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Category: Pe. Juan Carlos Iscara, FSSPXConteúdo sindicalizado

O que o primeiro mandamento da Igreja ordena?

Pe. Juan Carlos Iscara, FSSPX

A Lei natural impõe a todos os homens a obrigação de adorar a Deus. E Ele mesmo definiu como os homens deveriam cumprir essa obrigação ao emitir Seu preceito divino no Antigo Testamento. O Terceiro Mandamento da Lei de Deus diz:

“Lembra-te de santificar o dia de sábado. Trabalharás durante seis dias e farás (neles) todas as tuas obras. O sétimo dia, porém, é o sábado (o dia de repouso), consagrado ao Senhor, teu Deus; não farás nele obra alguma, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu gado, nem o peregrino que está dentro das tuas portas. Porque o Senhor fez, em seis dias, o céu e a terra e o mar e tudo que neles há e descansou ao sétimo dia; por isso o Senhor abençoou o dia de sábado e o santificou” (Ex 20, 8-11)

Após a Ressurreição de Cristo, esse dia se tornou o Domingo, o “dia do Senhor” – “dies Domini”.

Consequentemente, a Igreja, em seu primeiro mandamento, determinou como os cristãos devem santificar o domingo e os dias de preceito prescrevendo certos atos e proibindo outros, como foi detalhado no Código de Direito Canônico de 1917:

“Nos dias de preceito, deve-se ir à Missa; deve-se abster de trabalho servil, atos jurídicos e, de modo semelhante, a não ser que haja um indulto especial ou que os costumes locais disponham de modo contrário, deve-se abster de comércio, compras e outros atos de compra e venda públicos” (Cânone 1248).

Enquanto o Sábado judaico era marcado principalmente pelo descanso, a Igreja, desde o princípio, deu ao Dia do Senhor um foco mais espiritual, dando primazia ao aspecto positivo, isto é, à obrigação de render a Deus o culto que Lhe é devido e de tomar conta das coisas que dizem respeito à alma da pessoa. A Lei da Igreja deu concretude a esses deveres com a obrigação de no mínimo ir à Missa.

Apesar disso, o dever de descanso também permanece sem sombra de dúvidas. Ele inclui abster-se de trabalhos servis [braçais], procedimentos judiciais e mercados públicos. Abstenção do trabalho e o descanso em decorrência dele, além de ter o propósito natural de restaurar nossas forças, tem a finalidade religiosa clara de nos ajudar a dar atenção a Deus e a desviá-la do mundo.

Em uma edição anterior de The Angelus (Maio-Junho de 2022), tratamos de como cumprir a primeira parte do preceito eclesiástico, a obrigação positiva de ir à Missa. Agora, vamos dar atenção ao aspecto negativo, abster-se do trabalho, um dever que, no mundo de hoje, costuma ser desprezado até por católicos.

 

Qual é a disciplina tradicional acerca do trabalho aos Domingos?

O Catecismo do Concílio de Trento explicou que o descanso sabático significa abster-se de trabalhos servis:

“Todos os trabalhos servis são proibidos, não porque sejam ruins em si mesmos, mas porque eles tiram atenção do culto de Deus, que é o fim último do mandamento”

Mas o que é “trabalho servil”? Embora o termo seja usado pela Igreja por séculos, ele nunca foi definido, e mesmo o Código de Direito Canônico de 1917 se absteve de defini-lo. A descrição do que constitui trabalho “servil” deve ser encontrada nos decretos de certos Concílios, no ensinamento dos teólogos e nos costumes locais que a Igreja aceitou.

A maioria dos manuais de Teologia moral o descrevem como um trabalho físico, manual, feito pelas necessidades e pelos ganhos do corpo; o tipo de trabalho que, no passado, era desempenhado por escravos ou, em tempos mais recentes, por empregos domésticos e lavradores contratados. Enquadram-se nessa categoria os trabalhos agriculturais (aragem, cavar, etc) e trabalhos mecânicos ou industriais (prensa, construção, engessamento, etc).

Ele se distingue dos trabalhos “liberais”, que são produto principalmente das faculdades mentais, imediatamente direcionados ao desenvolvimento da mente e que, no passado, eram realizados por pessoas que não eram escravos ou servos. Trabalhos desse tipo são os trabalhos intelectuais (ensinar, ler, escrever, estudar, etc), trabalhos artísticos (tocar música, cantar, desenhar, pintar, bordar etc) e também trabalhos de recreação (esportes moderados ou diversões, como futebol, baseball, tênis e xadrez).

Na disciplina tradicional, para discernir se uma atividade constitui trabalho servil ou liberal, o fator determinante é a natureza do trabalho em si (finis operis), sem levar em consideração nenhuma circunstância extrínseca, como o propósito do agente (finis operantis), ou o esforço físico despendido para o trabalho, ou sua duração. Portanto, se o trabalho for “servil” ele permanece proibido por qualquer motivo que seja.

A obrigação é grave, mas a contravenção do preceito pode ser consideravelmente reduzida se o trabalho não requerer esforço excessivo, não durar mais de 2 horas e não causar escândalo.

Como Nosso Senhor também disse que “o Sábado foi feito para o homem, e não o homem para o Sábado” (Mc 2, 27), a Igreja, distanciando-se de excessos farisaicos, reconhece diferentes razões que podem escusar a abstenção do trabalho no Sábado:

  • Necessidade ou dever para com o próximo permite o trabalho no Domingo ao menos em alguma medida (por exemplo, aqueles que devem trabalhar no Domingo para sobreviver, ou para se manter fora de risco sério, ou para prestar serviços ou obras de caridade que não possam ser realizados facilmente em outro tempo);
  • Piedade para com Deus, trabalhando naquilo que é imediatamente necessário para o culto divino;
  • Costumes que permitem trabalhos necessários, como cozinhar, serviços domésticos ordinários, etc
  • Dispensa pode ser dada sob certas condições pelo pároco para seus paroquianos. Um confessor não tem poder para dispensar nessa matéria, mas, em casos dúbios, ele pode interpretar a lei e permitir que seus penitentes façam trabalhos necessários.

É claro que nem toda razão escusa do preceito. Portanto, aqueles que, desnecessariamente, colocam-se em situação de impossibilidade de observar a lei cometem um pecado (por exemplo, aceitando um trabalho que peça que trabalhem o Domingo inteiro), ou aqueles cujas razões são frívolas (como aqueles que trabalham no Domingo só para ter algo para fazer).

Para evitar o autoengano, os fiéis devem consultar seu pastor ou confessor, se houver dúvida acerca da suficiência da escusa.

 

O que a legislação atual diz?

Através do Século XX, e especialmente após as duas grandes guerras, considerando as circunstâncias sociais e econômicas alteradas do mundo, houve muita discussão entre os teólogos acerca da definição de trabalho servil.

Um eco dessas discussões encontra-se na presente disciplina da Igreja, que está estabelecida no Cânone 1247 do Novo Código de Direito Canônico, promulgado em 1983:

“No domingo e nos outros dias de festa de preceito, os fiéis têm a obrigação de participar na missa; além disso, devem abster-se das atividades e negócios que impeçam o culto a ser prestado a Deus, a alegria própria do dia do Senhor e o devido descanso da mente e do Corpo”

O novo Código, em comparação com a legislação anterior, não menciona o trabalho “servil”, porém mantém a obrigação de abster-se de trabalho aos Domingos, ao mesmo tempo em que altera a ênfase de como deve ser feito, acrescentando a referência ao “descanso da mente e do corpo”.

O Catecismo da Igreja Católica (n. 2187) desenvolve o requisito canônico:

“Santificar os domingos e festas de guarda exige um esforço comum. Todo o cristão deve evitar impor a outrem, sem necessidade, o que possa impedi-lo de guardar o Dia do Senhor. Quando os costumes (desporto, restaurantes, etc) e as obrigações sociais (serviços públicos, etc) reclamam de alguns um trabalho dominical, cada um fica com a responsabilidade de um tempo suficiente de descanso. Os fiéis ficarão atentos, com moderação e caridade, para evitar os excessos e violências originados às vezes nas diversões de massa. Não obstante as pressões de ordem econômica, os poderes públicos preocupar-se-ão em assegurar aos cidadãos um tempo destinado ao repouso e ao culto divino. Os patrões têm obrigação análoga para com os seus empregados”

 

Então, o que devemos fazer?

Como podemos ver, a nova legislação não contradiz, nem rejeita o que a Igreja pedia antes, mas expressa-a em termos mais gerais. Ao mesmo tempo, realça o espírito no qual a lei deve ser observada, isto é, o objetivo que o legislador – Deus e a Igreja – desejava obter ao impor uma obrigação particular. Como São Paulo (2Cor 3, 6) já havia explicado, devemos evitar desprezar o espírito da lei ao cumprir sua letra.

Portanto, em geral, devemos submeter-nos à disciplina tradicional, mas sem perder de vista os critérios expandidos de discernimento que a nova lei trouxe.

A abstenção do trabalho servil visa permitir-nos livrar-nos de nossa labuta diária, deixando-nos livres para render a Deus o culto que Lhe é devido. Ela também nos permite cuidar do bem de nossas almas, dando-nos tempo e oportunidades de descanso e divertimentos honestos. De tempos em tempos, precisamos de uma pausa das preocupações e cansaços inerentes ao esforço diário. Sem recreações prudentes e bem administradas, nossas forças físicas e mentais logo ficariam exaustas, incapacitando-nos para qualquer tipo de trabalho.

Portanto, no Domingo, devemos, preferencialmente, dar tempo a Deus, às coisas espirituais e à elevação de nossas almas a Ele. Claro, ir à Missa é o mínimo que a Igreja requer, mas isso não significa que podemos esquecer Deus pelo resto do dia e apenas aproveitar o descanso.

Embora a Igreja não imponha uma observância excessiva, farisaica do descanso do Domingo, ela também não admite lassidão na observância do Dia do Senhor. Como um autor colocou, “o Domingo não precisa ser fúnebre, mas também não pode ser ateu”

Não podemos entregar-nos a coisas inapropriadas ou danosas para nós ou para outros, nem perder completamente nossa seriedade da alma, ou fazer algo em circunstâncias desonestas.

Portanto, nosso Domingo não pode ser tomado por jogos ou pela televisão, por conversas fúteis ou risadas sem propósito, ou ficarmos grudados no computador, olhando sem parar nossas redes sociais – ações que, em si mesmas, não são necessariamente más, mas que tiram nossas mentes e corações de Deus.

 

Alguns exemplos práticos

Às vezes, pessoas de boa fé se encontram em situações complicadas, porque gostam de relaxar com atividades aos Domingos como jardinagem, que, em sentido estrito, seriam um trabalho “servil” e, portanto, estariam proibidas.

Mas mesmo a legislação tradicional considerava que tal trabalho não seria uma violação séria do descanso do Domingo se não demandasse um esforço físico intenso, se fosse realizada por um breve período, sem causar escândalo e sem interferir com nossas obrigações para com Deus.

À luz do novo Código, o mesmo trabalho, realizado em tais circunstâncias, também seria permitido se com a intenção de relaxamento e recreação, como uma maneira simples de se afastar das preocupações que atingem nossas mentes pelo resto da semana. Se esse for o caso, essas almas não precisam se preocupar.

Por outro lado, a legislação tradicional permitia trabalho intelectual, “liberal”, tal como o de um advogado preparando um processo, um arquiteto desenhando planos de uma construção, um contabilista preparando declarações de impostos, etc.

Mas à luz da legislação recente, essas atividades – embora não constituam pecado, pois são autorizadas pela lei anterior – devem ser desencorajadas, ao menos como imperfeições, se desnecessariamente trouxerem para o Domingo as preocupações mundanas e as tarefas que nos absorvem nos demais dias da semana, pois, nesses casos, o espírito da lei, a intenção do legislador, não estaria adequadamente atingida.

 

Em conclusão

Todas essas explicações servem para nos ajudar a emitir um julgamento prudente quando se trata de decidir se devemos ou não realizar certo trabalho ou atividade.

Apesar disso, devemos não apenas evitar o pecado, mas também buscar uma perfeição maior em todas as nossas ações. Portanto, não devemos tentar tirar vantagem de qualquer brecha que encontrarmos ou procurar desculpas. O amor de Deus, fortalecendo nosso bom senso e guiando nosso discernimento prudencial, deve prevalecer em tudo e acima de todas as coisas.

Nesse tema de se abster do trabalho, devemos ter em mente o terrível aviso de Nossa Senhora de La Salette:

“Se meu povo não obedecer, eu soltarei o braço de meu Filho. Ele é muito pesado, tão pesado que não consigo mais segurá-lo... ‘Eu designei seis dias para o trabalho. O sétimo eu reservei para Mim. E ninguém quer Me dá-lo’... É isso que faz o peso do braço de meu Filho ser tão insuportável”

Conhecendo nossa própria fraqueza, dirijam-nos, portanto, a São José, pedindo sua ajuda e sua orientação na hora de guardar o Dia do Senhor:

“Ó gloriosíssimo Patriarca, São José, obtende, pedimos a Vós, de Nosso Senhor Jesus Cristo bênçãos abundantes sobre aqueles que mantêm santo os Domingos e os Dias de Preceito da Igreja e dai a todos aqueles que os profanam que possam perceber, enquanto ainda podem, o grande mal que cometem e o castigo que trazem para si mesmos tanto nesta vida quanto na próxima, e dai-lhes que se convertam. Ó fidelíssimo São José, Vós, que, durante vossa vida terrena, observastes tão lealmente as Leis de Deus, dai-nos que chegue o dia em que todos os Cristãos abster-se-ão de trabalhos proibidos nos Domingos e Dias de Preceito, preocupar-se-ão seriamente com a salvação de suas almas e darão glória a Deus, que vive e reina para sempre. Amém” (São Pio X, 20 de Maio de 1905).

O que é a virtude da afabilidade?

Pe. Juan Carlos Iscara, FSSPX

 

Afabilidade é a simpatia, a virtude que nos compele a preencher nossas palavras e ações externas com aquilo que possa contribuir para tornar amigáveis e agradáveis as nossas relações com o próximo. É uma virtude eminentemente social, moralmente necessária para a existência humana, e um dos sinais mais delicados e inequívocos de um autêntico espírito cristão.

Suas manifestações são inúmeras, todas gerando a simpatia e a afeição daqueles ao nosso redor – bondade, elogios simples, indulgência, gratidão manifestada com entusiasmo, educação nas palavras e maneiras etc.

Ainda assim, como é uma virtude moral, a afabilidade sempre deve ser mantida em um meio termo justo, pois pode-se pecar contra ela por excesso (adulação) e por falta (litígio, espírito de contradição).

Adulação é o pecado daquele que tenta agradar alguém de modo desordenado ou exagerado para extrair dele alguma vantagem. No fundo, ela sempre vem acompanhada de hipocrisia e egoísmo. Ensina Santo Tomás: “Como dissemos, a amizade referida, ou afabilidade, embora tenha como fim principal causar prazer àqueles com quem convivemos, contudo, quando é necessário, para conseguir um bem ou evitar um mal, não teme contristar. Por onde, quem quer de todos os modos  falar a outrem para lhe causar prazer, excede o modo devido de fazer e portanto peca por excesso. E se o fizer só com a intenção de causar prazer, chama-se complacente, segundo o Filósofo; se, porém, tirar algum proveito, chama-se lisonjeiro ou adulador. Mas, comumente, a palavra adulação costuma ser aplicada só àqueles que, excedendo o modo devido da virtude, querem agradar aos outros na convivência ordinária com palavras e obras” (IIa-IIae, 115, 1)

Ao responder à objeção de que louvar ou querer agradar a todos não é um pecado, pois São Paulo mesmo diz “eu tento agradar a todos em tudo” (1Cor 10,33), o Doutor Angélico escreve que louvar o próximo pode ser uma ação boa ou má, se certos requisitos foram observados ou negligenciados. Na verdade, se o louvor tem como intenção, observadas as circunstâncias corretas, de satisfazer a alguém e encorajá-lo em sua obra e encorajá-lo nos propósitos de suas boas obras, é o fruto da virtude da afabilidade. Ao invés, ela é adulação quando o louvor se direciona a algo que não deveria ser louvado, seja porque é uma coisa má ou pecaminosa, ou porque a fundação desse louvor não é clara, ou quando pode-se esperar que o louvor será ocasião de vanglória para o próximo. Também é bom querer agradar aos homens para os encorajá-los na caridade e para encorajar os outros no progresso na virtude. Ao contrário, é um pecado querer agradá-los por razões de vanglória, ou interesse pessoal, ou em coisas más.

Litígio, ou espírito de contradição, é um pecado que se opõe por falta à afabilidade e consiste em frequentemente e sistematicamente opor-se à opinião dos outros com a intenção de contradizê-los ou, ao menos, de não os agradar.

Se a contradição às palavras do próximo procede de falta de amor por ele, ela se opõe diretamente à caridade; se é feita com raiva, é contrária à mansidão, e se é feita com intuito de contristar o próximo ou de desagradá-lo, constitui propriamente o pecado do litígio (ou espírito de contradição), que é diretamente oposto à afabilidade.

Em si, o litígio é um pecado mais sério que a adulação, porque ele se opõe mais radicalmente à afabilidade, que, em si, tende a agradar ao invés de contristar. Porém, devemos levar em conta os motivos externos que nos impelem a cometer esses pecados. E, conforme eles, às vezes a adulação é mais grave, quando ela tenta, por exemplo, obter, por uma enganação, uma honra ou um proveito injusto. Às vezes, porém, o litígio é mais grave: por exemplo, quando a verdade é desafiada ou o próximo é desprezado ou ridicularizado (IIa-IIae, 116, 2).

Como devemos cumprir o preceito de assistir à Missa?

Pe. Juan Carlos Iscara, FSSPX

O terceiro mandamento da Lei de Deus requer que “santifiquemos o Sábado” (Ex 20, 8). No Antigo Testamento, Deus definiu como cumprir essa obrigação, na Nova Lei, a Igreja determinou que o preceito divino deve ser cumprido pela presença na Missa aos domingos e dias santos. Isso é uma obrigação – sob pena de pecado mortal – para todo católico de sete anos ou mais, que tem o uso habitual da razão.

Para cumprir o preceito eclesiástico de assistir à Missa, a primeira condição é a presença física no lugar onde a Missa é celebrada, de modo que as ações do padre possam ser acompanhadas. Não se requer, porém, que se esteja dentro da Igreja, nem mesmo que se veja ou ouça o padre. Basta fazer parte daqueles que ouvem a Missa (p.ex., da sacristia ou de uma Capela lateral, ou atrás de uma coluna, ou fora da Igreja, se ela estiver lotada) e ser capaz de segui-la de algum modo, como pelo som dos sinos ou pelos gestos dos outros presentes. Portanto, mesmo fora da Igreja, é possível assistir à Missa, desde que se esteja unido ao grupo de fiéis que estão dentro.

Na falta dessa presença física, aquele que ouve a Missa pelo rádio ou pela televisão, ou via streaming online, ou que permanece tão longe do grupo de presentes que não pode ser considerado parte deles, este não cumpre o preceito.

Essa presença deve ser contínua durante toda a Missa. A Missa deve ser completa e inteira, isto é, deve-se estar fisicamente presente do começo ao fim, do primeiro sinal da Cruz até o último Evangelho. Se alguém voluntariamente, de propósito ou por negligência culpável, omite alguma parte notável dela, comete um pecado.

Para determinar qual parte é considerada notável e, portanto, a gravidade do pecado, é necessário levar em conta a dignidade das partes que se perdeu e a duração da ausência.

A essência do Sacrifício consiste na consagração dupla, completada pela comunhão do padre, quando a vítima é consumada. Portanto, quem chega na Missa após a dupla consagração ou vai embora antes da comunhão do celebrante, definitivamente faltou à Missa e deve ir a outra Missa para cumprir o preceito. Se não fizer isso, comete um pecado grave.

Por outro lado, é um pecado venial perder, de maneira culpável, uma parte não essencial da Missa (por exemplo, do começo até o princípio do Ofertório, ou tudo que se segue após a Comunhão, ou do prefácio até a consagração, ou da consagração até o Pater Noster). Aquele que chega atrasado na Missa deve suprir a parte que perdeu, a não ser que seja material ou moralmente impossível (por exemplo, porque é a última Missa, ou porque deve estar ausente por força maior).

O cumprimento do preceito também requer a atenção religiosa, devota da mente. Atenção é a aplicação da mente ao que está sendo feito. Pode ser interna ou externa, dependendo de onde a mente está fixada ou aplicada à ação sendo realizada, ou evita qualquer ação externa que possa atrapalhar a atenção interna.

Para ouvir validamente a Missa, ao menos uma atenção real externa é necessária. Portanto, não está prestando atenção aquele que não ouve a Missa porque está lendo um livro profano, ou porque conversa demais com o próximo, ou porque contempla atentamente as imagens ou a arquitetura do templo, ou porque dorme.

Uma certa atenção interior, ou presença da mente, é necessária para que isso seja um ato verdadeiramente humano e não apenas uma simples presença física. A atenção interior pode ser: a) material, isto é, às palavras e ações do Padre; b) literal, isto é, ao sentido dessas palavras e ações e c) espiritual ou mística, realizando atos de amor a Deus ou recitando orações piedosas (p.ex., o terço). Qualquer delas basta para cumprir o preceito piedosamente.

Os teólogos morais já debateram a questão de se aquele que se confessa cumpre o preceito. Alguns dizem que não, porque a confissão requer toda a atenção do penitente, até mesmo a atenção externa. Outros dizem que sim, desde que se tenha a intenção de assistir à Missa e participar dela o quanto seja possível. Na prática, essa segunda opinião pode ser seguida, especialmente se fosse muito penoso ao penitente esperar pelo fim da Missa, ou se houvesse um perigo de não poder receber a Comunhão, etc, pois, indubitavelmente, a intenção da Igreja é facilitar a frequência aos sacramentos para os fiéis, e não é totalmente impossível prestar alguma atenção à Santa Missa durante a confissão. Seria apropriado, porém, interromper a confissão durante a consagração das duas espécies, permanecendo recolhido e atento ao mesmo tempo.

Há provas de que os cristãos primitivos rendiam culto aos santos e veneravam suas relíquias?

Pe. Juan Iscara, FSSPX

“Culto” é a manifestação pública da honra dada em memória de um Santo pela comunidade dos fiéis e ratificada pela autoridade eclesiástica.

Desde os primórdios da Igreja, os corpos dos mártires eram resgatados por fiéis piedosos, que corriam risco de vida às vezes, e recebiam um sepultamento honroso. Até mesmo suas roupas ensanguentadas eram resgatadas e preservadas com veneração. Portanto, os Atos Proconsulares do martírio de São Cipriano relatam que os fiéis de Cartago espalharam linho próximo a ele, para coletar o sangue derramado em sua decapitação.

Os mártires foram os primeiros a se tornar objeto de veneração da Igreja local, porque o martírio é a expressão mais elevada da fé e a comunhão mais íntima no mistério de Cristo. Eles eram solenemente lembrados nos aniversários de suas mortes, que os cristãos consideravam seu dies natalis, o dia de seu nascimento no Céu. Esse louvor e comemoração periódicos vinha sempre em conjunto com a celebração do sacrifício eucarístico, como testemunhado no Século III pelas Constituições Apostólicas. Era uma Eucaristia alegre pelo triunfo de Cristo em um dos membros de Seu Corpo Místico.

A disposição dos cristãos de honrar e comemorar os mártires é claramente observada no relato do martírio de São Policarpo de Esmirna (falecido em 155):

Coletamos seus ossos, mais preciosos que as joias mais raras e mais puros que ouro e depositamo-los em um local adequado, onde, reunidos conforme a oportunidade nos permitisse, com alegria, o Senhor nos dava a chance de celebrar o aniversário de seu martírio, tanto em memória daqueles que já haviam terminado seu curso, quanto pelo treinamento e preparação daqueles que ainda estavam por imitar seus caminhos (Martyrium Polycarpi, 18).

A mesma narração, claramente, esclarece a natureza do culto oferecido ao mártir:

A Cristo, de fato, sendo Filho de Deus, adoramos; mas os mártires, como discípulos e seguidores do Senhor, nós os amamos em razão de sua afeição pelo Rei e Mestre, de Quem possamos também ser companheiros e discípulos! (Martyrium Polycarpi, 17).

A veneração especial dos mártires também se manifesta nas inscrições em cemitérios. Inscrições cristãs antigas têm muitas orações pelos mortos, suplicando os favores de Deus por eles – Requiescat in pace, Vivat in Christo, “Descanse em paz”, “Que ele viva em Cristo”. Mas, como o martírio abriu as portas do Céu para eles, as orações diretamente aos mártires advieram espontaneamente da consciência do povo cristão, pedindo-lhes que intercedam por nós. Portanto, por exemplo, sob a Basílica de São Sebastião em Roma, do ano aproximado de 260, encontra-se uma inscrição: Paule et Petre, petite pro Victore, “Pedro e Paulo, rogai por Victor”. Na catacumba de Praetextatus, outra pede pela intercessão dos mortos perante Deus: Succurrite cum judicabitis, “Auxiliai-nos quando chegardes ao juiz”. E, na Igreja de Santa Sabina, do ano aproximado de 300: “Ático, descansai em paz, seguro em vossa segurança, e rogai por nossos pecados.”

Santo Agostinho, claramente, distingue essas duas formas de oração.

Se lembramos os mártires, tomando nossos lugares na mesa do Senhor, não é para rezar por eles, como pelos outros mortos que descansam em paz. É para que eles rezem por nós e para que sigamos seus caminhos. Pois eles atingiram aquele amor do qual diz o Senhor que não pode haver outro maior. Eles ofereceram a seus irmãos aquilo que receberam na mesa do Senhor.

Além de rezar pedindo sua intercessão, o culto dos Santos também se manifestava pela veneração de seus restos e de suas imagens, uma veneração que logo adquiriu um caráter litúrgico.

Embora escrevesse séculos mais tarde, Santo Tomás de Aquino expressa a razão da prática da Igreja a esse respeito desde os tempos mais remotos:

Por onde é claro que quem tem afeto por outrem venera-lhe também o que dele resta depois da morte; e não só o corpo ou partes do corpo, mas também certos bens exteriores, como as vestes e outros semelhantes. Ora, é manifesto que devemos venerar os santos de Deus como membros de Cristo, filhos e amigos de Deus e nossos intercessores, por isso devemos lhes venerar quais relíquias com a honra devida em memória deles; e sobretudo os seus corpos, que foram os templos e os órgãos do Espírito Santo, que neles habitou e operou, e hão de assemelhar-se ao corpo de Cristo pela glória da ressurreição. Por isso, o próprio Deus honra convenientemente essas relíquias, fazendo milagres na presença delas (Summa Theologiae, III, q. 25, a.6).*

Na Igreja primitiva, as catacumbas eram, acima de tudo, os locais de sepultamento dos mártires. Contrariamente às lendas, se os cristãos em Roma se reuniam nas catacumbas para celebrar a Eucaristia, era menos para se esconder (pois as catacumbas eram locais muito públicos) do que para estar próximos às tumbas dos mártires. Os fiéis estavam dispostos e até competiam para serem enterrados ad martyres, ad sanctos, “próximo aos mártires, aos santos”. Como São Paulino de Nola explicou, quando decidiu enterrar seu filho Celso próximo aos mártires de Complutum, ele desejava fazê-lo “para que, pela proximidade do sangue dos mártires, ele possa adquirir a virtude que purifica nossas almas como o fogo”.

Nas circunstâncias, as tumbas em si se tornaram altares. Dessa primeira Liturgia, quase ditada pelo layout das catacumbas, adveio a ideia de que não poderia haver celebração real sem a presença protetiva do corpo, ou, ao menos, algum resto de um mártir.

De acordo com o Liber Pontificalis, o Papa São Félix I (falecido em 274) transformou o costume em uma obrigação. Ao final do Século IV, Santo Ambrósio de Milão respeitosamente depositou os corpos dos mártires sob o altar:

Que as vítimas triunfantes tomem seu lugar onde Cristo Se oferece como vítima. No altar, Ele sofreu por todos e, abaixo, aqueles que Ele redimiu por Sua Paixão.

O 5º Concílio de Cartago, em 401, formalizou essa prática, tornando compulsório que todo altar tivesse relíquias, chegando até mesmo a ordenar a destruição dos altares que não as tivessem. Desde essa data, não pode haver consagração do altar sem que haja relíquias ali. O traslado solene dos restos dos Santos torna-se parte da Liturgia da dedicação das Igrejas até os dias atuais.

Infelizmente, a piedade popular, se transviada, arrisca transformar o culto das relíquias em superstição. No Século IX, Vigilâncio, um Padre de Toulouse, chegou a condenar como idolatria. Mas São Jerônimo (falecido em 420) escreveu uma carta severa, Contra Vigilantium, na qual explicava que damos honra às relíquias dos mártires para adorar Aquele pelo Qual eles foram mártires.

Todos os Padres da Igreja apoiavam com sua autoridade e iluminavam com sua ciência tão estimável veneração. No Oriente, São João Crisóstomo (falecido em 407) fez-se seu inspirado cantor:

Quereis experimentar delícias inexplicáveis? Vinde às tumbas dos mártires, curvai-vos humildemente ante seus ossos sagrados, beijai devotamente o relicário que os contém, lede os combates que travaram, os traços edificantes de sua fé e de sua coragem [...] e vós sentireis os efeitos de sua poderosa intercessão com Deus (Homilia I sobre os Mártires)

A piedade cristã primitiva também honrava as imagens dos Santos: pinturas em cemitérios, mosáicos nas Basílicas. Essas representações não eram, originalmente, objeto de veneração, mas parte de uma decoração que dava glória e servia de lembrete das virtudes a serem praticadas. Foi o Oriente que desenvolveu a Teologia do ícone, sustentando a legitimidade de sua veneração contra os imperadores iconoclastas.

 

Há provas históricas de que os cristãos primitivos rezavam para Nossa Senhora?

Pe. Juan Carlos Iscara, FSSPX

 

Há um pequeno problema quando falamos de “Igreja primitiva” ou “cristãos primitivos”. O começo desse período histórico é claro: a fundação da Igreja, Pentecostes; mas, quando esse período acaba? Para responder a essa pergunta de forma mais segura, vamos nos ater às provas da devoção a Nossa Senhora nos relativamente obscuros Séculos II e III até o reconhecimento magisterial da maternidade divina no Concílio de Éfeso, em 431.

Nas Escrituras, Maria aparece de forma velada nas profecias do Antigo Testamento, sendo exposta nos primeiros capítulos do Evangelho de São Lucas; então, ela volta a uma relativa obscuridade durante o ministério de Cristo e reaparece no Apocalipse. Esse padrão de exposições e obscuridades, de alguma maneira, repetiu-se no desenvolvimento da doutrina e da devoção mariana durante os primeiros séculos da Igreja.

Os primeiros cristãos pregavam um Deus, encarnado em Cristo, criador e redentor, ao contrário da multiplicidade dos deuses pagãos. Nos primórdios dessa pregação, enfatizar a pessoa da Virgem-Mãe poderia ter criado confusão, comparações infelizes ou sincretismos com os mitos pagãos*. Mas, por outro lado, a humanidade e a maternidade de Maria tinham que ser enfatizadas para expor a realidade da Encarnação de Cristo como Homem-Deus, principalmente contra aquelas heresias antigas que negavam a humanidade de Cristo.

Portanto, os Padres dos Séculos II e III enfatizaram apenas com o passar do tempo a excepcionalidade de Maria, sua santidade, os privilégios extraordinários que lhes foram dados por Deus para cumprir sua missão única e universal ao lado de seu Filho. Eles tornam claro que sua doutrina mariana não era supérflua ou uma opinião teológica, mas necessária para preservar a integridade da fé, pois Maria está intimamente unida ao mistério da união das naturezas humana e divina em Cristo. Portanto, nas primeiras profissões de fé, a confissão de Cristo estava inseparavelmente unida à confissão da excepcionalidade de Maria.

O primeiro grande teólogo, Santo Irineu de Lyon (falecido em 202), ao traçar um paralelo entre Eva e Maria, enfatizou essa excepcionalidade. Maria cooperou na obra de nossa salvação: ela “se tornou causa de salvação para si mesma e para toda a raça humana”. Como ela é “o ventre puro que regenera os homens em Deus”, ela se tornou “a advogada de Eva” perante Cristo.

Esses temas foram melhor desenvolvidos por Orígenes em meados do Século III, não apenas se dirigindo a Maria como “Mãe de Deus”, mas, baseado no fato de que ela era a “nova Eva”, também se dirigindo a ela como “mãe dos fiéis”. Sendo duplamente santificada por uma consagração dupla (a descida do Espírito Santo em sua alma e de seu Filho em seu ventre), ela se tornou um canal ativo do Espírito Santo para a santificação dos homens.

Enquanto a compreensão teológica do papel de Maria na economia da salvação se desenvolvia nesses séculos, também a piedade mariana se desenvolvia em correspondência a ela, gerando o recurso à sua intercessão.

A primeira prova dessa piedade dos fiéis é encontrada na decoração e nas inscrições das catacumbas cristãs. As mais antigas e importantes são das catacumbas romanas (Priscilla, Agnes, Coemeterium majus), dos Séculos III e IV, representando a Virgem com seu Filho, ou a adoração dos Reis Magos, com um homem de pé atrás da Virgem e apontando para uma estrela, ou mesmo a Anunciação.

Essas são representações claras, “literais” de passagens evangélicas e da Mãe e de seu Filho, apontando diretamente para o mistério da Encarnação, pois a imagem afirma o que a heresia nega, tanto a realidade da natureza humana de Cristo, quanto a maternidade divina de Maria. Portanto, essas imagens não eram objetos de veneração, mas um sinal de reconhecimento, uma profissão de fé e uma esperança e um convite aos visitantes para rezarem por aqueles enterrados ali.

Nos tempos em que essas imagens começaram a ser pintadas nas catacumbas romanas, isto é, pelo Século II, um peregrino veio à Cidade, Abércio, Bispo de Hierápolis na Phrygia Salutaris (um nome grande do que, hoje, é uma pequena cidade na atual Turquia). Sendo um homem velho, ao retornar de sua longa jornada, ele preparou essa tumba, com uma inscrição que, hoje, está no Museu de Latrão. A inscrição dá testemunho, em termos velados, não apenas da difusão do Cristianismo, da preeminência da Sé de Roma, do Batismo e da Eucaristia, mas também menciona Nossa Senhora:

A fé me levou adiante em todos os locais, e, em todos os locais, providenciou, como meu alimento, um Peixe de grande tamanho e perfeito, que uma Santa Virgem apanhou com suas mãos de uma fonte, e essa fé sempre dá a seus amigos o alimento, dispondo de um vinho de grande virtude, ministrando-lhe misturado com o pão.

A menção do “Peixe” é um acrônimo para Iēsous Christos, Theou Yios, Sōtēr, “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”, como Santo Agostinho explica (De Civ. Dei, XVIII:23), e a Virgem é a que trouxe Cristo a nós.

De quase um século mais tarde, temos um fragmento de um papiro egípcio em grego, hoje na Biblioteca John Rylands, Manchester, Reino Unido. Ele data de 250-280, um período de perseguições metódicas e cada vez mais violentas (Valeriano, Décio, até chegarmos a Diocleciano). Ele contém uma versão de uma oração que ainda rezamos, o Sub tuum prasesidium:

Sob vossa proteção nos refugiamos, ó Santa Mãe de Deus! Não desprezeis nossas súplicas em nossas necessidades, mas livrai-nos do mal, puríssima e beatíssima.

Ela expressa a fé da Igreja em Nossa Senhora de maneira simples, sucinta. Ela é a Mãe de Deus, a Theotokos, “portadora de Deus”, Deipara, Dei Genitrix, “a que dá nascimento a Deus”. Ela tem um poder inaudito de intercessão – embora ainda não se lhe tenha dado o título ainda, ela é reconhecida como Mediatrix de todas as graças. Finalmente, ela é a “única bem aventurada”, escolhida especialmente por Deus, e “a única pura”, perpetuamente virgem.

Ao fim do Século IV, no Império Romano do Oriente (Império Bizantino), a festa litúrgica em honra de Nossa Senhora mais antiga de que se tem registro era celebrada no dia após o Natal.

Nos Séculos IV e V, as orações litúrgicas em uso no Oriente ajuntavam, à moda oriental, os termos de louvor a Maria e invocavam sua intercessão. Por exemplo, na Liturgia Antioquena dos Doze Apóstolos:

Celebremos o memorial da toda pura, imaculada, gloriosíssima, bem aventurada Senhora, Mãe de Deus e sempre virgem Maria; que sejamos protegidos do mal por suas orações e súplicas, e que a misericórdia esteja sobre nós em ambos os mundos.

Finalmente, em 22 de Junho de 431, o concílio ecumênico reunido em Éfeso declarou, solenemente: “Se alguém não confessar que Emmanuel é Deus em verdade e que, portanto, a Santíssima Virgem é Mãe de Deus (pois ela trouxe consigo, carnalmente, o Verbo de Deus tornado carne), seja anátema”. A devoção do povo a Nossa Senhora era tamanha que, quando essa frase se espalhou pela cidade, espontaneamente, uma multidão alegre se reuniu na Igreja de Santa Maria, onde o Concílio aconteceu, e acompanhou os padres conciliares na saída, em procissão, com tochas.

Até Éfeso, o discurso teológico sobre Maria estava intimamente conectado à expressão de verdades cristológicas, mas, após Éfeso, a atenção se voltou para Maria em si, e uma veneração triunfante da Theotokos se espalhou como fogo nas Artes, na Liturgia e nas devoções populares.

 

ADENDO DA PERMANÊNCIA:

Tudo o que o Pe. Iscara afirma nesse ponto é verdadeiro; porém, apenas para ilustrar que os cristãos sempre creram e praticaram o culto mariano desde os tempos mais remotos (e que, portanto, essa crença é apostólica), tomamos a liberdade de reunir as seguintes citações:

- Santo Inácio de Antioquia (Séculos I e II): “Existe apenas um médico, carnal e espiritual, gerado e não gerado, Deus feito carne, Filho de Maria e Filho de Deus, vida verdadeira na morte, vida primeira passível e agora impassível, Jesus Cristo Nosso Senhor” (Epístola aos Efésios, Capítulo 7)

“Nosso Deus, Jesus Cristo, foi, de acordo com os desígnios de Deus, concebido no ventre de Maria, da linhagem de Davi, mas pelo Espírito Santo” (Capítulo 18);

“A virgindade de Maria estava escondida do príncipe deste mundo, bem como o nascimento de seu Filho e a morte do Senhor; três mistérios concebidos em silêncio pelo Senhor”; perceba-se que Santo Inácio compara a virgindade de Maria com a própria Paixão de Cristo (Capítulo 19);

- Santo Aristides de Atenas (Século II): “Os cristãos, portanto, remontam o princípio de sua religião em Jesus, o Messias; e Ele é chamado de Filho do Deus Altíssimo. E está dito que Deus desceu do Céu, e de uma virgem hebraica assumiu e cobriu-se da carne [...] “(Apologia de Aristides)

- São Justino Mártir (Século II): “[...] Jesus Cristo, o Filho de Deus, nasceu sem pecado, de uma virgem da linhagem de Abraão” (Diálogo com Trifo, Capítulo 23)

“[...] de acordo com a vontade do Pai, era necessário que elas [as tradições judaicas] tivessem seu fim com Ele, que nasceu de uma virgem, da família de Abraão e da tribo de Judá (Capítulo 43)

“Contemplai: a virgem conceberá e terá um filho, e seu nome será Emmanuel” (Capítulo 43)

“É evidente a todos que, na raça de Abraão, ninguém nasceu de uma virgem de acordo com a carne, nem se diz que alguém tenha nascido de uma virgem, exceto Cristo, Nosso Senhor. Mas, como vós e vossos professores ousais afirmar que, na profecia de Isaías, não está dito ‘contemplai: a virgem conceberá’, mas ‘contemplai: a jovem mulher conceberá e terá um filho’, e como vós explicais a profecia como se falasse de Ezequias, eu me proporei a debater esse ponto com vós em oposição a vós e a mostrar que essa passagem faz referência Àquele que reconhecemos como Cristo (Capítulo 43); o restante do Diálogo faz outras referências a essa profecia de Isaías, atribuindo-a a Cristo, bem como ao fato de que Cristo nasceu de uma virgem

- São Dionísio Areopagita (Século I): “Que [referindo-se a Cristo), sendo concebido, formado e gerado pelo Espírito Santo e do sangue virginal da Virgem Maria, santa mãe de Deus, era verdadeiro Homem [...] (Liturgia de São Dionísio, Bispo de Atenas); o mesmo Santo chega a afirmar que, quando a viu, tê-la-ia tomado por uma divindade – devido aos seus secretos atrativos e à sua beleza incomparável – se a fé, em que estivesse bem confirmado, não lhe tivesse garantido o contrário (Tratado da Verdadeira Devoção, São Luís Maria Grignion de Montfort);

- “[…] E ele [São Gabriel] revelou a Maria como, nela, deveria nascer o mistério supremo divino de Deus” (Da Hierarquia Celestial, Caput IV, Seção IV)

Quais as propriedades naturais do casamento?

Pe. Juan Carlos Iscara, FSSPX

Há duas: unidade e indissolubilidade. Essas propriedades derivam da própria natureza e fins do casamento. Portanto, elas não dependem da vontade dos esposos e não são afetadas pelas circunstâncias acidentais de um casamento concreto.

Unidade é o laço existente entre um homem e uma mulher. É exigido pelo fim primário do casamento, que é a procriação e a educação dos filhos. Opõe-se à poliandria (uma mulher com vários maridos), pois esta tornaria a paternidade incerta e, como consequência, também tornaria incerto a quem incumbe o dever de educar os filhos. Além disso, é antinatural não saber e, portanto, não poder honrar o próprio pai. Em sentido estrito, a unidade não se opõe à poligamia (um homem com várias mulheres), mas causa várias dificuldades, tanto em relação à educação dos filhos quanto ao fim secundário do casamento.

A unidade também é exigida pelo fim secundário do casamento, o amor mútuo e apoio dos esposos. A poligamia causa uma desigualdade de direitos entre os esposos, pois o homem tem direitos plenos, exclusivos sobre a mulher, mas não a mulher sobre o homem. Além disso, ela afeta o verdadeiro amor humano e espiritual e causa discórdias e invejas entre as mulheres e os filhos.

Indissolubilidade significa que o laço persiste enquanto os esposos viverem e que não pode ser dissolvido por qualquer motivo. É exigida pelo fim primário, porque tanto o cuidado quanto a educação dos filhos requer a união permanente dos esposos. Mesmo se eles não tiverem filhos, a regra geral não é afetada por circunstâncias concretas (a lei não se funda sobre casos extraordinários)

De todo modo, o fim secundário do casamento ainda exige a indissolubilidade. O amor humano não é apenas um impulso sexual – o sexo é que faz parte do amor humano. Sem a indissolubilidade, há o risco de se tornar uma presa do egoísmo dos instintos, e da união familiar ser abandonada aos caprichos de nossos movimentos de prazer. A indissolubilidade defende o amor conjugal, pois o verdadeiro amor é necessário para o auxílio mútuo e a perfeição dos esposos.

A vida comum e o auxílio dos esposos requer esforço diário. Se a possibilidade do divórcio existe, há que se lembrar que ela tem um efeito ampliativo sobre os conflitos inevitáveis que surgem na vida comum.

Além disso, a dissolução de um casamento afeta os filhos moral e afetivamente, além de ser uma injustiça com o esposo, pois a promessa de entrega de si feita na cerimônia do casamento é esquecida em face das dificuldades.

Santo Tomás propõe a vingança como virtude. Mas, vingança não é algo ruim?

Pe. Juan Carlos Iscara, FSSPX

Entre as virtudes sociais, isto é, aquelas que facilitam a vida dos homens na sociedade, Santo Tomás enumera a vindicta – que deveria ser traduzida como “punição justa” para evitar o sentido pejorativo que a palavra “vingança” tem. É uma virtude ligada à virtude cardeal da justiça, que consiste em punir o malfeitor pelo crime cometido.

Infelizmente, quando se trata de punir criminosos, o mundo moderno parece oscilar entre dois extremos: rigor desproporcionado e leniência exagerada. Portanto, é necessário esclarecer o que entendemos como “vingança”, punição justa.

Não há duvida de que restaurar a ordem perturbada por uma ação má é uma obra boa e virtuosa, exigida pela justiça em si e pela necessidade de manter a ordem social. Porém, em razão de nossa natureza decaída, quando se aplica uma punição, é muito fácil se deixar levar por motivos pecaminosos (raiva desordenada, ódio do criminoso, etc), o que faria a punição perder sua justiça, seu caráter virtuoso, tornando-a um verdadeiro pecado.

Santo Tomás explica:

A vingança se consuma infligindo ao que pecou, uma pena, como um mal. Logo, devemos levar em conta na vingança, o ânimo com que age quem a exerce. ­ Se, pois, a sua intenção principalmente está no mal daquele de quem se vinga e nela se compraz, a vingança é absolutamente ilícita. Porque o nos comprazermos com o mal de outrem supõe o ódio, contrário à caridade, que nos manda amar a todos os homens. Nem pode escusar–se ninguém dizendo que quer o mal de quem injustamente lh'o fez, assim como não seria escusado quem odiasse ao que o odeia. Pois, não devemos pecar contra outrem por ter este pecado anteriormente contra nós, o que seria deixarmo–nos vencer do mal, procedimento proibido pelo Apóstolo, quando diz: Não te deixes vencer do mal, mas, vence o mal com o bem. – Mas, se a intenção de quem se vinga visa principalmente um bem, que obteria punindo o pecador – por exemplo, fazendo–o emendar–se ou pelo menos coibindo–o, dando paz aos outros, salvando a justiça e a honra de Deus  – nesse caso a vingança pode ser lícita, uma vez observadas as circunstâncias devidas (Suma Teológica, II-II, q. 108, a. 1)

Com essas distinções, o verdadeiro significado e os perigos dessa virtude se tornam claros. Santo Tomás analisa algumas objeções que poderiam ser levantadas contra elas e, ao resolvê-las, aperfeiçoa a doutrina.

Alguns objetam que aquele que se vinga usurpa uma função exclusiva de Deus (Dt 32,35) cometendo, portanto, um pecado. Santo Tomás responde que quem exerce a vingança sobre os maus, no exercício dessa função – por exemplo, as autoridades seculares – não usurpa nada de Deus, mas usa o poder que Ele lhe deu (Rm 13, 4). Mas, se alguém se vinga fora da ordem estabelecida por Deus, usurpa o que é dado a Ele e, portanto, peca.

Outros, mais piedosos, objetam que aqueles que são bons devem tolerar os maus e suportar, com paciência, suas maldades. Santo Tomás pontua que deve ser assim em relação às injúrias feitas a si mesmo, mas não às injúrias a Deus ou o próximo. Porque, como São João Crisóstomo diz, “ser paciente com as injúrias de alguém é digno de louvor; mas ocultar as injúrias a Deus é uma impiedade.”

Na prática, raramente será conveniente que uma pessoa tente, por si mesma, punir o culpado (exceto ao repelir uma agressão injusta em legítima defesa), porque, sob o pretexto da justiça e da equidade, um amor próprio desordenado e, talvez, ódio do próximo estarão escondidos. Por isso que sempre é recomendado perdoar as injúrias dos outros ao invés de puni-los, exceto se a honra de Deus, o bem comum ou a emenda do próximo demandar que peçamos reparação da injúria.

(The Angelus, Set/21)

Esperamos muito de nosso diretor espiritual, mas o que devemos fazer para colhermos os benefícios espirituais de sua direção?

Pe. Juan Carlos Iscara, FSSPX

A primeira e mais importante obrigação do dirigido é total sinceridade e transparência do coração, porque, sem isso, é completamente impossível que a direção produza frutos. O diretor precisa saber tudo: tentações, fraquezas, propósitos, boas e más inclinações, dificuldades e estímulos, triunfos e derrotas, esperanças e ilusões – tudo deve ser revelado com humildade e simplicidade. Alguns autores espirituais até recomendam que se revele a falta de confiança que se pode estar começando a ter em relação ao diretor.

É errado – e inútil para fins espirituais – revelar apenas coisas boas ou menos más, revelando nossas maiores misérias e pecados apenas a outro Padre. Sem sinceridade e abertura, seria melhor abandonar uma direção espiritual que, nesse caso, será pura e simples hipocrisia, enganação e desperdício de tempo.

Porém, não é necessário exagerar. Tudo que é importante para a vida espiritual deve ser revelado com total sinceridade ao diretor; mas seria um exagero evidente dar-lhe contas até dos menores detalhes da vida íntima da pessoa dirigida. Muitas coisas de menor importância podem e devem ser resolvidas pelo dirigido.

Ela também requer total docilidade e obediência ao diretor. Sem essa mansidão e obediência, a direção seria totalmente ineficaz e um desperdício de tempo. Embora seja verdade que o diretor não tem jurisdição sobre seu dirigido (como um superior religioso tem sobre seus inferiores), ele precisa de uma obediência nas matérias que dizem respeito à direção, sob pena de encerrar a direção ali mesmo. Como dirigidos, precisamos obedecer simplesmente, sem distinções, restrições ou usando nossas próprias interpretações.

Muito pior que desobediência seria manipular a direção, para que o diretor não pergunte mais do que nós queremos. São João da Cruz condena severamente esse abuso. Porém, não seria contrário à obediência manifestar nossas opiniões e até mesmo, respeitosamente, manifestar discordâncias, mas obedecer assim mesmo se o diretor insistir apesar delas.

Também devemos ser perseverantes. A direção está completamente esterilizada, praticamente anulada, se mudarmos frequentemente de diretor por razões fúteis ou inconsistentes; se passarmos longos períodos sem direção; se frequentemente mudamos exercícios, métodos e procedimentos de santificação; se nos deixamos levar pelo calor do momento ou por nossos caprichos na prática das regras recebidas pelo diretor; etc., etc.

Finalmente, o dirigido não pode esquecer que, se seu diretor está obrigado a manter o selo sacramental ou segredo natural, o dirigido também está obrigado a manter uma discrição especial em relação a seu diretor. Mais especificamente, o dirigido não deve revelar aos outros os conselhos, normas ou conselho particular recebido de seu diretor, mesmo para edificar o próximo. O conselho particular dado a certa alma e tendo em vista sua especial psicologia e temperamento pode não ser adequado a outras almas colocadas em circunstâncias diferentes ou dotadas de temperamento diferente. Infelizmente, muitos problemas, discórdias, invejas por parte das outras almas e mil outras inconveniências, às vezes, advêm da falta de discrição dos penitentes!

Quando discutimos questões de moralidade, normalmente fazemos referência à “Lei natural”. O que é a “Lei”?

Pe. Juan Carlos Iscara, FSSPX

A Lei natural é, de acordo com Santo Tomás, nada mais que a participação da criatura racional na Lei eterna. Portanto, devemos começar pela noção de Lei eterna. Santo Tomás explica que ela é o plano da sabedoria divina por meio do qual Deus direciona todas as ações e movimentos das criaturas visando o bem comum de todo o universo.

A Lei natural é a mesma Lei eterna conhecida pelo homem através da razão natural.

Deus conhece e ordena, desde a eternidade, o que é conveniente e proporcionado à razão natural; e essa ordenação existente na mente divina é chamada de ou constitui a Lei eterna. Ao criar o homem, Deus imprimiu essa ordenação em sua própria natureza; portanto, simplesmente por ter nascido, todo homem está sujeito a essa Lei. Essa participação na Lei eterna, ou a ordem moral constituída por Deus, é a Lei natural objetivamente considerada.

Quando o homem atinge a idade da razão, conhece ao menos os princípios básicos da Lei natural (p.ex., deve-se praticar o bem e evitar o mal) como algo que tem obrigação de cumprir, e essa participação na Lei eterna é a Lei natural subjetivamente considerada.

A Lei natural recebe esse nome por duas razões. Primeiro, porque abrange apenas os preceitos que são deduzidos da própria natureza do homem. É por isso que ela obriga todos os homens sem exceção, e obrigaria da mesma maneira ainda que o homem não tivesse sido elevado por Deus à ordem sobrenatural. Segundo, porque pode ser conhecida diretamente pelas luzes da razão natural, sem necessidade de fé divina ou ensinamento humano.

Negada pelos ateístas, materialistas, panteístas etc, a existência da Lei natural é, porém, uma verdade inegável que pode ser provada mesmo pelas evidências.

Está dito claramente na Sagrada Escritura:

Com efeito, quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, a si mesmos servem de lei e mostram que o que a lei ordena está escrito nos seus corações, dando-lhes testemunho a sua própria consciência e os pensamentos de dentro que os acusam, se fizerem o mal, ou também os defendem, se fizerem o bem. Isto ver-se-á naquele dia em que Deus, segundo o meu Evangelho, há de julgar as coisas ocultas dos homens por meio de Jesus Cristo. (Rom 2, 14-16)

Além disso, o testemunho da própria consciência dita a todos os homens, de maneira clara e irresistível, que é necessário praticar o bem e evitar o mal; que há ações que são más em si mesmas (p.ex., matar um inocente), e outras que são boas ainda que não sejam ordenadas por nenhuma Lei humana (p.ex., honrar pai e mãe). Por essa razão, quando esses claros preceitos da Lei natural são violados, o homem sente arrependimento e vergonha; e, de modo contrário, seu fiel cumprimento o enche de alegria e paz.

Há uma definição precisa do que seria a Liturgia?

Pe. Juan Carlos Iscara, FSSPX

O termo “liturgia” vem do grego leitourgia (λειτος, relativo ao povo, e εργον, obra), indicando um serviço realizado pelo bem comum. Na Grécia Antiga, a palavra designava qualquer serviço prestado à comunidade a custo pessoal, ou, ao menos, sem remuneração. Quando as Escrituras hebraicas foram traduzidas para o grego na Antiguidade, o termo foi usado para designar, também, o culto de Deus (cf. Ex 29, 30, 2Cr 13,10) e, com esse significado, ele adentrou o uso cristão.

Na encíclica Mediator Dei, Pio XII nos deu a definição real: “A Sagrada Liturgia é o culto público que Nosso Redentor, como Cabeça da Igreja, presta ao Pai, bem como o culto que a comunidade dos fiéis presta a seu Fundador e, através d´Ele, ao Pai Celestial”. Essa é uma definição precisa e exaustiva.

Culto é o reconhecimento da excelência suprema de Deus e a expressão da submissão do homem ao Seu domínio absoluto. Enquanto tal, é um ato da virtude da religião, que inclina o homem a dar a Deus a honra e a adoração devidas a Ele enquanto Criador e Governante supremo, bem como fim último de todas as coisas.

Público não se refere ao número de fiéis que vão aos serviços divinos ou à qualidade exterior desses atos, mas ao fato de que o que é dito ou feito representa e afeta todo o corpo dos fiéis, mesmo quando nenhum deles está fisicamente presente.

Nem todos os atos de culto são litúrgicos no sentido estrito, mas apenas aqueles realizados em nome de Cristo e da Igreja. Eles constituem a piedade da Igreja, compreendida nos livros litúrgicos eclesiásticos.

Ações litúrgicas são distintas das devoções não litúrgicas, desenvolvidas em razão das necessidades espirituais dos fiéis e com a permissão da Igreja. A Igreja nunca se opôs a essas devoções, chegando até a apropriar-se delas ao dar-lhes aprovação (p.ex., o terço, as estações da Cruz, etc), mas elas não podem prevalecer contra a Liturgia ou tomar o lugar dela. De qualquer modo, não há nenhuma oposição entre piedade litúrgica e piedade pessoal: práticas devocionais que não estejam diretamente ligadas à Liturgia são altamente louváveis e absolutamente indispensáveis.

Cristo é o principal ministro do culto do Novo Testamento, o Eterno Sumo Sacerdote da nova aliança. Através da Liturgia e como principal ministro, Cristo não apenas rende a honra devida a Deus, mas, ao mesmo tempo e precisamente porque Ele é o Cabeça da Igreja, Ele dá e sustenta a vida sobrenatural nos membros do seu Corpo Místico. Portanto, Cristo está presente em todas as ações litúrgicas, e a obra de redenção é continuada na Liturgia.

Os ritos sagrados têm um fim duplo: dar a honra devida a Deus e a santificação dos homens. A razão última por que a Liturgia santifica os homens é que, através dela, os fiéis entram em contato com o mistério da salvação, que é o mistério de Cristo. O ato pelo qual Ele redimiu o mundo – Sua paixão, morte, ressurreição e ascensão – é tornado presente e operativo nos ritos sagrados da Liturgia, que não é nada além do sacerdócio de Cristo em ação.

A comunidade dos fiéis dá culto público a Deus. O fundamento teológico dessa asserção é o dogma do Corpo Místico de Cristo. O Cabeça desse Corpo é o Sumo Sacerdote e Vítima, Que dá ao Pai Eterno adoração, graças, expiação e impetração e, ao mesmo tempo, santifica e consagra os membros do Corpo e do universo inteiro. A glória de Cristo, agora consumada à mão direita do Pai, reflete-se nos membros individuais.

Com todos os membros sendo governados pela mesma Cabeça, os fiéis não estão sozinhos em sua peregrinação rumo ao reino do céu, mas constituem parte do Corpo, associados naquela sociedade sobrenatural que inclui os vivos e os mortos e cuja cabeça é Cristo.

Apenas a Igreja Católica pode render culto legítimo ao Pai Eterno. Para estar apta a tal, ela recebeu do Filho Encarnado a Missa, a representação do Sacrifício da Cruz, e os Sacramentos, as sete fontes de salvação, que a Igreja, com zelo maternal, adornou com o Ofício Divino e outras devoções.

(The Angelus, Maio 2021)

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