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Category: Gustavo CorçãoConteúdo sindicalizado

Deus marcou encontro conosco

     

O texto de Gustavo Corção que publicamos aqui é parte de um ciclo de conferências realizadas em Belo Horizonte na década de 1950. Apesar de não estar completo, não deixa de ser um exemplar importante das atividades do grande escritor católico, numa época em que Corção era requisitado para constantes palestras, entrevistas e artigos. Depois o mundo girou, os polos foram deslocados, os homens tornaram-se cúmplices da Revolução num mundo evolutivo e estagnado no nada. Já não lhes interessava a firmeza da verdade e da fé que Gustavo Corção guardou e ensinou até a morte.

Editora Permanência

 

 

Sobre Lições de Abismo

[Com satisfação publicamos um escrito inédito de Gustavo Corção sobre o seu romance Lições de Abismo. O texto era na verdade uma carta enviada à escritora Raquel de Queiroz e a reproduzimos pela primeira vez na Revista Permanência 265]. 

 

D. Raquel de Queiroz,

Li com enorme interesse a sua nota sobre o meu livro. Vou mais longe, confesso que li com sofreguidão. A senhora que já teve seus livros me entenderá.  Digam os outros que é vaidade nossa, mas não é; ao contrário, é talvez o melhor de nós, o mais puro de nós, essa avidez pela confirmação daquilo que escrevemos. Será no fundo vaidade, se quiserem, mas uma pobre vaidade, ou uma vaidade de pobre.

Aquele livro, quando o soltei, deu-me mais insônias do que nos dias de trabalho. Escrevera-o com paixão, dias e dias, noites e noites. Andava com ele em mim, comigo nele. Juntara, como num cadinho, a escória de todo um passado fantástico, meio vivido e meio sonhado. Fundira o grosso minério. Cinzelara as pepitas, os lingotes, as barras. E agora, apesar de todas as reprises, da revisão esticada, da refusão dos caprichos ingratos, dos cortes, e finalmente da ortografia — porque a minha nunca se depurou dum hibridismo em que as letras da adolescência se misturam aos acentos circunflexos da velhice — apesar de todo esse nervoso apego eu tinha de largá-lo, como se larga o filho completo e maior. (Continue a ler)

Anarquismo e progressismo

Gustavo Corção

A crise de nosso tempo poderia ter este título que encerra uma grotesca contradição, e que tem seu tipo representativo mais cômico nos descendentes de Bakunin que começaram na Espanha a infiltração e a perseguição religiosa antes dos comunistas marxistas. Romanticamente se apresentavam como militantes de um mundo novo munidos de uma pistola na mão direita e da enciclopédia na esquerda. O programa era sucinto: beber o sangue dos últimos padres na cabeça craniana do último dos reis.

Lembrando a alta que os títulos dos revolucionários tiveram na convulsão de 1789, que nos foi inculcada como feito de glória universal, seria melhor, naquele retrato do herói anarquista, trocar a pistola pela guilhotina, mas a imagem que já me parecia insustentável com a enciclopédia na mão esquerda, fica decididamente inimaginável se na direita quisermos colocar a aparatosa guilhotina.

Mas, sob o ponto de vista do valor simbólico, insisto na guilhotina, e quem quiser se apegar à figura romântica desenhe na imaginação um Robot gigantesco portando na mão direita uma guilhotina, e na esquerda a Britânica ou a Barsa. E insisto na guilhotina porque o supremo ideal do anarquista é a decapitação, e não a morte qualquer produzida por uma bala nas partes baixas, ou nas obras mortas do corpo humano. Não foi por mero acaso que nos primórdios da Revolução Francesa o doutor Guillotin inventou a guilhotina, e até submeteu-a à apreciação do rei Luis XVI que tinha pendores para a mecânica e para a serralheria.

Não sei se é apócrifa a anedota; mas a Guilhotina tornou-se uma sólida realidade. E tornou-se o símbolo da democracia liberal que contesta o princípio da autoridade em nome de “virtudes cristãs enlouquecidas”. Autoridade está para a cabeça como a idéia para a imagem ou para o símbolo. Chefe quer dizer “pessoa investida de autoridade”, e quer dizer cabeça. Em francês a primeira e direta significação do termo é a de cabeça: “Le chef de saint Jean-Baptiste...”, e a significação derivada é a de autoridade moral.

E enquanto permanecemos na consideração de termos e de imagens aproveitamos para assinalar o curioso aspecto do ideal democrático baseado no igualitarismo. Não podendo evitar um mínimo de organização social ou de hierarquia, tal regime, para não ser autocrático, tem de ser dirigido por decapitados ou por acéfalos. A segunda solução, ao longo da história, pareceu mais prática e já houve um espirituoso, não me lembra quem, que chegou à fórmula do regime anarco-democrático: um povo de decapitados dirigido por uma dúzia de acéfalos. (continue a ler)

A Igreja do Céu

Gustavo Corção

 

“Em mim reside toda a graça do caminho e da verdade, em mim toda a esperança da vida e da virtude. Sou como a roseira plantada à beira das águas”. Ofertório — Nossa Senhora do Rosário

Vale a pena, nestes meses de outubro e novembro, meditar muitas vêzes na Comunhão dos Santos, e especialmente na intercessão daqueles que povoam a Igreja do Céu; e vale a pena consagrar uma especial atenção ao culto de veneração que devemos à Virgem Santíssima, de cujas mãos recebemos as graças de seu Filho para nossa salvação.

Bem sabemos que os tempos são ingratos para esta forma de piedade, tão católica e tão comprovadamente boa. Quase devemos ter força de mártir se quisermos dizer alguma coisa sobre o nono artigo do Símbolo: “creio na Comunhão dos Santos”, e sobretudo se quisermos meditar aos pés de Nossa Senhora. Ai de nós!, o tempo em que vivemos gaba-se de ser comunitário em todos os sentidos, exceto neste que se refere à Comunhão dos Santos; e gaba-se de ser pacífico e fraterno em todos os sentidos, exceto neste que se refere à nossa Mãe. (Continue a ler)

Mequinho

Gustavo Corção

Um velho enxadrista, que nos seus vinte anos frequentou o Clube de Engenharia e chegou a jogar na primeira turma formada em torno de Caldas Viana, não pode perder a oportunidade de externar seu júbilo e de explicar aos leigos o significativo valor da vitória alcançada por nosso Mequinho num torneio internacional.

 Antes disso, devo duas palavras ao leitor que habitualmente me vê debruçado nas questões que dizem respeito à sorte da civilização e principalmente à sorte eterna das almas. O xadrez é um jogo, um forte exercício mental mas exercício lúdico; seria melhor dizer que o xadrez é uma luta, um combate lúdico, e não um jogo, porque a ideia de jogo sugere sempre um caráter aleatório. No jogo do xadrez a “sorte” só entra como fator acidental concernente ao estado em que se acha o combatente: uma noite bem dormida ou um incidente doméstico podem predispor positiva ou negativamente, e são só essas coisas que constituem a parte aleatória da partida. Na essência mesma do jogo não há nenhum fator alheio ao exercício puramente racional. Não sei se alguém já escreveu dois ou doze volumes sobre a filosofia do xadrez. Escrevo eu esta meia dúzia de linhas para fazer o leitor sentir que se trata de um jogo que bem merece o tratamento que sempre lhe dava mestre Philidor: “le noble jeu d´échecs”; e para salientar a importância do feito de nosso Mequinho: pela primeira vez na história do xadrez do Brasil um brasileiro ingressa no Olimpo dos mestres internacionais do xadrez. E isto acontece na mesma quadra da história em que o Brasil lavrou diversos tentos de desigual valor mas de paralela significação; em 1964 nós vencemos uma densa infiltração comunista já chegada ao poder, com uma elegância dionisíaca só comparável aos passes de Tostão e aos “goals” de Pelé; tornamo-nos depois tricampeões do mundo; vencemos em seguida as insídias do terrorismo e as dificuldades para a arrancada do desenvolvimento econômico. Agora temos mais este sinal de um avanço ou da travessia de uma linha que nos confinava num provincianismo cultural.

Nosso xadrez era até aqui um xadrez de segunda classe. Na belle époque tínhamos um Caldas Viana, que conheci com a majestade de um papa do tabuleiro, autor de uma variante do Ruy Lopes, chamada “variante Rio de Janeiro”. Depois, já no meu tempo de moço, tivemos o Raul de Castro, o Barbosinha, de quem dizíamos pelas caretas que fazia quando planejava suas mirabolantes combinações, que “rocava os olhos”. Tivemos o fulgurante Walter Cruz e o perseverante Mendes Júnior, o último dos velhos que, numa comovente e memorável partida, entregou seu título de campeão do Brasil, que mantinha aos 70 e tantos anos, a um menino de 14 ou 15, que hoje tem o título de Mestre no grande xadrez internacional. E é curioso notar que nossa marginalização vinha do provincianismo em que nos fechávamos. Quando a Segunda Guerra obrigou ao exílio vários mestres enxadristas, o Brasil não soube guardar e aproveitar nenhum deles. Foram para a Argentina e lá formaram um grupo de discípulos que , em pouco tempo, colocou o xadrez argentino muito acima do nosso. Lembro-me bem de um encontro em que o jovem Panno, de 19 ou 20 anos, com terrível facilidade derrubou Walter Cruz, que era então o Campeão do Brasil.

O feito de Mequinho é sinal inequívoco que, ligado aos outros, forma uma constelação de esperanças: o Brasil está saindo do buraco.

Se me perguntarem se vale a pena incluir nas escolas, e até se vale a pena ser campeão de xadrez, ficarei perplexo e indeciso. Evidentemente não é para isto que este planeta privilegiado cobriu-se com essa inquieta e turbulenta camada de lichen racional. Não será esse, evidentemente, o sentido da vida. Estamos aqui de passagem para conquistarmos a palma de uma vitória de outra ordem; estamos no mundo, a correr, a falar, a viver, para o principal objetivo de servir a Deus e aos homens por amor de Deus. Mas o próprio livro da santa e inspirada sabedoria nos diz que há na vida “um tempo para nascer e um tempo para morrer; um tempo para plantar e um tempo para colher; um tempo para chorar e um tempo para rir; um tempo para o gemido e um tempo para a dança; um tempo para se beijarem e um tempo para se afastarem; um tempo para clamar e um tempo para calar; um tempo para rasgar e um tempo para coser; um tempo para amar e um tempo para detestar; um tempo para a guerra e um tempo para a paz”. (Ec 3, 1-8)

Não haverá também um tempo para jogar xadrez? Parece-me que sim. A grande voz dos milênios nos diz que, entre as muitas coisas que os homens devem fazer neste mundo para manifestar, para exigir e provar sua alta estirpe, podemos em hesitação incluir “le noble jeu d´échecs”, que é muitíssimo mais antigo do que o velho Philidor. A fantasia que gosta de ataviar e de zombar da erudição já propôs as mais antigas e variadas origens do jogo de xadrez. Sua origem passeou pelo remoto Oriente e pelo Oriente Próximo, e já foi atribuída, como invenção pessoal, a Sem, Jafé, Salomão, Aristóteles e outros.

As mais sérias pesquisas parecem provar que o xadrez nasceu na Índia. As regras e as peças mudaram ao longo dos séculos, e até hoje, xadrez universal, guarda a marca de variações culturais. Assim é que a peça que em inglês e português se chama Bishop e bispo em espanhol se chama alfil e em francês é fou (no sentido de bobo do rei). Essa peça, que no xadrez moderno tem o mesmo valor do cavalo (em português) e do Knight (em inglês), tem a peculiaridade de se mover permanentemente, fielmente, nas casas de mesma cor. Daí poderá alguém tirar considerações e reflexões irreverentes, quando ponderar a facilidade com que hoje os bispos mudam de cor no xadrez do mundo.

E por falar nisto devo observar que entre nossos jovens jogadores de bom quilate existe um chamado Hélder Câmara, que, certamente é filho ou parente de Gilberto Câmara (irmão ou primo do arcebispo), que foi campeão do Ceará, e com quem, em tempos fabulosamente antigos, tive o prazer de jogar, e de quem mereci, no livro que deixou, Peão na sétima, a publicação de uma partida jogada e empatada com o campeão da Argentina pelo autor destas mal traçadas linhas, que também teve um tempo para jogar com os bispos e tempo para lutar com outros bispos... mas isto é outra história.

Hoje é tempo de aplaudir Mequinho e de esperar o dia em que ele trará para o Brasil o título de Campeão do Mundo.

(O Globo, 20/1/1972)

A tragédia da autoridade

Gustavo Corção

Todos nós sabemos que o mundo moderno está envolvido numa guerra mais mundial, porque mais geral e mais penetrante, do que as duas anteriores. Uma torrente histórica vem de longe, recebendo afluentes, engrossando, para desaguar num estuário de anarquia e desordens com que os visionários pretendem contestar a obra de Deus e dos homens, pretende repelir a ideia de continuação e tradição, e até ousa pretender uma revolução mundial a fim de voltar à estaca zero para a recriação do mundo do homem a partir desse zero, ex nihilo.

Uma das peças essenciais do jogo é o princípio da autoridade que nunca esteve tão molestado e nunca foi tão contestado. E uma das consequências desse estado de coisas é o mau exercício da dita autoridade por todos que dela se acham investidos. Há uma razão profunda na raiz de tamanho mal: a autoridade, em seus variados níveis, é uma exigência da lei natural. Sem essa ideia é impossível a família, é impraticável a Cidade, é impensável uma Civilização.

Por outro lado, há na ideia de autoridade algo que parece soar falso, ou que parece antinatural: como poderemos admitir que um homem se torne rei ou chefe da multidão de homens feito do mesmo barro? A ideia de autoridade aparece logo como antagônica do ideal de igualdade que parece ser uma das metas do dinamismo da história: os séculos trabalham para produzir um nivelamento humano, dizem os vários seguidores do anarquismo revolucionário. A autoridade será então, no dizer deles, uma categoria anti-histórica. O senso comum, ao contrário, nos diz que o sucesso de qualquer obra humana exige unidade de ação, e essa unidade exige que uns mandem e outros obedeçam. Mas o senso comum é a primeira vítima das correntes revolucionárias. E o mundo moderno, desaguador de uma civilização que durante quatro séculos apostou tudo nas revoluções, está aí para nos oferecer uma amostra do que será o próximo mundo cada vez mais moderno, condenado a ser continuamente moderno.

Já se disse mil vezes que a crise de civilização em que estamos imersos é uma crise de autoridade; mas é preciso acrescentar que a crise da autoridade tem dois lados: o primeiro consiste na agressão exterior e na contestação do princípio pelos anarquistas; o segundo consiste no mau exercício da autoridade.

As pessoas investidas de algum superiorato sentem-se vagamente envergonhadas porque uma das coisas mais difíceis para o indivíduo é resistir de algum modo ao empuxo irracional que vem da massa em movimento histórico. E todos pensam que a autoridade será tanto melhor quanto mais benigna e suave, como todos também pensam que, democracia será tanto melhor quanto mais puramente democrática, isto é, quanto menos acentuado é o valor e o prestígio das elites, e quanto mais decapitado o corpo político.

A dificuldade do exercício das mais legítimas autoridades, a do Papa, a de um bispo, a de um abade, a de um pai de família e a de um chefe de Estado, começa na cercadura dos seus mais próximos auxiliares. E o que mais frequentemente se vê, nessa matéria, produz tais deformações, tamanhos disparates, que, em vez de falar na tragédia da autoridade, seria melhor dizer comédia da autoridade. A crise da hierarquia eclesiástica é hoje um dos mais graves e pungentes dramas de nossa história. Desde o papado, onde a suprema autoridade da Igreja é o sucessor de Pedro e, portanto, o “doce Cristo na Terra” como dizia Catarina de Sena, tem-se a penosa impressão de um cerco. Com o pretexto de melhor servir a Igreja, segundo critérios que vê mais dos trovões sísmicos da história do que dos trovões do Sinai, muitos bispos se levantaram para diminuir a autoridade do Papa, para contestar o primado de Pedro, ou para colocá-lo numa espécie de presidência, no mesmo nível do colegiado de Bispos.

Além disso há a cercadura, os assessores, os secretários, os peritos, que se movem em torno do Cristo-na-Terra pomposamente crucificado, como em torno da Cruz primeira se moviam os soldados romanos, os curiosos, enquanto junto à cruz se imobilizada Stabat, a Mãe de Deus, Mãe da Igreja, Mãe dos homens.

***

E de onde vem o fermento de des-Ordem que corrói no mundo todas as formas de autoridade? Respondo a essa interrogação com as palavras de São Pio X, que deveria ser considerado o patrono de todas as legítimas autoridades, porque soube levar a sua a um grau heroico.

“Poderá alguém ignorar a doença grave e profunda que neste momento, mais do que nunca, mina as entranhas da sociedade, e dia a dia se agrava corroendo-a até a medula e arrastando-a à ruína total? Essa doença, que bem conheceis, é a atitude do homem diante de Deus: é o abandono, a apostasia (dos mais próximos e é a soberba e insensata indiferença de muitos), mas nós não duvidamos da palavra do profeta (Sl 72, 27): ‘Eis que perecerão todos os que se afastarem de Vós...’”

É o afastamento de Deus, que a parte do mundo mais cristianizada vem operando há quatro séculos, que torna absurda e inaceitável a ideia da autoridade, porque todas as situações humanas de superiorato só têm sentido, e só encontram verdadeiro apoio, não na confusa e irracional “vontade geral”, mas no temor de Deus que é o modelo perfeito de todas as autoridades. Na verdade – agora compreendemos melhor – toda a corrente revolucionária, que quer destruir o passado de pedra em favor de um futuro de névoa, é uma corrente parricida.

Dentro dela, as instituições de direito divino, como o Episcopado, oscilam, vacilam e dão espetáculos derrisórios de desmoralização da autoridade, de dentro para fora, deixando abandonado à perplexidade e às lágrimas o povo humilde dos fiéis que, em lugar da figura de um Pai, veem frequentemente um burocrata, quando não veem um acrobata ou uma vedeta.

(O Globo, 10/2/72)

A falsa bondade

Gustavo Corção

Quando hoje percorremos, já com fastio, as páginas dos novos catecismos, ou dos novos livros escritos e ilustrados à sombra da frondosa pastoral catequética, a impressão dominante que logo nos assalta é a de uma açucarada e viscosa falsificação da bondade produzida pela tenebrosa estupidez, ou pela mais tenebrosa perversidade dos "novos" que aos borbotões se desprendem todos os dias da verdadeira Igreja, una, santa, católica etc, em demanda de outra mais tolerante, e por isso apontada como mais bondosa do que a Igreja de Jesus Cristo e dos Santos que imitaram seu áspero e difícil exemplo.

Seria mais exato dizer que essa edulcoração e esse amolecimento dos valores formam uma espécie de peste rósea que atingiu o mundo, a começar pela civilização ocidental em processo de crepuscular decadência e de desintegração. À Igreja caberiam o alarma e a lição do revigoramento, mas para nosso maior sofrimento, e para imprevisíveis e inimagináveis sofrimentos de nossos filhos e netos, processou-se neste mesmo glorioso século a maior e mais grave trahison des clercs e é na Igreja-egrediente (por derrisão chamada de "progressista") que se notam as mais espantosas e repugnantes falsificações de tudo, a começar pela falsificação do amor, feita num tom infinitamente repugnante que lembra as vozes das prostitutas do princípio do século, que atrás das rótulas chamavam os pedestres: "entra simpático!"

Nos tempos de Pio X, quando foi preciso opor uma severa condenação aos abusos do Sillon, pôde o grande e santo pontífice dizer aos desgarrados que se perdiam "levados por um mal norteado amor pelos fracos", porque nesse tempo o mundo católico ainda guardava a ressonância da doutrina dos dois amores que desde a Didaqué ilumina a cristandade. Nos tempos que correm espalhou-se pelo mundo a pestilencial doutrina de que qualquer sentimento meloso merece o mesmo nome de amor.

No mesmo limiar deste dolente e amolecido século, ainda podia um Marcel Proust fazer a belíssima evocação de figuras humanas marcadas pelo "visage antipathique et sublime de la vraie bonté". Anos antes, a pequenina Bernardette, que trouxe toda a vida estampada em sua figura o reflexo da Virgem Santíssima, e que sempre se destacou das irmãs por ser la plus petite, teve um temporário cargo de vigilância e superiorato na enfermaria. Sua função, que cumpriu irrepreensívelmente, era a de observar que fossem bem cumpridas as recomendações do médico e da superiora. Um dia, entrando na enfermaria, viu uma das irmãs sentada numa cadeira a ler um livro de piedade. Surpreendida em falta, desculpou-se dizendo que se sentia muito bem e que se levantara para ler melhor o livro piedoso. E Bernardette, instantaneamente: "Onde é que se viu piedade cosida com linha de desobediência?"

Hoje vão-se tornando inacreditáveis ou incompreensíveis todas as frases de gênios e de santos porque o mundo inteiro parece acometido de uma hepatite espiritual, e os homens se tornam cada dia mais fracos, ou "flacos" como diria Oswald de Andrade.

Em famosa alocução, já no seu tempo, Pio XII queixava-se dos afrouxamentos e temia sobretudo "o cansaço dos bons". Hoje seria o caso de temer não apenas o cansaço, mas o amolecimento e a transfiguração da fraqueza, da omissão, de todas as tolerâncias em nova virtude que vem substituir a "antipática e sublime" virtude da força moral que hoje só se vê nos fioretti dos santos e nos retratos antigos.

Além disso convém notar que a pomada de nova bondade que envaselina o planeta tem uma característica muito especial: cada um fabrica a sua, graduando-lhe a viscosidade e especificando-lhe o cheiro. O que importa, nessas campanhas de mãos, pés e demais partes do corpo estendidas, sim, o que importa soberanamente nesse afã de ver em toda a parte fragmentos do Evangelho, boa-vontade, humanismo e interesse pela pessoa humana, é o completo e límpido desprezo pela vontade de Deus.

* * *

Já observei que em todos os chamados "catecismos" munidos de todas as aprovações eclesiásticas comparecem arquétipos da nova idade do mundo, e nunca faltam Luther King e o astronauta. A presença constante do astronauta se explica pela infinita estupidez de alguns homens de Igreja que acham muito mais maravilhosa a ida do homem à Lua do que a vinda do Filho de Deus à Terra. Quanto à obsessão em torno de Luther King confesso que não atinei com nenhuma explicação plausível, nem cheguei a encontrar uma pista. Qual será o denominador comum, a afinidade? Não sei.

Sei que nós outros, católicos, temos uma maravilhosa coleção de heróis da santidade. Falei atrás em Bernardette, a menina que viu a Virgem Santíssima. Essa menina é sem dúvida possível um dos mais belos exemplos da humanidade. Sua força, disfarçada pela pequenez e pela asma, chega aos mais altos níveis do heroísmo. sua personalidade tem a riqueza e a dureza de um diamante. Suas respostas admiráveis são cintilações de um coração que já é fácil e diretamente movido pelos Dons. Pois bem, no último catecismo caído da frondosa pastoral catequética, a propósito de variedades temperamentais, Bernardette é dita "caráter amorfo".

Na verdade, o que esses autores não conseguem esconder é a sua profunda aversão pela santidade. Certamente lhes parece, a todos esses fabricantes de pomadas, duras demais, não-somente a palavra referente ao pão da vida, mas todas as palavras de Deus.

(O Globo, 4/3/72)

A independência do Brasil

Gustavo Corção

A independência das nações não pode ser definida nem medida em termos de autossuficiência econômica. Sendo uma categoria antes de tudo política, e portanto moral, a independência de uma nação consiste na sua autonomia política como nação, na consciência nacional dessa autonomia, e, para ser efetiva, no reconhecimento pacífico dessa autonomia pelas outras nações, e principalmente por aquelas a que anteriormente estava vinculada essa nação.

No vocabulário da moderna civilização, marcada pelo funesto princípio da vital inimizade entre os homens, de Hobbes a Marx, essa autonomia das nações é enfaticamente chamada de soberania. Este termo vem carregado de uma espécie de macroegoísmo, que é a característica principal da civilização nascida do humanismo renascentista e protestante, que já anunciava, há quatro séculos, a revolta idolátrica da anti-Igreja que hoje adora um bizarro bonzo chamado Homem Moderno.

Por paradoxo, essa mesma filosofia política que exalta as “soberanias” nacionais, a partir de uma “descoberta do Homem”, obscurece a lei natural que pede o concurso e a convergência de todas as nações no bem comum mundial.

E a partir dessas considerações cabe a pergunta: será sempre um bem, para a própria nação e para o mundo, a sua independência? A essa pergunta responderemos tranquilamente contra toda a onda desencadeada pelas esquerdas e concentradas no vácuo chamado ONU. A independência, como processo de consciência e afirmação de maioridade, pede toda uma constelação de condições, e só se reduz a um lema de brutal simplificação nos momentos históricos marcados pela estupidificação.

Parece-me claro que, para a mais bela manifestação da grande aventura humana neste mundo, Deus quer a diferenciação de nações, como quer a variedade de rosas e de pássaros. Nessa variedade, cada grupo nacional terá uma missão, uma vocação, um papel especial, um especial timbre da mesma grande voz. Mas eu creio que há nações que indubitavelmente se constituem para esse testemunho do homem, e para esse louvor de Deus, enquanto outras há que nasceram ao acaso, e ao acaso dos ventos se desfizeram. O frenesi anticolonialista é indubitavelmente uma das muitas asneiras de nosso bravo século; mas o reconhecimento do valor e do papel transcendente das nações autônomas é lema da mais sábia filosofia.

No caso do Brasil parece-me transluminosamente clara a glória de sua independência, e a mim me parece mais clara essa evidência por duas razões principais, uma que está na origem histórica, cujos 150 anos agora festejamos, e outra que está no desenrolar da nossa história, e principalmente na atualíssima proclamação que vale por uma confirmação profunda de nossa verdadeira independência.

A primeira razão reside na feição singularmente pacífica e continuadora, que deu à nossa maioridade um caráter único no continente. Devo declarar, para desfazer qualquer equívoco, que não pertenço à família espiritual dos que se molestam por esse caráter de continuidade luso-brasileira de nossa independência, e muito menos dos que se entusiasmam com as influência do iluminismo e do revolucionarismo produzidos pelo século XVIII, que, para meus parentes espirituais, foi o menor dos séculos, a despeito dos seus “filósofos”, enciclopedistas e revolucionários; ou foi o mais chato dos séculos precisamente por causa desses “filósofos” e de todos os pedantíssimos iluminados. Não me aquece o sangue a ideia de ter sido Pedro I pressionado pelos que daqueles iluminismos se inspiravam; antes o aquece a ideia de descendermos de Nuno Álvares Pereira.

É digno de nota o fato de terem sido nobremente ponderadas e pacíficas as independências dos dois grandes países americanos. Se é verdade que os norte-americanos tinham queixas sérias da metrópole, não é menos verdade que souberam exprimir sua Declaração de Independência nos mais sóbrios e serenos termos: “Quando, no curso dos acontecimentos humanos, sente-se um povo compelido a dissolver os laços políticos  que o ligavam a outro povo, e a assumir, entre as várias nações do mundo, uma independente e igualada situação, à qual tem direito pelas leis da natureza e pela lei de Deus, um decente respeito pela opinião de toda a humanidade exige que esse povo declare as causas que o compelem à independência.”

A independência do Brasil, por suas razões profundas e a despeito de todas as intrigas com que se tecem as histórias superficiais dos povos, foi a transmissão de um legado, e só merece ser hoje comemorada festivamente se esse legado foi dignamente cumprido. Ora, é aqui que cabe inserir a segunda razão que concorre para nos rejubilarmos especialmente nesta Semana da Pátria de 1972

***

Hoje o Brasil, graças ao movimento de 64, emancipou-se do mais cruel e estúpido imperialismo: o da ideologia revolucionária que, no mundo inteiro, inebria os “intelectuais” e envenena as fontes de informação. Sim, o que está poluído – como gritou o doutor Thomas Stockmann, no “Inimigo do Povo” de Ibsen – não é o ar que respiramos, nem são as fontes d´água que bebemos, é antes a trama de informações e o sistema de comunicações da civilização em agonia. E dentro deste envoltório o Brasil deu ao mundo inteiro uma lição de real independência. Resistindo à mais volumosa e eficiente cadeia de calúnias e pressões, o Brasil de hoje repeliu os adversários de sua vocação e proclamou, ou melhor, confirmou gloriosamente seus cento e cinquenta anos de independência. O Brasil será um baluarte dos valores cristãos, ou não será o Brasil. Rezemos a Deus pedindo que nossos governantes, a tempo e contratempo, e a despeito das dificuldades criadas por alguns bispos e arcebispos, persevere na defesa dos valores humanos e divinos, e corajosamente mantenha e amplie sua independência.

(O Globo, 7/9/72)

"Acaso eram eles mais pecadores do que vós?"

-- E logo nas vésperas de Natal! Murmurou a meu lado alguém. O jornal escancarava a notícia: TERREMOTO EM MANÁGUA. E os mortos e feridos já empilhados em cifras, amortalhados para as estatísticas. Na família reunida para a noite feliz houve um silêncio e passou um frêmito, como na história da Morte da Máscara Vermelha, de Edgard Poe. Cada um de nós sentia a presença da Intrusa, que não fora convidada, e que não era da família porque família se define por casamentos e nascimentos, e não por falecimentos. A Intrusa, que rejeitamos com o instinto e com a Fé, estava ali a nos espionar. Ou a trazer algum recado?

Em menos de um mês tivemos cortada, esmagada contra um poste, uma vida maravilhosamente bela e generosa que saíra de casa para fazer compras, isto é, para amamentar a família enorme. No dia seguinte, na mesma rua, quase na mesma hora, outra vida em flor era pisada pelo mesmo e mais mortífero dos inventos de que se gabam os homens, e com que sonham os moços. Há estatísticas que provam e dão ao fato brutal a auréola dos algarismos: acima das guerras, das calamidades, e de qualquer doença, o mais mortífero engenho é esse lustroso brinquedo de quatro rodas com que os homens de nosso tempo graduam as importâncias sociais.

Nesta mesma quinzena ou vintena desaba o supermercado que ainda fizera o favor de avisar a catástrofe com uma miniatura de terremoto. Em vão. Os homens deste século de ida à Lua estão seguros de si a multiplicar as torres de Babel. Nesse entretempo, aqui e ali, pingam da estratosfera aviões maravilhosamente modernos, com suas máquinas perfeitas, seus passageiros muito cônscios do século XX e suas aeromoças sequestradas pela necessidade para o serviço do otimismo universal.

A intrusa está ali a querer também seu presente de Natal, e nós a sentimos dentro de nós, mal escondida. De vez em quando, como feto de cinco meses, ela se mexe dentro de nós, e nossa atenção, fugazmente desviada do circo e da máquina do mundo, enverga-se sobre si mesma e ausculta-se. Passou? Passou. Ela se encolhe e a atenção abre as janelas para o variado e divertido espetáculo do fim do ano. Os orgulhosos vivos, sem se sentirem grávidos da própria mortal fragilidade, passam a pé, ou nos automóveis, todos com a mesma fundamental convicção: o chão é o chão, sólido, constante, antigo, eterno. A terra é a terra, regaço de rochas com que se pode contar, e em que nem precisamos pensar. Ela está ali “Elle est lá”, dizia Claudel pensando naquela que estava “stabat” ao pé da cruz. Mas nós somos filhos de duas mães, uma que nos quer inteiros, e outra que nos quer dilacerados...

Passou? Passou. E a atenção abre as janelas. Mas desta vez é da própria janela, como um mau hálito, que entra o bafo da morte de um supermercado inteiro. Ele estava pousado sobre o chão, firmado na terra, e de repente a terra mesma o rejeita, o enjeita. E agora, Santo Deus! é uma cidade que se agita numa dança macabra em cima de um chão enlouquecido. Trinta mil mortos. Duzentos mil feridos. E logo os elementos que o homem julgara domesticados entram na conjuração: a água inunda, o fogo cresta, o ar sufoca, e a terra mastiga os seus filhos. Como retornar agora o ritmo do “otimismo” que hoje no mundo católico é uma virtude teologal? É só fechar a janela, dobrar o jornal, e recomeçar a festa do príncipe Próspero. Vem-me à lembrança o que escrevi em Dois Amores, Duas Cidades (vol. II, pág. 297): “Foi nos princípios do século XVIII que surgiu a filosofia e o vocábulo “otimismo”. Todo o ocidente, inebriado de iluminismo, e da convicção de viver no Grand Siècle, num curioso e sinistro paradoxo, diminuía o homem e aumentava a confiança no homem, acinzentava os horizontes e sorria para nesgas de um azul imaginário. Foi o terremoto de Lisboa em 1755 que soou na Europa como um despertador. Voltaire esfrega os olhos e começa a desconfiar que sonhou.

Em Candide, Cacambo pergunta o que é otimismo. – Helás! Diz Candide, c´est la rage de soutenir que tout est bien quand tout est mal.1

Aquele terremoto foi efetivamente mais do que uma catástrofe física, foi um escândalo cultural que vinha mostrar “em pleno século XVIII” que o homem é apenas homem, e apenas um pouco mais forte do que as moscas. Aliás, em caso de terremoto, torna-se até mais fraco, porque as moscas dependem menos da firmeza do chão.

Mais perto de nós, em 1936, outra crise de otimismo correu o mundo e a França, em noitadas de prazer com o Front Populaire, descarregava no humor trágico toda sua insouciance e cantava, à beira dos abismos: “Tout va três bien Madame la Marquise”.

Agora, nesta cômica “era pós-conciliar”, ou “era espacial”, ou “era da imagem” ou “era do já era”, novo ataque de estupidez entra na história com as cores rosadas do otimismo. Vemos com pavor acumularem-se as provas de soberba do homem que pomposamente e pedantemente recusa o senhorio de Deus.

Será tudo isto um castigo de Deus? – perguntou-me uma filha.

Não pertenço ao grupo espiritual dos que imediatamente, horrorizados, repeliriam a idéia de um castigo divino; mas no caso prefiro pensar no terrível mistério da permissão divina, e decididamente prefiro ouvir a lição que Jesus nos deixou para tais casos. Quando chegaram diversos com a horrorosa notícia das violências praticadas por soldados romanos contra os galileus, cujo sangue Pilatos assim misturava ao do sacrifício que faziam (Lc 13, 1). Jesus – para desespero dos atuais teólogos da Revolução – sem dar nenhuma resposta ao aspecto do odioso abuso imperialista, sem parecer sequer ter ouvido este aspecto do acontecimento, dá aos recém-vindos uma resposta desconcertante que vai diretamente ao centro da questão, isto é, daquilo em razão de que se encarnou por obra do Espírito Santo, nasceu de Maria Virgem e padecerá sob Pôncio Pilatos, por nós homens, e para nossa salvação.

Nesta vigília de Natal pareceu-me ouvir o Menino Jesus repetir: -- Acaso eram as vítimas de Manágua mais pecadores do que vós? Digo-vos eu que não. Acaso eram mais pecadores do que vós os dezoito esmagados na queda da torre de Siloé? (...) Digo-vos que não e que, se não fizerdes penitência, todos perecereis...” E em outros textos: “Vigiai e orai porque não sabeis a hora.”

(O Globo, 28/12/1972)

  1. 1. Ai de mim! É a raiva de sustentar que tudo vai bem quando tudo vai mal. (N. da P.)

Para que existem as nações

Gustavo Corção

Andei estes dias pensando no problema do um e do múltiplo que divide as filosofias e as mentalidades. Nas filosofias de inspiração nominalista, infensas às idéias universais, predomina a tendência de valorizar a diversidade; nas filosofias de inspiração aristotélico-tomista, ao contrário, ensina-se que a perfeição de uma coisa deve ser procurada na sua maior unidade, desde que saibamos distinguir entre unidade vista do lado da forma e uniformidade tomada do lado da matéria.

É errado, e meio tolo, atribuir à diversidade, ao pluralismo, um título de nobreza, e dizer, como diz o professor Anísio Teixeira, que uma sociedade se torna mais evoluída na medida em que se torna mais complexa e mais diferenciada. Chega a dizer que haveria vantagem, para o Brasil, se em lugar da predominância católica nós tivéssemos uma solução maior, um estoque mais variado de credos. Ora, parece-nos fácil provar a falta de consistência de tal opinião. Afirmando o que afirma, o conhecido autor de livros sobre pedagogia professa, simplesmente, um total ceticismo religioso, e deseja a diversidade dos credos como se nenhum deles pretendesse conter verdades, e de fato as contivesse. Duvidamos que o professor Anísio Teixeira desejasse para o Brasil, para o desenvolvimento, para a emancipação econômica e cultural do Brasil, um pluralismo científico, uma diversidade de opiniões a respeito do funcionamento do fígado, das causas do câncer, e das propriedades do triângulo retângulo. É claro, amigo leitor, que também nós desejamos o pluralismo no campo do direito de pesquisar, mas é claríssimo que só diremos que há progresso científico na proporção em que se unificam os conhecimentos e as opiniões.

Há entretanto certas diversidades que têm uma significação de riqueza e de perfeição, além daquela que tem o título precário de direito de pesquisa. A variedade de indivíduos concretos dentro de uma espécie, a variedade das rosas, por exemplo, é uma riqueza, é, digamos assim, um belo esforço que as existências concretas realizam para exprimir o conteúdo total de uma essência. Para conhecer um pouco o que é uma rosa, qual é o pensamento de Deus que ganha corpo na rainha das flores, é preciso ter visto muitas pétalas, muitos matizes, muitas raças diferentes do mesmo sonho divino. A diversidade aí é um discurso, é um poema que se estende para com muitas palavras dizer uma coisa. No fundo da questão como se vê, há sempre o primado da unidade, mas no caso que tomamos como exemplo a diversidade não tem o sentido melancólico, amargo, que tem o da diversidade de opiniões toleradas enquanto não se acha a verdade única de uma coisa. E o que disse da rosa vale também para o homem. A perfeição da humanidade-essência se realiza na humanidade-existência. A riqueza da idéia “homem”, que Deus concebeu e criou, não cabe num só individuo, não se esgota no mais belo, no mais talentoso dos homens. Foi preciso deixar a história correr. Foi preciso deixar nascer um Mozart, um Gauss, uma Catarina de Sena, um Paulo de Tarso, um Einstein, e muitos outros exemplares mais obscuros, foi preciso deixar nascer o rapaz que dias atrás me contava que não aceitara um trabalho com o triplo de sua remuneração atual, porque precisava fazer certas coisas que sua consciência desaconselhava, foi preciso multiplicarem-se os talentos, as inclinações, as vocações, as nomeações de Deus, para que a vasta multidão, numa espécie de longo e ardoroso discurso, explicasse aos astros, aos anjos, a toda a criação, o que é este ser espantoso, absurdo, incongruente, maravilhoso, que um deles definiu como “animal racional”. A definição essencial é breve, mas a explanação, para corresponder à profundidade de tão singela definição, teve de ser extensa como a história da humanidade.

Essa diversidade, que é uma explicação, uma demonstração prática e existencial de uma natureza definida por uma fórmula universal – essa diversidade que pertence à didática de Deus, é boa, é excelente, e nem sequer representa uma tolerância, uma expectativa, um alargamento à espera de uma unidade maior. Não. A diversidade da multiplicação de indivíduos da mesma espécie, ao mesmo tempo que dilata os limites da definição, fortifica os vínculos da unidade interna da coisa. Ao contrário do que pensa o nominalista, nós sentimos ainda mais forte a unidade de natureza humana quando passeamos pelo imenso jardim onde nasceram e desabrocharam as flores da humanidade. Cada vez mais entendemos, sentimos, penetramos a idéia de um ser que pelo gênero pertence à animalidade e pela espécie pertence à racionalidade.

E o que dizemos para os homens diremos também para as nações. A variedade delas é uma riqueza, desde que seja vista naquela perspectiva que enriquece e fortifica a unidade. Para que existem as nações? Para si mesmas? Para serem poderosas potências armadas e engenhos mortíferos e enfeitadas com bandeiras e hinos? Para serem temas de discursos? Para trazerem cores diversas à cartografia, e tornarem as etapas mais agradáveis? Para que existirá o Brasil? Para o sr. Negrão de Lima ser embaixador dele em outra nação que por sua vez manda embaixadores para o Brasil? Existirá o Brasil, como nação, como pátria, para as crianças de colégio fazerem composições patrióticas, e para os construtores de Brasília se encherem de lucro à custa da mesma idéia ensinada nos colégios? Existirá para o hino, para a bandeira?

Parece-nos claro que, se fosse para tais serventias, melhor seria que houvesse um só país, falando uma só língua. A transcendental utilidade, a finalidade das nações tem de ser procurada mais alto e na mesma direção em que se explica a diversidade dos homens. Além da variedade de pessoa para pessoa, a idéia de homem, pensada e criada por Deus, precisa da variedade de grupos. Existem nações com timbres culturais diferentes, como existem instrumentos diversos da mesma sinfonia. E cada nação trás ao mundo a contribuição preciosa de um timbre, de um matiz, de um odor que compõe a grande apoteose do plano de Deus, no centro da qual está a Cruz do Salvador como grande síntese do pensamento de Deus sobre o Homem, ou melhor, do pensamento de Deus tornado Homem.

Em palavras mais frias diremos que as nações têm vocações diversas na partitura, e idênticas no objetivo final que é a glória de Deus e a exposição universal das obras e feitos do homem, que se completará no dia do juízo final. Por aí se vê que as nações, não só para as trocas imediatas de utilidades, existem, umas para outras numa grande e essencial solidariedade. E é nessa perspectiva que deveriam ser armados todos os problemas nacionais, e não na mesquinha e tola perspectiva do egoísmo coletivo que faz da nação um fim em si mesma.

E qual será, nessa ordem de idéias, a razão de ser do Brasil? Qual será a vocação coletiva, a vocação nacional deste povo que anda perplexo, tonto, sem saber o que fazer de seu imenso território, e sem o tipo de almas que aqui vive, trabalha, canta, chora e ri. E ri, e chora, com um sotaque espiritual diferente dos outros povos. E dança como o francês ou o russo não sabem dançar. Dizem que o Garrincha, assistindo um jogo dos russos, sorria com ar de certa superioridade, e quando lhe perguntaram se não estava com medo do treinadíssimo time soviético, respondeu: -- “Não. Eles são duros de cadeiras.” E era verdade. Eles não tinham os requebros de nossa astúcia física, a flexibilidade de nossa graça felina, certamente serão duros de cadeiras em muitas outras coisas em que somos graciosos e ágeis.

A verdade manda confessar que, fora do futebol, pouca coisa trouxemos para a tal apoteose da essência humana. Qual será a riqueza de que estamos incumbidos? Qual será a partitura que devemos executar no maravilhoso concerto que tem por ouvintes as hierarquias dos anjos?

Por mais insensato que possa parecer tal idéia aos que vivem estudando os chamados problemas brasileiros, é nesta perspectiva profética, teológica, metafísica, que deveriam estar situados todas as pesquisas. Há problemas imediatos, como o socorro devido às vítimas do nordeste, mas há o grau de problema da vocação, da direção geral, que anda esquecido, ou que está sob a ameaça de uma trágica apostasia. E aqui – deixando para outro dia a continuação desta louca conversa – ouso dizer o que penso de um Brasil que trai a sua vocação e que se desvia dos caminhos de Deus. Rasguem as vestes os fariseus do nacionalismo materialista (aliás outro não há), dêem-me os títulos que quiserem: ouso dizer que prefiro vê-lo apagado do mapa, afundado na terra, tragado pelo mar, do que vê-lo instalado num desenvolvimento que nem sequer trás a felicidade material, animal, das multidões, e que volta as costas ao chamamento de Deus e à esperança dos homens.

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