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Category: EspiritualidadeConteúdo sindicalizado

Mil Ave-Marias a Nossa Senhora de Fátima

1.000 Ave-Marias hoje

Hoje, dia 13 de maio, aniversário da primeira aparição de Nossa Senhora aos três pastorinhos, serão rezadas 1.000 Ave-Marias na Capela Nossa Senhora da Conceição, em Niterói (portão fechado).

Serão transmitidos no Youtube pelo link: https://youtu.be/yzaLciDbKkg

Horário: a partir das 14:30

Intenção: o fim do flagelo do Coronavirus - saúde para nossas famílias - cura dos enfermos - conversão dos pecadores - pelas almas do Purgatório.

Acompanhe da sua casa. Reúna toda a família. A oração é a única certeza que temos no meio da grade confusão em que está o mundo.

Dom Lourenço Fleichman

Deus marcou encontro conosco

     

O texto de Gustavo Corção que publicamos aqui é parte de um ciclo de conferências realizadas em Belo Horizonte na década de 1950. Apesar de não estar completo, não deixa de ser um exemplar importante das atividades do grande escritor católico, numa época em que Corção era requisitado para constantes palestras, entrevistas e artigos. Depois o mundo girou, os polos foram deslocados, os homens tornaram-se cúmplices da Revolução num mundo evolutivo e estagnado no nada. Já não lhes interessava a firmeza da verdade e da fé que Gustavo Corção guardou e ensinou até a morte.

Editora Permanência

 

 

A tibieza

Pe. Michel André

 

“Ninguém pode servir a dois senhores: odiará a um e amará ao outro;
ou se apegará a um e desprezará o outro”. (Mt 6, 24).

 

A exemplo de alguns Padres da Igreja, pode-se ver em Mamon, o falso deus sobre que fala Nosso Senhor, não apenas o dinheiro, mas também outros apegos terrestres, materiais, que entravam o progresso espiritual.

Quero-vos falar da tibieza, doença da alma muito comum – ela contagia a metade ou bem três quartos dos cristãos que estão em estado de graça; e isso é realmente terrível, já que é preciso crer nas palavras da Escritura: “Deus vomita os mornos de sua boca”, i. é, ele os expulsa para longe de si, e por conseqüência, essas almas estão em grande perigo de cair no inferno eterno, caso não mudem de vida.

Ora, a tibieza, que afeta tanto os clérigos – i. é, os padres e os bispos – quanto os laicos, se encontra em três tipo de pessoas:

  1. Em primeiro lugar, as que saíram duma má vida, em estado de pecado mortal, para retornar a uma vida normal, em estado de  graça. Mas então, satisfeitas consigo mesmas, cessam os esforços e não querem mais se elevar...
  2. Há aquelas que, depois de atingirem uma vida fervorosa, amiúde bem jovens, esfriam para uma vida de tibieza, de mediocridade. Deus vela para que não despenhem para muito baixo! É o caso de inúmeros religiosos, se se levar em conta as palavras da Imitação, e a experiência cotidiana!
  3. Finalmente, há o caso dos cristãos que naturalmente são felizes: eles nunca buscaram se tornar melhores. Deve-se pois sacudir-lhes a indolência, o torpor – eles dormem!; mais das vezes, só de uma coisa precisam: um bom diretor espiritual, que lhes apontará os caminhos da vida perfeita.

Mas em que consiste esta terrível doença espiritual, ignorada por tantos cristãos, e contudo tão difundida? Quais são os sintomas, entre os “bons” cristãos? (Contine a ler)

Confraria dos Homens para a Castidade

Dom Lourenço Fleichman OSB
Capelão responsável

 

A Confraria dos Homens para a Castidade é uma iniciativa da Capela Nossa Senhora da Conceição, de propor a todos os homens católicos, jovens e adultos, solteiros, casados ou viúvos, um combate mais eficaz e duradouro contra a pornografia e os pecados de impureza que assolam a sociedade moderna de modo assustador. S. Excelência, Dom Alfonso de Galarreta aprovou oficialmente a criação da Confraria.

Oferecemos esta Confraria, este combate singular, aos homens e não às mulheres, por acreditarmos que os homens devem recuperar seu papel na sociedade familiar e na sociedade civil. Papel este deixado de lado por 200 anos de Liberalismo, de hedonismo e de decadência moral da humanidade. Se um homem recupera sua saúde espiritual e a fortaleza própria do seu estado, as mulheres de sua casa, sejam elas mãe, irmãs, esposa ou filhas, seguirão o exemplo dos homens fortes e castos. O resultado esperado é o restabelecimento da ordem da natureza na sociedade, com os homens sendo valorosos, fortes, virtuosos, e as mulheres se espelhando no belo exemplo dos soldados de Cristo para serem elas também santas e virtuosas.

Mas, por favor, não vejam nessa distinção nenhuma sombra de desprezo ou diminuição do papel das mulheres. Não se trata de nada disso, pois é uma questão de vida espiritual, e não de vida social. A espiritualidade masculina é diferente da espiritualidade feminina. A Confraria trabalha nos homens, para favorecer toda a sociedade. Os homens castos elevarão a casa e a cidade a uma vida sob o domínio da graça. Isso é o que importa. (Continue a ler)

Conferências sobre a Santidade (I)

Pe. Matéo Crawley-Boevey

 

Nota da Permanência: O Padre Matéo proferiu estas conferências às superioras de diversas comunidades religiosas do Canadá, na província do Québec, em 1945. Embora endereçadas às almas consagradas, estas conferências são utilíssimas aos leigos, havendo estes tão-somente de fazer as devidas substituições, como “almas consagradas” por “almas batizadas”, “comunidade” por “família”, “vida religiosa” por “vida cristã” e assim por diante. 

 

Inclinar-se à santidade

Como vocês são religiosas, falemos sobre a vida religiosa; comecemos pelo começo. A vida religiosa é uma pedra angular. O padre não é um homem como outro qualquer, mas é um super-homem, um homem divinizado. Uma religiosa como vocês não é uma dama fina e inteligente, de forma nenhuma, mas sim uma pessoa consagrada a Deus; vocês são esposas e rainhas do rei Jesus, não servas, e muito menos escravas. Bem sei que vocês são insignificantes grãos de areia, mas Jesus as escolheu, de modo que a consagração é um casamento, não porque vocês o tenham pretendido, mas porque Jesus o quis assim. Essa união com Jesus é um casamento divino.

Certa feita uma religiosa ensinava a uma princesa a quem teve de repreender; a princesinha, irritada, recusava-se a obedecer e encolerizada disse: “Esqueceu-se de que sou filha do rei de França?”, ao que a religiosa respondeu: “Esqueceu-se de que sou esposa do rei dos reis, diante de quem o seu paizinho se ajoelha?”

A quem muito foi dado, muito será cobrado: o milionário não será cobrado como o servo. Vocês não serão julgadas como escravas mas prediletas. Cobrará o rei: “Recebeste tesouros, por isso vem prestar contas do diadema e do manto real.” Essa frase lhes deve provocar calafrios. A principal glória da vida religiosa é a de que vocês são as minhas prediletas, lhes diz Jesus, minhas pombas e filhinhas do coração. Quando morrerem, Jesus não perguntará se vocês instruíam cinqüenta alunas ou administravam um grande hospital, mas: “Amaste-me tu como uma rainha? Agiste como minha predileta?” Ele não dirá: “Vê as minhas mãos e os meus pés, que os impuros, os maus e os ímpios machucaram”; não, o primeiro sofrimento lhe virá das almas consagradas! “Tu me juraste que serias santa: que fizeste do juramento?”

Não pensamos o suficiente nessa queixa de Nosso Senhor em Paray-le-Monial. Normalmente se reclama de que as obras não vão para frente, de que há algo de errado com as irmãs, mas Nosso Senhor bem que poderia perguntar: “Recordas-te da tua profissão? Prometeste ser santa e, depois de quarenta anos, ainda não és.” Profissão significa convento e religião; por que entrei no convento? Vocês afirmam: “Para salvar a minha alma ou salvar almas.” Salvar a minha alma? Quem lhes disse que os três votos são necessários para ir ao céu? Então, papai e mãe vão ao inferno, pois eles não fizeram os três votos! O batismo, a penitência e a comunhão são suficientes para que papai e mamãe se salvem, bem como milhares de cristãos pelo mundo. Mas vocês insistem: “Vim para salvar as almas.” Pois bem! Salvar almas é conseqüência, pois as salvarão à medida de sua santidade.

Vocês entraram no convento para se tornarem santas: eis o princípio e o cerne da vida religiosa. Vocês são religiosas para que sejam santas e mais nada, o resto já está contido nisto. Ninguém está aqui para se instruir ou curar as feridas, mas para se transformar em santo; o único ideal da vida religiosa é amar como amaram os santos, ou seja, ser um santo com S maiúsculo a todo o custo. A pobreza, a castidade e a obediência são os três votos que me ajudarão; diariamente, com a graça de Deus, subirei, subirei e me tornarei santa. Se alguém já lhes disse isso, bem-aventuradas são; se esta é a primeira vez, mãos à obra. Ninguém está aqui para brincar de teatro, música, literatura e quejandos, mas para ser santa. Esta é a instrução que vocês devem transmitir às noviças. Não se tornar uma pessoa má não é um ideal, mas é o mínimo; se a mulher é religiosa apenas para evitar o pecado, está perdendo tempo.

 

“Senhor, dai-nos a vitória”

Quando visitei o papa, ele me perguntou: “Padre, que mais o inquietou nas suas palestras pelo mundo?” Fiquei hesitante. “– Fale, fale. – A falta de santos, a falta de santos.” Só o céu canoniza, só ele o rei que sabe de tudo; mas onde estão os seus santos canonizados? Agora chegou o momento: abandonem tudo o mais e se tornem santas!

Vou citar-lhes um episódio ocorrido durante a 1ª Guerra Mundial [1914-1918]: uma boa irmã, mas não santa, que tinha dois irmãos de sangue oficiais, repetia sempre entre gemidos: “Senhor, dai-nos a vitória! Nossa vitória, Senhor!” Certo dia escutou ela uma voz que saia do tabernáculo: “De que vitória falas? – Da vitória das nossas forças armadas. – Deixa isso comigo, disse Jesus; eu sou o Mestre, por isso suplique antes a minha vitória. – Que vitória, Senhor? – Quê? Tu, que és religiosa, não sabes qual é a minha vitória? A minha vitória é que tu sejas uma santa, pois boas irmãs como tu tenho para dar e vender.”

Como os santos nos fazem falta, o mundo definha porque estão faltando santos!

O primeiro dever da religiosa é santificar-se e oferecer ao próximo algo da própria fartura santificando-o. Não sejam modernistas: é errado aceitar moças para enfermeiras ou instrutoras. Necessitamos de noviças, assim se constitui erro grave a falta de rigor na escolha delas. A melhor religiosa, essa será a melhor instrutora e enfermeira; o resto vem em acréscimo. Perguntar-se-ão as religiosas: “Nós, santas? Não passamos de um fardo de misérias.” Pobre Jesus! Quando ele as escolheu, não sabia que eram miseráveis? Estava ele cego, sonolento, com a vista embaçada? Jesus não dorme, pois ele é justiça e sabedoria; Jesus as enxergou tais quais eram, sabia o que eram e, porque nunca se engana, as escolheu, para que se tornassem santas.

Acompanhando o chamado vêm as graças de estado; se a moça a quem chamei não consegue aumentar o resplendor das estrelas, eu, Jesus, que sou o guia dela, consigo. Ele nos concedeu milhares de graças para que sejamos santos! Quantos grandes santos receberam menos que nós! Nasceram com três centavos e morreram milionários; foram generosos e se tornaram sóis gloriosos. Talvez São Francisco de Assis e Santa Margarida Maria tenham sido menos favorecidos que nós, porém foram fidelíssimos ao capitalizar os dons de Deus! Sejam exigentes com as meninas que acolherem; quiçá percam umas cinco ou dez, mas seriam cinco ou dez noviças em demasia. Uma moça de dezenove anos costumava travar relações com religiosas não santas; convidaram-na a ingressar ao convento, contudo ela respondeu: “Ser religiosa é só isso? Vou ficar com a minha família.” Por vezes é assim que as boas almas se afastam.

 

A graça, a generosidade e a educação

Antes de tudo, é a graça que faz os santos. Jesus não pede mais do que podemos dar; mas se ele nos pede nos dá. Dá dez vezes mais que o necessário. O purgatório ficará cheio até a boca com almas que viveram vinte, trinta, quarenta anos no convento sem saber que a graça de Deus as ajudava e sem haver feito frutificá-la. Vocês são capazes de serem muito maiores que a singela Teresinha, apesar de serem apenas singelas cristãs. A santidade se baseia em graças superabundantes. Ninguém exige que uma pedrinha voe, mas com a graça de Deus é possível.

A santidade se baseia em generosidade: elevemo-nos cada vez mais, não fiquemos parados, nunca. Criemos asas, quais pássaros, que começam a voar aos poucos, e nos elevemos sempre. Teresinha, que se alçou tão alto em apenas vinte e quatro anos, dá-nos uma lição. Que fez ela? Escutem: “Nunca recusei nada ao bom Deus, desde a idade de quatro anos.” Talvez ela tenha recebido um capital menor que o de vocês e o meu, mas ela aumentou esse capital. Se vocês têm remorsos de haverem recusado muitas coisas do bom Deus, bem, a partir deste retiro vocês já não recusarão nada, progredindo no caminho de Teresinha: doação total, coração em troca de coração. Não ingressamos nas ordens apenas para que não sejamos impuros ou maus, porque, passado bastante tempo, conseguimos renunciar o pecado; de fato, renunciamos coisas excelentes: o casamento, a vida de família; mas nós nos limitamos, e porque nos limitamos, limitando a doação total, não somos totalmente de Jesus, e só dele.

A santidade se baseia na educação religiosa. Para que se formem os jovens nessa doação total, força é lembrarem-se dos santos: é essa a sua responsabilidade. Uma barra de ouro tem de ser purificada e cinzelada, a fim de que se transforme em cálice. O esforço e a labuta da boa vontade, diariamente, é o que faz os santos. Vocês precisam amar o esforço e torná-lo amável.

Um de nossos padres, provincial durante alguns anos – e morto em odor de santidade, envolto numa atmosfera de humildade e paz –, fora um moço altivo e orgulhoso, cheio de defeitos. Aos pouquinhos se transformou em santo, pelo esforço cotidiano. Aquele moço colérico, que tinha enormes defeitos e qualidades enormes, ao fim da vida se tornara um repositório de bondade e tranqüilidade, amado por todos e lamentado com soluços pelos religiosos que lhe assistiram à partida para o céu.

Sim, a santidade se baseia na educação também. Não basta ser uma boa irmã e contentar-se com isso, mas tentar imitar Teresinha. Eu lhes imploro, em nome do Sacratíssimo Coração de Jesus, para que vocês se tornem santas, pois é este o seu único dever, e só este.

Se vocês confiam mais na menina que tem vocação para boa mestra do que para boa religiosa, expiarão tal erro.

Vivemos aos trancos e barrancos, por isso desejaríamos sempre diminuir as exigências da religião, deixar a vida correr frouxa. Que pena! Há cem anos éramos mais religiosos. Que fazem vocês, se não trabalham na santidade? Deste modo se perde a glória de Deus, a de vocês e a das almas. Os padres devem ser o Cristo da paróquia, e também vocês devem ser um pouco como ele, sendo assim muito mais religiosas. Convençam-se em ser religiosas acima de tudo, e ainda assim considerem que talvez não estejam entre as primeiras almas da paróquia. É impossível Jesus reinar contra mim e vocês, pois vocês e suas comunidades são a guarda real do rei; portanto, despertem a luz e o calor nos corações e nas comunidades... Jesus não nos exige milagres, senão o milagre do amor, que é a ambição de ser santo custe o que custar. Quem salvará o nosso país? Não serão os políticos mas os santos. Um Cura d’Ars é mais glorioso para a França que mil Napoleões.

Realizaram vocês os esforços amorosos que lhes espera o rei, a exemplo de Teresinha ou Bernadete? Nem todos podem ser artistas, mas podem ser santos. Se não há santos nos conventos, onde encontrá-los? Se não há água nas fontes, onde bebê-la? Se não há flores nos jardins, onde colhê-las? Se não há árvores das florestas, onde buscá-las? Se não há estrelas no firmamento, onde fitá-las? A fonte é o convento, o jardim é o convento, a floresta é o convento, e o céu é o convento. Catarina Tekakwitha se elevou bastante; ela era uma pequena iroquesa; quiçá ela será considerada santa antes de vocês, mesmo sendo uma selvagenzinha! Se Deus quiser, tomara que ela as ultrapasse; Catarina não era religiosa, mas um passarinho da floresta. Já vocês são estrelas do firmamento. De direito, a santidade é sua; de fato, é dela.

Deus lhes está chamando, assim tratem de se elevar com asas de águia, pois Jesus, o rei, quer o milagre de sua santificação. O único objetivo de vocês serem religiosas é a glória de Deus. Urge que todas e cada uma sejam santas, e eduquem as suas filhas, pois ninguém dá o que não tem: sejam santas para transmitir a santidade.

 

“A missa na intenção de vocês é a minha grande pregação”

A doutrina do Sacratíssimo Coração de Jesus é uma teologia inteira por si só; reparem bem: o amor do Cristo é o dogma, o meu amor é a moral. Essa teologia se resume em três cenas: a manjedoura, a cruz e o altar. O quadro da missa que está neste local é obra de um padre belga; ele suprimiu os pormenores que distrairiam o fiel da missa: não há flores nem anjos, mas somente o sacrifício.

Suplico-lhes a esmola de uma oração ou de uma via crucis em favor das almas pecadoras dos consagrados, que precisam de luz imensa para retornarem a Deus; depois, durante o retiro, o Rosário da Santíssima Virgem. Celebro a missa durante a comunhão para ajudá-las a dar graças a Nosso Senhor. A missa na intenção de vocês é a minha grande pregação; só aí espero fazer alguma coisa pelas suas comunidades. Aqui, uso a minha língua; mas a melhor pregação é a do Senhor na missa. Essa pregação cala mais e melhor nos corações, pois quem lhas dá é o Sacratíssimo Coração de Jesus. Supliquem ao Sacratíssimo Coração de Jesus para que lhes deem luzes.

(Tradução: Permanência / Revista Permanência 274)

O Sagrado Coração de Jesus

Gustavo Corção

 

Como vimos no artigo anterior, todas as fontes visíveis da salvação para a vida eterna nasceram do Coração vulnerado de Jesus. E agora é no coração do Coração de Jesus que todos nós, tão sobrecarregados, devemos procurar alívio, paz e doutrina que nos norteie para a Casa do Pai.

A consciência mais viva do culto do Coração de Jesus nos aparece com a manifestação revelada a Lutgarda d’Aywières, que esperava sentada o moço com quem iniciara um namoro quando de repente viu diante de si a figura de Jesus a lhe mostrar o peito vulnerado e o sangue fresco e a lhe dizer: “Não procures mais os agrados de um vão amor. Olha, vê, contempla para sempre o que deves amar e porque deves amá-lo”. “Hic jugiter contemplare quid diligas, et cur diligis”.

A jovem Lutgada tornou-se monja beneditina e hoje, embora esquecida, permanece na galeria dos santos canonizados que a Igreja nos propõe como primeiros degraus da imitação de Cristo. Santa Lutgarda, ora por nós.

Um século mais tarde é no mosteiro beneditino de Helfta, em Saxe, que uma grande e sábia abadessa chamada Gertrude de Hackeborn (1231-1292) teve perto dela uma irmã Matilde, e foi nesse mosteiro tão santamente preparado que ambas tiveram a alegria de receber outra Matilde e outra Gertrude que se tornaram grandes santas, famosas pela intimidade que tiveram com o Coração de Jesus.

No fim de sua vida, Matilde, que não tinha a educação apurada das monjas, e só escrevia, e mal, em baixo-alemão, deixou esta página de um diálogo que teve com o Senhor Jesus:

— Dize-me o que me trazes tu, minha rainha.

— Senhor, trago-vos uma joia maior do que as montanhas, mais vasta que o mundo, mais profunda que o mar, mais alta do que as nuvens e mais bela do que o Sol, mais rica do que todas as estrelas, e mais pesada do que a terra inteira.

— E como se chama essa joia, ó filha, imagem de minha divindade, honrada por minha humanidade, ornada pelo Espirito Santo? Que joia me trazes?

— Senhor, a joia que vos ofereço se chama: alegria de meu coração. Arranquei-a do mundo, guardei-a comigo recusada a todas as criaturas, mas agora já não aguento carrega-la. Onde devo depositá-la Senhor?

— A alegria de teu coração não pode pousar senão no meu Coração divino que bate em peito de homem. Somente aí serás consolada e abrasada por meu Espírito.

Gertrude recebeu os mesmos favores do céu, e deixou-os consignados no Arauto do Amor divino, que foi um registro de toda a vida espiritual do mosteiro, mais do que história de sua própria alma. E vemos brilhar, no mais belo dos séculos, essa casa religiosa que o Coração de Jesus visitou com tanta intimidade.

Na família franciscana encontramos, ainda no século XIII, Margarida de Cortone e Ângela de Foligno que viveram a fundo a devoção da chaga aberta sobre o Coração de Jesus.

No século XIV, tão agitado e perturbado, arrefece a lembrança do Coração de Jesus, mas no meio das tormentas do Cisma vê-se passar a figura inflamada de Catarina de Sena, e ouve-se sua voz inesquecível a gritar que segue um rastro de Sangue. Ao seu próprio confessor ela escreve dizendo seu ardente “desejo de vê-lo sufocado, afogado no doce Sangue do Filho de Deus” e acrescentando: “Quero vê-lo inserido no flanco aberto do Filho de Deus, esse flanco que é um jarro aberto cheio de odor e até capaz de perfumar o pecado. Ali repousa a doce esposa num leito de Sangue e Fogo. Ali se vê e se manifesta o segredo do Coração do Filho de Deus. Nesta botelha de tampa perfurada se dessedenta e se inebria todo desejo enamorado, e ela nos dá alegria, nos ilumina o entendimento, nos enche a memória que aí se satura, a tal ponto, que já não poderá mais reter, entender e amar outra coisa que não seja o doce e bom Jesus, sangue e fogo, amor sem preço”

Nos tempos modernos é João Eudes (1601-1680) que retoma a devoção do Coração de Jesus associando-o ao Coração de Maria. Mas é Margarida Maria Alacocque (1647-1690) quem dará ao mundo o que chamaríamos de “mensagem” do Sagrado Coração. De 27 de dezembro de 1673 a 21 de julho de 1675, Margarida Maria é cumulada de revelações e é incumbida da difusão universal dessa devoção, que deverá ter suas práticas mensais, e festa anual celebrada com solenidade litúrgica. As dificuldades dessa difusão eram enormes para uma religiosa enclausurada, mas é preciso que o mundo inteiro possa escutar os queixumes e os pedidos de reparação de um Coração divino vulnerado por nossas ofensas, e por nós apaixonado.

A Igreja, porém, é vagarosa; e é melhor que o seja porque, se aos seus missionários convém correr como escravos de Deus e dos pobres, à Igreja hierárquica convém o vagar majestoso dos reis.

Dois séculos passaram até que Pio IX, em 1856, estendesse o culto do Sagrado Coração à Igreja Universal. Gradativamente o culto atingiu os mais altos graus da solenidade ritual. Leão XIII, em 1899, por instigação da irmã Maria Droste zu Vischering, do Bom Pastor de Porto, consagrou o gênero humano ao Coração de Jesus, com uma bela fórmula que se recomendava à recitação pública. Pio XI, em 1928, inseriu a festa no ciclo do temporal e concedeu-lhe uma oitava privilegiada.

Associou-se ao culto do Sagrado Coração a prática da comunhão em cada primeira sexta-feira do mês. E assim se vê que a Igreja solicitamente multiplicou os modos de nos unirmos melhor ao Coração de Jesus. Santa Catarina de Sena fez a experiência mística da troca de corações. São João Evangelista, o discípulo tão amado, teve o privilégio de reclinar-se no peito de Jesus e ouvir o seu Coração. A Virgem Santíssima de cujo coração nascera Jesus, “guardava todas aquelas palavras no seu coração” e, portanto, abrira para todo o gênero humano o caminho de volta ao Paraíso, que é o Coração de Jesus.

E a sorte do mundo depende essencialmente da presença catalisadora da Igreja, e da presença, na Igreja, de um pequeno rebanho que seja o sal do mundo e que se mantenha unido, consciente e fervorosamente unido ao Coração de Jesus.

Sem isto o mundo conhecerá dias de crueldade e de degradação inimagináveis, ainda que os ativistas multipliquem seus programas sociológicos e seus pronunciamentos temporais. Nosso torturado e transviado mundo não precisa de padres e bispos que se ocupem de problemas temporais com esquecimento do “único necessário”; e por mais forte razão não precisa de padres e bispos que, nos problemas sociais e políticos, correm atrás das mais perversas soluções. Há muita gente cuidando da máquina do mundo, e por isso precisamos de uns poucos que deem o testemunho de outra ciência e outra sabedoria que transbordam do Coração de Jesus. “Cor Jesu, in quo sunt omnes thesauri sapientiae et scienciae, miserere nobis”.

 

(O Globo, 26/06/71)

Natal

Mudei eu ou mudou o Natal?” — perguntou Machado a seus botões que deixaram a pergunta famosa mas sem resposta. Por eles, ao longo do tempo sugeriram respostas várias em torno do eterno tema da não-eternidade das coisas, e creio que ninguém deu a única resposta aceitável: Não mudara o Natal nem mudara o homem. O Natal continua a ser o invariável, o inoxidável mistério da natividade de Jesus, o Natal embora engatado nas engrenagens das órbitas e dos calendários permanece imóvel, idêntico a si mesmo.

Também o homem não mudou na sua frágil versatilidade e assim permanece no incerto não permanecer, correndo atrás da própria sombra ou do próprio vento. E é aqui nesta coincidência de duas tão diversas permanências que reside toda a aflição do homem e todo o incompreensível mistério do Natal. Porque o Natal não muda para que o homem mude. Sim, esta é a primeira e fundamental mensagem do Natal trazida pelo Percursor. João Batista anunciava o advento do constante, do Permanente, do Imóvel, e chamava para que os homens mudassem.

Como assim? Então é preciso o profeta clamar para que o inquieto coração do homem mude de ritmo, de direção, de desejo? Não, em verdade ninguém precisa aconselhar o homem a ser cambiante e instável, por si mesmo ele não pára de dançar e mudar. Mas o que o Natal veio ensinar foi justamente a mudança do mudar. Sim, veio ensinar que não podemos parar, que não podemos interromper a conversão, a mudança de vida, a penitência ou metanóia ensinada pela voz que clamava no deserto. A permanência que o natal nos ensina é a permanente ascensão, a permanente conversão. Ou é a permanente e progressiva gestação do Menino Jesus que quer nascer em nós como nasceu no seio da Virgem sempre Virgem.

A verdadeira participação do Natal é essa em que, de uma incomparável maneira, realizamos no mesmo ato uma imitação de Cristo e uma imitação de Maria. Tudo o mais, ainda que multipliquemos todos os recursos da humana ternura, será de festa de solidariedade humana, será data planetária, será efeméride, mas não é Natal. Sem a dócil obediência de Maria não há receptividade para o nascimento de Jesus em nós. O solene Natal cantado pela Igreja, com ressonâncias de todos os séculos, com ecos dos brados de João Batista e do cântico de Maria, só deseja de nós o trabalho, a conversão que nos torne mais humildes e mais puros, ou mais filhos de Maria, para termos com ela parte do prodigioso mistério que nos torna de algum modo mães de nosso Pai.

Tudo isto resolve as arrumações habituais do mundo, e é para revolvê-las, para trazer a mais revolucionária notícia de uma outra ordem, de uma nova dimensão, que a Igreja anuncia a vinda do Senhor como outrora, João Batista anunciou.

É terrível pensar que o mundo inteiro, em grossa e maciça maioria, mesmo nos povos que se dizem cristãos, fizera do Natal de Jesus e Maria uma festividade espessa e grosseira. Por isso mesmo o clamor litúrgico de nossa Mãe tem, nos tempos que correm, o patético timbre do grande anunciador da mudança essencial, da única que entre tantas e tantas reviravoltas, não queremos fazer.

Quem és?” perguntaram a João, filho de Zacaria. Disse-lhes ele: “Eu sou a voz que clama no deserto, endireitai os caminhos do Senhor”.

E aí está: o Natal não muda, para que nós mudemos o nosso vão mudar.

 

PERMANÊNCIA, N° 62, Dezembro de 1973.

A Eucaristia na história da Igreja

Conferência de D. José Pereira Alves pronunciada no

 Congresso Eucarístico do Centenário, no Rio de Janeiro

 

 

Taine conta que um dia procurou o Superior de uma ordem religiosa de Paris, e lhe perguntou: “Por quê? Não faz ainda um século que a Revolução Francesa destruiu todas as ordens religiosas. Por quê? Não faz ainda um século e a França tem mais de 160.000 religiosas e religiosos. Qual o segredo dessa vitória? Qual o princípio de ação e utilidade que explica essa maravilha? ”

O Superior respondeu-lhe: “Acompanhai-me”. Taine seguiu-o. Ele conduziu o escritor à capela e disse-lhe: “Está ali naquele sacrário, naquela hóstia, o segredo do nosso triunfo”.

O grande escritor continuou a fazer as suas pesquisas e, depois de algum tempo escreveu estas palavras: “A fé na Eucaristia é, incontestavelmente, o par de asas que ergue a humanidade do seu lodo e a atira às regiões do devotamento e do amor. Se há alguma salvação para a sociedade, sem dúvida essa salvação está lá”.

Sim, minhas senhoras e meus senhores, a salvação está lá, na hóstia, na hóstia cuja função histórica e divina foi manter a Igreja Católica na sua unidade, na sua santidade, na sua catolicidade, no seu caráter apostólico.

O Tabernáculo é a barquinha de Jesus. Se o furacão acorda nas entranhas do oceano, a humanidade poderá gritar confiante: Domine! Senhor! Salvai-nos, senão perecemos!

Mas agora, diz eminente sacerdote, não são simplesmente os ventos mansos de Tiberíades; são também os ventos selvagens do ódio, do capricho e do interesse que ameaçam o mundo. Jesus, desperta! Acorda, Jesus! Ergue-te, Jesus! Abre a porta deste sacrário e apresenta-te ao mundo de pé e terrível! Faze o teu largo gesto e aplaca as ondas, serena as tempestades.

Senhores, o Congresso Nacional do Brasil é esse clamor agoniado de tantas almas e de tantos espíritos. O Congresso Nacional é o brado do nosso Brasil gigante, ajoelhado junto à hóstia de misericórdias para pedir perdão pelo pecado da nossa grande Pátria.

Minhas senhoras e meus senhores, já em 1864, venerável Padre dizia: “É preciso soltarmos a Jesus, não a Jesus em espírito, não a Jesus glorificado no céu, mas a Jesus no Tabernáculo; é preciso obriga-lo a sair do seu retiro e tornar à frente das nações cristãs que Ele pode dirigir e governar”.

Nós, católicos brasileiros, neste Congresso, queremos obrigar a Jesus a sair do Tabernáculo, e pôr-se à frente do Brasil para fazê-lo marchar, para fazê-lo marchar para a vitória, marchar para o céu, para Deus, do qual, como Nação, está tão deslembrado e esquecido.

Minhas senhoras, meus senhores: essas palavras são proféticas para o nosso Congresso Nacional Eucarístico. A cidade do Rio de Janeiro, como uma profetiza sublime, se debruça nesta noite memorável sobre seus montes seculares e atira aos ventos do Brasil a palavra incomparável que ouviu nesta Assembleia: “Cristo ou Morte! ”

Minhas senhoras, meus senhores: Olinda, Olinda senhoril, reclinada à sombra das palmeiras, a Veneza Americana, boiante sobre as águas remansadas do Capiberibe galante, Olinda e Recife respondem a esta palavra incomparável: “Cristo ou Morte! ” Como ela ecoa bem no nosso coração pernambucano! Sim! Cristo ou Morte!

Senhores, somos de uma terra de bravos que batalharam, não só pela Pátria, mas pela Fé! Somos de uma terra eucarística. As principais matrizes da nossa cidade são dedicadas às glórias de Jesus Eucarístico; somos de uma cidade que vibrou numa incomparável semana eucarística, na qual o povo e os sacerdotes choraram. Pois bem: Pernambuco eucarístico não pode deixar de aceitar estas palavras incomparáveis: Cristo ou Morte!

E eis-me, senhores, embaixador humilde da Arquidiocese de Olinda e Recife, inclinado diante da figura venerável deste filho querido dos nossos flancos, o primeiro cardeal da América do Sul. Inclino-me diante deste velho para beijar-lhe, reverente, a púrpura, em nome do Leão do Norte.

Fazendo-o, curvo-me, também reverente, diante da coroa magnífica dos príncipes brasileiros que vieram abrilhantar e abençoar o Primeiro Congresso Nacional do Brasil.

Trago o meu abraço fraterno a esse clero venerando, respeitável e respeitado, sob a orientação do nosso inesquecível Dom Sebastião, cujo zelo apostólico improvisou a beleza surpreendente desta festa magnífica.

Senhores, eu vos trago a saudação irmã da Arquidiocese de Olinda e Recife. A todos vós, congressistas, senhoras e senhores, a saudação do povo pernambucano. Aceitai-a. É a saudação de um povo irmão! Trago-vos o ósculo fraterno daquelas praias alvas e quentes, o ósculo fraterno dessa amizade indissolúvel que há de cimentar para sempre a integridade nacional, pela qual os pernambucanos derramaram o seu sangue — seu sangue não somente — o sangue de suas próprias esposas.

Senhores, diante desta Assembleia tão venerável, deveria apoucar-me; diante desta Assembleia em que refulgem a mentalidade católica do Brasil e a graça apostólica da mulher brasileira, eu deveria apoucar-me. Mas, bem ao contrário, sinto-me cheio de coragem, porque me sinto cheio de confiança em vós, no coração da vossa cidade. Quero dizer: o vosso coração se me afigura uma taça palpitante, estuante de amor e de carinho.

Permiti-me, pois, que eu, humilde pétala arrancada pelas lufadas do Norte, possa boiar tranquilamente sobre a bondade carinhosa de vossos corações.

 

A EUCARISTIA NA HISTÓRIA DA IGREJA

 

São quatro as leis essenciais que determinam e distinguem a Igreja — as leis de unidade, de santidade, de catolicidade e de apostolicidade. Et unam sanctam catholicam et apostolicam Ecclesiam, creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica. Os grandes e profundos espíritos tendem à unidade, não é novo. Só é verdadeiramente sábio aquele cuja inteligência conseguiu construir poderosas sínteses, reduzir fatos ou fenômenos a leis ou princípios supremos.

Só é verdadeiramente grande poeta aquele que pode em versos esplêndidos encerrar uma ideia máxima e fecunda, ideia mater e diretora de todos os surtos e ímpetos do gênio.

Grande cabo de guerra, general da vitória, só aquele que teve o talento de saber unir e organizar batalhões inteiros em ordem de peleja com olhos postos na ideia comum — a Pátria — flutuante nos trapos gloriosos da bandeira.

É assim que se tem escrito e divulgado. Pois bem! Jesus Cristo, meus senhores, não foi simplesmente um grande espírito, um pensador arguto, um incomparável artista, o marechal da vanguarda divina. Jesus Cristo é Deus. É sábio e infinito, e sublime bardo da epopeia cristã e glorioso Leão de Israel; Jesus Cristo marcou a fronte da sua obra divina, poema do seu amor e troféu imorredouro, com o selo eterno da unidade.

A Igreja de Cristo é una. Por esta lei de unidade que esplende na sua fronte nobremente erguida, só ela produziu e produz a unidade dos espíritos. Que semearam os sistemas e as filosofias? A anarquia mental. Que tem feito a política e a violência? Cavar um abismo no seio das almas. Jesus Cristo fundou uma sociedade espiritual que impôs aos espíritos mais diferentes uma só fé e uma só lei, com uma força de convicção irresistível. Senhores, aí está a marca do divino. Esta unidade resulta da sua doutrina imutável. Espalhou por todas as inteligências ideias graníticas, eternas, mas cheias de vitalidade e de energias prodigiosas, ideias fundamentais e comuns, únicas capazes de criar uma perseverança intelectual até o sacrifício e a morte.

Os séculos invejosos dessa glória, disse Lacordaire, vieram bater à porta do Vaticano, bateram com o coturno ou com a bota; saiu a doutrina sob a figura frágil e gasta de algum septuagenário e disse: “Que me quereis? — Mudança. Mas eu não mudo. — Mas tudo mudou no mundo. A astronomia mudou, a química mudou, a filosofia mudou, o império mudou. Porque sois sempre a mesma? — Porque eu venho de Deus e Deus é sempre o mesmo. — Mas pensai: somos os senhores, temos em armas um milhão de homens, puxaremos da espada, a espada que esfacela os tronos, também pode decepar a cabeça de um velho e rasgar as folhas de um livro. — Podeis fazê-lo, o sangue é o aroma em que sempre encontrei a minha juventude. — Pois bem, eis aqui a metade da minha púrpura, fazei um sacrifício à paz e dividamos. — Guarda a tua púrpura, César, amanhã será a tua mortalha e nós cantaremos sobre ti o Aleluia e o De Profundis que nunca mudam! ”

Senhores, a Igreja não pode mudar, deixaria de ser una, de ser verdadeira, porque a verdade é fundamental e essencialmente una e imutável na realização de sua finalidade histórica, a Igreja manteve integrais os seus gloriosos caracteres de unidade, de santidade, de catolicidade e de apostolicidade, sem os quais não seria no mundo reconhecida como a verdadeira Esposa do Cristo.

E na verdade, senhores, a santidade é o seu manto de sol. “Vi um grande sinal no céu. Uma mulher vestida de sol”. As virtudes irradiam do seu misterioso ser e, quando a franja iluminada de sua régia veste roçou pela fronte do mundo, o gênero humano sentiu uma virtude estranha, uma força ignorada e extraordinária que começou a renovar a face da terra. Et renovabis faciem terrae.

Uma floração de anjos e de crucificados cobriu os desertos da sociedade, inebriando-os com o aroma de sua inocência e o suave odor dos seus sacrifícios. Pentecostes inaugurava no mundo os milagres da graça. A grande benção do Espírito de Deus pairou sobre o oceano misterioso das almas — Spiritus Dei ferebatur super aquas. A vida sobrenatural jorrava dos penedos sagrados do Gólgota ao contato da Cruz — o cajado do novo Moisés. Nos séculos mais negros da história eclesiástica, em que Deus parecia demonstrar que a fé não depende nem da ciência nem da probidade dos homens, nesses séculos atrozes, a santidade da Igreja surgiu, como uma estrela esplendidamente luminosa, de todos os eclipses morais que encheram de sombras as cúpulas sagradas.

E o fenômeno católico nesta Igreja una e santa, através da História se acentuou tanto e por tal forma que o nome de Católica lhe ficou como o seu designativo especial e incomunicável desde os primeiros séculos. A Igreja contém em si, na sua constituição íntima, na sua essência; uma irreprimível força expansível. Esta força é como uma projeção da verdade cristã que Jesus Cristo trouxe para toda a humanidade. A expansão da Igreja é católica, isto é: universal por destino, por lei, pela vontade imperativa do Divino Mestre — Praedicate Evangelium omni creaturae. Compreende-se bem como a doutrina do Evangelho é naturalmente cosmopolita e democrática. A sua realeza intelectual é a realeza do povo: é grande demais para ficar encerrada no salão dos magnatas ou argentários.

E essa Igreja, depositária dessa energia miraculosa, galgou as montanhas, vadeou os rios, atravessou os mares, conquistou o universo, consolidou a sua soberania nas coisas e nos espíritos. A sua bandeira recebe o beijo de todos os ventos, e o seu chefe, assentado há vinte séculos sobre um solitário rochedo, açoitado de vez em quando pelo tufão, dá leis a todos os povos, dentro de fronteiras de nações soberanas, estabelece a sua hierarquia, a sua legislação, a sua política e os seus tribunais, e ninguém, senhores, ninguém ousa deter-lhe o braço desarmado de Soberano e Pastor.

Hoje, depois de tantos séculos de lágrimas e vitórias, contemplando essa visão branca que fala a mesma verdade de vinte séculos, que semeia na terra as mesmas sementes de graça e de forças, de abnegações e sacrifícios — as mesmas de outrora — contemplando este ancião da Nova Lei que conserva sobre a fronte enrugada o triregno imortal — a tríplice coroa da universalidade cristã, vós, senhores, vós todos, tomados do respeito que as coisas verdadeiras e divinas inspiram, vós podereis dizer: A Igreja una, santa, católica é a Igreja apostólica; descende desta dinastia popular de pescadores que, revolucionando o mundo, foram os apóstolos e os fundadores da Civilização Cristã, os pregadores de um dogma e uma moral integrados no Magistério infalível da Igreja Católica. Et unam sanctam catholicam et apostolicam Ecclesiam. A finalidade histórica da Igreja una, santa, católica, apostólica era conservar essa mesma unidade, essa mesma santidade, essa mesma apostolicidade, impressa na sua fronte por Jesus Cristo para salvação do homem. E eu vos pergunto: Por que a Igreja, na sua evolução histórica, não aberrou das suas leis essenciais, não deixou de ser una, santa, católica, apostólica? Por causa da promessa de Cristo? Não somente, meus senhores. Cristo quis que sua Igreja tivesse, não só a promessa infalível, mas também, sob o pavilhão sagrado, sob uma nuvem santa, a realidade permanente ou palpitante do seu Coração eucarístico na hóstia sacrossanta do altar.

É por causa desta hóstia, mistério central da Igreja, que essa Igreja se mantém, una, santa, católica, apostólica, através de todas as vicissitudes históricas.

Meus senhores, quem faz a História não é só o homem, quem faz a História é também a Providência. Não creio na fatalidade histórica; creio, como Bossuet, na Providência amorosa de Deus, que conduz os povos. Não deixam de ser beleza e verdade as palavras de Balzac: “No drama da História, Deus é o poeta; os homens os atores; as peças que se jogam na terra são compostas no céu”. Sim, meus senhores, é Deus quem rege a história dos indivíduos e a história das nações. Cristo perpetuou-se na história da sua Igreja pelo mistério da Eucaristia.

Meus senhores, o homem sentiu logo na sua origem a necessidade de um Deus e em sua alma o tormento do infinito. Escutara durante a noite aquela harmonia de que nos fala Platão, a harmonia silenciosa das estrelas; escutara as vozes misteriosas dos seus mares; escutara o rumor sagrado das suas florestas. Escutou mais. Entrou em si mesmo e escutou vozes estranhas em seu ser, vozes que reclamavam formas excelsas de verdade, formas perfeitas e indefiníveis de amor e beleza. E o homem se tornou sacerdote — rezou, suplicou, começou a confessar a Divindade. Mas Deus espírito estava tão longe dele, verme luzente que se arrastava na terra.

O homem precisava de um Deus que tivesse as palpitações da matéria, um Deus sensível. O homem queria sentir em si, não somente os surtos do infinito, do espiritual, mas também sentir uma febre de vida sensível, elevada, uma febre também sentida por um Deus. Que fez Deus? Que fez o Senhor?

Deus respondeu a essa estranha angústia humana com um coração de carne, com o mistério augusto da Encarnação. Fez mais: perpetuou no mundo este Coração de carne, perpetuou o dom régio no mistério real da hóstia pura. Foi além: ficou nos altares como um monge, monge suplicante pelos pecados da humanidade; ficou para ser o Arcanjo zelador da sua esposa dileta, da sua Igreja, depositária augusta da Hóstia.

E vede-a, essa Igreja, vede-a descer as escarpas do Gólgota, envolta, como disse o nosso Nabuco, envolta no sudário do grande Redentor. E que trazia a Peregrina debaixo desse sudário? Que trazia ela? Trazia, senhores, a hóstia eucarística, trazia a hóstia para conquistar o mundo.

Para abalar os impérios romanos não trazia armas; trazia a hóstia. E seus primeiros apóstolos com a hóstia eucarística, com a hóstia santa, anunciaram ao mundo uma boa nova. Os deuses tremeram sobre os seus pedestais; os oráculos se contradisseram; o mundo pagão ruiu. E sobre os escombros do Capitólio da Roma Imperial antiga, drapejou a flâmula do Deus eucarístico, a Cruz do Cristo Redentor. E assim é que a hóstia conduziu a Igreja nas suas primeiras investidas contra o mundo pagão.

O paganismo reagiu diante da hóstia do altar. Os cristãos escondiam-se à sombra das catacumbas e lá comiam a fração do pão, a fração do pão divino da hóstia no idílio espiritual das ágapes. Aqueles que não puderam fugir à sanha dos seus inúmeros inimigos foram presos, torturados. No silêncio da noite, sombras penetravam nas catacumbas, nas prisões e, num beijo, num abraço irmão, davam aos pobres prisioneiros de Cristo a hóstia.

Tendo saído das perseguições, a Igreja encontrou os bárbaros que, como uma avalanche, se precipitaram do Norte. A Igreja não suprimiu logo os excessos dos bárbaros. Transformou-os pouco a pouco. E aqueles altivos senhores feudais se ajoelhavam, reverentes, diante da hóstia branca, e se reconciliavam aos pés do altar.

Meus senhores, as Cruzadas e as grandes descobertas se fizeram em nome do Santíssimo Sacramento, em nome da hóstia católica. Colombo trouxe no peito a hóstia divina para surpreender a jovem América. E quando a viu surgir — a América, como uma ninfa, da espuma dos nossos belos mares, sentiu na alma católica as vibrações do Coração Eucarístico, ansiando por alcançar novos mundos. Os missionários católicos, por toda a parte onde levantavam a Cruz do Salvador, desfraldavam a bandeira da Eucaristia e saudavam a terra que iam evangelizar com o sangue do Cordeiro Imaculado.

Assim, meus senhores, nossa terra brasileira, a terra do Brasil, é por destino a terra da Eucaristia. Devemo-nos lembrar de que sob as umbelas verdes de nossas florestas, entre as matinas de nossas belas alvoradas, devemo-nos lembrar de que Frei Henrique ergueu a Hóstia divina sobre a terra virgem descoberta por Cabral, consagrando-a de maneira definitiva, ao Coração Eucarístico do nosso Divino Salvador.

Meus senhores, uma terra assim dedicada desde a sua origem à glória da hóstia, conservadora da unidade, da santidade, da catolicidade, da apostolicidade da Igreja, uma terra assim só pode pertencer ao Coração Eucarístico do nosso Divino Salvador.

Pio XI, no Congresso Eucarístico Internacional da Paz, em discurso magnífico, disse: “Daqui a poucos momentos verei desdobrar o vosso cortejo pelas ruas históricas da vossa cidade eterna e no meio do vosso cortejo avançará o Cristo, o Rei imortal dos séculos. Violentastes o Coração de Deus; obrigastes Deus a sair do seu Tabernáculo. Ele avança e vai reinar por toda parte, reinar em vossos corações e, por meio dos vossos corações, vai reinar pelo mundo inteiro. Seus olhos eucarísticos tornarão a ver essas ruas, tão cheias de lembranças; seus olhos eucarísticos tornarão a ver esses lugares banhados do sangue de tantos mártires, e Ele, o Cristo, verá na glória da hóstia, a santificação da vossa cidade”.

Continuando o seu discurso, disse Pio XI: “Agora e no futuro, onde quer que seja, numa grande cidade ou numa simples aldeia, onde se celebrar um congresso eucarístico, o Cristo entrará na vida humana, na vida pública, na larga corrente dos acontecimentos humanos”.

Meus senhores, estas palavras de Pio XI são proféticas para nós. Ele disse: “E em qualquer parte onde se celebrar um congresso eucarístico, numa grande cidade ou numa simples aldeia, o Cristo entrará na sua vida pública”.

Eu tenho certeza de que o Cristo eucarístico vai entrar, por este Congresso, na vida pública do nosso estremecido, do nosso querido Brasil.

Sim, meus senhores, aquelas palavras de Pio XI são, verdadeiramente, uma conclusão histórica. A Hóstia é o elemento renovador das sociedades humanas. O Padre Gratry escreveu muito bem: “Fala-se por toda parte no rejuvenescimento da vida cristã; fala-se por toda parte numa grande unidade”. Historiadores profundos como Ranke, dizem que veremos uma exposição nova que reunirá todos os fiéis, que reduzirá os próprios incrédulos. Agora adivinho. Na minha ciência, no meu espírito, na minha fé, essa exposição é o catolicismo bem compreendido. Não é só isso. O que há de reunir todos os fiéis, seduzir os próprios incrédulos não é o catolicismo compreendido, é o catolicismo servido e vivido na hóstia de todos os nossos altares. É a Hóstia, portanto, que vai salvar a humanidade, que vai salvar o nosso querido Brasil.

Bendito o coração patriota que realizou a ideia de um Congresso Nacional! Benditos vós todos que trabalhastes, que trabalhastes com tanto ardor e veemência para o êxito desse Congresso! Fazeis obra essencialmente patriótica. Precisamos de uma reação do sobrenatural, quando a invasão do naturalismo ameaça as nossas ciências, nossas artes, nossa literatura, nossa consciência nacional. Precisamos, como nação, de uma reação do sobrenatural cuja plenitude podemos encontrar na Hóstia — o mistério central do catolicismo. Pois bem. O que ditou este Congresso foi o amor da Pátria. Não somente este instinto sagrado, se assim me posso expressar, que nos faz amar as nossas searas, os nossos regatos, os nossos campanários, e os túmulos dos nossos avós; não somente este amor consciente que nos faz morrer pela bandeira, mas o amor da Pátria que se sublima na fé e se sublima no amor a Jesus sacramentado; é essa piedade altíssima que trouxe ao Brasil a felicidade dessa comemoração nacional de um Congresso Eucarístico.

O Brasil inteiro está sentindo, tenho certeza, uma comoção enorme.

Senhores, nesta noite gloriosa para esta cidade, nesta noite há alguma coisa que irrompe do peito azul da vossa linda Guanabara; há alguma coisa que se está desentranhando das vossas montanhas protetoras, do silêncio augusto das vossas florestas e do rumor das vossas cascatas; há alguma coisa que impressiona de vaporoso e indeciso como o fantasma desta vigília noturna; há alguma coisa que me parece a alma do Brasil católico, do Brasil inteiro a despertar. Penso que esta alma há de despertar neste santuário que é a vossa cidade, santuário em que se exerce a soberania do meu Brasil. Pois bem; esta sonâmbula há de acordar ao eco das vossas trombetas.

Sim, entoai as vossas trombetas eucarísticas e, ao seu eco sagrado, a sonâmbula despertará. Está sorrindo a esta orgia de luz, a esse encantamento feiticeiro do vosso Rio maravilhoso. Mas tem de despertar para a glória cristã.

Desperta, alma do Brasil.

Olha! A cidade do Rio de Janeiro é a tua sacerdotisa magna. Ela vai colocar nos cimos alcantilados dos seus rochedos a imagem do Cristo.

Ela vai fazer mais: vai erguer acima dos seus píncaros sagrados e levantar sobre as águas da sua baía, sobre suas montanhas, sobre o Brasil, a hóstia branca e repetir novamente a palavra incomparável: Cristo ou Morte!

 

Dom José Pereira Alves - Discursos e Conferências, Imprensa Nacional 1948.

Teresinha, templo de Deus

(No dia 11 de julho de 1937 encerrava-se em Lisieux o 11° Congresso Eucarístico Nacional da França com a consagração da Basílica dedicada a Sta. Teresinha.

O Papa Pio XI, devotíssimo da santa, tencionava pessoalmente presidir as cerimônias. Devido ao precário estado de saúde não conseguiu realizar o seu ardente desejo.

Enviou, então, como Legado Papal, o Cardeal Eugênio Pacelli, o futuro Papa Pio XII. Da admirável alocução do Cardeal Pacelli na consagração da Basílica destacamos o trecho onde enaltece Teresinha).

 

AS ROSAS PARA PIO XI

No alto da nova basílica, brilha a cruz triunfante iluminada pelo sol de junho. No alto do edifício espiritual é também a cruz que a vós se oferece na pessoa do Papa representada, aqui, por seu humilde delegado.

A cruz, porque “se todos que piedosamente querem viver no Cristo sofrem perseguição” são particularmente penosas para o coração do Pontífice atual e lhe arrancam queixas pungentes e solenes protestos as que, em diferentes países, sofrem seus filhos. Mas, nem a violência sacrílega das massas encegueiradas por falsos profetas nem os sofismas dos doutores da impiedade que desejariam descristianizar a vida de todos puderam vencer a resistência e aprisionar a palavra e a pena deste intrépido ancião.

No entanto, e bem o sabeis, fazem alguns meses que a seus sofrimentos morais somaram-se sofrimentos físicos. Nesses dias, a grande família católica por inteiro, de um extremo a outro do mundo, voltou-se com filial ansiedade para o leito de sofrimento do Pai comum prostrado por dores agudas suportadas com grandeza heróica e sobrenatural, com coragem viril e cristã. Cada manhã seus olhos acompanhavam os telegramas dos jornais; cada noite seus ouvidos abriam-se para o jornal falado difundido pelo rádio; pela manhã e à tarde e mesmo durante a noite uma oração constante partindo dos lábios e do coração de 300 milhões de fiéis animava o mundo a elevar-se, com o incenso de sacrifícios, diretamente ao coração de Deus. Invocava-se esse Coração divino pela intercessão de sua Mãe “a suplicante toda poderosa”, invocavam-se pela intercessão dos santos e das santas, sobretudo daqueles que parecem ser os canais das graças milagrosas. Assim foi principalmente ela a invocada, esta querida santa de Lisieux, por quem o Papa, e se sabia, sentia tão terna e confiante devoção. E veio a consolação depois da cruz. Quando a Igreja festejava a ressurreição do Senhor, a doença alivia o cerco e o Pontífice como que ressuscitando para uma nova vida, surpreende o mundo com a publicação quase simultânea de três Encíclicas.

Foi por um sentimento de especial gratidão para com a taumaturga de Lisieux que, não podendo comparecer pessoalmente, como desejaria, às jornadas festivas em sua homenagem, o Soberano Pontífice Pio XI fez-se representar por um embaixador especial: “Legatus a latere”, diz o que traduziríamos, nesta circunstâncias, como o mensageiro do seu coração tocado de indizível gratidão.

Esse embaixador que o Soberano Pontífice vos envia carregado de suas bênçãos paternais, ele não o quer de volta com as mãos vazias: “Traga-Nos três rosas de Lisieux, recomendou-lhe, que dizer três graças especiais que imploramos à querida Santinha. E não é trair a confiança e revelar-vos, para que imploreis com o Supremo Pastor, as três graças que ardentemente ele suplica. Permanecendo fiel ao gracioso símbolo que Sua Santidade escolheu, parece-me entrever Teresa do Menino Jesus cultivando, no Carmelo e para o Papa que a elevou aos altares, as três rosas que lhe pede. Vamos recebê-las de suas suaves mãos para levá-las à Sua Santidade.

Por primeiro a rosa vermelha rodeada de espinhos. Sim, é a imagem da primeira graça solicitada pelo Santo Padre: uma perfeita e filial conformidade com todos os desígnios de Deus mesmo que se cumpram no sofrimento.

Segundo, a rosa cor-de-rosa de pétalas rijas e numerosas, a primeira a abrir-se e a que ainda viceja nos dias de outono quando as outras já fenecem. Simboliza o desejo do Santo Padre de recuperar as forças e o vigor físico; não para fugir à dor, “non recuse dolorem”, mas para ainda trabalhar, “peto laborem”, com a magnífica energia que durante tantos anos pôs a serviço de Deus e do bem das almas!

Terceiro a rosa branca de cálice amplo e perfumado, a que justifica o seu título de rainha das flores, abrindo generosamente suas pétalas de veludo acariciante e imaculado, envolvendo-se de perfume ora vivo ora suave. Com essa magnífica flor permitimo-nos simbolizar o desejo do Santo Padre de santidade de vida e de zelo fervoroso para o clero secular e regular, chamando à salvação das almas a partir da própria santificação.

 

TERESINHA, TEMPLO DA LEI DE DEUS

Há um terceiro templo, uma terceira casa de Deus entre os homens que, certamente, não nos cabe dedicar ou consagrar Deus, já que Ele mesmo o fez, mas exaltar e glorificar no dia de hoje. Essa casa de Deus é a alma de vossa encantadora Santa Teresa do Menino Jesus.

Por humilde que fosse, por pequenina que desejasse ser, a alma da Santa Teresa foi um imenso e magnífico templo. Assim como a basílica que hoje se eleva em sua honra, ela abrigou, em si, a lei divina, a graça, a Eucaristia e podemos dizer, a totalidade dos fiéis, a Igreja. Foi, portanto, a casa viva de Deus entre os homens. “Ecce Tabernaculum Dei cum hominibus”. Já não sabemos que, segundo a doutrina do grande apóstolo São Paulo (1 Cor. 111, 16-17), cada um de nós é o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em nós? “Nescitis quia templum Dei estis et Spiritus Dei habitat in vobis?... Templum Dei sanctum est, quod estis vos”. É esta a nossa grandeza e a nossa mais alta dignidade. Feitos à imagem e semelhança divina, trazemos na fronte um raio celeste que conservamos, mesmo decaídos, testemunha de nossa sublime origem e que nos torna belos e grandes no mundo material que nos rodeia; grandeza e dignidade que se projeta para além do tempo penetrando a eternidade; preciosa aos olhos de Deus pois custou o sangue de um Deus. É ela que lava e purifica nosso espírito; por ela nossas almas marcadas em íntima união com a graça e a caridade que o Espírito Santo transborda em nossos corações tornam-se o edifício espiritual construído nos alicerces dos apóstolos e dos profetas tendo por pedra angular o próprio Jesus Cristo: “Superrædificati super fundamentum Apostolorum et Prophetarum, ipse summa angulari lapide Christo Jesu” (Ephos. 11,20); sobre esta pedra fundamental todo edifício bem projetado eleva-se como templo santo para o Senhor, sobre ela somos transformados pelo Espírito em habitação de Deus: “In quo emnis ædificatio constructa crescir in templum sanctum in Domine, in que et vos coædificamini in habitaculum Dei in Spiritu” (Ephos. 11, 21-22), o Espírito de vida, de verdade de caminho para o céu.

 Deus hoje habita em seus templos, dizíamos há pouco, não como naqueles em que outrora repousavam insensíveis e inertes as tábuas da lei antiga – mas pelos ministros do seu poder, pelos mandatários de sua jurisdição que em nossas igrejas promulgam sua Lei e sancionam sua observância. Assim essa lei divina aí permanece viva e atuante guiando as almas no caminho da retidão e da pureza fora dos quais a natureza fraca e corrompida não  conhece senão descaminhos e vergonhas.

            A Lei de Deus assim foi, viva e ativa, na alma de Teresa. Como a outra Virgem, de quem nos falam os Atos “que trazia sempre no peito o Evangelho do Senhor” Teresa trazia sempre presente em sua alma e seu coração, a Lei e os conselhos divinos de seu bem amado Jesus Cristo.

           

TERESINHA, TEMPLO DA DOUTRINA DE DEUS

Ela lhe conhecia os segredos muito além do que aprendera pela leitura e pelo estudo. Contudo, não descuidou de instruir-se. O mesmo Soberano Pontífice que nos diz: “Agradou-se a Divina Bondade dotando-a e enriquecendo-a de um dom de sabedoria excepcional” declara também: “Ela buscou fartamente nas lições de catecismo a pura doutrina da fé; a do ascetismo no livro de ouro da Imitação de Cristo; a da mística nos escritos de seu Pai, São João da Cruz. Sobretudo nutria seu espírito e coração na meditação das Sagradas Escrituras; e o Espírito da verdade ensinou-lhe o que habitualmente esconde aos sábios e aos prudentes e revela aos humildes. Ela adquiriu uma tal ciência das coisas sobrenaturais que foi capaz de traçar para os outros um caminho seguro de salvação”.

Traçar m caminho, um “caminhozinho”. Sua ciência das coisas divinas, em parte adquirida, em parte infusa, ela não a guardou para si. Disse: “Minha missão é de ensinar a amar a Deus como eu O amo e de entregar meu ‘caminhozinho’ às almas”. É este um dos mais maravilhosos ângulos dessa figura tão atraente: a carmelitazinha, que do fundo do seu convento dá lições ao mundo do nosso século tão orgulhoso de sua ciência. Ela tem uma missão; tem uma doutrina. Mas sua doutrina, como ela mesma, é humilde e simples; resume-se em duas palavras: “Infância espiritual” ou em sua equivalente: “Caminhozinho”.

Não temos nós o Evangelho ensinando-nos há vinte séculos que “o Reino do Céu pertence às crianças e aos que a elas se assemelham”? O mestre o disse; doutores e santos comentaram sua palavra; mas para confirmá-lo objetivamente, como de todos o mais claro e decisivo comentário, temos a aplicação literal e integral desse princípio na orientação de uma vida inteira que por este “caminhozinho” elevou-se, em poucos anos, à maior e mais alta perfeição.    

É sobretudo por ele que Teresa ilumina e subjuga tantas almas. “Ela fascina o mundo pela magia do seu exemplo” diz Pio XI. Porque, depois de adquirir a ciência das coisas divinas, compreendeu o que Bossuet chama a “desgraça de toda ciência que não termina no amor”. Sua ciência de Deus levou-a a amá-Lo ilimitadamente do momento em que foi capaz de conhecê-Lo.         Apesar de, desde os três anos de idade jamais haver-Lhe recusado qualquer coisa. Foi sobre um ato de amor que, despertou sua alma; foi sobre um ato de amor que se cerraram seus olhos e seu coração quando murmurou no último suspiro: “Meu Deus, eu vos amo!” No entanto o amor não terminava com a vida; sua mensagem e sua missão não terminariam também. “Sinto, dizia pouco antes de morrer, que minha missão vai começar”. É impossível à palavra humana descrever o alcance desta missão e dos seus resultados.

O gênio brilhante de Agostinho, a sabedoria de Tomás de Aquino, projetaram sobre as almas raios de indestrutível clareza; por eles, o Cristo e sua doutrina são melhor conhecidos. O poema vivido por Francisco de Assis mostrou ao mundo uma imitação, até então inigualada da vida de Deus feito homem. Por ela legiões de homens e mulheres aprenderam a melhor amá-Lo. Porém, uma carmelitazinha, apenas chegada à idade adulta, conquistou, em menos de meio século, incontáveis falanges de discípulos. Em sua escola os doutores da lei tornaram a ser crianças; o supremo Pastor a exalta e reza a seus pés em humilde e assídua súplica; e agora mesmo, de um extremo a outro do mundo, há milhões de almas beneficamente influenciadas pelo livrinho: A história de uma alma.

Tinha muita razão dizendo a nossa querida Santa: “Sinto que minha missão vai começar. Minha missão é dar meu ‘caminhozinho’ aos outros”.

 

TERESINHA, TEMPLO DA GRAÇA

A alma de Teresa, templo da lei divina, luminosamente conhecida, amorosamente observada e ardentemente ensinada aos outros, foi também a habitação da graça, isto é, do próprio Deus.

Lembrávamos há pouco: todo homem nascido, privado por triste herança das predileções divinas porém remido pela Incarnação e morte de Jesus Cristo, pode, pelo batismo, voltar a ser filho de Deus. Torna a sê-lo mesmo depois das quedas do pecado pessoal desde que, na sinceridade de sua vergonha e dor, recorra aos méritos infinitos da Redenção.

Tudo é mistério da graça, participação real porém invisível da invisível natureza de Deus. É o mistério dos Sacramentos, sinais sensíveis dessa graça. É o mistério da incorporação do cristão a Jesus Cristo e da habitação, em nós, das três pessoas divinas. Toda alma em estado de graça é a casa de Deus.

Ora, essa graça do batismo, não somente Teresa nunca a perdeu pelo pecado como ainda sempre aumentou o seu tesouro por atos de amor e por mais íntima união com Aquele que é o seu autor e seu princípio: “Meu céu, eu o encontrei na Santíssima Trindade que mora em meu coração prisioneira do amor”.

Era assim que gostava de cantar.

Apesar dessa misteriosa união com Deus escapar às nossas avaliações e pobres medidas humanas, sabemos que pode não somente existir ou desaparecer como aumentar ou diminuir segundo a resposta da alma às suas sucessivas influências. Ações poderosas mas tão suaves que são chamadas toques da graça; ações divinas mas tão respeitosas da liberdade humana que qualificam-nas de chamados. Enfim, ações que, mesmo atuando em nós em conseqüência de uma operação extrínseca, de um ato realizado independente de nós mesmos (ex opere operato) terão maior ou menor eficácia dependendo da colaboração que nossa alma lhes der.

É por esta razão que, se a plenitude da divindade não habitou senão em Jesus pela união pessoal com uma natureza humana, os santos doutores sempre se extasiaram contemplando a morada de Deus na Virgem-Mãe. Porque Ela, cheia de graça desde o momento de sua concepção imaculada, não cessa durante toda sua vida mortal de aumentar seu tesouro por uma conformidade perfeita do seu querer com o querer divino, por uma correspondência absoluta e incessante a todos os chamados de Deus.

Sem atingir as alturas que o Filho de Deus reservou a sua Mãe, estamos seguros que Ele permitiu uma familiaridade incomum a esta alminha de criança para a qual jamais existiu outro prazer e outro querer que não fosse o prazer divino. Se alguém me ama, disse Ele, guardará minha palavra e meu Pai o amará; e viremos a ele e nele estabeleceremos a nossa morada. Ecce Tabernaculum Dei cum hominibus.

 

TERESINHA, TEMPLO EUCARÍSTICO

Teresa foi um tabernáculo sobretudo por sua devoção eucarística. Como no templo material onde tudo existe em função do altar e do viático, assim na alma de Teresa, templo espiritual de Deus, o lugar de honra e de predileção sempre pertenceu a Jesus-Hóstia.

Quando pequenina, querendo participar das lições de catecismo e dos encontros piedosos de suas irmãs mais velhas dizia que “quatro anos não são demais para preparar a primeira Comunhão”.

Conheceis seu cândido amor pelas procissões do Santíssimo Sacramento quando, na alegria de atirar flores a Jesus cuidava de jogá-las bem alto para que, ao caírem, tocassem o ostensório. Sabeis que durante a preparação próxima da Primeira Comunhão pressentiu as alegrias secretas da vida conventual fazendo também a experiência do sacrifício, multiplicando as orações e os atos de renúncia. Em dois meses anotou num caderninho recebido de Carmelo o total de 818 sacrifícios e 2.773 aspirações ou atos de amor.

Sabeis, por fim, o que disse do seu primeiro encontro com Jesus-Hóstia: “Sim, foi um beijo de amor! Sentia-me amada e dizia: Eu te amo, eu me entrego para sempre! Jesus nada pediu-me, nem ao menos um sacrifício. Há muito tempo Ele e a pequena Teresa olhavam-se e compreendiam-se. Nesse dia, nosso encontro não foi um olhar mas uma fusão. Não éramos mais dois. Teresa desaparecera como a gota d’água no oceano. Jesus permanecia só”.

Sim, hóspede único na alma de Teresa, tabernáculo de sua escolha. Quem saberá as confidências trocadas no mistério desse tabernáculo? Eram ingênuas e ternas pois que o alimento substancial dos que a conhecem e lutam mas também o primeiro alimento dos pequeninos, o angélico bocado das almas de criança. Eram sérios e profundos pois que Teresa, à sua inocente e virginal ternura, somava imenso respeito pela Hóstia da qual procurava com o olhar as imperceptíveis parcelas na patena que volta à sacristia envolvendo-as de homenagens e chamando outras irmãs para adorá-las à espera do sacerdote que vinha recolhê-las. Eram sinais significativos já que numa época em que restos de jansenismo conservavam as almas sonolentas de um falso respeito que as distanciava da comunhão, Teresa sentia uma fome imperiosa deste pão cotidiano e consolava-se de sua privação forçada pelo aviso profético dos decretos salvadores que abriram para as almas o acesso à Mesa Santa. Eram íntimos e sublimes, inacessíveis à palavra pois que, desde a sua primeira Comunhão compreendeu o poder redentor do sofrimento humano unido ao sofrimento do Cristo e pede a Deus que “transforme em amargura qualquer consolação terrena”. Foi magnificamente ouvida. Seu caminhozinho, por ser coberto de rosas, foi ainda mais rico em espinhos: espinhos das dores físicas da doença, espinhos da incompreensão e, por vezes, da contradição, espinhos mesmo do aparente abandono do Bem Amado que, no leito de morte lhe arrancaria esta confissão: “É agonia pura, sem sombra de consolação”.

Em cada uma de suas sucessivas comunhões Deus fê-la aprofundar pouco a pouco mais o mistério da dor redentora. O amor que a devorava e sua sede de reparação dela fizeram uma hóstia viva unida à Hóstia perpetuamente oferecida. Da Hóstia divina parecia ter copiado a aparência exterior da brancura e fragilidade não apenas pela candura angélica de sua alma que lhe transfigurava a fisionomia mas também pela palidez de seus traços desfeitos. Estava no fim de suas forças, gravemente enferma quando, um dia, arrastou-se até a capela para a missa e a comunhão; como uma irmã apiedava-se vendo-a tão fraca replicou: “Não acho que seja muito sofrimento para ganhar uma comunhão”.

Assim foi, a vida inteira, o que desejara ser quando visitara a santa casa de Lorette: “O templo vivo de Jesus”.

 

TERESINHA, TEMPLO DA IGREJA UNIVERSAL

Um último traço fazia da alma de Teresa a casa de Deus, Templo da lei e da doutrina divina, templo da graça sobrenatural, tabernáculo vivo de Jesus-Hóstia, ela era também, pela amplitude dos seus desejos, o templo da Igreja Universal; “Ecclesia Dei”. Escutemos o que ela mesma diz de suas ações de graça: 

“Imagino minha alma como um terreno disponível e peço à Virgem Maria que dele remova os detritos das imperfeições; a seguir peço que Ela mesma nele erga uma grande tenda digna do céu e a guarneça de seus enfeites. Convido os anjos e santos para que venham cantar cânticos de amor. Parece-me, então, que Jesus fica contente vendo-se magnificamente recebido e eu compartilho de sua alegria”.

Eis a Igreja triunfante descendo à alma de Teresa. Veremos nela a Igreja padecente? Sem duvida, pois que dela não poderia Teresa desinteressar-se. Todavia, estas almas já ao abrigo do pecado e próximas da visão beatífica pareciam-lhe mais objeto de inveja que de pena: “Não quero, dizia ela, que peçam a Deus para me livrar das chamas do purgatório. E Santa Teresa d’Ávila declarava às suas filhas que queriam por ela rezar: ‘Que importa ficar, até o fim do mundo, no purgatório se por minhas orações posso salvar uma única alma?’”.

A Igreja militante sempre existiu na alma de Teresa pela união de solidariedade que une todas as almas em estado de graça, como membros de um mesmo corpo. Porque devem ser e são inseparáveis os membros que participam de uma só e única vida: ora, nossa vida é o Cristo, a graça de sua Redenção sangrenta tornada sangue espiritual de nossas almas.

Contudo, a massa branca dos eleitos não satisfaz Teresa e o templo de seu zelo projeta-se mais além. Porque o Cristo morreu por todos os homens ela desejaria salvá-los, a todos. Assim como Paulo de Tarso, não podia pensar sem lágrimas de dor que “o Cristo tem inimigos”; e como Francisco de Assis não se resignava vendo que “o Amor não é amado”.

Eis porque salvar almas conduzindo-as ao conhecimento e ao amor de Jesus Cristo foi sua mais ardente aspiração. “O amor de Deus, o amor de Jesus, dela dirá Pio XI, inspiravam-lhe magníficos gestos de apóstolo e de mártir”.

 Desejou o carmelo de Hanói para estar mais próxima do terreno missionário. E sua vida passa-se em Lisieux, na oração e no silencio. Muitas vezes nossos olhos detiveram-se sobre a sacristia aparentemente absorvida em preparar o cálice e o missal para a missa da comunidade. Facilmente acreditaríamos que seus horizontes espirituais limitavam-se aos muros brancos da capela ou, no máximo, aos da clausura que limita os jardins silenciosos do convento. Como nos enganaríamos!

Quando no Natal de 1886 iniciou o que chamava o terceiro período de sua vida, “o mais belo de todos, o mais cheio de graças do céu”, Jesus maravilhosamente transforma essa vida espiritual já inteiramente votada a seu serviço, ou fazendo de Teresa, segundo ela mesma diz, “um pescador de almas”. Na muda contemplação das mãos divinas trespassados por nós e tantas vezes derramando seu sangue inutilmente sobre a terra, compreendeu, um dia, a grito ansiado do Redentor: “Tenho sede!” “Desde então, diz ela, desejei dar de beber ao Bem Amado; senti-me devorada pela sede de almas... e quanto mais Lhe dava a beber mais aumentava a sede de minha pobre alminha e recebia essa sede ardente como minha recompensa”.

Refletindo sobre o dia 8 de setembro quando, segundo suas próprias palavras, tornou-se “a esposa do Rei dos céus” acrescentava: “Seu único objetivo era salvar almas sobretudo almas de apóstolos. A Jesus, seu divino Esposo pedia para si particularmente o ter uma alma apostólica. Não podendo ser sacerdote desejou que, em seu lugar, um sacerdote recebesse os dons do Senhor e que sentisse os seus desejos”.

Bem sabia que, se as aspirações e desejos dos missionários podiam ser os seus, sabia também que os meios de ação deveriam ser diferentes: “Para eles, as armas apostólicas; para mim, a oração e o amor... Trabalhar para a salvação das almas é o objetivo que me levou a ser carmelita. Não podendo ser missionária pela ação quis sê-lo pelo amor e pela penitência”.

Começou ainda criança. Sua primeira conquista, lembrai-vos, foi um celebre condenado à morte. Não acabou nunca de rezar e de se imolar pelas almas: sua última comunhão, dia 19 de agosto de 1897, na festa de Santa Jacinta, foi oferecida por um bem conhecido apóstata.

Entre essas duas comunhões, quantas outras almas teria salvo durante a sua vida, pelo sacrifício e pela oração? Só Deus sabe e esta será sem dúvida, uma de nossas maravilhosas surpresas, no céu.

Mas, ainda era pouco para o seu amor. “Gostaria de salvar almas mesmo depois de minha morte... Desejaria ter no céu o mesmo que na terra: amar Jesus e fazê-Lo amado. Espero não ficar inativa lá em cima. Meu desejo é ainda o de trabalhar pela Igreja e pelas almas. É o que peço ao bom Deus e estou certa que me ouvirá”.

O que se seguiu à sua morte, canta pelo mundo inteiro o quanto Ele há quarenta anos a ouve e ouvirá sempre. A epopéia de suas conquistas apostólicas orquestradas pela voz das nações, ecoa de um pólo a outro; a santa Igreja, ela mesma, modulou o tema e ritmou o compasso abreviando todos os prazos canônicos para elevar Teresa aos altares e proclamando – a pequena contemplativa morta aos 24 anos! – Padroeira universal das Missões.

Como sois grande, pequenina Santa! E numerosa é vossa família espiritual. Sois grande, pequenina alma! Pequeno tabernáculo de Deus vivo entre nós, tornaste-vos o refúgio da humanidade que reza, que sofre, que milita e que cada dia a vós recorre!

Nos hinos que em vosso louvor se elevam parece-me ouvir um eco daquele que cantava Isaías à glória da nova Sion: “Gritem de alegria... transbordem de satisfação! Conquistem o espaço e ampliem muito a tenda. Não lhe neguem o aumento. Soltem-lhe as cordas e que os piedosos as sustentem. Porque te expandirás à direita e à esquerda; e tua posteridade tomará posse das nações e povoará as cidades desertas”.

Cada dia vós acolheis, ó Teresa! Legiões de crianças que vos consagram sua inocência, virgens que vos seguem na clausura, doente a quem dais ou saúde ao corpo ou o admirável heroísmo de vossa conformidade com o querer do Amor misericordioso. Sois vós que sustentais os missionários nas fadigas e decepções de seu apostolado distante; vossa imagem trouxe-lhes o sorriso na frigidez dos “isbas”, na aridez das choupanas, na imensidão dos desertos de areia, dos oceanos e até nas nuvens e nas alturas do firmamento.

Pequeno templo de Deus, sois o templo imenso de uma humanidade conquistado por vós. Ecce tabernaculum Dei cum hominibus.

 

(Tradução de Maria Helena Pinto Fraga).

2. O Dom da Força

Santa Catarina de Ricci São João de Colônia São Pedro mártir

 

“Quem achará uma mulher forte?” Em vão procuro a resposta no livro dos Provérbios, onde se lê essa interrogação. Vejo, é verdade, uma descrição ideal desse tipo de virtude, mas, feita a descrição, o santo livro se abrevia e termina como que de repente. Seria então uma ironia, ou uma dessas questões que nunca se resolvem, que os antigos designavam com o nome de problemas, e em nossa linguagem chamamos de enigmas?

Não se trata de enigma. Ou, por outra, se o for, o Espírito de Deus o resolve dia após dia. À fraqueza de Eva opõe a força da Mãe das Dores; em face da história lamentável das inconstâncias das mulheres que não se apoiam em Deus, exibe a epopéia das santas que encontraram, na inspiração do Espírito de força, a coragem indomável dos heróis. É o caso de Santa Catarina de Ricci. 

As principais manifestações da força são duas: resistir e atacar. É raro que essas características se encontrem completamente isoladas. Contudo, em geral, uma delas predomina. E como temos de optar entre ambas, diremos que o temperamento da nossa santa é sobretudo de ataque. O Espírito de Deus lhe inspira a ciência, a arte e a coragem de agir impetuosamente a seu serviço.

Ainda criança, ela quer ser dominicana. É preciso, o quanto antes, fazer com que toda a gente vá falar com seu pai, personagem ilustre de Florença, para obter o consentimento: irmãs dominicanas de passagem pela cidade, o seu tio, o Padre Ricci e a superiora do convento do Prato, muito próxima das principais famílias e influente em Florença. Essa última consegue que a menina vá passar dez dias em seu mosteiro. Naturalmente, ao cabo de dez dias, Catarina recusa partir com o irmão, que veio buscá-la. O pai vem em seguida, mas ela não quer acompanhá-lo. É necessário que a abadessa intervenha com  autoridade: a menina enfim parte, mas à condição de poder retornar. O pai não se apressa em cumprir a palavra. Daí então lhe veio em auxílio um recurso supremo e sobrenatural: ela cai doente, ficando entre a vida e a morte. O pai se aflige. Certo dia, ele chorava ao pé dela, segurando-lhe as mãos caídas: “Meu pai", diz a menina, "Nosso Senhor me quer por esposa: Ele me disse. Deixe-me partir e me curarei, o senhor verá”. O pai prometeu e, subitamente, Catarina recobrou as forças. Desta vez ela alcançou seus objetivos, o pai a deixou partir. Ela quis ser dominicana, e foi.

Uma vez dominicana, queria ser perfeita “até o pescoço”. “As religiosas estavam orgulhosas de ter uma pequena santa na sua companhia; apenas queriam que essa santinha de onze anos fosse como elas, prudente, amável, obediente, regular, acompanhando-as passo a passo na rotina comum” 1. Não era essa a vontade do Espírito nem o desejo da sua fiel servidora. A íntima comunicação com as coisas do céu a apartava, subtraía-a do cumprimento dos tranquilos deveres. Fenômenos extraordinários se multiplicavam. A comunidade, confusa, encheu-se de desconfianças contra essas coisas extraordinárias. Seu confessor chegou até a lhe ordenar que cuspisse nas visões. Ela o fez heroicamente mas as visões, em vez de desaparecerem, aprovaram o  procedimento. — A troca de coração com Nosso Senhor, os santos estigmas e outras manifestações sobrenaturais foram a recompensa da obediência e o sinal inequívoco da inspiração divina. Como era escrava da regra, e possuía uma nobre e franca familiaridade com todas as irmãs, acabou por obter a ratificação do seu gênero de vida: sua perseverança, coragem e energia sobrenatural, que nunca desfaleciam, lograram uma vitória completa. Ela quis ser uma dominicana perfeita, e conseguiu.

Isso não era o bastante. Uma vez perfeita, quis que suas irmãs também o fossem. “Agora o seu valor era conhecido e celebrado. Nomeada subprioresa, superou todas as expectativas, a tal ponto que, na primeira vacância, foi por unanimidade eleita prioresa. Ela então mostrou toda sua capacidade… Mulher de inteligência e coração, governou num espírito de justiça incorruptível. Exemplo vivo de austeridade e observância vigilante da regra, não deixava nenhuma falta passar impune… Não tolerava que as religiosas ocupassem o espírito com frivolidades ou afeições mundanas” 2. Contudo, a firmeza era temperada pela mansidão, como convém a um dom recebido do céu. A natureza é violenta; porém, a verdadeira força é dona de si mesma e sabe se conter. “Seu modo de mandar era tão maternal que todas tinham grande gosto de obedecê-la”. Compreende-se que, sob direção tão sublime, o Convento do Prato tenha se tornado um modelo de vida religiosa. Catarina quisera que suas irmãs fossem perfeitas, e elas o foram.

Mas isso não era o bastante para o seu coração ardente. Queria agora que a perfeição e a santidade do Convento do Prato irradiasse pela sua Ordem, e por esta Florença tão amada, da qual era o anjo protetor. Como Santa Catarina de Sena, teve discípulos. “Sua Ordem lhe forneceu os primeiros. Provinciais e priores chamavam-na de Mãe; religiosos de grande valor estimavam muito corresponder-se com ela e lhe seguir os conselhos. A sua família inteira estava nas suas mãos… Na aristocracia florentina, contava com grande número de discípulos, almas elevadas, capazes das mais heróicas virtudes cívicas e católicas… A maior parte levava no mundo uma vida que, no mosteiro, não seria deslustre”. — “Outras almas, ainda mais perfeitas, buscavam sua amizade. Basta citar Santa Maria Madalena de Pazzi, São Filipe Néri, São Carlos Borromeu, São Pio V e Savonarola. Ela se manteve fiel a esse último, e o convento do Prato se tornou o guardião da memória desse homem extraordinário. Com sua correspondência vastíssima, com as visitas numerosas que recebia, com a edificação que todos relatavam em suas relações com Prato, apôs o selo final à obra da sua vida. Ela quis que o Convento do Prato fosse um foco de vida perfeita, e foi.  

Assim se desenrolou, em meio a grandes obstáculos, a forte unidade desta vida. O Espírito de Deus lhe ensinou a querer fortemente o que Ele mesmo queria, e ela quis sem fraquejar. Dominicana, perfeita, imã de virtude e centro de apostolado, eis as etapas do seu ataque. Ela permanece como um exemplo deste primeiro aspecto do Dom da Força. 

*

Da Itália, país dos condottieri heróicos, passamos a Holanda, país da coragem sofrida. Terra de gente acostumada a refrear vagarosamente, por meio de diques, as invasões do mar; pais desses heróis que, ainda há pouco, esperavam com calma o inimigo nas trincheiras e, sem tremer, alcançavam vitórias incomparáveis apenas por não recuar. A Holanda é o país da força, mas não da força de ataque, mas da força que sofre sem fraquejar. O Espírito divino, habitando nas almas pela caridade, tempera muitas vezes sua ação segundo nossas disposições naturais. E como a caridade sabe sofrer, charitas patiens est, encontramo-nos na Holanda junto a uma raça de santos de caridade forte e paciente.

Fazia vinte anos que São João de Gorcum era pároco de Hoornaar. Toda a Holanda fora devastada pela seita dos Mendigos do mar, e a religião católica, proscrita em boa parte do território. Na paróquia de Gorcum, os calvinistas aprisionaram um grande número de padres e religiosos, que, encarcerados na cidadela, foram submetidos às mais ignóbeis vexações. João de Gorcum continuava no meio dos seus paroquianos, vestido como leigo para poder continuar o ministério. Chega a penetrar a prisão para levar aos irmãos prisioneiros a Sagrada Eucaristia. Assume os cuidados da extensa paróquia devastada, porém é traído por suas idas e vindas. Feito prisioneiro, é trancado com os futuros companheiros de martírio.

As torturas inventadas pelos verdugos são inimagináveis. Despojados dos hábitos religiosos, semi-nus, transportaram-nos a Brielle, uma travessia mortal de vinte horas. São recebidos em Dordrecht pela populaça que os cobre de imundices e xingamentos. E como se fossem animais ferozes, o povo paga a fim de vê-los no barco. Em Brielle, obrigam-nos a rodear a mesa de um festim onde os verdugos celebram com uma orgia a triste vitória. No dia seguinte, ordenam que se arrastem de joelhos até o lugar do suplício e que dêem três voltas no patíbulo. Julgando que é chegada a hora derradeira, rezam o Salve Regina, mas tudo aquilo não passa de farsa. São conduzidos, em meio a uma turba histérica, à praça do mercado onde ergue-se um outro patíbulo. Cantam o Te Deum. Nova paródia: terminarão esse dia na prisão. 

No dia 7 de julho os levaram ao tribunal do governador. São intimados a abjurar da presença real de Jesus na Eucaristia e do primado da Santa Sé. Três sucumbem, os demais resistem. No dia seguinte, um dos apóstatas, que era noviço franciscano, veio retomar o seu lugar no sagrado cortejo. 

Era o dia 9 de julho de 1572. Entre as ruínas e escombros de um convento agostiniano saqueado, descobria-se um velho celeiro cujo teto, em parte desmoronado, era suportado por umas vigas. Os confessores da fé foram alinhados desnudos à frente dessas vigas. Os esbirros levaram primeiro o franciscano, Nicolás Pieck, passaram-lhe uma corda no pescoço e o içaram alto na viga. Enquanto o mártir sofria e se debatia, os hereges fizeram um último esforço sobre os demais, para que apostatassem. João toma a palavra e, em nome de todos os companheiros, proclama a presença real de Nosso Senhor na Eucaristia e o Primado do papa. Dois deles, contudo, fraquejam e terminam por sucumbir. Os demais cerram fileira e aguardam no posto de combate. Com a corda no pescoço, um a um são içados nas vigas do teto, como bandeiras de extermínio. São João de Gorcum é um dos últimos, mas sua coragem não desfalece, e é finalmente executado. Dezenove cadáveres pendiam enforcados. A multidão se lança sobre eles e os mutila e os despedaça. Depois de colocarem os pedaços cruentos nas pontas de uns piques, partem num horrível cortejo e percorrem Brielle em todos os sentidos. Finalmente, na praça do mercado, empilham os pedaços e vendem-nos aos que pagam maior preço3.

Neste drama sinistro, tudo é resistência, tudo é imolação suportada, tudo é paciência indomável. Não há o ímpeto do ataque. A força se concentra num único ato: não ceder. À medida que a agressão cresce, o espírito de resistência cresce igualmente. Que espírito inspira a nossos mártires essa recusa enérgica, essa sublime denegação, essa passividade heróica, senão o Espírito de Força, mais admirável talvez na tolerância paciente, alheia a toda consolação humana, do que nos entusiasmos da atividade!… Que luz para essas almas privilegiadas que Deus chama ao sofrimento!

*

Pedro de Verona prostrava-se no chão do capítulo do convento de Bolonha. Deram ouvidos a uma voz acusadora e lhe atribuíram um fato desonroso. O prior o intima a justificar-se. De joelhos, ele se recusa, protestando simplesmente a sua inocência. Os testemunhos parecem convincentes, contudo, e o Irmão Pedro, expulso do convento de Bolonha, é relegado a Jesi, na região das Marcas. Ele parte desonrado. Por muito tempo seguirá assim, em penitência, suportando sem murmuração a provação divina. Finalmente, chega a hora da verdade: sua inocência é reconhecida e proclamada, e ele retorna ao convento com a cabeça cingida da aureola dos fortes que sabem sofrer com paciência e magnanimidade de coração. 

Agora, é hora do ataque. Irmão Pedro é inquisidor, ou seja, incumbido de desmascarar e perseguir a heresia. Ele age em meio aos maiores perigos, pois é um erro pensar que o perigo estava apenas do lado dos hereges. De resto, ele busca convencê-los sobretudo pela pregação. Sua bravura é tão grande, seus sucessos tão brilhantes, que se torna o alvo de todas as emboscadas. “Hei de morrer na mão dos heréticos”, dizia com freqüência, mas seguia a missão sem empalidecer. — Em 1252, conspiraram para assassiná-lo. Irmão Pedro é prevenido. Ele anuncia a seus irmãos de Como que seu fim está próximo e que seu martírio ocorrerá entre Como e Milão. 

Em seguida, após o último discurso de despedida, parte para Milão onde o dever o chama. No caminho, a emboscada está preparada. O santo canta com os companheiros as estrofes do Victimae paschali laudes. Ele caminha adiante, acompanhado apenas do Irmão Domingos. Numa mata espessa os assassinos se lançaram sobre ele. Um golpe de foice lhe rompe a cabeça. Ele diz: “Eu confio minha alma nas vossas mãos, Senhor”. Em seguida, recobrando um pouco as forças, escreveu com seu sangue estas palavras no chão: Credo in Deum. 

*

"Bem-aventurados aqueles que tem fome e sede de justiça porque serão saciados". Esse é o cerne da alma dos nossos três santos: Santa Catarina tem fome e sede da justiça devida a Deus, ou seja, da santidade que faz os verdadeiros justos; São João tem fome e sede da justiça do cumprimento do dever, sendo fiel até a morte; São Pedro mártir, que sabe adorar a justiça de Deus quando ela fere um inocente, também sabe aceitar sem fraquejar os desígnios dessa mesma justiça quando fere o erro para salvar a inocência. 

Bravura no ataque e paciência no serviço de Deus, eis a marca dos nossos três santos. No presente momento — consumada a bem-aventurança — já estão saciados. Lá do céu, donde se exclui toda a injustiça, contemplam na fonte a Vontade divina condenando as injustiças da terra e aprovando toda reta intenção. 

Nós, que padecemos perseguições pela justiça e aborrecemos a iniquidade, ergamos os olhos e recobremos a coragem. A luta presente dura só um distante, há um dia seguinte para a perseguição e o martírio. O reino de Deus, reino de justiça onde nossos santos nos precederam, não está longe de nós. Bem-aventurados aqueles que tem fome e sede de justiça, porque serão saciados.

(Tradução Permanência)

  1. 1. Sainte Catherine de Ricci, pelo R. P. Boitel. Desclée, 1897, p. 7.
  2. 2. Ibid, p. 17-18.
  3. 3. Todos estes detalhes foram tirados da Notícia sobre São João de Colônia e seus companheiros, pelo R. P. Mortier , Desclée, 1899.
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