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Índice de autores

Introdução ao vigésimo domingo de Pentecostes

“Vai, diz Nosso Senhor, teu filho vive” (Evangelho).

 

Paramentos verdes

 

As lições que estes dias se leem no Ofício são tiradas quase todas dos Livros dos Macabeus. Depois do cativeiro de Babilônia, o povo de Deus tinha voltado a Jerusalém e reconstruído o Templo. Os primeiros anos foram de paz. A Mão de Deus, porém, não tardou a pesar de novo sobre este povo de cerviz dura, em consequência de novas e lamentáveis infidelidades. Antíoco Epifanio, com efeito, apoderou-se de Jerusalém, saqueou a cidade e o Templo, e decretou a abolição do Judaísmo em toda a extensão do império. Ergueram-se altares aos ídolos e o número dos apóstatas cresceu tanto, que pareceu que ia desaparecer da face do globo a fé dos profetas e de Israel. Deus, porém, esperava o momento oportuno para mostrar mais uma vez a esse povo ingrato que, embora a mãe esqueça às vezes o próprio filho, Ele nunca o esqueceria. Com efeito, o sacerdote Matias reuniu um pequeno exército chefiado por seu filho Judas Macabeu, que iria desviar o rumo dos dias gloriosos. Esse punhado de homens decididos, rápidos como o abutre e implacáveis como o Espírito de Deus, derrotaram em breve o exército de Antíoco e restauraram nas terras de Israel o culto de Jeová.

Todas as partes da Missa exprimem sentimentos semelhantes. O Gradual, por exemplo: “todos os olhos se levantaram para Vós, Senhor, cheios de esperança”, traduz perfeitamente o sentido daquela oração tão bela: “O nosso olhar voltou-se para Vós, Senhor, não nos deixeis perecer”. O Ofertório, um dos versículos mais sentidos referentes ao cativeiro, revela-nos bem o estado de espírito dos Macabeus perante o Templo profanado. Finalmente, o Intróito, depois de nos dizer que o povo de Deus foi castigado por causa dos seus crimes, pede ao Senhor que mostre a sua misericórdia e glorifique o seu nome. Façamos nossos estes pensamentos. Reconheçamos que os males que sofremos são provenientes da nossa infidelidade à vontade divina, e roguemos também ao Senhor que se compadeça de nós, que nos perdoe e una, para que O sirvamos em paz e glorifiquemos o Seu nome.

Da Epístola: Erguei-vos do túmulo em que dormis, diz S. Paulo, e Cristo vos iluminará. Resgatados da morte por Jesus Cristo não nos demos mais às obras das trevas, mas vivamos como filhos da luz. Aproveitemos o tempo que nos é dado para fazer a vontade de Deus e Lhe dar graças pela vida divina a que se dignou chamar-nos.

Do Evangelho: Jesus salvou da morte o filho do régulo, para dar ao régulo e a toda a família dele o que é mais que a vida material, a fé. Este milagre deve aumentar em nós a fé em Jesus Cristo, que nos salvou da febre do pecado e da morte eterna, consequência dele.

 

 Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

Santo Tomás propõe a vingança como virtude. Mas, vingança não é algo ruim?

Pe. Juan Carlos Iscara, FSSPX

Entre as virtudes sociais, isto é, aquelas que facilitam a vida dos homens na sociedade, Santo Tomás enumera a vindicta – que deveria ser traduzida como “punição justa” para evitar o sentido pejorativo que a palavra “vingança” tem. É uma virtude ligada à virtude cardeal da justiça, que consiste em punir o malfeitor pelo crime cometido.

Infelizmente, quando se trata de punir criminosos, o mundo moderno parece oscilar entre dois extremos: rigor desproporcionado e leniência exagerada. Portanto, é necessário esclarecer o que entendemos como “vingança”, punição justa.

Não há duvida de que restaurar a ordem perturbada por uma ação má é uma obra boa e virtuosa, exigida pela justiça em si e pela necessidade de manter a ordem social. Porém, em razão de nossa natureza decaída, quando se aplica uma punição, é muito fácil se deixar levar por motivos pecaminosos (raiva desordenada, ódio do criminoso, etc), o que faria a punição perder sua justiça, seu caráter virtuoso, tornando-a um verdadeiro pecado.

Santo Tomás explica:

A vingança se consuma infligindo ao que pecou, uma pena, como um mal. Logo, devemos levar em conta na vingança, o ânimo com que age quem a exerce. ­ Se, pois, a sua intenção principalmente está no mal daquele de quem se vinga e nela se compraz, a vingança é absolutamente ilícita. Porque o nos comprazermos com o mal de outrem supõe o ódio, contrário à caridade, que nos manda amar a todos os homens. Nem pode escusar–se ninguém dizendo que quer o mal de quem injustamente lh'o fez, assim como não seria escusado quem odiasse ao que o odeia. Pois, não devemos pecar contra outrem por ter este pecado anteriormente contra nós, o que seria deixarmo–nos vencer do mal, procedimento proibido pelo Apóstolo, quando diz: Não te deixes vencer do mal, mas, vence o mal com o bem. – Mas, se a intenção de quem se vinga visa principalmente um bem, que obteria punindo o pecador – por exemplo, fazendo–o emendar–se ou pelo menos coibindo–o, dando paz aos outros, salvando a justiça e a honra de Deus  – nesse caso a vingança pode ser lícita, uma vez observadas as circunstâncias devidas (Suma Teológica, II-II, q. 108, a. 1)

Com essas distinções, o verdadeiro significado e os perigos dessa virtude se tornam claros. Santo Tomás analisa algumas objeções que poderiam ser levantadas contra elas e, ao resolvê-las, aperfeiçoa a doutrina.

Alguns objetam que aquele que se vinga usurpa uma função exclusiva de Deus (Dt 32,35) cometendo, portanto, um pecado. Santo Tomás responde que quem exerce a vingança sobre os maus, no exercício dessa função – por exemplo, as autoridades seculares – não usurpa nada de Deus, mas usa o poder que Ele lhe deu (Rm 13, 4). Mas, se alguém se vinga fora da ordem estabelecida por Deus, usurpa o que é dado a Ele e, portanto, peca.

Outros, mais piedosos, objetam que aqueles que são bons devem tolerar os maus e suportar, com paciência, suas maldades. Santo Tomás pontua que deve ser assim em relação às injúrias feitas a si mesmo, mas não às injúrias a Deus ou o próximo. Porque, como São João Crisóstomo diz, “ser paciente com as injúrias de alguém é digno de louvor; mas ocultar as injúrias a Deus é uma impiedade.”

Na prática, raramente será conveniente que uma pessoa tente, por si mesma, punir o culpado (exceto ao repelir uma agressão injusta em legítima defesa), porque, sob o pretexto da justiça e da equidade, um amor próprio desordenado e, talvez, ódio do próximo estarão escondidos. Por isso que sempre é recomendado perdoar as injúrias dos outros ao invés de puni-los, exceto se a honra de Deus, o bem comum ou a emenda do próximo demandar que peçamos reparação da injúria.

(The Angelus, Set/21)

Nossa posição sobre certas tecnologias

Pe. Jean-Pierre Boubée, FSSPX

 

“— Esse meu garoto, como é esperto! Você precisa vê-lo usando o computador...”

“— Para o meu, dei um tablet de Natal”.

Essa conversa banal entre duas mães de família ocorreu enquanto os meninos se entretinham com seus vídeo-games portáteis, a menos que estivessem enviando uma de suas cinqüenta mensagens quotidianas.

 

Nos últimos sessenta anos assistimos a uma acelerada e insuspeita evolução técnica de nossos instrumentos de vida. O universo das telas[1] se impôs em nosso modo de conhecimento, em nossas comunicações, nossas relações profissionais, em nossos lazeres e, amiúde, como fundamento de nosso juízo. É notório que tais novidades tecnológicas tenham modificado consideravelmente:

- nosso comportamento individual,

- nossos hábitos sociais, e por esse mesmo fato, o savoir-vivre,

- mas também, mais profundamente, nossos processos mentais

- e nossa vulnerabilidade moral, pois tais novidades arquitetam um novo universo de tentações e pecados.

O tema é amplo. Dizer que tudo melhorou e alardear um irenismo tolo seria absurdo e irrealista. Não bastaria, também, resignar-se a um lamento apocalíptico e dizer que tudo vai mal... que a fortiori tudo está proibido. O homem de bem, sobretudo o católico, não pode todavia resolver-se num fatalismo que cruza os braços. Ele não pode se contentar em dizer — à maneira de um liberal — “que agora é assim”, e “que não se pode voltar atrás”. Há provações e graças próprias a cada época, e convém que não as deixemos escapar.

É evidente que todas as técnicas trazem novas possibilidades, esplêndidas, e que nós as podemos utilizar. Mas uma análise sã nos permitirá demarcar o que é admirável, o que é útil e o que é prejudicial.

 

• O mecanismo intelectual do homem é uma maravilha

O homem foi admiravelmente concebido para alcançar os conhecimentos mais elevados.

- Seus sentidos permitem-no atingir o mundo que o rodeia, e a inteligência consegue assim conhecer a natureza das coisas;

- confrontado com o real, ele pode então agrupar as idéias, compô-las, encadeá-las. Elas o conduzirão a emitir juízos práticos e prudentes;

- em seguida cabe à vontade mover-se na direção do bem;

- a perfeição de seu impulso chama-se amor;

- essa perfeição vem para regular os sentimentos ou paixões que poderiam se demonstrar mais desordenados;

- assim estruturado, o homem se orienta rumo à perfeição, respeitando essa ordenação desejada pelo Criador que chamamos de moral; seu aspecto mais nobre é precisamente uma forma de amor chamada Caridade.

 

Eis o funcionamento do homem. Mas a chegada maciça de técnicas novas modificou consideravelmente esses comportamentos elementares da psicologia, a tal ponto que cada um deles exige uma reflexão.

 

 

  1. Utilizamos nossa inteligência segundo seu modo normal? Estamos aptos para alcançar a verdade?

• O processo de conhecimento

Uma linha manifesta de ruptura aparece com a chegada generalizada da televisão. Podemos marcar essa virada em torno de 1960. Até então, o homem estava habituado a conhecer o real tal qual ele é, a assimilá-lo, e em seguida exercer seu juízo. Necessariamente, esse acesso ao real colocava em movimento também as paixões: os sentimentos nasciam a um ritmo humano. A educação e a experiência levavam ao regulamento dos sentidos pela razão.

Uma inteligência alcança seus primeiros saberes pelos sentidos, segundo uma proporção concebida pelo Criador: vê-se, entende-se, toca-se, respira-se... Desse conjunto a inteligência tira “conceitos”. São idéias, abstratas e universais, formadas como verdadeiros espelhos do real. A especificidade extraordinária do homem é essa inteligência, capaz de pensamentos abstratos, mas que correspondem ao real.

Quanto mais bem-feita a educação, mais ela desenvolve essa faculdade propriamente humana. A percepção e o aprendizado de palavras solicitam a ajuda da educação; e também a leitura, certamente. O lugar de honra pertence à qualidade e à exatidão da linguagem, pois elas nos obrigam a adequar nosso pensamento e nos tornam capazes de transmiti-lo e recebê-lo de outrem.

A imagem artificial que por vezes ilustra uma leitura é apenas uma ajuda: ela a alivia, pois em vez de fazer trabalhar a inteligência, dirige-se à imaginação, que é uma faculdade da ordem do sensível. Sabemos que diante de uma imagem desenhada, ou de uma fotografia, a impressão passional é mais forte, e o juízo menos fundamentado.

Se nós aumentamos indevidamente o número de imagens, o conhecimento se produz então globalmente por essas representações artificiais: estas tocam muito mais profundamente a imaginação e a sensibilidade do que a inteligência. Se se formam conceitos, eles serão inadequados: isto é, as idéias formadas não terão nem a amplitude, nem a qualidade de penetração do real que trazem aquelas idéias formadas pelos caminhos ordinários da descoberta e da comunicação do saber.

 

• O cyber-cérebro diante de um novo processo de conhecimento

Ora, de repente, o homem se viu diante de um recrudescimento da imagem, e mais particularmente daquela que se move e fascina. Essa multiplicação de imagens irá sobre-excitar os sentimentos, suscitados por “pequenos resumos parciais do real”, tanto mais traiçoeiros quanto a imagem possa convencer a objetividade[2].

Com esse advento universal da imagem, a inteligência encontra-se então frustrada[3]: ela é “geralmente” substituída pela sensibilidade. O processo de conhecimento da inteligência foi gravemente prejudicado. O funcionamento rotineiro da inteligência da criança, e do adulto, em seguida, encontra-se atrofiado. A incapacidade de compreender, de julgar, de questionar, de afirmar sua personalidade torna-se moeda corrente.

Fez-se recuar a inteligência do homem moderno ao estado da dos “primitivos”. Com efeito, nossos contemporâneos reagem exageradamente com as paixões diante de conceitos que não atingiram o estado de “pensamento”.

Qualquer jornalista que se arrogue “especialista em humanidade” usa termos como racista, fascista, os direitos, a economia, a democracia, sem nenhum conteúdo conceitual sério!  Ser-lhe-ia uma enorme dificuldade defini-los, o que é o cúmulo! O leitor, porém, é da mesma laia.

Na área comercial, o resultado não é muito mais brilhante, uma vez que vemos toda gente correr para as “liquidações” sem saber se realmente precisa de algum produto novo.

 

• A tela se tornou mais verdadeira que o real

A publicidade foi a primeira a pôr em relevo um fenômeno gravíssimo. Os produtos são vendidos agora com os dizeres “conforme visto na televisão”. Eles adquiriram da televisão um selo de qualidade ou confiabilidade. Teríamos todos os motivos para estarmos preocupado com tal inversão: não é o fato de ser apresentado sobre a tela que confere perfeição intrínseca a um objeto.

A situação agravou-se. Um estudo revela que para a criança “o que a televisão mostra é verdade... porque ela o vê”.[4] Ora, a criança passou então a interrogar seus pais para ver se a resposta deles está de acordo com a enciclopédia da internet.

Esse mal difundiu-se entre os adultos, que julgam e exprimem livremente suas opiniões de “Doutores em todas as ciências” após a leitura de alguns fóruns, ou após receberem um documento de um amigo. Quando consideramos que alguns tribunais passam mais de trinta anos revisando sucessivamente seus documentos, em razão de não terem a totalidade dos dados, não podemos senão ficar preocupados com o risco de juízo temerário consentido pela maioria de nossos contemporâneos. Fato tanto mais grave quando se trata de medicina, história, filosofia ou religião.

 

• O homem moderno está predisposto a ser escravo

Essa fraqueza conceitual predispõe o homem a ser “escravo”: com efeito, separados do seu contexto, selecionados entre os outros, reduzidos à medida de uma tela, elaborados segundo um certo plano de pontos de vista, as representações escolhidas, ou os textos retidos têm por fim engendrar sentimentos fortes, impressões intensas, mas totalmente artificiais.

Os jornalistas de toda estirpe tiram partido disto. Acrescentando a esse processo a rapidez das imagens e o seu encadeamento lógico, eles não têm nenhum escrúpulo em fazer com que seja admitido como verdadeiro o que denominaram como tal, já que os espíritos não têm os meios nem o tempo de se colocarem em funcionamento.

Facilmente, o efeito dos filmes e desenhos animados modernos aparece com acuidade: as mudanças de plano, de personagens, de luminosidade se produzem em geral a cada três segundos. Os primeiros cineastas falavam de sete a oito segundos mínimos para que o espírito tivesse tempo de compreender o tema. Um webmaster sabe que dispõe desse tempo, e não mais, para convencer um internauta a permanecer em seu site.

A população está acostumada a esse modo de funcionamento. Trata-se manifestamente de uma vontade deliberada para impedir que a percepção se fixe no processo de atingir a inteligência.

As últimas pesquisas científicas apoiam essas constatações[5]. Seria um tema para outro estudo: pode-se observar com precisão as zonas do cérebro solicitadas segundo os diferentes modos de percepção cognitiva. Os aparelhos mostram claramente que a imagem — sobretudo animada — não solicita o mesmo funcionamento de nosso cérebro.

Não é à toa que todos os diretores de escola, sem exceção, notaram nos anos 1960 um enfraquecimento considerável do desempenho das crianças quando a televisão era introduzida em casa. O tempo perdido pode explicar parte disso; mas a modificação radical do processo habitual de conhecimento e reflexão tem aí participação considerável.

 

• O real tal como o queremos

O computador[6], cerca de 25 anos depois, veio trazer a “intervenção” na imagem. Essa intervenção se dá em superfícies bem pequenas, de maneira bastante simplificada, com a ponta dos dedos. Ela não tem nada de semelhante à intervenção de um homem no real. Não é mais a vida no mundo sensível, mas apenas na imagem bem fragmentada deste mundo.

Surgem duas novidades:

- Não é todo o ser, não são todos os membros, não é toda a personalidade que intervém.

- Essa intervenção não implica mais a responsabilidade física sobre um acontecimento real: com que lamentável facilidade as crianças estão habituadas a matar nas telas, ou os adultos se lançam em situações moralmente sulfurosas. (Falamos de responsabilidade física: com efeito, a responsabilidade moral — a qualidade que um ato tem de ser bom ou mal — permanece sempre diante de Deus!)

O desligamento do real foi ainda mais amplificado. A imaginação se tornou mestra do comportamento.

 

• Erradicação do verdadeiro pensamento

Quantas crianças, quantos adultos doravante redigem antes de pensar e fabricam assim um caleidoscópio de frases. Máxime quando a cultura reduz-se a um copiar-colar de algumas linhas da internet.

Muitos professores exigem trabalhos escolares que representam uma monstruosa caricatura do saber, pois o produto final não transitou pela inteligência!!! Não houve nem abstração, nem compreensão, nem juízo no sentido intelectual do termo. Não se pode fazer nem uma síntese, nem uma análise segundo um plano rigoroso e embasada sobre a essência do tema em questão.

Entre os mais velhos, a imensa feira de fóruns, blogs e outras intervenções sobre a internet é, infelizmente, uma espécie de zoológico dessa ausência de pensamento.

Graças a algumas escolas de pedagogia tradicional, alguns sobreviventes ainda aprendem a fazer dissertações com lápis e papel. Com efeito, antes de se lançar na redação, a pesquisa das idéias, sua classificação, sua simplificação é um elemento fundamental do que chamamos simplesmente “o pensamento”.

O primeiro serviço a se prestar a uma criança é ensinar-lhe a conceituar, a pensar, a julgar.

Para os que perderam o hábito de fazê-lo, sem dúvida seria saudável que se obrigassem a reconstruir seu pensamento de maneira manuscrita antes de se pôr a exprimi-lo por via eletrônica.

 

 

II – Estamos aptos a exercer um verdadeiro juízo da inteligência segundo a virtude?

 

• A faculdade do juízo

Uma das perfeições da natureza humana e de seu instrumento intelectual manifesta-se pelo juízo. Utilizando conceitos que ela formou, a inteligência é capaz de associá-los, ligando a existência de um à do outro. Assim, vai-se afirmar que “a casca da árvore é branca”.

Essa riqueza não serve unicamente para aperfeiçoar os conhecimentos, mas também para guiar a ação. Esse domínio é o do juízo que chamamos de “prudencial”.

Esse desenvolvimento conhece um progresso particular na entrada dos 6 e 7 anos de idade, quando a criança ultrapassa sua experiência do mundo para construir com lógica elementos que ultrapassam sua simples percepção sensível imediata.

 

• A solicitação imediata das impressões

O mundo das técnicas modernas acrescenta a seu dilúvio de imagens um assédio de incitações ao juízo imediato, mediante votações, questionários, opiniões a se emitir.

Temos o direito de nos perguntarmos se um jovem que responde a cada instante o que pensa sobre uma informação imediata, exibindo-a num fórum, espalhando-a pelos múltiplos modos de comunicação do seu telefone, estará apto um dia a se tornar um chefe de empresa. A resposta é não!

Com efeito, ele se acostumou a considerar como “real” o que não passa de uma minúscula afirmação peremptória, sem nenhuma verificação, sem nenhum trabalho de sua parte, sem o verdadeiro uso de seus sentidos e de sua abstração. Sua inteligência especulativa não foi utilizada; seu juízo não é um juízo — no sentido pleno do termo — porque não é fruto de uma prudência ancorada na parte da inteligência chamada “prática”.

Ora, a qualidade moral de um homem, a retidão de sua personalidade, realiza-se e manifesta-se pelos progressos da virtude da “Prudência”[7].

No dia-a-dia, o juízo prático é inexistente: faltam-lhe, antes de tudo, os conceitos; faltam-lhe as informações: faltam-lhe os elos de uma avaliação relativa a todo o contexto. O homem se acostuma ao impulso: ele expressa suas opiniões, não sabe agir de outro modo.

Ele habitua-se a viver nos antípodas da construção de uma personalidade, da capacidade de gerir a realidade da vida com verdadeira responsabilidade.

Enfim, quando se sabe até que ponto os homens engendram ações tortas e discórdias catastróficas, quando os impulsos precedem a reflexão, é previsível que seus hábitos mentais amplificarão e multiplicarão essas desordens.

 

• Uma falsa construção da personalidade pelo jogo

A natureza, segundo seu curso normal, previu que a criança ou o adolescente se predispusesse à vida futura de adulto de diversas maneiras, entre as quais as brincadeiras ocupam lugar predominante. Elas o submergem num universo que é “semelhante ao real”, uma espécie de irreal real — se podemos nos permitir tal oposição de termos.

Com os jovens, sobretudo, seu corpo, seus sentimentos, sua inteligência, seu juízo, tudo se entretém. Eles fazem um tipo de digestão da soma extraordinária de informações que receberam para experimentá-las no mundo real. Mesmo num jogo organizado, mais tranqüilo como um jogo de tabuleiro, ou mais exaltado como uma partida de futebol, toda a personalidade é engajada: mas sabe-se bem que é a personalidade real, num mundo real.

O jogo de computador, os consoles de jogo, os pequenos jogos eletrônicos arrancam os jovens da verdadeira percepção sensorial e racional do real, e os reintroduzem no irreal. Esses jogadores modernos penetram na “imagem”, e não no mundo, através de um uso exacerbado de certos sentidos de modo desequilibrado. Eles se esforçam a fundo para se reconstruírem num mundo que não comporta pontos de contato com aquele em que vivem.

O jogo, portanto, não serve mais para prepará-los para o futuro, como se dava com o comportamento normal de uma criança.

Além disso, o sistema nervoso aí perde seu equilíbrio por um excesso de estímulos, choques, claridade e situações freqüentemente violentas[8]. Esta super-excitação esgota a faculdade da atenção calma, como notam depois os professores nas salas de aula. Os médicos são afrontados com casos sérios de epilepsia foto-sensível, enfermidade recente. Porém, desse uso frenético, surge uma ânsia que cria freqüentes dependências[9], em graus diferentes. Em particular, os jogos violentos que adoecem o jogador num hábito “toxicomaníaco condicionado”; ou seja, reflexos condicionados diante de situações agressivas que liberam dopamina[10] no cérebro, trazendo uma espécie de prazer e de necessidade artificial.

Essa sede é aumentada pelos jogos em rede[11]. Em escala internacional, organizam-se jogos de estratégia pela internet. As partidas se renovam, desenlaces surpreendentes se multiplicam sem nenhum fim. Organizam-se até desafios, e meios de se fazer conhecido nesse microcosmo.

Um tipo de pseudo-mundo é criado; tem-se aí uma missão. É preciso estar pronto para interferir contra outros combatentes, às vezes a qualquer hora do dia e da noite. O condicionamento é tal que uma parte da dependência provém da frustração de sua missão, enquanto que o jogo continua sem você. É preciso subir nos degraus de uma hierarquia, tornar-se o melhor de sua corporação...

Mas quando se reflete nisso, qual a seriedade dessa hierarquia? E a glória, os desafios, os embates que são apresentados como reconhecidos internacionalmente, o que trazem de construtivo ao homem? Nada. Somente vento e um isolamento abismal! Às vezes, é como as loterias, os jogadores deixam-se seduzir pela atração enganosa da glória e do dinheiro que um só conseguiu ganhar, ao passo que milhares de outros se afundam na dependência.

“Pode-se afirmar que um homem incapaz de ação, e apto somente para os sonhos, se comportaria verdadeiramente bem, ainda que todos os seus membros estivessem em bom estado?”[12]

 

 

III – Ainda amam alguém de fato?

Se a inteligência sofreu um rude golpe com esse modo de comunicação, se o sentido do juízo diminui perante as solicitações dos impulsos imediatos e irrefletidos, outros aspectos arruínam definitivamente a pessoa: os que atacam o uso da vontade.

O homem é feito para “amar”, no sentido mais nobre. Ele possui sentimentos e uma vontade aptos a se orientarem firmemente rumo ao que é bom, ou em direção a alguém que o eleva.

Essa capacidade de amar, tão rica na natureza humana, sofreu um golpe com o papel conjugado do telefone celular e das mensagens enviadas pela internet.

 

• Amar verdadeiramente

O amor também se aprende. No contato com nossos pais, nossos irmãos e nossas irmãs, com nossos diversos colegas, aprendemos a viver com o outro. É preciso se doar, mas também se calar. É preciso contrariar-se, assim como é preciso entusiasmar-se. Mas existe um ritmo: aprendemos, no contato com o outro, que uma irritação ou uma frase malvada dita grosseiramente trazem conseqüências que é preciso administrar; que um ato de caridade é por vezes custoso, mas ilumina uma atmosfera.

 

• As diferentes esferas de amizade

O homem se desenvolve no seio de diferentes esferas: a esfera íntima da família; e depois, a dos amigos mais ou menos próximos. Existem pessoas para as quais um certo savoir-vivre implica comportamentos que são a manifestação de uma caridade elaborada.

Em outras circunstâncias, essa caridade não tem as mesmas exigências. A família, por exemplo, tem o direito de nos conhecer nos nossos piores dias. A caridade aí é mais exigente, mas a codificação menos constrangedora.

 

• Os ausentes presentes e os presentes ausentes

O mundo moderno parece agora estar aberto a um vasto campo de comunicação e de amizades, ao menos em aparência: entretanto, por uma sinistra ironia, o inverso se impõe a nós. Observemos bem: quando nossos modernos antenados estão ao nosso lado, eles estão se comunicando com outras pessoas. Os ausentes impõem-se então por sua falsa presença, e os presentes são para nós como estranhos. Em conclusão, as pessoas ausentes estão sempre presentes, e as pessoas presentes, sempre ausentes! Não é isso a predisposição a um modo de funcionamento que se chama clinicamente esquizofrenia? A questão merece ser levantada.

Duas pessoas acabaram de se despedir? Elas logo estarão se chamando. Dois jovens, em vez de aguardar o dia seguinte, comunicam a cada instante os acontecimentos de sua vida de família, os seus sentimentos fugazes, as palpitações do seu espírito. A inconstância do espírito torna-se uma segunda natureza.

Outro inconveniente: os efeitos das relações habituais, como a caridade, a amizade, a paciência, ou mesmo os bons modos tornam-se impossíveis. As relações não são mais com os únicos presentes: é preciso levar em consideração a existência de um terceiro que intervém, e do qual se ignora a identidade. Por exemplo, um pai repreende um de seus filhos, este último tem a possibilidade imediata de se abrir a outrem; ele perde totalmente, por esse fato, o fruto de uma reflexão necessária sobre a observação que lhe foi feita — antes de tudo na ordem das paixões, em seguida, pouco a pouco, na ordem da razão. Ele perde esse valor acrescentado à personalidade, que chamamos de educação.

Enfim, a vida familiar, ou o prazer de estar com amigos se ressente. Você acreditaria ter um interlocutor, um amigo... mas ele está em comunicação com o exterior. Mesmo os que se encontram pela internet se comunicam com várias pessoas! Não é raro que tenham várias “janelas” abertas ao mesmo tempo.

 

• As falsas amizades

Por outro lado, a amizade conhece outro enorme avatar: são todas essas redes sociais que incitam os jovens a entrarem em relação com o “máximo de pessoas” para compartilhar todo o medíocre de suas vidas.

São de fato amigos? Não podem ser amigos, porque um amigo se freqüenta.

• As verdadeiras amizades se fundam, em primeiro lugar, numa freqüentação verdadeira, e não na tela ou na troca de mensagens medíocres.

• Os amigos são pouco numerosos.

• Mas, sobretudo, são eles que nos descobrem e não nós que nos vangloriamos. Nessas redes, os usuários se apresentam tal como querem parecer. Em resumo: teatralizam-se.

Entre os jovens, as virtudes raramente são colocadas em destaque, pois é mais fácil atrair com coisas malsãs, com pecados, ou com limites que se ousou ultrapassar.

Diante de todos, exerce-se uma espécie de voyeurismo: “ele ousou”, “ele fez”, “ela se veste assim”, “ele também tem uma namorada”... Nós falamos há pouco dessas esferas múltiplas nas quais a delicadeza da personalidade aprende a reconhecer que há coisas que se pode dizer em certas circunstâncias, mas não em outras. Mas nesse sistema, tudo se torna público, mesmo o quotidiano comezinho que não deveria entrar nessa esfera.

- Perda de juízo.

- Perda do pudor.

- Perda do bom senso.

- Perda do savoir-vivre.

- Perda do senso da família.

- Perda do senso da amizade,

A avaliação final é péssima![13]

 

• Os numerosos e privilegiados interlocutores do sexo oposto

O fenômeno fica ainda mais estranho quando se trata de um rapaz e uma moça, que estabelecem relações desse tipo. Hoje em dia, qualquer que seja o meio, desde os 14, 15, 16 anos eles comunicam-se por mensagens de texto, duas, três, seis, dez vezes numa noite. (A média nacional entre adolescentes chega a 83 por dia![14]) Quase sempre tolices, um boa-noite, uma opinião, que importa! Tomou-se o hábito de contar tudo a todo mundo.

Poderíamos imaginar que um meio católico sério não conheceria o fenômeno inglês e protestante dos namoros precoces. A multiplicação dessas relações indiscretas importou essa decadência para o mundo católico, inclusive para os meios que visam a uma educação mais bem cuidada dos sentimentos: mesmo se o nome não é pronunciado, a realidade existe.

Freqüentemente essas comunicações se querem divertidas. Os mais inocentes — supondo que o sejam — tornaram-se tão relaxados com a convivência com o outro sexo que pensam não ser menos mau exprimir pequenas observações passageiras a uma moça que a um rapaz. Trata-se de falta de bom senso, a menos que não seja de má-fé! A natureza retoma seus direitos; a personalidade é tocada, discretamente talvez, porém mais profundamente do que parece. E então, estabelecem-se tipos de pseudo-amizades, pseudo-paixões “amorosas”. Quando um confessor quer tentar iluminar a consciência, ele constata a perda violenta que isso provoca: prova de que existiam vínculos relativamente profundos.

Para cúmulo, cada um possui vários interlocutores do sexo oposto. Mesmo se um tem a preferência, os outros ocupam bastante espaço. Quando alguém comunica uma dificuldade ou uma tristeza singular, então se estabelece uma comunicação telefônica muita longa. Essas trocas podem se multiplicar, chegar até encontros para ajuda mútua. Na semana seguinte, será com uma pessoa diferente. Teríamos dificuldade em descrever o desconcerto psicológico, a destruição das disposições ao amor matrimonial.

Os deslizes que podemos imaginar não são tão raros quanto se quer fazer crer. Nesse campo, seja permitido lembrar que cada geração sabe muito bem como mentir, enganar os pais e inventar desculpas falsas para sua própria consciência.

Mas antes de se considerar como culpado, ou simplesmente pecador, existe um profundo desgaste psicológico, porque a ordem da natureza não foi respeitada.

 

• A construção desordenada do amor marital

Quando, mais tarde, sobrevém uma verdadeira paixão amorosa — que pode evoluir num matrimônio saudável — os sentimentos estão embotados. Ordinariamente, a paixão ardente tem dificuldade de se expressar; mas quando ela quer se preparar ao matrimônio, com ajuda da imaginação, ela aspira a grandes coisas. Mas a vida mostrará em seguida aos dois esposos que eles vivem também de pequenas coisas que, concretamente, os obrigam à Caridade.

Essas múltiplas comunicações inverteram o processo: os jovens perdem muitos anos em pequenas coisas que não exigem nenhuma caridade porque elas são “narradas sem ser vividas”. Assim, uma dor, um mal-estar expresso ao outro não tem nenhum impacto, não implica nenhuma dificuldade para si mesmo, nenhum ato de verdadeira caridade.

Mas durante esse tempo, as trocas são muito numerosas para pensar em coisas grandes.

Chegados ao casamento, essa inversão da ordem natural da preparação trará uma decepção clara. É certo que a construção dos futuros lares se ressente disso.

Notem bem que a infiltração desse comportamento é dificílima de se estigmatizar enquanto não engendra ainda pecado explícito. Os pais vêem-se impotentes para retomar o bom senso e a vigilância dos sentimentos que se deve ter na relação com o sexo oposto. Como e a partir de que momento assinalar a um jovem que ele ultrapassou os limites admissíveis e que ele arruína sua capacidade de amar, seu senso do real e a seriedade dos seus sentimentos?

Durante esse tempo, a noção de amor é igualmente destruída e o respeito pelo próximo diminui. A grandeza dos lares cristãos em formação não tem nada a ganhar com isso.

 

• A indecisão

Contrariamente à expansão social que teríamos imaginado graças a essas comunicações, o jovem tornou-se indeciso, o que freqüentemente o conduz a uma insatisfação, como se vivesse solitário. A instantaneidade o escravizou ao juízo dos outros; ora, este último se encontra incessantemente questionado. O celular contribui largamente para isso. Como ele permite a revisão das decisões práticas tão bem como os encontros, ele gera a instabilidade de toda decisão e de todo compromisso.

A maioria de nossos jovens está, doravante, incapaz de se decidir com alguns dias de antecedência — ou pior, de semanas — para uma atividade com datas definidas e para as quais ele se engaje firmemente. Nos fatos, eles esperam as modificações dos programas dos outros, ávidos pelo que lhes parecerá mais interessante. Eles decidem então ao improviso, na última hora, mesmo as diversões.

Vivem assim na concupiscência do que os outros possuem ou na expectativa do que os outros vão fazer. Frustrados, jamais se estabelecem na “realidade de suas vidas”, não encontrando paz em sua condição.

Os professores universitários[15] participam descaradamente dessa destruição das jovens personalidades. O costume está instalado de não dar a hora ou a data do próximo curso senão por mensagem telefônica ou internet, tendo como conseqüência a revisão incessante da organização dos estudantes.

Em razão desses hábitos de inconstância, alguns deles não chegam nunca a se decidir sobre o matrimônio ou a vocação. Pior ainda, quando se engajam, a sensação de estar numa situação definitiva os oprime a tal ponto que eles buscam se libertarem dela. A idéia de um esforço duradouro não os estimula mais.

 

• Dever de estado em más condições

Não fosse o bastante, a grande maioria dos jovens trabalha com o telefone ligado, e as mensagens abertas. Tudo isso enquanto se debruçam sobre seus livros de matemática ou francês; respondem instantaneamente a toda solicitação. Pode-se esperar que desenvolvam o hábito de um trabalho sério? E malgrado tudo, é raríssimo que coloquem a questão no plano moral, perante Deus.

 

• Isolamento cada vez maior

As estatísticas[16] pretendem que a juventude atual possui um número equivalente de amigos, e talvez até um pouco mais que em outros tempos. Entretanto, o modo de troca se modificou e ampliou. Esperar-se-ia até um verdadeiro frenesi se não fossem os professores para lembrar do trabalho escolar.

Por algum paradoxo, essa aparência de “presença constante” dos outros torna fragilíssima a construção da própria personalidade. A morosidade, os suicídios, a fuga da realidade manifestam uma juventude que não encontrou seu lugar. Com efeito, dessas comunicações desordenadas resulta uma sede insaciável, um escapismo, que não deixa tempo para forjar profundamente sua identidade. Apesar desta comunicação incessante, as riquezas dos verdadeiros amigos se tornam raras.

Uma espécie de lógica interna engloba esses condicionamentos modernos: ao excesso de paixões instantâneas sucede o medo de refletir. O vazio dos sentimentos reais, essas falsas amizades, essas falsas comunicações, a soma de tudo isso gera medo de ser si mesmo em sua verdadeira identidade, medo do que é sério, do silêncio; numa palavra, conduz à fuga de si mesmo, a eliminar seu próprio destino... e finalmente a não estar apto a viver com Deus!

Quando a isso se acrescenta o ipod para preencher os vazios e a chegada dos vídeo-games ao lar, não podemos senão temer pelo futuro do adolescente assim construído! Por que tantos suicídios entre a juventude, como o revelam os escritórios oficiais do Estado[17]? A droga não está aí à toa, é verdade; ela se difunde não só por causa da curiosidade ou do desejo de imitar os outros, mas também pela necessidade de uma felicidade inalcançável. Mais profundamente, porém, por acaso não fechamos a porta a tudo o que poderia ser simplesmente humano, impedindo por isso mesmo a abertura franca ao sobrenatural?

 

IV – Perante o julgamento de Deus

Até o momento, foi abordada a destruição da psicologia elementar. Mas o problema moral não pode ser contornado, pois está longe de ser insignificante.

 

• Regras de teologia moral

Inicialmente, é preciso ter diante dos olhos alguns princípios essenciais da teologia moral.

O primeiro deles: o homem — tanto adulto como criança — deve estar preparado a todo momento para comparecer diante do seu Criador; isso significa que é preciso buscar, acima de tudo, viver em “estado de Graça”.

A vida, infelizmente, nos cerca de “ocasiões de pecado”. São de duas espécies:

• ocasião distante. Encontramo-la ao longo de todo o dia. Não se pode evitá-la, no sentido que Deus permite que adquiramos a virtude pela luta contra essas solicitações. Entretanto, não é legítimo moralmente criar novas situações indevidamente.

• ocasião próxima. É a que faz ordinariamente cair no pecado de maneira quase inevitável.

- algumas são absolutas porque elas fazem cair no pecado “todo o mundo”: assim, um jornal pornográfico é ocasião próxima de pecado para todo o mundo.

- outras são apenas relativas, ligadas à condição pessoal de um homem ou outro. Particularidades que dependem de suas próprias dificuldades de idade ou condição.

É sempre proibido colocar-se numa ocasião próxima de pecado. E quando o trabalho ou dever de estado obrigam a se aproximar de uma ocasião perigosa, os mestres espirituais exigem que se multipliquem as barreiras de prudência, e que se aumentem as orações e penitências. Tais são os princípios gerais da vida cristã.

 

• O alargamento do senso de juízo moral

É notável que a televisão tenha transformado o juízo de muitas pessoas assaz “laxistas”; particularmente nas famílias que assistem a muitos filmes. Pouco a pouco, as referências são desviadas pelo costume, ou pela tibieza diante das modas psicológicas, de vestimentas, mundanas...

A época da televisão soube habituar pouco a pouco as consciências mais lúcidas a espetáculos inadmissíveis. Assim como bastam algumas gotas de arsênio para envenenar uma deliciosa sopa, bastam poucas imagens para danar uma família que desejasse relaxar sãmente ao assistir a um filme. Às vezes, até imagens que seriam simplesmente ousadas, tornam-se ocasiões próximas de pecado para seres frágeis como os adolescentes.

De um modo mais difuso, os exemplos repetidos em todos os espetáculos de “desordens passionais”, ou de “famílias desestruturadas” predispõem os espíritos — sobretudo os jovens — a tudo suportar, e mais grave ainda, a tudo justificar.

Pio XII já alertava: “Mesmo os filmes moralmente irretocáveis podem, todavia, ser espiritualmente nocivos se eles descobrem no espectador um mundo em que não se faz nenhuma alusão a Deus e aos homens que crêem n’Ele e O veneram, um mundo em que as pessoas vivem e morrem como se Deus não existisse”[18].

É realmente perigoso para nossa alma nos habituar a uma mentalidade pagã e admirar comportamentos que são animados por um ideal malicioso.

Acrescentemos que muitos jovens jogam também com jogos que suscitam uma quebra dos sentimentos e comportamentos que não se permitiriam jamais na vida: ódio, violência, lassidão, vestimentas aberrantes, prazer de destruir...

 

• O abandono de uma parte da educação

Um efeito notável da televisão nas famílias, e a fortiori dos espetáculos individuais na internet, é ter abandonado a outros a qualidade do patrimônio intelectual, artístico e moral a se transmitir. Inevitavelmente, está-se submisso ao que se é proposto. E mesmo se a janela da internet oferece um leque mais amplo, os pais só poderão explicar a história, a filosofia, a moral com os elementos que foram vistos. Em resumo, fez-se entrar em nossa casa um estranho que toma a responsabilidade de formar a família[19].

Quando chegam as redes sociais, os diversos modismos por intermédio das telas, ou uma mensagem político-social que encanta a criança, vai-se fabricar uma “modelização”, um ideal a seguirem à revelia dos pais. O poder da imagem tornará o acontecimento muito mais precoce e intenso que os impulsos clássicos de autonomia da adolescência.

 

• A vida de família conturbada

O coração da sociedade é constituído pela família. A mesa familiar, o trabalho das crianças, a ajuda mútua dos familiares, e as noites que permitem trocas de experiências equilibram e formam a personalidade das crianças. As máquinas de imagens, o isolamento perpétuo de um ou outro para assistir algo que os retira do grupo não é uma conquista da modernidade, nem um progresso da vida de família.

Muitos lares são deficientes no que toca à sua missão educadora, seja pelo que fazem ou pelo que deixam de fazer.

 

• Um dever de estado deficiente

A generalização da internet foi um golpe fatal na noção de “dever de estado”[20]. “Por dever de estado, entendem-se as obrigações particulares de cada qual em razão de seu estado, de sua condição, e da situação que ocupa”[21]. Cada um de nós sabe que o “tempo” é um dom de Deus. Precisamos fazer bom uso desse tempo para estarmos seguros de realizar Sua vontade e merecer o céu. “Foi Deus quem impôs aos diversos estados seus deveres particulares”[22]. Experimentamos uma sucessão de trabalhos próprios à nossa condição pessoal, seja de estudante, artesão ou chefe de família... mas também gozamos de repouso e de momentos em sociedade. Os acontecimentos tristes ou felizes são também sinais do que é o nosso dever. Existe um dever de estado para com Deus, para com seu cônjuge, para com seus filhos, para com seu trabalho, para com a sociedade e as pessoas que nos rodeiam.

Já evocamos os estudos dos jovens que não hesitam em se manterem conectados às redes sociais durante seu trabalho ou a responder instantaneamente a um SMS.

Poderíamos também acrescentar aqui a perda de tempo nas empresas por causa dessas trocas de mensagens, das ocupações ou vagabundagens pessoais: atitudes que não são de uma perfeita honestidade moral.[23]

O dever de estado familiar não parece estar mais bem protegido: forçaram entrada, nos programas familiares, os espetáculos da noite ou certos jogos imperdíveis[24]. Acrescente-se aí o tempo que gastam pais, mães, filhos lendo a caixa de e-mail, navegando na web, assistindo a pequenos vídeos ou filmes[25].

 

• O prejuízo ao próximo

O poder de persuasão do que é visual, somado à possibilidade de encontrar imediatamente informações sobre praticamente todos os assuntos, dá às pessoas a impressão de que elas “sabem”. Se elas sabem, podem julgar, e emitir opiniões. Percebe-se infelizmente que esses elementos não podem jamais constituir um dossiê profissional.

Outros acumulam cópias de textos cujo valor real é geralmente fundamentado em poucas coisas: o todo apresentado com uma norma de objetividade.

Segue-se uma vasta feira de afirmações duvidosas proferidas de maneira peremptória, em todos os domínios. Em acréscimo, não é raro que o próximo sofra as conseqüências dessas ações, sempre em nome da “defesa da verdade”. Outrora, havia-se a honestidade de acusar-se no confessionário a calúnia[26], a difamação ou o juízo temerário. O confessor advertia sobre o dever de se tentar reparar o dano. Noções que passam bem longe de grande número de contemporâneos. Seria bom lembrar-lhes que o Evangelho nos diz que teremos de prestar contas até de nossas palavras ociosas, e das injúrias feitas aos outros.

 

• Numerosos riscos humanos e morais não controlados

Uma multidão de outros riscos pulula nessa galáxia onde o anonimato parece proteger[27]. Imaginamo-los longínquos, e, todavia, eles são mais freqüentes do que parecem; eles surgem nas famílias que se crêem protegidas.

Citemos, por exemplo:

- a desesperança quando se tem a reputação, ou às vezes a simples logomarca arruinada nas redes sociais... tais situações conduzem ao suicídio ou à anorexia, em especial entre adolescentes;

- as solicitações aos encontros e à devassidão...;

- os contatos com câmera com finalidades imundas...;

- casamentos duvidosos que os jovens arrumam com desconhecidos do outro lado do mundo...;

- as trapaças...;

- a violência banalizada pelos filmes e os jogos, que cria um desequilíbrio intenso nas paixões, e reduz a capacidade de administrá-las;

- as agitações com fins propriamente revolucionários beneficiando-se da possibilidade de destilar informações escolhidas num meio visado. Assim toda associação ou obra pode se ver colocada em perigo...

 

• A maré pornográfica... sobretudo na internet

Bem entendida, a forma que tomou a licença de costumes na internet é um flagelo que não se sabe mais como conter. Não é mistério para ninguém que, com ou sem códigos de segurança, a pornografia é acessível a todos. Não só ela é acessível, mas ela é proposta todo o tempo.

- Os pais relaxam: “Eu vigio”, dizem eles. É falso! Porque vigiar é olhar a mesma tela que aquele que a utiliza, e no mesmo tempo em que ele.

- Outros não imaginam a engenhosidade de sua progenitura perante a atração da carne que desperta bem cedo, malgrado a aparente inocência ou ignorância das crianças. Basta uma criança de 11 anos ter um aparelho com qualquer sistema de ligação que seja (wi-fi, bluetooth e outros, que tenha um telefone, ou a possibilidade de acessar a internet sob o pretexto de ler um e-mail...); logo, seu espírito sabe que essa tentação — precisamente nesse domínio — é acessível. Pode-se temer, além disso, que um colega lhe tenha indicado algo impróprio! Quantos resistem ao desejo de satisfazer sua curiosidade...?

- Outros pais preservam sua consciência: “É tudo uma questão de educação!”, afirmam eles, esquivando-se assim das exigências que lhes caberiam. Raciocínio igualmente falacioso porque, perante certos instintos da natureza, qualquer que seja a educação, certas “ocasiões de pecado” são moralmente “próximas” para todos. E Deus sabe que esse problema atinge largamente tanto adultos como jovens.

A título de exemplo, imaginem uma criança que seja enviada a um shopping center: é verdade que numerosas concupiscências serão despertadas nela. Por acaso iremos enviá-la ali com freqüência, com o pretexto de reforçar sua virtude? Não! Ao contrário, deve-se educá-la no espírito de pobreza.

Por isso é aconselhável não antecipar ou multiplicar os combates que se apresentarão um dia, sabendo que ninguém ousará confessar suas tentações e quedas.

Uma comparação virá, novamente, a nosso socorro: uma serra elétrica faz parte dos instrumentos de jardinagem: ela é útil, durante momentos específicos, com um perímetro de segurança. O resto do tempo, não virá a ninguém a idéia de deixar as crianças brincarem com ela, sob a afirmação de que é uma questão de educação! Tampouco que seria divertido deixá-la ligada para se distrair.

Compreende-se que num caso como no outro o uso é muito restrito.

Infelizmente, a indolência ou a falta de coragem conduzem muito objetivamente a um mal profundo. Estamos fabricando uma geração que examinou durante minutos — supondo que sejam apenas minutos! — vídeos dos quais poderíamos ignorar a existência em toda uma vida! Não contemos com as vítimas para falarmos sobre isso, nem para responder com franqueza sobre o tema.

Para os pais cristãos dignos desse nome, uma só questão merece resposta: o estado de graça é o que mais importa para um homem? Dessa resposta depende a atitude dos pais, adolescentes, jovens e de todos nós!

Além disso, estamos diante de uma arma temível contra as vocações e os santos matrimônios. Jovens profundamente corrompidos por quedas morais desse tipo, com conceitos pervertidos sobre o relacionamento entre moças e rapazes são de uma fragilidade que não é fácil corrigir. Igualmente, o serviço mais elevado, o de Deus, torna-se para eles mais dificilmente acessível. E os próprios casamentos não são preparados com a elevação de alma com que se deveria encarar.

 

• Quem sou eu?

É preciso que você mesmo, perante Deus, seja objetivo para responder a algumas perguntas.

— Quando um assunto me interessa, por acaso eu tento refletir ou me contento em copiar no computador após uma breve leitura?

— Acontece-me de preencher a ociosidade colocando-me na frente da tela sem saber o que realmente vou fazer?

— Se tenho filhos ou netos, por ventura tenho a imprudência de me refugiar no fato de que eles são “bons filhos totalmente confiáveis” para que eu não esteja presente em suas atividades diante da tela?

— Sou um curioso por elementos insípidos, medíocres ou malsãos da vida dos outros, amando passear por eles ou lê-los?

— Sou capaz de permanecer só, de percorrer um trajeto, de encarar horas de trabalho ou de silêncio sem mandar mensagens de texto que poderiam ser enviadas depois ou não existir?

— Sou um comentador incompetente que tem prazer em dar opinião nos fóruns? Sou um impulsivo que emite opinião em baixo das páginas que a solicitam?

— A fim de resistir mais facilmente ao pecado, estou usando os aparelhos de um modo que refreie as tentações?

— Em resumo, sou mestre de minha máquina, ou é ela que me impõe seus horários, e se impõe sobre mim?

 

Se você não tem a humildade e a simplicidade de se fazer essas perguntas e de respondê-las, então você corre um duplo risco, humano e espiritual:

- a perda do que deveria ser a grandeza da sua personalidade e

- a perda da vida da Graça.

 

• Rumo a resoluções concretas

- Uma resolução se impõe claramente: um computador não deveria nunca ficar num quarto privado.

- Nada é menos propício à virtude que distribuir acesso à internet sem fio em toda a casa. Não se pode deixar enganar: que seja pelo próprio telefone, seu telefone emprestado, ou pelo de um amigo convidado à casa, seus filhos e seus “mais velhos” explorarão essa abertura... e infelizmente para o mal, uma vez ou outra. Desconectar esse modo de emissão é extremamente simples.

- É preciso se exercitar a não deixar seu tempo ser absorvido por esse aparelho, ser capaz de ligá-lo durante a estrita duração prevista. Devemos usar aquilo que é útil, não abusar dele.

- Nem tudo é “pecado” toda hora; mas a convergência e o desequilíbrio dessas técnicas materiais são muito notavelmente nocivos e desestruturantes. Quando os utilizamos, levantemos a questão de saber se esses instrumentos nos são necessários naquele exato momento. Como todo comportamento humano em que a paixão pode dominar, não se pode omitir um verdadeiro espírito de penitência, portanto um exercício de restrição em união à Cruz.

 - Quando da simples infância, até 12 anos, não há nenhuma razão verdadeira para deixar uma criança diante do computador. Os jogos no real são o procedimento normal de despertar para o mundo que a rodeia.

- Na idade seguinte, só se pode tratar de iniciação a coisas úteis como o processamento de texto, ou edição de fotos. Isso freqüentemente basta para divertir esse pré-adolescentes. Essas experiências não têm necessidade de ser prolongadas fora da presença efetiva e atenta dos pais.

- Não existe nenhuma justificativa para que uma criança tenha seu endereço de e-mail, ou que o administre sozinha. As mensagens, nesta idade, não são mais úteis por e-mail do que se as recebesse pelo correio. Se abrirmos essa porta à criança, as tentações se multiplicarão ao infinito. Está-se a um clique de distância do pecado mortal!

Por que tantas crianças e adolescentes têm em suas mãos telefones com acesso à internet[28]? Quanta falta de vigilância! Alguns têm plano de internet, outros usam secretamente a rede da casa. Muitos pais também permitem que seu próprio aparelho seja usado, o que dá no mesmo.

- Sabemos por experiência que as crianças que possuem dispositivos de áudio escutam muitas músicas que fogem ao controle dos pais. É de espantar, pois, se elas possuírem um tablet ou um computador, se introduzirem, à revelia dos pais, filmes ou jogos de grafismo duvidoso em casa?

• Quando o computador se torna necessário

Para um grande número de pessoas, é evidentemente impossível viver sem esse instrumento, porque toda a vida não pode ser vivida sem utilizá-lo! Esse é sem dúvida o verdadeiro problema.

Se para um jovem, por exemplo, as exigências dos Estudos Superiores exigem a posse de um computador pessoal, então aparentemente não há o que fazer. Começa uma imensa luta moral. Raros são os que não sofrem os prejuízos[29].

Enquanto os pais se ocupam com tanta ansiedade e zelo da seqüência dos estudos, da hospedagem dos seus “mais velhos”, não é sábio aceitar essa importante mutação de sua vida sem ter negociado com eles um acompanhamento espiritual com um padre, e o esclarecimento periódico de sua consciência nos retiros espirituais[30]. “Eles não têm tempo”, dirão... mas eles encontrarão tempo para os deslizes morais!

Assim como os jovens, os adultos de todas as idades que são afrontados com o uso necessário desses instrumentos deveriam demonstrar bom senso, e se voltar a questionar diversos temas.

 

No que concerne à inteligência:

- Qual deve ser meu uso desse instrumento para manter minha inteligência aberta ao verdadeiro raciocínio e aos esforços especulativos?

- Como manter um distanciamento por meios naturais a fim de preservar minha liberdade de juízo?

- Como lutar para não se afundar na preguiça intelectual, na ignorância dos livros e da cultura?

 

No que concerne à vontade:

- Quais regras me impor para permanecer no campo do estritamente utilitário, e das relações familiares, amigáveis, legítimas e mesuradas?

- Quais correções trazer para evitar as ocasiões de pecado...

• ...com relação ao dever de estado que é omisso, ou feito de forma difusa, à imensa perda de tempo, ao excesso de lazeres?;

• ...com relação às relações que poderiam ser perigosas para mim?;

• ...com relação ao que me faz causar dano ou aceitar o que é prejudicial à reputação dos outros?;

• ...com relação à vida de família que sofre, talvez, um desconforto ou atenuação notável?;

• ...com relação à virtude da pureza? e

• ...com relação à fuga da vida espiritual?

Ora, trata-se da própria arquitetura da vida humana.

Esse novo combate é particularmente difícil: ele ultrapassa verdadeiramente as forças de nossa natureza humana. Mesmo a convicção sobre a necessidade de “higiene psicológica” não basta para se manter firme nessas resoluções. Sem um verdadeiro aprofundamento espiritual, os desvios continuarão a invadir nossa vida. Devemos nos impor o silêncio, os momentos de solidão, de leitura, de reflexão, retornemos ao real! Demos tempo a Deus!

Compreende-se por que razão os pregadores de retiros insistem sobre a “regra de vida”. É o único termômetro de nossa independência e da nossa lucidez.

No momento do nosso exame de consciência quotidiano e de nossas confissões, não podemos evitar de fazer esforço para julgar novamente perante Deus a fidelidade de nossas resoluções neste domínio, em função das transgressões fáceis para nós e para aqueles sobre quem temos responsabilidade moral.

É somente a partir dessa disciplina de vida que se pode ser beneficiado pelas enormes aberturas da técnica, tanto para o trabalho quanto para os avanços contra-revolucionários. Mas isso só é possível se nossa alma está acostumada a esse combate espiritual. Caso contrário, ela se encontra ameaçada de ser arrastada na torrente de irreflexão e de paixões desordenadas.

 

 

V – Germes de esperança

Esse afresco dos últimos anos e seus ganhos tecnológicos põe em evidência as provações do destino humano: muitas descobertas e progressos seriam aperfeiçoamentos consideráveis para a existência se o homem encontrasse a justa medida no seu emprego. Esses poucos aparelhos enunciados deveriam unir os amigos afastados, permitir a troca de documentos com facilidade, colocar à disposição bibliotecas inteiras, abrir o espírito para coisas ignoradas.

Entretanto, quanto mais invenções despertam os comportamentos primários, passionais, até mesmo carnais, mais se torna difícil contê-los ao seu único campo de utilidade.

Diante dessa aceleração imprevisível, nossa geração comumente corre riscos inúteis, por excesso, por falta de equilíbrio. Não estamos dizendo que esse equilíbrio será fácil de se reencontrar. As solicitações são muito numerosas, muito acessíveis, e elas anestesiam os comportamentos. Nosso mundo tem, portanto, necessidade de força sobrenatural.

Acaso não temos essa vocação magnífica de cristãos de primeira linha? Se na época dos jogos de circo ser cristão era heróico, nosso século requer um heroísmo ainda maior: com efeito, não são mais os corpos que são mortos, mas as almas que morrem. Os que resistem são esses mártires do cotidiano, os únicos que difundem a Graça do Evangelho.

Esse grande combate do inferno contra as almas ultrapassa de muito longe o que poderíamos imaginar. Vocês são pais ou jovens do mundo atual em situações bem concretas. É evidente que, nesse combate, estabelece-se uma mescla de armas sobrenaturais e de vigilância natural. Se não existe regra absoluta para suprimir o joio no campo do mestre, é nosso dever abrir os olhos para os grandes traços do maligno que tritura literalmente a natureza humana.

O grito de alarme está na boca de Jesus: “Quando vier o Filho do homem, julgais vós que encontrará fé sobre a terra?”[31]. O mais freqüente é perder a Fé pela perda da moral. Quando a isso se acrescenta o hábito de utilizar mal as capacidades de nossa inteligência e nossa vontade, qual acesso restará à Verdade?

A graça se desenvolve sobre uma natureza que a ela se predispõe. O resto é da ordem do milagre excepcional e que não é esperado. “A graça perdoa tudo, mas a natureza, ao contrário, capitaliza os erros” (existem santos inválidos, mas não são eles que se mutilam).

Sem a reordenação das predisposições naturais, é impossível transmitir a civilização. A verdadeira força contra-revolucionaria é a força do caráter.

Por piedade pela nova geração,

• pela beleza de sua inteligência,

• pela força de sua vontade,

• pela grandeza de sua capacidade de amar,

• pela pureza de sua virtude,

os pais devem reencontrar o funcionamento natural, o uso limitado das imagens e dos espetáculos, as relações verdadeiramente humanas, a vigilância para com o que pode desviar.

Os grandes elementos que permitirão permanecermos “em pé” na crise são propriamente de ordem da “perfeição evangélica”: o espírito de pobreza é o elemento predominante ― nele, encontramos o amor da cruz, e o uso racional das coisas da terra. A sua linguagem habitual — que não é a do mundo — é ensinar que nenhuma vida pode ignorar a Cruz.

São Luís Maria Grignion de Montfort falava de modo profético dos apóstolos dos últimos tempos[32]: pois quanto mais o mundo avança, mais os riscos de perder a alma constituem uma espécie de fascinação, de sedução tanto pelos erros quanto pelo mundo[33], ameaçando até os eleitos. Ele assinala que os chamados por Deus não poderão se manter firmes senão com uma especialíssima ajuda de Nossa Senhora. Consagração ao seu serviço, devoção profunda, recitação cotidiana do Terço parecem ser indispensáveis para encontrar o verdadeiro caminho nesta debacle universal, e para tomar o gosto da verdadeira liberdade de espírito, aquela que é o desabrochar da obra da Redenção em nossas almas.

 

(Communications, écrans, internet, jeux vidéo... et si on faisait le point! -- Conférences données en 2013-2014. Tradução: Permanência)

 


[1] Televisores, computadores — profissional, familiar ou individual — conexões de internet, celulares, tablets, videogames.

[2] Poderíamos citar os magníficos exemplos de V. Volkoff, em suas obras sobre a desinformação.

[3] Poder-se-ia objetar: a chegada da imprensa modificou também fortemente nossa maneira de fazê-lo. É simultaneamente verdadeiro e falso: porque a transmissão do que é pensado faz também parte do comportamento humano. Não se transmite apenas pela palavra, mas também por sinais, gestos. A multiplicação dos sinais convencionais que chamamos a escrita tem antes tendência a fortalecer o espírito de abstração que a diminuí-lo.

[4] Philippe Meirieu, psicólogo cuja influência é forte sobre a Educação Nacional, Une autre telévision est possible — Ed. de la Chronique sociale.

[5] Pela técnica denominada o FMRI ou Functional Magnetic Resonance Imaging (imagem funcional por ressonância magnética), mede-se o fluxo sangüíneo localmente de maneira muito fina: com efeito, quando um grupo de neurônios, em alguma parte do cérebro, é excitado (ativado) por um ou mais estímulos, estes últimos têm necessidade de um maior fluxo de oxigênio para realizar sua tarefa; em conseqüência, localmente, o fluxo sanguíneo é acelerado.

Pode-se então seguir de perto as partes do cérebro solicitadas para cada atividade, o que põe fortemente em relevo as dissonâncias que engendram os novos modos cognitivos com os circuitos normais, e certas atrofias conseqüentes. Pode-se ler com proveito:

• Böttger S et al. — Brain Research (2010) vol. 1354 pp. 132-139. Differences in cerebral activation during perception of optokinetic computer stimuli and video clips of living animals: an FMRI study.

• Fraedrich EM et al. — Neuroreport (2010) vol. 21(8) pp. 596-600. Spatiotemporal phase-scrambling increases visual cortex activity.

[6] O computador — cujo ancestral é a máquina de calcular de Pascal em 1642 — pretendia ser um utensílio de cálculo de alto desempenho, capaz de reproduzir os encadeamentos lógicos humanos.

 

A chegada do célebre Apple II, concebido por Steve Jobs e Steve Wozniak em 1977, revolucionou o conceito ao introduzir o computador na microempresa, e difundir o computador pessoal. O processamento de texto, e depois a edição de imagem abriram o caminho para o jogo sobre tela.

[7] É importante retomar a verdadeira definição da virtude moral de “prudência”, que confere uma facilidade para julgar com retidão o que se precisa fazer para alcançar o bem. Essa virtude está, portanto, na encruzilhada de todo o comportamento humano.

[8] Em 16 de dezembro de 1997, centenas de japoneses foram hospitalizados depois de terem assistido a um episódio de Pokemon na televisão! A sociedade japonesa foi obrigada a corrigir um episódio em que o número de flashes foi destruidor. Isso significa que submeter os jovens a uma dose menor de flashes seria razoável e moral?

[9] Desde então, foi preciso abrir serviços hospitalares especiais para tratar pessoas atingidas por esses problemas (os “game-addicts”).

[10] A dopamina é um neurotransmissor sintetizado por certas células nervosas. O estímulo, ou inibição das redes produtoras e receptoras de dopamina condicionam o interesse ou desinteresse por uma ação. Experimentos com animais mostram que um estímulo artificial dessas redes cria uma impressão de prazer fabricado que pode conduzir a desordens de comportamento, como esquecer-se de se alimentar.

[11] No momento são chamados pelas iniciais de uma sigla americana: os MMPORG (Massive Multiplayer Online Role-Playing Game).

[12] Charles Baudelaire. Citado em “Le dossier noir du cannabis”, Serge Lebigot, Ed. Salvator 2013.

[13] Evidentemente, existem casos em que alguma rede social pôde, de modo fortuito, fazer bem a um infeliz... mas a custo de quantas pessoas destruídas!

[14] Um estudo do Arcep, publicado recentemente, revela que o número de mensagens trocadas entre os franceses ao longo dos três últimos meses nunca foi tão alto. Os maiores usuários são os adolescentes, que em média enviam 83 SMS por dia.

[15] Por outro lado, boa parte desses professores tem outra vida profissional.

[16] Enquete internacional “a saúde dos adolescentes em foco” – HBSC 2010 (Health Behaviour in School-aged Children). Enquete que surge a cada quatro anos desde 1982, sob a égide da OMS.

[17] O suicídio representa uma grande proporção das mortes entre os 25-34 anos: 20,6%. Portanto, é de longe a primeira causa de mortalidade nessa faixa etária. Ele representa a segunda causa de mortalidade (após os acidentes de trânsito) entre os 15-24 anos (16,3% de mortes). Fonte: Ministério dos negócios sociais e da saúde da França – 4 de julho 2013.

[18] Discurso aos profissionais do cinema que participaram do Congresso internacional em Roma, 28 de outubro de 1955.

[19] “É preciso, portanto, dar bastante atenção a esse caráter sugestivo das transmissões televisivas na intimidade do santuário familiar, onde sua influência será incalculável sobre a formação da vida espiritual, intelectual e moral dos membros da própria família, e sobretudo dos filhos, que sofrerão inevitavelmente o fascínio pela nova técnica. Se é verdade que ‘uma pequena quantidade de fermento leveda a massa’ (Gal V, 9), e que na vida física dos jovens um germe de infecção pode impedir o desenvolvimento normal do corpo, quanto mais um elemento novo na educação pode comprometer o equilíbrio espiritual e o desenvolvimento moral!” Pio XII – Exortação sobre a televisão, 1º de janeiro de 1954. A. A. S. XXXXVI, 1954, p. 21; cf. Documents Pontificaux 1954, p. 17.

[20] Irmã Lúcia, que viu a Santíssima Virgem em Fátima, redigiu a um de seus confessores (Dom Manuel Ferreira), em 28 de fevereiro de 1943, uma carta em que ela relata que o Cristo lhe fez saber numa revelação, numa quinta-feira 12 de junho de 1941 (que foi festa de Corpus Christi) que Ele deseja que se faça compreender as almas que a verdadeira penitência que Ele quer e exige agora consiste antes de tudo no sacrifício que cada um deve se impor para realizar seus próprios deveres religiosos e seus deveres de estado.

[21] Catecismo de São Pio X, 3ª parte, capítulo 5.

[22] Ibidem.

[23] Um funcionário pára 1h37min por dia na internet no escritório, ou seja, oito minutos a mais que em 2011. 59% desse tempo é de uso pessoal, diz-nos um estudo Olfeo de 2013, o que representa uma soma de 28,5 dias por ano!

[24] Um adolescente (91,5%) passa em média duas horas por dia em frente da tela, portanto mais que nos estudos. O tempo de sono é inexoravelmente diminuído. — Enquete internacional “a saúde dos adolescentes em foco” – HBSC 2010 (ver nota 16).

[25] A internet foi criada em razão de um imperativo militar, em plena Guerra Fria, por volta dos anos 1950. A fim de encobrir possíveis interrupções das comunicações simples, surgiu a idéia de um tipo de rede.

Seu desenvolvimento comercial explodiu graças à chegada da micro-informática individual. Ela se impõe doravante em três direções:

• as informações (concernentes tanto aos acontecimentos recentes como para recolher elementos esparsos de conhecimentos em todos os domínios);

• a comunicação, a possibilidade de trocar opiniões a despeito da distância ou dos conhecimentos (aqui entram as mensagens, mas também os fóruns, os blogs, as redes sociais...)

• as distrações: os jogos, espetáculos, vídeos de curiosidade...

Entre os adultos, na hora presente, vêm em ordem de preferência os blogs e fóruns, em seguida os sites de compartilhamento de vídeos, de notícias e as redes sociais... (cf. enquete ut supra).

 

[26] A calúnia é um pecado que consiste em atribuir ao próximo faltas e defeitos que ele não tem. A difamação consiste em levar ao conhecimento do próximo defeitos dos outros, podendo prejudicar indevidamente a sua reputação. O juízo ou suspeita temerário é um pecado que consiste em julgar mal ou suspeitar o mal do próximo sem justo motivo. O grande catecismo de São Pio X trata dele na 3ª parte, capítulo 3.

[27] Essa imunidade é aparente. Sabemos, doravante, que os dados são conservados praticamente de modo perpétuo. Há o que temer.

[28] “Se acreditarmos numa enquete de TNS Sofres para o cômputo da União nacional das associações familiares (Unaf) e Action Innocence, 34% das crianças de dez anos estão equipadas com telefones celulares multifuncionais que fornecem acesso à Internet... Com 15 anos, 56% dos adolescentes vivem com um Iphone, um Samsung Galaxy ou um BlackBerry. Um objeto com alto poder de causar dependência que os mantém em ligação permanente com todos os seus amigos e provoca não pouca exasperação e altas crises na família...” – Le Parisien – 24/10/12.

[29] Acrescentemos de passagem que é também extremamente grave que essas tolerâncias — já nocivas aos adolescentes — sejam estendidas aos pré-adolescentes e aos menores da família, independentemente dos pais, pelos irmãos mais velhos que emprestam seu aparelho.

[30] Entre os retiros, o lugar de honra recai sobre o método dos “Exercícios espirituais” de Santo Inácio, que constitui um meio perfeito para reajustar regularmente os fundamentos da vida espiritual e humana.

[31] Lc 18,8.

[32] Tratado da verdadeira devoção a santíssima Virgem – s. 58

[33] Ver Mt 24, e Ts 2, em particular.

Mamãe, conta uma historinha?

Irmãs da Fraternidade Sacerdotal São Pio X

 

“Era uma vez um anjo muito bonito que se chamava Rafael...” Pedro está sentado no chão, aos pés da sua mãe. Domitila se espreme no sofá enquanto Ágata, ajoelhada, chupa o polegar. Os três prestam atenção na sua “alegria da noite”: mamãe contando uma história...

Desde o Gilgamesh, a mais antiga epopeia da humanidade, escrita 1.800 anos antes de Cristo, passando pela Ilíada e a Odisseia, que Homero recitava de casa em casa, e pelas Canções de Gesta, que os trovadores narravam a nossos antepassados, até os contos que nossas vovós contavam perto do fogo, os homens de todas as idades e de todos os tempos sempre gostaram de ouvir histórias.

É muito natural. Por meio de nobres epopeias ou de simples contos, as histórias, sejam ingênuas, fantasiosas, engraçadas ou trágicas, transmitem, num clima de poesia, uma cultura, uma civilização, uma concepção do homem e do mundo. Ao tocar os sentidos e a imaginação, elas nos fazem refletir sobre o bem e o mal, a vida e a morte, os trabalhos e as conquistas, nossa condição humana e o sentido do nosso destino.

Aí está a importância das histórias para a formação de nossos filhos. Mas, não se contentem, queridos pais, em deixar os seus filhos lerem sozinhos. Contatas por vocês, as histórias adquirem uma força de persuasão e uma autoridade muito maior; elas se revestem da sua própria experiência de vida, ao passo que o tom da sua voz, seus gestos e mímicas capturam a atenção e dão vida às histórias.

 

Ao redor da lareira

Havia um momento privilegiado para contar histórias, como bem sabiam os nossos antepassados: era quando, terminado o trabalho do dia, toda a família se reunia em volta da lareira. Era um costume excelente contar cada dia uma história, ou um capítulo de uma narrativa maior, a ser continuada no dia seguinte. Esse momento tão esperado, de abraços e de felicidade, é um bom incentivo para as crianças que demoram para se preparar para dormir. “Quando todo mundo estiver pronto, com os dentes escovados, vou contar uma história”, anuncia a mãe: eis uma frase mágica para apressar quem está molengando!

No entanto, é preciso atentar para que a história contada à noite não seja excitante demais, a menos que se torne calma no final: é difícil pôr para dormir um pequeno “Ivan, o cavaleiro do leão” de pijamas, reproduzindo com as pantufas, ao lado do irmão, a cena do torneio. Com crianças de temperamento muito sensível devemos evitar histórias “que dão medo”, com canibais, lobos etc, que podem causar pesadelos. Para essas histórias, devemos preferir contá-las durante o dia, durante o sono da tarde dos irmãozinhos, por exemplo; os maiores não ficarão assustados e estarão prontos para ir brincar em seguida, enquanto a grande luz do dia dissipa o terror.

Que história escolher? Uma história bela e apaixonante, claro! Pode ser uma história real, como a vida dos santos e dos heróis (ou episódios delas); esses modelos a serem imitados entusiasmam particularmente os maiores. A história também pode ser inventada; basta ouvir a fórmula maravilhosa, “era uma vez...”, que ninguém mais se impressiona com animais que falam ou abóboras que viram carruagens. No entanto, as crianças gostam mais das histórias reais, e os maiores costumam perguntar: “Isso aconteceu de verdade?”  Se for o caso, eles saborearão o enredo de modo muito profundo e se sentirão tocados. Se a resposta for negativa, se a história for inventada, ficarão certamente contentes com esses momentos tão agradáveis, mas não darão tanta atenção ao seu conteúdo. Essa reação infantil tão marcante nos recorda, em pequena escala, que todo ser humano é feito para a verdade, para o belo e para o bem soberano que é Nosso Senhor Jesus Cristo.

A história deve ser moral, ou seja, o pecado jamais deve ser apresentado de modo atraente (salvo brevemente, para explicar uma tentação; mas então seguirá o relato da luta vitoriosa ou das consequências nefastas da derrota); o bem nunca será alvo de zombaria. Os vencedores não serão “espertalhões” e sim homens virtuosos. Contudo, uma história “moral” não é necessariamente uma história “moralizante”, no sentido pejorativo do termo, designando uma história desagradável, cujos personagens são dotados de uma psicologia simplória, e terminando em alguma conclusão moral forçada. As editoras da Tradição publicam bons livros para as crianças. Pode-se também encontrar alguns clássicos a preços módicos nos livreiros. Fora disso, é preciso conhecer a história antes de contá-la aos pequenos.

A história deve ser adaptada à idade e à capacidade de compreensão dos ouvintes. Os pequeninos, que ainda não sabe ler, tem ainda mais necessidade do que os outros de que as histórias lhes sejam contadas. Não se espantem se pedirem para ouvir de novo e de novo a mesma história que tanto amam, e que já conhecem quase de cor. É normal nessa idade: as crianças se sentem reconfortadas ao pisar em terreno conhecido, e amam reviver os mesmos sentimentos que experimentaram da primeira vez.

No entanto, os mais crescidos preferirão ouvir histórias diferentes a cada vez, e sua capacidade de atenção lhes permitirá acompanhar histórias “a serem continuadas” a cada noite. Pode acontecer dos filhos adolescentes acharem que ouvir histórias é "coisa para bebês", que não é próprio para a sua idade. Nesse caso, há muitas possibilidades, conforme a personalidade de cada um: podemos deixa-los à vontade para não prestarem atenção às histórias contadas para os mais novos e se dedicarem às suas leituras; ou contar duas histórias: uma para os pequenos no início da noite, e outra adaptada para os mais velhos mais tarde, depois dos irmãos terem dormido; finalmente, podemos estimular um adolescente a participar da história, lendo ou interpretando um dos papéis.

 

Simplesmente ousar

Pode ser que você ainda hesite em começar a ler para os filhos: “Não sou bom de histórias, me atrapalho quando leio”. Não tenha medo: as crianças são um bom público e ficam muito contentes quando um adulto decide se ocupar delas. Comece com uma história de que gosta e conhece bem, a que preferia quando era criança, por exemplo. Isso permitirá que não tenha de ficar com os olhos presos ao texto, e poderá se soltar do relato e tornar a história mais viva pelo seu tom de voz, gestos, olhando sempre para os pequenos ouvintes. É preciso esquecer de si mesmo nesses momentos, não prestar atenção na própria voz, nem hesitar em se fazer pequeno com os pequenos. O olhar radiante das crianças servirá de encorajamento e, rapidamente, lhe dará confiança.

E se você ainda não estiver convencido, considere simplesmente o exemplo de Nosso Senhor contando uma parábola: que contador deveria ser! Como gostaríamos de fazer parte daquele auditório, saboreando cada palavra! Ele soube nos fazer compreender as verdades mais elevadas por meio de histórias bem simples, e suas belas parábolas, como a ovelha desgarrada, o filho pródigo, a pedra preciosa ou a dos talentos, continuarão a encantar os homens até o fim do mundo.

(Fideliter no. 255. Tradução: Permanência)

A tragédia da autoridade

Gustavo Corção

Todos nós sabemos que o mundo moderno está envolvido numa guerra mais mundial, porque mais geral e mais penetrante, do que as duas anteriores. Uma torrente histórica vem de longe, recebendo afluentes, engrossando, para desaguar num estuário de anarquia e desordens com que os visionários pretendem contestar a obra de Deus e dos homens, pretende repelir a ideia de continuação e tradição, e até ousa pretender uma revolução mundial a fim de voltar à estaca zero para a recriação do mundo do homem a partir desse zero, ex nihilo.

Uma das peças essenciais do jogo é o princípio da autoridade que nunca esteve tão molestado e nunca foi tão contestado. E uma das consequências desse estado de coisas é o mau exercício da dita autoridade por todos que dela se acham investidos. Há uma razão profunda na raiz de tamanho mal: a autoridade, em seus variados níveis, é uma exigência da lei natural. Sem essa ideia é impossível a família, é impraticável a Cidade, é impensável uma Civilização.

Por outro lado, há na ideia de autoridade algo que parece soar falso, ou que parece antinatural: como poderemos admitir que um homem se torne rei ou chefe da multidão de homens feito do mesmo barro? A ideia de autoridade aparece logo como antagônica do ideal de igualdade que parece ser uma das metas do dinamismo da história: os séculos trabalham para produzir um nivelamento humano, dizem os vários seguidores do anarquismo revolucionário. A autoridade será então, no dizer deles, uma categoria anti-histórica. O senso comum, ao contrário, nos diz que o sucesso de qualquer obra humana exige unidade de ação, e essa unidade exige que uns mandem e outros obedeçam. Mas o senso comum é a primeira vítima das correntes revolucionárias. E o mundo moderno, desaguador de uma civilização que durante quatro séculos apostou tudo nas revoluções, está aí para nos oferecer uma amostra do que será o próximo mundo cada vez mais moderno, condenado a ser continuamente moderno.

Já se disse mil vezes que a crise de civilização em que estamos imersos é uma crise de autoridade; mas é preciso acrescentar que a crise da autoridade tem dois lados: o primeiro consiste na agressão exterior e na contestação do princípio pelos anarquistas; o segundo consiste no mau exercício da autoridade.

As pessoas investidas de algum superiorato sentem-se vagamente envergonhadas porque uma das coisas mais difíceis para o indivíduo é resistir de algum modo ao empuxo irracional que vem da massa em movimento histórico. E todos pensam que a autoridade será tanto melhor quanto mais benigna e suave, como todos também pensam que, democracia será tanto melhor quanto mais puramente democrática, isto é, quanto menos acentuado é o valor e o prestígio das elites, e quanto mais decapitado o corpo político.

A dificuldade do exercício das mais legítimas autoridades, a do Papa, a de um bispo, a de um abade, a de um pai de família e a de um chefe de Estado, começa na cercadura dos seus mais próximos auxiliares. E o que mais frequentemente se vê, nessa matéria, produz tais deformações, tamanhos disparates, que, em vez de falar na tragédia da autoridade, seria melhor dizer comédia da autoridade. A crise da hierarquia eclesiástica é hoje um dos mais graves e pungentes dramas de nossa história. Desde o papado, onde a suprema autoridade da Igreja é o sucessor de Pedro e, portanto, o “doce Cristo na Terra” como dizia Catarina de Sena, tem-se a penosa impressão de um cerco. Com o pretexto de melhor servir a Igreja, segundo critérios que vê mais dos trovões sísmicos da história do que dos trovões do Sinai, muitos bispos se levantaram para diminuir a autoridade do Papa, para contestar o primado de Pedro, ou para colocá-lo numa espécie de presidência, no mesmo nível do colegiado de Bispos.

Além disso há a cercadura, os assessores, os secretários, os peritos, que se movem em torno do Cristo-na-Terra pomposamente crucificado, como em torno da Cruz primeira se moviam os soldados romanos, os curiosos, enquanto junto à cruz se imobilizada Stabat, a Mãe de Deus, Mãe da Igreja, Mãe dos homens.

***

E de onde vem o fermento de des-Ordem que corrói no mundo todas as formas de autoridade? Respondo a essa interrogação com as palavras de São Pio X, que deveria ser considerado o patrono de todas as legítimas autoridades, porque soube levar a sua a um grau heroico.

“Poderá alguém ignorar a doença grave e profunda que neste momento, mais do que nunca, mina as entranhas da sociedade, e dia a dia se agrava corroendo-a até a medula e arrastando-a à ruína total? Essa doença, que bem conheceis, é a atitude do homem diante de Deus: é o abandono, a apostasia (dos mais próximos e é a soberba e insensata indiferença de muitos), mas nós não duvidamos da palavra do profeta (Sl 72, 27): ‘Eis que perecerão todos os que se afastarem de Vós...’”

É o afastamento de Deus, que a parte do mundo mais cristianizada vem operando há quatro séculos, que torna absurda e inaceitável a ideia da autoridade, porque todas as situações humanas de superiorato só têm sentido, e só encontram verdadeiro apoio, não na confusa e irracional “vontade geral”, mas no temor de Deus que é o modelo perfeito de todas as autoridades. Na verdade – agora compreendemos melhor – toda a corrente revolucionária, que quer destruir o passado de pedra em favor de um futuro de névoa, é uma corrente parricida.

Dentro dela, as instituições de direito divino, como o Episcopado, oscilam, vacilam e dão espetáculos derrisórios de desmoralização da autoridade, de dentro para fora, deixando abandonado à perplexidade e às lágrimas o povo humilde dos fiéis que, em lugar da figura de um Pai, veem frequentemente um burocrata, quando não veem um acrobata ou uma vedeta.

(O Globo, 10/2/72)

Introdução ao décimo nono domingo de Pentecostes

“Como entraste aqui, não tendo a veste nupcial? ” (Evangelho)

 

Paramentos verdes

 

É por estes dias (no quinto domingo de setembro) que a Igreja lê no Ofício Divino a história de Ester. Julgamos, pois, que vem a propósito -- conforme a nossa intenção de rever com a Igreja as figuras do Antigo Testamento e de estudar, à luz do Breviário e do Missal, a liturgia destes domingos depois de Pentecostes -- falar hoje de Ester.

Assuero, Rei dos persas, tinha-se casado com uma donzela judia chamada Ester, sobrinha de Mardoqueu. Nomeara por outro lado intendente do palácio o amalecita Aman, muito conhecido pelo ódio que alimentava contra os judeus. Invejoso da preponderância que os judeus, por intermédio de Mardoqueu e de Ester, exerciam no ânimo do monarca, o amalecita convenceu o Rei de que os judeus conspiravam contra a paz do reino, e fez levantar em todo o país as forcas para as execuções. Ester, então, violando o decreto preventivo do tirano, de que ninguém se aproximasse dele naqueles dias, entrou à sua presença e lamentou que ela e o seu povo fossem entregues assim ao extermínio. Conhecendo Assuero por este meio que Ester era judia e sobrinha de Mardoqueu, perguntou irritado: “e quem ousa fazer isso? ” Ester respondeu: “O nosso inimigo, o cruel Aman” Então o rei, enfurecido contra o ministro, mandou revogar o decreto promulgado contra os judeus, e suspender Aman na mesma forca que ele preparara para Mardoqueu. Assim salvou Ester o seu povo. Isto mostra como Deus vigiava por aqueles que esperavam nele. E as coisas ainda não mudaram. “Eu sou a salvação do povo, diz o Senhor, e se ele chamar por Mim, ouvi-lo-ei”. “Quando a tribulação me oprimia, Vós, Senhor, dáveis-me coragem, e contra a cólera dos meus inimigos levantáveis a Vossa mão direita”.

Aman, que Assuero condenou tão severamente, é como aquele homem do Evangelho que entrou no banquete sem a veste nupcial, e que o rei condenou às trevas exteriores. Deus tratará assim também todos os que, pertencendo ao Corpo da Igreja pela fé do Batismo, entrarem na sala do banquete sem a veste das virtudes cristãs. Falta-lhe na alma a graça vivificante. São estranhos na assembleia dos vivos. E é aqui visado particularmente o grande preceito da Caridade: “Rejeitando a mentira, digam todos a verdade a respeito do seu próximo”. São membros uns dos outros. Que o sol não se ponha sobre a vossa cólera. Os que não cumprirem este preceito serão lançados pelo juiz soberano nas trevas do inferno, onde haverá pranto e ranger de dentes. Assuero encolerizado mandou prender Aman. “O rei, diz o Evangelho, encolerizou-se e enviou os seus exércitos para exterminar os assassinos e lhes queimar a cidade”. Mais dum milhão de judeus morreram no cerco de Jerusalém. A cidade foi destruída e o templo incendiado.

Aman foi substituído por Mardoqueu. Os convidados às núpcias foram substituídos pelos que se encontravam nas estradas e nas encruzilhadas dos caminhos. Os judeus foram substituídos pelos pagãos. Foi para estes últimos que os Apóstolos cheios do Espírito Santo se voltaram no dia de Pentecostes. E no Juízo Final, que estes domingos simbolizam, serão promulgadas as sentenças definitivas. Os justos tomarão parte no banquete das núpcias eternas, e os pecadores serão lançados nas trevas exteriores.

Da Epístola: Diz S. Paulo que é necessário pôr o velho homem de parte e revestirmo-nos de Cristo. Entre os antigos, “revestir, pegar num vestido” significava muitas vezes tomar um estado de que a veste era o símbolo exterior. “Revestir-se de Cristo” quer, pois, dizer, na linguagem do Apóstolo, renunciar às paixões e às obras da carne que trazemos conosco, como filhos de Adão, e viver doravante a vida plena de Cristo.

Do Evangelho: Deus, diz S. Gregório, celebrou as núpcias de Seu Filho quando O uniu no seio da Virgem à natureza humana, e quando O uniu, por meio da Incarnação, à Santa Igreja. E por duas vezes enviou os servos a convidar para as núpcias os seus amigos. Primeiramente, mandou os profetas que anunciaram a Incarnação do Filho de Deus que estava para chegar, e os Apóstolos que O apresentaram como fato consumado. Depois, à última hora, a Igreja, tendo de momento recebido todos os que vinham, fará a discriminação dos bons e dos maus.

 

 Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

A falsa bondade

Gustavo Corção

Quando hoje percorremos, já com fastio, as páginas dos novos catecismos, ou dos novos livros escritos e ilustrados à sombra da frondosa pastoral catequética, a impressão dominante que logo nos assalta é a de uma açucarada e viscosa falsificação da bondade produzida pela tenebrosa estupidez, ou pela mais tenebrosa perversidade dos "novos" que aos borbotões se desprendem todos os dias da verdadeira Igreja, una, santa, católica etc, em demanda de outra mais tolerante, e por isso apontada como mais bondosa do que a Igreja de Jesus Cristo e dos Santos que imitaram seu áspero e difícil exemplo.

Seria mais exato dizer que essa edulcoração e esse amolecimento dos valores formam uma espécie de peste rósea que atingiu o mundo, a começar pela civilização ocidental em processo de crepuscular decadência e de desintegração. À Igreja caberiam o alarma e a lição do revigoramento, mas para nosso maior sofrimento, e para imprevisíveis e inimagináveis sofrimentos de nossos filhos e netos, processou-se neste mesmo glorioso século a maior e mais grave trahison des clercs e é na Igreja-egrediente (por derrisão chamada de "progressista") que se notam as mais espantosas e repugnantes falsificações de tudo, a começar pela falsificação do amor, feita num tom infinitamente repugnante que lembra as vozes das prostitutas do princípio do século, que atrás das rótulas chamavam os pedestres: "entra simpático!"

Nos tempos de Pio X, quando foi preciso opor uma severa condenação aos abusos do Sillon, pôde o grande e santo pontífice dizer aos desgarrados que se perdiam "levados por um mal norteado amor pelos fracos", porque nesse tempo o mundo católico ainda guardava a ressonância da doutrina dos dois amores que desde a Didaqué ilumina a cristandade. Nos tempos que correm espalhou-se pelo mundo a pestilencial doutrina de que qualquer sentimento meloso merece o mesmo nome de amor.

No mesmo limiar deste dolente e amolecido século, ainda podia um Marcel Proust fazer a belíssima evocação de figuras humanas marcadas pelo "visage antipathique et sublime de la vraie bonté". Anos antes, a pequenina Bernardette, que trouxe toda a vida estampada em sua figura o reflexo da Virgem Santíssima, e que sempre se destacou das irmãs por ser la plus petite, teve um temporário cargo de vigilância e superiorato na enfermaria. Sua função, que cumpriu irrepreensívelmente, era a de observar que fossem bem cumpridas as recomendações do médico e da superiora. Um dia, entrando na enfermaria, viu uma das irmãs sentada numa cadeira a ler um livro de piedade. Surpreendida em falta, desculpou-se dizendo que se sentia muito bem e que se levantara para ler melhor o livro piedoso. E Bernardette, instantaneamente: "Onde é que se viu piedade cosida com linha de desobediência?"

Hoje vão-se tornando inacreditáveis ou incompreensíveis todas as frases de gênios e de santos porque o mundo inteiro parece acometido de uma hepatite espiritual, e os homens se tornam cada dia mais fracos, ou "flacos" como diria Oswald de Andrade.

Em famosa alocução, já no seu tempo, Pio XII queixava-se dos afrouxamentos e temia sobretudo "o cansaço dos bons". Hoje seria o caso de temer não apenas o cansaço, mas o amolecimento e a transfiguração da fraqueza, da omissão, de todas as tolerâncias em nova virtude que vem substituir a "antipática e sublime" virtude da força moral que hoje só se vê nos fioretti dos santos e nos retratos antigos.

Além disso convém notar que a pomada de nova bondade que envaselina o planeta tem uma característica muito especial: cada um fabrica a sua, graduando-lhe a viscosidade e especificando-lhe o cheiro. O que importa, nessas campanhas de mãos, pés e demais partes do corpo estendidas, sim, o que importa soberanamente nesse afã de ver em toda a parte fragmentos do Evangelho, boa-vontade, humanismo e interesse pela pessoa humana, é o completo e límpido desprezo pela vontade de Deus.

* * *

Já observei que em todos os chamados "catecismos" munidos de todas as aprovações eclesiásticas comparecem arquétipos da nova idade do mundo, e nunca faltam Luther King e o astronauta. A presença constante do astronauta se explica pela infinita estupidez de alguns homens de Igreja que acham muito mais maravilhosa a ida do homem à Lua do que a vinda do Filho de Deus à Terra. Quanto à obsessão em torno de Luther King confesso que não atinei com nenhuma explicação plausível, nem cheguei a encontrar uma pista. Qual será o denominador comum, a afinidade? Não sei.

Sei que nós outros, católicos, temos uma maravilhosa coleção de heróis da santidade. Falei atrás em Bernardette, a menina que viu a Virgem Santíssima. Essa menina é sem dúvida possível um dos mais belos exemplos da humanidade. Sua força, disfarçada pela pequenez e pela asma, chega aos mais altos níveis do heroísmo. sua personalidade tem a riqueza e a dureza de um diamante. Suas respostas admiráveis são cintilações de um coração que já é fácil e diretamente movido pelos Dons. Pois bem, no último catecismo caído da frondosa pastoral catequética, a propósito de variedades temperamentais, Bernardette é dita "caráter amorfo".

Na verdade, o que esses autores não conseguem esconder é a sua profunda aversão pela santidade. Certamente lhes parece, a todos esses fabricantes de pomadas, duras demais, não-somente a palavra referente ao pão da vida, mas todas as palavras de Deus.

(O Globo, 4/3/72)

A cruzada albigense (parte IV)

[Esse texto foi extraído da obra apologética de Jean Guiraud, Histoire partiale, histoire vraie (Beauchesne Editions, 1912). Jean Guiraud desmantela, parte por parte, os falsos argumentos do anticlericalismo, dedicando um capítulo ao tema da Cruzada contra os Albigenses. Na primeira parte, resumiu os argumentos dos anticlericais e mostrou suas contradições. Na segunda, terceira e quarta parte, examina a moral e a doutrina dos albigenses.]

 

Jean Guiraud

Após analisar a moralidade do albigensianismo e sua negação do casamento, devemos tomar nota de suas doutrinas políticas e sociais.

 

Negação das sanções sociais e do patriotismo

Os outros compromissos assumidos pelos hereges quando se juntavam à seita são contrários aos princípios sociais nos quais se fundam as constituições de todos os Estados.

Eles prometiam, no dia de sua iniciação, não fazer nenhum juramento, porque, como todas as seitas cátaras ensinavam, “não se deve fazer juramento”. Atualmente, há seitas filosóficas e religiosas que rejeitam a tomada de juramentos com o mesmo ânimo, e conhecemos todas as dificuldades que acarretam em uma sociedade que, apesar de sua secularização, ainda envolve o uso de juramentos como parte dos aspectos mais importantes da vida social.

Que tipo de mudanças profundas tais doutrinas trariam aos Estados da Idade Média, quando todas as relações dos homens entre si, de súditos com seus soberanos, de vassalos com seus suseranos, de cidadãos da mesma cidade, dos membros de uma confraternidade em si, eram garantidas por um juramento, quando, finalmente, toda a autoridade derivava sua legitimidade de um juramento?

Era um dos laços mais fortes do corpo social que os maniqueus1 destruíam e, ao fazê-lo, se assemelhavam a verdadeiros anarquistas. Agiam também como verdadeiros anarquistas quando negavam à sociedade o direito de derramar sangue em defesa contra seus inimigos internos e externos, invasores e malfeitores.

Tomavam em sentido literal e rigoroso a palavra de Cristo declarando que quem matar pela espada deve perecer pela espada, e disso deduziam a proibição absoluta, não apenas do homicídio, mas também de matar por qualquer razão.

Desse princípio advinham consequências sociais muito sérias, e, em sua formidável lógica, os albigenses não se furtavam delas.

Qualquer Guerra, mesmo que fosse justa em suas causas, tornava-se criminosa em razão das matanças que acarretava: o soldado defendendo sua vida no campo de batalha, após ter se armado pela defesa de seu país, era tão assassino quanto o criminoso mais vulgar; porque nada lhe autorizava derramar sangue humano.

Assim como o soldado em campo de batalha, os juízes, nem qualquer detentor de autoridade pública em seu ofício têm direito de prolatar sentenças de morte. “Deus não quis”, dizia o albigense Pierre Garsias, “que a justiça dos homens pudesse condenar alguém à morte”; e, quando um dos seguidores da heresia se tornou cônsul de Toulouse, ele lhe lembrou do rigor desse princípio.

Os hereges do Século XIII negavam à sociedade o direito em si de punir? É difícil dizer, porque, se a maioria deles parecia sustentar essa posição ao proclamar que “não se deve, de modo algum, fazer justiça, que Deus não quer justiça”, outros não hesitavam em restringir essa negação absoluta às sentenças capitais, “ao condenar alguém à morte”.

A última posição, porém, parece ter sido tomada por considerações políticas, mitigando o rigor do preceito através de restrições razoáveis. A Suma Contra os Gentios nos ensina que todas as seitas ensinavam “que não deveria haver nenhuma punição, nem justiça alguma feita pelo homem”; o que parece indicar que a doutrina cátara em si negava, absolutamente, à sociedade o direito de punir.

De qualquer modo, pela proibição absoluta de juramentos e da guerra, pelas restrições feitas às leis positivas, os albigenses tornaram difícil a existência e a preservação não apenas da sociedade medieval, mas de qualquer sociedade; e é compreensível que a Igreja tenha, incansavelmente, denunciado o perigo que suas doutrinas poderiam representar à humanidade.

“Devemos admitir”, diz o autor das Adições à História do Languedoc, “que os princípios do maniqueísmo e dos hereges dos Séculos XII e XIII, atacando as fundações últimas da sociedade, produziriam as perturbações mais estranhas e perigosas e colocariam em cheque as leis e a sociedade política para sempre”.

Esses são os hereges que Aulard e Debidour apresentam como sendo simples reformadores do Cristianismo, que Gauthier e Deschamps apresentam como “pessoas simples e pacíficas” e que Guiot e Mane apresentam como homens gentis e inofensivos, sonhando, apenas, com poesia.

O Sr. Lea, em sua História da Inquisição, entendia os cátaros melhor. Embora fosse protestante e inimigo da Igreja, percebeu que o niilismo dos albigenses representava um retorno ao barbarismo, enquanto a doutrina cristã representava a civilização e o progresso.

A vitória dos Albigenses teria sido o despertar do fanatismo mais terrível, pois dava glória ao homem que cometesse suicídio e o dever às famílias de se dissolverem. Ao combate-los, a Igreja Católica defendeu, com a verdade da qual é depositária, a causa da vida, do progresso, da civilização.

É isso que dizem os documentos contra esses historiadores privados de consciência, que pintam um quadro falso e fantasioso dos albigenses, para melhor representá-los como inocentes vítimas da Igreja.

  1. 1. N.T.: O maniqueísmo foi uma religião da antiguidade criada por um persa chamado Maniqueu. O maniqueísmo inseria-se em um conjunto de religiões e heresias que foram condenadas pela Igreja e agrupadas sob o nome de gnosticismo, cujos princípios eram bastante semelhantes ao catarismo medieval: a pregação da salvação através do conhecimento, crença num deus bom em batalha contra um deus mal, crença no mal como uma substância (é bastante comum nas seitas gnósticas a ideia de que o corpo é mau em si), mentalidade sectária que tornava os “iluminados” separados do restante da sociedade, que vivem em trevas. O autor chama os cátaros de maniqueus para enfatizar a natureza gnóstica que o catarismo tinha em comum com o maniqueísmo. O leitor mais atento perceberá que muitos dos erros, heresias e seitas dos nossos tempos são profundamente gnósticos, incidindo nos mesmos erros dos maniqueus antigos e dos cátaros medievais.

Obstáculo inconveniente

Pe. Robert Brucciani, FSSPX

O Rito Tridentino da Missa é sinal de contradição e um obstáculo inconveniente para a revolução que tomou controle das instituições da Igreja no Concílio Vaticano II (1962-1965)

 

O Rito Tridentino da Missa

O Rito Tridentino da Missa é a oração suprema da Igreja, que expressa, perfeitamente, sua doutrina e santidade. Não é um sinal passivo da doutrina e da santidade, como um crucifixo ou uma imagem, mas um sinal eficaz, um sacramento, que produz o que representa, trata-se de um sacramento de fé e sacralidade, um estandarte vivo. É o momento da vitória sobre o pecado e a morte. É o meio pelo qual a vitória vem às almas através dos séculos.

Sim, ele permaneceu inalterado em sua essência ao longo dos séculos. É o mesmo sacrifício, com o mesmo Padre, com o mesmo propósito e com as mesmas palavras pronunciadas por Cristo. As orações que adornam a consagração (o Cânone da Missa) foram acrescentadas no curso dos primeiros seis séculos e estavam definidas ao tempo do Papa São Gregório Magno (590-604). O Papa São Pio V, seguindo um decreto do Concílio de Trento, promulgou a bula Quo primum tempore para definir o Rito da Missa da Igreja Latina para todos os tempos. Dali em diante, o Rito passou a ser conhecido como o Rito Tridentino da Missa.

Quando a Igreja e o Estado caminhavam de mãos dadas, a Cristandade era ordenada em direção à Missa. Hillaire Belloc, em seu Europe and the Faith, salientava que qualquer historiador medieval que não entendesse o que é o Santíssimo Sacramento (e, portanto, o que é o Santo Sacrifício da Missa) não conseguiria entender os motivos de seus ancestrais e, portanto, as grandes crises da história civil.

A Missa era o pináculo, a joia e a força-motriz da civilização. Era o encontro do Céu com a terra: Deus descendo a nós; o homem subindo e tocando a Deus.

 

O que aconteceu com a Missa?

Ah, pela queda de Adão, o eco do Non serviam de Satã irá ressoar pela história até o final dos tempos. O desejo natural do homem pela Divindade sempre competirá com a tentação de se fazer Deus.

Vieram revoluções e derrubaram a Igreja na sociedade civil (reforma protestante), depois Jesus Cristo (o iluminismo), depois Deus (as revoluções francesa e comunista), depois a ordem natural que Ele criou (a cultura da morte e, agora, a ideologia woke).

A revolução mais devastadora de todas, porém, foi aquela na qual o Non serviam ressoou nos corredores da própria Igreja. No Concílio Vaticano II, o homem tentou se deificar e colocar Deus a seu serviço.

 

O homem redefinido

De acordo com o Concílio, a dignidade do homem não era mais a possibilidade de ser elevado pela graça de Deus a compartilhar da vida divina, e sim a sua autonomia, pela qual o homem se tornava como Deus:

- Autonomia da vontade para escolher o bem ou o mal, livre das coações da lei natural ou revelada (i.é, liberalismo);

- Autonomia do intelecto para aderir a “verdades” independentes da realidade (i.é, relativismo intelectual);

- A supremacia da consciência sobre a Lei Eterna como guia do comportamento humano (i.é, relativismo moral);

- Posse, pela própria natureza, dos meios para alcançar seu fim último, que é um fim meramente natural, ao invés de depender da graça sobrenatural para um fim que é sobrenatural (i.é, naturalismo).

Santo Agostinho dizia que “Deus criou o homem para que o homem possa se tornar Deus”. Isso é verdade se compreendermos esse poder de "se tornar Deus” como sinônimo de "participar da Sua Vida Divina por meio da graça sobrenatural"; mas é falso se o compreendermos como sinônimo de "tornar-se autônomo", como o documento conciliar Dignitatis Humanae sugere.

 

A religião redefinida

O homem, portanto, foi redefinido no Concílio, assim como a sua religião. A nova religião é a Religião do Homem, pela qual os homens se tornam autônomos.

A Igreja dessa nova religião, a Igreja de Cristo, parece abraçar toda a humanidade como já tendo sido redimida pelo Filho de Deus (Gaudium et Spes). A Igreja Católica meramente “subsiste” nessa Igreja de Cristo, afirmação calculada para dar a entender que a Igreja de Cristo é mais ampla que a Igreja Católica e que a adesão na Igreja de Cristo através do batismo, da graça santificante, ou da submissão à autoridade, doutrina e liturgia da Igreja não são necessários.

A Igreja de Cristo, de acordo com Lumen gentium, é um sinal eficaz ou sacramento de união de toda a raça humana com Cristo. É, claramente, uma nova Igreja, e seus fiéis receberam um novo nome: “o povo de Deus”.

 

A liturgia redefinida

Para uma nova religião e uma nova Igreja, era necessário uma nova liturgia. Portanto, o Novus Ordo Missae foi promulgado no dia 03 de Abril de 1969 e, após, recebeu a permissão de ser alterado livremente.

De fato, trata-se de uma liturgia maligna, pois ela, objetivamente, obscurece o sacrifício de Cristo ao apresentar a Missa como uma refeição, e obscurece o sacerdócio ao tornar o Padre o presidente de uma assembleia. Na prática, pelo seu frequente desrespeito ao Santíssimo Sacramento, arrastou Deus pela terra e tratou-O de maneira insultante. Seu efeito foi o de assassinar a vida sobrenatural dos fiéis, secar as vocações e esvaziar as Igrejas.

 

Summorum pontificum & Traditionis custodes

Após quase 40 anos de autodestruição, o Papa Bento XVI reconheceu que parte da culpa do declínio da Igreja é da liturgia pobre, mas falhou em perceber os erros doutrinais dos quais ela adveio. Em 2007, promulgou Summorum pontificum, que deu a qualquer Padre o direito de celebrar a Missa no Rito Tridentino novamente. O resultado foi feliz, pois, ao serem expostos à lex orandi tradicional, muitos fiéis descobriram ou redescobriram a lex credendi da Igreja, que o Concílio havia tentado suplantar.

O Rito Tridentino começou a ser considerado uma ameaça à revolução e ao seu sonho de uma nova Religião do Homem; uma religião a serviço da Nova Ordem Mundial, de modo que o Papa Francisco promulgou um novo motu próprio, Traditionis custodes no dia 16 de Julho de 2021, para anular Summorum pontificum e dar à luz o aparato necessário para limitar o Rito Tridentino na Igreja conciliar.

No motu próprio, o Papa Francisco justifica suas medidas alegando que o Rito Tridentino da Missa é causa de desunião na Igreja. Essa acusação, bem como o título do motu próprio, não é pouco irônica, pois a promulgação do Novus Ordo Missae foi, talvez, a maior causa de desunião em toda a história da Igreja. O novo rito da Missa rompeu a unidade de liturgia, a unidade de língua, a unidade de cultura e, mais importante que tudo, a unidade de fé e de vida sobrenatural ao longo do mundo e dos séculos. É uma nova liturgia de uma nova religião, para servir a uma concepção falsa do homem.

 

Obstáculo inconveniente

Se o Rito Tridentino da Missa é tido como causa de desunião, isso se deve apenas ao fato de que contradiz a revolução sendo-lhe um obstáculo inconveniente. Mas um dia a revolução desmoronará.

 

Sancte Joseph, Protector sanctae Ecclesiae, ora pro nobis

Introdução ao décimo oitavo domingo de Pentecostes

 “Meu filho, teus pecados te são perdoados” (Evangelho).

 

Paramentos verdes

 

Este domingo, que vem a seguir ao Sábado das Quatro Têmporas, era a princípio vacante. A liturgia da Vigília prolongava-se com efeito até de manhã, de maneira que não ficava tempo para os ofícios dominicais. As lições que se leem no Ofício são do Livro de Judite. Todos conhecem a história desta mulher famosa que salvou a Judéia, cortando a cabeça de Holofernes, general dos exércitos assírios. Holofernes, enviado por Nabucodonozor para conquistar a Palestina, tinha cercado Betúlia. Vencidos pela fome e pela sede, os sitiados tinham deliberado render-se, quando Judite apareceu a encorajá-los. Façamos penitência, dizia, e imploremos o perdão de Deus, porque estes flagelos com que nos castiga são para nos corrigir e não para nos perder. Depois, quando veio a tarde, vestiu-se com as suas melhores galas e fez-se introduzir no acampamento dos inimigos, sob pretexto de lhes entregar a cidade. E levada à presença de Holofernes, o general, seduzido pela sua beleza, recebeu-a com grande contentamento e ordenou que, em sua honra, se preparasse um banquete.

A Igreja, ao recordar as sete dores da Virgem Santíssima, aplica-lhe o canto que se ouviu em Israel, quando Judite livrou o povo eleito. Maria é com efeito a nova Judite que decepa a cabeça do general assírio, do dragão infernal. Nestes dias lê a Santa Igreja no Ofício divino estas páginas gloriosas da epopeia israelita, que são a figura do que mais tarde havia de acontecer numa ordem espiritual e mais elevada. A libertação do povo judeu da sujeição assíria, levada a efeito por Judite, representa a libertação da humanidade operada por Jesus. É muito oportuna esta Missa nesta época das Têmporas, que são tempo de perdão, por sê-lo de penitência em que Deus se deixa aplacar e vencer dos pobres mortais. Desse perdão e dessa paz consoladora, que se frui da Casa do Senhor, são legítimos despenseiros os sacerdotes a quem Jesus concedeu o poder sublime de dizerem: “Os teus pecados te são perdoados” Os novos ungidos do Senhor serão encarregados também de pregar a palavra de Deus, de celebrar o Santo Sacrifício e de preparar por este modo a humanidade para se apresentar confiadamente diante do Supremo Juiz. É por este motivo, precisamente, que a Igreja insistirá durante estes domingos no pensamento da vinda do Senhor.

A Epístola de hoje é também para meditar. Que contas tão estreitas não terá de prestar o cristão de tantas graças que recebe! E como dissipamos herança tão rica, como desprezamos tantas graças, os sacramentos, a pregação da palavra de Deus! Que contas serão as nossas[i]?

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

 


[i] - Para compreender a Missa deste domingo é preciso notar que antigamente não tinha Missa própria. O Ofício do Sábado das Quatro Têmporas, prolongado pelas cerimônias das ordenações, chegava até de manhã.

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