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Pe. Theotime de S. Just
O primeiro dever dos fiéis para ajudar a restauração social católica é, sobretudo, fazer reinar Jesus Cristo em suas mentes por meio da instrução religiosa.
“A única esperança de nossa regeneração social”, diz o Cardeal Pie, “repousa no estudo da religião... o primeiro passo de volta para a paz e a felicidade será “o retorno à ciência do catolicismo.”
O cardeal insiste neste ponto que lhe parece essencial porque, aos seus olhos, o renascimento social católico da França está intimamente ligado ao renascimento catequético. Em quatro sermões pregados na catedral de Chartres, explicou longamente aos fiéis a importância do estudo da religião e lhes indicou o método a ser empregado neste estudo.
Estes sermões do jovem vigário da catedral de Chartres, dados em 1840, são de uma atualidade marcante, e não conhecemos nada de mais claro e persuasivo. Ao relê-los, todos os fiéis serão fortemente encorajados a dar à instrução religiosa o primeiro lugar em suas vidas.
Como não ser tocado por palavras tão verdadeiras e fortes?
"Afastar o espírito da verdade e se tornar indiferente a ela, é precisamente o crime que Deus castigará com maior severidade e justiça... É evidente que a mera ignorância voluntária da religião é, em si mesmo, um crime digno de morte, porque contém desprezo por Deus e o desejo de "escapar de sua mão todo-poderosa.’’
Essa sólida instrução religiosa exigida dos fiéis deve ser para eles o alimento de uma fé integral e completa e, para o Cardeal Pie, a fé completa, a única e verdadeira fé, é aquela que não apenas afirma a Divindade e a Humanidade de Jesus Cristo, mas também proclama a sua Realeza Social.
Ouçamo-lo comentar uma passagem de S. Gregório aos fiéis, e respondendo assim aos católicos dos nossos dias, imbuídos de falsas ideias modernas.
“Irmãos, vós me dizeis que vossa consciência está tranquila. Ao mesmo tempo em que aderis ao programa do catolicismo liberal, pretendeis permanecer ortodoxos, uma vez que acreditais firmemente na divindade e na humanidade de Jesus Cristo, o que é suficiente para que vosso cristianismo seja inatacável. Pensai de novo. Desde o tempo de São Gregório havia hereges, nonnulli haeretici acreditavam nessas duas verdades, como vós, e sua "heresia" consistia em não querer reconhecer uma realeza estendendo-se a tudo para esse Deus feito homem: sed hunc ubique regnare nequaquam credunt.
“Não, não sois irrepreensíveis em vossa fé; e o Papa São Gregório, mais enérgico que o Syllabus, acusa-vos de heresia se sois daqueles que, tendo como dever oferecer o incenso a Jesus, não querem lhe oferecer também o ouro; em outras palavras, se não quiserdes reconhecer e proclamar a sua realeza social.”
Assim, se querem ter um “catolicismo inatacável” e permanecerem “irrepreensíveis em sua fé”, se querem ser contados entre os fiéis e não entre os heréticos, os católicos devem crer firmemente que Jesus Cristo deve reinar sobre as instituições sociais, penetrando-as com seu espírito e tornando sua legislação consistente com as leis de seu Evangelho e de sua Igreja.
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Esta fé na realeza social de Cristo deve, antes de tudo, vivificar a família católica, submetendo-a perfeitamente ao Divino Rei. O Cardeal Pie, Doutor do Reinado Social, mostrou como Nosso Senhor quer reinar sobre os lares cristãos. Ele fez isso em 1854, na carta sinodal dos Padres do Concílio de Rochelle, inserida em suas obras. Citemos as principais passagens. É uma magnífica pintura da família católica:
“Na linguagem de São Paulo, cada casa é um santuário. Que ali encontremos a Cruz de Jesus Cristo, que é o sinal de toda família católica, e que a imagem de Maria, a Mãe de Deus e nossa mãe, seja inseparável do crucifixo! Que a água benta e o ramo bento protejam a morada contra as ciladas do inimigo; que a vela da Candelária seja ali mantida para ser acesa nos instantes de perigo, bem como na hora da agonia e da morte. Ah! nossos pais possuíam o segredo dessa vida plenamente católica, na qual a religião tinha seu lugar marcado em todas as coisas. A refeição era santificada pela bênção que o chefe da família recitava. Três vezes por dia, quando o bronze sagrado ressoava no alto do campanário paroquial, cada um suspendia a sua tarefa e invocava com amor a Virgem que deu ao mundo o Verbo feito carne. No limite da propriedade havia uma cruz, que o trabalhador saudava piedosamente ao passar. Ainda se encontravam momentos durante o dia para se rezar o rosário, ler algumas páginas de um livro de família com os principais fatos dos dois Testamentos e as mais belas páginas da vida dos santos.A mãe de família não julgava ter cumprido todos os seus deveres religiosos antes de ter explicado aos seus filhos e empregados algum artigo da doutrina cristã. Se o toque fúnebre anunciava alguma morte, todos os irmãos em Cristo do falecido apressavam-se a conceder-lhe os benefícios de seus sufrágios; e o culto dos mortos, hoje tão negligenciado, propagava-se por vários testemunhos e práticas que jamais recordaríamos com demasiada. Finalmente, quando o último raio do dia reconduzia família dispersa ao redor da lareira, como era tocante ver velhos e crianças, patrões e criados ajoelhados diante das santas imagens, confundindo na mesma oração as suas vozes e o seu amor!
“Esses costumes piedosos atraíam à terra as bênçãos do céu; enobreciam o lar, santificavam-no, e projetavam na sociedade algo de sério, algo de digno, algo que, juntamente com a unidade dos dogmas da fé, mantinha a inocência nas almas e a união das vontades. Que nós possamos reviver esses comoventes hábitos dos tempos católicos”
Uma vida familiar tão bela não saberá se manter por muito tempo sob o cetro do Rei Jesus se a educação das crianças não for profundamente cristã. Nós não podemos resumir aqui todos os ensinamentos do Cardeal Pie sobre esse assunto. Assinalemos ao menos a insistência com que recorda aos pais que não podem enviar os seus filhos para escolas ateístas ou ainda simplesmente indiferentes. Ouçamo-lo, fazendo suas as palavras de São João Crisóstomo:
“O crime dos pais que mandam os filhos para tais escolas é mais atroz do que o infanticídio, patres parricidis ipsis crudeliores. Seria menos cruel pegar a espada e cravá-la no peito dessa vítima inocente. O crime do pai não tornaria a criança culpada, apenas separaria a sua alma de seu corpo; ao passo que, entregando no presente o corpo e a alma da criança ao inferno, ela carregará o inferno consigo por toda a vida para depois ser precipitada no fogo eterno.”
Este texto refere-se à escola abertamente má. Mas a escola neutra ou indiferente é referida diretamente na passagem seguinte:
“Mandar os filhos para um lar onde a religião de nada vale é um pensamento que faz estremecer, e é esse, segundo São João Crisóstomo, o crime de muitos pais. Se os informássemos que a peste está na cidade onde residem seus filhos, eles não encontrariam palavras para nos agradecer. Mas quando uma praga mil vezes mais terrível penetrou em toda a parte, o nosso conselho é acusado de indiscrição, isso se não formos arrolados entre os inimigos da paz pública.”
Se os pais souberem impor-se sacrifícios para afastar seus filhos da educação sem Deus, Jesus Cristo será verdadeira e para sempre o Rei das famílias.
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A fé na Realeza social de Cristo se irradiará para fora da família pela prática pública da religião cristã. Isto é, ao se demonstrar a todos que Cristo deve dirigir os atos públicos do católico, bem como os seus atos individuais e domésticos.
A religião católica é uma religião pública e os fiéis são obrigados a praticá-la abertamente. O Cardeal Pie percebeu que este carácter público da religião era justamente o caminho normal para o reinado social de Jesus Cristo, e recordou instantemente aos fiéis a necessidade do culto público e do que ele impõe.
Possuímos três sermões dele sobre a santificação do domingo, os quais mais tarde foram desenvolvidos e se tornaram duas magníficas instruções pastorais sobre o preceito dominical, que ele chamava de a obra-prima da legislação social.
Temos várias instruções suas sobre a missa, o sacrifício público da religião católica.
Sobre a liturgia, que é o conjunto do culto público, encontramos nas obras do Bispo de Poitiers uma série de instruções que formariam um volume precioso em si mesmo. Ele tampouco se esqueceu de tratar da observância da lei quadragesimal que, para a felicidade dos povos, tinha anteriormente um carácter eminentemente social. Outra manifestação pública de fé, a peregrinação, foi estudada por ele cuidadosamente.
Esta rápida enumeração das práticas externas e públicas da religião mostra-nos o quanto o grande bispo queria que os fiéis estivessem conscientes da sua importância e do seu elevado significado social.
Finalmente, numa magnífica instrução pastoral sobre a obrigação de confessar publicamente a fé católica, o Cardeal Pie mostra que os fiéis não apenas devem associar-se ostensivamente ao culto, mas também agir como católicos em toda a sua conduta pública.
Depois de ter estabelecido pela Escritura a necessidade rigorosa de não se envergonhar de Jesus Cristo diante dos homens, depois de ter recordado sem ambiguidade, com São João, que os "timoratos" que não ousarem confessar a sua fé terão o mesmo destino dos que não creem, e que a parte a que terão direito será o lago de fogo. «Timidis autem et incredulis, pars illorum erit in stagna ardenti» (Ap 21 ,8), o Cardeal Pie refuta a objeção que a covardia, infelizmente, coloca hoje em dia nos lábios de quase toda a gente. Aqui está:
“O ambiente em que tenho de viver não é católico, diz o timorato; agir como católico chamaria a atenção e contrastaria com os demais, poderia até suscitar sarcasmo e blasfêmias. É necessário curvar-se às exigências dos tempos e às necessidades das posições.
“Então, caros fiéis”, responde o bispo, "uma vez que Jesus Cristo é desconhecido por muitos dos vossos contemporâneos vos julgais no direito de o ignorardes? Porque um sopro maligno e irreligioso passou sobre a geração atual reivindicais o direito de participar do contágio?
“Oras! A infidelidade geral que invocais como desculpa é uma circunstância que antes agrava do que atenua a vossa culpa. Perante a apostasia de muitos, sois obrigados a declarar mais fortemente a vossa fé, tornando-vos assim um exemplo e um protesto. Não ouvistes a solene afirmação do Salvador? “No meio desta geração adúltera e pecadora, quem se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos.”
“Caros fiéis, tornar-vos-eis vis diante de vossos próprios olhos, perdereis o direito à própria estima se tiverdes a covardia de não conhecer um amigo no dia da sua desgraça; e porque o Senhor do céu e da terra, o Senhor da vossa alma e do vosso batismo, tornou-se impopular, porque vós arriscais partilhar com ele o desfavor de uma geração rebaixada e merecedora de desprezo, julgais-vos livres de vossos deveres para com Ele! Não, não, é a lei mesma da ordem e da justiça que o exige: seremos tratamos por Jesus Cristo como nós mesmos o tivermos tratado. Se nós lhe formos fiéis, reinaremos com Ele; mas se nós o renegarmos, seremos renegados...
“Honra a vós, católicos, que sois coerentes com vós mesmos; honra a vós que credes e que não vos envergonhais da vossa crença. Aquele que vós confessais perante os homens, sem ostentação nem jactância, mas também sem respeito humano e falsa vergonha, vos confessará diante de seu Pai e diante dos anjos.”
Iluminado e confortado por tais palavras, que pessoa fiel, desprezando o respeito humano, não trabalhará com todas as suas forças pela prática pública do catolicismo para o reinado social de Cristo?
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O grande meio, portanto, para promover esse reino é a oração, que vivifica a ação e obtém do céu o sucesso que nossos esforços sozinhos não podem obter.
O Cardeal Pie nos mostrou nos três primeiros pedidos do Pater: “santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu”, a oração por excelência para o advento do Reino social aqui embaixo.
Ele quer que os fiéis compreendam o pleno significado dessa oração e saibam que o reino de que se fala não é apenas o céu, mas também o reino social de Cristo na terra. Eles devem, portanto, ao recitá-lo, desejar esse reino e orar com confiança ao Pai celestial para conceder ao mundo esse benefício inestimável.
Ouçamos o Bispo de Poitiers recomendar a oração pelo reino. É a uma freira que ele se dirige e, por meio dela, a todos os fiéis que amam Nosso Senhor:
“A vida espiritual não avança entre aqueles que estão no comando dos negócios, sejam homens de poder ou homens do futuro. Deus não é colocado em seu lugar por ninguém. Infelizmente! Aprenderemos às nossas custas que não se dispensa o Ser Necessário impunemente. O mundo perdoa-lhe a sua existência, desde que esteja disposto a deixar os seus negócios transcorrerem sem Ele, e este mundo não é apenas o mundo sem Deus, mas um certo mundo político cristão. Quanto à nós, esforcemo-nos a melhor sentir, a melhor salientar os três primeiros pedidos do Pai Nosso. Enquanto o mundo atual durar, não consintamos em relegar o reino de Deus ao céu, ou mesmo ao interior das almas: sicut in caelo et in terra? O abandono terreno de Deus é um crime: nunca nos resignemos a ele!”
“E como o destronamento de seu representante visível está intimamente ligado a ele, rezemos sem cessar para que a grande iniquidade consumada em Roma possa chegar ao fim. Então, como a libertação de Roma só pode vir através da França, coloquemos nosso patriotismo nacional mais do que nunca, mas acima de tudo coloquemos todo o ardor do nosso amor a Deus e à sua Igreja para trabalhar pela recuperação da França através de nossas orações e nossos sofrimentos!”
Que os fiéis não se cansem de rezar pela vinda do Reino e que a sua oração, nos nossos dias de apostasia nacional, seja mais fervorosa e mais confiante do que nunca! Esta é a palavra de ordem do Cardeal Pie.
Aprender toda a religião e praticá-la em família e publicamente, crer na Realeza social de Jesus Cristo e rezar para que ela aconteça, tal é o dever dos fiéis.
(La Royauté de N.-S. Jésus-Christ d´après le Cardinal Pie, parte III, cap. 1 - Tradução: Witor Lira)
Pe. Matéo Crawley-Boevey
Nota da Permanência: O Padre Matéo proferiu estas conferências às superioras de diversas comunidades religiosas do Canadá, na província do Québec, em 1945. Embora endereçadas às almas consagradas, estas conferências são utilíssimas aos leigos, havendo estes tão-somente de fazer as devidas substituições, como “almas consagradas” por “almas batizadas”, “comunidade” por “família”, “vida religiosa” por “vida cristã” e assim por diante.
Inclinar-se à santidade
Como vocês são religiosas, falemos sobre a vida religiosa; comecemos pelo começo. A vida religiosa é uma pedra angular. O padre não é um homem como outro qualquer, mas é um super-homem, um homem divinizado. Uma religiosa como vocês não é uma dama fina e inteligente, de forma nenhuma, mas sim uma pessoa consagrada a Deus; vocês são esposas e rainhas do rei Jesus, não servas, e muito menos escravas. Bem sei que vocês são insignificantes grãos de areia, mas Jesus as escolheu, de modo que a consagração é um casamento, não porque vocês o tenham pretendido, mas porque Jesus o quis assim. Essa união com Jesus é um casamento divino.
Certa feita uma religiosa ensinava a uma princesa a quem teve de repreender; a princesinha, irritada, recusava-se a obedecer e encolerizada disse: “Esqueceu-se de que sou filha do rei de França?”, ao que a religiosa respondeu: “Esqueceu-se de que sou esposa do rei dos reis, diante de quem o seu paizinho se ajoelha?”
A quem muito foi dado, muito será cobrado: o milionário não será cobrado como o servo. Vocês não serão julgadas como escravas mas prediletas. Cobrará o rei: “Recebeste tesouros, por isso vem prestar contas do diadema e do manto real.” Essa frase lhes deve provocar calafrios. A principal glória da vida religiosa é a de que vocês são as minhas prediletas, lhes diz Jesus, minhas pombas e filhinhas do coração. Quando morrerem, Jesus não perguntará se vocês instruíam cinqüenta alunas ou administravam um grande hospital, mas: “Amaste-me tu como uma rainha? Agiste como minha predileta?” Ele não dirá: “Vê as minhas mãos e os meus pés, que os impuros, os maus e os ímpios machucaram”; não, o primeiro sofrimento lhe virá das almas consagradas! “Tu me juraste que serias santa: que fizeste do juramento?”
Não pensamos o suficiente nessa queixa de Nosso Senhor em Paray-le-Monial. Normalmente se reclama de que as obras não vão para frente, de que há algo de errado com as irmãs, mas Nosso Senhor bem que poderia perguntar: “Recordas-te da tua profissão? Prometeste ser santa e, depois de quarenta anos, ainda não és.” Profissão significa convento e religião; por que entrei no convento? Vocês afirmam: “Para salvar a minha alma ou salvar almas.” Salvar a minha alma? Quem lhes disse que os três votos são necessários para ir ao céu? Então, papai e mãe vão ao inferno, pois eles não fizeram os três votos! O batismo, a penitência e a comunhão são suficientes para que papai e mamãe se salvem, bem como milhares de cristãos pelo mundo. Mas vocês insistem: “Vim para salvar as almas.” Pois bem! Salvar almas é conseqüência, pois as salvarão à medida de sua santidade.
Vocês entraram no convento para se tornarem santas: eis o princípio e o cerne da vida religiosa. Vocês são religiosas para que sejam santas e mais nada, o resto já está contido nisto. Ninguém está aqui para se instruir ou curar as feridas, mas para se transformar em santo; o único ideal da vida religiosa é amar como amaram os santos, ou seja, ser um santo com S maiúsculo a todo o custo. A pobreza, a castidade e a obediência são os três votos que me ajudarão; diariamente, com a graça de Deus, subirei, subirei e me tornarei santa. Se alguém já lhes disse isso, bem-aventuradas são; se esta é a primeira vez, mãos à obra. Ninguém está aqui para brincar de teatro, música, literatura e quejandos, mas para ser santa. Esta é a instrução que vocês devem transmitir às noviças. Não se tornar uma pessoa má não é um ideal, mas é o mínimo; se a mulher é religiosa apenas para evitar o pecado, está perdendo tempo.
“Senhor, dai-nos a vitória”
Quando visitei o papa, ele me perguntou: “Padre, que mais o inquietou nas suas palestras pelo mundo?” Fiquei hesitante. “– Fale, fale. – A falta de santos, a falta de santos.” Só o céu canoniza, só ele o rei que sabe de tudo; mas onde estão os seus santos canonizados? Agora chegou o momento: abandonem tudo o mais e se tornem santas!
Vou citar-lhes um episódio ocorrido durante a 1ª Guerra Mundial [1914-1918]: uma boa irmã, mas não santa, que tinha dois irmãos de sangue oficiais, repetia sempre entre gemidos: “Senhor, dai-nos a vitória! Nossa vitória, Senhor!” Certo dia escutou ela uma voz que saia do tabernáculo: “De que vitória falas? – Da vitória das nossas forças armadas. – Deixa isso comigo, disse Jesus; eu sou o Mestre, por isso suplique antes a minha vitória. – Que vitória, Senhor? – Quê? Tu, que és religiosa, não sabes qual é a minha vitória? A minha vitória é que tu sejas uma santa, pois boas irmãs como tu tenho para dar e vender.”
Como os santos nos fazem falta, o mundo definha porque estão faltando santos!
O primeiro dever da religiosa é santificar-se e oferecer ao próximo algo da própria fartura santificando-o. Não sejam modernistas: é errado aceitar moças para enfermeiras ou instrutoras. Necessitamos de noviças, assim se constitui erro grave a falta de rigor na escolha delas. A melhor religiosa, essa será a melhor instrutora e enfermeira; o resto vem em acréscimo. Perguntar-se-ão as religiosas: “Nós, santas? Não passamos de um fardo de misérias.” Pobre Jesus! Quando ele as escolheu, não sabia que eram miseráveis? Estava ele cego, sonolento, com a vista embaçada? Jesus não dorme, pois ele é justiça e sabedoria; Jesus as enxergou tais quais eram, sabia o que eram e, porque nunca se engana, as escolheu, para que se tornassem santas.
Acompanhando o chamado vêm as graças de estado; se a moça a quem chamei não consegue aumentar o resplendor das estrelas, eu, Jesus, que sou o guia dela, consigo. Ele nos concedeu milhares de graças para que sejamos santos! Quantos grandes santos receberam menos que nós! Nasceram com três centavos e morreram milionários; foram generosos e se tornaram sóis gloriosos. Talvez São Francisco de Assis e Santa Margarida Maria tenham sido menos favorecidos que nós, porém foram fidelíssimos ao capitalizar os dons de Deus! Sejam exigentes com as meninas que acolherem; quiçá percam umas cinco ou dez, mas seriam cinco ou dez noviças em demasia. Uma moça de dezenove anos costumava travar relações com religiosas não santas; convidaram-na a ingressar ao convento, contudo ela respondeu: “Ser religiosa é só isso? Vou ficar com a minha família.” Por vezes é assim que as boas almas se afastam.
A graça, a generosidade e a educação
Antes de tudo, é a graça que faz os santos. Jesus não pede mais do que podemos dar; mas se ele nos pede nos dá. Dá dez vezes mais que o necessário. O purgatório ficará cheio até a boca com almas que viveram vinte, trinta, quarenta anos no convento sem saber que a graça de Deus as ajudava e sem haver feito frutificá-la. Vocês são capazes de serem muito maiores que a singela Teresinha, apesar de serem apenas singelas cristãs. A santidade se baseia em graças superabundantes. Ninguém exige que uma pedrinha voe, mas com a graça de Deus é possível.
A santidade se baseia em generosidade: elevemo-nos cada vez mais, não fiquemos parados, nunca. Criemos asas, quais pássaros, que começam a voar aos poucos, e nos elevemos sempre. Teresinha, que se alçou tão alto em apenas vinte e quatro anos, dá-nos uma lição. Que fez ela? Escutem: “Nunca recusei nada ao bom Deus, desde a idade de quatro anos.” Talvez ela tenha recebido um capital menor que o de vocês e o meu, mas ela aumentou esse capital. Se vocês têm remorsos de haverem recusado muitas coisas do bom Deus, bem, a partir deste retiro vocês já não recusarão nada, progredindo no caminho de Teresinha: doação total, coração em troca de coração. Não ingressamos nas ordens apenas para que não sejamos impuros ou maus, porque, passado bastante tempo, conseguimos renunciar o pecado; de fato, renunciamos coisas excelentes: o casamento, a vida de família; mas nós nos limitamos, e porque nos limitamos, limitando a doação total, não somos totalmente de Jesus, e só dele.
A santidade se baseia na educação religiosa. Para que se formem os jovens nessa doação total, força é lembrarem-se dos santos: é essa a sua responsabilidade. Uma barra de ouro tem de ser purificada e cinzelada, a fim de que se transforme em cálice. O esforço e a labuta da boa vontade, diariamente, é o que faz os santos. Vocês precisam amar o esforço e torná-lo amável.
Um de nossos padres, provincial durante alguns anos – e morto em odor de santidade, envolto numa atmosfera de humildade e paz –, fora um moço altivo e orgulhoso, cheio de defeitos. Aos pouquinhos se transformou em santo, pelo esforço cotidiano. Aquele moço colérico, que tinha enormes defeitos e qualidades enormes, ao fim da vida se tornara um repositório de bondade e tranqüilidade, amado por todos e lamentado com soluços pelos religiosos que lhe assistiram à partida para o céu.
Sim, a santidade se baseia na educação também. Não basta ser uma boa irmã e contentar-se com isso, mas tentar imitar Teresinha. Eu lhes imploro, em nome do Sacratíssimo Coração de Jesus, para que vocês se tornem santas, pois é este o seu único dever, e só este.
Se vocês confiam mais na menina que tem vocação para boa mestra do que para boa religiosa, expiarão tal erro.
Vivemos aos trancos e barrancos, por isso desejaríamos sempre diminuir as exigências da religião, deixar a vida correr frouxa. Que pena! Há cem anos éramos mais religiosos. Que fazem vocês, se não trabalham na santidade? Deste modo se perde a glória de Deus, a de vocês e a das almas. Os padres devem ser o Cristo da paróquia, e também vocês devem ser um pouco como ele, sendo assim muito mais religiosas. Convençam-se em ser religiosas acima de tudo, e ainda assim considerem que talvez não estejam entre as primeiras almas da paróquia. É impossível Jesus reinar contra mim e vocês, pois vocês e suas comunidades são a guarda real do rei; portanto, despertem a luz e o calor nos corações e nas comunidades... Jesus não nos exige milagres, senão o milagre do amor, que é a ambição de ser santo custe o que custar. Quem salvará o nosso país? Não serão os políticos mas os santos. Um Cura d’Ars é mais glorioso para a França que mil Napoleões.
Realizaram vocês os esforços amorosos que lhes espera o rei, a exemplo de Teresinha ou Bernadete? Nem todos podem ser artistas, mas podem ser santos. Se não há santos nos conventos, onde encontrá-los? Se não há água nas fontes, onde bebê-la? Se não há flores nos jardins, onde colhê-las? Se não há árvores das florestas, onde buscá-las? Se não há estrelas no firmamento, onde fitá-las? A fonte é o convento, o jardim é o convento, a floresta é o convento, e o céu é o convento. Catarina Tekakwitha se elevou bastante; ela era uma pequena iroquesa; quiçá ela será considerada santa antes de vocês, mesmo sendo uma selvagenzinha! Se Deus quiser, tomara que ela as ultrapasse; Catarina não era religiosa, mas um passarinho da floresta. Já vocês são estrelas do firmamento. De direito, a santidade é sua; de fato, é dela.
Deus lhes está chamando, assim tratem de se elevar com asas de águia, pois Jesus, o rei, quer o milagre de sua santificação. O único objetivo de vocês serem religiosas é a glória de Deus. Urge que todas e cada uma sejam santas, e eduquem as suas filhas, pois ninguém dá o que não tem: sejam santas para transmitir a santidade.
“A missa na intenção de vocês é a minha grande pregação”
A doutrina do Sacratíssimo Coração de Jesus é uma teologia inteira por si só; reparem bem: o amor do Cristo é o dogma, o meu amor é a moral. Essa teologia se resume em três cenas: a manjedoura, a cruz e o altar. O quadro da missa que está neste local é obra de um padre belga; ele suprimiu os pormenores que distrairiam o fiel da missa: não há flores nem anjos, mas somente o sacrifício.
Suplico-lhes a esmola de uma oração ou de uma via crucis em favor das almas pecadoras dos consagrados, que precisam de luz imensa para retornarem a Deus; depois, durante o retiro, o Rosário da Santíssima Virgem. Celebro a missa durante a comunhão para ajudá-las a dar graças a Nosso Senhor. A missa na intenção de vocês é a minha grande pregação; só aí espero fazer alguma coisa pelas suas comunidades. Aqui, uso a minha língua; mas a melhor pregação é a do Senhor na missa. Essa pregação cala mais e melhor nos corações, pois quem lhas dá é o Sacratíssimo Coração de Jesus. Supliquem ao Sacratíssimo Coração de Jesus para que lhes deem luzes.
(Tradução: Permanência / Revista Permanência 274)

Irmãs da Fraternidade Sacerdotal São Pio X
«Ó Mamãe, não posso dizer o quanto eu te amo!» Que mãe não se emocionaria ao ouvir essas palavras balbuciadas por sua filhinha de quatro anos? É assim que a criança mostra sua gratidão. É claro que a grandeza do sacrifício materno e do seu grande amor permanece parcialmente oculta. Mas a criança, mesmo pequenina, percebe o amor no coração de sua mamãe. Ele vê — antes, ele sabe — que sua mãe está sempre presente para ele. Se ele cai enquanto brinca: é para a mãe que corre. Se sua noite é interrompida por pesadelos: seu choro é pela mamãe. Se está com sede ou doente: não tem nem de pensar, ele sabe que sua mãe irá ajudá-lo.
Sim, mesmo aos olhos das criancinhas, o coração materno é necessário e sem limites. À sua maneira, procura retribuir demostrando o seu amor. Ela colhe flores com muito carinho para oferecê-las à mamãe! «Se o papai faz, eu também posso fazer isso pela mamãe». Se sua mãe está doente ou cansada, a criança se aproxima com um copo d'água, acompanhando seu gesto com um beijo. «Mamãe faz assim quando estou doente, também vou fazer»
Vocês sabem bem, queridas mães, que seu filho tem outra mãe, a do próprio Deus. O vosso grande desejo é que ele conheça esta Mãe por excelência que, sem estar visivelmente presente em casa, dá todo o seu carinho maternal a cada um dos seus filhos. Em face das inevitáveis separações aqui embaixo entre mãe e filho, que consolo saber que esta mesma Mãe lhes assistirá!
Como pôr em prática essa verdade, como tornar a nossa Mãe Celeste conhecida e amada pelas crianças? Ainda tão pequenino, é ele capaz de entender?
fotos e buquês
Desde cedo, os ouvidos do pequeno ouvem o que mamãe e papai falam. O bebê reconhece rapidamente a voz de seus pais e não demora muito para reconhecer os rostos ao seu redor. Não falamos com ele antes mesmo que saiba balbuciar “mamãe”...”papai”? Esses nomes lhe são repetidos muitas vezes antes do dia em que os pronunciará. Por que não adicionar os Santos Nomes de “Jesus” e de “Maria” à lista das primeiras palavras? Aproveite para mostrar-lhe imagens dos membros da sua família celestial: ele logo os reconhecerá.
Em cada etapa do despertar de sua alma, há ocasiões para apresentar canções, belas histórias ou livrinhos que lhe falem da Virgem Maria. Além disso, se as estátuas ou imagens da Santíssima Virgem ocuparem lugar de honra na sala de estar, a criança naturalmente dirigirá seus pensamentos para a rainha da família. Cada palavra, cada ação que procede do amor do papai e da mamãe pela Santíssima Virgem não será ignorada. Ao contrário, a criança batizada considera tudo isso normal e o imita.
São inúmeras as ocasiões para mover o coração dos pequeninos: mamãe coloca o buquê que papai ou que a criança lhe deu diante da imagem da Virgem; Papai vai rezar em frente da estátua de Maria depois da missa dominical; toda a família vai à procissão de 15 de agosto ou às cerimônias em honra da Virgem Peregrina.
E o terço... Com que idade pode ser introduzido? Como fazê-lo? É pedir demais para as crianças? Pensemos nisso.
O terço dos pequeninos
O terço consiste nas orações fundamentais que todo católico deve saber de cor. Que melhor maneira para uma criança aprender essas orações do que as repetir enquanto reza o Rosário?
A criança nunca é jovem demais para começar a fazer suas orações da manhã e da noite e para se habituar a voltar seus pensamentos para Deus muitas vezes ao longo do dia. O terço rezado em família só pode ajudá-la a fazê-lo.
Assim que percebermos que a criança é capaz de aprender a Ave Maria, podemos deixá-la rezar a primeira parte de uma dezena. Claro, é preciso ter muita paciência no início, para ela dizer cada palavra com mamãe ou papai. Em um clima de encorajamento, a criança aprenderá mais rapidamente e com mais vontade.
O terço! Que lição eficaz para o pequeno ter um livro no qual acompanha a vida de Jesus e de Maria ao ritmo dos mistérios do rosário! Depois da oração, que alegria para os pequeninos se revezarem apagando a vela acesa diante da imagem da Virgem, enquanto os mais velhos levam a sério o privilégio de acendê-la antes da oração em família!
Convenhamos, o terço em família exige muito esforço no início. É preciso escolher um horário conveniente, em que todos possam participar (sem escolher um horário em que todos estejam exaustos!). Deus dá a graça de ser fiel ao terço e, pouco a pouco, ele se torna um hábito. Vinte minutos por dia, é tanto tempo assim para passar com quem realmente amamos?
Nossa Senhora, ela mesma, pediu aos três pastorzinhos de Fátima que rezassem o Rosário, e os três videntes, ainda muito jovens, já tinham o hábito de o fazer.
Por fim, admiremos a educação religiosa dada pela Sra. Vianney aos seus filhos. Ainda pequeno, o santo Cura escutava sua mamãe lhe falar sobre o Céu, sobre a Santíssima Virgem antes de dar-lhe a boa noite. Tão logo o pequeno Jean-Marie foi capaz de fazê-lo – tinha três anos – aprendeu a rezar a Ave Maria, a oração, dizia ele, que jamais cansa a Deus. Anos mais tarde diria: “A Santa Virgem é a minha afeição mais antiga; eu a amei antes mesmo de conhecê-la... Depois de Deus, foi obra da minha mãe, quanta sabedoria ela tinha!”
Fideliter n° 191 – setembro-outubro, 2009
Pe. Gabriel Billecocq, FSSPX
Caros amigos e benfeitores,
A seguir, um sermão do Pe. Gabriel Billecocq, FSSPX, no último domingo depois de Pentecostes, 21 de novembro de 2021, na Igreja de São Nicolas-du-Chardonnet em Paris. É um texto bastante equilibrado, um aviso salutar para que evitemos os excessos aos quais podemos nos inclinar eventualmente nestes tempos difíceis, e um aviso ainda mais salutar para que foquemos na única coisa necessária: Deus e Sua vontade.
In Christo Sacerdote et Maria,
Pe. Yves Le Roux
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém.
Meus queridos fiéis,
Hoje, a Igreja nos dá uma visão verdadeiramente apocalíptica no Evangelho, com Nosso Senhor descrevendo o que, aparentemente, é o fim dos tempos -- tempos difíceis, dolorosos, aqueles dias, que serão abreviados em consideração dos eleitos, como Nosso Senhor mesmo nos diz.
Todos nós temos uma pequena curiosidade de saber como essas coisas vão acontecer, como o fim dos tempos vai se dar, e talvez alguns de vocês tenham sido curiosos o suficiente para apanhar o Livro do Apocalipse e tentar lê-lo e adivinhar de maneira mais concreta, mais material, como essas coisas acontecerão. Vocês devem ter lido sobre as famosas bestas do Apocalipse e sobre a "marca da Besta", o sinal da Besta.
Meus queridos fiéis, nossa curiosidade sobre essas coisas pode ser mórbida às vezes. A curiosidade mórbida existe: uma curiosidade que nos inclina mais ao pecado do que ao que é belo e bom. Nós podemos constatar com nossos próprios olhos, há exemplos em abundância ao nosso redor. É triste ver quantos jovens se inclinam a más imagens, ao invés de ler o Evangelho ou de se interessar pelo que Nosso Senhor fez durante Sua vida. E temos que reconhecer que nós, também, podemos ser afetados por essa curiosidade mórbida quando pensamos no fim dos tempos, imaginando como o Anticristo será, como ele nascerá, quem ele será, como poderemos reconhecê-lo, qual será a marca do Anticristo... E vocês sabem que as pessoas, hoje, estão fazendo todo tipo de especulação sobre essas coisas. E também está dito no Apocalipse que cada um dos eleitos estará marcado com o sinal de Deus -- e nenhum dos fiéis jamais veio me perguntar qual será o sinal de Deus. Todo mundo só pergunta "Qual o sinal do demônio? Qual a marca da Besta?" Ninguém se pergunta "Qual será o sinal de Deus?" Meus queridos irmãos, isso é apenas um exemplo de como nossa curiosidade facilmente se inclina em direção ao mau e feio do que ao bom e belo, e isso é uma coisa triste.
Então, para aquietar essa curiosidade toda um pouco, vamos hoje falar sobre esse sinal da Besta, como ele aparece no Apocalipse e como alguns Padres da Igreja o compreendem. Ouvimos falar muito dessas coisas hoje em dia, infelizmente, graças a tudo que está havendo no mundo.
É verdade que o Apocalipse inclui aquela famosa passagem segundo a qual aqueles que seguem a Besta terão uma marca na sua testa e no seu braço, e que eles não poderão comprar nada se não tiverem essa marca. Muitas pessoas estão imaginando que a vacina pode ser a marca da Besta -- da mesma maneira que essas mesmas pessoas imaginaram que os cartões de crédito eram a Besta, e, depois, se perguntaram se os códigos de barras eram, talvez, o sinal da Besta.
Então, o Apocalipse acrescenta o nome da Besta, dizendo que é um nome de homem, e o número do seu nome é 666 (seiscentos e sessenta e seis). As pessoas também especulam sobre essas expressões encontradas no Apocalipse.
Primeiramente, a marca a Besta é um selo na mão e na testa, e Santo Agostinho explica o que isso significa. Santo Agostinho não descreve esse selo como uma marca visível ao olho, como uma tatuagem ou um chip inserido no nosso corpo. Ele diz que a marca na mão e o caráter na testa significam dois modos de pertencer ao demônio.
O primeiro modo de pertencer é a marca na testa, que representa pertencer através da confissão aberta. O primeiro modo de pertencer à Besta é a marca na testa, ou seja, ao proclamar, abertamente, que a Besta é toda-poderosa e, ao mesmo tempo, negar que Deus é todo-poderoso. Outro Padre da Igreja dá a mesma interpretação, a de que uma das marcas da Besta é a negação: a negação de Deus, a negação de Sua onipotência, a negação de que Deus criou o mundo, a negação de Sua Encarnação, negação da Redenção... Em uma palavra, essa marca na testa significa a apostasia, a apostasia do coração. A testa é aquilo que aparece abertamente, e Santo Agostinho explica que o que aparece em nossa testa é o que mostramos no exterior daquilo que está no nosso interior, da mesma maneira que o sinal do cristão é o sinal da cruz, que começamos na nossa testa com nossa mão. Então, assim como o sinal do cristão é o sinal da cruz, através do qual o cristão mostra exteriormente que ele pertence a Jesus Cristo, que ele quer seguir Jesus Cristo, Seu Mestre, e carregar sua cruz; da mesma maneira, o primeiro sinal do demônio, aquela marca na testa, significa que um homem nega Deus abertamente e afirma que o demônio é todo-poderoso.
A segunda marca é aquela na mão. Novamente, aqui Santo Agostinho explica que essa marca não é algum tipo de tatuagem ou um chip inserido na mão da pessoa. Explica que, na Escritura, as mãos representam as obras. A segunda marca de pertencimento à Besta são as ações más, as obras do pecado. Aquele que pertence à Besta é aquele que segue o demônio fazendo o mal, praticando o mal, a obra do pecado.
Meus queridos fiéis, aí está para vocês o significado dessas marcas, dos sinais da Besta.
A nossa salvação não é mais material do que nosso combate, mas sim espiritual. Então, nosso pertencimento a Deus ou ao demônio não é, em essência, algo material. Essencialmente, não é ao inscrever algo em nosso corpo que pertencemos ao demônio, da mesma maneira que não é essencialmente ao inscrever algo em nosso corpo que nos faz pertencer a deus. A primeira marca do nosso pertencimento a Deus é um caráter, um caráter indelével, impresso em nossa alma pelo batismo. Essa é a primeira marca do pertencimento do cristão a Deus. E é esse caráter que lhe dá acesso aos demais sacramentos. A marca do pertencimento à Besta também é um caráter da alma, não um caráter indelével, graças a Deus, mas o caráter de uma vontade que se inclina ao mal e comete o pecado.
Nosso combate é espiritual, assim como nosso pertencimento a Deus é espiritual. E pertencer ao demônio também é um fato espiritual. Pertencemos a Deus através da graça, e esse é o sinal pelo qual reconhecemos os eleitos de Deus. Os eleitos são aqueles marcados pelo sinal da graça, em outras palavras, o sinal da caridade, do amor de Deus e da vida de Deus. Pertencer ao demônio significa o pecado. Pertence ao demônio aquele homem que não tem o amor de Deus nele, mas apenas o amor das coisas terrenas, materiais, sensíveis, ou mesmo simplesmente humanas, sem nada além disso.
Quanto a esse número, 666 (seiscentos e sessenta e seis), do qual o Apocalipse fala, o Apocalipse também diz que esse número da Besta é "o número de um homem". Santo Irineu talvez seja quem dá a melhor explicação para esse número. Muitas pessoas tentaram encontrar esse número literalmente, ou encontrar o nome que ele contém, da mesma maneira que os rabinos faziam, pois os números na Escritura sempre têm algum tipo de simbolismo. Há até mesmo uma ciência que dá a interpretação dos números. Santo Irineu vai além disso.
Os Padres da Igreja estão em consenso quanto ao fato de que esse nome nos permanecerá desconhecido até que o Anticristo apareça. Essa profecia do Apocalipse é como qualquer outra profecia: ela só se tornará clara quando cumprida. Mas Santo Irineu ainda explica que o número 666 está cheio de simbolismos, assim como o número de 144 mil eleitos contados no Apocalipse, 12 mil de cada tribo, como ouvimos na Festa de Todos os Santos. Os números na Escritura, realmente, são simbólicos. O número 7 representa uma perfeição, 8 representa uma plenitude, e 6 representa uma imperfeição. Não apenas qualquer imperfeição, mas os Padres dizem que parar a contagem em seis representa impedir o número de atingir a Deus [que seria a perfeição, representada pelo número 7]. Então o número seis indica não algum tipo de imperfeição natural inerente à criatura, mas um direcionamento do homem a ele mesmo. E Santo Irineu vai além, explicando que o 6 triplo representa um triplo direcionamento do homem a si mesmo: não apenas um pecado da alma, isto é, do intelecto e da alma, mas também um terceiro pecado, que ele chama de pecado do espírito.
O pecado do corpo, como sabemos, são todos aqueles pecados que se encontram espalhados hoje em dia -- não há necessidade de nos alongarmos nesse ponto -- [como] os pecados contra a natureza, aqueles pecados que pedem vingança aos Céus. O pecado da alma, isto é, o do intelecto e da vontade, corresponde ao pecado do homem de hoje, que evita que o intelecto atinja a verdade. -- E aqui, meus caros fiéis, precisamos agradecer àqueles que se devotam aos nossos filhos e a dar-lhes uma educação genuína nas verdades que os levam a Jesus Cristo. Mas esse pecado da alma, o de fazer tudo para evitar que a criança atinja a verdade, também afeta a vontade. É outro aspecto daqueles programas de educação modernos, evitar que a criança conheça a verdade, conheça o bem e como ela pode praticar o bem.
O último dos três "seis" representa o pecado do espírito, o pecado de nos fecharmos a Deus; é o pecado através do qual o homem recusa a Deus. Esse pecado corresponde à abominação da desolação no Templo Sagrado, talvez como vemos hoje nessa Missa nova, na qual a adoração está completamente direcionada ao homem.
Meus queridos fiéis, vocês podem ver como os Padres da Igreja explicam essas palavras misteriosas do Apocalipse, que permanecem misteriosas nos dias de hoje. Precisamos parar de correr atrás de interpretações, uma mais assustadora que a outra. Não importam as dificuldades que estamos enfrentando hoje, não importa as mentiras e erros que nos são apresentados -- e muitos erros e mentiras nos são apresentados! -- não importa quão perigosos sejam alguns produtos que os homens querem injetar em nós, não esqueçamos que a marca da Besta é algo espiritual: ela é o pecado. Pertencemos ao demônio pelo pecado; pertencemos a Deus pela graça e pela caridade.
Aí está, meus queridos fiéis. Nosso Senhor é muito claro nesse ponto e nos diz: "Não temais aqueles que podem matar o corpo" -- e disso nós temos, hoje, uma aplicação direta -- "não temais aqueles que podem matar o corpo; ao invés, temei Aquele que tem o poder de atirar ao fogo eterno". E, novamente, Nosso Senhor diz isso a Seus Apóstolos antes de os deixar "Tende coragem; eu venci o mundo". Não temos nada a temer das coisas materiais deste mundo. Devemos temer o pecado. Não devemos temer a morte do corpo; devemos temer a morte eterna.
É verdade, meus queridos fiéis, que o futuro nos é desconhecido, e ele pode parecer bastante sombrio. Ainda assim, há coisas que sabemos com certeza absoluta: Deus é nosso Pai, Deus não esquece Seus filhos, Deus protege Seus filhos, Deus alimenta Seus filhos.
Não importa as provações que tenhamos de enfrentar, tenhamos uma confiança perfeita: não sabemos os sofrimentos que estão vindo, mas sabemos com certeza absoluta que a graça jamais nos abandonará. Essa é a nossa esperança e a nossa alegria nesse mundo de tristezas.
Amém.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém.
Nota da Permanência:
No cap. 9 do seu opúsculo sobre o Pecado Original, o Pe. Emmanuel, ao tentar defender a doutrina dogmática do pecado original contra os ataques dos naturalistas, não percebe que mistura duas questões distintas, de onde tira conclusões confusas que gostaríamos de elucidar.
Com razão, o autor critica os que afirmam que as crianças mortas sem batismo não serão punidas, e viverão felizes. É verdade que a doutrina católica afirma que as crianças mortas apenas com o pecado original, mas sem culpa atual, não podendo ingressar no Reino dos Céus, sofrem a pena da danação, que significa que nunca verão a Deus na glória. Daí decorre a ausência da felicidade eterna no Céu.
Porém, mais adiante, o padre critica os que ensinam que existe um lugar intermediário entre o céu e o inferno (“eles imaginam uma felicidade que chamam de natural...”) e entende que essa felicidade natural seria o mesmo erro que criticara com razão no início (que as crianças não seriam punidas nem infelizes). Porém, esses primeiros atribuíam às crianças mortas sem batismo uma felicidade sobrenatural no Céu, o que é condenado pela Igreja. Mas os que afirmam que haverá certa felicidade natural, não caem no erro anterior, sabendo muito bem que haverá a infelicidade de não ver a Deus e de não viver na glória do Céu.
“Se admitirmos que eles foram criados para essa beatitude natural, que estão num estado de natureza pura, seremos obrigados a admitir que estão fora da humanidade redimida por Nosso Senhor” – ora, a doutrina retida pela Santa Igreja, como veremos, mesmo afirmando que a punição da danação não impede certa participação de vida natural, não afirma que foram criados para ela ou que estejam num estado de natureza pura, mas que sofrem punição por não verem a Deus, porque carregam em si o pecado original.
A história do pensamento católico referente à sorte das crianças mortas sem batismo mostra uma época em que os princípios que serão mais tarde desenvolvidos já estavam expostos, e de que maneira essa doutrina será elucidada pelos Padres da Igreja, os teólogos, e depois o próprio Magistério (cf. DTC, verbete Limbes, col. 760, pelo Padre Augustin Gaudel).
São Gregório Nazianzeno, falando do batismo, escreverá: “Nem tudo que não merece o suplício é digno de honra por este fato mesmo, assim como nem tudo que é indigno de honra merece, por isso mesmo, o suplício”. Apresenta-se nesta frase um princípio que estabelece a necessidade do reto juízo de Deus no sentido de um estado intermediário entre o Céu e o Inferno, mas que só será desenvolvido mais tarde.
Santo Agostinho, antes da controvérsia pelagiana, tinha admitido a existência de um estado médio entre o reto agir e o pecado, assim como um juízo intermediário entre a recompensa e o suplício (O Livre Arbítrio, Liv 3, cap. 23, nº 66 – PL T.32, col. 1304). Seu pensamento se tornará mais severo porque os pelagianos diziam que as crianças mortas sem batismo iriam para o céu. E o santo doutor teve toda a razão em reagir contra eles.
O Concílio de Cartago, sob o Papa Zózimo, seguirá o pensamento de Sto. Agostinho, no seu cânon 3.
São Gregório Magno, apesar de afirmar que as crianças irão ao inferno, estabelece um princípio importante, segundo o qual o pecado original não implica as mesmas penas do pecado atual. O santo papa aplica esse princípio aos justos do Antigo Testamento, os quais ficaram no infernus superior, onde não sofriam o suplício do inferno (Moralium, L. 13, cap. 44, col. 1038). Parece justo aplicar o mesmo princípio para as crianças mortas sem batismo, e veremos que é justamente sobre este princípio que a Igreja se baseará pela frente.
Santo Anselmo ensinará que a essência do pecado original é a privação da justiça primitiva. O santo doutor não tira nenhuma conseqüência dessa doutrina no que toca ao nosso assunto, mas ela abre o caminho para o pensamento escolástico sobre o Limbo.
Para Pedro Lombardo, “as criancinhas não sofrerão outra pena, como fogo material ou como verme da consciência, senão o serem privadas da visão de Deus” (II Sent. Dist. 33, nº 5).
O Papa Inocêncio III escreve numa carta ao Arcebispo de Arles (Ep. 9, 5) que foi inserida no Corpus Iuris Decretales, de Gregório IX, liv 3, título 42, c. 3: “Pena originalis peccati est carentia visionis Dei”.
O Padre Augustin Gaudel, autor do artigo do DTC, explica: “A distinção das penas do pecado original e do pecado atual, percebida por S. Gregório Magno, postulada pelos princípios de Santo Anselmo, proposta por Abelardo, nitidamente afirmada pela autoridade de Inocêncio III, implica a distinção dos estados das almas culpadas apenas do pecado original e das culpadas também dos pecados atuais.” Daí Guilherme d´Auvergne escreverá: “são colocadas num lugar que nem é para a pena atual, nem é para a glória”.
Santo Tomás trata sobre o tema nos Comentários às Sentenças de Pedro Lombardo. Afirma o princípio de que a pena deve ser proporcional à natureza do pecado. Afirma a existência de um estado e um lugar especial onde viverão privados da vida eterna, separados de Deus quanto à união da glória, mas unidos pela participação aos bens naturais. Repare que estas afirmações de Santo Tomás estão longe da posição, criticada pelo Pe. Emmanuel, dos que atribuem a felicidade natural como fim último dessas almas.
Ao Pe. Emmanuel pareceu melhor se afastar do pensamento de Santo Tomás, devido a uma interpretação austera do texto do 2º Concílio de Lyon. Na proposta de Profissão de fé feita a Miguel Paleólogo, está afirmado: “Illorum animas qui in actuali mortali peccato vel cum solo originali descedunt, mox in infernum descendere, poenis tamem disparibus puniendas – Definimos que as almas daqueles que morrem em pecado mortal atual, ou tão somente em pecado original, descem logo para o inferno, para aí serem, contudo, punidas com penas desiguais” (DB 464).
Apesar de essa Profissão de fé ter sido elaborada numa época muito próxima à composição do texto de Santo Tomás, a ponto de podermos pensar que o pensamento do Aquinate ainda não fosse conhecido de todos, é certo que o papa e o concílio conheciam as Decretales de Gregório IX, assim como a doutrina de Pedro Lombardo, os quais, distinguindo as duas penas, privavam as crianças da visão beatífica, mas as eximiam do fogo do inferno. Essa deve ser a interpretação correta da frase “poenis disparibus puniendas”, do II Concílio de Lyon.
São Roberto Belarmino vai também afirmar a pena das crianças, mesmo admitindo que não sofriam o fogo. Mas Bossuet tentou obter do papa a condenação da doutrina tomista tal como aparecia no livro do Card. Sfrondate. Porém o papa nunca aceitou condenar a doutrina de Sto. Tomás sobre a sorte das crianças mortas sem batismo. O Pe. Emmanuel insistirá sobre a posição de Bossuet, sem perceber que suas tentativas não tiveram o sucesso esperado. Também o artigo do Pe. Petau será usado pelo Pe. Emmanuel, mas o Pe. Petau ficara muito impressionado pela doutrina de Sto. Agostinho, e não foi seguido em seu pensamento.
No entanto, o Pe. Augustin Gaudel termina sua história do Limbo por um texto do Papa Pio VI condenando o falso Concílio de Pistóia. Ele declara “falsa, temerária, injuriosa ao ensinamento católico a proposição segundo a qual se deve rejeitar como fábula pelagiana o lugar dos infernos chamado Limbo das crianças, onde as almas dos que morrem só com o pecado original são punidas com a pena da danação sem a pena do fogo; (e a proposição de) que seria honrar a fábula pelagiana afirmar que há um lugar e um estado intermediário isento de falta e de pena, entre o Reino dos Céus e a danação eterna” (Da pena dos que morrem só com o pecado original - DB 1526).
Consta ainda das Acta et Decreta Concilii Vaticani (Concílio Vaticano I) o esquema da Constituição Dogmática sobre a Doutrina Católica: “os que morrem só com o pecado original serão privados para sempre da visão beatífica, enquanto que os que morrem com um pecado atual grave sofrerão, além da danação, os tormentos do inferno” (In Collectio Lacensis, Tomo 7, p. 565).
Com toda segurança, Dom Marcel Lefebvre podia ensinar no seu livro “A Vida Espiritual”: “Essas almas se acham privadas da visão beatífica de Deus, mas não sofrem, pois reconhecem sua incapacidade absoluta de tê-la. Esta é a opinião de Santo Tomás e da maioria dos doutores.” (Editora Permanência, 2011, pág. 97.)
O Pe. Emmanuel termina esse capítulo ainda combatendo os textos naturalistas, com a ajuda do Concílio de Lyon, de Florença e de Bossuet. Para nós, por todo o respeito que temos por tão grande teólogo e espiritual, fica a certeza de que o autor combatia, de fato, um funesto erro, mesmo se, no entusiasmo da sua caridade, não tenha percebido que misturava assim duas coisas diferentes, os naturalistas que erram e os católicos que acertaram, vendo na prática da Igreja uma busca de maior definição sobre a diferença entre as penas dos que morrem só com o pecado original e as dos que morrem com pecados atuais.
Dom Lourenço Fleichman OSB
Capítulo undécimo
Resposta a um leitor anônimo.
Um leitor do Bulletin, que preferiu manter-se no anonimato, nos enviou uma longa carta criticando um de nossos artigos sobre o pecado original. Destacamos dessa carta as passagens principais, confrontando-as com autoridades que nosso correspondente certamente respeita tanto quanto nós.
O sr. sustenta uma proposição sobre a qual há divergência entre autores católicos e da qual você quer fazer um dogma de fé.
Nós dissemos: as crianças mortas sem batismo estão condenadas, e citamos como prova os Concílios de Lyon e de Florença; citamos Bossuet e o Cardeal Belarmino, dizendo que essa doutrina é de fé católica e a contrária, herética. Nosso catecismo nos diz a mesma coisa: “Os efeitos do pecado original em relação à alma são: a perda da graça, a ignorância, a concupiscência ou a inclinação para o mal, e a morte eterna” (p. 82). A morte eterna, a danação, o inferno são todos a mesma coisa.
Se há divergência entre autores católicos, não é sobre esse ponto, mas sobre a extensão das penas, e especialmente da pena do fogo. Não quisemos entrar nessa questão, precisamente porque queríamos nos ater à fé, sem entrar no terreno das opiniões.
Essas crianças serão punidas pelo pecado original apenas por não serem admitidas no céu.
Não, não serão apenas privadas do ingresso no céu, mas descenderão ao inferno, onde sofrerão punições. É o que diz o texto mesmo dos Concílios de Lyon e de Florença.
...Mas isso pode se dar sem que estas crianças sejam punidas ou infelizes, como se fossem culpadas do pecado que existe nelas.
Nosso correspondente afirma que “o pecado existe nelas”, mas não parece inclinado a considerá-las como realmente culpáveis. Todavia, São Paulo nos diz: “Pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores” (Rom 5, 19). E o Concílio de Trento diz que o pecado de Adão, transfundido em seus filhos, é um pecado próprio a cada um deles: Transfusum omnibus, inest unicuique proprium (Sess. V. Canon III).
Adão afastou-se de Deus, e daí formou em sua alma uma aversão habitual... Mas em seus filhos, o pecado original transmitido é verdadeiramente uma aversão habitual, um vício moral?
Sim, exatamente: o pecado original coloca a alma do filho de Adão no mesmo estado da alma do próprio Adão; é o mesmo vício moral, a mesma aversão habitual a Deus; é o estado de pecado, é a morte da alma, como diz o Concílio de Trento. (Sessão V. Cânone 1).
O vício é a continuação do ato; como aquele que não cometeu o ato pode receber sua continuação?
Este argumento levaria a negar o próprio pecado original; mas como nosso correspondente não quer de modo algum ir tão longe, apenas assinalaremos que, se quisermos negar as penas infligidas ao pecado original, facilmente chegaremos à negação do próprio pecado original.
Que o pecado original seja uma feiúra da alma, a falta de uma graça que Deus tem o direito de reclamar, um estigma que nos priva de um dom puramente gratuito, isto resulta claramente da revelação.
O pecado original certamente é isso; porém, por mais que nosso correspondente tenha dificuldade em reconhecê-lo, ele não é só isso.
Mas que esse pecado de origem seja equivalente a um pecado atual, por meio do qual o homem se afasta de Deus, seu criador, isto não é evidente e requer provas totalmente satisfatórias.
As provas não são difíceis de encontrar. Pois:
1) São Paulo diz: “por um só homem entrou o pecado neste mundo (...) no qual todos pecaram” (Rom 5, 12); e ainda: “pelo pecado de um só, incorreram todos os homens na condenação” (Rom 5, 18).
2) O Concílio de Trento lança o anátema contra quem diga que Adão transmitiu ao gênero humano a morte e as penas do corpo, mas não o pecado, que é a morte da alma. (Sessão V, Cânone 1).
3) O catecismo nos diz que o pecado original tem por efeito a morte eterna.
Um pecado que é a morte da alma, que nos faz cair na condenação, na morte eterna, não é o equivalente a um pecado mortal pelo qual o homem se afasta de seu Criador?
Acreditamos que nosso correspondente não veja as coisas dessa forma, e tenha dificuldade em admitir que o pecado original seja um pecado em todo o rigor do termo. O Concílio de Trento, entretanto, ensina-o muito claramente (Sessão V, Cânone 5): Veram et propriam rationem peccati habet.
Nosso correspondente chama algumas vezes de inocentes as crianças mortas sem batismo:
A criança não batizada e morta na inocência… Estas almas inocentes e no entanto manchadas… Os inocentes privados do batismo…
Essas expressões são bem pouco conformes à fé, para dizer o mínimo. Os católicos só chamam de “inocentes” as crianças batizadas. Todas as outras, segundo São Paulo, são pecadoras.
Nosso correspondente, não enxergando o verdadeiro estado das almas dessas crianças, atribui-lhes a faculdade de amar a Deus: “Elas permanecem capazes de conhecê-Lo e amá-Lo, não como filhos, mas como criaturas racionais... Os homens que morreram apenas com o pecado original não podem ver a Deus, mas O amam.”
Sim, eles conhecem a Deus e sabem que o perderam, mas como seriam capazes de amá-Lo? Perderam a caridade, estão no pecado e na morte; sua vontade está ferida pelas concupiscências que os invadiram e dominaram: como poderiam se elevar a um ato de amor para com o seu Criador? Estão em desgraça no tocante a Deus, como poderiam entrar na sua amizade? Isso só é possível pela graça do Redentor.
Jesus Cristo prefere que não sejam lançados nas garras do demônio, e que gozem de alguma felicidade, segundo sua natureza.
Este pensamento leva à negação de que a criança não batizada esteja cativa de Satanás. A fé cristã não nos permite, no entanto, duvidar disso. O Concílio de Trento ensina claramente e fulmina com o anátema quem não professar que Adão, por seu pecado, caiu no cativeiro daquele que, desde então, possui o império da morte, isto é, o diabo (Sessão V, Cânone 1).
Todas as crianças não batizadas permanecem cativas de Satanás: para convencer-se, basta reler as orações do batismo citadas aqui. E ninguém pode se libertar dessa escravidão senão pelo batismo de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Portanto, eterno reconhecimento a Nosso Senhor pela graça de termos sido batizados, pela graça de termos sido redimidos do pecado, da morte eterna e da tirania do demônio.
Capítulo décimo
O pecado original segundo as orações do batismo.
Depois de expor a doutrina católica sobre o pecado original, resta-nos enunciar esta conclusão prática: é preciso batizar as criancinhas.
É preciso fazê-lo, sob pena de danação inexorável e eterna para essas crianças; é preciso fazê-lo, sob pena de pecado gravíssimo para os pais; é preciso fazê-lo para tirar as crianças de um estado que não poderia ser mais funesto, e colocá-las felizmente no caminho da vida eterna.
Escutemos o que pensa a Santa Igreja de Deus, e procuremos seu pensamento nas orações solenes da administração mesma do santo batismo. O padre, colocando as mãos sobre a testa da criança, faz a seguinte oração:
“Deus todo-poderoso e eterno, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, olhai benignamente para este vosso servo N., que vos dignastes chamar aos rudimentos da Fé. Dissipai-lhe de vez a cegueira do coração; quebrai-lhe todos os laços com que o prendia o demônio; abri-lhe, Senhor, as portas da vossa misericórdia: para que, uma vez impregnado do sal, símbolo da sabedoria, seja preservado de toda corrupção das más paixões e, atraído pelo suave perfume da vossa Lei, com alegria de coração, vos sirva na vossa Santa Igreja, progredindo sempre de dia em dia na perfeição. Pelo mesmo Cristo, Senhor Nosso. Amém.”
Quem saberá exprimir a desventura que seria para uma criança conservar essa cegueira do coração, essa corrupção das más paixões e guardar, com o demônio, laços que a lançariam inexoravelmente no inferno junto com o próprio Satanás por toda a eternidade!
Quem saberá exprimir quão mais feliz é o estado da criança batizada. Escutemos ainda uma vez a voz da Igreja:
“Senhor, Deus dos nossos pais, fonte de toda verdade, suplicantes Vos pedimos olheis benigno para este vosso servo N., que saboreia este sal como primeiro alimento; não o deixeis por muito tempo esperar faminto o momento de ser saciado com o alimento celeste. Seja sempre de espírito fervoroso, alegre na esperança, constantemente dedicado ao vosso serviço. Conduzi-o, Senhor, às águas purificantes do renascimento espiritual, e fazei que mereça gozar, na companhia dos vossos fiéis, as eternas recompensas por Vós prometidas. Por Cristo Senhor Nosso. Amém”
A Igreja nos revela de modo ainda melhor o seu pensamento – e seu pensamento é o pensamento de Deus – nas orações do batismo dos adultos.
O padre faz vários sinais da cruz no futuro cristão. E diz:
“Eu te assinalo a fronte para que recebas a cruz de Cristo; eu te assinalo os ouvidos para ouvires os divinos preceitos; eu te assinalo os olhos para veres a glória de Deus; eu te assinalo as narinas para sentires o suave odor de Cristo; eu te assinalo a boca para pronunciares as palavras de vida; eu te assinalo o peito para creres em Deus; eu te assinalo as espáduas para receberes o jugo do seu serviço.”
As palavras do exorcismo não são menos instrutivas. Diz o padre:
“Ouvi, maldito Satanás; eu te esconjuro pelo nome do Deus eterno e de Jesus Cristo, seu Filho, nosso salvador; derrotado com tua inveja, tremendo e gemendo, vai-te! Que nada haja de comum entre ti e o servo de Deus N, que agora renuncia a ti e ao mundo para aspirar às coisas celestes e viver para a bem-aventurada imortalidade. Dá honra, pois, ao Espírito Santo que virá e, descendendo do céu superno, desfará teus embustes, purificará este coração na fonte sacra, e nele erigirá um templo e um habitáculo santo à Deus: de modo que, totalmente liberto de toda a culpa dos crimes pretéritos, o servo de Deus renda sempre graças ao Deus eterno, e bendiga o seu nome santo pelos séculos dos séculos. Amém”
“E tu não ignoras, Satanás, as penas e tormentos que te são reservados, sabes que o dia do julgamento se aproxima, dia de eterno suplício, dia semelhante a uma fornalha ardente, dia que reserva para ti e teus anjos a morte eterna. Assim, danado que és, danado que serás, dá honra ao Deus vivo e verdadeiro, dá honra a Jesus Cristo seu filho, dá honra ao Espírito Santo consolador, em nome e em virtude do qual eu te ordeno, espírito imundo que for, que saias e te afastes do servo de Deus N, a quem hoje, o mesmo Deus e Nosso Senhor Jesus Cristo dignaram chamar à graça, à benção santa e, por um livre dom de Deus, à fonte batismal, para que se torne o seu templo pela água da regeneração em remissão dos pecados. Em nome de Jesus Cristo Senhor Nosso, que há de vir julgar os vivos e os mortos, e o mundo pelo fogo. Amém.
Logo, pais e mães católicos, desde o dia em que souberem que Deus, abençoando o seu casamento, lhes dará uma criança, não deixem de rezar, de rezar todos os dias, de pedir a graça do batismo para essa criaturinha que já vive, mas vive sob o jugo do maldito Satanás. Desejem vivamente, humildemente, instantemente que ela escape do mundo do demônio, da região das trevas, para entrar no reino de Deus, região de luz e paz, de esperança e imortalidade.
E quando seu filho tiver recebido o santo batismo, e tiver se tornado filho de Deus, velem sobre sua veste cândida, guardem-na sem mancha para a felicidade temporal e eterna de seu filho, pela alegria dele e sua, pela glória de Nosso Senhor Jesus Cristo: bendito seja Ele, e bendito seu santo nome, no século e na eternidade. Amém.
Capítulo nono
As crianças mortas sem batismo.
Nós vimos como o naturalismo trabalhava para renegar a fé no pecado original, e desse modo destruir todo o cristianismo. Queremos agora mostrar esse mesmo naturalismo na tarefa detestável que desempenha na questão das crianças mortas sem a graça do batismo.
Eis aqui um autor, um autor contemporâneo, que não hesita em escrever: “É evidente que essas crianças não serão nem punidas nem infelizes”. A citação é textual.
Sobre o que faremos a seguinte reflexão – que todos sem dúvida acompanharão: se essas crianças não serão nem punidas nem infelizes, é evidente que não são pecadoras; dito de outro modo, nelas não há propriamente o pecado original; isso é absoluta e totalmente contrário à fé cristã.
Eles dizem: as crianças mortas sem batismo não serão punidas. Nós dizemos: todo pecado tem de ser punido; ora, a fé nos ensina que essas crianças estão no pecado. Concluímos então que serão punidas.
Eles dizem: elas não serão infelizes. Nós dizemos: o pecado original fez com que essas crianças perdessem a graça e a amizade de Deus; ora, a fé nos ensina que o homem não saberia alcançar a felicidade sem a graça de Deus. Concluímos então que essas crianças serão infelizes.
Veremos mais adiante que essas conclusões são rigorosamente verdadeiras e pertencem à fé.
Mas eis que chegam os que imaginaram um estado intermediário entre o céu e o inferno: eles imaginaram uma felicidade que eles chamam de natural para essas pobres crianças deserdadas.
A bem dizer, não compreendemos sequer o que possa ser tal beatitude natural. No entanto, se chegarmos a admiti-la, será preciso admitir também suas conseqüências.
Se estes pobres deserdados não serão nem punidos nem infelizes, se lá onde estão gozam de uma felicidade natural, gostaríamos de saber se foram criados para essa bem-aventurança inferior, se foram destinados à pequena bem-aventurança, ou se foram criados, como nós, para verem a Deus.
Se admitirmos que eles foram criados para ver a Deus, que é a única verdadeira beatitude do homem, concluiremos então que eles não alcançaram seu fim e que, portanto, só poderão ser infelizes.
Se, ao contrário, admitirmos que eles foram criados para essa beatitude natural, que estão num estado de natureza pura, como dizia outrora uma voz eloqüente, seremos obrigados a admitir que estão fora da humanidade redimida por Nosso Senhor, donde se seguirá que Nosso Senhor não morreu por todos os homens. Essa é uma proposição de Jansênio, e não podemos sustentá-la sem incorrer na excomunhão.
Não ignoramos a objeção que se poderia tirar contra nós da doutrina de Santo Tomás. Charles Billuart, comentador autorizado de Santo Tomás, que retém tanto quanto pode da teoria do doutor angélico sobre o estado das crianças mortas sem batismo, afirma que não há questão de beatitude natural para elas. A razão que ele aduz é impressionante: essas crianças, diz o teólogo, morrendo em pecado original, morrem em um estado de aversão a Deus; por conseguinte, conclui, não poderia haver entre elas e Deus esta relação livre e amorosa que é a beatitude[1].
Ademais, é preciso destacar – e isto é capital para a questão – que Santo Tomás escreveu antes da definição da Igreja sobre o estado das crianças mortas sem batismo. Sabemos bem que ele escreveu também sobre a Concepção da Santíssima Virgem, igualmente antes da definição da Igreja.
A Igreja já se pronunciou acerca do estado das crianças mortas sem batismo? Sim, já o fez solenemente e por duas vezes: no Concílio de Lyon (1274) e no Concílio de Florença (1438).
Eis os termos do Concílio de Lyon, repetidos tais e quais pelo Concílio de Florença:
“Definimos que as almas daqueles que morrem em pecado mortal atual, ou tão-somente em pecado original, descem logo para o inferno, para aí serem, contudo, punidas com penas desiguais.”[2]
Citamos anteriormente Bossuet. Será bom ouvir o grande bispo comentar a definição de fé que acabamos de traduzir. Havia em seu tempo, na França, um racionalista famoso, e certamente um dos pais do racionalismo contemporâneo. Bossuet o refuta nos seguintes termos:
“Este grande crítico ignora a definição de dois Concílios ecumênicos, o Concílio de Lyon, sob Gregório X, e o de Florença, sobre Eugênio IV, onde as duas igrejas (a grega e a latina) reunidas decidem como sendo de fé, que as almas daqueles que morrem tanto em pecado mortal atual como apenas em pecado original, descem diretamente para o inferno, para aí serem, contudo, punidas com penas desiguais; donde o Cardeal Belarmino, e depois dele, o Pe. Pétau, concluem pela danação eterna de uns e outros, sem que seja permitido duvidar disto. Eis portanto que estão no inferno, nos suplícios, nas punições, na danação, nos tormentos perpétuos, segundo São Gregório[3]; na geena, segundo São Ávito, citado por esse mesmo teólogo; na morte eterna, diz o Papa João, citado no Direito, e depois por Belarmino, que conclui dessa passagem e de muitas outras que esta doutrina é de fé católica, e a contrária herética, condenando a falsa piedade daqueles que, para testemunhar uma afeição a essas crianças mortas, que de nada lhes serve, opõem-se às Escrituras, aos Concílios e aos Padres da Igreja. Será preciso afetar tanta astúcia quando se ignora os dogmas da fé, expressamente definidos e nos mesmos termos, por dois Concílios tão autênticos: na confissão da Igreja grega, aprovada pelo Concílio de Lyon, e no decreto de união do Concílio de Florença, pronunciado de comum acordo por gregos e latinos, com a a provação de toda a Igreja?”[4]
Assim falava Jacques Bossuet, refutando as teorias naturalistas de Richard Simon. Será preciso afetar tanta astúcia, exclamava ele, quando se ignora... O naturalismo, nos nossos dias, tem outra maneira de se fazer de astuto. Por exemplo: o autor que nos diz que as crianças mortas sem batismo não serão nem punidas nem infelizes, tinha sob seus olhos o texto dos dois Concílios que condenavam expressamente suas teorias desencontradas. Ele cita o texto, mas vejam a astúcia: onde estavam as palavras “ou tão-somente em pecado original”, ele substitui por três pontos...
Eis como alguns católicos abandonam a fé ao naturalismo, julgando, sem dúvida, que com três pontinhos são muito astutos.
Para evitar equívocos,
recomendamos fortemente a leitura da
"nota" da Permanência sobre o tema
[1] Beatitudo naturalis stare non potest cum aversione a Deo ut auctore naturæ; consistit enim beatitudo naturalis in libera et amicabili conversione ac unione cum Deo ut auctore naturæ: atqui parvuli ratione peccati originalis sunt aversi a Deo etiam ut auctore naturæ; ergo. (De effectibus peccati. Dissert. VII, art. VI.)
[2] “Illorum animas qui in actuali mortali peccato, vel solo originali decedunt, diffinimus mox in infernum descendere, poenis tamen disparibus puniendas.”
[3] Is quem salutis unda non diluit, originalis culpae supplicia non amittit. (S. Greg., Moral., Lib. IV, Præfatio) — Quos a culpa originis sacramenta non liberant, et hic ex proprio nihil egerunt, et illuc ad tormenta perveniunt... Perpetua quippe tormenta percipiunt, et qui nihil ex propria voluntate peccaverunt (Id., Lib. IX, no. 32, Ed. Ben.)
[4] Défense de la Tradition et des saints Pères, livro V, capítulo II.
Capítulo oitavo
As feridas da natureza
Para exprimir as conseqüências devastadoras do pecado original, os Padres da Igreja têm uma fórmula, aceita por Santo Tomás e repetida desde então por todas as vozes católicas: pelo pecado de Adão, o homem foi privado dos dons gratuitos e ferido nos dons naturais (Spoliatus gratuitis, et vulneratus in naturalibus).
Por dons gratuitos entende-se a graça santificante e todo o cortejo de bens sobrenaturais por meio dos quais o homem foi feito filho de Deus, herdeiro do céu, irmão dos anjos, e imortal mesmo no seu corpo. Todos esses bens foram completamente perdidos em conseqüência do pecado.
Resta a natureza; ou seja, o homem composto de corpo e alma: ora estes bens, que nos restaram depois da queda, não são mais o que eram, não são mais o que deveriam ser segundo o plano divino. Eles foram feridos, e feridos de modo grave.
Essas feridas são quatro: a ignorância, a malícia, a fraqueza e a concupiscência.
A ignorância afeta a razão, que não está mais na ordem que lhe convém em relação à verdade. A malícia afeta a vontade, que não está mais ordenada segundo o bem. A fraqueza e a concupiscência afetam igualmente a vontade e paralisam suas forças em relação ao bem árduo que ela deve procurar e em relação ao prazer que ela deve moderar e regular.
Vê-se que a natureza está muito enferma.
Ora, há hoje muitos espíritos – excelentes, de resto – que, depois de reconhecer que a natureza perdeu os dons sobrenaturais, esforçam-se para nos fazer crer que ela guarda integralmente os dons naturais. As feridas que enumeramos para eles não contam, ou contam muito pouco; são nada ou quase nada.
Um dia, chegou-nos às mãos um escrito devoto onde, a propósito da Imaculada Concepção da Santíssima Virgem, se pretende dizer o que é o pecado original. E assim o define: a perda da justiça original. Isto está bem, mas, em seguida, acrescenta: “Evitemos de ver aí uma deterioração da natureza!”
Como o Concílio de Trento assevera que pelo pecado original o homem se deteriorou segundo o corpo e segundo a alma, nos permitimos procurar o autor e perguntar-lhe como ele escapava do anátema lançado pelo Concílio. Ele nos respondeu: “Você não leu Suárez.” A resposta não nos pareceu suficiente, e insistimos. Mas o autor não tinha tempo para discutir conosco e, com palavras polidas, nos mandou passear.
Esta pequena história é a história de muita gente. Eles não querem olhar a verdade face a face; e se nos propomos a colocá-la diante de seus olhos, eles nos rejeitam.
Nós católicos não desprezamos a natureza. Distinguimos nela o que é de Deus, e bendizemos o Criador. Ao mesmo tempo, reconhecemos o que nela está ferido pelo pecado original, e suplicamos a cura a Jesus, nosso único Salvador.
Capítulo sétimo
O pecado original e a Maçonaria.
Como sempre dizemos, todo o Catolicismo se resume a duas pessoas: Adão e Jesus Cristo. Adão, por quem caímos; Jesus, por quem nos reerguemos.
Disto segue que os dois dogmas capitais de nossa fé são, de um lado, o pecado original; de outro, a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Bossuet, ao explicar o que o Apóstolo chama de “mistério da iniqüidade”, (2 Ts 2, 7) diz: “Este mistério consiste na corrupção das máximas do Evangelho e no estabelecimento do anticristianismo”[1]. No estabelecimento do anticristianismo! Bossuet foi profético no seu tempo: o estabelecimento do anticristianismo é hoje fato consumado, e seu nome é Maçonaria.
Todos sabem como a Maçonaria vê a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ela acaba de proibir que se pronuncie o seu nome nas escolas que tornaram obrigatórias para os católicos[2]. Todos sabem disso. Mas não se conhece tão bem o que pensam os maçons do segundo dogma fundamental do Catolicismo. Nós o diremos, de acordo com um autor muito bem informado, o Padre Deschamps que em seu magnífico trabalho Les sociétés secrètes et la société afirma: “De todos os dogmas católicos não há outro que a maçonaria ataque com mais furor que o pecado original.”[3]
A seita anticristã sabe muito bem que ao atacar este dogma capital, ela derruba por inteiro o Catolicismo e não deixa no lugar senão o seu naturalismo.
O Protestantismo capitulou diante do anticristianismo, e não teve forças para afirmar nem a divindade de Nosso Senhor nem a realidade do pecado original. Compreendemos este recuo: quando se nega a fé em um ponto determinado, não se está mais em condição de defendê-la seriamente em nenhum outro.
A Igreja católica não conhece tais deficiências: ela está lá com sua fé antiga, seus antigos Concílios, seus definições solenes de fé, e apresenta a todas as almas a pura flama da verdade imutável.
Mas nem todos os filhos da Igreja têm a docilidade necessária em relação à sua mãe: muitos escutaram a voz que vem de fora, e que procura nos inocular o veneno do naturalismo, que com o tempo se transformará no próprio anticristianismo. Questionam então o dogma do pecado original, enquanto nós, sob o pretexto de evitar polêmicas e de lhes tornar a fé mais facilmente aceitável, diminuímos a verdade, patrimônio dos fiéis. Diminutae sunt veritates a filiis hominum (Sl 11, 2).
[1] Pensées détachées, t.VII, p. 126. Ed. Outhenin.
[2] Quando o Pe. Emmanuel-André publicou o presente opúsculo, vigorava na França a funesta III República, que fazia guerra ao catolicismo lançando-se sobretudo contra as escolas católicas. “Quero, com todas as ganas da minha alma, não apenas que se separe a Igreja do Estado, mas as escolas da Igreja”, dizia León Gambetta. E Jules Ferry, ‘pai’ da escola laica obrigatória, confessava: “Meu propósito é organizar a humanidade sem Deus e sem reis. Mas não sem patrões.” Ambos eram maçons. [N. do E.]
[3] A maçonaria possui um rito destinado a substituir o nosso batismo. É sobretudo nele que proclama sua negação do pecado original. Para nós, uma criança batizada é um filho de Deus, um anjinho. A criança que recebeu os ritos de iniciação maçônicos é chamada, no jargão das lojas, de lobinho. Comparem!