Skip to content

Category: PensamentoConteúdo sindicalizado

A reação católica

Mons. Louis-Gaston de Ségur

Somos reacionários? Não, se por reacionários entendemos os espíritos amuados, sempre ocupados em lamentar o passado, o antigo regime, a Idade Média. “Ninguém, bem dizia o bom Nicodemos, pode retornar ao ventre de sua mãe para nascer novamente”; sabemo-lo muito bem, e não desejamos o impossível.

Sim, somos reacionários, se se entende por isso os homens de fé e de coração, católicos antes de tudo, que não transigem nenhum princípio, não abandonam nenhuma verdade, respeitando, em meio às blasfêmias e ruínas revolucionárias, a ordem social estabelecida por Deus, decididos a não recuar um passo sequer diante das exigências de um mundo pervertido, e guardando como um dever de consciência a reação anti-revolucionária.

Dizemo-lo a toda hora, a Revolução é o grande perigo que ameaça a Igreja hoje. Seja o que digam os mistificadores, este perigo está às nossas portas, no ar que respiramos, em nossas ideias íntimas. À véspera de grandes catástrofes, sempre se encontram estes incompreensíveis cegos, surdos e mudos, que querem nada ver, nada compreender. “Está tudo bem, dizem eles; o mundo jamais foi tão esclarecido, a fortuna pública tão próspera, o exército tão bravo, a administração melhor organizada, a indústria mais florescente, as comunicações mais rápidas, a pátria mais unida”. Eles não enxergam, não querem ver que esta ordem material acoberta uma profunda desordem moral, e que a mina prestes a desabar é a base do edifício. Mistificados e mistificadores, eles abandonam a defesa, deixam-na aos demais e oferecem à Revolução a Igreja desarmada. (continue a ler)

Prefácio ao livro A Descoberta do Outro

Como já é do conhecimento de muitos acaba de ser reeditado o primeiro livro de Gustavo Corção - A Descoberta do Outro. Durante muitos anos várias editoras procuraram em vão os herdeiros de Corção para pedir autorização de publicar esta obra-prima do nosso fundador e mestre. Agora foi acordado à Vide Editorial. Mérito deles.

Não posso deixar de recomendar vivamente a leitura deste livro e a Editora Permanência não deixará de promover sua venda. Por outro lado, resta-nos uma ponta de tristeza pois, sendo os herdeiros espirituais do pensamento e do combate de Gustavo Corção, seria muito mais coerente e natural que nós pudéssemos difundir a obra de Gustavo Corção. Mas não nos foi acordada essa possibilidade. 

No intuito de aconselhar a leitura e de assinalar os aspectos mais importantes desse livro único no seu gênero, e para ajudar o leitor menos acostumado com as belas letras, escrevi o Prefácio que segue. 

Foi aos dezesseis anos que eu li pela primeira vez A Descoberta do Outro. Abri-o como quem abre um testamento, tão grande era a presença do autor em minha vida. Em casa o chamávamos Vovô Corção, pois de fato ele fora um pai para o meu próprio pai. O pensamento e a obra de Gustavo Corção tornaram-se como uma herança espiritual que recebi enquanto crescia, e que assumi na Permanência.

Ao longo desses 40 anos reli este livrinho dezenas de vezes, ora por gosto, ora por estudo. Em 1980, por exemplo, foi para ajudar na revisão da edição francesa, publicada em 1987. Mais recentemente, colaborei na preparação de uma matéria sobre Gustavo Corção, na Revista Conhecimento Prático de Literatura[1], e mais uma vez fui buscar o primeiro livro do grande escritor para ilustrar o artigo que escrevi para a ocasião.

(Clique aqui para continuar a leitura)

Civilização católica e erros modernos

Donoso Cortés

 

CARTA AO CARDEAL FORNARI

 

Eminentíssimo Senhor:

Antes de submeter à alta penetração de Vossa Eminência as breves indicações que houve por bem pedir-me em carta de maio último, parece-me conveniente assinalar aqui os limites que me impus a mim mesmo na redação destas indicações.

Entre os erros contemporâneos não há nenhum que não se reduza a uma heresia; e entre as heresias contemporâneas não há nenhuma que não se reduza a outra, condenada de há muito pela Igreja. Nos erros passados, a Igreja condenou os erros presentes e os erros futuros. Idênticos entre si quando considerados sob o prisma de sua natureza e de sua origem, os erros oferecem, todavia, o espetáculo de uma variedade portentosa quando vistos através de suas aplicações. Meu propósito hoje é considerá-los mais pelo lado de suas aplicações do que pelo de sua natureza e origem; mais pelo que tem de político e social do que pelo que tem de puramente religioso; mais pelo que tem de diverso do que pelo de idêntico; mais pelo que tem de mutável do que pelo de absoluto.

Tradição, tradição católica e falsa tradição

 

Paolo Pasqualucci

Sumário:

1. A noção de tradição. 2. Tradição cristã e não “judaico-cristã”.  3. Definição da Tradição católica. 4. A Tradição católica não contém nada de secreto, ela não é esotérica. 5. A noção esotérica da tradição é irracional e falsa. 5a. A inversão do significado da Cruz por René Guénon.

Em geral, todos consideram bem conhecido o sentido da palavra “tradição”. Nós, todavia, julgamos importante defini-lo corretamente. É o que faremos neste artigo.

1. A noção de tradição.

Antes de tudo, a idéia de tradição compreende a de certos valores transmitidos e preservados ao longo de gerações. Transmitidos e preservados, ou seja, ensinados e apresentados como valores a se respeitar, visto que constituem o fundamento inalterável de uma determinada concepção de mundo e, conseqüentemente, do modo de viver de uma sociedade — compreendida globalmente enquanto povo. Com efeito, a tradição se materializa nos costumes. A idéia de tradição está, portanto, ligada à de valor e costume. Não há aqui lugar para uma definição subjetiva do que é o valor: o valor preservado pela Tradição é precisamente aquele que se impõe pelo fato de fundar essa mesma tradição e de pertencer-lhe, a despeito do que pensam os indivíduos, que devem reconhecê-la e obedecê-la.  Leia mais

Vida intelectual versus vida de curiosidade

(Esta conferência foi proferida na Jornada de Formação do MJCB em 2012. Apresentamos aqui a sua transcrição).

 

Pe. Luiz Cláudio Camargo FSSPX

A obra que estamos propondo realizar em nossos priorados consiste exatamente na idéia da universidade: versus unum. A universidade é a reunião de todas as faculdades, iluminadas pela Teologia. A nossa vida precisa alcançar essa unidade mais elevada, e o lugar privilegiado para isso, na situação em que nos encontramos hoje, são os nossos priorados.

Quero comparar aqui os elementos normais da vida intelectual — o ato, a estrutura da vida interior — com a sua deformação. Gostaria de comparar a vida intelectual com a vida de curiosidade, e daí tentar tirar os conselhos práticos para a vida especulativa. 

Pode-se dizer que há duas partes no esforço intelectual. Em primeiro lugar, há o que se pode chamar de studium, o estudo. Em latim, a palavra studium significa esforço. É interessante notar que toda a primeira parte, a do esforço intelectual, por causa da união e da relação entre o corpo e a alma, é necessária para se chegar ao ato específico em que a inteligência enxerga o seu objeto. Ela exige um esforço muito grande. O modo pelo qual chegamos ao conhecimento é um modo laborioso, chamamo-lo de modo racional. É necessário ruminar até se chegar ao saber. Em seguida, temos um ato próprio, específico, e o efeito próprio pelo qual a inteligência vê o seu objeto, alcança-o, pode ser chamado de gaudium. Então, alcança-se a idéia e a alma repousa. Leia mais

Pode a Igreja morrer?

Dom Lourenço Fleichman OSB

Muitas pessoas me pedem que atualize com mais freqüência o site. Confesso que não tenho conseguido me dedicar mais a este apostolado, levado pelo excesso de trabalho nas quatro capelas sob minha responsabilidade, nas revisões doutrinárias dos livros que editamos e na cura das almas. Estamos iniciando agora o projeto do Colégio São Bernardo, a primeira escola da Tradição no Brasil, sobre a qual falaremos a seu tempo.

Felizmente tenho a ajuda de uma equipe atuante no que toca a produção da Revista Permanência, de outra forma não conseguiria manter o ritmo dos lançamentos trimensais. Confesso que é um trabalho que nos traz muita satisfação.

Agora mesmo assistimos a mais um grave escândalo do ecumenismo desenfreado. A reunião promovida pelo papa Francisco I dentro do Vaticano, no domingo de Pentecostes é apenas um gemido naturalista, um grunhido da História, dentro da obra destruidora do Vaticano II.

LEIA A CONTINUAÇÃO

A república do pensamento

A REPÚBLICA DO PENSAMENTO

(A POLÍTICA ABSTRATA)

Alfredo Lage

 

Todas as civilizações, uma vez esgotadas as virtualidades humanas contidas nas formas coletivas que as constituem, e que exprimem a essência do homem dentro de certas condições particulares de tempo e lugar, tendem a se tornar repetitivas e a manifestar sintomas de esclerose. As estruturas que deviam ser meios para a expressão do homem e instrumento da sua atuação sobre o ambiente antepõem-se ao mundo real, passam de meios a fins, tornam-se fatores de isolamento e de irrealidade.

Nesse momento geralmente surgem elementos alheios à esfera dessas estruturas e que conservam a possibilidade de alguma relação mais direta com a realidade — assim, os romanos em face dos gregos, os bárbaros cristianizados relativamente aos romanos, etc. os antigos portadores de uma civilização ora são deixados à margem e “colonizados”, como as elites hindus pelos ingleses, ora são substituídos aos poucos, ou são varridos de um golpe, como os dominadores indígenas do México pelos espanhóis, etc.

A chamada civilização ocidental cristã não parece fazer exceção a essa regra. Cabe evocar aqui a mecanização da vida, a disseminação de uma cultura enlatada, a padronização forçada do indivíduo, enfim, uma tendência universal para o nivelamento sócio-cultural, tendência para passar do complexo para o simples e do diferenciado para o indiferenciado, que parece ser a lei da matéria e das coisas que se deixam arrastar pela entropia crescente do mundo físico. No nosso caso, desde o século XVIII, o peso das estruturas materiais mostra sinais de predominar sobre o espírito[1]. Mas ao mesmo tempo — e essa circunstância serviu para confundir o faro dos historiadores — aumenta consideravelmente o domínio do homem sobre o mundo físico. Declinam as forças criadoras à proporção que os meios da técnica se tornam mais perfeitos[2]. O chamado progresso técnico esconde aos olhos de muitos a realidade do processo que Spengler chamava o “ocaso do Ocidente”.

Seria fatal esse processo? Resta saber. Mas o fato é este: no momento em que a evolução do mundo vai ser entregue ao automatismo das forças materiais, e todos se comprazem (ou se conformam) com a idéia de submeter o curso da civilização ao incremento necessário dos meios de dominar a natureza, desenha-se no horizonte uma grande abdicação da inteligência, e surge uma forma aguda de irrealismo espiritual.

As teorias do liberalismo preparam uma primazia do sistemático sobre o vital e do técnico sobre o econômico. Primeiro: no centro motor da ordem social, no lugar da monarquia destronada ou da aristocracia que aboliu, a Revolução Francesa colocou não um princípio pessoal, ou uma nova elite responsável, mas uma Razão impessoal, cujo desdobramento, desimpedido dos inúmeros “embaraços” de ordem particular representados pelos privilégios e liberdades incorporados à antiga legislação, devia assegurar automaticamente o progresso decorrente da perfectibilidade indefinida do homem. Depois, à direção e iniciativa individual em economia substitui-se aos poucos a ação do poder público, ao passo que a regulação última da atividade econômica passa de um princípio natural: a necessidade do consumidor, para um princípio técnico: a produtividade. É importante conhecer esse processo[3]. Primeiro, o empreendimento torna-se um “instrumento de lucro”, um mecanismo independente dos homens que o realizam e de sua própria finalidade natural. Como um organismo autônomo, ele busca então seus interesses e finalidades em obediência a uma lei própria de conservação e de expansão (qualquer regulação propriamente humana — assim é alegado — perturba o jogo normal da concorrência). Em seguida, a empresa como unidade básica da atividade econômica e como comunidade natural especificada por um fim produtivo ou um ramo de atividade é englobada seja pelos monopólios, seja por grupos de empresas cujo fim é o bem de um império financeiro. Finalmente, “atendendo aos apelos dos próprios interessados — como salienta de Corte — o Estado se imiscui na totalidade do processo econômico”; essa primeira intrusão provoca uma reação em cadeia: “todos os grupos econômicos passam a exigir o apoio do Estado”.

De atividade que no mundo antigo era estritamente privada — de ordem aliás sobretudo doméstica (uma denominação usada ainda para  designar a empresa: casa reflete esse fato) — a economia pende modernamente para a ordem pública. (Ao inverso, observou certa vez Hannah Arendt, as coisas que na antiguidade, como de resto na natureza das coisas, pertenciam à esfera cívica ou à órbita da vida pública, como a opinião política ou a religião, sob o liberalismo, tendem a ser consideradas como assuntos de foro interno).

A confusão entre as esferas do público e do privado foi extremamente prejudicial para ambas. De um lado, como observa de Corte, “os detentores do poder econômico que, no intuito de acrescer o seu império, obrigam o Estado a sustentar as suas empresas ou a mantê-las artificialmente, assumindo-lhes as dívidas, são vítimas do seu sucesso. Fazem a economia transferir-se infalivelmente da esfera privada para a esfera pública. Em vez de assumirem os riscos e fracassos que todo empreendimento humano comporta, tornam-se parasitas do poder político. Crêem dirigir o Estado mas, de fato, o Estado é que os submete a suas próprias imposições... e que acaba, sob a pressão conjugada de todas as forças ou, mais exatamente, de todas as fraquezas econômicas, por tornar-se o único motor da economia e o só proprietário dos meios de produção”.

De outro lado, a absorção da esfera privada do econômico pelo Estado determina uma degenerescência do Estado, usado afinal como simples instrumento de coação por uma oligarquia ou, pior ainda, por um tirânico Poder paralelo instalado pela Revolução. “Deslocando continuamente os limites que separam o setor público do privado — cito agora de Corte — estende e acresce o Estado seu poder; mas como age, no caso, sob a pressão de grupos econômicos, de fato ele o contrai e enfraquece. Seu poder se dilata na proporção em que é menos Estado — poder supremo a serviço do bem público. Se ele cada vez mais dirige, é na medida em que é cada vez mais dirigido”. No caso limite, tudo o que resta do Estado como instituto jurídico e como órgão finalizado pelo bem comum é a esfera administrativa dos serviços públicos hipertrofiada para englobar os negócios econômicos e os setores nacionalizados. Torna-se assim o Estado um mero instrumento do poder revolucionário ou do poder oligárquico, e se subordina à produtividade. O critério supremo da res publica será o desenvolvimento tecnológico e o incremento da produção. O homem como fator econômico de produção e de consumo ficará abrangido na esfera dessa universal “administração de coisas”, ele próprio reduzido pelo critério mensurável da eficiência a uma “coisa”.

Desse modo, o sistema assume precedência sobre a função econômica, a qual, como acentuou Pio XII, “não mais, de resto, do que qualquer outro ramo da atividade humana — constitui, por sua natureza, uma instituição do Estado; ao contrário, a economia é o produto vivo da livre iniciativa dos indivíduos e dos grupos que eles espontaneamente constituem”. Ao invés de ser regulada por um princípio real: a necessidade do consumidor (expressa pela demanda) passa agora a economia a ser regida por um critério abstrato: a produtividade e regulada pelo Estado a título de função econômica da Sociedade[4]. Essa precedência do abstrato sobre o concreto é o padrão que veremos sob o liberalismo insinuar-se em todos os domínios da atividade humana.

“A economia se artificializa em rápida cadência, continua de Corte. Seu sentido não mais deriva das suas atividades econômicas reais ou do fim que a natureza lhes impõe... O economista é chamado a pôr ordem, a introduzir uma estrutura numa coisa amorfa. Como essa ordem e essa estrutura deixaram de provir da realidade econômica definida por sua finalidade, ou da natureza das coisas, resta que seja imposta de fora como o plano de um mecanismo, graças ao apoio do poder político”. Desse modo, como já observara Pio XI, a propósito do antigo liberalismo, não são as necessidades humanas, conforme a sua importância natural e objetiva, que regulam a vida econômica e o emprego dos fatores de produção, mas, ao contrário, os interesses econômicos é que determinam quais as necessidades que devem ser satisfeitas e em que medida.

*

De qualquer sorte, o mundo moderno, instaurou-se sob a égide de uma dupla demissão do homem. Tanto em economia como em política, relega-se a realidade do espírito (presente na História pela decisão humana capaz de introduzir um fator novo: a liberdade) à margem da vida prática. O homem abdica da sua responsabilidade última. Deixa-se arrastar pelo Sistema. O resultado é a tirania. Pois assim como o governo impessoal, por consulta à “vontade geral”, na realidade é um governo pessoal e oculto que maneja grandes massas passivas e espiritualmente ausentes, assim também, a economia liberal é de fato uma economia dirigida por um poder oligárquico discreto através de um corpo de especialistas. Tudo converge para um só fim: substituir a sociedade política por uma gigantesca corporation,[5] converter um governo de homens na operação de um sistema e organismo dirigente da sociedade numa tecnocracia político-econômica alheia a toda finalidade ética ou espiritual. Fazendo “de necessidade virtude”, as elites responsáveis glorificam a sua abdicação sob a forma de um culto à Razão imanente e divina. A religião do progresso empresta virtudes mágicas à simples mudança, poder automático de transfiguração. Tudo o que muda se renova. Tudo o que se renova, sobe e o que sobe converge para a unidade do Divino. Os intelectuais transformaram o seu desentrosamento da realidade no acicate da contradição. Já que não podem influir na ordem de coisas vigente, fazem-se seus detratores e afinal seus destruidores pela exigência constante de renovação. Paralelamente ao mundo concreto constroem uma região do Absoluto, um reino teorético dos valores, de onde tiram os critérios para julgar o atual. Pois trata-se de um absoluto imanente, trata-se de um estranho mundo separado, abstrato e, ao mesmo tempo, mais real do que o mundo real, já que o norteia como seu modelo platônico baixado à terra.

Por volta de 1770, funda-se na Europa uma república singular. Escreve Augustin Cochin: “A República das Letras é um mundo onde se conversa, mas onde nada se faz a não ser conversar, onde o esforço de cada inteligência busca o assentimento de todos, i. é, a opinião, assim como, na vida real, busca a obra e o efeito”.

Eis aí — eu é que agora sublinho — eis aí o irrealismo. No mundo real, a inteligência procura adequar-se ao que é, quer dizer, atingir a verdade. Aqui, visa a acordar-se (ou afinar-se) com outros espíritos num mesmo esquema mental ao qual conformará o dado exterior. “On cause, prossegue Cochin. On est là pour parler, non pour faire”. Ou por outra, a obra aqui é verbal. As pessoas se reúnem para fazer a opinião.

E que significa a glorificação do “diálogo” e a reverência diante da “comunicação” senão que se pôr de acordo com alguém sobre alguma coisa é mais importante do que conhecer-lhe a natureza? Ora, como observa Marcel de Corte: “só pode haver concordância, harmonia, união real entre os corações, porque há valores e objetos independentes de nós (...) Sem esse fundamento objetivo para o esforço solidário dos membros de uma sociedade, sobre que se há de fundar a sua concordância? Só cabe uma resposta: sobre palavras (...) Enquanto numa sociedade viva o ser social faz a opinião real, na “dissociedade” democrática a opinião é que faz o ser social e constrói a sociedade. Aqui, não é pois o ser do vero, do bom, do belo participados que dá origem à opinião e que a faz existir mas, ao contrário, a opinião é que gera os valores de verdade, de bondade, de beleza. A OPINIÃO FAZ O SER.[6]

“Eu quisera que os filósofos constituíssem um corpo de iniciados. Então morreria contente”, escreve Voltaire a d’Alembert. E já em 1758: “Amotinai-vos e dominareis: eu vos falo como republicano, mas trata-se — é bem de ver — da república das letras; pobre república!” Retoma Cochin: Esses augúrios do patriarca se cumprem e até com demasia a partir de 1770: a república das letras está fundada e organizada, e intimida a Côrte. Tem seus legisladores: a Enciclopédia; seu parlamento: dois ou três salões; sua tribuna, a Academia Francesa, onde Duclos introduziu e, após 15 anos de luta perseverante, de política conseqüente, d’Alembert fez reinar a filosofia. Sobretudo, em todas as províncias, possui colônias e agencias; nas grandes cidades, as Academias; nas pequenas, as salas de leitura. De um extremo a outro dessa grande rede de sociedades, há um perpétuo vaivém de cartas, mensagens, votos, moções, um imenso concerto de palavras, de admirável harmonia: o exército dos filósofos disseminado pelo País, onde cada cidade tem sua guarnição de pensadores, seu “foco de luzes”, adestra-se em toda a parte no mesmo espírito, exercita os mesmos métodos, num idêntico trabalho verbal de discussões platônicas. De tempos em tempos, a um sinal de Paris, há um congraçamento geral para as grandes manobras, os “casos”, as “affaires”, como já então se dizia, i. é, incidentes judiciários ou políticos. Há sublevações contra o clero, contra a corte e mesmo contra tal ou qual imprudente particular, Palissot ou Pompignan, ou Linguet, que julgaram poder atacar essa curriola como qualquer outra, e, com estupor, vêem alçar-se de um golpe, desde Marseilles até Arras e de Rennes a Nancy, o enxame inteiro dos filósofos.  

“Pois há perseguições — outra praxe de seita — (prossegue Cochin). Antes do Terror sangrento de 1793, houve, de 1765 a 1780, na república das letras, um terror seco, de que a Enciclopédia foi o comité de salut public e d’Alembert o Robespierre. Ele ceifa as reputações assim como o outro as cabeças. Sua guilhotina é a difamação, a infâmia, como então se dizia (...) A operação noter d’infamie conota um curso processual bem definido, que comporta inquérito, discussão, julgamento e, enfim, execução, quer dizer, condenação pública ao desprezo...”(Les Sociétés de Pensée et la Démocratie Moderne, Plon, Paris, 1921, ps. 4-6).

Esse trabalho das idéias abstratas acarreta finalmente, um imenso poder social. Poder essencialmente nivelador. Apenas, esse poder se exerce não diretamente, mas através de uma sociedade em miniatura, de um mundo separado e de um poder paralelo. “Os habitantes desse mundo, escreve Cochin, vêem-se situados num outro ponto de vista, numa vertente diversa, ante propósitos que não são os da vida real. Esse ponto de vista é o da opinião, “a nova soberana do mundo”, como diz Voltaire, que saúda o seu advento na cidade do pensamento (Ibid. p. 9). Toda essa agitação intelectual, esse trabalho incessante de elaboração verbal não conduz ao menor começo de obra no mundo real, à mais pequena iniciativa construtiva, como hoje diríamos. “O termo, não digo o objeto desse trabalho passivo, observa o historiador, é uma destruição. Consiste em suma em eliminar, em reduzir. O pensamento que a ele se submete perde a preocupação, depois, pouco a pouco, o sentimento, a noção do real (p. 15). “C’est l’opinion qui fait l’être”. As conseqüências sociais são terríveis. O concreto é substituído pelo ideal. A justiça declamatória corrói a real. A Liberdade com maiúscula extingue as liberdades. Assim como o amor abstrato da humanidade é uma forma niveladora de ressentimento, não há despotismo comparável ao da Razão entronizada. “O que me perturba, escreve Cochin, é reduzir essas apavorantes e diabólicas conseqüências ao fato insignificante que as explica, tão banal, tão miúdo: conversar. No entanto nisto reside o essencial” (p. 8).

*

Ligando de volta essas considerações ao seu ponto de partida, observarei que estamos diante da mais espantosa abdicação da inteligência. Conversar (hoje dissemos dialogar) é buscar na convivência compulsiva dos outros, às expensas quase sempre da realidade, uma unanimidade confortante. O indivíduo atomizado carece da aprovação do grupo para existir. O regime de opinião é o reino do conformismo, o predomínio que o contágio de massa vai adquirindo sobre as manifestações sempre individuais do gênio, do senso crítico e da capacidade criadora. E sendo a inteligência a faculdade do real, esse regime instaura, insensivelmente, o domínio incontestado do mito. Governar, de um lado, será construir as mitologias de massas, de outro, condicionar os espíritos para a aceitação desse irrealismo. Vejamos este último aspecto.

Com efeito, é em técnicas precisas de manipulação do pensamento e na imposição calculada de um mimetismo gregário que se fundamentam as práticas políticas do regime de opinião. O reino da opinião é o governo dos seus manipuladores, cujos processos só no mundo contemporâneo deram todos os seus frutos, atingindo, nas chamadas técnicas de animação de grupos, a sua maior perfeição e eficácia. Os grupos são os corpos fortuitos que na sociedade de massa substituíram as antigas comunidades naturais ou corpos intermediários, como se dizia, baseados em princípios naturais de convivência, como a profissão, a família, a paróquia, as “ordens” hierárquicas da sociedade, ou a comunidade local (cidade, município, comarca, etc). Exatamente porque não têm uma base natural, os grupos fortuitos, como as multidões das grandes cidades, carecem de uma animação extrínseca, de uma dinâmica incutida para existir. Reduzem o homem à condição abstrata de elementos social constitutivo. Daí serem o campo ideal para ação de minorias propulsoras das reformas igualitárias. As campanhas de opinião desencadeadas na imprensa e no seio das massas pelos pequenos grupos motores (como as sociedades para a promoção disto ou daquilo) preparam o terreno para a política e a legislação niveladoras que aos poucos arrancam o indivíduo às comunidades onde se enraizava naturalmente a sua vida e a sua atividade. Abolição dos “privilégios”, discriminações contra o clero e as instituições eclesiais, centralização da administração e do ensino, expulsão das Ordens e Congregações religiosas, separação da Igreja e do Estado; adoção do salário individual e do assistencialismo estatizado, proletarização das comunidades rurais, formação individualista nas escolas, lei do divórcio, monopólio estatal da educação, abolição das antigas divisões territoriais autônomas (substituídas por “departamentos” administrativos), etc. Eis em suma os processos usados para extrair o homem de seu meio formativo natural a fim de entrega-lo inerme ao mecanismo do Estado. Repito: aí temos, arroladas em rápido inventário, as metas e a substância da obra desagregadora do liberalismo inaugurada em 1789, continuada sob a Monarquia de Julho e a Terceira República e reativada hoje com as campanhas pela “liberdade contraceptiva”, a legalização do aborto, a abolição total da censura, o reconhecimento legal da homossexualidade, a legalização da eutanásia, a oficialização da Universidade contestatária etc., etc. Esse quadro ficaria incompleto se não mencionássemos a dissolução das antigas “ordens” sociais (clero, nobreza, tiers état) nas chamadas “classes” e a substituição das corporações profissionais pelos sindicatos. As classes (burguesia, proletariado) são formações sociais baseadas não numa função concreta ou numa realidade social que aproxima os homens, mas em semelhanças abstratas como “nível de vida”, gênero de atividade, estatuto funcional, etc. Seu arquétipo de primitivo manancial são os “proletários” de Marx (abusivamente identificados com as classes trabalhadoras); os “proletários”, nesse sentido, são os deserdados absolutos, os outsiders físicos — por isso mesmo supostamente imunes ao condicionamentos ideológicos do pensamento — assim como aintelligentsia, a classe intelectual, são os outsiders morais por vocação. Suas condições de existência não se realizam perfeitamente em nenhum segmento ou conjunto real de trabalhadores, já que os “proletários” como tais não passam de uma idéia limite, de uma abstração.[7]

*

Graças à unanimidade ostensivamente “sem mestres e sem dogmas” das sociedades ideológicas (cito mais uma vez Cochin), “o filosofismo é capaz de desencadear uma falsa opinião, mais ruidosa, mais unânime, mais universal do que a verdadeira. É pelo treinamento e a perfeição do trabalho conjunto da claque, que o sistema faz “passar” uma peça de teatro de baixa categoria. Tão bem exercitado é o pessoal das sociedades, que essa claque se torna até sincera; tão bem disseminada está pela platéia que a si mesma se ignora: cada um dos espectadores toma-a pelo público. Ela imita a amplidão e a unidade de um grande movimento de opinião, sem perder a coesão e a conduta de uma cabala (...). não há argumento nem sedução que atue sobre a opinião como esse fantasma dela mesma. Cada indivíduo se submete ao que julga aprovado por todos. A opinião acompanha a sua contrafação, e da ilusão nasce a realidade” (Ibid. ps. 21-2).

Se hoje estamos em situação de avaliar perfeitamente a penetração e a justeza das observações acima. Comparemo-las, por exemplo, com certas conclusões de Etienne Malnoux a respeito das assembléias e reuniões da Sorbonne sublevada em maio de 1968: “À primeira vista, escreve Malnoux, essas assembléias (...) davam uma impressão de anarquia, de incoerência, de espontaneidade; todos os estudantes tinham sido convidados; não havida pois nenhuma coerência de grupo, nenhuma unidade”.

“Mas a tribuna era ocupada e o microfone guardado por um grupo, uma equipe que preparara a reunião, fixara uma ordem do dia, conforme os métodos clássicos: essa equipe compunha-se de um presidente de mesa, de um ou dois relatores que expunham os resultados dos trabalhos das “comissões” e que apresentavam as moções. Esse grupo animador dispunha do auxílio de um ou mais grupos de apoio disseminados na sala, de um serviço de ordem, e também de alguns “figurantes” cujo papel seria intervir no debate para sustentar o grupo dirigente, no caso de se manifestar alguma oposição, e impedi-la de se exprimir, pedindo constantemente a palavra. Essa organização revolucionária era articulada com muita habilidade. Dava ao neófito a impressão de espontaneidade, de uma consciência coletiva a exprimir o sentimento e a vontade livremente manifestada do grupo ali reunido. Na realidade, era tudo combinado, tudo fruto das manigâncias de uma equipe animadora perfeitamente coerente bem treinada, emanada de agrupamentos que se adestravam cuidadosamente nas técnicas de animação de grupos (...)”.

“Em suma, numa vasta assembléia inorgânica e heterogênea, composta de indivíduos isolados que não se conhecem, e convocados para apreciar uma ordem do dia muito vaga, que não tiveram a ocasião de estudar, e à qual portanto dificilmente poderiam trazer a contribuição de soluções adequadas, um grupo coerente, organizado, que examinou as questões e que traz respostas preparadas não encontra muita dificuldade para impor-se e fazer que prevaleça seu ponto de vista” (“Techniques d’Animation Culturelle et Conditionnement Révolutionaire” ap. Culture et Révolution (Actes du Congrès de Lausanne V) ps. 239-242).

Uma sociedade de massa, precisamente, é um conjunto de “indivíduos isolados, que não se conhecem”. Nas assembléias inorgânicas que constituem, um grupo coeso de indivíduos que, estes sim, se conhecem e que ocultam essa circunstância, indivíduos versados em certas táticas de dissimulação, de liderança invisível, não tarda a impor a sua vontade. O regime soi-disant popular, revolucionário, ou de democracia direta, regime de poder impessoal, na realidade é um regime de poder pessoal e secreto.

Dois outros traços devem ser assinalados, ainda que resumidamente, para terminar este perfil da República do pensamento. Destes, o primeiro que mencionarei, o terrorismo, é bem conhecido. Um clima permanente de terror é necessário para manter o indivíduo numa situação de parcela isolada e perdida num todo amorfo que o engloba. O terror impede que o indivíduo se subtraia ao poder paralelo, encontre a sua expressão própria e refaça as conexões vitais com o ambiente através dos corpos intermediários: a família, as comunidades territoriais de base, a corporação, a igreja, etc. Pois na sociedade de massa nada deve se interpor entre o indivíduo puramente inerte, passivo, e o Estado (como instrumento do Poder paralelo), fonte de toda iniciativa vital e criadora. O terrorismo é o grande liquidificador cultural. O outro traço, regra geral menos debatido, resulta de certo modo do primeiro. É a degradação humana e cultural. Pois a cultura é sobretudo o fruto da atividade espontânea do indivíduo sob a proteção vital de grupos intermediários livremente constituídos. Subordinada ao primado da eficiência, a Tecnocracia estanca o processo natural de formação das elites. E aqui voltamos às nossas considerações sobre a “decadência do Ocidente”.

Esse clima de aviltamento do homem impressionou vivamente todos os observadores imparciais dos últimos eventos revolucionários em França. “A Revolução de maio de 1968 da intelligentsia subdesenvolvida, do proletariado intelectual fracassado — escreve Malnoux — constituiu uma extraordinária explosão de imbecilidade. Por uma ironia diabólica, foi obra do que se supunha a nossa elite intelectual” (Op. cit. P. 244).

Quem hoje pode avaliar o que, em matéria de cultura, foi irremediavelmente sacrificado ao terror Staliniano (pensemos na ceifa de talentos resultante dos sucessivos expurgos, no pompierismo glorificado e oficializado da arte soviética, etc.) ou o que na China pereceu sob a fúria desencadeada na Revolução Cultural.

Fenômeno de decadência, forma aguda de abdicação da inteligência, o progressismo social-revolucionário ameaça hoje o conjunto da cultura no Ocidente. Os remédios que porventura sejam eficazes contra ele dependem de uma condição prévia: uma tomada de consciência.

 

Alfredo Lage, A Recusa do Ser — A Falência do Pensamento Liberal, , Parte I, Cap. II, Agir 1971.

 

Notas:

[1] Não reclamava Bérgson um “supplément d’âme” para a sociedade industrial? A “cara negativa” do progresso técnico, como diz Hermann J. Meyer, compreende a padronização do pensamento, sua redução ao plano do pensamento calculador, a dissolução das comunidades naturais e da própria família, o cerceamento da liberdade individual por obra da racionalização, etc. Sem contar que a destruição do ambiente natural, o congestionamento dos centros urbanos e o excesso de “mudanças não significativas”, convertem às vezes o progresso técnico num logro e num pesadelo. E há uma grande aspiração da nossa barbárie interna, negativa e tecnológica, à barbárie externa. O desmoronamento interior, como um vácuo espiritual, é um chamamento de elementos estranhos à tradição do Ocidente.

[2] Não há contradição nenhuma entre essas afirmações. No primeiro caso, trata-se da criação de formas civilizacionais. No segundo, de estruturas técnicas da ciência, que poderiam passar, talvez, praticamente intactas, de uma civilização para outra.

[3] Ninguém o descreveu com mais clareza do que Marcel de Corte, cujo estudo “L´Economie à l’envers” (ap. “Itinéraires” n° 141) é a mais completa e profunda análise do ponto de vista filosófico da atual conjuntura sócio-econômica.

[4] “O termo do processo econômico — eis o ponto capital salientado por de Corte — é não o consumo mas o consumidor, isto é, o indivíduo de carne e osso. Ele é que unicamente é capaz de consumir os bens materiais; é o ser humano dotado de vontade, de liberdade e de responsabilidade; a França não o pode. O consumidor não é apenas a condição da produção, é aquilo, para que a produção existe, seu único fim possível. O papel dele não é absorver o fluxo da produção, como um vaso cujo volume seria indefinidamente dilatável. O consumidor não consome jamais para consumir. Ele consome para subsistir no seu ser, para viver. Utiliza os bens materiais produzidos na sua intenção em vista da realização do seu ser e do único fim cabível para o ser humano: a felicidade”.

A “sociedade de consumo” é aquela em que uma abstração “o consumo substitui o consumidor como fim real do processo produtivo. “A França consumiu tantos hectolitros de vinho, comprou tantos automóveis esta ano, etc. Invertendo a relação do produtor ao consumidor — prossegue de Corte — essa sociedade será obrigada a adaptar o consumo global à sua produção global por todos os meios” (Como? Pela eliminação da oferta diversificada, pelo nivelamento da qualidade; pelas baixas de preço e outros artifícios de venda; last but not least, pela propaganda como fator de condicionamento forçado, bourrage de crâne, etc. De sorte que os dados globais acima mencionados, por paradoxal que isto nos pareça, representam não a expressão numérica de um fator real determinante, mas o resultado de um cálculo abstrato que computou um acréscimo de tantos por cento sobre o consumo do ano anterior e que, por sua vez, servirá de base abstrata para avaliar o consumo do ano vindouro). Desse modo, “o consumidor exerce apenas a função inferior e instrumental de intermediário, ao qual o produtor é forçado a se dirigir para que a máquina continue a girar. O fim da economia é pois o produtor”. Assim caracteriza de Corte a “economie à l’envers”, o principal fator de desumanizaçao social — sob a sociedade industrial. Como observa Galbraith em O Novo Estudo Industrial, “a necessidade de controlar o comportamento do consumidor é uma exigência da planificação”. De onde a injunção de criar novas necessidades de consumo mediante pressões psicológicas, como a emulação (Keep up with the Jones), a sensação de progresso, de saúde, de “bem-estar ou eficácia peristáltica”, etc. Destarte, nota o conhecido economista, a sociedade de consumo empurra o indivíduo a trabalhar cada vez mais  (horas extras, pluriemprego) para adquirir novos bens que a propaganda comercial inculca como imprescindíveis à sua dignidade.

[5] Empresa por ações. Sociedade Anônima.

[6] L’Intelligence em Péril de Mort. Ed. du Club de la Culture Française, Paris, 1969, ps. 234-5.

[7] Cf. Gaston Fessard: De l’Actualité Historique. Tomo II, ps. 150-9: “A diferença das tarefas, das condições de trabalho, de nível de vida, de origem social, para não falar da que nasce da hierarquia das formações de mão-de-obra, basta para criar divisões que tornam vã e abstrata a unidade operária”. Acrescentemos que o uso dessa abstração é por vezes legítimo. Posso falar em “proletariado” para designar as classes laboriosas na medida em que suas condições de vida são de inferioridade humana e cívica. O que não é legítimo contudo é usar essa abstração para substituir ou deturpar a realidade.

A covardia é um pecado e, em alguns casos, muito grave.

No quarto domingo depois da Epifania, a Igreja lê, na Missa, a narração da Tempestade no mar, que é contada pelos três Sinópticos, segundo o texto mais breve de todos, que é o de São Mateus: tem apenas quatro versículos, mas a narração é feita com energia tão formidável, que parece um gravado em cobre ou madeira, com quatro traços principais. São Mateus é o mais saboroso e enérgico dos três Sinópticos. A Bíblia de Bover-Cantera diz: "Este Evangelho pertence à literatura escrita; o de Marcos, à oral". É um erro grave que denota muito atraso em exegese. Com toda certeza, os quatro Evangelhos pertencem ao gênero que hoje lingüistas, etnólogos e psicólogos chamam estilo oral; e foram recitados de memória antes de serem fixados em pergaminho — ao menos os três primeiros — como as rapsódias de Homero, o Vedanta, o Corão, o Poema del Myo Cid e, em realidade, quase todos os monumentos religiosos ou épicos da Antiguidade. Esta noção, que hoje em dia se possui cientificamente, resolve de um golpe a falsa Questão Sinóptica, que preocupou a eruditos durante dois séculos; e que consiste em terem os Evangelhos, por um lado, algumas diferenças entre si e, por outro, uma concordância maciça; como pode se ver neste relato que os três Sinópticos trazem. Isto deu causa a uma confusão enorme na cabeça dos sábios alemães, alguns dois quais chegaram a negar a autenticidade destes três documentos religiosos, até que Marcel Jousse descobriu as admiráveis leis do estilo oral. 

Coisa incrível: há uma tempestade tal no Mar de Tiberíades, que as ondas invadem a barca dos pescadores; e Jesus Cristo dorme. Fingiria dormir, como dizem alguns, para "provar seus discípulos"? Não, dorme, com a cabeça apoiada em um banco. Essa maneira de experimentar os outros com coisas fingidas é uma palhaçada inventada por algum mal mestre de noviços: a única coisa que prova verdadeiramente é a vida, a verdade, a realidade; não as ficções. Tampouco é verdade que Deus tenha proibido a Eva o Fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal para prová-la; proibiu-o porque, simplesmente, este fruto não lhe convinha, nem a ela nem a ninguém. Deus não faz tolices, mas há gente inclinada a atribuir-Lhe as tolices próprias. Deus fez o homem a sua imagem e semelhança; mas o homem retribuiu; porque, quantas vezes o homem não refez a Deus à sua imagem e semelhança!

Jesus Cristo é notável: dorme de dia, no meio de uma tormenta; e de noite deixa a cama e sobe até uma colina, para rezar até a madrugada. Não o despertam o bramir do vento, o golpe da água, os gritos dos marinheiros mas, à noite, o desperta um gemido ou uma mulher com hemorragia que lhe toca o vestido. Dona Madalena, minha avó, dizia: "Jesus Cristo é bom, não digo nada, mas, quem O pode entender?" Só uma criança ou uma animal podem dormir nestas condições em que os três Evangelistas dizem que Cristo realmente "dormia"; e também um homem que esteja tão cansado como um animal e que tenha uma natureza tão sã como a de um menino. Sabemos que muitos homens de natureza privilegiadamente robusta podiam dormir quando quisessem; como Napoleão I, por exemplo, do qual se conta que podia fazer isto: dormir quando lhe parecia bem, sobretudo nos sermões; e foi preciso despertá-lo na manhã da batalha de Austerlitz. Ao contrário, Napoleão III, seu sobrinho, não pregou os olhos na noite do golpe de Estado de 1851 e se levantou três vezes para ver se tinha dormido a sentinela. Isso porque Napoleão I foi um herói; mas, Napoleão III, uma imitação de herói: um palhaço. Bom, o fato é que Cristo dormia, e seus discípulos o despertaram dizendo algo que varia nos três Evangelistas; mas, na realidade, devem ter gritado não três, mas umas doze coisas diferentes pelo menos; que se resumem nesta: "vamos morrer!" Não vos importais se  "vamos morrer"? que traz São Lucas como resumo de toda a gritaria. O que disse São Mateus, que estava ali, foi isto: "Senhor, ajuda-nos, que perecemos". Cada um disse o melhor que soube, e isto é tudo. O que lhes disse Cristo — nisto concordam os três relatos — foi, "covardes". A Vulgata latina traduz "Modicae fidei", ou seja, "homens de pouca fé"; mas Cristo, em grego ou aramaico, lhes disse: "covardes". Um homem que grita quando entra água em sua barca em uma tempestade do Mar da Galiléia, que são breves mas violentas; supondo até que tenha gritado um pouco demais, é covarde? Para mim, não é covarde. Mas para Jesus Cristo, é covarde. E Jesus Cristo não gosta de covardes. A Igreja ("a barca de Pedro", como é chamada) teve muitas tempestades e há de ter ainda outra que está profetizada, na qual as ondas entrarão a bordo e parecerá realmente que os poucos que estão dentro, morrem. Cristo parece ter conservado seu costume juvenil de dormir nestes casos; e também sua idiossincrasia de não amar a covardia. A covardia é pecado? Sim; e, em alguns casos, muito grave. Os Apóstolos tinham uma maneira de pregar que, se me deixassem, eu não usaria outra: trata-se de fazer uma lista de pecados grandes, recitá-la e depois dizer: "Nenhum destes entrará no Reino dos Céus. Basta" Assim, São Paulo disse: "Não vos enganeis, irmãos; que nem os idólatras, nem os ladrões, nem os adúlteros, nem os avarentos, nem os efeminados nem... e assim continua... entrarão no Reino dos Céus". Hoje em diz deveria pregar-se assim, de modo simples... é nossa opinião. Pois bem, São João, no Apokalypsis, que é uma profecia sobre os últimos tempos, acrescenta à lista de pecados outros dois que não estão em São Paulo: "os mentirosos e os covardes". O qual parece indicar que, nos últimos tempos, haverá um grande esforço de mentira e de covardia. Que Deus nos encontre confessados. A covardia em um cristão é um pecado sério, porque sinal de pouca fé em Cristo ("covardes e homens de pouca fé") que provou ser um homem "a quem o mar e os ventos obedecem" — como disse o Evangelho de hoje — ao lado de quem, portanto, ter medo não é coisa bonita; nem mesmo lícita. Júlio César, em uma ocasião parecida, não permitiu a seus companheiros que se assustassem. "Que temeis?" Levais César a sua boa estrela", lhes disse. Por mais forte razão Cristo, que é criador das estrelas. O que governa o mundo são as idéias e as mulheres, disse alguém. As idéias, não duvido. As mulheres, teria de se provar. Que sucederia se, na Argentina, surgisse uma S. Teresa de Jesus, que persuadisse a todas as mulheres deste propósito: "Não me casarei com nenhum homem que seja covarde!" Creio que cairia a tirania atual, e que não subiria ao poder mais nenhum tirano. 

(extr. de "El Evangelio de Jesucristo ", tradução: PERMANÊNCIA)

A religião do progresso

A RELIGIÃO DO PROGRESSO

Alfredo Lage

I

O PENSAMENTO UTÓPICO

  

O mundo moderno apresenta-nos, sob muitos aspectos, a imagem de um progresso humano paralisado por falsas concepções do progresso. Não só, avaliado em termos propriamente humanos, esse progresso muitas vezes é apenas aparente (pois resulta de uma opção que preferiu um valor material a algum valor essencial do homem), mas a idéia de que o progresso é alcançado graças à negação dos valores tradicionais, e por oposição a uma conjuntura anterior, leva a confundir o movimento ascensional de um grupo humano ou da civilização em geral com as modificações mais superficiais e exteriores da vida, como o comprimento das saias ou a largura das lapelas. (Que essas, sim, se medem por uma fácil oposição ao passado). Além disso, o relativismo filosófico, isto é, a ausência de um seguro critério para escolher entre as possibilidades que se apresentam, abrindo tantos problemas quantos soluciona, geralmente torna esse “progresso” um “marcar passo” (um “piétner sur place”, como dizem os franceses).

O pitecântropo e os professores

Talvez não se conceda bastante atenção a um caso singular que oferece a ciência dos estudos pré-históricos. Toda a ciência se funda, com efeito, no conjunto admirável de suas conquistas, por um método de acumulação. Todas as invenções mecânicas e a maior parte dos descobrimentos da física derivam da observação completada pela experiência. Ora, bem; não se fabricam homens primitivos. Esta é a grande dificuldade para o conhecimento de nossas origens. Assim, chegareis a aperfeiçoar, peça por peça, o aeroplano de vossa invenção, assistindo no jardim às evoluções de um modelo reduzido feito de bambus e de latas de sardinhas; porém, jamais, nesse mesmo jardim, assistireis a evolução do missing-link1. Se cometeis um erro de cálculo, o aeroplano fará, por si mesmo, a prova em uma caída precipitada. Porém, se incidis num erro de suposição, a respeito dos costumes de um dos vossos ascendentes, na selva, por exemplo, não será, de certo, ele quem o demonstrará, deixando-se cair, da árvore em que estiver trepado, ao solo.

É impossível criar o homem de Weanderthal2 em uma gaiola, como galo, com o objetivo de descobrir se ele pratica a antropofagia e o rapto nupcial. É absurda a idéia de manter uma manada de homens de Cromagnon3 a fim de estudar as manifestações do instinto gregário. Se um pássaro se comporta de um modo insólito, é bem possível que adivinhemos os costumes de outros pássaros; mas, de um crânio ou de um fragmento de crânio a imaginação mais científica não pode deduzir todo um vale de Josafat, e, falha de experiência, ficaria reduzida a contar com o único testemunho evidente, se o próprio desse passado, quase inteiramente abolido, não fora o não ter deixado dele nenhum, sequer... Dessas diversas dificuldades resulta que se as outras ciências progridem, segundo uma espécie de curva incessantemente corrigida por incorporações novas, os estudos pré-históricos tomam a tangente com uma velocidade geometricamente acelerada. Não importa. O costume de tirar conclusões é um reflexo tão profundo do espírito científico que se não poderá impedir de colocar em um único e mesmo plano de realidade a teoria construída sobre um resto de ossada e o avião Paris-Londres, fabricado com os despojos de vinte modelos destroçados.

A vantagem do aviador está em fazer tantas saídas falsas quantas lhe venham à vontade, enquanto que a desgraça do professor de pré-história reside em não ter ele direito a mais de uma saída, verdadeira ou falsa. Tudo isto explica, mas, não justifica, o estado de precipitação ousada e, ao mesmo tempo, temerosa que se apodera de certos teóricos, induzindo-os a hipóteses arriscadas, a ponto de caírem na região da pura fantasia. Fala-se muito, geralmente, da paciência científica. Da impaciência é que se devia falar. O mais empírico dos antropólogos, está nas mesmíssimas condições que o mais prudente dos arqueólogos:  é-lhe preciso ater-se a um farrapo do passado, sem a esperança de, jamais, vê-lo aumentar entre as suas mãos. Manuseia a porção dos seus descobrimentos com a mesma energia feroz com que o homem das cavernas manuseava o seu pedaço de sílex, e por idênticas razões. É o seu único patrimônio, o seu único utensílio e a sua arma única; arma que manejará com uma espécie de fanatismo desesperado, ao qual não nos acostumaram, ainda, os sábios do laboratório. Estou seguro de que mais de um professor superaria a mais de um cão, na arte de arreganhar os dentes, em defesa do seu osso.

Contemplemos a sua obra. Ante a dificuldade de criar um macaco e de vê-lo transformar-se em ser humano, nosso homem não se contentará em dizer, o que nós o faríamos de bom grado:  que uma evolução desse gênero se apresenta, em suma, como bastante verossímil. Não, ele exibe a sua pequena esquírola ou a sua minúscula coleção de ossos, e deduz, para maravilhar as multidões, toda uma série de revelações surpreendentes. Assim, por exemplo, em Java se encontraram os restos de um crânio que devia ser mais estreito que o nosso, pelo que se pôde deduzir. Um pouco mais distante, um fêmur, e, dispersos pelas cercanias, alguns dentes que não eram humanos. Se o todo proviesse de um mesmo indivíduo, o que está, ainda, por averiguar, a idéia que poderíamos fazer de tal indivíduo, não seria, talvez, menos incerta. Entretanto, tudo isto bastou à ciência popular para fabricar um personagem completo, mais que completo, terminado dos pés à cabeça, sem a carência do mínimo detalhe, e que recebeu, para logo, um nome próprio, como toda a personagem histórica que se respeite.

O público falou, assim de Pitecântropo como de Richelieu, de Fox ou de Napoleão. As enciclopédias ilustradas publicaram a sua efígie entre Pesistrate e William Pitt e, nós temos dele um excelente desenho, de um tão minucioso realismo, que se não pode duvidar de que lhe foram contados, um por um, até os cabelos. Quem suspeitaria ao ver aqueles rasgos fisionômicos, tão poderosamente acentuados, e aquele olhar meditabundo, que são o retrato de um fêmur ou de um pedaço de abóbada craniana e de um punhado de dentes? Seu caráter e seus costumes são, igualmente, de notoriedade pública. Eu li, ainda não faz muito, uma novela, cujo autor empenha toda a sua arte em demonstrar como os modernos colonos da ilha de Java se vêm irresistivelmente compelidos à infringirem as leis da conveniência pelo influxo pessoal desse pobre velho Pitecantropo. Que os habitantes contemporâneos daquela ilha observem, amiúde, uma conduta das mais inconvenientes, eu não o duvido. Mas, faz-me pena aceitar que sejam, fatalmente estimulados em seus excessos pelo descobrimento de uns velhos ossos de autenticidade mais que duvidosa. Ossos demasiado raros e bastante fragmentados para preencher o vácuo imenso que separa o homem, tanto em razão como de fato, do seu pretenso ascendente. Uma vez admitido este parentesco  o meu objetivo não é discuti-lo  não seria, de outra parte, senão mais surpreendente, ainda, a ausência quase completa de vestígios que o testemunhem.

Foi, exatamente, o que Darwin admitiu, de boa fé, criando a expressão  “missing link”  “elo perdido”, sem prever que o dogmatismo dos darwinistas acabaria, finalmente, com o agnosticismo darwiniano, dando a esse termo, completamente negativo, o sentido de uma expressão positiva. Essa gente fala, seriamente, em descobrir a habitação e os costumes do “missing-link”, depois do que não lhes faltará mais nada que almoçar com um guião, passear pelo bosque em companhia de uma solução de continuidade e passar o melhor possível com a incógnita de uma equação.

Isso é, propriamente, perder o tempo, tanto como conjeturar, sem regra, sobre o homem, antes que ele fora tal. Mas, ainda deduzida a matéria de seu corpo da dos brutos, esta explicação deixaria intacto o mistério de sua alma, tal como nos revela a história. Desgraçadamente, os autores em questão continuam raciocinando da mesma maneira, quando deparam com os documentos autenticamente humanos. Falando em um sentido estrito, quero fazer ressaltar que ignoramos tudo o que se refere ao homem pré-histórico, pela simples razão de que é pré-histórico, por isso que não é logicamente possível existir uma história da pré-história, expressão esta tão falha de razão, que só os racionalistas podiam inventá-la. Um predicador que qualificasse o dilúvio de antidiluviano surpreenderia, talvez, alguns sorrisos furtivos no rosto de seus ouvintes.

Um bispo faria bem não classificando Adão entre os pré-adanistas. Mas, que um historiador leigo nos fale das épocas pré-históricas da História não nos surpreende na medida que devera.

O que se quer dizer, sem dúvida, o que se pode e se deve dizer é que a Humanidade é mais velha do que a História, e que a civilização é anterior às crônicas escritas. O homem, de fato, cultivou várias artes antes da escritura, do que se não deve deduzir que, até então, fosse ele um consumado bruto.

O caçador que traçava a imagem de um rengífero não sabia fazer a descrição escrita da sua caça, por forma que esta não pertence à História. Mas, o seu desenho é inteligente; sua descrição também podia sê-lo. Em uma palavra: a expressão  tempos pré-históricos  não designa, necessariamente, tempos bárbaros e incultos, senão tempos, simplesmente, durante os quais se não escreveu nada que possamos decifrar. É bem possível que o grande passado mudo encerre em seu antro, inacessível à nossa sondagem, formas sociais tão civilizadas como rudes ou ferozes, ou melhores, talvez, do que o vão público pensa hoje em dia. Mas, quanta prudência e tato se requer para estas conjecturas! Qualidades, aliás, que não embaraçam aos senhores evolucionistas e que estão muito pouco de acordo com o gênio íntimo de uma época, devorada pela curiosidade, que nada teme tanto como às angústias do agnosticismo!

Na época darwiniana fez-se possível o fenômeno da  “palavra antes da coisa!”  Tanta ignorância, digamo-lo claramente, se cobre com o manto da mais ultrajante impudicícia. Fazem-se em um tom tão categórico e soberbo certas afirmações gratuitas, que é preciso, para examiná-las, uma virtude crítica que ultrapasse o comum. Escolhamos, entre outros, um estudo recente sobre um povo da idade de pedra. Começa, destemerosamente, deste modo: “Viviam em completa nudez!” Talvez não ocorresse a um leitor, entre cem, pensar donde e como esse autor pode comprovar o estado do guarda-roupa de gene da qual se não encontrou  outro vestígio que um montão de ossos ou de calhaus. Será que se esperava encontrar um chapéu de sílex entre os machados feitos desse material ou se pensava descobrir umas ceroulas de pedra e umas calças literalmente paleolíticas? Pessoas de temperamento mais ponderado, ao contrário, aceitariam que um povo se poderia vestir sumariamente ou, mesmo, com suntuosidade, sem que ficassem vestígios disso. Se poderiam ter trançado ervas e juncos num trabalho esquisito, sem eternizar os tecidos. É fácil imaginar a existência de certas sociedades especializadas em artes frágeis, tais como as do tecido e do bordado, em detrimento de outras mais duradouras como a da escultura e a da arquitetura. Existem numerosos exemplos dessas sociedades especializadas. Nossos descendentes distantes, quando registrem as ruínas de nossas fábricas, deduzirão, quiçá, que não conhecíamos mais do que o ferro, e anunciarão, como um interessante descobrimento, que o diretor e seus engenheiros, andavam completamente nus, a não ser trouxessem trajes e chapéus feitos de ferro. Eu não afirmo que os primitivos se vestissem com roupas feitas de ervas. Limito-me a comprovar que não sabemos nada a respeito da sua indumentária e que suas pinturas testemunham que eles possuíam a noção da ornamentação bastante desenvolvida. Outro escritor notável, comentando os desenhos atribuídos aos povos neolíticos da época da rena, e conjeturando que nenhuma dessas imagens parecia ter uma significação religiosa, não vacila em chegar à conclusão de que aqueles povos não tinham religião alguma. Belo sistema! Deste modo nos podemos fazer intérprete dos mais íntimos e secretos movimentos da alma primitiva, por isso que um não se sabe quem, ensaiando, não se sabe porque, esgravatar na rocha, achou mais cômodo desenhar uma rena que uma religião! Desenhou uma rena porque esta era o seu emblema religioso; desenhou porque não o era; desenhou porque não importa o quê, exceto o seu emblema; desenhou seu verdadeiro emblema religioso em outra parte; ou este emblema desenhado foi deliberadamente borrado. Há dez mil explicações de igual valor. Mas, eu, em todo o caso, acho peregrina a dedução de que nosso homem não possuísse um emblema religioso, ou que, ainda no caso de o não possuir, não acreditasse em nada.

E vede que lógica! Descobriram-se, nas mesmas grutas, outras figuras de animais não desenhadas, e sim esculpidas, algumas das quais têm buracos ou talhos que se supõem sejam sinais de flechas. As figuras, assim danificadas, foram, imediatamente, catalogadas como vestígios excludentes de um rito mágico que matava as bestas em efígie, enquanto que as figuras indenes serviriam a outros ritos não menos de magia que tinham como objeto a fecundação de animais. Assim, as imagens danificadas testemunham uma superstição e as indenes, outra. Decididamente estes cavalheiros cultivam uma comicidade inconsciente, que é, também, a melhor. Tudo isto é trabalhar demasiado depressa. Se terá pensado em que uma tribo de caçadores encerrados pelo inverno numa caverna pode entreter o tempo atirando ao alvo? Mas, enfim, que seja superstição:  que se faz, então, da teoria segundo a qual a religião nada tem a ver com os desenhos? Em uma palavra: todas estas hipóteses são flechas lançadas à lua. É muito melhor, ainda, como jogo de sociedade, atirar contra um bisonte de argila.

Se os nossos teóricos se dessem ao trabalho de olhar em redor, comprovariam que o homem moderno conservou o gosto de escrever na pedra. A passagem de uma caravana de turistas por lugares históricos é seguida, fatalmente, por uma floração de legendas e de hieróglifos, aos quais os sábios recusam atribuir qualquer antiguidade. Mas, se os professores do ano 3.000 não se tiverem curado da magnífica seguridade de seus antecessores, entre os quais não me conto,  que admiráveis deduções tirarão das inscrições insertas no ano da graça de 1925! As iniciais entrelaçadas de Júlia e Marianinho, na gruta de Butts-Chaumont, lhes revelariam, indiscutivelmente:  1°, por serem grosseiramente talhados com um canivete mal afiado, que no século XX não se dispunha de nenhum instrumento de precisão e, ignorava-se a arte da escultura; 2°, que sendo formadas por maiúsculas, nossa civilização não tinha idéia da caixa baixa da tipografia, nem da escrita cursiva; 3°, que estando agrupadas em consoantes impronunciáveis, nossa linguagem tinha fundas afinidades com o “galés”, ou mais provavelmente, com os dialetos proto-semitas, que proscrevem o uso das vogais; 4°, que estando manifestamente desprovidas de sugestões religiosas, nossa época não tinha, por isso, nenhuma religião. No que, aliás, não se equivocariam, senão em parte, por isso, se tivéssemos religião, teríamos, certamente, mais senso comum. Afirma-se, segundo os mesmos métodos, que o sentimento religioso se desenvolveu pouco a pouco, em um encadeamento de causas fortuitas que não têm mais do que um valor de coincidência. Estas causas, se nos assegura, se reduzem a três principais: a) ao terror ao chefe da tribo, a que Mr. G. Wells chama, com uma deplorável familiaridade, “o velho”; b) os fenômenos do sonho, e c) a associação de idéias que reúne a colheita, as sementes e a germinação, de uma parte, e, de outra, as noções de sacrifício e de ressurreição. Confesso não conceder grande credulidade a uma opinião que faz derivar um sentimento tão vivo de três fontes tão díspares. Imaginemos que Mr. Wells, em uma das suas encantadoras antecipações, quer fazer-nos assistir ao advento de uma paixão nova e misteriosa que embriague o homem,  como o primeiro amor, pela qual verteria o seu sangue como por uma pátria. Ficaríamos bastante intrigados se o novelista nos explicasse que essa paixão singular era resultante de três influências distintas, a saber: o gosto pelos cigarros turcos, aumento do imposto sobre a renda e os cento e vinte à hora.

A relação se nos escapa; não a compreendemos. Porém, não há outra entre um pesadelo, uma seara e um velho cacique armado de lança, a menos que pré-exista um sentimento que os associe. Este sentimento não pode ser senão de ordem religiosa e eu me permito observar que se é ele a causa da associação de idéias assinaladas, então, não pode ser, ao mesmo tempo, o efeito. Sentimento, graças ao qual, agora como antes, é natural ver os campos, os reis e os sonhos sob uma luz mística.

É um excesso de malícia dar ao passado um aspecto estranho e inumano, fingindo não se entender o que se entende muito bem. Se poderia dizer, igualmente, que os homens pré-históricos tinham o costume repugnante de abrir a boca desmesuradamente em intervalos regulares e engolir substâncias estranhas, ou que os terríveis trogloditas da idade de pedra imprimiam, alternativamente, a cada uma das pernas, um movimento de elevação centrífuga,  como se ninguém ouvira, ainda, falar em comer ou em caminhar.

Não se faria, assim, mais do que um mal em parte, se se pretendesse, desse modo, solicitar nossa fibra mística e tornar-nos sensíveis ao milagre das coisas familiares. Trata-se, ao contrário, de fazê-las ininteligíveis. Mas, quem não sentirá o mistério do sonho? Quem não pressentirá na morte e na ressurreição da matéria vegetal um dos segredos do universo? Quem não apreenderá esse caráter sagrado da autoridade em que se encarna a alma de um povo?

O antropólogo que de boa fé achasse estas idéias inverossímeis teria de confessar que tinha menos espírito e menos coração que o homem de Cromagnon. Eu creio indubitável que só um instinto religioso, já manifesto, poderia reunir em uma mesma veneração coisas tão diversas. Querer que a religião nasça do temor a um chefe ou de sacrificar à colheita, é pôr um veículo moderníssimo diante de uma parelha de cavalos não domados. É pretender que a idéia de pintar provenha da contemplação de imagens em uma caverna e que ninguém pensasse escrever em verso sem o costume de compor uma ode oficial para festejar a chegada da primavera, ou, sem o hábito, adquirido por certo jovem, de ouvir primeiramente o canto da calhandra para depois fixar no papel a impressão recebida. É bem verdade que freqüentemente algum jovem, em chegando o mês de maio, se descobre uma alma de poeta, e, então, aqui em baixo, nada é capaz de impedi-lo que celebre à calhandra ou ao rouxinol. Isto, entretanto, não significa que o senso poético venha da prosódia. Tão pouco que a religião provenha dos ritos religiosos.

Precisa-se uma certa dose de espírito para sentir o mistério do sonho e da morte, o valor poético da primavera e o canto dos pássaros. A vaca, nos prados, não parece tirar nenhum partido lírico das facilidades insignes que lhe são oferecidas para ouvir o rouxinol e nada permite pressagiar que os carneiros vivos se decidam a render aos carneiros mortos a homenagem de piedosas cerimônias. É verdade que os primeiros raios da primavera sugerem aos quadrúpedes jovens fantasias galantes, mas todas as primaveras do mundo têm sido, até o presente, impotentes para lhes sugerirem fantasias literárias. Igualmente, se o cão, segundo todas as aparências, possui a faculdade de sonhar, há muito que esperamos que faça de seus sonhos a base de um sistema refinado de cerimônias litúrgicas; tanto tempo esperamos e muito nos surpreenderia vê-lo utilizar seus sonhos em um sentido eclesiástico e interpretá-lo segundo as doutrinas da psicanálise. Qualquer que seja a razão é indubitável que certas experiências e certas emoções não franqueiam mais que no homem a fronteira da expressão criadora.

Jamais se viu isto em outra criatura e, sem dúvida, nunca será visto. Não é impossível, num sentido de auto-contradição, que víssemos os bois se absterem do pasto nas sextas-feiras e, como na legenda, caírem de joelhos ao ouvir o sino da Natividade ou, então, expressarem suas esperanças de felicidade celeste por meio de uma dança simbólica em honra da famosa vaca da canção que saltou por cima da lua. A força de sonhar o cão chegaria, talvez, a erigir um templo a Cérebro, concebido como uma espécie de trindade canina. Talvez seus sonhos comecem já a traduzir-se em visões suscetíveis de expressão verbal, em revelações concernentes à constelação do Grande Cão, pátria espiritual dos cães abandonados... Nada de tudo isto constitui uma contradição de princípio absoluto; mas o senso das probabilidades ou o bom senso nos adverte de que os animais não evoluem nesta direção, ainda que a morte, a primavera e até o sonho pertençam tanto à sua experiência como à nossa. Do que se depreende que só o nosso espírito é suscetível de receber as impressões de ordem religiosa.

E, eis-nos, de novo, no âmago de nosso tema  a existência, tão distante quanto possamos remontá-la, de um pensamento ativo, solitário, capaz de formar doutrinas tanto como imagens, de extrair da matéria imóvel suas razões de temor e de esperança e de abandonar-se à contemplação misteriosa de sua natureza, que o fará já não crer mais na morte.

As raras observações permitidas aos nossos olhos só nos deixam ver o homem como tal. Guardam na sombra o elo suposto que o uniria ao animal, pela razão muito simples de que ele é mera suposição, e, em conseqüência de não saber se o Pitecantropo existiu, de fato, ignoramos mais, ainda, se ele sabia rezar. É um ente de razão, um sinal convencional, um tampão destinando a tapar a brecha que separa macacos incontestes de homens incontestáveis. Assim, o homem-macaco, se é que existiu, será, segundo nosso humor, tão piedoso como o homem, tão livre-pensador como o macaco e não será um resto de crânio recolhido em Java que vai nos ilustrar sobre este ponto. A verdade é que, em um dado momento, tão distante que escapa à ciência, produziu-se uma transição de que não podem ser testemunhas nem pedras, nem ossos, e na qual se revelou a alma humana.

Reconhecemo-la como nossa e a saudamos no seu longínquo aparecer. Seu passo e seu gesto nos são familiares. Por ela, todos somos irmãos. Por ela um selvagem, um estrangeiro, uma figura histórica despertam em nosso coração fibras profundas.

Assim, vemos que o costume de vestir-se é uma das regras fundamentais da vida humana universal. O vestuário é, desde suas origens, o sinal de um sacerdócio, pois, se é verdade que o homem, enquanto como animal difere dos outros, a ponto de que a nudez lhe pode causar a morte, não é menos certo que se veste por decência e magnificência quando não por necessidade. O traje tem, amiúde, um valor de decoro. A diversidade de convenções que o regem, segundo os povos e segundo os tempos, é extrema como também o é a simplicidade da boa gente, a qual esta simples observação basta para desmoralizar. Será, pois, que o pudor não existe desde o momento em que os insulares do Pacífico e os habitantes de Paris não têm a mesma idéia da moda? Como se disséramos que, posto que tenham levado tantos e tão estranhos chapéus, estes não existem, nem sequer a calvície e as insolações. O simples bom senso mostra que sempre se tem precisado de regras que, velando certas intimidades do homem, o pusessem a coberto da mofa e do desprezo e que a observação destas regras, qualquer que fossem gera o sentido da dignidade e do respeito mútuo. O fato delas, a maior parte das vezes, estarem ligadas às relações entre os dois sexos, ilustra os dois grandes casos que dominam desde a origem da história da indumentária: um deles é que o pecado original é literalmente original, não somente no sentido teológico como no histórico da palavra. Quaisquer que tenham sido suas crenças, a Humanidade acreditou, sempre, na evidência do mal, e este senso do pecado tornou impossível, para sempre, o viver nu e o ser natural na vida. O outro caso é a família.

Aqui, mais do que em nenhuma outra parte, guardemos o justo sentido das proporções. Estamos em frente de uma montanha. A nuvem flutuante das teorias e das teses pode ofuscá-la em parte, mas não por completo; mons parturiens4    em verdade, de onde procede todo o reino aqui de baixo, todo o império e toda a república. O que chamamos família teve de abrir um caminho através das diversas formas de anarquia e de aberração?

Pode ser. O certo é que ela os sobrevive; o provável é que ela os precedeu. O comunismo e o nomadismo provam que estados sociais amorfos podem se desenvolver à margem das sociedades civilizadas; mas nada testemunha que a forma não se tenha adiantado à deformidade. Sempre é a forma a que conta e a humanidade foi quem escolheu esta forma. Nada mais curioso, por exemplo, que o costume selvagem que se chama couvade, mundo invertido, digno dos antípodas, em que o pai, durante o embaraço da mulher, é tratado como se fora esta. Não somente se supõe certo misticismo sexual, senão que simboliza a aceitação pelo homem de suas responsabilidades paternais. Neste caso, a feroz mascarada se converte em um rito dos mais solenes, e no fundamento de toda família e de toda sociedade.

Alguns têm emitido a hipótese de que a humanidade constituía, em outro tempo, um matriarcado (feminismo devera chamar-se); outros, alegam que se tratava de um período de anarquia no qual a mãe não representava o ponto fixo, senão em razão do descuido e do anonimato dos pais. Depois, viriam os tempos em que o pai se decidiria a cuidar da prole, a protegê-la e a converter-se em chefe de família consciente e organizado. É muito possível, e, então, pela primeira vez, o homem teria obrado como homem. Porém, é também possível, igualmente, que o estado de matriarcado, de anarquia, de promiscuidade, como se queira, não fora mais que uma das inumeráveis regressões bárbaras que se terão produzido nos tempos pré-históricos tanto como nos históricos. Se é um símbolo, a couvade talvez comemore, não o nascimento de uma religião, mas a destruição de uma heresia.

Quaisquer que sejam as origens do edifício humano, ele está ante nossos olhos e a família constitui sua célula central, ao redor da qual, como uma guarda de honra, velam as santas virtudes domésticas que nos distinguem da abelha e da formiga. O pudor é a cortina da tenda e a liberdade a muralha desta cidade. A propriedade não é senão o reduto da família. A honra seu brasão.

A história se abre com um pai, uma mãe e um filho, e se não somos dos que invocam uma divina Trindade, teremos, não obstante, de invocar uma trindade humana, cujo triângulo se repete até o infinito na trama do universo. Pois o ponto culminante da história, para o qual tende a criação de todas as partes, vibrando, estremecendo-se, nos apresenta esse mesmo triângulo invertido, ou, melhor dito, um triângulo novo, que, superpondo-se ao primeiro, forma com ele uma estrela de cinco pontas, mais terrível para os demônios que a dos Magos.

A antiga trindade, composta do pai, da mãe e do filho, tinha um nome: a família humana. A nova se compõe do filho, da mãe, e do pai, e, também, tem um nome: a Sagrada Família. Não foi alterada, exceto no sentido de ter sido inteiramente invertida. O mesmo que o mundo, que ela transformou, não se tornou diferente, mas completamente ao inverso:  Isto é, tudo ao contrário do que era antes.

(“The Everlasting Man”, 2o. cap., trad. Lourival Cunha, Editora O Globo de Porto Alegre, 1934.)       

  1. 1. Missing-link  Expressão com que Darwin interrompeu o seu estudo evolutivo do macaco para o homem  “elo perdido”.
  2. 2. O homem de Weanderthal  O homem da caverna,  o homem primitivo (N.T.).
  3. 3. O homem de Cromagnon  Tipo de homem que viveu na Europa quaternária, construído pelos antropólogos sobre um crânio de velho, encontrado em Cromagnon (França) em 1858, e maior do que o do homem atual. (N.T.).
  4. 4. Mons parturiens  O parto da montanha.
AdaptiveThemes