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CAMPANHA DE ROSÁRIOS PELAS ELEIÇÕES

 

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Índice de autores

O século da guerra total

Diane Moczar

 

A virada do século XX, abarcando por um lado a década de 1890 e o início dos anos 1900 por outro, foi sob alguns aspectos um período vertiginoso e otimista. A ciência e a tecnologia alimentavam sonhos de uma sempre crescente prosperidade; viagens de longa distância eram mais fáceis e comuns; uma nova forma de música popular tornava-se mais acessível às massas, juntamente com outros meios de entretenimento. Esperava-se uma feliz e pacífica era de progresso. No entanto, o que dizer da visão terrível de Satanás e sua investida de cem anos contra a Igreja, revelada ao Papa Leão XIII em 1884? E como é que, em 1903, São Pio X foi capaz de cogitar se “o Filho da Perdição, de quem falou o Apóstolo, já poderia estar vivendo sobre a Terra”?

Considerando tudo o que veio a acontecer, é claro que aquele otimismo sobre os novos tempos mostrou-se completamente equivocado, pois o século XX produziu, um após outro, pesadelos de horror e sofrimento jamais vistos. Mesmo antes da eclosão da Primeira Guerra Mundial, vários chefes de Estado, tanto na Europa quanto na América, tinham sido assassinados por anarquistas, e no subterrâneo de muitos países os movimentos revolucionários iam ganhando terreno. Haviam se deteriorado as relações entre a Igreja e o Estado francês, entregue a um secularismo militante; ordens religiosas eram perseguidas e suas escolas, fechadas; políticos anticlericais substituíam oficiais militares de atestada competência, porque católicos. Sucessivas crises começavam a absorver a atenção de alguns Estados europeus, mas foram poucos os que as enxergaram como presságios de um futuro cataclisma. Em 1904, o Japão lança um ataque-surpresa contra a Rússia, e em 1905 já a havia derrotado. Que fosse possível ao império dos czares sofrer tão rápido fiasco para tão minúsculo oponente, foi decerto um choque para os russos e para todo o mundo, e ocasião para que refletissem bastante os diplomatas da Europa. No imediato pós-guerra, as perturbações produzidas por esse breve conflito fizeram escassear a comida e abundar os tumultos agrários dentro da Rússia, culminando num surto de revolução ainda em 1905.

O barril de pólvora dos Bálcãs, como era de se esperar, espocou assustadoramente no início do século, à medida que as Guerras Balcânicas finalmente expeliam da Europa os turco-otomanos. A Sérvia tinha planos de um império próprio sobre as ruínas do Império Otomano, e os próprios turcos resvalavam para uma insurreição ou até revolução, enquanto desaparecia do mapa o remanescente de seu império — desde a Líbia, passando por Creta, até a Península Balcânica.

A Áustria-Hungria se defrontava com minorias cada vez mais insubmissas dentro de suas fronteiras, todas exigindo alguma forma de autonomia, seja lá qual fosse sua capacidade de existência independente. A Alemanha pós-Bismarck estava mais militante (e militarizada) do que nunca, montando uma frota que fizesse páreo à da Grã-Bretanha e tecendo alianças com a Itália e a Áustria-Hungria — e depois com a Turquia — para se contrapor ao “entendimento” diplomático (entente) de ingleses, franceses e russos. A maior parte dos Estados até aqui mencionados, e outros tais como a Bélgica e a Holanda, tinha também suas empresas coloniais, que os faziam cada qual adversário de todos os demais. Pacífico não era o melhor adjetivo para aquele sofisticado mundo da valsa, da opereta e da carruagem motorizada.

 

A Grande Guerra

Esse cataclisma, que passaria a ser chamado Primeira Guerra Mundial quando adveio a Segunda, parece ter sido, para o Ocidente, um choque que a todos pegou despreparados. Sua origem lembrava o início da última grande guerra européia, a dos Trinta Anos, começada 300 anos antes, em 1618, quando a Boêmia, na Europa Oriental, revoltou-se contra o domínio dos Habsburgos. A Grande Guerra teve início quando um membro de uma organização revolucionária sérvia, a Mão Negra, assassinou um arquiduque de Habsburgo na Bósnia, então controlada pela Áustria. Em ambos os casos, os austríacos tentavam lidar com o que parecia ser uma questão meramente regional, para então descobrir que outros países começavam a se somar à briga tão logo ela tinha começado.

Não cabe aqui entrarmos nos detalhes da Primeira Guerra Mundial, mas eles estão prontamente acessíveis em qualquer livro didático. A Áustria queria que a Sérvia entregasse ou punisse o grupo de assassinos e reivindicou o direito de entrar na Sérvia para supervisionar esse esforço. A Sérvia, entretanto, na esperança de formar seu próprio império balcânico e eliminar dali a presença austríaca, começou a se mobilizar, contando com o apoio de sua aliada, a Rússia. Quando os sérvios rejeitaram o ultimatum de Viena, navios austríacos bombardearam Belgrado, fazendo questão de dizer que não estavam invadindo território sérvio; certamente a Áustria não queria que o conflito escalasse e a Rússia fosse trazida para a questão, mas também sabia contar com o suporte de sua aliada Alemanha. A Rússia havia começado a mobilizar parcialmente suas tropas, uma vez que o Czar Nicolau II esperava que isso detivesse ulteriores agressões da Áustria. Seu Estado-maior o persuadiu a ordenar uma completa mobilização, à qual a Áustria respondeu com uma mobilização também completa. França, Inglaterra e outros países correram para organizar suas políticas. A Alemanha, aliada da Áustria, ordenou então à Rússia que interrompesse a mobilização de suas tropas dentro de 12 horas (o que era impossível, ainda que a Rússia o quisesse). Uma vez desatendida a exigência, a Alemanha declarou guerra em 1º de agosto e começou a executar um plano de batalha previamente elaborado, que envolvia atacar a França através da Bélgica e de Luxemburgo.

É espantoso, mas os poderes ocidentais estavam despreparados para esse desenrolar, não obstante os muitos sinais de alerta, diplomáticos e militares, que chegavam da Alemanha. Apesar disso, nas grandes capitais como Paris e Londres, a guerra despertou grande entusiasmo. Os franceses, em particular, estavam sedentos de vingar sua derrota na Guerra Franco-Prussiana e recuperar a Alsácia-Lorena. A Grande Guerra, entretanto, seria diferente de tudo o que a Europa tinha visto até então. Há relatos de jovens oficiais de cavalaria franceses, rindo e brandindo no ar suas espadas ao atacar as linhas alemãs, para em seguida encontrar a morte instantânea: ninguém lhes havia contado das novas armas, as metralhadoras. O gás tóxico foi outra novidade dos eficientes alemães, e seus tanques eram monstros mecanizados que nenhum outro país podia igualar. O longo embate de trincheiras foi um traço fundamental dessa guerra que, de início, todos pensaram resolver numas poucas semanas. Um só período dessa guerra de quatro anos fez um espantoso número de vítimas: de março a dezembro de 1916, o impasse entre alemães e franceses próximo a Verdun causou aproximadamente 400.000 mortes, e quase o dobro de homens feridos ou intoxicados pelos gases venenosos. Entre julho e dezembro daquele mesmo ano, na Batalha do Somme, Grã-Bretanha, França e Alemanha sofreram mais de um milhão de baixas, e ainda assim a linha de batalha moveu-se apenas sete milhas — o que totaliza duas mortes e meia por polegada.

Nações trocaram de lado ou retiraram-se de campo durante os quatro longos anos de guerra. A Itália deixou a Tríplice Aliança, na qual tinha sido parceira da Áustria-Hungria e da Alemanha, e passou a ladear com os Aliados em 1915. A Rússia, após a revolução que em breve abordaremos, retirou-se da guerra em 1917, enquanto os Estados Unidos nela entraram no princípio de 1918. Desde o começo, uma paz negociada deveria ter sido possível. Isso teria desmoralizado os militares alemães, mas o governo imperial permaneceria intacto, o que bem poderia ter evitado a futura ascensão de Hitler. A Alemanha, todavia, queria uma derrota definitiva da Grã-Bretanha e da França, e não estava aberta a negociações; por seu turno, em 1915 os Aliados tinham prometido terras à Itália caso ela abandonasse a antiga aliança, e precisavam de mais tempo para cumprir tal promessa. Também eles queriam uma vitória completa sobre a Alemanha e não estavam propensos a barganha. É certo que o Papa Bento XV insistia pela paz, mas era visto como pró-germânico e os franceses se ressentiam de sua recusa a admitir a culpa maior da Alemanha em invadir vizinhos pequenos e indefesos como a Bélgica e Luxemburgo. Suas exortações propendiam a vagas propostas idealistas de desarmamento geral, de todo irrealistas e inúteis naquelas circunstâncias.

 

Um Trágico Imperador

O único chefe de Estado que se esforçava ativamente a promover uma paz exeqüível era o jovem e recém-coroado imperador da Áustria-Hungria. Francisco José havia enfim morrido em 1916, após um longuíssimo reinado: tinha subido ao trono durante as revoluções de 1848. Sua família parecia perseguida pela violência. Em 1853, quase foi assassinado a faca por um revolucionário, mas salvou-o uma improvável comitiva formada por um conde irlandês e um açougueiro austríaco que passava na hora. (Ambos foram recompensados, o açougueiro elevado à nobreza.) Um a um, o imperador foi vendo seus herdeiros sofrerem mortes violentas. Seu único filho, Rodolfo, ou foi assassinado ou cometeu suicídio em Mayerling em 1889; um de seus irmãos, Maximiliano, havia sido executado no México algumas décadas antes, e outro morreu de intoxicação por água durante uma peregrinação à Terra Santa. Sua amada esposa, Isabel, morreu esfaqueada por um anarquista em 1898, e a morte de seu sobrinho, o Arquiduque Francisco Ferdinando, foi o estopim da Grande Guerra. Agora, enfim, era o próprio imperador veterano que partia, deixando como herdeiro seu sobrinho-neto Carlos (beatificado em 2004). Carlos estava disposto a negociar com os Aliados e até mesmo a abrir mão de algum território austríaco em prol da paz, mas não encontrou qualquer cooperação por parte das grandes potências. Suas mensagens ao governo francês ficaram sem resposta. O Presidente Wilson, um idealista antipático à monarquia, sequer chegou a ouvir suas propostas — com o fundamento, ao que parece, de Carlos não ter sido eleito. E assim a guerra seguiu seu curso mortífero até o armistício em 1918.

 

A Revolução Comunista na Rússia

Há mais de uma semelhança entre a Revolução Francesa de 1789 e a Revolução Russa de 1918, e alguns dos participantes desta pareciam muito conscientes desse fato. Lênin perguntou, quando a revolução começou a ter sucesso: “Onde vamos conseguir nosso Fouquier-Tinville?” Aquela sinistra figura tinha sido promotor público durante o Terror, legendário por sua cruel dedicação à causa revolucionária.

Reza a lenda da Revolução Russa que, de tão depauperado e miserável, o povo russo finalmente rompeu suas cadeias, derrubou o governo opressor e conquistou a própria liberdade. Nada mais distante da verdade. Em primeiro lugar, nunca é “o povo” quem faz revoluções; em segundo, a Rússia, na década anterior à Grande Guerra, e apesar dos problemas causados pela Guerra Russo-Japonesa de 1905, experimentara uma prosperidade sem precedentes. Isso se deveu principalmente a um ministro czarista chamado Pedro Stolípin, brilhante e realista, que conseguiu mudar o antiqüíssimo sistema agrícola, gerador de estagnação e ineficiência extrema, no qual as terras dos camponeses não lhes pertenciam, mas sim às inflexíveis comunas dos vilarejos. Foi tão exitoso o programa de privatização de terras arrendadas promovido por Stolípin, que em 1913 os camponeses já superavam a produção dos proprietários de terras mais extensas, empurrando-os para fora do mercado. Não apenas o consumo doméstico aumentou, mas também as exportações — a uma formidável taxa de 61% em relação aos primeiros anos do século. A poupança dos camponeses também cresceu vertiginosamente, e os investimentos estrangeiros afluíam para a Rússia. Tragicamente, antes de concluir suas grandes reformas da economia russa, Stolípin foi assassinado a bala por um revolucionário enquanto assistia a uma ópera em 1911. Fez o Sinal da Cruz, saudou o czar, que estava no camarote real, e desfaleceu dizendo: “Fico feliz de morrer pelo czar.”

Stolípin era praticamente insubstituível, e pari passu com a crescente agitação revolucionária e a deriva do país rumo à Grande Guerra, uma nova e demoníaca personagem conquistava a confiança da família real, e talvez tenha feito mais que Lênin ou Trotsky para destruir a Rússia dos czares. Parecia possuir poderes paranormais e havia, de fato, profetizado a morte de Stolípin; seu nome era Raspútin. O czar era um homem manso, avesso a contrariar, o mínimo que fosse, a vontade enérgica da esposa, de modo que, quando Raspútin, supostamente um santo, provou-se capaz de estancar o sangramento de seu filho hemofílico, a czarina Alexandra dispôs-se a fazer tudo o que ele dissesse — e a garantir que o fizesse também seu marido. Mesmo quando o czar estava com suas tropas no front e a guerra ia mal para a Rússia, habilidosos ministros do governo eram substituídos por inábeis camaradas de Raspútin. Foi, enfim, morto — por um grupo de fidalgos que não viam outra maneira de salvar a Rússia — no curso de uma noite longa e medonha, na qual várias vezes se pensou que ele já houvesse morrido, apenas para vê-lo soerguer-se de novo e de novo, obrigando a repetição daquela tarefa extenuante e desagradável.

Como é notório, a morte dessa que foi uma das mais bizarras personagens da história não bastou para salvar a Rússia. Era tarde demais, e a abdicação do czar e o estabelecimento de um governo provisório (de esquerda) tampouco trouxeram estabilidade. Os comunistas de Lênin tomaram o poder em outubro (novembro de nosso calendário) de 1917. Um dos primeiros movimentos de Lênin foi retirar a Rússia da guerra, ao preço de vastos territórios cedidos às potências centrais. O czar e sua família foram primeiro aprisionados em março de 1917, enquanto os revolucionários debatiam se e quando deviam assassiná-los. Foi só mais de um ano depois, em julho de 1918, que Lênin finalmente ordenou a execução da família inteira. A família real, seus filhos e criados foram mortos cruelmente; muitos pereceram lentamente das feridas a faca ou dos crivos de bala. Nascia a União Soviética.

 

Pensamento e Cultura no Século da Guerra Total

O maior dos males que afligiram a Igreja no início do século XX foi o modernismo, que já começara a emergir no fim do século anterior. A maior consolação da Igreja no século XX foi — ou deveria ter sido e ainda ser — Fátima. Examinaremos a história inicial de ambos os fenômenos, que continuarão relevantes na seqüência da história do século XX.

 

O Modernismo

Os primeiros estrondos do pensamento modernista remontam àqueles protestantes do século XIX que começaram a aplicar à religião os postulados do darwinismo. Se, como tudo o mais, também a religião evoluía, então não era mais necessário acreditar em doutrinas fixas. O modernismo era “a síntese de todas as heresias”, como viria a chamá-lo São Pio X.

Um de seus principais expoentes foi o Pe. Alfred Loisy, sacerdote francês que esteve entre os primeiros católicos (coisa que algum dia ele chegou a ser) a escrever livros que infundiriam o modernismo em seminários, escolas e almas católicas. O Pe. Loisy havia sofrido a influência de Adolf von Harnack, um protestante liberal e modernista, o que é um exemplo, entre muitos, da infiltração dessa insidiosa heresia, a partir de sua versão protestante original, no interior da Igreja Católica. Dizia esse rebento francês do modernismo que, em parte, Harnack estava correto em sua teoria de que Nosso Senhor não pretendia formar uma Igreja organizada — ao menos não da forma como, à época, para o desagrado do Pe. Loisy, ela estava organizada. Pensava que Cristo não podia saber como a Igreja evoluiria após Ele deixar a Terra; sustentava também que Ele não Se sabia consubstancial ao Pai, idéia esta que só teria surgido muito depois, no Concílio de Nicéia. (Ainda se encontra, entre católicos “liberais”, a idéia de que Nosso Senhor não tinha conhecimento de quem Ele era, ou do futuro, ou de quase coisa alguma.) Loisy escreveu também, em 1904, que considerava “o nascimento virginal e a ressurreição meros símbolos morais.”

Para os modernistas, tudo que pensávamos crer não passava, na realidade, de algo provisório, uma vez que o dogma “evolui” constantemente. Cada nova geração tem de descobrir e criar suas próprias noções teológicas, porque doutrinas solenemente definidas são tolas e ultrapassadas. Não é difícil notar que essa doutrina poderia destruir a fé de inumeráveis almas. A influência de Loisy espalhou-se não apenas na França, mas também na Inglaterra, onde seus mais famosos seguidores foram o barão Friedrich von Hügel e o jesuíta Pe. George Tyrrell.

 

A Ascensão de São Pio X ao Papado

O Papa São Pio X sucedeu a Leão XIII em 1903. Não nutria ilusões a respeito da crise que se avolumava na Igreja e no mundo, e em sua primeira encíclica, E supremi apostolatus (sobre a Restauração de todas as coisas em Cristo), referiu-se ao “terror” que experimentava em considerar a condição funesta da humanidade por causa de sua apostasia para com Deus. Caracterizou essa condição como “essa detestável e monstruosa iniqüidade, própria do tempo em que vivemos, pela qual o homem se substitui a Deus”. Temia também “que uma tal perversão dos espíritos seja o começo dos males anunciados para o fim dos tempos, e como que a sua tomada de contato com a terra, e que verdadeiramente o filho da perdição de que fala o Apóstolo (2 Tess 2, 3) já tenha feito o seu advento entre nós”.

 Jamais podendo tolerar que as águas do poço católico fossem envenenadas pela heresia, pôs-se a incluir os escritos modernistas naquele utilíssimo — mas hoje abolido — índice de livros proibidos para católicos, o Index. Isso não destruiu o modernismo, embora limitasse a exposição do simples fiel aos seus erros; é possível que seus adeptos — que formavam uma panelinha de intelectuais, antes que um movimento popular — se consolassem de se ver como nobres vítimas do obscurantismo. Em todo caso, não desapareceram nem se arrependeram. Como os hereges do passado, queriam eliminar muitas devoções populares caras às massas não-esclarecidas e “democratizar” o governo da Igreja. Desejavam um clero mais pobre e mais simples, e o próprio Loisy parece ter sido a favor da mudança do requisito do celibato clerical. Em paralelo a isso, Paul Hallett escreveu que “o princípio modernista da Imanência Vital, que faz autônoma a consciência, é feito sob medida para um abrandamento no ensino sexual.” (Imanência Vital é a idéia de que o princípio divino está localizado dentro, não fora, do homem, e é a fonte de suas crenças religiosas e morais.)

 

Fontes das Teorias Modernistas

É possível encontrar a maioria dessas idéias em movimentos heréticos que datam desde a Idade Média e perpassam a Reforma, quando produziram e organizaram novas seitas. O que havia de novidadeiro — e aterrador — no modernismo, a meu ver, era precisamente sua adoção da nova teoria evolutiva no campo da doutrina. A idéia modernista é que a doutrina da Igreja está em constante evolução conforme as circunstâncias das sucessivas comunidades cristãs, e que esse processo é inevitável. Tal como na luta de classes marxista, a mudança está em marcha implacável, e não pode ser detida. O problema de Marx era pretender que a mudança estacionasse quando atingida a utópica sociedade sem classes; já os modernistas não parecem ter previsto qualquer ponto de chegada. O caráter inexorável da grande evolução de dogma e práxis reforçava nesses revolucionários da religião o fanatismo, a dedicação e o zelo já exaltados. Consideravam-se parte de um Zeitgeist1 maior do que eles mesmos, do qual eram a um só tempo os instrumentos e os missionários.

 

A Ofensiva Antimodernista de São Pio X

A campanha do Papa São Pio X, que vinha ganhando força desde o início de seu reinado, alcançou o ponto alto em 1907. Em julho daquele ano, o Santo Ofício emitiu o decreto Lamentabili, referido às vezes como “o novo Syllabus”, condenando 65 proposições modernistas. O mesmo ano testemunhou providências contra várias publicações modernistas, além da excomunhão de seus autores; o próprio Loisy seria excomungado no ano seguinte. Em setembro de 1907 publicou-se a histórica encíclica Pascendi. Vale a pena estudar essa brilhante e minuciosa análise da heresia modernista; a condenação das teorias ali discutidas é bem clara, e foi enfatizada e reforçada em documentos papais subseqüentes. Tanto o decreto Lamentabili quanto a encíclica Pascendi parecem atos do Magistério infalível. O juramento antimodernista foi decretado pela Pascendi, e todos os padres, bispos e professores eram obrigados a fazê-lo, até ser abolido por Paulo VI — seja porque achou que já não era necessário, seja porque todos já tinham se tornado modernistas apesar do juramento. Como sabemos, àquela altura os modernistas removeram as pedras sob as quais jaziam adormecidos desde o início do século, e vieram à tona. Seus escritos proliferaram desde o Vaticano II ― tive recentemente o pesar de ler muitos deles enquanto organizávamos a biblioteca da paróquia e eliminávamos a cizânia. É um sinal encorajador, entretanto, que aquele lixo comece a parecer ultrapassado, ao passo que o magistério tradicional segue persuasivo. Certamente os modernistas nem em sonho consideraram que sua sagrada evolução pudesse descambar num retorno à Tradição; teriam náuseas só de pensá-lo. Seria como se os revolucionários franceses contemplassem o seu idolatrado “povo” eleger um rei.

 

Fátima

O que é apresentado a seguir sobre esse importantíssimo evento, a maior aparição de Nossa Senhora nos tempos modernos e, de acordo com a Irmã Lúcia, a última, é um resumo muito breve, porque a história inteira dessas visitas de Nossa Senhora, suas mensagens, e as vidas das três crianças que a viram, exigiriam muitos volumes. O melhor registro, de fato, é a obra em vários volumes, Toute la vérité sur Fatima (Toda a verdade sobre Fátima), do Irmão Michel de la Sainte-Trinité e do Irmão François des Anges. Aqui vamos considerar alguns temas centrais das mensagens e, em particular, sua íntima conexão com eventos históricos — algo inédito na história das aparições marianas. Com efeito, segundo alguns teólogos, os fenômenos de Fátima não pertencem estritamente à categoria de “revelação privada”, devido à natureza das mensagens e ao milagre público e espetacular pelo qual foram validadas.

 

A Resposta de Nossa Senhora à Guerra e à Revolução

Enquanto os descontrolados eventos do século XX precipitavam a Europa, e deveras o mundo, à beira de um abismo de sofrimentos, a Bem-aventurada Virgem Maria entrava em combate na mais espetacular série de visitações celestiais da história. Como a Irmã Lúcia contaria ao Padre Agostinho Fuentes numa entrevista em 1957: “Nos planos da Divina Providência, sempre que Deus vai castigar o mundo, antes esgota todos os remédios. E quando vê que o mundo não faz caso de nenhum deles, então — como diríamos na nossa maneira imperfeita de falar — nos oferece, com 'certo receio', o último meio de salvação, a sua Mãe Santíssima.”

Desse modo, os terríveis castigos que acabamos de pincelar foram acompanhados de extraordinárias visitas de Nossa Senhora a um pequeno vilarejo português, portando uma mensagem para o mundo e para os papas. Em 1916, antes das aparições da Virgem, um anjo, que se chamou a si mesmo de Anjo da Paz e Anjo de Portugal — identificado com São Miguel — apareceu várias vezes a três pastorinhos portugueses: Lúcia, Jacinta e Francisco. Ensinou-lhes orações de reparação e exortou-os a fazer sacrifícios pela conversão dos pecadores, com particular ênfase pelos “ultrajes, sacrilégios e indiferenças” com que Nosso Senhor é ofendido. O anjo se referiu à Sagrada Eucaristia como “horrivelmente ultrajada pelos homens ingratos”. Então, em 13 de maio de 1917, a própria Maria Santíssima apareceu às crianças pela primeira vez, prometendo retornar no décimo terceiro dia dos próximos cinco meses.

 

As Mensagens e o Milagre

As crianças videntes de Fátima sabiam que uma guerra havia começado em 1914, mas não tinham conhecimento do desenvolvimento dos fatos na Rússia, a qual provavelmente ignoravam o que era e onde ficava. Suas vidas concentravam-se agora em seu encontro mensal com a Mãe Santíssima. Na primeira aparição, em 13 de maio de 1917, ela lhes ensinou uma oração e pediu que recitassem o Terço, fizessem sacrifícios pelos pecadores e rezassem pelo fim da guerra. Em junho, durante sua segunda visita, anunciou que Deus queria estabelecer sobre a Terra a devoção ao seu Imaculado Coração. A terceira aparição, em julho, trouxe a famosa visão do inferno e o misterioso “Terceiro Segredo”, que as crianças não deveriam revelar até muito mais tarde. Também encerrou a promessa de que a guerra iria acabar, mas que, se os homens não deixassem de ofender a Deus,

no reinado de Pio XI começará outra pior. Quando virdes uma noite alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai a punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre. Para a impedir, virei pedir a consagração da Rússia a meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja; os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas, por fim o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz.

Nossa Senhora prometeu ainda que em outubro contaria às crianças seu nome e o que queria, e realizaria um milagre que todos poderiam ver. Nos dois meses seguintes, Nossa Senhora repetiu algumas de suas instruções anteriores, continuou a insistir sobre a oração e a penitência, e mencionou novamente o que faria em 13 de outubro. Chegado esse dia, referiu-se a si mesma como a Senhora do Rosário e prometeu que a guerra acabaria e que os soldados logo voltariam para casa. Falou também uma vez mais do quanto que Nosso Senhor estava ofendido pelo pecado e da necessidade de as pessoas reformarem suas vidas e recitarem o Terço diariamente.

Em 13 de outubro de 1917, apenas as crianças viram Nossa Senhora. Além disso, entretanto, viram uma maravilhosa série de quadros no céu em que São José também apareceu. De repente, diante dos olhos de cinqüenta a setenta mil testemunhas que tinham vindo de Portugal e de toda a Europa, aconteceu o famoso Milagre do Sol. O sol parecia girar no céu, emitindo raios coloridos, e depois despencar em direção à Terra, aterrorizando os espectadores antes de retornar ao seu lugar e estado normais. Temos o relato de um repórter agnóstico, feito para um jornal socialista, que tinha ido lá preparado para narrar uma fraude e acabou tendo de admitir que havia visto um milagre. Com louvável honestidade, sua reportagem descreveu o fato em detalhes. O testemunho de observadores céticos, somado ao fato de que pessoas a milhas de distância do local também observaram o fenômeno, descarta a hipótese de alucinação coletiva. Nossa Senhora havia fornecido uma prova espetacular da autenticidade de sua mensagem.

 

Após as Aparições

O povo de Fátima levou a sério a mensagem de Nossa Senhora, ao menos por um tempo, e ela cumpriu sua promessa. Portugal havia permanecido neutro no estalar da Grande Guerra, mas em 1916 concordou com um pedido britânico de apreender navios alemães em portos portugueses e vendê-los à Inglaterra. Isso acarretou que a Alemanha e a Áustria-Hungria declarassem guerra a Portugal, de forma que o pequeno país estava assim obrigado a enviar seus soldados para lutar contra os alemães em dois fronts: em suas colônias na África Oriental e na França. A primeira baixa portuguesa na França ocorreu em abril de 1917, o mês anterior à primeira visita da Bem-aventurada Virgem às crianças. A guerra acabou no ano seguinte.

No decorrer do século XX, os pedidos de Nossa Senhora não seriam atendidos, e todas as suas profecias se cumpririam. O Império Comunista tomou conta da Rússia, ameaçado apenas por uma tímida tentativa de intervenção dos Aliados ao término da Guerra, em 1918. Naquele mesmo ano, o mundo foi atingido pela maior pandemia de influenza da história. Milhões pereceram da doença mundo afora, alguns em menos de 24 horas. Muitos, não se sabe quantos, morreram por infecções secundárias ou complicações causadas pela gripe. Entre as tropas americanas, foi a influenza, e não os combates, que causou a maioria das baixas de guerra.

 

Paz Atrai Guerra

O tratado de paz de 1919, assinado no ano seguinte à derrota das potências centrais, foi uma receita para conflitos futuros. Muito ao contrário das cláusulas do Congresso de Viena de 1815, lenientes que foram com a derrotada França (país que nos legara as guerras da Revolução e as napoleônicas, que juntas custaram à Europa milhões de vidas e farta destruição), os tratados da Primeira Guerra foram desnecessariamente vingativos e severos ― em grande parte graças a Woodrow Wilson, ideólogo liberal e calvinista, em seu ódio ao que chamava de “autocracia”. Depois de implementar, a seu ver, “um mundo seguro para a democracia”, Wilson queria certificar-se de que esse mundo de fato se tornaria democrático, e de que uma estrutura internacional surgiria para assegurar aquela nova ordem mundial. A Liga das Nações materializou esse sonho, mas bastaria pouco mais de década para tornar-se um irrelevante fracasso, enquanto o pobre Wilson gastava sua saúde tentando converter seus conterrâneos do isolacionismo e persuadi-los a apoiar aquele projeto. No fim das contas, morreu frustrado.

Foram derrubadas duas das grandes monarquias da Europa: os Hohenzollerns na Alemanha e os Habsburgos na Áustria-Hungria, tradicionais elementos de estabilidade dentro de seus territórios. Naturalmente, ninguém queria que o Kaiser Guilherme II seguisse no trono. Ele se retirou para a Holanda, de onde continuou a aborrecer sua família (por exemplo, ao casar-se inesperadamente com uma criada). Entretanto, havia outros membros da família que poderiam ter governado — e estabilizado — um país que até então jamais conhecera outra forma de governo. (O sábio Congresso de Viena havia permitido que os Bourbons continuassem a governar a França após sua derrota.)

A paz de 1919 resultou num catastrófico redesenho do mapa europeu, em parte pelo desejo de punir o perdedor como jamais fora punido nenhum outro inimigo (exceto talvez a Cartago dos tempos de Roma), e em parte pela fanática devoção de Wilson à “autodeterminação dos povos”, baseada na etnia ou — caso isso fosse muito difícil — ao menos numa língua comum. A Hungria, parceira da Áustria no Império Austro-Húngaro, embora gozasse de autogoverno no interior do império, não podia exercer uma política externa independente. Pouco importava: devia ser punida (por causa das políticas austríacas) com a perda de dois terços de seu antigo território — algo exorbitante para qualquer critério de compensação. O fator decisivo, é claro, foi a dedicação de Wilson à causa tribalista, uma vez que as áreas extirpadas da Hungria foram organizadas em estados nacionais segundo padrões étnicos ou lingüísticos.

Assim, entregou-se à Romênia o extenso território húngaro da Transilvânia, sob o pretexto de que estava repleta de romenos. Regiões onde viviam eslovacos, incluindo Pozsony, capital húngara na Idade Média, foram arrancadas da Hungria; mas Wilson não parou por aí: já que eslovacos e tchecos falavam línguas do mesmo ramo eslavo, Wilson resolveu amalgamá-los, apesar de suas muitas outras diferenças, incluindo a religião, e assim fez surgir uma nova criação: a Tchecoslováquia. Pela mesma razão, formou a Iugoslávia a partir de vários grupos étnicos e religiosos muito diferentes. Por toda a Europa Oriental, estabeleceram-se pequenos e instáveis nações-Estado, às quais se ordenava formarem democracias, querendo ou não. Wilson cogitou unir Alemanha e Áustria, relacionadas que são por etnia e língua, mas parece que recuou ante o vislumbre de que isso pudesse vir a criar, bem no meio da Europa, uma grande potência católica influenciada pelo papado. A Áustria, mutilada, tinha de se tornar uma república. A autodeterminação, por algum motivo, não se aplicava à Ucrânia, que almejava libertar-se do domínio soviético: para tanto, diziam-lhes, bastava que os ucranianos confiassem na nova Liga das Nações. Esta, contudo, tinha acabado de ceder a Alta Silésia e sua população alemã à Polônia, mostrando quão obscuros eram os princípios que orientavam sua atuação.

Que países novos e pequenos, com sistemas de governo pouco familiares, se tornariam presas fáceis da próxima grande potência que se constituísse nas redondezas, deveria ter sido óbvio; e assim aconteceu: caíram primeiro sob a Alemanha ressurgente, e depois sob a União Soviética. A injustiça das condições impostas em termos de território e sistema de governo gerou um amargo ressentimento, que produziu em alguns casos revoluções e, em outros, uma disposição para se aliar à primeira potência que prometesse um novo acordo. As áreas do continente europeu onde se travara o conflito armado (o que ironicamente não incluía a Alemanha, cujo solo não fora palco de nenhuma grande batalha) haviam sofrido intensa destruição, e todos os países envolvidos na guerra amargaram baixas sem precedentes: metade dos jovens franceses — dois milhões deles — pereceram ou foram mutilados. Logo após as últimas batalhas da guerra, veio a epidemia de influenza em 1918, trazida inadvertidamente por tropas americanas vindas do Kansas, onde começou como gripe aviária, sofreu mutação para gripe suína, e depois, já na Europa, evoluiu de novo para sua forma mais letal. No mundo inteiro, a gripe afetou quase um bilhão de pessoas, das quais 20 a 40 milhões morreram; 85% dos mortos de guerra americanos (43 mil) sucumbiram para a influenza.

 

O Sofrimento da Alemanha

Na maioria dos países europeus do pós-guerra, a inflação esteve nas alturas. De todos, o mais atingido foi a Alemanha. Sobrecarregada com as esmagadoras reparações que lhe foram impostas, sua economia era incapaz de lidar com os custos da derrota. Em 1923, um obscuro e fracassado pintor tentou [A1] arrebatar o poder com um discurso delirante numa cervejaria da Bavária. Preso, gastou seu tempo na cadeia escrevendo um livro chamado Mein Kampf2, em que descrevia um detalhado programa de governo, seguido ao pé da letra quando, mais tarde, subiu ao poder. É uma pena que, aparentemente, nenhuma liderança política, dentro ou fora da Alemanha, tenha se preocupado em lê-lo. Pelos meados da década de 1920, o país se recuperava, parcialmente estimulado por investimentos e ajuda econômica dos Estados Unidos, e em 1926 foi admitido na Liga das Nações. Veio então a Grande Depressão de 1929 e o investimento americano cessou. Todos os países, exceto a União Soviética, sofreram com aquele colapso capitalista, que espalhava desemprego em massa e desordem econômica generalizada. Na Alemanha, a situação instável catapultou o pintor frustrado (e agora ex-presidiário) a uma posição no governo, e depois à presidência — com 88% dos votos. Seu nome, é claro, era Adolf Hitler.

Hitler conseguiu dar uma guinada na economia alemã dentro de algumas semanas; construiu o grande sistema de rodovias, incentivou o desenvolvimento de um “carro do povo” (a Volkswagen) e fortaleceu as forças armadas dentro dos estritos limites impostos pelo Tratado de Versalhes. Por meio de um acordo secreto com os soviéticos, ainda desenvolveu tanques, a força aérea (que os Aliados haviam proibido) e pesquisas clandestinas com gás tóxico em solo russo. Anexou a Áustria, lançando mão de uma série de ações coordenadas, que incluíram a organização de grupos nazistas dentro do país vizinho e o envio de tropas para além da fronteira pouco antes de um plebiscito sobre a independência austríaca ― e isso ele fez apelando ao princípio wilsoniano de que povos com idêntica origem étnica e lingüística deveriam pertencer ao mesmo Estado. Encampou também a zona alemã da Tchecoslováquia (a Região dos Sudetos), e depois o país inteiro. Quando invadiu a Polônia em 1939, dividindo seu território com o aliado Stálin, que atacava pelo leste, os Aliados — a princípio, naquele momento, Grã-Bretanha e França — decidiram contê-lo, mas já era tarde; constatava-se, afinal de contas, que a Primeira Guerra Mundial não tinha sido “a guerra para pôr fim a todas as guerras”.

 

A Segunda Grande Guerra

Nada de mais aconteceu no primeiro ano do conflito, que o povo já alcunhava de “guerra de araque”. A França estava completamente despreparada para o confronto, apesar dos repetidos apelos do Marechal Pétain, herói da Primeira Guerra, para que se modernizassem as forças armadas. Um governo pacifista, dominado por socialistas, comandara o país durante os anos 30, e quando, em 1940, Hitler desencadeou sua “guerra-relâmpago” em todas as direções (a Blitzkrieg), aqueles governantes indecisos e amedrontados quiseram se livrar da responsabilidade pelo iminente fiasco. É que, para proteger a França de uma invasão, aqueles homens haviam confiado em nada mais que uma série de fortificações na fronteira oriental, conhecida como Linha Maginot; os alemães só tiveram de contorná-la. Após uma peregrinação a Notre Dame ― tão solene quanto burlesca, considerando as suas convicções ateístas e maçônicas ― os membros do governo, como que para mostrar que tentavam de tudo, decidiram entregar o poder ao Marechal Pétain, já então com mais de 80 anos.[A2]  Um terço da França, Paris inclusive, estava em pleno processo de ocupação pelo inimigo. Centenas de milhares de soldados franceses terminariam em campos de concentração alemães. Esses militares capturados e a população civil das regiões ocupadas formariam uma multidão de reféns, cujas vidas dependiam do que Pétain viesse a fazer.

O marechal se deu conta de que a França não conseguiria continuar lutando; entretanto, um oficial esquentado e insubordinado chamado Charles de Gaulle dizia ser possível manter a resistência com o exército francês na África. Pétain, com sua experiência militar vastamente superior, sabia que aquela parte do exército precisava ser grandemente reforçada antes de qualquer confronto com os alemães; para ganhar tempo, assinou um armistício com Hitler. O sul da França, que ainda estava livre da ocupação inimiga, assim permaneceria ― incluindo a costa mediterrânea, que Hitler desejava mas jamais viria a conseguir, razão pela qual alguns historiadores consideram o armistício um erro muito custoso para o führer. O novo governo francês instalou sua sede em Vichy, no sul, com suporte de quase toda a população francesa. O Marechal Pétain era de origem camponesa, católico, e estava determinado a dar ao povo francês um governo conservador e ordeiro. Reduziu o poder dos grandes capitalistas e favoreceu uma organização corporativa da economia; pela primeira vez, nomeou ministro da agricultura um camponês; apoiou a Igreja Católica e suas instituições. Tudo isso foi uma lufada de ar fresco num país há muito submetido a um regime anticatólico e freqüentemente opressor. Havia um preço a pagar, é claro: neutralidade na guerra e cooperação com a Alemanha. As fábricas francesas tinham de produzir cotas para os alemães, mas o faziam tão lentamente quanto podiam; e mesmo assim algumas demandas eram negadas. Era uma estreita margem de manobra. Certa vez, questionado sobre a possibilidade de ignorar determinada exigência alemã, o Marechal Pétain fez recordar ao interlocutor que os alemães seriam capazes de executar toda a população da província da Alsácia. Hitler jamais conseguiria o controle da costa mediterrânea ou da     esquadra francesa; quando, no decorrer da guerra, os alemães finalmente invadiram o país inteiro, o governo de Vichy ordenou que, se necessário, toda a esquadra deveria ser afundada para não cair em mãos alemãs. E já antes disso, Pétain também havia preparado o exército francês na África, que vinha sendo secretamente fortalecido, para se unir aos Aliados nas ofensivas finais da guerra.

O embaixador americano em Vichy ficou extremamente impressionado com o marechal e passou a nutrir grande admiração por ele. Pétain também mantinha comunicação verbal com Churchill; suas mensagens eram transmitidas por meio de agentes secretos que as memorizavam e repetiam, sem registro escrito. Na Inglaterra, todavia, estava De Gaulle, o desertor francês, anunciando-se ao mundo inteiro, pelas ondas do rádio, como representante da “França livre” e incitando a resistência aos alemães no país ocupado. Aqui nos falta espaço para a demorada tarefa de demolir o mito da Resistência. Diga-se apenas que, embora decerto houvesse homens e mulheres de boa-fé nesse movimento subterrâneo dedicado a sabotar as operações alemãs na França, também eram muitos os que se moviam pelo desejo de colher dividendos para sua agenda política no pós-guerra. Durante a guerra, o movimento causou muita devastação aos conterrâneos franceses devido às represálias que suas ações provocavam. A retaliação alemã recaía sobre civis inocentes, como no caso de uma vila inteira que foi fuzilada por causa dos danos causados pelas ações da Resistência.

Enquanto isso, a maior parte da Europa seguia ocupada pelos alemães, que foram até bem recebidos em certas regiões do Leste Europeu, porque Hitler prometera a devolução do território roubado desses povos após a Primeira Guerra Mundial. Até então, o führer lembrava um Napoleão; e a semelhança ficou ainda mais forte ao invadir sua antiga aliada, a União Soviética, com resultados previsivelmente desastrosos. No final de 1941, o ataque japonês a Pearl Harbor trouxe os Estados Unidos para a guerra, e o ano de 1942 veria a maré se voltar contra o líder do Terceiro Reich.

Os três grandes momentos de guinada da guerra naquele ano foram a derrota imposta aos alemães pelos soviéticos em Stalingrado, a vitória britânica sobre as tropas alemãs em El Alamein no Egito, e a destruição da frota japonesa pelos americanos em Midway. O movimento de retirada dos exércitos alemães prosseguiu até Berlim ser tomada em 1945; numa decisão fatal, as tropas americanas retiveram sua ofensiva sobre aquela cidade para que as forças soviéticas pudessem ocupá-la. Os russos já estavam presentes em toda a Europa Oriental com o propósito de implantar ali regimes soviéticos. Tragicamente, o ano que viu a vitória sobre a Alemanha nazista viu também o início do estado de tensão e hostilidade entre a União Soviética e o Ocidente, conhecido como Guerra Fria.

 

Crimes de Guerra

Pelo menos um livro inteiro seria necessário para uma discussão sobre os crimes de guerra — e os houve dos dois lados. A obsessão de Hitler em destruir “raças inferiores”, tais como ciganos, judeus e eslavos, levou a uma espantosa mortalidade civil. Polacos, judeus e outros “indesejáveis” pereceram aos milhões; teríamos de retornar às campanhas dos mongóis na Idade Média para encontrar semelhante número de vítimas. Os horrores dos campos de concentração são bem conhecidos, incluindo torturas, experimentos médicos e uso de restos humanos.

Mas os Aliados, por sua vez, também não podem ser inocentados. A política de bombardeio “estratégico” ou “de terror” fez com que aviões britânicos e americanos sobrevoassem cidades alemãs com ordens de atingir, não alvos militares, mas casas comuns, hospitais e escolas. O intuito era desencorajar a população, possivelmente baseado no princípio democrático de que “o povo” é responsável pelas ações do governo. O bombardeio de Dresden, com a extinção de cerca de 50.000 vidas inocentes (as estimativas variam), foi uma das piores atrocidades dos Aliados, mas nem de longe a única. É difícil enxergar, em tão indiscriminado e deliberado massacre de civis, algum vestígio de respeito ao princípio enunciado por Santo Tomás de Aquino de que “nunca é lícito matar o inocente”.

Quando a guerra acabou, a Operação Keelhaul, em obediência a uma das deliberações da Conferência de Yalta, fez repatriar os cidadãos de qualquer país Aliado que, ao fim da guerra, se encontrassem fora de sua terra natal. Essa decisão, que pode soar inofensiva, também se aplicava àqueles que não queriam voltar; especificamente, a dezenas de milhares de não-comunistas (ucranianos, russos e de outras nacionalidades) que, forçados a retornar para o controle soviético, foram sumariamente executados ou enviados para o Gulag.

O bombardeio de Hiroshima e Nagasaki, com sua expressiva população católica, quando os japoneses já haviam tentado várias vezes iniciar negociações de paz, é um dilema moral de difícil resolução. Na primeira vez em que abordei esse assunto por escrito, inclinei-me a rejeitar as justificativas geralmente dadas para o uso da bomba atômica, baseando-me no princípio expresso por Santo Tomás de que “nunca é lícito matar o inocente”. Um leitor sério e bem informado me escreveu uma carta apresentando pontos excelentes que me conduziram a pesquisas mais profundas. O raciocínio era que, uma vez que os japoneses haviam rejeitado uma rendição incondicional, qualquer outra forma de acabar com a guerra, incluindo a invasão das ilhas, teria custado muito mais vidas americanas3.

Vale ainda mencionar que ambos os Presidentes Roosevelt e Truman, em geral contrários ao emprego de armas químicas ou biológicas, parecem ter considerado que as bombas atômicas fossem simplesmente versões mais poderosas dos explosivos tradicionais. Poucos especialistas (se é que algum deles) parecem ter tido conhecimento dos verdadeiros efeitos que a bomba atômica teria sobre suas vítimas.

Sabe-se agora que muitos no governo e no corpo diplomático japonês eram favoráveis à rendição, tendo submetido propostas a esse respeito aos representantes soviéticos em Potsdam. Os próprios Estados Unidos davam a entender que a porta estava aberta a algum tipo de discussão de paz, apesar de insistirem na rendição incondicional.

Um dos obstáculos era a determinação japonesa em manter o imperador no cargo, assim como sua forma de governo tradicional. Os americanos estavam dispostos a permitir que um Japão pós-guerra escolhesse seu próprio sistema político, mas os termos eram vagos. A ênfase americana estava na rendição. Os mais intransigentes dos oficiais japoneses mostravam-se indecisos, alguns dos quais se inclinavam a um acordo de paz que seria uma quase-rendição, apesar das urgentes mensagens vindas de seus próprios embaixadores no exterior, ou de seus especialistas internos, que veementemente aconselhavam a rendição incondicional. (O extenso livro de Gerhard L. Weinberg, A World at Arms, A Global History of World War II, documenta os passos do doloroso processo que levou os mais perspicazes entre os japoneses a se posicionarem a favor da rendição.)

Antes que as facções opostas no governo japonês pudessem chegar a um acordo, esgotou-se a paciência americana, tanto com a indecisão japonesa quanto com o aumento de baixas no Pacífico, e a bomba foi lançada sobre Hiroshima. Como a rendição não foi imediata, o mesmo destino atingiu Nagasaki, com sua grande população católica. Mesmo que se considere que havia ali uma fábrica de armamentos, isso não tornava cúmplices os numerosos civis, crianças inclusive, incinerados ou seqüelados para o resto da vida pelos efeitos da radiação, do mesmo modo que a brutalidade dos soldados japoneses com seus prisioneiros não justificava a aniquilação de dezenas de milhares de civis que nada tinham a ver com aquilo. A justificativa para as bombas precisa se apoiar em outros fundamentos.

Quando as notícias sobre Nagasaki chegaram ao governo, ainda reunido em sessão para discutir os prós e contras da rendição, o imperador interveio pessoalmente para que se aceitassem os termos americanos. Assim acabava aquela que tinha sido, pelo menos até então, a maior guerra da história.

 

Pensamento e Cultura: Pré-Guerra e Pós-Guerra

Vários conjuntos de fatos ocorridos nos anos 1920 e 1930 merecem nossa atenção se quisermos entender a mentalidade das diversas nações envolvidas na Segunda Guerra e no mundo que dali surgiu. O primeiro é o crescimento dos movimentos de eugenia; o segundo, a propagação do comunismo; e o terceiro, o papel da Igreja Católica no período que precedeu a Segunda Grande Guerra e durante o seu desenrolar. Ao longo de todo esse período, a Irmã Lúcia de Fátima continuou a transmitir fielmente as mensagens de Nosso Senhor e de Nossa Senhora, que receberam respostas variadas dos fiéis e dos papas.

 

Eutanásia e Câmaras de Gás

Nos anos 1920, a eugenia era moda em todo o mundo ocidental, incluindo os Estados Unidos, onde cerca de 60.000 pessoas foram esterilizadas à força. Uma infame decisão da Suprema Corte em 1924, no caso Buck versus Bell, legitimou o processo de esterilização para prevenir a transmissão de condições supostamente hereditárias. O famoso gracejo do juiz-presidente do tribunal, Oliver Wendell Holmes, ― “Três gerações de imbecis são o bastante” ― resumia a mentalidade dos engenheiros genéticos da época. O geneticista americano Hermann Mueller sonhava com a reprodução selecionada e com bebês de proveta, não hesitando em vaticinar: “Quantas mulheres... não ficariam ávidas e orgulhosas de criar um filho de Lênin ou de Darwin!” O famoso cientista, como se nota, tinha gostos duvidosos quando se tratava de seres humanos, mas ainda assim era bastante admirado por nomes como Bernard Shaw, C. P. Snow e Julian Huxley.

Até que surgiu o controle de natalidade, cuja meta Margaret Sanger descreveu como “mais homens aptos, menos inaptos”, e com o propósito de “criar uma raça de puros-sangues” e eliminar o “joio humano”, isto é, aquela “classe da humanidade que jamais devia ter nascido”. Entre as “raças inferiores” que julgava deviam ser esterilizadas, Sanger incluía “latinos, eslavos e hebreus”. Quanto a bebês em demasia, afirmava: “A maior caridade que uma família numerosa pode fazer a um de seus infantes, é matá-lo.” Uma dama não muito gentil, como se vê. Expressões como “seres humanos absolutamente desprezíveis”, “corpo estranho na sociedade humana” e “vida destituída de valor” eram comuns nos escritos da vanguarda eugenista nos anos 1920 — quando ainda ninguém ouvira falar de Hitler.

Enquanto isso, na Alemanha dos anos 1930, antes de Hitler subir ao poder, psiquiatras já haviam começado a matar pacientes mentais com gás venenoso — estimam-se cerca de 275.000 deles. Para difundir o argumento da economia que isso gerava, os livros escolares da época incluíam problemas de matemática que pediam que os alunos calculassem quantas casas populares podiam ser construídas com o dinheiro gasto na manutenção de um manicômio. Aos poucos, essa eliminação de pacientes por decisão médica foi se estendendo a epilépticos, pessoas com arteriosclerose, surdos-mudos e até mutilados da Primeira Guerra. Idosos eram alvos discretos: entrevistados em suas casas, eram depois levados para “avaliação”; quando suas famílias perguntavam por eles, ouviam dizer que tinham sido internados por um tempo. Na verdade, tinham sido mandados para câmaras de gás. Ironicamente, até o final de 1940, pacientes psiquiátricos judeus foram excluídos do programa, aparentemente por não merecerem tratamento tão compassivo. (Mais tarde viriam a receber atenção especial.) Os relatos de assassinatos de bebês e crianças — primeiro os mentalmente incapazes e os deficientes físicos, depois os que tinham dificuldade de aprendizado e os que molhavam a cama — são os mais angustiantes; muitos eram mortos de fome no decorrer de várias semanas por meio de uma gradual redução de alimentos. O processo economizava dinheiro com comida e com produtos químicos letais. Note-se que a lei alemã de esterilização compulsória de 1933 baseou-se amplamente na “Lei-Modelo de Esterilização Eugênica” composta por Harry Laughlin, um associado americano de Margaret Sanger. Outro associado, após visitar a Alemanha em 1940, falava admirado da “eliminação das piores cepas da raça alemã de forma científica e verdadeiramente humanitária”.

 

Os Erros da Rússia

Enquanto isso, os Papas continuavam a ignorar o pedido de Nossa Senhora de consagrarem a Rússia, ao passo que o poder e a influência da União Soviética seguiam em expansão. Criaram-se partidos comunistas por todo o mundo ocidental, e mesmo um regime comunista chegou a se estabelecer na Bavária, logo após a Primeira Guerra Mundial. Mesmo antes de Stálin tomar o poder em 1928, muitos milhares de russos “inimigos do povo” já haviam sido exterminados e os primeiros campos de concentração, organizados. Durante os anos 1930, Stálin mirou sistematicamente os kulaks, camponeses bem-sucedidos que naturalmente se opunham à coletivização de suas terras. Cerca de sete milhões deles foram fuzilados ou morreram em campos de trabalho forçado. Até que chegou a vez da Ucrânia, onde se fez uso de confiscos draconianos de alimento com a finalidade deliberada de produzir uma fome que ceifaria outras cinco milhões de vidas. Curiosamente, grande parte do Ocidente ignorou esta última atrocidade, graças às reportagens do correspondente do New York Times em Moscou, Walter Duranty, contumaz em negar que semelhante coisa estivesse em curso, apesar dos persistentes rumores que vinham das fronteiras russas. Notícias sobre fome em massa, escrevia Duranty, eram “um disparate”. Graças a suas conexões e a uma amistosa visita à Casa Branca, Duranty foi capaz de convencer o Presidente Roosevelt a reconhecer a União Soviética como nação.

Foi só em 1942, vinte e cinco anos após as aparições de Fátima, que o Papa Pio XII consagrou o mundo a Nossa Senhora, em 31 de outubro, com uma referência velada à Rússia. No início do ano seguinte, a Irmã Lúcia declarava: “O bom Deus já me mostrou seu contentamento com o ato realizado pelo Santo Padre e vários bispos, apesar de incompleto segundo seu desejo. Ele prometeu, por sua vez, acabar logo com a guerra. A conversão da Rússia não é para agora.” E ainda não aconteceu.

Nos anos 1930, os erros da Rússia espalharam-se agressivamente pela Espanha católica. A Guerra Civil Espanhola de 1936 a 1939 foi um dos passos em direção à Segunda Guerra Mundial, na medida em que alguns dos principais antagonistas europeus desempenharam certo papel nesse conflito espanhol, que de outro modo poderia ter permanecido meramente interno. A república estabelecida em 1931, após séculos de monarquia católica, não era nem eficiente nem católica; de fato, fechou escolas dirigidas pela Igreja e falhou em implantar reformas agrárias extremamente necessárias. Comunistas de dentro do país, com o habitual apoio estrangeiro, começaram a fomentar revoltas, assim como socialistas e anarquistas (que, de tão violentos, atraíam criminosos profissionais). O General Franco, tentando restaurar a ordem e sanear o governo, pediu que 600 homens se voluntariassem para auxiliá-lo; acabou conseguindo o apoio de 40.000. Camponeses uniram-se a ele, portando emblemas onde se lia “Viva Cristo Rey”.

Em 1936, a Alemanha de Hitler e a Itália de Mussolini viram na Espanha a chance de influenciar um possível aliado estratégico e ao mesmo tempo testar armas desenvolvidas recentemente. Decidiram fornecer apoio aos nacionalistas de Franco. Stálin viu ali uma oportunidade de ouro para estabelecer um país comunista e enviou reforços em auxílio da república já influenciada pelo comunismo. (O governo republicano, agradecido, pagou-lhe com dois terços das reservas de ouro espanholas, antes de ser derrotado por Franco.) Simpatizantes estrangeiros, liberais idealistas e sonhadores como Ernest Hemingway, George Orwell e o comunista escocês Hamish Fraser, afluíram para a Espanha para engrossar as fileiras comunistas. Hemingway fez nascer de sua experiência um romance: Por Quem os Sinos Dobram. Orwell conseguiu ver o que realmente estava acontecendo e escreveu Homenagem à Catalunha; tornou-se um anti-stalinista convicto, ainda que com inclinações socialistas. Fraser, membro da polícia secreta soviética na Espanha, voltou para casa ainda comunista; alguns anos mais tarde tornou-se católico e fundou a excelente revista tradicionalista Approaches[A3] . Seu conhecimento das tramas internas da mentalidade e do sistema comunistas fez com que se tornasse um valoroso oponente da subversão em todas as suas formas.

Não há espaço aqui para detalhar alguns dos heróicos incidentes da guerra e os martírios de numerosos padres, freiras e fiéis. Franco venceu de maneira categórica, levando a Espanha a 36 anos de paz, e preparando o terreno para a prosperidade espanhola do pós-guerra. Não apenas Hitler não conseguiu o apoio espanhol em retribuição das armas enviadas pela Alemanha, já que a Espanha permaneceu neutra na Segunda Guerra, mas não pôde sequer obter acesso ao Mediterrâneo ou conseguir de Franco outras concessões que lhe seriam úteis. Após uma tentativa frustrada de extrair algum benefício do governante espanhol, assessores ouviram-no comentar: “Prefiro que me arranquem todos os dentes da boca a falar com aquele homem novamente.”

 

Perseguição Anticristã na Segunda Guerra

Seriam necessários vários volumes para acompanhar as vicissitudes da Igreja em todos os grandes países antes e durante a Segunda Guerra Mundial. Aqui mencionaremos apenas as perseguições sofridas na União Soviética e na Alemanha durante a guerra. Já em 1922, uma carta de Lênin ao politburo exigia que a polícia secreta explorasse um surto de fome na região do Volga para destruir a Igreja Ortodoxa. “O período de fome”, escrevia Lênin, “é o único tempo em que podemos acertar o inimigo na cabeça. Ora, quando há canibalismo em áreas atingidas pela forme, podemos realizar a expropriação dos bens eclesiásticos com a mais furiosa e implacável energia... Precisamos esmagar sua resistência com tal crueldade, que se lembrem disso por décadas.”

A Igreja Ortodoxa entendeu a mensagem. No ano seguinte, o Patriarca Tikhon declarava: “Adotei completamente a plataforma soviética e considero que a Igreja deve ser apolítica.” Dali em diante, a Igreja Ortodoxa Russa foi de maneira geral dócil a seus mestres, às vezes indo a ponto de agir como ferramenta da política soviética. Não se pode necessariamente dizer o mesmo, entretanto, quanto aos fiéis individuais ou à minoria católica na Rússia. Uma leitura essencial para conhecer a vida cristã sob Stálin é o relato clássico do Padre Walter Ciszek, With God in Russia.

 

A Igreja Católica na Alemanha

Quando o regime de Hitler começou a mostrar a que veio e a desenvolver sua ideologia neo-pagã, ficou claro que o nazismo era incompatível com o cristianismo. Muitos protestantes, incluindo Dietrich Bonhoeffer e Karl Barth, perceberam isso e se opuseram ao regime, exceto um pequeno grupo formado pela “Igreja do Povo” — um movimento de tipo fundamentalista, sem doutrina, que por um lado ecoava algumas das idéias mais radicais de Lutero sobre os judeus e a nação alemã, e por outro apoiava os programas de eugenia do regime, além de seu anti-semitismo. Com cerca de 600 mil membros, representavam uma pequena fração (talvez dois porcento) dos protestantes alemães, mas foram sem dúvida muito úteis ao regime.

Quanto aos católicos, também estava claro que os princípios nazistas eram incompatíveis com o ensinamento da Igreja; os fiéis católicos estavam entre os que criticavam mais abertamente o regime e sofreram cerrada perseguição, extensamente documentada, já desde os primeiros anos do governo de Hitler. O movimento de resistência Rosa Branca, grupo heróico de estudantes católicos e outros cristãos, liderado por um jovem casal de irmãos católicos, organizou a única manifestação pública de desafio ao sistema na Alemanha nazista. O grupo foi logo detectado e seus jovens membros, executados; os líderes foram guilhotinados.

Sabe-se agora que o Papa Pio XII estava ciente da mais relevante das muitas tentativas de assassinar Hitler, liderada pelo oficial católico Claus von Stauffenberg, e facilitou o contato entre as partes organizadoras da trama — que falhou, como todas as outras. Parece que Hitler tinha um estranho e misterioso senso de perigo, mudando abruptamente sua programação ou seus movimentos sem nenhuma razão aparente, sempre que um atentando contra sua vida estava para acontecer. O papa, entretanto, faria muito mais na luta contra Hitler, inclusive providenciando reuniões entre agentes secretos estrangeiros e alemães antinazistas para assassiná-lo, até que o próprio papa se tornou um alvo dos nazistas. Nos últimos meses da guerra, organizaram-se vários planos para seqüestrar o papa (ou mesmo assassiná-lo) e saquear os tesouros do Vaticano.

 

Salvando os Judeus

É interessante notar que a palavra holocausto não aparece nos livros de história mais antigos do pós-guerra; mesmo quando começou a ser utilizada, referia-se simplesmente ao total de perdas de vidas causadas pelas potências do Eixo — as cerca de 50 milhões de vítimas da Segunda Guerra. Só mais tarde a palavra passou a ser utilizada com letra maiúscula e exclusivamente para os judeus mortos por Hitler.

De mais interesse para os católicos é a constante repetição de acusações contra a Igreja e o papado por supostamente não ter parado Hitler de alguma forma ou impedido toda a matança de judeus (os poloneses não nos culpam por não termos impedido a matança de 5 ou 6 milhões de poloneses). Essa investida propagandística começou apenas nos anos 1960. Imediatamente após a guerra, tanto a Igreja quanto o papado foram louvados pelos judeus por seu esforço em salvá-los. O historiador e diplomata israelita Pinchas Lapide declarou que a Igreja Católica salvou cerca de 860 mil judeus — mais que todas as outras igrejas, países e organizações de ajuda somados. O principal rabino de Roma, Rabino Zolli, foi batizado após a guerra e tomou no batismo o nome do papa, Eugênio; não é possível imaginar um homem tão dedicado ao seu povo fazendo tal coisa se o Papa Pio XII tivesse realmente se mantido apático a respeito da ajuda aos judeus. A história de Roma durante a ocupação alemã é bem documentada, assim como o papel da Igreja ao salvar não apenas pilotos e soldados Aliados encurralados atrás das linhas inimigas, mas também a comunidade judaica romana. (Não se pode esquecer, a respeito disso, o filme de Gregory Peck, O Escarlate e o Negro.)

Apesar disso, o aparecimento da infame peça teatral de 1963, O Vigário, conseguiu dar início ao mito da indiferença católica diante do destino dos judeus ou mesmo de sua colaboração direta no Holocausto, alvejando especialmente o Papa Pio XII. Em 1963, muitas testemunhas que poderiam ter combatido o novo mito já estavam mortas, e os inimigos da Igreja se viram livres para despejar ataque após ataque sobre a suposta dívida de guerra do papado. Em anos recentes, a maré de livros baseados no mito parece ter atingido seu limite; é gratificante ver que há agora um sólido número de refutações dessas mentiras, algumas escritas por judeus respeitáveis que prestam o devido respeito aos fatos históricos. Ainda há muito a ser feito, é verdade, e mesmo quando o mito estiver completamente demolido, sabemos que é provável que continue a viver subterraneamente, como os mitos sobre as Cruzadas, a Inquisição, o Priorado de Sião, os Illuminati, e todas as outras loucuras que alguns de meus alunos simplesmente pensam “saber” ser verdade.

Este talvez seja um desfecho bastante pesaroso para nosso estudo. Ainda mais melancólico seria, no entanto, se seguíssemos adiante pelo período pós-guerra. Mas isso seria matéria para outro artigo.


 [A1]Alterei só para evitar a repetição de fonemas /t/ muito próximos.

 [A2]Meu original diz: “then in his late seventies”.

 [A3]Meu original em pdf diz Apropos

  1. 1. Espírito da época. [N. do T.]
  2. 2. Minha Luta.
  3. 3. Discordamos aqui da historiadora pois, como ensina o Pe. Peter Scott, FSSPX: “É patente que o uso de armas atômicas contra Hiroshima e Nagasaki, em 1945, foi imoral. Naquele momento, não havia ameaça às populações civis nos países aliados, nem se poderia dizer que havia uma guerra total. Certamente não havia razão proporcional ao sofrimento dos civis, destruição e miséria que resultaram, sem mencionar o escândalo público e o horror de que uma nação “civilizada” perpetrou um ato tão bárbaro contra inocentes.” (http://permanencia.org.br/drupal/node/5718) [N. da P.]

A leitura espiritual

Pe. Reid Hennick, FSSPX

Se há uma coisa cuja especial necessidade as condições modernas geraram, é a prática frequente da leitura espiritual

Assim escreveu o abade cisterciense Eugene Boylan em 1946, em This Tremendous Lover, ao analisar o colapso da infraestrutura espiritual do mundo. Embora ler ou outra forma de instrução sempre ter sido necessário, ele prossegue:

a instrução oral, a opinião comum dos homens, o exemplo do próximo e as tendências da vida em geral têm um papel menor na formação e instrução dos católicos que em épocas passadas. As pessoas não vão mais ouvir sermões como antigamente; não se fala mais sobre religião, ao menos não com seriedade; nossos próximos, frequentemente, têm ideais longe de serem católicos – se é que eles têm algum ideal; e há pouco ao nosso redor que seja de auxílio direto para nos incitar ou nos ajudar a encontrar Deus

Em suma, ao deixar Deus de fora, nosso novo ambiente não é capaz de nada além de nos afastar d'Ele. Ele é positivamente inóspito ao crescimento espiritual. De nossa parte, portanto, “há uma necessidade urgente de fazer esforço pessoal para restaurar o equilíbrio, mantendo as realidades da eternidade em nossas mentes” (Boylan)

A leitura espiritual é o corretivo requerido. Na verdade, para o católico educado,

é quase essencial para seu progresso, senão para sua salvação. Para nossas mentes, essa prática está no mesmo nível de importância da oração mental e de outros exercícios devocionais, e ela, na verdade, está tão ligada a esses outros exercícios, especialmente o essencial de oração mental, que, sem ela – a não ser que se encontre um substituto – não há possibilidade de avançar na vida espiritual; até mesmo a perseverança na vida espiritual torna-se muito duvidosa (Boylan)

A leitura espiritual, portanto, pede esforço para a “assídua e atenta leitura de livros espirituais” (cf. Antonio Royo Marín, A Teologia da Perfeição Cristã). Ela demanda uma concentração distinta.

 

O maior impecilho

Das várias forças em questão quando se trata de nosso afastamento do divino, algumas são particularmente corrosivas. Na visão do abade quando escrevia, tinha um papel central nelas o jornal. Ele baseava sua análise tanto no conteúdo, quanto na própria estrutura da mídia em si: “… uma longa série de itens que dificilmente seriam mais eficientes para atrair atenção e concentração para este mundo e as coisas deste mundo” Embora se possa questionar a veracidade de muito do que é publicado, “dificilmente se pode negar que o que é publicado é apresentado de modo a capturar a imaginação do leitor” (Boylan)

A era da informação revelou a verdadeira extensão dessa crítica. De fato, da perspectiva do Século XXI, o poder cativante do jornal é irrelevante quando comparado com a torrente audiovisual do WhatsApp, Twitter, Instagram, YouTube e Netflix. Não há nada mais subversivo para a vida de recolhimento que esse aparato do Vale do Silício. Novamente, assim como o conteúdo destruidor de almas, o próprio método de apresentação destrói a alma.

 

Os ingredientes do pensamento

Para aferir adequadamente os perigos aqui, devemos estar atentos à nossa configuração psicológica. Nesse tocante, as visões de Platão e Aristóteles são indispensáveis.

O homem é um animal racional. Ainda nesse sentido: há uma certa dualidade em sua natureza. Como ele é racional, sua mente lida com universais – objetos intangíveis do pensamento; como ele é um animal, seus sentidos lidam com singulares – impressões materiais do aqui e do agora. Independentemente disso, sua experiência cognitiva é profundamente unificada. Seu intelecto pode transcender os meros dados sensitivos e descobrir o sentido das coisas em si mesmas, e esse pensamento sempre está auxiliado pelos sentidos. Aqui reside a importância da imaginação.

A imaginação alimenta o pensamento. É nosso depósito de singulares, nossa plantação de divagações pré-articuladas. Uma imaginação ordenada e domada facilita as investigações da mente; uma imaginação frenética e sobrecarregada as inibe. Enquanto as experiências orgânicas, estáveis da vida deixam uma impressão benévola na imaginação, os enredamentos constantes e artificiais da mídia moderna a estrangulam, de modo a ficar submissa. Uma vez submetida, a imaginação – e, portanto, a mente – torna-se um território ocupado. Sugestões impróprias e inoportunas moldam a consciência e endurecem nossos pensamentos, inclinados a Deus por natureza, ao calor do momento presente. Assim, tornamo-nos prisioneiros do plano dos singulares.

Qual é “a fonte de todos os males e erros da vida intelectual hoje?” (Boylan) É a perda da habilidade de pensamento abstrato deliberado e prolongado. Isso não significa que não pensamos mais, mas que, devido a uma imaginação superestimulada, pensamos dentro de uma névoa de distrações. Nós somos, como T.S. Elliot dizia, “… distraídos da distração pela distração” (.. Burnt Norton”)

 

De quem é a culpa?

Seria isso uma consequência inevitável de viver na era da informação? Seria isso “a morte do espírito… o preço do progresso?” (Eric Voegelin, A Nova Ciência da Política) Não! Nós não somos míseras vítimas infelizes das circunstâncias. O que o Pe. Francis Remler pensava sobre o sofrimento em geral aplica-se às nossas moléstias modernas:

Não temos dúvida de que provavelmente a metade, senão mais, das misérias de nossos tempos desapareceriam rapidamente da face da terra se as pessoas, universalmente, fossem induzidas a cumprir fielmente apenas duas condições: que elas vivam de acordo com os ditames da razão reta e do bom senso, observando as leis fundamentais da saúde e do bem estar, e que elas façam um esforço sincero de moldar sua conduta moral de acordo com os Dez Mandamentos e as máximas do Evangelho (Why Must I Suffer?)

Verdade seja dita, nossas indiscrições passadas bastam para explicar nossa imaginação sabotada no presente. Nossas compulsões indesejadas realmente são inexplicáveis? Será que nossas ansiedades e temores sobre o futuro não têm alguma relação com a leitura desses sites que só anunciam desgraças? Será que nossa mania de buscar defeitos em nós mesmos não tem a ver com fofoca e o uso de redes sociais? Nossas fantasias com programas de TV sexualmente sugestivos? Será, ao menos, que nossa névoa mental não tem algo a ver com um fluxo ininterrupto de mensagens de textos?

O trauma autoinfligido decorrente de tratarmos como nossos superiores esses dispositivos dispensadores de distrações é óbvio. Recusar-nos a modificar nosso relacionamento com a mídia moderna é um patente abandono do dever, tanto natural quanto sobrenatural. Se não pudermos nos desconectar da matrix completamente, devemos ajustar nosso comportamento nela. Isso é obrigatório, um sine qua non, se queremos adotar a prática da leitura espiritual, ou alguma outra que gerará frutos. Pois a leitura espiritual, por si mesma, não pode abafar essa cacofonia toda. A imersão imoderada na mídia moderna

produz um desgosto, não apenas pelas coisas que realmente importam, mas também pelo estilo e modo nos quais essas coisas são apresentados nos livros espirituais. O resultado é que, quando alguém, por um esforço, força a si mesmo a abrir um livro espiritual, é necessário um esforço ainda maior para o manter aberto, e não fechá-lo com um bocejo (Boylan)

Sacudir-nos e sair dessa inércia – na realidade, um efeito colateral da intemperança – não é fácil. (Ah, se ao menos tivéssemos apetite por outra coisa!) Ainda assim, a leitura espiritual, aquela atividade que, no início, achamos tão desgostosa, contém, em si, o impulso de que necessitamos tão desesperadamente.

 

O antídoto

Santo Tomás de Aquino ensina que: “… o remédio mais eficiente contra a intemperança é não mergulhar na consideração dos singulares” (IIa IIae, q. 142, a.3). Portanto, devemos “focar no oposto dos singulares – nomeadamente, os universais” (Kevin Vost, The One-Minute Aquinas). Em outras palavras, nós temos êxito em contrabalancear nossa imaginação complacente ao cultivar, ao invés, a vida da mente. Atingimos isso através da leitura espiritual, pois, de todas as ocupações,

aquelas de tipo intelectual são particularmente aptas a controlar a sensualidade. A razão é que a aplicação de uma faculdade enfraquece o exercício de outras faculdades, além do fato de que atos intelectuais removem das paixões sensuais o objeto que as alimenta (Jordan Aumann, Spiritual Theology)

A imaginação adora os singulares. Ela adora essas recompensas imediatas sensuais e, se desinibida, entrega-se ao nosso hábito de mergulhar cada vez mais nesses canais de diversão. Ainda assim, esses desvios nunca levam a um destino verdadeiramente feliz. Em contraste, embora os prazeres decorrentes da leitura espiritual sejam, sem sombra de dúvidas, menos emocionantes, eles trazem uma recompensa infinitamente maior. Pois eles alimentam as necessidades mais profundas da mente. A leitura espiritual nos leva ao reino dos universais. Ela fortalece ruminações do verdadeiro, do bom e do belo, independentemente de nossos apetites impacientes. Ela nos ajuda a transcender o importunante momento presente e a ter todas as experiências que apontam para a eternidade. Nós, católicos, lemos

para manter o sobrenatural em nossas mentes, para desenvolver e manter o senso de realidade das coisas que conhecemos pela fé, para manter nossa atenção na vida eterna de nossa alma ao invés de nossos interesses temporais, e, acima de tudo, para manter viva, em nós, a memória e presença de Nosso Senhor, para que possamos viver em união com Ele, falando com Ele, trabalhando com Ele, descansando com Ele, sempre rezando a Ele e n'Ele (Boylan)

 

O que acontecerá?

Como Dom Boylan deu a entender fortemente há mais de 70 anos, em nossos tempos, a leitura espiritual é uma prática mais de preceito que de conselho. Mas cumprir esse preceito envolve mais do que ter um livro nas mãos.

Como era Seu costume quando pregava, Nosso Senhor vem a nós

Não em uma cidade ou em um fórum, mas em uma montanha e no deserto; instruindo-nos a … separar-nos dos tumultos da vida ordinária, e isso de modo especial quando vamos estudar a sabedoria” (São João Crisóstomo, Homilias sobre Mateus)

A leitura espiritual tanto requer quanto possibilita nossa separação do mundano, nossa rejeição ativa de “tudo que inibe as afeições da mente de tender integralmente a Deus” (IIa IIae, q.184, a.2) Na mesma vertente, São Paulo nos exorta: “Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é santo, tudo o que é amável, tudo o que é de bom nome, qualquer virtude, qualquer coisa digna de louvor da disciplina, seja isto o objeto dos vossos pensamentos” (Fl 4,8)

… Nenhum homem pode servir a dois senhores” (Mt 6,24) Então o que é mais provável que “guarde os vossos corações e os vossos espíritos em Jesus Cristo” (Fl 4,7): o Novo Testamento, ou a Netflix? Porque não pode ser os dois.

Conferências sobre a santidade (III)

Nota da Permanência: O Padre Matéo proferiu estas conferências às superioras de diversas comunidades religiosas do Canadá, na província do Québec, em 1945. Embora endereçadas às almas consagradas, estas conferências são utilíssimas aos leigos, havendo estes tão-somente de fazer as devidas substituições, como “almas consagradas” por “almas batizadas”, “comunidade” por “família”, “vida religiosa” por “vida cristã” e assim por diante. 

Pe. Matteo Crawley-Boevey

 

Pensamento na eternidade

Certo dia um grande pregador dominicano que passava por Ávila consultara Santa Teresa sobre o tema das pregações. “Pregue sobre o que quiser, disse-lhe ela, mas sempre tenha o pensamento na eternidade, pois não existe missão sem pensamento na eternidade.” Pois então, nada de retiro sem o pensamento na eternidade. Eis o que veremos uns dez minutos antes de comparecer diante do tribunal. Durante os estertores acontece uma batalha, uma luta: o moribundo apreende com impressionante nitidez a sua vida inteira e, nesse momento de extraordinária lucidez, descortina-se para ele a eternidade...

Certa vez um jovem marquês divertia-se num baile noturno, onde se reuniam mais de quinhentas pessoas. De súbito exclamou: “Eu vejo, eu vejo! Oh, oh! ...” Acercam-no as pessoas: “Que viu você? – Eu vi, eu vi! – Mas viu o quê? – Vi o juiz e o tribunal; vi a eternidade. Ah, como somos loucos! Sim, loucos, pois dançamos às bordas do abismo eterno!” Acharam que havia surtado. Ele, no entanto, exigia: “Mandem vir o tabelião, para fazer o meu testamento! Estou morto, deem os meus bens aos jesuítas etc.” Atenderam aos desejos dele. Pouco tempo depois ele se retirou numa gruta da floresta, onde levava vida de bicho mas alegre como um passarinho.

Bem-aventurados os que já estão preparados! Muitos ainda não estão prontos, até entre as almas consagradas. Se vocês são complacentes consigo mesmas, será dureza, mas se forem rigorosas, será leve. Julguemo-nos a nós enquanto há tempo: vejamos a partir de agora o que veremos às portas da eternidade, na hora da agonia, dez minutos antes de morrer. Nada melhor que repassar a nossa vida.

Apresento-lhes três pinturas ou quadros:

A brevidade da vida – Vocês tinham sete ou oito anos; lembrem-se da primeira confissão, da primeira comunhão... Parece que está longe, mas na verdade foi ontem. Neste ínterim, a vida passou como um sonho. Onde estaremos daqui a trinta anos? Como é bom sentir-se sacudido por um pensamento cristão! Se temos medo de acompanhar um enterro, talvez signifique que ainda não estamos prontos. Vocês aconselham as suas filhas, mas será que estão preparadas? Ah, as ilusões da vida!

Certa feita uma moça de vinte e quatro anos, casada havia sete meses, estava para morrer, mas ela não aceitava: “Oh, não posso morrer, não quero morrer, sou jovem demais!” – O pensamento da morte deveria ser a nossa alegria.

Uma criança de dez anos, bastante doente, preparava-se para morrer; fui visitá-la e lhe perguntei: “Você tem medo da morte? – Não, me respondeu ela, não tenho medo de morrer, mas do que vem depois.” Ela tinha razão. O mistério é o depois. Quando uma pessoa é religiosa de verdade, a morte não é assustadora. Compreendam isso à luz do retiro: se vocês negligenciaram as orações e a vida interior, pensem no que verão à hora da morte. Há algo de sagrado na morte, mas infelizmente somos qual o capitão que estimula a que outros embarquem, enquanto ele fica na praia...

Havia um moço de vinte e oito anos que escalava uma montanha, subindo e subindo a cada passo. De repente deu com o pé em falso e escorregou, caindo vertente abaixo, apesar de em vão tentar agarrar-se às saliências da encosta. Onde foi ele parar? Foi até às bordas do abismo! Deteve-o uma pedrinha. Alçaram-no dali com uso de cabos, conseguindo-o tirar daquela situação. Ficou com os cabelos totalmente brancos.

Tudo é vaidade, exceto Deus – Renunciamos ao casamento, instituição sagrada; renunciamos à vida de família, instituição excelente – e apegamo-nos a bibelôs ridículos. Somos uns loucos! Vaidade é orgulhar-se do próprio talento; vaidade orgulhar-se das próprias qualidades; vaidade orgulhar-se das alegrias sensíveis: música, poesia, pintura; vaidade orgulhar-se de um encargo ou honraria, pois tudo passa. A pior das mancadas é chegar à morte sem nunca haver pensado a sério em formar santas. Quantos remorsos sentirão! Vocês são superioras; talvez já tenham sentido o leve contentamento e o discreto perfume da elevação. Pois bem, o Juiz Supremo lhes pedirá contas do encargo... Bem-aventurada quem enxerga claramente antes da morte! O Papa Celestino abandonou o pontificado dizendo: “Quero ir para a solidão e salvar a minha alma.” A única realidade da vida é a morte, só ela. Tudo passa, tudo some, tudo foge, mas só ela permanece.

Certo moço, conde e oficial das forças armadas, casara com uma jovem marquesa. Alguns anos depois, aquele moço, cujo casamento abençoei, pediu-me para que se entronizasse o Sacratíssimo Coração de Jesus em seu lar. Falei algo sobre a devoção ao Sagrado Coração e o modo de viver a entronização. Estavam todos de joelhos: o pai, a mãe, os irmãos; as irmãs também estavam presentes. Pregava eu: “A única realidade é o Sacratíssimo Coração de Jesus, é Ele a única realidade, a única!” Quando menos se esperava, uma luz iluminou o conde, que escutava uma voz como a lhe dizer: “Deixa tudo, deixa tudo”. A luz e a voz o perseguiam; depois de alguns dias, a jovem marquesa, que já havia sonhado com o Carmelo, sentira também o chamado. Escreveram ambos a Roma; a resposta demorou um ano. No dia 8 de dezembro de 1918 ou 1919 despediram-se e cantaram o Magnificat. Ela escolheu um Carmelo flamengo, para que ficasse mais isolada; hoje é ela a priora de lá. Já ele é o meu superior geral. Caso vocês conservem apegos, cortem-nos antes de morrer. Não haja em suas vidas o menor laço.

O pecado – Já cometeram algum pecado mortal durante a vida? O pecado é uma triste realidade. Para a glória do rei, temam o pecado! Transformar-se num leproso mefítico, embora apavorante, é aceitável; já o pecado é o pior dos males para vocês e suas filhas.

 

A grande prova da existência do inferno

Qual é o argumento mais poderoso para provar existência do inferno e a eternidade dele? Algo de mais poderoso que a palavra de Nosso Senhor? O crucifixo. Um Deus se crucifica por diversão? Não, ele morre como um bandido para nos poupar do inferno. Nosso Senhor fala no Evangelho mais de dez vezes acerca da geena e do fogo: “Temei a geena... sereis lançados ao fogo do inferno.” Porém, a morte do Cristo para salvar-nos desse fogo cala ainda mais forte. Quem contradita o Eterno é louco ou canalha. Existem livros que nos instruem sobre o inferno afirmando que todos os demônios estão presentes à hora da morte. Por que não dizem que quem estará lá conosco é o Salvador, o Bem-Amado, o que derramou sangue para nos salvar? Vocês são o espólio do Senhor, assim para que escapem de Seus braços seria preciso que fizessem força, pois Ele não as abandonará tão facilmente. O temor filial é dom, graça, prudência e humildade. Esperem n’ Ele, confiem n’Ele sempre mais, esperem! Até os canalhas devem esperar nele. Ele aguarda, aguarda mais um segundo, ainda outro, para que vocês lhe declarem: “Eu Vos amo!” Os nomes de vocês estão gravados no coração de Jesus desde o batismo, ou melhor, desde a profissão. Ninguém será capaz de apagá-los de lá, a menos que vocês mesmas o façam. Vocês hão de enxergar tais nomes no momento da agonia! Hão de morrer como São José, nos braços de Nosso Senhor, com a cabeça apoiada sobre o peito dele. Não é morte morrer assim!

Há alguns meses, uma humilde irmãzinha, serva dos pobres, morreu em grande júbilo, cantando. Só quem é humilde e confiante morre assim. A religiosa é religiosa, esposa e rainha para sempre. Sejam santas na vida e na morte, e a morte não será morte, pois passarão da vida de consagradas cá embaixo à glória de prediletas lá em cima, ao lado dele.

Reflexões sobre a CNBB

Gustavo Corção

 

No artigo de quinta-feira mostramos que as Conferências Episcopais, no mundo inteiro, se hipertrofiaram em relação ao que delas esperavam os padres conciliares com um otimismo que infelizmente não foi correspondido pela marcha dos acontecimentos. Dessa deformação resultaram a diminuição e até o amordaçamento da autoridade episcopal que forma, em ligação com o Sumo Pontífice, a verdadeira estrutura hierárquica de direito divino da Igreja de Cristo.

De antemão poderíamos prever as exorbitâncias e os aberrantes pronunciamentos, porque sabemos que as coisas agem segundo sua natureza e seu estado: operatio sequitur esse. Em tempos normais seriam descabidas as apreciações críticas de um leigo que, normalmente, deveria ouvir com obediência com e respeito os pronunciamentos de seus pastores; mas os tempos em que vivemos se afastaram demais da normalidade e nos obrigam a atitudes e protestos que só fazemos com lágrimas do mais profundo desgosto. E aqui não preciso lembrar os estímulos que os leigos receberam do Concílio Vaticano II (Lumen Gentium, Cap. IV) para uma participação maior nas obras do apostolado. Muito antes do Concílio, desde o dia bendito em que voltei à Fé de meu batismo, não faço coisa alguma com mais empenho e fervor do que estudar a Sagrada Doutrina, e logo ensiná-la aos que há mais de trinta anos me procuram, como guia sem diplomas, ou como hostiário da Casa Luminosa, hostiário sem ordens, mas também sem aposentadoria. E agora Deus sabe que não minto se disser que não há para mim maior aflição do que a dos descalabros que cercam, escurecem, ocultam, desfiguram a mais bela das esposas como aquela Jerusalém que João viu descer dos céus ornada e paramentada para seu Esposo (Ap. XXI, 2). E a aflição se torna exponencial, lancinante e quase insuportável quando leio ou ouço dizer "que eu estou atacando a Igreja!!!" Como se a Igreja de Cristo assumisse em sua santa e impenetrável substância todos os disparates de seus membros, e com eles se identificasse. Quereriam, se bem entendi, que meus protestos fossem mais aveludados, que minha indignação fosse sempre dominada e vencida pela suavidade do tom. Seria tal coisa uma perfeição exigida pela Caridade? Não haverá debaixo da grande cúpula da maior das virtudes teologais lugar para todas as paixões da alma? Não haverá uma alegria caridosa? Uma tristeza caridosa? Não haverá também uma cólera caridosa?

Santa Catarina de Sena, a "dolce mamma" que à imagem da Mãe de Deus foi mãe e virgem, mãe solícita e virgem intransigente, escrevia a três cardeais italianos, nos tempos em que a Igreja não chegara à metade ou à décima parte do que hoje padece: "Desgraçados! As trevas do amor próprio vos impedem de ver a verdade... sois ingratos, sois vendidos; em vez de serdes os escudos da Igreja, vós a perseguis. E em vez de flores perfumadas da Casa de Deus, tornastes-vos podridão que envenena o mundo. E em vez de anjos da terra tomastes o oficio dos demônios... falo-vos sem respeito porque já não sois dignos do respeito." (Ste. Catherine de Sienne, Catholique romaine, par J. Leclereq, Lethielleux, 1522, p. 87.)

Não ousarei imitar a cólera daquela que não pude e nem de longe cheguei a imitar na santidade.

Tratarei de graduar o tom de minhas apóstrofes, não por um convencional e diplomático respeito que não merecem os vendilhões do templo, mas por um reconhecimento de minha pequenez e da infinita tristeza de não ser santo. Mas esse reconhecimento não me levará à capitulação e ao silêncio.

Procuremos, leitor amigo, um tom que seja verdadeiro sem deixar de ser áspero se a aspereza estiver nas próprias arestas da verdade; procuremos um tom que seja mais serviço do que desabafo, que sempre seja mais voltado para a glória de Deus do que para as conveniências dos homens.

E volto a reafirmar o que outros, em vários tons, estão dizendo na França, na Itália, na Espanha e nos demais países onde ainda subsiste a cristandade. Volto a dizer que as Conferências Episcopais se hipertrofiaram, se deformaram, e assim desnaturadas passaram a dar maus e abundantes frutos. Já disse atrás o que é de uma solar evidência: as Conferências estão permitindo que alguns poucos atrevidos, e às vezes um só, multipliquem pelos jornais pronunciamentos que recaem sobre a honra de outros bispos que, por sua vez, não têm coragem de desmentir e de protestar, porque espalhou-se no ar o mau e falso princípio de que acima de tudo devemos salvar as aparências de uma unidade que mais se fundamenta nas conveniências do mundo do que na Verdade de Deus de que a Igreja é guardiã virginal e intolerante.

Vê-se assim que as Conferências, no grau de deformação a que chegaram, são instrumentos perfeitos para o atrevimento de uma minoria ativa que já não merece o respeito de ninguém, e para a passividade timorata de uma maioria que destarte acabará perdendo também o direito ao respeito. A esse defeito de estrutura acrescentemos da incontinência verbal: as Conferências falam demais, estão demais nos boletins, estão todos os dias nos jornais.

E além de tudo isto cabe aqui a pergunta: como pode uma Assembleia deliberativa e executiva funcionar sem a reunião constante de seus membros? Pode alguém imaginar uma Câmara ou um Senado cujos membros residissem nos Estados e nas cidades que o elegeram? Tal Assembleia, para parecer que é Assembleia e para funcionar com membros esparsos, só teria uma solução: fazer-se representar por uma Comissão Central, ou por quatro secretários e peritos. E aqui voltamos ao defeito fundamental: a autoridade dos Bispos, em pronunciamentos e decisões gravíssimos, como por exemplo as que se referem à pastoral catequética, se omite, se dissolve, e se entrega aos "peritos" de que se queixaram os Bispos de Minas Gerais.

 

(O Globo, 03/07/1971)

Reflexões sobre as conferências episcopais

Gustavo Corção

 

Estas reflexões, feitas por um velho leigo que nunca pretendeu falar pela Igreja, mas que também nunca desanimou de poder servir à Igreja com suas modestas contribuições, dirigem-se aos bispos do Brasil, e concernem especialmente à CNBB, embora de início se refiram à problemática geral das Conferências Episcopais.

De início devemos recapitular os tópicos em que o problema foi abordado e ficou oficialmente formulado nas Constituições e Decretos do Concílio Vaticano II. São os seguintes:

1. Quanto à função nacional das Conferências Episcopais, temos no Decreto sobre o Ministério dos Bispos (Christus Dominus), parágrafo 18, apenas 7 linhas recomendando às Conferências o cuidado pelos fiéis emigrantes, itinerantes, exilados etc. que ainda "não possam desfrutar convenientemente dos cuidados pastorais dos párocos".

2. Quanto à sua importância, temos no parágrafo 37 do mesmo Decreto 12 linhas relativas às exigências maiores dos tempos modernos e "aos magníficos resultados de fecundo apostolado já trazidos em muitas nações por essas conferências". Na base dessa apreciação otimista "julga este santo Concílio que será muito conveniente, no mundo inteiro, que os bispos da mesma nação se reúnam em uma assembleia, em datas prefixadas, a fim de que, comunicando-se as perspectivas da prudência e da experiência, e contrastando os pareceres (destaque meu) se constitua uma santa inspiração de forças para o bem comum das igrejas. No tópico seguinte, em página e meia dividida em seis tópicos, passa o Concílio a formular o conceito, a estrutura e a competência das conferências. Merece especial destaque o tópico 4 onde se lê: "As decisões da conferência episcopal, legitimamente adotadas, com uma maioria de dois terços de votos dos bispos que pertencem à conferência com voto deliberativo, e aprovadas pela Sé Apostólica, só obrigam juridicamente nos casos em que o ordenar o direito comum ou o determinar por ordem expressa a Sé Apostólica, manifestada por vontade própria ou por petição da mesma conferência”.

A abertura trazida pelo Concílio não podia ser mais discreta e mais moderada, mas a experiência subsequente provou, no mundo inteiro, que a discreta abertura se alargou desmesuradamente e que a "santa conspiração" se transformou em conspirações sem sinais de santidade. Aliás, no decurso dos debates conciliares várias vozes se levantaram em sinal de alarma e com lucidez previram abusos que os boletins meteorológicos da atmosfera espiritual de nosso tempo já anunciavam. Não era preciso ser profeta para ver que, desde a década de 30 se avolumara a onda revolucionária que na Espanha fez milhares de mártires "no sentido próprio do termo", segundo Pio XI, e que na França produziu milhares de "progressistas" e apóstatas que se entregaram às chamadas "esquerdas" que desde o princípio do século se infiltravam e envenenavam os meios católicos mais preocupados com os problemas sociais.

Em 9-10-1963, na Quadragésima Congregação Geral sobre a Hierarquia, D Geraldo de Proença Sigaud, Arcebispo de Diamantina falando em nome dos bispos Marcel Lefebvre, Luiz Gonzaga Marelim, Antônio de Castro Mayer, João Pereira Venâncio, Carlos Saboia Bandeira de Melo, João Rupp, e do Abade João Prou, de Solesmes, alertou os padres conciliares contra dois "escolhos sumamente perigosos": O primeiro era criação de uma instituição mundial comparável a um Concílio Ecumênico Permanente (...) que seria uma espécie de Parlamento Mundial na Igreja Cristo. O segundo perigo (que não foi evitado) residia na instituição de uma espécie de Concílio Nacional ou Regional permanente na qual alguns bispos de uma nação ou região poderiam, mediante sentenças jurídicas ou doutrinárias aprovadas pelo Papa, comprometer todos outros bispos daquela nação ou região. "Pois é evidente -- dizia D. Geraldo Proença Sigaud -- que tais instituições trariam enormes dificuldades ao exercício do poder ordinário, seja do Papa, seja dos bispos."

A experiência subsequente velo provar que neste ponto, como em vários outros deixados pelo Concílio, o uso de discretas aberturas transformou-se em abuso, e os abusos produziram calamidades como se vê por exemplo no maciço abuso praticado pelo episcopado francês em matéria de catequese.

É fácil compreender o grave defeito estrutural dessa instituição que inchou e deformou-se ao sabor da torrente revolucionária que disputa com o Cristianismo a hegemonia do novo mundo, ou nova "civilização" que está para nascer. Com o volume e a forma que tomaram, as Conferências Episcopais têm dois defeitos graves e complementares: 1) Fácil acesso das alavancas aos ativistas da minoria agressiva e revolucionária; 2) Vasto repositório para as omissões da maioria dos bispos que não têm coragem e vigor de enfrentar a onda, embora não concordem com ela.

Para exemplificar o funcionamento desses dois defeitos conjugados temos as sugestões de 4 arcebispos mineiros apresentados ao presidente da CNBB por ocasião da IX Assembleia Geral da CNBB em julho de 1968. Transcrevo um trecho colhido no vol. 1, setembro de 1968, de SEDOC:

"Ninguém pode esconder que uma profunda desconfiança cerca diversas atividades de diversos secretariados regionais e da mesma CNBB, oriunda das orientações transmitidas aqui e acolá a nossos sacerdotes, religiosos e leigos, orientações que às vezes não nos parecem ortodoxas tanto com referência à fé quanto à moral."

"Conscientes de nossa responsabilidade como Pastores da Santa Igreja e membros desta Conferência, sentimo-nos na obrigação de confessar que nós mesmos não temos podido exercer em plenitude nosso múnus na colegialidade, pois parte desta orientação é dada por um grupo de "peritos" que prepara nossos documentos e planos de atividade, sem que tenhamos oportunidade ou mesmo possibilidade de analisá-los acuradamente ou de emendá-los. Acresce ainda que alguns dos nossos peritos não merecem nossa confiança, seja por não trazerem consigo algumas qualidades indispensáveis a sacerdotes que se apresentam a nosso clero como credenciados pela CNBB, seja por se fazerem portadores de uma orientação que não reconhecemos como a da maioria da Conferência. Sentimos que somos substituídos por eles, pois muitas vezes somos convocados para reuniões nas quais nos são apresentados documentos para serem votados sem o tempo necessário para a sua apreciação e nas quais não nos é dada oportunidade de tratarmos assuntos que nos parecem graves e importantes para nossa pastoral."

Estas "Sugestões", que em pequena parte, transcrevo acima, são assinadas por quatro arcebispos mineiros: D. Geraldo Proença Sigaud, de Diamantina, D. José d'Angelo Neto, de Pouso Alegre, D. Oscar de Oliveira, de Mariana, e D. Alexandre Gonçalves do Amaral, de Uberaba, e constituem um pequeno exemplo da grande deformidade estrutural a que chegaram as Conferências Episcopais.

Evidencia-se assim que a honra da Igreja e dos episcopados nacionais ficam à mercê de minorias agressivas que talvez pertençam mais à Anti-igreja do que à Igreja Cristo. Multiplicando-se esse defeito pela incontinência publicitária e pela logorréia que todos os dias estampa nos jornais pronunciamentos de titulares das Conferências, tem-se um resultado final que clama aos céus e pede reação viril e imediata das autoridades eclesiásticas e enquanto não se veem sinais de tal reação, justificam-se os gritos de dor filhos da Igreja que só podem clamar, e que, sem grave pecado de omissão, não devem silenciar.

 

(O Globo, 01/07/1971)

O cochilo da CNBB

Gustavo Corção

 

No artigo de quinta-feira referi-me ao sono que me deixou por um mês desatento às voltas que o mundo deu, mas agora, acordado, e remexendo os recortes acumulados na gaveta, vejo que a CNBB, nesse meio tempo, esteve mergulhada num sono mais profundo e mais surdo do que o meu. E não creio que a Presidência e o Secretariado dessa instituição possam dizer, como a esposa do Cântico dos Cânticos: "Ego dormio, et cor meum vigilat", porque a CNBB tem máquinas de escrever, tem peritos, comissões, Presidência e Secretariado, mas não sei se possui um coração que vigia quando o pomposo aparelho adormece.

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O cochilo da CNBB a que me refiro neste artigo está provado pela nota com que o Secretariado Geral da CNBB exprime profunda estranheza e enérgica repulsa em face da matéria publicada em O GLOBO de 26-10-71 sobre o título "Subversão cai, mas ainda apresenta áreas sensíveis".

Dom Ivo Lorscheider, em nome do Secretariado Geral da CNBB, publicou em vários jornais uma nota de protesto contra a afirmação de existir nos meios católicos do Brasil largas áreas de infiltração comunista.

Ora, todos nós estamos cansados de saber que a tragédia do mundo moderno, que põe em risco todas as conquistas e valores de uma civilização ainda vagamente cristã, tem seu ponto mais doloroso na infiltração comunista que se processou nos meios católicos e especialmente nas casas religiosas. Todos nós sabemos que essa onda avolumou-se na década de 30 e concentrou-se na esquerda católica francesa de onde se irradiou para o mundo inteiro. Sabemos que durante o martírio da igreja espanhola, e durante a Guerra Civil que salvou a Espanha, a esquerda-católica francesa foi sempre rebelde ao Papa Pio XI. Sabemos que a revista Sept dos dominicanos foi fechada por ordem de Roma por dar apoio aos comunistas. Sabemos que o Pe. Bigo, com enorme simplicidade, diz que o "progressismo" católico começou na Résistance com "os prolongados contatos entre comunistas e católicos que aí fizeram a bouleversant découvert de la révolution en marche. Sabemos que o movimento de Economia e Humanismo foi fundado por dois dominicanos, o Pe. Lebret e Pe. Desroches, que mais se preocupavam com problemas temporais do que com a salvação das almas. Sabemos que o Pe. Desroches tornou-se dois ou três anos depois desmascaradamente comunista. Sabemos que foi essa anti-Igreja da esquerda francesa que trouxe ao Brasil as sementes do marxismo cristão. Sabemos que o Pe. Francisco Pessoa Lage, lazarista, que durante anos foi nosso amigo e muitas vezes nosso comensal, através de Economia e Humanismo transformou-se em marxista fervoroso e depois em comunista furioso. Sabemos que em Volta Redonda, Dom Waldir Calheiros acobertava comunistas, que em Belo Horizonte os padres assuncionistas ensinavam marxismo. Sabemos que na PUC muitas moças egressas do Colégio Sion e outros Institutos católicos saíam transformadas em guerrilheiras, e que a pregação do Pe. Henrique Vaz foi um dos fatores ativos da comunização dos jovens da PUC. Sabemos por declaração deles mesmos (ver o livro recente de Charles Antonoine) que Sr. Cândido Mendes, indicado para alto posto de representante do Brasil no Sínodo, andou sempre de braços com a esquerda católica pervertedora de jovens, e até hoje em todas as suas algaravias deixa transparecer sua irresistível atração pela anti-Igreja apelidada de "progressista". Sabemos também que muitas vezes os senhores bispos, numa lamentável incompreensão de seus deveres pastorais, correram precipitadamente a dar cobertura a padres relapsos e até criminosos, dificultando a tarefa do Governo.

Tudo isto é público e notório. Meus leitores devem saber que não é por gosto que comento tais escândalos, mas por julgar que, depois do escândalo de tais relapsos ou criminosos, e do escalo de tais bispos complacentes, maior escândalo seria o silêncio de quem tem uma pena na mão e a consciência de que deverá prestar contas a Deus do uso que fez de seus dons.

Tudo isto é planetariamente sabido. Como se não bastassem todos os meios de comunicação, já de si inclinados ao sensacionalismo, saem voando arcebispos para espalhar aos quatro ventos a simpatia de bispos católicos por guerrilheiros e sequestradores. Tudo isto, evidentemente, coberto com "o véu diáfano da fantasia" de um interesse pelos pobres que hoje só pode enganar os imbecis, ou os que por um dos tantos paradoxos da condição humana se apegam desesperadamente à mentira que sabe ser mentirosa, mas que julgam vital. Não podem mais viver sem esse ópio,

Ora, todo esse Himalaia de fatos corruscantes e estridentes é ignorado por Dom Ivo Lorscheider, que acorda cheio de melindres quando alguém lhe vem dizer  - Que horror! - que O GLOBO viu comunistas nos arraiais católicos! Não quero ocupar a atenção do leitor com o tumulto de sentimentos que me despertam pronunciamentos como este que acabo de ler. Mas creio cumprir um dever de caridade, de respeito, de decência elementar no aviso, no conselho, no serviço de advertência que ofereço ao Secretariado-Geral da CNBB.

Digo a essa entidade que tudo tem limite, e que um pronunciamento assim corre o risco de ser interpretado por qualquer pessoa de bom-senso como algo mais sério e mais grave do que uma simples sonolência eclesiástica. Corre o risco de ser visto pelo tão falado Povo de Deus como uma tentativa de tapar o sol com peneira de pedreiro. Corre o risco de empenhar gravemente, em tão baldado esforço, a honra da Igreja de Cristo.

 

(O Globo, 13-11-71)

Arte da guerra

Prof. David Clayton

Quem fez o melhor trabalho como artista da guerra: John Singer Sargent ou Picasso? Antes de tudo, considere a pintura encomendada pelo Comitê dos Memoriais de Guerra do governo britânico, e terminada em 1919. Ela se chama Gassed [numa tradução livre: Vítimas do Gás] e mostra alguns soldados – que o gás de mostarda cegou – sendo retirados do teatro de operações. Trata-se dum quadro grande, de cerca de 2,5m x 6m, e está exposto no Museu Imperial de Guerra em Londres.

Agora, considere a pintura Guernica, encomendada pelo governo republicano da Espanha nos anos de 1930, e pintada por Pablo Picasso. Sua morada permanente é o Museu do Prado, em Madri.

Defendo que a pintura de guerra de Sargent é superior à de Picasso, na medida em que a interpretação de Sargent condiz com a compreensão cristã sobre os horrores da guerra e nos abre caminho à esperança, ainda que sob a luz da guerra. Além disso, proponho que o quadro de Sargent é artisticamente superior. Eis as minhas razões:

Em primeiro lugar, o quadro de Sargent se parece com um quadro de guerra. Basta uma explicação mínima para que reconheçamos o que observamos. Sou da opinião de que, se não explicarem o assunto da pintura de Picasso, ninguém saberia do que se trata. A clareza – que é a propriedade pela qual somos capazes de entender, com um conhecimento ou um entendimento prévio reduzidíssimo, o que estamos observando – é uma qualidade essencial da arte cristã.  Sem a clareza a apreciação artística só é possível à elite cognoscenti que, apartada do vulgo como gnósticos modernos, entende e aprecia o que está para além do alcance das massas.

Em segundo lugar, Picasso não sabe desenhar. Sargent é um artista superior porque suas habilidades de desenho e pintura estão a anos-luz das de Picasso. Esta é uma obviedade que só aqueles que nunca freqüentaram uma universidade ousam declarar, porque não tiveram o bom senso “polido” – ao ponto de literalmente ser brunido até que se apague. Estou ciente de que alguns mencionarão a arte da fase inicial de Picasso, com a finalidade de alegar que ele é um desenhista brilhante que de propósito escolheu pintar de certa forma, em razão de um objetivo filosófico. No entanto, em comparação com outros estudantes que naquela época receberam treinamento acadêmico, suas habilidades eram medíocres. Mesmo que quisesse, não seria capaz de competir com eles numa prova de habilidades. É bem verdade que ele inventou uma filosofia contrária à visão de mundo cristã, e que a feiúra e a imagética distorcida de sua arte perseguiam tal propósito – mas nada disso lhe faz bem desenhada a obra. Certamente, é um mestre da autopromoção, o que é quase tudo de que se precisa para fazer sucesso na arte mainstream dos séculos XX e XXI. Se um aluno dum curso de desenho numa universidade qualquer fizesse Guernica como projeto, tiraria um F por técnica ruim.

Em terceiro lugar, o quadro de Picasso é feio e estúpido. As caricaturas infantis das gentes berrantes por óbvio retratam o sofrimento e a angústia, com espalhafato e crueza. Nem o esquema nem o acaso fazem desse retrato algo de apropriado – fazem-no antes má pintura. Alguns críticos nos dizem que ele nos oferece esperança, mas devem estar de brincadeira comigo. Se nele enxergo algo, é desespero, numa representação cruel e sem esperança. Isto demonstra um artista que não se importa com o público e um artista que carece dum vislumbre da verdade. Para o cristão, por mais desesperada que seja a situação, sempre há a esperança que transcende o sofrimento.

Em quarto e último lugar, Sargent retrata com clareza os horrores da guerra, mas esse horror ainda se infunde com a esperança e a compaixão. O quadro de Picasso, se transmite algo, é desespero, e isto é anticristão. Em Gassed, observamos compaixão e esperança nas interações humanas: os cegos são guiados pelos que enxergam. A luz do sol traspassa o ar venenoso e está pintada de molde a lhes parecer o destino.

Sargent conformou com conhecimento e notícia seu estilo de pintura ao do mestre barroco do séc. XVII, Diego Velazquez. O estilo barroco se desenvolveu especificamente para transmitir a esperança no meio do sofrimento, e pertence à autêntica tradição cristã. Na arte barroca tradicional, a luz brilhante contrasta de modo típico com a sombra profunda, numa linguagem visual cuja intenção é transmitir o fato de que existe o mal e o sofrimento neste mundo decaído, contudo por meio do Cristo, que é a Luz, encontra-se a esperança e o consolo que transcendem o sofrimento. No quadro Sargent é mais sutil: o contraste entre luz e sombra está velado, e não tão evidenciado quanto nas pinturas do séc. XVII. Todavia, ao se valer do sol como ponto focal, apesar de velado pelas pesadas nuvens de gás, indica-me ele a Luz. De mais a mais, os gestos das figuras transmitem compaixão. O uso dos gestos, a fim de transmitir uma interação amorosa, também é intrínseco ao estilo artístico do barroco. O estilo barroco, como Sargent o usou, é o único adequado para retratar por conseguinte o sofrimento da guerra sem atenuações, revelando o verdadeiro grau daquele sofrimento, mas assegurando ao mesmo tempo que a esperança cristã fosse retratada. Sargent não era um cristão, mas a mestria de seu estilo cristão significava que ali havia esperança, de tal forma que, na minha opinião, criara uma obra cristã.

Uma posição inversa: a Cultura entre as duas Guerras

Dr. Andrew Childs

O desenvolvimento da cultura antes da Segunda Guerra Mundial aconteceu em resposta a dois episódios cataclísmicos: a ascendência do modernismo e a Primeira Guerra Mundial. A relação entre ambos – muito semelhante a uma relação entre causa e efeito – merece uma análise em separado; no entanto, ao passo que o modernismo afirma que não se deve crer no sobrenatural, os horrores da Primeira Guerra Mundial dificultam essa descrença, sobretudo quando as expressões artísticas os amplificam. Um leitor que não se impressiona com as descrições factuais da obra “War That Will End War” [A Guerra para acabar com a Guerra] 1 deve duvidar da própria sanidade; um leitor que não se comove com a poesia de guerra de Wilfred Owen deve duvidar da própria humanidade. Esta apresentação considerará o desenvolvimento musical durante essa época de profundo desengano e se concentrará em dois elementos motivadores: o duradouro impacto social e o esgotamento que se seguiu à Primeira Guerra Mundial, e a emergência e a organização das formas da arte popular americanas que viriam a dominar o cenário cultural e musical do planeta à deflagração da Segunda Guerra Mundial.

A Fé traça uma linha acidentada entre duas visões incompatíveis da realidade. A vida da fé pressupõe a cooperação necessária e a compatibilidade entre a fé e a razão e a existência do sobrenatural. A visão de mundo humanista progride da insistência na distinção entre a fé e a razão até à rejeição definitiva da possibilidade da realidade sobrenatural. O crente que aceita a declaração da Igreja, de que “se alguém disser que o único Deus verdadeiro, nosso Senhor e Criador, não pode ser conhecido com certeza pelas luzes naturais da razão humana, seja anátema” 2, e o filósofo agnóstico que insiste, mormente em relação à crença religiosa, em que “aquilo que se afirma sem provas, nega-se sem provas”, encontrarão muito pouco terreno filosófico em comum3. De fato, um crê que o outro está delirando.

A negação do absoluto acompanha a negação do sobrenatural – segundo a evolução necessária da verdade no constructo humanista – ao que se segue como conseqüência natural o desmonte da hierarquia. As preferências substituem os padrões objetivos de qualidade, de molde que o nivelamento exigido para que todas as expressões artísticas e intelectuais tenham a mesma validade cria uma espécie muito incômoda de caos absoluto. Rubens e grafite, Shakespeare e e. e. cummings, balé e teatro de revista merecem idêntica consideração segundo os avaliadores iluminados, mas assim como um filósofo humanista comete um crucial engano ao negar o pecado original – ao supor num otimismo equivocado que o homem, abandonado a si mesmo, escolherá o bem – assim o crítico humanista peca ao supor que a eliminação dos padrões oferece ao artista a irreprimível liberdade criativa que é necessária ao maior e melhor desenvolvimento das técnicas e dos gêneros. Numa atmosfera de liberalidade irreprimível e amoral as coisas tendem antes a descer que a subir. A liberdade irrestrita, tão logo venha à tona, fica à mercê, ao fim e ao cabo, da atração da natureza decaída.

Postulou Aristóteles: “A natureza tem horror ao vácuo”. Também a cultura tem horror ao vácuo. No decorrer da história da música ocidental, sempre houve um equilíbrio saudável – ou ao menos razoável – entre a arte culta e a popular4. Quando e por que, todavia, o fiel da balança pendeu para a arte popular? Já sugeri nestas páginas5 que o domínio da arte popular decorreu tanto do abandono, por parte dos compositores modernistas eruditos, dos processos e propósitos da música, quanto do poder irresistível das formas de música popular – o observador honesto por força deve admitir o seu inegável encanto. Com a inversão da hierarquia, a dissolução dos padrões e a traição das academias musicais, o público decidiu por se entregar cada vez mais aos prazeres outrora culpáveis das formas musicais mais rasteiras. Para além disso, a apreciação duma música substanciosa requer um esforço significativo. Poderia eu argumentar que as recompensas – profunda consolação emocional e beleza transcendente, sem mencionar o revigorante esforço intelectual – fazem o trabalho valer a pena, mas alguém contra-argumentaria que a recreação não deve exigir um grande esforço, e que os homens nalgum momento devem afrouxar as gravatas, quando não retirá-las de todo.

No período de que falamos, a exaustão era um problema que se estava disseminando. “A mocidade americana em geral”, escreve Richard Weaver, “enfiada em uniformes, transladada para ambientes novos e mormente estéreis, e imbuída de todos os lados com a missão de matar, padeceu um severíssimo deslocamento. Tudo isso concorreu contra as platitudes benevolentes com as quais a educaram, por isso não é espantoso que ela adote a posição inversa” 6. Ou ainda, como disse com muito mais entusiasmo o historiador Samuel Hynes: “Os sobreviventes ficaram escandalizados, desenganados e amargurados com a experiência da guerra, e perceberam que os verdadeiros inimigos não eram os alemães, mas os velhos homens de casa que lhes haviam mentido. Eles rejeitaram os valores da sociedade que lhes enviara para a guerra, e ao fazê-lo separaram-se da geração anterior e sua herança cultural” 7. A humanidade sofreu um golpe duríssimo, e uma cultura permissiva e “rebelde” nunca pareceu tão atrativa.

Na virada do séc. XX, a música popular americana deu início a um domínio de escala global, baseado nos sucessos dos talentos nacionais de Stephen Foster (1826-1864) e Scott Joplin (1868-1917). Foster “entendeu, como nenhum compositor antes dele, que a verdadeira música popular deve ser assimilada na primeira ou na segunda audição, lembrada com alguma exatidão depois de poucas repetições, e deve ser facilmente executada em casa por pessoas de habilidades rudimentares” 8. As canções de Foster, modelares e reconhecidas de imediato até hoje, tinham um encanto universal, quase preternatural. “Os métodos da musicologia”, segundo o historiador da música Charles Hamm, “não explicam a contento como foi ele capaz de escrever... canções que continuaram populares por mais de um século. Os recursos eram tão simples que se chega a cogitar que quase qualquer pessoa seria capaz de escrever tais canções; ainda assim, ninguém as escreveu senão Foster” 9. Foster não descobriu o veio nostálgico da música popular americana, mas ninguém o explorou com mais eficácia. Para um público mundial cada vez mais exausto, “My Old Kentucky Home” pareceu um lugar mais aconchegante e hospitaleiro que uma sinfonia de Mahler.

O ragtime, e sobretudo a música de Scott Joplin, talvez expresse uma mistura incomum, contudo inegável, entre as tradições musicais européia e africana. Não obstante seja agora um gênero de nicho, o ragtime legitimou duma vez por todas os elementos fundamentais da tradição africana e conseguiu aceitação no repertório de músicas relevantes para piano, ao ser imitado por numerosos compositores europeus, dentre os quais Debussy, Stravinsky, Dvorak, Satie e Darius Milhaud. Por meio do seu estilo característico e do seu gênio interpretativo, Joplin provou-se essencial ao transpor a crítica barreira social entre negros e brancos, e ao franquear aos estilos de influência africana – assinalados por reconhecíveis elementos tradicionais – uma aceitação popular mais ampla: antífonas de “pergunta e resposta”, repetição de curtas frases melódicas, vocalização não-melódica, sincopação, polirritmia e improvisação10.

Dois grupos populacionais que viviam à margem da sociedade conquistaram efetivamente a cultura musical do mundo antes da deflagração da Segunda Guerra Mundial: os judeus, que eram maioria entre os compositores da Tin Pan Alley, e os músicos negros e urbanos que desenvolveram o blues e algumas composições mais ou menos ligadas ao jazz, por primeiro em Nova Orleans e mais tarde em cidades maiores por todo o país. 

De início, a Tin Pan Alley se referia a uma região suburbana de Manhattan — próxima à Union Square — que pelos fins do séc. XIX abrigava muitas editoras musicais. Essas editoras empregavam compositores e letristas que eram verdadeiramente prolíficos e talentosos, e que hoje são conhecidos por todo o mundo —  George Gershwin, Irving Berlin, Jerome Kern, Oscar Hammerstein, Frank Loesser, Cole Porter, Al Jolson, Johnny Mercer —, bem como um exército de “propagandistas musicais” que divulgavam as novas músicas por apresentações em lugares públicos. Com efeito inventaram uma franquia de música popular, ao criarem fórmulas de fácil assimilação que tinham êxito garantido e baseavam-se em pesquisas de mercado. Algumas dessas canções se venderam na casa dos milhões. Os compositores negros e judeus “que perseguiam o sucesso” formaram uma compreensível aliança social e profissional, e a mútua colaboração não apenas expandiu o blues, o jazz e a música popular, mas também resultou no surgimento de novos gêneros, como a Música de Teatro, o Cancioneiro Americano, as Big Bands, e finalmente o Rock ’n Roll.

Cada um desses subgêneros da música persistiu por tempo suficiente para que se desenvolvesse uma literatura e um campo de estudo próprios, alguns legítimos (o registro objetivo da evolução dos estilos, e a catalogação dos artistas, dos intérpretes e do repertório), e alguns meio vergonhosos (pseudomusicólogos que servem de capacho para artistas e obras populares) 11. Não obstante, a vastidão dessa literatura e desses subgêneros não representa as várias moradas dum excelso reino artístico, mas tão somente os diferentes cômodos duma mesma casa numa vizinhança suspeita, cujos ocupantes de contínuo a redecoram, renovam e expandem. Embora, em certos aspectos, a “estrutura” tenha sido alterada na sua substância, nunca se mudou de endereço.

Aqui começa a moral da história. Apesar de ser tentador, a demonização das formas de música popular ou vulgar tem pouco a oferecer à inspiração dum comportamento nobre. Podemos zombar da arquitetura da pensão cultural da música popular e descompor os pensionistas como instigadores do pecado. Podemos ultrajar o “espírito de fornicação” que anima muitos desses estilos, mas tal ultraje talvez facilmente se converta numa caricatura, que diz respeito tanto ao crítico quanto ao criticado. Para conhecimento, leia-se esta mordaz afirmação da década de 50 sobre os efeitos do jazz: “Após a disseminação do jazz, que com certeza foi obra das Forças do Mal, tornou-se notável um declínio na moral sexual. Enquanto outrora as mulheres se contentavam com uma corte decorosa, hoje em dia muitíssimas delas estão quase sempre inquietas em busca de aventuras eróticas, e transformaram esse furor sexual numa espécie de passatempo” 12. O Demônio, que toca saxofone numa banda de jazz, leva a menina a fazê-lo. O jazz, que em termos técnicos é indefinível  — ao mesmo tempo monótono e fascinante —, faz tanto mal para os seus apreciadores em particular quanto qualquer outra forma de música popular: isso só prova que o homem, diante duma recreação cultural que se aparte de conseqüências morais, e abandonado a si mesmo, escolherá o pior e buscará experiências prazerosas ao menor custo possível.

Ainda resta o fato concreto de que, à época da Segunda Guerra Mundial, os homens perderam a vontade de lutar pelos absolutos transcendentais, e de que o progresso contínuo de quase um milênio de cultura superior chegou quase a um ponto final, ao ser entravado, descarrilado e impedido por amigos e por inimigos. O ímpeto cultural perdido, como em tudo, requer mais esforço para recomeçar do que seria necessário para conservar o movimento. Todos os indivíduos que lutam em prol da nobreza devem tomar a difícil decisão de carregar a sua cruz e trabalhar; devem comprometer-se dia após dia com os esforços necessários para transcender a sedutora desolação duma realidade apenas natural sem negar as realidades da natureza humana, que são compartilhadas por almas simplórias e por almas formosas. “A educação”, escreve Alan Bloom, “não consiste em fazer para as crianças uma arenga contra os seus instintos e prazeres, mas proporcionar uma continuidade natural entre o que sentem e o que podem e devem ser” 13. O Demônio é um demolidor, e os artistas do séc. XX devem construir entre escombros para uma plateia de almas desenganadas. O artista popular constrói habitações baratas, sem ter em perspectiva nenhuma outra morada, e o mundo inteiro entra nesse lugar acessível e familiar onde encontra uma posição aconchegante. Sem negar a necessidade de abrigo nem subestimar a sedução do conforto, nunca percamos de vista que a posição está invertida: não escolhamos para moradia lugares culturais potencialmente arriscados, por mais que os reputemos convidativos ou legitimamente prazerosos. Quanto à cultura, sabemos a que lugar pertencemos. A jornada ainda é longa e dolorosa, mas gloriosíssima.

  1. 1. Esse é o título de um livro de H. G. Wells.
  2. 2. Concílio Vaticano I, De Revelatione, can.
  3. 3. Christopher Hitchens, god is not Great: How Religion Poisons Everything (Twelve Books, 2007), 150. [Em português: Deus não é Grande: Como a religião envenena tudo, Globo Livros, 2016).
  4. 4. Handel compôs na mesma época de John Gay, e embora o público afluísse para assistir The Beggar’s Opera [A Ópera do Vagabundo] – que contém canções edificantes e imortais como “Our Polly is a sad Slut!” [A Nossa Polly é uma vadia deplorável!] – pouca gente argüiria com seriedade em prol da superioridade artística de Gay.
  5. 5. “Modernism in music – Who cares if you listen?” [Modernismo na música: A quem interessa, se te agrada?] The Angelus magazine, September-October 2020, Mondernism.
  6. 6. Richard Weaver, The Ethics of Rhetoric [A Ética da Retórica] (Hermagoras, 1985), 225.
  7. 7. Samuem Hynes, A War Imagined: The First World War and English Culture [Guerra na Imaginação: A Primeira Guerra Mundial e a Cultura Inglesa] (Atheneum, 1991), iii.
  8. 8. The New Grove Dictionary of Music and Musicians (MacMillan, 1995) Volume 15, 101.
  9. 9. Ibid.
  10. 10. Peter Burkholder, A History of Western Music [História da Música Ocidental]: 7th Edition (Norton, 2006) 753-754.
  11. 11. Os arrazoados acadêmicos sobre o conceito de quaisquer dos álbuns dos Beatles recaem nesta categoria.
  12. 12. Cyril Scott, Music, Its Secret Influence Throughout the Ages [A Influência Secreta da Música ao longo dos Séculos] (Aquarian Press, 1958) 152.
  13. 13. Alan Bloom, The Closing of the American Mind [O Fechamento da Inteligência Americana] (Simon and Schuster, 1987) 80.

Os amigos de Dom Hélder

Gustavo Corção

 

Alguns leitores estranharam, que eu tivesse dito, no artigo de quinta-feira, que os criminosos sequestradores do Caravelle eram amigos de Dom Hélder; mas é o próprio arcebispo que autoriza essa declaração, como se lê claramente na entrevista dada a L”Express e já comentada em vários jornais e transcrita na íntegra em O Estado de São Paulo de 5 de julho.

L”Express: “O senhor também não crê na guerrilha urbana? ”

Dom Hélder: “Também não. Mas não digo isto para desencorajar os jovens que se esforçam por obter a liberação de nosso povo. Eu os amo e persigo o mesmo objetivo. Eles são admiráveis, esses guerrilheiros urbanos. Eles assaltam os bancos para obter dinheiro a fim de comprar armas. Mas quando conhecemos um pouco o preço das armas, sabemos que eles nunca terão o bastante, com o que tiram dos bancos, para enfrentar o Exército. Nem mesmo com o que podem recuperar aqui ou ali nos quartéis. Você me dirá que eles lucram mais com os sequestros de pessoas importantes, mas alguns são presos. São torturados e às vezes dão com a língua nos dentes. É muito difícil resistir quando lhes arrancam as unhas e lhes esmagam os testículos”

Eis aí o que Dom Hélder disse em Paris. Ele ama e admira os moços que assaltam bancos matando os funcionários que resistem, os moços que sequestram aviões pondo os passageiros em risco de vida, e os que assassinam os embaixadores caso os governos resistam a suas “exigências”. Os do Caravelle exigiram dois cardeais. Dom Hélder os admira e os aprova. Dois anos atrás, em São Paulo, esses amigos de Dom Hélder, para comemorar o aniversário de morte de Guevara, assassinaram ritualmente um moço americano que passeava com o filho de dez anos. A moça que ajudou a matar esses desprezível bípede implume, para o qual Dom Hélder não se digna sequer a dedicar uma linha de sua entrevista, está na Argélia e já disse que praticara um assassinato místico. Dom Hélder, em Paris, fez questão de se tornar corresponsável por esse crime. Não ama? Não admira? Não encoraja os assassinos? Se os cardeais exigidos numa bandeja morressem de enfarte, Dom Hélder lamentaria esse defeito técnico de operação, mas não desaprovaria a operação em si.

***

Quero registrar aqui apenas uma ligeira reflexão sobre as unhas arrancadas. É curioso que até hoje, com quase 100 terroristas libertados, não tenham apresentado nenhum com as unhas arrancadas.

Mas não é nada disso o que mais me choca na entrevista de Dom Hélder. O que mais me choca não é a sua aprovação de meios tão evidentemente criminosos. Peço ao leitor que entenda bem a coisa espantosa que vou dizer. É o seguinte: eu ainda entenderia toda essa clamorosa admiração pelo crime se me dissessem que Dom Hélder tem uma convicção socialista tão forte e tão apaixonada, e tão clara e nítida como a da Passionária.

Mas nosso arcebispo, na mesma entrevista, interrogado sobre o modelo de sociedade que deseja, já que repeliu o capitalismo e o socialismo comunista, se perde em reticências. Ele ainda não sabe, ele ainda não tem os planos, os programas, os lemas, as estruturas. Nada. O arcebispo que se entusiasma com roubos, sequestros e assassinatos, ainda não fixou seu ideal pelo qual, entretanto, já aconselha o assalto, o sequestro e o assassinato. Diz “que é preciso que todos os universitários técnicos, trabalhadores, todos procurem uma forma de socialismo que não esmague as pessoas...”

Nesse meio tempo, enquanto não se encontra o ideal, Dom Hélder aplaude o mostro que ritualmente ou misticamente imolou um inocente. É claro que nosso arcebispo não explicitou esse aplauso particular; mas explicitou o genérico que me autoriza o enquadramento dos casos particulares a que se esquivara o ilustre prelado.

O que me deixa atordoado de espanto é o abismo que vejo entre a terrível responsabilidade que assume o arcebispo nos louvores que tece aos criminosos, e o vácuo absoluto de qualquer objetivo. Matar pessoas para uma “liberação” que ainda não está sequer esboçada é algo de tão colossalmente monstruoso que me leva a uma conclusão no extremo oposto de tudo o que até aqui escrevi para cobrar responsabilidades a um arcebispo.

Concluo que é inútil. Concluo que nada do que diz Dom Hélder significa nada. Tudo o que disse a L’Express se reduz a nada, a noves fora nada. Não há outra alternativa: ou monstruosidade moral digna de um prêmio Nobel, ou vacuidade total. Refugio-me nesta última hipótese e vejo diante de mim um títere esvaziado de substância humana, um cata-vento, um boneco falante que só é entrevistado e levado a sério porque o mundo está acometido de uma forma nova de gripe que transforma vinte mil franceses, inclusive os eclesiásticos presentes no Palais des Sports, em vinte mil imbecis ou vinte mil canalhas.

Fora daí não vejo explicação plausível para o fenômeno, a não ser que tudo se explique pela organização IDO-C ou maoísta do Palais des Sports, dentro da qual o infortunado arcebispo fala, braceja e se contorce como um simples títere.

 

(O Globo, 11/07/1970)

Em Paris

Gustavo Corção

 

No mesmo número em que rememora os sucessos e a fascinação de Adolf Hitler, a revista francesa de maior tiragem, Paris-Match, dedica uma página inteira à figura de Dom Hélder Câmara a gritar, no Palais des Sports, a vinte mil ouvintes, a frase que o jornalista destaca: “oui, dans mon pays on torture”. E o autor da reportagem, Jean Cau, não somente acredita na sinceridade do orador como também a admira. E admira os jovens que correm a ouvir Dom Hélder; e assinala, com a maior simpatia do mundo, a presença do Arcebispo de Paris, na primeira fila dos ouvintes.

Mas o curioso aspecto dessa reportagem está nas fotografias, mais do que nos comentários fabricados por um profissional que está “por fora” e não esconde o seu sentimento de estar em terra alheia e em mundo desconhecido.

O conferencista leva a Paris a notícia de que o Brasil é um país onde se torturam os presos, e onde esse comportamento, longe de ser acidental, emana do próprio sistema que governa o país. Ora, o que se vê no auditório é uma multidão de rostos sorridentes. O Arcebispo de Paris sorri como se estivesse a acompanhar acrobacias ou palhaçadas. E o repórter depaysé tenta inculcar a ideia de que Dom Hélder esteja a demonstrar uma grande coragem, dada a incrível ferocidade do povo brasileiro, mas não consegue a modulação estilística que se impunha para tornar convincente a “coragem” de Dom Hélder.

***

Em tudo isto, que já bastava para nos encher de vergonha e tristeza, eu não me impressiono demais com o personagem Hélder Câmara e com o seu sucesso. Na mesma revista rememoramos o personagem Hitler e o seu sucesso. Em vão procuraríamos em Hélder e em Adolf o ramalhete de qualidades peregrinas ou de vícios geniais que explicassem o sucesso. Uma das maiores e mais torpes tentações do espírito humano é a que o leva a se prosternar diante do sucesso. Adolf Hitler era um pobre títere, insignificante e destinado a voltar ao pó sem deixar nenhuma lembrança na mente dos homens se um conjunto de circunstâncias o não tivesse colocado no pedestal da esperança de um povo ressentido.

O que espanta nesses espetáculos não é Hitler nem Hélder, são os “outros”; é a multidão que se eletriza e que elege, inventa, ou julga descobrir um representante de uma secreta ressonância. A reportagem de Jean Cau não prova que Dom Hélder esteja fazendo um sucesso doido em Paris; prova que Paris se tornou capaz de produzir tal phenomêne.

Lendo a reportagem de Jean Cau e examinando as fotografias que a ilustram, eu sinto duas vergonhas profundas. A primeira é a de imaginar que é um brasileiro, cearense, e ainda por cima arcebispo, que está espalhando no estrangeiro a difamação da pátria que cumpriu o dever de expulsar e reprimir os comunistas. A segunda vergonha, mais profunda, é a de ver Paris ouvir com tamanha atenção um personagem que aqui no Brasil só conseguiu cativar a meia dúzia de senhoras e senhoritas que o serviram no Palácio São Joaquim. Parece inevitável esta conclusão: o planeta está acometido de um ataque de estupidez. Há uma depressão cultural, uma bolha na história, um buraco em vez de pedra no caminho do homem, e parece que Paris, Tout-Paris, caiu nesse buraco. O sucesso de nosso Hélder Câmara em Paris prova aquilo a que já me referi em vários artigos: Paris é o centro da guerra revolucionária, a capital da contestação, o foco da peste que imbeciliza o mundo. E é esta contestação inevitável que me mergulha numa envergonhada melancolia como se no Palais des Sports estivesse sendo vaiada, ou por derrisão aplaudida a caricatura do Homem.

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Um amigo meu estava outro dia no Galeão e, sem querer, assistiu à chegada de Dom Hélder. Chegou, com sua batina e sua mala. Ninguém o esperava. Até aqui não se admirou meu amigo, e até se algum francês estivesse no Galeão seria capaz de atribuir tal apagamento à humildade de Dom Hélder. Mas meu amigo teve a ideia de seguir de longe a trajetória do padre até o momento em que tomou um taxi e observou o seguinte: ninguém, absolutamente, ninguém aproximou-se de Dom Hélder, cumprimentou, sorriu-lhe.

Mas então como se explica a popularidade em Paris? A chave não está no valor próprio do personagem; nem está no campo de força da multidão. Onde está então? Creio que a explicação que se impõe é esta: o fenômeno é produzido e comandado por um “aparelho” que organiza, promove e escolhe seus títeres e seu público. Sem esse “aparelho” Dom Hélder volta ao pó do andar térreo do Palácio São Joaquim.

E de onde vem a força e o comando desse “aparelho”? Não sei. Devem estar relacionadas com as conhecidas organizações que assaltam a Igreja e aprisionam o Papa. Mas quem é que puxa os cordões que fazem Dom Hélder abrir os braços, abrir a boca, parolar, e faz o Arcebispo D. Marthy sorrir beatamente? Quem é que comanda o “aparelho” que imbeciliza durante uma ou duas horas vinte mil parisienses? Não sei, mas tenho uma pista, uma desconfiança.

 

(O Globo, 20/06/1970)

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