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Category: PensamentoConteúdo sindicalizado

A crise das elites

Marcel de Corte

Com esse título abrangente e ambicioso demais, gostaria de falar com a maior simplicidade possível sobre coisas conhecidas e, principalmente, sobre coisas desconhecidas, que só se tornaram desconhecidas por causa do mundo moderno. Hoje conhecemos muitas coisas que nossos pais ignoravam. A civilização atual, que é essencialmente uma civilização do livro ou do impresso, a cada dia introduz nos cérebros uma massa de conhecimentos que digerimos mais ou menos bem, ou melhor, nem tão bem assim. Estendem-se tais conhecimentos a objetos tão numerosos que a multidão deles amedrontaria as gerações que nos precederam. Para tanto, comparem-se os estudos que se exigiam dos médicos há trinta ou quarenta anos, com os que se exigem atualmente – e isso vale para todas as profissões. Em contrário, segundo uma lei bem simples, expressa no provérbio “um prego empurra o outro”, esse afluxo de informações submergiu certas evidências elementares e as relegou ao esquecimento. Os leigos e os cientistas já não conhecem, por ex., os nomes das quatro virtudes cardeais que outrora o comum do povo conseguia apontar nos vitrais ou nas estátuas das catedrais. Recobriu-se de sombras uma área imensa do saber; em todo lugar regrediu o saber moral, o saber propriamente humano. (Continue a ler)

Soa o dobre por Notre Dame

Dom Lourenço Fleichman OSB

Acompanhei um pouco a situação em Paris pelos jornais franceses, e me parece importante escrever para os meus fiéis e leitores do site, para lhes falar um pouco sobre esse acontecimento estranho do incêndio de Notre Dame de Paris.

Muitas catedrais, igrejas, mosteiros queimaram em incêndios antes desse. Muitos terremotos derrubaram suas flechas monumentais, como vimos hoje cair a de Paris. 

Mas não posso deixar de considerar que essa destruição tem um caráter diferente. Antes do fogo destruir esta Citadela da Fé católica, há muito tempo já desaparecera o fogo que a levantara há cerca de 1.000 anos atrás.

Quando leio nos jornais os políticos falando de cultura, de Europa, de arte, não posso deixar de pensar na culpa que esses senhores têm por tudo o que foi jogado fora de civilização católica, dos mil anos da Cristandade, da Idade Média. Não posso impedir que brote no coração o ódio por essa Revolução que há 250 anos destrói o que nossos heróis construíram, para pasmo do mundo moderno, pelo simples amor a Nosso Senhor Jesus Cristo, a sua Mãe Maria, e a sua Esposa, a Santa Igreja  Católica Apostólica Romana.

Não posso deixar de odiar com todas as forças da alma esse Modernismo de Vaticano II, que ainda hoje derruba as simbólicas cruzes da fé nos corações.

Na verdade o mundo moderno e a Igreja modernista não merecem esses monumentos da fé antiga, pois que a repudiaram com desprezo e violência.

Era normal que, na Apostasia Geral em que vivemos, os marcos da fé de outrora fossem desaparecendo, como destruídos foram os Sacramentos, as Orações, o Sacerdócio, as igrejas e tudo o mais que ocupava pela vida interior esses mesmos monumentos.

Mas a vida continua.

Já estão arrecadando o dinheiro da reconstrução. Muito dinheiro. Já anunciaram que reunirão os melhores artífices do mundo para refazer o que foi destruído pelas chamas. De que serve? Levantarão uma Catedral do Pluralismo revolucionário. Cantarão loas à Fraternidade universal. Incensarão a deusa Liberdade no altar da nova Notre Dame. E todos, unidos pela Igualdade sem Jesus crucificado, soltarão fogos no dia da inauguração. 

No limiar da nossa Semana Santa, quando nos preparamos para o luto litúrgico pela Paixão e Morte de Cristo, soa o dobre por Notre Dame.

E mais uma vez choramos a destruição da fé.

Domingo que vem nos alegraremos com Cristo Ressuscitado, e poderemos tratar da nossa salvação eterna, nos nossos esconderijos, nas nossas catacumbas da Tradição.

Anarquismo e progressismo

Gustavo Corção

A crise de nosso tempo poderia ter este título que encerra uma grotesca contradição, e que tem seu tipo representativo mais cômico nos descendentes de Bakunin que começaram na Espanha a infiltração e a perseguição religiosa antes dos comunistas marxistas. Romanticamente se apresentavam como militantes de um mundo novo munidos de uma pistola na mão direita e da enciclopédia na esquerda. O programa era sucinto: beber o sangue dos últimos padres na cabeça craniana do último dos reis.

Lembrando a alta que os títulos dos revolucionários tiveram na convulsão de 1789, que nos foi inculcada como feito de glória universal, seria melhor, naquele retrato do herói anarquista, trocar a pistola pela guilhotina, mas a imagem que já me parecia insustentável com a enciclopédia na mão esquerda, fica decididamente inimaginável se na direita quisermos colocar a aparatosa guilhotina.

Mas, sob o ponto de vista do valor simbólico, insisto na guilhotina, e quem quiser se apegar à figura romântica desenhe na imaginação um Robot gigantesco portando na mão direita uma guilhotina, e na esquerda a Britânica ou a Barsa. E insisto na guilhotina porque o supremo ideal do anarquista é a decapitação, e não a morte qualquer produzida por uma bala nas partes baixas, ou nas obras mortas do corpo humano. Não foi por mero acaso que nos primórdios da Revolução Francesa o doutor Guillotin inventou a guilhotina, e até submeteu-a à apreciação do rei Luis XVI que tinha pendores para a mecânica e para a serralheria.

Não sei se é apócrifa a anedota; mas a Guilhotina tornou-se uma sólida realidade. E tornou-se o símbolo da democracia liberal que contesta o princípio da autoridade em nome de “virtudes cristãs enlouquecidas”. Autoridade está para a cabeça como a idéia para a imagem ou para o símbolo. Chefe quer dizer “pessoa investida de autoridade”, e quer dizer cabeça. Em francês a primeira e direta significação do termo é a de cabeça: “Le chef de saint Jean-Baptiste...”, e a significação derivada é a de autoridade moral.

E enquanto permanecemos na consideração de termos e de imagens aproveitamos para assinalar o curioso aspecto do ideal democrático baseado no igualitarismo. Não podendo evitar um mínimo de organização social ou de hierarquia, tal regime, para não ser autocrático, tem de ser dirigido por decapitados ou por acéfalos. A segunda solução, ao longo da história, pareceu mais prática e já houve um espirituoso, não me lembra quem, que chegou à fórmula do regime anarco-democrático: um povo de decapitados dirigido por uma dúzia de acéfalos. (continue a ler)

A reação católica

Mons. Louis-Gaston de Ségur

Somos reacionários? Não, se por reacionários entendemos os espíritos amuados, sempre ocupados em lamentar o passado, o antigo regime, a Idade Média. “Ninguém, bem dizia o bom Nicodemos, pode retornar ao ventre de sua mãe para nascer novamente”; sabemo-lo muito bem, e não desejamos o impossível.

Sim, somos reacionários, se se entende por isso os homens de fé e de coração, católicos antes de tudo, que não transigem nenhum princípio, não abandonam nenhuma verdade, respeitando, em meio às blasfêmias e ruínas revolucionárias, a ordem social estabelecida por Deus, decididos a não recuar um passo sequer diante das exigências de um mundo pervertido, e guardando como um dever de consciência a reação anti-revolucionária.

Dizemo-lo a toda hora, a Revolução é o grande perigo que ameaça a Igreja hoje. Seja o que digam os mistificadores, este perigo está às nossas portas, no ar que respiramos, em nossas ideias íntimas. À véspera de grandes catástrofes, sempre se encontram estes incompreensíveis cegos, surdos e mudos, que querem nada ver, nada compreender. “Está tudo bem, dizem eles; o mundo jamais foi tão esclarecido, a fortuna pública tão próspera, o exército tão bravo, a administração melhor organizada, a indústria mais florescente, as comunicações mais rápidas, a pátria mais unida”. Eles não enxergam, não querem ver que esta ordem material acoberta uma profunda desordem moral, e que a mina prestes a desabar é a base do edifício. Mistificados e mistificadores, eles abandonam a defesa, deixam-na aos demais e oferecem à Revolução a Igreja desarmada. (continue a ler)

Prefácio ao livro A Descoberta do Outro

Como já é do conhecimento de muitos acaba de ser reeditado o primeiro livro de Gustavo Corção - A Descoberta do Outro. Durante muitos anos várias editoras procuraram em vão os herdeiros de Corção para pedir autorização de publicar esta obra-prima do nosso fundador e mestre. Agora foi acordado à Vide Editorial. Mérito deles.

Não posso deixar de recomendar vivamente a leitura deste livro e a Editora Permanência não deixará de promover sua venda. Por outro lado, resta-nos uma ponta de tristeza pois, sendo os herdeiros espirituais do pensamento e do combate de Gustavo Corção, seria muito mais coerente e natural que nós pudéssemos difundir a obra de Gustavo Corção. Mas não nos foi acordada essa possibilidade. 

No intuito de aconselhar a leitura e de assinalar os aspectos mais importantes desse livro único no seu gênero, e para ajudar o leitor menos acostumado com as belas letras, escrevi o Prefácio que segue. 

Foi aos dezesseis anos que eu li pela primeira vez A Descoberta do Outro. Abri-o como quem abre um testamento, tão grande era a presença do autor em minha vida. Em casa o chamávamos Vovô Corção, pois de fato ele fora um pai para o meu próprio pai. O pensamento e a obra de Gustavo Corção tornaram-se como uma herança espiritual que recebi enquanto crescia, e que assumi na Permanência.

Ao longo desses 40 anos reli este livrinho dezenas de vezes, ora por gosto, ora por estudo. Em 1980, por exemplo, foi para ajudar na revisão da edição francesa, publicada em 1987. Mais recentemente, colaborei na preparação de uma matéria sobre Gustavo Corção, na Revista Conhecimento Prático de Literatura[1], e mais uma vez fui buscar o primeiro livro do grande escritor para ilustrar o artigo que escrevi para a ocasião.

(Clique aqui para continuar a leitura)

Civilização católica e erros modernos

Donoso Cortés

 

CARTA AO CARDEAL FORNARI

 

Eminentíssimo Senhor:

Antes de submeter à alta penetração de Vossa Eminência as breves indicações que houve por bem pedir-me em carta de maio último, parece-me conveniente assinalar aqui os limites que me impus a mim mesmo na redação destas indicações.

Entre os erros contemporâneos não há nenhum que não se reduza a uma heresia; e entre as heresias contemporâneas não há nenhuma que não se reduza a outra, condenada de há muito pela Igreja. Nos erros passados, a Igreja condenou os erros presentes e os erros futuros. Idênticos entre si quando considerados sob o prisma de sua natureza e de sua origem, os erros oferecem, todavia, o espetáculo de uma variedade portentosa quando vistos através de suas aplicações. Meu propósito hoje é considerá-los mais pelo lado de suas aplicações do que pelo de sua natureza e origem; mais pelo que tem de político e social do que pelo que tem de puramente religioso; mais pelo que tem de diverso do que pelo de idêntico; mais pelo que tem de mutável do que pelo de absoluto.

Tradição, tradição católica e falsa tradição

 

Paolo Pasqualucci

Sumário:

1. A noção de tradição. 2. Tradição cristã e não “judaico-cristã”.  3. Definição da Tradição católica. 4. A Tradição católica não contém nada de secreto, ela não é esotérica. 5. A noção esotérica da tradição é irracional e falsa. 5a. A inversão do significado da Cruz por René Guénon.

Em geral, todos consideram bem conhecido o sentido da palavra “tradição”. Nós, todavia, julgamos importante defini-lo corretamente. É o que faremos neste artigo.

1. A noção de tradição.

Antes de tudo, a idéia de tradição compreende a de certos valores transmitidos e preservados ao longo de gerações. Transmitidos e preservados, ou seja, ensinados e apresentados como valores a se respeitar, visto que constituem o fundamento inalterável de uma determinada concepção de mundo e, conseqüentemente, do modo de viver de uma sociedade — compreendida globalmente enquanto povo. Com efeito, a tradição se materializa nos costumes. A idéia de tradição está, portanto, ligada à de valor e costume. Não há aqui lugar para uma definição subjetiva do que é o valor: o valor preservado pela Tradição é precisamente aquele que se impõe pelo fato de fundar essa mesma tradição e de pertencer-lhe, a despeito do que pensam os indivíduos, que devem reconhecê-la e obedecê-la.  Leia mais

Vida intelectual versus vida de curiosidade

(Esta conferência foi proferida na Jornada de Formação do MJCB em 2012. Apresentamos aqui a sua transcrição).

 

Pe. Luiz Cláudio Camargo FSSPX

A obra que estamos propondo realizar em nossos priorados consiste exatamente na idéia da universidade: versus unum. A universidade é a reunião de todas as faculdades, iluminadas pela Teologia. A nossa vida precisa alcançar essa unidade mais elevada, e o lugar privilegiado para isso, na situação em que nos encontramos hoje, são os nossos priorados.

Quero comparar aqui os elementos normais da vida intelectual — o ato, a estrutura da vida interior — com a sua deformação. Gostaria de comparar a vida intelectual com a vida de curiosidade, e daí tentar tirar os conselhos práticos para a vida especulativa. 

Pode-se dizer que há duas partes no esforço intelectual. Em primeiro lugar, há o que se pode chamar de studium, o estudo. Em latim, a palavra studium significa esforço. É interessante notar que toda a primeira parte, a do esforço intelectual, por causa da união e da relação entre o corpo e a alma, é necessária para se chegar ao ato específico em que a inteligência enxerga o seu objeto. Ela exige um esforço muito grande. O modo pelo qual chegamos ao conhecimento é um modo laborioso, chamamo-lo de modo racional. É necessário ruminar até se chegar ao saber. Em seguida, temos um ato próprio, específico, e o efeito próprio pelo qual a inteligência vê o seu objeto, alcança-o, pode ser chamado de gaudium. Então, alcança-se a idéia e a alma repousa. Leia mais

Pode a Igreja morrer?

Dom Lourenço Fleichman OSB

Muitas pessoas me pedem que atualize com mais freqüência o site. Confesso que não tenho conseguido me dedicar mais a este apostolado, levado pelo excesso de trabalho nas quatro capelas sob minha responsabilidade, nas revisões doutrinárias dos livros que editamos e na cura das almas. Estamos iniciando agora o projeto do Colégio São Bernardo, a primeira escola da Tradição no Brasil, sobre a qual falaremos a seu tempo.

Felizmente tenho a ajuda de uma equipe atuante no que toca a produção da Revista Permanência, de outra forma não conseguiria manter o ritmo dos lançamentos trimensais. Confesso que é um trabalho que nos traz muita satisfação.

Agora mesmo assistimos a mais um grave escândalo do ecumenismo desenfreado. A reunião promovida pelo papa Francisco I dentro do Vaticano, no domingo de Pentecostes é apenas um gemido naturalista, um grunhido da História, dentro da obra destruidora do Vaticano II.

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O dever dos fiéis para a restauração do Reino Social de Jesus Cristo

Pe. Theotime de S. Just

 

O primeiro dever dos fiéis para ajudar a restauração social católica é, sobretudo, fazer reinar Jesus Cristo em suas mentes por meio da instrução religiosa.

“A única esperança de nossa regeneração social”, diz o Cardeal Pie, “repousa no estudo da religião... o primeiro passo de volta para a paz e a felicidade será “o retorno à ciência do catolicismo.” 1

O cardeal insiste neste ponto que lhe parece essencial porque, aos seus olhos, o renascimento social católico da França está intimamente ligado ao renascimento catequético. Em quatro sermões pregados na catedral de Chartres, explicou longamente aos fiéis a importância do estudo da religião e lhes indicou o método a ser empregado neste estudo.2

Estes sermões do jovem vigário da catedral de Chartres, dados em 1840, são de uma atualidade marcante, e não conhecemos nada de mais claro e persuasivo. Ao relê-los, todos os fiéis serão fortemente encorajados a dar à instrução religiosa o primeiro lugar em suas vidas.

Como não ser tocado por palavras tão verdadeiras e fortes?

"Afastar o espírito da verdade e se tornar indiferente a ela, é precisamente o crime que Deus castigará com maior severidade e justiça... É evidente que a mera ignorância voluntária da religião é, em si mesmo, um crime digno de morte, porque contém desprezo por Deus e o desejo de "escapar de sua mão todo-poderosa.’’ 3

Essa sólida instrução religiosa exigida dos fiéis deve ser para eles o alimento de uma fé integral e completa e, para o Cardeal Pie, a fé completa, a única e verdadeira fé,  é aquela que não apenas afirma a Divindade e a Humanidade de Jesus Cristo, mas também proclama a sua Realeza Social.

Ouçamo-lo comentar uma passagem de S. Gregório aos fiéis, e respondendo assim aos católicos dos nossos dias, imbuídos de falsas ideias modernas.

“Irmãos, vós me dizeis que vossa consciência está tranquila. Ao mesmo tempo em que aderis ao programa do catolicismo liberal, pretendeis permanecer ortodoxos, uma vez que acreditais firmemente na divindade e na humanidade de Jesus Cristo, o que é suficiente para que vosso cristianismo seja inatacável. Pensai de novo. Desde o tempo de São Gregório havia hereges, nonnulli haeretici acreditavam nessas duas verdades, como vós, e sua "heresia" consistia em não querer reconhecer uma realeza estendendo-se a tudo para esse Deus feito homem: sed hunc ubique regnare nequaquam credunt.

“Não, não sois irrepreensíveis em vossa fé; e o Papa São Gregório, mais enérgico que o Syllabus, acusa-vos de heresia se sois daqueles que, tendo como dever oferecer o incenso a Jesus, não querem lhe oferecer também o ouro; 4 em outras palavras, se não quiserdes reconhecer e proclamar a sua realeza social.”

Assim, se querem ter um “catolicismo inatacável” e permanecerem “irrepreensíveis em sua fé”, se querem ser contados entre os fiéis e não entre os heréticos, os católicos devem crer firmemente que Jesus Cristo deve reinar sobre as instituições sociais, penetrando-as com seu espírito e tornando sua legislação consistente com as leis de seu Evangelho e de sua Igreja.

*

Esta fé na realeza social de Cristo deve, antes de tudo, vivificar a família católica, submetendo-a perfeitamente ao Divino Rei. O Cardeal Pie, Doutor do Reinado Social, mostrou como Nosso Senhor quer reinar sobre os lares cristãos. Ele fez isso em 1854, na carta sinodal dos Padres do Concílio de Rochelle, inserida em suas obras. Citemos as principais passagens. É uma magnífica pintura da família católica:

“Na linguagem de São Paulo, cada casa é um santuário. Que ali encontremos a Cruz de Jesus Cristo, que é o sinal de toda família católica, e que a imagem de Maria, a Mãe de Deus e nossa mãe, seja inseparável do crucifixo! Que a água benta e o ramo bento protejam a morada contra as ciladas do inimigo; que a vela da Candelária seja ali mantida para ser acesa nos instantes de perigo, bem como na hora da agonia e da morte. Ah! nossos pais possuíam o segredo dessa vida plenamente católica, na qual a religião tinha seu lugar marcado em todas as coisas. A refeição era santificada pela bênção que o chefe da família recitava. Três vezes por dia, quando o bronze sagrado ressoava no alto do campanário paroquial, cada um suspendia a sua tarefa e invocava com amor a Virgem que deu ao mundo o Verbo feito carne. No limite da propriedade havia uma cruz, que o trabalhador saudava piedosamente ao passar. Ainda se encontravam momentos durante o dia para se rezar o rosário, ler algumas páginas de um livro de família com os principais fatos dos dois Testamentos e as mais belas páginas da vida dos santos.5A mãe de família não julgava ter cumprido todos os seus deveres religiosos antes de ter explicado aos seus filhos e empregados algum artigo da doutrina cristã. Se o toque fúnebre anunciava alguma morte, todos os irmãos em Cristo do falecido apressavam-se a conceder-lhe os benefícios de seus sufrágios; e o culto dos mortos, hoje tão negligenciado, propagava-se por vários testemunhos e práticas que jamais recordaríamos com demasiada. Finalmente, quando o último raio do dia reconduzia família dispersa ao redor da lareira, como era tocante ver velhos e crianças, patrões e criados ajoelhados diante das santas imagens, confundindo na mesma oração as suas vozes e o seu amor!

“Esses costumes piedosos atraíam à terra as bênçãos do céu; enobreciam o lar, santificavam-no, e projetavam na sociedade algo de sério, algo de digno, algo que, juntamente com a unidade dos dogmas da fé, mantinha a inocência nas almas e a união das vontades. Que nós possamos reviver esses comoventes hábitos dos tempos católicos”

Uma vida familiar tão bela não saberá se manter por muito tempo sob o cetro do Rei Jesus se a educação das crianças não for profundamente cristã. Nós não podemos resumir aqui todos os ensinamentos do Cardeal Pie sobre esse assunto. Assinalemos ao menos a insistência com que recorda aos pais que não podem enviar os seus filhos para escolas ateístas ou ainda simplesmente indiferentes. Ouçamo-lo, fazendo suas as palavras de São João Crisóstomo:

“O crime dos pais que mandam os filhos para tais escolas é mais atroz do que o infanticídio, patres parricidis ipsis crudeliores. Seria menos cruel pegar a espada e cravá-la no peito dessa vítima inocente. O crime do pai não tornaria a criança culpada, apenas separaria a sua alma de seu corpo; ao passo que, entregando no presente o corpo e a alma da criança ao inferno, ela carregará o inferno consigo por toda a vida para depois ser precipitada no fogo eterno.”

Este texto refere-se à escola abertamente má. Mas a escola neutra ou indiferente é referida diretamente na passagem seguinte:

“Mandar os filhos para um lar onde a religião de nada vale é um pensamento que faz estremecer, e é esse, segundo São João Crisóstomo, o crime de muitos pais. Se os informássemos que a peste está na cidade onde residem seus filhos, eles não encontrariam palavras para nos agradecer. Mas quando uma praga mil vezes mais terrível penetrou em toda a parte, o nosso conselho é acusado de indiscrição, isso se não formos arrolados entre os inimigos da paz pública.”6

Se os pais souberem impor-se sacrifícios para afastar seus filhos da educação sem Deus, Jesus Cristo será verdadeira e para sempre o Rei das famílias.

*

A fé na Realeza social de Cristo se irradiará para fora da família pela prática pública da religião cristã. Isto é, ao se demonstrar a todos que Cristo deve dirigir os atos públicos do católico, bem como os seus atos individuais e domésticos.

A religião católica é uma religião pública e os fiéis são obrigados a praticá-la abertamente. O Cardeal Pie percebeu que este carácter público da religião era justamente o caminho normal para o reinado social de Jesus Cristo, e recordou instantemente aos fiéis a necessidade do culto público e do que ele impõe.

Possuímos três sermões dele sobre a santificação do domingo, os quais mais tarde foram desenvolvidos e se tornaram duas magníficas instruções pastorais sobre o preceito dominical, que ele chamava de a obra-prima da legislação social.

Temos várias instruções suas sobre a missa, o sacrifício público da religião católica.

Sobre a liturgia, que é o conjunto do culto público, encontramos nas obras do Bispo de Poitiers uma série de instruções que formariam um volume precioso em si mesmo. Ele tampouco se esqueceu de tratar da observância da lei quadragesimal que, para a felicidade dos povos, tinha anteriormente um carácter eminentemente social. Outra manifestação pública de fé, a peregrinação, foi estudada por ele cuidadosamente.

Esta rápida enumeração das práticas externas e públicas da religião mostra-nos o quanto o grande bispo queria que os fiéis estivessem conscientes da sua importância e do seu elevado significado social.

Finalmente, numa magnífica instrução pastoral sobre a obrigação de confessar publicamente a fé católica, o Cardeal Pie mostra que os fiéis não apenas devem associar-se ostensivamente ao culto, mas também agir como católicos em toda a sua conduta pública.

Depois de ter estabelecido pela Escritura a necessidade rigorosa de não se envergonhar de Jesus Cristo diante dos homens, depois de ter recordado sem ambiguidade, com São João, que os "timoratos" que não ousarem confessar a sua fé terão o mesmo destino dos que não creem, e que a parte a que terão direito será o lago de fogo. «Timidis autem et incredulis, pars illorum erit in stagna ardenti» (Ap 21 ,8), o Cardeal Pie refuta a objeção que a covardia, infelizmente, coloca hoje em dia nos lábios de quase toda a gente. Aqui está:

“O ambiente em que tenho de viver não é católico, diz o timorato; agir como católico chamaria a atenção e contrastaria com os demais, poderia até suscitar sarcasmo e blasfêmias. É necessário curvar-se às exigências dos tempos e às necessidades das posições.

“Então, caros fiéis”, responde o bispo, "uma vez que Jesus Cristo é desconhecido por muitos dos vossos contemporâneos vos julgais no direito de o ignorardes? Porque um sopro maligno e irreligioso passou sobre a geração atual reivindicais o direito de participar do contágio?

“Oras! A infidelidade geral que invocais como desculpa é uma circunstância que antes agrava do que atenua a vossa culpa. Perante a apostasia de muitos, sois obrigados a declarar mais fortemente a vossa fé, tornando-vos assim um exemplo e um protesto. Não ouvistes a solene afirmação do Salvador? “No meio desta geração adúltera e pecadora, quem se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos.”

“Caros fiéis, tornar-vos-eis vis diante de vossos próprios olhos, perdereis o direito à própria estima se tiverdes a covardia de não conhecer um amigo no dia da sua desgraça; e porque o Senhor do céu e da terra, o Senhor da vossa alma e do vosso batismo, tornou-se impopular, porque vós arriscais partilhar com ele o desfavor de uma geração rebaixada e merecedora de desprezo, julgais-vos livres de vossos deveres para com Ele! Não, não, é a lei mesma da ordem e da justiça que o exige: seremos tratamos por Jesus Cristo como nós mesmos o tivermos tratado. Se nós lhe formos fiéis, reinaremos com Ele; mas se nós o renegarmos, seremos renegados...

“Honra a vós, católicos, que sois coerentes com vós mesmos; honra a vós que credes e que não vos envergonhais da vossa crença. Aquele que vós confessais perante os homens, sem ostentação nem jactância, mas também sem respeito humano e falsa vergonha, vos confessará diante de seu Pai e diante dos anjos.”

Iluminado e confortado por tais palavras, que pessoa fiel, desprezando o respeito humano, não trabalhará com todas as suas forças pela prática pública do catolicismo para o reinado social de Cristo?

*

O grande meio, portanto, para promover esse reino é a oração, que vivifica a ação e obtém do céu o sucesso que nossos esforços sozinhos não podem obter.

O Cardeal Pie nos mostrou nos três primeiros pedidos do Pater: “santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu”, a oração por excelência para o advento do Reino social aqui embaixo.

Ele quer que os fiéis compreendam o pleno significado dessa oração e saibam que o reino de que se fala não é apenas o céu, mas também o reino social de Cristo na terra. Eles devem, portanto, ao recitá-lo, desejar esse reino e orar com confiança ao Pai celestial para conceder ao mundo esse benefício inestimável.

Ouçamos o Bispo de Poitiers recomendar a oração pelo reino. É a uma freira que ele se dirige e, por meio dela, a todos os fiéis que amam Nosso Senhor:

“A vida espiritual não avança entre aqueles que estão no comando dos negócios, sejam homens de poder ou homens do futuro. Deus não é colocado em seu lugar por ninguém. Infelizmente! Aprenderemos às nossas custas que não se dispensa o Ser Necessário impunemente. O mundo perdoa-lhe a sua existência, desde que esteja disposto a deixar os seus negócios transcorrerem sem Ele, e este mundo não é apenas o mundo sem Deus, mas um certo mundo político cristão. Quanto à nós, esforcemo-nos a melhor sentir, a melhor salientar os três primeiros pedidos do Pai Nosso. Enquanto o mundo atual durar, não consintamos em relegar o reino de Deus ao céu, ou mesmo ao interior das almas: sicut in caelo et in terra? O abandono terreno de Deus é um crime: nunca nos resignemos a ele!”

“E como o destronamento de seu representante visível está intimamente ligado a ele, rezemos sem cessar para que a grande iniquidade consumada em Roma possa chegar ao fim. Então, como a libertação de Roma só pode vir através da França, coloquemos nosso patriotismo nacional mais do que nunca, mas acima de tudo coloquemos todo o ardor do nosso amor a Deus e à sua Igreja para trabalhar pela recuperação da França através de nossas orações e nossos sofrimentos!”

Que os fiéis não se cansem de rezar pela vinda do Reino e que a sua oração, nos nossos dias de apostasia nacional, seja mais fervorosa e mais confiante do que nunca! Esta é a palavra de ordem do Cardeal Pie.

Aprender toda a religião e praticá-la em família e publicamente, crer na Realeza social de Jesus Cristo e rezar para que ela aconteça, tal é o dever dos fiéis.

(La Royauté de N.-S. Jésus-Christ d´après le Cardinal Pie, parte III, cap. 1 - Tradução: Witor Lira)

  1. 1. Œuvres sacerdotales, 1, 137
  2. 2. Ibid., I, 98-189.
  3. 3. Œuvres sacerdotales, I, 133-134.
  4. 4. Homélie sur l'étendue universelle de la Royauté de Jésus-Christ, 1874
  5. 5. Um resumo das Sagradas Escrituras e da vida dos Santos: dois livros indispensáveis. Outros livros não estão excluídos, mas o bispo de Poitiers quer que a biblioteca da família esteja composta unicamente de bons livros. Ele fazia sua as recomendações precisas de um bispo seu amigo: “Perscrutai ai as vossas bibliotecas e as vossas casas, como se perscruta uma floresta ou um lugar onde se supõe a presença de um assassino ou de um ladrão, e declarai guerra de morte aos maus livros”. Quanto aos periódicos, adverte ao pai de família que supervisione o que entra na sua casa. Desse jornal ou periódico depende a vida ou a morte da família. Não se compre jornais ruins ou neutros, mas apenas os bons e inteira e francamente católicos.” – Falando de leitura, devemos assinalar a importância que o bispo de Poitiers dava à questão da imprensa. “Ainda que o povo todo se reunisse para o sermão, o povo mais religioso do mundo que lesse periódicos maus, se tornaria, após trinta anos, uma nação de ímpios e de revoltados. Humanamente falando, não há pregação que segure uma imprensa má” Cardeal Pie, citado por E. Auguer no Vade-mecum du Conférencier. 419
  6. 6. A escola abertamente má é comparada a um gládio que mata, a escola neutra a um veneno que, lentamente, conduz à morte. Não há nenhum exagero nessa doutrina de São João Crisóstomo recordada pelo Cardeal Pie. É a doutrina da Igreja que sempre condenou a escola neutra. Ler a esse respeito a Encíclica Nobilissima gallorum gens de Leão XIII. Lá se lê: “Sempre scholas quas appelant mixtas vel neutras aperte damnavit Ecclesia”.
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