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Arte da guerra

Prof. David Clayton

Quem fez o melhor trabalho como artista da guerra: John Singer Sargent ou Picasso? Antes de tudo, considere a pintura encomendada pelo Comitê dos Memoriais de Guerra do governo britânico, e terminada em 1919. Ela se chama Gassed [numa tradução livre: Vítimas do Gás] e mostra alguns soldados – que o gás de mostarda cegou – sendo retirados do teatro de operações. Trata-se dum quadro grande, de cerca de 2,5m x 6m, e está exposto no Museu Imperial de Guerra em Londres.

Agora, considere a pintura Guernica, encomendada pelo governo republicano da Espanha nos anos de 1930, e pintada por Pablo Picasso. Sua morada permanente é o Museu do Prado, em Madri.

Defendo que a pintura de guerra de Sargent é superior à de Picasso, na medida em que a interpretação de Sargent condiz com a compreensão cristã sobre os horrores da guerra e nos abre caminho à esperança, ainda que sob a luz da guerra. Além disso, proponho que o quadro de Sargent é artisticamente superior. Eis as minhas razões:

Em primeiro lugar, o quadro de Sargent se parece com um quadro de guerra. Basta uma explicação mínima para que reconheçamos o que observamos. Sou da opinião de que, se não explicarem o assunto da pintura de Picasso, ninguém saberia do que se trata. A clareza – que é a propriedade pela qual somos capazes de entender, com um conhecimento ou um entendimento prévio reduzidíssimo, o que estamos observando – é uma qualidade essencial da arte cristã.  Sem a clareza a apreciação artística só é possível à elite cognoscenti que, apartada do vulgo como gnósticos modernos, entende e aprecia o que está para além do alcance das massas.

Em segundo lugar, Picasso não sabe desenhar. Sargent é um artista superior porque suas habilidades de desenho e pintura estão a anos-luz das de Picasso. Esta é uma obviedade que só aqueles que nunca freqüentaram uma universidade ousam declarar, porque não tiveram o bom senso “polido” – ao ponto de literalmente ser brunido até que se apague. Estou ciente de que alguns mencionarão a arte da fase inicial de Picasso, com a finalidade de alegar que ele é um desenhista brilhante que de propósito escolheu pintar de certa forma, em razão de um objetivo filosófico. No entanto, em comparação com outros estudantes que naquela época receberam treinamento acadêmico, suas habilidades eram medíocres. Mesmo que quisesse, não seria capaz de competir com eles numa prova de habilidades. É bem verdade que ele inventou uma filosofia contrária à visão de mundo cristã, e que a feiúra e a imagética distorcida de sua arte perseguiam tal propósito – mas nada disso lhe faz bem desenhada a obra. Certamente, é um mestre da autopromoção, o que é quase tudo de que se precisa para fazer sucesso na arte mainstream dos séculos XX e XXI. Se um aluno dum curso de desenho numa universidade qualquer fizesse Guernica como projeto, tiraria um F por técnica ruim.

Em terceiro lugar, o quadro de Picasso é feio e estúpido. As caricaturas infantis das gentes berrantes por óbvio retratam o sofrimento e a angústia, com espalhafato e crueza. Nem o esquema nem o acaso fazem desse retrato algo de apropriado – fazem-no antes má pintura. Alguns críticos nos dizem que ele nos oferece esperança, mas devem estar de brincadeira comigo. Se nele enxergo algo, é desespero, numa representação cruel e sem esperança. Isto demonstra um artista que não se importa com o público e um artista que carece dum vislumbre da verdade. Para o cristão, por mais desesperada que seja a situação, sempre há a esperança que transcende o sofrimento.

Em quarto e último lugar, Sargent retrata com clareza os horrores da guerra, mas esse horror ainda se infunde com a esperança e a compaixão. O quadro de Picasso, se transmite algo, é desespero, e isto é anticristão. Em Gassed, observamos compaixão e esperança nas interações humanas: os cegos são guiados pelos que enxergam. A luz do sol traspassa o ar venenoso e está pintada de molde a lhes parecer o destino.

Sargent conformou com conhecimento e notícia seu estilo de pintura ao do mestre barroco do séc. XVII, Diego Velazquez. O estilo barroco se desenvolveu especificamente para transmitir a esperança no meio do sofrimento, e pertence à autêntica tradição cristã. Na arte barroca tradicional, a luz brilhante contrasta de modo típico com a sombra profunda, numa linguagem visual cuja intenção é transmitir o fato de que existe o mal e o sofrimento neste mundo decaído, contudo por meio do Cristo, que é a Luz, encontra-se a esperança e o consolo que transcendem o sofrimento. No quadro Sargent é mais sutil: o contraste entre luz e sombra está velado, e não tão evidenciado quanto nas pinturas do séc. XVII. Todavia, ao se valer do sol como ponto focal, apesar de velado pelas pesadas nuvens de gás, indica-me ele a Luz. De mais a mais, os gestos das figuras transmitem compaixão. O uso dos gestos, a fim de transmitir uma interação amorosa, também é intrínseco ao estilo artístico do barroco. O estilo barroco, como Sargent o usou, é o único adequado para retratar por conseguinte o sofrimento da guerra sem atenuações, revelando o verdadeiro grau daquele sofrimento, mas assegurando ao mesmo tempo que a esperança cristã fosse retratada. Sargent não era um cristão, mas a mestria de seu estilo cristão significava que ali havia esperança, de tal forma que, na minha opinião, criara uma obra cristã.

Uma posição inversa: a Cultura entre as duas Guerras

Dr. Andrew Childs

O desenvolvimento da cultura antes da Segunda Guerra Mundial aconteceu em resposta a dois episódios cataclísmicos: a ascendência do modernismo e a Primeira Guerra Mundial. A relação entre ambos – muito semelhante a uma relação entre causa e efeito – merece uma análise em separado; no entanto, ao passo que o modernismo afirma que não se deve crer no sobrenatural, os horrores da Primeira Guerra Mundial dificultam essa descrença, sobretudo quando as expressões artísticas os amplificam. Um leitor que não se impressiona com as descrições factuais da obra “War That Will End War” [A Guerra para acabar com a Guerra] 1 deve duvidar da própria sanidade; um leitor que não se comove com a poesia de guerra de Wilfred Owen deve duvidar da própria humanidade. Esta apresentação considerará o desenvolvimento musical durante essa época de profundo desengano e se concentrará em dois elementos motivadores: o duradouro impacto social e o esgotamento que se seguiu à Primeira Guerra Mundial, e a emergência e a organização das formas da arte popular americanas que viriam a dominar o cenário cultural e musical do planeta à deflagração da Segunda Guerra Mundial.

A Fé traça uma linha acidentada entre duas visões incompatíveis da realidade. A vida da fé pressupõe a cooperação necessária e a compatibilidade entre a fé e a razão e a existência do sobrenatural. A visão de mundo humanista progride da insistência na distinção entre a fé e a razão até à rejeição definitiva da possibilidade da realidade sobrenatural. O crente que aceita a declaração da Igreja, de que “se alguém disser que o único Deus verdadeiro, nosso Senhor e Criador, não pode ser conhecido com certeza pelas luzes naturais da razão humana, seja anátema” 2, e o filósofo agnóstico que insiste, mormente em relação à crença religiosa, em que “aquilo que se afirma sem provas, nega-se sem provas”, encontrarão muito pouco terreno filosófico em comum3. De fato, um crê que o outro está delirando.

A negação do absoluto acompanha a negação do sobrenatural – segundo a evolução necessária da verdade no constructo humanista – ao que se segue como conseqüência natural o desmonte da hierarquia. As preferências substituem os padrões objetivos de qualidade, de molde que o nivelamento exigido para que todas as expressões artísticas e intelectuais tenham a mesma validade cria uma espécie muito incômoda de caos absoluto. Rubens e grafite, Shakespeare e e. e. cummings, balé e teatro de revista merecem idêntica consideração segundo os avaliadores iluminados, mas assim como um filósofo humanista comete um crucial engano ao negar o pecado original – ao supor num otimismo equivocado que o homem, abandonado a si mesmo, escolherá o bem – assim o crítico humanista peca ao supor que a eliminação dos padrões oferece ao artista a irreprimível liberdade criativa que é necessária ao maior e melhor desenvolvimento das técnicas e dos gêneros. Numa atmosfera de liberalidade irreprimível e amoral as coisas tendem antes a descer que a subir. A liberdade irrestrita, tão logo venha à tona, fica à mercê, ao fim e ao cabo, da atração da natureza decaída.

Postulou Aristóteles: “A natureza tem horror ao vácuo”. Também a cultura tem horror ao vácuo. No decorrer da história da música ocidental, sempre houve um equilíbrio saudável – ou ao menos razoável – entre a arte culta e a popular4. Quando e por que, todavia, o fiel da balança pendeu para a arte popular? Já sugeri nestas páginas5 que o domínio da arte popular decorreu tanto do abandono, por parte dos compositores modernistas eruditos, dos processos e propósitos da música, quanto do poder irresistível das formas de música popular – o observador honesto por força deve admitir o seu inegável encanto. Com a inversão da hierarquia, a dissolução dos padrões e a traição das academias musicais, o público decidiu por se entregar cada vez mais aos prazeres outrora culpáveis das formas musicais mais rasteiras. Para além disso, a apreciação duma música substanciosa requer um esforço significativo. Poderia eu argumentar que as recompensas – profunda consolação emocional e beleza transcendente, sem mencionar o revigorante esforço intelectual – fazem o trabalho valer a pena, mas alguém contra-argumentaria que a recreação não deve exigir um grande esforço, e que os homens nalgum momento devem afrouxar as gravatas, quando não retirá-las de todo.

No período de que falamos, a exaustão era um problema que se estava disseminando. “A mocidade americana em geral”, escreve Richard Weaver, “enfiada em uniformes, transladada para ambientes novos e mormente estéreis, e imbuída de todos os lados com a missão de matar, padeceu um severíssimo deslocamento. Tudo isso concorreu contra as platitudes benevolentes com as quais a educaram, por isso não é espantoso que ela adote a posição inversa” 6. Ou ainda, como disse com muito mais entusiasmo o historiador Samuel Hynes: “Os sobreviventes ficaram escandalizados, desenganados e amargurados com a experiência da guerra, e perceberam que os verdadeiros inimigos não eram os alemães, mas os velhos homens de casa que lhes haviam mentido. Eles rejeitaram os valores da sociedade que lhes enviara para a guerra, e ao fazê-lo separaram-se da geração anterior e sua herança cultural” 7. A humanidade sofreu um golpe duríssimo, e uma cultura permissiva e “rebelde” nunca pareceu tão atrativa.

Na virada do séc. XX, a música popular americana deu início a um domínio de escala global, baseado nos sucessos dos talentos nacionais de Stephen Foster (1826-1864) e Scott Joplin (1868-1917). Foster “entendeu, como nenhum compositor antes dele, que a verdadeira música popular deve ser assimilada na primeira ou na segunda audição, lembrada com alguma exatidão depois de poucas repetições, e deve ser facilmente executada em casa por pessoas de habilidades rudimentares” 8. As canções de Foster, modelares e reconhecidas de imediato até hoje, tinham um encanto universal, quase preternatural. “Os métodos da musicologia”, segundo o historiador da música Charles Hamm, “não explicam a contento como foi ele capaz de escrever... canções que continuaram populares por mais de um século. Os recursos eram tão simples que se chega a cogitar que quase qualquer pessoa seria capaz de escrever tais canções; ainda assim, ninguém as escreveu senão Foster” 9. Foster não descobriu o veio nostálgico da música popular americana, mas ninguém o explorou com mais eficácia. Para um público mundial cada vez mais exausto, “My Old Kentucky Home” pareceu um lugar mais aconchegante e hospitaleiro que uma sinfonia de Mahler.

O ragtime, e sobretudo a música de Scott Joplin, talvez expresse uma mistura incomum, contudo inegável, entre as tradições musicais européia e africana. Não obstante seja agora um gênero de nicho, o ragtime legitimou duma vez por todas os elementos fundamentais da tradição africana e conseguiu aceitação no repertório de músicas relevantes para piano, ao ser imitado por numerosos compositores europeus, dentre os quais Debussy, Stravinsky, Dvorak, Satie e Darius Milhaud. Por meio do seu estilo característico e do seu gênio interpretativo, Joplin provou-se essencial ao transpor a crítica barreira social entre negros e brancos, e ao franquear aos estilos de influência africana – assinalados por reconhecíveis elementos tradicionais – uma aceitação popular mais ampla: antífonas de “pergunta e resposta”, repetição de curtas frases melódicas, vocalização não-melódica, sincopação, polirritmia e improvisação10.

Dois grupos populacionais que viviam à margem da sociedade conquistaram efetivamente a cultura musical do mundo antes da deflagração da Segunda Guerra Mundial: os judeus, que eram maioria entre os compositores da Tin Pan Alley, e os músicos negros e urbanos que desenvolveram o blues e algumas composições mais ou menos ligadas ao jazz, por primeiro em Nova Orleans e mais tarde em cidades maiores por todo o país. 

De início, a Tin Pan Alley se referia a uma região suburbana de Manhattan — próxima à Union Square — que pelos fins do séc. XIX abrigava muitas editoras musicais. Essas editoras empregavam compositores e letristas que eram verdadeiramente prolíficos e talentosos, e que hoje são conhecidos por todo o mundo —  George Gershwin, Irving Berlin, Jerome Kern, Oscar Hammerstein, Frank Loesser, Cole Porter, Al Jolson, Johnny Mercer —, bem como um exército de “propagandistas musicais” que divulgavam as novas músicas por apresentações em lugares públicos. Com efeito inventaram uma franquia de música popular, ao criarem fórmulas de fácil assimilação que tinham êxito garantido e baseavam-se em pesquisas de mercado. Algumas dessas canções se venderam na casa dos milhões. Os compositores negros e judeus “que perseguiam o sucesso” formaram uma compreensível aliança social e profissional, e a mútua colaboração não apenas expandiu o blues, o jazz e a música popular, mas também resultou no surgimento de novos gêneros, como a Música de Teatro, o Cancioneiro Americano, as Big Bands, e finalmente o Rock ’n Roll.

Cada um desses subgêneros da música persistiu por tempo suficiente para que se desenvolvesse uma literatura e um campo de estudo próprios, alguns legítimos (o registro objetivo da evolução dos estilos, e a catalogação dos artistas, dos intérpretes e do repertório), e alguns meio vergonhosos (pseudomusicólogos que servem de capacho para artistas e obras populares) 11. Não obstante, a vastidão dessa literatura e desses subgêneros não representa as várias moradas dum excelso reino artístico, mas tão somente os diferentes cômodos duma mesma casa numa vizinhança suspeita, cujos ocupantes de contínuo a redecoram, renovam e expandem. Embora, em certos aspectos, a “estrutura” tenha sido alterada na sua substância, nunca se mudou de endereço.

Aqui começa a moral da história. Apesar de ser tentador, a demonização das formas de música popular ou vulgar tem pouco a oferecer à inspiração dum comportamento nobre. Podemos zombar da arquitetura da pensão cultural da música popular e descompor os pensionistas como instigadores do pecado. Podemos ultrajar o “espírito de fornicação” que anima muitos desses estilos, mas tal ultraje talvez facilmente se converta numa caricatura, que diz respeito tanto ao crítico quanto ao criticado. Para conhecimento, leia-se esta mordaz afirmação da década de 50 sobre os efeitos do jazz: “Após a disseminação do jazz, que com certeza foi obra das Forças do Mal, tornou-se notável um declínio na moral sexual. Enquanto outrora as mulheres se contentavam com uma corte decorosa, hoje em dia muitíssimas delas estão quase sempre inquietas em busca de aventuras eróticas, e transformaram esse furor sexual numa espécie de passatempo” 12. O Demônio, que toca saxofone numa banda de jazz, leva a menina a fazê-lo. O jazz, que em termos técnicos é indefinível  — ao mesmo tempo monótono e fascinante —, faz tanto mal para os seus apreciadores em particular quanto qualquer outra forma de música popular: isso só prova que o homem, diante duma recreação cultural que se aparte de conseqüências morais, e abandonado a si mesmo, escolherá o pior e buscará experiências prazerosas ao menor custo possível.

Ainda resta o fato concreto de que, à época da Segunda Guerra Mundial, os homens perderam a vontade de lutar pelos absolutos transcendentais, e de que o progresso contínuo de quase um milênio de cultura superior chegou quase a um ponto final, ao ser entravado, descarrilado e impedido por amigos e por inimigos. O ímpeto cultural perdido, como em tudo, requer mais esforço para recomeçar do que seria necessário para conservar o movimento. Todos os indivíduos que lutam em prol da nobreza devem tomar a difícil decisão de carregar a sua cruz e trabalhar; devem comprometer-se dia após dia com os esforços necessários para transcender a sedutora desolação duma realidade apenas natural sem negar as realidades da natureza humana, que são compartilhadas por almas simplórias e por almas formosas. “A educação”, escreve Alan Bloom, “não consiste em fazer para as crianças uma arenga contra os seus instintos e prazeres, mas proporcionar uma continuidade natural entre o que sentem e o que podem e devem ser” 13. O Demônio é um demolidor, e os artistas do séc. XX devem construir entre escombros para uma plateia de almas desenganadas. O artista popular constrói habitações baratas, sem ter em perspectiva nenhuma outra morada, e o mundo inteiro entra nesse lugar acessível e familiar onde encontra uma posição aconchegante. Sem negar a necessidade de abrigo nem subestimar a sedução do conforto, nunca percamos de vista que a posição está invertida: não escolhamos para moradia lugares culturais potencialmente arriscados, por mais que os reputemos convidativos ou legitimamente prazerosos. Quanto à cultura, sabemos a que lugar pertencemos. A jornada ainda é longa e dolorosa, mas gloriosíssima.

  1. 1. Esse é o título de um livro de H. G. Wells.
  2. 2. Concílio Vaticano I, De Revelatione, can.
  3. 3. Christopher Hitchens, god is not Great: How Religion Poisons Everything (Twelve Books, 2007), 150. [Em português: Deus não é Grande: Como a religião envenena tudo, Globo Livros, 2016).
  4. 4. Handel compôs na mesma época de John Gay, e embora o público afluísse para assistir The Beggar’s Opera [A Ópera do Vagabundo] – que contém canções edificantes e imortais como “Our Polly is a sad Slut!” [A Nossa Polly é uma vadia deplorável!] – pouca gente argüiria com seriedade em prol da superioridade artística de Gay.
  5. 5. “Modernism in music – Who cares if you listen?” [Modernismo na música: A quem interessa, se te agrada?] The Angelus magazine, September-October 2020, Mondernism.
  6. 6. Richard Weaver, The Ethics of Rhetoric [A Ética da Retórica] (Hermagoras, 1985), 225.
  7. 7. Samuem Hynes, A War Imagined: The First World War and English Culture [Guerra na Imaginação: A Primeira Guerra Mundial e a Cultura Inglesa] (Atheneum, 1991), iii.
  8. 8. The New Grove Dictionary of Music and Musicians (MacMillan, 1995) Volume 15, 101.
  9. 9. Ibid.
  10. 10. Peter Burkholder, A History of Western Music [História da Música Ocidental]: 7th Edition (Norton, 2006) 753-754.
  11. 11. Os arrazoados acadêmicos sobre o conceito de quaisquer dos álbuns dos Beatles recaem nesta categoria.
  12. 12. Cyril Scott, Music, Its Secret Influence Throughout the Ages [A Influência Secreta da Música ao longo dos Séculos] (Aquarian Press, 1958) 152.
  13. 13. Alan Bloom, The Closing of the American Mind [O Fechamento da Inteligência Americana] (Simon and Schuster, 1987) 80.

Os amigos de Dom Hélder

Gustavo Corção

 

Alguns leitores estranharam, que eu tivesse dito, no artigo de quinta-feira, que os criminosos sequestradores do Caravelle eram amigos de Dom Hélder; mas é o próprio arcebispo que autoriza essa declaração, como se lê claramente na entrevista dada a L”Express e já comentada em vários jornais e transcrita na íntegra em O Estado de São Paulo de 5 de julho.

L”Express: “O senhor também não crê na guerrilha urbana? ”

Dom Hélder: “Também não. Mas não digo isto para desencorajar os jovens que se esforçam por obter a liberação de nosso povo. Eu os amo e persigo o mesmo objetivo. Eles são admiráveis, esses guerrilheiros urbanos. Eles assaltam os bancos para obter dinheiro a fim de comprar armas. Mas quando conhecemos um pouco o preço das armas, sabemos que eles nunca terão o bastante, com o que tiram dos bancos, para enfrentar o Exército. Nem mesmo com o que podem recuperar aqui ou ali nos quartéis. Você me dirá que eles lucram mais com os sequestros de pessoas importantes, mas alguns são presos. São torturados e às vezes dão com a língua nos dentes. É muito difícil resistir quando lhes arrancam as unhas e lhes esmagam os testículos”

Eis aí o que Dom Hélder disse em Paris. Ele ama e admira os moços que assaltam bancos matando os funcionários que resistem, os moços que sequestram aviões pondo os passageiros em risco de vida, e os que assassinam os embaixadores caso os governos resistam a suas “exigências”. Os do Caravelle exigiram dois cardeais. Dom Hélder os admira e os aprova. Dois anos atrás, em São Paulo, esses amigos de Dom Hélder, para comemorar o aniversário de morte de Guevara, assassinaram ritualmente um moço americano que passeava com o filho de dez anos. A moça que ajudou a matar esses desprezível bípede implume, para o qual Dom Hélder não se digna sequer a dedicar uma linha de sua entrevista, está na Argélia e já disse que praticara um assassinato místico. Dom Hélder, em Paris, fez questão de se tornar corresponsável por esse crime. Não ama? Não admira? Não encoraja os assassinos? Se os cardeais exigidos numa bandeja morressem de enfarte, Dom Hélder lamentaria esse defeito técnico de operação, mas não desaprovaria a operação em si.

***

Quero registrar aqui apenas uma ligeira reflexão sobre as unhas arrancadas. É curioso que até hoje, com quase 100 terroristas libertados, não tenham apresentado nenhum com as unhas arrancadas.

Mas não é nada disso o que mais me choca na entrevista de Dom Hélder. O que mais me choca não é a sua aprovação de meios tão evidentemente criminosos. Peço ao leitor que entenda bem a coisa espantosa que vou dizer. É o seguinte: eu ainda entenderia toda essa clamorosa admiração pelo crime se me dissessem que Dom Hélder tem uma convicção socialista tão forte e tão apaixonada, e tão clara e nítida como a da Passionária.

Mas nosso arcebispo, na mesma entrevista, interrogado sobre o modelo de sociedade que deseja, já que repeliu o capitalismo e o socialismo comunista, se perde em reticências. Ele ainda não sabe, ele ainda não tem os planos, os programas, os lemas, as estruturas. Nada. O arcebispo que se entusiasma com roubos, sequestros e assassinatos, ainda não fixou seu ideal pelo qual, entretanto, já aconselha o assalto, o sequestro e o assassinato. Diz “que é preciso que todos os universitários técnicos, trabalhadores, todos procurem uma forma de socialismo que não esmague as pessoas...”

Nesse meio tempo, enquanto não se encontra o ideal, Dom Hélder aplaude o mostro que ritualmente ou misticamente imolou um inocente. É claro que nosso arcebispo não explicitou esse aplauso particular; mas explicitou o genérico que me autoriza o enquadramento dos casos particulares a que se esquivara o ilustre prelado.

O que me deixa atordoado de espanto é o abismo que vejo entre a terrível responsabilidade que assume o arcebispo nos louvores que tece aos criminosos, e o vácuo absoluto de qualquer objetivo. Matar pessoas para uma “liberação” que ainda não está sequer esboçada é algo de tão colossalmente monstruoso que me leva a uma conclusão no extremo oposto de tudo o que até aqui escrevi para cobrar responsabilidades a um arcebispo.

Concluo que é inútil. Concluo que nada do que diz Dom Hélder significa nada. Tudo o que disse a L’Express se reduz a nada, a noves fora nada. Não há outra alternativa: ou monstruosidade moral digna de um prêmio Nobel, ou vacuidade total. Refugio-me nesta última hipótese e vejo diante de mim um títere esvaziado de substância humana, um cata-vento, um boneco falante que só é entrevistado e levado a sério porque o mundo está acometido de uma forma nova de gripe que transforma vinte mil franceses, inclusive os eclesiásticos presentes no Palais des Sports, em vinte mil imbecis ou vinte mil canalhas.

Fora daí não vejo explicação plausível para o fenômeno, a não ser que tudo se explique pela organização IDO-C ou maoísta do Palais des Sports, dentro da qual o infortunado arcebispo fala, braceja e se contorce como um simples títere.

 

(O Globo, 11/07/1970)

Em Paris

Gustavo Corção

 

No mesmo número em que rememora os sucessos e a fascinação de Adolf Hitler, a revista francesa de maior tiragem, Paris-Match, dedica uma página inteira à figura de Dom Hélder Câmara a gritar, no Palais des Sports, a vinte mil ouvintes, a frase que o jornalista destaca: “oui, dans mon pays on torture”. E o autor da reportagem, Jean Cau, não somente acredita na sinceridade do orador como também a admira. E admira os jovens que correm a ouvir Dom Hélder; e assinala, com a maior simpatia do mundo, a presença do Arcebispo de Paris, na primeira fila dos ouvintes.

Mas o curioso aspecto dessa reportagem está nas fotografias, mais do que nos comentários fabricados por um profissional que está “por fora” e não esconde o seu sentimento de estar em terra alheia e em mundo desconhecido.

O conferencista leva a Paris a notícia de que o Brasil é um país onde se torturam os presos, e onde esse comportamento, longe de ser acidental, emana do próprio sistema que governa o país. Ora, o que se vê no auditório é uma multidão de rostos sorridentes. O Arcebispo de Paris sorri como se estivesse a acompanhar acrobacias ou palhaçadas. E o repórter depaysé tenta inculcar a ideia de que Dom Hélder esteja a demonstrar uma grande coragem, dada a incrível ferocidade do povo brasileiro, mas não consegue a modulação estilística que se impunha para tornar convincente a “coragem” de Dom Hélder.

***

Em tudo isto, que já bastava para nos encher de vergonha e tristeza, eu não me impressiono demais com o personagem Hélder Câmara e com o seu sucesso. Na mesma revista rememoramos o personagem Hitler e o seu sucesso. Em vão procuraríamos em Hélder e em Adolf o ramalhete de qualidades peregrinas ou de vícios geniais que explicassem o sucesso. Uma das maiores e mais torpes tentações do espírito humano é a que o leva a se prosternar diante do sucesso. Adolf Hitler era um pobre títere, insignificante e destinado a voltar ao pó sem deixar nenhuma lembrança na mente dos homens se um conjunto de circunstâncias o não tivesse colocado no pedestal da esperança de um povo ressentido.

O que espanta nesses espetáculos não é Hitler nem Hélder, são os “outros”; é a multidão que se eletriza e que elege, inventa, ou julga descobrir um representante de uma secreta ressonância. A reportagem de Jean Cau não prova que Dom Hélder esteja fazendo um sucesso doido em Paris; prova que Paris se tornou capaz de produzir tal phenomêne.

Lendo a reportagem de Jean Cau e examinando as fotografias que a ilustram, eu sinto duas vergonhas profundas. A primeira é a de imaginar que é um brasileiro, cearense, e ainda por cima arcebispo, que está espalhando no estrangeiro a difamação da pátria que cumpriu o dever de expulsar e reprimir os comunistas. A segunda vergonha, mais profunda, é a de ver Paris ouvir com tamanha atenção um personagem que aqui no Brasil só conseguiu cativar a meia dúzia de senhoras e senhoritas que o serviram no Palácio São Joaquim. Parece inevitável esta conclusão: o planeta está acometido de um ataque de estupidez. Há uma depressão cultural, uma bolha na história, um buraco em vez de pedra no caminho do homem, e parece que Paris, Tout-Paris, caiu nesse buraco. O sucesso de nosso Hélder Câmara em Paris prova aquilo a que já me referi em vários artigos: Paris é o centro da guerra revolucionária, a capital da contestação, o foco da peste que imbeciliza o mundo. E é esta contestação inevitável que me mergulha numa envergonhada melancolia como se no Palais des Sports estivesse sendo vaiada, ou por derrisão aplaudida a caricatura do Homem.

***

Um amigo meu estava outro dia no Galeão e, sem querer, assistiu à chegada de Dom Hélder. Chegou, com sua batina e sua mala. Ninguém o esperava. Até aqui não se admirou meu amigo, e até se algum francês estivesse no Galeão seria capaz de atribuir tal apagamento à humildade de Dom Hélder. Mas meu amigo teve a ideia de seguir de longe a trajetória do padre até o momento em que tomou um taxi e observou o seguinte: ninguém, absolutamente, ninguém aproximou-se de Dom Hélder, cumprimentou, sorriu-lhe.

Mas então como se explica a popularidade em Paris? A chave não está no valor próprio do personagem; nem está no campo de força da multidão. Onde está então? Creio que a explicação que se impõe é esta: o fenômeno é produzido e comandado por um “aparelho” que organiza, promove e escolhe seus títeres e seu público. Sem esse “aparelho” Dom Hélder volta ao pó do andar térreo do Palácio São Joaquim.

E de onde vem a força e o comando desse “aparelho”? Não sei. Devem estar relacionadas com as conhecidas organizações que assaltam a Igreja e aprisionam o Papa. Mas quem é que puxa os cordões que fazem Dom Hélder abrir os braços, abrir a boca, parolar, e faz o Arcebispo D. Marthy sorrir beatamente? Quem é que comanda o “aparelho” que imbeciliza durante uma ou duas horas vinte mil parisienses? Não sei, mas tenho uma pista, uma desconfiança.

 

(O Globo, 20/06/1970)

Dom Hélder em Paris

Gustavo Corção

 

O Sr. Arcebispo de Olinda e Recife, Dom Hélder Câmara, fez no semanário francês L’Express várias declarações que foram publicadas n’O Estado de São Paulo, de 16 do corrente. Dada a promoção que se organizou, com centro em paris, para a difusão das “palavras aladas” de nosso arcebispo, temos o dever de examinar cuidadosamente suas declarações e registrar seus “compromissos”. A notícia vinda de Paris começa por esta promessa do príncipe da Igreja: “Ficarei na minha diocese e continuarei falando como bispo, e penso que será muito difícil fazer calar-me”. Respondamos a cada uma das três proposições que compõem o período acima.

“FICAREI NA MINHA DIOCESE”. Respondo:

Alegrar-me-ia se me convencesse de que Dom Hélder descobriu afinal seu compromisso principal, mas não me parece fácil tal convicção. Veremos se o “fico” de Dom Hélder ficará na história. Respeitosamente duvido.

“CONTINUAREI FALANDO COMO BISPO”. Respondo:

Ninguém pode continuar o que não estava fazendo. Seria melhor dizer: “PASSAREI A FALAR COMO BISPO”, porque até agora o arcebispo de Olinda e Recife tem falado como ideólogo que descobriu um modo de consertar os desconcertos do mundo, mas até agora não explicou sequer os primeiros parâmetros da nova estrutura que anuncia. Agora mesmo, em Paris, pregou uma coisa chamada “violência pacífica” que ninguém sabe exatamente o que é, mas todos sabem que inclui “respeito por todos aqueles que, em consciência, elegem a violência ativa”: Che Guevara ou os jovens que tem a mesma opinião em nossa terra porque se sacrificam pela justiça” (grifo nosso). Por aí se vê que a “violência pacífica” do bondoso arcebispo vê com bons olhos, embora úmidos, os sequestros e homicídios que os rapazes comunistas praticam no Brasil. No caso do sequestro do embaixador americano, os terroristas disseram que “justiçiariam” a presa caso não fossem atendidas as exigências formuladas. Dom Hélder, a propósito de tais façanhas, emprega o termo “justiça” que assim terá afinidades verbais com o termo “justiciaremos” dos sequestradores. Por estas e por outras muita gente no Brasil, certamente a maioria da população consciente, vê em Dom Hélder um agente voluntário ou involuntário da III Guerra Mundial que hoje tem centro em Paris e tem por objetivo a massificação da humanidade.

Depois de tal engajamento acho muito difícil passar Dom Hélder a falar como bispo aos seus diocesanos. Impossível não é porque Sua Excelência, o Arcebispo de Olinda e Recife, ainda está, como nós, na peregrinação que nos é dada para a conversão e para a penitência. Rezemos.

“PENSO QUE SERÁ MUITO DIFÍCIL FAZER-ME CALAR”.

Eu também penso. Por si mesmo, quem se habitou a falar com tanto desembaraço e quem se inebriou de tantos aplausos em Paris, dificilmente quererá dedicar uns dez anos, ou mais que viva, à oração e ao trabalho silencioso da cura das almas. Logo adiante, na mesma declaração, Dom Hélder anuncia o seu provável martírio. Todos nós sabemos que Dom Hélder não será molestado em sua diocese, e muitos chegam a insinuar que o Sr. Arcebispo deseja ardentemente ser arranhado. Dom Hélder não se calará por si mesmo, nem pela força, a não ser que o nosso bom Brasil caia nas mãos dos comunistas. A história está aí para dizer o que eles sempre fizeram com os revolucionários e simpatizantes da primeira hora.

Restaria ainda o caminho intermediário da persuasão, mas a experiência de 20 anos já provou que o arcebispo não ouve a voz dos velhos amigos a começar por aquele a quem, nas vésperas da sagração episcopal, suplicou com os olhos no teto: “ajude-me, avise-me se eu errar...”. Houve nessa ocasião uma festinha no Centro Dom Vital. Na mesa éramos três: Dom Hélder, Alceu à sua direita e eu à sua esquerda. Na sala éramos uns cinquenta amigos. Em certa altura dos discursinhos que pronunciou, Dom Hélder, apertando convulsivamente as mãos, erguendo os braços e quase soluçando, suplicou ao auditório: Vocês rezem! Rezem! Rezem para eu não ficar besta! ”. E foi no termo desse discurso que voltou-se para mim depois de haver abraçado o Alceu. Abraçamo-nos e beijamo-nos e ele então sussurrou-me ao ouvido: “corrija-me, advirta-me se eu errar! ”. Penso ter cumprido opportune et inopportune a promessa de vinte anos atrás. Agora espero que o Sr. Arcebispo de Olinda e Recife cumpra a sua recente promessa: ficar na sua diocese e falar como bispo.

***

Duas palavras sobre a boa nova anunciada em Paris pelo Arcebispo de Olinda e Recife. Leio: “É preciso que todos os jovens brasileiros, universitários, todos, procuremos juntos uma fórmula de socialização que não esmague a pessoa humana e que não una socialismo e materialismo”. Mas enquanto procuramos essa coisa nebulosa D. Hélder fala com vigor de quem já possui a chave: “Pessoalmente, minha maneira de ver o Evangelho me leva à violência pacífica. Não me contento com minirreformas, exijo transformações profundas...”

Este “exijo” me lembra imediatamente o “castigaremos implacavelmente” dos tempos em que o Pe. Hélder era integralista. A tudo isto respondo: também eu, enquanto Deus quiser, não me calarei. E por hoje dou a seguinte resposta ao Arcebispo de Olinda e Recife: todos nós sabemos que é grave, gravíssimo, o problema da miséria no Brasil, e todos nós já procuramos trazer nossa contribuição. Pessoalmente, como diz D. Hélder, escrevi centenas de artigos sobre o imperativo da integração do ecúmeno brasileiro contra a construção de Brasília. Combatemos ardorosamente os governos que arruinaram e que depredaram o Brasil, que empobreceram mais os pobres, que exauriram mais os miseráveis. Será preciso lembrar que Dom Hélder, nesse tempo, era persona gratíssima? O que fez então em defesa dos pobres? Prestigiou os governos que mais os empobreceram.

***

P.S. — Só agora li na íntegra as espantosas declarações de Dom Hélder à revista L”Express. Voltarei ao assunto.

 

O Globo, 04/07/1970

Brasil vitorioso

Gustavo Corção

 

Não, amigo, não me refiro ao futebol de cuja vitória já me expandi nesta coluna; refiro-me hoje a outra luta mais cruel, mais desleal, que o Brasil começou em 1964. O desmantelamento da quadrilha de Marighella, no ano passado, e o desmascaramento dos maus religiosos que desonravam a ordem dominicana foram os marcos da primeira vitória contra a conjuração terrorista que quer fazer o Brasil regredir aos tempos sombrios em que o comunismo chegou ao poder.

Os agentes da guerra revolucionária, obedientes a ordens emanadas de Havana, de Pequim ou de Paris, com assaltos de bancos, sequestros de embaixadores, conseguiram incomodar, inquietar a opinião pública. Em compensação alegraram e confortaram Dom Hélder Câmara que, em entrevista dada a L’Express, declarou sem a menor hesitação seu afeto e sua admiração por esses rapazes que assaltam bancos, sequestram embaixadores, matam policiais e sequestram aviões dispostos a matar o piloto e a sacrificar todos os passageiros. Dom Hélder só lamenta que seja pouco o dinheiro roubado aos bancos porque com ele seus rapazes não podem fazer frente ao Exército.

Ora, meu grito de triunfo, meu deslumbramento de hoje se refere à vitória da operação perfeita realizada por nossa Aeronáutica na semana passada. Foi realmente uma operação em que a organização perfeita e a bravura exemplar neutralizaram a chantagem sinistra que os perversos terroristas fazem com as vidas de mulheres, velhos e crianças. A dificuldade em que se acham as autoridades nas situações criadas pelos terroristas vem do receio de ser, não a causa, mas a ocasião de perdas de vidas inocentes. Mas essa delicadeza, esse temor, tem seus limites mormente quando se vê o crescendo insuportável da insolência dos criminosos. Desta vez já exigiam que lhes trouxessem dois cardeais, D. Jaime Câmara e D. Agnelo Rossi. Como? Amarrados? Encaixotados? E tudo em tempo marcado. E se um dos cardeais tivesse um enfarte? Os amigos de Dom Hélder Câmara não se embaraçam com tais escrúpulos. Sentem a delicadeza das autoridades e roncam grosso: “Ninguém deverá aproximar-se do nosso aparelho sem nosso prévio consentimento”,

O comandante do Caravelle foi perfeito; perfeito foi o Comandante da Base Aérea na resposta: “Não dialogo com terroristas”; e perfeitíssimas as operações subsequentes. Dirá alguém que bravos soldados da Aeronáutica puseram em risco a vida dos passageiros? Responderei que tinham o direito de fazer porque começaram por arriscar as próprias vidas quando forçaram a porta e entraram no avião. E a feliz combinação de bravura e organização nos deram a espetacular vitória que oferecemos ao mundo inteiro como exemplo.

É curioso. No dizer dos sociólogos e economistas somos subdesenvolvidos, somos atrasados, mas na luta contra a anarquia que envenena toda a civilização temos marcando mais pontos do que qualquer outro país. Em 1964 corremos com os comunistas que já estavam no poder. Um jornal comunista da cortina de ferro foi o único que nos homenageou: o redator fazia uma autocrítica e reconhecia que os comunistas no Brasil haviam subestimado a classe média. Não direi que foi só por isso que perderam, mas o fato é que o Brasil foi o único país do mundo que soube repelir o comunismo já instalado.

No sequestro do embaixador americano, em 24 horas tinham nossos policiais a casa descoberta e focalizada com teleobjetivas. Só não cercaram a casa e prenderam os sequestradores porque quiseram proteger a vida do embaixador. E o curioso é que, nessa ocasião, não ocorra a nenhum americano que os inimigos que aqui sequestram embaixadores são os mesmos que no Vietnam eles combatem. Ora, se no Vietnam eles combatem os comunistas com sacrifício de vidas americanas, porque não admitir que aqui os ajudemos a combater com risco de vida de um embaixador.

O que não é possível é admitir a progressão geométrica das concessões e dos diálogos com criminosos. No caso do embaixador alemão exigiram a libertação de presos, e a publicação de manifestos. No caso da semana passada exigem dois cardeais. Por que não o Papa? Essa questão de delicadezas e de salvar vidas já está a um milímetro da desonra. A um milímetro da exigência de todo o berçário imaginado por Nelson Rodrigues.

E foi essa brusca evidência que desencadeou a bravura e a operação perfeita do Galeão. O Brasil mais uma vez está de parabéns.

***

Mas há uma outra evidência que entra pelos olhos: a necessidade de uma fiscalização mais severa, e a punição dos responsáveis pela má fiscalização. Já sugeri aqui, tempos atrás, vários meios eletrônicos ou eletromagnéticos para detectar a presença de armas de material magnético. Tudo tem de ser feito para devolver à navegação aérea seu teor, já não digo de segurança, mas de decência. O que me choca especialmente é este paradoxo: justamente no momento em que a pessoa parece estar fruindo o creme de todo um apuro civilizacional, de repente, está ao rés da barbárie.

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Não posso deixar de consignar neste mesmo artigo de júbilo o nosso triunfo diplomático na OEA. Nossa tese, que é a do bom-senso, saiu vencedora. Os países da América Latina começam a desconfiar de que devem ouvir o Brasil.

 

(O Globo, 09/07/1970)

Deve-se lastimar a conquista do México pelos espanhóis?

Pe. Pierre Mouroux

 

No dia 13 de agosto de 1521, após um cerco de 80 dias, caia a cidade de Tenochtitlán (atualmente, Cidade do México), pondo fim o império asteca. Esse dia marcou para sempre o nascimento da nova Espanha e o início da evangelização da América. Em poucas décadas, o império espanhol se estenderia da Terra do Fogo, ao Sul, até a California, ao Norte. A esses acontecimentos, os historiadores deram o nome de “Conquista”.

O ano de 2021 marcou os 500 anos do início dessa epopeia. Devemos nos alegrar dessa conquista? Se formos seguir o pensamento dos intelectuais de hoje em dia, a resposta aparentemente será não.

Em fevereiro de 2016, quando o Papa Francisco visitou o México, durante uma Missa em Chiapas, ele pediu para que “aprendêssemos a dizer perdão” e fizéssemos um “exame de consciência”, insistindo sobre a exclusão dos povos indígenas na história. Do mesmo modo, no dia 9 de julho de 2015, durante a sua viagem a Bolívia, o Papa Francisco apresentou oficialmente as suas desculpas, em nome da Igreja Católica, pelas “injúrias” feitas aos povos autóctones do continente pelos colonizadores espanhóis. “Cometeram-se muitos e graves pecados contra os povos nativos da América, em nome de Deus”. Ele reconheceu então se tratar de “crimes”, coisa inédita[1].

Mas, bem antes dele, sem falar em “crimes”, o Vaticano mencionou “danos” cometidos pelos colonos. Assim, em 2007, Bento XVI reconheceu “os sofrimentos, as injustiças e as sombras” desse período de colonização. E, desde 1992, a via do arrependimento já fora escolhida. João Paulo II, tinha, durante a sua viagem para a República dominicana, “pedido perdão humildemente”, fórmula retomada pelo Papa Francisco na Bolívia. Ele reconhecia então a “dor e o sofrimento” causados pelos católicos durante 500 anos. Na grande cerimônia de arrependimento do ano 2000, por ocasião do Jubileu, João Paulo II havia solenemente renovado esse pedido de perdão.

Em outubro de 2020, o presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador, esquerdista inveterado, remeteu uma carta ao Papa Francisco convidando a Igreja a pedir perdão pelos abusos cometidos há 500 anos na conquista do México. O presidente recordava que “atrocidades vergonhosas” foram experimentadas pelos povos originários, a pilhagem de seus bens e da sua terra, e sua submissão cultural e religiosa, “desde a conquista de 1521 até o passado recente”. Declarava também: “Aproveito essa ocasião para insistir no fato de que, por ocasião dessas efemérides, a Igreja Católica, a monarquia espanhola e o Estado mexicano devem pedir desculpas públicas aos povos originários.” No dia 27 de setembro de 2021, o Vaticano enviou uma carta em resposta na qual apresentava as suas desculpas ao povo mexicano “por todos os pecados pessoais e sociais, por todas as ações ou omissões que não contribuíram para a evangelização”, seguindo aqui a longa tradição de arrependimento inaugurada por Paulo VI. Mas, isso não é tudo: o prefeito da Cidade do México decidiu, no dia 13 de março de 2021, não mais festejar os 500 anos da conquista, mas os 700 anos da fundação de Mexico-Tenochtitlán; e, nessa ocasião, alterou o nome de muitas ruas e algumas estátuas emblemáticas da cidade para que, 500 anos após a sangrenta invasão espanhola, pudéssemos valorizar a diversidade cultural.

A lenda negra, subjacente à mentalidade atual, existe há séculos. Foi o Frei Bartolomé de las Casas, O.P., quem primeiro denunciou as supostas atrocidades da conquista espanhola1. Tudo o que ele relata se apoia, segundo ele, no que viu com seus próprios olhos, embora nunca tenha mencionado nomes, datas ou os lugares exatos que permitam corroborar os fatos, o que nos mostra que falta seriedade às suas afirmações. Evidentemente, todos os países inimigos da Espanha, a Inglaterra à frente deles, aproveitaram para dar publicidade a esses escritos e macular a imagem dos espanhóis. Se tivéssemos de caricaturar as afirmações dessa lenda negra, diríamos que os espanhóis, embora se mostrassem cavalheiros na Europa, tão logo cruzaram o Atlântico mostraram-se como realmente eram: homens terríveis, ávidos de riqueza e poder, prontos a tudo para alcançar o seu fim: escravidão, tortura, homicídio etc. Uma breve análise dos fatos nos mostrará uma paisagem um pouco diferente.

Alguns autores criticam o uso do termo “conquista” pois, segundo eles, antes se deveria falar em “libertação”. Com efeito, quando se estuda os acontecimentos e quando se conhece como viviam os povos originários do México (e a maior parte dos ameríndios) no tempo da chegada dos espanhóis, e quando se vislumbra tudo o que o império espanhol lhes legou, pode-se bem falar em liberação, tanto social como religiosa.

 

O México antes da chegada dos espanhóis

Recordemos inicialmente que “até o começo do século XVI, o México não existia como Estado, nem como Nação, nem como Pátria” 2. Não havia unidade política, propriamente dita. Existia uma entidade mais poderosa que as demais, os Astecas, que tinham como capital a Grande Tenochtitlán (hoje em dia, México). Essa entidade guerreira se estendia do Golfo do México, com as regiões de Veracruz e Tabasco, até o Oceano Pacífico, com as regiões de Guerrero e Oaxaca. Mas, numerosos povos – conhece-se mais de 110 – viviam no que é hoje o México, alguns a menos de 50 quilômetros dos astecas (por exemplo, o povo de Tlaxcala). Quando se fala em império asteca, não se trata de algo assimilável à nossa ideia europeia de império. Falava-se mais de oitenta línguas distintas nessa região. Esses povos não conheciam a escrita fonética e só utilizavam símbolos e figuras. Não conheciam o uso industrial e mecânico da roda nem trabalhavam o ferro, não possuíam animais de tração e de carga, nem bovinos, porcos, cabras ou ovelhas, e careciam dos principais cereais. Não havia unidade religiosa, a não ser pela prática de sacrifícios humanos, dos quais declarou o historiador Frei Diego Durán: “Se a história não me obrigasse, e se não tivesse visto o episódio afirmado e descrito em numerosos lugares, não ousaria me referir a eles com o temor de ser tomado por um escritor de fábulas.” Fala-se em dezenas de milhares de vítimas na inauguração do Templo Maior de Tenochtitlán, em 1487. Para realizar esses sacrifícios, muitas guerras ocorriam, a fim de fazer prisioneiros, vítimas perfeitas, e os povos submissos também deviam pagar um tributo anual de futuras vítimas. Todas essas vítimas, após terem os seus corações arrancados, eram devoradas pelos habitantes! No que diz respeito ao ambiente moral, um dos principais historiadores da Conquista, Frei Toribio Benavente (1482-1569), também conhecido como Motolinia, missionário franciscano no México, nos dá esse testemunho, um pouco cru mas realista: “Essa terra era uma transposição do inferno; podia-se ver os seus habitantes gritando pela noite, alguns clamando pelo diabo, outros embriagados. [...] Eles tinham todas as mulheres que quisessem, e havia os que tinham até duzentas mulheres; para tanto, os grandes senhores roubavam todas as mulheres, de sorte que, quando um índio ordinário queria se casar, dificilmente podia encontrar uma mulher.” 3

Hoje em dia, os intelectuais criaram um mito a propósito das comunidades indígenas da época. Eles nos apresentam como se elas vivessem em um estado ideal. Mas a realidade histórica é bem diferente. De fato, a maior parte dos povos oprimidos pela tirania antropófaga asteca se aliaram aos espanhóis para se liberar do jugo asteca, e assim permitiram a tomada de Tenochtitlán, em 1521. Foram milhares de ameríndios que, somados aos soldados espanhóis, derrubaram o “império” asteca. Compreende-se o seu desejo de sair de um tal ambiente, do qual alguns intelectuais mostram-se saudosos! Modificar a histórica com fins ideológicos é uma especialidade moderna. Por exemplo, muitos mexicanos foram levados a crer que são todos descendentes de um único povo – os astecas – que povoavam o território atual do México; fizeram-lhes esquecer que muitos deles descendem na verdade de povos que os astecas capturavam com o fim de realizar sacrifícios humanos4. Um filósofo argentino, Juan José Sebreli, declarou com justiça que “a destruição dos grandes monumentos, templos e palácios dos astecas e dos incas é repreensível, mas uma civilização não consiste apenas em obras de arte, mas sobretudo em sua organização política e social, seu direito e sua ética, e, sob esse aspecto, as grandes civilizações pré-colombianas não foram exemplares. Eram teocracias sanguinárias sem autoridade moral para condenar a crueldade dos espanhóis [...]. Os indigenistas repudiam como um ato de barbárie a destruição da cultura asteca pelos conquistadores, mas se esquecem de que, cem anos antes, sob o reino de Izcoatl, os astecas destruíram os livros antigos e destruíram os monumentos do Tolteques, a fim de impor sua própria cultura. Aquele que mata um assassino não deixa de cometer um crime, mas o assassino morto não recupera absolutamente a sua inocência.” 5

 

O legado dos espanhóis

Os espanhóis trouxeram consigo a paz, ao dar um fim às guerras tribais e aos costumes sanguinários. Eles fizeram obra de caridade ao fundar milhares de hospitais em todo o continente, e ao fundar centenas de universidades, com as quais lhes transmitiram as suas tecnologias, sua língua, sua cultura, sua religião; ofereceram a esse continente o seu próprio sangue, estabelecendo as bases de um novo povo, resultado da mestiçagem entre os povos originários e os espanhóis. Também propiciaram a unidade ao redor da única religião verdadeira, a religião católica. Em uma palavra, o seu legado foi o da verdadeira civilização. Foi graças a eles que os diferentes países da América Latina existem.

Consideremos agora a religião, pois se a liberação social foi uma grande coisa, que podemos dizer da libertação religiosa, sabendo que as almas valem bem mais do que o corpo? Vimos como os ameríndios estavam todos entregues à idolatria antropófaga. É importante recordar que os reis espanhóis quiseram que a evangelização dos povos ameríndios fosse o fim primeiro da Conquista, ao menos na ordem da intenção, quando não era possível na ordem da execução. Eles não faziam outra coisa do que seguir as indicações do Papa Alexandre VI na sua bula Inter coetera (1493): “Bem sabemos que vós vos propusestes, há muito tempo, procurar e encontrar Ilhas e Continentes, afastados e desconhecidos, dos quais ninguém até agora fez a descoberta; que quereis reconduzir os habitantes e indígenas à honra do nosso Redentor e à profissão da fé Católica; e que, fortemente empenhados, até esses dias, a fazer o cerco e a recuperar o Reino de Granada, não lograstes levar a bom termo esse santo e louvável projeto.” O papa prossegue dizendo que, com a descoberta das Índias, a hora desejada por Deus chegou: “E assim, uma vez que vós mesmos, por vossa própria iniciativa, desejais, por amor da fé, iniciar e prosseguir até o fim a vossa empreitada, nós vos instamos vivamente, em Nosso Senhor, e igualmente, pelo sacramento do Santo Batismo, que vos ligais às ordens apostólicas, e pelas entranhas de misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo; nós vos solicitamos com instancia a crer que deveis estimular os povos que habitam nestas ilhas e continentes a abraçar a religião católica, de querer lhes transmiti-la, de não vos deixar jamais desviar e de pensar firmemente que Deus Todo Poderoso abençoará os vossos esforços.” A Rainha Isabel6, no seu Testamento de 1504, não dirá outra coisa, lembrando que a sua principal intenção fora a de converter os povos dessas terras para nossa Santa Fé Católica, e pedindo que esses últimos não fossem atingidos nas suas pessoas ou nos seus bens.

Essas preocupações se verificam em numerosos textos oficiais do Vaticano e dos reis espanhóis. Os conquistadores seguiram essas diretivas? Vejamos alguns extratos dos cronistas, a respeito dos feitos de Hernán Cortés. É Benal Diás del Castillo quem testemunha: “Nós nos dirigimos para os lados do Yucatan, e chegamos primeiro na Ilha de Cozumel. Lá havia alguns ídolos com figuras muito disformes em um santuário onde os indígenas costumavam oferecer sacrifícios. Cortés fez com que os ídolos fossem despedaçados e construiu um altar no templo, onde se colocou a imagem da Virgem e um crucifixo. O Pe. Juan Díaz disse a missa, com grande atenção dos mais velhos, dos caciques e de todos os índios.” 7 Lopez de Gomarra, por sua vez, declarou: “Em cada lugar em que ele [Cortés] se dirigia, erguia uma capela ou um altar, e colocava uma cruz ou a imagem de Nossa Senhora, na qual todos os ilhéus rendiam culto com devoção e orações, e acendiam incenso e ofereciam codornas, milhos, frutas e outras coisas que tinham o hábito de trazer para as imagens. E tinham tanta devoção à imagem de Nossa Senhora de Santa Maria que iam com ela em direção aos navios espanhóis que abordavam, clamando: ´Cortés´, ´Cortés´ e cantando ´Maria, Maria´ para mostrar que eram amigos de nossa santa religião.” 8 encontramos testemunhos idênticos nas crônicas da viagem de Laonso e Parada, Pánfilo de Narvaez e de Cristóbal de Olid. Em que pese algumas dificuldades no início, e sobretudo a partir das aparições de Guadalupe, em 1531, dezenas de milhares se converteram ao catolicismo, e o movimento foi tão profundo que essas terras são ainda hoje aquelas onde se encontram mais católicos.

Outro ponto interessante, que pode nos ajudar a julgar essa Conquista é a intervenção do céu. Encontramos em muitas crônicas, tanto espanholas como indígenas, relatos de fatos extraordinários. Por exemplo, durante a “noche triste” (noite triste), quando os espanhóis fugiram da cidade de Tenochtitlán, uma jovem (a Virgem Maria) e um cavaleiro (São Tiago), os protegiam dos ataques dos astecas. Que dizer das aparições de Guadalupe, em 1531? A Virgem apareceu a um índio de nome Juan Diego e deixou sobre a sua tilma (vestido local) a sua imagem, sem que nenhum cientista possa ainda hoje explicar como essa imagem foi pintada, e como é possível que essa toalha não se tenha corrompido após séculos. Esse gênero de fatos é corrente e deixou traços: centenas de santuários espalhados por toda a América latina. Os milagres são um motivo de credibilidade e Deus os utiliza para mostrar que uma obra é divina. Se o céu interveio tantas vezes nessa Conquista em favor dos espanhóis, é porque não se opunha a ela, muito ao contrário! Com efeito, se considerarmos esses acontecimentos com visão sobrenatural, perceberemos quantas almas foram salvas pela ação dos espanhóis e dos missionários!

 

O julgamento da Igreja sobre a obra da Espanha na América

O Papa Pio IX, dirigindo-se a uma comissão de católicos espanhóis, no dia 20 de junho de 1871, lhes declarou: “A Espanha sempre demonstrou predileção especial por esta Sé Apostólica, e se esforçou para levar a civilização cristã a todas as nações do globo. A bandeira espanhola tremulou sobre todos os mares da América, da Índia e de outras regiões, como símbolo da fé em Jesus Cristo (...). Por isso, a Espanha foi outrora grande, porque sua grandeza estava a serviço da propagação, do serviço e da defesa da religião católica, ao preço de todos os sacrifícios.” 9

Por ocasião do IV centenário da descoberta da América, Leão XIII dava “graças ao Deus imortal por esse feliz acontecimento” pelo qual “milhões de homens que se encontravam no esquecimento e nas trevas, foram reintegrados à sociedade, e passaram da barbárie à mansidão e à humanidade, e, o que é mais importante, foram chamados da morte para a vida eterna pela comunicação dos bens que Jesus Cristo produz.” 10

Ao terminar a guerra civil espanhola, o Papa Pio XII manifestou sua alegria ao General Franco e recordou: “A valente Espanha (...) é a nação escolhida por Deus como principal instrumento de evangelização do Novo Mundo, e como fortaleza inexpugnável da fé católica.” 11

O mesmo pontífice, recebendo em audiência os reitores dos grandes seminários da América latina, lhes dizia: “A América latina é um formidável bloco católico, cujo zelo missionário das duas grandes mães ibéricas soube edificar para sua grande honra e para proveito da Igreja.” 12

Durante um discurso a uma missão naval espanhola, o papa se exprimiu assim: “Vossa profissão de marinheiros espanhóis traz à nossa memória as providenciais caravelas da Espanha missionária, verdadeiras auxiliares da Barca de Pedro que, com a civilização da Europa, levavam primeiramente ao Novo Mundo o tesouro incomparável da fé em Jesus Cristo e, com a religião católica, legaram a esses imensos continentes a sublime e verdadeira civilização das almas.” 13

Pio XII chegou a louvar a devoção dos Conquistadores pela Virgem Maria nesses termos: “Conhecemos o lugar eminente que coube à devoção para com Nossa Senhora na evangelização do Novo Continente e na conservação da sua fé. A América dos Conquistadores – Jeronimo de Aguilar, Hernan Cortés, Pedro de Alvarado, Alfonso de Ojeda – que, em seu peito armado souberam conservar um coração muito terno por sua mãe; essa América, da qual mais de cem cidades trazem o nome tão doce [de Maria], da qual dezenas de catedrais reclamam seu patrocino (...).”14

No Congresso mariano das Filipinas, o mesmo papa louvou assim o país dos reis católicos: “O impulso evangelizador e colonizador da Espanha missionária, da qual um dos méritos foi o de saber fundir os dois aspectos da sua ação em uma só coisa [evangelização e colonização], não podendo se contentar, nem mesmo com a imensidão do Novo Mundo, lançou-se na solidão do Pacífico (...).”15

 

Balanço

Certamente, a Conquista ou a liberação da América das garras do demônio também conheceu pontos sombrios, pois, como ocorre em toda obra humana, ocorreram pecados, abusos e fatos pouco edificantes, ainda que o governo espanhol tivesse o hábito de castigar aquele que ultrapassasse as leis estabelecidas para a proteção dos habitantes indígenas. Mas, numa visão geral sobre essa obra, é evidente, após o que pudemos estudar, que a balança se inclina para o lado do bem: a conversão e a obra de civilização não têm preço. Ademais, os abusos perpetrados jamais tiveram o caráter sistemático que a lenda negra quis atribuir. Antes de concluir, eis as palavras de Frei Toribio de Benavente, confessor de Hernan Cortés, a respeito desse conquistador, o mais ilustre dentre todos e o mais criticado pelos intelectuais: “Ainda que, como homem, fosse um pecador, ele tinha a fé e as obras de um bom católico, bem como o desejo de empregar a sua vida e os seus bens para o aumento da sua fé em Nosso Senhor. Ele se confessava com muitas lágrimas, recebia a Santa Comunhão com devoção e colocava a sua alma e os seus bens nas mãos do confessor, a fim de poder comandar e dispor deles como convinha à sua consciência. E Deus o visitou por meio de grandes aflições, trabalhos e doenças para purgar as suas faltas e purificar a sua alma. Creio que é um filho da salvação.” 16

 Esse pequeno resumo dado pelo confessor desse grande conquistador é a imagem de sua obra. Enquanto católicos, não temos o porquê de lamentarmos essa obra providencial, ao contrário, é preciso agradecer aos espanhóis por ela!

Encerremos esse pequeno estudo com a declaração de um historiador mexicano: “O inferno e nada além disso era o estado do território habitado por nossos ancestrais. Como é possível que existam pessoas saudosas dessa situação e que lamentem que tenha sido terminada pelos espanhóis? Não duvidemos que o diabo, o verdadeiro e autêntico diabo, tenha tomado posse do povo e o colocado a seu serviço. Glorioso foi o dia em que a Cruz apareceu e pôs a legião satânica em fuga!”17

 


[1] “E eu quero dizer-vos, quero ser muito claro, como foi São João Paulo II: Peço humildemente perdão, não só para as ofensas da própria Igreja, mas também para os crimes contra os povos nativos durante a chamada conquista da América” (https://www.cnbb.org.br/confira-a-integra-do-discurso-do-papa-francisco-...)

  1. 1. De las Casas, Bartolomé, Brevísima relación de la destruición de las Indias, 1542
  2. 2. Sanchez Ruiz, Pedro, Prehistoria de Méjico, In Nacimiento, grandeza, decadência y ruína de la Nación Mejicana.
  3. 3. Benavente, Fray Toribio, Historia de los Indios de la Nueva España, Porrúa, México, 2011
  4. 4. Dias del Castillo, Bernal, Historia Verdadera de la Conquista de la Nueva España, capítulo 27, Porrúa, México, 1994
  5. 5. Sebreli J.J., El asedio
  6. 6. (N. da P.) Trata-se da rainha de Castela e Leão Isabel I (1451-1504), apelidada de “Isabel, a Católica”
  7. 7. Lopes de Gomara, Francisco, la llegada a la isla de Cozumel, in Crónica General de las Indias
  8. 8. Gullo Omodeo, Marcelo, Madre Patria
  9. 9. Citado por Jean Terradas, em Une chrétienté d´outremer, NEI, Paris, 1960
  10. 10. Encíclica Quarto abeunte saeculo, 16/7/1892
  11. 11. Radiomensagem à nação espanhola de 16/4/1939
  12. 12. Discurso de 23/11/1958
  13. 13. Discurso de 6/3/1940
  14. 14. Radiomensagem de 12/12/1954
  15. 15. Radiomensagem de 5/12/1954
  16. 16. Benavente, Fray Turibio, Historia de los Indios de la Nueva España, Porrúa, México, 2001.
  17. 17. Trueba, Alfonso, Huichilobos, Jus, 1955.

Ad sum? - sobre a vocação religiosa

Caro _________,

Talvez lhe cause confusão o título dessa carta. "Ad sum" é a resposta que você daria em Latim caso seu nome fosse chamado em uma lista. Durante a cerimônia de ordenação sacerdotal, o Padre assistente lê os nomes dos candidatos para ordenação, ao que os ordenandos respondem "Ad sum!", ou "presente!".

Tecnicamente, este será o momento da sua vocação, caso se decida entregar-se ao sacerdócio; é o momento em que se é chamado em nome do bispo para receber o sacramento das Ordens Sagradas. É a culminação de uma jornada normalmente cheia de obstáculos e dúvidas, exigências e sacrifícios; uma jornada que o mundo não compreende.

 

Ordem Sagrada

O "ad sum" que você responderá perante o bispo, os ministros e os fiéis, será apenas a manifestação exterior do "ad sum" interior, normalmente repetido desde que se tomou a decisão de entrar no seminário. Perante o bispo, com uma vela na mão direita, a casula dobrada sobre o braço esquerdo, estará você, que se preparou para este momento abandonando o mundo, abandonando seu estilo de vida e abandonando seus trajes exteriores para se tornar um filho adotivo da Igreja pela cerimônia da tonsura, para se aproximar do altar pelas quatro ordens menores, para alcançar o limiar do sacerdócio pelas ordens maiores do subdiaconato e do diaconato, para que, após muita oração, estudo e prática das virtudes, você esteja pronto para receber o maior dom que Deus pode dar a um homem: o sacerdócio sacramental, que não é nada mais que a participação no sacerdócio de Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

Ordem na hierarquia

O sacramento chama-se ordem porque insere o recipiente numa ordem, que é a hierarquia de ministros sagrados (subdiácono, diácono, padre, bispo). A ordenação ao diaconato e ao episcopado também fazem parte do sacramento da Ordem. Todas as três ordenações - ao diaconato, ao presbiterato e ao episcopado - imprimem um caráter na alma, que marca o ordenando de acordo com sua ordem.

 

Ordenado a Cristo

Receber a ordem significa ser ordenado (configurado) a Cristo como mediador entre Deus e o homem. Dizemos que o padre participa do sacerdócio de Jesus Cristo, que é o sacerdote do Novo Testamento. O padre, portanto, na pessoa de Cristo, oferece o Divino Sacrifício a Deus em nome do homem e atrai as graças celestiais para ordenar o homem e toda a sociedade a Deus.

 

Ordem no homem

O padre não é só um canal de Deus ao homem e do homem a Deus; ele se entrega a Deus juntamente com Cristo como vítima. Ele também se entrega ao homem, juntamente com Cristo, como mestre, governante e santificador. Em sua relação com o homem, seu propósito é trazer a humanidade de volta a Deus, tanto como indivíduos quanto coletivamente em sociedade. Por essa razão, também, nós podemos dizer que o sacramento da Ordem recebe justamente esse nome, porque seu propósito é colocar ordem no mundo - nos indivíduos, nas famílias, nas comunidades, nas nações, em toda a sociedade - para que elas possam chegar a Deus.

A ordem não é apenas uma ordem de ações (comportamento moral), mas também uma ordem do ser. Um homem ordenado a Deus no seu ser está incorporado ao Corpo Místico de Cristo pela graça santificante. Em resumo, o padre é aquele que trabalha para restaurar todas as coisas em Cristo (o lema papal de São Pio X: Instaurare omnia in Christo).

 

A necessidade da Ordem

No mundo contemporâneo, ao invés de se mover em direção a uma recapitulação em Cristo, a humanidade parece se distanciar de Deus com uma determinação demoníaca. A cultura da morte, da qual a cultura "woke" é a última subespécie, está em ascensão despótica em todo o mundo – até dentro da Igreja Católica. As maiores potências do mundo estão unidas na criação de uma "nova ordem mundial", que, na verdade, é apenas uma continuação da velha desordem da rebelião de Lúcifer contra Deus; e a única maneira de reverter esse movimento é através do sacramento da Ordem.

Precisamos de mais jovens dispostos a dizer "ad sum" O futuro eterno de muitas almas e da História do mundo depende disso. Apenas pense: um padre ordenado aos 26 anos e que viva até os 80, rezará mais de 20 mil Missas em sua vida, ouvirá, talvez, umas 30 mil confissões, dará a comunhão umas 500 mil vezes, batizará, talvez, 500 almas, casará uns 100 casais, catequizará centenas de crianças e adultos e enterrará umas 500 almas. Toda vocação, portanto, é um fato que muda o mundo.

 

A escolha é sua

"Ad sum" – primeiro no seu coração e, depois, diante do bispo no dia de sua ordenação – a escolha é sua. Não espere por um trovão damasceno, ou por algum sinal extraordinário; a vocação é escolha sua.

Se não houver obstáculos insuperáveis no seu caminho ao sacerdócio (como responsabilidades, ou dependentes, ou se você for muito notório), e se você tiver todos os requisitos morais e virtudes intelectuais, a única coisa que o impedirá de dizer " ad sum" é a sua vontade, porque a escolha é sua.

Você já me ouviu falar isso antes: a vocação não é totalmente objetiva (algo de que se possa ter uma certeza metafísica), nem é completamente subjetiva (algo para ser encontrada em sinais e sentimentos misteriosos); é sua escolha, baseada tanto na sua capacidade e na sua disposição de auto sacrifício a Deus e a tudo que Ele ama.

 

Sua coragem

Portanto, meu caro ________, pense nesse chamado a dizer "ad sum" ao bispo. Se isso lhe assustar, lembre-se que não se pode ser corajoso sem experimentar o medo; e sei o quanto você valoriza a virtude da fortaleza.

 

Minhas bênçãos,

In Jesu et Maria,

Pe. Robert Brucciani

Conferências sobre a santidade (II)

Nota da Permanência: O Padre Matéo proferiu estas conferências às superioras de diversas comunidades religiosas do Canadá, na província do Québec, em 1945. Embora endereçadas às almas consagradas, estas conferências são utilíssimas aos leigos, havendo estes tão-somente de fazer as devidas substituições, como “almas consagradas” por “almas batizadas”, “comunidade” por “família”, “vida religiosa” por “vida cristã” e assim por diante. 

 

Pe. Mateo Crawley-Boevey

 

O grande perigo da mediocridade

Não prego sobre o inferno, pois não é a minha missão; porém lhes darei uma conferência sobre a mediocridade. Certa vez me dizia um arcebispo após essa pregação: “Se o senhor me desse um tapa na cara, o efeito seria o mesmo! Ah, se soubesse como chorei!” O grande perigo, o único nos conventos, é a mediocridade, pois nos conventos existem poucos riscos: o mundo mundano só lhes afeta de leve, assim não se constitui em perigo imediato, mas no jardim do Senhor há um perigo enorme – a mediocridade, que é um mal horrível e terrível, porque é um mal de hipocrisia. Se fosse um escândalo, gritaríamos: “Cuidado!”, contudo a mediocridade não é escandalosa. Ela é semelhante ao diabético. Que está doente no diabético? Não é o coração, o estômago ou a cabeça, antes é um envenenamento do sangue, que começa a ser substituído por açúcar, sem provocar muita dor; ainda assim o corpo não está são mas doente. Essa é a forma de ação da mediocridade, que para as comunidades é pior que a lepra. Assemelha-se ela a pecados como a blasfêmia e a impureza? Não, pois não é o coração nem o estômago que estão doentes, e sim a alma inteira que está estragada, porque perdeu a noção de vida religiosa. Essa condição perdeu muitos religiosos e religiosas; é a peste do clero e das comunidades.

 

 

O minimismo

 

Em que consiste ele? Essa doença, que chamo de minimismo, consiste em barganhar com Deus: “Senhor, não me peçais isso. Que me estais pedindo, Senhor? O Senhor me pedis cem, mas só vos darei vinte, ficai contente! Onde já se viu, eu santa? Sou uma irmã muito boazinha, e isso já basta, Senhor”. Não afirmamos isso com a boca, mas com a própria vida, oferecendo tão-só o indispensável para que não sejamos ruins.

 

A vida religiosa é doação total, coração em troca de coração, vida em troca de vida; é amar a Deus loucamente, para que Ele seja amado e vocês se tornem santas. Já a mediocridade é exatamente o contrário: “Não tenho pretensões à santa; estou contente de ser uma mera irmã boazinha; e vós, Jesus, ficai satisfeito, pois é só isso!” Fizeste os três votos apenas para seres uma irmã boazinha vestida de freira? – diria Jesus. Senão, vejamos. Vocês, religiosas, são capazes de realizar um milagre? Não, porque não são santas; estão vestidas de rainha e, ainda assim, ousam comportarem-se como servas. Vivam como rainhas. Eu, que sou cego, digo: “Sejam santas”; e Ele, Jesus, que não é cego, lhes diz a mesma coisa. Não imitem aquela tola, religiosa só de nome, que confessava: “Tenho medo de lhe dar um dedo, pois poderá querer os cinco, e mais tarde os dez.” Que raciocínio! Elevem-se, custe o que custar, nos braços de Jesus. Estejam certas de que vocês foram escolhidas para avivar a faísca [do amor], a fim de elevarem-se a si e elevarem os outros.

 

Na mediocridade há dupla injustiça. Nosso Senhor me dá um milhão e, em lugar de capitalizá-lo, limito-me a esbanjá-lo. Assim põe-se a perder a glória de Deus e as almas! Vocês não são fervorosas, por isso [a oração] não surte efeitos para si nem para os outros; ninguém dá o que não tem. E que darão à comunidade? A comunidade está com fome e frio; se é assim, deem-lhe o coração de Teresinha. Se a superiora não ambiciona a santidade, falta aquecimento central; vocês só produzem faíscas, quando em verdade precisam ser fogo para atear fogo.

 

Que falta na vida cristã? Não são conferências, confrarias ou medalhas, antes são os Cura d’Ars que faltam, em 95% dos casos. Todos costumam dizer que fazem o possível e o impossível. Será verdade? Já são santas? Vocês poderiam sair deste retiro verdadeiras labaredas para si mesmas e as suas comunidades! Um carro não anda sem gasolina; a gasolina, que é a vida espiritual e o amor a Deus, está em falta; esse é o motivo da falta de santos.

 

No convento a superiora reclama de que nada vai para frente; mas existe lá alguma Santa Teresinha? Não? Então, o que está faltando é um santo. Tenham a confiança e o amor de Teresinha, pois este é o segredo da fecundidade e do apostolado.

 

 

Vivam como milionárias

 

Dizia certo padre agonizante: “Ah, morrer assim, morrer assim! – Qual o problema, se o senhor sempre agiu bem... Trinta e oito anos de sofrimentos e trabalhos pela glória de Deus. Fique em paz! Deus é tão bom! – Ah, é verdade, respondeu ele, padeci muitos, bastantes trabalhos, mas amei tão pouco a Nosso Senhor, estive tão longe de ser santo.”

 

Escutaram: “Amei tão pouco a Nosso Senhor”. Muito trabalho e pouco amor. Não é o muito trabalho que salva, mas o coração fervoroso de Teresinha. Teresa d’Ávila nem sempre percorreu o caminho que conduz ao alto; ela conheceu a mediocridade durante os anos de convento. Ah mediocridade maldita, que nos corta as asas! Deus lhes amou a ponto de provocar inveja aos anjos; Ele as apelida de “minhas prediletas”, o que nem os anjos mereceram ouvir, mas vocês ousam não corresponder à altura, amando-O de volta. Os anjos conhecem o catecismo, e se mordem de inveja santa do amor que Jesus dedica a vocês.

 

Se no rótulo da garrafa está gravado: “Mediocridade”, nele tratem de escrever em letras garrafais: horrível veneno. Substituamos o rótulo e então ponhamos: Ingratidão; isso mesmo, a mediocridade é uma in-gra-ti-dão. Vocês afirmam que são pobres, contudo estão dizendo besteira, tolices; vivem como mulherezinhas pobres, o que é bom, mas nada além disso. Na verdade, vocês são milionárias, por isso vivam como milionárias. As almas religiosas somos as que, na maioria dos casos, demonstramos a pior das ingratidões, porque não vivemos segundo o desejo do rei Jesus. Uma religiosa que se contenta com ser moça boazinha e não ambiciona elevar-se, é uma ingrata. Ah, se eu pudesse molhar a minha pena no sangue do Sacratíssimo Coração de Jesus! Lutem, lutem contra a doença da mediocridade. Que vocês pensariam de Santa Gertrude, Santa Matilde e Santa Teresa se elas tivessem sido apenas Boa Gertrude, Boa Matilde e Boa Teresa? Não seriam santas. Temam o pecado de ingratidão, pois ela é a lança que vocês retiram das mãos de Longino para ferir o Sacratíssimo Coração de Jesus.

 

Num monastério da Europa, a madre assistente ia morrer. Ela provinha duma família riquíssima; assim lhe enviaram dois médicos que a visitavam de duas a três vezes por dia. Certa noite, os médicos advertiram a comunidade: “A agonia virá em breve, ordenem que lhe deem a extrema-unção.” Às cinco horas despedem-se da doente, dizendo-lhe adeus, pois não passaria das dez. Às dez e meia a comunidade se recolheu, deixando duas companheiras para cuidar da doente. Por um instante, as enfermeiras improvisadas vão até à cozinha; quando retornam ao quarto, deparam-se com a doente aos soluços. Que aconteceu? Disse a doente, enfim: “Vi Jesus, o rei, ferido; disse-me ele: ‘Ingrata, ingrata! Deste-me apenas migalhas de amor. Ingratas como tu há aos montes; dirás que me viu, mas como não acreditariam em ti, pois falariam que tiveste um pesadelo, ou que foi a febre, bem, para provar a ti e a elas que sou Eu mesmo, vou curar-te.’”

 

Talvez o rei nos dissesse a mesma coisa: “Ingrata! Cansei de dar-te presentes, mas tu... que me deste?” Se em lugar desta imagem estivesse Nosso Senhor em pessoa e lhes falasse, quiçá lhes diria isto: “Ah, quantas ingratas! Vede as minhas chagas abertas: são elas o meu amor por vós; onde está o vosso amor por mim? Moças comportadas vestidas de freira existem por aí a mancheias, porém busco em vão aquelas que me amam.” Sim, faltam santos. Ninguém cai de súbito no pecado, pois a morte espiritual nunca é súbita; vamos escorregando, limitando a doação total, descendo cada vez mais, sempre ladeira abaixo. A mediocridade é um perigo enorme. Maldita mediocridade, que causa imensas devastações!

 

Uma santa superiora é um poço de Jacó sempre ressumante, é um cálice repleto e transbordante. Esta alma de oração e amor a Deus tem a oferecer mais que todos os predicadores. Uma superiora inteligente, desenvolta, ágil secretária, excelente administradora, boa financista e sem fervor – é uma névoa fria a encobrir a comunidade. A santidade da superiora é a luz e o calor das religiosas. Ela os encontrará no Sacratíssimo Coração de Jesus.

 

Precisamos realizar a conversão definitiva! O abandono da mediocridade talvez seja a conversão mais difícil. É mais fácil converter um maçom que um padre. Uma irmã que acha que nem todos podem ser santos é dificílima de converter. Costumamos dizer a Jesus para que veja as nossas obras e tenha piedade de nós. Mas só as obras? Jesus bem poderia responder: “Construíste palácios para as crianças e os doentes, mas eu ainda moro num estábulo como um pobre mendigo... para mim uma capelinha, para eles belos salões! Falta aos corações de minhas esposas e prediletas a santidade.”

 

Um retiro é capaz de mudar comunidades inteiras; um retiro de cinco dias significa cinqüenta anos de graças para as comunidades de vocês. Vivam uma vida nova, pois nem tudo nela é belo. A distância entre a mediocridade e a santidade é maior que entre a maldade e a mediocridade. É um erro gravíssimo da alma religiosa acreditar na licitude da mediocridade. Façam violência ao Sacratíssimo Coração de Jesus para que o Paráclito venha sobre vocês, a fim de que compreendam o que há de horrível na mediocridade.

 

 

Contrição sem angústia

Há de se fazer o retiro com paz e alegria. O jansenismo não é cristão: ele acha que somos crianças a quem se deve amedrontar; mas não é isso que Nosso Senhor nos apregoa. A angústia não é cristã, mas nos é lícita uma santa tristeza. A dor e a contrição, ainda que sejam culpadas, deem-se em espírito de alegria: Nosso Senhor não veio para sufocar ou esmagar as irmãs. A contrição e o arrependimento são maiores à medida que vocês estejam calmas e em paz. Quem se aproxima de Deus, aproxima-se do céu, e lá não existe angústia.

Se vocês conseguirem enxergar melhor e perceberem que nem sempre cumpriram o dever, encontrarão repouso no arrependimento sincero, e paz na humilhação que as faltas ocasionam. A inquietação cheira a enxofre e a diabo: Deus nunca inquieta, mas revela o que é preciso para a boa condução da alma. O arrependimento verdadeiro é a descoberta de repouso no coração. A Igreja condenou o jansenismo; prefiro um protestante a um jansenista...

Páscoa

Gustavo Corção

 

No torvelinho das horas e dos dias convém considerar, vez por outra, os marcos imóveis, os sinais da eternidade. Vale a pena parar a carreira dos sucessos e, com voz da poesia, perguntas às árvores espantadas, às pedras retraídas, às casas que ficam para trás com portões de ferrugem e janelas estremunhadas, se porventura entendem a avidez que nos impele, que nos compele a perseguir um bem que logo perde o sabor quando alcançado; se entendem essa fome que se muda em fastio ou náusea à medida que morde o momento que passa e que continua a ser insaciável para os sonhos de fumaça impossível. A árvore permanece, posto que aos ventos ofereça uma mobilidade cantante e dançante; a pedra permanece; o velho portão, malgrado a ferrugem, permanece. São essências tranquilas e bem ritmadas. A seu modo humilde imitam e refletem o imutável. Sendo o que são, com simplicidade robusta, trazem a marca daquele que é o que é. Nós, ao contrário, vivemos a fugir do que somos. Essência mais alta, feita à imagem e semelhança de Deus, fugimos de Deus quando buscamos o absoluto impossível no torvelinho das coisas. Nós, que deveríamos ser mais imóveis que as árvores, as casas e as pedras, para melhor contemplarmos as realidades que resistem aos ventos e à ferrugem, nós vivemos a correr, a fugir do que temos, a buscar o que nunca teremos e, sobretudo, a assistir à rápida decomposição dos amores conseguidos. Marta, Marta, de muitas coisas te ocupas, mas uma só é necessária... Vale, pois, a pena parar a dança das horas e considerar os marcos de eternidade.

E essa sabatina de contemplação e de imobilidade que a Igreja nos propõe agora no Domingo da Ressurreição. Amanhã e depois os cuidados voltarão a empunhar as manivelas da engrenagem: hoje estamos diante da pedra de Pedro, da Casa de Deus, da árvore do Crucificado. Amanhã e depois voltaremos à lida de nossa peregrinação, aos problemas do tempo, ao petróleo de Nova Olinda, aos candidatos à presidência e à vice-presidência, aos livros escritos sobre Machado de Assis, a tudo isso que será apenas vaidade das vaidades e perseguição do vento se não soubermos trazer para esses problemas dispersos o critério fundamental que os transfigura em caminhos de Deus.

Hoje é dia de Páscoa, dia em que a Igreja, com sinais moldados nas coisas peregrinas, e com o memorial da Ressurreição testemunhada pelos Apóstolos, compõe o quadro da vitória de Cristo, e nos deixa entrever o país de maravilhas que se estende pelo outro lado do espelho — o país da divina Esperança. A obra de Cristo, espécie de usinagem operada sobre a dor e a morte e, por conseguinte sobre o que constitui o máximo espanto do mundo, abre-se agora num estuário de glória. Assistimos durante a semana, à representação do drama onde se vê passar um Deus apaixonado. O Homem das Dores de Isaías é o mesmo do Cântico dos Cânticos. É o mesmo coração vulnerado. Mas agora o círio pascal está aceso para dar o tom à nossa vida como um diapasão de luz. São Bento ensina que a vida do monge deveria ser uma contínua quaresma. A nossa também. E a quaresma deveria ser paixão; e a paixão deveria ser morte; e a morte deveria ser páscoa. A transmutação que Deus espera de nós é uma transfiguração que vá deixando o que menos somos em favor do que verdadeiramente somos por natureza e do que somos chamados a ser pelos favores da graça. De claridade em claridade, se formos dóceis, iremos caminhando, por atalhos de dores, para o país do amor perfeito que tem bandeira de fogo em mastro de cera.

Parece-vos ingênuo — ó leitores tristes — o quadro da Sião gloriosa que a Igreja põe hoje diante de vossos olhos? Parece-vos estampa infantil a santa liturgia? Ou quem sabe até se tudo isso não vos sabe a costumes obsoletos, a cerimoniais que os etnólogos explicam, a ritos que as ciências do século superaram? Por vós, e por mim, receio que a simplicidade do quadro seja chocante e não consiga atravessar a sebe de nossas complicações. Nós somos complicados; Deus é simples. Nós somos adultos, envelhecidos; Deus é mais moço do que nós. Nós somos espertos, sinuosos, ardilosos; Deus escolheu para Si as figuras do cordeiro e da pomba. Diz-nos a fé que ali, na outra margem do Mar Vermelho, onde brilha o círio da vitória, os desenganos e as tribulações terão desenlaces de prodígio; que receberemos, em medidas de alqueires calcados, recalcados e transbordantes, o que não tivemos a audácia de pedir; que serão consertadas as contradições de nossos tristes amores; que a lágrima vira joia; que a chaga vira flor. Diz-nos a fé que naquele país de maravilhas, que se estende lá do outro lado do espelho, teremos paz.

Parece-vos ingênua — ó homens tristes! — a linguagem da fé? Parece-vos insípida a comida da esperança? E quem pergunta poderá se gabar de melhor sentir e de melhor servir? Não é a descrença que mais espanta. A descrença, se me permitem os apologistas, tem certa lógica na sua retração, no seu encolhimento, no seu propósito de não levar longe demais as investigações que terminariam em incêndio. A descrença, sob esse especial ponto de vista, é mais razoável, mais compreensível do que a crença imperfeita que se detém, que se encolhe, que se retrai quando nela, na fé, tudo pede expansão e consequência. Não nos espantemos, pois, da cegueira dos descrentes porque muito mais espantosa é a meia cegueira de nossa inconsequência. Talvez fosse melhor mudar de tom. A segurança da fé e a certeza da esperança seriam mais edificantes do que os titubeios da perplexidade. Talvez fosse melhor, nessa máxima festa, procurar pífaros e cítaras para cantar o júbilo de alma cristã no dia da Páscoa do Senhor, em vez de permitir ao velho coração um gemido de cansaço... Deus há de permitir que essa tristeza se converta em alegria e que a alguém aproveite o que a nós nos pesa. É privilégio seu: é ofício de seu Filho transformar a dor em salvação e a morte em vida.

 

(Diário de Notícias, 10/04/1955)

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