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texto tirado do site oficial da FSSPX Brasil:
“ESSA MISSA, NOSSA MISSA, DEVE SER REALMENTE PARA NÓS COMO A PÉROLA DO EVANGELHO PELA QUAL TUDO RENUNCIAMOS, PELA QUAL ESTAMOS PRONTOS A VENDER TUDO.”
Caros membros e amigos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X,
O motu proprio Traditionis custodes e a carta que o acompanha causaram uma agitação profunda no ambiente dito ‘tradicionalista’. Pode-se notar, com boa lógica, que a era da hermenêutica da continuidade — com seus equívocos, ilusões e esforços impossíveis — acabou tragicamente, sendo posta de lado. Essas medidas, tão claras e nítidas, não tocam diretamente a Fraternidade São Pio X, mas devem ser para nós ocasião de uma reflexão profunda. Para fazer isso, é necessário elevar-nos aos princípios e colocarmo-nos uma questão simultaneamente antiga e nova: por que a Missa tridentina é o pomo da discórdia depois de cinquenta anos?
Antes de tudo, devemos nos lembrar que a santa Missa é a continuação, nos tempos, da luta mais renhida que há: a batalha entre o Reino de Deus e o reino de Satanás, essa guerra que chegou ao ápice no Calvário, com o triunfo de Nosso Senhor. Foi para essa luta, e essa vitória, que Ele se encarnou. Visto que a vitória de Nosso Senhor foi obtida pela cruz e por seu sangue, é compreensível que sua perpetuação aconteça, também, por meio de lutas e contrariedades. Todo cristão é chamado a esse combate: Nosso Senhor nos chama porque disse que “veio à terra para trazer a espada” (Mt 10, 34). Não é surpreendente que a Missa de sempre, que exprime perfeitamente a vitória definitiva de Nosso Senhor sobre o pecado, por seu sacrifício expiatório, seja ela mesma um sinal de contradição.
Contudo, por que essa Missa se tornou sinal de contradição dentro da própria Igreja? A resposta é simples, e cada vez mais clara. Depois de cinquenta anos, os elementos da resposta são evidentes para todos os católicos de boa vontade: a Missa tridentina expressa e veicula uma concepção da vida cristã — e, consequentemente, uma concepção de Igreja — que é absolutamente incompatível com a eclesiologia que procede do Concílio Vaticano II. O problema não é simplesmente litúrgico, estético, ou meramente formal. O problema é simultaneamente doutrinal, moral, espiritual, eclesiológico e litúrgico. Em poucas palavras, é um problema que toca todos os aspectos da vida da Igreja, sem exceção: é uma questão de fé.
De um lado encontra-se a Missa de sempre, estandarte de uma Igreja que enfrenta o mundo e que está certa de sua vitória, porque sua batalha não é outra que a continuação daquela que Nosso Senhor realizou para destruir o pecado e o reinado de Satanás. É pela Missa, e através da Missa, que Nosso Senhor alista as almas cristãs no seu próprio combate, fazendo que participem tanto de sua cruz como de sua vitória. De tudo isso decorre uma ideia fundamentalmente militante da vida cristã. Duas notas a caracterizam: o espírito de sacrifício e uma esperança inabalável.
Do outro lado ergue-se a Missa de Paulo VI, expressão autêntica de uma Igreja que busca estar em harmonia com o mundo, que dá ouvidos às exortações do mundo; uma Igreja que, em última instância, não tem mais de combater o mundo porque não tem mais nada a repreender; uma Igreja que não tem mais o que ensinar porque escuta os poderes desse mundo; uma Igreja que já não precisa do sacrifício de Nosso Senhor porque, tendo perdido a noção de pecado, não tem mais nada a expiar; uma Igreja que não tem mais como missão restaurar o reinado universal de Nosso Senhor, porque ela quer dar sua contribuição à construção de um mundo melhor, mais livre, mais igualitário, mais ecologicamente responsável; e tudo isso com recursos puramente humanos. À essa missão humanista a que se entregaram os homens da Igreja deve corresponder uma liturgia igualmente humanista e dessacralizada.
A batalha desses últimos cinquenta anos — que no dia 16 de julho teve um momento certamente significativo — não é a guerra entre dois ritos: é tão simplesmente a guerra entre duas concepções diferentes e opostas da Igreja e da vida cristã, absolutamente irredutíveis e incompatíveis entre si. Parafraseando Santo Agostinho, podemos dizer que duas Missas construíram duas cidades: a Missa de sempre construiu a cidade cristã, a nova Missa busca construir a cidade humanista e laica.
Se Deus permite tudo isso, é certamente por um bem maior. Antes de tudo para nós mesmos, que temos a oportunidade imerecida de conhecer a Missa tridentina e dela nos beneficiarmos; possuímos um tesouro a que nem sempre damos o devido valor, e que poderíamos vir, talvez, a guardar por hábito. Ora, quando algo de grande prezo é atacado ou desprezado, apreciamos melhor seu valor. Possa esse “choque”, provocado pela dureza dos textos oficiais de 16 de julho, servir para que nosso amor pelo rito tridentino se renove, se aprofunde, seja redescoberto; essa Missa, nossa Missa, deve ser realmente para nós como a pérola do Evangelho pela qual tudo renunciamos, pela qual estamos prontos a vender tudo. Aquele que não está pronto para derramar seu próprio sangue por essa Missa não é digno de celebrá-la. Aquele que não está disposto a tudo renunciar para protege-la não é digno de assistir a ela.
Eis no que deve consistir nossa primeira reação perante os eventos que acabaram de sacudir a Igreja. Que nossa própria reação, padres e fiéis católicos, sobrepuje de longe — por sua profundidade e valor— os comentários de todo o tipo, cheios de inquietação e muitas vezes sem esperança.
Deus certamente visa outro objetivo ao permitir esse novo ataque contra a Missa tridentina. Ninguém pode duvidar que durante esses últimos anos, muitos padres e fiéis descobriram essa Missa, e que através dela se aproximaram de um novo horizonte espiritual e moral, que lhes abriu o caminho da santificação de suas almas. As últimas medidas que foram tomadas contra a Missa obrigarão tais almas a tirarem todas as consequências do que elas descobriram: cabe a elas, agora, escolherem — com os elementos de discernimento que têm à disposição — o que se impõe a toda consciência católica bem formada. Muitas almas encontrar-se-ão diante de uma escolha importante concernente à fé, porque — repetimos — a Missa é a expressão suprema de um universo doutrinal e moral. Trata-se, portanto, de escolher a fé católica em sua integridade, e por ela Nosso Senhor Jesus Cristo, sua cruz, seu sacrifício, sua realeza. Trata-se de escolher seu sangue, de imitar o Crucificado e de segui-lo até o fim por uma fidelidade total, radical, firme.
A Fraternidade São Pio X tem o dever de ajudar todas as almas que se encontram, atualmente, consternadas e confusas. Em primeiro lugar, temos o dever de oferecer-lhes, pelos próprios
fatos, a certeza que a Missa tridentina não poderá jamais desaparecer da face da terra: trata-se de um sinal de esperança extremamente necessário.
Ademais, é preciso que cada um de nós, padre ou fiel, estenda para essas almas uma mão amiga, porque aquele que não tem o desejo de partilhar dos bens com que se beneficia é, de fato, indigno deles. É somente desse modo que se amará verdadeiramente as almas e a Igreja. Porque cada alma que ganhemos para a cruz de Nosso Senhor, e para o amor imenso que manifestou por seu sacrifício, será uma alma verdadeiramente ganha para sua Igreja, para a caridade que a anima e que deve também ser nossa, especialmente neste momento.
Confiamos essas intenções à Mãe das Dores, é a ela que dirigimos nossas orações, afinal ninguém mais do que Ela penetrou no mistério do sacrifício de Nosso Senhor e de sua vitória na Cruz. Ninguém mais do que Ela esteve tão intimamente associada a seus sofrimentos e a seu triunfo. Foi em suas mãos que Nosso Senhor colocou a Igreja inteira; portanto, é a Ela que foi confiado o que a Igreja tem de mais precioso: o testamento de Nosso Senhor, o santo sacrifício da Missa.
Menzingen, 22 de julho de 2021
Na Festa de Santa Maria Madalena
Dom Davide Pagliarani, Superior-Geral
Como responder a alguém que crê que sua alma eterna teve vidas passadas?
O primeiro ponto a ser estabelecido em qualquer resposta, sempre, é reconhecer o elemento de verdade na afirmação da outra pessoa. O elemento de verdade, aqui, é que a alma é “eterna”, não no mesmo sentido em que Deus é eterno, mas, usando uma expressão católica, no sentido de que ela é imortal, ou seja, de que ela não pode morrer ou deixar de existir de algum modo. Agora, essa alma que não pode morrer é sempre a mesma. Ela não pode ser uma alma diferente ou a alma de um ser diferente e, ainda assim, continuar sendo uma alma imortal.
Disso já podemos refutar a reencarnação, na qual a mesma alma passaria por vários níveis de existência, passando, por exemplo, por uma vida animal. Se tal fosse o caso, ela não seria a mesma alma, o mesmo indivíduo, idêntica a si mesma. Seria uma alma diferente, isto é, um princípio de vida diferente da que era. A razão disso é que a alma é o princípio da vida, e a mesma alma não pode ser o princípio de dois tipos diferentes de vida, animal e humana.
Essa pessoa, porém, parece estar dizendo que ela teve várias vidas humanas. A primeira e mais óbvia pergunta a se fazer a ele é que prove essa afirmação, algo que ele, obviamente, não tem como fazer. Qualquer memória que ele tenha poderia ser só a imaginação dele, e elas têm que ser provadas por algum referencial exterior para que essas afirmações possam ser levadas a sério.
Porém, o mesmo argumento filosófico pode ser usado contra a reencarnação. Se uma alma tivesse tido uma vida diferente, então ela seria uma alma diferente e um ser individual diferente do que ela é hoje. A alma não pode mudar sua matéria e tornar-se a forma de um corpo, e, após, de outro corpo; agora, de um ser, depois, de outro ser. Ela teria que ser uma alma individual diferente para tomar um corpo ou ser individual diferente. Portanto, não pode ser a mesma pessoa que tem vidas diferentes. A pessoa humana é composta de corpo e alma, de modo que, assim que você altera um, imediatamente você altera o outro.
Isso não pode ser negado por ninguém que reconheça que o homem tem um lado espiritual nele (suas faculdades do intelecto e da vontade), bem como um lado corporal. O corpo e a alma andam juntos, a alma dando forma ao corpo, e o corpo, por natureza, sendo o corpo dessa alma. Afirmar que os dois podem ser separados vai contra todos os indícios dos sentidos, que apontam para a unidade do homem, corpo e alma. Portanto é impossível afirmar que uma pessoa teve vidas corporais diferentes.
Pe. Dominique Bourmaud, FSSPX
Alfredo Ottaviani (1890-1979) nasceu em Roma numa família humilde; o seu pai era padeiro. Estudou com os Irmãos das Escolas Cristãs, no Pontifício Seminário Romano e no Ateneu Santo Apolinário, onde recebeu os doutorados em filosofia, teologia e direito canônico. Foi ordenado sacerdote em março de 1916.
RESUMO BIOGRÁFICO
Logo foi nomeado professor de filosofia escolástica e direito público eclesiástico (sua matéria preferida) na Universidade Urbaniana e, depois, no Ateneu Jurídico Santo Apolinário. Tornou-se substituto na Secretaria de Estado e, em seguida, consultor da Suprema Congregação do Santo Ofício. Após dezessete anos de trabalho, em 1959, tornou-se o seu Pró-Prefeito – o posto de Prefeito era ocupado pelo próprio papa. Foi então consagrado bispo por João XXIII, tomando para si o lema episcopal Semper Idem – Sempre o mesmo – que refletia sua teologia conservadora.
Já como seminarista, Alfredo formou-se na luta contra os inimigos mais ferozes da Igreja, “a maçonaria e o hebraísmo reinam através do Ministro Sidney Sonnino”. Em 1937, Pio XI utilizou seus conhecimentos para escrever a encíclica Divini Redemptoris, contra o comunismo, em que o anatematizou como “intrinsecamente perverso”. Seus estudos políticos, que levaram à publicação de Institutiones juri Publici Ecclesiastici, fez dele arauto de Cristo Rei contra a corrente de John Courtney Murray e dos liberais. Abaixo, alguns dos seus ensinamentos de maior destaque no assunto:
“Tenho dito que, antes de tudo, o Estado tem o dever de professar a religião publicamente. Os homens unidos em sociedade não estão menos sujeitos a Deus do que como indivíduos, e a sociedade civil, não menos que o homem individual, é sujeita a Deus, sob o Qual, como seu Autor, ela se encontra unida, por cujo poder é preservada, por cuja bondade recebe o grande tesouro de bens que usufrui. Portanto, assim como não é lícito ao indivíduo deixar de cumprir seus deveres para com Deus e a religião pela qual Deus é adorado, tampouco os estados podem, sem grave ofensa moral, agir como se Deus não existisse ou furtar-se ao cuidado da religião, como se lhes fosse algo estranho ou de pouca importância.”
Pio XII preocupou-se muito quando percebeu os movimentos que alguns líderes da Igreja Latina faziam em direção ao comunismo, e também por causa das veredas que os neo-modernistas abriam na Igreja. O Papa convocou secretamente Ottaviani para a formação duma comissão preparatória de um futuro concílio ecumênico cuja meta seria “reafirmar vários pontos da doutrina católica ameaçados por erros, não apenas teológicos, mas também morais e filosóficos, e até mesmo sociológicos”. Mas, vendo que havia divisão na própria comissão, Pio XII interrompeu o projeto. O seu único resultado foi a vigorosa encíclica Humani Generis, de 1950, com a contribuição de Ottaviani, que condenou a Nova Teologia inaugurada pelo Pe. Henri de Lubac, no espírito de Teilhard de Chardin.
O Cardeal Ottaviani participou do conclave de 1963, que escolheu Giovanni Battista Montini, o Papa Paulo VI. Foi também Decano dos Cardeais durante o conclave, e como tal teve a honra de coroar com a tiara, em 30 de junho, o mesmo papa que a abandonaria. Esse foi o único conclave de que participou, uma vez que, em 1976, o limite de idade de oitenta anos já estava em vigor.
BATALHAS PRÉ-VATICANO II
Logo que Pio XII foi sepultado, começaram a circular os ventos de mudança. No início de 1962, Cardeal Ottaviani notificou o superior dos jesuítas de que o teólogo Karl Rahner fora posto sob quase-censura por Roma e não podia dar conferências nem escrever sem permissão. Poucos meses depois, João XXIII nomeou Rahner como perito do Concílio Vaticano II. A mesma estratégia foi adotada com Henri de Lubac e Yves Congar, que, apesar de suspeitos de neo-modernismo, também receberam do papa os títulos de peritos do Concílio.
As batalhas pré-conciliares inauguraram um novo tipo de concílio, com um poder triangular (Papa-Cúria-Concílio), uma vez que o papa, em segredo, era contrário à posição da Cúria e aberto às novidades dos teólogos de vanguarda. Ottaviani, que detinha o poder por trás da Cúria, logo se veria isolado e mal aceito. Acreditava que era seu dever afirmar a pureza e integridade da Doutrina a todo custo, a tempo e contratempo. O Cardeal Siri deixou o seu testemunho: “Nele [Ottaviani], a firmeza nas decisões expressava-se com os mais fortes acentos: a ninguém temia. Na defesa da Fé, seu temperamento o fazia muito combativo”.
Um dos debates acalorados ocorridos nas sessões do pré-Vaticano II tratou da salvação dos infiéis e do dogma Extra Ecclesiam: fora da Igreja não há salvação. Nessa subcomissão estava Monsenhor Fenton, amigo próximo de Ottaviani. Vários cardeais – Leger, Dopfner, Konig e Bea – fizeram várias mudanças substanciais. Ottaviani reagiu ferozmente contra a “perigosíssima” idéia de Bea, que dizia ser possível ser membro do Corpo Místico de Cristo sem ser membro da Igreja, o que colocaria em risco a doutrina da infalibilidade do Magistério da Igreja. Ele lembrou que “A Igreja Católica e o Corpo Místico de Cristo são a mesma coisa. Não há salvação fora da Igreja. O significado dessa tradicional frase está bem explicado na Carta do Santo Ofício ao Cardeal de Boston, em que trata da questão Feeney, que exagerara a força dessa frase. Porém, essa frase não deve agora ser reduzida à insignificância, a fim de tranqüilizar os que estão fora da Igreja.”
Nas últimas sessões preparatórias do Concílio, dois cardeais se confrontaram no assunto da liberdade religiosa: Ottaviani e Bea. Ottaviani opunha-se à separação entre Igreja e Estado e à concessão de direitos iguais a todas as religiões, mas apoiava a tolerância religiosa. Dom Marcel Lefebvre, testemunha do conflito, contou que Ottaviani levantou-se e disse a Bea: “Eminência, não tendes direito a criar este esquema, porque é esquema teológico, e pertence portanto à Comissão Teológica”. E Bea, levantando-se, disse: “Licença. Tenho o direito de criar este esquema como Presidente da Comissão pela Unidade. Se há algo que importa à unidade é essa questão da liberdade religiosa”. E, encarando Ottaviani, adicionou: “E me oponho radicalmente a tudo que afirmais no seu esquema De Tolerantia Religiosa”. O debate se tornou tão inflamado que o Cardeal Ruffini teve de intervir, notando como ficara decepcionado por testemunhar uma “discussão tão séria”. Os confrontos se intensificariam ao longo dos debates sobre o assunto, até a adoção do esquema Dignitatis Humanae.
O FURACÃO VATICANO II
Ottaviani foi o líder dos conservadores da Cúria durante o Concílio Vaticano II (1962-1965), apesar de quase cego. Além do assunto da liberdade religiosa, sua poderosa voz foi ouvida durante os debates sobre a liturgia e sobre as fontes da Revelação Divina.
O caso mais marcante da mudança de guarda e demissão da Cúria ocorreu em 30 de outubro de 1962, quando o Cardeal Ottaviani fez ardente apelo em defesa do antigo Rito Romano: “Não parece que estamos procurando causar pasmo, ou talvez escândalo entre o povo Cristão, ao introduzir mudanças em tão venerável rito, que foi aprovado há tantos séculos e nos é tão familiar? O rito da Santa Missa não deve ser tratado como tecido que é remodelado conforme os impulsos de cada geração.” Como passara em muito o limite de dez minutos, seu microfone foi cortado. Após tocar o microfone e verificar que fora desligado, o quase cego Ottaviani, humilhado, deixou cair o seu peso na cadeira e logo os aplausos estalaram na aula conciliar.
Durante o Concílio, a mídia freqüentemente encontrava em Ottaviani reações vivas nas tempestuosas sessões de trabalho. Certa vez, reagindo aos constantes clamores pela “colegialidade” dos bispos mais liberais, Ottaviani notou que a Bíblia registra apenas um exemplo dos Apóstolos agindo colegialmente – no Jardim do Getsêmani, quando “todos fugiram”. Nessa mesma matéria, outro embate histórico ocorreu com o Cardeal Frings, em 8 de novembro de 1963. Ottaviani defendeu o papado contra a Primazia Papal meramente honorária, proposta pela aliança liberal do Reno. “Quem quiser ser ovelha de Cristo deve ser apascentado por Pedro, o Pastor. Não são as ovelhas [os bispos] que devem guiar Pedro, mas Pedro deve guiar as ovelhas [os bispos] e os cordeiros.”
O DESMANTELAMENTO DO SANTO OFÍCIO
O Concílio Vaticano II não tinha ainda fechado as portas quando um motu proprio papal, Regimini Ecclesiae Universale, retirou da Congregação do Santo Ofício o título de “Suprema”, suplantando-a pela Secretaria de Estado. A partir daí, a política prevaleceria sobre a pureza da fé.
Ottaviani comentou a mudança: “Lembrem-se, esse é um dia negro na história da Igreja, porque essa mudança não afeta apenas o título, mas a substância. Com efeito, até agora, o princípio supremo do governo da Igreja foi a verdade revelada, cuja preservação e interpretação correta é confiada primeiro ao Papa, que usava a Suprema Congregação do Santo Ofício para esse propósito. Agora, temo que o critério decisivo para o governo da Igreja será o diplomático e o contingente. Posso ver que a Igreja sofrerá muito dano.”
Apesar de cego, tinha penetrante percepção dos eventos futuros. Em 1967, ofereceu sua renúncia, pois não desejava contribuir com o desmantelamento do Santo Ofício.
A ÚLTIMA BATALHA DE OTTAVIANI
Em 25 de setembro de 1969, Ottaviani, junto com Cardeal Bacci, redigiu veemente carta a Paulo VI em defesa de um estudo feito por um grupo de teólogos que, sob a direção de Dom Marcel Lefebvre, criticaram o Novus Ordo Missae, o qual viria à luz uns meses depois. Ottaviani escreveu o seguinte:
“O breve estudo crítico em anexo é o trabalho de um grupo seleto de teólogos, liturgistas e pastores de almas, e, ainda que breve, examina os elementos de novidade implícitos na Missa do Novus Ordo, aos quais podem se dar diferentes interpretações. Este estudo demonstra suficientemente que o Novus Ordo Missae representa, no todo e nos detalhes, um afastamento visível da teologia Católica da Missa como elaborada na Sessão XXII do Concílio de Trento, a qual, fixando permanentemente os ‘cânones’ do rito, erigiu uma barreira intransponível contra toda heresia que pretendesse minar a integridade do Mistério.
“As reformas recentes demonstraram amplamente que as novas mudanças na liturgia não podem ser feitas sem escandalizar os fiéis, que já mostram que essas mudanças são intoleráveis e diminuirão com certeza a sua fé. Em conseqüência, grande parte do clero passa agora por uma torturante crise de consciência, que vemos diariamente e em grande número. Temos certeza de que estas considerações, que se inspiram diretamente nas vozes vibrantes de pastores e do rebanho, encontrarão eco no coração paternal de Vossa Santidade, que está sempre tão profundamente atento às necessidades espirituais dos filhos da Igreja. No entanto, aqueles para quem as leis são feitas têm o direito, e mesmo o dever, de pedir ao legislador que ab-rogue leis comprovadamente danosas.”
O Cardeal Palazzini, em sua apresentação de Il Balluarto, explicou que a chave para ler a pessoa e o trabalho do Cardeal Ottaviani é que a verdade nos faz livres. “Ele sabe como perceber com excepcional agudeza e impressionante visão a desordem profunda e os amargos desenvolvimentos da novidade que começou a se infiltrar nos anos 1940 e que explodiu no Vaticano II. No curso do ano de 1965, Ottaviani escreveu no seu diário: ‘Peço a Deus que me permita morrer antes do fim desse Concílio. Assim, ao menos, morrerei católico.’”
“Não conheceste o tempo da tua visita” (Evangelho)
Paramentos verdes
A liturgia de hoje fala-nos dos castigos terríveis com que Deus há de punir os que renegam a Cristo. Perecerão todos. Nenhum deles entrará no Reino dos Céus. Pelo contrário, os que no meio das contrariedades e dos enganos do mundo permanecerem fiéis, serão arrancados das mãos dos inimigos e entrarão com o Senhor para a glória do seu reino. É o que nos sugerem as lições de Matinas. Elias era de Judá e habitava em Galaad. Por três vezes saiu o profeta do seu retiro para anunciar aos israelitas prevaricadores os castigos terríveis e iminentes com que a justiça divina os ameaçava por seus crimes. A primeira, por causa do escândalo de Acab e de Jezabel que tinham arrastado o povo à idolatria. A segunda, por causa dos 450 profetas de Baal, que ele fez condenar à morte. A terceira, finalmente ainda contra Jezabel. Por tudo isto, foi Elias perseguido e teve de fugir para o monte Horeb. Citado por Ocozias, filho de Jezabel, a comparecer na sua presença, fez vir fogo do céu sobre os emissários do rei, que morreram queimados. Foi, pois, como vemos, um paladino terrível dos direitos de Deus. Diz a Sagrada Escritura que foi elevado ao céu num carro de fogo.
“Elias, diz S. Agostinho, é a figura de Nosso Senhor Jesus Cristo. Foi perseguido pelos judeus, do mesmo modo que o Salvador, o verdadeiro Elias, foi rejeitado e desprezado por eles. Elias separou-se do seu povo e Cristo abandonou a sinagoga e chamou para si os gentios”. Arrancou Deus a Elias das mãos e da conspiração dos ímpios e arrebatou-o aos céus num carro de fogo, do mesmo modo que libertou Cristo da expectativa dos seus inimigos e O fez subir ao céu no dia da Ascensão. O triunfo do Salvador sobre aqueles que O odiavam, figurado pelo triunfo de Elias, deve ser também o nosso triunfo. Mas para isso, temos de permanecer fiéis ao Senhor sob pena de incorrermos nos castigos que vieram sobre os judeus. S. Paulo no põe de guarda contra este perigo e convida-nos a meditar na história de nossos pais: “Porque tudo o que sucedeu com eles é figura do que há de vir e foi escrito para nossa instrução, para nós que vivemos no fim dos tempos”. No Evangelho os ensinamentos do Senhor, chorando sobre Jerusalém e expulsando do Templo os vendilhões, são ainda uma lição de fidelidade. Procuremos assimilar bem estes pensamentos do Ofertório, tão belos e tão sábios: “Os preceitos do Senhor são retos e dão alegria às almas: os seus juízos são mais suaves do que o mel puro dos favos. Por isso, ser-lhes-ei fiel”.
Do Evangelho: O Senhor prediz no Evangelho de hoje a destruição de Jerusalém, levada a efeito anos mais tarde pelos romanos. “Se esta cidade perjura, comenta S. Gregório, conhecesse o destino que a esperava, talvez tivesse chorado os seus crimes e recebido o Senhor. E a alma perversa choraria igualmente os seus pecados se conhecesse a desgraça terrível que a espera na outra vida”.
Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.
Gustavo Corção
Por uma infeliz coincidência é nos dias 13 a 18 do corrente, e portanto na Semana Santa, que ocorrerão as solenidades em comemoração do primeiro centenário da codificação do espiritismo. E assim, enquanto os cristãos celebram os passos da obra salvadora de Cristo, e seguem o caminho da dor infinitamente fecunda que culmina na Cruz, os espíritas festejam o centenário da obra do sr. Leão Hipólito Denizard Rivail, mais conhecido pelo pseudônimo de Allan Karden. Foi efetivamente em 18 de abril de 1857 que o mencionado autor publicou “O Livro dos Espíritos”, que até hoje é a principal obra de codificação dos ensinos “dados pelos Espíritos Superiores com o concurso de diversos médiuns”. Nessa doutrina, que a seguir tomou o nome de Espiritismo, pretendem seus adeptos, entre outras coisas, ver a verdadeira doutrina ensinada por Jesus Cristo. Em suas “Obras Póstumas” (10ª. Edição, p. 268 e seg.) diz o festejado codificador: “O Espiritismo... restaurará a religião de Cristo, que se tornou nas mãos dos padres objeto de comércio e trafego vil, instituirá a verdadeira religião natural, a que parte do coração do homem e vai diretamente a Deus...” E mais adiante: “Aproxima-se a hora em que te será necessário apresentar o Espiritismo qual ele é, mostrando a todos onde se encontra a verdadeira doutrina ensinada por Cristo...”.
A pretensão dos seguidores de Leão Hipólito, como se vê, não é pequena. Para começar, pulverizam a Igreja Católica. Vinte séculos de tradição, de culto desenvolvido em torno do Sacrifício da Cruz e da instituição da Eucaristia, de sofrimentos produzidos pelas perseguições externas e pelas internas, que ainda são piores, vinte séculos de doutrina apurada e depurada, de doutrina ofendida e defendida, de pensamento teológico e filosófico trabalhado pelas mais altas inteligências e afiançado pelas vidas dos maiores santos, vinte séculos torrenciais de estudo, de arte, de santidade, de apostolado, de missões – tudo isso – as cruzadas, as catedrais, os mosteiros, as fundações, as obras, as escolas – tudo isso, para os seguidores do espiritismo, é coisa a ser corrigida pelos livros de Allan Kardec e pela telegrafia do Além. Lutero e Calvino também quiseram derrubar a Igreja, e todos nós conhecemos as tremendas repercussões históricas dessas tentativas. Para os espíritas a Igreja são “os padres” que adulteraram o ensino de Cristo. Onde é então que está a verdadeira doutrina? Os protestantes ficaram com os Evangelhos, mas os espíritas além de derrubar a Igreja Católica, acabam também com os evangelhos... Como se vê, não é modesta a pretensão.
Aos católicos que vêem no espiritismo uma inofensiva prática ou uma medicina pouco dispendiosa convém lembrar o antagonismo total das duas doutrinas. Apregoam eles uma “religião natural” que parte do homem, e acrescentam que “a missão do Cristo não era resgatar com o seu sangue os crimes da humanidade” porque “cada um deve resgatar-se a si mesmo” (Leão Denis, “Cristianismo e Espiritismo”, 5ª. Ed., pág. 88). Ora, o ensinamento essencial dos Evangelhos consiste em marcar o caráter sobrenatural e transcendente da obra e da herança de Cristo, e em assinalar a iniciativa primeira de Deus em todas as coisas da nossa religião.
Ao contrário do que diz o autor que os espíritas festejam, nossa religião não é natural, é sobrenatural; não parte do homem, parte de Deus. Não é por engenho nosso que perscrutamos os segredos da vida divina, é pela Revelação que temos a notícia que de outro modo seria inacessível. Não é por esforço nosso que galgamos o abismo que separa o Criador das criaturas, é pela Graça que desce de Deus para a Deus nos elevar. “Descida de Deus para subida do Homem”, como disse Camões – eis aí uma fórmula perfeita de nossa doutrina. Dentro dessa doutrina a criatura humana tem uma transcendência sobrenatural, religiosa, pela qual o homem é chamado a viver na intimidade de Deus, em situação acima de tudo, o que poderia ser exigido pela dignidade já bastante alta de sua natureza. A vida religiosa será pois medida pela conformidade com a sobrenatural transcendência de nossa vocação, ou em outras palavras, pela obediência às luzes da Revelação e às operações da Graça. Não nos compete a iniciativa primeira, que é de Deus. Compete-nos responder, corresponder, obedecer. Ainda mais, como é em Cristo que se condensa toda a Revelação e toda a fonte de Graça, a posição religiosa do cristão se aferirá por esse divino Centro. Seremos cristãos se formos seguidores de Cristo; e seremos seguidores de Cristo se estivermos em contacto vivo com a sua herança que são os seus sacramentos e a sua Igreja. E é a realidade dessa obra de Cristo que nos alimenta todos os dias, e que, com ênfase especial, celebramos na Semana Santa, nessa mesma semana em que os seguidores de Leão Hipólito Denizard Rivail celebram, neste ano, o centenário do Espiritismo.
Teologicamente, espiritismo é uma doutrina herética formada pela confusa mistura de diversas heresias antigas. Há um pouco de pelagianismo, de arianismo e de maniqueísmo no conjunto doutrinal recebido do Além por Allan Kardec e seus seguidores. Filosoficamente, e culturalmente, é uma das formas mais espessas e brutais do individualismo que tantas desgraças já trouxe ao mundo nesses últimos séculos de civilização burguesa. Pelo experimentalismo, se liga à filosofia empiricista e assim vem a dar, apesar de todo o seu vocabulário, num mal disfarçado materialismo.
Tomada em seu heteróclito conjunto, a doutrina espírita tem todas as negativas qualidades para medrar numa cultura maltratada. Tem todos os equívocos para agradar, por isto ou por aquilo, às multidões privadas de instrução e de formação religiosa. Tem o nome e o Além, para parecer que é uma espiritualidade; tem os fluidos e a mecânica, para anteder à sede de técnica e de dados sensíveis; tem uma vaga filantropia e uma cômica boa-vontade para nada exigir moralmente de ninguém. Aspira assim à universalidade pela mediocridade, e seduz as almas cansadas pela desvalorização da vida.
O fenômeno do espiritismo brasileiro está ligado a esse conjunto de qualidades negativas. O espiritismo, como o comunismo na ordem social e política, é produzido pelas omissões. No caso brasileiro não hesito em reconhecer que é nossa, dos católicos, a mais grave responsabilidade. O espiritismo se propaga porque o nosso catolicismo é pouco convincente e pouco generoso. A prova disto está na miséria das vocações sacerdotais, e na enorme facilidade com que se misturam com a doutrina católica a convicção divorcista e a prática espírita.
Sendo assim, pouco adiantará combater o espiritismo diretamente, se ao mesmo tempo, e com vigor ainda maior não nos dedicarmos à obra mais positiva de ensinar a doutrina católica, de despertar o gosto por sua coerência, e de formar mentalidades nítidas e sadias que se defendam dos erros. Na verdade, aos kardecistas que sonham acabar com a Igreja Católica, nós podemos responder como um papa respondeu a Napoleão: nós mesmos temos feito o possível para arrasar a Igreja, mas não conseguimos.
(O Estado de São Paulo, 14/4/57)
Pe. Dominique Bourmaud, FSSPX
O HOMEM
O Cardeal Louis Billot (1845-1931), natural da Lorena, na França, entrou jovem para a Companhia de Jesus e logo foi nomeado professor de teologia. Em 1885, foi chamado a Roma pelo Papa Leão XIII para ensinar teologia dogmática na Universidade Gregoriana. Ao longo de 26 anos (1885-1911), foi professor sem páreo de gerações de estudantes eclesiásticos, futuros bispos e cardeais.
Leão XIII teve de lutar contra os que queriam remover o Pe. Billot de Roma. Para mantê-lo na Sé Romana, São Pio X em 1909 nomeou-o consultor do Santo Ofício, e em 1911, contrariando a tradição jesuíta de não aceitar dignidades, elevou-o a cardeal-diácono.
Em 12 de fevereiro de 1922, Pio XI foi coroado. O cardeal-diácono que devia coroar o novo pontífice estivera enfermo e o Cardeal Billot foi apontado para substituí-lo. Ao receber a tiara deste cardeal, o Papa Ratti não tinha idéia de que cinco anos depois teria que retirar das mesmas mãos o barrete cardinalício.
Em 1927, o Cardeal Billot “aposentou-se” para “preparar-se para a morte”. Essas foram as palavras no anúncio oficial, mas as verdadeiras razões foram outras, como veremos. Na verdade, a aposentadoria não foi nenhuma sinecura para o octogenário. Ocupou-se da republicação de suas obras, mantendo o vigor intelectual até o fim de sua vida, como evidenciado nas suas correspondências e conversas. Um “apaixonado por Deus, pela Igreja e por Cristo, Rei da França”, morreu no noviciado jesuíta de Galloro, aos 86 anos.
O Pe. Henri Le Floch, que foi reitor do Seminário Francês em Roma por 23 anos, posto que deixou três dias após a renúncia do cardeal, escreveu-lhe um tributo: Cardeal Billot, homem da Igreja, teólogo, professor, patriota, e defensor da verdade contra os erros do Liberalismo, Modernismo e Sillonismo. O título do livro revela o seu teor: Le Cardinal Billot, lumière de la théologie – Cardeal Billot, luz da teologia.
ATRITOS COM O GOVERNO DE PIO XI
Pio XI queria continuar os trabalhos do Concílio Vaticano I e consultou os cardeais sobre a conveniência da sua reconvocação. De acordo com as investigações do Pe. Giovanni Caprile, 26 respostas se conservam nos arquivos do Vaticano, e apenas duas foram negativas: as do Cardeal Andreas Frühwirth (1845-1933) e a do Cardeal Billot. Este argumentou que, por causa das dificuldades e perigos, a era dos concílios ecumênicos parecia terminada, sobretudo pelo risco de os modernistas se aproveitarem do concílio para “fazer a revolução, o novo 1789, objeto dos seus sonhos e esperanças”.
Como francês, Billot só pôde estar exasperado com a virada dos acontecimentos na França dos anos 1920. O núncio papal em Paris pareceu ter apoiado a coalizão maçônica da esquerda de Herriot-Blum. Alguns dias depois, em audiência, Pio XI reclamou amargamente a Billot:
— Eminência, vossos compatriotas votaram muito mal.
— Santidade, vosso núncio tudo fez para que isso acontecesse.
— O meu núncio? Meu núncio? Ele obedece às minhas ordens! É a minha política, minha política, minha política...
Noutro tópico, algumas páginas de Charles Maurras, líder do movimento monárquico Action Française, tiveram o privilégio invejável de serem reproduzidas no tratado De Ecclesia, do Cardeal Billot, sobre as relações entre as autoridades religiosa e secular. Vale aqui citar a opinião de Maurras sobre a democracia:
“Nosso profundo respeito pela nação nos obriga a dizer que, para resolver questões importantes e de interesse geral, as quais requerem anos de estudo, prática e meditação, basta considerar a voz dos incompetentes. E para ter êxito nas escolhas mais delicadas, basta o sufrágio dos ignorantes... O governo do número tende à desorganização do país. Destrói à força tudo o que o tempera, o que por natureza é diferente: religião, família, tradições, classes, organizações de todos os tipos etc.”
O Cardeal Billot teve conhecimento direto da Action Française, a qual descreveu como “estimada pelos bons e temida pelos maus”. Ele teve de encarar o Cardeal Gasparri, Secretário de Estado, na véspera da condenação do movimento. O infeliz encontro foi o duelo de duas grandes mentes, o maior dos teólogos e o maior dos canonistas disputando sobre um movimento político. O canonista invocou apenas a “vontade superior”. Não há dúvida de que, no julgamento da Action Française, as obras pagãs de Charles Maurras não causaram tanta preocupação quanto seu espírito contra-revolucionário. Numa carta, Billot expressou seu pensamento: “Não é tanto o seu Chemin de Paradis ou Anthinée que eles odeiam, mas o seu anti-liberalismo, anti-democratismo, anti-republicanismo.”
Em 19 de setembro de 1927, o Cardeal Billot foi despido da púrpura que aceitara tomar somente por causa da ordem do seu venerado Pio X, tendo recebido em troca uma pequena estátua de Nossa Senhora; e em seguida aposentou-se. O cardeal, que nunca fora consagrado bispo, voltou a ser o Pe. Louis Billot da Companhia de Jesus.
PIO XII E O CARDEAL BILLOT
Pio XII, tão-logo eleito, levantou a excomunhão que pesara sobre a Action Française e os seus membros.
Em 1º de Outubro de 1939, em audiência especial, o Pe. Le Floch apresentou o seu trabalho sobre o Cardeal Billot a Pio XII, que muito o apreciou. Da mesma forma, na alocução pelo quarto centenário da Universidade Gregoriana, em 18 de outubro de 1953, Pio XII mostrou ter o cardeal em boa memória, pois entre tantos professores da sua juventude, mencionou somente o seu nome.
“Para os mais velhos dentre vós, relembremos com alegria nossos professores, como Louis Billot, para nomear um que, com distinção de espírito e inteligência, nos estimulou a venerar os estudos sagrados e amar a dignidade do sacerdócio.”
A influência doutrinal do Cardeal Billot em Roma durou muitos anos após a sua morte. Eis um exemplo: a Carta do Santo Ofício ao Arcebispo de Boston, de 8 de agosto de 1949, contra o Pe. Feeney sobre o batismo de água, foi reprodução quase literal de um artigo do cardeal publicado em Études.
TEÓLOGO ANTI-LIBERAL
Cardeal Billot foi um dos teólogos que viu mais claramente a maldade intrínseca do neoliberalismo resultante da Revolução. Falando do Sillon, o movimento político cristão que fora finalmente condenado por São Pio X devido aos seus princípios ideológicos, Billot explicou: “O cristianismo do Sillon baseia-se sempre no democratismo, e o cristianismo democrata, tratando-se de uma ideologia revolucionária, é uma distorção do Evangelho”.
Ninguém julgou melhor o liberalismo, o filho da Revolução, do que o “teológo de ferro”. Analisou a intrínseca discrepância deste para com os princípios de hierarquia e autoridade, trazendo à luz suas conseqüências sociais divisoras. No livro De Ecclesia, especialmente na seção sobre a relação entre Igreja e Estado, o Cardeal Billot golpeia a essência da Revolução Francesa, ao citar o Presidente Clemenceau: “Desde a Revolução, estamos em estado de revolta contra a autoridade humana, a qual destruímos com um só golpe em 21 de janeiro de 1793 [data do assassinato de Luís XVI]”. E num longo texto explica o ambiente histórico dessa luta hercúlea:
“Sem dúvida, a religião havia sido difundida por todo o corpo da sociedade, dos pés à cabeça. Toda a nossa civilização nasceu do cristianismo, e nela o clero detinha lugar proeminente na estrutura política; assim, em todos os lugares, as instituições civis e religiosas interligavam-se fortemente... Pode ver-se porque o ódio anti-religioso dos ímpios revolucionários teve como elemento necessário o ódio às instituições sociais, uma vez que, pela natureza delas, seria impossível divorciá-las da fé... Decretaram, portanto, que deviam ser tiradas pela raiz e completamente destruídas, para que o campo ficasse limpo para a nova ordem social e política, cujo primeiro e principal objetivo era destruir a religião por inteiro.
“O pretexto para instalar essa nova ordem era a liberdade; a sua lei era o contrato social; seu método, a demagogia; sua razão última, a criação de um Estado colossal e ateu... com poder ditatorial e absoluto para ditar o que é permitido ou proibido. Nesse Estado, o nome e o culto de Deus seria abolido para sempre... Esse é o fim para o qual tudo mais está ordenado como meio. Essa é a razão da destruição das famílias, da destruição das corporações, da destruição das liberdades municipais e das províncias – para que assim reste apenas uma só autoridade: o Estado ímpio... Esse é o objetivo, e não a liberdade civil. A liberdade é pretexto, é ídolo para seduzir o povo... deus oco que Satã vem criando para reduzir as nações a uma escravidão muito pior do que a da antigüidade.”
CONTRA OS CATÓLICOS LIBERAIS
O Cardeal Billot, portanto, pensou que a tarefa mais urgente era a de combater a revolução infiltrada entre os católicos, cujos frutos são “o anti-clericalismo jacobinista e o liberalismo pseudo-católico”. Com sua sólida formação doutrinal, ele não apenas evitou transigir com o liberalismo “católico”, mas considerava necessário “lutar contra esse grande mal dos nossos tempos que é querer agradar a Deus sem ofender o diabo, ou melhor, servir o demônio sem ofender a Deus”.
Escarneceu o liberalismo católico como a “mais perfeita e absoluta incoerência”. Esse tipo de “católico” quer professar ao mesmo tempo tanto o catecismo, com o qual crê que o homem foi feito para servir a Deus em todas as coisas, quanto a Declaração de Direitos do Homem de 1789, que quer o homem independente de Deus, e a esfera civil da religiosa. Os católicos liberais são incoerentes também quando aceitam os princípios católicos, mas rejeitam pô-los em prática. Crêem que, em princípio, a união da Igreja com o Estado é boa, mas na prática é sempre danosa à Igreja. Em suas mentes, a liberdade é a última instância, e todos sabemos que a liberdade, deixada por si só, inclina-se ao mal e à impiedade. O que se apresenta como remédio é, na verdade, a causa de todo o mal.
Um exemplo deve ser suficiente para ilustrar o método dos católicos liberais: Com respeito à religião, a posição católica é a de que há somente uma religião verdadeira e que o Estado deve adotá-la. Os liberais, no entanto, professam o indiferentismo, em que todas as religiões são iguais. Concluem que o pluralismo é a condição ideal para o Estado. O católico liberal, com espírito fraco e conciliador, aceita que a religião católica é verdadeira e deve dirigir as famílias e os indivíduos, mas rejeita a conclusão de que o Estado deve a ela submeter-se, e assim professa abertamente a liberdade religiosa.
O católico liberal, objeto da Ilusão Liberal (título de um livro de Louis Veuillot), em luta com sua incoerência, acaba sendo desprezado por Deus e pelos homens. Encarna em si mesmo o dualismo mencionado na Sagrada Escritura: “Se um edifica, e outro destrói, que proveito lhes resulta daqui senão trabalho? Se um ora, e outro amaldiçoa, de qual ouvirá Deus a voz?” (Eclesiástico 34, 28).
(The Angelus no. 442. Tradução: Permanência)
Pe. Peter Scott, FSSPX
É permitido a um homem casado servir no altar?
O serviço do altar no Santo Sacrifício da Missa tem tão elevada dignidade que a Igreja consagrou as várias funções do servidor do altar pelas ordens menores. O Hostiário recebe o poder de soar os sinos e de segurar os livros, o Exorcista recebe o poder de despejar água no Lavabo, e o Acólito recebe o poder de carregar as velas e de trazer água e vinho ao altar para o Santo Sacrifício da Missa. Em cada caso, a consagração do clérigo a Deus é simbolizada pelos movimentos exteriores que ele pratica no altar, de modo que o Hostiário dê bom exemplo aos fiéis através de sua vida, para que os chame à oração; o Exorcista dê o exemplo de pureza de alma, e o Acólito dê o exemplo de luz de bondade, justiça e verdade para iluminar os fiéis e a Igreja de Deus, e também de espírito de sacrifício através de uma vida casta e boas obras (cf. Pontificale, Cerimônias da Ordenação)
A adequação do serviço do altar por um clérigo está diretamente relacionada com a sacralidade de sua função, que requer um homem consagrado a Deus. Além disso, é uma função pública, razão pela qual, como São Tomás assevera, “ele assume o papel de todo o povo católico, em cujo lugar ele responde as orações do Padre, que se dirige a ele na forma plural” (III, q. 83, a. 5 ad 12). Consequentemente, é eminentemente adequado que essa função seja desempenhada por um clérigo tonsurado, o qual se tenha, publicamente, revestido “do novo homem, que foi criado de acordo com Deus em justiça e em santidade na verdade” (ibid.), e isso ainda que não haja fiéis presentes.
Portanto, se um clérigo tonsurado estiver presente, ele deve fazer o serviço do altar. Porém, raramente esse é o caso, e, ainda assim, a Igreja requer que haja um servidor do altar. Em sua encíclica de 1947 sobre a Sagrada Liturgia, o Papa Pio XII ensina isso claramente: “É nosso dever e mandamento – assim como mandamento da Santa Madre Igreja – que, por reverência pela dignidade desse augusto sacrifício, nenhum Padre deve se dirigir ao altar sem um servidor que assista e responda na Missa de acordo com a prescrição do Cânone 813” (Mediator Dei, §97). Esse Cânone afirma, em efeito, que o Padre não deve celebrar sem um servidor (ministro) que o sirva e responda às orações, e, além disso, esse servidor não pode ser uma mulher, exceto no caso de ausência de homem e na presença de justa causa, hipótese em que ela poderá responder às orações à distância e, de maneira alguma, aproximar-se do altar. Nesse caso, é claro, ela não é um servidor do altar. A razão para excluir as mulheres deriva do que se disse acima sobre a natureza pública e litúrgica da função do serviço do altar, que envolve uma espécie de liderança espiritual do povo católico.
Em seu comentário sobre a presente questão, o Pe. O’Connell diz: “Apesar dele [o servidor] dever ser um clérigo, na prática, servidores que não sejam clérigos são permitidos” (The Celebration of Mass, p. 365). Isso é confirmado pela sessão no Missal que enumera os defeitos que podem ocorrer durante a celebração: “se nenhum clérigo ou outra pessoa que possa servir estiver presente, ou se a pessoa presente é alguém que não pode servir, como uma mulher” (X, 1). Isso claramente significa que um homem não-clérigo pode servir e que isso não é um defeito; portanto trata-se de um costume universal.
Se os garotos, frequentemente, são usados no serviço do altar, é porque eles são todos vocações em potencial, presume-se que sejam castos e virtuosos e têm, ao menos, a possibilidade de tornarem-se clérigos no futuro, se assim for a vontade de Deus. A função, certamente, dá aos garotos uma grande oportunidade de desenvolver seu amor às belas cerimônias da Igreja, sua sacralidade e simbolismo, e, assim, eles vão se acostumar a prestar atenção aos detalhes, como os clérigos.
Porém isso não significa que um homem casado esteja, de algum modo, excluído do serviço. A questão chave, aqui, é lembrar que se trata de uma função pública, com um papel de liderança espiritual no que diz respeito aos fiéis na Missa. Consequentemente, é necessário que esse homem seja casto de acordo com seu estado de vida (castidade marital é uma virtude) e que ele seja um exemplo de virtude e que ele viva, ao menos, sua consagração a Deus realizada em seu batismo. Na verdade, seria muito mais adequado que um homem casado em estado de graça servisse do que um homem solteiro ou um garoto que não possa comungar por não estar em estado de graça, ou cujas vida e obras sejam causa de escândalo. Em cada caso, ele não pode esquecer que ele está cumprindo o papel de uma alma consagrada à elevada honra e glória do Deus Todo-Poderoso. A condição importante, porém, é que o homem casado não seja desleixado nas cerimônias, movimentos e respostas em Latim, e que ele preste tanta atenção a desempenhar essas funções quanto um clérigo prestaria, ou como um garoto que as está aprendendo pela primeira vez.
“Dá conta da tua administração” (Evangelho)
Paramentos verdes
O Espírito Santo que circula, por assim dizer, nas veias da Igreja, circula igualmente nas veias de todos os fiéis e faz que possamos dizer com verdade: “Pai nosso que estais no Céu” e que esperemos participar com Jesus Cristo na herança de Deus. Mas para merecermos entrar um dia nos tabernáculos eternos, é necessário que cá na Terra vivamos realmente como filhos e que nos deixemos docilmente conduzir para onde nos levar o Espírito de Deus que deve orientar e informar toda a nossa vida. E aqui está aquela sabedoria cristã que a Igreja nos aconselha a pedir na oração da Missa e que o Evangelho louva e diz que, em matéria de espírito, ultrapassa a previdência dos filhos do século nas coisas da Terra.
As lições do Breviário continuam a falar-nos de Salomão. Empregou muito bem o grande rei a sua sabedoria em construir um templo digno da glória do Senhor. Foi a sua obra prima. Três anos gastou em juntar os materiais: as grandes pedras talhadas na montanha, as madeiras do Líbano e o ouro puríssimo que recamava os altares e o resto do Templo até os tetos, porque nada havia na Casa do Senhor que não fosse forrado a ouro. Quando a construção terminou, mandou celebrar as grandes solenidades da dedicação e nelas pronunciou a oração magnífica que a Bíblia nos conserva e que inspirou muitíssimos passos da liturgia da dedicação das Igrejas.
As partes cantadas da Missa de hoje resumem à maravilha os sentimentos que orientaram o grande monarca na construção da obra e na composição da oração: uma grande ideia da majestade de Deus e do respeito devido aos lugares santificados pela Sua presença, aliada a uma confiança inabalável na proteção divina e na imensa bondade do Senhor.
Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.
Gustavo Corção
Numa excelente revista belga, Bulletin Indépendant d´Information Catholique, no. 150 – número especial com que se despede dos leitores, não podendo manter-se pela simples e clara razão de ser excelente – li um artigo cuja difusão me parece um imperativo dos tempos presentes. Trata-se da recensão do livro Karl Marx et Satan recentemente publicado nas Edições Paulinas – Apostolat des Editions – pelo judeu convertido ao cristianismo Richard Wurmbrandt, que sofreu na URSS muitos anos de trabalhos forçados em razão de sua fé cristã. Se último livro é revelador de relações estreitas entre o satanismo e o comunismo, que o autor considera como uma encarnação política do Demônio. Segundo A. d´Arian, diretor da revista e autor da recensão, a obra é digna de atenção com algumas reservas no plano da doutrina católica. As linhas que se seguem são de transcrição:
“Muito piedoso desde a sua mocidade, Karl Marx, da alta burguesia israelita, faz um pacto com Satã. Aos vinte anos surge no mundo das letras com um poema intitulado Oulamen, anagrama de Emanuel, no qual lêem-se esses versos: “Quero construir parar mim um trono nas alturas”, que repetem quase literalmente as palavras de Isaías (14, 13), “subirei aos céus, e colocarei meu trono acima dos astros de Deus”, que se referem a Lúcifer.
“Num outro poema, A Virgem Pálida, o miserável ousa escrever: – Já perdi o Céu; minh´alma, outrora fiel a Deus, está marcada para o inferno.
“Nessa época, Karl Marx combatia as idéias socialistas na revista alemã Rheinische Zeitung, escarnecendo ao máximo da classe operária. Mas, espantado, recebe a advertência de Moses Heff de que o socialismo pode ser uma boa isca para atrair os intelectuais e as massas para o seu ideal diabólico. O amigo convenceu-o. Fiéis a essa idéia, os soviéticos, desde a primeira hora, tomarão como lema: – Expulsemos os capitalistas da terra e Deus do Céu!
“Foi com Bakunine que Marx fundou a Ia. Internacional. Ora, Bakunine escrevia: – Satã é o primeiro livre-pensador, é o Salvador do Mundo que liberou Adão imprimindo em sua fonte o sinete da liberdade fazendo-o desobedecer. (Deus e o Estado).
“O mesmo Bakunine escrevia ainda: – É preciso incutir o Diabo na alma dos homens, e despertar neles as paixões mais torpes.
“E para que despertar as paixões do povo? Para permitir ao Diabo arruinar a obra do Criador. Marx diz isto sem a menor cerimônia: – Como um Deus criador, irei ao acaso entre as ruínas do mundo, sentindo-me igual ao criador.
“E assim, sem a menor preocupação pelo bem dos operários, Marx sonha incarnar-se no anjo rebelde para arruinar o mundo.
“Preguiçoso e dado a bebidas, Marx vivia na dependência de Engels, que, com benevolência, assume a paternidade do filho natural que Karl teve com sua empregada.
“Sempre apertado em dinheiro, Marx vive a esperar as heranças. Recebendo notícias da enfermidade grave de seu tio, escreve a Engels: “Se o cão morrer me tirará de embaraços”. E em 8 de março de 1855, sabendo da morte exclama: “Excelente notícia!”
“Diante do caixão de sua mãe, em 1863, demonstra a mesma alegria. Outro sinal diabólico pode-se constatar na sua correspondência com Engels sempre entremeada de obscenidades.
“Karl Marx morre desesperado no dia 25 de maio de 1883, depois de ter traçado estas palavras: -- Como a vida é vã e vazia”. A empregada que presenciou sua agonia observou que sua testa estava amarrada com uma fita longa, e que o moribundo se entretinha com um personagem invisível diante de uma fileira de velas acesas. Esse rito derradeiro teria alguma significação mágica para obter, daquele a quem se entregara, um suplemento de vida? Será o comunismo um enfeitiçamento coletivo?”
Antes de ter chegado à conclusão extrema de um pacto com Satã, como Richard Wurmbrandt, já publicamos em artigo de Itineraires, março de 1977, algumas reflexões que mostram o caráter violentamente negativo e destrutivo do anarquismo. Eis o texto:
Já observamos que, para a maioria das pessoas, os socialistas e anarquistas são vistos como homens apaixonados pela realização e atingimento de um ideal. Eles mesmos, para uso esterno (e talvez para internamente se enganarem a si mesmos antes de enganarem os outros), nos prometem um Novo Mundo, chegando até a nos proporem a mutação que nos trará o Homem Novo.
Ora, o Estudo mais atento, não somente da história, mas também das obras-primas de ficção que a história imita, nos revela a verdadeira figura desse fenômeno monstruoso. Percebe-se então que essas violentas correntes históricas, na verdade, não são movidas pela força de um ideal ardentemente desejado, mas pela força propulsora de uma rejeição em jato. Sim, pela força peristáltica de uma recusa. Acima de qualquer objetivo mais ou menos próximo, o anarquista põe sempre o desejo absoluto de um repúdio.
Para os descendentes de Bakunine e para os possessos de Dostoievski, a revolução é antes de tudo uma recusa absoluta e uma rejeição total. De que? Antes de mais nada recusa daquilo-que-aí-está, recusa da obra herdada, recusa da tradição, de todas as identidades impostas pelo real, recusa do ser, recusa de Deus. Donde tiram o soberano desprezo que eles manifestam pelos mornos, impuros ou utópicos sonhadores de conquista do poder para domínio dos acontecimentos e para a subsequente perfeição da obra herdada e continuada, como aquele pobre Jaurès que, em 1914, derramou o mais estéril dos sangues. Não resisto a tentação de colorir esse texto com a transcrição de uma página de Roger Martin du Gard, em Les Thibault, onde um de seus personagens revolucionários nos faz esta profissão de fé:
“—O domínio dos acontecimentos? Rosnou Mithoergh com gestos desordenados, dumkopf! A instauração de um novo regime só se pode imaginar sob a pressão de uma catástrofe num momento de Krampf espasmódico coletivo em que todas as paixões se tornam furiosas... Apenas marcado por um sotaque germânico, seu francês era correto, martelado, áspero. – Nada de novo pode ser feito sem esse élan que é dado pelo ódio. E para construir é preciso primeiro que um ciclone, um Wirbelsturm, tenha tudo destruído, tudo nivelado, até os últimos escombros! Mithoergh pronunciara essas palavras de cabeça baixa, numa espécie de desinteresse que ainda as tornava mais terríveis. Erguendo a cabeça arrematou: — Tabula rasa, tabula rasa”.
(O Globo, 6/5/78)
Pe. Robert Brucciani, FSSPX
Meus queridos fiéis, eu quero ser livre! Eu quero liberdade! Esse é um clamor universal. Ouvimo-lo cantado por pop stars e entoado por multidões efervescentes; vocês recebem a promessa dela por políticos em campanha eleitoral e em propagandas online; vocês a veem em pichações em muros e naqueles detidos contra sua vontade. Liberdade!
Pensar-se-ia que a ânsia universal de liberdade poderia trazer um certo grau de libertação, mas, ao invés, os homens encontram-se escravizados a suas paixões na ordem interior e a um totalitarismo crescente na ordem exterior.
Isso parece ser um grande paradoxo, mas não na realidade quando se compreende o que a liberdade é enquanto uma perfeição no homem e como ela é mal compreendida pelo mundo.
Noção moderna de Liberdade
Para o mundo liberdade significa três coisas:
- ausência de coerção externa (nenhum obstáculo exterior à escolha);
- ausência de limites internos (nenhuma limitação inerente à natureza);
- autonomia (permissão de escolher o bem ou o mal).
Essa definição é aprazível ao homem moderno e, por isso, é a moeda da cultura moderna.
Ausência de coerção externa
Para o mundo liberal, a liberdade, enquanto perfeição, é a ausência de coerção: a possibilidade de indulgência com qualquer capricho sem inibições, o gozo de todo prazer sem consequências, a abolição de todo tabu.
É a oportunidade sem qualquer regra, exceto, talvez, a regra “desde que eu não machuque ninguém” ou “desde que eu não viole os direitos do outro” ou “desde que todos consintam”. Portanto, um liberal pode proclamar “eu sou livre para usar meu corpo como desejar: embriagar-me, vestir-me como quiser, continuar ou não meu casamento. Sou livre para decidir matar a criança no meu útero. Sou livre para acreditar no que quiser e praticar qualquer religião que quiser – tanto em público, quanto em privado – sem restrições governamentais ou sociais”
Ausência de limites internos
A noção de liberdade do mundo não se resume à liberdade de coerções exteriores, mas liberdade das limitações inerentes à natureza humana.
“Eu posso ser aquilo que quiser: um homem ou uma mulher, até mesmo uma galinha. Posso fazer o que quiser se conseguir remover as consequências naturais indesejadas das minhas ações: posso ser promíscuo, se usar contraceptivos; não preciso trabalhar, porque o Estado não me deixará morrer de fome. Não preciso rezar, porque decidi que Deus não existe. Posso decidir, por mim mesmo, onde minha perfeição última (o céu) está: no prazer sensual, na fama, no poder ou no nirvana”
Autonomia completa
Para o mundo ser livre significa ter a possibilidade de escolher qualquer coisa: o bem ou o mal. É a posse da autonomia. Para o liberal, a liberdade, enquanto perfeição, é a vontade indeterminada: a vontade em potência, não em ato. A liberdade é pró-escolha: significa ser capaz de escolher como viver sem qualquer referência à natureza, à finalidade, ao bem, a Deus. Para o liberal, a glória do homem está na possibilidade de escolher, não em ter feito a escolha certa.
Problemas nas raízes da noção moderna de liberdade
Os problemas na noção liberal de liberdade enquanto perfeição advêm do fato do homem moderno (filósofos, cientistas, políticos e o público em geral) ter uma compreensão equivocada do ser em geral e do homem em particular.
Quatro causas do ser
A filosofia aristotélica nos ensina que todo ser criado pode ser definido por suas quatro causas:
- Causa eficiente: como uma coisa é feita;
- Causa material: do que é uma coisa é feita
- Causa formal: o que faz a coisa ser aquilo que é. No homem,
~ isso é a alma (enquanto coprincípio com o corpo);
~ é a essência: a coisa que faz um homem ser o que ele é, a coisa que dá a seu ser coerência, unidade e identidade;
~ é a natureza: aquele princípio de todo movimento e descanso da coisa: aquilo que faz o homem desejar o que deseja, odiar o que odeia; aquilo que determina onde sua perfeição última está – onde ele repousaria em estado definitivo
- Causa final: é o fim último, no qual um ser atinge a perfeição. Para o homem, trata-se da contemplação de Deus na Visão Beatífica.
A filosofia e a ciência modernas não têm noção da causa formal de uma coisa (alma, essência ou natureza) e, consequentemente, nenhuma noção da causa final dela. Eles apenas veem causas materiais, algo da causa eficiente, e forças (mecânica, elétrica, magnética e gravitacional).
Os cientistas modernos não conseguem detectar a ordem espiritual com seus instrumentos e, portanto, ou a desprezam, ou negam.
Problemas na definição de liberdade como “ausência de coerção externa”
Sem nenhum conceito da natureza da coisa, não há conceitos sobre as regras pertinentes àquela natureza.
Por exemplo, não temos liberdade de beber petróleo, voar por nossas próprias forças, respirar água. Essa coisas são contrárias à nossa natureza e levariam à nossa morte física. Semelhantemente, não temos liberdade de ser promíscuos, de mentir, de ignorar Deus, porque essas coisas levariam à nossa morte espiritual. Se a liberdade deve ser uma perfeição, então ela tem de levar à nossa perfeição quando a praticamos, tanto física quanto espiritualmente.
A Liberdade de fazer qualquer coisa que quisermos, na realidade, é perigosa para nós enquanto indivíduos e enquanto sociedade, porque a liberdade, necessariamente, está correlacionada à nossa natureza. Isso significa que a coerção externa que impede a escolha do mal é boa. Por exemplo, é bom proibir a pornografia, é bom que tenhamos várias de nossas leis civis (não todas) e uma força policial para as garantir, é bom que tenhamos corrimões nas escadas e lacres a prova de violação em frascos de medicamentos. Seria bom se, quando crianças, fôssemos forçados a rezar o terço em família por nossos pais.
Buscar a liberdade como se ela fosse, simplesmente, a ausência de limitações, na realidade, é pedir a escravidão: não apenas à nossa própria vontade desordenada, mas para toda a sociedade. Não apenas os indivíduos se tornam escravos de suas paixões – viciados nos vícios – mas também predispostos a se tornarem escravos do Estado, porque uma sociedade viciosa, muito provavelmente, tenderá ao totalitarismo que multiplica as leis e aumenta seus poderes de aplicar as leis em uma tentativa de escorar a desintegração inevitável da ordem.
E, então, em relação às limitações que o mundo aceita: quando as pessoas dizem que devemos ser livres para fazer tudo que quisermos, desde que não machuquemos alguém, elas esquecem que o homem é um ser social e que tudo que fazemos afetará o resto da sociedade. A garota que passa horas se admirando em segredo ou o menino viciado em jogos de computador no seu quarto, necessariamente, afetará aqueles próximos a ele.
Os que alegam que o consentimento é a condição da liberdade completa erram da mesma maneira, mas tendo cúmplices do seu erro.
“Meus direitos terminam onde os do outro começam” também é um dito popular, mas todos os direitos devem ter em vista o bem comum, não a coexistência ou a competição de bens individuais.
Problemas na definição de liberdade como "ausência de limitações interiores”
Crer que eu posso escolher minha natureza e minha própria finalidade é, claramente, uma ilusão. Isso reduz o mundo inteiro ao absurdo e, ironicamente, é mais restritivo:
- Se um homem escolher ser mulher, não terá a liberdade de atingir a perfeição da feminilidade (não poderá ter filhos, não poderá ser uma mãe).
- Se um homem escolher ser uma galinha, então estará mais inapto ainda a atingir a perfeição da natureza da galinha.
Consequentemente, ao escolher uma identidade e uma finalidade diferentes da minha identidade e finalidade reais, torno-me um escravo por minha escolha e causo dano real a mim mesmo. Jamais serei feliz ou atingirei a perfeição da minha real, imutável natureza, que me foi dada pelo meu Criador.
Problemas na definição de liberdade como “autonomia”
Para o mundo, liberdade é autonomia. É a vontade em potência com relação tanto ao bem quanto ao mal, o que é o mesmo que dizer: a vontade em potência com relação à perfeição ou à escravidão, ou até mesmo à autodestruição.
Uma perfeição muito maior da vontade é a potência de escolher entre um bem ou outro. E ainda maior é a vontade, já não em potência, mas no ato de escolher o bem. Essa é a liberdade tal qual existe em Deus.
A liberdade do mundo é a mesma prometida por Satã a Adão e Eva: “sereis como deuses, ao conhecerdes o bem e o mal” (Gn 3, 5). É uma liberdade ilusória da lei de Deus: liberdade do Direito Natural, de Jesus Cristo, da Igreja e até mesmo de Deus.
Tanto os homens decaídos quando Satã buscam essa falsa noção de liberdade e, portanto, são escravos. Os homens tornam-se escravos do mundo, da carne e do demônio. Satã é um escravo perpétuo do seu ódio de Deus.
A verdadeira Liberdade
Então, o que é a verdadeira liberdade, enquanto perfeição no homem? Essa pergunta é respondida por Santo Tomás no seu tratado sobre os anjos:
“Se o anjo bem-aventurado pode pecar? (Ia. pars, q.62, a.8, ad 3)
… Por onde, à perfeição da liberdade do arbítrio pertence o poder de eleger diversos meios, conservada a ordem do fim; mas, será um defeito da sua liberdade se eleger algum meio divertindo da ordem do fim, e pecando. Donde, maior é a liberdade do arbítrio nos anjos, que não podem pecar, do que em nós, que podemos.”
A liberdade sempre deve estar relacionada com o fim visado: a finalidade de uma coisa. É livre aquele que se direciona à perfeição suprema relativa à própria natureza.
A maior liberdade, portanto, consiste em estar no céu, onde não podemos escolher nada além do que nos leva a Deus, porque a visão de Deus é inteiramente satisfatória, não terá nenhuma diminuição e é possuída sem o temor de perdê-la.
A verdadeira liberdade não consiste em estar livre da coerção, em ter a escolha entre o bem ou o mal. A verdadeira liberdade é a liberdade de conhecer, amar e servir a Deus Todo-Poderoso. Ela é:
- a liberdade interior de virtude, que nos faz escolher o bem,
- a liberdade exterior de uma sociedade ordenada que nos protege e encoraja a escolher o bem,
- e o ato em si de escolher o bem
Atingimos a Liberdade interior ao viver a vida cristã de oração, mortificação e prática religiosa. Buscamos a liberdade exterior pela Ação Católica. E, pela prática da nossa liberdade, somos livres da sujeição à corrupção, para participar da liberdade gloriosa dos filhos de Deus (Rom 8, 21).
(Ite Missa Est, editorial, Julho-Agosto de 2021. Tradução: Permanência)