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CAMPANHA DE ROSÁRIOS PELAS ELEIÇÕES

 

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Índice de autores

Dom Hélder em Paris

Gustavo Corção

 

O Sr. Arcebispo de Olinda e Recife, Dom Hélder Câmara, fez no semanário francês L’Express várias declarações que foram publicadas n’O Estado de São Paulo, de 16 do corrente. Dada a promoção que se organizou, com centro em paris, para a difusão das “palavras aladas” de nosso arcebispo, temos o dever de examinar cuidadosamente suas declarações e registrar seus “compromissos”. A notícia vinda de Paris começa por esta promessa do príncipe da Igreja: “Ficarei na minha diocese e continuarei falando como bispo, e penso que será muito difícil fazer calar-me”. Respondamos a cada uma das três proposições que compõem o período acima.

“FICAREI NA MINHA DIOCESE”. Respondo:

Alegrar-me-ia se me convencesse de que Dom Hélder descobriu afinal seu compromisso principal, mas não me parece fácil tal convicção. Veremos se o “fico” de Dom Hélder ficará na história. Respeitosamente duvido.

“CONTINUAREI FALANDO COMO BISPO”. Respondo:

Ninguém pode continuar o que não estava fazendo. Seria melhor dizer: “PASSAREI A FALAR COMO BISPO”, porque até agora o arcebispo de Olinda e Recife tem falado como ideólogo que descobriu um modo de consertar os desconcertos do mundo, mas até agora não explicou sequer os primeiros parâmetros da nova estrutura que anuncia. Agora mesmo, em Paris, pregou uma coisa chamada “violência pacífica” que ninguém sabe exatamente o que é, mas todos sabem que inclui “respeito por todos aqueles que, em consciência, elegem a violência ativa”: Che Guevara ou os jovens que tem a mesma opinião em nossa terra porque se sacrificam pela justiça” (grifo nosso). Por aí se vê que a “violência pacífica” do bondoso arcebispo vê com bons olhos, embora úmidos, os sequestros e homicídios que os rapazes comunistas praticam no Brasil. No caso do sequestro do embaixador americano, os terroristas disseram que “justiçiariam” a presa caso não fossem atendidas as exigências formuladas. Dom Hélder, a propósito de tais façanhas, emprega o termo “justiça” que assim terá afinidades verbais com o termo “justiciaremos” dos sequestradores. Por estas e por outras muita gente no Brasil, certamente a maioria da população consciente, vê em Dom Hélder um agente voluntário ou involuntário da III Guerra Mundial que hoje tem centro em Paris e tem por objetivo a massificação da humanidade.

Depois de tal engajamento acho muito difícil passar Dom Hélder a falar como bispo aos seus diocesanos. Impossível não é porque Sua Excelência, o Arcebispo de Olinda e Recife, ainda está, como nós, na peregrinação que nos é dada para a conversão e para a penitência. Rezemos.

“PENSO QUE SERÁ MUITO DIFÍCIL FAZER-ME CALAR”.

Eu também penso. Por si mesmo, quem se habitou a falar com tanto desembaraço e quem se inebriou de tantos aplausos em Paris, dificilmente quererá dedicar uns dez anos, ou mais que viva, à oração e ao trabalho silencioso da cura das almas. Logo adiante, na mesma declaração, Dom Hélder anuncia o seu provável martírio. Todos nós sabemos que Dom Hélder não será molestado em sua diocese, e muitos chegam a insinuar que o Sr. Arcebispo deseja ardentemente ser arranhado. Dom Hélder não se calará por si mesmo, nem pela força, a não ser que o nosso bom Brasil caia nas mãos dos comunistas. A história está aí para dizer o que eles sempre fizeram com os revolucionários e simpatizantes da primeira hora.

Restaria ainda o caminho intermediário da persuasão, mas a experiência de 20 anos já provou que o arcebispo não ouve a voz dos velhos amigos a começar por aquele a quem, nas vésperas da sagração episcopal, suplicou com os olhos no teto: “ajude-me, avise-me se eu errar...”. Houve nessa ocasião uma festinha no Centro Dom Vital. Na mesa éramos três: Dom Hélder, Alceu à sua direita e eu à sua esquerda. Na sala éramos uns cinquenta amigos. Em certa altura dos discursinhos que pronunciou, Dom Hélder, apertando convulsivamente as mãos, erguendo os braços e quase soluçando, suplicou ao auditório: Vocês rezem! Rezem! Rezem para eu não ficar besta! ”. E foi no termo desse discurso que voltou-se para mim depois de haver abraçado o Alceu. Abraçamo-nos e beijamo-nos e ele então sussurrou-me ao ouvido: “corrija-me, advirta-me se eu errar! ”. Penso ter cumprido opportune et inopportune a promessa de vinte anos atrás. Agora espero que o Sr. Arcebispo de Olinda e Recife cumpra a sua recente promessa: ficar na sua diocese e falar como bispo.

***

Duas palavras sobre a boa nova anunciada em Paris pelo Arcebispo de Olinda e Recife. Leio: “É preciso que todos os jovens brasileiros, universitários, todos, procuremos juntos uma fórmula de socialização que não esmague a pessoa humana e que não una socialismo e materialismo”. Mas enquanto procuramos essa coisa nebulosa D. Hélder fala com vigor de quem já possui a chave: “Pessoalmente, minha maneira de ver o Evangelho me leva à violência pacífica. Não me contento com minirreformas, exijo transformações profundas...”

Este “exijo” me lembra imediatamente o “castigaremos implacavelmente” dos tempos em que o Pe. Hélder era integralista. A tudo isto respondo: também eu, enquanto Deus quiser, não me calarei. E por hoje dou a seguinte resposta ao Arcebispo de Olinda e Recife: todos nós sabemos que é grave, gravíssimo, o problema da miséria no Brasil, e todos nós já procuramos trazer nossa contribuição. Pessoalmente, como diz D. Hélder, escrevi centenas de artigos sobre o imperativo da integração do ecúmeno brasileiro contra a construção de Brasília. Combatemos ardorosamente os governos que arruinaram e que depredaram o Brasil, que empobreceram mais os pobres, que exauriram mais os miseráveis. Será preciso lembrar que Dom Hélder, nesse tempo, era persona gratíssima? O que fez então em defesa dos pobres? Prestigiou os governos que mais os empobreceram.

***

P.S. — Só agora li na íntegra as espantosas declarações de Dom Hélder à revista L”Express. Voltarei ao assunto.

 

O Globo, 04/07/1970

Brasil vitorioso

Gustavo Corção

 

Não, amigo, não me refiro ao futebol de cuja vitória já me expandi nesta coluna; refiro-me hoje a outra luta mais cruel, mais desleal, que o Brasil começou em 1964. O desmantelamento da quadrilha de Marighella, no ano passado, e o desmascaramento dos maus religiosos que desonravam a ordem dominicana foram os marcos da primeira vitória contra a conjuração terrorista que quer fazer o Brasil regredir aos tempos sombrios em que o comunismo chegou ao poder.

Os agentes da guerra revolucionária, obedientes a ordens emanadas de Havana, de Pequim ou de Paris, com assaltos de bancos, sequestros de embaixadores, conseguiram incomodar, inquietar a opinião pública. Em compensação alegraram e confortaram Dom Hélder Câmara que, em entrevista dada a L’Express, declarou sem a menor hesitação seu afeto e sua admiração por esses rapazes que assaltam bancos, sequestram embaixadores, matam policiais e sequestram aviões dispostos a matar o piloto e a sacrificar todos os passageiros. Dom Hélder só lamenta que seja pouco o dinheiro roubado aos bancos porque com ele seus rapazes não podem fazer frente ao Exército.

Ora, meu grito de triunfo, meu deslumbramento de hoje se refere à vitória da operação perfeita realizada por nossa Aeronáutica na semana passada. Foi realmente uma operação em que a organização perfeita e a bravura exemplar neutralizaram a chantagem sinistra que os perversos terroristas fazem com as vidas de mulheres, velhos e crianças. A dificuldade em que se acham as autoridades nas situações criadas pelos terroristas vem do receio de ser, não a causa, mas a ocasião de perdas de vidas inocentes. Mas essa delicadeza, esse temor, tem seus limites mormente quando se vê o crescendo insuportável da insolência dos criminosos. Desta vez já exigiam que lhes trouxessem dois cardeais, D. Jaime Câmara e D. Agnelo Rossi. Como? Amarrados? Encaixotados? E tudo em tempo marcado. E se um dos cardeais tivesse um enfarte? Os amigos de Dom Hélder Câmara não se embaraçam com tais escrúpulos. Sentem a delicadeza das autoridades e roncam grosso: “Ninguém deverá aproximar-se do nosso aparelho sem nosso prévio consentimento”,

O comandante do Caravelle foi perfeito; perfeito foi o Comandante da Base Aérea na resposta: “Não dialogo com terroristas”; e perfeitíssimas as operações subsequentes. Dirá alguém que bravos soldados da Aeronáutica puseram em risco a vida dos passageiros? Responderei que tinham o direito de fazer porque começaram por arriscar as próprias vidas quando forçaram a porta e entraram no avião. E a feliz combinação de bravura e organização nos deram a espetacular vitória que oferecemos ao mundo inteiro como exemplo.

É curioso. No dizer dos sociólogos e economistas somos subdesenvolvidos, somos atrasados, mas na luta contra a anarquia que envenena toda a civilização temos marcando mais pontos do que qualquer outro país. Em 1964 corremos com os comunistas que já estavam no poder. Um jornal comunista da cortina de ferro foi o único que nos homenageou: o redator fazia uma autocrítica e reconhecia que os comunistas no Brasil haviam subestimado a classe média. Não direi que foi só por isso que perderam, mas o fato é que o Brasil foi o único país do mundo que soube repelir o comunismo já instalado.

No sequestro do embaixador americano, em 24 horas tinham nossos policiais a casa descoberta e focalizada com teleobjetivas. Só não cercaram a casa e prenderam os sequestradores porque quiseram proteger a vida do embaixador. E o curioso é que, nessa ocasião, não ocorra a nenhum americano que os inimigos que aqui sequestram embaixadores são os mesmos que no Vietnam eles combatem. Ora, se no Vietnam eles combatem os comunistas com sacrifício de vidas americanas, porque não admitir que aqui os ajudemos a combater com risco de vida de um embaixador.

O que não é possível é admitir a progressão geométrica das concessões e dos diálogos com criminosos. No caso do embaixador alemão exigiram a libertação de presos, e a publicação de manifestos. No caso da semana passada exigem dois cardeais. Por que não o Papa? Essa questão de delicadezas e de salvar vidas já está a um milímetro da desonra. A um milímetro da exigência de todo o berçário imaginado por Nelson Rodrigues.

E foi essa brusca evidência que desencadeou a bravura e a operação perfeita do Galeão. O Brasil mais uma vez está de parabéns.

***

Mas há uma outra evidência que entra pelos olhos: a necessidade de uma fiscalização mais severa, e a punição dos responsáveis pela má fiscalização. Já sugeri aqui, tempos atrás, vários meios eletrônicos ou eletromagnéticos para detectar a presença de armas de material magnético. Tudo tem de ser feito para devolver à navegação aérea seu teor, já não digo de segurança, mas de decência. O que me choca especialmente é este paradoxo: justamente no momento em que a pessoa parece estar fruindo o creme de todo um apuro civilizacional, de repente, está ao rés da barbárie.

***

Não posso deixar de consignar neste mesmo artigo de júbilo o nosso triunfo diplomático na OEA. Nossa tese, que é a do bom-senso, saiu vencedora. Os países da América Latina começam a desconfiar de que devem ouvir o Brasil.

 

(O Globo, 09/07/1970)

Deve-se lastimar a conquista do México pelos espanhóis?

Pe. Pierre Mouroux

 

No dia 13 de agosto de 1521, após um cerco de 80 dias, caia a cidade de Tenochtitlán (atualmente, Cidade do México), pondo fim o império asteca. Esse dia marcou para sempre o nascimento da nova Espanha e o início da evangelização da América. Em poucas décadas, o império espanhol se estenderia da Terra do Fogo, ao Sul, até a California, ao Norte. A esses acontecimentos, os historiadores deram o nome de “Conquista”.

O ano de 2021 marcou os 500 anos do início dessa epopeia. Devemos nos alegrar dessa conquista? Se formos seguir o pensamento dos intelectuais de hoje em dia, a resposta aparentemente será não.

Em fevereiro de 2016, quando o Papa Francisco visitou o México, durante uma Missa em Chiapas, ele pediu para que “aprendêssemos a dizer perdão” e fizéssemos um “exame de consciência”, insistindo sobre a exclusão dos povos indígenas na história. Do mesmo modo, no dia 9 de julho de 2015, durante a sua viagem a Bolívia, o Papa Francisco apresentou oficialmente as suas desculpas, em nome da Igreja Católica, pelas “injúrias” feitas aos povos autóctones do continente pelos colonizadores espanhóis. “Cometeram-se muitos e graves pecados contra os povos nativos da América, em nome de Deus”. Ele reconheceu então se tratar de “crimes”, coisa inédita[1].

Mas, bem antes dele, sem falar em “crimes”, o Vaticano mencionou “danos” cometidos pelos colonos. Assim, em 2007, Bento XVI reconheceu “os sofrimentos, as injustiças e as sombras” desse período de colonização. E, desde 1992, a via do arrependimento já fora escolhida. João Paulo II, tinha, durante a sua viagem para a República dominicana, “pedido perdão humildemente”, fórmula retomada pelo Papa Francisco na Bolívia. Ele reconhecia então a “dor e o sofrimento” causados pelos católicos durante 500 anos. Na grande cerimônia de arrependimento do ano 2000, por ocasião do Jubileu, João Paulo II havia solenemente renovado esse pedido de perdão.

Em outubro de 2020, o presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador, esquerdista inveterado, remeteu uma carta ao Papa Francisco convidando a Igreja a pedir perdão pelos abusos cometidos há 500 anos na conquista do México. O presidente recordava que “atrocidades vergonhosas” foram experimentadas pelos povos originários, a pilhagem de seus bens e da sua terra, e sua submissão cultural e religiosa, “desde a conquista de 1521 até o passado recente”. Declarava também: “Aproveito essa ocasião para insistir no fato de que, por ocasião dessas efemérides, a Igreja Católica, a monarquia espanhola e o Estado mexicano devem pedir desculpas públicas aos povos originários.” No dia 27 de setembro de 2021, o Vaticano enviou uma carta em resposta na qual apresentava as suas desculpas ao povo mexicano “por todos os pecados pessoais e sociais, por todas as ações ou omissões que não contribuíram para a evangelização”, seguindo aqui a longa tradição de arrependimento inaugurada por Paulo VI. Mas, isso não é tudo: o prefeito da Cidade do México decidiu, no dia 13 de março de 2021, não mais festejar os 500 anos da conquista, mas os 700 anos da fundação de Mexico-Tenochtitlán; e, nessa ocasião, alterou o nome de muitas ruas e algumas estátuas emblemáticas da cidade para que, 500 anos após a sangrenta invasão espanhola, pudéssemos valorizar a diversidade cultural.

A lenda negra, subjacente à mentalidade atual, existe há séculos. Foi o Frei Bartolomé de las Casas, O.P., quem primeiro denunciou as supostas atrocidades da conquista espanhola1. Tudo o que ele relata se apoia, segundo ele, no que viu com seus próprios olhos, embora nunca tenha mencionado nomes, datas ou os lugares exatos que permitam corroborar os fatos, o que nos mostra que falta seriedade às suas afirmações. Evidentemente, todos os países inimigos da Espanha, a Inglaterra à frente deles, aproveitaram para dar publicidade a esses escritos e macular a imagem dos espanhóis. Se tivéssemos de caricaturar as afirmações dessa lenda negra, diríamos que os espanhóis, embora se mostrassem cavalheiros na Europa, tão logo cruzaram o Atlântico mostraram-se como realmente eram: homens terríveis, ávidos de riqueza e poder, prontos a tudo para alcançar o seu fim: escravidão, tortura, homicídio etc. Uma breve análise dos fatos nos mostrará uma paisagem um pouco diferente.

Alguns autores criticam o uso do termo “conquista” pois, segundo eles, antes se deveria falar em “libertação”. Com efeito, quando se estuda os acontecimentos e quando se conhece como viviam os povos originários do México (e a maior parte dos ameríndios) no tempo da chegada dos espanhóis, e quando se vislumbra tudo o que o império espanhol lhes legou, pode-se bem falar em liberação, tanto social como religiosa.

 

O México antes da chegada dos espanhóis

Recordemos inicialmente que “até o começo do século XVI, o México não existia como Estado, nem como Nação, nem como Pátria” 2. Não havia unidade política, propriamente dita. Existia uma entidade mais poderosa que as demais, os Astecas, que tinham como capital a Grande Tenochtitlán (hoje em dia, México). Essa entidade guerreira se estendia do Golfo do México, com as regiões de Veracruz e Tabasco, até o Oceano Pacífico, com as regiões de Guerrero e Oaxaca. Mas, numerosos povos – conhece-se mais de 110 – viviam no que é hoje o México, alguns a menos de 50 quilômetros dos astecas (por exemplo, o povo de Tlaxcala). Quando se fala em império asteca, não se trata de algo assimilável à nossa ideia europeia de império. Falava-se mais de oitenta línguas distintas nessa região. Esses povos não conheciam a escrita fonética e só utilizavam símbolos e figuras. Não conheciam o uso industrial e mecânico da roda nem trabalhavam o ferro, não possuíam animais de tração e de carga, nem bovinos, porcos, cabras ou ovelhas, e careciam dos principais cereais. Não havia unidade religiosa, a não ser pela prática de sacrifícios humanos, dos quais declarou o historiador Frei Diego Durán: “Se a história não me obrigasse, e se não tivesse visto o episódio afirmado e descrito em numerosos lugares, não ousaria me referir a eles com o temor de ser tomado por um escritor de fábulas.” Fala-se em dezenas de milhares de vítimas na inauguração do Templo Maior de Tenochtitlán, em 1487. Para realizar esses sacrifícios, muitas guerras ocorriam, a fim de fazer prisioneiros, vítimas perfeitas, e os povos submissos também deviam pagar um tributo anual de futuras vítimas. Todas essas vítimas, após terem os seus corações arrancados, eram devoradas pelos habitantes! No que diz respeito ao ambiente moral, um dos principais historiadores da Conquista, Frei Toribio Benavente (1482-1569), também conhecido como Motolinia, missionário franciscano no México, nos dá esse testemunho, um pouco cru mas realista: “Essa terra era uma transposição do inferno; podia-se ver os seus habitantes gritando pela noite, alguns clamando pelo diabo, outros embriagados. [...] Eles tinham todas as mulheres que quisessem, e havia os que tinham até duzentas mulheres; para tanto, os grandes senhores roubavam todas as mulheres, de sorte que, quando um índio ordinário queria se casar, dificilmente podia encontrar uma mulher.” 3

Hoje em dia, os intelectuais criaram um mito a propósito das comunidades indígenas da época. Eles nos apresentam como se elas vivessem em um estado ideal. Mas a realidade histórica é bem diferente. De fato, a maior parte dos povos oprimidos pela tirania antropófaga asteca se aliaram aos espanhóis para se liberar do jugo asteca, e assim permitiram a tomada de Tenochtitlán, em 1521. Foram milhares de ameríndios que, somados aos soldados espanhóis, derrubaram o “império” asteca. Compreende-se o seu desejo de sair de um tal ambiente, do qual alguns intelectuais mostram-se saudosos! Modificar a histórica com fins ideológicos é uma especialidade moderna. Por exemplo, muitos mexicanos foram levados a crer que são todos descendentes de um único povo – os astecas – que povoavam o território atual do México; fizeram-lhes esquecer que muitos deles descendem na verdade de povos que os astecas capturavam com o fim de realizar sacrifícios humanos4. Um filósofo argentino, Juan José Sebreli, declarou com justiça que “a destruição dos grandes monumentos, templos e palácios dos astecas e dos incas é repreensível, mas uma civilização não consiste apenas em obras de arte, mas sobretudo em sua organização política e social, seu direito e sua ética, e, sob esse aspecto, as grandes civilizações pré-colombianas não foram exemplares. Eram teocracias sanguinárias sem autoridade moral para condenar a crueldade dos espanhóis [...]. Os indigenistas repudiam como um ato de barbárie a destruição da cultura asteca pelos conquistadores, mas se esquecem de que, cem anos antes, sob o reino de Izcoatl, os astecas destruíram os livros antigos e destruíram os monumentos do Tolteques, a fim de impor sua própria cultura. Aquele que mata um assassino não deixa de cometer um crime, mas o assassino morto não recupera absolutamente a sua inocência.” 5

 

O legado dos espanhóis

Os espanhóis trouxeram consigo a paz, ao dar um fim às guerras tribais e aos costumes sanguinários. Eles fizeram obra de caridade ao fundar milhares de hospitais em todo o continente, e ao fundar centenas de universidades, com as quais lhes transmitiram as suas tecnologias, sua língua, sua cultura, sua religião; ofereceram a esse continente o seu próprio sangue, estabelecendo as bases de um novo povo, resultado da mestiçagem entre os povos originários e os espanhóis. Também propiciaram a unidade ao redor da única religião verdadeira, a religião católica. Em uma palavra, o seu legado foi o da verdadeira civilização. Foi graças a eles que os diferentes países da América Latina existem.

Consideremos agora a religião, pois se a liberação social foi uma grande coisa, que podemos dizer da libertação religiosa, sabendo que as almas valem bem mais do que o corpo? Vimos como os ameríndios estavam todos entregues à idolatria antropófaga. É importante recordar que os reis espanhóis quiseram que a evangelização dos povos ameríndios fosse o fim primeiro da Conquista, ao menos na ordem da intenção, quando não era possível na ordem da execução. Eles não faziam outra coisa do que seguir as indicações do Papa Alexandre VI na sua bula Inter coetera (1493): “Bem sabemos que vós vos propusestes, há muito tempo, procurar e encontrar Ilhas e Continentes, afastados e desconhecidos, dos quais ninguém até agora fez a descoberta; que quereis reconduzir os habitantes e indígenas à honra do nosso Redentor e à profissão da fé Católica; e que, fortemente empenhados, até esses dias, a fazer o cerco e a recuperar o Reino de Granada, não lograstes levar a bom termo esse santo e louvável projeto.” O papa prossegue dizendo que, com a descoberta das Índias, a hora desejada por Deus chegou: “E assim, uma vez que vós mesmos, por vossa própria iniciativa, desejais, por amor da fé, iniciar e prosseguir até o fim a vossa empreitada, nós vos instamos vivamente, em Nosso Senhor, e igualmente, pelo sacramento do Santo Batismo, que vos ligais às ordens apostólicas, e pelas entranhas de misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo; nós vos solicitamos com instancia a crer que deveis estimular os povos que habitam nestas ilhas e continentes a abraçar a religião católica, de querer lhes transmiti-la, de não vos deixar jamais desviar e de pensar firmemente que Deus Todo Poderoso abençoará os vossos esforços.” A Rainha Isabel6, no seu Testamento de 1504, não dirá outra coisa, lembrando que a sua principal intenção fora a de converter os povos dessas terras para nossa Santa Fé Católica, e pedindo que esses últimos não fossem atingidos nas suas pessoas ou nos seus bens.

Essas preocupações se verificam em numerosos textos oficiais do Vaticano e dos reis espanhóis. Os conquistadores seguiram essas diretivas? Vejamos alguns extratos dos cronistas, a respeito dos feitos de Hernán Cortés. É Benal Diás del Castillo quem testemunha: “Nós nos dirigimos para os lados do Yucatan, e chegamos primeiro na Ilha de Cozumel. Lá havia alguns ídolos com figuras muito disformes em um santuário onde os indígenas costumavam oferecer sacrifícios. Cortés fez com que os ídolos fossem despedaçados e construiu um altar no templo, onde se colocou a imagem da Virgem e um crucifixo. O Pe. Juan Díaz disse a missa, com grande atenção dos mais velhos, dos caciques e de todos os índios.” 7 Lopez de Gomarra, por sua vez, declarou: “Em cada lugar em que ele [Cortés] se dirigia, erguia uma capela ou um altar, e colocava uma cruz ou a imagem de Nossa Senhora, na qual todos os ilhéus rendiam culto com devoção e orações, e acendiam incenso e ofereciam codornas, milhos, frutas e outras coisas que tinham o hábito de trazer para as imagens. E tinham tanta devoção à imagem de Nossa Senhora de Santa Maria que iam com ela em direção aos navios espanhóis que abordavam, clamando: ´Cortés´, ´Cortés´ e cantando ´Maria, Maria´ para mostrar que eram amigos de nossa santa religião.” 8 encontramos testemunhos idênticos nas crônicas da viagem de Laonso e Parada, Pánfilo de Narvaez e de Cristóbal de Olid. Em que pese algumas dificuldades no início, e sobretudo a partir das aparições de Guadalupe, em 1531, dezenas de milhares se converteram ao catolicismo, e o movimento foi tão profundo que essas terras são ainda hoje aquelas onde se encontram mais católicos.

Outro ponto interessante, que pode nos ajudar a julgar essa Conquista é a intervenção do céu. Encontramos em muitas crônicas, tanto espanholas como indígenas, relatos de fatos extraordinários. Por exemplo, durante a “noche triste” (noite triste), quando os espanhóis fugiram da cidade de Tenochtitlán, uma jovem (a Virgem Maria) e um cavaleiro (São Tiago), os protegiam dos ataques dos astecas. Que dizer das aparições de Guadalupe, em 1531? A Virgem apareceu a um índio de nome Juan Diego e deixou sobre a sua tilma (vestido local) a sua imagem, sem que nenhum cientista possa ainda hoje explicar como essa imagem foi pintada, e como é possível que essa toalha não se tenha corrompido após séculos. Esse gênero de fatos é corrente e deixou traços: centenas de santuários espalhados por toda a América latina. Os milagres são um motivo de credibilidade e Deus os utiliza para mostrar que uma obra é divina. Se o céu interveio tantas vezes nessa Conquista em favor dos espanhóis, é porque não se opunha a ela, muito ao contrário! Com efeito, se considerarmos esses acontecimentos com visão sobrenatural, perceberemos quantas almas foram salvas pela ação dos espanhóis e dos missionários!

 

O julgamento da Igreja sobre a obra da Espanha na América

O Papa Pio IX, dirigindo-se a uma comissão de católicos espanhóis, no dia 20 de junho de 1871, lhes declarou: “A Espanha sempre demonstrou predileção especial por esta Sé Apostólica, e se esforçou para levar a civilização cristã a todas as nações do globo. A bandeira espanhola tremulou sobre todos os mares da América, da Índia e de outras regiões, como símbolo da fé em Jesus Cristo (...). Por isso, a Espanha foi outrora grande, porque sua grandeza estava a serviço da propagação, do serviço e da defesa da religião católica, ao preço de todos os sacrifícios.” 9

Por ocasião do IV centenário da descoberta da América, Leão XIII dava “graças ao Deus imortal por esse feliz acontecimento” pelo qual “milhões de homens que se encontravam no esquecimento e nas trevas, foram reintegrados à sociedade, e passaram da barbárie à mansidão e à humanidade, e, o que é mais importante, foram chamados da morte para a vida eterna pela comunicação dos bens que Jesus Cristo produz.” 10

Ao terminar a guerra civil espanhola, o Papa Pio XII manifestou sua alegria ao General Franco e recordou: “A valente Espanha (...) é a nação escolhida por Deus como principal instrumento de evangelização do Novo Mundo, e como fortaleza inexpugnável da fé católica.” 11

O mesmo pontífice, recebendo em audiência os reitores dos grandes seminários da América latina, lhes dizia: “A América latina é um formidável bloco católico, cujo zelo missionário das duas grandes mães ibéricas soube edificar para sua grande honra e para proveito da Igreja.” 12

Durante um discurso a uma missão naval espanhola, o papa se exprimiu assim: “Vossa profissão de marinheiros espanhóis traz à nossa memória as providenciais caravelas da Espanha missionária, verdadeiras auxiliares da Barca de Pedro que, com a civilização da Europa, levavam primeiramente ao Novo Mundo o tesouro incomparável da fé em Jesus Cristo e, com a religião católica, legaram a esses imensos continentes a sublime e verdadeira civilização das almas.” 13

Pio XII chegou a louvar a devoção dos Conquistadores pela Virgem Maria nesses termos: “Conhecemos o lugar eminente que coube à devoção para com Nossa Senhora na evangelização do Novo Continente e na conservação da sua fé. A América dos Conquistadores – Jeronimo de Aguilar, Hernan Cortés, Pedro de Alvarado, Alfonso de Ojeda – que, em seu peito armado souberam conservar um coração muito terno por sua mãe; essa América, da qual mais de cem cidades trazem o nome tão doce [de Maria], da qual dezenas de catedrais reclamam seu patrocino (...).”14

No Congresso mariano das Filipinas, o mesmo papa louvou assim o país dos reis católicos: “O impulso evangelizador e colonizador da Espanha missionária, da qual um dos méritos foi o de saber fundir os dois aspectos da sua ação em uma só coisa [evangelização e colonização], não podendo se contentar, nem mesmo com a imensidão do Novo Mundo, lançou-se na solidão do Pacífico (...).”15

 

Balanço

Certamente, a Conquista ou a liberação da América das garras do demônio também conheceu pontos sombrios, pois, como ocorre em toda obra humana, ocorreram pecados, abusos e fatos pouco edificantes, ainda que o governo espanhol tivesse o hábito de castigar aquele que ultrapassasse as leis estabelecidas para a proteção dos habitantes indígenas. Mas, numa visão geral sobre essa obra, é evidente, após o que pudemos estudar, que a balança se inclina para o lado do bem: a conversão e a obra de civilização não têm preço. Ademais, os abusos perpetrados jamais tiveram o caráter sistemático que a lenda negra quis atribuir. Antes de concluir, eis as palavras de Frei Toribio de Benavente, confessor de Hernan Cortés, a respeito desse conquistador, o mais ilustre dentre todos e o mais criticado pelos intelectuais: “Ainda que, como homem, fosse um pecador, ele tinha a fé e as obras de um bom católico, bem como o desejo de empregar a sua vida e os seus bens para o aumento da sua fé em Nosso Senhor. Ele se confessava com muitas lágrimas, recebia a Santa Comunhão com devoção e colocava a sua alma e os seus bens nas mãos do confessor, a fim de poder comandar e dispor deles como convinha à sua consciência. E Deus o visitou por meio de grandes aflições, trabalhos e doenças para purgar as suas faltas e purificar a sua alma. Creio que é um filho da salvação.” 16

 Esse pequeno resumo dado pelo confessor desse grande conquistador é a imagem de sua obra. Enquanto católicos, não temos o porquê de lamentarmos essa obra providencial, ao contrário, é preciso agradecer aos espanhóis por ela!

Encerremos esse pequeno estudo com a declaração de um historiador mexicano: “O inferno e nada além disso era o estado do território habitado por nossos ancestrais. Como é possível que existam pessoas saudosas dessa situação e que lamentem que tenha sido terminada pelos espanhóis? Não duvidemos que o diabo, o verdadeiro e autêntico diabo, tenha tomado posse do povo e o colocado a seu serviço. Glorioso foi o dia em que a Cruz apareceu e pôs a legião satânica em fuga!”17

 


[1] “E eu quero dizer-vos, quero ser muito claro, como foi São João Paulo II: Peço humildemente perdão, não só para as ofensas da própria Igreja, mas também para os crimes contra os povos nativos durante a chamada conquista da América” (https://www.cnbb.org.br/confira-a-integra-do-discurso-do-papa-francisco-...)

  1. 1. De las Casas, Bartolomé, Brevísima relación de la destruición de las Indias, 1542
  2. 2. Sanchez Ruiz, Pedro, Prehistoria de Méjico, In Nacimiento, grandeza, decadência y ruína de la Nación Mejicana.
  3. 3. Benavente, Fray Toribio, Historia de los Indios de la Nueva España, Porrúa, México, 2011
  4. 4. Dias del Castillo, Bernal, Historia Verdadera de la Conquista de la Nueva España, capítulo 27, Porrúa, México, 1994
  5. 5. Sebreli J.J., El asedio
  6. 6. (N. da P.) Trata-se da rainha de Castela e Leão Isabel I (1451-1504), apelidada de “Isabel, a Católica”
  7. 7. Lopes de Gomara, Francisco, la llegada a la isla de Cozumel, in Crónica General de las Indias
  8. 8. Gullo Omodeo, Marcelo, Madre Patria
  9. 9. Citado por Jean Terradas, em Une chrétienté d´outremer, NEI, Paris, 1960
  10. 10. Encíclica Quarto abeunte saeculo, 16/7/1892
  11. 11. Radiomensagem à nação espanhola de 16/4/1939
  12. 12. Discurso de 23/11/1958
  13. 13. Discurso de 6/3/1940
  14. 14. Radiomensagem de 12/12/1954
  15. 15. Radiomensagem de 5/12/1954
  16. 16. Benavente, Fray Turibio, Historia de los Indios de la Nueva España, Porrúa, México, 2001.
  17. 17. Trueba, Alfonso, Huichilobos, Jus, 1955.

Ad sum? - sobre a vocação religiosa

Caro _________,

Talvez lhe cause confusão o título dessa carta. "Ad sum" é a resposta que você daria em Latim caso seu nome fosse chamado em uma lista. Durante a cerimônia de ordenação sacerdotal, o Padre assistente lê os nomes dos candidatos para ordenação, ao que os ordenandos respondem "Ad sum!", ou "presente!".

Tecnicamente, este será o momento da sua vocação, caso se decida entregar-se ao sacerdócio; é o momento em que se é chamado em nome do bispo para receber o sacramento das Ordens Sagradas. É a culminação de uma jornada normalmente cheia de obstáculos e dúvidas, exigências e sacrifícios; uma jornada que o mundo não compreende.

 

Ordem Sagrada

"ad sum" que você responderá perante o bispo, os ministros e os fiéis, será apenas a manifestação exterior do "ad sum" interior, normalmente repetido desde que se tomou a decisão de entrar no seminário. Perante o bispo, com uma vela na mão direita, a casula dobrada sobre o braço esquerdo, estará você, que se preparou para este momento abandonando o mundo, abandonando seu estilo de vida e abandonando seus trajes exteriores para se tornar um filho adotivo da Igreja pela cerimônia da tonsura, para se aproximar do altar pelas quatro ordens menores, para alcançar o limiar do sacerdócio pelas ordens maiores do subdiaconato e do diaconato, para que, após muita oração, estudo e prática das virtudes, você esteja pronto para receber o maior dom que Deus pode dar a um homem: o sacerdócio sacramental, que não é nada mais que a participação no sacerdócio de Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

Ordem na hierarquia

O sacramento chama-se ordem porque insere o recipiente numa ordem, que é a hierarquia de ministros sagrados (subdiácono, diácono, padre, bispo). A ordenação ao diaconato e ao episcopado também fazem parte do sacramento da Ordem. Todas as três ordenações - ao diaconato, ao presbiterato e ao episcopado - imprimem um caráter na alma, que marca o ordenando de acordo com sua ordem.

 

Ordenado a Cristo

Receber a ordem significa ser ordenado (configurado) a Cristo como mediador entre Deus e o homem. Dizemos que o padre participa do sacerdócio de Jesus Cristo, que é o sacerdote do Novo Testamento. O padre, portanto, na pessoa de Cristo, oferece o Divino Sacrifício a Deus em nome do homem e atrai as graças celestiais para ordenar o homem e toda a sociedade a Deus.

 

Ordem no homem

O padre não é só um canal de Deus ao homem e do homem a Deus; ele se entrega a Deus juntamente com Cristo como vítima. Ele também se entrega ao homem, juntamente com Cristo, como mestre, governante e santificador. Em sua relação com o homem, seu propósito é trazer a humanidade de volta a Deus, tanto como indivíduos quanto coletivamente em sociedade. Por essa razão, também, nós podemos dizer que o sacramento da Ordem recebe justamente esse nome, porque seu propósito é colocar ordem no mundo - nos indivíduos, nas famílias, nas comunidades, nas nações, em toda a sociedade - para que elas possam chegar a Deus.

A ordem não é apenas uma ordem de ações (comportamento moral), mas também uma ordem do ser. Um homem ordenado a Deus no seu ser está incorporado ao Corpo Místico de Cristo pela graça santificante. Em resumo, o padre é aquele que trabalha para restaurar todas as coisas em Cristo (o lema papal de São Pio X: Instaurare omnia in Christo).

 

A necessidade da Ordem

No mundo contemporâneo, ao invés de se mover em direção a uma recapitulação em Cristo, a humanidade parece se distanciar de Deus com uma determinação demoníaca. A cultura da morte, da qual a cultura "woke" é a última subespécie, está em ascensão despótica em todo o mundo – até dentro da Igreja Católica. As maiores potências do mundo estão unidas na criação de uma "nova ordem mundial", que, na verdade, é apenas uma continuação da velha desordem da rebelião de Lúcifer contra Deus; e a única maneira de reverter esse movimento é através do sacramento da Ordem.

Precisamos de mais jovens dispostos a dizer "ad sum" O futuro eterno de muitas almas e da História do mundo depende disso. Apenas pense: um padre ordenado aos 26 anos e que viva até os 80, rezará mais de 20 mil Missas em sua vida, ouvirá, talvez, umas 30 mil confissões, dará a comunhão umas 500 mil vezes, batizará, talvez, 500 almas, casará uns 100 casais, catequizará centenas de crianças e adultos e enterrará umas 500 almas. Toda vocação, portanto, é um fato que muda o mundo.

 

A escolha é sua

"Ad sum" – primeiro no seu coração e, depois, diante do bispo no dia de sua ordenação – a escolha é sua. Não espere por um trovão damasceno, ou por algum sinal extraordinário; a vocação é escolha sua.

Se não houver obstáculos insuperáveis no seu caminho ao sacerdócio (como responsabilidades, ou dependentes, ou se você for muito notório), e se você tiver todos os requisitos morais e virtudes intelectuais, a única coisa que o impedirá de dizer " ad sum" é a sua vontade, porque a escolha é sua.

Você já me ouviu falar isso antes: a vocação não é totalmente objetiva (algo de que se possa ter uma certeza metafísica), nem é completamente subjetiva (algo para ser encontrada em sinais e sentimentos misteriosos); é sua escolha, baseada tanto na sua capacidade e na sua disposição de auto sacrifício a Deus e a tudo que Ele ama.

 

Sua coragem

Portanto, meu caro ________, pense nesse chamado a dizer "ad sum" ao bispo. Se isso lhe assustar, lembre-se que não se pode ser corajoso sem experimentar o medo; e sei o quanto você valoriza a virtude da fortaleza.

 

Minhas bênçãos,

In Jesu et Maria,

Pe. Robert Brucciani

Conferências sobre a santidade (II)

Nota da Permanência: O Padre Matéo proferiu estas conferências às superioras de diversas comunidades religiosas do Canadá, na província do Québec, em 1945. Embora endereçadas às almas consagradas, estas conferências são utilíssimas aos leigos, havendo estes tão-somente de fazer as devidas substituições, como “almas consagradas” por “almas batizadas”, “comunidade” por “família”, “vida religiosa” por “vida cristã” e assim por diante. 

 

Pe. Mateo Crawley-Boevey

 

O grande perigo da mediocridade

Não prego sobre o inferno, pois não é a minha missão; porém lhes darei uma conferência sobre a mediocridade. Certa vez me dizia um arcebispo após essa pregação: “Se o senhor me desse um tapa na cara, o efeito seria o mesmo! Ah, se soubesse como chorei!” O grande perigo, o único nos conventos, é a mediocridade, pois nos conventos existem poucos riscos: o mundo mundano só lhes afeta de leve, assim não se constitui em perigo imediato, mas no jardim do Senhor há um perigo enorme – a mediocridade, que é um mal horrível e terrível, porque é um mal de hipocrisia. Se fosse um escândalo, gritaríamos: “Cuidado!”, contudo a mediocridade não é escandalosa. Ela é semelhante ao diabético. Que está doente no diabético? Não é o coração, o estômago ou a cabeça, antes é um envenenamento do sangue, que começa a ser substituído por açúcar, sem provocar muita dor; ainda assim o corpo não está são mas doente. Essa é a forma de ação da mediocridade, que para as comunidades é pior que a lepra. Assemelha-se ela a pecados como a blasfêmia e a impureza? Não, pois não é o coração nem o estômago que estão doentes, e sim a alma inteira que está estragada, porque perdeu a noção de vida religiosa. Essa condição perdeu muitos religiosos e religiosas; é a peste do clero e das comunidades.

 

 

O minimismo

 

Em que consiste ele? Essa doença, que chamo de minimismo, consiste em barganhar com Deus: “Senhor, não me peçais isso. Que me estais pedindo, Senhor? O Senhor me pedis cem, mas só vos darei vinte, ficai contente! Onde já se viu, eu santa? Sou uma irmã muito boazinha, e isso já basta, Senhor”. Não afirmamos isso com a boca, mas com a própria vida, oferecendo tão-só o indispensável para que não sejamos ruins.

 

A vida religiosa é doação total, coração em troca de coração, vida em troca de vida; é amar a Deus loucamente, para que Ele seja amado e vocês se tornem santas. Já a mediocridade é exatamente o contrário: “Não tenho pretensões à santa; estou contente de ser uma mera irmã boazinha; e vós, Jesus, ficai satisfeito, pois é só isso!” Fizeste os três votos apenas para seres uma irmã boazinha vestida de freira? – diria Jesus. Senão, vejamos. Vocês, religiosas, são capazes de realizar um milagre? Não, porque não são santas; estão vestidas de rainha e, ainda assim, ousam comportarem-se como servas. Vivam como rainhas. Eu, que sou cego, digo: “Sejam santas”; e Ele, Jesus, que não é cego, lhes diz a mesma coisa. Não imitem aquela tola, religiosa só de nome, que confessava: “Tenho medo de lhe dar um dedo, pois poderá querer os cinco, e mais tarde os dez.” Que raciocínio! Elevem-se, custe o que custar, nos braços de Jesus. Estejam certas de que vocês foram escolhidas para avivar a faísca [do amor], a fim de elevarem-se a si e elevarem os outros.

 

Na mediocridade há dupla injustiça. Nosso Senhor me dá um milhão e, em lugar de capitalizá-lo, limito-me a esbanjá-lo. Assim põe-se a perder a glória de Deus e as almas! Vocês não são fervorosas, por isso [a oração] não surte efeitos para si nem para os outros; ninguém dá o que não tem. E que darão à comunidade? A comunidade está com fome e frio; se é assim, deem-lhe o coração de Teresinha. Se a superiora não ambiciona a santidade, falta aquecimento central; vocês só produzem faíscas, quando em verdade precisam ser fogo para atear fogo.

 

Que falta na vida cristã? Não são conferências, confrarias ou medalhas, antes são os Cura d’Ars que faltam, em 95% dos casos. Todos costumam dizer que fazem o possível e o impossível. Será verdade? Já são santas? Vocês poderiam sair deste retiro verdadeiras labaredas para si mesmas e as suas comunidades! Um carro não anda sem gasolina; a gasolina, que é a vida espiritual e o amor a Deus, está em falta; esse é o motivo da falta de santos.

 

No convento a superiora reclama de que nada vai para frente; mas existe lá alguma Santa Teresinha? Não? Então, o que está faltando é um santo. Tenham a confiança e o amor de Teresinha, pois este é o segredo da fecundidade e do apostolado.

 

 

Vivam como milionárias

 

Dizia certo padre agonizante: “Ah, morrer assim, morrer assim! – Qual o problema, se o senhor sempre agiu bem... Trinta e oito anos de sofrimentos e trabalhos pela glória de Deus. Fique em paz! Deus é tão bom! – Ah, é verdade, respondeu ele, padeci muitos, bastantes trabalhos, mas amei tão pouco a Nosso Senhor, estive tão longe de ser santo.”

 

Escutaram: “Amei tão pouco a Nosso Senhor”. Muito trabalho e pouco amor. Não é o muito trabalho que salva, mas o coração fervoroso de Teresinha. Teresa d’Ávila nem sempre percorreu o caminho que conduz ao alto; ela conheceu a mediocridade durante os anos de convento. Ah mediocridade maldita, que nos corta as asas! Deus lhes amou a ponto de provocar inveja aos anjos; Ele as apelida de “minhas prediletas”, o que nem os anjos mereceram ouvir, mas vocês ousam não corresponder à altura, amando-O de volta. Os anjos conhecem o catecismo, e se mordem de inveja santa do amor que Jesus dedica a vocês.

 

Se no rótulo da garrafa está gravado: “Mediocridade”, nele tratem de escrever em letras garrafais: horrível veneno. Substituamos o rótulo e então ponhamos: Ingratidão; isso mesmo, a mediocridade é uma in-gra-ti-dão. Vocês afirmam que são pobres, contudo estão dizendo besteira, tolices; vivem como mulherezinhas pobres, o que é bom, mas nada além disso. Na verdade, vocês são milionárias, por isso vivam como milionárias. As almas religiosas somos as que, na maioria dos casos, demonstramos a pior das ingratidões, porque não vivemos segundo o desejo do rei Jesus. Uma religiosa que se contenta com ser moça boazinha e não ambiciona elevar-se, é uma ingrata. Ah, se eu pudesse molhar a minha pena no sangue do Sacratíssimo Coração de Jesus! Lutem, lutem contra a doença da mediocridade. Que vocês pensariam de Santa Gertrude, Santa Matilde e Santa Teresa se elas tivessem sido apenas Boa Gertrude, Boa Matilde e Boa Teresa? Não seriam santas. Temam o pecado de ingratidão, pois ela é a lança que vocês retiram das mãos de Longino para ferir o Sacratíssimo Coração de Jesus.

 

Num monastério da Europa, a madre assistente ia morrer. Ela provinha duma família riquíssima; assim lhe enviaram dois médicos que a visitavam de duas a três vezes por dia. Certa noite, os médicos advertiram a comunidade: “A agonia virá em breve, ordenem que lhe deem a extrema-unção.” Às cinco horas despedem-se da doente, dizendo-lhe adeus, pois não passaria das dez. Às dez e meia a comunidade se recolheu, deixando duas companheiras para cuidar da doente. Por um instante, as enfermeiras improvisadas vão até à cozinha; quando retornam ao quarto, deparam-se com a doente aos soluços. Que aconteceu? Disse a doente, enfim: “Vi Jesus, o rei, ferido; disse-me ele: ‘Ingrata, ingrata! Deste-me apenas migalhas de amor. Ingratas como tu há aos montes; dirás que me viu, mas como não acreditariam em ti, pois falariam que tiveste um pesadelo, ou que foi a febre, bem, para provar a ti e a elas que sou Eu mesmo, vou curar-te.’”

 

Talvez o rei nos dissesse a mesma coisa: “Ingrata! Cansei de dar-te presentes, mas tu... que me deste?” Se em lugar desta imagem estivesse Nosso Senhor em pessoa e lhes falasse, quiçá lhes diria isto: “Ah, quantas ingratas! Vede as minhas chagas abertas: são elas o meu amor por vós; onde está o vosso amor por mim? Moças comportadas vestidas de freira existem por aí a mancheias, porém busco em vão aquelas que me amam.” Sim, faltam santos. Ninguém cai de súbito no pecado, pois a morte espiritual nunca é súbita; vamos escorregando, limitando a doação total, descendo cada vez mais, sempre ladeira abaixo. A mediocridade é um perigo enorme. Maldita mediocridade, que causa imensas devastações!

 

Uma santa superiora é um poço de Jacó sempre ressumante, é um cálice repleto e transbordante. Esta alma de oração e amor a Deus tem a oferecer mais que todos os predicadores. Uma superiora inteligente, desenvolta, ágil secretária, excelente administradora, boa financista e sem fervor – é uma névoa fria a encobrir a comunidade. A santidade da superiora é a luz e o calor das religiosas. Ela os encontrará no Sacratíssimo Coração de Jesus.

 

Precisamos realizar a conversão definitiva! O abandono da mediocridade talvez seja a conversão mais difícil. É mais fácil converter um maçom que um padre. Uma irmã que acha que nem todos podem ser santos é dificílima de converter. Costumamos dizer a Jesus para que veja as nossas obras e tenha piedade de nós. Mas só as obras? Jesus bem poderia responder: “Construíste palácios para as crianças e os doentes, mas eu ainda moro num estábulo como um pobre mendigo... para mim uma capelinha, para eles belos salões! Falta aos corações de minhas esposas e prediletas a santidade.”

 

Um retiro é capaz de mudar comunidades inteiras; um retiro de cinco dias significa cinqüenta anos de graças para as comunidades de vocês. Vivam uma vida nova, pois nem tudo nela é belo. A distância entre a mediocridade e a santidade é maior que entre a maldade e a mediocridade. É um erro gravíssimo da alma religiosa acreditar na licitude da mediocridade. Façam violência ao Sacratíssimo Coração de Jesus para que o Paráclito venha sobre vocês, a fim de que compreendam o que há de horrível na mediocridade.

 

 

Contrição sem angústia

Há de se fazer o retiro com paz e alegria. O jansenismo não é cristão: ele acha que somos crianças a quem se deve amedrontar; mas não é isso que Nosso Senhor nos apregoa. A angústia não é cristã, mas nos é lícita uma santa tristeza. A dor e a contrição, ainda que sejam culpadas, deem-se em espírito de alegria: Nosso Senhor não veio para sufocar ou esmagar as irmãs. A contrição e o arrependimento são maiores à medida que vocês estejam calmas e em paz. Quem se aproxima de Deus, aproxima-se do céu, e lá não existe angústia.

Se vocês conseguirem enxergar melhor e perceberem que nem sempre cumpriram o dever, encontrarão repouso no arrependimento sincero, e paz na humilhação que as faltas ocasionam. A inquietação cheira a enxofre e a diabo: Deus nunca inquieta, mas revela o que é preciso para a boa condução da alma. O arrependimento verdadeiro é a descoberta de repouso no coração. A Igreja condenou o jansenismo; prefiro um protestante a um jansenista...

Páscoa

Gustavo Corção

 

No torvelinho das horas e dos dias convém considerar, vez por outra, os marcos imóveis, os sinais da eternidade. Vale a pena parar a carreira dos sucessos e, com voz da poesia, perguntas às árvores espantadas, às pedras retraídas, às casas que ficam para trás com portões de ferrugem e janelas estremunhadas, se porventura entendem a avidez que nos impele, que nos compele a perseguir um bem que logo perde o sabor quando alcançado; se entendem essa fome que se muda em fastio ou náusea à medida que morde o momento que passa e que continua a ser insaciável para os sonhos de fumaça impossível. A árvore permanece, posto que aos ventos ofereça uma mobilidade cantante e dançante; a pedra permanece; o velho portão, malgrado a ferrugem, permanece. São essências tranquilas e bem ritmadas. A seu modo humilde imitam e refletem o imutável. Sendo o que são, com simplicidade robusta, trazem a marca daquele que é o que é. Nós, ao contrário, vivemos a fugir do que somos. Essência mais alta, feita à imagem e semelhança de Deus, fugimos de Deus quando buscamos o absoluto impossível no torvelinho das coisas. Nós, que deveríamos ser mais imóveis que as árvores, as casas e as pedras, para melhor contemplarmos as realidades que resistem aos ventos e à ferrugem, nós vivemos a correr, a fugir do que temos, a buscar o que nunca teremos e, sobretudo, a assistir à rápida decomposição dos amores conseguidos. Marta, Marta, de muitas coisas te ocupas, mas uma só é necessária... Vale, pois, a pena parar a dança das horas e considerar os marcos de eternidade.

E essa sabatina de contemplação e de imobilidade que a Igreja nos propõe agora no Domingo da Ressurreição. Amanhã e depois os cuidados voltarão a empunhar as manivelas da engrenagem: hoje estamos diante da pedra de Pedro, da Casa de Deus, da árvore do Crucificado. Amanhã e depois voltaremos à lida de nossa peregrinação, aos problemas do tempo, ao petróleo de Nova Olinda, aos candidatos à presidência e à vice-presidência, aos livros escritos sobre Machado de Assis, a tudo isso que será apenas vaidade das vaidades e perseguição do vento se não soubermos trazer para esses problemas dispersos o critério fundamental que os transfigura em caminhos de Deus.

Hoje é dia de Páscoa, dia em que a Igreja, com sinais moldados nas coisas peregrinas, e com o memorial da Ressurreição testemunhada pelos Apóstolos, compõe o quadro da vitória de Cristo, e nos deixa entrever o país de maravilhas que se estende pelo outro lado do espelho — o país da divina Esperança. A obra de Cristo, espécie de usinagem operada sobre a dor e a morte e, por conseguinte sobre o que constitui o máximo espanto do mundo, abre-se agora num estuário de glória. Assistimos durante a semana, à representação do drama onde se vê passar um Deus apaixonado. O Homem das Dores de Isaías é o mesmo do Cântico dos Cânticos. É o mesmo coração vulnerado. Mas agora o círio pascal está aceso para dar o tom à nossa vida como um diapasão de luz. São Bento ensina que a vida do monge deveria ser uma contínua quaresma. A nossa também. E a quaresma deveria ser paixão; e a paixão deveria ser morte; e a morte deveria ser páscoa. A transmutação que Deus espera de nós é uma transfiguração que vá deixando o que menos somos em favor do que verdadeiramente somos por natureza e do que somos chamados a ser pelos favores da graça. De claridade em claridade, se formos dóceis, iremos caminhando, por atalhos de dores, para o país do amor perfeito que tem bandeira de fogo em mastro de cera.

Parece-vos ingênuo — ó leitores tristes — o quadro da Sião gloriosa que a Igreja põe hoje diante de vossos olhos? Parece-vos estampa infantil a santa liturgia? Ou quem sabe até se tudo isso não vos sabe a costumes obsoletos, a cerimoniais que os etnólogos explicam, a ritos que as ciências do século superaram? Por vós, e por mim, receio que a simplicidade do quadro seja chocante e não consiga atravessar a sebe de nossas complicações. Nós somos complicados; Deus é simples. Nós somos adultos, envelhecidos; Deus é mais moço do que nós. Nós somos espertos, sinuosos, ardilosos; Deus escolheu para Si as figuras do cordeiro e da pomba. Diz-nos a fé que ali, na outra margem do Mar Vermelho, onde brilha o círio da vitória, os desenganos e as tribulações terão desenlaces de prodígio; que receberemos, em medidas de alqueires calcados, recalcados e transbordantes, o que não tivemos a audácia de pedir; que serão consertadas as contradições de nossos tristes amores; que a lágrima vira joia; que a chaga vira flor. Diz-nos a fé que naquele país de maravilhas, que se estende lá do outro lado do espelho, teremos paz.

Parece-vos ingênua — ó homens tristes! — a linguagem da fé? Parece-vos insípida a comida da esperança? E quem pergunta poderá se gabar de melhor sentir e de melhor servir? Não é a descrença que mais espanta. A descrença, se me permitem os apologistas, tem certa lógica na sua retração, no seu encolhimento, no seu propósito de não levar longe demais as investigações que terminariam em incêndio. A descrença, sob esse especial ponto de vista, é mais razoável, mais compreensível do que a crença imperfeita que se detém, que se encolhe, que se retrai quando nela, na fé, tudo pede expansão e consequência. Não nos espantemos, pois, da cegueira dos descrentes porque muito mais espantosa é a meia cegueira de nossa inconsequência. Talvez fosse melhor mudar de tom. A segurança da fé e a certeza da esperança seriam mais edificantes do que os titubeios da perplexidade. Talvez fosse melhor, nessa máxima festa, procurar pífaros e cítaras para cantar o júbilo de alma cristã no dia da Páscoa do Senhor, em vez de permitir ao velho coração um gemido de cansaço... Deus há de permitir que essa tristeza se converta em alegria e que a alguém aproveite o que a nós nos pesa. É privilégio seu: é ofício de seu Filho transformar a dor em salvação e a morte em vida.

 

(Diário de Notícias, 10/04/1955)

O dever dos fiéis para a restauração do Reino Social de Jesus Cristo

Pe. Theotime de S. Just

 

O primeiro dever dos fiéis para ajudar a restauração social católica é, sobretudo, fazer reinar Jesus Cristo em suas mentes por meio da instrução religiosa.

“A única esperança de nossa regeneração social”, diz o Cardeal Pie, “repousa no estudo da religião... o primeiro passo de volta para a paz e a felicidade será “o retorno à ciência do catolicismo.” 1

O cardeal insiste neste ponto que lhe parece essencial porque, aos seus olhos, o renascimento social católico da França está intimamente ligado ao renascimento catequético. Em quatro sermões pregados na catedral de Chartres, explicou longamente aos fiéis a importância do estudo da religião e lhes indicou o método a ser empregado neste estudo.2

Estes sermões do jovem vigário da catedral de Chartres, dados em 1840, são de uma atualidade marcante, e não conhecemos nada de mais claro e persuasivo. Ao relê-los, todos os fiéis serão fortemente encorajados a dar à instrução religiosa o primeiro lugar em suas vidas.

Como não ser tocado por palavras tão verdadeiras e fortes?

"Afastar o espírito da verdade e se tornar indiferente a ela, é precisamente o crime que Deus castigará com maior severidade e justiça... É evidente que a mera ignorância voluntária da religião é, em si mesmo, um crime digno de morte, porque contém desprezo por Deus e o desejo de "escapar de sua mão todo-poderosa.’’ 3

Essa sólida instrução religiosa exigida dos fiéis deve ser para eles o alimento de uma fé integral e completa e, para o Cardeal Pie, a fé completa, a única e verdadeira fé,  é aquela que não apenas afirma a Divindade e a Humanidade de Jesus Cristo, mas também proclama a sua Realeza Social.

Ouçamo-lo comentar uma passagem de S. Gregório aos fiéis, e respondendo assim aos católicos dos nossos dias, imbuídos de falsas ideias modernas.

“Irmãos, vós me dizeis que vossa consciência está tranquila. Ao mesmo tempo em que aderis ao programa do catolicismo liberal, pretendeis permanecer ortodoxos, uma vez que acreditais firmemente na divindade e na humanidade de Jesus Cristo, o que é suficiente para que vosso cristianismo seja inatacável. Pensai de novo. Desde o tempo de São Gregório havia hereges, nonnulli haeretici acreditavam nessas duas verdades, como vós, e sua "heresia" consistia em não querer reconhecer uma realeza estendendo-se a tudo para esse Deus feito homem: sed hunc ubique regnare nequaquam credunt.

“Não, não sois irrepreensíveis em vossa fé; e o Papa São Gregório, mais enérgico que o Syllabus, acusa-vos de heresia se sois daqueles que, tendo como dever oferecer o incenso a Jesus, não querem lhe oferecer também o ouro; 4 em outras palavras, se não quiserdes reconhecer e proclamar a sua realeza social.”

Assim, se querem ter um “catolicismo inatacável” e permanecerem “irrepreensíveis em sua fé”, se querem ser contados entre os fiéis e não entre os heréticos, os católicos devem crer firmemente que Jesus Cristo deve reinar sobre as instituições sociais, penetrando-as com seu espírito e tornando sua legislação consistente com as leis de seu Evangelho e de sua Igreja.

*

Esta fé na realeza social de Cristo deve, antes de tudo, vivificar a família católica, submetendo-a perfeitamente ao Divino Rei. O Cardeal Pie, Doutor do Reinado Social, mostrou como Nosso Senhor quer reinar sobre os lares cristãos. Ele fez isso em 1854, na carta sinodal dos Padres do Concílio de Rochelle, inserida em suas obras. Citemos as principais passagens. É uma magnífica pintura da família católica:

“Na linguagem de São Paulo, cada casa é um santuário. Que ali encontremos a Cruz de Jesus Cristo, que é o sinal de toda família católica, e que a imagem de Maria, a Mãe de Deus e nossa mãe, seja inseparável do crucifixo! Que a água benta e o ramo bento protejam a morada contra as ciladas do inimigo; que a vela da Candelária seja ali mantida para ser acesa nos instantes de perigo, bem como na hora da agonia e da morte. Ah! nossos pais possuíam o segredo dessa vida plenamente católica, na qual a religião tinha seu lugar marcado em todas as coisas. A refeição era santificada pela bênção que o chefe da família recitava. Três vezes por dia, quando o bronze sagrado ressoava no alto do campanário paroquial, cada um suspendia a sua tarefa e invocava com amor a Virgem que deu ao mundo o Verbo feito carne. No limite da propriedade havia uma cruz, que o trabalhador saudava piedosamente ao passar. Ainda se encontravam momentos durante o dia para se rezar o rosário, ler algumas páginas de um livro de família com os principais fatos dos dois Testamentos e as mais belas páginas da vida dos santos.5A mãe de família não julgava ter cumprido todos os seus deveres religiosos antes de ter explicado aos seus filhos e empregados algum artigo da doutrina cristã. Se o toque fúnebre anunciava alguma morte, todos os irmãos em Cristo do falecido apressavam-se a conceder-lhe os benefícios de seus sufrágios; e o culto dos mortos, hoje tão negligenciado, propagava-se por vários testemunhos e práticas que jamais recordaríamos com demasiada. Finalmente, quando o último raio do dia reconduzia família dispersa ao redor da lareira, como era tocante ver velhos e crianças, patrões e criados ajoelhados diante das santas imagens, confundindo na mesma oração as suas vozes e o seu amor!

“Esses costumes piedosos atraíam à terra as bênçãos do céu; enobreciam o lar, santificavam-no, e projetavam na sociedade algo de sério, algo de digno, algo que, juntamente com a unidade dos dogmas da fé, mantinha a inocência nas almas e a união das vontades. Que nós possamos reviver esses comoventes hábitos dos tempos católicos”

Uma vida familiar tão bela não saberá se manter por muito tempo sob o cetro do Rei Jesus se a educação das crianças não for profundamente cristã. Nós não podemos resumir aqui todos os ensinamentos do Cardeal Pie sobre esse assunto. Assinalemos ao menos a insistência com que recorda aos pais que não podem enviar os seus filhos para escolas ateístas ou ainda simplesmente indiferentes. Ouçamo-lo, fazendo suas as palavras de São João Crisóstomo:

“O crime dos pais que mandam os filhos para tais escolas é mais atroz do que o infanticídio, patres parricidis ipsis crudeliores. Seria menos cruel pegar a espada e cravá-la no peito dessa vítima inocente. O crime do pai não tornaria a criança culpada, apenas separaria a sua alma de seu corpo; ao passo que, entregando no presente o corpo e a alma da criança ao inferno, ela carregará o inferno consigo por toda a vida para depois ser precipitada no fogo eterno.”

Este texto refere-se à escola abertamente má. Mas a escola neutra ou indiferente é referida diretamente na passagem seguinte:

“Mandar os filhos para um lar onde a religião de nada vale é um pensamento que faz estremecer, e é esse, segundo São João Crisóstomo, o crime de muitos pais. Se os informássemos que a peste está na cidade onde residem seus filhos, eles não encontrariam palavras para nos agradecer. Mas quando uma praga mil vezes mais terrível penetrou em toda a parte, o nosso conselho é acusado de indiscrição, isso se não formos arrolados entre os inimigos da paz pública.”6

Se os pais souberem impor-se sacrifícios para afastar seus filhos da educação sem Deus, Jesus Cristo será verdadeira e para sempre o Rei das famílias.

*

A fé na Realeza social de Cristo se irradiará para fora da família pela prática pública da religião cristã. Isto é, ao se demonstrar a todos que Cristo deve dirigir os atos públicos do católico, bem como os seus atos individuais e domésticos.

A religião católica é uma religião pública e os fiéis são obrigados a praticá-la abertamente. O Cardeal Pie percebeu que este carácter público da religião era justamente o caminho normal para o reinado social de Jesus Cristo, e recordou instantemente aos fiéis a necessidade do culto público e do que ele impõe.

Possuímos três sermões dele sobre a santificação do domingo, os quais mais tarde foram desenvolvidos e se tornaram duas magníficas instruções pastorais sobre o preceito dominical, que ele chamava de a obra-prima da legislação social.

Temos várias instruções suas sobre a missa, o sacrifício público da religião católica.

Sobre a liturgia, que é o conjunto do culto público, encontramos nas obras do Bispo de Poitiers uma série de instruções que formariam um volume precioso em si mesmo. Ele tampouco se esqueceu de tratar da observância da lei quadragesimal que, para a felicidade dos povos, tinha anteriormente um carácter eminentemente social. Outra manifestação pública de fé, a peregrinação, foi estudada por ele cuidadosamente.

Esta rápida enumeração das práticas externas e públicas da religião mostra-nos o quanto o grande bispo queria que os fiéis estivessem conscientes da sua importância e do seu elevado significado social.

Finalmente, numa magnífica instrução pastoral sobre a obrigação de confessar publicamente a fé católica, o Cardeal Pie mostra que os fiéis não apenas devem associar-se ostensivamente ao culto, mas também agir como católicos em toda a sua conduta pública.

Depois de ter estabelecido pela Escritura a necessidade rigorosa de não se envergonhar de Jesus Cristo diante dos homens, depois de ter recordado sem ambiguidade, com São João, que os "timoratos" que não ousarem confessar a sua fé terão o mesmo destino dos que não creem, e que a parte a que terão direito será o lago de fogo. «Timidis autem et incredulis, pars illorum erit in stagna ardenti» (Ap 21 ,8), o Cardeal Pie refuta a objeção que a covardia, infelizmente, coloca hoje em dia nos lábios de quase toda a gente. Aqui está:

“O ambiente em que tenho de viver não é católico, diz o timorato; agir como católico chamaria a atenção e contrastaria com os demais, poderia até suscitar sarcasmo e blasfêmias. É necessário curvar-se às exigências dos tempos e às necessidades das posições.

“Então, caros fiéis”, responde o bispo, "uma vez que Jesus Cristo é desconhecido por muitos dos vossos contemporâneos vos julgais no direito de o ignorardes? Porque um sopro maligno e irreligioso passou sobre a geração atual reivindicais o direito de participar do contágio?

“Oras! A infidelidade geral que invocais como desculpa é uma circunstância que antes agrava do que atenua a vossa culpa. Perante a apostasia de muitos, sois obrigados a declarar mais fortemente a vossa fé, tornando-vos assim um exemplo e um protesto. Não ouvistes a solene afirmação do Salvador? “No meio desta geração adúltera e pecadora, quem se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos.”

“Caros fiéis, tornar-vos-eis vis diante de vossos próprios olhos, perdereis o direito à própria estima se tiverdes a covardia de não conhecer um amigo no dia da sua desgraça; e porque o Senhor do céu e da terra, o Senhor da vossa alma e do vosso batismo, tornou-se impopular, porque vós arriscais partilhar com ele o desfavor de uma geração rebaixada e merecedora de desprezo, julgais-vos livres de vossos deveres para com Ele! Não, não, é a lei mesma da ordem e da justiça que o exige: seremos tratamos por Jesus Cristo como nós mesmos o tivermos tratado. Se nós lhe formos fiéis, reinaremos com Ele; mas se nós o renegarmos, seremos renegados...

“Honra a vós, católicos, que sois coerentes com vós mesmos; honra a vós que credes e que não vos envergonhais da vossa crença. Aquele que vós confessais perante os homens, sem ostentação nem jactância, mas também sem respeito humano e falsa vergonha, vos confessará diante de seu Pai e diante dos anjos.”

Iluminado e confortado por tais palavras, que pessoa fiel, desprezando o respeito humano, não trabalhará com todas as suas forças pela prática pública do catolicismo para o reinado social de Cristo?

*

O grande meio, portanto, para promover esse reino é a oração, que vivifica a ação e obtém do céu o sucesso que nossos esforços sozinhos não podem obter.

O Cardeal Pie nos mostrou nos três primeiros pedidos do Pater: “santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu”, a oração por excelência para o advento do Reino social aqui embaixo.

Ele quer que os fiéis compreendam o pleno significado dessa oração e saibam que o reino de que se fala não é apenas o céu, mas também o reino social de Cristo na terra. Eles devem, portanto, ao recitá-lo, desejar esse reino e orar com confiança ao Pai celestial para conceder ao mundo esse benefício inestimável.

Ouçamos o Bispo de Poitiers recomendar a oração pelo reino. É a uma freira que ele se dirige e, por meio dela, a todos os fiéis que amam Nosso Senhor:

“A vida espiritual não avança entre aqueles que estão no comando dos negócios, sejam homens de poder ou homens do futuro. Deus não é colocado em seu lugar por ninguém. Infelizmente! Aprenderemos às nossas custas que não se dispensa o Ser Necessário impunemente. O mundo perdoa-lhe a sua existência, desde que esteja disposto a deixar os seus negócios transcorrerem sem Ele, e este mundo não é apenas o mundo sem Deus, mas um certo mundo político cristão. Quanto à nós, esforcemo-nos a melhor sentir, a melhor salientar os três primeiros pedidos do Pai Nosso. Enquanto o mundo atual durar, não consintamos em relegar o reino de Deus ao céu, ou mesmo ao interior das almas: sicut in caelo et in terra? O abandono terreno de Deus é um crime: nunca nos resignemos a ele!”

“E como o destronamento de seu representante visível está intimamente ligado a ele, rezemos sem cessar para que a grande iniquidade consumada em Roma possa chegar ao fim. Então, como a libertação de Roma só pode vir através da França, coloquemos nosso patriotismo nacional mais do que nunca, mas acima de tudo coloquemos todo o ardor do nosso amor a Deus e à sua Igreja para trabalhar pela recuperação da França através de nossas orações e nossos sofrimentos!”

Que os fiéis não se cansem de rezar pela vinda do Reino e que a sua oração, nos nossos dias de apostasia nacional, seja mais fervorosa e mais confiante do que nunca! Esta é a palavra de ordem do Cardeal Pie.

Aprender toda a religião e praticá-la em família e publicamente, crer na Realeza social de Jesus Cristo e rezar para que ela aconteça, tal é o dever dos fiéis.

(La Royauté de N.-S. Jésus-Christ d´après le Cardinal Pie, parte III, cap. 1 - Tradução: Witor Lira)

  1. 1. Œuvres sacerdotales, 1, 137
  2. 2. Ibid., I, 98-189.
  3. 3. Œuvres sacerdotales, I, 133-134.
  4. 4. Homélie sur l'étendue universelle de la Royauté de Jésus-Christ, 1874
  5. 5. Um resumo das Sagradas Escrituras e da vida dos Santos: dois livros indispensáveis. Outros livros não estão excluídos, mas o bispo de Poitiers quer que a biblioteca da família esteja composta unicamente de bons livros. Ele fazia sua as recomendações precisas de um bispo seu amigo: “Perscrutai ai as vossas bibliotecas e as vossas casas, como se perscruta uma floresta ou um lugar onde se supõe a presença de um assassino ou de um ladrão, e declarai guerra de morte aos maus livros”. Quanto aos periódicos, adverte ao pai de família que supervisione o que entra na sua casa. Desse jornal ou periódico depende a vida ou a morte da família. Não se compre jornais ruins ou neutros, mas apenas os bons e inteira e francamente católicos.” – Falando de leitura, devemos assinalar a importância que o bispo de Poitiers dava à questão da imprensa. “Ainda que o povo todo se reunisse para o sermão, o povo mais religioso do mundo que lesse periódicos maus, se tornaria, após trinta anos, uma nação de ímpios e de revoltados. Humanamente falando, não há pregação que segure uma imprensa má” Cardeal Pie, citado por E. Auguer no Vade-mecum du Conférencier. 419
  6. 6. A escola abertamente má é comparada a um gládio que mata, a escola neutra a um veneno que, lentamente, conduz à morte. Não há nenhum exagero nessa doutrina de São João Crisóstomo recordada pelo Cardeal Pie. É a doutrina da Igreja que sempre condenou a escola neutra. Ler a esse respeito a Encíclica Nobilissima gallorum gens de Leão XIII. Lá se lê: “Sempre scholas quas appelant mixtas vel neutras aperte damnavit Ecclesia”.

Conferências sobre a Santidade (I)

Pe. Matéo Crawley-Boevey

 

Nota da Permanência: O Padre Matéo proferiu estas conferências às superioras de diversas comunidades religiosas do Canadá, na província do Québec, em 1945. Embora endereçadas às almas consagradas, estas conferências são utilíssimas aos leigos, havendo estes tão-somente de fazer as devidas substituições, como “almas consagradas” por “almas batizadas”, “comunidade” por “família”, “vida religiosa” por “vida cristã” e assim por diante. 

 

Inclinar-se à santidade

Como vocês são religiosas, falemos sobre a vida religiosa; comecemos pelo começo. A vida religiosa é uma pedra angular. O padre não é um homem como outro qualquer, mas é um super-homem, um homem divinizado. Uma religiosa como vocês não é uma dama fina e inteligente, de forma nenhuma, mas sim uma pessoa consagrada a Deus; vocês são esposas e rainhas do rei Jesus, não servas, e muito menos escravas. Bem sei que vocês são insignificantes grãos de areia, mas Jesus as escolheu, de modo que a consagração é um casamento, não porque vocês o tenham pretendido, mas porque Jesus o quis assim. Essa união com Jesus é um casamento divino.

Certa feita uma religiosa ensinava a uma princesa a quem teve de repreender; a princesinha, irritada, recusava-se a obedecer e encolerizada disse: “Esqueceu-se de que sou filha do rei de França?”, ao que a religiosa respondeu: “Esqueceu-se de que sou esposa do rei dos reis, diante de quem o seu paizinho se ajoelha?”

A quem muito foi dado, muito será cobrado: o milionário não será cobrado como o servo. Vocês não serão julgadas como escravas mas prediletas. Cobrará o rei: “Recebeste tesouros, por isso vem prestar contas do diadema e do manto real.” Essa frase lhes deve provocar calafrios. A principal glória da vida religiosa é a de que vocês são as minhas prediletas, lhes diz Jesus, minhas pombas e filhinhas do coração. Quando morrerem, Jesus não perguntará se vocês instruíam cinqüenta alunas ou administravam um grande hospital, mas: “Amaste-me tu como uma rainha? Agiste como minha predileta?” Ele não dirá: “Vê as minhas mãos e os meus pés, que os impuros, os maus e os ímpios machucaram”; não, o primeiro sofrimento lhe virá das almas consagradas! “Tu me juraste que serias santa: que fizeste do juramento?”

Não pensamos o suficiente nessa queixa de Nosso Senhor em Paray-le-Monial. Normalmente se reclama de que as obras não vão para frente, de que há algo de errado com as irmãs, mas Nosso Senhor bem que poderia perguntar: “Recordas-te da tua profissão? Prometeste ser santa e, depois de quarenta anos, ainda não és.” Profissão significa convento e religião; por que entrei no convento? Vocês afirmam: “Para salvar a minha alma ou salvar almas.” Salvar a minha alma? Quem lhes disse que os três votos são necessários para ir ao céu? Então, papai e mãe vão ao inferno, pois eles não fizeram os três votos! O batismo, a penitência e a comunhão são suficientes para que papai e mamãe se salvem, bem como milhares de cristãos pelo mundo. Mas vocês insistem: “Vim para salvar as almas.” Pois bem! Salvar almas é conseqüência, pois as salvarão à medida de sua santidade.

Vocês entraram no convento para se tornarem santas: eis o princípio e o cerne da vida religiosa. Vocês são religiosas para que sejam santas e mais nada, o resto já está contido nisto. Ninguém está aqui para se instruir ou curar as feridas, mas para se transformar em santo; o único ideal da vida religiosa é amar como amaram os santos, ou seja, ser um santo com S maiúsculo a todo o custo. A pobreza, a castidade e a obediência são os três votos que me ajudarão; diariamente, com a graça de Deus, subirei, subirei e me tornarei santa. Se alguém já lhes disse isso, bem-aventuradas são; se esta é a primeira vez, mãos à obra. Ninguém está aqui para brincar de teatro, música, literatura e quejandos, mas para ser santa. Esta é a instrução que vocês devem transmitir às noviças. Não se tornar uma pessoa má não é um ideal, mas é o mínimo; se a mulher é religiosa apenas para evitar o pecado, está perdendo tempo.

 

“Senhor, dai-nos a vitória”

Quando visitei o papa, ele me perguntou: “Padre, que mais o inquietou nas suas palestras pelo mundo?” Fiquei hesitante. “– Fale, fale. – A falta de santos, a falta de santos.” Só o céu canoniza, só ele o rei que sabe de tudo; mas onde estão os seus santos canonizados? Agora chegou o momento: abandonem tudo o mais e se tornem santas!

Vou citar-lhes um episódio ocorrido durante a 1ª Guerra Mundial [1914-1918]: uma boa irmã, mas não santa, que tinha dois irmãos de sangue oficiais, repetia sempre entre gemidos: “Senhor, dai-nos a vitória! Nossa vitória, Senhor!” Certo dia escutou ela uma voz que saia do tabernáculo: “De que vitória falas? – Da vitória das nossas forças armadas. – Deixa isso comigo, disse Jesus; eu sou o Mestre, por isso suplique antes a minha vitória. – Que vitória, Senhor? – Quê? Tu, que és religiosa, não sabes qual é a minha vitória? A minha vitória é que tu sejas uma santa, pois boas irmãs como tu tenho para dar e vender.”

Como os santos nos fazem falta, o mundo definha porque estão faltando santos!

O primeiro dever da religiosa é santificar-se e oferecer ao próximo algo da própria fartura santificando-o. Não sejam modernistas: é errado aceitar moças para enfermeiras ou instrutoras. Necessitamos de noviças, assim se constitui erro grave a falta de rigor na escolha delas. A melhor religiosa, essa será a melhor instrutora e enfermeira; o resto vem em acréscimo. Perguntar-se-ão as religiosas: “Nós, santas? Não passamos de um fardo de misérias.” Pobre Jesus! Quando ele as escolheu, não sabia que eram miseráveis? Estava ele cego, sonolento, com a vista embaçada? Jesus não dorme, pois ele é justiça e sabedoria; Jesus as enxergou tais quais eram, sabia o que eram e, porque nunca se engana, as escolheu, para que se tornassem santas.

Acompanhando o chamado vêm as graças de estado; se a moça a quem chamei não consegue aumentar o resplendor das estrelas, eu, Jesus, que sou o guia dela, consigo. Ele nos concedeu milhares de graças para que sejamos santos! Quantos grandes santos receberam menos que nós! Nasceram com três centavos e morreram milionários; foram generosos e se tornaram sóis gloriosos. Talvez São Francisco de Assis e Santa Margarida Maria tenham sido menos favorecidos que nós, porém foram fidelíssimos ao capitalizar os dons de Deus! Sejam exigentes com as meninas que acolherem; quiçá percam umas cinco ou dez, mas seriam cinco ou dez noviças em demasia. Uma moça de dezenove anos costumava travar relações com religiosas não santas; convidaram-na a ingressar ao convento, contudo ela respondeu: “Ser religiosa é só isso? Vou ficar com a minha família.” Por vezes é assim que as boas almas se afastam.

 

A graça, a generosidade e a educação

Antes de tudo, é a graça que faz os santos. Jesus não pede mais do que podemos dar; mas se ele nos pede nos dá. Dá dez vezes mais que o necessário. O purgatório ficará cheio até a boca com almas que viveram vinte, trinta, quarenta anos no convento sem saber que a graça de Deus as ajudava e sem haver feito frutificá-la. Vocês são capazes de serem muito maiores que a singela Teresinha, apesar de serem apenas singelas cristãs. A santidade se baseia em graças superabundantes. Ninguém exige que uma pedrinha voe, mas com a graça de Deus é possível.

A santidade se baseia em generosidade: elevemo-nos cada vez mais, não fiquemos parados, nunca. Criemos asas, quais pássaros, que começam a voar aos poucos, e nos elevemos sempre. Teresinha, que se alçou tão alto em apenas vinte e quatro anos, dá-nos uma lição. Que fez ela? Escutem: “Nunca recusei nada ao bom Deus, desde a idade de quatro anos.” Talvez ela tenha recebido um capital menor que o de vocês e o meu, mas ela aumentou esse capital. Se vocês têm remorsos de haverem recusado muitas coisas do bom Deus, bem, a partir deste retiro vocês já não recusarão nada, progredindo no caminho de Teresinha: doação total, coração em troca de coração. Não ingressamos nas ordens apenas para que não sejamos impuros ou maus, porque, passado bastante tempo, conseguimos renunciar o pecado; de fato, renunciamos coisas excelentes: o casamento, a vida de família; mas nós nos limitamos, e porque nos limitamos, limitando a doação total, não somos totalmente de Jesus, e só dele.

A santidade se baseia na educação religiosa. Para que se formem os jovens nessa doação total, força é lembrarem-se dos santos: é essa a sua responsabilidade. Uma barra de ouro tem de ser purificada e cinzelada, a fim de que se transforme em cálice. O esforço e a labuta da boa vontade, diariamente, é o que faz os santos. Vocês precisam amar o esforço e torná-lo amável.

Um de nossos padres, provincial durante alguns anos – e morto em odor de santidade, envolto numa atmosfera de humildade e paz –, fora um moço altivo e orgulhoso, cheio de defeitos. Aos pouquinhos se transformou em santo, pelo esforço cotidiano. Aquele moço colérico, que tinha enormes defeitos e qualidades enormes, ao fim da vida se tornara um repositório de bondade e tranqüilidade, amado por todos e lamentado com soluços pelos religiosos que lhe assistiram à partida para o céu.

Sim, a santidade se baseia na educação também. Não basta ser uma boa irmã e contentar-se com isso, mas tentar imitar Teresinha. Eu lhes imploro, em nome do Sacratíssimo Coração de Jesus, para que vocês se tornem santas, pois é este o seu único dever, e só este.

Se vocês confiam mais na menina que tem vocação para boa mestra do que para boa religiosa, expiarão tal erro.

Vivemos aos trancos e barrancos, por isso desejaríamos sempre diminuir as exigências da religião, deixar a vida correr frouxa. Que pena! Há cem anos éramos mais religiosos. Que fazem vocês, se não trabalham na santidade? Deste modo se perde a glória de Deus, a de vocês e a das almas. Os padres devem ser o Cristo da paróquia, e também vocês devem ser um pouco como ele, sendo assim muito mais religiosas. Convençam-se em ser religiosas acima de tudo, e ainda assim considerem que talvez não estejam entre as primeiras almas da paróquia. É impossível Jesus reinar contra mim e vocês, pois vocês e suas comunidades são a guarda real do rei; portanto, despertem a luz e o calor nos corações e nas comunidades... Jesus não nos exige milagres, senão o milagre do amor, que é a ambição de ser santo custe o que custar. Quem salvará o nosso país? Não serão os políticos mas os santos. Um Cura d’Ars é mais glorioso para a França que mil Napoleões.

Realizaram vocês os esforços amorosos que lhes espera o rei, a exemplo de Teresinha ou Bernadete? Nem todos podem ser artistas, mas podem ser santos. Se não há santos nos conventos, onde encontrá-los? Se não há água nas fontes, onde bebê-la? Se não há flores nos jardins, onde colhê-las? Se não há árvores das florestas, onde buscá-las? Se não há estrelas no firmamento, onde fitá-las? A fonte é o convento, o jardim é o convento, a floresta é o convento, e o céu é o convento. Catarina Tekakwitha se elevou bastante; ela era uma pequena iroquesa; quiçá ela será considerada santa antes de vocês, mesmo sendo uma selvagenzinha! Se Deus quiser, tomara que ela as ultrapasse; Catarina não era religiosa, mas um passarinho da floresta. Já vocês são estrelas do firmamento. De direito, a santidade é sua; de fato, é dela.

Deus lhes está chamando, assim tratem de se elevar com asas de águia, pois Jesus, o rei, quer o milagre de sua santificação. O único objetivo de vocês serem religiosas é a glória de Deus. Urge que todas e cada uma sejam santas, e eduquem as suas filhas, pois ninguém dá o que não tem: sejam santas para transmitir a santidade.

 

“A missa na intenção de vocês é a minha grande pregação”

A doutrina do Sacratíssimo Coração de Jesus é uma teologia inteira por si só; reparem bem: o amor do Cristo é o dogma, o meu amor é a moral. Essa teologia se resume em três cenas: a manjedoura, a cruz e o altar. O quadro da missa que está neste local é obra de um padre belga; ele suprimiu os pormenores que distrairiam o fiel da missa: não há flores nem anjos, mas somente o sacrifício.

Suplico-lhes a esmola de uma oração ou de uma via crucis em favor das almas pecadoras dos consagrados, que precisam de luz imensa para retornarem a Deus; depois, durante o retiro, o Rosário da Santíssima Virgem. Celebro a missa durante a comunhão para ajudá-las a dar graças a Nosso Senhor. A missa na intenção de vocês é a minha grande pregação; só aí espero fazer alguma coisa pelas suas comunidades. Aqui, uso a minha língua; mas a melhor pregação é a do Senhor na missa. Essa pregação cala mais e melhor nos corações, pois quem lhas dá é o Sacratíssimo Coração de Jesus. Supliquem ao Sacratíssimo Coração de Jesus para que lhes deem luzes.

(Tradução: Permanência / Revista Permanência 274)

Como fazer com que as crianças amem a Santíssima Virgem?

Irmãs da Fraternidade Sacerdotal São Pio X

 

«Ó Mamãe, não posso dizer o quanto eu te amo!» Que mãe não se emocionaria ao ouvir essas palavras balbuciadas por sua filhinha de quatro anos? É assim que a criança mostra sua gratidão. É claro que a grandeza do sacrifício materno e do seu grande amor permanece parcialmente oculta. Mas a criança, mesmo pequenina, percebe o amor no coração de sua mamãe. Ele vê — antes, ele sabe — que sua mãe está sempre presente para ele. Se ele cai enquanto brinca: é para a mãe que corre. Se sua noite é interrompida por pesadelos: seu choro é pela mamãe. Se está com sede ou doente: não tem nem de pensar, ele sabe que sua mãe irá ajudá-lo.

Sim, mesmo aos olhos das criancinhas, o coração materno é necessário e sem limites. À sua maneira, procura retribuir demostrando o seu amor. Ela colhe flores com muito carinho para oferecê-las à mamãe! «Se o papai faz, eu também posso fazer isso pela mamãe». Se sua mãe está doente ou cansada, a criança se aproxima com um copo d'água, acompanhando seu gesto com um beijo. «Mamãe faz assim quando estou doente, também vou fazer»

Vocês sabem bem, queridas mães, que seu filho tem outra mãe, a do próprio Deus. O vosso grande desejo é que ele conheça esta Mãe por excelência que, sem estar visivelmente presente em casa, dá todo o seu carinho maternal a cada um dos seus filhos. Em face das inevitáveis ​​separações aqui embaixo entre mãe e filho, que consolo saber que esta mesma Mãe lhes assistirá!

Como pôr em prática essa verdade, como tornar a nossa Mãe Celeste conhecida e amada pelas crianças? Ainda tão pequenino, é ele capaz de entender?

 

fotos e buquês

Desde cedo, os ouvidos do pequeno ouvem o que mamãe e papai falam. O bebê reconhece rapidamente a voz de seus pais e não demora muito para reconhecer os rostos ao seu redor. Não falamos com ele antes mesmo que saiba balbuciar “mamãe”...”papai”? Esses nomes lhe são repetidos muitas vezes antes do dia em que os pronunciará. Por que não adicionar os Santos Nomes de “Jesus” e de “Maria” à lista das primeiras palavras? Aproveite para mostrar-lhe imagens dos membros da sua família celestial: ele logo os reconhecerá.

Em cada etapa do despertar de sua alma, há ocasiões para apresentar canções, belas histórias ou livrinhos que lhe falem da Virgem Maria. Além disso, se as estátuas ou imagens da Santíssima Virgem ocuparem lugar de honra na sala de estar, a criança naturalmente dirigirá seus pensamentos para a rainha da família. Cada palavra, cada ação que procede do amor do papai e da mamãe pela Santíssima Virgem não será ignorada. Ao contrário, a criança batizada considera tudo isso normal e o imita.

São inúmeras as ocasiões para mover o coração dos pequeninos: mamãe coloca o buquê que papai ou que a criança lhe deu diante da imagem da Virgem; Papai vai rezar em frente da estátua de Maria depois da missa dominical; toda a família vai à procissão de 15 de agosto ou às cerimônias em honra da Virgem Peregrina.

E o terço... Com que idade pode ser introduzido? Como fazê-lo? É pedir demais para as crianças? Pensemos nisso.

 

O terço dos pequeninos

O terço consiste nas orações fundamentais que todo católico deve saber de cor. Que melhor maneira para uma criança aprender essas orações do que as repetir enquanto reza o Rosário?

A criança nunca é jovem demais para começar a fazer suas orações da manhã e da noite e para se habituar a voltar seus pensamentos para Deus muitas vezes ao longo do dia. O terço rezado em família só pode ajudá-la a fazê-lo.

Assim que percebermos que a criança é capaz de aprender a Ave Maria, podemos deixá-la rezar a primeira parte de uma dezena. Claro, é preciso ter muita paciência no início, para ela dizer cada palavra com mamãe ou papai. Em um clima de encorajamento, a criança aprenderá mais rapidamente e com mais vontade.

O terço! Que lição eficaz para o pequeno ter um livro no qual acompanha a vida de Jesus e de Maria ao ritmo dos mistérios do rosário! Depois da oração, que alegria para os pequeninos se revezarem apagando a vela acesa diante da imagem da Virgem, enquanto os mais velhos levam a sério o privilégio de acendê-la antes da oração em família!

Convenhamos, o terço em família exige muito esforço no início. É preciso escolher um horário conveniente, em que todos possam participar (sem escolher um horário em que todos estejam exaustos!). Deus dá a graça de ser fiel ao terço e, pouco a pouco, ele se torna um hábito. Vinte minutos por dia, é tanto tempo assim para passar com quem realmente amamos?

Nossa Senhora, ela mesma, pediu aos três pastorzinhos de Fátima que rezassem o Rosário, e os três videntes, ainda muito jovens, já tinham o hábito de o fazer.

Por fim, admiremos a educação religiosa dada pela Sra. Vianney aos seus filhos. Ainda pequeno, o santo Cura escutava sua mamãe lhe falar sobre o Céu, sobre a Santíssima Virgem antes de dar-lhe a boa noite. Tão logo o pequeno Jean-Marie foi capaz de fazê-lo – tinha três anos – aprendeu a rezar a Ave Maria, a oração, dizia ele, que jamais cansa a Deus. Anos mais tarde diria: “A Santa Virgem é a minha afeição mais antiga; eu a amei antes mesmo de conhecê-la... Depois de Deus, foi obra da minha mãe, quanta sabedoria ela tinha!”

 

Fideliter n° 191 – setembro-outubro, 2009

O Sinal da Besta

Pe. Gabriel Billecocq, FSSPX
 
 
Caros amigos e benfeitores,
 
A seguir, um sermão do Pe. Gabriel Billecocq, FSSPX, no último domingo depois de Pentecostes, 21 de novembro de 2021, na Igreja de São Nicolas-du-Chardonnet em Paris. É um texto bastante equilibrado, um aviso salutar para que evitemos os excessos aos quais podemos nos inclinar eventualmente nestes tempos difíceis, e um aviso ainda mais salutar para que foquemos na única coisa necessária: Deus e Sua vontade.
 
In Christo Sacerdote et Maria,
 
Pe. Yves Le Roux
 
 
 
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém.
 
Meus queridos fiéis,
 
Hoje, a Igreja nos dá uma visão verdadeiramente apocalíptica no Evangelho, com Nosso Senhor descrevendo o que, aparentemente, é o fim dos tempos -- tempos difíceis, dolorosos, aqueles dias, que serão abreviados em consideração dos eleitos, como Nosso Senhor mesmo nos diz.
 
Todos nós temos uma pequena curiosidade de saber como essas coisas vão acontecer, como o fim dos tempos vai se dar, e talvez alguns de vocês tenham sido curiosos o suficiente para apanhar o Livro do Apocalipse e tentar lê-lo e adivinhar de maneira mais concreta, mais material, como essas coisas acontecerão. Vocês devem ter lido sobre as famosas bestas do Apocalipse e sobre a "marca da Besta", o sinal da Besta.
 
Meus queridos fiéis, nossa curiosidade sobre essas coisas pode ser mórbida às vezes. A curiosidade mórbida existe: uma curiosidade que nos inclina mais ao pecado do que ao que é belo e bom. Nós podemos constatar com nossos próprios olhos, há exemplos em abundância ao nosso redor. É triste ver quantos jovens se inclinam a más imagens, ao invés de ler o Evangelho ou de se interessar pelo que Nosso Senhor fez durante Sua vida. E temos que reconhecer que nós, também, podemos ser afetados por essa curiosidade mórbida quando pensamos no fim dos tempos, imaginando como o Anticristo será, como ele nascerá, quem ele será, como poderemos reconhecê-lo, qual será a marca do Anticristo... E vocês sabem que as pessoas, hoje, estão fazendo todo tipo de especulação sobre essas coisas. E também está dito no Apocalipse que cada um dos eleitos estará marcado com o sinal de Deus -- e nenhum dos fiéis jamais veio me perguntar qual será o sinal de Deus. Todo mundo só pergunta "Qual o sinal do demônio? Qual a marca da Besta?" Ninguém se pergunta "Qual será o sinal de Deus?" Meus queridos irmãos, isso é apenas um exemplo de como nossa curiosidade facilmente se inclina em direção ao mau e feio do que ao bom e belo, e isso é uma coisa triste.
 
Então, para aquietar essa curiosidade toda um pouco, vamos hoje falar sobre esse sinal da Besta, como ele aparece no Apocalipse e como alguns Padres da Igreja o compreendem. Ouvimos falar muito dessas coisas hoje em dia, infelizmente, graças a tudo que está havendo no mundo.
 
É verdade que o Apocalipse inclui aquela famosa passagem segundo a qual aqueles que seguem a Besta terão uma marca na sua testa e no seu braço, e que eles não poderão comprar nada se não tiverem essa marca. Muitas pessoas estão imaginando que a vacina pode ser a marca da Besta -- da mesma maneira que essas mesmas pessoas imaginaram que os cartões de crédito eram a Besta, e, depois, se perguntaram se os códigos de barras eram, talvez, o sinal da Besta.
 
Então, o Apocalipse acrescenta o nome da Besta, dizendo que é um nome de homem, e o número do seu nome é 666 (seiscentos e sessenta e seis). As pessoas também especulam sobre essas expressões encontradas no Apocalipse.
 
Primeiramente, a marca a Besta é um selo na mão e na testa, e Santo Agostinho explica o que isso significa. Santo Agostinho não descreve esse selo como uma marca visível ao olho, como uma tatuagem ou um chip inserido no nosso corpo. Ele diz que a marca na mão e o caráter na testa significam dois modos de pertencer ao demônio.
 
O primeiro modo de pertencer é a marca na testa, que representa pertencer através da confissão aberta. O primeiro modo de pertencer à Besta é a marca na testa, ou seja, ao proclamar, abertamente, que a Besta é toda-poderosa e, ao mesmo tempo, negar que Deus é todo-poderoso. Outro Padre da Igreja dá a mesma interpretação, a de que uma das marcas da Besta é a negação: a negação de Deus, a negação de Sua onipotência, a negação de que Deus criou o mundo, a negação de Sua Encarnação, negação da Redenção... Em uma palavra, essa marca na testa significa a apostasia, a apostasia do coração. A testa é aquilo que aparece abertamente, e Santo Agostinho explica que o que aparece em nossa testa é o que mostramos no exterior daquilo que está no nosso interior, da mesma maneira que o sinal do cristão é o sinal da cruz, que começamos na nossa testa com nossa mão. Então, assim como o sinal do cristão é o sinal da cruz, através do qual o cristão mostra exteriormente que ele pertence a Jesus Cristo, que ele quer seguir Jesus Cristo, Seu Mestre, e carregar sua cruz; da mesma maneira, o primeiro sinal do demônio, aquela marca na testa, significa que um homem nega Deus abertamente e afirma que o demônio é todo-poderoso.
 
A segunda marca é aquela na mão. Novamente, aqui Santo Agostinho explica que essa marca não é algum tipo de tatuagem ou um chip inserido na mão da pessoa. Explica que, na Escritura, as mãos representam as obras. A segunda marca de pertencimento à Besta são as ações más, as obras do pecado. Aquele que pertence à Besta é aquele que segue o demônio fazendo o mal, praticando o mal, a obra do pecado.
 
Meus queridos fiéis, aí está para vocês o significado dessas marcas, dos sinais da Besta.
 
A nossa salvação não é mais material do que nosso combate, mas sim espiritual. Então, nosso pertencimento a Deus ou ao demônio não é, em essência, algo material. Essencialmente, não é ao inscrever algo em nosso corpo que pertencemos ao demônio, da mesma maneira que não é essencialmente ao inscrever algo em nosso corpo que nos faz pertencer a deus. A primeira marca do nosso pertencimento a Deus é um caráter, um caráter indelével, impresso em nossa alma pelo batismo. Essa é a primeira marca do pertencimento do cristão a Deus. E é esse caráter que lhe dá acesso aos demais sacramentos. A marca do pertencimento à Besta também é um caráter da alma, não um caráter indelével, graças a Deus, mas o caráter de uma vontade que se inclina ao mal e comete o pecado.
 
Nosso combate é espiritual, assim como nosso pertencimento a Deus é espiritual. E pertencer ao demônio também é um fato espiritual. Pertencemos a Deus através da graça, e esse é o sinal pelo qual reconhecemos os eleitos de Deus. Os eleitos são aqueles marcados pelo sinal da graça, em outras palavras, o sinal da caridade, do amor de Deus e da vida de Deus. Pertencer ao demônio significa o pecado. Pertence ao demônio aquele homem que não tem o amor de Deus nele, mas apenas o amor das coisas terrenas, materiais, sensíveis, ou mesmo simplesmente humanas, sem nada além disso.
 
Quanto a esse número, 666 (seiscentos e sessenta e seis), do qual o Apocalipse fala, o Apocalipse também diz que esse número da Besta é "o número de um homem". Santo Irineu talvez seja quem dá a melhor explicação para esse número. Muitas pessoas tentaram encontrar esse número literalmente, ou encontrar o nome que ele contém, da mesma maneira que os rabinos faziam, pois os números na Escritura sempre têm algum tipo de simbolismo. Há até mesmo uma ciência que dá a interpretação dos números. Santo Irineu vai além disso.
 
Os Padres da Igreja estão em consenso quanto ao fato de que esse nome nos permanecerá desconhecido até que o Anticristo apareça. Essa profecia do Apocalipse é como qualquer outra profecia: ela só se tornará clara quando cumprida. Mas Santo Irineu ainda explica que o número 666 está cheio de simbolismos, assim como o número de 144 mil eleitos contados no Apocalipse, 12 mil de cada tribo, como ouvimos na Festa de Todos os Santos. Os números na Escritura, realmente, são simbólicos. O número 7 representa uma perfeição, 8 representa uma plenitude, e 6 representa uma imperfeição. Não apenas qualquer imperfeição, mas os Padres dizem que parar a contagem em seis representa impedir o número de atingir a Deus [que seria a perfeição, representada pelo número 7]. Então o número seis indica não algum tipo de imperfeição natural inerente à criatura, mas um direcionamento do homem a ele mesmo. E Santo Irineu vai além, explicando que o 6 triplo representa um triplo direcionamento do homem a si mesmo: não apenas um pecado da alma, isto é, do intelecto e da alma, mas também um terceiro pecado, que ele chama de pecado do espírito.
 
O pecado do corpo, como sabemos, são todos aqueles pecados que se encontram espalhados hoje em dia -- não há necessidade de nos alongarmos nesse ponto -- [como] os pecados contra a natureza, aqueles pecados que pedem vingança aos Céus. O pecado da alma, isto é, o do intelecto e da vontade, corresponde ao pecado do homem de hoje, que evita que o intelecto atinja a verdade. -- E aqui, meus caros fiéis, precisamos agradecer àqueles que se devotam aos nossos filhos e a dar-lhes uma educação genuína nas verdades que os levam a Jesus Cristo. Mas esse pecado da alma, o de fazer tudo para evitar que a criança atinja a verdade, também afeta a vontade. É outro aspecto daqueles programas de educação modernos, evitar que a criança conheça a verdade, conheça o bem e como ela pode praticar o bem.
 
O último dos três "seis" representa o pecado do espírito, o pecado de nos fecharmos a Deus; é o pecado através do qual o homem recusa a Deus. Esse pecado corresponde à abominação da desolação no Templo Sagrado, talvez como vemos hoje nessa Missa nova, na qual a adoração está completamente direcionada ao homem.
 
Meus queridos fiéis, vocês podem ver como os Padres da Igreja explicam essas palavras misteriosas do Apocalipse, que permanecem misteriosas nos dias de hoje. Precisamos parar de correr atrás de interpretações, uma mais assustadora que a outra. Não importam as dificuldades que estamos enfrentando hoje, não importa as mentiras e erros que nos são apresentados -- e muitos erros e mentiras nos são apresentados! -- não importa quão perigosos sejam alguns produtos que os homens querem injetar em nós, não esqueçamos que a marca da Besta é algo espiritual: ela é o pecado. Pertencemos ao demônio pelo pecado; pertencemos a Deus pela graça e pela caridade.
 
Aí está, meus queridos fiéis. Nosso Senhor é muito claro nesse ponto e nos diz: "Não temais aqueles que podem matar o corpo" -- e disso nós temos, hoje, uma aplicação direta -- "não temais aqueles que podem matar o corpo; ao invés, temei Aquele que tem o poder de atirar ao fogo eterno". E, novamente, Nosso Senhor diz isso a Seus Apóstolos antes de os deixar "Tende coragem; eu venci o mundo". Não temos nada a temer das coisas materiais deste mundo. Devemos temer o pecado. Não devemos temer a morte do corpo; devemos temer a morte eterna.
 
É verdade, meus queridos fiéis, que o futuro nos é desconhecido, e ele pode parecer bastante sombrio. Ainda assim, há coisas que sabemos com certeza absoluta: Deus é nosso Pai, Deus não esquece Seus filhos, Deus protege Seus filhos, Deus alimenta Seus filhos.
 
Não importa as provações que tenhamos de enfrentar, tenhamos uma confiança perfeita: não sabemos os sofrimentos que estão vindo, mas sabemos com certeza absoluta que a graça jamais nos abandonará. Essa é a nossa esperança e a nossa alegria nesse mundo de tristezas.
 
Amém.
 
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém.
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