepção materialista e ateia dos comunistas. Em todas as classes se lecionava um curso especial, o “Diamat”, ou seja, materialismo-dialético. Trata-se objetivamente de um curso de doutrinação comunista. Ainda assim, todas as matérias do programa devem igualmente difundir tais princípios — foi sobretudo na disciplina de história que a realidade era transformada sem escrúpulos para denegrir a Igreja e todo seu passado. Como qualquer outra fonte de informação estava proibida, esses meios eram terrivelmente eficazes.
A todo momento na vida da escola ou nas demais atividades, exigem que a criança ou o adulto faça um juramento de ateísmo ou de militância comunista.
A título de exemplo, [apresentamos] esta circular do ano de 1980/1981:
Conteúdo do trabalho:
- Identificar os filhos dos crentes: organizar o controle das famílias religiosas;
- Fiscalizar as atividades religiosas no setor;
- Esgotar as possibilidades de educação ateia durante o curso de biologia, química, geografia, astronomia, matemáticas, ciências sociais, literatura e nos demais ramos;
- Atrair os professores para a propaganda do ateísmo;
- Criar um conselho de educação ateia;
- Estabelecer um ciclo de conferências e de discussões sobre assuntos relacionados ao ateísmo;
- Organizar círculos de trabalho denominados “o jovem ateu”;
- Organizar manhãs e tardes de discussão sobre ateísmo;
- Discutir sistematicamente os filmes… Criar jornais murais sobre a temática ateia;
- Criar um stand permanente - “Ciência e Religião” - na biblioteca da escola.
Muito embora a associação não fosse obrigatória, os jovens eram muitas vezes associados à força, e a não participação era considerada um ato antissocial, com possíveis consequências para toda a família. Ademais, essas organizações tinham o monopólio de todas as recreações. Quem não fizesse parte delas estava excluído de todos programas, de todo lazer; de fato estava excluído da sociedade. Essas organizações eram, com efeito, um “noviciado” para a entrada no Partido. Os pequeninos podiam fazer parte das “Octobriens”; em seguida, de 9 a 14 anos, dos “Jovens Pioneiros” e, de 14 a 28 anos, da “Juventude Comunista”, comumente chamados de “Komsomols”. Finalmente, tornavam-se membros do Partido.
- Os lazeres
Muitas das atividades envolvendo crianças e adultos – para além das noites em família ou entre amigos, que eram muito estimadas - são um monopólio mais direto ou menos direto do Partido. Acima de tudo, o Estado entende que não há lazeres inúteis ou “gratuitos”, pois um lazer deve ser cultural, palavra que subentende propaganda comunista. Criaram-se, assim, vários tipos de clubes e centros de cultura, museus e bibliotecas, espetáculos… Todos mostram as maravilhas da sociedade soviética ou o horror da religião. Um bom cidadão deve freqüentar, ao menos de tempos em tempos, um clube e assistir a conferências, se não o reputavam por “individualista” — o que é perigoso numa sociedade socialista — transformando-se então em objeto de vigilância. Ninguém estava ao abrigo dessa propaganda ao serviço da doutrina comunista. Onde quer que se esteja, a voz do partido sempre se faz ouvir.
1.3. A repressão
Aos comunistas não faltavam meios de pressão, ou de repressão, aptos a dobrar as vontades mais obstinadas, prontos para se usarem naqueles que resistirem à doutrinação.
Num primeiro momento, tentam a intimidação. Os meios não faltam: a delação entre vizinhos ou colegas é um dever, a fim de identificar os cristãos e os controlar. Na escola, os professores também possuem o dever de assinalar todo comportamento “antissocial”, e muitas vezes passam “pseudo-questionários sociológicos” que são, na verdade, questões para saber se as crianças têm pais que creem em Deus, que vão à Igreja e, sobretudo, que ensinam tudo isso aos seus filhos! Eles questionam em seguida, mais precisamente, os pais e as crianças, na escola ou na KGB, para tentar lhes dissuadir, mostrando-lhes os males que isso acarretará aos seus filhos. Para quem resistir a essa primeira intimidação, ameaça-se com sanções. Em seguida, aplicam-se as primeiras sanções, como a demissão, multas (que muitas vezes ultrapassam a metade do salário). Os que professam a crença em Deus praticamente são privados do acesso à universidade. As crianças podem ser tiradas dos seus pais se for julgado que eles exercem sobre elas uma má influência em razão da sua conduta antissocial.
Quando as ameaças e as primeiras sanções não surtem efeitos, começam as prisões e condenações.
- Campos de trabalho: os regimes podem ser mais rigorosos ou menos rigorosos, mas, em todo caso, os campos de trabalho são sempre muito duros moral e fisicamente. As visitas são restritas ou interditas. As cartas, quando autorizadas, são todas censuradas. Os presos devem alcançar metas de trabalho diário que são muitas vezes desumanas. As autoridades lhes roubam o alimento ou lhes fornecem comida estragada. Do salário depositado desconta-se uma parcela tão grande, que não lhes sobra quase nada, sem contar todas as penalidades suplementares que podem ser infligidas sob pretexto de má-conduta, metas não alcançadas etc.
- Prisões: o regime nas prisões é ainda mais severo que nos campos de trabalho. A saúde deteriora-se rapidamente por falta de alimentação e de exercícios físicos.
- A pena de morte direta (por execução) ou indireta (em conseqüência dos maus tratos) atingiram duramente as fileiras católicas. O balanço humano é pesado e difícil de estimar. No tocante aos padres católicos no território russo (em 1939) e nos países satélites (Polônia, Países Bálticos, Sub-Carpatos…), fez-se a seguinte estimativa, referente ao período de 1917 a 1945:
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Assassinados ou executados
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352
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Mortos em prisão ou desaparecidos
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2.600
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Deportados ou condenados
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1.700
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Escaparam
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930
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Escondidos, dispersos
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1.250
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Em 1978, não sobravam mais que 1.575 padres, dos 9.624 que existiam em 1917. Os bispos foram o alvo principal: na Rússia, um foi assassinado, seis foram presos, 12 deportados, mortos no exílio ou expulsos, cinco condenados a trabalhos forçados, dez expulsos da sua diocese.
Entre 1917 e 1950, Roma estima que mais de 10.000 padres e que 50 bispos foram executados ou aprisionados. As condenações diretas ou indiretas de fiéis chegam a centenas de milhares.
- Mudança de endereço: muitas vezes se impunha a realocação no interior em complemento à pena dos que voltavam dos campos de trabalhos forçados ou da prisão. O exilado era obrigado a viver em determinado lugar, onde em geral o encarregavam de um trabalho. Regularmente, devia comparecer no comissariado para demonstrar que estava ali. As cartas, as visitas e as correspondências não sofriam limites e, oficialmente, não estavam sob censura, a não ser decidissem por um controle mais estrito...
- Hospitais psiquiátricos: De longe, era a pior das penas. Para não serem obrigados a julgar ou a justificar a detenção, as pessoas “incômodas" eram internadas como loucas; via-se a fé religiosa como um sinal de anormalidade psicológica. A internação poderia se estender por anos, ou mesmo por toda a vida. O uso de medicamentos fortíssimos e de maus tratos causavam estragos psíquicos e intelectuais por vezes irreversíveis. Aqueles que deixavam esses hospitais carregavam frequentemente até o fim da vida sequelas, quando não perdiam para sempre a sanidade.
2. Pequena história da perseguição
2.1. Primeiros confrontos
Como explicar a presença de católicos na Rússia? A maior parte das comunidades de rito latino originaram-se das sucessivas partilhas da Polônia, que resultaram na incorporação de milhões de católicos latinos na Rússia tsarista. A esses últimos somaram-se os greco-católicos, isto é, os uniatas que guardavam orgulhosamente as características russas do rito oriental. Eram menos numerosos, mas na maioria das vezes mais ativos.
A conversão ao catolicismo representava riscos maiores que o cisma grego: o ortodoxo incorria na pena do artigo 58.10 (“agitação antissoviética”); que dizer do católico que poderia ser ainda condenado pelos artigos 58.1a (“traição), 58.3 (“relação com um Estado estrangeiro”), 58.6 (“busca de informações em benefício de um país estrangeiro”)?
Os soviéticos estenderam progressivamente o campo geográfico da perseguição, à medida da sua expansão territorial. De 1917 a 1939, os bolcheviques almejaram suprimir a Igreja Católica do território sob seu controle, a saber, da Rússia e de porções da Ucrânia e da Bielorrússia (mas não na região oeste, que estava sob jurisdição polonesa). Paralelamente, esforçaram-se por desacreditar a Igreja Católica em todo o mundo por meio da propaganda. Durante a segunda guerra mundial, ampliaram o campo de ação (oeste da Ucrânia e da Bielorrússia e países bálticos), sempre atuando sobre a opinião pública, notadamente nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, que queriam persuadir de que o Kremlin não tinha nenhuma animosidade contra a religião, uma vez garantida a segurança soviética. Após a guerra, a perseguição estendeu-se aos países satélites da URSS, onde a Igreja Católica tinha grande influência (principalmente na Polônia).
Os marxistas dividiam-se quanto aos meios a serem adotados para alcançar o fim de extirpar a religião católica: a ala “direita” queria proceder de modo mais “indulgente”, através da reeducação; os trotskistas preferiam o ataque violento.
Em abril de 1919, Dom de Ropp (arcebispo) foi detido. Os comunistas irritavam-se principalmente por dois motivos: Roma clamara pela segurança da família imperial antes da execução dos Romanov, e o Papa Bento XV exprimira seu juízo sobre as perseguições contra a Igreja cismática russa. O início da guerra russo-polonesa dos anos 1919-1920 tornou a situação ainda mais trágica. Desde 1918, Dom O’Rourke, vigário geral da diocese de Minsk, escrevia a Monsenhor Ratti (futuro Pio XI), Visitador Apostólico para a Rússia: “Aqui, a população católica foi sistematicamente esmagada pelos bandos de soldados russos bolcheviques: famílias inteiras, não importando o sexo ou a idade, foram assassinadas.”
Em 1920, os mosteiros foram fechados (o tsar iniciara esse movimento). Os católicos apoiaram a ação militar polonesa destinada a restaurar as fronteiras históricas da Polônia com a Rússia, na esperança de obter o fim das perseguições. Com as mudanças de fronteira, resultantes do tratado de Riga, o número total de católicos sob domínio bolchevique subiu para 1.160.000, ou seja, 331 paróquias com 400 padres.
Em 1921, não se obteve nenhuma concessão no terreno religioso durante as negociações da NPE. Muitas igrejas foram fechadas entre 1921-1922. Em 26 de dezembro de 1921, um decreto proibiu a educação religiosa de crianças com menos de 14 anos, o que representou um obstáculo considerável ao apostolado. Os cursos de ateísmo passaram a ser lecionados desde o jardim de infância. Os bolcheviques tiraram proveito da fome de 1922 para atacar a religião, alegando que os males se deviam à concentração de bens nas mãos da Igreja. Roma tentou se opor ao confisco de objetos sacros, em seguida propôs pagar pela restituição dos bens confiscados, mas foi em vão.
Apesar da missão católica organizada por Roma contra a fome na Rússia, o Kremlin não se desarmou. No fim de novembro de 1922, Dom Jan Cieplak foi informado de que o clero católico de Petrogrado seria julgado por atividade contrarrevolucionária. Em dezembro de 1922, todas as igrejas de Petrogrado foram fechadas e lacradas, salvo uma única que era mantida por um padre francês (a França precisava ser tratada mais diplomaticamente). Em março de 1923, iniciou-se um processo contra os católicos latinos que não aceitavam a lei de separação entre a Igreja e o Estado, começando o confisco violento dos bens da Igreja. Dom Cieplak foi julgado juntamente com uma dezena de padres latinos, como o Pe. Fedorov e M. Balachev, redator da revista Slovo Istini (A Palavra da Verdade). O processo terminou com a condenação à morte de Dom Cieplack (pena comutada para dez anos de prisão em regime severo, após pressões romanas) e de seu vigário geral, Mons. Boudkevitch, executado na noite de Páscoa (1o. de abril de 1923) na prisão de Sokolniki. A sua morte edificou as testemunhas: “No lugar da sua execução, ele fez o sinal da cruz, abençoou o verdugo e seus assistentes, em seguida voltou a cabeça para o muro e pôs-se a rezar em voz baixa. O tiro do algoz interrompeu a oração do padre.” Ele foi a primeira vítima da Igreja Católica latina na nova Rússia bolchevique. Muitas sentenças de morte e encarceramentos de sacerdotes (3 a 10 anos) seriam pronunciados. Os bens foram confiscados. Após a expulsão de Dom Cieplak, não havia mais nenhum bispo católico na Rússia, apesar da URSS contar com mais de um milhão de fiéis. Os 200 padres remanescentes eram, na sua maioria, de origem polonesa. Diante dessa situação difícil, Roma tentou estabelecer uma hierarquia secreta. A reação contra a nova hierarquia foi rápida: Mons. Skalski, administrador apostólico, figura influente entre os poloneses na Ucrânia soviética, foi condenado a dez anos de prisão.
No início do século XX, foi constituída uma comunidade de católicos oriunda da ortodoxia, guardando integralmente a especificidade russa do rito oriental, em particular um grupo de religiosas da Ordem Terceira dominicana dirigida por Anna Ivanovna Abrikossova. Em setembro de 1922, o Pe. Abrikossov, incumbido do grupo, foi expulso com mais de 200 cientistas e filósofos. De 12 a 16 de outubro de 1923, prenderam a comunidade de religiosas dominicanas e muitos padres. Uma delas havia oferecido a vida pela salvação do povo russo. Em 19 de maio de 1924, a maior parte dos padres foi condenada a dez anos de reclusão nas diversas prisões dispersas, as irmãs a cinco anos, que em seguida também seriam relegadas a outras prisões afastadas das suas famílias. No tempo da morte de Lenin (janeiro de 1924), restava mais de um milhão de católicos e 127 padres, dos quais 116 dispersos e 11 em prisão.
2.2. As repressões de 1931
Em fevereiro de 1931, ocorreram na URSS muitas prisões de católicos de rito latino ou oriental, abrangendo clero e leigos. Entre as vítimas, destacaram-se muitos convertidos como Victoria Lvovna Bourvasser, uma judia convertida.
Muito inteligente e conhecedora de idiomas, mas mimada pelos pais, ela caíra no ateísmo militante. É daí que o Bom Deus a retirou para transformá-la numa católica humilde, fervorosa, que comungava diariamente com lágrimas, desejando sofrer para reparar seus erros e testemunhar seu amor por Nosso Senhor. O Bom Deus lhe dera a graça de morrer pela fé. (…) Abandonaram-na doente, sofrendo de modo atroz, na cela, e quando quiseram conduzi-la à enfermaria, era já tarde demais: ela morreu nos corredores.
Um outro exemplo:
Na prisão de Boutyrki, uma pequena judia convertida, Anna Roubachova, que praticamente não dorme, espanta todas suas companheiras de cela por seu espírito de oração (ela reza noite e dia), e pela sua coragem. Uma outra judia, Melle Sapojnikova é igualmente um modelo de força, enquanto antes, quando era livre, era bem preguiçosa: a graça é proporcionada às necessidades. As moças sequestradas eram submetidas a penas de três a dez anos em campos de concentração. Muitas lá morriam. O motivo da condenação era o seguinte: “A maioria das associadas do grupo organizaram uma ordem monástica ilegal de São Domingos. Elas reuniam-se em diferentes apartamentos, entretinham conversas antissoviéticas sobre questões políticas e econômicas, praticavam com as pessoas de seu convívio uma agitação contrarrevolucionária. ”
Os católicos latinos também viraram alvos. Prenderam-nos em abril por espionagem e ação contrarrevolucionária. A principal ação do grupo latino era a difusão da oração “Rússia padecente”, da devoção à Santa Teresinha do Menino Jesus e de determinadas orações pela salvação da Rússia. Esse apostolado lhe acarretou a deportação por três anos. Uns cinquenta fiéis foram exilados: eram simples trabalhadores ou organizadores de procissões, muitas vezes velhos. “O fim de todos eles será a morte miserável no exílio ou nas novas prisões. ” As condições do interrogatório desafiam as forças morais: “Irmã Jacinta (Anna Zolkina), uma jovem freira de 25 anos, torturada por questões infames, sucumbiu a um terrível ataque de nervos.” Liberada em 1941, foi condenada no mesmo ano a cinco anos no gulag.
As irmãs dominicanas continuaram o seu apostolado nos campos. Formavam grupos para difundir o ensinamento católico. No verão de 1935, no campo de Bamlag, elas redigiram uma carta que manifesta a sua intrepidez: “Pelo espírito, nós somos fortes. Nem os campo de concentração, nem os órgãos da NKVD poderão desviar do caminho verdadeiro os filhos fiéis da única Igreja Católica. Mesmo aqui nós nos esforçaremos para ganhar recrutas valorosos para a Igreja Católica.”
2.3. Os prisioneiros católicos de Solovki
No campo de prisioneiros situado nas ilhas Solovki (Mar Branco) viviam 20.000 homens em condições assustadoras: clima polar, fome, prisioneiros fuzilados em grupos…
Muitos padres (uns vinte ao mesmo tempo) viviam aí detidos. As missas começavam a meia-noite e se sucediam até as 7 horas da manhã. Um armário baixo servia de capela, nele só se conseguia celebrar de joelhos. Os guardas jamais se deram conta de nada. Por causa do novo calendário com a semana de cinco dias, foi-lhes exigido trabalhar aos domingos: “Fuzilem-nos agora mesmo, mas não violaremos o mandamento de Deus.” Quiseram obrigá-los a tirar o hábito eclesiástico: “No trabalho nos vestiremos como os demais, mas na cela usaremos a sotaina.” Para socorrer os doentes, os padres pediam para ser levados com eles e os confessam nos corredores, falando com os doentes às vistas de todos. A paciência dos prisioneiros é testada até aos últimos limites: o bispo católico Bolesas Sloskans escreveu do arquipélago, onde viveu de 1928 a 1930, aos seus pais: “Eu vos peço do mais profundo da minha alma: não permitais que a vingança ou a exasperação tome conta do vosso coração. Se o permitirmos, não seremos mais católicos verdadeiros, e sim fanáticos. ”
Em 1932, instaurou-se contra esses sacerdotes um processo “por formação de grupo antissoviético, por se dedicarem à agitação antissoviética, cumprindo ritos religiosos e celebrações litúrgicas”. Esses duros tratamentos muitas vezes culminavam com a morte. O campo de prisioneiros teve necessidade de abrigar novos prisioneiros para serem trocados com a Polônia e, sobretudo, para dar continuidade aos trabalhos iniciados: a escavação do canal Báltico/Mar Branco e a linha ferroviária Leningrado/Murmansk, o canal Moscou, Volga, Don.
A perseguição aos católicos se estendeu a toda a Rússia Européia: Leningrado, Kiev, Odessa, Rostov do Don… Os católicos alemães do Volga, que estavam sob a direção do Pe. Kappès, tornaram-se o novo alvo a ser abatido. Os sacerdotes mantiveram-se firmes nos seus postos para responder às necessidades dos fiéis. Os testemunhos são eloquentes: “Os padres conservaram-se heroicamente ao lado do seu rebanho. Relatamos fatos mostrando que, apesar da repressão do poder, do terror e das execuções, apesar da perseguição contra a fé, os padres não fugiram, mas permaneceram no posto. Os padres receberam a morte das mãos dos bolcheviques com a oração nos lábios, submeteram-se a torturas e fuzilamentos.” A colheita foi abundante: “Muitos católicos alemães foram condenados à morte, recebendo a sentença com firmeza e com uma fé inflexível. ”
Dom Bathélzmy Remov, convertido secretamente ao catolicismo em 1932, e nomeado secretamente por Pio XI como bispo auxiliar de Mons. Neveu, foi condenado à morte em 1935 por causa da sua conversão. Os membros do grupo católico que surgira ao seu redor foram condenados em abril do mesmo ano e executados sem um novo processo em 1937.
2.4.O grande terror de 1937
O assassinato do secretário do Partido Comunista, provavelmente por instigação de Stalin, foi o início de um período de terror que lhe permitiu, entre 1935 a 1938, eliminar todos os seus adversários em etapas sucessivas. 50.000 suspeitos foram deportados para os Montes Urais e para a Sibéria. Essa nova etapa foi desencadeada por um ato pessoal de Stalin, sob a forma de uma resolução da seção do Politburo (2 de julho de 1937). A ordem transmitida a todos os níveis da direção do partido foi de tornar a prender todos os ex-detentos, os koulaks, os ministros de culto e os prisioneiros políticos, “a fim de fuzilar imediatamente os elementos mais incômodos sob forma de medida administrativa das troikas contra eles.” Determinou-se um prazo de quinze dias para que se preparasse a lista das pessoas a serem fuziladas ou exiladas. Foi uma hecatombe: 300.000 vítimas foram lançadas nas fossas comuns de Severnoye Butovo (20.762 das quais apenas no período de 8 de agosto a 19 de outubro de 1938) . “A máquina de extermínio não saciava sua sede de sangue (…) em diversas regiões, os secretários do Partido, aos quais havia sido atribuído uma meta de execuções, pediam por telegrama autorização de Stalin para aumentar o número estabelecido. ” Isso foi concedido: para a região de Omsk, o número de execuções subiu de 3.000 para 8.000. A maior parte dos padres presos ou exilados foram executados na ocasião. Muitos poderiam salvar as vidas renunciando ao sacerdócio, como lhe propunham os juízes. No entanto, a fidelidade dos padres encorajava os fiéis à perseverança: um grupo de paroquianos escreveu ao seu padre detido no arquipélago Solovki: “Nós também recordamos do senhor na Santa Comunhão e rezamos fervorosamente pelo senhor… No momento, estamos todos dispersos, como no trecho das Escrituras: ‘Fere o pastor e serão dispersas as ovelhas’… Nós perseveraremos até o final em nome de Deus, e com o Coração de Jesus, e imploramos vossas orações e vossa santa benção. ”
O incitamento à renúncia do sacerdócio tomava formas dissimuladas: “Os antigos servidores do culto (sem distinção de religião) que rompessem com a religião e com as organizações religiosas, renunciando por isso mesmo ao seu estado, com a condição de que o fizessem em público no lugar de seu serviço ou pelo jornal do lugar onde exerciam o culto, eram inscritos na Bolsa de Trabalho e registrado na qualidade de desempregados.”
O acusador tinha o cuidado de privar os católicos da glória do martírio, negando-lhes a condenação por religião, pretextando em vez disso [a participação em] uma organização terrorista ligada a país estrangeiro. As vítimas provêm de todos os meios sociais, sobretudo do clero de origem alemã, polonesa e das terciárias regulares dominicanas, mas também de russos de origem que haviam abraçado o catolicismo de rito oriental. Os leigos representavam o maior número. Os prisioneiros eram enviados aos charcos de Pinega, ao Ural do Norte ou do Sul, às estepes do Cazaquistão, às terras insalubres da embocadura do Ob (Obdorsk, atualmente Salekhard), ou ao deserto, infernal no verão, gelado no inverno, da Ásia Central, aos campos de prisioneiros dispersos no Arquipélago do Gulag: dezenas de milhares, reputados como elementos socialmente incômodos, foram assim mortos no esquecimento.
No final dos anos 1930, retornam os assassinatos de padres e leigos. A invasão da Rússia pelas tropas alemães acarretará a ordem de extermínio nos campos de prisioneiros. As mesmas armas de antes são utilizadas: exílio, trabalhos forçados, detenções em regime severo… As religiosas que já haviam sido condenadas tornam a sê-lo. As mais longevas são três religiosas que viveram nas cadeias comunistas por mais de trinta anos. A grande maioria dos 20 ou 30 mil católicos da região de Vladivostok pereceram durante a coletivização dos anos 1930.
2.5. A extensão territorial de 1941
No início de 1941, os territórios anexados contavam, por um lado, com mais de seis milhões de católicos romanos (com 12 dioceses, 1.740 igrejas e 2.300 padres), e por outro, com 3,5 ou 4 milhões de greco-católicos (sendo 2.000 sacerdotes). Em todas as dioceses dos países anexados em 1939-1940, o clero foi detido, os bens eclesiásticos confiscados, as escolas, mosteiros e seminários proibidos, a religião suprimida da educação, e toda publicação religiosa interdita. A guerra obrigará a alguns recuos temporários da parte da URSS, para obter em troca algumas concessões do Ocidente.
2.6. O pós-guerra e a guerra fria
Com a anexação dos Países Bálticos, da Galícia, da Bessarábia e da Transcarpátia, mais de 12 milhões de fiéis ficaram sob as botas soviéticas. A Igreja era vista como um obstáculo maior à sovietização dos povos recém conquistados. Em 1945-1946, os uniatas foram obrigados a se fundirem [com a Igreja Ortodoxa Russa].
Na Lituânia, após a retirada dos alemães, os cinco bispos se tornaram as primeiras vítimas. Em 1945, de um total de 1470 padres, apenas 741 estavam livres, os demais foram deportados para a Sibéria. 400.000 lituanos, 200.000 letões e a mesma quantidade de estonianos foram enviados para a Sibéria, boa parte dos quais era de católicos. Stalin fundou assim uma Cristandade na Sibéria! As prisões voltaram a ocorrer de forma maciça em 1948-1949.
A propaganda recrudesceu após a guerra: a Igreja era acusada de ter se aliado à Alemanha nazista, de ser inimiga dos eslavos, de apoiar o imperialismo, de ser um centro de política reacionária, um bastião do obscurantismo, vil inimiga do comunismo e de estar "à serviço de Wall Street”. No leste europeu, o modelo de perseguição de antes de 1940 foi retomado, sendo adaptado às circunstâncias. Grandes figuras erguiam alto o estandarte católico: os cardeais Wyszinski, August Hlond e Adam Stefan Sapieha,
Na Polônia, o Cardeal Wyszinski aceitou iniciar negociações sobre a nacionalização dos bens para reduzir as pressões. Em junho de 1950, no entanto, acusaram-no de ter violado o acordo de abril de 1950, e os padres foram presos. Em 1953, o governo pretendeu impor a aprovação estatal a todas as decisões eclesiásticas. A tensão só aumentava.
Na Hungria, em 1950, o primaz Dom Joszeph Gröz negociou a submissão durante o encarceramento do Cardeal Mindszenty. Foi tudo em vão, pois as prisões continuaram; ele foi detido em 1951 e condenado a treze anos de prisão. A perseguição se generalizou, com prisões e confiscos. O Pe. Beran, figura anti-nazista de Praga, cabeça da Igreja Católica na Tchecoslováquia, será preso em 1948.
Na Iugoslávia, em 1945, uma onda de perseguições atingiu os padres e bispos. Dom Stepinac foi condenado a dezesseis anos de prisão. O clero em peso foi condenado à prisão ou à morte.
Com o início da ‘desestalinização’, concederam-se alguns alívios: por exemplo, as liberações de 1954-1955. Mais tarde, em 1958, o governo comunista lançou uma campanha violenta contra a religião para erradicá-la de uma vez por todas, e assim foi até 1964. Todas as comunidades tiveram de ser fichadas, os bispos foram banidos, impedidos de cumprir suas obrigações. As prisões acentuaram-se em 1961. Impuseram-se quotas para fixar o número de seminaristas. Por que esse retorno ao passado? Porque a ‘desestalinização’ favoreceu o anti-comunismo que buscavam erradicar.
Concluiremos esta parte com alguns exemplos mais recentes tomados da Lituânia.
2.7. Os católicos lituanos
A Lituânia era um dos países mais católicos da URSS. Enquanto a população era submetida às mesmas perseguições que ocorriam por toda a parte na União Soviética, os católicos se organizaram de maneira clandestina e foram muito ativos. O seu número, a sua unidade e, sobretudo, a sua determinação, permitiu-lhes exercer pressão sobre o governo. O clero e os fiéis não hesitaram em fazer um apostolado ativo e a intervir perante as autoridades, sem temor de represálias. Exerceram uma atividade a um tempo pública e clandestina. Todas as congregações religiosas foram obrigadas à total clandestinidade, assim como os jovens que se preparavam ao sacerdócio. Mas, muitas vezes, os padres viam-se obrigados a exercer um ministério clandestino para completar o seu restrito ministério público. Assim, secretamente, preparavam as crianças para a primeira Comunhão e para o sacramento da Confirmação, visitavam os doentes nos hospitais, pois os padres não tinham o direito de ir até lá… Quando a resistência clandestina é bem organizada, é difícil de ser percebida. Eles chegaram ao ponto de lançar clandestinamente um jornal católico, a “LKB Kronika” (Crônica da Igreja Católica na Lituânia).
Nijolé Sadunaité, uma lituana, foi condenada em 1975 a três anos de trabalhos forçados num campo da Mordóvia, e a três anos de exílio na Sibéria. Ela já estava então há um ano sob a mira da KGB por ter encontrado um advogado para defender o Pe. Antanas Seskevicius, acusado de ter ensinado catecismo a crianças. Um dia, no entanto, denunciada pela vizinha, foi surpreendida pela milícia tcheco-soviética enquanto fazia cópias de um número da “LKB Kronika”, e foi presa. Enquanto sua casa era revistada, Nijolé rezava o terço com uma amiga que lhe visitara. Sua serenidade deixou a polícia pouco a vontade. Seu processo lhe ofereceu uma tribuna para denunciar o sistema de opressão soviética no tocante à religião: ela assinalou, entre outras coisas, a interdição de os moribundos nos hospitais serem assistidos por um padre, mesmo quando pediam, recordou a campanha de difamação lançada contra a Igreja, o Papa, os bispos, os padres e os fiéis. Aos que debochavam da religião, dizia que não se debocha do que não se conhece.
Eis alguns trechos do seu “diário”:
“A tranquilidade da minha consciência importa mais que a liberdade, mais que a própria vida.
“Continuem a promulgar tantas leis quanto quiserem; mas, guardai-as para os senhores mesmos. É preciso distinguir entre o que foi escrito pelo homem, e o que foi pedido por Deus. O tributo a César só pode ser a sobra do tributo devido a Deus.
“A KGB dispõe de todos os meios para quebrar […] suas vítimas […] mas não sabem que a pessoa mais débil, depois de se apoiar em Cristo, torna-se indomável.
“Sofrer por Cristo é o sinal certo de uma predileção especial.”
O Pe. Antanas Seskevicius, condenado muitas vezes por ter ensinado o catecismo às crianças, exortava nos sermões que os fiéis respondessem com caridade e oração às injustiças e ao ódio. Já Nijolé Sadunaité disse: “Eu compreendi que os sofrimentos da prisão, aceitos em favor deles [os soviéticos], terminaria por tocar os seus corações e consciências. Ah, se houvesse mais gente pronta para subir o Gólgota e a morrer por eles!”
3. As forças da Resistência católica
3.1. A unidade da Igreja
A Igreja ortodoxa é uma igreja nacional, portanto ligada ao governo. Ainda que, oficialmente, a separação entre a Igreja e o Estado tenha sido decretada em 1918, o Estado controlava os ortodoxos afastando os líderes incômodos e trocando-os por gente maleável, submissa ao poder.
Isso não era possível com a Igreja Católica, pois os católicos, ao contrário, submetiam-se ao Papa e a Roma. Como a autoridade estava fora do país, ela não podia ser manipulada pelo governo. O Estado não tinha nenhuma ingerência sobre ela. Fora a repressão, nada poderia lesar os católicos. Mesmo se eles fossem afastados da sua autoridade, o Estado não poderia influenciá-los desde dentro, por causa da fidelidade à hierarquia católica. O Estado deveria, então, contentar-se com uma vigilância externa, em que muito lhe escapava.
3.2. O papel da família católica
A família é a célula de base da sociedade, é por ela que se pode transmitir a Fé. Os padres por si sós tinham um campo de ação restrito por serem monitorados. Assim, as famílias católicas constituíram-se em “pequenas igrejas domésticas”, pequenas ilhotas de cristandade no meio de um oceano de ateísmo.
O Estado era capaz de controlar as atividades visíveis dos católicos, mas não conseguia controlar cada família, apesar da veemência com que se dispunha ao combate: “Os fatos mostram que a família é o principal reduto para a preservação do espírito religioso. Não podemos admitir que gente cega e estúpida eduque seus filhos à sua própria imagem e os deformem.” (Illitchev)
Enfim, sentimos muito orgulho de causar tão grande embaraço a quem dispõe de tantos recursos. Mas a força bruta nada pode quando Deus vela por seus filhos. Como tão bem reconhecem os nossos inimigos, é pela família que a Fé se transmite. Os filhos, vendo os pais rezarem e defenderem a Fé, seguem o exemplo. E são os pais os mais capacitados para ensinar o catecismo aos filhos. A família é o meio de transmissão por excelência. Os comunistas que querem se imiscuir na família para construir a sociedade soviética sabem o que fazem. E para esse fim — como cheios de ódio reconhecem — a família cristã é um obstáculo.
Um dos personagens mais importantes da família é a “babuska”, a avó, que vive na família e toma conta dos filhos enquanto os pais estão fora. Ela exerce, portanto, uma influência muito grande sobre os filhos, que lhe pedem para contar as histórias da Bíblia, a vida de Nosso Senhor, e também cantar os cânticos tradicionais. Muitas vezes, os filhos recordarão o que lhes ensinava a “babuska” muito depois dela já ter partido.
3.3 A oração e o apostolado pelo exemplo
Num país onde a “propaganda religiosa” foi proibida, pareceria que todo projeto de apostolado seria impensável. Dado que os católicos deviam viver na semi-clandestinidade, não havia movimentos ou organizações apostólicas. Poderíamos, portanto, pensar que a missão da Igreja estava como que hibernando, aguardando por dias melhores. Não deveria contentar-se em assegurar a sobrevivência dos católicos existentes? Mas uma Igreja não missionária ainda seria católica, ou seja, destinada a se difundir universalmente? Por essa razão, e a despeito das perseguições e das ameaças que sempre pesavam sobre os seus membros, os católicos continuavam a trabalhar pela difusão da Igreja,resultando por vezes num renascimento espiritual do país. Apesar de toda a propaganda, são cada vez mais numerosos os que buscam um sentido para sua vida num mundo onde todas as referências foram suprimidas, e que se voltam para Deus a fim de completar o seu vazio. Surgem até mesmo vocações: ordenam-se padres nos campos de prisioneiros. Qual é a explicação desse desenvolvimento em condições tão desfavoráveis?
Em primeiro lugar, a oração; não apenas a assistência aos ofícios religiosos, quando havia um lugar de culto próximo, mas também o rosário recitado em família. A oração em família é um exemplo para as crianças, que não hesitavam até mesmo em rezar discretamente na escola. Um dia uma professora arrancou o terço das mãos de uma aluna e, arrebentando-o, jogou na lata de lixo. A menina respondeu com altivez: “Tenho dez dedos na mão para substituir as contas do terço, e continuarei a rezar o terço entre as aulas, no meu quarto ou mesmo em viagem…” Crianças pequeninas começavam a rezar e não tinham medo de fazê-lo porque viam os seus pais rezando, e achavam tudo natural. A oração é a arma do combate espiritual, sobretudo no cárcere, onde as condições eram desumanas, e o desespero assaltava as almas. Quantas vezes os católicos, rezando abertamente nas celas, obtiveram a conversão de outros prisioneiros, quando não dos próprios guardas, tocados por esses crentes supostamente perigosos para a segurança do Estado, que os perdoavam e rezavam por eles!
Os “Amigos da Eucaristia” foi uma forma inteiramente clandestina de apostolado de oração, desenvolvido em 1969. Os membros se reuniam em discretas comunidades de oração, mas era sobretudo pelo vínculo interior da oração eucarística e mariana que os membros se “reencontravam” em comunhão. O seu compromisso consistia em meia-hora de adoração eucarística.
A segunda forma de apostolado que jamais poderá ser tirada de um católico é o exemplo. Os católicos eram admirados até mesmo pelos seus inimigos, por causa da vida exemplar que levavam. No seio de uma sociedade completamente decadente, minada pelo alcoolismo, violência, insegurança e toda forma de vício, só os católicos levavam uma vida virtuosa. A cada dia precisavam professar a sua fé em palavras mas sobretudo em atos, para não viverem uma vida hipócrita, ocultando a fé: eles se recusavam a participar das organizações para a juventude, e a ir às conferências, ao passo que iam aos ofícios religiosos… A experiência mostra que a união de católicos intrépidos obrigou muitas vezes as autoridades locais a moderar a sua repressão. Por suas réplicas de bom senso e sua atitude irrepreensível, mas sempre respeitosa com as autoridades, embora manifestassem reprovação, levavam muitas vezes os seus interlocutores a refletirem. Eis o exemplo de um pai de família discutindo com um professor que lhe explicava o mal que a religião fazia às crianças ao lhes impedir o acesso aos estudos superiores: “Não é verdade, a religião não é nociva, respondeu o pai. Agora que a religião é calcada aos pés, as crianças não mais respeitam os professores, fumam, xingam, embriagam-se e vivem uma vida licenciosa. Aí estão os frutos do ateísmo!”
*
Esta síntese sobre a história dos católicos em face do flagelo comunista confirma a triste realidade das palavras do Papa Pio XI acerca da peste negra:
“Lá onde o comunismo pôde se afirmar e dominar (…) ele se esforçou por todos os meios para destruir (e o proclama abertamente) a civilização e a religião cristãs até os seus fundamentos, para apagar toda lembrança dela do coração dos homens, especialmente da juventude. Os bispos e os padres foram banidos, condenados a trabalhos forçados, fuzilados e assassinados de modo desumano; os simples leigos, porque defenderam a religião, tornaram-se suspeitos, foram maltratados, perseguidos e arrastados à prisão e levados aos tribunais.”
“A graça de Deus foi abundante na alma desses discípulos de Cristo, acuados pelos inimigos de Deus. A refinada técnica de que o comunismo se valeu nesse terrível confronto o transformou num dos maiores perigos do século XX: “Dentro da zona de influência bolchevique-comunista, o uso refinadíssimo dos meios técnicos e legais de que o poder arbitrário do governo dispunha, quando desejava destruir a Igreja, deu azo a que as perseguições que ela ali sofreu fossem as piores que já se conheceram. ”
Em complemento à análise desses erros, a atitude constante dos poderes comunistas é a confirmação do antagonismo irredutível entre o catolicismo e o comunismo! Sim, “o comunismo é materialista e anticristão: ainda que os chefes comunistas às vezes declarem por palavras que não atacam a religião, eles se mostram, de fato, seja pela doutrina, seja pelos atos, hostis a Deus, à verdadeira religião, e à Igreja de Cristo”. A Igreja de Cristo não pode capitular jamais: ela “não pensa em abandonar sem luta o terreno ao inimigo declarado, o comunismo ateu. Esse combate se travará até o fim, mas com as armas do Cristo! ”, nos preveniu Pio XII.
(Témoins du Christ, à travers les persécutions du XXe siècle, Éditions du MJCF, Gentilly, 2017, pp. 52-76.)
“Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Evangelho).
Paramentos verdes
Os judeus, submetidos ao império romano, deviam pagar anualmente a César um tributo que lhes era tanto mais odioso quanto lhes feria diretamente o espírito de domínio universal de que Israel acreditava ter recebido a promessa. De maneira que, se Jesus respondesse à pergunta capciosa dos rabinos que deviam pagar o tributo, indispunha o povo contra Ele; se respondesse que não, seria condenado pela autoridade de Roma. Julgavam-se, portanto, de posse dum meio que lhes permitiria prender o Redentor. Jesus, porém, com infinita sabedoria, sem procurar de modo nenhum furtar-se ao astuto dilema, aproveitou a ocasião para nos dar uma lição magnífica dos nossos deveres cívicos e religiosos. De quem é esta imagem e inscrição? Perguntou Ele aos judeus. De César, responderam. À autoridade humana, que governa com o poder que lhe vem de Deus, devem-se os tributos materiais, o acatamento às suas leis justas. A Deus deve-se amor, serviço e adoração, tributados de corpo e alma. Deve-se, de justiça, o culto litúrgico. Somos moeda cunhada por Deus à Sua imagem. E Deus reclama essa moeda como César a sua.
Da Epístola: O dom da perseverança vem de Deus. E o Apóstolo pede-o a Deus para os Filipenses a quem dirigem esta carta, a fim de que, carregados de boas obras, deem glória a Deus e possam esperar confiadamente o Salvador quando pela noite e à maneira de ladrão os vier chamar.
Do Evangelho: Se ainda estamos presos aos bens de César, diz S. Hilário, não nos podemos lamentar da obrigação de lhe dar o que lhe pertence. Mas é necessário dar também a Deus o que Lhe pertence por inteiro, quer dizer, consagrar-Lhe o nosso corpo, a nossa alma e a nossa vontade.
Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.
Gustavo Corção
Nos textos do Concílio Vaticano I que transcrevemos nos últimos artigos -- e mais especialmente aquele que trata da infalibilidade, e da autoridade ensinante da Igreja e do Sumo Pontífice, vimos bem realçado um bom critério, com que se reconhece entre todas a voz da Igreja de Cristo, e com o qual qualquer fiel, pela infalibilidade natural da razão nos seus primeiros princípios e até o nível do senso comum nos mais próximos e evidentes corolários poderá discernir a santa doutrina da "outra", e obedecer ao enérgico conselho do Apóstolo que manda repelir os pregadores de "outro evangelho", sejam eles apóstolos, papas ou anjos (Gl 1, 8).
Este critério é o seguinte: só se reconhece a voz da Igreja, e só se reconhece a autenticidade de seu ensino e portanto o valor benéfico e salvífico de qualquer ato de sua hierarquia, onde a idéia de continuação de uma identidade tiver claro realce, ou pelo menos não for obscurecida e até contrariada pela idéia de uma inovação. Retomemos por exemplo o texto do cap. IV da Sessão IV do Concílio Vaticano I, onde se concentra o condicionamento e a definição da infalibilidade: "Pois, em verdade, aos sucessores de São Pedro não foi prometido o Espírito Santo para que propaguem uma nova doutrina segundo suas próprias revelações MAS PARA QUE COM SUA ASSISTÊNCIA GUARDEM santamente e exponham fielmente a revelação transmitida pelos apóstolos, isto é, o depósito da fé" (op. cit., pág. 492).
Ora, se percorrermos os mais significativos textos conciliares e pós-conciliares observaremos sem dificuldade que a idéia de inovação é obsessiva e define bem o espírito que as guiou.
Antes de exemplificarmos e de tirar consequências, insistamos no valor teológico, metafísico, e de senso comum de nosso critério. De início todos nós sabemos que as coisas criadas estão em constante movimento, sobretudo as coisas corpóreas, e por conseguinte, a mobilidade está mais do lado da matéria, enquanto a imutabilidade está no lado de Deus, no lado do espírito, e até no da forma inteligível das coisas deste inquieto mundo, ou deste "restless universe", como disse Max Born, prêmio Nobel de Física. Psicologicamente segue-se que a atitude de uma alma é tanto mais alta e mais sábia quanto mais procurar as coisas, e idéias imutáveis; e será tanto mais pueril, primitiva ou selvagem quanto mais vivamente se interessar pelas coisas móveis, por tudo que passa e que muda.
Ora, a tragédia de nosso tempo, decorrente de quatro ou cinco séculos de empirismo crescente, está no fato de ter atingido as cúpulas da Igreja o primado da novidade sobre o da perenidade. Creio que qualquer leitor já percebeu que dentro desta atmosfera é difícil falar de Deus, e que tudo convida a falar de evoluções e revoluções. Ou de nada: que é o grande assunto.
Na Sagrada Escritura o termo novo tem um sentido de especial elevação quando se refere ao único necessário, que poderíamos chamar o único novo. Em três livros principais este termo significa a única grande coisa nova na história do mundo, antes da qual o amargo Dom de Ciência dos autores do Eclesiastes diziam: nihil novum sub sole, para marcar a melancólica monotonia de um universo em irresistível processo de envelhecimento.
Em contraste com o desprezo bem assinalado em toda a Sagrada Escritura pelas novidades menores que fazem comichões nos ouvidos e na alma, o termo novo tem uma sonoridade de anúncio do Céu quando o apóstolo grita: -- "Quem está em Cristo é uma nova criatura; o mundo antigo passou, eis que tudo é novo" (2Cor 5, 17). Em Isaías, em previsão do advento do Verbo, lemos: "Eis que eu crio um novo céu e uma nova terra" (Is 65,17); no Apocalipse, sempre com referência à segunda vinda de Cristo: "Vi um novo céu e uma nova terra, porque o primeiro céu e a primeira terra haviam desaparecido" (...) E o que estava sentado no trono disse: "Eis que faço tudo novo" (Ap 21, 1-5).
Não é preciso mais para bem assinalar o transcendente sentido do termo novo, e por isso mesmo, a severidade com que todas as grandes vozes católicas vêem o gosto de novidades nas coisas de Deus e de sua Igreja que vem mais do século e da matéria, do que de Cristo e do espírito.
***
Até aqui já estamos armados de um critério muito firme, e de um sinal muito significativo para demarcar a linha divisória que separa os que querem, a todo preço, guardar a Fé católica até o fim, dos que toleram ou até saboreiam as novidades que mais os prendem ao mundo ou à esteira dos acontecimentos do que à Cruz de Nosso Senhor. Em tempos tranquilos, ou relativamente estáveis que eu ainda alcancei nos dias em que a infinita misericórdia de Deus me devolveu a graça e os dons de meu batismo, dispúnhamos de sinais mais claros para discernir a voz da Igreja, sua doutrina, seus mandamentos e, para resistir às seduções do vozerio do mundo, tínhamos o critério tradicional da autoridade suprema da Igreja: "ubi Petri, ibi Ecclesia".
Quando porém o próprio papado se divide, como ocorreu nos tempos do grande cisma do Ocidente, ou quando o vértice da Igreja é atingido pelas tempestades do século, Deus não abandona seu povo aos caprichos de pastores desencaminhados, e com graças especiais guardará as almas que se prendem à santa doutrina tradicional, imutável, que foi assinada com o Sangue de nosso Salvador. Pela prática da oração, da meditação e da boa leitura teremos a alma dotada de fino ouvido para logo nos livrar dos primeiros pruridos do amor próprio, dos sopros do demônio, ou da propaganda do mundo. Esta é a idéia principal de nossa modesta contribuição de hoje. E agora ilustramos a teoria com um exemplo.
***
Temos aqui neste livro, Nuevas Normas de la Missa, editado pela B.A.C. em texto bilingue, Madrid, 1970, uma Constituição Apostólica assinada pelo Sumo Pontífice, que começa a apresentação do Novo Missal por esta referência àquele promulgado por São Pio V, que até poucos anos atrás era para nós a joia, o livro principal de nossa missa quotidiana. Começa assim a Constituição Apostólica: "O Missal Romano promulgado em 1570 por Nosso Predecessor São Pio V em continuidade com os decretos do Concílio de Trento, sempre foi considerado como um dos numerosos e admiráveis frutos que aquele Sacrossanto Concílio disseminou por toda a Igreja de Cristo. E durante 4 séculos (1570/1970) constituiu a norma da Celebração do Sacrifício Eucarístico para os sacerdotes de rito latino, e foi levado a quase todas as nações do mundo pelos arautos do Evangelho. Nem se deve esquecer que inumeráveis santos alimentaram a piedade e o amor de Deus com as leituras bíblicas e as orações do Missal cuja disposição geral remontava, no essencial, a São Gregório Magno...”
Neste ponto da leitura, minha filha parou, e com ar de admiração, perguntou-me:
-- Mas então por que é que substituíram essa joia por outro missal? Qual foi a razão principal alegada?
Na continuação da leitura veremos que foi alegada a conveniência de acomodar o novo missal à “mentalidade contemporânea”.
-- Hein? E o que é que se entende por “mentalidade contemporânea”?
-- Páginas adiante, 17 e seguintes, a mesma Constituição Apostólica nos dá amostra desse modelo a que se deveriam acomodar as normas do Sacrifício Eucarístico: “... vivamente confiamos que a NOVA ordenação do Missal permitirá a todos, sacerdotes e fiéis, preparar seus corações à Celebração da Ceia do Senhor com RENOVADO (?) espírito religioso e ao mesmo tempo sustentados por uma meditação mais profunda das Sagradas Escrituras (...). E nesta REVISÃO do Missal Romano, além das MUDANÇAS trazidas às três partes, à Oração Eucarística, ao Ordinário da Missa e ao Lecionário, outras seções foram também REVISADAS. Uma atenção particular se dedicou às orações (...) de modo que às NOVAS necessidades correspondam FÓRMULAS NOVAS...”
Com a palavra e o critério escolhidos por nós para esta análise, já sentimos o timbre de uma língua diferente daquela empregada por Pio IX, nos textos do Concílio Vaticano I. Cada vez mais brutalmente se configura diante de nossa consciência boquiaberta, o que já chamamos de tenebrosa evidência.
(19/8/76)
CARTA ENCÍCLICA
SUPREMI APOSTOLATUS OFFICIO
DE SUA SANTIDADE
PAPA LEÃO XIII
A TODOS OS NOSSOS VENERÁVEIS
IRMÃOS, OS PATRIARCAS,
PRIMAZES, ARCEBISPOS
E BISPOS DO ORBE CATÓLICO,
EM GRAÇA E COMUNHÃO
COM A SÉ APOSTÓLICA
SOBRE O ROSÁRIO DE NOSSA SENHORA
Veneráveis Irmãos,
Saúde e Bênção Apostólica.
O auxílio de Maria nos males presentes da Igreja
1. O ofício do Sumo Pontificado, que Nós exercemos, e a dificílima condição dos tempos presentes, cada dia mais nos induzem e como que nos impelem a prover com tanto maior solicitude à tutela e à incolumidade da Igreja, quanto mais graves são as suas provações. Por isto, enquanto, com todas as forças, nos aplicamos a salvaguardar por todos os modos os direitos da Igreja, e a prevenir e afastar os perigos que ou estão iminentes ou já a rondam, sem trégua nos aplicamos a invocar os celestes auxílios, persuadidos de que só com estes a Nossa obra è as Nossas solicitudes poderão conseguir o êxito desejado.
2. Para este fim, nada consideramos mais eficaz e mais poderoso do que tornar-nos propícia, pela devoção e pela piedade, a grande Mãe de Deus, a Virgem Maria. De fato, mediadora, junto a Deus, da nossa paz, e dispensadora das graças celestes, ela está sentada no Céu no mais alto trono de poder e de glória, para conceder o auxílio do seu patrocínio aos homens, que, entre tantas penas e tantas lutas, fadigosamente caminham para a eterna pátria.
Portanto, estando já agora próxima a anual solenidade destinada a receber os inúmeros e assinalados benefícios concedidos ao povo cristão por meio do santo Rosário de Maria, queremos que, este ano, todo o orbe católico com particular devoção dirija à Virgem Maria a mesma piedosa oração, a fim de que, pela sua intercessão, possamos ter a alegria de ver seu Filho aplacado e movido a compaixão das nossas misérias.
Por tal motivo, julgamos bem, ó Veneráveis Irmãos, dirigir-vos esta Carta, para que, conhecidas as Nossas intenções, possais, com a vossa autoridade e com o vosso zelo, estimular a piedade dos fiéis a corresponder-vos diligentemente.
Poder e bondade de Maria
3. Nos momentos de apreensão e de incerteza, foi sempre o primeiro e sagrado pensamento dos católicos o de recorrerem a Maria, e de se refugiarem na sua maternal bondade. E isto demonstra a firmíssima esperança, antes a plena confiança, que a Igreja Católica com toda razão sempre depositou na Mãe de Deus. De fato, a Virgem Imaculada, escolhida para ser Mãe de Deus, e por isto mesmo feita Co-Redentora do gênero humano, goza junto a seu Filho de um poder e de uma graça tão grande, que nenhuma criatura, nem humana nem angélica, jamais pôde nem jamais poderá atingir uma maior. E, visto como a alegria mais grata para ela é a de ajudar e consolar todo fiel em particular que invoque o seu socorro, não pode haver dúvida de que ela muito mais prazeirosamente deseje acolher, antes, que exulte em acolher, os votos da Igreja toda.
Intervenções de Maria na história de Igreja
4. Mas esta ardente e confiante piedade para com a augusta Rainha do Céu foi posta em mais clara luz quando a violência dos erros largamente difundidos, ou a transbordante corrupção dos costumes, ou o assalto de inimigos poderosos, pareceram pôr em perigo a Igreja militante de Deus.
5. As memórias antigas e modernas e os sagrados fastos da Igreja relembram, de uma parte, as súplicas públicas e particulares e os votos elevados à divina Mãe, e, de outra parte, os auxílios por meio dela obtidos, e a tranqüilidade e a paz pelo Céu concedidas. Daí tiveram origem esses títulos insignes com que os povos católicos a saudaram: Auxiliadora dos cristãos, Socorredora e Consoladora, Dominadora das guerras, Senhora das vitórias, Pacificadora. Entre os quais é principalmente digno de menção o titulo, tão solene, do Rosário, que consagra à imortalidade os seus assinalados benefícios em favor da inteira Família cristã.
6. Nenhum de vós, ó Veneráveis Irmãos, ignora quantas dores e quantas lágrimas, no fim do século XII, proporcionaram à santa Igreja de Deus os hereges Albigenses, que, nascidos da seita dos últimos Maniqueus, haviam infectado de perniciosos erros a França meridional e outras regiões do mundo latino. Espalhando em torno de si o terror das armas, eles tramavam estender o seu domínio pelos morticínios e pelas ruínas. Contra esses péssimos inimigos Deus misericordioso suscitou, como vos é bem conhecido, um homem virtuosíssimo: o ínclito padre fundador da Ordem dominicana. Insigne pela integridade da doutrina, por exemplos de virtude e pelos seus labores apostólicos, ele se preparou com intrépida coragem para travar as batalhas da Igreja Católica, confiando não na força das armas, mas sobretudo na daquela oração que ele, por primeiro, introduziu sob o nome do santo Rosário, e que, ou diretamente ou por meio dos seus discípulos, depois divulgou por toda parte.
Visto como, por inspiração ou por impulso divino, ele bem sabia que, com o auxílio desta oração, poderoso instrumento de guerra, os fiéis poderiam vencer e desbaratar os inimigos, e forçá-los a cessar a sua ímpia e estulta audácia. E é sabido que os acontecimentos deram razão à previsão. De feito, desde quando tal forma de oração ensinada por S. Domingos, foi abraçada e devidamente praticada pelo povo cristão, de um lado começaram a revigorar-se a piedade, a fé e a concórdia, e, de outro, foram por toda parte quebradas as manobras e as insídias dos hereges. Além disto, muitíssimos errantes foram reconduzidos à trilha da salvação, e a loucura dos ímpios foi esmagada por aquelas armas que os católicos haviam empunhado para reprimir a violência.
7. A eficácia e o poder da mesma oração foi, depois experimentada também no século XVI, quando as imponentes forças dos Turcos ameaçavam impor a quase toda a Europa o jugo da superstição da barbárie. Nessa circunstância, o Pontífice S. Pio V, depois de estimular os soberanos cristãos à defesa de uma causa que era a causa de todos, dirigiu todo o seu zelo a obter que a poderosíssima Mãe de Deus, invocada por meio do santo Rosário, viesse em auxílio do povo cristão. E a resposta foi o maravilhoso espetáculo então oferecido ao Céu e à terra; espetáculo que empolgou as mentes e os corações de todos!
Com efeito, de um lado os fiéis, prontos a dar a vida e a derramar o sangue pela incolumidade da religião e da pátria, junto ao golfo de Corinto esperavam impávidos o inimigo; de outro lado, homens inermes, com piedosa e suplicante falange, invocavam Maria, e com a fórmula do santo Rosário repetidamente a saudavam, a fim de que assistisse os combatentes até à vitória. E Nossa Senhora, movida por aquelas preces, os assistiu: porquanto, havendo a frota dos cristãos travado batalha perto de Lepanto, sem graves perdas dos seus desbaratou e matou os inimigos, e alcançou uma esplêndida vitória. Por este motivo o santo Pontífice, para perpetuar a lembrança da graça obtida, decretou que o dia aniversário daquela grande batalha fosse considerado festivo com honra da Virgem das Vitórias; festa que depois Gregório XIII consagrou sob o título do Rosário.
8. Igualmente são conhecidas as vitórias alcançadas sobre as forças dos Turcos, durante o século passado, primeiramente perto de Timisoara, na Rumania, depois perto da ilha de Corfu: com dois dias dedicados à grande Virgem, e após muitas preces a ela elevadas sob a forma do Rosário. Esta foi a razão que levou o Nosso Predecessor Clemente XI a estabelecer que, com prova de gratidão, a Igreja toda celebrasse cada ano a solenidade do santo Rosário.
Louvores do Rosário
9. Portanto, visto que os fatos demonstram o quanto esta oração é agradável à Virgem, e o quanto é eficaz na defesa da Igreja e do povo cristão, em alcançar os divinos favores para os simples indivíduos e para a sociedade inteira, não há-de causar nenhuma admiração que também outros Nossos Predecessores, com palavras de fervoroso encômio, se hajam aplicado a incrementá-la.
Assim Urbano IV afirmou que "cada dia o povo cristão recebe novas graças por meio do Rosário"; Sixto IV proclamou que esta forma de oração "é oportuna, não só para promover a honra de Deus e da Virgem, mas também para afastar os perigos que o mundo nos prepara"; Leão X disse-a "instituída contra os heresiarcas e contra o serpear das heresias"; e Júlio III chamou-lhe "ornamento da Igreja de Roma". Igualmente Pio V, falando desta oração, disse que, "ao difundir-se ela, os fiéis, inflamados por aquelas meditações e afervorados por aquelas preces, começaram de repente a transformar-se com outros homens; as trevas das heresias começaram dissipar-se, e mais clara começou a manifestar-se a luz da fé católica". Finalmente, Gregório XIII declarou que "o Rosário foi instituído por S. Domingos para aplacar a ira de Deus e para obter a intercessão da bem-aventurada Virgem".
O Rosário e os males dos tempos presentes
10. Movido por estas considerações e pelos exemplos dos Nossos Predecessores, julgamos assaz oportuno, nas presentes circunstâncias, ordenar solenes preces a fim de que a Virgem augusta, invocada por meio do santo Rosário, nos impetre de Jesus Cristo, seu Filho, auxílios iguais às necessidades.
11. Bem vedes, ó Veneráveis Irmãos, as incessantes e graves lutas que trabalham a Igreja. Vedes que a moralidade pública e a própria fé - o maior dos bens e o fundamento de todas as outras virtudes estão expostas a perigos sempre mais graves. Assim também vós não só conheceis a Nossa difícil situação e as Nossas múltiplas angústias, mas, pela caridade que a Nós tão estreitamente vos une, as sofreis juntamente conosco.
Porém o fato mais doloroso e mais triste de todos é que tantas almas, remidas pelo sangue de Cristo, como que arrebatadas pelo turbilhão desta época transviada, vão-se precipitando numa conduta sempre mais depravada, e se abismam na eterna ruína; por isto a necessidade do divino auxílio certamente não é menor hoje do que a que era sentida quando o grande Domingos, para curar as feridas da sociedade, introduziu a prática do Rosário mariano. Iluminado do alto, ele viu claramente que para os males do seu tempo não havia remédio mais eficaz do que reconduzir os homens a Cristo, que é "caminho, verdade e vida", mediante a freqüente meditação da Redenção por Ele operada; e interpor junto a Deus a intercessão dessa Virgem a quem foi concedido "aniquilar todas as heresias".
Por este motivo ele dispôs a prática do Rosário de modo que fossem sucessivamente recordados os mistérios da nossa salvação, e a este dever da meditação se entremeasse como que uma mística coroa de saudações angélicas, intercaladas pela oração a Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nós, pois, que andamos procurando um igual remédio para não diversos males, não duvidamos de que a mesma oração, pelo santo Patriarca introduzida com tão notável vantagem para o mundo católico, tornar-se-á eficacíssima para aliviar também as calamidades dos nossos tempos.
12. Portanto, em consideração destas razões, não somente exortamos calorosamente todos os cristãos a praticarem, sem se cansar, o piedoso exercício do Rosário, publicamente, ou em particular, nas suas casas e famílias, mas também queremos que todo o mês de Outubro do ano em curso seja consagrado e dedicado à celeste Rainha do Rosário.
Prescrições e privilégios para o mês de outubro
13. Estabelecemos, pois, e ordenamos que, em todo o mundo católico, a solenidade de Nossa Senhora do Rosário seja este ano celebrada com particular devoção e com esplendor de culto. Ordenamos, além disso, que, do dia primeiro de Outubro ao dia dois do seguinte mês de Novembro, em todas as igrejas paroquiais, e, se os Ordinários o julgarem vantajoso e conveniente, também nas outras igrejas e nas capelas dedicadas à Mãe de Deus, se recitem devotamente ao menos cinco dezenas do Rosário, com o acréscimo das Ladainhas Lauretanas. Depois, desejamos que, quando o povo se reunir para tais orações, ou se ofereça o santo Sacrifício da Missa, ou se exponha solenemente o SS. Sacramento, e no fim se dê aos presentes a Bênção com a Hóstia sacrossanta.
14. Vivamente aprovamos que as Confrarias do Rosário, seguindo uma antiga tradição, façam solenes procissões pelas ruas da cidade, em pública demonstração da sua fé. Mas onde, pela adversidade dos tempos, isto não for possível, não duvidamos de que tudo quanto por este lado for subtraído ao culto público será compensado por uma concorrência mais numerosa nas igrejas; e que o fervor da piedade se manifestará por uma prática mais diligente das virtudes cristãs. Em favor, pois, daqueles que executarem tudo quanto mais acima dispusemos, abrimos de bom grado os celestes tesouros da Igreja, a fim de que achem neles o estímulo e ao mesmo tempo o prêmio da devoção.
Por isto, àqueles que, dentro do tempo estabelecido, participarem da pública recitação do Rosário com as Ladainhas, e orarem segundo a Nossa intenção, concedemos, para cada vez, a Indulgência de sete anos e de sete quarentenas: Queremos, igualmente, que de tal benefício possam fruir aqueles que, impedidos por legítima causa de praticar em público o piedoso exercício, o praticarem em particular, e orarem também segundo a Nossa intenção.
15. Depois, àqueles que, dentro do sobredito tempo, ao menos por dez vezes cumprirem a mesma prática, ou em público nas igrejas ou, por justos motivos, nas suas casas, concedemos a Indulgência plenária, desde que à piedosa prática juntem a Confissão e a Comunhão.
16. Esta Indulgência plenária das suas culpas concedemo-la também a todos os que, na mesma solenidade da bem-aventurada Virgem do Rosário ou num dos oito dias seguintes, igualmente se aproximarem do tribunal da Penitência e da Mesa do Senhor, e em alguma igreja rezarem, segundo a Nossa intenção, pelas necessidades da santa Igreja.
Esperanças do Sumo Pontífice
17. Eia, pois, Veneráveis Irmãos: pelo zelo que tendes da honra de Maria e da salvação da sociedade humana, esforçai-vos por alimentar a devoção e por aumentar a confiança do povo para com a grande Virgem. Nós pensamos seja de atribuir-se a divino favor o fato de, mesmo em momentos tão procelosos para a Igreja como estes, haver-se mantido sólida e florescente, na maior parte do povo cristão, a antiga veneração e piedade para com a Virgem augusta. Mas agora esperamos que, incitados por estas Nossas exortações e inflamados pelas vossas palavras, os fiéis se hão de colocar com sempre mais ardente entusiasmo sob a proteção e assistência de Maria, e continuarão a amar com crescente fervor a prática do Rosário, que nossos pais costumavam considerar não só como um poderoso auxílio nas calamidades, mas também como um distintivo honorifico da piedade cristã. A celeste Padroeira do gênero humano acolherá benigna as humildes e unânimes preces que lhe dirigirmos, e, complacente, obter-nos-á que os bons se revigorem na prática da virtude; que os desviados caiam em si e se emendem; e que Deus, justo vingador das culpas, dobrando a misericordiosa clemência, afaste os perigos, e restitua ao povo cristão e à sociedade a tão desejada tranqüilidade.
18. Confortados por esta esperança, com os mais ardentes votos do Nosso coração rogamos vivamente a Deus, pela intercessão d'Aquela em quem Ele depositou a plenitude de todos os bens, que vos conceda a vós, Veneráveis Irmãos, as mais escolhidas e mais abundantes graças celestes, das quais é auspício e penhor a Bênção Apostólica, que de coração concedemos a vós, ao vosso clero e aos povos confiados aos vossos cuidados.
Dado em Roma, junto de S. Pedro, a 1 de Setembro de 1883, sexto ano do Nosso Pontificado.
LEÃO PP. XIII
“Santa Espanha, na extremidade da Europa concentração de Fé,
quadrado e massa dura, e da Virgem Mãe trincheira,
Última parada de Santiago, que só onde a terra acaba se refreia,
Pátria de Domingo e de João, de Francisco o Conquistador e de Teresa,
Arsenal de Salamanca, pilar de Zaragoza, raiz ardente de Manresa,
Inquebrantável Espanha, recusa perpétua do meio-termo…”
Quem mais do que a Espanha, com efeito, deu à cristandade filhos corajosos e filhas ardorosas? Quem como Espanha resistiu a sete séculos de pressões do islã? Quem dobrou o espaço geográfico da civilização e da cristandade pela descoberta do Novo Mundo?
Em 1930, a Espanha contabilizava 20.000 monges, 60.000 religiosas, 31.000 padres para vinte e três milhões de habitantes. As escolas católicas escolarizavam 600.000 crianças. As instituições científicas católicas financiavam vastos setores da ciência espanhola, notadamente em história, matemática e astronomia. Era impossível falar de cultura na Catalunha sem citar as organizações intelectuais dos jesuítas, capuchinhos e beneditinos de Montserrat. Fiel à sua história, a Espanha entregou à cristandade muitos mártires e exemplos de heroísmo durante a guerra civil de 1936 e os eventos que a precederam. Eis os fatos.
1. O desencadeamento da Guerra Espanhola.
Após um atentado em Paris contra o Rei de Espanha Alfonso XIII, um alto dignatário maçom lhe propôs a posse tranquila de seu trono caso se afiliasse à seita. “Antes de ser rei, sou católico”, respondeu indignado o monarca. Dois anos mais tarde, em 30 de maio de 1919, acompanhado de seus homens de governo, consagrou a nação espanhola ao Sagrado Coração de Jesus, em ação de graças por ter sido preservada da Primeira Guerra Mundial, de 1914-1918. Assim ele assinou o seu ato de condenação.
Nas eleições municipais de 1931, elegeram-se 21.150 vereadores monarquistas contra 5.875 republicanos, mas 41 das 50 capitais de província votaram a favor dos republicanos. O rei, não querendo uma guerra civil, partiu em exílio como se a Espanha rural, largamente majoritária, não contasse. No dia 14 de abril, a república foi proclamada e reconhecida pelos governos maçônicos do mundo inteiro.
Desde o início do novo regime, o Comitê Revolucionário se tornou o governo provisório. Ele compreendia republicanos conservadores, liberais, socialistas, nacionalistas-regionalistas, e se beneficiava do apoio tácito dos partidos mais à esquerda. A hierarquia da Igreja aconselhava obediência às novas instituições, uma vez que o governo prometera uma “Igreja livre num Estado livre”, no entanto ela via com desconfiança a chegada ao poder de políticos que eram, em sua maioria, maçons e anticlericais.
O cardeal Segura, arcebispo de Toledo e primaz de Espanha, lançou um grito de alerta numa carta pastoral:
“Se nos mantivermos tranqüilos e negligentes, se permitirmos que a apatia e a timidez tome conta de nós, se deixarmos as portas abertas àqueles que procuram destruir nossa religião, ou se esperarmos que o triunfo de nossas convicções seja assegurado pela benevolência do inimigo, então não teremos mais direito de lamentar quando a amarga realidade nos fizer compreender claramente que a vitória esteve ao alcance de nossas mãos, mas que não soubemos combater como guerreiros intrépidos preparados para morrer gloriosamente.”
Os acontecimentos lhe deram razão!
No dia 9 de dezembro de 1931, por atos oficiais do governo, teve início uma verdadeira perseguição religiosa. A nova constituição proclamou a separação entre a Igreja e o Estado, a autonomia regional para a Catalunha e o País Basco, a introdução do matrimônio civil. Muitas leis e decretos entraram em vigor por mera aplicação da Constituição; a Companhia de Jesus foi dissolvida e seus bens foram confiscados. As instituições religiosa não poderiam mais exercer nem o comércio, nem a indústria, nem a agricultura, nem o ensino. Igrejas, capelas, imóveis e mobiliário foram nacionalizados. “O local ou os locais até o presente consagrados ao culto serão convertidos em armazéns coletivos, mercados públicos, bibliotecas populares, casas de banho ou de higiene pública etc. conforme as necessidades de cada cidade”, enunciava a liga atéia no programa de um dos comitês provinciais.
De 1931 a 1933 multiplicam-se os atentados contra as pessoas (300 mortos e 2000 feridos em um ano), enquanto ocorriam greves, incêndios de igrejas e de conventos, e perseguição religiosa. O povo espanhol reagiu a essa apostasia das leis republicanas nas eleições de dezembro de 1933, que marcaram a derrota completa dos revolucionários e o triunfo dos católicos que Gil Robles havia reunido numa poderosa federação (CEDA).
Mas a política de moderação, de liberalismo e de reformas sociais do novo governo permitiu que as “esquerdas" fragmentadas se reagrupassem e se armassem: o governo perseguiu e aprisionou os anarquistas, mas deixou livre os comunistas e socialistas que, após um breve período de censura, reabriram seus centros de propaganda em maio de 1935 para começar a reconquistar o terreno e preparar o retorno ao poder. Lançando mão de métodos comunistas, Largo Caballero, o “Lenin espanhol” conseguiu, com efeito, reunir todas as forças da Revolução, que totalizavam mais de um milhão de homens em setembro de 1934. No final do ano, um cargueiro soviético desembarcou nas Astúrias trazendo 70 caixas com armas e munições. Em outubro de 1934, Madri, Oviedo, Barcelona se rebelaram ao mesmo tempo. No País Basco e na Catalunha o movimento assumiu feições separatistas. Durante dez dias, os rebeldes produziram violências inacreditáveis: incêndios, pilhagens, assassinatos (2.000 a 3.000 mortes ao todo).
Nas eleições de 16 de fevereiro de 1936, os partidos da ordem obtiveram no total do país 200.000 votos a mais do que a Frente Popular (coligação de republicanos, socialistas, comunistas e sindicalistas). Essa última, devido ao recorte bizarro de circunscrições e às fraudes nos boletins de votos, verificadas em muitos lugares, conseguiu eleger alguns candidatos a mais. Desse modo, as Cortes puderam ser formadas com maioria da Frente Popular, cujo primeiro gesto foi a abrir as prisões. Condenados de direito comum eram liberados e armados enquanto a guarda civil e o exército eram desestruturados por meio da destituição dos chefes. No campo, trabalhava-se ativamente para manter e aumentar a miséria dos pequenos negócios de que a classe média vivia, a fim de estimular a miséria e o ódio que fornecem à propaganda revolucionária um terreno promissor.
Desencadeou-se uma campanha de perseguição religiosa que superou as anteriores em amplitude e crueldade. De fevereiro a julho de 1936, 411 igrejas foram destruídas ou profanadas e cerca de 3.000 atentados de natureza política e social foram cometidos.
Em 18 de julho de 1936, o levante do general Franco marcou o início da contrarrevolução e da guerra civil espanhola, que deixaria 600.000 mortos e cujas operações militares durariam 32 meses. Após a queda de Barcelona, as tropas franquistas vitoriosas expeliram as forças republicanas para a França e entraram em Madri em fevereiro de 1939.
1.1 A Espanha vermelha
O primeiro disparo da guerra civil ocorreu no dia 13 de julho de 1936, por volta das 4 da manhã, quando as forças marxistas de Madri assassinaram o deputado monarquista Calvo Sotelo. Dois dias antes ele havia pronunciado nas Cortes uma acusação tão esmagadora contra a Revolução e seus males que a deputada comunista Dolores Ibaruri não se conteve e gritou: “Esse homem falou pela última vez.” O assassinato de Calvo Sotelo, executado pelos revolucionários e decidido pela maçonaria, é um exemplo do que seguirá. O Pe. Turquet, que Léon de Poncins definiu como “provavelmente o maior conhecedor espanhol de questões maçônicas” revelara que uma condenação fora levada a Madri por Augusto Barcia, “grão-mestre do supremo conselho maçônico” e ministro dos assuntos estrangeiros da Frente Popular.
A revista secreta da maçonaria, Chaîne de l’Union, declarou que o objetivo perseguido na Espanha, após a supressão da monarquia que entravava o caminho dos maçons, “era de fazer desaparecer para sempre o pernicioso poder clerical romano” . A perseguição religiosa foi inspirada pela maçonaria que, por ódio à religião, preparava os caminhos para Moscou.
1.2. Infiltração anarquista e marxista na Espanha
Ao longo do segundo terço do século XIX, as idéias comunistas e anarquistas penetraram a Espanha. Por volta de 1870, a Internacional contava já com mais de 80.000 afiliados. No final do século, Barcelona havia se tornado uma das capitais mundiais do anarquismo. Nos tempos da monarquia, os revolucionários amavam repetir que não haveria paz nem justiça para os povos até que o último monarca fosse enforcado nas tripas do último monge em praça pública.
Os anarquistas atuavam apenas no domínio dos sindicatos trabalhistas. Eles detestavam a política e não intervinham nas eleições. Apesar dos atentados terroristas que promoviam, eram considerados então como incapazes de causar uma perturbação social das massas. Mas, ao se apoderarem de organizações trabalhistas e ao consolidar sua influência por meio da violência terrorista, botaram as mãos na alavanca que lhes permitiu chegar ao poder. Em 1931, a Espanha abrigava cerca de um milhão de anarquistas ligados à CNT (Confederação Nacional do Trabalho). Esta organização sindical era dominada pela FAI (Federação Anarquista Ibérica) que abrangia cerca de 10.000 membros militantes, verdadeiros profissionais da desordem, que tomaram a iniciativa de incendiar igrejas e conventos, praticar assassinatos, estupros, somados a crueldades totalmente inéditas.
As primeiras infiltrações comunistas na Espanha começaram com o estabelecimento de uma seção ibérica do partido comunista em 1920. A contar dessa data, os comunistas absorveram todas as demais correntes revolucionárias em razão da maior capacidade de organização metódica. Em 1932, infiltraram maciçamente a UGT (União Geral dos Trabalhadores, socialistas nas mãos da maçonaria) e conseguiram fundar a CGTU (Confederação Geral do Trabalho Unitário). A partir dessa data, apesar da superioridade numérica dos anarquistas, são os comunistas que utilizam meios brutalmente autocráticos, que levaram à conquista do território espanhol.
A revolução comunista foi dirigida, organizada e financiada pelo Kominterm com somas exorbitantes. A Rússia remeteu para a Espanha setenta e nove agitadores profissionais bem como 70 caixas de armas e munições, enquanto a Comissão Nacional de unificação marxista organizava a formação de milícias revolucionárias em todas as cidades espanholas.
Em 16 de maio de 1936, o representante da URSS se reuniu com os delegados espanhóis da 3a. Internacional na Casa del Pueblo, em Valência. Eles decidiram “incumbir um dos setores de Madri de eliminar as personalidades políticas e militares que poderiam vir a desempenhar um papel importante na contrarrevolução.” Para esse fim, estabeleceram “listas negras” nas quais os bispos e os padres figuravam em primeiro lugar. “Durante esse tempo, desde Madri até as aldeias mais remotas, as milícias revolucionárias recebiam instruções militares e eram copiosamente armadas, ao ponto de contar com 150.000 soldados de assalto e 100.000 soldados de resistência no início da guerra.”
“O núcleo dessa brigada (as Brigadas Internacionais que vieram em ajuda dos republicanos contavam com 60.000 homens) se constituía de quinhentos ou seiscentos enviados da Rússia", escreveu Krivitsky. "Em todos países estrangeiros, Reino Unido inclusive, o recrutamento para as brigadas era organizado pelos partidos comunistas locais e suas filiais. Entre eles havia informantes para caçar espiões, eliminar homens cuja opinião política não fosse estritamente ortodoxa, vigiar as leituras e conversas. Com efeito, todos os comissários políticos das Brigadas internacionais e, mais tarde, da maior parte do exército republicano, eram comunistas a toda prova. ”
Sem dúvida, muitos dos atos condenáveis foram responsabilidade de grupos que agiam por conta própria no meio da impunidade geral. No entanto, muitos outros atos foram fruto do planejamento das organizações comunistas, socialistas e anarquistas, que possuíam sua polícia, seus tribunais e suas prisões, e puseram em prática os métodos mais avançados, inspirados pelos agentes de segurança soviéticos. Notadamente, desde o motim, em toda a zona governamental, multiplicam-se as “Tchekas”. Em Madri, era possível enumerar mais de 200, logo suplantadas pelo SIM (Servicio de Información Militar), cujos procedimentos se assemelham aos do GPU e do NKVD. A tortura era aí organizada conforme os princípios médico-científicos. As sevícias seguiam uma gradação ardilosa: privação do sono, confinamento em prisões tão diminutas que a vítima não podia ficar de pé nem sentada, leito inclinado de forma que o prisioneiro caia imediatamente ao dormir.
A Rússia se imiscuiu nas forças governamentais, penetrou no seu comando e, mesmo conservando o governo da Frente Popular, trabalhou para a instauração do regime comunista por meio da derrubada da ordem estabelecida. "A obra destruidora se realizou aos gritos de ‘Viva a Rússia’, à sombra da bandeira da internacional comunista.”
1.3 As razões religiosas da oposição
Evocamos acima as razões dessa oposição entre o comunismo e a Igreja Católica. Esse conflito pertence a esse quadro. “A guerra espanhola se reduz ao choque entre o espiritualismo, cujo campeão mais firme era a religião, e o materialismo, cujo defensor mais enérgico era o comunismo ateu.”
Os dirigentes revolucionários não se escondem. Em Moscou se realizou o congresso dos ateus, do qual participam 1.600 delegados pertencentes a 46 nações. Seu fim era recolher informações sobre os progressos realizados entre as nações no que se refere à destruição da crença em Deus. Jesús Hernández, ministro do governo espanhol de Largo Caballero, enviou a esse congresso o seguinte telegrama: “Vossa luta contra a religião é também a nossa luta. É nosso dever fazer da Espanha uma terra de ateus militantes. A luta será difícil, pois neste país as massas reacionárias são numerosas e se recusam absolutamente a aceitar a cultura soviética. Nós transformaremos todas as escolas da Espanha em escolas comunistas.”
Largo Caballero, líder comunista, bradava: “Não deixaremos pedra sobre pedra nesta Espanha. Temos de refazê-la nossa.” Este é bem o slogan satânico da revolução: destruir tudo, voltar à estaca zero para reconstruir o mundo ex nihilo. Ainda mais claro é este discurso da deputada Margarita Nelken: “Nós queremos uma revolução, mas a revolução russa não pode nos servir de modelo, pois temos necessidade de chamas gigantescas que possam ser vistas por todo o planeta, e vagas de sangue que tornem o oceano vermelho.” Mesmo o quotidiano de Barcelona “Solidaridad Obrera” escrevia em 26 de julho de 1936: “Não há muitas igrejas e conventos ainda de pé; mas, com muito custo, apenas duzentos padres e monges foram postos fora de circulação. A hidra religiosa não está morta. Convém levar isso em conta e não perder de vista essa realidade em face dos nossos próximos objetivos.”
Não eram apenas bravatas. A destruição dos lugares de culto ou ao menos do seu mobiliário foi sistemática e contínua. No curto intervalo de um mês, todas as igrejas tornaram-se inúteis ao culto, enquanto os padres eram mortos sem processo, no mais das vezes à queima-roupa: as igrejas eram incendiadas por serem casa de Deus, e os padres eram sacrificados por serem ministros de Deus.
“Contamos os mártires aos milhares. […]
"O ódio a Jesus Cristo e a Virgem Maria chegou ao cúmulo, e nas centenas de crucifixos apunhalados, nas imagens da Virgem bestialmente profanadas, nos pasquins de Bilbao em que se blasfemava sacrilegamente da Mãe de Deus, na infame literatura das trincheiras vermelhas em que se ridicularizam os divinos mistérios, na reiterada profanação das imagens sagradas, podemos adivinhar o ódio do inferno, encarnado em nossos infelizes comunistas.”
2. A Espanha católica
2.1. O alcance da destruição
É impossível, em toda a Espanha, separar a história da fé católica da história da criação artística. Durante séculos, essas duas histórias se confundiram. Ao desejo de acabar com esses monumentos por conta do seu caráter religioso juntou-se o desejo de sumir com eles por causa de seu aspecto histórico, visto que representavam épocas radiantes e constituíam tipos de civilização que, como tais, o marxismo quer destruir. É impossível fazer o inventário dos monumentos destruídos e das maravilhas artísticas desaparecidas. E não se contentaram em atacar os lugares de culto público. Os oratórios e os objetos religiosos privados, imagens, pinturas, livros, foram sistematicamente destruídos. Jamais talvez na história das perseguições religiosas um caso semelhante tenha acontecido: em poucos meses, uma região católica havia séculos viu desaparecer de seu solo todo símbolo religioso, sem contar a supressão e a dissolução das publicações católicas, das bibliotecas paroquiais, dos centros de cultura instalados nos estabelecimentos católicos, bem como o incêndio e a dispersão de bibliotecas conventuais. Todos os monastérios e todos os conventos foram incendiados, destruídos, fechados ou entregues para outros usos.
Pio XI descreveu a trágica situação da Espanha sob a dependência do governo republicano na sua encíclica Divini Redemptoris, de 19 de março de 1937:
"Até em países, onde — como sucede na Nossa amadíssima Espanha — não conseguiu ainda a peste e o flagelo comunista produzir todas as calamidades dos seus erros, desencadeou contudo, infelizmente, uma violência furibunda e irrompeu em funestíssimos atentados. Não é esta ou aquela igreja destruída, este ou aquele convento arruinado; mas, onde quer que lhes foi possível, todos os templos, todos os claustros religiosos, e ainda quaisquer vestígios da religião cristã, posto que fossem monumentos insignes de arte e de ciência, tudo foi destruído até os fundamentos! E não se limitou o furor comunista a trucidar bispos e muitos milhares de sacerdotes, religiosos e religiosas, alvejando dum modo particular aqueles e aquelas que se ocupavam dos operários e dos pobres; mas fez um número muito maior de vítimas em leigos de todas as classes, que ainda agora vão sendo imolados em carnificinas coletivas, unicamente por professarem a fé cristã, ou ao menos por serem contrários ao ateísmo comunista. E esta horripilante mortandade é perpetrada com tal ódio e tais requintes de crueldade e selvajaria, que não se julgariam possíveis em nosso século.”
De 1934 a 1939, 20.000 igrejas ou conventos foram pilhados e destruídos em nome da liberdade de consciência. São 13 os bispos assassinados, padres 4.052, religiosos 2.338 e religiosas 270; ou seja, 6.773 consagrados aos quais se deve acrescentar 248 seminaristas e cerca de 80.000 leigos católicos de todas as idades e condições. Entre esses milhares de padres, religiosos, bispos, monges e outros eclesiásticos, não se sabe de nenhum exemplo de apostasia.
2.2. O exemplo dos mártires
- A resistência do Alcazar
No final de 1936, o mundo inteiro seguiu com estupor a resistência do Alcazar de Toledo. Essa fortaleza de guerra foi tomada nos primeiros meses do alzamiento por milhares de combatentes insurgidos e um outro milhar de pessoas, que se compunha de velhos, mulheres e crianças. A primeira reação do governo republicano, quando soube que os insurgentes haviam se apoderado do lugar, foi chamar ao telefone o coronel José Moscardó Ituarte, chefe nacionalista da guarnição. O coronel Moscardó, com efeito, havia se abrigado no Alcazar de Toledo no meio de uma tal confusão geral que não pode trazer consigo a mulher e os filhos. Doña Maria se refugiara na casa do Tenente-coronel Tuero, mas foi descoberta em 22 de julho de 1936 pelos republicanos. Doña Maria conseguiu fugir com o pequeno Carmelo, mas seu filho Luís de 17 anos seguia prisioneiro.
No dia seguinte, o chefe dos milicianos de Toledo chamou ao telefone o coronel Moscardó para lhe anunciar que seu filho estava nas suas mãos.
“— Damos dez minutos para você se render — disse — senão, ele será fuzilado.
— O senhor não é nem um soldado nem um cavaleiro. Se fosse, saberia que a honra de um militar não cede diante da ameaça.
— O senhor me responde assim porque não crê na minha ameaça. Fale com seu filho… Aqui Moscardó!
— Alô… papai?
— Como você está, meu filho?
— Nada de particular, papai. Dizem que vão me fuzilar se o senhor não se render. Que devo fazer?
— Você sabe como penso. Se é certo que vão fuzilá-lo, recomende a sua alma a Deus, erga um pensamento a Espanha e outro a Cristo Rei.
— É fácil, papai. Farei as duas coisas… Um beijo forte, papai.
— Adeus, meu filho. Um beijo bem forte.”
O Alcazar resistirá por setenta dias a um ataque formidável, que fez chover sobre a célebre fortaleza 3.300 obuses de 155mm, 3.000 obuses de 105mm, e 3.500 de 75mm. Num único dia, 450 bombas de 50kg foram lançadas de avião. 1.900 homens sitiados passaram dias terríveis sob um trovão de fogo. 82 morreram. Dois bebês nasceram nas ruínas! No dia 28 de setembro de 1936, após a liberação do forte destroçado, a promoção do coronel Moscardó e uma missa de ação de graças, o novo general Moscardó foi embora no meio das aclamações, estava triste e recurvado. Ele se recordava do martírio de Luís, e deu a entender também que lhe custava enormemente entregar a fortaleza à Espanha num tal estado…
— Ceferino Jiménez Malla
Ceferino Jiménez Malla foi fuzilado pelos republicanos espanhóis na noite de 2 de agosto de 1936, com 75 anos de idade, no cemitério de Barbastro, em Aragão, com muitas outras vítimas. Ele foi preso pelos milicianos comunistas no início da guerra civil, acusado de ter escondido um padre e de ter resistido à prisão pelos milicianos. Após três semanas de prisão, Ceferino foi tirado de cela; os milicianos ordenaram que largasse o terço que carregava consigo a fim de rezar. Ele usava o rosário ostensivamente e rezava na frente de todos. Recusou-se com vigor a entregar o terço e foi fuzilado por esse motivo. Diante do pelotão comunista, ele estreitou o terço contra o peito e gritou: “Viva el Cristo Rey!”. Ceferino Jiménez Malla morreu mártir e confessor da fé.
— Sabino Ayastuy, Joaquín Ochoa e Florencio Arnaiz
Sabino Ayastuy, Joaquín Ochoa e Florencio Arnaiz tinham, respectivamente, 24, 26 e 27 anos quando roubaram as suas vidas. Sabino e Florencio tinham pronunciado seus votos definitivos na Sociedade de Maria, em 1934, e Joaquín em 1935, manifestando por escrito nessa ocasião a sua adesão à Nossa Senhora e a firme vontade de servi-la até o fim. Durante a sua prisão, Sabino teve o gesto tocante de dizer “adeus" ao zelador, mesmo sabendo ter sido denunciado por ele, manifestando assim seu desejo de perdoar. Sobre os seus corpos torturados foram encontrados crucifixos, medalhas e mesmo um certificado de batismo, prova do seu desejo de professar a fé até o fim, apesar dos riscos incorridos.
— Os irmãos do orfanato do Sagrado Coração de Jesus, em Madri e os padres Agostinianos de Escorial.
Um irmão sobrevivente do orfanato do Sagrado Coração de Jesus, em Madri, testemunhou: “Os milicianos se obstinaram em nos fazer renegar a fé. Separaram os mais moços para seguirem mais à vontade seu plano sinistro. Cada uma de nossas recusas era seguida de torturas.” O irmão Santiago Angel, F.S.C, prisioneiro também, viu passarem as futuras vítimas que os milicianos conduziam para a execução. “Eles se afastavam, escreveu ele, pacificados, calmos, fortes. Na sua atitude adivinhava-se a têmpera das suas almas, que se lançavam para a morte sublime que lhes era infringida por serem religiosos.”
Quando o cortejo chegou ao local de execução, o Pe. Avelino Rodriguez, provincial dos Agostinianos, pediu aos milicianos que lhe deixassem se despedir de seus confrades e lhes absolver. Isso foi-lhe concedido. Ele abraçou um a um os seus companheiros de suplício que, de joelhos, receberam a absolvição, em seguida, clamou: “Sabemos que nos matam por sermos católicos, padres ou religiosos. Nós vos perdoamos de todo coração. Viva Cristo Rei! Viva a Espanha!”
— Antonio Molle Lazo
Antonio Molle Lazo trabalhava na estação de Xérès (antigo nome de Jerez de la Frontera), cidade com uns cem mil habitantes. Sua caridade inesgotável e a distinção de suas maneiras lhe granjearam a simpatia de seus colegas. Os socialistas, contudo, conseguiram do governo a dispensa de todos os que não partilhassem das suas idéias.
Sem se desconcertar, Antonio procurou trabalho em outra parte. Estudou a organização e os métodos dos seus adversários, exprimindo sua dor ao ver os inimigos de Deus demonstrando mais entusiasmo na busca de seu ideal de ódio do que certos católicos na defesa da Religião: “Os socialistas, tão numerosos, e nós, católicos, tão poucos! Que vergonha!” dizia ele. No entanto, redobrando a coragem, instava seus colegas a se confessarem e a comungarem aos domingos.
A todos os que se escusavam alegando, seja a distância, seja as vexações dos adversários, ele respondia: “Não é longe até Xérès… se nos jogarem pedras, que mal pode nos fazer? É preciso sofrer algo por Jesus Cristo, talvez nosso exemplo conduzirá outros até a santa mesa […] e nós teremos esse ganho!” Quando foi pego pelos vermelhos, eles quiseram obrigá-lo a gritar: “Viva o comunismo!”
— Viva Cristo Rei, foi a sua resposta.
Cortaram-lhe uma orelha.
— Blasfeme o nome de Deus.
— Não. Viva Cristo Rei!
Cortaram-lhe a outra orelha.
— Blasfema!
— Jamais!
Cortaram-lhe o nariz.
— Viva Cristo Rei!
Sem conseguir alcançar o seu fim, e não podendo suportar o seu olhar límpido, furaram-lhe os olhos. Cortaram várias vezes a sua língua, mas ele gritava:
“Viva Cristo Rei! Podem me matar, mas Cristo triunfará!”
Estendendo os braços em forma de cruz, ele mesmo deu a ordem de sua execução, gritando: “Viva Cristo Rei”.
Conclusão
Há uma corrente de satanismo na história, paralela ao catolicismo e em perpétua luta contra ele.
Esse ódio misterioso é de uma essência diferente e superior a todos os demais ódios que encontramos ao longo da história, que, por ferozes e culpáveis que sejam, movem-se sempre por razões estritamente humanas, tais como a inveja, o orgulho, o rancor, a vingança. Não tem esse caráter permanente, não se relacionam sempre com um mesmo objeto que, por sua vez, jamais lhe deu causa, segundo a palavra mesma de Cristo: “Odiaram-me sem motivo”.
Pelo fato de os demais ódios se relacionarem a algo determinado e preciso, a causas tangíveis cujo peso corresponde ao do efeito, eles não têm esse caráter assustador de um surto de histeria que faz pensar imediatamente, queiram ou não, na possessão demoníaca. Cristo a definiu com estas palavras: “Essa é a vossa hora, e o poder das trevas.” O ódio ao catolicismo tem em si um elemento que ultrapassa a razão e está fora do ponderável, corresponde a uma crise misteriosa cujo campo não é o corpo, mas o espírito.
Malynski descreve assim a guerra que se desenrolou sobre o solo espanhol, uma luta que ultrapassa largamente as fronteiras desse país. “É uma etapa nova e talvez decisiva da luta entabulada entre a Revolução e a Ordem”, “uma luta internacional em um campo de batalha nacional; o comunismo produziu na península uma batalha formidável da qual dependeu a sorte da Europa”, pode-se escrever de modo muito apropriado. O povo espanhol foi “enfeitiçado por uma doutrina de demônios”, pois “é impossível pretender que entre o clero católico e a alma popular tenha havido divergências ou a menor oposição. A alma popular, consciência imanente da tradição e continuação histórica do passado, certamente não tem nada em comum com a agitação plebéia nem com os sindicatos de terroristas.” Esse ódio à religião e às tradições patrióticas veio da Rússia e enganou o povo espanhol. Para prová-lo, no momento de morrer, condenados pela lei, os comunistas espanhóis em sua maioria se reconciliaram com o Deus de seus pais. Menos de 20% morreram na impenitência final nas regiões do norte e menos de 10% nas regiões do sul.
Mas essa destruição sistemática de tudo o que constituía o patrimônio religioso e cultural da Espanha fez florescer toda uma falange de mártires.
Ah! Muitos se figuram que seus pés marcharão ao céu por um caminho fácil e complacente.
Mas, de repente, eis a questão apresentada, eis a intimação e o martírio!
O céu e o inferno foi posto nas nossas mãos, e temos quarenta segundos para escolher.
Quarenta segundos? É demasiado! Espanha irmã, Espanha santa: tu já escolheste.
Onze bispos, dezesseis mil sacerdotes assassinados e nenhuma apostasia sequer.
[…] A terra concebeu nas suas profundas entranhas, e a Retomada já começou.
[…] E tudo, quando foi derramado, os anjos respeitosamente recolheram e transportaram para o interior do Véu!
(Témoins du Christ, à travers les persécutions du XXe siècle, tradução: Permanência)
“O seu senhor irritado o entregou aos executores” (Evangelho.)
Paramentos verdes
Continua a ler-se no Ofício Divino a história dos Macabeus que se bateram pela pátria e pelas suas tradições de povo eleito. A vida cristã é também um combate contínuo que se vai desenrolando através do tempo e em que estão igualmente em jogo a glória de Deus e a salvação do povo. E nesta luta, que todo o cristão deve travar, fica bem o ardor desinteressado do cavaleiro leal e sem mancha que se bate até cair exangue, gritando, num último arranco, o nome do seu Rei e Senhor. Lembremo-nos que nós como eles combatemos pela fé de nossos pais, pelo patrimônio sagrado de filhos de Deus, que devemos colocar acima de todos os títulos e grandezas da Terra. Todo este imenso tesouro espiritual, que guardamos em vasos de barro, é ameaçado constantemente pelas forças do mal em rebelião perpétua contra Deus. A luta não se trava com os homens, diz S. Paulo, mas com os espíritos das trevas, cuja ação é grandemente poderosa e deletéria. E o Apóstolo convida-nos a que nos armemos com as armas de Deus: com a Fé, com a verdade, com a justiça, com o Evangelho da paz e da caridade. O Intróito é um hino de confiança na vitória: “Todas as coisas dependem da Vossa vontade, Senhor, e nada há que lhe possa resistir”. O Gradual e a Comunhão exprimem os mesmos sentimentos de esperança invencível. Sentimos realmente dentro de nós uma força nova, ao erguermos a nossa voz débil a um Deus onipotente, que se compraz em ajudar os que O invocam. A Igreja, que sabe os rudes combates que temos de sustentar, coloca-nos assim nos lábios orações magníficas para nos infundir coragem e dobrar sobre nós a misericórdia divina. Não obstante, porém, o auxílio do Céu, a nossa fraqueza e inconstância não nos permitem aguentar por muito tempo o peso da peleja sem deixar terreno ao inimigo. É nestes momentos culminantes que devemos recorrer mais que nunca à misericórdia de Deus. E o Evangelho diz-nos que ela é infinita e que nunca nos poderá faltar, se nunca a negamos àqueles que no-la pedem também.
Da Epístola: O Apóstolo fala-nos da luta terrível que temos de travar com os espíritos invisíveis, e manda-nos armar com as armas de Deus.
Do Evangelho: Tornamo-nos duros e implacáveis por causa duma injúria que recebemos, e negarmos a reconciliação a quem nos ofendeu com uma simples palavra menos delicada, não será condenarmo-nos a nós mesmos?
Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.
CARTA ENCÍCLICA
LAETITIAE SANCTAE
DE SUA SANTIDADE
PAPA LEÃO XIII
A TODOS OS NOSSOS VENERÁVEIS
IRMÃOS, OS PATRIARCAS,
PRIMAZES, ARCEBISPOS
E BISPOS DO ORBE CATÓLICO,
EM GRAÇA E COMUNHÃO
COM A SÉ APOSTÓLICA
SOBRE O ROSÁRIO DE NOSSA SENHORA
Veneráveis Irmãos,
Saúde e Bênção Apostólica
Gratidão do Papa para com Maria
1. A santa alegria que nos trouxe o feliz transcurso do quinquagésimo aniversário da Nossa sagração episcopal foi intensamente aumentada pelo fato de termos tido como participantes da Nossa alegria os católicos de todo o mundo, estreitados como filhos em torno do Pai, numa esplêndida manifestação de fidelidade e de amor. Nisto, com renovada gratidão, reconhecemos e exaltamos um desígnio da Divina Providência sumamente benévolo para conosco, e, ao mesmo tempo, assaz profícuo para a sua Igreja. Mas o Nosso ânimo sente-se impelido a saudar e louvar também a augusta Mãe de Deus, que deste benefício foi poderosa mediadora junto a Deus. A sua singular bondade, que no longo e mutável período da Nossa vida temos experimentado em vários modos eficaz, brilha cada dia mais manifesta diante dos nossos olhos, e, ferindo-nos suavissimamente o coração, robustece-o com confiança sobrenatural.
Afigura-se-nos ouvir a própria voz da Rainha do Céu, ora benevolamente encorajar-nos no meio das terríveis adversidades da Igreja, ora ajudar-nos, com largueza de inspirações, nas decisões a tomar para o bem comum, ora também advertir-nos a estimular o povo cristão à piedade e ao culto da virtude já muitas vezes, no passado, fizemos para nós um grato dever de corresponder a estes desejos da Virgem. Ora, entre as utilidades que com a sua bênção recolhemos das Nossas exortações, justo é recordar o extraordinário desenvolvimento da devoção do seu santo Rosário, seja pelo incremento e pela constituição de confrarias sob este título, seja pela divulgação de escritos doutos e oportunos, seja também pela inspiração dada a verdadeiras obras-primas artísticas.
O Rosário e os males do nosso tempo
2. E hoje, como que acolhendo a mesma voz da amorosíssima Mãe, com a qual ela nos repete: "Clama, nunca te canses", apraz-nos tornar a falar-vos, Veneráveis Irmãos, do Rosário mariano, agora que se aproxima o mês de Outubro: mês que quisemos consagrado a esta cara devoção, e que enriquecemos com os tesouros das santas indulgências. A Nossa palavra, todavia, não terá o fim imediato de tributar novos louvores a uma oração já, por si mesma, tão excelente, nem de estimular os fiéis a praticá-la com sempre maior fervor; falaremos, antes, de algumas preciosíssimas vantagens que dela podem derivar, o mais possível correspondentes às condições e às necessidades dos homens e dos tempos presentes. Porque estamos absolutamente convencidos de que, se a prática do Rosário for retamente seguida, de modo a poder ostentar toda a eficácia que lhe é intrínseca, não somente aos simples indivíduos, mas também a toda a sociedade, trará a maior utilidade.
3. Sabem todos o quanto Nós, pelo dever do Nosso supremo apostolado, nos temos aplicado a contribuir para o bem da sociedade, e o quarto ainda estamos dispostos a fazê-lo, com o auxílio de Deus. Com freqüência temos advertido os governantes a não fazerem e a não aplicarem leis que não sejam conformes à mente divina, norma de suma justiça. E, por outra parte, mais de uma vez temos exortado aqueles cidadãos que, ou por inteligência, ou por méritos, ou por nobreza do sangue, ou por haveres, estão em posição de privilégio em relação aos outros, a defenderem e a promoverem, em união de entendimentos e de forças, os supremos e fundamentais interesses da sociedade.
4. Mas, no estado presente da sociedade civil, sobejas são as causas que debilitam os ligames da ordem pública e desviam os povos da justa honestidade dos costumes. Todavia, os males que mais perigosamente minam o bem comum parecem-nos ser principalmente os três seguintes: "aversão à vida humilde e laboriosa; o horror ao sofrimento; o esquecimento dos bens futuros, objeto das nossas esperanças".
A aversão ao viver moderno
5. Lamentamos ― e conosco devem reconhecê-lo e deplorá-lo mesmo aqueles que não admitem outra regra senão a luz da razão, nem outra medida afora a utilidade, ― lamentamos que uma chaga verdadeiramente profunda tenha ferido o corpo social desde quando se começou a descurar os deveres e as virtudes que formam o ornamento da vida simples e comum. De fato, daí se segue que, nas relações domésticas, os filhos, intolerantes de toda educação que não seja a da moleza e da volúpia, recusam arrogantemente a obediência que a própria natureza lhes impõe. Por esse mesmo motivo os operários se afastam do seu próprio mister, fogem do labor, e, descontentes com a sua sorte, levantam o olhar a metas demasiado altas, e aspiram a uma inconsiderada repartição dos bens.
Ao mesmo tempo dai se segue o afanar-se de muitos que, depois de abandonarem o torrão natal, buscam o bulício e as numerosas seduções da cidade. Por este motivo ainda, veio a faltar o necessário equilíbrio entre as classes sociais; tudo é flutuante; os ânimos são agitados por invejas e rivalidades; a justiça é abertamente violada; e aqueles que foram iludidos nas suas esperanças procuram perturbar a tranqüilidade pública com sedições, com desordens e com a resistência aos defensores da ordem pública.
As lições dos mistérios gozosos
6. Pois bem: contra estes males pensamos que se deve buscar remédio no Rosário de Maria, composto de uma bem ordenada série de orações e da piedosa contemplação de mistérios relativos a Cristo Redentor e a sua Mãe. Expliquem-se de forma exata e popular os mistérios gozosos, apresentando-os aos olhos dos fiéis como outros tantos quadros e vivas figurações das virtudes. E assim cada um verá que fácil e rica mina eles oferecem de ensinamentos aptos para arrastar com maravilhosa suavidade as almas à honestidade da vida.
7. Eis diante do nosso olhar a Casa de Nazaré, onde toda santidade, a humana e a divina, colocou a sua morada. Que exemplo de vida comum! Que perfeito modelo de sociedade! Ali há simplicidade e candura de costumes; perpétua harmonia de almas; nenhuma desordem; respeito mútuo; e, enfim, o amor: mas não o amor falso e mendaz, e sim aquele amor integral, que se alimenta na prática dos próprios deveres, e tal que atrai a admiração de todos.
Ali não falta a solicitude de se proporcionar a si mesmos tudo quanto é necessário à vida, mas com o "suor da fronte", e como convém àqueles que, contentando-se com pouco, se esforçam antes por diminuir a sua pobreza do que por multiplicar os seus haveres. E, sobre tudo isto, reina ali a maior serenidade de ânimo e alegria de espírito: duas coisas que sempre acompanham a consciência do dever cumprido.
8. Ora, estes exemplos de modéstia e de humildade, de tolerância da fadiga, de bondade para com o próximo e de fiel observância dos pequenos deveres da vida quotidiana, e, numa palavra, os exemplos de todas estas virtudes, assim que entram nos corações e nele se imprimem profundamente, certamente produzem nele pouco a pouco a desejada transformação dos pensamentos e dos costumes.
Então os deveres do próprio estado não mais serão nem descurados nem considerados enfadonhos, mas serão, antes, agradáveis e deleitáveis; e a consciência do dever, imbuída de senso de alegria, será sempre mais decidida no obrar o bem.
Por conseqüência, os costumes tornar-se-ão mais brandos sob todos os aspectos; a convivência familiar transcorrerá no amor e na alegria; as relações com os outros serão pautadas por um maior respeito e caridade. E, se estas transformações se estenderem dos indivíduos às famílias, às cidades, aos povos e às suas instituições, é fácil ver que imensas vantagens devam daí derivar para a sociedade inteira.
A aversão ao sacrifício
9. O segundo mal funestíssimo, que Nós nunca deploraremos bastante, porque ele sempre mais difusa e ruinosamente envenena as almas, é a tendência a fugir da dor e a afastar por todos os meios as adversidades.
De feito, a maioria dos homens não consideram mais, como deveriam, a serena liberdade de espírito como um prêmio para quem exercita a virtude e suporta vitoriosamente perigos e trabalhos; mas excogitam uma quimérica perfeição da sociedade, em que, removido todo sacrifício, se deparem todas as comodidades terrenas.
Ora, este agudo e desenfreado desejo de uma vida cômoda debilita fatalmente as almas, que, mesmo quando não se arruínam totalmente, ficam, sem embargo, tão enervados, que primeiro cedem vergonhosamente em face dos males da vida, e depois sucumbem miseravelmente.
As lições dos mistérios dolorosos
10. Pois bem: ainda contra este mal é bem justificado esperar-se do Rosário de Maria um remédio que, pela força do exemplo, pode grandemente contribuir para fortalecer os ânimos. E isto se obterá se os homens, desde a sua primeira infância, e depois constantemente em toda a sua vida, se aplicarem, no recolhimento, à meditação dos mistérios dolorosos.
Através destes mistérios vemos que Jesus, "guia e aperfeiçoados da fé", começou a fazer e a ensinar, a fim de que víssemos n'Ele próprio o exemplo prático dos ensinamentos que Ele daria à nossa humanidade, acerca da tolerância da dor e dos trabalhos; e o exemplo de Jesus chegou a tal ponto, que, voluntariamente e de grande coração, Ele mesmo abraçou tudo o que há de mais duro de suportar.
Com efeito, vemo-lo como um ladrão, julgado por homens iníquos, e feito alvo de ultrajes e de calúnias. Vemo-lo flagelado, coroado de espinhos, crucificado considerado indigno de continuar a viver, e merecedor de morrer entre os clamores de todo um povo.
Consideremos a aflição de sua santíssima Mãe, cuja alma não foi somente roçada, mas verdadeiramente "traspassada" pela "espadácia dor"- de modo que ela mereceu ser chamada, e realmente se tornou, a Mãe das dores.
11. Todo aquele que se não contentar com olhar, porém meditar amiúde exemplos de tão excelsa virtude, oh! como se sentirá impelido a imitá-los! Para esse, ainda que seja "maldita a terra, e faça germinar espinhos e abrolhos", ainda que o espírito seja oprimido pelos sofrimentos, ou o corpo pelas doenças, nunca haverá nenhum mal causado pela perfídia dos homens ou pelo furor dos demônios, nunca haverá calamidade, pública ou privada, que ele não consiga superar com paciência.
É, pois, realmente verdadeiro o dito: "É de cristão fazer e suportar coisas árduas"; porque todo aquele que não quiser ser indigno desse nome não pode deixar de imitar Cristo que sofre. E repare-se em que como resignação não entendemos a vã ostentação de um ânimo endurecido à dor, como o tiveram alguns filósofos antigos; mas sim essa resignação que se funda no exemplo d'Aquele que "em lugar do gozo que tinha diante de si, suportou o suplício da Cruz, desprezando a ignomínia" (Heb 12, 2); essa resignação que, depois de pedir a Ele o necessário auxilio da graça, de modo algum recusa afrontar as adversidades; antes, alegra-se com elas, e considera um lucro qualquer sofrimento, por mais acerbo que seja.
A Igreja Católica sempre teve, e tem ainda agora, insignes campeões de tal doutrina: homens e mulheres, em grande número, em todas as partes do mundo, de todas as condições. Estes, seguindo as pegadas de Cristo, em nome da fé e da virtude suportam contumélias e amarguras de todo gênero, e têm como seu programa, mais com os fatos do que com as palavras, a exortação de S. Tomé: "Vamos também nós, e morramos com Ele" (Jo. 11, 16).
12. Oh! praza ao Céu que exemplos de tão admirável fortaleza se multipliquem sempre mais, a fim de que deles brote segurança para a sociedade, e virtude e glória para a Igreja.
O descaso dos bens eternos
13. O terceiro mal para o qual é preciso achar um remédio é particularmente próprio dos homens dos nossos dias Com efeito, os homens dos tempos passados, mesmo quando com excessiva paixão procuravam as coisas terrenas, contudo não desprezavam totalmente as celestes; antes, os mais sábios entre os próprios pagãos ensinaram que esta nossa vida é um lugar de hospedagem e uma estação de passagem, antes que uma morada fixa e definitiva.
Ao contrário, muitos dos modernos, embora educados na fé cristã, procuram de tal modo os bens transitórios desta terra, que não somente esquecem uma pátria melhor na eternidade bem-aventurada, mas, por excesso de vergonha, chegam a cancelá-la completamente de sua memória, contra a advertência de S. Paulo: "Não temos aqui uma cidade permanente, porém demandamos a futura" (Heb. 13, 14).
Quem quiser examinar as causas desta aberração logo notará que a primeira delas é a convicção de muitos de que o pensamento das coisas eternas extingue o amor da pátria terrena e impede a prosperidade do Estado. Calúnia odiosa e insensata.
E, de fato, os bens que esperamos não são de natureza tal que absorvam os pensamentos do homem até o ponto de o distrair inteiramente do cuidado dos interesses terrenos. O próprio Cristo embora recomendando-nos procurarmos antes de tudo o reino de Deus, com isto nos insinua que não devemos descurar tudo o mais.
E, de fato, se o uso dos bens terrenos e dos gozos honestos que deles derivam servem de estímulo à virtude; se o esplendor e o bem-estar da cidade terrena ― que depois redundam em glória da sociedade humana ― são considerados como uma imagem do esplendor e da magnificência da cidade eterna, eles não são nem indignos de homens racionais, nem contrários aos desígnios de Deus.
Porque Deus é ao mesmo tempo autor da natureza e da graça; e por isto não pode ter disposto que uma obste à outra e estejam entre si em luta; mas, ao contrário, que, amigavelmente unidas, nos guiem, por uma trilha mais fácil, àquela eterna felicidade a que, embora mortais, somos destinados.
14. Mas os homens dados ao prazer e egoístas, que de tal modo mergulham e aviltam os seus pensamentos nas coisas caducas a ponto de não saberem elevar-se a mais alto, estes, antes que procurarem os bens eternos através dos bens sensíveis de que gozam, perdem completamente de vista a eternidade, caindo assim numa condição verdadeiramente abjeta. Na verdade, Deus não poderia infligir ao homem punição mais terrível do que abandonando-o por toda a vida às seduções dos vícios, sem ter jamais um olhar para o Céu.
As lições dos mistérios gloriosos
15. A este perigo não estará exposto aquele que, rezando o santo Rosário, meditar com atenção e com freqüência as verdades contidas nos mistérios gloriosos. Desses mistérios, com efeito, brilha na mente dos cristãos uma luz tão viva, que nos faz descobrir aqueles bens que o nosso olho humano nunca poderia perceber, mas que Deus ― assim o cremos com fé inabalável ― preparou "para aqueles que o amam".
Deles aprendemos, além disto, que a morte não é um esfacelamento que tudo perde e destrói, mas sim uma simples passagem e uma mudança de vida. Aprendemos que o caminho do céu está aberto a todos; e, quando observamos Cristo que volta ao Céu, recordamos a sua bela promessa: "Vou preparar-vos o lugar".
Aprendemos que haverá um tempo em que "Deus enxugará toda lágrima dos nossos olhos; em que não haverá mais nem lutos, nem pranto, nem dor, mas estaremos sempre com o Senhor, semelhantes a Deus, porque o veremos como Ele é, bebendo na torrente das suas delícias, concidadãos dos santos", em feliz união com a grande Mãe e Rainha.
16. Uma alma que se nutra destas verdades deverá necessariamente inflamar-se delas e repetir a frase de um grande. Santo: "Oh! como me parece sórdida a terra quando olho o Céu"; deverá necessariamente alegrar-se ao pensamento de que "um instante de um leve sofrimento nosso produz em nós uma medida eterna de glória".
E, verdadeiramente, só aqui está o segredo de harmonizar o tempo com a eternidade, a cidade terrena com a celeste, e de formar caracteres fortes e generosos. E se estes se tornarem muito numerosos, sem dúvida estará com isso consolidada a dignidade e a grandeza do Estado; e florescerá tudo o que é verdadeiro, tudo o que é bom, tudo o que é belo; florescerá em harmonia com aquela norma que é o sumo princípio e a fonte inexaurível de toda verdade, de toda bondade e de toda beleza.
17. Ora, quem não vê a verdade disso que havemos observado desde o princípio, isto é, de que preciosos bens é fecundo o santo Rosário? O quanto ele é maravilhosamente eficaz em curar os males dos nossos tempos, e em opor um dique aos gravíssimos males da sociedade?
As confrarias do Rosário
18. Mas, como cada um facilmente compreende, de tal eficácia serão mais direta e mais largamente participantes os membros das sacras confrarias do Rosário, porque a ela adquirem um direito particular, quer pela sua união fraterna, quer pela sua devoção especial à Virgem Santíssima.
Tais sodalícios autorizadamente aprovados pelos Romanos Pontífices e por eles enriquecidos de privilégios e de tesouros de indulgências, têm uma forma própria de ordenação e de disciplina. Promovem reuniões em dias determinados, e neles são fornecidos meios mais adequados para florescer na piedade e para prestar úteis serviços à própria sociedade civil. Eles são como que falanges militantes que, guiadas e amparadas pela celeste Rainha, combaterão as batalhas de Cristo, em virtude dos seus santos mistérios.
E em todas as ocasiões, mas especialmente em Lepanto, pôde-se ver como a Virgem se compraz com as orações, as festas e as procissões desses seus devotos.
19. Bem justo é, pois, que não somente os filhos do patriarca S. Domingos ― certamente obrigados mais do que os outros, por motivo da sua vocação, ― mas também todos aqueles que têm cura de almas -especialmente nas igrejas onde essas confrarias estão canonicamente eretas ― se apliquem com todo o seu zelo a multiplicá-las, desenvolvê-las e assisti-las. Antes, ardentemente desejamos que também se dediquem a este trabalho aqueles que empreendem missões, seja para levar a doutrina de Cristo aos infiéis, seja para reforçá-la nos fiéis.
20. Não duvidamos de que, pelas exortações de todos estes, muitos cristãos estarão prontos não só a inscrever-se nessas confrarias, mas também a esforçar-se, por todos os meios, para colher as já indicadas vantagens espirituais que formam como que a razão de ser e, por assim dizer, a substância do santo Rosário. Depois, o exemplo dos membros das confrarias arrastará também os outros fiéis a uma maior estima e devoção ao Rosário; os quais, assim estimulados, porão todo o seu empenho ― como Nós vivamente desejamos ― em tirar também, na mais larga medida, salutares vantagens desta prática.
21. Eis aí a esperança que nos sorri. É ela que, no meio de tantas calamidades públicas, nos guia e profundamente nos consola. Digne-se Maria, Mãe de Deus e dos homens, inspiradora e mestra do santo Rosário, de realizar plenamente esta esperança, acolhendo as preces comuns.
Nós, ó Veneráveis Irmãos, temos confiança de que, pelo zelo de cada um de vós, os vossos ensinamentos e os Nossos votos produzirão toda espécie de bem, e contribuirão, em particular, para a prosperidade das famílias e para a paz dos povos.
Enquanto isso, em penhor dos favores celestes e em testemunho da Nossa benevolência, no Senhor concedemos a cada um de vós, ao vosso clero e ao vosso povo a Bênção Apostólica.
Dado em Roma, junto a S. Pedro, a 8 de Setembro de 1893, décimo sexto ano do Nosso Pontificado.
LEÃO XIII PAPA
M.J.C.F.
Há pouco mais de oitenta anos, o povo católico mexicano, perseguido por causa da fé, pegava em armas para a defesa de Cristo Rei. Assinava com o seu sangue o texto Quas Primas (1925) de Pio XI sobre a realeza social de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Praticamente ausente dos livros de história e dos arquivos do Vaticano, essa segunda Vendéia militar é, no entanto, muito rica em ensinamentos e exemplos, como se verá a seguir.
1. ”Pobre méxico, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos"
1.1 As primícias do conflito
Evangelizado no século XVI pelos espanhóis, o México conquistou a independência em 1821. O século XIX foi marcado por uma permanente instabilidade: guerras civis, ditaduras, golpes de Estado, revoluções. Após a ditadura de Dom Porfírio Diaz, que redundou em um tempo de paz entre 1876 e 1910, chegaram ao poder os protestantes, os maçons e os marxistas vindos do norte do país. “Aos seus olhos, o protestantismo explicava o sucesso norte-americano, de molde que eles retomaram o libelo anglo-saxão contra o passado hispânico e colonial do México: o velho México era degenerado por causa dos índios e dos padres, e a salvação dependia dos homens da fronteira do norte, que trariam a civilização” , explica Jean Meyer. “O conflito com a Igreja era inevitável, na medida em que a nação, como a Igreja Romana, não admitia nada acima dela.” Os dirigentes envidaram esforços para esmagar toda oposição ao Estado centralizador. Em 1917 foi instituída uma Constituição revolucionária que proclamou a ditadura suprema do Estado. Todos os corpos intermediários tornaram-se ilegais, especialmente os sindicatos católicos. Os dirigentes podiam dizer como o general J.B. Vargas aos católicos: “Aceitaria de bom grado a vossa seita católica se fosse nacional, se nomeassem um papa mexicano.”
Muitos artigos antirreligiosos foram proclamados na Constituição, mas o presidente Obregon não ousou aplicar essas leis em todo o território, limitando-se às regiões menos católicas:
- O artigo 3º impunha a secularização do ensino;
- O artigo 5º proibia as ordens monásticas;
- O artigo 24 proibia o exercício do culto fora das igrejas;
- O artigo 27 restringia o direito das organizações religiosas à propriedade;
- O artigo 130 atentava contra os direitos cívicos dos membros do clero: os padres perderam o direito de usar o hábito religioso, perderam o direito ao voto, e foram proibidos de comentar quaisquer assuntos públicos nos órgãos da imprensa.
1.2. O governo callista
Em 1924 Plutarco Elías Calles chegou ao poder. O general Roberto Cruz dizia a seu respeito: “No governo não havia, já não digo alguém que lhe recusasse obediência ou o enfrentasse, mas simplesmente alguém que resistisse a qualquer uma das suas decisões. Ele era absoluto e resolvia tudo de modo definitivo. Se ditador for aquele que não concebe nada para além da sua vontade, então Calles foi a personificação da ditadura.” “Para alcançar seus objetivos, que eram “ordem e progresso”, estava disposto a tudo e decidido a ser ‘mestre absoluto’. Ele obteve para isso o apoio americano, mostrando-se capaz de pagar o serviço da dívida exterior: os banqueiros americanos, as companhias petrolíferas e os proprietários de bens de capital no México tornaram-se favoráveis a ele.
Para ele, a Igreja era a única causa de todos os males do México e, por isso, devia ser destruída: “Calles é o porta-voz de espanhóis e ibero-americanos que julgam o catolicismo incompatível com o Estado; ele, espírita, frequentador de curandeiros (…) votava à Igreja um ódio mortal."
A Constituição foi então aplicada à letra em todo o território. O governo procedeu a um inventário dos bens da Igreja, mandou fechar escolas católicas, expulsou as congregações e proibiu os sindicatos católicos. Ordenou o confisco ou a profanação de numerosas igrejas, que se tornaram estrebarias ou salões de festas, quando não foram destruídas.
Calles fundou uma igreja nacional mexicana separada de Roma, importou missionários protestantes dos Estados Unidos e financiou a abertura de 200 colégios protestantes. Outras leis anti-católicas foram votadas. Em 1926, a seguinte proclamação foi pregada nas portas de todas as igrejas:
Art. 1o: Todo indivíduo responsável por uma igreja será condenado a uma multa de 50 pesos e a um ano de prisão se os sinos repicarem.
Art. 2o: A todo indivíduo que ensinar seus filhos a rezar será aplicada a mesma pena.
Art. 3o: O mesmo em toda casa onde se encontrar santos.
Art. 4o: O mesmo para toda pessoa que usar insígnias [religiosas].
… e assim por diante até o 30o artigo.
O nome de Deus foi banido do vocabulário: quem tivesse a infelicidade de dizer “adiós” (adeus) ou “si Dios quiere” (se Deus quiser) era punido com multa de 10 pesos (uma fortuna para os camponeses). O povo mexicano, no entanto, mantinha-se fiel à sua fé.
1.3. O terror
Calles decidiu então impor as leis antirreligiosas pelo terror. No dia 26 de julho, dois policiais a paisana abateram friamente um comerciante por ter ele afixado na sua lojinha um cartaz com os dizeres: “Viva el Christo Rey!”. Um soldado foi fuzilado de imediato por ter sido surpreendido com uma medalha de Nossa Senhora de Guadalupe.
Os fuzilamentos, as mutilações serviam de exemplo. Após terem sido torturados por toda a noite por soldados, três rapazes foram fuzilados contra o muro da catedral de Colima, à vista de todos. Os prisioneiros eram pendurados em galhos de árvores, nos postes de telégrafo ou ao longo das estradas de ferro. As vítimas assassinadas e as cenas de tortura eram fotografadas ou filmadas para que muitos as vissem.
“Os sacrilégios eram acompanhados de um horror consciente e partilhado entre executantes e espectadores. A temática era comum: igrejas profanadas por oficiais que nelas entravam a cavalo e alimentavam suas montarias com hóstias, transformavam os altares em mesas, os prédios em estrebarias. As estátuas eram fuziladas quando não arrancavam as Virgens para dançarem com elas. Usavam os ornamentos como fantasia e comiam-se as hóstias consagradas e bebia-se café com leite no cálice.”
Finalmente, puseram os padres sob o controle do poder civil: eles foram “registrados”. “Os ministros do culto (…) foram postos sob controle judiciário e perderam todos os direitos. Qualquer governador tinha autorização de fixar por decreto o número [de padres] no seu terreno de caça; e de impor o chicote, o exílio ou o presídio aos recalcitrantes.” Certos governadores quiseram obrigar os sacerdotes a se casarem para poderem continuar a oficiar. Foram limitados ao número de um padre para cada 30.000 habitantes no estado de Tabasco, e 140 para um milhão de batizados no estado do México, enquanto lhes esperavam o cárcere, a tortura e a execução.
2. A resistência
2.1. Dos leigos
A resistência dos católicos não se fez esperar. Penitências, peregrinações e orações públicas foram a resposta dos fiéis a todas essas atrocidades. Organizaram-se Imensas procissões, viu-se 15.000 batizados desfilarem, com os pés nus e coroas de espinhos. Essas manifestações eram reprimidas à metralha.
A ACJM (Associação Católica da Juventude Mexicana) divulgou a seguinte agenda:
Contra o artigo 18o, que versava sobre os delitos em matéria de culto religioso punidos com multa de 500 pesos ou, na ausência, 15 dias de prisão, e sobre o uso de vestes e insígnias religiosas fora do lugar de culto, nós decidimos que o uso de nossa insígnia será obrigatório para todos os membros da ACJM a partir de 31 de julho.
As associações católicas fizeram petições. Obtiveram 2 milhões de assinaturas num país que possuía 15 milhões de habitantes. O presidente da Câmara dos Deputados, contudo, declarará não ter recebido nada e o governo fechou outras escolas católicas e conventos.
Os fiéis tentaram então o boicote econômico. Eles se privaram de tudo o que era propriedade do Estado: transportes, alimentação, tabaco, espetáculos. Num país de grande maioria católica, esse boicote representa um grande golpe nos negócios do Estado, que acusaram uma queda de 75%. O banco nacional verá 7 milhões de pesos serem sacados em poucas semanas. Várias salas de espetáculo tiveram de fechar as portas. Mas o sucesso não durará porque os ricos, que também sofriam as conseqüências econômicas, não querem participar. “Católicos ou não, os ricos tinham horror ao boicote.”
2.2 Dos bispos
Quanto ao episcopado mexicano, ele procura um acordo com o governo. Enquanto pediam paciência aos fiéis, apresenta propostas para a revisão das leis.
“O governo mexicano, em razão de sua hostilidade agressiva, representava um grave problema à Igreja, que tinha por fim transformá-lo, a longo prazo, num regime benevolente. (…) A política que o Vaticano conduz em escala mundial [visa a] garantir à Igreja católica as melhores possibilidades de expansão. (…) Nessa perspectiva, Roma fez tudo para evitar a crise de 1926-1929, multiplicou as demonstrações de boa vontade e, finalmente, impôs a paz de 1929.”
Mas o governo não cedeu às demandas dos bispos. O Papa Pio XI interveio por um telegrama dirigido ao comitê episcopal mexicano: “A Santa Sé condena a lei bem como todo ato que possa significar ou ser interpretado pelo povo fiel como aceitação ou reconhecimento da lei mencionada” (a do registro dos padres, cf. 1.3). Calles considerou isso uma rebelião e ainda agravou as medidas de repressão.
Os bispos decidiram então suspender o culto público a partir de 31 de julho. Já não haveria missas nem sacramentos nas igrejas em todo o território. Por que uma decisão dessas? Os bispos esperavam viver nas catacumbas? Como o culto público havia se tornado impossível, essa decisão seria muito corajosa se permitisse que os padres continuassem a celebrar os sacramentos junto ao povo mexicano, que já escondia espontaneamente os padres. Mas a hierarquia ordenou aos sacerdotes reagruparem-se nas cidades e rezarem missas em capelas privadas. Ela buscava contemporizar para poder continuar as negociações com o governo.
Todos os católicos passaram seus últimos dias de liberdade aos pés do altar:
“A gente começava a vir aliviar a consciência, conquanto fosse tempo de trabalhar nos campos; a cada dia que passava aumentava na cidade a pressa de todos os camponeses que desciam de lugarejos vizinhos; em todos os peitos se percebia a angústia, os rostos estavam pálidos e os olhos cheios de tristeza. Na paróquia de Tlanltenango havia três padres, mas não bastaram para confessar tanta gente, não tinham tempo nem lazer sequer para poder comer e passavam o dia todo, do amanhecer até tarde da noite, sentados nos confessionários, mas não conseguiam confessar todo mundo.”
3. A resistência armada
No dia 31 de julho, as igrejas foram fechadas, como previsto. O povo mexicano, que suportara tudo, iniciou uma cruzada porque se viu privado de sacramentos. Após ter esgotado todos os meios pacíficos de negociação, pegou em armas para a defesa de Cristo Rei ao lado de alguns poucos padres (apenas duzentos de um total 3.500 ficaram com seus fiéis) e um bispo (de trinta e oito).
3.1. As primeiras insurreições
“Ignoro quais foram exatamente os motivos que levaram os católicos de Villa Hidalgo a se levantarem, mas na origem de tudo houve a vinda de tropas federais e o ódio com que cometeram um grande sacrilégio: os oficiais penetraram a igreja, abriram o tabernáculo, jogaram no chão as espécies consagradas antes de calcarem-nas aos pés; em seguida, lançaram milho sobre o altar para dar de comer aos cavalos.”
Por toda parte em que a fé foi atacada, os católicos passaram à ofensiva. “Em Santiago Bayacora, no estado de Durango, três funcionários federais vieram fazer o inventário da igreja. Foram recebidos com pedradas e tiveram de fugir. Duzentos homens armados com velhos fuzis deixaram imediatamente a cidade para evitar o cerco e partiram para cima do inimigo. O primeiro confronto se deu no meio da campo, por volta de meio-dia. Foi uma matança terrível do lado dos federais, que abandonaram o local deixando grande quantidade de cadáveres, armas e munições. Duas horas mais tarde, uma nova coluna federal foi desfeita do mesmo modo."
Em Pénjamo, Luis Navajo Origel, prefeito da cidade e católico fervoroso, assumiu a frente do motim. Com seus homens, refugiou-se nas montanhas e dali comandou uma guerrilha. Em Durango e no sul do estado de Guanajuato, produziu-se o mesmo cenário. Em Jalisco, sob o comando de René Capistran Garza, presidente da ACJM, as tropas pouco a pouco se fortaleceram e a região se tornou o centro nevrálgico da rebelião.
Tendo iniciado no oeste mexicano, o levante estendeu-se rapidamente até o golfo atlântico.
3.2 Os combatentes
Toda a gente ingressou na cruzada com poucas armas e munições, e nenhuma ajuda estrangeira. Mas nem coragem nem generosidade faltaram a esse povo profundamente católico. A maior parte deles rumou para o combate esperando o martírio. Até as crianças beijavam suas mães dizendo: “Mamacita, não vais querer que eu perca o céu agora que está tão barato, não é?”
José Sanchez tinha 14 anos. Cercado em fevereiro de 1928 pelos federais, cede seu cavalo ao chefe do grupo, que estava ferido, e cobre a sua retirada. A munição acaba e ele é capturado: “Saibam que eu não me rendi”, declarou, “não tenho mais cartuchos, é isso.” Ele é massacrado. No bolso, tinha esse bilhete: “Minha querida mamãe. Fui preso e vão me matar. Estou feliz. A única coisa que me inquieta é que você vai chorar. Não chore, nós nos reencontraremos. José, morto por Cristo Rei.”
A alegria nunca está ausente, apesar dos sofrimentos e da abnegação. Alguns são cheios de audácia e de humor, mesmo nas horas mais trágicas.
Tomasino é membro do comitê diretor da ACJM, e prefeito da Congregação de Maria. Depois de preso, prometeram-lhe a liberdade se falasse:
“Os senhores cometeriam um erro, claro, pois uma vez livre continuaria a luta por Cristo Rei. O combate pela liberdade do culto [verdadeiro] não é para nós opcional.
“— Não sabes o que é a morte, moleque!
“— É verdade, nunca me aconteceu de morrer. E o sr., meu general?”
Em agosto de 1927 foi enforcado, tinha 17 anos de idade.
Os chamados Cristeros — um termo de desprezo cunhado pelos revolucionários pois eles combatem ao grito de “Viva el Cristo Rey” — não tinham nenhuma nenhuma noção de combate ou de clandestinidade.
Na Cidade do México, em 6 de setembro de 1926, Joaquim de Silva, 28 anos, irrompeu na casa do seu confessor, os olhos brilhavam. Nos seus bolsos estava a sua “bagagem”: uma pistola, cinquenta cartuchos, nove cartas e seu precioso terço.
“Faço questão de não ser um católico medíocre. Parto para unir-me ao exército de Cristo Rei! Peço a bênção do senhor.
“— Vais abandonar a sua mãe e suas irmãs sem sustento?
“— O Senhor cuidará delas. Ademais, elas mesmas me pediram para ir.”
O Pe. Cardoso, apesar da grande inquietação, se deixou vencer e Joaquim da Silva tomou o trem naquela mesma noite em companhia de dois camaradas. No trem, os três aprendizes de Cristeros entabulam conversa com um general aposentado, que carregava uma impressionante bateria de medalhas e escapulários. Joaquim da Silva convidou o general a examinar o plano de guerra. O soldado aceitou juntar-se a eles no bom combate; o encontro é marcado para o dia seguinte. Mas os Cristeros são entregues pelo general e fuzilados sem julgamento. Joaquim despede-se do seu delator nesses termos: “O senhor me entregou à morte. Em troca, eu ofereço minha intercessão em teu favor diante do Pai Onipotente.”
As mães não foram excluídas do sacrifício de todo o povo católico. A mãe de Luis Navajo Origel dizia simplesmente: “Eu ofereci a vida de meus quatro filhos a Cristo. Mas o Senhor não quis tantos, só tomou dois”. E aos comissários do governo que vieram confiscar nas suas fazendas suas reservas de trigo: “Meus bons senhores, se permiti que entregassem meu filho à morte por Nosso Senhor Jesus Cristo, como poderia recusar hoje o trigo dos meus campos? Aqui está a chave para entrar nas reservas, confisquem tranquilamente.”
De abril a dezembro, os Cristeros, que não tinham organização nenhuma, eram vencidos assim que se aproximavam das grandes cidades. Confrontavam um exercito federal com cerca de 80.000 homens equipados pelos Estados Unidos com metralhadoras, trator de artilharia e aviões de combate. Os confrontos são verdadeiros massacres, a ponto de o general Jesús Ferreira, comandante em chefe das tropas federais do estado de Jalisco, declarar: “Não partimos para uma campanha, mas para uma caça” . Os federais julgam então que a revolta acabara.
3.3 A organização da Cristiada
Mas os Cristeros se reagrupam e se organizam. Em 1927, põem-se às ordens de um general em chefe: o general Gorostieta, militar aposentado. Grande estrategista, alcança-lhes muitas vitórias.
No dia 21 de junho de 1927, a brigada feminina de Santa Joana D’Arc (a B.B.) foi criada. Organizada como uma rede secretíssima, mobilizou até 25.000 mulheres cristeras como espiãs, enfermeiras ou para a logística.
“Trata-se em suma de uma organização que, durante dois anos, pôs milhares de mulheres em ação, dia e noite, fazendo a ligação entre a cidade e os campos de batalha."
“Algumas delas, possuindo conhecimentos científicos bem superiores aos dos camponeses, cumpriam a função de artífices e de professoras, ensinando os Cristeros a fabricar explosivos, dinamitar os trens, manipular armas de artilharia e detonadores. As B.B. levaram muito a sério sua missão de guerra… Valendo-se de todos os meios, organizavam bailes nas cidades para ganhar a confiança dos militares, despistar as suspeitas e obter informações. […] O cuidado dos feridos escondidos nos povoados ou na cidades incumbia à B.B. bem como a direção dos rudimentares hospitais dos campos de Altos, Colima, Sul de Jalisco e do hospital clandestino de Guadalajara. […] Elas trabalhavam na propaganda e na imprensa clandestina, […] garantiam sobretudo o correio político e militar dos Cristeros e contribuíam na sua rede de informação.”
Valendo-se de seu bom conhecimento do terreno, armamentos, munições e dos cavalos subtraídos ao inimigo (em novembro, 40% estavam armados com excelentes Mauser “federais”), os Cristeros ganharam terreno.
Em Puerto Obristo, 600 federais caíram mortos. No dia 1o. de janeiro de 1927, 1.200 homens se insurgiram e controlaram o estado de Durango. “Nosso movimento é firmemente apoiado por toda a população, e os esforços do tirano para impedir o seu crescimento estão votados ao fracasso. Sem contar com nenhuma ajuda estrangeira, em um ano reunimos 40.000 homens armados”, declarou o general Gorostieta a um amigo mexicano.
No apogeu do seu efetivo, os Cristeros serão 50.000.
O seu general em exercício, Gorostieta, testemunhou a moralidade das suas tropas: “O efetivo é composto de homens de ordem, de uma moralidade absolutamente sem precedentes nas tropas mexicanas. Daí o fracasso do governo, a despeito do apoio estrangeiro, de seu ouro e de suas práticas criminosas.”
Os federais buscaram então reunir a população nas cidades. “O Estado-Maior decidiu organizar concentrações, prelúdio necessário às razzias das colunas federais. O princípio era simples: deram o prazo de algumas semanas para que a população civil evacuasse um dado perímetro e viesse a se refugiar numa série de localidades previstas. Passado esse prazo, toda pessoa que se encontrasse numa zona vermelha era executada sem julgamento. As colunas confiscavam a colheita e o gado, incendiavam os pastos e florestas, abatiam à metralha o gado que não pudessem levar no trem.” Não obtiveram, porém, grandes resultados. Em 1929, os Cristeros controlavam três quartos do México habitado. A vitória estava ao alcance das mãos.
4. O fim da rebelião
No dia 22 de junho de 1929, a imprensa publicou os “arreglos” ou “acordos”. As negociações secretas entre o governo mexicano e os bispos chegaram na véspera a uma resolução que previa o fim imediato e incondicional dos combates e o reinício do culto público no dia seguinte.
Não se tratou da modificação ou supressão das leis anti-católicas. Foi mantido até mesmo o registro dos padres. Retornou-se à situação de 1926, sem consideração pelo povo mexicano que, há três anos, dava sua vida pelo retorno de Cristo aos altares… e que estava próximo do sucesso.
Jesus Degollado, general em exercício dos Cristeros, julgou que era preciso se submeter. Ele se dirigiu às suas tropas, com a voz embargada pela dor: “Sua Santidade, o papa, por intermédio do excelentíssimo núncio apostólico, decidiu, por razões que ignoramos mas que, como católicos, aceitamos, que o culto recomece sem que a lei seja alterada… Esse acordo arrancou o que há de mais nobre e santo em nosso estandarte, no momento em que a Igreja se declarou resignada com o que obteve… Em conseqüência, a Guarda nacional assume a responsabilidade do conflito… Enquanto homens, possuímos uma satisfação que ninguém nos poderá tirar: a Guarda Nacional não desaparece vencida por seus inimigos, mas abandonada por aqueles mesmos que seriam os primeiros a receber os frutos de nossos sacrifícios e abnegação! Ave Cristo! Aqueles que, por vós, seguem para a humilhação, para o exílio e, talvez, para uma morte não gloriosa, com o mais acendido amor vos saúdam e, mais uma vez, vos aclamam rei de nossa pátria.”
Os 6.000 Cristeros que se submeteram são logo massacrados, 5% da população do México foge para os Estados Unidos, para o deserto ou para a cidade grande. A maioria dos combatentes, no entanto, retomou suas ocupações civis sem se esconder. Foram estrangulados em casa, esfaqueados nos campos, fuzilados na saída da Missa, diante do povoado reunido. Até 1941 houve quem morresse nos campos mexicanos pelo singular crime de Cristiada. De 1926 a 1929, os católicos não haviam perdido mais do que 5.000 homens.
CONCLUSÃO
À revolução dos federais, com seu cortejo de violências, pilhagens ou destruição (o seu grito de guerra era “Viva el demonio”) contrapôs-se o fervor e a moralidade irretocável dos combatentes de Cristo Rei. A ordem do dia de um dos seus generais era a seguinte: “Não buscamos nem honrarias, nem ouro, nem imóveis, trabalhamos pelo reinado de Cristo e é por Ele que lutaremos até a vitória ou até a morte. Pouco importa se sucumbirmos, é preciso que o sangue dos católicos lave o México de suas enormes máculas. Portemo-nos como dignos soldados de Cristo.”
Luis Navajo Origel, declarou: “Matarei por Cristo os que matam Cristo, e talvez venha morrer por Ele, que tanto preciso disso; eu oferecerei o sangue da Redenção.” Ele caiu morto à frente da sua tropa em 10 de agosto de 1928, tinha 30 anos.
Manuel Bonilla, estudante, escreveu no seu diário de guerra: “Eu bem sei que, para as grandes coisas, Deus se serve dos pequeninos e que o remédio não vem de onde se espera… Confio na bondade de Deus: todos esses sacrifícios não serão em vão.”
Abandonado por todos, o povo católico mexicano aceitou a terrível provação das perseguições com espírito de reparação. Seu único apoio: a fé em Cristo Rei e Nossa Senhora de Guadalupe.
(Témoins du Christ, à travers les persécutions du XXe siècle, Éditions du MJCF. Tradução: Permanência)
Gustavo Corção
Um velho enxadrista, que nos seus vinte anos frequentou o Clube de Engenharia e chegou a jogar na primeira turma formada em torno de Caldas Viana, não pode perder a oportunidade de externar seu júbilo e de explicar aos leigos o significativo valor da vitória alcançada por nosso Mequinho num torneio internacional.
Antes disso, devo duas palavras ao leitor que habitualmente me vê debruçado nas questões que dizem respeito à sorte da civilização e principalmente à sorte eterna das almas. O xadrez é um jogo, um forte exercício mental mas exercício lúdico; seria melhor dizer que o xadrez é uma luta, um combate lúdico, e não um jogo, porque a ideia de jogo sugere sempre um caráter aleatório. No jogo do xadrez a “sorte” só entra como fator acidental concernente ao estado em que se acha o combatente: uma noite bem dormida ou um incidente doméstico podem predispor positiva ou negativamente, e são só essas coisas que constituem a parte aleatória da partida. Na essência mesma do jogo não há nenhum fator alheio ao exercício puramente racional. Não sei se alguém já escreveu dois ou doze volumes sobre a filosofia do xadrez. Escrevo eu esta meia dúzia de linhas para fazer o leitor sentir que se trata de um jogo que bem merece o tratamento que sempre lhe dava mestre Philidor: “le noble jeu d´échecs”; e para salientar a importância do feito de nosso Mequinho: pela primeira vez na história do xadrez do Brasil um brasileiro ingressa no Olimpo dos mestres internacionais do xadrez. E isto acontece na mesma quadra da história em que o Brasil lavrou diversos tentos de desigual valor mas de paralela significação; em 1964 nós vencemos uma densa infiltração comunista já chegada ao poder, com uma elegância dionisíaca só comparável aos passes de Tostão e aos “goals” de Pelé; tornamo-nos depois tricampeões do mundo; vencemos em seguida as insídias do terrorismo e as dificuldades para a arrancada do desenvolvimento econômico. Agora temos mais este sinal de um avanço ou da travessia de uma linha que nos confinava num provincianismo cultural.
Nosso xadrez era até aqui um xadrez de segunda classe. Na belle époque tínhamos um Caldas Viana, que conheci com a majestade de um papa do tabuleiro, autor de uma variante do Ruy Lopes, chamada “variante Rio de Janeiro”. Depois, já no meu tempo de moço, tivemos o Raul de Castro, o Barbosinha, de quem dizíamos pelas caretas que fazia quando planejava suas mirabolantes combinações, que “rocava os olhos”. Tivemos o fulgurante Walter Cruz e o perseverante Mendes Júnior, o último dos velhos que, numa comovente e memorável partida, entregou seu título de campeão do Brasil, que mantinha aos 70 e tantos anos, a um menino de 14 ou 15, que hoje tem o título de Mestre no grande xadrez internacional. E é curioso notar que nossa marginalização vinha do provincianismo em que nos fechávamos. Quando a Segunda Guerra obrigou ao exílio vários mestres enxadristas, o Brasil não soube guardar e aproveitar nenhum deles. Foram para a Argentina e lá formaram um grupo de discípulos que , em pouco tempo, colocou o xadrez argentino muito acima do nosso. Lembro-me bem de um encontro em que o jovem Panno, de 19 ou 20 anos, com terrível facilidade derrubou Walter Cruz, que era então o Campeão do Brasil.
O feito de Mequinho é sinal inequívoco que, ligado aos outros, forma uma constelação de esperanças: o Brasil está saindo do buraco.
Se me perguntarem se vale a pena incluir nas escolas, e até se vale a pena ser campeão de xadrez, ficarei perplexo e indeciso. Evidentemente não é para isto que este planeta privilegiado cobriu-se com essa inquieta e turbulenta camada de lichen racional. Não será esse, evidentemente, o sentido da vida. Estamos aqui de passagem para conquistarmos a palma de uma vitória de outra ordem; estamos no mundo, a correr, a falar, a viver, para o principal objetivo de servir a Deus e aos homens por amor de Deus. Mas o próprio livro da santa e inspirada sabedoria nos diz que há na vida “um tempo para nascer e um tempo para morrer; um tempo para plantar e um tempo para colher; um tempo para chorar e um tempo para rir; um tempo para o gemido e um tempo para a dança; um tempo para se beijarem e um tempo para se afastarem; um tempo para clamar e um tempo para calar; um tempo para rasgar e um tempo para coser; um tempo para amar e um tempo para detestar; um tempo para a guerra e um tempo para a paz”. (Ec 3, 1-8)
Não haverá também um tempo para jogar xadrez? Parece-me que sim. A grande voz dos milênios nos diz que, entre as muitas coisas que os homens devem fazer neste mundo para manifestar, para exigir e provar sua alta estirpe, podemos em hesitação incluir “le noble jeu d´échecs”, que é muitíssimo mais antigo do que o velho Philidor. A fantasia que gosta de ataviar e de zombar da erudição já propôs as mais antigas e variadas origens do jogo de xadrez. Sua origem passeou pelo remoto Oriente e pelo Oriente Próximo, e já foi atribuída, como invenção pessoal, a Sem, Jafé, Salomão, Aristóteles e outros.
As mais sérias pesquisas parecem provar que o xadrez nasceu na Índia. As regras e as peças mudaram ao longo dos séculos, e até hoje, xadrez universal, guarda a marca de variações culturais. Assim é que a peça que em inglês e português se chama Bishop e bispo em espanhol se chama alfil e em francês é fou (no sentido de bobo do rei). Essa peça, que no xadrez moderno tem o mesmo valor do cavalo (em português) e do Knight (em inglês), tem a peculiaridade de se mover permanentemente, fielmente, nas casas de mesma cor. Daí poderá alguém tirar considerações e reflexões irreverentes, quando ponderar a facilidade com que hoje os bispos mudam de cor no xadrez do mundo.
E por falar nisto devo observar que entre nossos jovens jogadores de bom quilate existe um chamado Hélder Câmara, que, certamente é filho ou parente de Gilberto Câmara (irmão ou primo do arcebispo), que foi campeão do Ceará, e com quem, em tempos fabulosamente antigos, tive o prazer de jogar, e de quem mereci, no livro que deixou, Peão na sétima, a publicação de uma partida jogada e empatada com o campeão da Argentina pelo autor destas mal traçadas linhas, que também teve um tempo para jogar com os bispos e tempo para lutar com outros bispos... mas isto é outra história.
Hoje é tempo de aplaudir Mequinho e de esperar o dia em que ele trará para o Brasil o título de Campeão do Mundo.
(O Globo, 20/1/1972)
Pe. Juan Carlos Iscara, FSSPX
Há duas: unidade e indissolubilidade. Essas propriedades derivam da própria natureza e fins do casamento. Portanto, elas não dependem da vontade dos esposos e não são afetadas pelas circunstâncias acidentais de um casamento concreto.
Unidade é o laço existente entre um homem e uma mulher. É exigido pelo fim primário do casamento, que é a procriação e a educação dos filhos. Opõe-se à poliandria (uma mulher com vários maridos), pois esta tornaria a paternidade incerta e, como consequência, também tornaria incerto a quem incumbe o dever de educar os filhos. Além disso, é antinatural não saber e, portanto, não poder honrar o próprio pai. Em sentido estrito, a unidade não se opõe à poligamia (um homem com várias mulheres), mas causa várias dificuldades, tanto em relação à educação dos filhos quanto ao fim secundário do casamento.
A unidade também é exigida pelo fim secundário do casamento, o amor mútuo e apoio dos esposos. A poligamia causa uma desigualdade de direitos entre os esposos, pois o homem tem direitos plenos, exclusivos sobre a mulher, mas não a mulher sobre o homem. Além disso, ela afeta o verdadeiro amor humano e espiritual e causa discórdias e invejas entre as mulheres e os filhos.
Indissolubilidade significa que o laço persiste enquanto os esposos viverem e que não pode ser dissolvido por qualquer motivo. É exigida pelo fim primário, porque tanto o cuidado quanto a educação dos filhos requer a união permanente dos esposos. Mesmo se eles não tiverem filhos, a regra geral não é afetada por circunstâncias concretas (a lei não se funda sobre casos extraordinários)
De todo modo, o fim secundário do casamento ainda exige a indissolubilidade. O amor humano não é apenas um impulso sexual – o sexo é que faz parte do amor humano. Sem a indissolubilidade, há o risco de se tornar uma presa do egoísmo dos instintos, e da união familiar ser abandonada aos caprichos de nossos movimentos de prazer. A indissolubilidade defende o amor conjugal, pois o verdadeiro amor é necessário para o auxílio mútuo e a perfeição dos esposos.
A vida comum e o auxílio dos esposos requer esforço diário. Se a possibilidade do divórcio existe, há que se lembrar que ela tem um efeito ampliativo sobre os conflitos inevitáveis que surgem na vida comum.
Além disso, a dissolução de um casamento afeta os filhos moral e afetivamente, além de ser uma injustiça com o esposo, pois a promessa de entrega de si feita na cerimônia do casamento é esquecida em face das dificuldades.