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Category: AnônimoConteúdo sindicalizado

Dos costumes divinos

[O opúsculo DOS COSTUMES DIVINOS é o LXII da EDIÇÃO ROMANA  das obras de Santo Tomas de Aquino (publicada em 1570 por ordem de São Pio V).

Hoje, não mais se atribui este texto ao Doutor Angélico, sendo desconhecido o seu autor. Contudo, quem quer que o tenha escrito, é interprete fiel de sua doutrina e, por sua elevação e ingenuidade, remetem-nos ao próprio santo Tomás.]

 

 

“Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48). A Santa Escritura nunca nos ordena e nos aconselha algo de impossível. Por essa palavra, o Senhor Jesus não nos manda fazer as próprias obras e os costumes de Deus, os quais ninguém pode atingir de maneira perfeita.

Mas nos convida a nos calcarmos neles o mais possível procurando imitá-los. Nos o podemos, com o socorro da graça, e devemos. E como diz o bispo João, nada convém mais ao homem do que imitar seu criador e executar, segundo a medida de seu poder, a obra de Deus. (Leia mais)

Sinopse dos erros imputados ao Concílio Vaticano II

    

Continuamos nosso trabalho de denúncia dos erros do Concílio Vaticano II. Consideramos ser este tipo de denúncia teológica a única saída, em termos humanos, para a crise que nos atormenta já há décadas, visto que da parte das autoridades do vaticano, os erros continuam a ser ensinados e difundidos.

O trabalho que a Permanência realiza há 50 anos procura denunciar os erros e publicar a Verdade, para que nossos leitores compreendam que, decididamente, Vaticano II não foi um concílio católico. Ele deve ser rejeitado, sim, e o será um dia pela autoridade suprema do Vigário de Cristo. Por enquanto ele ainda é a pedra de tropeço para tantas comunidades religiosas e padres que, acreditando ser possível manter a Tradição e aderir ao Concílio, aceitam acordos que sempre terminaram por inserir estes padres e fiéis no ambiente pervertido, heretizante e modernista que reina no Vaticano.

    

A presente Sinopse dos Erros de Vaticano II é a tradução da versão francesa do jornal SiSiNoNo, publicada a partir do número 247, de julho-agosto de 2002.

    

"Roma perderá a Fé"— 170 anos de La Salette

Relativamente à aparição da Santíssima Virgem em "La Salette", como a qualquer outra manifestação do Céu sobre a terra, nossa curiosidade humana procura saber o que o Céu foi levado a dizer à terra. Mas é antes o atrativo do divino e a solicitude com a nossa santificação que nos deveria impelir a conhecer estas revelações. Por isso, daremos, duma parte, "in extenso", as revelações feitas por Maria a 19 de setembro de 1846, em La Salette, doutra parte esperamos que tendo sido a inteligência instruída com estas coisas, a vontade será então fortificada, para que daí venha a santificação das almas: é o objetivo de Nossa Senhora, o qual deve ser o nosso. Que os curiosos sem desejo de santidade se abstenham de continuar a ler, pois se arriscariam de não compreender a Santíssima Virgem; os que, porém, querem se santificar que tirem proveito disso.

A 19 de setembro de 1846, duas crianças, Maximino Giraud e Melânia Calvat, originário de Corps no departamento de Isère, na França, guardam as suas vacas nos arredores do lugarejo de La Salette. Eis aqui o que Melânia escreverá desde 1860 e que publicará em 1875, com o "imprimatur" de Dom Zola, bispo de Lecce na Itália. Aí ela confia o texto do seu segredo que havia escrito e transmitido, como Maximino fizera com o seu, ao Papa Pio IX, em julho de 1851. Leia mais

Introdução ao décimo oitavo domingo de Pentecostes

 “Meu filho, teus pecados te são perdoados” (Evangelho).

 

Paramentos verdes

 

Este domingo, que vem a seguir ao Sábado das Quatro Têmporas, era a princípio vacante. A liturgia da Vigília prolongava-se com efeito até de manhã, de maneira que não ficava tempo para os ofícios dominicais. As lições que se leem no Ofício são do Livro de Judite. Todos conhecem a história desta mulher famosa que salvou a Judéia, cortando a cabeça de Holofernes, general dos exércitos assírios. Holofernes, enviado por Nabucodonozor para conquistar a Palestina, tinha cercado Betúlia. Vencidos pela fome e pela sede, os sitiados tinham deliberado render-se, quando Judite apareceu a encorajá-los. Façamos penitência, dizia, e imploremos o perdão de Deus, porque estes flagelos com que nos castiga são para nos corrigir e não para nos perder. Depois, quando veio a tarde, vestiu-se com as suas melhores galas e fez-se introduzir no acampamento dos inimigos, sob pretexto de lhes entregar a cidade. E levada à presença de Holofernes, o general, seduzido pela sua beleza, recebeu-a com grande contentamento e ordenou que, em sua honra, se preparasse um banquete.

A Igreja, ao recordar as sete dores da Virgem Santíssima, aplica-lhe o canto que se ouviu em Israel, quando Judite livrou o povo eleito. Maria é com efeito a nova Judite que decepa a cabeça do general assírio, do dragão infernal. Nestes dias lê a Santa Igreja no Ofício divino estas páginas gloriosas da epopeia israelita, que são a figura do que mais tarde havia de acontecer numa ordem espiritual e mais elevada. A libertação do povo judeu da sujeição assíria, levada a efeito por Judite, representa a libertação da humanidade operada por Jesus. É muito oportuna esta Missa nesta época das Têmporas, que são tempo de perdão, por sê-lo de penitência em que Deus se deixa aplacar e vencer dos pobres mortais. Desse perdão e dessa paz consoladora, que se frui da Casa do Senhor, são legítimos despenseiros os sacerdotes a quem Jesus concedeu o poder sublime de dizerem: “Os teus pecados te são perdoados” Os novos ungidos do Senhor serão encarregados também de pregar a palavra de Deus, de celebrar o Santo Sacrifício e de preparar por este modo a humanidade para se apresentar confiadamente diante do Supremo Juiz. É por este motivo, precisamente, que a Igreja insistirá durante estes domingos no pensamento da vinda do Senhor.

A Epístola de hoje é também para meditar. Que contas tão estreitas não terá de prestar o cristão de tantas graças que recebe! E como dissipamos herança tão rica, como desprezamos tantas graças, os sacramentos, a pregação da palavra de Deus! Que contas serão as nossas[i]?

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

 


[i] - Para compreender a Missa deste domingo é preciso notar que antigamente não tinha Missa própria. O Ofício do Sábado das Quatro Têmporas, prolongado pelas cerimônias das ordenações, chegava até de manhã.

Por que Cristo quis nascer de uma mulher?

Os Padres da Igreja se fizeram essa pergunta por muito tempo: por que Deus escolheu encarnar-se, nascer de uma mulher? Cristo, o novo Adão, poderia, de fato, ter sido criado como um adulto, como o primeiro homem. Essa pergunta nos dá ocasião para meditar e contemplar o plano que Deus escolheu ao querer a Virgem Maria como sua mãe.

As razões são fáceis de descobrir. As profecias sobre o Messias anunciaram que Ele nasceria de uma mulher, bem como o protoevangelho (Gn 3,15), que anuncia a inimizade entre o Messias e Sua Mãe com a serpente, isto é, o demônio. Essas profecias deviam ser cumpridas.

O fato de que o poder divino seria melhor demonstrado se o Salvador nascesse de uma mulher é outra razão: Deus triunfa através de uma criatura, o que manifesta Seu soberano poder, capaz de usar instrumentos frágeis para as maiores obras.

Uma terceira razão é que, entre as criaturas, apenas uma mulher poderia se tornar a Mãe de Deus. A natureza humana permite ao Filho de Deus encontrar uma mulher, uma pessoa que Lhe dará aquela natureza que será oferecida em holocausto para a glória de Deus e a salvação da humanidade.

Os Padres e teólogos descobriram outras razões maravilhosas.

Uma razão muito importante é atestar a verdade da Encarnação. Muitos hereges, como os docetistas, alegaram que Jesus Cristo não era homem, que Ele apenas “atravessou” pela Virgem Maria. A afirmação da maternidade divina refuta essas fantasias.

Além disso, a natureza humana é corporal e espiritual e envolve o fato de que o corpo procede da maternidade: contrariamente às alegações dos hereges mencionados acima, possuir uma natureza verdadeiramente humana não diminui a dignidade do Verbo.

De modo semelhante, a vida familiar é parte da nossa natureza: toda criança nasce numa família. Não há imperfeições nessa situação. É apropriado, portanto, que o Verbo Encarnado assuma uma vida familiar.

Essa vida familiar gerou a oportunidade do Verbo Encarnado servir de modelo de piedade filial.

Santo Agostinho deu outra boa razão: a humanidade é honrada em um representante masculino, um homem que é Deus, e em um representante feminino, uma mulher revestida da dignidade de Mãe de Deus.

Outra boa razão diz respeito ao casamento místico da humanidade com o Verbo: o Fiat de Maria foi dado em nome de toda a humanidade.

Quanto à salvação da humanidade, o fato de que o Verbo Encarnado Se tornou homem, descendente de Adão de acordo com a carne, nascido de mulher, colocou-O em posição de mediador: Ele é aceito pelas duas partes que Ele conecta, Céu e terra, Deus e os homens.

Finalmente, para que a expiação do Messias possa ser aceita por Deus como advindo dos pecadores que O ofenderam, era necessário que Ele pudesse estar com os pecadores: é isso que Isaías e São Paulo dizem. Não que Ele seja um pecador, mas em razão de sua natureza humana e de sua origem em Adão.

É claro que todas essas razões não nos fornecem a resposta à questão indagada. Mas elas a explicam e ilustram, e permitem-nos adentrar os segredos de Deus sobre Seu Filho encarnado e Sua mãe.

Introdução ao décimo sétimo domingo de Pentecostes

“Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Evangelho)

 

Paramentos verdes

 

A história de Tobias que se lê por esta altura no Ofício divino coincide frequentemente com este domingo. Julgamos, pois, conveniente estuda-la para estabelecer, conforme o nosso plano, a íntima união que existe e que muitas vezes não se nota entre o Breviário e o Missal.

Tobias terá vivido no tempo de Salmanasar pelos fins do século VIII antes de Cristo, ao tempo das deportações dos israelitas do Norte para a Síria. Foi homem pobre, observava todas as coisas conforme a Lei de Deus. Porém, depois que chegou à idade varonil casou-se com Ana, mulher da sua tribo, e teve dela um filho, a quem deu o seu nome e ensinou desde a infância a temer a Deus e a abster-se do pecado. Levado cativo para Nínive, Tobias não esqueceu o nome do Senhor e visitando os seus irmãos de exílio e de raça, dava-lhes salutares conselhos e distribuía com eles do seu pouco.

Dava de comer aos famintos, vestia os nus e sepultava com paternal solicitude os que morriam enfermos ou ao cutelo do tirano. “E Deus para acrescentar a sua coroa e dar aos homens um nobre exemplo de paciência e fidelidade, quis que ele cegasse já no fim dos seus dias”. E continua a Escritura: “tendo temido o Senhor desde a infância e andado sempre na sua Lei, não se contristou nem se revoltou contra Deus por causa da chaga com que o feriu, mas ficou imóvel no temor do Senhor, dando graças a Deus todos os dias da sua vida”

Somos filhos de santos, dizia, e esperamos a vida que Deus prometeu aos que põem N’Ele a sua esperança. E como a esposa o insultasse, Tobias gemeu dentro da sua alma e orou ao Senhor quase pelas palavras do Intróito de hoje: “Senhor, Vós sois justo e todos os vossos juízos são retos. Tratai o vosso servo segundo a vossa misericórdia”. Depois, voltando-se para o seu filho: “Meu filho, guarda no teu coração o nome do Senhor e foge de consentires no pecado. Dá esmola do que tens e não desvies a tua face do que tem fome. Faz todo o bem que puderes. O que não queres que te façam, livra-te de o fazeres a alguém”. Em resumo, o amor de Deus e do próximo, na sua realização magnífica, tal como a Epístola e o Evangelho de hoje no-lo aconselham. Amarás ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu espírito e ao próximo como a ti mesmo (Evangelho). Praticai em tudo a humildade, a mansidão e a paciência. Sofrei-vos mutuamente e sede solícitos em vos conservar unidos nos vínculos da paz. Praticando estes sapientíssimos conselhos poderemos exclamar um dia com o velho Tobias ao recobrar a vista do corpo: “Ó Jerusalém, tu hás de brilhar como os astros e todas as nações virão adorar dentro dos teus muros o Deus de Israel. As tuas praças serão pavimentadas de pedras preciosas e nas tuas ruas ressoará para sempre o Aleluia eterno” Assim é a Jerusalém celeste e o reino de Deus na Terra, a Igreja Católica, Apostólica, Romana. “Quem a abençoar será bendito”. Todos são chamados a formar nela um só corpo, animado dum só espírito, que é o mesmo Espírito Santo que lhe foi infundido no dia de Pentecostes. “Todos temos a mesma Esperança, a mesma Fé e o mesmo Batismo”

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

Introdução ao décimo sexto domingo de Pentecostes

 “Tomando este homem pela mão, Ele o curou” (Evangelho)

 

Paramentos verdes

 

Costuma ler-se por esta altura no Ofício de Matinas, a história de Jó. Continuemos a nossa tarefa de estudo comparativo do texto do Missal e do Breviário.

Jó é o tipo do homem justo que o espírito do mal persegue e humilha para o excitar à revolta contra Deus. E assim acontece de fato deixar a Providência por um pouco a alma nas mãos de Satanás para confessar na dor e na desgraça a sabedoria de Deus e submeter-se incondicionalmente à sua vontade. Privado de todos os bens e abandonado só sobre o monturo, exposto às vaias dos maus e ao riso até dos seus amigos, o pobre Jó submetia-se confiadamente aos juízos insondáveis de Deus e implorava a sua misericórdia. O Salmo do Intróito pode considerar-se a expressão exata da sua angústia. Era assim realmente que Jó orava. Ele é o grito de todas as almas atribuladas. “Tende piedade de mim, Senhor. Tenho gritado por Vós durante todo o dia. Baixai o ouvido e escutai-me. Sou pobre e nada tenho de meu”.

O Ofertório e a Comunhão exprimem de maneira surpreendentemente exata os sentimentos do grande perseguido da desventura: “Deitai sobre mim o vosso olhar e vinde em meu auxílio. Confundi e humilhai diante de mim aqueles que querem tirar-me a vida. Senhor, não esqueci a vossa justiça. Vós conduzistes os meus passos desde a juventude. Agora que estou velho, não me abandoneis, Senhor”. Deus, diziam os amigos de Jó para encorajá-lo, exalta os humildes e levanta e cura os aflitos de coração. E o Evangelho da Missa de hoje repete: “Todo o que se exaltar será humilhado, e todo o que se humilhar, será exaltado”

Deus, com efeito, depois de provar Jó com as maiores humilhações, eleva-o de novo e dá-lhe o dobro de tudo quanto anteriormente possuía. Jó é figura de Cristo que, depois das humilhações do Gólgota, seria exaltado com a apoteose da ressurreição. É ainda figura de todo cristão, que terá lugar de honra no banquete de núpcias do Cordeiro se na terra praticar com amor e com fé a virtude da humildade. O orgulho, diz S. Tomás, é um vício pelo qual o homem se eleva contra a razão acima do que realmente é. O orgulho assenta consequentemente no erro e na ilusão. A humildade, pelo contrário, funda-se na mesma verdade. É uma virtude que modera os ímpetos da alma e a inibe de se elevar acima do que é. É por isso que o orgulho também se chama soberba — “superbia”. A alma verdadeiramente humilde aceita submissamente o lugar que lhe cabe e que Deus, verdade suprema e infalível, lhe consignou. Humildade nas palavras, na conversa, nos atos, nas provas, é a humildade genuína que Jó nos ensina e que o Senhor no Evangelho de hoje nos aconselha. Vendo como os fariseus escolhiam os primeiros lugares, quis fazer-lhes compreender o mal grave de que estavam tomados e levá-los por este modo a procurar a cura. Curou, com efeito, primeiramente um hidrópico inflado no mal e procurou depois, velando a lâmina do escalpelo na gaze sutil duma parábola, curar a hidropisia espiritual dessas pobres almas cegas e condutoras de cegos. O mundo só se encontra bem na exaltação e na enfatuação permanente do orgulho e esquece-se de que a humildade é condição indispensável para entrar no Reino de Deus. É esta virtude que a oração da Missa nos inculca e é-nos admiravelmente exposta na Epístola. Sem merecimento nenhum da nossa parte, explica o Apóstolo aos Efésios, mas unicamente para servirmos a glória de Deus, o Senhor escolheu-nos e fez de nós, de filhos da ira, que éramos, herdeiros do Seu Reino.

Do Evangelho: “Vai e põe-te no último lugar”; não quer dizer que o superior se deva colocar abaixo dos subordinados e expor à irrisão a autoridade; mas que se deve sempre lembrar da sentença que diz: “Quanto maior fores, mais humilde te mostra e encontrarás graça na presença de Deus”

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

Introdução ao décimo quinto domingo de Pentecostes

 “Jovem, eu te ordeno, levanta-te” (Evangelho)

 

Paramentos verdes

 

 As lições deste domingo são geralmente do livro de Jó, desse venerável patriarca da Idumeia, que Satanás quis experimentar com danada tenção de ver se realmente servia a Deus com desinteresse ou porque o tinha cumulado de bens e de riqueza. Um dia, diz o Livro sagrado, Satanás apresentou-se diante de Deus e disse-Lhe: Corri a Terra toda e encontrei o vosso servo Jó, que Vós tendes protegido e enriquecido de consideráveis riquezas. Estendei, no entanto, um pouco a Vossa mão e tocai-lhe, que sempre quero ver se ele não Vos bendiz só por diante. E o Senhor respondeu-lhe: Vai e faze-lhe quanto esteja no teu poder, mas não lhe tires a vida. Partiu Satanás e depois de o privar de todos os bens, feriu-o com uma chaga terrível e purulenta desde a planta dos pés até a cabeça. É pensando na malícia de Satanás que a Igreja pede hoje ao Senhor que nos defenda das insídias do espírito das trevas. Jó clamava: “Na casa dos mortos é a minha morada e o meu leito num lugar tenebroso. Disse ao pus, tu és o meu pai; e aos vermes, vós sois a minha mãe e a minha irmã. Consumiu-se a minha carne como um vestido roído pela traça e os ossos pegaram-se-me à pele. Tende compaixão de mim, vós ao menos que sois meus amigos, porque a mão do Senhor feriu-me”. Porém, ninguém atendia ao seu apelo, e, desiludido dos homens falsos e ingratos, voltou-se para Deus, entoando o mais belo cântico de esperança que jamais se ouviu sobre a Terra: “Eu sei que vive o meu Redentor, que me ressuscitará da terra no último dia. Então, serei revestido novamente da minha pele e verei o meu Deus. Eu mesmo O verei e contemplarei com os meus olhos. Esta esperança vive dentro de mim”.

A Santa Igreja, de que Jó é figura, tem a consciência dos ataques incessantes com que o demônio pretende destruí-la, e não cessa de pedir a Deus que a proteja, que a conduza e a defenda. A sua voz é ainda o eco da oração de Jó, a confissão humilde da sua impotência e a esperança invencível n’Aquele que é poderoso e cheio de entranhas de misericórdia com os que O invocam.

A Epístola é uma exortação fremente e ansiosa a que andemos nos caminhos do Senhor e sejamos fiéis às inspirações do Espírito. Se vivemos no Espírito, andemos também em conformidade com Ele, quer dizer, sejamos mais humildes, tenhamos mais caridade com os que saem do caminho da justiça e pensemos que somos fracos também e que havemos de prestar apertada conta dos nossos pecados e não dos pecados dos outros.

O Evangelho, segundo a interpretação unânime dos Padres, é um símbolo admirável da Igreja, deplorando os seus filhos que vivem em pecado mortal e pedindo Àquele que veio à Terra para perdoar, que se amercie deles e os ressuscite.

Do Evangelho: Se a ressurreição deste jovem, diz S. Agostinho, alegrou a viúva, sua mãe, também a Santa Igreja, que é mãe de todos os homens, se alegra com as ressurreições espirituais que se operam todos os dias nas almas de seus filhos. Choram-se as mortes que se veem, a morte que menos importa, a do corpo; e ninguém pensa nem pressente sequer essas mortes terríveis que se passam dentro da consciência de cada um. Todavia, Aquele que vê estes mortos, pensa neles.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

A queda do Afeganistão e o ressurgimento do Islamismo radical

William Kilpatrick

 

Enquanto escrevo este artigo, as notícias narram que Kabul caiu nas mãos dos Talibãs, que o presidente do Afeganistão está foragido e que o novo governo será nomeado de Emirado Islâmico do Afeganistão. Enquanto isso, está sendo noticiado que a Embaixada dos EUA foi evacuada, mas não está claro, ainda, se os funcionários da Embaixada conseguiram sair do país.

Até ontem [15 de Agosto de 2020], muitos na administração Biden estavam dizendo que nada disso iria acontecer, ou que, se acontecesse, não aconteceria em um longo tempo. Mas está acontecendo agora. E a velocidade da tomada nos deve levar a fazer uma reflexão.

Nos últimos dois anos, houve uma cascata de eventos súbitos para os quais poucos estavam preparados – levantes violentos em centenas de cidades americanas, uma elevação do crime, uma pandemia mundial, a eleição controversa de um presidente alienado da realidade, o ressurgimento de tensões raciais e uma invasão de centenas de milhares de imigrantes ilegais na nossa fronteira do Sul. Mais chocante que tudo, as rédeas do governo americano, agora, estão nas mãos de esquerdistas.

Desde uma perspectiva histórica, tudo ocorreu em um piscar de olhos. E – ao menos para a maioria dos americanos – foi tudo inesperado.

A rápida e inesperada derrota do governo afegão deveria servir de aviso para o fato de que tempos mais turbulentos e perigosos estão à vista. Não é uma previsão difícil de se fazer. Nossa derrota no Afeganistão advém, de várias maneiras, da ilusão mesma dos “woke”(**) que permitiu à anarquia e ao caos moral crescerem e prosperarem nos EUA.

De fato, muitos de nossos erros de cálculo no Afeganistão parecem estar fundados diretamente no mesmo tipo de pensamento mágico que, agora, permeia nossas escolas, nossos conselhos municipais e até mesmo nossas Forças Armadas. Em tempos de crise, nós dependemos de que nossos militares estejam sempre um passo à frente ao lidarem com um inimigo como os Talibãs. Mas, agora, parece que nossas Forças Armadas foi uma das primeiras instituições a sucumbir à doutrina “woke” – isto é, ao wishful thinking. Como os ativistas radicais que pediam o corte de verbas da polícia, generais radicais, entusiasticamente, apoiaram programas que levaram a um desarmamento moral das tropas.

Em vez de aumentar o moral, a coesão das unidades e a prontidão,  solaparam essas qualidades ao introduzir treinamento em teoria racial crítica, racismo sistemático, preconceito com brancos e orgulho LGBT. É claro, como o bom senso indica, tais programas serviram apenas para aumentar as divisões entre as tropas: negros contra brancos, cristãos e conservadores contra liberais e esquerdistas etc. A "grande ideia" da Força Aérea para aumentar o moral foi trazer drag queens para entreter os aviadores. As pessoas que sancionaram esses bizarros programas de treinamento não eram funcionários do baixo escalão, mas do topo do topo. O Secretário de Defesa Lloyd Austin presidiu um evento de “orgulho gay” no Pentágono e, em outra ocasião, anunciou que combater a mudança climática era a maior prioridade dos militares. Por outro lado, o General Mark Milley, o Estado-Maior Conjunto dos EUA e ex-comandante das nossas tropas no Afeganistão, parece pensar que a “supremacia branca” é a maior ameaça a nossa nação. Posições semelhantes têm sido adotadas pelo Comandante da Marinha, Almirante Michael Gilday, pelo Estado-Maior da Força Aérea, Charles Q. Brown Jr., e por vários outros oficiais de alta patente.

Com toda essa engenharia social em suas mentes, não é de espantar que os generais não tivessem muito tempo para pensar na ameaça dos Talibãs. Além disso, esse tipo de doutrinação a que nossas tropas têm sido submetidas não apenas solapa a coesão, a unidade e o moral da tropa (suicídios estão em alta recorde), mas também distrói a lógica por trás da defesa do próprio país. Se a sua pátria é apresentada como a nação mais preconceituosa e racista da história, por que arriscar a vida lutando por ela? Se os EUA não são melhores que os Talibãs (ou o ISIS, ou Al-Qaeda), então que direito temos de intervir?

Esses mitos “woke” inibiram muito a eficiência dos militares no Afeganistão e em outros lugares. Mas a ilusão mais perigosa na qual acreditam tanto os militares, quanto governos sucessivos diz respeito ao Islã em si. É a ilusão de que o Islã é uma religião de paz. A noção ilusória de que a cultura e a religião islâmicas não são diferentes da nossa, ou que os muçulmanos devotos querem o mesmo que o Ocidente – liberdade de consciência, tolerância de opiniões divergentes, democracia e a igualdade de homens e mulheres.

Qualquer um que tenha conhecimento do Corão, da Hadith e da Sharia ou da história do Islã sabe que, quanto mais devoto um muçulmano é, menos provável será que queira alguma dessas coisas. Muitos de nossos politicos, porém, não são pessoas religiosas, de modo que tendem a subestimar a importância da religião na vida das pessoas. Ora, o Talibã, Al-Qaeda, ISIS, Boko Haram e afins são profundamente religiosos. Eles não estão lutando, apenas, por terra, ou por recursos naturais, mas por Allah. As guerras que travam são guerras religiosas. E um dos princípios maiores da religião deles é que o mundo inteiro deve estar submetido a Allah. Como o comandante do Talibã Muhammed Arif Mustafa, recentemente, afirmou: “É nossa crença que, um dia... A lei islâmica virá não apenas para o Afeganistão, mas para todo o mundo... a Jihad não terminará até o fim dos tempos”. Por essa razão, a maioria desses incentivos oferecidos pelos EUA e pela OTAN, que lembram uma cenoura penduradas num graveto, simplesmente não funcionarão – e menos ainda o aviso de Jen Psaki de que os Talibãs estão correndo risco de perder prestígio perante a “comunidade internacional”.

A ameaça do Islã tem sido muito subestimada, porque pouquíssimos realmente tentaram compreender o Islã, seu fundador beligerante e seu ethos guerreiro. Embora gerações de americanos tenham se entusiasmado com filmes de James Bond estrelando vilões maus que buscam a dominação global, parecem esquecidos da possibilidade de que ideologias na vida real, de fato, busquem essa dominação global. E, ainda assim, uma das lições mais claras da História é que é exatamente isso que o Islã quer.

Um indício da falta de entendimento do Islã e de suas ambições globais é que o significado dos atentados de 11/09 está sumindo da memória. Muitos da geração “woke” eram, apenas, bebês no tempo dos ataques, então não experimentaram a sensação de choque e pavor sentida por muitos americanos por anos após o ataque. Mas esse medo desapareceu com o passar do tempo. Recentemente, muitas das famílias das vítimas do 11/09 se sentiram ultrajadas com alegações da mídia de que os acontecimentos no Capitólio de 6 de Janeiro, que resultaram em uma morte, foram piores que os ataques do 11/09, que deixaram quase 3 mil mortos e geraram guerras.

Haverá outro 11/09? Infelizmente, seria difícil dizer o contrário. Devido a nossa relutância em tirar lições daquele acontecimento, parece que estamos fadados a receber lições ainda mais duras. Dado o modo rápido e decisivo com que o Talibã retomou o Afeganistão, outro ataque parece bastante provável.

De fato, parece provável que, agora, testemunharemos um ressurgimento poderoso da atividade islâmica de jihad em todo o mundo. A partida humilhante das forças americanas do Afeganistão será tomada como um sinal da vontade de Allah por muitos muçulmanos ao redor do mundo. Alguns dos aliados dos EUA a interpretarão como um sinal de que não podem mais confiar nos EUA, e alguns optarão por tomar uma posição mais neutra na guerra contra o terrorismo islâmico. Assim como o exército afegão acabou se rendendo ao Talibã, também podemos esperar que outros povos em terras que estão combatendo jihadistas abandonarão a luta e aceitarão o duro jugo da Sharia, para não correrem o risco de perder tudo.

Aqui, nos EUA, devemos nos perguntar se estamos prontos para outro ataque da mesma magnitude que o 11/09. A Polícia de Nova York, por exemplo, está preparada? Eles estão seriamente desmoralizados com o fracasso do prefeito progressita em lhes dar apoio. Enquanto isso, muitos policiais abandonaram a corporação ou aposentaram-se mais cedo em razão do sentimento antipolicial, de taxas crescentes de criminalidade e das tentativas de cortes de verbas da polícia. Estarão eles de prontidão [para os ataques terroristas], ou estarão preocupados com outras coisas, tentando defender-se de ataques físicos ou verbais?

Ainda que a polícia americana se mantenha firme, e quanto ao resto do mundo? Como Osama bin Laden uma vez observou, os homens, naturalmente, preferirão um cavalo forte a um cavalo fraco. E, cada vez mais, o Islã radical parece ser o cavalo forte. A Turquia, a China, o Paquistão e o Irã já sinalizaram que reconhecerão o Talibã como o governo legítimo do Afeganistão. Todos eles estão prontos a fornecer armas e dinheiro ao Talibã. Enquanto isso, o Talibã adquiriu armas – fuzis americanos, artilharia, Humvees, drones e helicópteros abandonados pelo exército afegão em debandada. Eles também libertaram cerca de 5 mil prisioneiros Talibãs e Al-Qaeda experientes em combates da Base Aérea de Bagram. Inspirados em seus ímans e no Corão, esses lutadores não estarão muito inclinados a se aposentarem e a viverem vidas pacíficas daqui em diante.

Para muitos muçulmanos – especialmente muçulmanos jovens – a vitória será fonte de inspiração para aderir à jihad, e o número de recrutamentos provavelmente explodirá. O sangue fresco poderia virar a balança em muitas áreas em combate – por exemplo, em partes da África, as Filipinas e a Índia.

A Índia, é claro, tem armas nucleares – várias delas. E isso traz outra possibilidade assustadora. Ao derrotar o exército afegão, os Talibãs adquiriram um considerável número de armas avançadas. Outras forças islâmicas poderiam adquirir armas nucleares de governos que se renderem em outras partes do mundo? A Índia é uma possibilidade, mas ela daria uma luta dura. A Índia tem uma longa lembrança de conquistas islâmicas passadas e não se renderá tão facilmente.

Mas boa parte da Europa é outra história. Há sinais de que seus povos estão perdendo a vontade de resistir. A Europa tem uma população envelhecida, e, em anos recentes, tem mostrado uma propensão a tentar agradar ao Islã. Enquanto isso, a população muçulmana da Europa continua a crescer e é uma população muito mais jovem. Em outras palavras, grande parte dos muçulmanos europeus estão em idade de combate.

Tanto a França quanto a Inglaterra têm armas nucleares e sistemas avançados aptos a lança-las, mas, obviamente, tais armas nunca foram adquiridas para o tipo de situação que, hoje, os franceses e os ingleses enfrentam. Mas é cogitável que essas armas poderiam cair nas mãos dos islâmicos, se algum desses países sucumbisse à islamização. Ambos os países sofreram mais ataques jihadistas – alguns com números impressionantes de mortos – que os EUA. E alguns, como o escritor francês Mihcel Houellebecq, acreditam que a França está pronta para se render.

E, ainda que a Europa se mantenha firme, e quanto ao EUA? Como mencionei acima, os generais americanos têm ideias muito estranhas de qual sua missão. Se os líderes militares americanos são burros o suficiente para cair na teoria racial crítica, na ameaça de um golpe branco supremacista, nos méritos do neomarxismo e no papel crucial que os drag queens desempenham para aumentar o moral, então eles cairão em qualquer invenção.

Um sinal de que é assim é que o Pentágono, recentemente, nomeou seis muçulmanos radicais (um terço do total) ao recém criado “Grupo de Trabalhos para Conter o Extremismo”. O grupo recebeu a tarefa de eliminar os extremistas (conservadores, cristãos e patriotas) das linhas dos militares. Então, muçulmanos extremistas receberam a tarefa de eliminar das Forças Armadas seus soldados mais leais e patriotas. É um caso clássico da raposa guardando o galinheiro. E isso está acontecendo apesar do fato de que, em várias ocasiões, muçulmanos extremistas se infiltraram em bases das Forças americanas, com consequências mortais.

Quando estavam em campanha pela presidência, Joe Biden prometeu nomear muçulmanos para posições governamentais “em todos os níveis”. Mas parece que os muçulmanos já estão servindo em todos os níveis do governo estadual e federal. Alguns deles, sem sombra de dúvidas, estão servindo lealmente, mas alguns podem estar servindo a outros interesses. Em seu livro de 2015, Catastrophic Failure, o analista de segurança, Major Stephen Coughlin falou de infiltração considerável do Pentágono pela Irmandade Muçulmana. Em 2016, Philip Haney escreveu sobre uma penetração parecida no Department of Homeland Security em seu livro See Something, Say Nothing. Em 2020, enquanto escrevia a continuação do livro, Haney foi encontrado morto com um ferimento de tiro em uma estrada. Não é apenas uma paranoia que evita que as pessoas digam o que veem. Em muitos casos, é um medo real de que o que provavelmente aconteceu a Haney possa acontecer a elas.

Apenas recentemente os americanos acordaram para o fato de que os comunistas chineses, por anos, têm exercido influência considerável nas universidades, empresas e pessoas em altas posições de governo. Algum dia acordaremos e descobriremos que radicais islâmicos têm conduzido operações de influência semelhantes na sociedade americana?

Mas a coisa mais curiosa é que essas operações de influência dificilmente são necessárias. Isso porque uma maioria na academia, mídia e establishments políticos, há muito tempo, venderam-se ao mito de que o Islã verdadeiro é pacífico, tolerante e moderado em essência. Além disso, eles fizeram tudo ao seu alcance para cancelar e silenciar aqueles que não acreditam no mito – as pessoas que eles desqualificam como “islamófobos”.

Essa manhã, uma das manchetes na minha TV dizia: “Autoridades: Talibã tomou o poder mais rápido que o esperado” Muitas coisas estão acontecendo mais rápido que o esperado. É provável que a influência da China e do Islã pelo resto do mundo continuará a crescer mais rápido que o esperado.

Mas não é para você perceber isso. A vitória de domingo do Talibã sacudiu os americanos anestesiados. Mas várias dessas sacudidas já aconteceram ao longo do anos, e, após cada uma, nós voltamos a dormir. A maioria dos americanos têm menos medo do Islã que de ofender a ideologia “woke” – menos medo do Islã que de ser considerados “islamófobos”.

O que precisamos temer, porém, não é a “islamofobia”, mas o retorno do Talibã, da Al-Qaeda, do ISIS e a aliança dos três com a China, Turquia, Irã, Paquistão e vários outras potências que desejam nossa derrota.

 

**N.T.: O termo “woke” refere-se à ideologia progressista americana contemporânea, bem como aos americanos que a ela aderem

 

Tradução: Permanência / Fonte:Catholic Family News / A pintura que ilustra este artigo é de R. Moinvoisin 

Introdução ao décimo quarto domingo de Pentecostes

“Salomão jamais se vestiu como um destes lírios” (Evangelho).

 

Paramentos verdes

 

As lições do Breviário são tiradas do Livro do Eclesiástico, se o domingo vem no mês de agosto, ou de Jó, se vem no de setembro. S. Gregório comentando o Eclesiástico, diz assim: “Há homens que se entregam inteiramente à sedução dos bens materiais, ignorantes sem dúvida ou pelo menos esquecidos do tesouro deslumbrante e inexaurível que a matéria vela. Sem a saudade dos bens que ficam para além e que eles culpavelmente perderam, sentem-se felizes, os mesquinhos, com um punhado de terra. Criados para a luz da verdade, não sentem dentro de si o desejo de a olhar, de a compreender, de se perderem nela. Desorientados no meio dos prazeres em que se precipitaram, chegam a pensar que lhes é pátria o exílio em que vivem e que é luz radiosa a treva que os envolve. Ao contrário, os eleitos para quem os bens da Terra não têm valor algum, procuram sem descanso, entre as areias agitadas deste deserto amargo, a pérola preciosa que a sua alma anseia. Presos à Terra pela carne que também é terra, debatem-se na ânsia de se libertarem, absolutamente determinados a desprezar o que passa para recolher o que permanece”.

Quanto a Jó, é o tipo genuíno do homem desprendido da terra e da perfeita resignação na vontade adorável de Deus: “Se de Deus recebemos a fortuna, dizia ele, porque não havemos de também aceitar o revés, se for servido no-lo mandar? ”

A Missa de hoje abunda nestes pensamentos. O Espírito Santo, que a Igreja recebeu no dia de Pentecostes, formou em nós o homem novo que se opõe e procura destruir as inveteradas tendências do velho homem — que são as intemperanças da carne e a busca insaciável da riqueza para as satisfazer. O Espírito de Deus, o espírito de liberdade que habita em nós e nos torna filhos do Pai e irmãos de Nosso Senhor Jesus Cristo, segrega-nos da servidão ignóbil do pecado, porque os que pertencem a Jesus Cristo, crucificaram a própria carne com os seus vícios e baixezas. Caminham no Espírito e não satisfazem os instintos da carne, porque a carne está em oposição irredutível com o espírito.

Convencido da verdade evangélica de que ninguém pode servir a dois senhores, o cristão põe-se de guarda contra si mesmo, contra as velhas paixões amortecidas talvez nas cinzas funerárias do velho homem, não vão às vezes ressuscitarem. “O que se deixa escravizar pelos bens deste mundo, diz S. Agostinho, está às ordens dum senhor duro e terrível. Está debaixo da tirania do demônio. Sem dúvida, ele não o ama, pois quem é que pode amar o demônio? Todavia, suporta-o. Por outro lado, também não odeia Deus. Ninguém odeia Deus no fundo de sua consciência. No entanto, despreza-O e não O teme, como se estivesse seguro de estar perdoado. Mas o Espírito Santo põe-nos de atalaia contra estes perigos, quando nos diz pelo profeta que a misericórdia de Deus é infinita e que a sua paciência nos convida à penitência. Se alguém pois quer amar a Deus em sinceridade e verdade, se alguém tem o desejo normal de ser feliz, considere a sentença do Senhor, procure em primeiro lugar o Reino de Deus, e tudo o mais lhe virá por acréscimo”.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

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