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Category: Garrigou-Lagrange, Réginald , O.P.Conteúdo sindicalizado

A plenitude de graças no instante da Encarnação e depois

Garrigou Lagrange, O.P.

[Nota da Permanência: O texto da semana é a continuação do livro "A Mãe do Salvador e nossa vida interior", do dominicano Garrigou-Lagrange, um dos maiores teólogos do século XX e um grande autor espiritual. A bonita magem que escolhemos para ilustrar esse artigo é de Sano di Pietro, da escola de Siena. A tradução é de Ricardo Bellei] 

 

Neste capítulo falaremos do progresso espiritual de Maria até a Anunciação, do aumento considerável da graça que ocorreu nela no instante da Encarnação e de sua virgindade perpétua; em seguida, do aumento sucessivo da caridade em certas horas mais importantes de sua vida, sobretudo no Calvário; e finalmente da inteligência de Maria, de sua sabedoria, de suas principais virtudes e de seus carismas ou graças denominadas gratis datae, gratuitamente concedidas e em certo modo exteriores, como a profecia e o discernimento de espíritos.

 

   

A plenitude inicial da graça em Maria

 Ave, gratia plena.

(Lc, 1, 28).

 

Depois de termos visto quão sublime é Maria por seu título de Mãe de Deus, razão de todos os privilégios que lhes foram conferidos, convém considerar qual é o significado e o alcance das palavras que lhe foram ditas pelo Arcanjo Gabriel no dia da Anunciação: “Deus te salve, cheia de graça; o Senhor é contigo; bendita és tu entre as mulheres1. Para compreendermos o significado dessas palavras ditas em nome de Deus, consideraremos:

1º, as diferentes plenitudes de graça;

2º, o privilégio da Imaculada Conceição;

3º, a sublimidade da primeira graça em Maria. 

 

 

  1. 1. Lc 1, 28.

A eminente dignidade da maternidade divina

 

Pe. Garrigou-Lagrange, OP

 

As duas grandes verdades que, na doutrina revelada sobre a Virgem Maria, dominam tudo como dois picos e de onde derivam todas as outras, são a Maternidade Divina e a plenitude da graça, afirmadas ambas pelo Evangelho e pelos Concílios.

Para compreender bem sua importância, será bom compará-las, inquirindo qual das duas é a primeira e da qual tudo deriva na Mariologia. O que há de mais grandioso em Maria: sua Maternidade Divina, seu título de Mãe de Deus, ou a plenitude da graça?(Continue a ler)

 

 

 

Pecados de ignorância, fraqueza e malícia

Garrigou Lagrange, O.P.

Espalha-se, em alguns lugares, a opinião de que apenas o pecado de malícia é mortal, e que os pecados de ignorância e fraqueza jamais o são. É importante recordar, acerca deste ponto, o ensinamento da teologia, tal como se encontra formulado por Santo Tomás de Aquino na sua Suma Teológica (Ia-IIae, q. 76, 77, 78).

O pecado de ignorância é o que provém de ignorância voluntária e culpável, chamada ignorância vencível. O pecado de fraqueza é o que provém de forte paixão, que diminui a liberdade e obriga a vontade a dar seu consentimento. Quanto ao pecado de malícia, é o que se comete com plena liberdade “quasi de industria”, com aplicação e frequentemente com premeditação, sem paixão, nem ignorância. Recordemos o que Santo Tomás nos ensina sobre cada um deles. (Continue a ler)

Caridade e bem-aventuranças

 

Garrigou-Lagrange, OP

 

 

Introdução

A perfeição cristã, segundo o testemunho do Evangelho e das Epístolas, consiste especialmente na caridade que nos une a Deus1. Essa virtude corresponde ao maior dos Mandamentos, que é o do amor de Deus. Também foi dito: “quem permanece na caridade, permanece em Deus, e Deus nele2. E ainda: “sobretudo, porém, tende caridade, que é o vínculo da perfeição3.

Os teólogos perguntaram-se sobre se, para alcançar a perfeição propriamente dita, não a dos iniciantes, ou a das almas em progresso, mas a que caracteriza a via unitiva, seria preciso grande caridade, ou se poderia obtê-la sem grau elevado dessa virtude.

Alguns autores4 sustentaram que não seria preciso alto grau de caridade para a perfeição propriamente dita, visto que, segundo Santo Tomás “a caridade, mesmo em grau inferior, é capaz de vencer todas as tentações”5.  (Continue a ler)

  1. 1. Cf. S. Tomás, IIa IIae, q. 184, a. 1.
  2. 2. 1Jo 4, 16.
  3. 3. Cl 3, 14.
  4. 4. Entre eles, é preciso citar Suarez, de Statu perfectionis, 1. 1, c. 4, nº. 11, 12, 20. Essa opinião invocaram alguns que não queriam admitir que a perfeição cristã requer grande caridade e os dons do Espírito Santo em grau proporcional; em outras palavras, que a contemplação infusa procedente da fé viva iluminada pelos dons está na via normal da santidade e é como que o prelúdio normal da visão beatífica.
  5. 5. Cf. III Sent., d. 31, q. 1, a. 3; IIIa q. 62, a. 6, ad 3.

Dever de reparação

Pe. Garrigou-Lagrange, OP

 

“Alter alterius onera portate”.

Levais os fardos uns dos outros

Gl 6.

 

    Tratamos recentemente do dever do reconhecimento, convém falar agora do dever de reparação. A reparação da ofensa feita a Deus é geralmente chamada em teologia de “satisfação”. Os fiéis instruídos costumam conhecer suficientemente bem a doutrina do mérito; porém, é menos conhecida a doutrina da satisfação ou reparação, que, se lembra a do mérito, dela difere, contudo. Os fiéis crêem firmemente que Jesus satisfez por nós em estrita justiça, que a Santíssima Virgem satisfez por nós de uma satisfação de conveniência; mas conhecem menos o lugar que a satisfação deve ocupar nas nossas vidas.

    Lembremos sobre esse ponto os princípios; veremos em seguida como o católico em estado de graça pode satisfazer ou reparar por si e pelo próximo. (Continue a leitura)

A obrigação de buscar a perfeição da caridade

Pe. Garrigou-Lagrange, OP

Estado e dificuldade da questão: não se está tratando da perfeição ínfima, que exclui apenas os pecados mortais, nem tão-somente da perfeição média, que exclui os mortais e os veniais plenamente deliberados, mas da perfeição propriamente dita, que exclui imperfeições deliberadas e atos imperfeitos; logo, não é meramente o convite à perfeição propriamente dita pois, quanto a isso, não há dúvida: todos homens estão convidados à perfeição propriamente dita.

A questão versa sobre a existência de uma obrigação geral de todos católicos tenderem à perfeição da caridade. Não é, contudo, uma obrigação especial, cuja violação seria um pecado especial, como no estado religioso, mas de uma obrigação geral.

A dificuldade surge quando queremos conciliar certas sentenças de Nosso Senhor que, num primeiro momento, parecem contradizer-se.

Por um lado, Cristo aconselha o adolescente rico (Mt 19, 21): “Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, e dá aos pobres... e vem e segue-me”. Estas palavras – “Se queres ser perfeito” – parecem exprimir um conselho, não uma obrigação. Logo, todos os católicos não estão obrigados a buscar a perfeição; aparentemente, somente aqueles que já prometeram seguir os conselhos evangélicos estariam obrigados a buscar a perfeição 1

Por outro lado, declara Cristo a todos (Mt 5, 48): “Sede pois perfeitos, como também vosso Pai celestial é perfeito”.  (continue a ler)

  1. 1. Sobre esta dificuldade, ver Suma Teológica IIa IIae, q. 184, a. 3 ad 1.

Artigo 3: Sofrimentos de Maria corredentora

Como a Virgem Maria satisfez por nós?

A satisfação tem por objeto reparar a ofensa feita a Deus pelo pecado e fazer-nos agradáveis a Ele. Ora, a ofensa proveniente do pecado mortal, pelo qual a criatura dotada de racionalidade afasta-se de Deus e prefere um bem criado a Ele, tem uma gravidade infinita. A ofensa, com efeito, é tanto mais grave quanto mais elevada é a dignidade da pessoa ofendida, e o pecado mortal, ao nos afastar de Deus, nosso fim último, nega praticamente a Deus a dignidade infinita de soberano bem e destrói seu reino em nós.

Segue-se disso que somente o Verbo feito carne podia oferecer a Deus uma satisfação perfeita ou adequada à ofensa que decorre do pecado mortal 1. Para ser uma satisfação perfeita, era necessário que o amor e a oblação do Salvador agradassem a Deus tanto ou mais quanto Lhe desagradaram todos os pecados reunidos, como diz Santo Tomás 2. Isso acontecia com todos os atos de caridade de Cristo, pois tomavam da pessoa divina do Verbo um valor infinito tanto para satisfazer como para merecer. A obra meritória torna-se satisfatória ou reparadora e expiatória quando tem algo de aflitivo ou penoso, e Jesus, ao oferecer sua vida em meio aos maiores sofrimentos físicos e morais, ofereceu desde então a seu Pai uma satisfação de valor infinito e superabundante. Só Ele podia assim satisfazer plenamente e em estrita justiça, pois o valor da satisfação, assim como o do mérito, provém da excelência da pessoa que, em Jesus, tem uma dignidade infinita.

Mas à satisfação perfeita do Salvador pôde unir-se uma satisfação de conveniência, assim como se acrescentou ao seu mérito um mérito de conveniência. É necessário insistir nisso para melhor ver qual foi a profundidade e a extensão dos sofrimentos da Santíssima Virgem.

 

Maria ofereceu por nós uma satisfação de conveniência do mais alto valor, depois da satisfação de seu Filho

O mérito torna-se o fundamento da satisfação quando a obra meritória adquire um caráter aflitivo. Assim, depois dos princípios expostos no artigo precedente, os teólogos ensinam comumente esta proposição: Beata Maria Virgo satisfecit de congruo ubi Christus de condigno; Maria ofereceu para nós uma satisfação de conveniência, enquanto Jesus satisfez por nós em estrita justiça.

Em sua qualidade de Mãe de Deus Redentor, ela esteve de fato unida a Cristo por uma perfeita conformidade de vontade, pela humildade, pobreza, sofrimento e lágrimas, sobretudo no Calvário; e, nesse sentido, ela satisfez com Ele, e essa satisfação de conveniência adquire um valor inestimável de sua eminente dignidade de Mãe de Deus, da perfeição de sua caridade, do fato de que Maria não tinha nada a expiar, e da intensidade de seus sofrimentos.

Isso é o que dizem os Santos Padres quando falam de “Maria ao pé da Cruz”, como o afirma São João 3; eles recordam as palavras do velho Simeão: “Uma espada de dor transpassará a tua alma4, e nos mostram que Maria sofreu na medida de seu amor a seu Filho crucificado por causa dos nossos pecados, e também em proporção à crueldade dos verdugos e da atrocidade do suplício infligido Àquele que era a própria inocência 5.

A liturgia diz também, há muitos séculos, que Maria mereceu o título de Rainha dos Mártires pelo martírio do coração, o mais doloroso de todos; isso é o que indicam as festas da Compaixão da Santíssima Virgem (Sexta-feira Santa), de Nossa Senhora das Sete Dores e o Stabat Mater.

O Papa Leão XIII resume essa doutrina ao dizer que Maria esteve associada a Cristo na obra dolorosa da redenção do gênero humano 6.

O Papa Pio X chama a Virgem de “reparadora do mundo caído” 7 e mostra como ela esteve unida ao sacerdócio de seu Filho: “Não só porque consentiu em ser a Mãe do Filho Unigênito de Deus para tornar possível um sacrifício destinado à salvação dos homens; mas a glória de Maria consiste também em ter aceitado a missão de proteger e alimentar o Cordeiro destinado ao sacrifício e, tendo chegado o momento, de conduzi-lo ao altar da imolação. Desse modo, a comunhão de vida e de sofrimentos de Maria e de seu Filho não foi jamais interrompida. A ela, assim como a seu Filho, aplicaram-se de forma similar as palavras do profeta: “A minha vida vai se consumindo com a dor e os meus anos com os gemidos8.

O Papa Bento XV ensina enfim: “Ao unir-se à Paixão e à morte de seu Filho, Maria sofreu semelhante morte... para aplacar a justiça divina; e naquilo que estava a seu alcance, imolou seu Filho, de forma que se pode dizer que resgatou o gênero humano juntamente com Ele 9. Isso equivale a chamá-la Corredentora 10.

 

A profundidade e a fecundidade dos sofrimentos de Maria Corredentora

O caráter de satisfação ou expiação dos sofrimentos da Santíssima Virgem provém de que, assim como Nosso Senhor e com Ele, também ela sofreu pelo pecado ou pela ofensa feita a Deus. E sofreu na medida de seu amor para Deus ofendido, de seu amor para seu Filho crucificado por causa das nossas faltas, e de seu amor por nossas almas, que o pecado desfigura e faz morrer. Essa medida foi, portanto, a da plenitude de graça e de caridade, que a partir do instante de sua concepção imaculada superava a graça final de todos os santos reunidos, e que não tinha deixado de crescer desde então. Considerando apenas seus atos mais fáceis e simples, Maria merecia mais que os mártires em seus tormentos, porque punha naqueles muitíssimo mais amor. Qual não foi então o preço de seus sofrimentos ao pé da Cruz, pressuposto o conhecimento que recebeu do mistério da Redenção!

Na luz sobrenatural que esclarecia sua inteligência, a Virgem compreendia que todas as almas são chamadas a cantar a glória de Deus, incomparavelmente mais que as estrelas do céu. Cada alma deveria ser como um reflexo da divindade, um reflexo espiritual pleno de conhecimento e de amor, uma vez que nossa inteligência foi feita para conhecer a Deus e nosso coração para amá-Lo. Mas, enquanto que os astros seguem regularmente o caminho fixado pela Providência e cantam a glória do Criador, milhares de almas, cada uma das quais valendo um mundo, desviam-se de Deus. No lugar desse reflexo de Deus, dessa glória exterior do Altíssimo ou do seu reino, encontram-se em inúmeros corações as três chagas chamadas por São João a concupiscência da carne, como se não houvesse outro amor apetecível além do amor carnal; a concupiscência dos olhos, como se não houvesse outra glória além daquela da fortuna e das honras; e o orgulho da vida, como se Deus não existisse, não fosse nosso Criador e Senhor, nem nosso fim último; como se não houvesse outro fim além nós mesmos.

A Santíssima Virgem via esse mal nas almas como nós vemos as chagas purulentas num corpo doente. E a plenitude de graça, que não havia cessado de crescer em Maria, aumentava consideravelmente nela a capacidade de sofrer pelo maior dos males, o pecado, uma vez que se sofre mais quanto mais se ama a Deus, a quem o pecado ofende, e as almas, a quem o pecado mortal afasta de seu fim tornando-as dignas de uma morte eterna.

Maria observava, sobretudo, sem o menor erro e ilusão possíveis, como se ia preparando e consumando o maior dos crimes, o deicídio, e via também o paroxismo do ódio contra Aquele que é a própria Luz e o Autor da salvação.

Para compreender um pouco o que foram os sofrimentos de Maria, deve-se pensar em seu amor natural e sobrenatural ― teologal ― pelo seu Filho Unigênito, não só querido, mas legitimamente adorado, a quem ela amava muito mais que a sua própria vida, uma vez que era seu Deus. Ela o havia milagrosamente concebido e amava-o com um coração de Virgem ― o mais puro, terno e pleno de caridade que jamais existiu.

Também não ignorava nenhuma das causas da crucificação; nem as causas humanas: a obstinação dos judeus, o povo escolhido, seu próprio povo; nem as causas superiores: a redenção das almas pecadoras. Pode-se vislumbrar dessa forma a profundidade e a extensão dos sofrimentos de Maria Corredentora.

Se Abraão sofreu heroicamente ao preparar-se para imolar seu filho, esse sofrimento não durou mais que algumas horas, e um anjo desceu do Céu para impedir a imolação de Isaac. Ao contrário, desde o momento em que o velho Simeão predisse à Maria a Paixão de seu Filho, já claramente anunciada por Isaías, e sua própria Paixão, nunca deixou de oferecer Aquele que devia ser Sacerdote e vítima, e oferecer-se com Ele. Essa oblação dolorosa durou não somente algumas horas, mas anos, e se um anjo desceu do Céu para impedir a imolação de Isaac, nenhum desceu para impedir a de Jesus.

*

*   *

Bossuet, em seu sermão sobre a Compaixão da Santíssima Virgem, diz soberbamente: “Foi vontade do Pai Eterno que Maria não só fosse imolada com essa vítima inocente, e cravada na Cruz do Salvador com os mesmos cravos que O perfuraram, mas que também fosse associada a todo o mistério que se cumpriu por sua morte...

“(...) Três coisas concorrem juntamente ao sacrifício de nosso Salvador e constituem a sua perfeição. Em primeiro lugar, os sofrimentos pelos quais a sua humanidade ficou literalmente triturada; em segundo, a resignação pela qual se submeteu humildemente à vontade de seu Pai (oferecendo-se a Ele); e, em terceiro, a fecundidade pela qual nos gera a graça e nos dá a vida com sua morte. Sofre como a vítima que deve ser destruída e ferida de golpes; submete-se como o sacerdote que deve sacrificar voluntariamente: voluntarie sacrificabo tibi ― eu te oferecerei um sacrifício voluntário 11; finalmente, gera-nos por meio do sofrimento, como o Pai de um povo novo, que dá à luz por suas feridas; eis aqui as três coisas sublimes que o Filho de Deus realizou na Cruz...

“Maria coloca-se ao lado da Cruz; com que olhos observa seu Filho todo ensangüentado, coberto de chagas e que não tem mais a figura de homem! Essa visão causa-lhe a morte; se ela se aproxima do altar, é porque quer ser imolada também, e ali, com efeito, sente o golpe da espada cortante que, segundo a profecia do bom Simeão, deveria... abrir seu coração maternal com feridas crudelíssimas...

“Mas a dor a abateu? Prostrou-a por terra desfalecida? Ao contrário, Stabat juxta crucem: estava de pé junto à Cruz. Não, a espada que atravessou seu coração não pôde diminuir suas forças: a constância e a aflição estão em uníssono, e ela atesta por sua constância que não estava menos submissa que afligida.

“O que resta, pois, caros cristãos, senão que seu Filho amado, que lhe fez sentir seus sofrimentos e imitar sua resignação, comunique-lhe também sua fecundidade? E é também nesse pensamento que Cristo lhe deu São João por seu filho... Mulier, ecce filius tuus 12: ‘Mulher ― disse Ele ― eis o teu filho’. Ó mulher, que sofres comigo, sê fecunda também comigo, sê a mãe dos meus filhos; Eu vos entrego sem reservas, na pessoa deste único discípulo; Eu os gero por minhas dores, e como saboreais as amarguras comigo, também terás a eficácia, e vossa aflição vos tornará fecunda” 13.

No mesmo sermão, Bossuet desenvolve esses três grandes pensamentos, demonstrando que o amor de Maria por seu Filho crucificado bastava para seu martírio: Não é necessário mais que uma única cruz para seu Filho amado e para ela; está cravada pelo seu amor por Jesus, que a faz sentir todos os seus sofrimentos físicos e morais, muito mais que o podem sentir os estigmatizados. Sem um auxílio excepcional, ela teria verdadeiramente morrido naquela hora.

Uma grande dor é como um mar enfurecido; pessoas houve que se tornaram loucas pela dor, mas Jesus subjugou as águas, e da mesma maneira que conserva a paz na Cruz no meio da tempestade, Ele também dá forças à sua Mãe para que a conserve.

Maria, finalmente, que deu à luz seu Filho sem o mínimo de dor, dá à luz os cristãos em meio aos maiores tormentos.A que preço os resgatou! continua Bossuet. Foi necessário que entregasse o seu Unigênito; ela não pode ser a Mãe dos cristãos sem que entregue à morte o seu Filho muitíssimo amado. Ó fecundidade dolorosa!... Era essa a vontade do Pai Eterno: fazer nascer os filhos adotivos pela morte do Filho verdadeiro... Entrega o seu próprio Filho à morte para que nasçam os adotivos. Quem adotaria a esse preço um filho para entregá-lo a estranhos? Pois isso foi, não obstante, o que fez o Pai Eterno... O próprio Jesus nos diz: “de tal modo Deus amou o mundo que lhe deu seu Filho único 14.

“(Maria igualmente) é a Eva da Nova Aliança e a Mãe comum de todos os fiéis; mas é preciso que lhe custe a morte de seu Primogênito; é necessário que se una ao Pai Eterno e que entreguem livremente seu Filho de comum acordo ao suplício. Por isso a Providência chamou-a ao pé da Cruz; veio até ali para imolar o seu Filho verdadeiro, para que os homens vivam... Tornou-se a Mãe dos cristãos pela força de uma aflição incomensurável”. O cristão deve recordar isso sempre, e encontrará aí o motivo de um verdadeiro arrependimento de suas faltas. A regeneração das nossas almas custou a Nosso Senhor e à sua Mãe Santíssima mais do que poderíamos imaginar.

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*   *

Devemos dizer, para concluir, que Maria Corredentora deu-nos à luz ao pé da Cruz de Nosso Senhor, mediante o maior ato de fé, de esperança e de amor que ela podia realizar em semelhante momento.

Pode-se mesmo dizer que esse ato de fé foi o maior que já existiu, pois Jesus não tinha fé, mas a visão beatífica que todavia conservava no Calvário. Nessa hora de escuridão, que foi chamada de ‘a hora das trevas’, quando a fé dos próprios Apóstolos parecia vacilar, quando Jesus parecia completamente derrotado e sua obra aniquilada para sempre, quando até o próprio Céu parecia não responder às suas súplicas, Maria não cessou nem por um instante de crer que seu Filho era o Salvador da humanidade e que ao terceiro dia ressuscitaria como havia anunciado. Quando Cristo pronunciou suas últimas palavras: Tudo está consumado, na plenitude de sua fé Maria compreendeu que a obra da salvação estava cumprida pela mais dolorosa imolação, que todas as Missas recordarão até o fim do mundo. Jesus tinha instituído, na véspera, esse sacrifício eucarístico e o sacerdócio cristão, e entreviu o resplendor infinito do sacrifício da Cruz. Maria compreendeu que seu Filho agonizante era verdadeiramente “o Cordeiro que tira os pecados do mundo, o vencedor do pecado e do demônio e que, em três dias, seria o vencedor da morte, conseqüência do pecado. Ela viu a intervenção suprema de Deus ali onde os mais crentes vêem apenas trevas e desolação. É seguramente o maior ato de fé que já existiu numa criatura; uma fé muito superior à dos próprios anjos quando estavam em vias de prova.

Foi também para ela o ato supremo de esperança no momento em que tudo parecia desesperado. Compreendeu todo o sentido das palavras dirigidas ao bom ladrão: “Hoje estarás comigo no paraíso”; o Céu abrir-se-ia para os eleitos.

Foi enfim, para Maria, o ato mais intenso de caridade: amar a Deus até o ponto de oferecer-Lhe seu Filho único e inocente, em meio às piores torturas; amar a Deus acima de tudo no momento em que, por nossas faltas, foi golpeada por Ele em sua afeição mais profunda e mais elevada, no objeto próprio de sua legítima adoração; amar as almas até o ponto de entregar por elas seu próprio Filho.

Sem dúvida, as virtudes teologais cresceram ainda em Maria até o momento da sua morte, pois esses atos de fé, esperança e caridade, longe de serem interrompidos, continuaram nela como em um estado ou hábito. Pode-se dizer que na calma tomaram até maior amplitude, como um rio que após a turbulência nas passagens mais difíceis e tortuosas de seu percurso torna-se mais e mais poderoso e majestoso até que se lança ao oceano.

A Teologia destaca aqui que o sacrifício de Maria ao pé da Cruz iguala o mérito; ambos são de um valor inestimável e sua fecundidade supera nesse ponto sem atingir a de Jesus Cristo ― a tudo o que poderíamos imaginar 15. Isso é o que os teólogos exprimem quando dizem que Maria satisfez por nós com uma satisfação de conveniência fundada em sua imensa caridade, assim como Jesus satisfez em estrita justiça para nossa salvação.

Os santos que têm sido mais associados aos tormentos do Salvador não penetraram tanto quanto Maria nas últimas profundezas da Paixão. Santa Catarina de Ricci teve todas as sextas-feiras, por 12 anos, um êxtase de dor que durava 28 horas e durante o qual revivia todos os sofrimentos da Via Crucis. Mas esses sofrimentos de Santa Catarina de Ricci e de outros estigmatizados foram apenas uma pálida sombra e não se aproximaram dos da Virgem. Todos os tormentos do Sagrado Coração de Jesus repercutiam no Coração de Maria, que teria morrido por semelhante tortura se não tivesse sido sobrenaturalmente sustentada por um auxílio excepcional. Tornou-se assim a Consoladora dos aflitos, pois sofreu muito mais que eles; a Padroeira da boa morte; e não podemos certamente suspeitar quão fecundos têm sido esses sofrimentos depois de vinte séculos.

 

A participação de Maria Corredentora no sacerdócio de Cristo

Se Maria pode ser chamada Corredentora no sentido que acabamos de explicar, não poderíamos dizer que ela é sacerdote no sentido próprio da palavra, pois não recebeu o caráter sacerdotal e não podia consagrar a Eucaristia nem dar a absolvição sacramental. Mas, como vimos ao falar da Maternidade Divina, esta é superior ao sacerdócio dos padres de Cristo, no sentido em que é mais perfeito dar a Nosso Senhor sua natureza humana que tornar presente seu Corpo na Eucaristia. Maria deu-nos o Sacerdote do sacrifício da Cruz, o Sumo sacerdote do sacrifício da Missa e a Vítima oferecida em nossos altares.

É também mais perfeito oferecer seu Filho único e seu Deus na Cruz ― oferecendo-se com Ele nos maiores tormentos ― que tornar presente o Corpo de Nosso Senhor e oferecê-lo no altar, como o faz o sacerdote durante o sacrifício da Missa.

Deve-se dizer como afirmava recentemente um bom teólogo que estudou durante anos essas questões: “É uma conclusão teológica certa que Maria cooperou, de certa maneira, no ato principal do sacerdócio de Jesus Cristo, dando, como exigia o plano divino, seu consentimento ao sacrifício da Cruz tal qual foi cumprido por Jesus Cristo”. “Não considerando mais que certos efeitos imediatos da ação do sacerdote, como a consagração eucarística ou o perdão dos pecados pelo sacramento da penitência, é certo que o sacerdote pode cumprir atos que Maria não poderia jamais realizar, pois não tinha o poder sacerdotal. Mas não se trata aqui de comparação de dignidades, apenas de efeitos particulares provenientes de um poder que a Virgem Maria não tinha, mas que não supõem uma dignidade superior” 16.

Se Maria não pode ser chamada “sacerdote” no sentido próprio da palavra, pelo fato de não ter recebido o caráter sacerdotal, e não pode realizar os atos próprios deste, sempre permanece, como diz M. Olier “que ela recebeu a plenitude do espírito do sacerdócio, que é o espírito de Cristo Redentor”. Por isso lhe é dado o título de Corredentora, que, assim como o título de Mãe de Deus, supera a dignidade conferida pelo sacerdócio cristão 17.

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*   *

A participação de Maria na imolação e na oblação de Jesus Sacerdote e Vítima não poderia ter sido melhor expressa que pelo Stabat do franciscano Jacopone da Todi (1228-1306).

Essa seqüência manifesta de uma maneira singularmente impressionante como a contemplação sobrenatural do mistério de Cristo crucificado concilia-se com os caminhos normais de santidade. Tem formas precisas, fervorosas e esplêndidas para expressar a ferida do Coração do Salvador e mostrar-nos a influência tão íntima e penetrante de Maria para conduzir-nos a Ele. A Santíssima Virgem não só nos conduz para essa divina intimidade, mas também, em certo sentido, a faz em nós; isso é o que nos diz nestas estrofes a repetição admirável da palavra Fac, expressão da súplica fervorosa.

É a súplica da alma que, sob uma inspiração especial, quer também conhecer espiritualmente a ferida do amor e estar associada aos dolorosos mistérios da adoração reparadora como o estiveram, depois de Maria, São João e as santas mulheres no Calvário, e também São Pedro quando derramou abundantes lágrimas.

Essas são as lágrimas da adoração e da contrição pedidas pelo poeta no final do Stabat.

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Maria exerceu na Terra, portanto, sua mediação universal, merecendo para nós por um mérito de conveniência tudo o que Jesus Cristo nos mereceu em estrita justiça, e também oferecendo para nós uma satisfação de conveniência fundada sobre sua imensa caridade, enquanto Nosso Senhor satisfazia em justiça por todas as nossas faltas e nos reconciliava com Deus. Para Jesus e para sua Santíssima Mãe, essa mediação universal exercida durante suas vidas terrenas é o fundamento da mediação que exercem no alto do Céu, e da qual devemos falar agora.

  1. 1. É mais fácil destruir que reedificar. A ofensa proveniente do pecado mortal tem uma gravidade infinita porque nega a Deus praticamente uma perfeição infinita, enquanto que o nosso amor a Deus tem apenas um valor finito, permanece limitado e finito da parte da pessoa que é o seu princípio. Nossas negações a respeito de Deus vão mais longe e têm mais alcance que nossas afirmações; ademais, uma ofensa grave feita a Deus destrói em nós a vida da graça e da caridade, e quando a perdemos não podemos devolvê-la a nós mesmos.
  2. 2. IIIª, q. 1, a. 2, ad 2, et q. 48, a. 2.
  3. 3. Jo 19, 25.
  4. 4. Lc 2, 35.
  5. 5. Cf. santo efrém, Oratio ad Virg., edic. Venecia, t. III, p. 195; santo ambrósio, De Instit. Virg., c. 7, Epist. 25 ad Eccles. Vercell.; são bernardo, Sermo de Passione, Sermo de duodecim stellis, Sermo Dom. infra Oct. Ass.; santo alberto magno, Mariale, q. 42; são boaventura, Sermo de B. V.; são lorenzo justiniano, Sermo de nativ. Virg.
  6. 6. Encíclica Jucunda semper, de 8 de setembro de 1894: “Consors cum Christo existit laboriosae pro humano genere expiationis”.
  7. 7. Encíclica Ad diem illum, de 2 de fevereiro de 1904: Reparatrix perditi orbis.
  8. 8. Ibidem.
  9. 9. Carta Inter Sodalicia: Ita cum Filio patiente et moriente passa est et poene commortua, sic materna in Filium jura pro hominum salute abdicavit, placandaeque Dei justitiae, quantum ad se pertinebat, Filium immolavit, ut dici merito queat, ipsam cum Christo humanum genus redemisse”.
  10. 10. Cf. denzinger, nº 3034, n. 4, onde é citado o texto de Bento XV. No mesmo lugar, indica-se que Pio XI (Litt. Apost., 02 de fevereiro de 1923) escreveu também: “Virgo perdolens redemptionis opus Jesu Christo participavit, e um decreto do Santo Ofício elogiou “o costume de adicionar ao nome de Jesus o nome de Maria, nossa Corredentora, a bem-aventurada Virgem Maria”, “nomem Matris suae, corredemptricis nostrae beatae Mariae. Finalmente, essa mesma Congregação indulgenciou a oração na qual Maria é chamada de “Corredentora da humanidade” (22 de janeiro de 1914).

    Dict cf. Théol. cath., art. Marie, col. 2396: “Não existe nenhuma séria dificuldade em servir-se da palavra Corredentora, significando uma simples cooperação com a Redenção de Jesus Cristo e tendo recebido depois de muitos séculos na linguagem teológica o significado muito concreto de uma cooperação secundária e dependente, de acordo com os testemunhos citados anteriormente, com a condição que se tenha o cuidado de acompanhá-la de algumas expressões indicadoras de que o papel de Maria, nessa cooperação, é um papel ou função secundária e dependente”.

  11. 11. Sl 53, 8.
  12. 12. Jo 19, 26.
  13. 13. Esse é o exórdio do sermão e nele são desenvolvidos esses três pontos
  14. 14. Jo 3, 16.
  15. 15. Tal é o caso de uma assíntota ou linha reta que, prolongada indefinidamente, aproxima-se continuamente de uma curva sem nunca tocá-la. Os lados de um polígono inscrito numa circunferência, igualmente, podem ser multiplicados cada vez mais, sem nunca atingi-la. Assim, as forças desconhecidas da natureza produzem efeitos que a ciência vai descobrindo incessantemente, como descobriu recentemente os efeitos do rádio, mas nunca essas forças naturais poderão produzir os efeitos próprios de Deus, como a criação propriamente dita ex nihilo ou a ressurreição de um morto.
  16. 16. E. dublanchy, Dict. Théol. cath., art. Marie, col. 2396, 2366.
  17. 17. Ibid, col. 2365.

Artigo 2: Os méritos de Maria para nós

Natureza e extensão desses méritos

Não é somente no Céu que a Santíssima Virgem exerce suas funções de Medianeira universal pela intercessão e distribuição de todas as graças; ela as exerceu já sobre a Terra, segundo a expressão comum, “pela aquisição dessas graças”, cooperando com a nossa redenção pelo mérito e pela satisfação. Nisso esteve associada a Nosso Senhor, que foi inicialmente mediador durante sua vida terrena, sobretudo pelo sacrifício da Cruz. Essa associação é também o fundamento da mediação que Ele exerce no Céu, pela intercessão de Maria, para nos aplicar os frutos da redenção que Ele nos transmite. Vejamos qual é o ensinamento comum dos teólogos sobre os méritos de Maria para nós, partindo dos próprios princípios da teologia sobre os diferentes gêneros de mérito.

 

Três gêneros de mérito propriamente dito

O mérito em geral é um direito a uma recompensa; ele não a produz, mas a obtém; o ato meritório confere direito. O mérito sobrenatural que pressupõe o estado de graça e a caridade é um direito a uma recompensa sobrenatural. Distingue-se da satisfação, que tem por objetivo reparar, pela expiação, a ofensa cometida pelo pecado à majestade infinita de Deus e torná-lo favorável a nós. O mérito, que pressupõe o estado de graça, distingue-se também da oração que, por uma graça atual, pode existir no homem em estado de pecado mortal, e que se dirige não à justiça divina, mas à misericórdia. Até mesmo no justo, ademais, a força impetratória da oração distingue-se do mérito, e por isso a oração consegue obter graças que não podem ser merecidas, como a da perseverança final, que é a continuação do estado de graça no momento da morte.

Mas é preciso distinguir três gêneros de mérito propriamente dito. 

Existe primeiro, em sumo grau em Cristo, o mérito perfeitamente digno de sua recompensa, ou mérito perfeito de condigno, porque o valor da obra ou do ato de caridade teândrica, que na alma de Jesus procede da divina pessoa do Verbo, iguala ao menos o valor da retribuição em estrita justiça. Os atos meritórios de Cristo que eram, em sua santa alma, atos de caridade ou inspirados por ela, têm um valor infinito e superabundante em virtude da pessoa do Verbo da qual derivam. E Ele pôde, em estrita justiça, merecer por nós as graças da salvação, porque foi constituído Cabeça da humanidade, pela plenitude de graça que devia derramar sobre nós para nossa salvação.

Em segundo lugar, é de fé1 que todo justo ou toda pessoa em estado de graça que tem o uso da razão e do livre arbítrio, e que está ainda em estado de viator, pode merecer o aumento da caridade e a vida eterna por um mérito real, comumente chamado mérito de condigno, porque é digno de sua recompensa. Não significa que o mérito do justo esteja em pé de igualdade com a recompensa, como no Cristo, mas que ele lhe é proporcional, enquanto procedendo da graça habitual, germe da vida eterna prometida por Deus àqueles que observam os Seus mandamentos. Esse mérito de condigno tem, todavia, um direito à recompensa em justiça distributiva, ainda que não seja, segundo todo o rigor da justiça, como o de Cristo. Por isso a vida eterna é chamada de coroa de justiça 2, uma retribuição que se deve fazer à obra realizada 3, a recompensa de um trabalho que a justiça divina não pode esquecer 4.

Mas o justo não pode merecer por um mérito de condigno baseado na justiça, a graça para um outro homem, a conversão de um pecador ou o aumento da caridade em outra pessoa; a razão é que não foi constituído cabeça da humanidade para regenerá-la e conduzi-la à salvação; isso pertence apenas a Cristo 5. Em outros termos, o mérito de condigno dos justos, e mesmo o mérito da Virgem Maria, contrariamente ao de Cristo, é incomunicável.

Não obstante, todo justo pode merecer a graça para os outros por um mérito de conveniência, de congruo proprie, que está fundado não na justiça, mas na caridade ou amizade que o une a Deus; os teólogos dizem que está fundado nos direitos da amizade, in jure amicabili. Santo Tomás o explica dizendo: “Pois o homem, constituído em graça, cumprindo a vontade de Deus, é congruente que Deus, por uma amizade proporcional, cumpra a vontade de um relativa à salvação de outro. Embora, às vezes, possa advir impedimento por parte daquele a quem esse justo desejava a justificação”, de tal modo que não se converterá de fato6. Em outros termos: se o justo cumpre a vontade de Deus, seu amigo, convém, segundo os direitos de amizade, que Deus, seu amigo, cumpra o desejo de seu bom servidor. Assim, uma boa mãe cristã pode, por suas boas obras, por seu amor a Deus e ao próximo, merecer de congruo proprie, com um mérito de conveniência, a conversão de seu filho; assim Santa Mônica obteve a conversão de Santo Agostinho, não somente por suas orações dirigidas à infinita Misericórdia, mas por esse gênero de mérito: “O filho de tantas lágrimas ― disse-lhe Santo Ambrósio ― não poderia perecer”.

Vemos aqui o que deve ser o mérito de Maria para nós; deve-se notar a esse respeito que esse terceiro gênero de mérito, chamado de congruo proprie, ou de conveniência, é também um mérito propriamente dito, baseado in jure amicabili, sobre os direitos da amizade divina, que pressupõe o estado de graça.

A razão é que a noção de mérito não é unívoca ou suscetível de ser tomada num só sentido, mas é análoga, ou seja, tem sentidos diversos, mas proporcionalmente semelhantes, que são ainda sentidos próprios e não somente metafóricos ou em sentido lato, da mesma maneira que a sabedoria dos santos, sem ser a de Deus, é também e em sentido próprio, uma verdadeira sabedoria; igualmente a sensação, sem ser um conhecimento intelectual, é, em sentido próprio, um verdadeiro conhecimento em sua ordem.

Assim, abaixo dos méritos infinitos de Cristo, que apenas em estrita justiça pôde nos merecer a salvação, abaixo do mérito de condigno do justo para si mesmo, que lhe dá o direito em justiça a um aumento da caridade e (se morre em estado de graça) para a vida eterna, existe o mérito de conveniência de congruo proprie, baseado nos direitos da amizade, que é ainda um mérito propriamente dito e que pressupõe o estado de graça e a caridade 7.

Há ainda um mérito impropriamente dito, que é aquele que se encontra na oração de um homem em estado de pecado mortal, oração que tem um valor impetratório e que se dirige não à justiça de Deus, mas à sua misericórdia, e que se funda não nos direitos da amizade divina de caridade, mas na graça atual que o leva a rezar. Esse último mérito é chamado de conveniência em sentido lato somente, de congruo improprie, não sendo um mérito propriamente dito.

Tais são, pois, os três gêneros de mérito propriamente dito: o de Jesus Cristo para nós, o do justo para si mesmo e o do justo para outro homem.

 

O mérito propriamente dito de conveniência de Maria para nós

Se tal é o ensino geral dos teólogos sobre os diferentes gêneros de mérito, se Santa Monica pôde merecer, propriamente falando, com um mérito de conveniência, de congruo proprie, a conversão de Agostinho, como a Santíssima Virgem, Mãe de todos os homens, pôde merecer por nós? Apresentada assim a questão à luz dos princípios já enunciados, é mister resolvê-la.

Não é, pois, de admirar que a partir sobretudo do século XVI, os teólogos ensinem comumente de forma explícita que isso que Cristo nos mereceu de condigno, a Santíssima Virgem nos mereceu por um mérito de conveniência, de congruo proprie.

Esse ensinamento foi explicitamente formulado por Suárez, que demonstra, pelos múltiplos testemunhos da Tradição, que Maria, embora não nos tenha nada merecido de condigno, porque não foi constituída cabeça da Igreja, cooperou, no entanto, para nossa salvação pelo mérito de conveniência, ou de congruo 8. João de Cartagena 9, Novatov, Cristóvão de Veja 10, Teófilo de Raynaud 11 e Jorge de Rhodes 12 reproduzem essa mesma doutrina.

O mesmo ensinamento é comumente dado pelos teólogos posteriores, notadamente nos séculos XIX e XX, como Ventura, Scheeben, Terrien, Billot, Lepicier, Campana, Hugon, Bittremieux, Merkelbach, Friethoff e todos os que têm escrito nos últimos anos sobre a mediação universal da Santíssima Virgem.

Finalmente, o Papa Pio X, na encíclica Ad diem illum, de 2 de fevereiro de 1904, diz: “Maria... porque supera todas as outras criaturas pela santidade e união a Cristo, e porque foi associada por Ele à obra de nossa salvação, nos mereceu por um mérito de conveniência, de congruo, como dizem, o que Ele mesmo nos mereceu por um mérito de condigno, e ela é a principal tesoureira das graças que são distribuídas” 13..

Como se observa14, há uma dupla diferença entre o mérito de conveniência de Maria e o nosso: a Santíssima Virgem pôde assim nos merecer não apenas algumas graças, mas todas e cada uma delas, e não só nos mereceu a aplicação, mas a aquisição, porque esteve unida a Cristo Redentor no ato mesmo da redenção aqui na Terra, antes de interceder por nós no Céu.

Essa conclusão, tal como foi aprovada pelo Papa Pio X, é simplesmente a aplicação à Maria da doutrina comumente admitida sobre as condições do mérito de conveniência, de congruo proprie, fundado in jure amicabili, na amizade que une o justo com Deus. Portanto, certos teólogos consideram essa conclusão como moralmente certa, outros como uma verdadeira conclusão teológica inteiramente certa, e outros até como uma verdade formal e implicitamente revelada e definível como dogma. É ao menos, pensamos, uma conclusão teológica certa. Voltaremos a esse assunto no cap. III, art. III.

 

Qual é a extensão desse mérito de conveniência de Maria para nós?

Como a Virgem tem sido associada à totalidade da obra redentora de Cristo, e como os teólogos que acabamos de citar dizem geralmente que tudo o que Cristo nos mereceu de condigno Maria nos mereceu de congruo, e como, enfim, o Papa Pio X, ao sancionar essa doutrina, não colocou nenhuma restrição, bastará recordar o que Cristo nos mereceu 15.

Jesus nos mereceu em justiça todas as graças suficientes necessárias para que todos os homens possam realmente observar os preceitos, ainda que não os observem de fato 16, todas as graças eficazes com seu efeito conseqüente, ou seja, que alcançam o cumprimento efetivo da vontade divina e, finalmente, mereceu para os eleitos todos os efeitos da sua predestinação: a vocação cristã, a justificação, a perseverança final e a glorificação ou a vida eterna 17.

Segue-se daqui que Maria nos mereceu por um mérito de conveniência todas essas graças, e que no Céu pede a aplicação das mesmas e as distribui 18.

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Tudo isso nos mostra em que sentido tão elevado, tão íntimo e tão extenso Maria é nossa Mãe espiritual, a Mãe de todos os homens, e, por conseguinte, quanto deve velar pelos que não só a invocam às vezes, mas que se consagram a ela, para serem conduzidos por ela à intimidade de Cristo, como explicou admiravelmente São Luís Grignion de Montfort 19: “Maria é necessária aos homens para chegarem ao seu fim último”. A devoção à Virgem não é, pois, superrogatória, como a que se pode ter por este ou aquele santo; ela é necessária e, quando verdadeira, fiel e perseverante, é um sinal de predestinação. Essa devoção “é ainda mais [necessária] para aqueles que são chamados a uma perfeição particular; nem creio ― diz São Luís ― que uma pessoa possa adquirir uma união íntima com Nosso Senhor e uma perfeita fidelidade ao Espírito Santo, sem uma grande união com a Santíssima Virgem e uma grande dependência de seu socorro... Disse ― acrescenta ― que isso aconteceria particularmente no fim do mundo... porque o Altíssimo e Sua Santa Mãe devem suscitar grandes santos... Essas grandes almas, cheias de graça e de zelo, serão escolhidas em contraposição aos inimigos de Deus a borbulhar em todos os cantos, e elas serão especialmente devotas da Santíssima Virgem, esclarecidas por sua luz, alimentadas de seu leite, conduzidas por seu espírito, sustentadas por seu braço e guardadas sob sua proteção, de tal modo que combaterão com uma das mãos e edificarão com a outra... Isso lhes há de atrair inimigos sem conta, mas também vitórias inumeráveis e glória para o único Deus”.

Essa sublime doutrina espiritual, cujos frutos veremos pouco a pouco, aparece a partir do cume da contemplação e da união íntima com Deus como a conseqüência natural dessa verdade admitida por todos os teólogos e afirmada hoje em todas as suas obras: Maria nos mereceu por um mérito de conveniência tudo o que Nosso Senhor nos mereceu em estrita justiça e, em particular para os eleitos, os efeitos de sua predestinação.

  1. 1. Concílio de Trento, Sess. VI, cânon 32 (Denzinger, Nº 842).
  2. 2. “Pelo mais me está reservada a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia”, diz São Paulo (2Tim 4, 8).
  3. 3. “Que há de retribuir a cada um segundo as suas obras; com a vida eterna, por certo, aos que, perseverando em fazer obras boas, buscam glória e honra, e imortalidade” (Rom 2, 6-7).
  4. 4. “Porque Deus não é injusto, para que se esqueça de vossa obra” (Hb 6, 10).
  5. 5. Cf. At 4, 12. “Em nenhum outro há salvação, porque debaixo do céu nenhum outro nome foi dado aos homens pelo qual devamos ser salvos”. Cf. santo tomás, Iª IIae, q. 114, a. 6
  6. 6. Iª IIae, q. 114, a. 6.
  7. 7. Certa vez a expressão latina meritum de condigno foi traduzida por "mérito propriamente dito”, e isso é inexato, pois implicaria que o mérito chamado de congruo proprie não é um mérito propriamente dito. Também o é, ainda que seja mais imperfeito que o precedente, como este é menos perfeito que o de Cristo
  8. 8. In Iam P. S. Thomae, t. II, disp. XXIII, sect. I, nº 4: “Quamvis B. Virgo nec nos redemerit, nec aliquid de condigno nobis meruerit, tamen impetrando, merendo de congruo, et ad incarnationem Christi suo modo cooperando, ad salutem nostram aliquo modo cooperata est... Et eisdem modis saepissime sancti Patres B. Virgini attribuunt, quod nostrae fuerit salutis causa”. Suárez cita nessa passagem Santo Irineu, Santo Agostinho, São Fulgêncio, Santo Anselmo, São Bernardo, São Germano, Santo Efrém, São Pedro Damiano, Ricardo de São Vitor e Inocêncio III.
  9. 9. Opera, t. II, pp. 30 ss.
  10. 10. Theologia Mariana, Napóles, 1866, t. II, pp. 441 ss.
  11. 11. Opera, t. VI, pp, 224 ss. Teófilo Raynaud insiste, não obstante, neste ponto: que a redenção realizada por Jesus Cristo, sendo de um valor infinito e superabundante, não tem necessidade de um complemento oferecido por Maria.
  12. 12. Disp. theol. schol, tr. VIII, De Deipara virgine Maria, t. II, p. 265, Lyon, 1661. Jorge de Rhodes diz que Maria nos mereceu de congruo tudo o que Jesus Cristo nos mereceu de condigno.
  13. 13. O texto latino diz: “Maria... quoniam universis sanctitate praestat conjunctioneque cum Christo, atque a Christo adscita in humanae salutis opus, de congruo, ut aiunt, promeret nobis quae Christus de condigno promeruit estque princeps largiendarum gratiarum ministra”. (denzinger, nº 3034). Cf. sobre esse texto, merkelbach, Mariologia, p. 328.
  14. 14. Cf. merkelbach, op. cit., p. 329
  15. 15. No Antigo Testamento, as graças foram distribuídas como em crédito, em virtude dos méritos futuros do Redentor, aos quais sempre estão unidos, no plano divino, os méritos de sua santa Mãe. O mérito de conveniência de Maria estendeu-se, pois, também por antecipação, aos justos do Antigo Testamento.
  16. 16. Convém recordar aqui que se o homem resiste por culpa própria à graça suficiente, merece ser privado da graça eficaz, que lhe é oferecida na graça suficiente, como o fruto na flor. A resistência ou pecado é como o granizo que cai numa árvore no período da floração e que prometia abundantes frutos.
  17. 17. Cf. Santo Tomás, IIIª, q. 24, a. 4: “Se, porém, considerarmos a [nossa] predestinação, quanto ao seu termo, então a predestinação de Cristo é a causa da nossa; porque Deus preordenou a nossa salvação, predestinando desde sempre, que seria ela operada por Cristo. Ver sobre esse artigo alguns comentadores como, por exemplo, Gonet e Billuart, que demonstram claramente, pelo que se diz ali e em outros lugares, que Jesus Cristo, sob inspiração divina, nos mereceu todos os efeitos da nossa predestinação, e que também rezou especial e eficazmente pelos eleitos.

    Cf. Santo Tomás, IIIª, q. 19, a. 4: “O mérito de Cristo se estende aos demais, como membros seus; assim como num homem a ação da cabeça de certo modo pertencente a todos os membros, pois, não sente só para si, mas por todos eles”.

    Não podemos merecer por nós mesmos a graça da perseverança final, e nossa predestinação — segundo Santo Agostinho e Santo Tomás — não depende da previsão divina de nossos méritos, porque esses, sendo o efeito da predestinação, não podem ser a sua causa. Cf. santo tomás, Iª,q. 23, a. 5, Iª IIae, q. 114, a. 9.

    Mas se não podemos merecer, propriamente falando, nossa perseverança final (que só pode ser obtida através da oração, cujo valor é diferente do mérito), Nosso Senhor mereceu-a em justiça para aqueles que perseverarem e a Santíssima Virgem mereceu-a também com mérito de conveniência. Os tomistas costumam dizer: “Praedestinatio nostra non est ex praevisis nostris meritis, sed effectus ejus sunt ex praevisis meritis Christi”. Em outras palavras, Cristo é a causa meritória da nossa salvação e Maria está sempre associada a Ele.

  18. 18. Cristo, segundo o que acabamos de dizer, mereceu Ele mesmo, para Maria, todos os efeitos de sua predestinação, exceto a Maternidade Divina, pois de outro modo teria merecido a Encarnação, quer dizer: teria merecido a si mesmo (cf. Santo tomás, IIIª, q. 19, a. 3); nesse lugar, demonstra-se que “Jesus Cristo não poderia merecer nem a graça, nem a beatitude da alma, nem sua divindade (nem sua personalidade divina), pois o mérito influi sobre aquilo que não se tem ainda, e teria sido necessário que Cristo, no primeiro instante de sua concepção, não tivesse tido esses dons divinos, e isso diminuiria sua dignidade muito mais do que o mérito poderia aumentar. Mas Ele mereceu a glória de seu corpo ou sua Ressurreição, sua Ascensão e a exaltação do seu nome”. Os comentadores de Santo Tomás, em relação à IIIa, q. 2, a. 11, “Se à união da Encarnação precederam alguns méritos”, provam que Cristo, que não pôde merecer-se a si mesmo, não pôde merecer nem a Encarnação nem as circunstâncias que pertencem, por assim dizê-lo, à substância e à individuação da Encarnação; por exemplo, não mereceu ser concebido pelo Espírito Santo, nem nascer da Virgem Maria, e, portanto, tampouco mereceu a Maternidade Divina da Santíssima Virgem (cf. salmanticenses, ibid.); mas mereceu as circunstâncias que não pertencem à substância da Encarnação: as previsões dos profetas, a Anunciação pelo anjo etc., ou as que derivaram dela, como a adoração dos magos, os cuidados proporcionados por Maria e José quando Ele era criança. Mereceu certamente a plenitude inicial da graça para Maria, a preservação do pecado original, todas as graças atuais pelas quais cresceu a graça inicial e, finalmente, a perseverança final e a glória.
  19. 19. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, cap. I, a. 2, pp. 42, 45-46, 48-49. Ed. Vozes – 40ª edição.

Artigo 1: A mediação universal de Maria em geral

A Igreja aprovou, sob o pontificado de Bento XV, a 21 de janeiro de 1921, o Ofício e a Missa próprios de Maria Medianeira de Todas as Graças 1, e muitos teólogos consideram essa doutrina como suficientemente contida no depósito da Revelação para ser, um dia, solenemente proposta como objeto de fé pela Igreja infalível; ela é ensinada, de fato, pelo magistério ordinário que se manifesta pela liturgia, encíclicas e cartas pastorais dos bispos, pela pregação universal e pelas obras dos teólogos aprovados pela Igreja.

Veremos o que se deve entender por essa mediação e como ela é confirmada pela Tradição e fundamentada pela razão teológica.

 

O que se deve entender por essa mediação?

Santo Tomás nos diz ao falar da mediação do Salvador 2: “É ofício próprio do mediador unir aqueles entre os quais se interpôs”. Quer dizer, como explica mais adiante3, o mediador deve oferecer a Deus as orações dos homens e sobretudo o sacrifício, o ato principal da virtude da religião; e deve também distribuir aos homens os dons de Deus que santificam: a luz divina e a graça.

Há, portanto, uma dupla mediação: uma ascendente, em forma de oração e de sacrifício; outra descendente, pela distribuição dos dons divinos aos homens.

Esse ofício de mediador convém com absoluta perfeição somente a Jesus Cristo, o Homem-Deus, o único que pôde nos reconciliar com Deus, oferecendo-lhe, por toda a humanidade, um sacrifício de valor infinito, o da cruz, que é perpetuado substancialmente no sacrifício da Missa; somente Ele, também, como Cabeça da humanidade, pode nos merecer, com justiça, as graças necessárias para a salvação, e as distribui a todos os homens que não se afastam de sua ação santificadora. É, portanto, mediador como homem, enquanto a sua humanidade está pessoalmente unida ao Verbo e recebeu a plenitude da graça, a graça capital, que deve derramar-se sobre nós. Diz também São Paulo: “Porque há um só Deus, e há um só Mediador entre Deus e os homens, que é Jesus Cristo homem, o qual se deu a si mesmo para redenção de todos, (tal é o) testemunho (dado por Deus) no tempo devido 4.

“Mas nada impede diz Santo Tomás5 certos outros serem, de algum modo, considerados mediadores entre Deus e os homens; isto é, se cooperam para a união dos homens com Deus, por via de preparação ou de ministério, quer dizer, que disponham os homens a receber a influência do mediador principal ou que a transmitam, mas sempre em dependência dos méritos de Cristo.

Assim, no Antigo Testamento, os profetas e os sacerdotes da ordem levítica eram os mediadores para o povo eleito, anunciando o Salvador e oferecendo sacrifícios que eram figura do grande sacrifício da Cruz. Os sacerdotes do Novo Testamento podem também ser chamados de mediadores entre Deus e os homens, tanto que são ministros do Mediador supremo, pois oferecem o santo Sacrifício e administram os sacramentos em nome de Jesus Cristo.

Pergunta-se então se Maria, de forma subordinada e em dependência dos méritos de Cristo, é Medianeira universal para todos os homens desde a vinda de Nosso Senhor e para a obtenção e distribuição de todas as graças em geral, e até mesmo em particular. Não o é precisamente na qualidade de ministro, mas como associada à obra redentora de seu Filho, segundo a expressão de Santo Alberto Magno “non in ministerium, sed in consortium et in adjutorium 6.

Os protestantes negam essa mediação. Pelo contrário, à questão assim apresentada, o senso cristão dos fiéis educados desde muitos séculos pela liturgia católica, que é expressão do Magistério ordinário da Igreja, está inclinado a responder de imediato: Maria, em sua qualidade de Mãe de Deus, Redentor de todos os homens, está totalmente designada para ser a Medianeira universal, pois é verdadeiramente intermediária entre Deus e os homens, mais particularmente entre seu Filho e nós.

Com efeito, por ser uma criatura, ela permanece sempre inferior a Deus e a Cristo, mas está elevada muito acima de todos os homens pela graça da Maternidade Divina, que é de ordem hipostática por seu fim, pela plenitude de graça, recebida no instante da sua concepção imaculada e que não cessou de crescer depois e, finalmente, pelo privilégio da preservação de toda falta.

Vê-se então o que se deve entender por essa mediação que a liturgia e o senso cristão dos fiéis atribuem à Maria. Trata-se, propriamente falando, de uma mediação subordinada, e não coordenada, à mediação do Salvador, de modo que ela depende inteiramente dos méritos de Cristo, o Redentor universal; trata-se também de uma mediação não necessária (pois a de Jesus é já superabundante e não precisa de complemento), mas preparada e querida pela Providência como uma irradiação da do Salvador, e de todas as irradiações a mais excelente. A Igreja considera-a como muitíssimo útil e eficaz para obter-nos de Deus tudo o que pode conduzir-nos direta ou indiretamente à perfeição e à salvação. Trata-se, por fim, de uma mediação perpétua, que se estende a todos os homens e a todas as graças, sem exceção alguma, como se verá em seguida.

É nesse sentido preciso que a Mediação universal é atribuída à Santíssima Virgem pela liturgia na Festa de Maria Medianeira e pelos teólogos que têm recentemente publicado numerosos trabalhos sobre esse ponto.

 

O testemunho da Tradição

Essa doutrina é afirmada de uma maneira geral e implícita desde os primeiros séculos. Tanto que Maria tem sido chamada desde o século II de a nova Eva, a Mãe dos viventes, como dissemos anteriormente, e ainda mais porque esse título sempre foi reconhecido, não só porque ela fisicamente concebeu e deu à luz ao Salvador, mas também porque cooperou moralmente com a sua obra redentora, sobretudo ao unir-se intimissimamente ao sacrifício da Cruz 7.

A partir do século IV e sobretudo do século V, os Padres afirmam claramente que Maria intercede por nós e que todos os benefícios e auxílios convenientes para a salvação nos vêm por ela, por sua intervenção e proteção especial. Desde a mesma época, ela é chamada de medianeira entre Deus e os homens, ou entre Cristo e nós.

Estudos recentes lançam uma grande luz sobre esse ponto 8.

A antítese entre Eva, causa da morte, e Maria, causa da salvação para toda a humanidade, é reproduzida por São Cirilo de Jerusalém 9, Santo Epifânio 10, São Jerônimo 11, e São João Crisóstomo 12. Convém citar esta oração de Santo Efrém: “Ave Dei et hominum Mediatrix optima. Ave totius orbis conciliatrix efficacissima, e post mediatorem mediatrix totius mundi. Ave, Medianeira admirável de Deus e dos homens. Ave, conciliadora eficacíssima da Terra, e Medianeira depois do Medianeiro supremo 13

Em Santo Agostinho, Maria é chamada Mãe de todos os membros de nossa Cabeça, Jesus, e diz que ela “cooperou por sua caridade para o nascimento espiritual dos fiéis, que são os membros de Cristo” 14. São Pedro Crisólogo diz que “Maria é a mãe dos que vivem pela graça, enquanto que Eva é a mãe dos mortais por natureza” 15 e vê-se que, para ele, Maria foi associada ao plano divino de nossa redenção.

No século VIII, São Beda falou no mesmo sentido 16; Santo André de Creta chamou Maria de Medianeira da graça, dispensadora e causa da vida 17, São Germano de Constantinopla disse que ninguém foi resgatado sem a cooperação da Mãe de Deus 18. São João Damasceno deu também a Maria o título de Medianeira e afirmou que lhe devemos todos os bens que nos são concedidos por Jesus Cristo 19.

No século XI, São Pedro Damião ensinou que na obra da nossa redenção nada é realizado sem Maria 20.

No século XII, Santo Anselmo 21, Eadmero 22 e São Bernardo expressaram-se da mesma maneira. Este chamou Maria de gratiae inventrix, mediatrix salutis, restauratrix saeculorum 23.

A partir da metade do século XII e sobretudo do século XIV, é freqüente a afirmação muito explícita da cooperação de Maria em nossa redenção, consumada por seu próprio sacrifício oferecido no momento da Anunciação e realizado no Calvário. Encontra-se esse testemunho em Santo Alberto Magno24, Arnaldo de Chartres, Ricardo de São Lourenço e Ricardo de São Vítor. Santo Tomás 25 indicou essa cooperação e a afirmam, de modo cada vez mais claro, São Bernardino de Sena, Santo Antonino 26, Suárez 27, Bossuet 28, e Santo Afonso. No século XVIII, São Luís Grignion de Montfort foi um dos que mais propagaram essa doutrina, mostrando todas as conseqüências práticas da mesma 29. Desde então é um ensinamento comum dos teólogos católicos.

O Papa Pio X disse na encíclica Ad diem illum, de 02 de fevereiro de 1904, que Maria é a poderosíssima Medianeira e reconciliadora de toda a Terra perante seu Filho Unigênito: “Totius orbis terrarum potentissima apud Unigenitum Filium suum mediatrix et conciliatrix. O título está doravante consagrado pela Festa de Maria Medianeira, instituída em 21 de janeiro de 1921.

 

Razões teológicas dessa doutrina

As razões muitas vezes invocadas pelos Padres e mais explicitamente pelos teólogos são as seguintes:

Maria merece o nome de Medianeira universal subordinada ao Salvador se é a intermediária entre Deus e os homens, apresentando suas súplicas e obtendo-lhes os benefícios de seu Filho.

Ora, tal é precisamente, em relação a nós, o papel da Mãe de Deus, que, permanecendo uma criatura, alcançou por sua divina maternidade as fronteiras da Divindade e recebeu a plenitude de graça que deve derramar sobre nós. Ela de fato cooperou para a nossa salvação ao consentir livremente em ser a Mãe do Salvador e em unir-se o mais intimamente possível ao sacrifício de seu Filho. Veremos mais tarde que ela mereceu e satisfez com Ele por nós. 

Finalmente, segundo a doutrina da Igreja, ela continua intercedendo para obter-nos todas as graças necessárias à salvação; com isso exerce sua maternidade espiritual, da qual falamos antes.

Cristo permanece, dessa forma, o mediador principal e perfeito, pois é somente em dependência de seus méritos que a Virgem Maria exerce sua mediação subordinada, que não é absolutamente necessária, uma vez que os méritos do Salvador são superabundantes30, mas que foi desejada pela Providência por causa da nossa debilidade e para comunicar a Maria a dignidade da causalidade na ordem da santificação e da salvação.

Assim, a obra redentora é totalmente de Deus como causa primeira da graça; é totalmente de Cristo como mediador principal e perfeito, e é totalmente de Maria, como medianeira subordinada. São três causas, não parciais e coordenadas, como três homens puxando um barco, mas totais e subordinadas, de modo que a segunda não age senão pelo influxo da primeira e a terceira pelo influxo das outras duas. Assim, o fruto de uma árvore é, por distintos motivos, inteiramente de Deus, autor da natureza, e inteiramente da árvore e do ramo que o sustenta. Não há parte do fruto que seja parte da árvore e parte do ramo, e também no caso de que falamos 31.

Acrescentemos que era conveniente que Maria por ter sido resgatada pelo Salvador por uma redenção soberana e preservadora de toda falta original e atual cooperasse dessa forma em nossa salvação, quer dizer, em nosso resgate das cadeias do pecado, em nossa justificação e em nossa perseverança até o fim.

Sua mediação supera assim em muito a mediação dos santos, pois somente ela nos deu o Salvador, somente ela esteve intimamente unida com um coração de Mãe ao sacrifício da Cruz, somente ela é a medianeira universal para todos os homens e, como veremos adiante, para todas as graças, não só em geral, mas em particular, até na mais particular de todas, que é para cada um de nós a graça do momento presente, que assegura nossa fidelidade de minuto a minuto.

Compreendemos melhor essa universalidade depois de ter demonstrado que Maria nos mereceu por um mérito de conveniência tudo o que Jesus Cristo nos mereceu por estrita justiça, que satisfez com Ele por nós com uma satisfação de conveniência, e que depois, pela aplicação dos frutos da redenção, continua intercedendo em favor de cada um de nós, mais especialmente por aqueles que a invocam, e que todas as graças particulares dadas a cada um de nós, de fato, somente o são por sua intervenção mediadora.

  1. 1. Ver o decreto de 21 de janeiro de 1921, da Sagrada Congregação dos Ritos: De festo Beatae Virginis Mediatricis omnium gratiarum.
  2. 2. IIIª, q. 26, a. 1.
  3. 3. IIIª, q. 26, a. 2.
  4. 4. 1Tm 2, 5-6.
  5. 5. Loc. cit., a. 1.
  6. 6. Mariale, q. 42.
  7. 7. Cf. são justino, Dialogo, 100; P. G., t. VI, col. 711. - santo irineu, Adv. Haer., III, XXII, 4; V, XIX, 1; P. G., t. VII, col. 958 ss., 1175. - tertuliano, De carne Christi, 17; P. L., t. II, col. 782
  8. 8. Cf. bittremieux, De mediatione universali B. M. Virginis, 1926, Marialia, 1936. - e. dublanchy, art. Marie, no Dict. de Théol. Cath., col. 2389-2409, e do mesmo autor, Marie médiatrice, na Vie Spirituelle, 1921-1922 -. bover, s. j., A Mediação Universal da Segunda Eva na Tradição Patrística, Madri, 1923-4. - friethoff, o. p., Maria alma socia Christi mediatoris, 1936. – b. h. merkelbach, Mariologia, 1939, p. 309-323 -. génevois, o. p., La Maternité spirituelle de Marie en Saint Irénée, na Revue Thomiste, 1935 -. galtier, s. j., La Vierge qui nous regenere, em Rech. de sc. rel., 1914.
  9. 9. Cat., XII, 5, 15; P. G., t. XXXIII, col. 741.
  10. 10. Haer., LXXVIII, 18; P. G., t. XXII, col. 728.
  11. 11. Epist., t. XXII, 21; P. L., XXII, col. 408.
  12. 12. Homil. in sanctum Pascha, 2; P. G., t. IV, col. 193, e em Gen., III, hom. XVII, I; P. G., LIII, col. 143.
  13. 13. Opera Omnia, edic. Assemani, Roma 1740, t. III, grecolatina, col. 528 ss., 531 ss., 551; edic. Lamy, II, p. 547, e t. I, proleg., p. XLIX.
  14. 14. De sancta Virginitate, VI, 6; P. L., XL, col. 399.
  15. 15. Serm. 140 e 142; P. L., LII, col. 576, 579.
  16. 16. Homil. I in fest. Annunc. et homil. I in fest. Visit., P. L., XCIV, col. 9, 16.
  17. 17. In Nat. B. M., hom. IV, et in Dorm.. S. M., III; P. G., t. XCVII, col. 813, 1108.
  18. 18. In Dorm. B. M., P. G., XCVIII, col. 349.
  19. 19. In Dorm. B. M., hom. I, 3, 8, 12; II, 16; P. G., t. XCVI, col. 705, 713, 717, 744.
  20. 20. Serm. 45; P. L., CXLIV, c. 741, 743.
  21. 21. Orat. 47, 52; P. L., CLVIII, col. 945, 955, 964.
  22. 22. De excellentia B. M., IX, XI; P. L., t. CLIX, col. 573, 578.
  23. 23. Ep. 174, 2; P. L., CLXXXII, col. 333; Super Missus est. hom. IV, 8; P. L., CLXXXIII, col. 83.
  24. 24. Mariale, q. 42. Ele chama Maria de coadjutrix et socia Christi.
  25. 25. Santo Tomás diz que Maria, no dia da Anunciação, deu seu consentimento em nome de toda a humanidade, loco totius humanae naturae. Cf. também sua Expos. Salut. Ang.
  26. 26. Chama Maria de adjutrix nostrae redemptionis et Mater nostrae spiritualis regenerationis. Summ. theol., part. IV, tít. V, cap. XIV, 2.
  27. 27. In IIIam S. Thomae, t. II, disp. XXIII, sect. I, n. 4. Demonstra pela Tradição que Maria mereceu de congruo nossa salvação, a qual Jesus Cristo nos mereceu de condigno. O mesmo ensinamento encontra-se em João de Cartagena, Novato, Cristovão de Vega, Teófilo Raynaud, Jorge de Rhodes etc.
  28. 28. IV sermão sobre a festa da Anunciação; cf. também no índice das obras de Bossuet, na palavra Marie.
  29. 29. Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem, cap. I e II.
  30. 30. Não há necessidade de um complemento oferecido por Maria; por isso é comparada ao pescoço que une os membros do Corpo Místico com a Cabeça, e é também chamada de aqueduto das graças.
  31. 31. Não afirmamos aqui nada mais que uma causalidade moral, exercida ― veremos mais tarde ― pelo mérito, pela satisfação e pela intercessão; não obstante, é provável também (explicaremos posteriormente) que exerça na ordem espiritual, como a humanidade de Jesus, uma causalidade física instrumental para a transmissão e produção das graças que recebemos por meio dela; isso é apenas uma mera probabilidade, mas acreditamos que não podemos negá-la sem correr o risco de diminuir a influência de Maria, que é seguramente mais real e íntima do que comumente imaginamos. Cf. infra, cap. III, art. II.
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