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As considerações anteriores mostraram que a Mãe de Deus não apenas era virgem antes, durante e após o nascimento de seu Filho Jesus Cristo, mas que fez um voto de castidade por inspiração do Espírito Santo. Nessas condições, é natural indagar-se se deveria ter um marido.
Na verdade, o Arcanjo Gabriel foi enviado "a uma virgem desposada por um homem cujo nome era José, da Casa de Davi" (Lc 1,27). Esse detalhe, expressamente descrito na Sagrada Escritura, bem como nos relatos do Evangelho, mostra a vontade de Deus nesse ponto. Mas os Padres e teólogos questionaram o que motivou o plano divino. Santo Tomás resume a questão com sua clareza habitual.
Em consideração com a Encarnação do Filho de Deus
O Verbo assumiu a natureza humana em todos os seus aspectos, com exceção daquilo que seria contrário a Sua dignidade; ele, portanto, tinha vida social e, em primeiro lugar, vida familiar: por isso Ele nasceu em uma família.
Era igualmente importante que o Messias não fosse rejeitado como um filho ilegítimo: "Não é este Jesus, o filho de José, cujo pai e mãe conhecemos?" (Jo 6,42).
A filiação era essencial para os judeus do Antigo Testamento. Isso pode ser observado nas genealogias que a Sagrada Escritura faz até mesmo no Evangelho. Mas ela deve ser realizada, de acordo com o costume, pela linha paterna.
Finalmente, Deus quis que a divina criança tivesse um protetor e um pai. O papel de pai consiste, no plano especial da Redenção, dar ao Verbo Encarnado a possibilidade de levar uma vida oculta.
Em consideração com a Mãe de Deus
Uma jovem que falhasse no cumprimento de seus deveres era apenada com apedrejamento. O nascimento de Cristo na Sagrada Família fez essa ameaça desaparecer.
E, presumindo que essa pena não fosse aplicada, o nascimento de Jesus protegeu Maria da infâmia de ser uma mãe solteira. A desonra, ainda que aparente, teria passado, de alguma maneira, para o Filho de Deus.
Finalmente, esse casamento assegurou à Santíssima Virgem o auxílio de São José. E sabemos quão precioso esse auxílio foi depois.
Em consideração com os homens
Os costumes judeus não permitiriam que uma mulher não se casasse, devido às regras de transmissão da herança e ao dever de gerar o povo de Israel. De fato, para evitar a passagem de uma porção da herança a outra tribo, as mulheres se casavam dentro de sua tribo.
O testemunho de São José eloquentemente confirma a concepção virginal do Salvador. De fato, era incumbência dele denunciar o adultério. Essa hesitação de José mostra a virtude da Virgem Maria.
O testemunho de Maria afirmando sua virgindade, porém, tem maior autoridade. Se a Virgem diz que foi concebida sem perder sua virgindade, seu testemunho é digno de maior confiança sendo ela casada que solteira.
Também era necessário que a Mãe de Deus fosse um exemplo às jovens. Se ela tivesse concebido carnalmente sem ser casada, sua reputação poderia ser -- erroneamente -- maculada. A concepção virginal de uma mulher casada protege sua reputação e serve de exemplo a todas as mulheres.
Desse modo, a Virgem se torna uma maravilhosa imagem da Igreja Católica: ela é virgem, esposa e mãe.
Finalmente, em Maria, a virgindade e o casamento estão honrados na mesma pessoa: assim, a dignidade desses dois estados é garantida.
Nossa Senhora preservou sua virgindade por toda sua vida. Os Padres da Igreja se indagaram se Maria fez um voto de virgindade. Santo Tomás resume seus pensamentos sobre essa questão.
O ponto de partida dessa reflexão é a resposta de Maria ao Arcanjo Gabriel, que anunciou sua maternidade: "Como isso se dará, se não conheço homem?" (Lc 1,26). Para compreender adequadamente essa resposta, devemos lembrar que o verbo "conhecer" é empregado pela Sagrada Escritura para se referir a relações carnais.
Como a Virgem Maria estava noiva de São José -- noivado esse que, entre os judeus do Antigo Testamento, praticamente equivalia a um casamento -- essa pergunta significa que Nossa Senhora tinha a intenção de preservar sua virgindade em espírito de consagração a Deus.
É assim que Santo Agostinho compreende a passagem: "Na anunciação do Anjo, Maria responde: 'Como isso se dará, se não conheço homem?' Resposta essa que ela, certamente, não teria dado se ela não tivesse consagrado sua virgindade a Deus previamente" (De Sancta Virginitate, citada por Santo Tomás). Muitos Padres seguem Santo Agostinho.
A bela explicação do Doutor Comum
Ao expor a adequação desse voto, Santo Tomás aplica o princípio da atribuição de privilégios: é necessário presumir o mais perfeito possível na Santíssima Virgem; ora, a virgindade consagrada pelo voto é mais perfeita que a virgindade não consagrada. Então ela fez esse voto.
O Doutor Angélico, em outra passagem, explica que "o que é feito pelo voto se torna mais perfeito. Mas o principal fim do voto é fortalecer a vontade no bem". Ele também diz que a "uma vontade já santificada como a de Nossa Senhora, que goza de perfeita virtude, não é útil fazer muitos votos".
Portanto ele se indaga: "Por que o voto de virgindade, se a prática da castidade perfeita já era suficiente?" A resposta é clara e belíssima: "porque ele [o voto] fixa um estado de vida", para que, nesse voto, possa-se doar a própria vida.
Ele prossegue: "Se o comparamos [o voto de castidade] com os outros votos de religião, o de obediência é suficientemente substituído pelo casamento sob a autoridade de São José, e o voto de pobreza não é prudente para uma mãe de família"
Porém, ele observa que as regras sociais da época não aceitariam que uma mulher não se casasse, porque todos os membros do povo escolhido eram obrigados a participar da propagação da espécie. Então ele crê, com alguns Padres, que a Virgem, primeiramente, noivou com São José, e então, de mútuo acordo, ambos fizeram voto de castidade.
Mas também é possível, de acordo com outros autores, que o acordo de José e Maria aconteceu antes do noivado, e que eles fizeram o voto antes de se casarem.
O Cardeal Caetano -- um grande comentador de Santo Tomás -- acrescenta: "Não é natural que creiamos que esse Santo marido, ao aceitar que sua esposa dedicasse sua virgindade a Deus na constância do casamento, fez ele mesmo esse voto?"
É necessário levar em conta ainda, acima de tudo, a Divina Providência, que teria que inspirar José com essa resolução, para que a Santíssima Virgem tivesse, como companhia e guardião, um esposo que fosse também virgem. Além disso, Maria não seria "cheia de graça" se essa graça, que ela desejava acima de tudo em sua santidade, estivesse ausente em seu marido.
Portanto, a Virgem Maria, de acordo com a opinião comum, foi a primeira a fazer o voto de castidade de acordo com o tempo e de acordo com a perfeição do ato.
A Tradição distingue a virgindade em Nossa Senhora antes do parto, durante o parto e após o parto (ante partum, in partu e post partum). A presente questão diz respeito ao terceiro aspecto: virgindade post partum. A Mãe de Cristo permaneceu virgem após o nascimento de Seu Divino Filho?
Algumas pessoas quiseram ver, nos "irmãos de Cristo", mencionados em São João, outros filhos de Maria. A propaganda modernista [N.T.: e protestante] apresentou esse argumento. Mas outros textos do Evangelho também sugerem essa ideia: em São Mateus, Nosso Senhor é chamado de "primogênito de Maria" (Mt 1,25).
Deve-se asseverar que a Sagrada Escritura frequentemente chama de irmãos a outros parentes que não nasceram da mesma mãe. Nesse sentido, os "irmãos de Jesus" tiveram inveja dEle (Mc 6, 4); deram-lhe conselhos (Jo 7,1); tentaram levá-Lo para casa (Mc 3,21). Na Igreja Oriental, isso só seria compreensível se eles fossem mais velhos que Ele. Mas Nosso Senhor foi o primogênito.
O termo "primogênito" tem um certo sentido absoluto, independentemente de haver nascimentos posteriores. É um status jurídico. Em 1930, por exemplo, descobriu-se o túmulo de uma jovem mulher em Jerusalém em um cemitério judeu do Século I, que morreu dando à luz seu primogênito.
Mas, no relato da Anunciação, a Santíssima Virgem indaga ao Anjo: "Como isso se dará, se não conheço homem?" Conhecer, no sentido bíblico, refere-se a relações carnais. A objeção de Maria só faria sentido se ela tivesse a intenção de permanecer sem conhecer homem no futuro.
Os Padres da Igreja
Eles repetem essas verdades frequentemente. Santo Efrém afirma que Maria permaneceu virgem após o parto. São Zenão resume essa doutrina: "Maria foi concebida sem corrupção, ela gerou permanecendo virgem e permaneceu virgem após a Natividade". E Santo Ambrósio fulmina: "Alguns negaram que ela permaneceu virgem (após o parto). Preferimos desprezar tal sacrilégio".
São Sirício, papa, afirma: "Não podemos negar que Maria não teve outros filhos, e é com boas razões que sua santidade rejeita que, do mesmo ventre virginal, do qual Cristo nasceu de acordo com a carne, outro filho tenha nascido. O Senhor Jesus não teria escolhido nascer de uma virgem se a julgasse tão incontinente a ponto de profanar o palácio do Eterno Rei"
Portanto, é de fide que a Mãe de Deus permaneceu virgem post partum.
Razões disso
Elas estão enumeradas por São Tomás de Aquino na Suma Teológica (III, 28, 3):
- É adequado que Aquele que é o Filho do Pai, gerado na eternidade, seja o único filho perfeito de sua Mãe no tempo;
- Não seria apropriado que o corpo virginal de Maria, que havia se tornado o Santuário do Verbo através de obra do Espírito Santo, viesse a ter uma nova concepção. Isso implica dizer que a concepção virginal de Jesus foi uma nova consagração de Nossa Senhora a Deus, para que ela estivesse inteiramente dedicada à glória de Deus. Usar o relacionamento conjugal nessas condições seria uma violação. Maria é o modelo da vida religiosa;
- Não estaria de acordo com a gratidão que Maria, tendo a honra e graça de ser Mãe de tal Filho, conhecesse um homem e gerasse outro filho; de maneira semelhante, a santidade de José respeitava a pureza de Maria.
A maternidade divina da Mãe de Deus é integralmente virginal. A virgindade é uma característica tão própria de Maria, que se tornou um de seus títulos mais comuns: a Virgem Maria.
Gustavo Corção
Num artigo do mês passado, sugeri a leitura de Machado de Assis a quem desejasse apurar o ouvido para o áspero e aflitivo timbre do Eclesiastes. Reciprocamente, sugiro hoje a leitura do livro atribuído a Salomão a quem desejar compreender um pouco melhor o famoso pessimismo de Machado de Assis. “No Eclesiastes há tudo para todos” dizia em 1895 o cronista da Semana. Haverá, pois, para os críticos uma chave que permita abrir os cofres secretos desse mesmo autor que em outra crônica, de 1893, escrevia: “Onde há muitos bens, há muitos que os coma, diz o Eclesiastes, e eu não quero outro manual de sabedoria”
São numerosas as passagens em que Machado se refere a esse manual de sabedoria tão adequado ao seu estilo, mas o que nos autoriza a dizer que o livro sagrado exerceu poderosa influência sobre o autor de Brás Cubas não é a frequência da citação. É antes a profunda, a misteriosa perspicácia com que Machado penetrou o espírito do angustiado Qohelet.
Naquele artigo de janeiro, se o leitor porventura ainda se lembra, seguíamos a hermenêutica traçada por sábios comentadores, pela qual o Eclesiastes seria um livro existencial, uma espécie de filosofia do absurdo, um manual de contrassenso escrito na pauta da limitação marcada pelos horizontes terrenos. Se a sorte do homem é o que se vê, sob o sol, então a vida é absurda. A forte estimulação desse livro consiste na confiança incondicionalmente posta na fé dos mandamentos. Esses, aconteça o que acontecer, não podem ser absurdos. Serão incompreensíveis como os sofrimentos de Jó e como o sacrifício pedido a Abraão. No dinamismo das propulsões negativas, ou melhor, do vácuo produzido por essa bomba pneumática, tira-se a conclusão: a sorte do homem não pode limitar-se ao que se vê. Ou ainda, do que se vê tira-se um prenúncio do que está escondido.
Os autores das modernas filosofias do absurdo optaram pelo absurdo. O que vale dizer que não optaram, que ficaram detidos, imobilizados, sem ímpetos para atravessar o espelho e entrar no mundo das maravilhas. Dessa paralisação da inteligência resulta um pessimismo real, profundo, desconsolado e cínico que não era, de modo algum, o pensamento de Machado de Assis. Melhor do que a maioria de nossos críticos viu o inglês que comentou a tradução de Brás Cubas e que assinalou o pessimismo estimulante do grande brasileiro.
Até seus últimos dias, na desolação da velhice e da viuvez, Machado de Assis conserva intacto o senso moral. Se nos romances parece ter atingido um cansaço de vida e um desconsolo supremo, aí está sua correspondência para nos mostrar o outro lado do homem que persiste em crer no homem e na realidade moral. E a explicação desse dualismo está no Eclesiastes, ou melhor, naquilo que falta ao Eclesiastes que é um livro onde o principal é justamente aquilo que falta: a descoberta da transcendência de nosso destino, a notícia da ressurreição. O princípio da complementariedade que tem tanta importância na física moderna, e que dá uma das regras capitais para a interpretação do Livro Santo, mostra-nos o desolado discurso de Qohelet como um sequioso apelo à outra metade da história que só muito mais tarde será revelada. O sábio louco diz “tenho sede” como o Cristo na Cruz, momentos antes da ressurreição. Sede de complemento, de completação, de consumação. Sede de solução.
Ora, há uma passagem onde se vê claramente que Machado de Assis compreendeu essa complementariedade dos mistérios de Cristo, e onde, ao Eclesiastes contrapõe o Sermão da Montanha. Em 25 de março de 1894, o cronista da Semana, disfarçando com guizos de frivolidade sua sabedoria, entra a descrever um Ofício da Paixão a que assistira. E termina assim a crônica com aquele seu ar de quem não sabe que está dizendo coisas enormes:
“Soou o cantochão. Chegou-me o incenso. A imaginação deixou-se-me embalar pela música e inebriar pelo aroma, duas fortes asas que a levaram de oeste a leste. Atrás dela foi o coração, tornado à simpleza antiga. E eu ressurgi, antes de Jesus. E Jesus apareceu-me antes de morto e ressuscitado, como nos dias em que rodeava a Galileia, e, abrindo os lábios, disse-me que a sua palavra dá solução a tudo.
— Senhor, disse eu então, a vida é aflitiva, e aí está o Eclesiastes que diz ter visto as lágrimas dos inocentes, e que ninguém os consolava.
— Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados.
— Vede a injustiça do mundo. “Nem sempre o prêmio é dos que melhor correm, diz ainda o Eclesiastes, e tudo se faz por encontro e casualidade”
— Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos.
— Mas é ainda o Eclesiastes que proclama haver justos, aos quais provêm males...
— Bem-aventurados os que são perseguidos por amor da justiça, porque deles é o Reino do Céu.
E assim por diante. A cada palavra de lástima respondia Jesus com uma palavra de esperança. Mas já então não era Ele que me aparecia, era eu que estava na própria Galileia, diante da Montanha, ouvindo com o povo. E o Sermão continuava. Bem-aventurados os pacíficos. Bem-aventurados os mansos...”
Como se explica, pergunto eu, sem apelos ao acaso, essa aproximação que tem finuras de sutil hermenêutica. Nós outros, depois de ler muitos sábios exegetas, chegamos à essa mesma conclusão. Depois de vivermos longos anos no convívio dos Doutores, conseguimos entrever as escondidas intenções do antigo escritor inspirado. Machado de Assis achou aquilo sozinho, talvez na Rua do Ouvidor, na mesma onde teve notícia do 15 de novembro: “Disseram-me na Rua do Ouvidor que os militares proclamaram a República...”
Como se explica tal acuidade que faltou aos perseverantes exegetas que procuram no Eclesiastes não sei que filosofia do moderado meio termo? Como se explica a intuição que teve ele, Machado, na sede de complemento que é a negativa substância do grande livro? Se aqui lembramos ao leitor que o Sermão da Montanha é o programa dos ressurrectos, ou o manifesto que vinha dilatar os horizontes do humano destino, e dizer que muito mais existe do que tudo o que se vê sob o sol, então o contraponto que Machado improvisou ganha a majestade de uma grande lição espiritual. Como se explica isto?
O gênio, por si só, explica muita coisa. Mas no caso é preciso acrescentar ao gênio a ressonância íntima, a assimilação perfeita que só pode vir de uma profunda conaturalidade. As almas irmãs se encontram por cima dos mares e das idades. Machado de Assis encontrou na Rua do Ouvidor o antigo judeu, e completou-lhe o discurso com aquele outro discurso que apesar da secura dos tempos não lhe fugira da alma.
Tudo isto prova que o pessimismo de Machado de Assis é de espécie totalmente diversa daquele moderno que leva à imobilização e ao cinismo. É o pessimismo condicional do Eclesiastes, é o “stimulating pessimism” que o inglês descobriu. A miséria do homem presta-se às lágrimas ou ao riso. “Eu fosse ela preferia que rissem...”. Riu ele de tudo ou quase tudo, mas esse riso que a miséria das coisas e dos homens lhe ditava, trazia disfarçado o riso do fim dos tempos. E eu creio não estar forçando a simpatia se disser que há na obra de Machado de Assis, como no seu manual de sabedoria, uma escondida gata borralheira que sofre os prestígios do mundo à espera das transfigurações.
(Diário de Notícias, 13/02/1955)
Yves Gerardin
1517-1617: UM SÉCULO DE LUTERRORISMO
O carrasco que se toma por vítima: o caso não é único, mas toma dimensões grandiosas entre os protestantes. Considerado no seu conjunto, o quadro é mesmo surpreendente:
Durante mais de um século, cobriram a Europa de fogo e de sangue, suscitando guerras civis por toda parte (a Inquisição permitiu que Itália e Espanha escapassem)[1].
Estabeleceram-se pelo Terror em todos os países que chegaram a dominar.
Por toda a parte, perseguiram, torturaram e massacraram padres e fiéis católicos, cujo único crime foi o de guardar a fé que haviam recebido.
Mas, por algum prodígio surpreendente, tal como o lobo que chega a vestir-se com a pele do cordeiro que ele mesmo matou, o protestantismo soube atribuir-se, após todos os seus crimes, um ar de respeitabilidade. Mais: faz-se passar, e toma-se a si mesmo por um pobre perseguido.
O protestantismo assassino
Os crimes do calvinismo na França foram descritos por Michel Defaye na sua brochura: Le Protestantisme assassin[2].
Muito antes do famoso Massacre de São Bartolomeu (agosto de 1572), os calvinistas já haviam planejado friamente o massacre de todos os padres da França[3]. Plano executado em larga medida. Em 1580 (dezoito anos antes do fim da guerra civil), já se contavam – apenas na França – 8.760 padres e religiosos católicos massacrados pelos protestantes fora de qualquer combate[4]. A correspondência de Teodoro de Beza mostra que ele acompanhava bem de perto a progressão dos massacres, com a satisfação de um general que registra suas vitórias. Não se tratava de atos de vingança (como veio a ocorrer em decorrência), mas da aplicação metódica de uma ideologia assassina: morte aos padres!
Os métodos sinistros de que Henrique VIII e Elizabeth I lançaram mão para estabelecer o protestantismo anglicano são igualmente bem conhecidos.
Mas o luteranismo também, o luteranismo sobretudo, foi imposto pelo terror. Na Alemanha, Lutero só desafiou o papa porque contava com o apoio dos príncipes que desejavam pilhar os bens da Igreja (para grande prejuízo dos pobres, que se viram desamparados). Quando os camponeses decidiram imitar os seus príncipes pilhando os seus castelos, foi tudo diferente! Assim que a vitória se inclinou para o lado dos príncipes, Lutero apoiou sem escrúpulos a mais sangrenta das repressões[5].
Por toda parte em que foi bem-sucedido, o luteranismo foi, antes de mais nada, um luterrorismo, imposto a todos os degraus da sociedade pela brutalidade e pela mentira.
Na Suécia (e, por conseguinte, na Finlândia), o principal luterrorista foi Gustavo Vasa.
Na Dinamarca (assim como na Noruega e na Islândia), o luterrorista chefe foi Cristiano III.
Comecemos nosso breve tour pelos cinco países luteranos do Norte da Europa.
Luterrorismo na Suécia
O príncipe Gustavo I Vasa (1496-1560) libertou a Suécia do jugo dinamarquês. Costuma-se louvar a sua resistência física, sua vontade de ferro, sua eloqüência e habilidade. Mas dificilmente se poderia negar seu autoritarismo, sua crueldade, maquiavelismo e ingratidão para com seus melhores servidores[6].
Para destruir a fé católica do seu povo, soube proceder por etapas, sempre dissimulando o passo seguinte, bem como o objetivo final. Essa astuta dose de violência e trapaça foi o segredo do seu êxito.
Um regime de terror
Primeira etapa: minar a autoridade dos bispos (enquanto pretendia ainda ser muito devotado à Igreja romana). A partir de 1521, o rei ataca Dom Peder Jacobsson, bispo de Västerås. O prelado teria sustentado – em correspondência privada, apreendida pelos agentes do rei – idéias injuriosas a respeito do soberano. Queixas acerca de novos tributos? Comentários inoportunos sobre a vida privada do rei? Não se sabe ao certo, pois os documentos desapareceram. Em todo caso, o rei acusa-o de alta traição. Não era preciso muito para que o rei se julgasse traído, como seu chanceler, mestre Knut, aprenderá rapidamente à sua custa. Este último fora o primeiro a propor a eleição de Gustavo Vasa durante a assembléia dos Estados gerais do país e, desde então, sempre o servira fielmente. Mas cometeu o crime de defender o bispo de Västerås, e por isso foi imediatamente deposto. O bispo e o chanceler serão finalmente condenados após uma paródia de julgamento; em seguida serão torturados, submetidos a diversas humilhações públicas e executados em 1527. A mensagem é clara: quem desafia Gustavo corre graves riscos.
Segunda etapa: apoderar-se dos bens da Igreja (mosteiros, catedrais, capítulos, presbitérios etc.). O princípio do confisco foi estabelecido publicamente em 24 de junho de 1527 (Recesso de Västerås), mas Gustavo tem de agir prudentemente, pois os camponeses, que se beneficiam da caridade das abadias, são muito ligados a elas (A supressão dos mosteiros nos países protestantes foi uma catástrofe para os pobres, sobretudo na Inglaterra e nos Países Baixos[7]). Já em 1525, a expulsão dos monges de Gripsholm fez com que a população reagisse. Em 1529, começa uma rebelião nos arredores do mosteiro cisterciense de Nydala, quando o bailio[8] Gotfrid Sure veio apoderar-se dele – muitos morreram, inclusive o bailio. Em 1530, Gustavo ordena a seus agentes que preparem com cuidado suas expedições, a fim de expulsarem os monges silenciosamente. Pouco a pouco, os trinta mosteiros da Suécia foram suprimidos, os monges expulsos, os prédios confiscados pelo rei e pelos nobres. Os conventos terão a mesma sorte. (A lei que proibia os mosteiros na Suécia só será abolida em 1952).
Enganar e submeter o povo
Terceira etapa: a protestantização. Era preciso ser ainda mais habilidoso, pois o povo abraçava a verdadeira fé e a liturgia católica. Olof Persson (mais conhecido sob a forma latina do seu nome: Olaus Petri) redige um manual de cerimônias (Kyrkohandbok, 1529) que mantém ainda a maior parte das cerimônias tradicionais, ao passo que suprime discretamente aquilo que exprime explicitamente a fé católica. Uma nova missa (dita missa sueca) foi imposta em algumas paróquias de Estocolmo. Exclui-se dela tudo o que lembra que a missa é um sacrifício; impõe-se a comunhão sob as duas espécies; mas conserva-se as formas exteriores tradicionais. Gustavo ordenou que o culto e a pregação fossem modificados aos poucos, levando-se em conta as disposições locais. A progressão rumo ao luteranismo se dá em velocidades diferentes conforme as regiões. As reações são desalinhadas, e mais fáceis de reprimir.
A primeira revolta estoura no Oeste, a partir de 1529. Gustavo consegue apaziguá-la comprometendo-se (de modo ambíguo) a manter os “antigos e veneráveis usos cristãos” e prometendo anistia completa aos insurgentes. Assim que a ordem foi restabelecida, manda prender e executar os chefes que tiveram a ingenuidade de crer nas suas palavras (notadamente, o juiz Nils Olsson e o jovem Måns Bryntesson).
Em 1531, os montanheses do norte, os dalecarlianos, protestam por sua vez contra a nova liturgia e o confisco dos sinos (que Gustavo quer converter em moeda). Os veteranos da independência estão à frente desta revolta dos sinos. Gustavo deve a esses rudes guerreiros o seu sucesso contra os dinamarqueses. É preciso não os ofender. Ele declara não ser o responsável pelas mudanças litúrgicas. Ao mesmo tempo, recomenda discrição aos pastores: suprimir genuflexões e persignações, mas manter provisoriamente o rito da elevação na missa, para não desagradar o povo. Quando a situação parecia ter se acalmado, mandou prender os líderes. Muitos foram executados no local. Outros foram julgados em Estocolmo. Um deles (Måns Nilsson, de Aspeboda) salvara a vida de Gustavo anos antes. Outro (Anders Persson, de Rankhytta) o abrigara em sua casa durante a guerra de independência. Pouco importa: declarados traidores e rebeldes, foram decapitados em 1534.
Em 1540, foram os camponeses do leste que se queixaram do esbulho das igrejas (Gustavo confiscara todos os seus vasos sagrados, crucifixos, relicários e ornamentos preciosos – para o máximo proveito do tesouro real). Protestam eles contra a nova liturgia em língua vulgar, mas, por falta de um líder, são facilmente esmagados.
Em maio de 1542, um grupo de paróquias da Esmolândia é chefiado por um simples camponês: Nils Dacke, que resiste às forças reais até julho de 1543. A repressão é impiedosa: suplício da roda para todos os que forem capturados pelo exército real. Mas Gustavo, por seu lado, perde mais de mil homens. Ele observará melancolicamente que esta guerra lhe custou 700.000 marcos: mais do que obteve ao longo de sete anos pilhando as igrejas do reino.
Os padres fiéis a Roma, até então mais ou menos tolerados se não fizessem barulho, tornam-se agora o inimigo público número 1 de Gustavo Vasa. A partir de então, são capturados, torturados e mortos sem nenhuma forma de processo. Em 1544, Gustavo ordena que todos os calvários sejam abatidos, proíbe as peregrinações e fecha à força os onze mosteiros que ainda subsistiam.
Pastores sob o terror
Em 1540, Gustavo confisca definitivamente a realeza sueca: de eletiva que era, torna-se hereditária.
No entanto, a Igreja sueca já havia sido confiscada desde 1528: de divina que era, tornou-se um serviço administrativo do Estado. Seus bispos são rebaixados ao nível de funcionários, a meio caminho entre o prefeito e o cobrador de impostos. São autorizados a celebrar a missa pontifical durante a sagração do rei (que precisa de um pouco de solenidade) mas, no dia-a-dia, têm como principal atribuição manter o povo obediente ao soberano e coletar as taxas eclesiásticas em benefício da coroa.
Os que recusam a sujeição devem deixar a Suécia. Johannes Magnus, arcebispo de Uppsala, e Hans Brask, bispo de Linköping, são compelidos ao exílio.
Gustavo dispensaria os bispos de bom grado. Para que sucessores dos Apóstolos? Superintendentes bem dóceis bastariam para substituir os pastores e executar as ordens do poder. A sagração episcopal, que transmite a plenitude do sacerdócio, não tinha nenhuma utilidade para este tipo de funcionário. Infelizmente, o povo mantinha-se ligado a ele. Numa carta de 7 de novembro de 1527, Gustavo constata que o “povo não quer se contentar com bispos não sagrados, muito embora esta sagração seja de pouca importância”. Para evitar problemas, decide sagrar seus superintendentes de diocese. Basta encontrar um bispo que faça as sagrações.
Da antiga hierarquia católica, apenas dois bispos subsistiam: o velho Ingmar de Växjö (inerte o suficiente para que Gustavo o deixasse morrer tranqüilamente na sua diocese) e Peder Månsson, bispo de Västerås. Sem ser luterano, este último jamais ousou opor-se ao rei. De todo modo, repugna-lhe sagrar bispos contra a vontade do papa. Para vencer suas resistências, certificam-no de que, após as sagrações, solicitarão uma confirmação papal. Cada um dos ordinandos assina uma declaração escrita neste sentido. Peder Månsson crê verdadeiramente nela? Não o sabemos. Em todo caso, a sagração ocorreu no dia 6 de janeiro de 1528. Em conformidade às exigências de Gustavo, os novos bispos fazem um juramento de obediência ao rei, não ao papa.
Em 1531, devido à revolta dos dalecarlianos, que exigem, entre outras coisas, um bispo validamente sagrado, Gustavo decide realizar uma nova sagração episcopal. Desta vez, Peder Månsson (bispo de Västerås) e Magnus Sommar (bispo de Strängnäs) não podem mais acreditar – nem sequer fingir acreditar – que Gustavo pedirá em seguida a confirmação papal. Antes de realizar a sagração, eles assinam secretamente – mas perante testemunhas escolhidas com cautela (dois doutores em direito e um professor de teologia) – um documento bastante curioso.
Recusando a heresia luterana, e deplorando os numerosos abusos “e inúmeros outros erros escandalosos”, os dois bispos declaram:
Nós não somos capazes de nos opor a isto ao modo de uma muralha protegendo a casa de Deus, como é do nosso dever, e como faríamos se pudéssemos.
Eles protestam:
Nós não aprovamos as eleições feitas, ou a fazer, dos intrusos que querem impor às igrejas da Suécia, com desprezo e em prejuízo da Sé de Roma, e isto ainda que nós mesmos realizemos a sagração dos bispos, constrangidos pela força e movidos por um temor capaz de estremecer mesmo homens fortes, do que nós protestamos aqui.
Acrescentam:
Ademais, no tocante aos nossos escritos presentes ou futuros, selados ou não, acerca [...] da ordenação do arcebispo ou dos bispos intrusos, afirmamos e protestamos que não pretendemos nem entendemos atribuir-lhes nenhum direito ou autoridade, mas que todas estas coisas e cada uma delas feitas por nós em assuntos luteranos, por violência e temor, quer se trate de escritos, palavras, atos presentes ou futuros, em prejuízo da Sé de Roma, e de qualquer estado ou dignidade, nós as declaramos inteiramente nulas e desprovidas de efeitos.
Finalmente, concluem:
E, uma vez que neste reino inexiste o recurso a notários, que poderiam redigir em forma de instrumento público nosso recurso ou protesto, rogamos aos veneráveis doutores supracitados [os dois doutores em direito] juntar suas assinaturas e selos aos nossos.
Redigido em Strängnäs, 10 de agosto de 1531.
Seguem as assinaturas e selos, ainda bem visíveis sobre o original, que foi descoberto nos arquivos de Strängnäs no final do século XIX[9].
Uma outra declaração do mesmo tipo (a um tempo clandestina e assinada diante de testemunhas) foi redigida em 27 de agosto, às vésperas da sagração, por dois futuros bispos: Sveno Jacobi (bispo de Skara) e Jonas Boetii (Växjö). Eles declaram que apenas aceitaram esta sagração para evitar o cárcere e a ruína das suas igrejas, e juram que hão de solicitar a confirmação de Roma “na hora e na ocasião oportunas”. Detalhe revelador: antes de esse documento ter sido descoberto (no século XIX), esses dois homens sempre passaram por bons luteranos. Quantos outros terão igualmente escondido suas convicções?
Não há como não recriminar essa fraqueza, sobretudo da parte de homens obrigados a defender a fé ao risco da própria vida, como são os bispos. Mas que dizer da religião que se estabelece por esses meios?
O historiador Magnus Nyman mostrou que, no início do século XVII, boa parte da população sueca ainda não havia compreendido que não estava mais sob a autoridade de Roma[10]. O sistema protestante, porém, instalou-se solidamente. Quando o segundo filho de Gustavo Vasa, João III, esboça um retorno à Igreja Católica (ao que parece, ele converteu-se secretamente em 6 de maio de 1578), é confrontado com uma resistência terrível. Seu filho, Sigismundo III, católico sincero, será obrigado a fugir da Suécia. Sessenta anos mais tarde, a Rainha Cristina da Suécia também terá de fugir às escondidas – abandonando a coroa – para converter-se ao catolicismo (1654). Desde 1595, uma conversão de tal sorte consistia em um caso de alta traição, passível de pena de morte.
A constatação é terrível, mas inevitável: em todos os níveis da sociedade sueca – na base como no topo, nos leigos como nos clérigos – o protestantismo impôs-se pelo terror e pela mentira. Como negar que esse luteranismo foi, antes de tudo, um luterrorismo?
Finlândia: uma exceção ao luterrorismo?
Há um advogado do protestantismo no recinto? Ao invés de defender Gustavo Vasa, ele dirigirá o olhar para o leste.
― Chega de Suécia! Consideremos a Finlândia. Veja esse belo país, examine a sua história, aprecie a continuidade que se observa aí entre o cristianismo medieval e o de hoje. Nenhuma ruptura, nenhuma violência. Como, diante de tão belo espetáculo, poderíamos falar em luterrorismo?
Realmente, os historiadores protestantes amam a Finlândia. Relatam comovidos que sua nova religião impôs-se aí pacificamente. Dizem, repetem, repisam-no com curiosa insistência. Percebe-se sua felicidade ao sugerir que existe algum país que possam apresentar em que as coisas tenham se desenrolado bem. Mas seria isso verdade?
Uma protestantização lenta e discreta
Em realidade, na Finlândia, as igrejas não escaparam da pilhagem. Desde 1541, Gustavo Vasa mandou que fossem confiscados, para seu proveito, os objetos de ouro e a prataria, bem como ornamentos preciosos. Mas a pilhagem fazia-se discretamente, sem manifestações iconoclastas, para não ofender a população. Essa discrição, ou antes, dissimulação, será a característica principal da “Reforma” finlandesa e o segredo do seu sucesso. Pouco a pouco, os velhos padres são substituídos por pastores que não receberam ordenação válida, mas que continuam a cantar em latim e a ouvir as confissões dos fiéis, como se nada tivesse acontecido. A nova missa sueca é introduzida em certas localidades a partir de 1531, mas em muitos lugares conserva-se o ritual latino. Tudo se dá muito lentamente. Em 1582, ainda se editavam as coletâneas tradicionais de cânticos em latim para as paróquias finlandesas.
O Rei Gustavo Vasa por vezes se impacientava. Ele recriminou um “bispo” luterano, nomeado em 1554, por pontificar como um bispo papista. Mas a calma do país bem vale essas concessões. A Igreja luterana finlandesa continuou assim até os dias de hoje honrando publicamente a Santíssima Virgem e rezando pelas almas do purgatório – de modo bem pouco luterano.
Execuções sangrentas
Não obstante, execuções cruentas ocorreram. Em 1595, decidiu-se protestantizar à força. As paróquias recebem a ordem de suprimir o rito de elevação na missa. Os padres católicos deveriam ser denunciados e expulsos. A partir de 1598, são passíveis de prisão, o que por vezes significa a morte (o Pe. Johannes Jussula, levado à Suécia, morreu na prisão após ter sido torturado). A pena de morte foi, em seguida, expressamente promulgada contra os padres católicos e mesmo, em 1617, contra todo papista encontrado no território.
A protestantização da Finlândia foi feita mais pela astúcia do que pela violência, é certo; mas não do modo plenamente doce e pacífico que nos querem fazer crer. De qualquer forma, jamais teria ocorrido sem o luterrorismo sueco.
Luterrorismo na Dinamarca
Na Dinamarca, dois reis devem ser mencionados: Cristiano II e Cristiano III.
O Rei Cristiano II (autor do “banho de sangue de Estocolmo” em 1520, no qual a elite sueca [ACMJ1] foi massacrada) foi o primeiro a convocar pregadores luteranos, que causaram ali os mesmos problemas que em outras partes. Em Copenhague, dois dias depois do Natal de 1530, um bando de luteranos invadiu a Catedral de Nossa Senhora durante a missa e começou a destruir as estátuas, saquear os livros, demolir o mobiliário e profanar os lugares de todas as maneiras possíveis, até serem expulsos. Cristiano II, porém, temia pelo seu trono (que terminará por perder). Oscilando sem cessar entre o catolicismo e o protestantismo, em razão do contexto político, jamais tomou um partido definido.
O Rei Cristiano III impôs o protestantismo à força. Ele havia participado da Dieta de Worms em 1521[11]. Muito germanizado (quase nunca falava dinamarquês), queria submeter seu povo à religião alemã: a de Lutero. Soube dissimular suas pretensões para alcançar o trono real. Não hesitou prometer fidelidade à Igreja Católica na sua sagração (1536). Mas logo tirará a máscara.
O golpe de Copenhague (1536)
Desde cedo, Cristiano III preparou um golpe para que fosse declarado chefe da Igreja dinamarquesa. Os bispos foram convidados com outros representantes da nação a uma Assembléia nacional em Copenhague – a prisão os esperava. Ao longo da noite, as ruas da cidade foram bloqueadas e, desde as quatro da manhã, homens armados prendiam os homens da Igreja. O arcebispo de Lund[12], Torben Bille, e o bispo de Roskilde foram encarcerados. Seus colegas tiveram a mesma sorte (o bispo Joachim Rønnow, que conseguiu escapar por uma janela, foi aprisionado no dia seguinte). Assim que os oito bispos do país foram presos, a reunião teve início (12 de agosto de 1536). A Igreja não possuía nenhum advogado na Assembléia que decidiu o seu destino. Os deputados perceberam claramente como deveriam votar se quisessem evitar problemas. Bom conhecedor da natureza humana, Cristiano III afaga com uma mão e chicoteia com a outra. Avisa discretamente aos deputados mais influentes que receberão uma parte dos despojos dos mosteiros. Com unanimidade – uma digna antevisão das repúblicas soviéticas – a Assembléia de 1536 votou pela adoção total e definitiva do luteranismo.
Guerra aos monges, paz aos curas
Em 1537, uma nova liturgia (luterana, em dinamarquês) foi adotada oficialmente. A tática é proceder por etapas, para evitar perturbações entre o povo. Num primeiro momento, os pobres padres de paróquias não são muito visados. Faz-se a caça aos monges (mosteiros confiscados, recalcitrantes exilados). Sobretudo, Cristiano substitui os bispos por sete funcionários submissos a ele (chamados de superintendentes)[13]. Em seguida, inútil apressar-se, jovens pastores, formados nas idéias luteranas, necessariamente hão de se suceder aos velhos curas. Em vez de atacar diretamente as verdades católicas, era mais eficiente começar por silenciá-las e esperar que os fiéis as esquecessem.
O método era lento, mas eficaz, pois mantinha a massa dentro da estrutura oficial. Surgiam por vezes refratários. Para esmagá-los, a Dieta de Copenhague declarou, em 1613, que os católicos eram inábeis para toda função pública, e privou-os do direito de herança. Em 1624, instituiu a pena de morte para todos os padres católicos (medida que só será revogada em 1849). Na Dinamarca, assim como na Alemanha ou na Suécia, a “Reforma” merece o nome de luterrorismo.
Luterrorismo na Noruega
Na Noruega (conquistada pelo rei dinamarquês Cristiano III), a pretendida Reforma é antes de tudo uma obra de pilhagem[14].
Pilhagem organizada
Apenas na cidade de Bergen[15], destruiu-se a catedral, o palácio episcopal, três conventos e outras nove igrejas, com ordem de direcionar “todos os materiais” (sobretudo o ouro e a prata) para a Dinamarca. O que não pudesse ser levado à Copenhague deveria ser vendido localmente, em benefício do Tesouro real.
O mesmo se deu em Oslo, Stavanger e Nidaros (Trondheim). A cada saque, o piedoso rei luterano acompanha de perto o tesouro das catedrais. Sem esquecer o bronze dos sinos e o ferro dos cercados, que são remetidos para a Dinamarca após terem sido transformados em lingotes. Os pequenos santuários rurais não são poupados. Em 1552, Cristiano III ordena aos superintendentes luteranos “procurar se não restam igrejas supérfluas para serem demolidas”.
O rei sabe como suscitar o interesse dos nobres dinamarqueses na “Reforma” norueguesa, atribuindo-lhes uma parte do butim: a Abadia de Nonneseter, com todos os seus bens e terras, foi atribuída ao senhor Vincent Lunge. O tesouro da igreja dos Apóstolos de Bergen será graciosamente ofertado à sua viúva, pelos serviços rendidos.
E os bispos?
Os historiadores protestantes afirmam normalmente que todos (ou quase todos) os bispos noruegueses passaram sem dificuldade para o luteranismo. Mas a realidade é bem diferente.
A Noruega contava então com um arcebispado (Nidaros, hoje em dia Trondheim) e quatro dioceses (Hamar, Bergen, Stavanger, Oslo).
O arcebispo de Nidaros, Olav Engelbrektsson, fora convidado para participar da famosa Assembléia nacional de Copenhague (em 1536), em que todos os bispos foram presos. Ele suspeita da armadilha e não vai até lá. Os soldados dinamarqueses, contudo, prenderam-no em 1537, apesar de uma heróica resistência da população (liderada por Einar Fjeld) e do socorro do Almirante norueguês Kristoffer Trondsen. O arcebispo morreu no exílio, em 6 de fevereiro de 1538.
Em Hamar, foi preciso também uma verdadeira expedição militar (15 mil homens) para tirar o bispo católico (Mogens Lauritssøn) dos seus fiéis, em 1537. Intimado, em nome do rei dinamarquês, a acatar o luteranismo ou a abandonar a sua sé, o bispo recusa as duas soluções. Conduzido pelos soldados, partiu abençoando o seu povo, que viera em massa dar-lhe adeus. Morreu numa cela dinamarquesa.
O último bispo católico de Bergen, Olav Torkellsson, opôs-se firmemente ao luteranismo e sua resistência lhe valeu a prisão. Foi finalmente liberado, e adquiriu um estado bem mais modesto. Prometera ele não se opor ao usurpador luterano (Gjeble Pederssøn) que ocupara a sua sé? É o que se diz, mas isto não é certo. De todo modo, jamais aderiu à heresia. (Quanto a Gjeble Pederssøn, este nunca foi bispo católico.)
O último bispo de Stavanger, Hoskuld Hoskuldsson, morreu no cárcere.
Restou Oslo, onde o último bispo católico, Hans Rev, recebeu escandalosamente do Rei Cristiano III o título protestante de superintendente. O rei teve a habilidade de não lhe pedir uma profissão de fé luterana. Parece que o bispo jamais aderiu explicitamente aos erros de Lutero, os quais combateu antes da prisão dos bispos dinamarqueses por Cristiano III. Cooptar um bispo católico para avalizar a nova estrutura era uma vantagem suficientemente importante para que não lhe fossem demasiado exigentes.
Descontentamento popular
O povo norueguês manifestou por bom tempo sua recusa da heresia. Os relatos oficiais mencionam movimentos de insatisfação por ocasião das mudanças litúrgicas. Falam de pastores injuriados ao ensinarem as novidades luteranas, quando não expulsos das igrejas pelos paroquianos. Em Setesdal, um primeiro pastor se viu obrigado a fugir sob ameaças de morte, e seu sucessor foi morto no interior mesmo da igreja. Algumas paróquias ofereceram dinheiro às autoridades civis para que não lhes fossem enviados pastores. Fiéis organizavam orações públicas para implorar “a volta da fé antiga, com a doutrina do papa”. Em 1552, o rei teve de obrigar por decreto os camponeses de Nidaros “a assistir aos ofícios quando o superintendente [luterano] viesse visitar as igrejas”.
Foram necessárias quatro gerações para destruir a fé católica. Em 1613, um relatório oficial nota que ainda se encontrava, tanto na nobreza como no povo, fortes inclinações em favor da “doutrina papista”. Os próprios pastores tornaram-se objeto de desconfiança. Os superintendentes, ao visitar as paróquias, observavam que suas bibliotecas continham apenas obras católicas. Em 1627, o relatório diocesano de Glostrup trata de um pastor, de nome Lauritz, que declara publicamente, na cátedra, aos “seus simples e pobres fiéis”, que a religião romana é a verdadeira; que se deve invocar os santos, porque, desde o Céu, eles vêem tudo o que se passa sobre a terra; que a Santíssima Virgem foi isenta de todo pecado. Pior ainda: teria acrescentado que outros pastores pensavam como ele, ainda que não ousassem dizê-lo publicamente, pois “não há dois ou três pastores sinceros no país”.
Em poucas palavras, na Noruega, assim como em outras partes, a religião luterana foi imposta pela força e pela astúcia a uma população que não a desejava.
Luterrorismo na Islândia
O luteranismo também foi imposto na Islândia pelo exército dinamarquês. Assim como na Noruega, mosteiros e igrejas foram pilhados em proveito da Dinamarca, enquanto que as bibliotecas e os conventos foram queimados para apagar todo vestígio do passado católico.
O país compreendia duas dioceses: Skálholt no sul, Hólar no norte.
O último bispo católico de Skálholt, Ögmundur Pálsson, foi capturado pelos dinamarqueses e enviado para a Dinamarca, onde morreu na prisão, em 1542.
O último bispo de Hólar, Jón Arason, jurou lutar até a morte contra a heresia. Ele apelou ao seu povo e, com um pequeno exército de 900 homens, conseguiu expulsar os dinamarqueses da ilha. Contudo, estes últimos voltaram mais numerosos e capturaram o bispo, decapitando-o em 1550.
Superintendentes luteranos vieram então da Dinamarca para dirigir as igrejas. Assumiram o título de bispos para enganar o povo, mas a sucessão apostólica foi rompida. Foi o fim da Igreja de Jesus Cristo na Islândia, ainda que, como ocorreu na Finlândia, muitos usos tradicionais fossem conservados na liturgia, bem como o culto dos santos.
DO TERRORISMO FÍSICO AO TERRORISMO INTELECTUAL
Há um paradoxo: o protestantismo, que por toda parte se impôs pelo terror, conseguiu obter uma imagem pacífica e não-violenta, remetendo à Igreja a responsabilidade pelas torrentes de sangue que fez correr.
No imaginário coletivo, o protestante é manso e perseguido, ao passo que o católico é um odioso perseguidor.
Como tal inversão da realidade pôde ter ocorrido?
O tempo dos falsários
Primeiramente, a história nem sempre é escrita pelos vencedores. Em terras protestantes, onde os papistas foram eliminados, ela foi facilmente de sabor protestante. Na França, ela não foi católica[16]. Vencedores nos campos de batalha, os católicos foram compelidos ao silêncio pela autoridade real. Os Editos de pacificação promulgados após cada uma das Guerras de Religião impediam que se honrassem os mártires. Sob pretexto de se preservar a paz, ao invés de um dever de memória, houve um dever de amnésia. Entre os 8.760 padres e religiosos católicos cujo assassinato foi recenseado, nenhum receberá as honras da beatificação[17]. Os heróis da Liga católica serão igualmente ocultados, e suas obras capturadas e queimadas por ordem de Henrique IV (1o. de abril de 1594) com pena de morte para os que ousarem conservá-las em seus domicílios[18]. É imperativo que o silêncio cubra as Guerras de Religião. Mas um silêncio unilateral. Os protestantes, por sua parte, não esquecem a famosa, a terrível, a sinistra Noite de São Bartolomeu que arruinou tão brutalmente as suas aspirações. Eles a conservam com um espírito de vingança, e a propaganda anglo-saxã lança continuamente óleo ao fogo.
Na França, no século XVII, paradoxalmente, a argumentação poderosa de Bossuet reforça esse movimento. Ele expõe, de modo irresistível, as contradições e variações incessantes da doutrina protestante. Todos os que são sensíveis à lógica abjuram dos erros. Os demais têm de fugir do terreno racional a todo custo, e refugiam-se no sentimento, ou antes, no ressentimento. Põe-se em marcha uma espiral de vitimização, reforçada pelas tribulações impostas por Luís XIV.
Ao mesmo tempo, o protestantismo tira proveito de sua fragmentação para diluir suas responsabilidades. Ao falar das vítimas, é unificador: soma-as todas. Ao falar de crimes, é o inverso: ele não é jamais culpado, pois não tem uma autoridade central. A culpa é sempre da seita mais próxima!
Por outro lado, assim como ocorreu com todas as revoluções instaladas, o protestantismo adquiriu um aspecto conservador. Desde o século XVII, um luteranismo respeitável sucedeu ao luterrorismo. Ele exibe o ar rigoroso, o rosto severo e as roupas pretas e austeras de um pastor virtuoso, cujas mãos só sabem manejar a Bíblia. Seria possível acusar tão digno personagem de ter cometido crimes na sua juventude?
Finalmente, a melhor defesa é o ataque. Para ocultar seus crimes, o protestantismo compreendeu logo que deveria antes de tudo desacreditar sua vítima: pô-la na situação do acusado, para impedir suas queixas. Vociferar incessantemente contra ela, cobri-la de recriminações acerca de tudo e de qualquer coisa, para colocá-la na defensiva. É isto o que faz há cinco séculos, com sucesso crescente. À Lenda áurea, que encantou a idade média, o protestantismo soube opor uma lenda negra, cujo estribilho é conhecido por todos: a impiedosa Inquisição, a terrível colonização espanhola, a abominável Noite de São Bartolomeu, o tenebroso caso Galileu etc. Todos eles mitos anticatólicos, repisados, desenvolvidos, amplificados no século XVIII[19], e impostos às crianças da França pela Educação totalitária de Jules Ferry, mas criados pela máquina protestante. Seu intuito, para além de atacar a Igreja, é desviar a atenção, esconder os verdadeiros esqueletos escondidos nos armários protestantes.
A Lenda negra
Quer ouvir um advogado do protestantismo? Imediatamente, sem palavra alguma em defesa do seu cliente, ele parte para o ataque:
– A perseguição dos protestantes pela Igreja católica não é mito nenhum! Quem ousará negar os carrascos da Inquisição espanhola ou do rei de França? Quem negará o massacre de Wassy, de São Bartolomeu, a Dragonada ou a revogação do Edito de Nantes?
Visto que ele não tem outro argumento, aceitemo-lo para os fins da discussão, e comparemos. Escutemos o que recrimina nos católicos e comparemos com a realidade protestante. O contraste será bastante útil para distinguir as características da violência protestante e compreender a especificidade do luterrorismo.
Aqui, apenas essa comparação nos interessa. Não se trata de refutar toda a lenda negra, já bem analisada por especialistas como Charles Barthélemy, Jean Guiraud, Jean Dumond ou Jean Sévillia. Acrescentamos apenas, sobre as Guerras de religião, uma menção especial para a obra de Jean Dumond: L’Église au risque de l’histoire. Ele defende corajosamente a Liga (ao contrário de Sévillia) e apresenta uma documentação tão vasta e tão sólida que o historiador protestante Pierre Chaunu admitiu ter se impressionado “com a extensão e a qualidade da [sua] informação”. Dumont nunca é citado nas bibliografias oficiais: ele merece aqui nossas homenagens[20].
Contudo, o advogado protestante se impacienta, e retorna ao seu refrão: repressão da heresia, Inquisição, guerras de religião, São Bartolomeu, Dragonada… Sigamos em frente, e façamos uma pequena viagem pelos argumentos da auto-vitimização protestante.
Repressão dos heréticos
A repressão dos heréticos? O verdadeiro, o enorme escândalo aqui, é que protestantes possam pretender escandalizar-se com isso. Os Estados protestantes não baniram severamente o culto católico ― freqüentemente com pena de morte ― até o século XIX, ou mesmo XX? Não perseguiram eles ferozmente os católicos que simplesmente quisessem guardar os ensinamentos de Cristo? Não os vimos se arrependerem disto. Por que aberração ― ou hipocrisia ― indignam-se eles com a intolerância dos papistas, se manifestaram, no mínimo, o mesmo contra eles?
Bossuet observava:
Não tenho necessidade de me explicar sobre a questão de saber se os príncipes cristãos estão no direito de se servir do poder do gládio contra seus súditos inimigos da Igreja e da santa doutrina, porque, neste ponto, os protestantes estão de acordo conosco. Lutero e Calvino escreveram livros apenas para estabelecer, sobre este ponto, o dever do magistrado. Calvino veio a praticá-lo contra Miguel Servet e Valentin Gentil. Mélanchton aprovou sua conduta numa carta que escreveu a esse respeito.
A disciplina de nossos reformados permite também o recurso ao braço secular em certos casos, e encontramos entre os artigos da doutrina da Igreja [calvinista] de Genebra que os ministros [os pastores protestantes] devem submeter ao poder do magistrado os incorrigíveis que desprezam as penas espirituais e, em particular, os que ensinam novos dogmas indistintamente[21].
O campeão do protestantismo francês contra Bossuet, o Pastor Pierre Jurieu, admite ingenuamente:
Por toda parte, [a Reforma] foi feita pela autoridade dos soberanos. [...] Assim, ela se deu em Genebra pela autoridade do Senado; na Suíça, pelo conselho soberano de cada Cantão; na Alemanha, pelos príncipes do Império; nas Províncias Unidas [Países baixos holandeses] pelos Estados; na Dinamarca, na Suécia, na Inglaterra, na Escócia pela autoridade dos reis e dos parlamentos; e esta autoridade não se limitou a dar plena liberdade de religião aos reformistas, mas foi a ponto de TIRAR AS IGREJAS DOS PAPISTAS, QUEBRAR SUAS IMAGENS, PROIBIR O EXERCÍCIO PÚBLICO DO SEU CULTO, e isto ocorreu normalmente POR TODA PARTE: e mesmo, em muitos lugares, chegou a proibir o exercício particular [=privado] do papismo.[22]
Pois o Pastor Jurieu, após ter recusado a autoridade da Igreja, teme a anarquia religiosa. Ele reclama, pois, para proteger a sua fé, a intervenção da única autoridade que subsistia: a dos príncipes e magistrados. Não pode suportar que outros protestantes queiram liberar-se dela. Ele refuta seus adversários observando que o protestantismo foi imposto por toda parte pelo poder político:
Com efeito, Genebra, as Suíças, as repúblicas e cidades livres, os eleitores e príncipes do Império, a Inglaterra, a Escócia, a Suécia e a Dinamarca lançaram mão da autoridade do magistrado soberano para abolir o papismo e para estabelecer a reforma.[23]
A França não é exceção:
Ainda que a reforma tenha começado na França sem a autoridade dos soberanos, ela não veio se estabelecer sem a autoridade dos grandes; e se os reis de Navarra, os príncipes de sangue e os grandes do reino não tivessem intervindo [Bossuet comenta: “...revoltando-se contra seus reis e afundando a sua pátria no sangue das guerras civis”[24]] a verdadeira religião teria sucumbido inteiramente, como ocorre hoje[25].
E para demonstrar aos protestantes liberais a terrível conseqüência da sua recusa do poder doutrinal dos príncipes, Jurieu ironiza:
Aí está [segundo seus princípios], a Reforma estabelecida no mundo pela violência, pelo constrangimento, por vias injustas e criminosas. Estes senhores são pessoas muito decentes para quererem continuar numa religião assim constituída e que fez pior do que o maometismo![26]
Bossuet retoma os argumentos de um e outro partido para concluir:
Os protestantes ferem-se de morte uns aos outros. Um diz que a religião universalmente introduzida pela autoridade e pela força não é uma religião, mas uma hipocrisia; e que forçar as consciências dessa maneira é o mais puro e verdadeiro anticristianismo. Outro diz: sai, então, desta reforma que, por toda parte, não teve outra fundação! [...] É assim que os dois partidos deixam-se mutuamente sem defesa alguma. [...] A reforma fez todo o contrário do que havia proposto: gabava-se de persuadir os homens pela evidência da verdade e pela palavra de Deus, sem mistura alguma de autoridade humana; essa era a máxima, mas, nos fatos, não conseguiu se estabelecer nem se manter sem essa autoridade que vinha de destruir; e, como sua autoridade eclesiástica tinha fundamentos muito débeis, percebeu que não poderia se fixar sem a autoridade dos príncipes: de modo que sua religião, como obra puramente humana, tira sua força apenas deles e não é, para dizer a verdade, mais do que uma política.[27]
Quando a autoridade real lhes falta (como se deu na França), eles se vêem obrigados a recorrer aos atentados:
A força e a autoridade são tão necessárias à reforma que, na falta de um poder legítimo, foi preciso empregar aquele que as armas e a sedição dão aos rebeldes.[28]
Em poucas palavras, tendo empregado a coação e a violência por toda parte, os protestantes não têm nada a repreender aos católicos neste terreno. Esta primeira conclusão é suficiente para mostrar a indecência das suas jeremiadas.
Mas é preciso ir além.
Contar os mortos?
Será preciso considerar o aspecto quantitativo, contar os mortos, os feridos, os torturados em cada campo? E comparar o peso dos cadáveres?
Deixaríamos de bom grado esse gênero de contabilidade macabra aos que não têm outros argumentos. Protegeríamos a paz dos cemitérios. Mas os protestantes lamuriosos não têm esta reserva. Seus uivos infatigáveis ― mas fatigantes ― acabam por nos obrigar a perguntar-lhes: Querem realmente fazer esta comparação?
Querem realmente comparar o número de condenações à morte decretadas pelo grande espantalho da lenda negra, o célebre Torquemada, inquisidor, com as que são atribuídas a este bravo pequeno juiz luterano de Leipzig, de nome Benedikt Carpzov (1596-1666) e que segue totalmente ignorado do grande público? Um “homem excelente”, que “leu, ao longo de sua vida, cinqüenta e três vezes a Bíblia inteira”, nos diz a História geral do protestantismo[29]. E muito modesto, diga-se: jamais reclamou sua inserção no livro dos recordes, muito embora tenha, na sua brilhante carreira de caça às bruxas, sentenciado 20 mil pessoas à morte! Fosse ele católico, seu sucesso midiático estaria garantido: o mundo inteiro conheceria o seu nome. Infelizmente, era luterano, e teve de ceder a Torquemada o lugar de grande perseguidor[30].
Querem realmente comparar o número de execuções sob a Rainha Maria Tudor – que a facção protestante apelidou de Bloody Mary (Maria, a sangrenta) – com o das vítimas dos fundadores do protestantismo anglicano, Henrique VIII e Elizabeth[31]?
Poderíamos continuar a lista[32], mas o essencial não está aí. Evitemos fixar em cifras, demasiado discutidas e sempre secundárias. O fato mais importante não é de ordem quantitativa.
Uma diferença capital
Mesmo deixando de lado a questão principal, que é religiosa (onde está a verdadeira Igreja fundada por Cristo?), para não ir além da estrita justiça humana (o direito natural), é radical a diferença entre:
a violência protestante, essencialmente agressiva, e
a violência católica, essencialmente defensiva.
É absurdo colocar no mesmo nível o agressor e o agredido, o invasor e o invadido, o usurpador e o usurpado, sob o pretexto fácil de que houve golpes de ambos os lados. Realmente, que há de mais iníquo?
Uma sociedade decadente encontrará advogados para colocar os malefícios nos ombros das vítimas: se a senhora tivesse deixado o ladrão agir, ele não teria necessidade de feri-la! Que poderia ser mais cínico?
É este, no entanto, o argumento protestante. Se a população tivesse consentido em ver sua fé ser arrancada, bem como sua lei, seus costumes, sua civilização, e não tivesse reagido, não haveria problema! Todo mal vem da intolerância católica!
Ainda hoje, os historiadores protestantes batem nessa tecla. Quem duvidar, poderá abrir a narrativa das Guerras de religião feita por Patrick Cabanel (diretor de estudos na prestigiosa École Pratique des Hautes Études)[33]. Por acaso ele se inquieta com os atentados que os protestantes multiplicaram contra a religião milenar da França? De modo algum! Os protestantes lutam pelos seus direitos. Eles já são, ao seu modo, os campeões dos direitos do homem[34]. Os que querem guardar a velha identidade católica da sua terra parecem, por outro lado, não ter nenhum direito de defesa. Nenhuma escusa. Cabanel não poupa esforços para lhes tornar odiosos. Dir-se-ia que ele merece as palavras irônicas de Bossuet:
Quem não admirará esses reformados? São os santos do Senhor, não se pode tocar neles. Estão sempre prontos para reclamar de perseguição, mas lhes é permitido devastar tudo o que for católico. A julgar pelo que dizem, receberam ordem do Altíssimo.[35]
Quando a minoria quer fazer a lei
Um ingênuo poderia se admirar de que os historiadores modernos sejam tão favoráveis a uma MINORIA que buscava a ferro e a fogo impor sua lei à totalidade da nação, e se perguntar se isso é democrático. Mas não esqueçamos que a religião democrática não consiste em fazer a vontade do povo, mas, antes, em submeter o povo, por bem ou por mal, ao culto da grande Deusa (e aos ritos eleitorais que a acompanham). Não há democracia para os inimigos da Democracia, como se vê. Ora, o protestantismo vai no sentido do progresso, uma vez que se opõe à Igreja. Apesar do seu apego lamentável ― mas provisório ― a alguns restos de cristianismo, ele constitui uma etapa indispensável rumo à era gloriosa da Democracia e dos Direitos do Homem. Contrariamente ao que uma aritmética primária faria crer, era a minoria protestante ― minoria iluminada ― que representava a democracia, a quem, infelizmente, a maioria obscurantista recusou se submeter (o que prova sua intolerância e seu fanatismo).
Como vimos, essa é a tese sub-entendida num Cabanel, e será desenvolvida sem subterfúgios por todos os propagandistas do Pensamento único[36]. Não se vive mais na realidade, e sim numa ideologia militante. Contudo, a realidade persiste, bem como esta característica da violência protestante:
Não foi como em alguns países (a Espanha, por exemplo), com os poderes públicos protegendo a imensa maioria no exercício da sua religião ― e contra os perigos da divisão religiosa ― com rigores por vezes excessivos; foi uma minoria audaciosa que tentou, a ferro e fogo, mudar as crenças de toda a população e que, após ter adquirido sucesso ao preço de massacres inomináveis, legalizou as suas violências [...]
Muito embora tenha sido abafada por clamores interessados, a verdade persiste, e as declarações contra as represálias católicas não provam nada. As guerras religiosas naturalmente amplificam o furor das guerras civis. Elas voltam-se contra Deus e contra a pátria, e este dilaceramento supremo eleva a ferocidade humana a proporções desconhecidas. Mas, ainda que fosse verdade que os fiéis da antiga Igreja ultrapassaram por vezes os direitos de defesa, não deixa de estar registrado em todos os documentos autênticos de nossos anais que eles foram atacados com um encarniçamento sem igual, e que não foi senão pela morte dos fortes, pela opressão dos fracos, pela cumplicidade tirânica das coroas, que seus adversários impuseram novidades impopulares a certas províncias da Europa.[37]
Muito longe de reclamar uma ilusória liberdade religiosa, o povo francês pedia instantemente proteção contra a heresia:
O que nos impressiona mais, nos artigos particulares [do Edito de Nantes], é a unanimidade em favor do catolicismo demonstrada pelas cidades e pelos senhores que se renderam a Henrique IV. A supressão do protestantismo é reclamada por toda parte como o maior dos benefícios.[38]
Após ter sublinhado “a generalidade das reclamações contra a introdução legal da heresia no reino mui cristão”, comenta o mesmo historiador:
Mesmo um partidário da liberdade religiosa terá de convir que constitui uma singular alteração do seu significado o fato de ser imposta pelo rei a uma nação que prefere a antiga unidade de fé de seus pais; e que é estranho, se esse gênero de progresso é uma conseqüência natural do desenvolvimento da humanidade, que seja preciso tanta astúcia somada a tanta tirania para torná-lo aceito.[39]
A Inquisição: legítima defesa
Compreende-se o quanto a violência protestante difere da Inquisição católica, que ― será ainda preciso repeti-lo? ― jamais visou à conversão forçada. Longe de ser um instrumento de conquista e de proselitismo, a Inquisição era uma instituição de legítima defesa. A Igreja protegia a fé de seus filhos; o poder civil defendia uma sociedade que já era católica, onde a fé, estabelecida de modo pacífico, havia formado naturalmente uma civilização cristã.
Não há nada em comum com os métodos de um Gustavo Vasa (Suécia e Finlândia), de um Cristiano III (Dinamarca, Noruega, Islândia), de um Henrique VIII (Inglaterra) ou de uma Joana d’Albret (Navarra), que usam astutamente de violência e mentiras para agredir seu próprio povo, para roubar sua fé ancestral e fazer com que engulam uma religião nova, que ele preferiria vomitar.
Consideremos por um instante a famosa Inquisição espanhola. Os cinco grandes processos que puseram fim às tentativas luteranas na Espanha custaram a vida de 67 hereges no total[40]. Estes últimos não foram perseguidos por simples opiniões, mas por atos de rebelião, pois haviam se conjurado para derrubar a ordem estabelecida. Circunstância agravante: muitos deles eram padres. Continuavam tranqüilamente a gozar das honras eclesiásticas, enquanto trabalhavam secretamente para destruir a fé católica que haviam jurado defender. Que instituição poderia subsistir sem punir tais traições?
O chefe da conjuração, o Pe. Agostinho Cazalla, observou melancolicamente antes de subir na fogueira (21 de maio de 1554):
Se tivessem esperado por mais seis meses antes de nos pegar, seríamos nós que lhes faríamos o que hoje nos fazem.[41]
Não se poderia justificar melhor a decisão dos juízes. Em face da agressão protestante, a sociedade espanhola estava numa situação de legítima defesa. Se não agisse imediatamente, um grande incêndio começaria, como ocorreu na França, com centenas de igrejas destruídas, milhares de religiosos assassinados, dezenas de massacres nos quatro cantos do país. Era preciso opor-se ao luterrorismo enquanto havia tempo.
Voltaire escreveu:
Na Espanha não ocorreu, ao longo dos séculos XVI e XVII, nenhuma destas revoluções sangrentas, destas conspirações, nenhum destes tormentos cruéis que observamos em outras cortes da Europa (...) Enfim, não fosse pelos horrores da Inquisição, nada haveria para recriminar à Espanha.[42]
Joseph de Maistre comenta com bom senso:
Não sei se há cegueira maior. “Não fosse pelos horrores da Inquisição, nada haveria para recriminar à Espanha”, que só escapou dos horrores que desonraram todas as demais cortes por meio da Inquisição.[43]
E, em outra passagem:
Quem considerar a severidade de Torquemada sem pensar no que ela evitou, parou de raciocinar.[44]
E ainda:
Os grandes males políticos, sobretudo os ataques violentos desferidos contra o corpo do Estado, jamais podem ser prevenidos ou rechaçados sem que seja por meios igualmente violentos.[45]
A Inquisição sempre foi popular na Espanha, porque ela defendia verdadeiramente o povo. A lenda negra da inquisição não surgiu sob o sol andaluz, mas nas brumas de Londres, perto da famosa Torre em que Henrique VIII e Elizabeth I mandavam torturar seus prisioneiros. Foi nessa torre que morreu o Beato Nicholas Owen, durante uma sessão de tortura que ocorreu antes mesmo do início do seu julgamento. Também nessa torre o Padre John Gerard foi submetido a tortura, antes de conseguir fugir. Porém, três séculos mais tarde, aos turistas admirados de encontrar lá esses instrumentos de tortura, os guias lhes contavam que só estavam lá guardados, que haviam sido trazidos da Espanha, onde serviram à Inquisição.
Era assim que a Inglaterra protestante negava seus crimes imputando-os à Inquisição espanhola.
A educação totalitária
O que os guias da Torre de Londres faziam no varejo, a Educação Totalitária de Jules Ferry fará no atacado, ampliando-o a toda a França.
Casado com uma calvinista, rodeado por conselheiros do mesmo culto (Léon Say e Conrad de Witt), Jules Ferry literalmente confiará a escola supostamente “neutra” aos protestantes:
Nos gabinetes do ministério, o protestante Ferdinand Buisson dirige o ensino primário; o protestante Élie Rabier o ensino secundário; o protestante Louis Liard o ensino superior. Uma protestante, a Sra. Kergomard, é a inspetora geral do ensino infantil.
Para padronizar a formação dos mestres, as diferentes Escolas Normais são encabeçadas por duas Escolas Normais Superiores que cuidam da formação dos professores, sob a direção do protestante Félix Pécaut.
Para o ensino secundário das moças, uma outra Escola Normal Superior foi fundada em Sèvres: sua primeira diretora, Julie Favre, é filha de um pastor. (Nem todas as Escolas Normais simples são dirigidas por protestantes, mas não raro o são: Sra. Bourguet em Paris, o Pastor Joseph Goy em Toulose, etc.)
Há outro centro estratégico de propaganda: o Museu Pedagógico. Nele, reinam como mestres os protestantes Bonet-Maury e Jules Steeg.
Finalmente, os protestantes Gabriel Monod, Alphonse Aulard e Charles Seignobos cuidam dos manuais de história, com a bela “neutralidade” que podemos imaginar.
Gabriel Monod (1844-1912) merece menção especial. Ele inicialmente cogitou tornar-se pastor, como seu avô, seu bisavô e quatorze dos seus primos. Mas da fé protestante não guardou mais que o ódio à Igreja (ele dirá do protestantismo, pouco antes de morrer: “Não mantive a crença, mas no fundo, sou um velho huguenote”). Para satisfazer essa raiva, ele escolheu a história. Em face da Sorbonne, que tinha o grave defeito de não ter sido dominada pelos historiadores protestantes (ela não tardará a sê-lo, graças a um habilidoso sistema de cooptação), fundou-se, à custa do Estado, a École des Hautes Études (1868), onde Gabriel Monod fazia sua pregação huguenote[46]. Para contrapor-se à renomeada Revue des questions historiques, considerada católica demais, Monod também fundou, em 1876, a Revue historique, que se tornou uma verdadeira máquina de guerra contra a Igreja. O sectarismo anticatólico é aí tão violento, que Gustave Fagniez, cofundador do periódico, afasta-se em 1881.
Num contexto assim, quem poderia supor que o protestantismo fosse narrado de modo imparcial, ou apenas honesto, aos estudantes franceses?
Komintern e Calvintern
É fácil ocultar aos franceses as atrocidades do luterrorismo sueco ou norueguês. Mais difícil é passar em branco os atentados calvinistas dos quais muitas igrejas francesas ainda trazem as marcas. Mas isso não é o mais importante: o essencial é dissimular as intenções totalitárias do calvinismo. Lançar no esquecimento a sua organização, a sua estratégia, e tudo o que um historiador americano pôde qualificar com o nome tão evocativo de Calvintern, por analogia ao Komintern soviético. Com efeito, Robert Kingdon assinala as semelhanças...
...entre o movimento comunista internacional apadrinhado por uma organização chamada Komintern, com seu quartel-general em Moscou, destinado a solapar as sociedades ocidentais difundindo o comunismo por todo o mundo, e um movimento calvinista internacional apadrinhado por aquilo que gostaria de chamar de Calvintern, com seu quartel-general em Genebra, destinado a solapar as sociedades católicas difundindo o cristianismo reformado por toda Europa.
Entre outras coisas, os dois movimentos parecem-me estruturalmente semelhantes, organizados ao redor de um princípio então denominado “centralismo democrático”, com unidades locais, células ou congregações, cada qual possuindo uma autonomia considerável e, por isso mesmo, capaz de agir independentemente de outras unidades que poderiam estar sob ameaça, mas todas submetidas a um centro ideológico único e totalitário.[47]
Nessa empreitada internacional de subversão calvinista, a França foi a primeira visada. Toda uma rede, solidamente organizada, trabalha para subjugar o país. Essa é a primeira coisa a se ter em mente para compreender o conjunto dos acontecimentos, e é isso que a mitologia huguenote ― piedosamente auxiliada pela Educação totalitária ― visa a dissimular. É vantajoso indignar-se das reações! Os agentes subversivos tornam-se inocentes vítimas da intolerância católica.
Mitologia huguenote
Durante mais de um século, a escola de Jules Ferry comoveu os pequenos católicos franceses com histórias sobre:
os “mártires” calvinistas,
o “massacre de Wassy” (sistematicamente apresentado como o “início das guerras de religião”),
a Noite de São Bartolomeu,
as dragonadas de Luís XIV,
finalmente, a famosa Revogação do Edito de Nantes, com seus exilados e seus camisards[48].
Repassemos rapidamente a ladainha:
– No centro está o Massacre da Noite de São Bartolomeu, que se tornou um pivô essencial do curso de História gratuita, laica e obrigatória imposta aos estudantes franceses (alguns manuais escolares não lhe consagram menos de quatro ilustrações)[49]. Mesmo nos dias de hoje, ela sobrevive ao naufrágio organizado do ensino de história. Nem uma palavra, por outro lado, dos 3 mil católicos massacrados em Orthez três anos antes, nem dos 860 católicos massacrados em Montbrison no dia 15 de julho de 1562 (dez anos antes do São Bartolomeu), ou dos 567 católicos massacrados em Lauzerte-en-Quercy no dia 15 de agosto de 1562, para tomar apenas alguns exemplos entre muitos. Os cadáveres protestantes parecem ser muito mais interessantes! Eis o mito do protestante-vítima solidamente instalado na cabeça dos alunos das escolas “neutras”.
– Mas, como o São Bartolomeu data de 1572, era preciso explicar as guerras que o precediam. Para inocentar seus correligionários, um propagandista protestante, Jean Crespin (1520-1572), cuida a partir de 1554 de disfarçá-los de MÁRTIRES. Um belo achado polêmico, mas que deixa seus amigos calvinistas desconcertados, pois se opõem ao culto dos santos: faz sentido criar um martirológico huguenote enquanto se criticam os santos católicos? Crespin foi suspeito de desviacionismo. O Conselho de Genebra queria que se retirasse do seu livro o nome malsonante de mártires, mas o autor fez questão: Para lançar no esquecimento os crimes e sacrilégios cometidos pelos huguenotes, o que seria melhor do que apodar-lhes com um nome que o adversário tem em tão alta estima? O sucesso da manobra ultrapassou todas as expectativas, e o Livro dos mártires de Crespin conseguiu persuadir os amotinados calvinistas de que eram os dignos herdeiros dos primeiros cristãos. Patrick Cabanel assinala:
O monumento de Crespin sem dúvida contribuiu fortemente para dotar o protestantismo francês de uma identidade vitimária, para não dizer padecente, posto que seus heróis foram, por definição, vencidos pelo mundo, odiados pela multidão, acuados incessantemente pela justiça e pelas autoridades. Esse é o livro do sacrifício e da derrota. Claro, nem os perjuros, nem os covardes, nem os tíbios figuram nele, mas sim os obstinados – que pagaram caro.[50]
Obstinados: eis a palavra. Bossuet justamente sublinha “o quão grande é a diferença entre a coragem obstinada que a raiva inspira, e a verdadeira constância, sempre regrada, sempre mansa, sempre pacífica e submissa às ordens públicas, tal como foi a dos [verdadeiros] mártires”[51].
Sem mesmo elevar-se até o julgamento propriamente teológico (que impede de considerar como “mártir” quem morre por um erro), pode-se facilmente constatar, com Bossuet, que a pretendida Reforma teve, desde a sua origem, “um espírito contrário ao do Cristianismo e ao do mártir”[52]. O grande bispo explica:
Quando a reforma era débil, ela realmente se mostrava sempre submissa e chegou a dar como fundamento da sua religião que não julgava permitido o emprego da força, e nem sequer resistir a ela. Mas logo se descobriu que isso fazia parte daquelas modéstias que o temor inspira, um fogo coberto pela cinza: pois tão logo a nova reforma tornou-se mais forte em algum reino, quis reinar sozinha.
Primeiro, foram os bispos e padres que não tiveram mais segurança; segundo, os bons católicos foram degredados, banidos, privados dos seus bens e, em algumas partes, privados da vida pelas leis públicas; como, por exemplo, na Suécia, ainda que se tenha desejado dizer o contrário. Mas o fato permanece.
Eis até onde chegaram aqueles que tanto protestavam contra a força; e bastava considerar o azedume, a acidez e a soberba publicada nos primeiros livros e nos primeiros sermões desses reformados; suas inventivas cruentas; as calúnias com que denegriam nossa doutrina; os sacrilégios, impiedades e idolatrias com que não cessavam de nos acusar; o ódio de que se inspiravam contra nós; os saques que resultaram das suas primeiras pregações; o amargor e a violência que publicavam em seus cartazes sediciosos contra a missa, para julgar o que devíamos esperar de semelhante começo.[53]
Estes que os huguenotes querem apresentar como “mártires” foram amiúde condenados por atentados sacrílegos ou provocações blasfematórias. Eles queriam chocar, incomodar, aterrorizar, e o conseguiram. A brutalidade iconoclasta que perturba a França dos anos 1520 ― como preparação do paroxismo dos anos 1560 ― tem todas as características do terrorismo. O ataque psicológico prepara o confronto físico. O próprio Cabanel o reconhece a contragosto:
E talvez a iniciativa da violência, simbólica e não carnal, claro, tenha vindo dos protestantes: eles cederam [...] à vertigem da iconoclastia [p. 216].
Impressionante “talvez”, que, longe de diminuir a confissão, dobra o seu alcance, revelando o peso das reticências que um protestante tem de vencer antes de se render à evidência.
Os terroristas calvinistas sabiam o que estavam fazendo e o risco que corriam. Foram punidos segundo as leis da época, e não podiam deixar de sê-lo. Seria concebível, nos nossos dias, que uma série de atentados contra os grandes símbolos da religião laica ― lojas maçônicas, centros de “planejamento familiar” etc. ― não terminasse na responsabilização dos autores desses atentados?
O “mártir huguenote por excelência”[54], Anne du Bourg, cuja imagem do suplício foi divulgada pelos protestantes por toda parte (pois seu iconoclasmo tem limites), foi perseguido inicialmente na justiça por ter injuriado o rei na face. Isso não lhe bastava: desde a prisão, encontrou um meio de organizar o assassinato dos seus juízes. Um deles foi massacrado, o presidente Minar; dois outros conseguiram fugir. Depois disso, os magistrados não estiveram mais inclinados à indulgência a seu respeito. Não é esse um curioso tipo de mártir? E não é evidente que um tal exaltado teria perseguido os católicos com o máximo furor ― como Gustavo Vasa, Henrique VIII ou Joana de Navarra ― se tivessem-no deixado agir? Apenas a mitologia pode transformá-lo num campeão da liberdade de cultos.
Que espécie de reformadores e mártires este novo evangelho produziu! No entanto, o rancor, o desprezo, o desespero, e tudo que há de mais extremo nas paixões humanas, até o ódio [...] não poderiam produzir outros frutos.[55]
– Outro mito, o suposto “massacre” de Wassy (1o. de março de 1562), que a história oficial quer absolutamente tornar o início das Guerras de religião. Bossuet já havia trazido esse drama a suas dimensões justas, apoiando-se na autoridade de autores protestantes[56]. A um pastor que invocava esse mito, ele replicava:
O Sr. Jurieu evoca o massacre de Wassy como justificativa para as suas armas, sem responder uma palavra sequer aos testemunhos incontestáveis, mesmo de autores protestantes, com os quais mostramos que o suposto massacre não passou de um encontro fortuito, e de um pretexto que a rebelião, já decidida, queria se dar.[57]
A mentira de Wassy já foi refutada dez vezes, cem vezes. Já se mostrou que não se tratou de um massacre (unilateral), muito menos de uma iniciativa deliberada, mas de uma escaramuça que acabou mal. Ela se deve a uma dupla provocação protestante: após terem desafiado o edito real que lhes proibia de se reunirem naquele lugar (a poucos metros da igreja onde o duque de Guise ouvia a missa com seus homens), os huguenotes tiveram a brilhante idéia de atacar os soldados católicos com pedradas. Dado o contexto, era o equivalente a acender uma faísca sobre um barril de pólvora. No entanto, eles se declararam muito surpresos, e totalmente escandalizados por terem sido repreendidos a disparos de arcabuzes. Por que tanto ódio? Claro está que nem eles, nem a história laico-republicana apresentam o contexto. E, sobretudo, os massacres bem mais cruéis (mas que, dessa vez, só vitimaram católicos) ocorridos nos meses precedentes:
Em Montauban, no dia 13 de julho e, em seguida, no dia 15 de agosto de 1561: incêndio de igrejas com massacres dos católicos que queriam defendê-las;
Em Montpellier, nos dias 19 e 20 de outubro de 1561: massacre de 250 católicos;
Em Nimes, no dia 21 de dezembro de 1561: novo massacre de católicos.
Duas semanas antes do incidente de Wassy, um sínodo protestante de setenta pastores (reunidos em Nimes, de 2 a 15 de fevereiro de 1562) decidira empreender a destruição sistemática de todas as igrejas: ele foi presidido pelo Pastor Pierre Viret, enviado à França pelo consistório de Genebra com um mandato de “visitante”. Do mesmo modo, também antes de Wassy, desde o início dos anos 1560, uma terrível onda de iconoclastia assola e aterroriza o sul da França. Dois anos antes de Wassy, um príncipe calvinista ainda anunciava (em 5 de março de 1560) que “um grande golpe será em breve desferido”, cujo fim é o extermínio de “todos os padres da França”[58] ― nada mais nada menos. E não havia ninguém para orquestrar esses tumultos, nenhuma palavra de ordem? Feita a pergunta, todos os olhares instintivamente se voltam para Genebra. Mas jamais poderemos saber mais, pois o devotado sucessor de Calvino na Meca calvinista, Teodoro de Beza, que dispunha de documentação abundante sobre todo esse período, destruiu uma parte após ter escrito sua História eclesiástica (1579). “Por razões de segurança”, explica com benevolência o bom Cabanel, que acrescenta:
A documentação corria riso de cair nas mãos de leitores mal-intencionados, e acarretar males a Genebra.[59]
Precaução nunca é demais. De resto, o mesmo Teodoro de Beza insiste a torto e a direito, para encerrar o assunto, que a origem das Guerras de religião não deve ser procurada em outra parte que não Wassy. Enquanto outros memorialistas protestantes narram o incidente do 1o. de março de 1562 tal como foi, com seus vinte e três mortos (número que é grande, sem deixar por isso de ser relativamente pequeno), Beza amplifica-o desmesuradamente, faz dele o momento decisivo da sua História eclesiástica, retorna a ele sem cessar e declara, com um tom dramático, que esse massacre é:
...o começo primeiro das guerras civis que se sucederam, de todos os males que sobrevieram e hão de sobrevir a toda a Cristandade.[60]
Por que essa insistência? É que é preciso salvar o soldado Calvino! Esconder seu rosto guerreiro. Colocar a responsabilidade da guerra civil nos ombros dos católicos. E para tanto, não há outro meio que o de voltar os holofotes para Wassy.
A tagarelice dura ainda nos nossos dias. O periódico Cahiers Science et Vie sobre as guerras de religião, mencionado acima, trata sete vezes do “massacre de Wassy” em trinta páginas de dossiê[61]! Visivelmente, para esse órgão de propaganda do politicamente correto, nunca é suficiente. As imprecisões abundam (mas vão sempre no mesmo sentido[62]). O mais importante, contudo, não é aquilo que se diz, mas o que querem ocultar a todo custo. A tática é fazer barulho, comover, martelar regularmente os nomes de Wassy ou de São Bartolomeu como um toque lancinante de tambor, a fim de impedir o leitor de refletir pausadamente e de se elevar até uma visão inteligente do conjunto da situação. É preciso a todo custo desviar sua atenção da realidade central, que se impõe imediatamente como uma evidência, desde que se aceite considerá-la: o protestantismo tentou se apoderar da França por meio do terror.
Para desenvolver suas redes clandestinas, o protestantismo inicialmente simulou mansidão (período da taqyia[63]), reservando o terrorismo iconoclasta e os assassinatos de padres a “lobos solitários”, oficialmente renegados pelo resto da comunidade. O plano era ainda de tipo luterano: assenhorear-se da pessoa do rei para protestantizar a França à força, em seu nome, como nos países do Norte. Após alguns ensaios frustrados, os calvinistas preferiram a rebelião armada. Nos anos 1560, julgaram-se suficientemente fortes para desencadear a guerra (período da djihad). Eles a haviam preparado ativamente por pelo menos dois anos quando ela finalmente explodiu em 1562[64]. Wassy não passa de um pretexto.
Outra evidência: se os católicos franceses não tivessem se defendido vigorosamente, eles teriam sido protestantizados à força. Quem pode negar? Ninguém. Era preciso, pois, a todo custo, desviar os olhares.
– As lamentações sobre as Dragonadas ou sobre a Revogação do Edito de Nantes decorrem da mesma estratégia diversionista. Se Luís XIV sucumbiu desgraçadamente à influência do princípio do seu tempo: cujus regio, ejus religio (todo príncipe teria o direito de impor sua religião aos seus súditos), não se pode esquecer que este era precisamente o princípio dos países protestantes. Não se pode esquecer, tampouco, que os privilégios que a religião pretensamente reformada gozava em França desde o Edito de Nantes, não foram obtidos senão pelo terrorismo e pela guerra civil. Os protestantes haviam, então, submetido os católicos a coisas bem piores do que terão de suportar. Sem deixar de nos compadecer pelos seus infortúnios de 1685, é preciso repetir que os excessos de Luís XIV não tiram nada dos erros iniciais de uma religião que, por toda parte, se impôs (ou tentou se impor) pelo terror.
Bossuet ― que procurou impedir toda violência contra os protestantes na sua diocese[65] ― já observava:
Aqueles que não tiram os dragões da boca, e que pensam que basta mencioná-los para defender a sua causa, devem, por sua vez, suportar que nós lhes recordemos tudo que o reino sofreu por conta das suas violências, e ainda sofre em nossos dias. Eles são culpados, por atos e por suas próprias deliberações, das quais conservamos os originais, de ter então realizado, por um poder usurpado, mais do que se queixam no presente de ter sofrido de um poder legítimo. O fato foi narrado no livro Histoire des Variations[66] e não foi contestado. Nesse livro declaramos que tínhamos em mãos, no original, as ordens dos generais e das municipalidades, a pedido dos consistórios, para constranger os papistas a abraçar a reforma por meio de taxas de moradia, pela demolição das suas casas, e pela identificação de seus tetos. Quem se afastava para evitar essas violências era despojado de seus bens. Os registros das administrações da cidade de Nimes, de Montauban, de Alais, de Montpellier, bem como outras da facção estão repletos de tais decretos. Mas foram bem mais longe; uma infinidade de padres, religiosos e católicos de todas as ocupações foram massacrados em Bearne por ordem da Rainha Joana [de Navarra], sem terem cometido outro crime que o da sua religião ou de seu estado religioso [...]
Aqueles que se vangloriam do seu sofrimento e dos seus mártires são os verdadeiros agressores, e o são do modo mais sanguinário.
Esses dragões, cujas violências se proclamam tão alto, chegaram a tais excessos? E tudo aquilo que neles se recrimina, e que eles realizaram sem ordem, quão aquém não está das violências que os protestantes realizaram por ordem formal e bem deliberada?[67]
Um sucesso frágil
Bossuet já tinha explicado tudo. Mas quem ainda lê Bossuet?
Poderíamos ser tomados de desencorajamento: não importa o que dissermos, não importa o que falarmos, a lenda negra anticatólica, tão eficazmente disseminada pela escola totalitária de Jules Ferry e pelo conjunto das mídias, parece ter ganhado a partida. Ela se impõe e domina como déspota absoluta. Inventada para esconder os crimes do protestantismo, ajudou sobretudo a descristianizar a França (para maior proveito, não do luteranismo ou do calvinismo, mas da última degenerescência do protestantismo liberal: a religião dos Direitos do homem).
A França, que soubera vencer o terrorismo físico do século XVI, foi hoje vencida pelo terrorismo intelectual da Educação totalitária.
Como derrubar esse Golias? Talvez basta imitar Davi: mirar o lugar certo, o ponto capital. Uma única verdade, bem colocada, pode ser suficiente para abatê-lo, uma simples constatação histórica pode bastar para vencê-lo. Uma constatação muito simples e historicamente incontestável: o protestantismo se impôs por toda parte por meio do terror.
Em Londres como em Genebra, na Alemanha como na Noruega, em Navarra como na Dinamarca, na Escócia como na Suécia, na Islândia como na Irlanda, a lei é universal: o protestantismo (que reclama o livre exame) se impôs pela violência.
Se essa formidável contradição interna não bastar para fazer com que o protestantismo exploda em pleno vôo, então a lógica não serve para nada.
E se essa constatação pode ser livremente negada, então a história não serve para nada.
De fato, ninguém tem a audácia de negá-lo. Contenta-se em desviar a atenção. Toda a lenda negra anticatólica não passa de uma manobra diversionista. E se convém denunciar as mentiras, é ainda mais importante gritar a plenos pulmões: Diversionismo, diversionismo!
– As acusações contra a Igreja (Inquisição, caso Galileu etc.)? Diversionismo! Diversionismo para ocultar que a Igreja se estabeleceu pacificamente, após ter sofrido três séculos de perseguição, enquanto que o protestantismo (como, em seguida, a religião laica dos Direitos do homem), impôs-se pelo terror.
– O elogio dos pretendidos “mártires” do protestantismo? Ainda diversionismo, para ocultar sua tática terrorista.
– Os lamentos sobre as dragonadas, a revogação do Edito de Nantes? Ainda diversionismo! Discuta-se quanto quiser a atitude deste ou daquele rei católico. Nenhuma das recriminações que se queira fazer não poderá suprimir o dado fundamental: ele se via em face de uma nova religião que queria se apoderar do país pela violência. Tudo o que tende a ocultar essa verdade primeira não passa de uma manobra diversionista.
***
Por uma reviravolta inacreditável, a religião que se impôs por toda parte por meio do terror, transmite atualmente uma identidade vitimária. Assim como os corsos, transmitindo uma vendetta familiar ao longo de vinte e cinco gerações, os infelizes protestantes ainda vivem da cólera de seus ancestrais. Muitos dentre eles parecem não ter outra religião a não ser o rancor contra a Igreja.
Vítimas, certamente os protestantes o foram. Mas, antes de tudo, vítimas da revolta dos seus chefes, que os enganaram, os aprisionaram numa lógica de ódio para, em seguida, arrastá-los na espiral infernal provocação-repressão que caracteriza a subversão terrorista.
Após muitos séculos, em face da descristianização que é a conseqüência final da sua revolta, não seria tempo para que eles abrissem finalmente os olhos e se libertassem desta cultura de ressentimento, a fim de retornar à sua mãe?
Notas:
[1] Sem falar dos decênios de guerra internacional que ocorreram, notadamente a atroz Guerra dos Trinta anos (1618-1648) que deixou quase três milhões de mortos: um terço da população alemã. – A Paz de Vestfália, que encerrou o conflito, anuncia desastres ainda maiores (ver a obra de P. M. Bourguignon: Un bouleversement de l’Occident chrétien, éd. Association Saint-Jérôme, 2006).
[2] Michel Defaye, Le Protestantisme assassin au XVIe siècle en France, éditions du Sel, 2006 (ver Le Sel de la Terre 28, p. 124-161). O autor retoma e completa o trabalho fundamental do Pe. Victor Carrière, Les Épreuves de l’Église de France au XVIe siècle, Paris, Letouzey et Ané, 1936.
[3] Em 5 de março de 1560, Frederico III, Eleitor Palatino, um dos raros príncipes alemães a adotar as doutrinas de Calvino, escreveu: “Um grande golpe será desferido em breve. De hoje ao domingo do Reminiscere, todos os padres da França serão massacrados.” (carta a Melchior von Schaumburg, citado por August Kluckhohn, Briefe Friedrichs des Frommen, Brunswick, 1868, t. I, p. 126.)
[4] Oito mil setecentos e sessenta (8.760): esta é a cifra dada em 1580 por um observador imparcial, mais interessado no aspecto econômico da coisa, que dispunha de estatísticas muito precisas, diocese por diocese: Nicolas Froumenteau, na sua obra Le Secret des finances, 3a. parte, p. 378. Dezessete anos antes, em 23 de novembro de 1563, no Concílio de Trento, o cardeal de Lorraine já anunciava 3 mil religiosos franceses massacrados pelos huguenotes. No dia 20 de abril de 1569, o Pe. Samérius, S. J., enumerava 5 mil (ver Michel Defaye, p. 37-39).
[5] Ver, por exemplo, Léon Cristiani, Luther et la question sociale, Paris, Tralin, 1912.
[6] Ver Jules Martin, Gustave Vasa et la Réforme en Suède, Paris, 1906.
[7] Sobre o aumento da miséria nos séculos XVI-XVII, particularmente nos países protestantes (mas também na França, devido às Guerras de Religião), ver, por exemplo, Léon Lallemand, Histoire de la charité, Paris, Picard, 1910, t. IV (Les temps modernes), p. 1-10, 144-146, 185-187, 195-197, 205, 238-241.
[8] Magistrado que atuava como representante do rei em jurisdições denominadas bailiados. [N. do T.]
[9] Este documento foi publicado por M. Lundström na revista histórica sueca (Svensk Historisk Tidskrift) em 1897, p. 61. Foi citado por Jules Martin, ibid., p. 416-418.
[10] Ver Yannick Suhard, “How doctrinal changes were insidiously forced upon the Swedish people”, em Mater Dei (Londres), vol. 5, no. 1 (primavera de 2007), p. 38-39.
[11] A Dieta de Worms, iniciada pouco depois da coroação de Carlos V, foi uma das mais célebres de toda história da Alemanha. Nela, Lutero foi intimado a comparecer e, como o heresiarca não se retratasse de sua revolta, foi condenado à morte, e seus escritos votados ao fogo. Os editos, contudo, tornaram-se letra morta [N. do T.]
[12] Lund, que hoje pertence à Suécia, estava então sob domínio dinamarquês.
[13] Sem preocupação alguma com a sucessão apostólica, o rei faz “ordenar” esses superintendentes por um colaborador de Lutero, Johannes Bugenhagen (1485-1558), que não era bispo em absoluto (2 de setembro de 1537).
[14] Ver Per Skansen, “La destruction du catholicisme en Norvège”, em La Foi catholique no. 243 (pp. 22-32), 247 (p. 117-132), 248 (p. 153-171) e 253 (p. 56-67).
[15] Trata-se da segunda maior cidade da Noruega [N. do T.]
[16] Também na Boêmia (atual República Tcheca), o catolicismo, vencedor no século XVI, teve de sofrer o roubo da sua memória. A lenda negra anti-católica foi imposta no século XIX pela propaganda maçônica e pela historiografia prussiana dos tempos de Bismarck. Ver notadamente Olivier Chaline, La bataille de la Montagne Blanche (8 de novembro de 1620), Paris, Noesis, 2000.
[17] Houve contudo mártires admiráveis. Ver alguns exemplos na obra de Michel Defaye, Le Protestantisme assassin.
[18] Como alguns persistissem em interessar-se nelas, Henrique IV chegou mesmo a colocar em circulação exemplares falsificados. O historiador americano Peter M. Ascoli os encontrou e publicou em 1977 a versão autêntica de uma obra da Liga Católica: Le Dialogue d’entre le maheustre et le manant. Ele mostra numerosas falsificações fabricadas pelos agentes da realeza.
[19] Para atacar a Inquisição espanhola, Montesquieu evoca pateticamente no seu Espírito das leis (livro 25, cap. 13) uma moça que teria sido queimada pela única razão de ser judia. Fábula ridícula que a Educação totalitária propõe como leitura a gerações de estudantes sem jamais observar que não tem nenhum fundamento real. Montesquieu descendia de protestantes, ele mesmo sendo casado com uma, e foi recebido como maçom em Londres, no dia 16 de maio de 1730, na loja Horn Tavern. Voltaire exagera ainda mais. Quase dois séculos após a Noite de São Bartolomeu, seu pobre coração sensível não pode suportar o aniversário do acontecimento. Para ele, já é a Shoah. Todo dia 24 de agosto, fica de luto, chora ostensivamente, cai doente. Ele enriqueceu a lenda negra da Inquisição espanhola com diversos trechos antológicos, dentre os quais o Auto da Fé de Lisboa, no seu Cândido (cap. 6). Na realidade, o Auto da Fé compreendia uma grande processão seguida de missa, com sermão e reconciliação pública dos pecadores, sem nenhuma execução cruenta. Estes tipos de execuções ― reais, mas raras ― ocorriam fora da cidade, e sem cerimônia. Inútil dizer que a Educação totalitária, que impõe a leitura desta obra aos estudantes do ginásio, jamais corrige estas mentiras.
[20] Jean Dumont, L’Église au risque de l’histoire, Paris, Critérion, 1984. Reeditado em 2002 pelas Éditions de Paris, com prefácio de Pierre Chaunu, mas, infelizmente, com muitos erros de edição.
[21] Bossuet, Histoire des variations des Églises protestantes, livro X, §56 (Oeuvres complètes, Outhenin-Chalandre, t. 10, 1840, p. 365-366). Acerca deste uso do poder do gládio contra os inimigos da Igreja, Bossuet acrescenta: “Numa palavra, o direito é certo: mas a moderação não é por isso menos necessária”.
[22] Pierre Jurieu, Le Tableau du socinianisme, éd. A. Troyel, 1690, carta VIII, p. 502.
[23] Pierre Jurieu, Le Tableau du socinianisme, p. 480.
[24] Bossuet, Sixième avertissement sur les lettres de M. Jurieu, 1691, §99 (Oeuvres complètes, Outhenin-Chalandre, t. 11, 1841, p. 419).
[25] Pierre Jurieu, Le Tableau du socinianisme, p. 505.
[26] Pierre Jurieu, Le Tableau du socinianisme, p. 502-503.
[27] Bossuet, Sixième avertissement sur les lettres de M. Jurieu, 1691, §101 (p. 419-420) e §104 (p. 423)
[28] Bossuet, Sixième avertissement sur les lettres de M. Jurieu, 1691, §99 (p. 419)
[29] Émile G. Léonard (diretor de estudos na École Pratique des Hautes Études), Histoire génerale du protestantisme, t. II, L’établissement (1564-1700), Paris, PUF, 1961, p. 194. A cifra das 20 mil condenações à morte é fornecida pelo mesmo autor (protestante).
[30] Quanto às condenações realizadas por Torquemada, é impossível apresentar uma cifra exata. No entanto, muitos trabalhos convergem para estimar em torno de 1.000 a cifra total de execuções da Inquisição espanhola ao longo de toda a sua duração (330 anos). Outros historiadores chegam a 2 mil, ou mesmo a 3 mil, bem distante, de todo modo, das cifras abracadabrantes espalhadas nos séculos XVIII e XIX. Lembremo-nos que a Inquisição espanhola foi instituída num estado de quase guerra civil, que pôs fim a insurreições sanguinárias que incriminavam indistintamente todos judeus convertidos (coletivamente suspeitos de traição) e que reprimia também crimes de sangue e de costumes que são hoje julgados em tribunais civis (e que, na época, eram normalmente punidos com a morte). A título de comparação, o tribunal revolucionário da cidade de Nantes sozinho mandou executar 30 mil pessoas (pela guilhotina, fuzilamento ou afogamento) em menos de dez anos. Os tribunais da Liberação condenaram à morte 2.853 pessoas em menos de um ano durante a épuration de 1944-1945.
[31] O historiador inglês (e anglicano) William Cobbett (1763-1835) observa que a Rainha Elizabeth I – que estabeleceu definitivamente o protestantismo na Inglaterra – fez derramar mais sangue em um ano do que a Inquisição espanhola ao longo de toda a sua duração (History of the protestant reformation, Londres, 1826, Letter XI, §340).
[32] Um historiador que não esconde sua antipatia pela Liga católica teve de reconhecer: “Em agosto de 1569, os huguenotes massacraram, em Orthez, cerca de 3 mil católicos, que haviam obtido, ao se renderem, direito a terem a vida preservada. O exame dos documentos originais é formal: antes da noite de São Bartolomeu, as atrocidades protestantes ultrapassam as dos católicos.” (Jean Hértitier, Catherine de Médicis, Paris, Fayard, 1942, p. 448.)
[33] Ver Patrick Cabanel, Histoire des protestants en France, XVIe-XXIe siècle, Paris, Fayard, 2012, p. 102-117 e 204-284 (assim como a nota seguinte).
[34] Ver, sobretudo, a apreciação tão reveladora acerca da condenação à morte de Miguel Servet por Calvino: “Do caso Servet [...], há dois modos possíveis de se falar. Se nos colocamos no plano da liberdade e da moral, a mancha é indelével; se consideramos a implicação para o poder na Genebra de então, bem como a necessidade de construir uma Igreja e uma imagem, que esta ou aquela provocação – no caso, a teologia anti-trinitária de Servet – arriscava pôr por terra, a fogueira é um gesto de defesa” (Cabanel, ibid., p. 45). O senhor disse “gesto de defesa”? Pode-se dizer o mesmo da Inquisição? Ora, claro que não! Pois o que no fundo justifica Calvino é o seu ataque contra a Igreja Católica! Para tanto, ele precisava construir uma Igreja paralela e lhe dar uma imagem mais ou menos cristã. Para defender essa imagem, Calvino, infelizmente, teve de queimar o iconoclasta que poderia arruiná-lo: Miguel Servet. Isso escandalizou alguns calvinistas, notadamente Sebastião Castellion. Mas é preciso colocar a questão: “Quem mais fez em prol da liberdade, Castellion, o anunciador vencido, cuja herança resume-se a livros, ou Calvino, o vencedor violento, que enxertou no flanco da França católica o aguilhão de uma cidade e de uma idéia que ninguém mais pôde calar?” (Cabanel, ibid., p. 65 – resumindo o argumento de Ernest Lavisse). Em resumo: quem luta contra a Igreja Católica luta, por isso mesmo, pela liberdade; portanto, seja lá o que fizerem, eles sempre gozam de atenuantes, dos quais os defensores da Igreja estarão para sempre privados, uma vez que estão no campo errado.
[35] Bossuet, Avertissement aux protestants sur leur prétendu accomplissement des prophéties.
[36] Exemplo recente: o no. 162 (julho de 2016) do Cahiers histoire et civilisation da revista de vulgarização Science et Vie (intitulado: “Guerras de religião, da intolerância ao laicismo”). Bastante influenciado pelos historiadores protestantes (notadamente, por aqueles da École Pratique des Hautes Études), esse número quer sobretudo promover a religião oficial da República: o Laicismo maçônico (ocultando que também ela foi imposta pelo Terror).
[37] Esprit-Adolpe Segrétain, Sixte Quint et Henri IV, Introduction du protestantisme en France, Edições Quentin Moreau, 2016, p. 48 (1a. edição: 1861).
[38] Segrétain, Sixte Quint et Henri IV, p. 203.
[39] Segrétain, Sixte Quint et Henri IV, p. 203.
[40] Sobre esse episódio, ver William Thomas Walsh, Characters of the Inquisition, Rockford, Illinois, Tan Books, 1987, p. 223-236.
[41] Citado por W. T. Walsh, Characters of the Inquisition, p. 224.
[42] Voltaire, Essai sur les moeurs et l’esprit des nations, cap. 177.
[43] Joseph de Maistre, Lettres à un gentilhomme russe sur l’Inquisition espagnole, Paris, Méquignon, 1822, p. 93 (quarta carta).
[44] Joseph de Maistre, Lettres à un gentilhomme russe sur l’Inquisition espagnole, Paris, Méquignon, 1822, p. 8.
[45] Joseph de Maistre, Lettres à un gentilhomme russe sur l’Inquisition espagnole, Paris, Méquignon, 1822, p. 8.
[46] A “seção de ciências religiosas” da École Pratique des Hautes Études reserva sistematicamente a apresentação do cristianismo a protestantes: Sabatier, Deramey, Albert e Jean Réville etc. Albert Réville (1826-1906) foi também o primeiro titular da cátedra de História das religiões no Collège de France e fundador da Revue de l’Histoire des religions. Na Sorbonne, Jules Ferry suprimiu a cadeira de teologia católica, mas manteve a Faculdade de teologia protestante (fundada em 1877). A Caderneta do Estudante da Sorbonne para o ano letivo de 1898-1899 propõe na primeira página, antes de todos os outros cursos, o curso de dogma (luterano ou calvinista, à escolha), de moral, de Sagradas Escrituras etc. dessa faculdade herética. E esse ensino supostamente “neutro” era pago com os impostos dos católicos.
[47] Robert McCune Kingdon, “posfácio”, Geneva and the Coming of the Wars of Religion in France 1555-1563, Droz, 2a. ed., 2007 [1a. ed.: 1956], p. 165. P. Cabanel apressa-se a contestar a comparação: “Ao menos uma coisa torna vã a analogia: para que ela fizesse sentido, seria preciso que a sede do Komintern não fosse um país vasto e poderoso como a URSS”. (Histoire des protestants en France, 2012, p. 55). Concedemos, Calvino possui também alguns aspectos trotskistas.
[48] Os Camisards eram protestantes calvinistas da região de Cevenas que se rebelaram. [N. do T.]
[49] Sobre o número de calvinistas mortos durante a noite de São Bartolomeu de agosto de 1572, as estimativas vão de “cerca de 500” (segundo B. Fatien) a muitos milhares, e parece impossível chegar a uma cifra exata. L’Histoire des martyrs, publicado em 1582 pelo protestante Simon Goulart (continuador de Jean Crespin), tentando apresentar uma lista com o nome de todos os “mártires” huguenotes, não consegue citar mais do que 152 vítimas do São Bartolomeu parisiense (dez anos após os fatos). Somando-se aí os que são designados de modo impessoal (vinte cinco ou trinta no quartier de la Croix du Trahoir, trinta na rua Bétizy, dezesseis nas prisões, vinte em duas casas etc.), chega-se a mencionar 468 vítimas. Bem longe da cifra global de 10.000 vítimas que a mesma obra oferece em seguida sem mais explicações. Compreende-se que, na sua réplica (L’Anti-martyrologe ou la vérité manifestée contre les histoires des supposés martyrs de la religion prétendue réformée, Lion, 1622), Jacques Severt julgue esse número totalmente fantasioso: “Eles ampliaram enormemente [o número de vítimas], a muitos milhares, não por cálculo, mas irrefletidamente e por bravata, de modo que não devemos levá-lo em conta” (p. 765). Notemos, de passagem, que havia católicos entre as vítimas do São Bartolomeu, pois essas comoções sociais são muitas vezes ocasião para tristes retaliações (Quantos eram os verdadeiros colaboradores entre os milhares de franceses ferozmente massacrados durante a épuration de 1944-1945?).
[50] Patrick Cabanel, Histoire des protestants en France, XVI-XXI siècle, Paris, Fayard, 2012, p. 202-203. A confidência é tanto mais notável quando se vê que o próprio Cabanel tornou-se vítima dessa “identidade vitimária”. É o que testemunha o primeiro parágrafo da sua introdução: “[Os protestantes na França] sofreram tudo, perderam tudo; massacrados por turbas histéricas, asfixiados pela fria lei do Estado, convertidos à força, interditos por mais de um século, impedidos de abandonar um reino que havia se tornado uma prisão a céu aberto, privados por bom tempo de seus nomes, odiados por vezes ainda no século XX, conheceram um destino que definhava (...) Traumatizados pela violência que se abateu sobre eles, do São Bartolomeu à Revogação do Edito, do caso Calas ao Terror Branco (...).” (p. 9). O autor sequer aparenta se perguntar se a ideologia calvinista não seria a principal culpada de todos estes males ― sem contar aqueles outros, imensos, a que submeteu todo o resto da França.
[51] Bossuet, Cinquième avertissement aux protestants sur les lettres du ministre Jurieu, 1690 §35 (Oeuvres complètes, Outhenin-Chalandre, t. 11, 1841, p. 136).
[52] Bossuet, Cinquième avertissement aux protestants sur les lettres du ministre Jurieu, 1690 §34 (Oeuvres complètes, t. 11, p. 133).
[53] Bossuet, Histoire des variations des Églises protestantes, livro X, §50 (Oeuvres complètes, Outhenin-Chalandre, t. 10, 1840, p. 358).
[54] Patrick Cabanel, Histoire des protestants en France, 2012, p. 235.
[55] Bossuet, Cinquième avertissement, §34 (Oeuvres complètes, t. 11, p. 135).
[56] Bossuet, Histoire des variations des Églises protestantes, livro X, §42 (Oeuvres complètes, Outhenin-Chalandre, t. 10, 1840, p. 353).
[57] Bossuet, Cinquième avertissement §22 (Oeuvres complètes, t. 11, 1841, p. 111-112).
[58] Ver a 3a. nota de rodapé deste artigo.
[59] Patrick Cabanel, Histoire des protestants en France, 2012, p. 242. Observamos que muitos documentos comprometedores foram destruídos pelos protestantes, mesmo em tempos recentes. “Ao estudar esse período atribulado, constatamos com surpresa que os católicos permitiram que os protestantes fabricassem ou falsificassem a história ao sabor das suas paixões, e não é possível duvidar da destruição planejada (mesmo numa época relativamente recente) de documentos importantes. Contudo, restou o suficiente para restabelecer a verdade, e render justiça aos gloriosos mártires da fé católica.” (François-Xavier Faucher O. P., em L’Anne dominicaine, abril de 1920, p. 102.)
[60] Teodoro de Beza, Histoire ecclésiastique (Anvers, 1580), I, p. 811. Teodoro de Beza (1519-1605) visitou a França em 1561, poucos meses antes do desencadeamento das guerras de religião, que ele seguiu atentamente desde Genebra.
[61] Cahiers histoire et civilisation de Science et Vie no. 162 (julho de 2016), p. 26, 28 (com uma ilustração ocupando toda a página), 43, 45, 46, 47 e 52.
[62] O número de mortos em Wassy flutua estranhamente: eram vinte e três em 1562, mas tornam-se “uns cinquenta” na página 26; “muitas dezenas” na página 43; “sessenta”, na página 45 etc. Seria trabalhoso relacionar todos os erros desse dossiê, visivelmente concebido para fustigar os católicos e escusar os protestantes. A maioria dos historiadores citados é protestante.
[63] A comparação entre protestantismo e maometismo foi feita por Rohrbacher, na sua famosa Histoire universelle de l’Église catholique (introdução do livro 89).
[64] Bossuet mostrou na sua Défense de l’Histoire des variations como toda uma série de sínodos calvinistas (em Nantes, Orléans, Saint Jean d’Angely, Saintes, Lyon) empurrou os protestantes à guerra civil. Quem havia dado a palavra de ordem? O próprio Teodoro de Beza confessa ter exortado ao uso das armas (Bossuet, Défense de l’Histoire des variations §§ 33 e 35 – Oeuvres complètes, Othenin-Chalandre, t. 11, 1841, p. 211-213).
[65] Bossuet escrevia em 1686, a propósito dessas dragonadas: “Nem aqui nem longe, nos arredores, ouviu-se falar dos chamados tormentos. Não respondo por aquilo que possa ter ocorrido nas províncias distantes, onde não se teria podido reprimir os abusos dos soldados”. O pastor protestante Dubourdieu deu este testemunho do bispo de Meaux: “Ele só empregou meios evangélicos para nos persuadir de sua religião”. Por outro lado, Bossuet cuidou de impedir a propaganda protestante: ele requisitou ao intendente de prender Isaac Cochard e seu filho, porque sua hospedaria era um centro de propaganda. Relembremos aos que se escandalizarem que medidas do mesmo gênero foram sempre tomadas em todos os países contra aqueles que contestavam os princípios fundamentais do Estado. Hoje em dia, na França, os que “pensam coisas más” são perseguidos em nome das leis Pleven, Gayssot ou Neiertz. A “liberdade de expressão”, colocada como um princípio absoluto e universal não passa de uma hipocrisia sinistra. ― Émile Baumann, “Bossuet et les hérétiques”, Nouvelle revue des jeunes, no. 7, 10-25, junho de 1929, p. 646-667.
[66] Bossuet, Histoire des variations des Églises protestantes, livro X, §52.
[67] Bossuet, Cinquième avertissement, §5 (Oeuvres complètes, t. 11, p. 88).
Gustavo Corção
Uma das características da camada exterior que desfigura a Igreja em nossos dias, e que se propõe ao mundo como figura verdadeira, modernizada, da Igreja de Cristo, é o impudente exibicionismo que faz dessa falsa Igreja uma “notícia” e quase sempre um escândalo; outro traço não menos deplorável da dita camada exterior é a incontinência verbal, é a tagarelice que se manifesta todos os dias em pronunciamentos, notícias, protestos; o terceiro traço desse make-up que desfigura a Igreja de Cristo é a infinita multiplicação de grupos quase microscópicos que falam engrossando a voz, num plural majestático, como faz agora a subentidade CIEC surgida em São Paulo nas chocadeiras da arquidiocese.
Nós, que conhecemos a Igreja sem essa hedionda desfiguração, que a conhecemos no tempo em que se podiam bem discernir as lições da Mãe e Mestra, mestra do valor da Palavra e mestra do valor do Silêncio, dificilmente podemos suportar sem gemidos de dor ou sem gritos de cólera o que fazem hoje os inimigos da Igreja, ou os amigos desses inimigos.
Não suponha o leitor que eu esteja aqui, romanticamente, imaginando alguma época em que a Igreja aparecia a nossos olhos transfigurada como um dia com a graça de Deus a veremos na Pátria verdadeira. Não julgue o leitor que eu ignore tão completamente não apenas a história da Igreja como também o mistério de sua paixão, e o mistério de nossa mediocridade que não deixa ver, senão na obscuridade da fé, o brilho de sua santidade interior. Nossa Mãe, nos mais gloriosos dias, teve sempre seu mato manchado por nossas faltas, e até rasgado pelas urzes dos caminhos que andou trilhando e por onde correu atrás das ovelhas tresmalhadas, sempre foi Rainha andrajosa por ser Pastora diligente, Mãe eternamente moça e eternamente afatigada.
Discorrendo sobre o Dom do Temor, que apesar do áspero e severo nome é o mais seguro amigo da doce e transluminosa Esperança, Santo Tomás ensina que o temor filial permanece no Céu, e cita estas admiráveis palavras de São Gregório: “Os próprios anjos do Céu, que sem cessar contemplam Deus, estremecem nessa contemplação, não de um tremor de medo ou pena, mas de um tremor de admiração”.
Analogamente eu diria que mesmo no céu a Igreja triunfante guardará o estremecimento de suas entranhas, que aqui na terra é de inquietação e de luta constante, mas lá, na Pátria, será o estremecimento de solicitude infinitamente agradecida e pacificada.
Mas aqui na terra a Igreja tem contra ela, não apenas o peso dos filhos ingratos, dos inúteis servidores, dos filhos pecadores, mas também INIMIGOS. Outro dia, deu-me vontade de escrever, se para tanto a vida sobejasse, um livro inteiro para glosar três linhas do Catecismo de Trento que hoje um cristianismo emasculado gostaria de ver apagadas, raspadas, recobertas de vaselina ou de talco, a fim de não arranhar as peles finas dos pacifistas que estão capitalizando omissões, capitulações, agachamentos, até que esse paiol exploda numa imaginária hecatombe em que as insânias de todos os intelectuais se multipliquem pela insuperável crueldade dos covardes.
Contra esse amolecimento geral vale a pena lembrar as três linhas do Catecismo de Trento: “A Igreja na terra se chama Militante porque está obrigada a sustentar uma guerra incessante contra os mais cruéis inimigos: o mundo, a carne e Satã.” Estava eu nessa disposição de espírito quando recebi a visita de um velho padre lituano que, por causa de um artigo que escrevi sobre a grande paixão do bom povo lituano, trazia-me de presente três pequenos devocionários com orações escritas nas várias línguas da Igreja martirizada pelo comunismo. Ora, logo à primeira página está o Sinal da Cruz que aprendi há mais de setenta anos com a mãozinha de três ou quatro anos guiada pela mão de minha mãe. E hoje, depois de tanta leitura, de tanto estudar e de tantos passos “vãmente derramados”, vejo no antigo e luminosíssimo sinal da evidência de uma figura de espada e escudo. Quem faz o “pelo sinal da Santa Cruz, livrai-nos Deus, Nosso Senhor, dos nossos inimigos” arma-se cavaleiro de Cristo e apronta-se para o bom combate.
***
Desviei-me da intenção primeira deste artigo, que visava a criticar uns editoriais de um protozoário eclesiástico chamado CIEC. Antes disso convém firmar algumas noções, ou pelo menos encaminhar nosso pensamento para uma clareira de são doutrina. Quando digo, com a Igreja, que temos de combater três cruéis inimigos, não se deve concluir que temos como inimigos da Igreja todos aqueles que combatemos. Descontados os claros e inequívocos casos que constituem no mundo de hoje anti-Igrejas, o fenômeno que combatemos quase todos os dias é o de uma entidade que quer ser Igreja, que quer ser neutra, que quer ser intermediária e que quer estar em excelentes termos com os inimigos declarados da Igreja.
Uma das tremendas dificuldades de nosso tempo reside precisamente nesta falta de nitidez, e na facilidade parva com que pessoas vagamente bem intencionadas passam a servir ao inimigo. Um dos mais brutais exemplos de nossos dias é o da complacência de uma parte tresloucada do clero com o comunismo ou o revolucionarismo, e a complacência do episcopado que, sem ser declaradamente inimigo da Igreja, acoberta esses inimigos e lança a confusão e descrédito em toda a Igreja.
E isto no s devolve à intenção primeira desta artigo, que era o de denunciar uma estupidez crassa que a tal entidade paulistana CIEC atribui à Igreja. Mas vejo que cheguei ao limite do papel, e deixo para sábado a supracitada denúncia. Nesse meio tempo o CIEC poderá fazer uma autocrítica.
(O Globo, 18/3/71)
“Assim como foi dito aos antigos egípcios em tempos de fome: ‘Ide a José’, para receberem dele abundância de trigo e nutrirem seus corpos, assim também hoje nós dizemos a todos que desejam a verdade: ‘Ide a Tomás, e pedi a ele que vos dê de sua abundância o alimento da doutrina substancial com a qual podeis nutrir vossas almas para a vida eterna.’” (Papa Pio XI – Encíclica Studiorum Ducem – 29 de Junho de 1923)
“Invoquei (o Senhor) e veio a mim o espírito da sabedoria. Preferia-a aos cetros e aos tronos, e julguei que as riquezas nada valiam em sua comparação.” (Sb 7, 7-8)
Introdução
O século XIII foi um período de extraordinária atividade intelectual, mas não foi isento de perigos. Na busca entusiasmada por conhecimento, os estudantes reuniam-se aos milhares nas grandes universidades, que apesar de serem escolas de fé, foram também muitas vezes escolas de infidelidade. Os filósofos da época deviam tudo a um único mestre, que fora um pagão. “Aristóteles”, diz Lacordaire, “foi tomado como representante da sabedoria, mas, infelizmente, ele e o Evangelho nem sempre concordam um com o outro”. E muitos, entrando no oceano inexplorado do pensamento sem nenhum guia, naufragaram sem esperança a sua religião. Grandes professores, que eram tidos como os “oráculos do dia”, nem sempre souberam resistir às seduções da vaidade, e algumas vezes buscaram o renome propondo audaciosas teorias em assuntos em que a especulação original era raramente amigável à fé.
Foi em meio à confusão dessas novas opiniões que Santo Tomás foi dado ao mundo para demarcar os limites da filosofia cristã e para integrar, em uma estrutura grande e completa, as matérias de teologia dogmática, moral e especulativa, que até então estavam separadas. Ao mesmo tempo, enriqueceu a liturgia da Igreja com algumas de suas mais belas devoções, e mostrou, em sua vida e em seu caráter, todas as virtudes que as graças de um santo produzem.
1. Nascimento e infância
Situada de um modo pitoresco no sul da Itália, no topo de um penhasco escarpado, flanqueando o pico dos Apeninos e divisando as águas correntes de Melfi, lá estava em tempos medievais a fortaleza de Roccasecca. Ali nasceu Santo Tomás por volta do ano de 1225 – os autores não chegaram a um consenso acerca da data precisa – e devido ao condado vizinho de Aquino, ele recebeu seu sobrenome. O conde, seu pai, era sobrinho do imperador Frederico Barba-Roxa, e pelo lado de sua mãe, era descendente dos barões normandos que haviam conquistado a Sicília dois séculos antes. A família Aquino arrogava-se de parentesco com São Gregório Magno e era ligada pelo sangue a São Luís de França e a São Fernando de Castela. A futura vocação e santidade do pequeno Tomás foram preditas à sua mãe, a condessa Teodora, por um santo eremita de nome Bonus, e quando ainda era uma criança, a Providência vigilante de Deus sobre ele já estava manifesta de uma maneira surpreendente: uma terrível trovoada rebentou no castelo, fulminando sua babá e sua irmã no mesmo quarto em que Santo Tomás dormia, ficando ele ileso. Essa circunstância explica o grande medo de trovão e relâmpago que diziam ter Santo Tomás durante toda a sua vida, e que o fazia freqüentemente se refugiar na igreja durante uma trovoada, a ponto de inclinar sua cabeça contra o tabernáculo para se colocar o mais próximo possível sob a proteção de Nosso Senhor.
Ave Maria foram as primeiras palavras que se ouviu pronunciar por seus lábios de bebê. Muito antes de aprender a ler, descobriu-se que um determinado livro era um meio infalível de enxugar suas lágrimas e suas mágoas infantis. Ele costumava se deleitar em manuseá-lo, passando suas páginas com uma gravidade pueril.
2. Educação Primária
Quando tinha apenas cinco anos de idade, Santo Tomás começou a ser educado pelos monges da famosa Abadia Beneditina do Monte Cassino, que ficava a poucas milhas de Roccasecca. Os monges descobriram que seu novo pupilo era uma criança grave e quieta, que amava passar a maior parte de seu tempo na igreja, e nunca estava sem um livro nas mãos. Ele tinha uma considerável influência sobre seus jovens colegas, aos quais estava sempre pronto a ajudar e a quem a doçura de sua disposição o fazia muito querido. Porém, importava-se pouco com os divertimentos da infância, e raramente participava deles. Um dia, quando o restante dos colegas brincava alegre pelos bosques, Santo Tomás se isolou em silenciosa meditação. O monge encarregado dos garotos indagou o motivo de suas reflexões, e ele, levantando a cabeça, disse: “Diga-me, mestre, o que é Deus?” Essa foi a pergunta mais repetida por ele, o que mostrava que toda a tendência de sua mente e de seu coração estava já voltada para o Céu.
Aos dez anos, tinha progredido tanto em seus estudos que seus pais resolveram enviá-lo, sob os cuidados de um tutor, à recentemente fundada Universidade de Nápoles. Antes, levaram-no para passar algumas semanas em companhia deles em outro castelo de sua propriedade, em Loreto – um local destinado depois a ser tão famoso como o lugar de repouso da Santa Casa de Nazaré. Na época, uma fome assolou a cidade, e Santo Tomás se deleitou em distribuir as abundantes esmolas que seus caridosos pais tinham reservado para os pobres. Ele levou sua liberalidade tão longe, que o mordomo do castelo reclamou ao seu pai. O conde então surpreendeu o menino enquanto ele se apressava para o portão e perguntou severamente o que estava escondendo embaixo da capa. Santo Tomás a desdobrou e deixou cair no chão não o alimento que carregava, mas uma profusão de flores adoráveis e docemente perfumadas.
Em sua chegada a Nápoles, os extraordinários talentos dos quais ele já havia dado provas a seus professores beneditinos tornaram-se mais e mais manifestos, ao mesmo tempo em que progredia rapidamente na ciência dos santos. Era continuamente tomado como modelo para seus colegas estudantes, o que feria muito sua humildade, mas a modéstia, a doçura, e a gentileza de seu caráter o preservaram da inveja, fazendo-o unanimemente querido. Ele afastava-se de todas as más ocasiões e devotava suas horas de lazer à oração e às boas obras.
3. Junta-se aos Dominicanos
A igreja dominicana em Nápoles tornou-se um de seus refúgios favoritos, e enquanto ele derramava sua alma em oração diante do altar, foram vistos mais de uma vez cintilantes raios de luz emitidos de seu semblante. Um santo frade chamado João de São Julião, que testemunhou o maravilhoso sinal, disse um dia ao pio jovem: “Deus vos deu à nossa Ordem.” Santo Tomás atirou-se aos seus joelhos, dizendo que há muito desejava ardentemente tomar o hábito, mas que temia ser indigno de tão grande graça. A comunidade, então, alegremente admitiu o jovem estudante, e quando ainda era praticamente um garoto, vestiu publicamente o hábito branco de São Domingos.
A novidade logo chegou aos ouvidos da condessa Teodora, sua mãe, que, reconhecendo no evento a realização da profecia do santo eremita, correu a Nápoles para felicitar o filho. Porém, Santo Tomás e os irmãos, ignorantes das disposições dela, ficaram muito alarmados com a ideia da iminente visita, e em observância às suas fervorosas súplicas, o noviço apressou-se ao Convento de Santa Sabina em Roma. Para lá sua mãe o seguiu, mas não pôde induzi-lo a consentir em uma entrevista. O superior da Ordem, João Germano, estava prestes a partir para Paris e resolveu levar Santo Tomás e outros três companheiros com ele, e assim deixaram Roma. Quando Teodora se viu assim frustrada, enfureceu-se contra os frades e enviou ordens a dois de seus filhos mais velhos, que estavam servindo no exército do imperador na Itália, para surpreender o irmão e trazê-lo de volta. O pequeno grupo de frades foi alcançado e surpreendido enquanto tirava seu descanso do meio-dia às margens de uma fonte. Os rudes soldados tentaram rasgar o hábito de Santo Tomás, mas sua forte resistência os impeliu a desistirem do intento. Seus companheiros foram impedidos de seguir viagem, enquanto o jovem noviço foi levado de volta para junto de seus irados pais em Roccasecca.
4. Prisão e Fuga
A condessa estava determinada a jamais permitir que Santo Tomás fosse um dominicano. E seu pai, que alegremente aceitaria que ele assumisse o hábito beneditino – como um de seus tios, ele poderia chegar ao grau de Abade do Monte Cassino – estava igualmente determinado a não permitir que ele pertencesse à desprezível ordem mendicante que tinha abraçado. Lágrimas, ameaças e súplicas foram ineficazes para fazer abalar a resolução do santo, e ele foi aprisionado em uma das torres do castelo, onde teve de passar frio, fome, e todo tipo de privação. Suas duas irmãs, Marieta e Teodora, a quem ele era ternamente apegado, tentaram em vão com afetuosas carícias induzi-lo a ceder aos desejos da mãe, mas elas próprias se renderam a uma vida de perfeição, e ambas posteriormente morreram em odor de santidade, uma como abadessa beneditina, e a outra casada como condessa de São Severino. Através da intervenção delas, Santo Tomás conseguia obter livros e roupas de seus irmãos (dominicanos) em Nápoles. Durante seu cativeiro, que durou consideravelmente mais de um ano, ele conseguiu confiar à memória toda a Bíblia e os quatro livros das Sentenças, o compêndio teológico da época. Diz-se que seus primeiros escritos pertencem a esse mesmo período.
Com a chegada de seus irmãos, a constância de Santo Tomás foi posta à prova de modo ainda mais terrível. Os dois jovens oficiais conceberam o projeto infernal de introduzir uma mulher de má reputação dentro de seu quarto. Mas, apanhando da lareira um ferrete em chamas, o santo furiosamente retirou-a de sua presença. Com o mesmo ferrete, ele então traçou uma cruz na parede e lançando-se de joelhos diante dela, suplicou a Deus para conceder-lhe a graça da castidade perpétua. Enquanto rezava, caiu em um êxtase durante o qual dois anjos lhe apareceram e o cingiram com uma corda miraculosa dizendo: “Viemos da parte de Deus para te revestir com o cinto da castidade perpétua. O Senhor ouviu tuas orações e aquilo que a fragilidade humana nunca poderá merecer é assegurado para ti pela irrevogável graça de Deus”. Os anjos o cingiram tão firmemente que ele soltou um involuntário grito de dor, fazendo com que alguns empregados viessem ao lugar. Porém, Santo Tomás manteve o segredo para si mesmo, revelando-o somente em leito de morte para seu confessor, o padre Reginaldo, declarando que a partir daquele dia, nunca tinha sido permitido ao espírito das trevas se aproximar dele. O cinto foi usado pelo santo até sua morte e ainda é preservado no Convento de Chieri, em Piemonte.
Nesse período, a família de Santo Tomás compreendeu que sua firmeza não seria vencida pela perseguição. A contragosto, reconhecerem que foram derrotados e consentiram em sua fuga. Assim como São Paulo, ele foi descido da torre em uma cesta, e os frades, como haviam combinado, esperavam-no embaixo. Eles levaram seu tesouro resgatado para Nápoles, onde foi imediatamente admitido ao ofício.
5. Seus Estudos em Colônia
Mais uma tentativa foi feita para abalar a constância de Santo Tomás, dessa vez através de um apelo ao papa, que o convocou a Roma. Mas o santo advogou tão bem em sua própria causa que o Santo Padre se convenceu da realidade de sua vocação. Entretanto, para satisfazer a família dele, e assegurar em um posto importante os serviços de uma pessoa tão agraciada, o papa propôs fazê-lo abade do Monte Cassino mesmo sendo dominicano. Porém, Santo Tomás implorou tão fervorosamente para continuar sendo um simples religioso na ordem que escolhera que Sua Santidade concedeu e proibiu estritamente qualquer outra interferência em sua vocação.
Para afastá-lo de outros aborrecimentos, o superior geral da ordem levou Santo Tomás consigo para Colônia, onde se tornou discípulo de Santo Alberto Magno, o renomado professor dominicano. Quando Santo Tomás achou-se seguro dentro das paredes do convento, devotou-se com ardor à obra de sua santificação. Seu tempo era dividido entre oração e estudo, e sua humildade fez com que ele escondesse sua vasta inteligência, e mantivesse absoluto silêncio em todas as disputas escolásticas. Sua alta estatura e a imponência de sua figura levaram seus colegas a chamarem-no “o boi mudo da Sicília”. Um dos estudantes, jovem de boa índole e seu colega, oferecia-se para lhe explicar as lições diárias – oferecimento esse que o santo humilde e gratamente aceitava. Um dia, porém, o jovem professor se deparou com uma difícil passagem que interpretou erroneamente. Então, a caridade do santo e o amor à verdade triunfaram sobre sua humildade; pegando o livro, explicou a passagem com a máxima clareza e precisão. O colega, atônito, implorou para dali em diante ser ele o aluno, ao que Santo Tomás consentiu sob a condição de que mantivesse o sigilo. Pouco depois desse episódio, um artigo escrito pelo santo contendo uma solução magistral de uma complicadíssima questão caiu acidentalmente nas mãos de Santo Alberto. Admirado com o gênio que o artigo revelava, Santo Alberto no dia seguinte pôs o conhecimento de seu virtuoso discípulo a uma prova pública, e exclamou diante dos alunos reunidos: “Nós chamamos o irmão Tomás ‘o boi mudo da Sicília’, mas eu vos digo que um dia ele fará com que seus mugidos sejam ouvidos em todos os confins da terra!”
6. Seus Estudos em Paris
No verão de 1245, um ano depois da chegada de Santo Tomás a Colônia, o Capítulo Geral da Ordem Dominicana ordenou que Santo Alberto partisse para Paris para receber o título de doutor na universidade daquela cidade, e ele obteve permissão de levar o irmão Tomás como seu companheiro. Os dois santos partiram a pé, de cajado na mão, tendo como bagagem principal o breviário e a Bíblia, aos quais Santo Tomás juntou o livro das Sentenças.
Ao meio dia, eles paravam para descansar às margens de alguma fonte para comer o alimento que pediam pelo caminho. À noite, geralmente encontravam abrigo nos quartos de hóspedes de algum monastério. Desse modo, chegaram ao convento de São Tiago em Paris, onde Santo Tomás se tornou um modelo para toda a comunidade pelo seu espírito de oração, sua profunda humildade, perfeita obediência e caridade universal. Ele tentava imitar as virtudes que observava em seus irmãos e julgava-se totalmente indigno de viver em tão santa companhia. Nunca se ouviu dizer que ele pronunciasse alguma palavra frívola; quando falava, a beleza de seu divino discurso enchia de consolação espiritual todos os que o ouviam. Uma graça celestial irradiava de seu belo semblante, de modo que alguns diziam que bastava contemplá-lo para sentir dentro de si uma renovação de fervor.
Um jovem franciscano de nome Boaventura estava nessa época estudando em Paris. A ele, Santo Tomás liga-se numa amizade muito próxima. Os dois, que foram posteriormente honrados pela Igreja como os Doutores Seráfico e Angélico, tornaram-se muito caros um ao outro na terra assim como Jônatas e Davi, e depois de seus três anos de estudo, receberam juntos o título de Bacharel em Teologia em 1248.
7. Recebe o Título de Doutor
Em novembro daquele mesmo ano, Santo Alberto foi enviado de volta a Colônia acompanhado de Santo Tomás, que ensinava sob sua orientação. Os intelectuais não demoraram a descobrir que os dois professores dominicanos excediam todos os outros, e a nova escola em Colônia rapidamente encheu-se a ponto de transbordar. As aulas de Santo Tomás corroboravam completamente os cinco princípios de ensino que ele mesmo tinha estabelecido, a saber: clareza, brevidade, utilidade, doçura e maturidade. Ele possuía uma admirável graça de comunicar o conhecimento, de modo que se aprendia mais rapidamente com ele em poucos meses do que com outros em muitos anos.
Foi logo após o retorno a Colônia que Santo Tomás ascendeu ao sacerdócio; daquele momento em diante, ele parecia mais próximo de Deus do que nunca. Costumava passar muitas horas do dia e uma grande parte da noite na igreja. Enquanto oferecia o Santo Sacrifício, derramava abundantes lágrimas, e o ardor de sua devoção comunicava-se com aqueles que assistiam à Missa.
Após ensinar por quatro anos em Colônia, a Santo Tomás foi ordenado pelo Capítulo Geral que se preparasse para receber o título de doutor. Foi um golpe terrível para sua humildade, pois julgava-se sinceramente indigno de tal honraria. A caminho de Paris, para onde ele tinha de se dirigir, pregou na corte da Duquesa de Brabante, a pedido de quem escreveu um tratado cheio de sabedoria e moderação sobre o governo dos judeus. A partir de então, ele era constantemente consultado nos mais importantes assuntos de Estado, especialmente por São Luís de França, que era ternamente afeiçoado a ele. Santo Tomás chegou a Paris em 1252, e desde o primeiro momento seu sucesso no ensino foi tão grande que os vastos salões do convento de São Tiago não podiam conter seu público. A Universidade (de Paris) parabenizou a Ordem pela aquisição de tão grande tesouro e propôs garantir-lhe imediatamente a licença preliminar para doutorar-se, embora estivesse quase dez anos abaixo da idade requerida pelos estatutos.
Esta etapa, porém, foi atrasada por uma disputa entre os frades e os doutores seculares. A querela começou com a recusa dos primeiros em fazer um juramento para fechar suas escolas, e isso se acalorou com a publicação de um livro intitulado Os Perigos dos Últimos Tempos, no qual as novas Ordens mendicantes eram atacadas nos termos mais caluniosos e escandalosos. Essa obra, que veio da pena de um doutor parisiense chamado Guilherme de Saint-Amour, um homem violento e de opiniões heréticas, foi remetida por São Luís para ser julgada pelo papa. Santo Tomás e São Boaventura foram convocados pelo Tribunal Papal para atuarem como defensores dos regulares, e a pena de Santo Alberto Magno foi também requisitada. A eloqüência de Santo Tomás obteve a condenação do livro, salvou as ordens mendicantes da destruição, e pelos esforços em conjunto do papa e de São Luís, a Universidade foi obrigada a se render e readmitir os frades em suas cadeiras teológicas.
Em 23 de Outubro de 1257, os dois santos puderam doutorar-se. A humildade de Santo Tomás tinha sido tão atingida pela ideia dessa promoção que ele não conseguiu preparar o discurso preliminar até a véspera do dia em que seria proferido. Então, por inspiração divina, ele escolheu para seu texto as palavras do Salmo 103:13: “Regas os montes (do alto) das tuas moradas, com o fruto das tuas obras é saciada a terra” – palavras que em sua interpretação se referiam a Jesus Cristo, que como a cabeça dos homens e dos anjos, rega os espíritos celestes com glória, enquanto enche a Igreja Militante na terra com os frutos de suas obras através dos Sacramentos, que aplicam os méritos de sua sagrada Paixão às nossas almas. Porém, o evento deu a esse texto o caráter de profecia em relação à própria futura carreira do santo.
8. O Trabalho em Sua Ordem e na Igreja
Em 1259, Santo Tomás foi incumbido, juntamente com Santo Alberto Magno e outros homens doutos da Ordem, de elaborar regras para regular os estudos dos irmãos. Um ou dois anos depois, ele foi convocado à Itália para ensinar nas escolas ligadas à Corte Papal. Como essas escolas seguiam o papa de lugar em lugar, muitas das grandes cidades da Itália e muitos conventos de sua ordem desfrutaram por um tempo o privilégio dos ensinamentos do santo.
Após ter ficado por um período em Roma, em 1269 foi novamente indicado para ensinar em Paris. Os doutores da Universidade referiram a ele uma controvérsia que tinha se levantado sobre as espécies sacramentais na Sagrada Eucaristia. Depois de uma longa e fervorosa oração, o santo expôs por escrito sua opinião sobre o assunto, colocou o manuscrito aos pés do crucifixo no altar do Santíssimo Sacramento e rezou: “Senhor Jesus, que estais verdadeiramente presente e fazeis maravilhas neste adorável Sacramento, rogo-Vos que me concedais que, se o que escrevi for verdadeiro, Vós me habiliteis a ensiná-lo; mas que se houver algo contrário à Fé, Vós me impeçais de prosseguir em declará-lo.” Então, os outros frades, que estavam assistindo, contemplaram o próprio Nosso Senhor descendo e posicionando-se sobre o manuscrito, e ouviram de Seus Divinos lábios estas palavras: “Tomás, tu escreveste bem sobre o Sacramento de Meu Corpo.” O santo imediatamente entrou em êxtase, o que fez com que ele levitasse um cúbito do chão.
Em 1271, Santo Tomás retornou à Itália e começou a ensinar em Roma. Durante a Semana Santa daquele ano, ele pregou em São Pedro sobre a Paixão de Nosso Senhor, e aqueles que o escutaram na Sexta-Feira Santa foram levados às lágrimas e não cessaram de chorar até o Domingo de Páscoa, quando seu sermão Pascal encheu a todos de júbilo. Naquele dia, enquanto ele descia do púlpito, uma pobre mulher, doente há muito tempo, e sem esperanças de cura, beijou a barra de seu manto e ficou imediatamente curada. Nesse ínterim, as Universidades de Paris e de Nápoles estavam competindo entre si para obter a posse do grande Doutor. Nápoles levou a melhor, e o santo a premiou até o final do verão de 1272 com os últimos atos de seu trabalho como professor.
Durante todos esses ativos anos de ensino, a pena de Santo Tomás trabalhou infatigavelmente, enriquecendo as escolas e a Igreja com inestimáveis tratados que encheram muitos volumes. Dentro do estreito limite destas páginas, é impossível fazer mais do que citar alguns de seus mais importantes escritos. Ele comentou as obras de Aristóteles e livrou o texto do filósofo pagão de tudo o que era contrário às verdades da Fé. Ao mesmo tempo, adotou os termos da filosofia de Aristóteles como a classificação mais científica das ideias humanas e assim, estabeleceu um sistema completo de filosofia Cristã. Sua Suma Contra os Gentios (Summa Contra Gentiles) foi escrita a pedido de São Raimundo de Pennaforte, o terceiro Superior da Ordem, para combater as falsas doutrinas filosóficas introduzidas pelos sarracenos na Espanha e que estavam penetrando nas universidades da Europa. Nessa obra, Santo Tomás demonstra a verdade da Religião revelada e prova de modo triunfal que a Cristandade não pode ser contrária à sã razão. O Santo Doutor escreveu tratados sobre o Pai Nosso, a Ave Maria e o Credo, comentários sobre as várias partes da Sagrada Escritura, e respostas a diversas questões propostas a ele para que as solucionasse. O Papa Urbano IV encarregou-o da tarefa de reunir todas as mais belas passagens dos escritos dos Padres da Igreja sobre os Evangelhos, e o resultado foi sua Catena Aurea, ou A Corrente de Ouro, que é inteiramente composta de citações, e escrita em grande parte de memória. Como viajava de convento em convento, o santo lia as obras dos Padres, uma aqui, outra ali, e sua maravilhosa memória fez com que ele guardasse e transcrevesse as passagens tendo em mente cada assunto. A mais famosa de suas obras é sua Suma Teológica (Summa Theologica), na qual ele trabalhou, nos intervalos entre o ensino e a pregação, pelos últimos nove anos de sua vida, mas que não viveu o suficiente para terminar.
Desse trabalho é dito que o Papa João XXII afirmou que Santo Tomás havia feito tantos milagres quanto a Suma continha artigos, e seu valor é talvez mais bem atestado pelo ódio com o qual ela sempre foi considerada pelos hereges. Em 1520, Lutero fê-la ser queimada em público na praça de Wittenberg, e outro dos chamados reformadores, Martin Bucer, exclamou: “Suprimi Tomás e eu destruirei a Igreja!” “Um desejo vão”, observa Leão XIII, “mas não um vão testemunho.” No Concílio de Trento, apenas três obras de referência foram colocadas na mesa do salão de reunião. Eram elas: as Sagradas Escrituras, os Atos Pontificais e a Suma de Santo Tomás. Foi por causa da Suma que o Catecismo do Concílio de Trento foi escrito por três padres dominicanos e outros teólogos.
9. A Festa de Corpus Christi
A obra de Santo Tomás mais amada e venerada pelos fiéis talvez seja a participação que teve na instituição da Festa de Corpus Christi. Quando ele apresentou ao Papa Urbano IV a primeira parte de sua Catena Aurea, por volta de 1263, o Pontífice maravilhado quis, em sinal de gratidão, elevá-lo ao episcopado. Porém, Santo Tomás atirou-se-lhe aos pés e implorou ao Santo Padre que lhe concedesse como única recompensa pelo seu trabalho que a Festa do Santíssimo Sacramento, já estabelecida na Alemanha e nos Países Baixos pelas orações da Bem-aventurada Santa Juliana e pela influência do cardeal dominicano Hugo de São Cher, fosse estendida para a Igreja Universal. O papa alegremente consentiu e ordenou que Santo Tomás escrevesse o ofício da festa. Nesse ofício, cada responsório nas Matinas é composto de duas frases, uma retirada do Antigo Testamento e outra do Novo, que assim são feitas para darem um único testemunho ao grande mistério central da Fé Católica. Seus hinos Verbum Supernum e Pange Lingua nos são familiares, especialmente suas últimas estrofes, O Salutaris e Tantum Ergo, sempre cantados na Bênção, e desde a infância nossos corações são tocados de emoção enquanto caminhamos nas procissões do Santíssimo Sacramento pela força do Lauda Sion.
Antes de apresentar seu ofício ao papa, Santo Tomás o colocou diante do sacrário, e o milagre anteriormente ocorrido em Paris repetiu-se: as palavras de aprovação procederam dos lábios de um crucifixo ainda venerado em Orvieto. Um testemunho semelhante da aprovação divina foi concedido ao santo em Nápoles, e foi visto por um dos frades. Nessa ocasião, também Nosso Senhor falou com ele de um crucifixo, que é preservado na Igreja de São Domingos Maior, dizendo: “Tu escreveste bem de Mim, Tomás. Que recompensa terás?” Ao que o Santo fervorosamente respondeu: “Nenhuma além de Vós, ó Senhor!”
Também devemos à pena de Santo Tomás o Adoro Te, algumas belas devoções antes e depois da Santa Comunhão, e muitas outras orações sólidas em doutrina e belas em expressão. É tradição dizer que ele compôs a tão famosa “Alma de Cristo, Santificai-me” (Anima Christi), que era a oração favorita de Santo Inácio e que foi introduzida por ele em seu livro Exercícios Espirituais, embora deixando de fora a amável súplica “Luz da Sagrada Face de Jesus, brilhai sobre mim”, que é encontrada nas formas mais antigas da oração. Essa súplica ocorre na versão de Anima Christi encontrada em um antigo livro de orações chamado Horas York, onde se afirma ter sido indulgenciada pelo Papa João XXII quando ele a recitou após a elevação na Missa. Esse livro de orações foi publicado em 1517, quatro anos antes da conversão de Santo Inácio.
10. Traços Pessoais
Santo Tomás era alto e forte, de cabeça fina e sólida, fronte elevada, traços refinados e belos, olhos grandes e brandos que irradiavam benevolência. Suas maneiras eram singularmente encantadoras e graciosas, e suas prodigiosas faculdades mentais eram acompanhadas de uma inocente simplicidade de caráter, que juntamente com a pureza de sua doutrina renderam-lhe o título de “Anjo das Escolas”. Embora estivesse muito acima dos outros por sua enorme inteligência, ele era o mais doce e o mais caridoso dos mestres e dos padres, sempre pronto a curvar-se diante da capacidade dos mais jovens e dos mais estultos de seus colegas. Independentemente da importância dos afazeres nos quais estava engajado, sua cela estava sempre aberta para seus irmãos todas as vezes que queriam falar com ele, e alegremente deixava a mais exaustiva ocupação para dar-lhes sua inteira atenção. Ele os ouvia em suas dificuldades, explicava suas dúvidas e confortava-os em suas aflições. Nada que dizia respeito a seus irmãos era banal aos seus olhos, e ele nunca se mostrou cansado de suas interrupções, nem de suas inconveniências. Em troca, seus irmãos lhe davam a mais terna afeição: Doctor noster (Nosso Doutor) era como eles amavam chamá-lo, e a sinceridade de sua amizade era largamente provada pela amarga tristeza de todos quando ele se ausentava.
Muito depois de sua morte, aqueles que o tinham conhecido nunca falavam dele sem lágrimas, tão ternamente o amavam. Verdadeiro filho de São Domingos, cuidou apenas de falar de Deus ou com Deus, e não conseguia entender como um religioso poderia interessar-se por outro assunto. Se a conversa mudava para outros temas, ele cessava de participar e confessava para seus colegas que o surpreendia que um religioso pudesse pensar em outra coisa que não fosse Deus. Também era completamente incompreensível para ele o fato de alguém em estado de pecado mortal conseguir comer, dormir, ou alegrar-se. Quando os seculares vinham buscar conselho e consolação, ele lhes dava ouvidos de boa vontade, e após tirar suas dúvidas e consolá-los em suas dores, nunca deixava de contar-lhes alguma pia história ou falar-lhes algumas palavras edificantes, e em seguida dispensava-os, ficando eles com os corações ardendo de júbilo espiritual e amor divino.
Podemos imaginar Santo Tomás desfrutando da simples distração de subir e descer o claustro de seu convento, ocasionalmente levado por seus irmãos para tomar ar fresco no jardim, mas certamente logo sendo encontrado em algum canto isolado, absorto em pensamentos. Dessas distrações, são contadas algumas anedotas, como a que no-lo mostra jantando com São Luís e de repente esmurrando a mesa, exclamando: “Há um argumento conclusivo contra os maniqueus!” Seus colegas gentilmente esforçaram-se para lembrá-lo da presença real, enquanto o amável rei imediatamente convocou um secretário para anotar o convincente argumento que se apresentava à mente de seu santo hóspede.
De volta a Nápoles, o cardeal legado e o arcebispo de Cápua vieram visitar Santo Tomás. Ele, por sua vez, foi recebê-los no claustro, mas no caminho, ficou tão absorto na solução de uma dificuldade teológica que, quando chegou, tinha se esquecido dos afazeres e dos visitantes, e ficou como alguém que está sonhando. O arcebispo, que tinha anteriormente sido seu aluno, assegurou ao cardeal que aqueles devaneios eram muito familiares para todos aqueles que conheciam os hábitos do santo. Essas distrações às vezes faziam-no insensível à dor, como quando uma vela queimou sua mão enquanto ele permanecia absorto, inconsciente do fato.
A vida austera de Santo Tomás e seus incessantes trabalhos aumentaram a delicadeza natural de sua constituição, e fizeram com que ele freqüentemente caísse doente. Contudo, isso não pareceu tê-lo feito desistir de seu trabalho de composição. Cirurgias eram mal feitas no século XIII, e sua extrema sensibilidade fizeram com que as operações lhe fossem ainda mais terríveis. Em uma ocasião, quando se viu obrigado a passar por uma cauterização, implorou ao enfermeiro para avisá-lo quando os cirurgiões viessem. Quando se deitou em seu leito, imediatamente entrou em êxtase, permanecendo imóvel enquanto sua carne era queimada com ferros em brasa.
Suas roupas eram sempre as mais pobres do convento e seu amor pela santa pobreza era tão grande que sua Summa Contra Gentiles foi escrita no verso de cartas antigas e em pedaços de papel. Em vão os soberanos pontífices insistiram que ele aceitasse o arcebispado de Nápoles e outras honras eclesiásticas juntamente com amplos rendimentos. Nada pôde abalar sua determinação de viver e morrer como um simples religioso, e eles foram obrigados a retirar suas propostas, não querendo afligir alguém tão caro para eles. Ele, que era o oráculo de seu tempo, amava pregar aos pobres e aos humildes, e é sabido que eles sempre o ouviam alegremente e com muito fruto para suas almas. Ele era cheio de compaixão pelas suas necessidades e fazia-lhes o donativo de suas próprias roupas para vesti-los.
11. Sua Humildade e Mansidão
A humildade sempre foi a virtude característica de Santo Tomás. Ele percebia tão perfeitamente a grandeza de Deus e sua própria insignificância que em um momento de intimidade, ele disse a um amigo: “Graças sejam dadas a Deus! Nunca meu conhecimento, meu título de doutor, nem nenhum dos meus atos acadêmicos despertaram em mim um único movimento de vanglória sequer. Se algum movimento tiver sido despertado, a razão instantaneamente o reprimiu”. Da humildade brotava a extrema modéstia na expressão de sua opinião. Nunca, no calor de um debate ou em qualquer outra ocasião, se soube que ele tenha perdido a imperturbável serenidade de temperamento, ou que tenha dito alguma palavra que pudesse ferir os sentimentos de alguém, e ele suportou os mais incisivos insultos com uma calma igualmente imperturbável. Sua vida é cheia de exemplos de seu espírito de humildade e obediência religiosa. Uma vez, ainda como um jovem religioso, quando estava lendo no refeitório de Paris, o corretor oficial lhe pediu para pronunciar uma palavra de um modo evidentemente incorreto. Santo Tomás obedeceu e pronunciou a quantidade errada. Quando lhe perguntaram como ele consentiu em um engano tão óbvio, ele respondeu: “Pouco importa se uma sílaba seja longa ou breve, mas muito importa que se pratique a humildade e a obediência”. Anos mais tarde, quando o santo estava ensinando em Bolonha, um irmão leigo obteve a licença do prior para tomar como companheiro o primeiro irmão religioso que encontrasse livre. Vendo Santo Tomás, que era um estranho para ele, subindo e descendo no claustro, foi em direção a ele dizendo que o prior queria que ele o acompanhasse pela cidade, onde tinha negócios a realizar. O santo, embora coxeando e estando perfeitamente consciente de que o leigo estava enganado, imediatamente obedeceu ao chamado e foi mancando pela cidade atrás de seu companheiro, que de vez em quando reclamava de sua lentidão. Quando o leigo descobriu seu engano, desculpou-se copiosamente, mas o santo respondeu: “Não se incomode, meu caro irmão. Eu sou o culpado. Apenas sinto muito de não ter podido ser mais útil”. Para aqueles que perguntaram o porquê de ele não ter explicado o engano, ele deu esta preciosa resposta: “A obediência é a perfeição da vida religiosa; por ela, o homem se submete ao seu próximo por amor a Deus, como Deus fez-se a si mesmo obediente aos homens para a salvação deles”.
A Santo Tomás, custava-lhe acreditar que os outros pudessem ser maus. Sempre achava que todos eram melhores que ele, mas quando era provada uma falta e não havia possibilidade de dúvida, chorava como se ele mesmo a tivesse cometido, e seu zelo exigia que a falta fosse severamente corrigida, de acordo com o que dizia Santo Agostinho: “com caridade para com o pecador, mas com ódio ao pecado”.
Certa vez, um dos irmãos o pressionou a dizer qual a maior graça que já tinha recebido de Deus – com exceção da Graça Santificante. Após alguns minutos de reflexão, ele respondeu: “Penso que ter entendido tudo o quanto tenho lido”. Ele lembrava-se de tudo que ouvia apenas uma vez, de modo que sua memória era como uma biblioteca muito bem abastecida. Freqüentemente, escrevia e ditava ao mesmo tempo assuntos distintos a três ou quatro secretários, e nunca perdia o fio dos argumentos.
12. Sua Vida Diária e suas Devoções
Algumas informações sobre o modo como Santo Tomás passava seus dias foram preservadas. Depois do tempo absolutamente necessário de sono, ele levantava durante a noite e descia à igreja para rezar, retornando à cela pouco antes de os sinos tocarem para as Matinas, de modo que sua vigília passasse despercebida. Então descia novamente para o Ofício com a comunidade, sempre prolongando sua oração até a aurora. Após se preparar para a penitência, a Confissão e a meditação, ele celebrava a primeira Missa, e em ação de graças ouvia outra Missa na qual sempre servia. Compôs orações para todas as suas ações diárias, algumas das quais ainda são preservadas. Na Elevação, era seu costume repetir as palavras “Vós, ó Cristo, sois o Rei da Glória” com os últimos versos do Te Deum. Embora licitamente dispensado de comparecer ao coral devido aos seus trabalhos de ensino e escrita e às numerosas visitas dos que procuravam sua orientação, ele assistia com os irmãos todas as horas do Ofício Divino, e sempre derramava lágrimas de devoção.
Quando seus exercícios matinais terminavam, ele dava suas aulas de Teologia ou sobre as Sagradas Escrituras, e depois voltava para sua cela para escrever e ditar até a hora do jantar. Comia uma vez por dia apenas, e não se importava com o que era servido. Na verdade, no refeitório, ficava tão absorto em oração e em pensamentos que não percebia as coisas externas, tanto que mudavam seu prato, ou retiravam sua comida e ele não se dava conta. Depois do jantar, conversava um pouco com os irmãos, e em seguida reanimava sua alma com uma pequena leitura espiritual, sendo as Conferências de Cassiano seu livro favorito. Após um pequeno repouso, retomava seus trabalhos, e terminava o dia cantando no coral o Salve Regina nas Completas.
O Doutor Angélico era cheio de devoções singelas a Nossa Senhora. Seu confessor, o padre Reginaldo, declarou que Santo Tomás nunca havia pedido algo através da Virgem Maria que não tivesse obtido, e o próprio santo atribuía especialmente à sua intercessão a graça de viver e morrer na Ordem Dominicana, conforme seu sincero desejo. Durante toda uma Quaresma, ele pregou sobre as palavras “Ave Maria”, e as mesmas amadas palavras podem ser encontradas repetidas vezes nas margens de seu próprio manuscrito da Suma Contra os Gentios, recentemente descoberto na Itália. Em seu leito de morte ele confidenciou ao padre Reginaldo que Nossa Senhora tinha lhe aparecido diversas vezes e lhe assegurou do bom estado de sua alma, e da solidez de sua doutrina. Os santos Apóstolos São Pedro e São Paulo também o favoreceram com suas visitas e lhe explicaram difíceis passagens da Sagrada Escritura. As epístolas de São Paulo eram suas matérias favoritas de meditação, e ele costumava recomendá-las aos outros para o mesmo propósito. Tinha uma devoção especial a Santo Agostinho, e a partir das obras desse santo Doutor, compôs o Ofício próprio, ainda em uso na Ordem Dominicana. Santo Tomás costumava usar em volta do pescoço uma relíquia da virgem e mártir Santa Inês, da qual fez uso certa vez para curar o padre Reginaldo de uma febre que o atacou em uma viagem a Nápoles, e é dito que a partir daquele momento, o Santo Doutor resolveu celebrar a festa de Santa Inês com solenidade especial e – com um caráter natural que demonstrava compaixão humana – servir um jantar melhor no refeitório naquele dia.
“Seu admirável conhecimento”, dizia o padre Reginaldo, “era devido muito menos ao seu gênio do que à eficácia de sua oração. Antes de estudar, entrar em uma discussão, ler, escrever ou ditar, ele sempre se entregou à oração. Rezava com lágrimas para obter de Deus o conhecimento de seus mistérios, e uma luz abundante era concedida a sua mente”. Se ele encontrava alguma dificuldade, juntava jejum e penitência à sua oração, e todas as dúvidas eram esclarecidas. Certa vez, São Boaventura, vindo visitá-lo, viu um anjo auxiliando-o em seus trabalhos.
Entre suas notáveis palavras, pode ser mencionada a resposta que ele deu à irmã quando ela lhe perguntou o que deveria fazer para se tornar santa. “Velle”, respondeu ele – i.e., “Querer”. Ao lhe perguntarem quais eram os sinais de perfeição da alma, ele respondeu: “Se eu visse um homem afeiçoado a conversas frívolas, desejoso de honra e relutante em ser desprezado, eu não acreditaria que fosse perfeito, ainda que o visse obrar milagres”.
13. Sua Morte
Na festa de São Nicolau, no dia 6 de Dezembro de 1273, Santo Tomás estava rezando a Missa na capela do santo no convento de Nápoles, quando recebeu uma revelação que o mudou de tal maneira, que a partir daquele momento, não pôde mais nem escrever, nem ditar. Pouco depois, em resposta às prementes súplicas do padre Reginaldo, ele disse: “Chegou o termo de meus labores. Depois de tudo o que me foi revelado, tudo o que escrevi até hoje me parece apenas palha. Espero na misericórdia de Deus que o fim de minha vida possa em breve seguir o termo de meus trabalhos.”
Sofria de uma doença quando recebeu um chamado do papa para comparecer ao Concílio Geral convocado em Lião para a reunião das Igrejas Grega e Latina. O santo, portanto, partiu de Nápoles, acompanhado do irmão Reginaldo e alguns outros frades em 28 de Janeiro de 1274. No caminho, piorou muito. “Se Nosso Senhor estiver prestes a me visitar”, disse aos companheiros, “é melhor que Ele me encontre em uma casa religiosa do que em meio aos seculares”.
Como não estava próximo de nenhum convento dominicano, rendeu-se ao premente convite de alguns colegas cistercienses e deixou que o levassem para a Abadia de Fossa Nova. Chegando lá, foi direto para a igreja adorar o Santíssimo Sacramento, e em seguida, ao passar pelo claustro, exclamou: “Aqui é o lugar do meu repouso eterno!” Foi instalado na cela do próprio abade e esperou com a mais extrema caridade. Os próprios monges foram cortar lenha para lhe acender uma fogueira. Ao vê-los trazendo aquela carga para sua cela, o santo gritou: “Por qual razão devem os servos de Deus servir a um homem como eu, trazendo de longe tão pesados fardos?”
Em observância às diligentes súplicas dos cistercienses, ele começou a explicá-los o Cântico dos Cânticos, mas não viveu para completar sua exposição. Como se aproximasse seu fim, ele, com muitas lágrimas, fez uma confissão geral de toda sua vida ao padre Reginaldo, e então pediu para deitar-se sobre cinzas no chão quando lhe foi trazido o Santo Viático. Ao contemplar o Santíssimo Sacramento, colocou-se de joelhos e disse em clara e distinta voz, enquanto as lágrimas escorriam pelo seu rosto: “Recebo-Vos, ó preço da redenção da minha alma; recebo-Vos, ó viático da peregrinação de minha alma, por amor de quem eu tenho estudado, observado, trabalhado, pregado e ensinado. Escrevi muito, e freqüentemente discuti os mistérios de Vossa lei, ó meu Deus. Vós sabeis que não desejei ensinar nada salvo o que aprendi de Vós. Se o que escrevi for verdadeiro, aceitai-o como uma homenagem à Vossa infinita majestade; se for falso, perdoai minha ignorância. Consagro-Vos tudo o que já fiz e submeto tudo ao julgamento infalível de Vossa Santa Igreja Romana, em cuja obediência estou prestes a partir desta vida”.
Pouco antes de receber a Sagrada Hóstia, pronunciou sua jaculatória favorita: “Vós, ó Cristo, sois o Rei da glória, Vós sois o Filho Eterno do Pai”. Após receber o Santo Viático, ele fez fervorosos atos de fé e amor nas palavras de seu belíssimo Adoro te. No dia seguinte, ao receber a Extrema Unção, respondia calmamente todas as orações, enquanto as vozes dos assistentes eram atravancadas por soluços. Tentou confortar seus irmãos, que estavam inconsoláveis com a perda que se aproximava, e muito agradeceu aos cistercienses por sua caridade. Um deles lhe perguntou qual era a melhor maneira de viver sem ofender a Deus. “Esteja certo”, respondeu o santo, “que aquele que caminha na presença de Deus e está sempre pronto a dar a Ele contas de seus atos nunca se separará Dele pelo pecado”. Essas foram suas últimas palavras. Logo em seguida, entrou em agonia e expirou tranqüilamente em 7 de março de 1274, não tendo ainda completado cinqüenta anos.
No mesmo dia, Santo Alberto, então em Colônia, rompeu em lágrimas na presença de toda a comunidade e exclamou: “Irmão Tomás de Aquino, meu filho em Cristo, que foi a luz da Igreja, está morto! Deus revelou-mo.”
Em Nápoles, também, agradou a Deus tornar conhecida a morte do santo de uma maneira milagrosa. Um dos frades, enquanto rezava na igreja, entrou em um êxtase no qual pareceu contemplar o Santo Doutor ensinando nas escolas, rodeado de uma grande multidão de discípulos. São Paulo Apóstolo também apareceu acompanhado de muitos santos, e Santo Tomás perguntou-lhe se tinha interpretado suas Epístolas corretamente. “Sim”, respondeu o Apóstolo, “até onde alguém ainda na terra pode entendê-las. Mas vem comigo; eu te conduzirei a um lugar onde terás um conhecimento ainda mais claro de todas as coisas”. O Apóstolo, então, pareceu tocar o manto de Santo Tomás e levá-lo, e o frade que contemplara a visão surpreendeu a comunidade ao gritar três vezes em alta voz: “Ai de nós! Ai de nós! Nosso Doutor está sendo levado de nós!”
14. Honras Após Sua Morte
O funeral de Santo Tomás foi realizado na Abadia com grande solenidade. Padre Reginaldo fez um breve discurso, freqüentemente interrompido por seus próprios soluços e pelos de seus ouvintes. Ele declarou que, tendo sido por muitos anos o confessor de Santo Tomás, podia solenemente atestar que o Santo Doutor nunca tinha perdido sua inocência batismal, e tinha morrido tão puro e livre de mácula como uma criança de cinco anos de idade. Ele então revelou alguns favores particulares que Santo Tomás lhe tinha proibido revelar durante sua vida.
Muitas revelações da glória do santo deram-se após sua morte, das quais a que se segue talvez seja uma das mais interessantes: um fervoroso discípulo seu orou ardentemente para que pudesse saber qual a categoria a que seu amado mestre tinha sido elevado em glória. Um dia, enquanto fazia suas preces usuais diante do altar de Nossa Senhora, dois veneráveis personagens cercados de uma maravilhosa luz pararam de repente diante dele. Um deles estava vestido como um bispo; o outro usava o hábito de um frade pregador, mas estava resplandecente com pedras preciosas. Em sua cabeça estava uma coroa de ouro e diamantes, de seu pescoço pendiam duas correntes, uma de ouro, outra de prata, e uma joia na forma de um sol brilhava sobre seu peito, vertendo raios de luz por toda parte. “Deus ouviu tua oração”, disse o primeiro personagem. “Eu sou Agostinho, Doutor da Igreja, enviado para te comunicar a glória de Tomás, que reina comigo e que iluminou a Igreja com seu conhecimento. Isso é representado pelas pedras preciosas com as quais ele está coberto. Isto que brilha em seu peito significa a reta intenção com a qual ele defendeu a Fé; as outras simbolizam os livros e escritos que ele compôs. Tomas é igual a mim em glória, mas excedeu-me pela auréola da virgindade.”
Santo Tomás foi canonizado pelo papa João XXII em 1323 na cidade de Avignon. Apenas em 1367 os dominicanos conseguiram obter a posse de seu corpo, que foi levado para o convento de Toulouse, onde foi recebido com todas as demonstrações de honra. Uma festividade anual foi realizada pela ordem em 28 de janeiro, em memória dessa transladação, que foi acompanhada de muitos milagres. Porém, em 1923 foi suprimida em favor da nova festa do Patrocínio de Santo Tomás, em 13 de novembro. Valiosas relíquias do santo foram dadas a vários conventos da ordem. Na época da Revolução Francesa, os restos mortais do santo foram removidos para a cripta da igreja de São Saturnino em Toulouse, onde ainda repousam.
Em 1567, São Pio V conferiu a Santo Tomás o título de Doutor da Igreja, sendo conhecido como “o Doutor Angélico” devido à sua inocência e sua inteligência. Na carta encíclica Aeterni Patris (1879), o Papa Leão XIII instou a restauração do ensinamento de Santo Tomás em todas as escolas, e por um Breve apostólico (1880), o mesmo Pontífice nomeou Santo Tomás de Aquino como Patrono de todas as universidades, academias, colégios e escolas católicos. Para o louvor de seus predecessores, o Papa Pio XI adicionou o toque final ao declarar que o Doutor Angélico merecia o esplêndido título de “Doutor Universal da Igreja” (29 de junho de 1923).
“Assim como foi dito aos antigos egípcios em tempos de fome: ‘Ide a José’ para receberem dele abundância de trigo e nutrirem seus corpos, assim também hoje nós dizemos a todos que desejam a verdade: ‘Ide a Tomás, e pedi a ele que vos dê de sua abundância o alimento da doutrina substancial com a qual podeis nutrir vossas almas para a vida eterna.’” (Da encíclica Studiorum Ducem do Papa Pio IX, 29 de Junho de 1923)
O dia da festa tradicional de Santo Tomás de Aquino é 7 de março.
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Oremos:
Ó Deus, que ilustrais a Igreja com a admirável ciência do bem-aventurado Tomás, Vosso Confessor e Doutor, e a fecundais com a santidade de suas virtudes, concedei-nos a graça de compreender o que ele ensinou e de fielmente imitar o que ele fez. Por nosso Senhor Jesus Cristo.
R/ Amém.
(St. Thomas Aquinas, Saint Benedict Press, LLC 2009)
Introdução
Deixe-me, antes de começar propriamente a conferência, explicar o tema: “grandes intelectuais católicos brasileiros”. Preparando a conferência, havia pensado em falar sobre a relação entre a Inteligência e o Bom Senso. Hoje em dia se pensa, muitas vezes, que há uma oposição entre ambas e que quanto mais a pessoa vai se tornando culta e erudita, mais o bom senso é desprezado, porque a inteligência seria a negação do bom senso [ou senso comum]. Ouvindo a gravação de certa palestra, fiquei impressionado com o palestrante, que se dizia católico, e parecia ter erudição enorme, mas falava coisas inteiramente contrárias ao bom senso.
Quando fui pesquisar sobre o assunto acabei encontrando um livro chamado o “Bom Senso” do escritor Jackson de Figueiredo. E aí a idéia do tema mudou completamente. Há muito tempo tinha interesse em conhecer Jackson de Figueiredo, um grande homem, e como o tema é vida intelectual — e foi um grande intelectual católico — resolvi falar sobre ele. E junto com a vida dele a de outro homem, Carlos de Laet que foi comparado a Machado de Assis e Rui Barbosa na habilidade do uso da Língua Portuguesa.
Jackson de Figueiredo nos é muito familiar, sobretudo no priorado do Rio de Janeiro e Niterói, porque de alguma forma somos seus netos, sem sombra de dúvida, o que tornou muito agradável e familiar a leitura sobre ele.
A Época de Carlos de Laet e Jackson de Figueiredo
Antes de falar desses dois homens, vou explicar o panorama, como pano de fundo, para depois localizá-los na época em que viveram; em seguida contarei a vida e a obra de cada um.
Carlos de Laet nasceu em 1847 e veio a falecer em 1927; Jackson de Figueiredo nasceu em 1891, e faleceu em 1928. A vida dos dois é completamente distinta, mas o ambiente em que viveram muito os influenciou.
Quando falamos de 1850, falamos de um Brasil que ainda não era uma república, mas Império, com D. Pedro II como imperador. Nessa época, no enorme território brasileiro havia muito poucos bispos. Para se ter uma idéia, nos atuais estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde cabem Espanha e França juntas, só havia um bispo [responsável]; Rio Grande do Sul inteiro também havia um bispo somente. Era impossível que esses bispos cobrissem todo o território, e os padres viviam longe de seus bispos, conseqüentemente a formação era má e deficiente. São Pio X, por esse tempo, era bispo de Mântua, e muitos daquela região foram convidados por D. Pedro II a ocupar a região sul, que era bastante despovoada; disse o futuro papa aos mantuanos: “Aqui em Mântua vocês passam fome, mas se forem para o Brasil, podem até possuir terra para trabalhar, porém ficarão sem padres, não terão formação católica e nem quem os apóie e lhes dê os sacramentos; tudo isto vai perder-se”. Mesmo assim um grupo veio e foi justamente a colônia [mantuana] que fundou a [cidade] de Santa Maria, [no Rio Grande do Sul].
Em conseqüência da escassez de clérigos e da má formação da vida católica, a maçonaria conseguiu lograr bastante influência: por ex., para ser membro da Confraria do Santíssimo Sacramento na região Nordeste, [mais exatamente], em Recife, era obrigatório ser maçom. A maçonaria conseguiu uma influência absurda, já que o clero era malformado, e logicamente alguns padres acabavam entrando para a maçonaria; aos bispos era impossível algum controle. Foi então que dois grandes bispos reagiram, Dom Vital e Dom Macedo Costa, por ocasião da grande questão religiosa — há uma charge que ilustra esse acontecimento, na qual aparece D. Vital batendo com o báculo na cabeça de um padre, durante um casamento, porque o noivo era maçom — eles dois foram presos, e logo depois que saem da prisão morrem, particularmente em decorrência dos sofrimentos da prisão no Rio de Janeiro, então a sede do Império. Os bispos, vendo essa vida católica tão complicada e tão complexa, vendo a maçonaria se estendendo e novas idéias nos ambientes católicos, perceberam a necessidade de uma reforma intelectual e pastoral do clero, incentivando assim certas devoções para conservar o povo na fidelidade, mesmo à falta de uma vida católica normal. No Nordeste, ainda hoje, encontra-se nas casas de família, um livro escrito pelo padre português Manuel José Gonçalves Couto, intitulado “A Missão Abreviada”, que explicava o que se deve fazer quando não há padres; por ex., quando morre alguém, o manual indica os cânticos que se devem rezar, como fazer o funeral. Os bispos tiveram de impor certo rigor na disciplina do clero, justamente porque existiam desordens as quais prefiro não comentar. Por outro lado, passaram a enfraquecer as confrarias [e as irmandades]; foi notável que diligenciaram pela intensificação da vida das paróquias, para que os católicos ficassem ligados às paróquias e não às tais confrarias [e irmandades], que não andavam nada bem.
Quando a Igreja já não fortalece o Estado ou a Coroa, é iminente a queda [dos governos]. Uma vez, Napoleão III conversando com o Cardeal Pie, dizia que já não era possível uma França oficialmente católica, ao que o cardeal respondeu: “Bom, de política eu não entendo, mas o que sei é que se não chegou o tempo de Cristo reinar, então não chegou o tempo de os reis durarem”. Logo depois, caiu Napoleão.
A primeira universidade de Direito do Brasil se estabeleceu em Recife. Começa ali o que se chama a Escola de Recife, sob a chefia de Tobias Barreto, de forte influência alemã, trazendo [em seu bojo] o positivismo, Nietzsche e o evolucionismo. Por meio dessa universidade, onde se formavam os advogados, e as inteligências [em geral], tais idéias eram espalhadas pelo país.
Diante do Imperador Pedro II e do Círculo Militar reunido, Benjamin Constant fez um discurso claramente positivista racionalista. O general que era chefe do Círculo Militar, [percebendo a natureza do discurso] levantou-se e disse ao ouvido do imperador que se ele aceitasse aquele discurso logicamente antimonárquico, estaria preparando a queda da coroa; se é racionalista, é anticatólico. Quando falo em racionalismo, falo também em naturalismo, que é a negação do sobrenatural: só o que a razão alcança existe, negando-se assim a Revelação de Deus e sua Igreja. Se o imperador aceita o discurso, rejeita a Igreja, e a coroa estaria desprovida do que lhe dá fortaleza.
Mas o imperador disse apenas: “Deixa!” Um homem, Carlos de Laet, presente ao discurso, escreveu num de seus textos, que na hora em que o imperador disse “deixa” e permitiu que se proferisse o discurso positivista, a coroa iria cair, porque o imperador estava colocando as bases da república.
Em 1889, os republicanos conseguem derrubar a monarquia, o imperador é expulso do país junto com os que o apoiavam, entre eles o Visconde de Ouro Preto. Se a relação Igreja e Estado durante o Império já era claramente tensa, na república torna-se explosiva; é decretada oficialmente a separação entre a Igreja e o Estado, a liberdade religiosa, casamento civil — tornando o casamento religioso “desnecessário”; [segundo as leis da Igreja], o casamento civil é um simples concubinato, não é considerado casamento.
Outra coisa que os bispos perceberam na separação entre a Igreja e o Estado, que se manifesta de várias formas, é a quebra da autonomia dos estados federativos. Esta separação foi de tal forma chocante que se tornou impossível o diálogo entre as duas esferas. Vinte anos depois da instituição da república, apesar da maioria da população ainda ser católica, o estado já não o era. A república tolerava a Igreja e, na medida do possível, ia avançando com leis cada vez piores. Por ex., em 1977 é aprovada a lei do divórcio, a qual já era discutida desde 1915. É incrível como vem de longe o combate contra a concepção católica da família.
A Ação de Grandes Bispos no Brasil
Os bispos brasileiros perceberam que era preciso recristianizar o país; este é o momento em que aparecem os grandes bispos — São Pio X era o Papa então reinante — com grandes idéias, como o Bispo do Rio de Janeiro, então capital do Brasil, Cardeal Arcoverde, e outros cinco bispos. Um deles era um padrezinho de São Paulo de uma cidade pequena perto de Campinas, chamada Espírito Santo do Pinhal, que foi estudar em Roma, Padre Sebastião Leme. É ordenado em Roma, aos vinte e três anos de idade, e em razão da necessidade de um bispo para Recife, São Pio X, percebendo sua qualidade, sagra-o bispo aos vinte e nove anos; diz-se que ele era no dia da sagração, o bispo mais jovem da Igreja. Os outros eram o de João Pessoa [Dom Adauto Aurélio de Miranda Henriques], o de Porto Alegre [Dom João Batista Becker], o de Belo Horizonte [Dom Antonio dos Santos Cabral] e o de Cuiabá [Dom Francisco de Aquino Correia].
Dom Sebastião Leme afirmava que era preciso conquistar para Nosso Senhor as elites do pensamento, e que as idéias estão presentes na massa de um modo implícito. As pessoas têm certas idéias sem “pensar”. Se nós formos conversar com alguém hoje em dia — com as senhoras, por ex. — provavelmente elas vão responder tal como aprenderam pela televisão, isto é, serão liberais, defensoras da liberdade religiosa, etc. Se formos mais além e lhes perguntarmos sobre as leis iníquas, elas nos responderão o que a mídia estiver falando. Enfim, o que está de um modo implícito nas massas, necessariamente esta de modo explícito e claro nas elites intelectuais. Dom Leme insistia na necessidade de formar uma elite católica, com princípios católicos muitos claros e que soubesse transmiti-los ao povo, para fazê-lo de novo católico, sobretudo porque estava ele em Recife, de onde fluíam as idéias positivistas, racionalistas e marxistas. Ele também tentava buscar formas de convivência entre a Igreja e o Estado.
Outro bispo, o da Paraíba, compreendeu que a ordem moral é o que fundamenta a sociedade; o mais importante deveria ser o amar a Deus sobre todas as coisas; só a partir daí conseguir-se-ia uma base social católica.
Lendo sobre cada um desses bispos, tenho de reconhecer que não imaginava que fossem tão bons. Comparados aos de hoje em dia, pode-se dizer que aqueles eram bispos católicos; não haveria o menor problema em ajoelhar-me aos pés deles, e obedecê-lhes, pois representavam a autoridade católica perfeita; o que diziam era profundamente católico e bem fundamentado.
O bispo da Paraíba, Dom Adauto, era tão bom que o Papa São Pio X o convidou para que saísse do seu estado e se dirigisse para o Rio de Janeiro como bispo auxiliar do Cardeal Arcoverde, com direito à sucessão, a fim de que fosse cardeal do Rio de Janeiro; assim, de certa forma, ele seria o líder de todos os bispos do país. Por sua doutrina ser antiliberal, seria uma grande luz para o Brasil inteiro. Mas, por humildade, recusa o cargo, e o Papa convida Dom Sebastião Leme, e este, aos trinta e poucos anos de idade, vai ao Rio de Janeiro para auxiliar do Cardeal Arcoverde, vindo a ser mais tarde o cardeal Dom Sebastião.
O bispo de Minas defendia o que se pode chamar de nação católica e princípio de autoridade. O bispo de Porto Alegre, Dom João Becker, nascido na Alemanha, era mais intelectual; em textos bastante longos, ele descreveu a corrupção do país. Também defendeu o princípio de autoridade contra a concepção do indivíduo autônomo, que o Pe. Calderón explicou ser próprio do liberalismo. Dom Becker defende duas idéias que se pode resumir numa frase: junto à fé o amor à pátria. Ele também defendia não só a formação de elites intelectuais, mas que saíssem delas homens para ocupar cargos no governo. E foi no estado do Rio Grande do Sul onde houve de fato liderança católica, como também posteriormente em Belo Horizonte.
O bispo de Cuiabá — estado com um território gigantesco — Dom Francisco de Aquino, chegou a desempenhar também o cargo de governador do Estado de 1918 a 1922, e seus textos também são bastante luminosos.
Naquele tempo não havia a CNBB, mas havia certa coordenação entre os bispos que iam com certa regularidade ao Rio de Janeiro, a então capital do país. Por ex., Dom Sebastião Leme, sagrado bispo em 1911, ficou responsável por Olinda e Recife até 1921, mas em 1916, escrevia uma carta à Diocese de Olinda do Rio de Janeiro.
Carlos de Laet
Dito isto, vamos falar agora sobre os dois grandes homens. Primeiro, Carlos Maximiliano Pimenta de Laet. Pronuncia-se Laéti e não Laê. Sabemos disso ao ler uma carta dele a Machado de Assis, por ocasião do surgimento de um projeto de reforma ortográfica, que tornaria o Português escrito mais próximo ao oral; ele escreve a carta ironicamente, grafando-a tal como se fala, já conforme a [pretendida] reforma ortográfica; e a carta, embora engraçadíssima, é horrorosa, porque a ortografia não coincide com a fonética, evidentemente. E ele assina Laéti.
Nasce de uma família profundamente católica. Nosso Senhor deu a ela uma inteligência excepcional; para que se tenha uma idéia, aos vinte anos de idade ele se gradua em Letras, no Colégio Pedro II. Durante sete anos tirou sempre o primeiro lugar, e nunca obteve nota que não fosse a máxima. Aos vinte e quatro anos se forma engenheiro e geógrafo; aos vinte e cinco em Física e Matemática sempre com notas máximas. Aos vinte e seis anos, começa a dar aulas no próprio Pedro II, como professor de Português, Geografia e Aritmética; nessa época ele publica um livro de poesias. Casa-se e começa também a escrever nos jornais uma das crônicas mais famosas de todo o Brasil, que se intitulava Microcosmos.
Carlos de Laet era um homem muito profundo. Seus textos e artigos em geral eram polêmicos e combativos. Cada vez mais conhecido, convidavam-no freqüentemente a proferir discursos e conferências e a comparecer em formaturas como paraninfo. Em 1922, houve um congresso eucarístico no Rio de Janeiro, ele foi convidado a dar uma das conferências, mesmo com vários bispos presentes. No seu estilo há muita ironia, que algumas vezes exagerava nas farpas. Num dos artigos ele comenta uma tradução da obra de Virgílio, a Eneida. O tradutor, Odorico Mendes, queria que o Português guardasse a quantidade original de sílabas em cada verso. Só que nossa língua é mais extensa que o Latim, o que o obrigou a inventar e mudar palavras. Carlos de Laet comenta e finaliza: “Bom essa tradução latino-brasileira da Eneida saiu de tal forma que é mais fácil ler do Latim diretamente”.
Como grande católico, muitas vezes entrava em polemicas para defender a Igreja. Por ex., ele traduziu um livro de um padre italiano sobre espiritismo, no qual escreve um apêndice sobre o espiritismo no Brasil, num trabalho muito bem feito. Outra polêmica foi com um pastor prebisteriano, e saiu-se tão bem que acabou escrevendo o livro “A Heresia Protestante”, que se tornou bastante conhecido na época.
Em 1889, o Visconde de Ouro Preto, amigo de Carlos de Laet, o aconselhou a se candidatar a deputado pelo Partido Liberal. Mas os liberais, que o odiavam porque ele era católico, chamavam-no de ultramontano. Mesmo assim se candidatou e se elegeu pela Paraíba e pelo Mato Grosso. Porém, esse é o ano do advento da república e ele não toma posse. A república, na sua guerra contra a Igreja, não só combatia as idéias católicas, mas também coisas que tinham nomes católicos: mudaram o nome do Campo de Sant’ana no Rio de Janeiro para Praça da República. Um dia, chegando à sala de aula, Laet declara aos alunos que o tema da aula era “regência verbal”, e como tudo o que recorda a religião ou o império caducou, ele teria de falar sobre “presidência verbal”.
O Colégio Pedro II troca de nome e passa a se chamar Instituto Nacional de Educação Secundária; ele propõe uma votação aos professores para o retorno do nome antigo, e por isso é demitido, aos 43 anos de idade, após o quê, passa a lecionar no Colégio São Bento e no Seminário São José. Por sua influência como jornalista e escritor, torna-se membro e fundador da Academia Brasileira de Letras; ainda no papado de São Pio X recebe de Roma o título de conde papalino. Aos 68 anos, chamam-no de volta ao colégio de onde fora demitido, para em seguida ser nomeado diretor. Suas ocupações o impedem de continuar a escrever para os grandes jornais. Dom Sebastião Leme protesta, rogando-lhe que volte a escrever artigos porque muitos brasileiros só liam sobre religião quando ele escrevia nos jornais.
Carlos de Laet morre aos 80 anos de idade.
Suas principais idéias podemos resumi-las em três: em primeiro lugar, a tradição religiosa: ele não só defendia o catolicismo com a pluma, mas com a própria vida, pois era profundamente católico, e antes mesmo que o episcopado começasse a promover as devoções populares, pediu ao bispo do Rio que promovesse o mês de Maria, cuja devoção ele já fazia em casa com o Pe. João, que mais tarde viria a ser arcebispo do Rio de Janeiro. Em segundo lugar, a defesa do bom uso da Língua Portuguesa. E em terceiro lugar, uma devoção à pátria-mãe, Portugal, uma vez que, segundo ele, se a religião e a língua formam a pátria, devemos ambas a Portugal; e junto a essa devoção, um encantamento pela monarquia e D.Pedro II, apesar de dois bispos terem ido para a cadeia e da enorme influência da maçonaria no governo imperial. Neste caso, compreende-se que o encantamento dele com a monarquia [se baseasse] sobretudo no choque negativo do advento da república.
Podemos tirar da vida dele, como ensinamento, o bem que faz uma vida católica profunda, firme, vinda do berço, não importando o ofício a que se dedique.
Jackson de Figueiredo
Outro grande intelectual católico brasileiro é Jackson de Figueiredo. A vida dele é muito contrastante com a de Carlos de Laet, e mais atraente por mil aspectos. Ele nasceu em Sergipe, Aracaju, em 1891, dois anos depois da instauração da república. Ao contrário de Carlos de Laet, ele não nasceu numa família católica. Seu pai era muito culto, professor de muitas disciplinas, uma delas grego; não era católico e por isso Jackson de Figueiredo não recebera formação católica. Ele era o filho mais velho. O pai, desde cedo, notou a vivacidade, a capacidade e a belicosidade do filho que, embora capaz de brigar por uma idéia, era muito reservado. Contam-se vários casos, como o ocorrido na escola, onde sendo ele muito conhecido, informaram-lhe de uma festa à qual ele estaria obrigado a comparecer, mas ele recusou; ordenaram que fosse porque todos da escola iriam; “Não vou”, disse ele; um o chama para a briga e Jackson lhe dá uma surra e diz: “Eu é quem escolho meus amigos, não quero ir à festa”. Na faculdade ocorreu coisa parecida, dessa vez enfrentando sem medo soldados armados de espada, enquanto ele munido com um pedaço de pau. Um deles bateu com a espada em sua cabeça; não o matou mas deixou-lhe uma cicatriz.
Nos estudos foi fomentado pelo pai, que desejava tivesse ele uma grande formação, a tal ponto que nos fundos de sua casa havia uma biblioteca só para o filho estudar. Quando cresce e entra na Faculdade Livre de Direito da Bahia, em 1919, o pai já não se contentava com a biblioteca nos fundos da casa, e comprou um sítio, para que toda vez que o filho voltasse da Bahia a Sergipe, pudesse lá ir e estudar em paz. O pai tinha obsessão com estudos; e Jacson aproveita a oportunidade e se aplica a eles. Mas, como eu disse, o contraste dele com Laet é muito grande: não vinha de uma família católica, sua formação em casa estava longe da fé e na faculdade fora muito pior; ele aprende muito das idéias provenientes da “Escola de Recife”, a filosofia individualista e pessimista do filósofo Nietzsche.
Dessa má formação ele viria a se ressentir durante toda a vida. Em muitas de suas cartas, já convertido, ele escreve aos amigos explicando a angústia e o choque que sentia na alma; o contraste entre a vida católica que vê, entende e pratica, e o sentimento de que dentro dele há algo que a contraria. Numa das cartas, escreve: “Eu sinto dentro de mim como se fosse um anarquista, um liberal”. Ele não era nem liberal nem anarquista, porém sofria porque nele havia o choque entre a conversão e a formação.
Ele se formou em 1913. No ano seguinte foi ao Rio trabalhar como advogado. Através de relações da família, ele entrou em contato com um filósofo nordestino, mais exatamente do Ceará, Farias Brito. Jackson era jovem, tinha 24 anos, e o filósofo já era de bastante idade. Fiquei impressionado que mesmo jovem Jackson de Figueiredo entra tanto e tão a fundo nas idéias do filósofo que logo publica dois livros chamados “A filosofia de Farias Brito” e “A filosofia social de Farias Brito”. Sua filosofia era reputada neo-tomista, mas não se aplicava à letra de São Tomás; também era considerada espiritualista, mas nunca se declarava católica, o que era indício de que havia alguma coisa errada. Pesquisando um pouco mais, parece que Farias Brito era maçom, por isso esse “Santo Tomás” e por isso esse espiritualismo vago.
Farias Brito, ou melhor, Santo Tomás trouxe de certa forma Jackson de Figueiredo às portas da fé. Farias Brito faleceu dois anos após conhecê-lo. Jackson abandonou as idéias trágicas de Nietzsche e as idéias positivistas e começou a conhecer Santo Tomás, em 1917. Nessa época ele lera uma carta de certo bispo que estava passando pelo Rio de Janeiro, Dom Sebastião Leme, em que se tratava da necessidade de uma espiritualidade profunda, de um catolicismo profundo, de uma formação intelectual profunda, de formação de elites; em suma, de uma vida católica de verdade. Jackson de Figueiredo foi conhecê-lo pessoalmente, converteu-se, casou-se e começou então uma vida católica. Vindo a ser bispo no Rio, Dom Sebastião Leme tornou-se seu amigo.
Em 1921, aos trinta anos de idade e três após a conversão, relendo o que o bispo escrevera na Paraíba, compreendeu que era preciso retomar o princípio de autoridade em Deus Nosso Senhor, e passou a publicar uma revista chamada A Ordem. No ano seguinte, entendeu que não bastava uma revista, era também necessário reunir essa elite intelectual; fundou então o Centro Dom Vital. Por isso podemos dizer que de certa forma é o avô da capela do Rio. Dom Lourenço Fleichman ontem falou justamente do Centro Dom Vital, do qual Gustavo Corção era membro, e saiu nos anos 60 para fundar a Permanência. Podemos dizer que a Permanência é filha do Centro Dom Vital; e se Gustavo Corção é o pai de nossas capelas, Jackson de Figueiredo é o avô.
Com o Centro Dom Vital ele buscou a formação de uma elite católica seriamente comprometida com sólidos princípios católicos, os quais ele comparava com uma muralha sobre a qual punha sua metralhadora contra os erros modernos.
Um escritor dos anos trinta, ao comparar Carlos de Laet e Jackson de Figueiredo, ambos já falecidos, dizia que faltou ao primeiro esse caráter apostólico de difusão da fé por meio da fundação de alguma coisa como Jackson de Figueiredo fez logo após a conversão.
Jackson, certa vez, indo a Minas Gerais, em Muzambinho — cidade natal de várias pessoas de Passos, onde temos uma capela — conheceu dois senhores muito católicos que acabam indo ao Rio mais tarde, Hamilton Nogueira e Pedro Alves. O primeiro torna-se vice-presidente do Centro Dom Vital. Formado em Direito, jornalista, ele escreve artigos em vários jornais, como o Gazeta de Notícias, onde também trabalhava Carlos de Laet do qual ele era discípulo.
Jackson também escreve vários livros, como “A Reação do Bom Senso”, “A Coluna de Fogo”, “Afirmações”. Percebendo a mediocridade do catolicismo no Brasil, afirmou: “O catolicismo só tem uma coisa a temer: ser mal conhecido. Existem cristãos que imaginam agradar a Deus sacrificando a própria razão, imolando-a, querendo crer de olhos fechados, isto é um erro”. Deseja uma recristianização da inteligência brasileira.
Numa vida muito breve, aos trinta e sete anos de idade morre Jackson de Figueiredo. Ele gostava muito de pesca e, num domingo, após a Missa, com um amigo e o filho de oito anos de idade, foi pescar nas imediações entre São Conrado e a Barra. Nesse lugar há uma gruta à beira de um penhasco, um paredão de pedra. Ele tinha uma fé muito profunda, e lá ensinava ao filho que se deve ter um olhar sobrenatural para todas as coisas: “Vê esse mar enorme, dizia ao filho, e esse céu admirável, e toda a beleza em que vivemos, tudo criado por Deus Nosso Senhor”. E erguendo uma folha qualquer ensinava ao filho que o homem não é capaz de fazer uma simples folha. Uma aula de fé, uma aula de catecismo simples diante da paisagem. Esse lugar era de fato bastante perigoso. Em determinado momento ele puxa o anzol e, quando vai enfiar a isca, perde o equilíbrio e cai, chocando-se nas pedras antes de cair no mar.
As ondas rebentavam nas pedras e, por causa da pancada que sofrera, Jackson de Figueiredo não conseguiu sair do mar. Tanto o filho quanto o amigo entram em desespero, por não poderem fazer nada. Ele ergue o braço como numa despedida e não mais é visto. Assim morre Jackson de Figueiredo, desse modo tão inesperado.
A última carta que ele escreveu, muito me impressionou. Ela foi escrita numa sexta-feira, num Dia de Finados, dois de novembro de 1928, justo antes de sua morte, a Alceu Amoroso Lima, que se convertera em agosto. Eles trocavam cartas, e Jackson dizia que escrevia para que ele, Alceu, se convertesse.
Suas últimas palavras foram: “Vou adiante, levado nas costas, no dorso dessa grande onda da vida para onde Deus quiser”. E foi assim que ele morreu, levado pelas ondas do mar. É curioso também que muitas de suas poesias são sobre o mar...
Depois de sua morte, muitas pessoas escrevem sobre Jackson de Figueiredo. Dom Sebastião Leme, já bispo do Rio, escreve um artigo lindíssimo sobre ele, assim como o Padre Leonel Franca e tantos outros.
E aquele homem, recém-convertido, Alceu Amoroso Lima, passa a ser o presidente do Centro Dom Vital, e presidente vitalício.
O Centro Dom Vital se espalhou pelo Brasil inteiro, num total de 20 “centros”. Em 1932, o CDV funda uma faculdade católica, que seria a primeira do Brasil, com o objetivo de reunir todas as áreas de conhecimento, no espírito da fé. Essa faculdade veio a ser a PUC, que hoje é um desastre. Incentivou uma liga eleitoral católica para que se promovesse entre os católicos o conhecimento de quais candidatos fossem realmente católicos e tivessem uma plataforma conforme a doutrina social da Igreja, além de uma associação universitária católica para formação religiosa e militante dos estudantes ou para os operários.
Alceu Amoroso Lima assim que foi eleito fez uma declaração que me chocou muito, em razão do um tom pretensioso para um recém-convertido. Afirmava que Jackson tinha imposto ao Centro Dom Vital um espírito polêmico que ele pretendia arrancar do movimento, porque ele, Jackson de Figueiredo, havia-o colocado lá por temperamento. Jackson se definia como uma metralhadora em cima de um muro de princípios — essa era a sua orientação. Os nossos rumos que tentaremos imprimir, propunha Alceu, iam em direção contrária: tratava-se dos rumos da liberdade, da universalidade e da paz. Isso ele escreve logo depois que assumiu o Centro Dom Vital. Um recém-convertido que já quer mudar a orientação da instituição... Bom, o Centro Dom Vital continuou, mas nós entendemos hoje quais seriam os frutos das palavras ditas por Alceu que nos anos 60 iria se tornar um homem de esquerda, um católico entre aspas — na verdade, comunista.
Conclusão
Era isto o que eu gostaria de lhes mostrar sobre a vida desses dois homens, Carlos de Laet e Jackson de Figueiredo; não somente suas vidas, mas o que é possível fazer. É possível a existência de um grupo de leigos católicos. Aqui em São Paulo as coisas andaram bastante ruins porque os grupos que existem, infelizmente também muito ruins, fundam-se distantes da orientação dos sacerdotes. E vemos que a obra de Jackson de Figueiredo foi grande, porque ele começou seguindo a idéia de um bispo, Dom Sebastião Leme, e a levou adiante unido a esse bispo, e assim continua com o Pe. Leonel Franca. Por isso, o Centro Dom Vital conseguiu fazer tanto bem naquela época. Não é só possível ter uma formação, mas necessário, para se formar uma elite intelectual católica, cada um no seu lugar, e cada um segundo suas aptidões, dentro de uma vida verdadeiramente católica. Jackson se tinha uma formação neo-tomista com Farias Brito, assim que se converteu passa a ler Santo Tomás, diretamente da Suma Teológica. Era um homem muito prático, muito fogoso, mas era Santo Tomás a fonte onde ele ia beber a boa doutrina.
Pe. Bertrand Labouche, FSSPX

O portal manuelino da igrejinha da Madalena chamou a atenção de Domingos nesta manhã: “Quando alguém tomará a iniciativa de restaurá-lo! Está preto como uma chaminé!”, murmurou o sacristão ao girar a velha chave na porta aferrolhada. “Só enxergam a catedral e os Jerônimos! E preferiram construir a Caixa Geral!” Continuando essas reflexões sobre a gestão arbitrária do “dinheiro dos contribuintes e portanto do meu”, adentrou Domingos na igreja sombria. Chegando ao fim do corredor central, ensaiara uma genuflexão; a lâmpada do Santíssimo Sacramento vacilava um pouco. Da sacristia a luz se projetava sobre a nave e as imagens dos santos. Mais uma jornada se iniciava para o sacristão, zelador diante de Deus e do senhor cura.
Tudo parecia decorrer como de costume. CONTUDO...
O bom e velho Domingos não percebera a sombra ereta e imóvel que sobressaía do lado duma coluna, ao fundo da igreja, no eixo do batistério. Não era uma imagem. Estava ajoelhada no sítio destinado aos fiéis que, sobretudo nos dias atuais, são geralmente o contrário das imagens: remexem-se, distraem-se por um nada, chegam mesmo a tagarelar e, acima de tudo, não permanecem por muito tempo. Era cerca de meio-dia quando Domingos notara a presença do orante.
Dona Catarina viera à sacristia pedir uma Missa, se possível para aquele dia mesmo: fazia exatamente um ano que o marido falecera. Respondeu-lhe o bom sacristão que o Senhor Cura já tinha uma intenção para a Missa daquele dia. “Talvez o outro padre pudesse celebrá-la?” disse a paroquiana. “Outro padre? Que outro padre?”, perguntou Domingos, meio irritado. “Aquele que está rezando na igreja, talvez conheça o Padre João e queira celebrá-la?” Domingos olhou de soslaio pela porta da sacristia e percebeu de fato a silhueta meditativa dum padre de batina.
Nesse momento soou o Ângelus da catedral, abafando um pouco o surdo vai-e-vem dos motores que, sem interrupção, vinha da rua.
“Nunca o vi; com certeza é um estranho de passagem; de todo modo, se ele celebra a Missa, deve pedir permissão ao Padre João”.
“Vou ao menos perguntar-lhe se pode dizer a Missa pelo meu marido”...
Mal pronunciara essas palavras, Dona Catarina se dirigiu ao padre. Já perto dele, impressionou-a o seu recolhimento: os olhos estavam fechados, e uma paz profunda lhe emanava do nobilíssimo semblante. Uma curta barba negra lhe acentuava a palidez das feições macilentas. Toda a sua pessoa transpirava a austeridade e a pobreza dos missionários d’outrora; a batina era feita dum tecido grosseiro, e um terço de madeira lhe pendia do cinturão – uma simples faixa de tecido de um palmo de largura. As mãos, finíssimas, estavam juntas, apoiadas sobre o banco da frente. Parecia não pertencer ao mundo exterior. Era todo oração.
“Senhor Padre...” Catarina teve a impressão de falar com uma imagem de santo. “Senhor Padre...”, insistiu ela à meia voz. Algumas pessoas rezavam na igreja, mas não prestavam atenção à cena que se passava atrás delas, meio distante. Pacificada pelo silêncio do orante, dirigiu-se a ele interiormente, como que sem querer: “Tenho algo de importante a lhe pedir, por que o senhor não me responde?”
Então, suavemente, o padre abriu os olhos; o seu olhar cheio de bondade repousou sobre ela; nele lia-se uma alegria inefável, de mistura com uma extrema tristeza. “Perdoai-me, senhor Padre”, sussurrou Catarina, incomodada, e fascinada: o rosto do padre irradiava luz.
Ela retornou à sacristia. “E aí, a senhora falou com ele?”, perguntou Domingos que, intrigado, observara-a de longe. “Não ouso incomodá-lo, está tão absorto na oração”... Pensativa, sentindo uma dulcíssima alegria, Dona Catarina voltou para casa.
O desconhecido rezou naquela mesma atitude por toda a tarde. Domingos notara que ele ainda estava na igreja quando o Senhor Pároco, o Padre João, saiu da sacristia para dizer a Missa das 18h30m. Contudo, mal o celebrante pronunciara as palavras de acolhimento aos fiéis, o padre de súbito desapareceu. O lugar onde estava ficara vazio; a nave inteira parecia vazia. O tráfego exterior pareceu redobrar de intensidade.
Todos os dias da semana, lá estava ele, até as 18h30m. O valoroso sacristão não ousava aproximar-se; depois de abrir a porta da igreja, sempre o achava no mesmo lugar. Como entrava? Como saía? Donde vinha? Aonde ia? Mistério... Já muitos paroquianos o haviam notado. Dona Catarina retornava todos os dias, e permanecia pelo tempo dum rosário; ela não lhe desgrudava os olhos.
De qualquer modo, ninguém ia chamar a polícia. Que mal fazia ele? O Senhor Pároco quis falar-lhe, mas não obteve resposta. Sequer abriu os olhos. Só as crianças, confiantes, se aproximavam dele: elas não lhe tinham medo. Muitos se ajoelhavam perto dele, com os rostos voltados para o mesmo lugar – o tabernáculo. Juntavam as mãos, como ele, e ficavam bem quietos, comportados como estátuas.
O bairro inteiro agora comentava sobre ele; muitos vinham vê-lo. No sábado de manhã, a igreja se encheu de fiéis e curiosos. Reinava um silêncio profundo. Quem zombava ao chegar (“deve ser doido”), já não zombava quando o via. Apelidavam-no de “o santo”. Parecia em êxtase. Uns sacerdotes também adentraram a igreja da Madalena. Desprendia-se desse padre tal autoridade, que ninguém ousava tocá-lo. Ele inspirava um profundo respeito.
Um detalhe impressionara os mais observadores: ele estava descalço. Durante uma conversa, a respeito dele, entre vários membros do clero, um cônego da catedral observou: “Talvez não seja padre mas um simples religioso, não?” Comentando essas palavras, um padre espanhol, que acompanhava os peregrinos à igreja de Santo Antônio, bem perto dali, e que depois entrou na da Madalena, surpreso por ver nela tanta gente, afirmou: “Creio que ele se parece incrivelmente com São Francisco Xavier, segundo a sua representação tradicional; demais, carrega um crucifixo à cintura, ao estilo dos jesuítas do passado”. De fato, esse padre guardava uma estranha semelhança com o grande taumaturgo do século XVI, o Patrono Celeste das Missões.
De súbito, exclamou o sacristão: “A terça-feira passada, quando o vi pela primeira vez, caiu em 3 de dezembro, FESTA DE SÃO FRANCISCO XAVIER!”
Uma massa de fiéis, na manhã de 8 de dezembro, invadiu a igreja da Madalena. A solenidade da Imaculada Conceição, Padroeira de Portugal, coincidia nesse ano com o domingo. Quem viera sobretudo por causa do “santo” se decepcionou pois ele não comparecera. Não ocuparam, todavia, “o seu” lugar, “caso ele viesse”...
No exato momento em que o organista dedilhava as primeiras notas, espalhou-se pela igreja um movimento de espanto: eis que de repente apareceu “ele”, lá de joelhos no lugar habitual, rezando intensamente. Um burburinho se alastrou pelo povo: “Ele está chorando!”
Com efeito, o seu corpo se mantinha numa postura serena, mas o seu rosto se raiava de lágrimas.
Uma religiosa ao microfone tentava em vão fazer a assembléia cantar; o que conseguiu foi um solo: “O Cristo está vivo, ressuscitou”... A atenção dos fiéis à cerimônia estava tão dissipada que o diácono permanente, encarregado das leituras, teve de intervir: “Irmãos, qual seja o motivo da vossa distração, permiti que a palavra de Deus entre nos vossos corações e vos interpele; sentai-vos, por favor”. Todos os olhares se fixavam nele. O diácono terminou as leituras no meio da indiferença geral. A religiosa entoou um versículo do salmo, a que só ela respondeu. Quando o celebrante anunciou a leitura do Evangelho, a assembléia se levantou. O “santo” também ficou de pé, mas conservou fechados os olhos; já não derramavam lágrimas. O seu semblante ficou sério. No final do Evangelho, ajoelhou-se de novo. Os fiéis foram convidados a sentar-se para escutar a homilia, feita nessa ocasião pelo reitor do seminário diocesano:
“Irmãos, testemunhas da mensagem do Cristo – o pregador se aproximou do microfone – voltemos os nossos espíritos àquela que hoje festejamos na Igreja: Maria, Mãe de Jesus, que também é a nossa Mãe, a Mãe de todos os homens, qualquer que seja a nação, a condição e a religião. Como proclamou o Bispo de Roma, na memorável reunião interconfessional do Jubileu do ano 2000, no Sinai, o Cristo se uniu ao homem para que ele participasse, mesmo sem o seu conhecimento, da Redenção Universal. Ora, Maria sofreu com Jesus; portanto, ela é a Mãe da humanidade, resgatada duma vez por todas. Por isso, irmãos, a Igreja não tem inimigos. Aqueles que, aparentemente, a contradizem são na realidade pessoas salvas que se ignoram: budistas, hinduístas, muçulmanos, animistas, protestantes, católicos – somos todos irmãos numa só Igreja, que é Vida...”
“BLASFEMADOR!” Uma voz estentórea reboou de pronto, estourando como um vergaste de chibata na Igreja da Madalena. O santo estava de pé, com o índex apontado ao pregador, e o rosto exangue de indignação.
“Sai desta igreja, lobo disfarçado de pastor!” “Mas, mas...”, balbuciou o pregador. “Silêncio! Assassino dos irmãos, SAI DAQUI, JÁ TE DISSE!”. Rápido como um raio, o homem de Deus varou a massa boquiaberta, e abriu a porta dupla da igreja, enquanto a voz melíflua ao microfone se tornou raivosa e agitada: “Quem és tu que ousas fazer isto?”... “Sou Francisco Xavier, filho de Inácio de Loiola, apóstolo de Nosso Senhor Jesus Cristo; cá estou com a Sua Divina Permissão e em Seu Santo Nome para te ordenar a ti, e também a todos esses impostores que ocupam o Santuário, a abandonar imediatamente este lugar!” Todos seguravam o fôlego dentro da nave. Os ministros da partilha e da palavra, a religiosa cantora, o diácono permanente, de início estupefatos como ladrões pegos em flagrante delito, caminharam em seguida, lentamente e depois cada vez mais rápido, terrificados, para a saída.
Eis que São Francisco Xavier subiu ao púlpito e se dirigiu aos fiéis:
“A Vontade de Deus, meus caríssimos irmãos, é a vossa santificação. Mas não podeis santificar-vos fora da graça do único Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo. A ilusória dignidade do homem, decaído, não é capaz de ser o caminho da vossa salvação, como, infelizmente, apregoam-vos os falsos pastores, desafiando a advertência do Nosso Divino Mestre: ‘Sine Me, nihil’, ‘sem Mim, nada podeis fazer’. Por isso, a missão da Igreja é dar-vos Jesus Cristo; se o homem não quiser conhecer a Jesus, e Jesus Crucificado, corre para a perdição, e com ele a sociedade inteira. ELE DEVE REINAR!
“O Coração da Nossa Santa Madre Igreja é o Altar do Santíssimo Sacrifício, e não esta mesa miserável, erigida diante de vós pelos ímpios inovadores. Subirei ao Altar de Deus, como o fiz cá em Portugal, depois na África, na Índia e no Japão, há quatro séculos ‘ad majorem gloriam Dei et salutem animarum’ e celebrarei a Santa Missa nesta imutável intenção da Glória da Santíssima Trindade e da salvação eterna das almas. Assim, nesta igreja, a cristandade reflorescerá, e depois conquistará todos os santuários da vossa pátria, que merecerá de novo o título de ‘nação fidelíssima’”.
“Dai graças a Deus, caríssimos fiéis; que nesta adorável Festa da Imaculada Conceição de Nossa Mãe Celeste, eleve-se dos nossos corações um hino de reconhecimento ao Altíssimo que, na Sua Infinita Misericórdia, dignou-se a vos convocar para uma reconquista tão nobre. Amém.”
“Amém!” responderam os fiéis.
O santo, então, caminhou até a sacristia onde Domingos, com o coração inundado de alegria, lhe preparou os mais belos paramentos.
... “E foi isso, Padre, era apenas um sonho, infelizmente; quando acordei, dei de cara com a realidade!”...
“Ânimo, meu amigo. A realidade, no fim das contas, não é tão diferente: Deus e todos os santos não estão conosco? São Francisco Xavier intercede por nós, e os santos do Céu nos invejam! Se Deus permitisse, eles estariam na linha de frente, ao nosso lado!”
Essas palavras reconfortaram o moço, enquanto o padre, meditativo, contemplando o crucifixo, surpreendeu-se fazendo esta oração: “Ainda assim, Senhor, se Vós permitísseis a vinda de um ou dois, dum São Paulo, ou dum São Vicente Ferrer!”...
Gustavo Corção
Amanhã, 3 de dezembro, a Igreja comemora a festa de São Francisco Xavier, o admirável companheiro de Santo Inácio de Loyola, que levou ao grau heroico o cumprimento do preceito de Jesus: “Ide, pois, ensinai todas as gentes, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, ensinando-as a observar todas as coisas que vos mandei; e eis que eu estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 19-20).
No século XVI quando o medievo compacto, côncavo e mediterrâneo, se expandia e se abria, convexo e atlântico para a conquista do orbe, e a descoberta do Novo Mundo do Ocidente e do antiquíssimo e oculto mundo do Oriente, a Igreja viveu um estranho e dilacerante paradoxo: perdia sua força de critério supremo sobre toda uma civilização mais do que milenar, em favor de um novo humanismo ainda cristão, mas já arrogante e inebriado com suas conquistas. Por outro lado, entretanto, nos mesmos dias em que perdia sua substância em torno de Roma, o Cristianismo era levado ao mundo inteiro, diluído, mas também dilatado, às vezes mais humano do que divino, mais épico do que evangélico, mais cobiçoso do que caridoso. Mas nesse mesmo processo de enfraquecimento e de difusão com perda de densidade, surgiu na história da Igreja, um dos mais belos aspectos de santo heroísmo — o dos missionários que terão não somente a função de difundir o Evangelho, como também a complementar função de contrariar, de certo modo, o expansionismo dos brutais conquistadores. E não há de ser mero acaso esta a palavra de Jesus que primeiro vulnerou e converteu o coração de Francisco Xavier: “De que vale ao homem ganhar o universo se perde a sua alma?”.
Ardendo de zelo pela conversão das almas, Francisco Xavier cruza este santo empenho com aquele outro que leva seus contemporâneos à conquista do mundo com a finalidade de espalhar por toda a parte os sinais da Salvação.
Séculos atrás, num paradoxo semelhante, coube às ordens religiosas, isto é, aos homens enclausurados, aos homens com votos de estabilidade, a tarefa aventurosa de cristianizar os bárbaros e dilatar as terras da Cristandade.
Agora, ao século XVI caberá aos missionários pagar com heroica dedicação, com zelo de santa caridade, o preço do arrogante humanismo que o “velho de aspecto venerando” tão severamente estigmatizou:
“Ó glória de mandar, ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama! ”
São Francisco Xavier deu-se todo à obra de evangelizar na Índia e no Japão, e de suas humildes e obscuras conquistas pode-se dizer, com mais seguro fundamento:
“(que) entre gente remota edificaram
Novo reino, que tanto sublimaram”
Pio X declarou São Francisco Xavier padroeiro principal das Missões. Outra padroeira de todas as missões é Santa Teresinha do Menino Jesus, que nunca saiu do Carmelo de Lisieux, mas logo depois de morta fez inúmeros milagres no mesmo Japão onde também abundantemente os semeou o companheiro de Santo Inácio. A Igreja é toda ela estruturada com paradoxo, que são verdades crucificadas.
* * *
Seria o caso de nos determos aqui a refletir longamente, pausadamente, sobre o que, em verdade, em verdade, quis dizer Jesus em Mateus (28, 19-20). À primeira vista parece dirigir-se mais a Vasco da Gama do que a Santa Teresinha e mesmo a São Francisco. Há no versículo um inevitável preceito de difusão; mas é mister observar que não há nenhum anúncio de bom sucesso para o empreendimento. E se houvesse aí estaria a história para desmentir Jesus. O mundo inteiro está salpicado de sinais de Cristianismo, está marcado, mas não está conquistado, não está ocupado pelos soldados de Cristo. Longe disso. E até se pode dizer que os missionários fazem uma obra de antemão condenada ao fracasso, ao naufrágio, à imersão no espesso mundo das coisas materiais. Enganou-se então Jesus quando nos propôs empreendimento tão acima de nossas forças? Na verdade, parece-me que, desde aquele santo instante em que pronunciou o preceito, Jesus já sabia que, sendo tudo desproporcionado na história da salvação, desproporcionado seria o cumprimento de tal preceito. E efetivamente desproporcionadíssimo tem sido.
Muitos estão e estarão sempre a dever muitíssimo a tão poucos. Hoje lembremo-nos do ardente jesuíta que bem sabia o valor da salvação de uma só alma, e adivinhava que a cada uma que no imenso Oriente ganhava para Deus, correspondiam milhares e milhões de outras que em torno das paróquias tranquilas deixavam de cair no nadir dos infernos. Lembremo-nos hoje de São Francisco Xavier como quem se apega a um dos poucos que ouviu e entendeu totalmente a palavra de Deus. E roguemos ao Bom Jesus que vincule ao nosso espesso, pesado e ingrato corpo a uma esquírola de osso da tíbia que está em Roma, ou de alguma costela que está enterrada em Goa; e assim, no dia da Ressurreição nossa inércia, nossa resistência, nossa ingratidão, será elevada e nós mesmos seremos imantados e incompreensivelmente arrebatados. Sabemos que não somos dignos, mas se disserdes uma só palavra Senhor, nossa alma se salvará. Mas é preciso que alguém ouça com a devida atenção essa palavra que nós mal ouvimos; e foi para isso que anteontem tivemos Santa Teresinha, e ontem tivemos São Francisco Xavier a trabalhar por nós.
No dia de trevas em que Ele viveu toda uma infinita solidão entre os homens, Jesus disse que estaria conosco até o fim do mundo. De vários modos cumpre dia a dia sua promessa. E um desses modos é a presença exemplar com que Ele escalona nossos caminhos. Hoje tomou o nome e os traços de São Francisco Xavier que no século completou com sua parte a Paixão de Cristo nas Índias, no Japão, e no céu continua a função missionária na Terra, ao lado de Santa Teresinha do Menino Jesus e da Santa Face. Apeguemo-nos a eles. Santos missionários, orai por nós.
(O Globo, 02/12/1971)