Skip to content

Índice de autores

Redemocratização

Gustavo Corção

Não cabendo nos limites de um artigo um retrospecto da história dos regimes políticos, ainda que abusássemos da paciência do leitor e da liberalidade do jornal, tentaremos, entretanto, esboçar a figura peculiar dessa história: em contraste com o desenrolar de outros progressos humanos, notadamente no plano da ciência e da técnica, a soma de experiências e especulações realizadas pelo homem, na procura do regime mais conveniente, ou menos inconveniente, processou-se de um modo sinuoso e cambaleante, com avanços e recuos, sem que possamos dizer com segurança que este ou aquele regime representa uma decisiva e irreversível conquista do animal-político de Aristóteles.

Aliás, o próprio Aristóteles, quando genialmente reconhece que ao homem não convém propor somente o humano, já nos deixa entrever que a procura do melhor regime de organização da Pólis nos levaria irresistivelmente, como de fato nos levou, a uma reconsideração no modo de armar e propor o problema.

O Cristianismo nos trouxe uma nova posição de toda a problemática do homem neste mundo, imperada por princípios e normas que não são deste mundo. E os mesmos evangelhos que nos anunciam a Incarnação do Verbo “para nós homens e para a nossa salvação”, assim pregando uma igualdade que será reclamada mais tarde pelos portadores da bandeira da Democracia, e até da Revolução, também nos trazem um singular reforço de ideia do senhorio de Deus, que foi inspiradora do regime monárquico durante todo o milagroso e maravilhoso milênio medieval.

Os antigos sábios, quando diziam que não convém propor somente o humano ao homem, certamente suspeitavam a grandeza de um destino mais alto, em desproporção gritante com os pés de barro tão facilmente observáveis na marcha diária ou secular desse animal-racional tão pouco razoável, mas também frequentemente tão pouco animal.

O Cristianismo nos traz a chave dos dois grandes segredos da sorte humana, a chave do paraíso perdido, e a chave do céu trazida pelo Salvador. O problema e mistério da sorte humana impera do alto a política, a economia, e toda a emaranhada problemática do mundo.

Com a tragédia que encerra a história da civilização cristã, numa reprise do percado original em proporções civilizacionais, surge no mundo, com o pseudônimo de “humanismo” um anticristianismo essencialmente anárquico, porque desde logo fundado na autonomia do homem, que será sua própria lei e que, com maior ou menor violência, chegará a afrontar o senhorio de Deus.

Os antigos, de Aristóteles até Santo Tomás, já haviam dito, dos regimes de governo, que cada um tem sua fraqueza congênita – já que pela intuição pagã ou pela sabedoria cristã, todos suspeitavam ou sabiam que o homem, por suas próprias forças, era um animal ingovernável. No esquema clássico das perfeições e misérias dos regimes de governo, era sabido que o regime democrático (que mais tarde será pomposamente definido como “governo do povo, para o povo”) tinha uma congênita tendência à anarquia.

Ora, nos tempos modernos, marcados pela antítese formada pelo Cristianismo e pelo humanismo anárquico, vemos reviravoltar-se a colocação do problema dos regimes. E hoje diríamos vendo o problema de uma altura maior, que já não é a democracia, aqui ou ali experimentada, que tende para o anarquismo. Ao contrário, hoje é o anarquismo que marca toda uma civilização progressivamente anticristã, é essa religião do homem que agora reclama a bandeira da “democracia”, com cujo tênue véu cobrirá a nudez feia do orgulho do homem. Depois de especulações e experiências ora trágicas, ora cômicas, a Revolução humanista, anticristã, chegará ao século XX, estuário de erros e imposturas e então, provocadas pelo surgimento de dois regimes ditos “totalitários”, as nações ditas “liberais” são compelidas a aceitar a guerra que logo tomou proporções planetárias. E foi nessa guerra mal começada e ainda mais desastrosamente acabada para os vencedores, que aqui invertem a frase de Breno: “Ai dos vencidos”. A II Guerra Mundial terminou com este grito: “Ai dos vencedores”. Passemos, antes que, apesar da idade, eu monte num pégaso azul e saia galopando, ou voando em todas as direções, porque a história dos desastres da França e da Inglaterra, nesse absurdo episódio, faz-me perder a última reserva de serenidade. Mas antes de virar esta ridícula página da história registremos um fato: foi especialmente nesses anos de guerra que a bandeira da Democracia ganhou um prestígio imenso, e uma significação muito mais ampla do que a de um simples regime ou forma de governo. Democracia passou a ser um ideal supremo, uma “weltaschauung” e, por que não?, religião.

Naquele tempo em todo o ocidente, prejudicado pela queda da França traída por todos os que chamaram Charles Maurras e Brasillac de traidores, e mal dirigido pelos povos de língua inglesa, os lutadoes julgavam-se os paladinos da Democracia. E por que não os cruzados da religião do homem que se fez Deus? Democracy, democracia, democrácia, democratie. Bilhões de vezes por dia seu santo nome foi invocado. E quando Hitler praticava com satânica crueldade algum feito de genocídio, a consciência ocidental via naquele horror não uma ofensa a Deus e ao próximo, mas um monstruoso ato antidemocrático.

E graças a essa brutal e estúpida simplificação mental, o governo da Espanha católica, por ser ditatorial, e portanto antidemocrático como regime, passou a ser apontado como antidemocrático no novo sentido, e quase tão repulsivo como o massacre dos judeus na Alemanha e na URSS ou como o massacre dos poloneses em Katyn. Um só homem em toda a Inglaterra, repelia energicamente a fórmula que explicava a heróica resistência de Londres: -- Não! A Inglaterra não combate em defesa da Democracia, ela se levantou e lutará até o fim em defesa da Civilização. E por que não em defesa da Religião do Verbo Incarnado? Esse homem foi Hilaire Belloc, o grande amigo de Chesterton, e o constante leitor de L´Action Française.

No Brasil, a infeliz ditadura de Vargas contribuiu eficazmente para aderirmos à estupidez universal. Penitencio-me pela minha generosa contribuição trazida ao Banco das Asneiras do Século. Mea culpa! Mas hoje, depois de ter assistido ao espetáculo oferecido pelas “democracias” no arremate da guerra e as “tournées” especialmente degradantes da democracia cristã, na França, no Brasil, no Chile e na Itália, podemos dizer: -- Democracia? Pagamos para ver.

E quando nos falam em redemocratização penso na imagem muito usada por Santa Catarina de Sena: a dos cães que vomitam o mal que comeram, mas que depois de andar alguns passos voltam atrás e tomam a comer o vômito.

(O Globo, 12/2/77)

Leão XIII e o Comunismo

Alexandre Bastos

Intra muros

Uma antiga tradição diz que São Pedro, ao deixar Roma para fugir das perseguições promovidas por Nero, viu Nosso Senhor andando em sentido contrário, com uma cruz nas costas. Quo vadis, Domine? (Aonde vais, Senhor?), perguntou o primeiro dos papas. “Vou a Roma para ser novamente crucificado”, respondeu Jesus. Com esta resposta, não apenas indicou a Pedro o que devia fazer naquele momento, mas estabeleceu um critério para todos os papas futuros: “Vá a Roma para ser crucificado”. A loucura da cruz — para empregar os termos do Apóstolo — é a medida de todos os pontificados.

Na história da Igreja, muitos papas cumpriram fielmente este ideal, a começar por São Pedro, que voltou a Roma para ser literalmente crucificado. Vieram em seguida os santos Lino, Anacleto, Clemente, Calixto, Ponciano e uma longa lista de papas que morreram por Cristo. Nos tempos modernos, surgidos sob o estandarte da liberdade, Pio VI morreu sequestrado pelos revolucionários e Pio IX bebeu um cálice amargo antes de terminar seus dias prisioneiro no Vaticano. Pas de liberté pour les ennemis de la liberté!

Quando Leão XIII recebeu a Tríplice Coroa, a maçonaria, que é a igreja da Revolução, ganhara a adesão dos Estados modernos e os erros do socialismo e do liberalismo justificavam a guerra à Igreja: queriam expulsá-la da vida pública e subordiná-la aos detentores do poder. De um ponto de vista temporal, a situação era desesperada: os Estados Pontifícios haviam sido invadidos, os bens da Igreja, espoliados, e já não havia os recursos financeiros que o Patrimônio de São Pedro proporcionava a toda a Igreja.

Nenhum papa viveu tão longamente a dolorosa situação de prisioneiro como Leão XIII. Nos vinte e cinco anos do seu pontificado, jamais pôde deixar o Vaticano, e até mesmo a bênção Urbi et Orbi era dita internamente, desde uma janela que dava para os jardins — único lugar em que o pontífice ainda podia abençoar o mundo livremente. A cruz do seu pontificado será, pois, a tentativa de restaurar, para si mesmo e para toda a Igreja, a liberdade perdida.

Mas não se deve pensar que fosse desprovido de consolações: era um papa de enorme vida interior. O cardeal Luigi Lambruschini, que conheceu o jovem Joaquim Pecci nos seus tempos de estudante, dizia que ele se parecia com um anjo, e Santa Teresinha do Menino Jesus, que o viu celebrar a Santa Missa numa peregrinação a Roma, elogiou a “sua ardente piedade, digna do Vigário de Jesus Cristo”.

Ora, a menina que tinha pressa de ser santa, relata em suas memórias o seu encontro com Leão XIII no Vaticano:

“Um instante depois, eu estava aos pés do Santo Padre. Tendo eu beijado seus pés, ele me apresentou a mão. Em vez de beijá-la, pus as minhas e, levantando para o rosto dele meus olhos banhados em lágrimas, exclamei: "Santíssimo Padre, tenho um grande favor para pedir-vos!..." Então, o Soberano Pontífice" inclinou a cabeça de maneira que meu rosto quase encostou no dele e vi seus olhos pretos e profundos fixarem-se sobre mim e parecer penetrar-me até o fundo da alma. "Santíssimo Padre", disse, "em honra do vosso jubileu, permiti que eu entre no Carmelo aos 15 anos!..."

A impressão deste encontro foi tal, que ela se esqueceu de ir embora: “A bondade do Santo Padre me animava e eu queria falar mais, mas os dois guardas tocaram-me polidamente para fazer-me levantar”.

 

Já está pronto, moço?

Em março de 1810, na pequenina cidade do Carpineto romano, a poucos quilômetros de Roma, nascia o sexto filho do Conde Ludovico Pecci e da Condessa Ana, o pequeno Vincenzo Gioacchino Raffaele Luigi Pecci Prosperi Buzzi. Os pais vislumbravam um grande futuro para o seu mais novo filho. “Quero fazer dele um general”, disse o conde. “Fará dele um papa”, respondeu a mãe.

Desde a primeira infância, Nino, como era chamado, dava provas de um gênio agudo e de uma vontade insaciável de saber. “Quero aprender a ler e escrever como o sábio de Aquino”, dizia o pequeno. Sua trajetória acadêmica foi espetacular. Iniciou os estudos aos oito anos de idade, mas, aos doze, já compunha versos em latim, hábito que manterá até o último dia de sua vida. No Colégio dos Jesuítas de Viterbo, era insuperável em oratória e retórica, e ganhou muitos prêmios pelo seu desempenho em matemática, química, filosofia e teologia. Amante da poesia, seus livros preferidos eram a Divina Comédia, que sabia recitar de cor do primeiro ao último verso, e a Eneida.

Ele continuou seus estudos em Roma, onde descobriu e aprendeu a amar a doutrina de Santo Tomás de Aquino, a quem chamava “o Arquimandrita dos teólogos” 1. Por aquele tempo, reinava o ecletismo nas escolas e seminários, que já foram comparados a uma “loja de argumentos”. Não que se ensinassem erros, como viria a acontecer com a crise modernista, mas já não se ensinava um sistema único, forte e coerente para enfrentar os diversos sistemas filosóficos surgidos desde Descartes. Mais tarde, o Papa Leão XIII trabalhará com afinco para corrigir esta situação, que transmite aos alunos “uma filosofia nada firme, estável e forte como as de antigamente, mas sim fraca e vacilante. E se, por acaso, ela alguma vez não se encontra à altura dos golpes de seus adversários, deveria reconhecer ser ela mesma a culpada por este estado de coisas.”

Estudava da manhã até a noite, apaixonadamente. Um colega de escola o descreveu assim: “Durante os seus estudos em Roma, ele não conhecia companhias nem diversões. Sua mesa era o seu mundo, a investigação científica, seu paraíso”. Aos 22 anos, Joaquim Pecci tornou-se doutor em teologia, mas, para não interromper seus estudos, ingressou na Academia dos Nobres Eclesiásticos. Desejava aperfeiçoar a sua teologia, desejava instruir-se no Direito Civil e Canônico, desejava estudar. Todo este esforço faria com que o ilustre filho de Carpineto se tornasse um dos homens mais brilhantes de seu tempo. Não foi por outra razão que o historiador de filosofia Etienne Gilson escreveu: “Leão XIII entrou na história da Igreja como o maior filósofo cristão do século XIX, e um dos maiores de todos os tempos” — o que não é dizer pouco.

Por aquele tempo, surgiu a questão da vocação religiosa. “Já está pronto, moço?”, perguntou-lhe, certa feita, o Cardeal Sala, amigo da família e seu protetor. O estudante não conseguia decidir-se entre o sacerdócio e a política, que será sempre seu calcanhar de Aquiles. Embora profundamente devoto, a piedade paterna, o desejo de tornar ilustre o nome de sua família, fazia com que adiasse indefinidamente a tomada de ordens. Foi preciso que a Providência destravasse de modo particularmente doloroso as molas de heroísmo escondidas no coração do rapaz.

No ano de 1837, logo após perder o pai, Joaquim Pecci caiu gravemente enfermo durante uma epidemia de cólera. Contavam-se numerosas vítimas nas ruas de Roma, e o moço não duvidava de que seria uma delas. Porém, graças a vigorosos tratamentos médicos, recuperou a saúde. Ato contínuo, decidiu ajudar os padres nos cuidados com os doentes e, sem ser médico ou enfermeiro, passava os dias nas cabeceiras dos moribundos. “Se hei de ser contado entre as vítimas”, escreveu então, “curvo minha cabeça em submissão aos desígnios do Altíssimo, a quem já consagrei minha vida em expiação dos meus pecados. Aconteça o que acontecer, meu coração está perfeitamente tranquilo”.  

A carreira política já não fazia o menor sentido para ele e, no mês de dezembro daquele ano, recebeu as três ordens maiores.

 

Do sacerdócio ao Conclave

À grande capacidade intelectual de que era dotado, Joaquim Pecci unia uma vontade de ferro. Foi esta a razão de o Papa Gregório XVI o ter nomeado tão jovem como delegado apostólico da cidade de Benevento, no Reino de Nápoles. Os habitantes daquele lugar sofriam, por um lado, uma bandidagem cada vez mais ousada e, por outro, a extorsão dos que lhes cobravam por proteção. Como num filme Western, o futuro papa fez prender os bandidos e salvou a cidade em tempo recorde.

Aos 31 anos foi nomeado para um cargo político, tornando-se núncio apostólico junto à corte de Bruxelas. Seu desempenho foi decepcionante. Após apoiar o episcopado belga de cariz liberal contra as políticas do Rei Leopoldo I, foi formalmente repreendido pelo Cardeal Luigi Lambruschini, que dizia “esperar que doravante saiba corresponder melhor à confiança de que é depositário”. Sua experiência na Bélgica durou pouco: voltou à Itália em 1846, ano da eleição de Pio IX.

Por um período de 32 anos, ou quase todo o reinado do Papa da Imaculada, Joaquim Pecci ficou “esquecido” na pequena diocese de Perúgia, na região da Umbria. Embora haja quem atribua ao Cardeal Giacomo Antonelli, Secretário de Estado de Pio IX, a responsabilidade pelo exílio de Pecci, é fato que o papa então reinante não nutria grande simpatia pelo seu futuro sucessor.

Naqueles anos, contudo, algo de realmente importante estava em curso: a restauração do tomismo, promovida em Itália pelos padres da Civiltà Cattolica, Matteo Liberatori, Sordi e Taparelli, mas com repercussões em toda a Europa. O bispo de Perúgia, entusiasmado pelo autor da Suma Teológica desde a mocidade, como vimos, não poderia ficar alheio ao movimento. Assim, reformou todo o currículo do seminário local a fim de conformá-lo à doutrina do Aquinate e fundou uma Accademia di San Tommaso d’Aquino, com o objetivo de refutar os erros do tempo.

Mesmo distante da Cúria romana, Dom Joaquim Pecci conseguiu destacar-se em meio ao episcopado italiano, de modo que, quando chegou a Roma em 1877, nomeado Cardeal Camerlengo, já era apontado como um papabile.

No início de fevereiro de 1878, Pecci foi chamado às pressas. Conforme os ritos, entrou vestido de púrpura nos aposentos em que o papa era velado pelos penitentes de São Pedro. Ajoelhou-se então para entoar o De Profundis, retirou-lhe a coberta do rosto e, com um martelo de prata, tocou-lhe três vezes na face, chamando-o pelo nome de batismo: “Giovanni!”, “dormisne?” (dormes?). Encerrado o ritual, o futuro papa declarou que Pio IX estava morto.

 

“Viva papa Leone!”

Poucos dias depois, numa sala escondida do mundo, encerrou-se em apenas dois dias o primeiro conclave realizado após a ocupação de Roma. Os cardeais aproximaram-se do homem que já não era um seu igual, e usava na cabeça uma mitra ornada de diamantes e, no dedo, o anel do pescador. O novo papa, sentando-se no trono de Pedro aos 67 anos de idade, gemia: “Sou idoso e fraco, não posso carregar este fardo. O que me espera é a morte e não o pontificado!”. Seu papado, no entanto, seria um dos mais longevos da história, estendendo-se por 25 anos.

Saltavam aos olhos as diferenças entre o novo pontífice e seu predecessor. Pio IX era um homem de aspecto majestoso e temperamento ardente, enquanto Leão XIII, muito magro, muito pálido, parecia um asceta. Pio IX era um orador, sentia-se à vontade em meio a multidões e falava muito espontaneamente. Leão XIII era um escritor, amava a solidão e, perfeccionista, revisava até o último momento os seus belos e profundos escritos. Pio IX era homem de ação: na juventude, quisera fazer-se missionário nas Américas. Leão XIII era um intelectual e uma alma profundamente política.

Nesta última frase encerram-se dois aspectos marcantes do seu pontificado. O primeiro, sublime e inteiramente bem-sucedido, é assinalado pelo seu Magistério, que, continuando e elaborando a obra de seus predecessores, causou forte admiração no mundo católico. O segundo aspecto expressa-se pela sua política, que rompe com a de Pio IX com resultados desastrosos. 

Esse primeiro aspecto nunca foi melhor traduzido que pelo epíteto Il Papa Caesareo, que o povo romano lhe atribuiu. O termo Caesareo aqui não guarda relação direta com os imperadores da antigüidade, mas significava o mesmo que sublime. E realmente o foi: as cerimônias em São Pedro nunca foram tão requintadas; não dispensava os mais rigorosos protocolos e as pompas; e para locomover-se sua preferência recaía na Sedia Gestatória. Todo esse aparato não poderia ser mais conveniente, após terem espoliado o Papado da soberania temporal. Contudo, este papa nunca foi mais sublime do que em seu Magistério, que fez Roma resplandecer como a verdadeira lux mundi num século culpado de racionalismo.

Um dos seus primeiro atos como papa foi reorganizar a biblioteca e os arquivos do Vaticano, abrindo-os aos estudiosos e dotando a sua estrutura com um corpo de lingüistas, arqueólogos, numismatas, orientalistas, paleógrafos, enfim, uma verdadeira elite de homens eminentes nos estudos históricos. Enganar-se-ia, porém, quem julgasse tratar-se de mero beletrismo. Não! A sua intenção era combater os erros modernos, transformar Roma numa trincheira intelectual contra as doutrinas nefastas do racionalismo e do naturalismo — tão combatidas pelos seus predecessores — e seus dois rebentos: o liberalismo e o socialismo.

É nesta linha que devemos compreender a sua ação pela restauração do tomismo, “um dos principais títulos de glória de Leão XIII”, segundo dele escreveu São Pio X. Como papa, fundou uma segunda Academia Santo Tomás de Aquino (1880), reeditou as suas obras completas (é a chamada edição leonina), proclamou-o patrono das escolas católicas (1880) e nomeou ainda, para todas as escolas e universidades romanas, professores tomistas. Leão XIII convidará Louis Billot para vir lecionar na Gregoriana e, pouco depois, o Padre Sertillanges começará a lecionar em Paris. Mas a obra decisiva para a restauração do tomismo foi a grande e eruditíssima Encíclica Aeterni Patris, que suscitou uma tempestade de protestos na imprensa contrária à Igreja. Nela, Leão XIII faz o elogio de Santo Tomás e assinala a preferência da Igreja pela doutrina do grande santo:

“Entre todos os doutores escolásticos, porém, brilha, com uma luz sem igual, o príncipe e mestre de todos, Tomás de Aquino, o qual, como observa o Cardeal Caetano, ‘por ter venerado profundamente os santos doutores que o precederam, herdou, de certo modo, a inteligência de todos’. Tomás coligiu suas doutrinas, como membros dispersos de um mesmo corpo; reuniu-as, classificou-as com admirável ordem, e de tal modo as enriqueceu, que tem sido considerado, com muita razão, como defensor especial e honra da Igreja. De espírito dócil e penetrante, de fácil e segura memória, de perfeita pureza de costumes, levado unicamente pelo amor da verdade, prenhe de ciência divina e humana, justamente comparado com o sol, aqueceu a terra com a irradiação de suas virtudes e encheu-a com o resplendor de sua doutrina.” (Aeterni Patris)

O combate do pontífice traduziu-se numa sucessão de encíclicas admiráveis: foram 64 em 25 anos de Pontificado, número superior à soma do que terão produzido seu predecessor e seu sucessor2. Mas não é o aspecto material —seja a quantidade de documentos, seja a perfeição literária — o que mais nos impressiona, e sim a profundidade da doutrina e o rigor da exposição.

Muito industrioso, Leão XIII não se poupava absolutamente — trabalhava por até 16 horas seguidas — assim como não poupava os seus assessores mais próximos. Conta-se que, muitas vezes, ele os “trancava” o dia inteiro na sua biblioteca particular, fazendo-os pesquisar algum ponto de doutrina ou aprimorar a redação de algum documento. Poderíamos aplicar ao próprio papa o que ele escreveu da Igreja: “Inimiga nata da inércia e da preguiça, deseja grandemente que o exercício e a cultura façam o gênio do homem dar frutos abundantes” 3.

As encíclicas não eram traduzidas, mas redigidas diretamente em latim pelo papa — diz-se que, desde Urbano VIII, nenhum pontífice manejou com tanto esmero a língua da Igreja. Revisor incansável, levantava-se à noite para corrigir uma pontuação ou trocar uma palavra. E depois de tudo ter sido exaustivamente meditado, revisado e ponderado, trancava o documento acabado numa gaveta e esperava: patiens quia aeternus (paciente porque é eterno). O resultado, para além da renovação tomista, foram os monumentos que inauguraram a doutrina social da Igreja, condenaram o comunismo, o liberalismo, a escravidão, o americanismo, a maçonaria e tantos outros erros e males.

A profecia de São Malaquias atribui ao glorioso Pio IX um título bastante conveniente, Crux de cruce. Realmente, foi um papa cumulado singularmente de tribulações, e chegou a ser chamado, ainda em vida, de “o Papa da Cruz”. Não é menos apropriado o nome atribuído a Leão XIII: Lumen in Caelo, luz no céu.

 

AS RUÍNAS DO SOCIALISMO

Temos um especial interesse em nos debruçar sobre o magistério de Leão XIII, em ouvir atentamente as lições que, com tanta ciência, ele próprio quis nos transmitir, pois nas suas encíclicas encontramos remédio para muitos dos males que atormentam o triste e confuso mundo moderno.

Trataremos aqui apenas da sua doutrina sobre o comunismo e o socialismo, tal como exposta em Quod Apostolici Muneris, deixando para outra oportunidade os demais aspectos da doutrina e da política deste grande pontífice.

 

Vigilância dos papas

Leão XIII é freqüentemente maltratado pelos comentadores, que mudam-lhe as feições a ponto de torná-lo irreconhecível. Chamam-no democrata, coisa que nunca foi; liberal, quando é um dos principais autores da doutrina anti-liberal da Igreja; socializante, mas talvez seja o papa mais violentamente anti-comunista que jamais se sentou na Cátedra de Pedro.

Há uma história na origem deste último equívoco. Nos tempos que antecederam imediatamente a publicação da sua Rerum Novarum, havia de um lado um grupo de católicos que, reunidos na Bélgica em torno de Charles Périn e, na França, em torno de numerosos escritores, destacava-se pelo valente combate contra o socialismo, mas a custo de abraçar em maior ou menor medida as idéias liberais. De outro lado, havia um grupo minoritário reunido em torno de Dom Gaspard Mermillod, chamado “União de Friburgo”, que buscava em Santo Tomás os alicerces para uma doutrina social. Leão XIII favoreceu este último grupo, e os católicos liberais começaram imediatamente a acusar ao papa e a sua doutrina social de “socializante”. Anos após sua morte, intelectuais deram seqüência às acusações e, por sua vez, os progressistas adoraram: seqüestraram Leão XIII, reivindicaram-no como se fosse um dos seus.

Ao se falar em comunismo, é preciso elogiar a vigilância da Igreja e, em especial, dos Papas do século XIX. Pio IX foi o primeiro a condenar repetidamente o comunismo, verberando-o, entre outros documentos, no Syllabus e na Quanta Cura de 1864, documento munido de todas as notas da infalibilidade. Note-se que, na ocasião, Karl Marx ainda era vivo, e não tinha cinqüenta anos sequer. Nas biografias consagradas ao Papa da Imaculada, lê-se que certa feita alguém lhe disse temer pelo desenvolvimento do comunismo na Inglaterra. Pio IX respondeu não acreditar que o comunismo despontaria lá, e sim no Leste. Foi o que de fato aconteceu, com a União Soviética.

Leão XIII foi ainda mais combativo. O papa inquietava-se tremendamente com o comunismo e socialismo, e guardou suas mais violentas palavras para condená-los. Em 1849 — O Manifesto Comunista acabara de ser publicado — o então Cardeal Pecci, bispo de Perúgia, numa pastoral redigida por ele, declarou estar disposto a arriscar a própria vida em defesa do direito de propriedade:

“Mas como, no século em que estamos, ataca-se com particular violência a unidade e a absoluta necessidade da Fé, a autoridade dos poderes legítimos e o direito de propriedade adquirido com justiça, queremos solenemente professar estas verdades e, quanto de nós depender, defendê-las com o risco da nossa própria vida.” (o destaque é nosso)

E por aqui já se vê que a condenação ao Comunismo por Leão XIII é de natureza muito mais profunda do que tudo o que fazem atualmente as nossas direitas. Ele não o condenou pelo rastro de sangue que o comunismo certamente produziu, pelos seus cem milhões de mortos, pela razão de que, no século XIX, a trajetória de crimes comunistas mal começara. Antes, Leão XIII condenou de modo implacável o socialismo e o comunismo pelo fato de estas ideologias perseguirem um fim mau em si mesmo. Por essa razão, e com compreensão e presciência admiráveis, já estavam elas inapelavelmente condenadas antes de reduzirem populações inteiras à miséria, antes de produzirem os mais graves crimes dos tempos modernos. Não foi por outra razão que outro papa haveria de fulminar a seita declarando que o comunismo é intrinsecamente perverso (Pio XI - Divini Redemptoris).

Para demonstrar a largueza de visão de Leão XIII, cito uma passagem quase profética da Rerum Novarum (1891) — a tal encíclica socializante — em que o Papa indica inequivocamente que a implantação do socialismo engendraria, além da perturbação de toda a sociedade, a escravidão e a miséria (grifos meus):

“Mas, além da injustiça do seu sistema, vêem-se bem todas as suas funestas conseqüências, a perturbação em todas as classes da sociedade, uma odiosa e insuportável servidão para todos os cidadãos, porta aberta a todas as invejas, a todos os descontentamentos, a todas as discórdias; o talento e a habilidade privados dos seus estímulos, e, como conseqüência necessária, as riquezas estancadas na sua fonte; enfim, em lugar dessa igualdade tão sonhada, a igualdade na nudez, na indigência e na miséria.”

Ora, não há nada de equivalente no tratamento dispensado ao capitalismo. Que se aponte uma menção sequer a ele no Syllabus de Pio IX. Não há! A Doutrina Social da Igreja não vai no sentido de uma condenação in toto do capitalismo, e é essa a razão de uma frase menos conhecida de Pio XI sobre ele, capaz por si só de resolver muitos equívocos: “É evidente que ele não é condenável de per si” (Quadragesimo Anno).

Mas nada seria capaz de provar melhor a intransigente oposição leonina ao socialismo e ao comunismo do que a encíclica Quod Apostolici Muneris, publicada nos primeiros meses de seu Pontificado. Eis aqui algo realmente digno de nota: eleito papa, Leão XIII não viu nada melhor a fazer nos primeiros meses do seu pontificado do que condenar de modo solene e cabal o comunismo e o socialismo. Insisto: a sua condenação ao comunismo, reiterada em dezenas de documentos posteriores do seu pontificado, não apenas antecede as suas condenações ao liberalismo e à maçonaria, mas até mesmo a promoção do tomismo.

 

As três ruínas

A encíclica abre com um discurso duríssimo:

“Obedecendo ao dever do Nosso cargo apostólico, não deixamos (...) de apontar esta peste mortal que se introduz como a Serpente por entre as articulações mais íntimas dos membros da sociedade humana, e a coloca num perigo extremo (...).

“Vós compreendereis facilmente que Nos referimos a essa seita de homens que, debaixo de nomes diversos e quase bárbaros, se chamam socialistas, comunistas ou niilistas, e que, espalhados sobre toda a superfície da terra (...) se esforçam por levar a cabo o desígnio (...) de destruir os alicerces da sociedade civil. É a eles, certamente, que se referem as sagradas letras quando dizem: ‘Eles mancham a carne, desprezam o poder e blasfemam da majestade’ (Jd 1,8).”

Sim, essa seita de “homens pérfidos” quer levar à ruína três ordens distintas da sociedade civil: a política, a economia e a organização social. E intentam contra elas, sempre segundo o papa, do seguinte modo:

  • Arruína a ordem política semeando a revolta “por meio de uma nuvem de jornais” contra as autoridades legítimas e mesmo contra os “próprios chefes das nações”;
  • Arruína a ordem econômica ao combaterem “o direito de propriedade, sancionado pela lei natural”;
  •  Arruína a ordem social ao se insurgirem contra o laço sagrado do matrimônio, princípio e base da sociedade, e pregarem o igualitarismo, ou seja, a “igualdade absoluta de todos os homens, no que diz respeito aos direitos e deveres”.

Este último ponto, sobre o igualitarismo, pede uma explicação. Há certamente uma igualdade de natureza entre os homens, pois possuímos todos a mesma natureza humana, assim como existe uma igualdade de destinação, pois somos todos chamados “à mesma e eminente dignidade de filhos de Deus”. Porém, é igualmente verdadeiro que, como ensina o papa, “a desigualdade de direitos e de poder provém do próprio Autor da natureza”. Ora, assim como Deus quis que houvesse distinção e subordinação até mesmo entre os anjos do céu, ou nas diferentes partes do corpo humano, assim também a sociedade foi estabelecida com várias ordens distintas em dignidades, direitos e poderes, “a fim de que a sociedade fosse, como a Igreja, um só corpo, compreendendo um grande número de membros, uns mais nobres que os outros, mas todos reciprocamente necessários e preocupados com o bem comum”.

Aqui convém citar um belo trecho de Gustavo Corção, onde o grande escritor desenvolve com poesia a nossa radical oposição ao igualitarismo:

“A sociedade de nossos sonhos terá a medida de sua perfeição na riqueza das diferenciações enquadradas na mais forte e vitoriosa unidade moral. O mundo que nós desejamos não é o pesadelo de uniformidade desejado pelos marxistas. Ao contrário, é um mundo de diferenças exaltadas, em que a criança seja plenamente infantil, o homem plenamente varonil, e a mulher plenamente mulheril. O mundo que nós desejamos restaurar é, em poucas palavras, aquele em que a natureza das coisas seja esplendidamente afirmada, e em que tudo se valorize pelo que tem de genuíno. O pão será pão e não pedra. O leite será leite, e não um equívoco líquido esbranquiçado. A poesia será poesia, e não um pretexto de andar na vida sem regras morais. E tudo o mais será assim, verídico e autêntico.” 4

 

Do Liberalismo ao socialismo

A origem de tais doutrinas socialistas e comunistas não é outra que o naturalismo e o racionalismo, propugnado pelos filósofos iluministas do século XVIII. Pois foi recusando de antemão a revelação divina e toda a ordem sobrenatural que franquearam as portas a todos os delírios da razão. Daí também se originaram os Estados modernos, constituídos “sem fazer caso algum de Deus, nem da ordem por ele estabelecida”.

Em outra encíclica, Leão XIII apontara a mesma origem, a mesma paternidade para o liberalismo: “E, com efeito, o que são os partidários do naturalismo e do racionalismo em filosofia, os fautores do liberalismo o são na ordem moral e civil” 5. Donde resulta o estreito parentesco entre tais doutrinas, que desempenharão cada qual um papel na história: o liberalismo vem primeiro e, afastando de Deus as sociedades, prepara-as para a mais perversa das tiranias, o socialismo. Este parece ser o pensamento de Leão XIII:

“Daquela heresia [i. é, o protestantismo] nasceram no século passado uma filosofia falsa, o chamado direito novo, a soberania popular e uma descontrolada licença, que muitos consideram como a única liberdade. Daqui chegou-se a esses erros recentes que se chamam comunismo, socialismo e niilismo, peste vergonhosa e ameaça de morte para a sociedade civil” (Diuturnum Illud).

Compreende-se que não é possível combater eficazmente o socialismo a partir do liberalismo: seria como tentar esfriar uma chaleira sem tirá-la do fogo. Escreveu Gustavo Corção:

“Qualquer estudioso, que digo? qualquer distraído, se ainda souber ver alguma coisa, sabe que o liberalismo amolecedor, sendo uma perversão que relativiza a Verdade e o Bem em favor de uma categoria definida pela indefinição, só pode entregar o homem a suas fraquezas internas e a seus inimigos externos. A penetração do socialismo e do comunismo nos meios católicos seria impraticável sem a penetração do liberalismo (...)

“O liberalismo corre atrás do comunismo como a matéria corre atrás da forma, ou como, segundo Aristóteles, corre a fêmea atrás do macho. O mole ceticismo liberal tem a nostalgia das definições, tem a nostalgia dos dogmas, sem os quais a alma humana não respira. Se os não quer divinos, amolda-os com o barro humano, se não os suporta revelados por Deus, fabrica-os. Não podendo, na religião deles, voltar ao cristianismo, o liberalismo sonha amores com o comunismo, e tem desejo de se sentir coberto por algo que seja duro e definido.” 6

Ainda nesse ponto, escreveu Dom Marcel Lefebvre: “Guardemos então esta inegável verdade histórica e filosófica: o liberalismo leva, por inclinação natural, ao totalitarismo e à revolução comunista.” 7  E São Pio X escreveu sobre “os princípios subversivos do liberalismo e dos seus dignos filhos, o socialismo e a anarquia”.

É fácil ver como o liberalismo prepara a sociedade para as três ruínas apontadas na encíclica. Na ordem política, ao negar que seja Deus a origem e a fonte da autoridade política, subtrai desta última todo seu vigor e lhe atribui o mais débil dos fundamentos, a soberania popular. A liberdade de imprensa e de ensino coloca nas mãos dos maiores inimigos da sociedade, os comunistas, os instrumentos de que tanto precisavam para levar adiante os seus planos funestos. Na ordem econômica, se o Catolicismo defende a propriedade privada como um direito natural, se proíbe, com o décimo mandamento, a mera cobiça dos bens alheios, o liberalismo, ao fundar a propriedade privada no Estado, tido como a expressão da vontade geral, estatiza toda a propriedade no seu princípio mesmo. Na ordem social, o liberalismo promove o igualitarismo e destrói o mais doce dos cativeiros, a sociedade doméstica, ao erigir a liberdade como valor supremo. Assim, começa por reduzir o matrimônio a mero contrato civil, para em seguida instituir o divórcio e, finalmente, abrir as portas para toda sorte de perversões.

 

Se os mortos não ressuscitam...

Voltemos à Encíclica. O papa prossegue sua lúcida exposição e, depois de segregar as origens da pérfida filosofia comunista, analisa o componente psicológico, ou a motivação por trás daqueles que a abraçam: e aqui entramos num problema de importância capital. Ora, se não há Revelação, se não há sobrenatural, também não haverá céu nem vida eterna. Toda a felicidade estará circunscrita aos limites da vida presente, e terá de ser realizada aqui e agora. É como dizia o Apóstolo (1Cor 15, 32): se os mortos não ressuscitam, então “comamos e bebamos porque amanhã morreremos”. O problema pessoal da miséria reclama uma solução espiritual. Na ausência dela, o homem torna-se vítima de toda espécie de rancor, e já não haverá nada que impeça os desvalidos do mundo, que são sempre maioria, de se coligirem para avançar sobre os bens dos ricos. É o que ensina o papa: “não é para admirar que os homens de ínfima condição, cansados da pobreza de suas casas ou pequenas oficinas, tenham inveja de se elevarem até aos palácios e à fortuna dos ricos; não é para admirar que já não haja tranqüilidade na vida pública e particular, e que o gênero humano já tenha chegado quase à borda do abismo.”

A força do socialismo está na impossibilidade de uma sociedade descristianizada encontrar uma solução para o problema pessoal da pobreza. E se alguns economistas louvam a livre iniciativa, atribuindo-lhe o poder de extirpar a miséria, outros dão de ombros e declaram com cinismo que “no longo prazo, todos estaremos mortos”, antes de comunizar um pouco mais os bens de todos.

Continua o papa: “os sectários do socialismo, apresentando o direito de propriedade como uma invenção humana que repugna à igualdade natural dos homens, e reclamando o comunismo dos bens, declaram que é impossível suportar com paciência a pobreza e que as propriedades e regalias dos ricos podem ser violadas impunemente.” A solução para esse mal não poderá ser encontrada longe da Igreja, e terá de passar pela reconversão dos povos. É de espantar que, estando nossa Mãe e Mestra muda, as idéias socialistas não parem de crescer, mesmo após a queda do muro de Berlim? Citemos a Encíclica:

“E quando reconhecerem que, para afastar esta peste do socialismo, a Igreja possui uma força como nunca tiveram nem as leis humanas, nem as repressões dos magistrados, nem as armas dos soldados, tratarão de restituir logo à Igreja condição e liberdade tais, que possa exercer esta força tão salutar para o bem comum de toda a sociedade humana.”

Mas as classes operárias não seriam induzidas a abraçar os erros nefandos do socialismo, se não houvesse uma organização que se encarregasse de doutriná-las e de excitar os rancores: esse é o papel da maçonaria e demais associações secretas. Por isso recorda o Papa as numerosas advertências dos seus predecessores contra elas, advertências que jamais foram levadas em consideração. E afirma que tudo teria se passado de modo diferente, se tivessem agido de outro modo.

E conclui ordenando aos bispos combater o socialismo: “É necessário, além disto, que trabalheis para que os filhos da Igreja Católica não ousem, seja debaixo de que pretexto for, filiar-se na seita abominável, nem favorecê-la.” Infelizmente, aqui também podemos dizer que, se essas advertências tivessem sido levadas em consideração, tudo teria se dado de modo diferente!

***

Pode-se compreender que alguém insuficientemente familiarizado com a doutrina da Igreja, ao ver a defesa de governos e idéias esquerdistas pela Conferência episcopal brasileira, venha a julgar que tudo isso guarde alguma relação com a doutrina santíssima da Igreja. Isso é evidentemente falso. O que ocorreu dentro da Igreja, na esteira da reviravolta antropocêntrica promovida pelo Segundo Concílio do Vaticano, foi uma terrível demissão do episcopado. Narra Corção:

“... desde o princípio deste século o surgimento dos socialismos e dos humanismos em meios cristãos tomou dimensões de intolerável insolência; mas ainda em 1936, o cardeal primaz da Espanha, no seu histórico apelo lançado ao mundo católico, teve o apoio de todos os bispos do mundo, e assim promoveu a mais numerosa unanimidade da hierarquia católica jamais registrada.

“Ora, menos do que trinta anos depois (trinta anos, um sopro!), nós, isto é, os mesmos espectadores da unanimidade de ontem viram, durante o Concílio, um espetáculo aterrador. Relendo um livro que fez sucesso na época, O Reno se lança no Tibre, ou o mais recente e importante Un Évêque Parle, de Dom Lefebvre, vemos que somente depois de uma árdua campanha puderam uns poucos bispos obter a assinatura de uma exígua minoria para a confirmação das condenações anteriormente formuladas por tantos papas (...)”8

Ora, depois de declarar que “... o Concílio dirige agora a atenção de todos [...] para algumas necessidades mais urgentes do nosso tempo, que profundamente afetam a humanidade (...)”9, o Vaticano II recusou-se vergonhosamente, escandalosamente, a renovar as condenações ao mais grave flagelo dos tempos modernos. Eis o contraste: o que Leão XIII fez quando o comunismo estava longe de possuir a organização doutrinal e prática que mais tarde viria a ter, o Concílio não fez quando já tinha meio mundo devorado. Esta omissão foi na verdade o resultado de uma tratativa, o chamado Acordo de Metz, como hoje se sabe10.

  1. 1. Na Divina Comédia (Paraíso, canto XI, verso 99), São Francisco de Assis é chamado de “Arquimandrita”, uma palavra composta de dois radicais gregos que, combinados, significam “o primeiro dentre os pastores”.
  2. 2. Com efeito, Pio IX publicou 43 Encíclicas e São Pio X, 15.
  3. 3. Immortale Dei
  4. 4. Gustavo Corção, Teologia da História, Ed. Permanência, 2015.
  5. 5. Encíclica Libertas Praestantissimum - grifos meus.
  6. 6. Idem, pág. 48.
  7. 7. Dom Marcel Lefebvre, Do Liberalismo à Apostasia, pág. 31. Editora Permanência, 1991.
  8. 8. Gustavo Corção, Uma Teologia da História, págs 49-50. Editora Permanência, Niterói, 2015.
  9. 9. Gaudium et Spes
  10. 10. A esse respeito, ver L’Accord de Metz, ou pourquoi notre Mère fut muette, Jean Madiran, Via Romana, 2006.

O que o primeiro mandamento da Igreja ordena?

Pe. Juan Carlos Iscara, FSSPX

A Lei natural impõe a todos os homens a obrigação de adorar a Deus. E Ele mesmo definiu como os homens deveriam cumprir essa obrigação ao emitir Seu preceito divino no Antigo Testamento. O Terceiro Mandamento da Lei de Deus diz:

“Lembra-te de santificar o dia de sábado. Trabalharás durante seis dias e farás (neles) todas as tuas obras. O sétimo dia, porém, é o sábado (o dia de repouso), consagrado ao Senhor, teu Deus; não farás nele obra alguma, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu gado, nem o peregrino que está dentro das tuas portas. Porque o Senhor fez, em seis dias, o céu e a terra e o mar e tudo que neles há e descansou ao sétimo dia; por isso o Senhor abençoou o dia de sábado e o santificou” (Ex 20, 8-11)

Após a Ressurreição de Cristo, esse dia se tornou o Domingo, o “dia do Senhor” – “dies Domini”.

Consequentemente, a Igreja, em seu primeiro mandamento, determinou como os cristãos devem santificar o domingo e os dias de preceito prescrevendo certos atos e proibindo outros, como foi detalhado no Código de Direito Canônico de 1917:

“Nos dias de preceito, deve-se ir à Missa; deve-se abster de trabalho servil, atos jurídicos e, de modo semelhante, a não ser que haja um indulto especial ou que os costumes locais disponham de modo contrário, deve-se abster de comércio, compras e outros atos de compra e venda públicos” (Cânone 1248).

Enquanto o Sábado judaico era marcado principalmente pelo descanso, a Igreja, desde o princípio, deu ao Dia do Senhor um foco mais espiritual, dando primazia ao aspecto positivo, isto é, à obrigação de render a Deus o culto que Lhe é devido e de tomar conta das coisas que dizem respeito à alma da pessoa. A Lei da Igreja deu concretude a esses deveres com a obrigação de no mínimo ir à Missa.

Apesar disso, o dever de descanso também permanece sem sombra de dúvidas. Ele inclui abster-se de trabalhos servis [braçais], procedimentos judiciais e mercados públicos. Abstenção do trabalho e o descanso em decorrência dele, além de ter o propósito natural de restaurar nossas forças, tem a finalidade religiosa clara de nos ajudar a dar atenção a Deus e a desviá-la do mundo.

Em uma edição anterior de The Angelus (Maio-Junho de 2022), tratamos de como cumprir a primeira parte do preceito eclesiástico, a obrigação positiva de ir à Missa. Agora, vamos dar atenção ao aspecto negativo, abster-se do trabalho, um dever que, no mundo de hoje, costuma ser desprezado até por católicos.

 

Qual é a disciplina tradicional acerca do trabalho aos Domingos?

O Catecismo do Concílio de Trento explicou que o descanso sabático significa abster-se de trabalhos servis:

“Todos os trabalhos servis são proibidos, não porque sejam ruins em si mesmos, mas porque eles tiram atenção do culto de Deus, que é o fim último do mandamento”

Mas o que é “trabalho servil”? Embora o termo seja usado pela Igreja por séculos, ele nunca foi definido, e mesmo o Código de Direito Canônico de 1917 se absteve de defini-lo. A descrição do que constitui trabalho “servil” deve ser encontrada nos decretos de certos Concílios, no ensinamento dos teólogos e nos costumes locais que a Igreja aceitou.

A maioria dos manuais de Teologia moral o descrevem como um trabalho físico, manual, feito pelas necessidades e pelos ganhos do corpo; o tipo de trabalho que, no passado, era desempenhado por escravos ou, em tempos mais recentes, por empregos domésticos e lavradores contratados. Enquadram-se nessa categoria os trabalhos agriculturais (aragem, cavar, etc) e trabalhos mecânicos ou industriais (prensa, construção, engessamento, etc).

Ele se distingue dos trabalhos “liberais”, que são produto principalmente das faculdades mentais, imediatamente direcionados ao desenvolvimento da mente e que, no passado, eram realizados por pessoas que não eram escravos ou servos. Trabalhos desse tipo são os trabalhos intelectuais (ensinar, ler, escrever, estudar, etc), trabalhos artísticos (tocar música, cantar, desenhar, pintar, bordar etc) e também trabalhos de recreação (esportes moderados ou diversões, como futebol, baseball, tênis e xadrez).

Na disciplina tradicional, para discernir se uma atividade constitui trabalho servil ou liberal, o fator determinante é a natureza do trabalho em si (finis operis), sem levar em consideração nenhuma circunstância extrínseca, como o propósito do agente (finis operantis), ou o esforço físico despendido para o trabalho, ou sua duração. Portanto, se o trabalho for “servil” ele permanece proibido por qualquer motivo que seja.

A obrigação é grave, mas a contravenção do preceito pode ser consideravelmente reduzida se o trabalho não requerer esforço excessivo, não durar mais de 2 horas e não causar escândalo.

Como Nosso Senhor também disse que “o Sábado foi feito para o homem, e não o homem para o Sábado” (Mc 2, 27), a Igreja, distanciando-se de excessos farisaicos, reconhece diferentes razões que podem escusar a abstenção do trabalho no Sábado:

  • Necessidade ou dever para com o próximo permite o trabalho no Domingo ao menos em alguma medida (por exemplo, aqueles que devem trabalhar no Domingo para sobreviver, ou para se manter fora de risco sério, ou para prestar serviços ou obras de caridade que não possam ser realizados facilmente em outro tempo);
  • Piedade para com Deus, trabalhando naquilo que é imediatamente necessário para o culto divino;
  • Costumes que permitem trabalhos necessários, como cozinhar, serviços domésticos ordinários, etc
  • Dispensa pode ser dada sob certas condições pelo pároco para seus paroquianos. Um confessor não tem poder para dispensar nessa matéria, mas, em casos dúbios, ele pode interpretar a lei e permitir que seus penitentes façam trabalhos necessários.

É claro que nem toda razão escusa do preceito. Portanto, aqueles que, desnecessariamente, colocam-se em situação de impossibilidade de observar a lei cometem um pecado (por exemplo, aceitando um trabalho que peça que trabalhem o Domingo inteiro), ou aqueles cujas razões são frívolas (como aqueles que trabalham no Domingo só para ter algo para fazer).

Para evitar o autoengano, os fiéis devem consultar seu pastor ou confessor, se houver dúvida acerca da suficiência da escusa.

 

O que a legislação atual diz?

Através do Século XX, e especialmente após as duas grandes guerras, considerando as circunstâncias sociais e econômicas alteradas do mundo, houve muita discussão entre os teólogos acerca da definição de trabalho servil.

Um eco dessas discussões encontra-se na presente disciplina da Igreja, que está estabelecida no Cânone 1247 do Novo Código de Direito Canônico, promulgado em 1983:

“No domingo e nos outros dias de festa de preceito, os fiéis têm a obrigação de participar na missa; além disso, devem abster-se das atividades e negócios que impeçam o culto a ser prestado a Deus, a alegria própria do dia do Senhor e o devido descanso da mente e do Corpo”

O novo Código, em comparação com a legislação anterior, não menciona o trabalho “servil”, porém mantém a obrigação de abster-se de trabalho aos Domingos, ao mesmo tempo em que altera a ênfase de como deve ser feito, acrescentando a referência ao “descanso da mente e do corpo”.

O Catecismo da Igreja Católica (n. 2187) desenvolve o requisito canônico:

“Santificar os domingos e festas de guarda exige um esforço comum. Todo o cristão deve evitar impor a outrem, sem necessidade, o que possa impedi-lo de guardar o Dia do Senhor. Quando os costumes (desporto, restaurantes, etc) e as obrigações sociais (serviços públicos, etc) reclamam de alguns um trabalho dominical, cada um fica com a responsabilidade de um tempo suficiente de descanso. Os fiéis ficarão atentos, com moderação e caridade, para evitar os excessos e violências originados às vezes nas diversões de massa. Não obstante as pressões de ordem econômica, os poderes públicos preocupar-se-ão em assegurar aos cidadãos um tempo destinado ao repouso e ao culto divino. Os patrões têm obrigação análoga para com os seus empregados”

 

Então, o que devemos fazer?

Como podemos ver, a nova legislação não contradiz, nem rejeita o que a Igreja pedia antes, mas expressa-a em termos mais gerais. Ao mesmo tempo, realça o espírito no qual a lei deve ser observada, isto é, o objetivo que o legislador – Deus e a Igreja – desejava obter ao impor uma obrigação particular. Como São Paulo (2Cor 3, 6) já havia explicado, devemos evitar desprezar o espírito da lei ao cumprir sua letra.

Portanto, em geral, devemos submeter-nos à disciplina tradicional, mas sem perder de vista os critérios expandidos de discernimento que a nova lei trouxe.

A abstenção do trabalho servil visa permitir-nos livrar-nos de nossa labuta diária, deixando-nos livres para render a Deus o culto que Lhe é devido. Ela também nos permite cuidar do bem de nossas almas, dando-nos tempo e oportunidades de descanso e divertimentos honestos. De tempos em tempos, precisamos de uma pausa das preocupações e cansaços inerentes ao esforço diário. Sem recreações prudentes e bem administradas, nossas forças físicas e mentais logo ficariam exaustas, incapacitando-nos para qualquer tipo de trabalho.

Portanto, no Domingo, devemos, preferencialmente, dar tempo a Deus, às coisas espirituais e à elevação de nossas almas a Ele. Claro, ir à Missa é o mínimo que a Igreja requer, mas isso não significa que podemos esquecer Deus pelo resto do dia e apenas aproveitar o descanso.

Embora a Igreja não imponha uma observância excessiva, farisaica do descanso do Domingo, ela também não admite lassidão na observância do Dia do Senhor. Como um autor colocou, “o Domingo não precisa ser fúnebre, mas também não pode ser ateu”

Não podemos entregar-nos a coisas inapropriadas ou danosas para nós ou para outros, nem perder completamente nossa seriedade da alma, ou fazer algo em circunstâncias desonestas.

Portanto, nosso Domingo não pode ser tomado por jogos ou pela televisão, por conversas fúteis ou risadas sem propósito, ou ficarmos grudados no computador, olhando sem parar nossas redes sociais – ações que, em si mesmas, não são necessariamente más, mas que tiram nossas mentes e corações de Deus.

 

Alguns exemplos práticos

Às vezes, pessoas de boa fé se encontram em situações complicadas, porque gostam de relaxar com atividades aos Domingos como jardinagem, que, em sentido estrito, seriam um trabalho “servil” e, portanto, estariam proibidas.

Mas mesmo a legislação tradicional considerava que tal trabalho não seria uma violação séria do descanso do Domingo se não demandasse um esforço físico intenso, se fosse realizada por um breve período, sem causar escândalo e sem interferir com nossas obrigações para com Deus.

À luz do novo Código, o mesmo trabalho, realizado em tais circunstâncias, também seria permitido se com a intenção de relaxamento e recreação, como uma maneira simples de se afastar das preocupações que atingem nossas mentes pelo resto da semana. Se esse for o caso, essas almas não precisam se preocupar.

Por outro lado, a legislação tradicional permitia trabalho intelectual, “liberal”, tal como o de um advogado preparando um processo, um arquiteto desenhando planos de uma construção, um contabilista preparando declarações de impostos, etc.

Mas à luz da legislação recente, essas atividades – embora não constituam pecado, pois são autorizadas pela lei anterior – devem ser desencorajadas, ao menos como imperfeições, se desnecessariamente trouxerem para o Domingo as preocupações mundanas e as tarefas que nos absorvem nos demais dias da semana, pois, nesses casos, o espírito da lei, a intenção do legislador, não estaria adequadamente atingida.

 

Em conclusão

Todas essas explicações servem para nos ajudar a emitir um julgamento prudente quando se trata de decidir se devemos ou não realizar certo trabalho ou atividade.

Apesar disso, devemos não apenas evitar o pecado, mas também buscar uma perfeição maior em todas as nossas ações. Portanto, não devemos tentar tirar vantagem de qualquer brecha que encontrarmos ou procurar desculpas. O amor de Deus, fortalecendo nosso bom senso e guiando nosso discernimento prudencial, deve prevalecer em tudo e acima de todas as coisas.

Nesse tema de se abster do trabalho, devemos ter em mente o terrível aviso de Nossa Senhora de La Salette:

“Se meu povo não obedecer, eu soltarei o braço de meu Filho. Ele é muito pesado, tão pesado que não consigo mais segurá-lo... ‘Eu designei seis dias para o trabalho. O sétimo eu reservei para Mim. E ninguém quer Me dá-lo’... É isso que faz o peso do braço de meu Filho ser tão insuportável”

Conhecendo nossa própria fraqueza, dirijam-nos, portanto, a São José, pedindo sua ajuda e sua orientação na hora de guardar o Dia do Senhor:

“Ó gloriosíssimo Patriarca, São José, obtende, pedimos a Vós, de Nosso Senhor Jesus Cristo bênçãos abundantes sobre aqueles que mantêm santo os Domingos e os Dias de Preceito da Igreja e dai a todos aqueles que os profanam que possam perceber, enquanto ainda podem, o grande mal que cometem e o castigo que trazem para si mesmos tanto nesta vida quanto na próxima, e dai-lhes que se convertam. Ó fidelíssimo São José, Vós, que, durante vossa vida terrena, observastes tão lealmente as Leis de Deus, dai-nos que chegue o dia em que todos os Cristãos abster-se-ão de trabalhos proibidos nos Domingos e Dias de Preceito, preocupar-se-ão seriamente com a salvação de suas almas e darão glória a Deus, que vive e reina para sempre. Amém” (São Pio X, 20 de Maio de 1905).

Alegria de ser filho de Deus

Garrigou-Lagrange, O.P.

 

[Nota da Permanência] Quando Garrigou-Lagrange escreveu estas linhas sobre a alegria que é preciso conservar no meio das tribulações, a sua França, “la douce France”, havia sido derrotada e ocupada pelos nazistas. Também a nós se aplicam estas reflexões, que vemos nossa Pátria na iminência de ser saqueada por revolucionários bolivarianos e nossa Igreja invadida por modernistas.

 

 

“Disse-vos estas coisas, para que a minha alegria esteja em vós,
e para que a vossa alegria seja completa” (Jo 15, 11)

 

As Sagradas Escrituras dizem-nos insistentemente que, nos tempos de provação, o verdadeiro católico deve tanto quanto possível confortar os aflitos, levar-lhes a paz e algo desta alegria divina que ergue os corações e lhes permite seguir viagem contra ventos e marés até o porto da salvação.

Convém, portanto, nas tristezas presentes, falar da alegria de sermos filhos de Deus e do dever de transmitir algo desta alegria aos que não a possuem.

Se, na tristeza comum, a alegria superficial é importuna, irritante, quando não exasperante, a alegria cristã, ao contrário, consola. Esta deveria ser a alegria do domingo, e o domingo a produz de fato quando, pela Missa, pela oração, torna-se verdadeiramente o dia do Senhor; ao contrário, para muitos, pela cessação do trabalho, torna-se o mais triste dos dias, porque não é santificado, porque não passa de um dia de distrações, dedicado a uma alegria puramente exterior, vazia e imbecil, da qual muitos não podem fazer parte, e que fatiga ao invés de repousar. Não sabem mais o que fazer de seu tempo, porque não o dão a Deus; eis uma prova pelo vazio ou em baixo relevo da necessidade de santificar o domingo.

Ao buscarmos tão-somente uma alegria inferior, nos privamos de outra singularmente mais preciosa.

Aprendamos com as Sagradas Escrituras e com os santos o que é a verdadeira alegria espiritual, vejamos como eles a conservaram em meio a sofrimentos, e então saberemos melhor o que fazer para transmiti-la aos demais.

Não se trata em absoluto da procura por consolações sensíveis, nem de sentimentalismo, que é a afetação de um amor que não se possui. O sentimentalismo está para a alegria espiritual da qual falamos como a bijuteria para o diamante.

 

O que é a verdadeira alegria espiritual?

Compreenderemos sua natureza e valor se a compararmos com alegrias legítimas menos elevadas. Experimentamos uma alegria sensível diante de uma bela aurora ou, na primavera, diante do resplendor da natureza. Sentimos uma alegria superior ao considerarmos que somos os filhos de um homem de bem, de uma boa mãe, ao recordarmos as verdadeiras alegrias de uma família unida, alegria de irmãos que se amam, contentes por trabalhar juntos e por viver das mesmas tradições, dos mesmos pensamentos e afetos em vista de uma ação comum, verdadeiramente fecunda. Ainda nesta ordem, a alegria de sermos franceses, em meio às tristezas atuais, e de trabalhar para reerguer nossa pátria. 

A alegria espiritual é de ordem ainda superior; é a alegria de ser filho de Deus pelo batismo, de ser amado por Ele como filho adotivo, que recebeu uma participação em sua vida íntima, e que tende a possuí-lo eternamente. É a alegria de estar na verdade, na verdade divina, de viver dela, de caminhar sob a direção da Providência de Deus, para que Ele reine cada vez mais em nós, no tempo e na eternidade.

Esta alegria espiritual não é precisamente uma virtude, mas fruto ou efeito da mais alta virtude, que é a caridade, ou o amor de Deus e das almas em Deus1.

O amor de Deus nos regozija, em primeiro lugar, porque Deus é Deus, a própria Verdade, a Sabedoria, o Bem infinito, a Bondade suprema, a própria Santidade, a perfeita Beatitude.

O amor de Deus nos regozija de Deus reinar nas almas, na nossa, na do próximo.

A caridade, enfim, nos faz possuirmos já a Deus na obscuridade da fé, pois está escrito: “quem permanece na caridade, permanece em Deus, e Deus nele” (1Jo 4, 16). Também o disse Nosso Senhor: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e nós viremos a ele, e faremos nele morada” (Jo 14, 23). E, no mesmo momento, Jesus nos prometeu o Espírito Santo, que efetivamente nos foi dado com a graça e a caridade no batismo, e mais ainda na confirmação. A Santíssima Trindade habita assim em toda alma em estado de graça, e ela se faz por vezes sentir como vida de nossa vida. Em certos momentos, como o diz São Paulo, “o mesmo Espírito dá testemunho ao nosso espírito, de que somos filhos de Deus” (Rom 8, 16). Dá testemunho inspirando em nós uma afeição toda filial, que é causa de uma santa alegria e nos faz dizer: “Pai!”. Não se trata de consolação sensível, nem de sentimentalismo, mas de uma alegria verdadeiramente divina pelo seu princípio e objeto.

É tal a alegria espiritual, ao pensamento de que Deus é Deus, a Bondade mesma, que Ele reina em nós e nos justos, que se torna a vida de nossa vida, que nos chama a viver dele por toda eternidade.  Esta alegria surge do pensamento de que, exceção feita ao pecado, sob a direção da Providência, tudo vem do amor eterno.

A alegria espiritual é, de modo manifesto, fruto da caridade. Contrariamente, a tristeza desordenada e deprimente é efeito do amor desregrado de si mesmo, procede do egoísmo insatisfeito, do orgulho ferido, da vaidade ofendida. Quanto mais, numa alma, a caridade domina o egoísmo, mais desaparece esta tristeza perversa, mais a ela se substitui uma santa alegria.

Esta alegria não saberá, contudo, ser plena e perfeita como no céu, pois a caridade aqui embaixo se entristece ela mesma com o pecado que diminui o reino de Deus e conduz à perda das almas. Porém, apesar das tristezas da terra, os santos conservam, com a paz, uma desejada alegria espiritual, que transmitem aos outros, sem mesmo o perceberem.

As Sagradas Escrituras nos falam diversas vezes desta alegria espiritual. Diz Jesus: “Disse-vos estas coisas para que a minha alegria esteja em vós, e para que a vossa alegria seja completa” (Jo 15, 11). São João Evangelista exorta seus discípulos para que tenham “a plenitude da alegria”, ao pensamento de que são filhos de Deus e que estão chamados a gozar dele eternamente2. Os Salmos já diziam: “Laetamini in Domino et exsultate justi. – Justos, alegrai-vos no Senhor e exultai nele” (Sl 21, 11). São Paulo escreve aos Filipenses: “Gaudete in Domino semper, iterum dico vobis, gaudete – Alegrai-vos incessantemente no Senhor; outra vez vos digo, alegrai-vos” (Fl 4, 4).

O mesmo São Paulo chegará a ponto de dizer, “estou inundado de alegria no meio de todas as nossas tribulações” (2Cor 7, 4). Dizem os Atos dos Apóstolos de todos eles, “contentes por terem sido achados dignos de sofrer afrontas pelo nome de Jesus” (At 5, 41).

Já se disse, como explicação destas palavras, “a alegria é o segredo gigantesco do católico”. Com efeito, não recua diante das maiores provas, quando, lembrando-se das promessas do seu batismo, diz a si mesmo: “Quero o que Deus Pai quer para mim, apenas o que quer, tudo o que quer, por mais duro que seja”. O católico conversa deste modo não consigo mesmo, mas com Deus, seu Pai e, como dizem as Escrituras, neste colóquio não há amargura: “In conversatione Dei non est amaritudo” (Sb 8, 16).

A alegria cristã é pois a de possuir a Deus e de ser por Ele possuído. Por esta alegria, o verdadeiro católico dá aos demais o desejo de converter-se. Convém que repita amiúde esta palavra das Escrituras: “Eu também te ofereci alegre todas estas coisas, na simplicidade do meu coração” (1 Pr 29, 17). A verdadeira alegria é tender para a santidade do céu, com a certeza de que Deus, que jamais pede o impossível, nos oferece graças incessantes para lá chegar.

Os santos guardam esta alegria espiritual, sem contudo senti-la sempre de modo sensível, ou sequer de modo espiritual, mas guardam o bastante para transmiti-la aos outros, mesmo nas suas provações. Por quê? Porque o Espírito Santo, pela afeição filial que nas almas inspira por si, “dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus”. Recorda-lhes também “que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus” (Rom 8, 28), e para o bem dos que perseveram neste amor até o fim; tudo, mesmo as doenças, as contradições, os fracassos. Santo Agostinho acrescenta: mesmo as faltas, à condição de nos humilharmos por tê-las cometido, como o fez São Pedro após a terceira negação. Os santos entreveem cada vez mais nitidamente o bem superior pelo qual a Providência permite os males da vida presente. Este bem superior, que veremos a nu, nós o entrevemos progressivamente na medida de nossos méritos, e o merecemos cumprindo a palavra de Deus em vez de nos contentarmos em conhecê-la e admirá-la.

São Francisco de Assis experimentava uma santa alegria quando se via menosprezado ou rechaçado. Também São Domingos, quando ridicularizado e maltratado pelos hereges do Languedoc, sentia-se mais semelhante a Nosso Senhor, que aceitou as humilhações da Paixão por amor a nós. Assim também São Bento-José Labre, Santo Cura D’Ars ou seu amigo, o padre Chevrier de Lyon, São João Bosco, que guardava em todas as suas provações essa santa alegria que levava às criancinhas pobres, que não tinham nenhuma.

A irmãzinha dos pobres lhes levava esta alegria, a irmãzinha da Assunção, todos os verdadeiros servidores e servas de Deus.

A Santíssima Virgem, nosso modelo, foi chamada “consolo dos aflitos”, “causa de nossa alegria”, e o coração de Jesus é chamado “delícia dos santos”.

 

Como transmitir esta alegria aos outros?  

Primeiro, é preciso cuidar de não os sobrecarregar com nossa própria tristeza e, se estamos abatidos, não os desencorajar. Importa dominar uma certa tristeza, assim como se resiste às tentações.

Evitemos também causar-lhes uma alegria enganosa, aprovando seus erros, seus desvios, suas omissões, sua falta de julgamento ou de energia. Isto seria uma falsa caridade, uma fraqueza, que lhes daria uma alegria mentirosa.

Levemos algo desta alegria espiritual aos que não têm o pão, a saúde, a vitalidade, aos detestados, aos mesquinhos, aos que não procuram Deus; façamos com que tenham vontade de procurá-lo. Demos Deus, aos que não o têm.

Então, Jesus nos dirá no último dia, “tive fome, e destes-me de comer; tive sede, estava enfermo, estava na prisão, e fostes visitar-me... todas as vezes que vós fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes”.

Demos algo desta alegria aos amargurados, lembrando esta palavra de São João da Cruz: “Lá, onde não há mais amor, semeai amor e colhereis amor”. Nas grandes trevas, uma voz nos diz: “Levanta e canta teu louvor na noite”.

Então, de nossas trevas bem suportadas, luz poderá brotar para outras almas.

O bem-aventurado Henrique Suso, no seu livro “Sobre a Sabedoria Eterna” 3, escreveu belas páginas sobre os píncaros da alegria espiritual em meio a tribulações. Servindo-nos de suas próprias palavras – ou antes, das que ele põe na boca de Nosso Senhor – podemos resumi-la assim:

“Tanto mais duro o sofrimento, tanto mais doce o ter sofrido... O sofrimento, quando bem suportado, torna o homem amável, pois o faz semelhante a mim. A alegria do sofrimento (mesmo se não sentida, mas desejada) é tesouro escondido que jamais se poderá merecer. Se alguém se ajoelhasse diante de mim por cem anos pedindo-me a felicidade de sofrer, ainda não o teria merecido. De um homem terrestre, o sofrimento (suportado por amor) faz um homem celeste. Ao que sofre, o mundo torna-se estrangeiro, de sorte que minha ternura o envolve mais estreitamente. Os amigos do século afastam-se das provações, enquanto minhas graças o cercam mais e mais. É que tomo por amigos (íntimos) os que renegaram e abandonaram o mundo completamente... O sofrimento ressoará por toda a eternidade num dulcíssimo canto, em refrãos novos que não os poderão repetir os anjos, porque não sofreram.”

Se Deus pudesse assombrar-se e admirar-se de algo, seria com alguns de seus filhos que, movidos por sua graça, chegam a ponto de carregar suas cruzes com alegria, conformando-se ao Senhor Jesus.

Isto deve nos levar a considerar de modo sobrenatural as faltas de respeito e mesmo o menosprezo a nosso respeito, se assim nos sucede4. Conviria recebê-lo com uma alegria, se não sentida, ao menos desejada, e agradecer ao Senhor a graça que se encontra escondida nas humilhações a serem suportadas. Esquecemos amiúde de agradecer a Deus pelas cruzes que nos envia; são elas, contudo, bem necessárias ao nosso progresso. Vemo-lo em algumas que nos foram tão proveitosas.  Possamos nós não desperdiçar as que virão. O mundo, infelizmente, está cheio de cruzes perdidas, que não servem para nada, como foi a do mau ladrão. A verdadeira alegria espiritual é a de tender efetivamente para a santidade do céu, pelo caminho que o Senhor escolheu para nós, por penoso que seja em alguns momentos; é a alegria de tender para esta santidade com a certeza de que Deus não nos pede jamais o impossível, que Ele nos chama à vida eterna e que nos oferece incessantemente graças para lá chegarmos.

(La vie spirituelle nº. 262, fevereiro de 1942 - tradução: Permanência)

  1. 1. Cf. S. Tomás, IIa, IIae, q. 28.
  2. 2. 1Jo 4.
  3. 3. Ia. Parte, caps. 9 e 10 (Noutras edições e traduções, cap. 19)
  4. 4. Quando São João da Cruz pedia a Nosso Senhor a recompensa “de sofrer e ser menosprezado por Ele” (no que foi prontamente ouvido), era uma graça muito grande a que desejava. Não é, com efeito, o menosprezo por si mesmo que desejava, mas a graça de suportá-lo com amor. Sem esta graça, o menosprezo, em si mesmo, não serviria em absoluto para fazê-lo crescer na caridade e glorificar a Deus.

Considerações sobre a Missa Nova de Paulo VI

Sì Sì No No

Examinemos agora, brevemente, as principais mudanças no sentido filo-protestante implementadas na “Missa de Paulo VI”, seja na arquitetura das igrejas, seja no rito propriamente dito.

Naturalmente trataremos apenas daquelas que são mais facilmente percebidas até mesmo pelos simples fiéis, para que todos possam ter uma ideia clara da discrepância que existe entre o novo rito e o rito tradicional.

 

Mudanças arquitetônicas nas igrejas

1) Abolição sistemática das balaustradas que delimitam o espaço sagrado do Presbitério. A área deste último, antes reservada aos sacerdotes e outros ministros sagrados, agora está aberta a todos: clérigos e leigos. Resultado: abolição do conceito de "lugar sagrado", dessacralização do sacerdote, progressiva equiparação prática de clero e leigos.

2) Mudança para a celebração de Missa “voltada para o povo”. O sacerdote já não se dirige a Deus para  oferecer-lhe o divino Sacrifício em favor dos fiéis, mas sim ao povo no contexto de uma simples reunião de oração.

Deve-se notar que nem mesmo na antiguidade o altar esteve "voltado para o povo", mas sim em direção ao Oriente, símbolo de Cristo, como também testemunha a orientação topográfica de muitas Basílicas antigas. O altar, ou melhor, a mesa “voltada para o povo” é, por outro lado, uma criação inteiramente pessoal de Lutero e dos outros pseudo-reformadores do século XVI.

3) Desenho do altar quase sempre em forma de mesa – trata-se de uma mesa para uma ceia. A Missa não é mais o sacrifício expiatório, mas uma simples ceia fraterna. O altar, com efeito, lembra a ideia do Sacrifício oferecido a Deus, a mesa, ao contrário, lembra uma refeição comum no contexto de um simples “memorial”. Por isso nos “templos” protestantes – onde existe – usa-se sempre uma mesa, e jamais um altar.

4) O Tabernáculo, segundo as novas rubricas da "Missa de Paulo VI", pode ser retirado do centro do presbitério. Disposições recentes, como, por exemplo, as da Conferência Episcopal Italiana, foram além, prevendo a sua passagem gradual para uma capela lateral especial. Para não irritar os protestantes; assim, a Presença permanente de Nosso Senhor Jesus Cristo no Tabernáculo não mais perturbará "o irreversível caminho ecumênico".

5) No centro do presbitério, em geral no lugar do Tabernáculo, fica agora a cadeira do sacerdote celebrante. O homem toma o lugar de Deus, enquanto a Missa se torna um simples encontro fraterno entre a assembleia e seu “presidente”, ou seja, o ex-padre, que agora é reduzido a um simples diretor, “animador litúrgico” da nova “Igreja Conciliar” antropocêntrica.

Neste ambiente festivo, com a aprovação entusiástica dos Bispos, insere-se várias orquestras paroquiais mais ou menos juvenis, destinadas a aquecer o ambiente com vários ritmos e danças (em não poucas "eucaristias conciliares", dança-se agora para todos os efeitos).

 

Mudanças dogmáticas/litúrgicas no rito da Missa

1) São abolidas as orações iniciais ao pé do altar, ao final das quais, entre outras coisas, o sacerdote se reconhecia indigno de entrar no Santo dos Santos para oferecer o divino Sacrifício, e invocava a intercessão dos Santos para ser purificado de todo o pecado.

Em seu lugar, na Missa Nova antropocêntrica, o "presidente da assembleia" derrama um discurso preliminar de boas-vindas, muitas vezes um simples prelúdio para o desencadear de uma "criatividade litúrgica" mais ou menos anárquica.

2) É abolido o duplo Confiteor (o primeiro era recitado apenas pelo celebrante, o segundo posteriormente pelo povo) que distinguia o sacerdote dos fiéis, que se dirigiam a ele como "pater", "pai".

Na "Missa Nova", na qual o Confiteor é recitado uma única vez, o sacerdote passa a não ser mais um "pater" para os fiéis, mas um simples "irmão" igual a eles, democrática e protestantemente inserido. Lê-se, precisamente, no atual "Confesso-me a Deus Todo-Poderoso e a vós irmãos…". Ou seja, somos "todos irmãos...".

3) As leituras bíblicas também podem ser proclamadas (hoje podemos dizer que são invariavelmente proclamadas) por simples leigos, homens e mulheres.

Tudo isso vai contra a proibição que remonta à Igreja dos primeiros séculos, que sempre reservou essa tarefa apenas para membros do clero a partir do Leitorado, que era, de fato, uma das Ordens menores através das quais formavam-se clérigos. Entre os protestantes, no entanto, não há clero, mas somente ministros e ministérios (por isso a "reforma de Paulo VI" aboliu o que eram as Ordens clericais menores, e em seu lugar instituiu, de fato, alguns ... Ministérios: leitorado e acolitado) e qualquer pessoa - homem ou mulher - tem acesso ao ambão...

4) No Ofertório da antiga Missa, o sacerdote oferecia Cristo como Vítima ao Pai em propiciação e expiação pelos pecados, com palavras inequívocas: "Recebei, Pai santo, Deus onipotente e eterno, esta hóstia imaculada, que eu, vosso indigno servo, Vos ofereço a Vós... pelos meus inumeráveis pecados... e por todos os fiéis, vivos e defuntos, para que tanto a mim como a eles aproveite para a salvação e vida eterna.”

Essa aberta ênfase no aspecto propiciatório da culpa e expiatório da pena na Missa sempre foi indigesto para os protestantes, tanto que as primeiras partes da antiga Missa Romana suprimida por Martinho Lutero eram precisamente as orações do ofertório. Agora, no Ofertório da "Missa Nova" de Paulo VI, o "presidente da assembleia" - um ex-sacerdote - oferece somente pão e vinho para que se tornem um indeterminado "alimento de vida eterna" e uma muito vaga "bebida da salvação". A própria ideia de Sacrifício propiciatório e expiatório é cuidadosamente cancelada.

5) Na "Missa de Paulo VI" o Cânon Romano é, sim, mantido, apenas para salvar as aparências, mas de forma mutilada. No entanto, juntou-se a ele, com o claro objetivo de suplantá-lo gradualmente, outras três novas "orações eucarísticas" (II, III, IV) mais atualizadas, fruto da colaboração de seis "peritos" protestantes, nas quais - por assim dizer - o "presidente da assembleia agradece a Deus “por nos ter admitido à sua presença para realizar o serviço sacerdotal" (Oração II), fundindo o seu papel e o dos simples fiéis num único "sacerdócio comum" de memória luterana; ou mesmo, ainda, ele se volta para Deus louvando-o porque Ele continua "a reunir ... um povo, que (na edição latina diz-se ut, isto é "para que") de uma fronteira a outra da terra ofereça .. . o Sacrifício perfeito" (Oração III), onde o povo - e não apenas o sacerdote – parece se tornar o fator determinante para que a consagração aconteça.

Na segunda fase do plano de protestantização, outras quatro "Orações eucarísticas" foram inseridas no "Missal de Paulo VI" que vão ainda mais longe.

Afirma, de fato, que Cristo "nos reúne para a santa ceia" (conceito e terminologia completamente protestantes), enquanto o "presbítero-presidente conciliar" não pede mais que o pão e o vinho "se tornem" o Corpo e o Sangue de Cristo (como ainda fazia nas "Orações" II, III e IV), mas apenas que "Cristo esteja presente em nosso meio com seu corpo e sangue". Uma simples e vaga "presença" de Cristo "entre nós". Não há mais transubstanciação, nenhum sacrifício expiatório e propiciatório. Sem os quais, no entanto - seria supérfluo lembrar - não há sequer a Missa.

O "sacrifício", do qual se fala posteriormente na mesma "Oração Eucarística", deve, portanto, necessariamente ser entendido apenas como um "sacrifício de louvor" (algo ainda aceito por Lutero e seus companheiros, que rejeitaram absolutamente a ideia de um sacrifício expiatório e propiciatório).

6) No novo rito de Paulo VI, em todas as "Orações eucarísticas" (incluída a primeira), fez-se desaparecer o ponto tipográfico que precede as palavras da Consagração. No antigo Missal Romano, este ponto fixo obrigava o sacerdote a interromper a simples "memória" dos eventos da Última Ceia, para começar a "fazer", ou seja, a renovar de forma incruenta, mas real, o divino Sacrifício.

O presbítero-presidente conciliar encontra-se agora na presença de dois pontos tipográficos, que acabarão por impeli-lo - psicológica e logicamente - a continuar apenas a recordar e, portanto, a pronunciar as fórmulas da Consagração com intenção apenas comemorativa (exatamente como na chamada "santa ceia" protestante).

7) A genuflexão do sacerdote é abolida imediatamente após a Consagração de cada uma das duas Espécies, genuflexão com a qual ele expressou sua fé na transubstanciação ocorrida devido às palavras de consagração recém-pronunciadas. Isto é absolutamente inaceitável para os Protestantes, que, como se sabe, negam o Sacerdócio derivado do Sacramento da Ordem, com todos os poderes espirituais especiais que dele derivam.

Agora, porém, na "Missa Nova" de Paulo VI, o "presidente da assembleia" ajoelha-se apenas uma vez, e não imediatamente após a consagração, mas somente depois de ter elevado cada uma das duas Espécies para mostrá-las aos fiéis presentes, o que é plenamente aceitável para os Protestantes, para os quais Cristo se faz presente (sem qualquer transubstanciação) na "mesa" da "santa ceia", exclusivamente graças à fé da assembleia.

É evidente que, pela enésima vez, o “novo rito” dos conciliares vai, em grande medida, de encontro aos ditos “irmãos separados”.

8) A aclamação dos fiéis no final da Consagração, embora retirada do Novo Testamento, é naquele momento completamente inadequada e enganosa: introduz, na verdade, mais um elemento de ambiguidade apresentando um povo "à espera da Tua [de Cristo] vinda", no preciso momento em que Ele, por outro lado, está realmente presente no altar como Vítima do recém-renovado Sacrifício expiatório / propiciatório.

Isso - como o restante das outras modificações e inovações – se torna mais evidente quando colocado no contexto geral de todas as outras mudanças.

9) No antigo Rito Romano, no momento da Comunhão, os fiéis, humildemente ajoelhados, repetiam à imitação do centurião (Mt 8, 8): "Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra e minha alma será salva”, uma expressão de fé explícita na Presença real de Nosso Senhor sob as Espécies sagradas.

Na "Missa de Paulo VI", porém, os fiéis apenas dizem que não são dignos de "participar" da "sua mesa", expressão completamente indeterminada, mas perfeitamente aceitável em ambiente protestante.

10) Na antiga Missa Romana, a Eucaristia era obrigatoriamente recebida de joelhos, sobre a língua, e tomando todas as precauções para evitar a queda de fragmentos (com o uso da patena).

Na "Missa de Paulo VI", por outro lado, de acordo com a habitual tática modernista rastejante, começou-se a prever "ad experimentum" a simples possibilidade de receber a Comunhão de pé. Em pouco tempo, a Comunhão de pé tornou-se praticamente obrigatória. Posteriormente, por meio das várias Conferências Episcopais, foi introduzida a Comunhão na mão, entusiasticamente propagada por um “clero conciliar” sem mais fé e completamente indiferente aos inevitáveis sacrilégios, voluntários ou não, aos quais o Corpo de Cristo está assim sujeito. Com a “Pandemia” de 2020, a Comunhão na mão se tornou quase obrigatória em todos os lugares.

11) A distribuição da Sagrada Eucaristia já não é reservada ao Sacerdote ou ao Diácono, conforme estabelecido desde a era apostólica; com a autorização do Bispo, agora também as religiosas ou simples leigos gozam da mesma faculdade.

 

Conclusão

Recordamos aqui, para concluir, a grave advertência feita pelo famoso estudioso da sagrada Liturgia que foi Dom Prosper Guéranger. “A primeira característica da heresia anti-litúrgica é o ódio à Tradição nas fórmulas do culto divino. Todo sectário que deseja introduzir uma nova doutrina, encontra-se infalivelmente na presença da Liturgia, que é a Tradição em seu poder máximo, e não poderia descansar sem ter silenciado esta voz, sem ter arrancado estas páginas que contêm a fé dos séculos passados".

 

(Sì Sì No No, Agosto 2022)

Vosso Servo ouve

Pe. Robert Brucciani, FSSPX

 

Discernindo a própria vocação

 

Meus queridos irmãos,

Alegramo-nos com a ordenação do Pe. Bernard Bevan ao sacerdócio sagrado, no dia 29 de junho de 2022, no Seminário São Pio X em Ecône. Ele agora é outro Cristo no mundo, outra oblação e outra esperança de salvação para milhares de almas.

A enormidade da bondade de Deus apresenta-se brevemente na ordenação de um padre, pois traz Cristo novamente ao mundo para que o homem continue a beneficiar-se de seu ensinamento, governo e santificação.

Essa vocação ao sacerdócio, como todas as outras vocações, tem suas origens na correta disposição da alma a um chamado divino. Deus tem um plano para todos, e todos são chamados para a sua vocação, mas, ah, tão poucos ouvem o chamado, e menos ainda têm a fortaleza ou a generosidade de levá-la até o fim.

 

Almas inquietas

“O que Deus quer que eu faça com minha vida?” Uma alma que já não esteja fixada em uma vocação pode dizer:

- “Eu adoraria me casar e ter filhos, mas não consigo encontrar a pessoa certa.”

- “Às vezes, sinto um desejo de me entregar inteiramente a Deus, mas o desejo nunca dura.”

- “Há momentos em que me enxergo entregue a grandes obras que apenas a vida solitária permitiria, mas essas ideias evaporam ao amanhecer.”

“Então o que Deus quer que eu faça com a minha vida?” Tais são os pensamentos de muitas almas inquietas enquanto aguardam uma iluminação, um sinal dramático que aponte para seu futuro, ou mesmo um empurrão. Sempre aguardando, nunca encontram paz e correm o risco de tornar suas vidas um suspiro melancólico.

 

A voz das circunstâncias

“O que Deus quer que eu faça com a minha vida?” Embora aqueles com inclinações místicas aconselhem que você ouça uma voz interior de inspiração no silêncio da oração, há uma voz bem mais clara de se ouvir, à qual você deve dar sua primeira atenção – a voz da circunstância concreta.

 

Circunstâncias objetivas

O fato de que você existe, de que Deus o criou, sustenta-o e salvou-o significa que é a vontade de Deus que você conheça, ame e sirva a Deus neste mundo, para que possa ser eternamente feliz com Ele no outro.

A vontade de Deus para você, portanto, é declarada por sua existência e por sua lei eterna – parte inscrita na natureza e parte revelada através de sua Igreja: seu futuro está em Deus. Deus deve ser o centro de qualquer coisa que você tente fazer.

Outro fato inescapável é se você é um homem ou uma mulher. Isso, obviamente, determina se você terá uma vocação masculina (como marido, padre, monge ou celibatário no mundo), ou uma vocação feminina (como mãe, freira ou, novamente, celibatária no mundo).

A idade também é uma circunstância objetiva importante. Acima de 35 anos de idade, os seminários e congregações religiosas relutam aceitar postulantes, porque as almas se tornam mais difíceis de formar à medida que avançam em idade: os maus hábitos já estão enraizados com mais força, os bons hábitos são mais difíceis de se inculcar.

Então há o bem comum. A colheita é rica, mas os operários são poucos. Há uma necessidade objetiva das almas entregarem-se à missão da Igreja.

Essas circunstâncias objetivas aplicam-se indiscriminadamente a todos.

 

Circunstâncias subjetivas

Quanto às circunstâncias subjetivas, essas se aplicam individualmente.

Saúde, tanto mental quanto física: ela é necessária para a vocação sacerdotal e religiosa e para o estado matrimonial também – principalmente se for provável que haja filhos.

Virtudes e vícios: um certo grau de perfeição é requerido para toda vocação, e a ausência dessa perfeição é um sinal claro de que certos caminhos não devem ser percorridos até que os obstáculos (vícios) tenham sido removidos, e as virtudes adquiridas. Embora as almas, de fato, cresçam em virtude à medida que buscam uma vocação, a vocação não deve ser encarada como remédio para um vício (exceto no caso do casamento como remédio da concupiscência). Um padre sem virtudes teologais, um marido sem prudência ou uma mãe sem a capacidade de entregar-se de coração seriam monstros em suas vocações.

Deveres: um dever para com pais velhos ou outros dependentes pode ser um obstáculo para se tentar qualquer vocação que não a de celibatário. De modo semelhante, uma vocação deve ser suspensa se houver obrigações tais como serviço militar ou dívidas.

Acontecimentos: se uma tentativa de buscar uma vocação particular falhar, deve-se buscar aconselhamento espiritual. Pode ser que os eventos estejam indicando que a vontade de Deus está em outro lugar.

 

Ato da vontade

As circunstâncias objetivas e subjetivas são indicadores passivos da vontade de Deus para uma alma. Elas não bastam por si mesmas para que uma vocação seja identificada – são apenas sinais. O elemento mais importante de uma vocação é o ato da vontade, impelido pela graça (uma graça atual).

É uma contradição apenas aparente da nossa fé que um ato moralmente bom é aquele que é livre, mas tem em Deus sua causa. Com relação à vocação, deve-se decidir, livremente, qual vocação buscar. Isso significa que a alma, ao decidir, deve estar livre das correntes do vício e, assim, estar apta a responder à graça atual que move sua vontade.

É digno de nota que o desejo por uma vocação particular não é necessariamente um sinal da vontade de Deus. Várias almas fugiram da ideia de determinada vocação mas, seguindo a graça atual que impele a vontade, terminaram por abraça-la com alegria e gratidão por aquilo que parecia tão repugnante de início.

Quanto às vozes no silêncio, às vezes elas são reais, às vezes são apenas imaginárias. Se forem de Deus, Ele confirmará Sua voz por outros sinais, como fez a Samuel pelo aconselhamento de Eli, o Pontífice (1Rs 3,9).

 

Ato da autoridade

Finalmente, para uma vocação estar de acordo com a vontade de Deus, ela deve ter o selo da autoridade legítima.

- Para o sacerdócio, é o chamado do bispo no dia da ordenação

- Para um religioso (monge ou freira), é a vontade do superior,

- Para o casamento, é o pároco local, que deve investigar e preparar o casal.

A única vocação que parece não requerer uma autoridade positiva como sinal da aprovação de Deus é a vocação de celibatário, mas não é assim: para aqueles que buscam a vontade de Deus, a vocação de celibatário, como as demais, pede a submissão a um diretor espiritual prudente.

Aqueles que não buscarem discernir a vontade de Deus podem terminar solteiros – mas não por vocação, apenas como consequência.

 

Deus tem um plano para todos

Resumindo, para responder à pergunta “Qual a vontade de Deus para mim?”, devemos crer que Deus tem um plano para todos.

Hoje, conhecemos o plano de Deus para o Pe. Bernard Bevan. Oremos para que ele cresça em virtude na sua vocação e para que seu sacerdócio gere frutos na salvação das almas.

Oremos, também, por aqueles que buscam sua vocação. Que eles vejam que, sem Deus, tudo é em vão; que eles reconheçam os sinais de Sua vontade; que estejam dispostos para a graça atual que os fará escolher, e que perseverem na sua escolha pelo bem comum de todo o Corpo Místico de Cristo.

 

(Ite, Missa Est, Agosto de 2022) 

Editorial: O Brasil na Encruzilhada

Editorial da Revista Permanência 307

Na medida em que se aproxima o dia da eleição presidencial no Brasil, aumenta a inquietação, ou devemos dizer, certa angústia brota no coração do brasileiro. Terá sido em vão vivermos quatro anos de um governo que, em muitos pontos, pensa e age como nós pensamos e agimos? Os brasileiros serão tão levianos a ponto de deixarem escapar a oportunidade de consolidar o que o atual governo iniciou?

Pobre governo! Infelizmente os bravos conservadores que estão em volta do presidente Jair Bolsonaro, e ele próprio, não conseguem elevar seu conhecimento e sua ação muito além da noção de liberdade e de democracia liberal que move a vida política dos países ocidentais. O vazio liberal não lhes permite fundamentar o seu governo sobre bases sólidas e duradouras, pois insiste em manter aberta a possibilidade do retorno do mal que eles mesmos combateram.

É muito impressionante o fato de Gustavo Corção ter se convertido ao catolicismo em 1939 tendo viva a ideia de que o Liberalismo não era capaz de trazer a solução para a questão política dos povos. No seu primeiro livro, A Descoberta do Outro, ele escreve:

“O subjetivismo gera duas consequências inevitáveis: o liberalismo burguês, que se protege atrás do dinheiro e da satisfação dos sentidos, e o voluntarismo fanático que sai à procura do poder. Produz trustes e revoluções; capitalismo e anticapitalismo; comunismo e anticomunismo.” [1]

Vai além da sua análise a consequência do Liberalismo; mais do que produzir o poder do capitalismo selvagem ou o poder da tirania comunista, o Liberalismo produz a deformação espiritual do homem, pois estabelece como essência aquilo que é acidente, qualidade. Ou, por outra, inebria-se diante da capacidade que temos de escolher, deixando de lado o que foi escolhido. O homem não é liberdade, mas alma espiritual racional. Conhece de modo especulativo, e ama de modo concreto; parte do fato sensível que lhe penetra alma adentro pela visão, pela audição, pelo olfato, pelo paladar ou pelo tato, gera de modo intelectual um conceito e dá nome à coisa conhecida. Uma vez a luz do conhecimento tendo sido acesa, com a inteligência iluminada pelo sol da verdade, dá-se início ao espetáculo da usina de amor, ou se preferir o leitor, do movimento de todo o ser em busca do objeto. Que se trate de uma criança correndo para o colo da mãe na leveza do seu primeiro ano de vida, ou de um pesado soldado, montanha de músculos e força, em busca da vitória na batalha, o ato espiritual que moveu a pessoa é um ato da vontade humana na busca da posse do bem.

O leitor atento perguntará: onde entra a liberdade? Entra na capacidade de mover-se pela vontade, é uma qualidade da nossa vontade. A razão humana, a diferença específica que define o ser humano – animal racional – inclui a capacidade de escolher entre a ou b, entre dois bens apresentados pela inteligência como sendo a verdade. Os pensadores antigos sabiam que essa capacidade só podia ser posta em ação se todas as opções em pauta representassem o bem. Os liberais, por sua vez, vão apresentar a liberdade total levando o homem a escolher entre o bem e o mal. Ensina a esse respeito o Papa Pio XII, falando sobre as técnicas da mídia:

 

O mal moral, certamente, não pode provir de Deus, perfeição absoluta; nem das técnicas em si mesmas, que são dons preciosos Seus; mas só do homem, que, sendo dotado de liberdade, abusa [...] e difunde conscientemente o mal moral, colocando-se do lado do príncipe das trevas e constituindo-se inimigo de Deus: "Foi um homem inimigo que fez isto".[2]

O erro do liberal é não atribuir nenhum limite a essa capacidade de escolha, elevando ao trono da alma humana aquilo que é apenas uma qualidade do seu amor, ato da sua vontade. Se somos livres, então ninguém pode limitar o meu querer, a minha vontade. Mas como a tese levaria a humanidade ao caos, perceberam a necessidade de um limite. E aconteceu, nessa passagem, um erro de direção. Não entenderam que o limite à nossa liberdade devia provir do alto. O mesmo Deus criador que fez o homem do barro e soprou vida no seu corpo inerte, impôs os limites morais que deveriam reger os atos humanos. Recusando essa dependência de Deus, os filósofos iluministas inventaram um limite rasteiro, humano, imposto pela lei dos homens, para não seguirem a Lei de Deus. E preconizaram a liberdade total, desde que não fira a paz social. Os princípios liberais foram assim forjados e levaram os homens a crer em falácias como: a minha liberdade termina onde começa a do meu vizinho. Errado! Basta elevar nosso olhar para Deus e perceberemos que a minha liberdade e a liberdade do meu vizinho terminam onde a Lei moral de Deus impõe limites para os atos humanos. E ela diz: “não matarás”, “não fornicarás”, não furtarás”, e os demais Mandamentos de Deus e da Igreja.

Pobre governo – dizíamos acima. Mesmo com suas preocupações conservadoras, mesmo compreendendo o mal que o socialismo traz a uma nação, falta ao governo Bolsonaro o conhecimento desses princípios que norteiam a ação política. Formado e envolvido no ambiente liberal da vida política, resta ao nosso Presidente alguma intuição, certo bom senso humano e bom, que o traz de volta à realidade, e o afasta dos excessos do seu próprio liberalismo. Clama pela verdade como princípio da liberdade, e nisso ele tem razão; por outro lado não escapa das garras liberais e positivistas na crença de um poder que emanaria do povo, supostamente devendo ser exercido pelo povo. E neste ponto encontramos uma dificuldade que necessita de análise.

Por um lado, sabemos que todo poder vem de Deus e os governantes exercem esse poder em nome de Deus, ou deveriam exercê-lo. E como a democracia liberal nega este princípio, até que ponto podemos agir no mundo político, adotarmos as práticas da democracia liberal, entrarmos no jogo político? Um católico conseguiria se filiar a um partido político, candidatar-se a um cargo, exercer suas nobres funções a serviço da Pátria, tendo consciência de que não seria em função dos princípios católicos, mas em nome da mesma democracia liberal que nos governa desde a Revolução Francesa?

Nesse caso ele deveria saber que está numa corda bamba, que todos os dias estará diante de situações em que o juízo político deverá ser exercido com extremo cuidado para não cair na lógica liberal e, por outro lado, não se trancar dentro de um moralismo que destruiria qualquer pretensão política. Também não lhe serviria de nada o fideísmo protestante que aponta o céu com o dedo como se a ação política pudesse ser tratada como uma comemoração de jogador de futebol.

Não temos como esconder a gravidade da situação. Ficarmos à mercê do jogo político entre socialistas de diversas colorações, ou conservadores sem formação e sem critérios mais profundos pode nos deixar abandonados, e vermos as piores e mais iníquas leis serem promulgadas, ou chefes de Estado tomarem decisões inaceitáveis. Ou ainda, juízes corruptos rebaixarem a Justiça à prostituição do dinheiro. Por outro lado, termos católicos bem formados nas funções políticas poderia servir de bloqueio do que há de pior na política atual dos povos. Mas correriam o risco de se queimarem ao entrar no fogo. Este é o impasse em que estamos!

Não podemos deixar de constatar que o resultado prático dos exemplos de católicos que se dedicaram à ação política ou social não é dos mais brilhantes. No mundo neoconservador vemos muitas ilusões e equívocos em aspectos importantes da vida humana. Equívocos que diminuem a eficácia do trabalho de almas bem-intencionadas e generosas. Quantos educadores procuram fundar escolas que tirem as crianças da deformação socializante da educação moderna! Mas a proposta desses católicos exagera muitas vezes num retorno a uma educação medieval e especulativa que não corresponde às necessidades da formação atual. Ou propõem um ensino todo ele calcado na Religião, como se o catolicismo exigisse de todos só pensar e só estudar temas e exemplos religiosos. Há um risco muito grande da corda romper no lado mais fraco onde os autores terminariam contaminados pelos falsos princípios, e os alunos perderiam a fé nos anos difíceis da adolescência, por excesso de religiosidade nos anos dóceis da infância.

No âmbito da vida política, no nosso modo de ver, de nada adianta um discurso na Câmara dos deputados que terminaria com Vivas a Cristo-Rei, e por outro lado, o político adotar princípios da democracia liberal, onde a doutrina católica é deixada de lado – et pour cause – visto que as regras do jogo exigem a aceitação da liberdade ao erro e ao mal.

Há necessidade de uma avaliação mais ponderada, onde as virtudes da Prudência e da Justiça estejam presentes de modo a equilibrar a vida. Como lá diz o Eclesiaste:[3]

“Todas as coisas têm o seu tempo, todas elas passam debaixo do céu segundo o termo que a cada uma foi prescrito. Há tempo de nascer, e tempo de morrer. Há tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou. Há tempo de matar, e tempo de sarar. Há tempo de destruir, e tempo de edificar. Há tempo de chorar, e tempo de rir. Há tempo de se afligir, e tempo de dançar. Há tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar. Há tempo de dar abraços, e tempo de se afastar deles. Há tempo de adquirir, e tempo de perder. Há tempo de guardar, e tempo de lançar fora. Há tempo de rasgar, e tempo de coser. Há tempo de calar, e tempo de falar. Há tempo de amor, e tempo de ódio. Há tempo de guerra, e tempo de paz.”

Ao longo de tantos anos de combate percebemos que não podemos imaginar situações práticas ideais e lutarmos com excesso de energia para que elas venham a se concretizar num mundo em que elas já não são mais aceitas. Tomamos aqui o exemplo da monarquia na política dos povos.

Quando se tem a oportunidade de morar por alguns anos em outros países percebemos que a ideia da monarquia continua presente nos meios católicos conservadores. Se o ideal monárquico fosse a certeza de que um rei católico encarna o ideal do governo submisso a Nosso Senhor Jesus Cristo, mas que não há condições práticas para o retorno a esse ideal, talvez os monarquistas católicos obtivessem melhores resultados em suas campanhas e ações. Mas é completamente ilusório pensar que um rei católico poderia governar qualquer país ocidental, como um São Luiz governou a França. No máximo conseguiriam a monarquia parlamentarista onde a figura do rei já não teria o poder efetivo. E estaríamos diante de uma monarquia “democrática”.

Por razões que não podemos avaliar, Deus permitiu que os reis perdessem suas coroas, e muitas vezes perdessem suas cabeças coroadas; já não há ambiente espiritual nas almas dos povos que inclinem os homens a venerar o seu rei, a entender o quanto de paternidade existiu nos governos católicos da Idade Média. Pois não bastaria uma determinação do Congresso Nacional adotando um regime monárquico. Faltaria ainda um povo humilde e submisso à autoridade. Faltaria igualmente um mundo em que um governante conduziria seu povo pelo caminho da verdade e da justiça, sem que os organismos internacionais o tentassem impedir. Mas já não é assim há mais de duzentos anos.

O que fazer? Ao formular esta questão ocorre-nos mais uma vez esta impressionante passagem de Gustavo Corção em seu O Século do Nada, na perplexidade do grande pensador diante da decadência do mundo e da Igreja, e da única fonte de solução:

Que fazer? Lutar. Combater. Clamar. Guerrear. Mas lutar sabendo que lutamos não somente contra a carne e o mundo, mas contra o principado das trevas. É preciso gritar por cima dos telhados que, se o cristianismo se diluir, se a Igreja tiver ainda menos visível o ouro de sua santa visibilidade, se seu brilho se empanar pela estupidez e pela perversidade de seus levitas, o mundo se tornará por um milénio espantosamente, inacreditavelmente, inimaginavelmente estúpido e cruel.

Roguemos, pois, a Deus, com todas as forças; desfaçamo-nos em lágrimas de rogo e gritemos a súplica que nos estala o coração: enviai-nos Senhor, ainda este século, um reforço de grandes santos, de grandes soldados que queiram dar a vida, no sangue ou na mortificação de cada dia, pela honra e glória de Nosso Senhor Jesus Cristo. Compadecei-vos, Senhor, de nossa extrema miséria, e sacudi os homens para que eles saibam quem é o Senhor![4]

 

Nesse contexto a Permanência iniciou a campanha de Rosários pelas eleições de outubro. Temos a convicção que a Divina Providência governa o mundo com sua Sabedoria e Majestade. Cabe a Deus Nosso Senhor determinar se teremos ou não a chance de fortalecer a vida das nossas famílias em torno dos princípios católicos. Para tanto será necessário mostrarmos a Deus que merecemos tamanha graça, que nosso esforço de vida espiritual, de conversão dos nossos maus costumes, da boa educação transmitida a nossos filhos, na pureza, na civilidade, na prática da única Religião revelada por Deus para a nossa salvação, merece o agrado de Deus por todo esse povo que um dia foi marcado pela fé na doutrina de Deus e de sua Igreja.

 

Mesmo se os católicos fiéis são poucos, poderão realizar grandes feitos espirituais pela oração fervorosa a Nossa Senhora Aparecida, nossa Padroeira, como pedimos na oração que está na abertura desse número da Revista Permanência.

 

Nesse momento de grandes dúvidas e angústias, não podemos nos apegar à nossa opinião pessoal sobre tal ou tal candidato, pois o que conta na vida de uma sociedade, é o Bem Comum: o conjunto de atitudes dos membros dessa sociedade, cada qual cumprindo o seu dever, todos trabalhando no sentido de buscar o bem. Este bem não se encontra na posição política, na escolha de um partido político, ou mesmo na simpatia que se possa ter por um candidato. O Bem Comum se encontra na posse dos meios adequados para alcançar a finalidade mais elevada da nossa Pátria: a bênção de Deus que só pode vir pela fé na doutrina revelada, o patrimônio físico e moral da nação, e as virtudes consequentes de Justiça e de Paz entre nossas famílias e nossas cidades.

 

Mesmo sabendo das limitações espirituais e filosóficas do Presidente Bolsonaro, não podemos deixar de aprovar com ênfase os quatro anos do seu corajoso governo. Neste número da Revista Permanência procuramos realçar as conquistas alcançadas por ele, as quais não se limitam a armações partidárias com vistas à reeleição. Bolsonaro deixa um legado impressionante de cuidados duradouros a milhões de brasileiros. O Brasil passa a ocupar um lugar de destaque na política mundial, apesar dos fortes e constantes ataques sofridos pelo atual governo. Seu conservadorismo abre possibilidades reais de escaparmos da destruição da família, pelo menos por mais alguns anos. Por isso não há espaço para dúvidas sobre o caminho que o brasileiro deve trilhar para o Bem Comum da Pátria.

 

Precisamos crescer espiritualmente. Precisamos de mestres espirituais que nos ensinem a refletir e a orar, medindo todas as coisas pela balança da justiça divina.

 


[1] Gustavo Corção, A Descoberta do Outro, cap. Equações sem homogeneidade. Vide Ed. 2017.

[2] Pio XII, Encíclica Miranda prorsus, 8/9/1957.

[3] Ecl. 3, 1 a 8.

[4] Gustavo Corção, O Século do Nada, Record, 1973 – pag. 436.

Sermão - XI domingo depois de Pentecostes

Sermão de Dom Alfonso de Galarreta

Missa Pontifical, XI Domingo depois de Pentecostes

Capela Nossa Senhora da Conceição, Niterói – RJ

 

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, Amém.

Queridos Padres, queridos fiéis, infelizmente não sou capaz de pregar-lhes em português, de maneira que o farei em espanhol, com o cuidado de falar lentamente, e exercitando a paciência dos senhores.

A epístola deste domingo é tirada da primeira carta do Apóstolo São Paulo aos Coríntios, e contém admiravelmente o sentido e a definição do que é a Tradição. São Paulo diz aos Coríntios: “Lembro-vos o Evangelho que vos preguei, que vós recebestes, no qual estais firmes, e através do qual vos haveis de salvar, se o guardardes tal como vos preguei.” E imediatamente acrescenta: “Transmiti-vos o que recebi, que Jesus Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, que foi sepultado e ressuscitou segundo as Escrituras, que foi visto pelos Apóstolos”, que são as testemunhas que nos transmitem a fé e a Tradição.

E nessa mesma epístola, alguns capítulos antes, o apóstolo usa a mesma expressão, referindo-se à instituição do Santo Sacrifício da Missa. Ele diz aos Coríntios: “Recebi do Senhor Jesus o que vos transmiti.” E lhes dá então o relato da Santíssima Eucaristia, na Quinta-Feira Santa. Isto é precisamente a Tradição, é a transmissão e a recepção da verdadeira Fé, do verdadeiro culto, que temos de guardar se quisermos ser salvos.

E aí está esclarecido todo o problema da crise da Fé, e da crise da Igreja, porque o problema é que vivemos um processo profundo de ruptura com essa Tradição, de Fé, de culto, que nos vem do Senhor Jesus, de Nosso Senhor Jesus Cristo, através do Magistério constante a ininterrupto da Santa Igreja, dos Doutores, dos Santos, dos Santos Padres da Igreja, de toda uma plêiade de santos e de bispos, e de nossos ancestrais, de pais para filhos.

E São Paulo está muito consciente, anunciando-o várias vezes, que “virão tempos em que muitos apostatarão da verdadeira Fé, e aderirão a um espírito de erro, e a doutrinas dos demônios”, assim diz ele. E o farão porque não têm o amor da verdade, porque não amam a verdade, porque não obram a santificação de acordo com esta verdade, e porque, com prurido em seus ouvidos, afastam-se da verdade e aderem a fábulas de homens. E isto é o que estamos vivendo, desgraçadamente, na Igreja. Afastam-se da verdade, da Tradição, e aderem a uma série de fábulas hiper-sofisticadas que ninguém entende e que, sim, são mesmo evolutivas. A verdade divina não evolui, é permanente, “Veritas Domini manet in aeternum – A verdade do Senhor permanece eternamente”, mas a mentira, sim, é multiforme, e evolui sem parar.

Nesse sentido assistimos a um agravamento da situação na Santa Igreja, porque vamos chegando às conclusões mais extremas, aos frutos mais amargos destes falsos princípios. E vai se completando, por assim dizer, esta reforma modernista da Igreja Católica, segundo o pensamento moderno, do homem moderno. E atualmente assistimos a um recrudescimento da perseguição ao culto de sempre, à Missa chamada de São Pio V, que é a Missa de sempre, a Missa Tridentina de São Pio V. E vemos que há como um assalto aos últimos bastiões que ficaram ainda intactos, por exemplo, da ordem moral.

Nesta passagem em que São Paulo trata da Eucaristia, ele diz claramente que não se pode comungar deste Corpo e Sangue de Cristo estando em pecado mortal. Pois agora está permitido! O que dizer da aceitação de todas as desordens que vão se impondo à nossa sociedade, que são das mais torpes que existem, coisas contrárias à própria natureza?! E há uma aceitação crescente e uma tolerância - e uma justificação! – da parte de muitos homens da Igreja, e as vezes da parte de conferências episcopais inteiras.

E alguns Papas precedentes, tendo uma dívida com este pensamento modernista que triunfou no concílio, não se atreveram, graças a Deus, a irem contra esta ordem moral, matrimonial e sacramental. Esta barreira agora desapareceu. E até onde chegaremos, não se sabe. Porque justificando isto, o que é que não se pode justificar? Já que todo o resto é, relativamente, menos mau.

É um processo revolucionário que destrói absolutamente todo o dogma cristão, na Fé, no culto, a moral, os preceitos e mandamentos de Deus inscritos, inclusive, na natureza do homem, e ainda por cima, algo que os Papas precedentes tampouco ousaram tocar, destrói a constituição sacerdotal e hierárquica da Igreja Católica. Autoridades que são anticlericais! Que são anti-romanas, que destroem e vão demolindo a própria autoridade sacerdotal, episcopal, pontifical, a romanidade da Igreja. A Igreja está fundada sobre Pedro, que deve confirmar seus irmãos na Fé, e não semear a confusão e o erro. Mas é o que estamos vivendo, é patente, e é uma conclusão lógica dos princípios que se assentaram já, fazem 50 anos. Há uma vontade de introduzir na Igreja, contra o que foi instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo Ele mesmo, um espírito democrático, mas de democracia liberal, igualitária e não-discriminatória, é claro.

Neste processo, vemo-nos com este famoso sínodo, que já se concluiu no nível paroquial e no nível episcopal, e cujas conclusões são de deixar qualquer um estupefato, atônito, diante destas conclusões que eles estão tirando e das mudanças que estão pedindo. Teremos no ano que vem, em outubro, o sínodo dos sínodos, e veremos quais conclusões serão impostas a toda a Igreja. Mas este processo, por si só, já está destruindo a constituição hierárquica e sacerdotal da Igreja. É um processo revolucionário. Como disse o Sumo Pontífice há pouco tempo, a Igreja, a hierarquia é como uma pirâmide... para ele, é preciso, virar de cabeça para baixo a pirâmide, ou seja, dar o governo ao povo, e porem- -se todos à escuta do povo, que é infalível. Povo cuja Fé eles corromperam durante 50 anos, e que não sabe nem o que é a Fé católica. Este é quem vamos escutar para que nos diga o que é católico e como deve funcionar a Igreja conforme a este mundo, ao espírito deste mundo, e este é o processo que estamos vendo na Igreja.

No meio, então, desta situação, estão as circunstâncias em que devemos viver neste mundo, sobre as quais não vou estender-me, mas com tudo isso da famosa “pandemia”, e de todas as medidas que tomaram, com toda esta tensão, confusão e impedimento para exercício do culto, para participar no culto, para o ministério sacerdotal, e com a introdução de sistemas muito aperfeiçoados de supervisão, controle e vigilância... de perseguição. E, no entanto, nestes dois últimos anos – e isto é o que na realidade eu queria contar – há um crescimento na Tradição como nunca foi visto. Quando menos foi possível fazer, é então que há mais frutos! Muitíssima gente de boa-fé, a parte mais sã da Igreja que podemos chamar de oficial, volve-se à Tradição, e muitas vezes inclusive, vem para a Fraternidade. E são fenômenos universais, no mundo todo, admiráveis. Há priorados em que passamos de 80 pessoas para 400, em dois anos, outros de 400 para 1000, e assim poderia dar-lhes muitos casos. Há um crescimento das vocações, sacerdotais, religiosas, em todas as congregações da Tradição. Há famílias inteiras que voltam e passam, por assim dizer, para a Tradição.

Quer dizer que, ao mesmo tempo, vivemos um momento de graça. Isto deve encher-nos de confiança, porque isto é uma prova de que Deus permite os males, sempre, tendo em vista outros bens, bens que são maiores que os impedidos pelos males. Deus quer diretamente o bem, ou permite os males, porque nada lhe escapa. Não é que haja algo que escape à Providência, que é infalível e onipotente, mas sim que Deus ordena tudo para o bem de sua Igreja e ao bem dos eleitos. Isto é o que palpamos. A cruz é o que dá fecundidade na vida espiritual, na vida da Igreja. As provas e perseguições, Deus as permite, sempre, para dar-nos graças, dons e bens. Simplesmente temos de ter a Fé, para buscar e nos dispor para receber estes bens que Deus ordena àqueles que O amam.

São Paulo diz: “Tudo coopera para o bem dos que amam a Deus.” Epístola aos Romanos, no maravilhoso capítulo oitavo, Deus faz com que tudo concorra para o bem dos que o amam, e Santo Agostinho com Santo Tomás dizem: “Inclusive, inclusive os pecados.” Os nossos pecados e até os pecados de outra pessoa, deus os ordena, se O amamos ou voltamos ao seu amor, esta é a condição, Deus ordena tudo ao nosso bem.

Então, temos de ter um espírito sobrenatural, e ver em tudo esta ação da Providência, que em toda a cruz, pequena ou grande, uma doença, um sofrimento, um problema familiar, social, político, mundial, eclesiástico, Deus permite absolutamente tudo para um bem maior que o impedido.

Então toda esta mesma crise da Igreja, Deus a está permitindo tendo em vista alguns bens, claro, não sempre dos mesmos que sofrem os males, mas o bem dos eleitos e daqueles que amam a Deus, esta é a condição da nossa parte, permanecer no amor que Deus tem para conosco, permanecer no amor de Jesus Cristo como Ele nos disse. Permanecemos enquanto O amamos, e ao amá-lo cumprimos sua vontade, porque poder cumprir a vontade, os mandamentos e os ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo é uma consequência do amor que lhe temos, não é a causa, é a consequência. Não significa que amo a Deus por que guardo os mandamentos, mas guardo os mandamentos na medida em que amo a Deus, em que amo a Jesus Cristo. E se permaneço neste amor, São Paulo diz: “Se Deus está conosco, quem estará contra nós?” Não há nada a temer. E acrescenta: “Absolutamente nada pode separar-nos do amor de Cristo.” Do amor de Cristo por nós.

E considerando todas as coisas que existem e por existir que poderiam romper este amor manifestado na cruz, de Deus para conosco, ele diz: “Nada, absolutamente nada, e nenhuma criatura, pode separar-nos do amor de Deus, manifestado em Cristo Jesus.” Precisamos crer neste amor, como diz São João: “Credidimus caritati - Cremos neste amor”. Mas devemos, além disso, confiar e esperar neste amor de Deus, sabendo que todo o mal que Deus permite, inclusive em nossa vida pessoal e privada, até a menor dificuldade, Deus o permita em vista de um bem, que é preciso saber buscar, e ao qual é preciso saber dispor-se, mediante a Fé, a Esperança e a Caridade, é a vida teologal, que nos ordena a Deus.

Amanhã celebraremos a festa do Imaculado Coração de Maria, e verão que a epístola foi tirada do livro da Sabedoria, e indica de maneira admirável e maravilhosa, qual é o ofício da Santíssima Virgem com respeito a nós na ordem espiritual. Para com cada um de nós, e para com a própria Igreja.

“Eu sou a mãe do belo amor, do temor, do conhecimento e da santa esperança.” A Santíssima Virgem nos engendra a esta vida sobrenatural e teologal, e é a Mãe, em nós, da Caridade, do belo amor, isto é, de uma caridade e um amor puros, totais, íntegros, sacrificados, entregues. Do temor de Deus, que inspirado pela caridade não é um temor servil, não somos escravos, somos filhos, e Deus é um Pai, providente, mas é Deus, ao qual devemos respeitar... e temer! E devemos temer perde-lo. Mãe do conhecimento, isto é, da sabedoria, da inteligência, da Fé, pela qual acedemos a este conhecimento de Deus, dos mistérios de Deus, dos mistérios sobrenaturais, dos mistérios de graça, dos mistérios de glória, Mãe do conhecimento. E Mãe da santa esperança, ou seja, de uma esperança que não tem uma mira puramente terrestre e humana, mas sobrenatural e eterna, esta é a santa esperança, e uma santa esperança que é inquebrantável, que não duvida, precisamente, deste cuidado infalível da providência do nosso Pai dos céus.

A epístola continua e atribui outros frutos à Santíssima Virgem: “Em mim está toda a graça da doutrina e da verdade.” A doutrina espiritual, a doutrina da vida, e a verdade que é de conhecer qual é a vontade de Deus em minha vida. “Em mim está toda a esperança de vida e de virtude.” Quer dizer, da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, de Deus, a vida da graça. E as virtudes, são as virtudes sobrenaturais. “Vinde a mim todos os que me desejais, e saciai-vos de meus frutos, meu espírito é mais doce do que o mel.” Não somente a alma da Santíssima Virgem é cheia de frutos, mas é ainda doce, consoladora. “O meu espírito é mais doce do que o mel e o possuir-me é mais doce que o mel e que o favo de mel.” E logo termina-se esta epístola dizendo: “Aquele que me escuta não será confundido.” E como precisamos nestes tempos, justamente cheios de confusão, de não sermos confundidos. “Aquele que me escuta não será confundido, quem obra por mim não pecará, e quem me torna conhecida, alcançará a vida eterna.” Quer dizer, temos de recorrer à Virgem, como à nossa Mãe na ordem da graça, em toda esta ordem, e buscar nela estes bens, porque Ela é nossa Mãe, porque é Medianeira universal. Mas também temos de ser servidores, vassalos e apóstolos do Coração de Maria e da Santíssima Virgem, para que ela assim, desta maneira, seja o caminho que nos conduza até Nosso Senhor Jesus Cristo, e até Deus.

 

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém

Lutar, Clamar e guerrear

Editorial da Revista Permanência 303

Queremos que este Editorial da Revista 303 ressoe como uma ode de louvor à Santa Igreja Católica, como manifestação do nosso agradecimento a Deus e a Nosso Senhor Jesus Cristo por nos terem protegido contra a obra de destruição da Santa Igreja, através de milhares de textos, encíclicas, bulas e afins que levantaram barreiras sólidas, por vezes inabaláveis, de proteção ao dogma católico, à santa Liturgia, ou à prática da vida cristã.

Queremos relembrar aquele ano longínquo, perdido nas brumas do tempo, em que um papa santo, inspirado do alto, escreveu a Bula Quo Primum Tempore, para declarar e ordenar que a Santa Missa católica jamais poderia perder sua força, sua eficácia e sua estrutura de santificação herdada diretamente dos Apóstolos e transmitida fielmente pelos papas e bispos católicos ao longo dos últimos dois mil anos.

Queremos levar nossos leitores ao velho ano de 1975, quando Gustavo Corção e seus companheiros da Permanência, publicaram na revista nº 84-85 a tradução em português da Bula de S. Pio V e os dois trabalhos de comentários à Bula escritos pelo padre francês, Raymond Dulac, publicados na Revista Itineraires. Assim fomos formados pelos nossos maiores, assim temos o dever de transmitir aquilo que recebemos, o Depósito Sagrado, intacto, brilhante, Pedra angular na construção do Templo da Santa Igreja.

Naqueles anos antigos, o pequeno grupo de fiéis que não aceitava a ideia de se tornar protestante precisou de toda a coragem do mundo para resistir aos ataques oriundos do único lugar de onde jamais poderiam surgir: da casa do pai, das autoridades da Igreja. Papas e bispos apontavam para nós o dedo acusador, com o desprezo próprio dos inimigos da fé. De onde viria toda a gana com que nos atacam? Por quê? Por quê?

Corríamos da avalanche como os habitantes da pequena cidade nas montanhas correm da neve e das pedras que descem morro abaixo soterrando tudo. Nossas almas estavam sendo soterradas pelos escombros de um progressismo imposto sob ameaças pelas autoridades, cuspidos em nossas faces por padres laicizados, freirinhas de saias profanas, e pelos falsos amigos que nos abandonavam um após o outro.

A solidão era outro sofrimento. – Como pode? Todos estão errados e só vocês certos? – diziam nos momentos de calorosas discussões. Éramos poucos, tão poucos, e tínhamos medo por estarmos sós. Nesses momentos só tínhamos o recurso da oração, do nosso Terço, ou das reuniões que mantínhamos nas primeiras sextas-feiras do mês, em honra do Sagrado Coração de Jesus.

A missa de sempre era esporádica – hoje temos um padre corajoso a celebrar escondido nas catacumbas modernas, como nos tempos da Revolução Francesa. Amanhã não temos missa, e somos obrigados a santificar nosso domingo pelo Terço e pela oração.

No meio de toda essa angústia, de todo o drama que vivemos, algo nos levava a perseverar. Estudávamos e líamos tudo que se escrevia em francês sobre a crise da Igreja e sobre os grandes defensores da fé. A figura bondosa e franca de Gustavo Corção, aquele pai e amigo dos seus alunos, levantava-se combatente, guerreiro de Deus e da santa Religião, e resumia em si o conhecimento mais profundo das verdades da fé, o gosto de ensinar e passar adiante o que estudara, a sabedoria do santo a aconselhar seus amigos, e os golpes mortais do polemista, lógico e sábio, capaz de derrotar os mais astutos inimigos da fé.

Não há como relembrar este drama, não há como tentar reconstruir para os nossos leitores o ambiente pesado e tenso de um combate que não cessava nunca, sem trazer a figura de Dom Marcel Lefebvre. Pode parecer inacreditável, e de fato é, mas somos obrigados a lembrar que a insignificante Permanência recebeu a honra de manter relações de profunda amizade com o bispo de Ecône. Já contamos essa história no nosso número comemorativo dos 50 anos, mas é preciso salientar o tanto de coragem e de vigor que adquirimos diante do exemplo de um único bispo a resistir diante de todos, enfrentando os erros do papa que nós enfrentávamos, guardando a santa missa que nós amávamos, refugiando-se nas montanhas suíças como nós nos refugiávamos na mata atlântica carioca. Ecône soava aos nossos ouvidos como um canto de esperança.

Foi assim que, no ano de 1974, Gustavo Corção escreveu alguns artigos nos jornais em que colaborava, contando a história de Dom Marcel Lefebvre, defendendo a coragem daquele bispo solitário a combater pela fé contra todos os seus inimigos. A primeira visita de Dom Lefebvre à Permanência foi em agosto de 1979. É entre nós que ele escreverá, juntamente com Dom Antônio de Castro Mayer, a Carta Aberta ao Papa João Paulo II, o famoso Manifesto Episcopal, no qual os dois defensores da fé faziam uma análise crítica ao novo Código de Direito Canônico. Estávamos em 1983.

E assim atravessamos três longas décadas, no combate e na solidão. Enquanto isso, os papas e bispos começavam a se preocupar com o crescimento dos movimentos fiéis à Tradição, sobretudo com a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, a obra de restauração do sacerdócio católico empreendida por Dom Marcel Lefebvre a partir de 1970. Diversas vezes as autoridades da Igreja armaram situações para atrair a Fraternidade e levá-la a aceitar os erros do concílio, a aceitar a missa nova e todo o resto. Mas a proteção divina parecia evidente, e a Fraternidade permanecia firme como uma rocha.

O exemplo mais patente deste combate nos anos 1980 foi a grave questão da sagração episcopal dos quatro bispos da Fraternidade. O número de ordenações sacerdotais continuava impressionando as autoridades. Em Ecône, Dom Marcel Lefebvre ordenava entre 20 e 30 seminaristas por ano, fora as ordenações realizadas também nos EUA e na Argentina. O sermão do dia das ordenações de 1987 levou o Cardeal Ratzinger a procurar a Dom Lefebvre para conversar sobre a situação da Igreja. Daí resultou o famoso protocolo de 5 de maio de 1988, que estabelecia certos parâmetros iniciais para uma conversa mais profunda. E logo veio a retirada da assinatura do bispo diante das evidências de que o Vaticano estava apenas querendo enquadrar a Fraternidade São Pio X nos moldes de Vaticano II.

Estes eram os dramas que vivíamos nessa época. A presença do bispo defensor da fé era um sustento que trazia a paz necessária para o nosso combate. E a coragem manifestada por ele ao anunciar a sagração para o dia 30 de junho de 1988, confirmava a nossa fé e aliviava as nossas penas. Aconteceu naquele dia o mais importante evento da fé católica da segunda metade do século XX. A Divina Providência nos dava quatro novos bispos para suprir as necessidades espirituais dos fiéis.

Ao longo desses anos de combate, cada instituição, cada mosteiro, cada grupo de fiéis organizou-se em associações civis sem fins lucrativos, para poderem se estabelecer em igrejas, capelas, ou casas, sem serem impedidos pelo bispo local. Era claro que os entraves que os bispos montavam contra a Tradição só tinham um fundamento, uma razão de ser: eles não suportavam a Tradição e queriam subverter a fé na onda modernista do concílio. Isso era inadmissível para qualquer alma católica, era um abuso de autoridade que legitimava a adoção de medidas independentes da autoridade abusiva dos bispos diocesanos, para salvaguardar a fé católica.

Assim viviam os católicos perseguidos nesses longos anos. Não podemos negar que a pressão exercida contra a fé surtiu um efeito salutar pelo aumento dos estudos sobre a vida da Igreja, maior apreço pela Liturgia tradicional, além de uma vida de piedade que voltou a ser o centro da vida dos católicos fiéis.

Enquanto isso, as autoridades do Vaticano, os papas, a Cúria Romana, os bispos diocesanos, continuavam sua rota invariável, evolutiva, destruidora. Tudo pelo Concílio, tudo em torno dessa nova religião liberal e ecumênica. A tática variava, mas o objetivo era sempre o mesmo. Dentro dessa variação, chegamos na eleição do Cardeal Joseph Ratzinger ao Sumo Pontificado. O século já tinha terminado, um novo milênio começado, carregado de ideais humanistas, ecologistas e ilusórios. Bento XVI representava um estilo de vida mais centrado, mais intelectual, apesar de o novo papa manter os mesmos princípios dos seus predecessores pós Concílio Vaticano II.

Em 2007 o papa surpreendeu a todos ao publicar o Motu Proprio Summorum Pontificum, que mudaria nosso combate pelos anos a seguir. Não podemos deixar de assinalar o fato de o papa afirmar, pela primeira vez desde 1969, que a missa de sempre, também chamada de tridentina, ou de missa de São Pio V, nunca tinha sido revogada. A questão que se levanta é: então, por que razão, durante 40 anos nos acusaram de desobediência, de cisma, nos excomungaram, nos marginalizaram, sob o pretexto de que a missa estava proibida?

O fato é que o Motu Proprio de Bento XVI mudou a face da Terra. Em poucos anos a missa de São Pio V, restrita até então aos grupos ligados à Fraternidade São Pio X, espalhou-se por toda parte. Os bispos queriam atrair os fiéis que se tinham afastado das paróquias por conta dos abusos e da missa nova. Mas o que se viu foi o contrário: fortes da autorização do papa para a missa da Tradição, muitos fiéis se sentiram mais à vontade e se aproximaram das nossas Capelas. Descobriram atônitos o tamanho da crise, e procuraram recuperar o tempo perdido.

Com a renúncia de Bento XVI e a eleição de Francisco, subiu ao trono pontifício um perfeito liberal. A liberdade total move as intenções do papa, e a Fraternidade São Pio X recebeu alguns benefícios desse espírito liberal, no que toca a aceitação dos padres da Fraternidade pelos bispos diocesanos. O papa chegou a afirmar que, sendo receptivo para com protestantes que não são católicos, porque não seria também para com a Fraternidade São Pio X, que é católica! Foi assim que ele determinou que os padres da Fraternidade estavam aptos para ouvir confissões e para assistir validamente aos casamentos.

Os padres da Fraternidade e todos os que gravitam em torno dela, sabem perfeitamente que suas confissões e seus casamentos são válidos, e que não precisavam dessas autorizações do papa para exercerem válida e licitamente o seu ministério sacerdotal. Estas disposições eram, no entanto, importantes para que os bispos aceitassem este fato, e para que os fiéis não tivessem medo de se aproximar dos nossos sacramentos. Por outro lado, esta nova situação não era isenta de perigos para o nosso combate. De fato, as coisas se tornavam mais ambíguas e alguns sacerdotes da Tradição não aceitaram bem estas novas disposições do papa, com medo de serem envolvidos na trama da legalidade que os poderia conduzir àquela armadilha de caírem na aceitação do concílio. Era preciso muito cuidado e atenção para manter a fé, o afastamento das novidades do concílio, e a liberdade a duras penas conquistada na prática da Tradição. De um modo geral, após um início tenso e temeroso, a situação se estabilizou, e conseguimos guardar o bom espírito no combate pela fé.

O que de fato aconteceu foi um aumento significativo de novos fiéis nos nossos centros de missa, nossas capelas e Priorados. A Tradição saía da toca, por assim dizer, mostrava-se à luz do dia, ocupava um espaço na vida dos católicos.

Após esses anos em que as perseguições contra a fé haviam diminuído de intensidade, eis-nos de volta à lide. Como nos tempos das grandes perseguições romanas, também para nós a perseguição aumenta e diminui, segue em vagas de maior ou menor intensidade. Felizmente, em todas elas, cada vez que as autoridades de Roma se levantam contra os defensores do dogma, constatamos um aumento do interesse pela verdadeira fé e pela Tradição, um movimento de conversão, de retorno ao catolicismo dos santos.

Devemos reconhecer que o próprio Papa Francisco ajudou muito este movimento de conversão ao produzir em seus Sínodos e em suas declarações situações repetidamente escandalosas, o que levou muitos bispos e cardeais a se levantarem, pela primeira vez desde o Concílio, contra o papa reinante. No Sínodo da Família, em 2015, vimos alguns bispos se unirem no lançamento de um livro contra aquele escândalo que aprovara a recepção da comunhão sacramental por pessoas divorciadas e vivendo em adultério. Em 2019, foi a vez do escândalo ainda maior do Sínodo da Amazônia, que levou o Vaticano a promover o culto pagão da Pacha Mama dentro dos seus muros, e a escandalosa religião pagã do ecologismo amazônico.

Nas dioceses os escândalos são igualmente constantes. A cidade do Rio de Janeiro foi palco de uma missa escandalosa na morte de certo artista homossexual, aplaudida por toda a mídia, e aprovada pelo cardeal arcebispo da cidade. Em toda parte, bispos desobedecem à disciplina ainda vigente nas Congregações romanas e celebram casamentos entre pessoas do mesmo sexo, sem que o Papa Francisco dê os ares de sua indignação. Mas esse tipo de situação dura há mais de 50 anos, e a lista de escândalos encheria muitos livros. Para Francisco nada disso tem importância: o grande perigo é a missa católica, é a Tradição.

A reação de alguns bispos tem sido ainda mais forte. Alguns se aproximaram ainda mais da Fraternidade São Pio X, passaram a elogiar a Dom Marcel Lefebvre e sua obra, como é o caso do Mgr. Schneider e de Mgr. Viganò. Por mais que estes bispos não comunguem em todos os pontos com a defesa da fé mantida pelos padres e fiéis da Tradição ao longo dos últimos 60 anos, já é um consolo saber que eles não nos atacam, e hoje compreendem nosso combate.

O Motu Proprio Traditionis Custodes representa um retrocesso calculado e frio, um ataque frontal contra a missa católica, inspirado por alguma força infernal assustada com o constante retorno das almas às práticas religiosas da Tradição católica.

As intenções apresentadas pelo papa no início deste documento parecem querer desfazer uma situação criada pelo Motu Proprio Summorum Pontificum, de Bento XVI, o qual deu autonomia a todos os padres para celebrarem a missa de sempre, independentemente da autorização do bispo diocesano. Na prática, esta independência dos sacerdotes não se verificou, e os bispos sempre determinaram se haveria ou não a missa tridentina, quando, onde, e por qual sacerdote ela seria celebrada. Ao anular esta prerrogativa, Francisco dá um golpe na própria existência da missa dentro da Igreja, relegada por ele a uma peça de museu, a qual só poderá ser retirada do armário para uso, dentro de condições quase impossíveis.

A partir daí, o Papa Francisco demonstra que seu documento não pode ser considerado um documento papal, objeto do magistério da Igreja Católica. E todas as colocações que ele faz sobre a unidade da Igreja, sobre a guarda da tradição e o bem dos fiéis, só farão sentido se considerarmos que ele não fala ali da Igreja Católica, Apostólica e Romana, mas tem em mente outra instituição, essa falsa igreja de Vaticano II que usurpa o lugar da Igreja Católica. Traditionis Custodes é um documento da Outra.

Os demônios vivem nas trevas, na mentira, no mais profundo orgulho, e por isso não enxergam muito bem as consequências dos seus golpes malignos e erram muitas vezes. Acreditamos que não será diferente com o Motu Proprio do Papa Francisco. O êxodo de fiéis na procura pela Religião Católica, a verdadeira, só fez aumentar depois desta atitude do papa. Uma hora veremos Nosso Senhor Jesus Cristo manifestar a verdade sobre a sua Igreja diante de todo o mundo, e a fé católica voltará a brilhar para todos. Diremos, enfim: vejam! Não estamos sós, valeu a pena esperar por tantos anos, Nosso Senhor Jesus Cristo combate por nós, pela verdade e pela Santa Igreja.

Terminamos este Editorial com a citação que Gustavo Corção usou ao terminar o seu O Século do Nada:

“Que fazer? Lutar. Combater. Clamar. Guerrear. Mas lutar sabendo que lutamos não somente contra a carne e o mundo, mas contra o principado das trevas. É preciso gritar por cima dos telhados que, se o cristianismo se diluir, se a Igreja tiver ainda menos visível o ouro de sua santa visibilidade, se seu brilho se empanar pela estupidez e pela perversidade de seus levitas, o mundo se tornará por um milênio espantosamente, inacreditavelmente, inimaginavelmente estúpido e cruel.

Roguemos, pois, a Deus, com todas as forças; desfaçamo-nos em lágrimas de rogo e gritemos a súplica que nos estala o coração: enviai-nos Senhor, ainda este século, um reforço de grandes santos de grandes soldados que queiram dar a vida, no sangue ou na mortificação de cada dia, pela honra e glória de Nosso Senhor Jesus Cristo. Compadecei-vos, Senhor, de nossa extrema miséria, e sacudi os homens para que eles saibam quem é o Senhor!”

Quem pode ser salvo?

Pauper peregrinus

Para ir para o céu, precisamos de três virtudes teológicas: fé, esperança e caridade. Para convivermos bem com o próximo, porém, qualidades mais básicas bastam: simpatia, doçura, decência e honestidade básicas. Porém, como vemos o próximo e não vemos o céu, as pessoas facilmente imaginam que essas qualidades mais básicas são “o que realmente conta”. Partindo desse pensamento, basta um pequeno salto para supor que todo mundo que não seja um completo canalha provavelmente acabará indo para o céu.

Esse tipo de pensamento é a morte da evangelização. Se nosso irmão não católico, e mesmo não cristão, provavelmente está bem do jeito que está, por que se dar ao trabalho de tentar trazê-lo para a Igreja? Não será melhor deixá-lo em paz, uma vez que, tornando-se católico, terá de crer, fazer e evitar uma série de coisas que até então desconhecia? Por essa lógica, seria cruel levar-lhe a luz!

Obviamente, esse pensamento é ilógico. A verdade nos liberta e o erro nos aprisiona. O Evangelho não é um fardo do qual queremos poupar o próximo; é a graça de Deus e vida eterna. Jesus Cristo não é apenas mais um entre outros, nem mesmo um “caminho privilegiado”, como disse recentemente certo bispo americano: Ele é o caminho para o Pai, e não podemos atravessar esse caminho sem O conhecer.

Infelizmente, o indiferentismo, apesar de ter sido condenado em termos muito severos por vários papas do século XIX, infiltrou-se na Igreja Católica no século XX e tornou-se intelectualmente respeitável. Um dos que reagiram com força contra ele foi o padre jesuíta, Leonard Feeney (1897-1978). Sua história é bem conhecida: insistindo na interpretação literal do axioma “fora da Igreja não há salvação”, ele se tornou um bem sucedido capelão para estudantes na Universidade de Harvard. Pais protestantes estavam irritados ao ver seus filhos convertendo-se a Roma. O Cardeal Cushing, Arcebispo de Boston, sentiu que o Pe. Feeney e seus seguidores estavam se expressando de modo muito enfático e solicitou uma carta do Santo Ofício acerca do caso.

A carta chegou no dia 8 de Agosto de 1949. Ela demonstrava espanto com os ensinamentos do Padre Feeney e explicava que, em certas circunstâncias, uma pessoa poderia fazer parte da Igreja Católica por um “desejo implícito” de pertencer a ela. O próprio Padre Feeney foi convocado a Roma. Antes de ir perguntou, de modo bastante razoável, se estava sendo convocado para um julgamento e, em caso afirmativo, por qual crime seria julgado. Finalmente, em 1953, recebeu sua resposta: um decreto de excomunhão. Ele foi condenado não por faltar contra a fé, mas por recusar as convocações de Roma. Frank Sheed, amigo do padre excomungado e fundador da publicação Sheed & Ward, chegaria a comentar: “O Pe. Feeney foi silenciado, mas não recebeu sua resposta”.

Essa história um tanto trágica transformou-se em farsa em novembro de 1972. Um bispo, enviado da Santa Sé, veio ver o padre, já velho e doente, para buscar sua reconciliação. Alguém sugeriu que o Pe. Feeney e sua comunidade cantasse o Credo Atanasiano. Trata-se do credo que começa com as palavras: “Quem desejar ser salvo, precisa, antes de tudo, ter a Fé Católica”. Quando terminaram o cântico, foi-lhe dito que finalmente se reconciliara com a Igreja. Ele morreu no dia 30 de janeiro de 1977.

É difícil não simpatizar com Leonard Feeney. Nenhum protestante jamais se converteu ao ouvir que poderia perfeitamente estar em ignorância invencível. É dever dos padres explicar aos homens a mensagem divina na sua totalidade, o que inclui o dever de crer nessa mensagem e de entrar na Igreja Católica se quiserem salvar suas almas. “Renunciamos coisas que a vergonha manda ocultar”, dizia São Paulo, “[não] adulterando a palavra de Deus”.

Há, porém, três questões distintas que não podem ser confundidas, embora o sejam com frequência, até por alguns teólogos: (1) É possível salvar-se sem o batismo de água? (2) É possível salvar-se sem ser católico, ou ao menos sem a intenção explícita de se tornar? (3) É possível salvar-se sem a crença explícita em Cristo? No que segue, responderei às perguntas, deixando as posições do Padre Feeney sobre cada uma dessas questões a seus biógrafos.

1. Deixando de lado o caso especial do martírio, que os Padres da Igreja exaltam por seu poder de remover o pecado, podemos dizer que há provas para crer no “batismo de desejo” na Igreja primitiva, mas que ninguém considerava isso um ponto de fé. Os dois Padres mais citados nesse tema são Santo Agostinho e Santo Ambrósio. O Imperador Valentiniano II, que havia bravamente resistido às demandas de senadores pagãos para restaurar sua antiga religião, queria ser batizado, mas morreu violentamente enquanto ainda era catecúmeno. Santo Ambrósio falou, em um panegírico funeral, que ele havia sido lavado por seu desejo, assim como os mártires o são pelo sangue. Ainda assim, o mesmo santo afirma, em outro lugar, ao menos como regra geral, que, embora os catecúmenos já possam crer no poder da Cruz, seus pecados não são lavados sem a água batismal.

Santo Agostinho, em uma obra sobre o batismo, diz que, após refletir sobre o tema, parece-lhe que a fé e a conversão do coração podem suprir o batismo se alguma crise repentina impede que o sacramento seja ministrado antes da morte. Ainda assim, ele, como Santo Ambrósio, também afirma a regra geral de que, por mais avançado que esteja um catecúmeno, não estará livre do peso de seus pecados sem o batismo. Ele não retratou nenhuma das opiniões no fim de sua vida, no livro que escreveu para corrigir erros que haviam sido cometidos em sua extensa obra.

Essa posição nuançada veio a ser adotada no Ocidente de forma geral. São Bernardo, no Século XII, surpreendeu-se ao ouvir pessoas negando peremptoriamente a possibilidade de salvação dos catecúmenos, e Santo Tomás de Aquino concorda com ele. Ainda assim, esse “batismo de desejo”, aparentemente, não é mencionado pelos padres orientais, e sua existência não foi definida pela Igreja. Os católicos estão livres para crer que Deus, de alguma forma, garantirá que todos aqueles predestinados serão lavados nas águas batismais antes de morrerem; mas não podem alegar que isso faça parte da fé.

2. Todos esses santos, porém, referiam-se a católicos catecúmenos. É possível encontrar, em seus escritos, algo que indique que as pessoas batizadas em corpos não católicos podem ser salvas? Dificilmente. Santo Agostinho chega a mencionar de passagem que devemos pensar de modo muito diferente sobre aqueles que cresceram em tais corpos do que aqueles que abandonaram a Igreja para se juntar ou fundá-los. Mas o que devemos pensar deles? Se pessoas nascidas dentro desses grupos são validamente batizadas e recebem os ensinamentos corretos acerca da Trindade ou da Encarnação, e, especialmente, se têm os sacramentos da confissão e da Santa Eucaristia para ajudá-los a obedecer os mandamentos, não podemos excluir a possibilidade de que ao menos alguns deles estejam em estado de graça, e, portanto, que suas almas, embora não seus corpos, estejam na Igreja. Eles seriam como soldados irregulares, combatendo do lado correto, porém sem saber quem são seus comandantes.

3. Quando, porém, se trata daqueles que não conhecem Cristo, não podemos ter sequer essa esperança incerta. Aquele que tem o Filho tem a vida; aquele que não tem o Filho não tem a vida. Não podemos nos tornar amigos de Deus, salvo ao aceitar Sua oferta de perdão. Antes da Sexta-Feira Santa, a humanidade foi convidada a aceitar a redenção que viria um dia. Desde a Sexta-Feira Santa, a humanidade é convidada a aceitar a redenção que já chegou: mas ninguém pode fazer isso sem ter ouvido sobre o Redentor. Como poderão crer nAquele de quem não ouviram, indaga São Paulo. Até mesmo o Papa João Paulo II, apesar de seus encontros transviados em Assis, declarou em seu ensinamento oficial: “A distinção entre a fé teológica e o tipo de crença das outras religiões deve ser mantida com firmeza” (Dominus Iesus, 17). E, como o Concílio de Trento ensina, ecoando São Paulo, a fé teológica é necessária para que o homem seja justificado e agrade a Deus.

Ainda assim, essas pessoas, sendo detentoras do Espírito Santo, responderão, mais cedo ou mais tarde, à pregação da Igreja, de Quem Ele é a alma. O que é mais uma razão para que os pastores da Igreja os convidem de volta ao lar! É impossível aprovar o costume moderno de padres e bispos católicos de pregar a grupos de não católicos e não fazer esse convite.

Fora da Igreja, não há salvação. Os teólogos podem oferecer explicações aqui ou ali sobre essas gloriosas palavras. Mas os pregadores, como Noé, deveriam simplesmente convidar os homens a entrar nela antes que seja tarde demais.

(The Angelus, Maio 2022)