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O devotamento heroico dos padres a bordo do Titanic

Pe. Claude Pellouchoud

Antes da partida do Titanic, um funcionário católico do transatlântico testemunhou blasfêmias e provocações sacrílegas traçadas sobre o casco ou apenas pronunciadas1 por centenas de operários incumbidos da construção do navio; entre eles, muitos ímpios que zombavam dos colegas católicos. Ele escreveu aos seus parentes em Dublin: “Estou persuadido que o barco não aportará na América por conta das odiosas blasfêmias que cobrem seus flancos.” 2

Na noite de 14 a 15 de abril de 1912, no Oceano Atlântico Norte, após ter se chocado na proa a estibordo com um iceberg, este insubmersível rei dos mares foi a pique em menos de três horas. Ao Titanic faltavam desesperadamente botes de salva-vidas. Os 20 barcos de socorro presentes só podiam embarcar 1.178 pessoas, ou seja, a metade do total de passageiros (entre 2.201 e 2.228 estavam a bordo; o Titanic foi concebido para transportar 3.503 passageiros). Somente 711 escaparam. Entre 1.491 e 1.517 pessoas pereceram3, o que faz deste naufrágio uma das maiores catástrofes marítimas em tempos de paz. 

Essa noite fatal tornou-se uma das mais tristemente célebres, inspirando romances, canções, programas de TV, documentários e filmes4. “O relato da trágica travessia inaugural não cessa de apaixonar o grande público nos cinco continentes” 5, o Titanic representa e incarna, para a consciência dos nossos contemporâneos, um mito. Passado um século do drama, e depois das conclusões oficiais há muito terem sido apresentadas6, o Titanic permanece no fundo do Atlântico7 como um símbolo do castigo reservado àqueles que colocam a sua fé na tecnologia.

 

Três sacerdotes católicos a bordo

“Paradoxalmente, o Titanic, que não concluiu sua única viagem, é o transatlântico do qual mais se sabe com relação a passageiros e tripulação.” 8 A despeito da proliferação de publicações relativas a esse naufrágio, um fato foi muitas vezes ignorado. Menciona-se que se encontravam a bordo do transatlântico pastores protestantes de diferentes obediências, ou que o capitão Smith cancelou a simulação de resgate que interferiria no ofício religioso que ele próprio presidiu no salão principal, na primeira classe. Mas nunca lemos nada sobre os três padres que celebravam quotidianamente a missa a bordo do Titanic. 9

- O Reverendo Padre Thomas Roussel Byles, nascido em 26 de fevereiro de 1870, filho de um pastor de uma igreja congregacionalista, fora educado no Balliol College, Oxford, onde estudou matemática, história moderna e teologia. Durante os seus estudos, em 1894, converteu-se ao catolicismo e ingressou no seminário de St. Edmund College, em Ware, Hertfordshire, aí permanecendo até 1899. Em seguida partiu para Roma, onde terminou os seus estudos,  ordenando-se padre em 15 de junho de 1902. Desde 1905 era o reitor da igreja católica romana St. Hellen, em Chipping Ongar, Essex. Viajava a Nova York para celebrar o casamento do seu irmão William, igualmente convertido ao catolicismo, previsto para o dia 21 de abril de 1912.

- O Pe. Juozas Montvila, nascido em 3 de janeiro de 1885, ordenado  em 22 de março de 1908 e designado vigário em Lipskas, na diocese lituana de Seiny, onde atendia secretamente às necessidades espirituais dos Uniatas, havia sido detido e condenado pelo governo russo, que controlava a Lituânia. Não lhe sendo possível retomar esse trabalho pastoral em um futuro próximo, decidiu emigrar para Worcester, no estado norte-americano de Massachussetts, onde viviam seu irmão e muitos outros lituanos, em meio aos quais esse jovem padre, que mal tinha 27 anos, pretendia exercer o seu ministério.

- O Reverendo Padre Joseph Peruschitz, originário da Alta-Baviera, nasceu em 21 de março de 1871, recebendo no seu batismo o nome de Bento. Após ter estudado filosofia e teologia no liceu de Freising, pediu para ingressar no convento beneditino de Scheyern. A tomada de hábito se deu no dia 23 de agosto de 189410. Por ocasião dos seus votos temporários, em 1895, recebeu seu nome de religião: Joseph. Foi ordenado no dia 28 de abril de 1895. Por uma autorização particular, pronunciou os votos solenes pouco após sua ordenação. Embarcava em resposta a um chamado vindo da América do Norte para assumir a direção de um importante colégio dirigido por beneditinos suíços no Minnesota. Sua família ignorava tudo da sua viagem e Dom Joseph Peruschitz queria surpreendê-los pondo-os em face de um fait accompli por um telegrama enviado desde a sua chegada no novo continente.

 

Domingo de Quasimodo

Na manhã do dia 14 de abril, um domingo, o Padre Byles celebrou, na sala de jantar, a missa para os passageiros da segunda classe; em seguida, celebrou outra para os passageiros da terceira classe, dando o sermão em inglês e francês, enquanto o Padre Peruschitz continuava com um sermão em alemão e húngaro. De acordo com um artigo publicado no The Evening World, os dois padres pregaram sobre “a necessidade de ter ao alcance da mão um bote de reconforto religioso para o caso de naufrágio espiritual”.

Pouco antes da meia-noite, reinava no Titanic uma grande excitação. Enquanto massas de água se engolfavam no nível da praça de máquinas, senhoras elegantes bailavam em companhia de seus cavalheiros, admirando o céu estrelado. Quem, entre os passageiros, imaginava o que estava por acontecer? Poucos tomaram as advertências a sério — afinal, o navio era insubmersível! Quando os passageiros entenderam o que se passava, todos foram tomados de pânico; a tripulação distribuía coletes e encaminhava mulheres e crianças para os barcos salva-vidas.

De acordo com numerosos testemunhos, os padres Byles e Peruschitz estavam em “pé de guerra” para ajudar os outros. Temos poucos testemunhos acerca do terceiro padre, mas se sabe que o “jovem padre lituano, Juozas Montvilla, cumpriu sua missão até o fim”. Os três padres ajudaram os passageiros da terceira classe a subir as escadas até o lugar de embarque e a subir nos barcos salva-vidas. Consolavam-nos com boas palavras. Algumas senhoras não quiseram se separar dos seus esposos e preferiram morrer com eles. Quando não havia mais mulheres, permitiu-se que alguns homens subissem nos barcos.

 

Ficar com aqueles que iriam morrer

Por duas vezes, um membro da tripulação tentou convencer o padre Byles a tomar assento em um barco, mas ele recusou. No dizer dos sobreviventes, ao padre Peruschitz também foi oferecido um lugar, mas ele também recusou. Quando o último barco desceu, restavam ainda a bordo cerca de 1.500 pessoas que viam a morte se aproximar. Todos os três ministravam seus serviços sacerdotais, ouvindo confissões e rezando com os que não puderam escapar. Mais de uma centena de passageiros, aglomerados na extremidade de trás do convés do barco, foi ajudada por eles.

Na revista católica America, uma testemunha ocular deu o seguinte relato sobre a conduta dos padres enquanto o Titanic soçobrava:

“Quando a agitação alcançou o ápice, os católicos a bordo desejaram a assistência dos padres com máximo fervor. Dois padres incitaram aqueles que estavam condenados a morrer a pronunciar atos de contrição e a se preparar para o encontro com Deus. Rezavam o rosário e os outros respondiam. O barulho feito pelos que rezavam irritou alguns passageiros que ridicularizavam os que oravam e começaram a fazer um círculo ao redor deles. Os dois padres não pararam, dando a absolvição coletiva aos que iam morrer. Aqueles que tomaram assento nos barcos foram consolados com palavras comoventes. Algumas mulheres recusaram-se a separar-se de seus maridos, preferindo morrer ao lado deles. Finalmente, quando não havia mais mulheres na proximidade, alguns homens foram admitidos nos barcos. Ofereceram um lugar ao padre Peruschitz, mas ele recusou.”

Segundo outra testemunha ocular:

“Todos os sobreviventes com os quais nós conversamos relataram que, em meio a essa desgraça, houve um episódio extraordinário, surpreendente e consolador. O padre Peruschitz, assim como o padre Byles, levaram socorro incessante aos demais. Alguns passageiros, que não tinham percebido o perigo inicialmente, mas que tomaram consciência do que se passava posteriormente, ao ver os padres se aproximarem em meio a um tumulto terrível, rogaram com grande fervor a assistência e o apoio destes últimos.”

O fim estava cada vez mais perto. As águas do mar corriam em torrentes pelos salões. Às duas horas da manhã, muitos passageiros se ajoelhavam, choravam e confessavam os seus pecados.

Os dois homens de Deus se despendiam sem esmorecer para administrar a extrema unção e absolver os que estavam na água e, em breve, estariam em artigo de morte, e os que rezavam no navio e logo seriam engolidos pelo mar. Antes de as luzes do Titanic se extinguirem, a popa ergueu-se como um dedo apontado para o céu por efeito do contrapeso do casco despedaçado, e, com um estalido terrível, enquanto o padre Peruschitz e seu irmão no sacerdócio ainda distribuíam a absolvição geral, uma porta mergulhava nos abismos oceânicos.

Um jornal relatou mais tarde:

“Aqueles que, nas embarcações, testemunharam a desaparição do navio nas ondas, narraram que jamais esqueceram como os dois padres abençoavam, com suas mãos consagradas, a multidão que rezava ao seu redor.”

Eles iam e vinham em direção àqueles que estavam aos seus pés, a quem Deus deu a graça da conversão e que ofereciam a sua vida em sacrifício. Agnès Mac Goy declarou:

“Não se enxergava mais nada, mas não se ouviam gritos de desespero, gemidos ou apelos desesperados. Apenas vozes, completamente apaziguadas pela oração, repercutindo enquanto o navio afundava.”

Nesses últimos momentos do naufrágio do navio, o coral da capela da embarcação entoou e tocou com os instrumentos: “Mais perto de Vós, ó meu Deus, mais perto de Vós!”

Os três padres e todos os ministros protestantes morreram no naufrágio. Os pastores, viajando com um ou muitos membros das suas famílias, cuidaram principalmente deles, instalando-os nos barcos salva-vidas e despedindo-se deles.

 

Memorial dos padres

No Brooklyn, o irmão do Rev. Pe. Byles, William Byles, não adiou o seu casamento com Katherine Russel. Outro padre celebrou a cerimônia. Um jornal do Brooklyn relata que os noivos voltaram a casa após o matrimônio, vestiram roupas de luto e retornaram à igreja para uma missa de réquiem. O casal partiu em seguida para uma curta lua de mel em Nova Jérsei.

Na igreja St. Helen de Chipping Ongar, os irmãos do padre Byles instalaram uma porta dedicada à sua memória com três vitrais representando São Patrício, o Bom Pastor e São Tomás de Aquino. No ângulo inferior direito do vitral de Santo Tomás, lê-se o seguinte: “Pray for the Rev. Thomas Byles, for 8 years Rector of this mission, whose heroic death in the disaster to S.S. Titanic April 15 1912 eamestly devoting his last moments to the religious consolation of his fellow passengers, this window commemorates.” (Rogai pelo Rev. Padre Thomas Byles, reitor desta missão por 8 anos, cuja morte heróica no desastre do Titanic em 15 de abril de 1912, consagrando com fervor seus últimos instantes a reconfortar religiosamente seus companheiros de viagem, é comemorada por este vitral.”

Uma placa modesta de mármore colocada em um dos deambulatórios do claustro de Scheyern, e quase não notada no meio de muitas outras, recorda a memória do Padre Peruschitz. Está gravado: “R.I.P: R.P. Josephus Peruschitz, O.S.B qui in nave ista Titanica die 15.IV.1912 pie se devovit aetatis anno 42. Sacerd. et profess. 17” (Que o Padre Peruschitz repouse em paz, ele que sobre o navio Titanic ofereceu sua vida piedosamente”)

O padre Juozas Montvila é considerado um herói na Lituânia e o seu processo de beatificação foi introduzido em Roma. A paróquia lituana que ele havia de fundar em Worcester, Massachusetts, foi criada finalmente no dia 13 de novembro de 1913.

(Le Rocher, tradução: Permanência)

  1. 1. “Nem mesmo Deus é capaz de afundar essa cidade flutuante”, declarava um marinheiro.
  2. 2. “Cette lettre est conservée comme une relique”, testemunho do Pe. H. de Jackon, em Ecclesia, abril de 1952.
  3. 3. O número de pessoas a bordo e o balanço da catástrofe variam de fonte para fonte. O número exato das vítimas jamais foi estabelecido; apenas 337 corpos foram encontrados.
  4. 4. Notadamente, o sucesso de bilheteria de James Cameron, em 1997, reexibido em 3D por ocasião do centenário do naufrágio.
  5. 5. Gérard Piouffre, “Nous étions à bord du Titanic du 27 mars au 15 avril 1912”, First Histoire, 2012, p.3
  6. 6. Um grupo de peritos americanos ainda conduz uma pesquisa, reunindo-se uma vez ao ano.
  7. 7. Foi em 1985 que os destroços foram descobertos, a 700 km da costa de Terra Nova e Labrador, a 3.800 metros de profundidade.
  8. 8. Gérard Piouffre, loc. cit.
  9. 9. Testemunho da passageira de segunda-classe Ellen Toomey.
  10. 10. No claustro de Scheyern conserva-se o testamento manuscrito do padre, em escrita gótica. Um ato muito pessoal que Joseph Peruschitz redigira com tinta negra por ocasião da sua entrada no convento, em 14 de agosto de 1894.

O Burro

THE DONKEY

When fishes flew and forests walked

And figs grew upon thorn,

Some moment when the moon was blood

Then surely I was born;

With monstrous head and sickening cry

And ears like errant wings,

The devil's walking parody

On all four-footed things.

The tattered outlaw of the earth,

Of ancient crooked will;

Starve, scourge, deride me: I am dumb,

I keep my secret still.

Fools! For I also had my hour;

One far fierce hour and sweet:

There was a shout about my ears,

And palms before my feet.

O BURRO

Quando os peixes voavam e as florestas

Moviam-se e espinheiros davam figos,

Num momento em que a lua era de sangue,

Eu decerto nasci: tempos antigos.

Com uma cabeça enorme e um grito ascoso

E orelhas – duas asas aberrantes –

Sou a paródia mesma do demônio

Por entre todos mais quadrupedantes.

A andrajosa escumalha deste mundo,

Cuja perversidade não tem fim,

Escarnece-me, bate-me, esfomeia-me,

E eu guardo o meu segredo para mim.

Estultos! Eu também tive uma hora,

Distante e doce e minha – uma hora ardente:

Bradava a multidão à minha volta

E espalhava-me palmas pela frente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte:  The Collected Poems of G. K. Chesterton (Dodd Mead & Company, 1927)

Tradução: Sérgio Pachá

 

 

 

Introdução ao sétimo domingo de Pentecostes

“Pelos frutos se conhece a qualidade da árvore” (Evangelho)

 

Paramentos verdes

 

As lições do Breviário terminam hoje a história de Davi e começam a de Salomão. Ao ascender ao trono de seu pai, Salomão pediu a Deus que lhe desse a sabedoria necessária para discernir o bem do mal e conduzir o seu povo no caminho da justiça. E Deus respondeu-lhe: “Porque só isto Me pedes, porque nem Me pedes vida longa e venturosa, nem riqueza, nem a morte dos inimigos, mas apenas inteligência para praticar a justiça, farei o que tu queres. Dar-te-ei, pois, um coração tão sábio e inteligente como nunca existiu nem existirá sobre a Terra. E dar-te-ei mais isto que não Me pediste: terás glória e riqueza a tal ponto que não se achará nenhum semelhante a ti em todos os séculos passados. E se andares nos meus caminhos e guardares os meus mandamentos como fez o teu pai Davi, Eu prolongarei os teus dias”. E a promessa de Deus cumpriu-se. Salomão foi um monarca poderoso e sábio, cuja aliança era desejada pelos povos vizinhos. Rei pacífico, Salomão é figura de Cristo, o Príncipe da paz, proclamado pelas nações; sábio entre os sábios, prenuncia o Filho de Deus, a Sabedoria encarnada, que viria estabelecer definitivamente a separação do bem e do mal e guiar o seu povo nos caminhos do Altíssimo.

Melhor que Salomão, ensinou Jesus a sabedoria verdadeira que nos legou no Evangelho e na palavra da sua esposa, a Igreja. E é necessário, é absolutamente indispensável para entrarmos no Reino dos Céus, seguir e amar com inteireza esta doutrina. A Epístola e o Evangelho são que o dizem: “Não é aquele que diz Senhor, Senhor, quem entrará no Reino dos Céus, mas o que fizer a vontade de Deus”. E S. Paulo procura convencer-nos da mesma verdade e da necessidade para todos impreterível de pertencer a Cristo sem reservas e de lhe ser fiel até à morte. E neste ponto, Davi e Salomão são para nós ainda uma lição ao mesmo tempo terrível e consoladora. Salomão não perseverou, foi infiel ao Senhor e a sua glória, ainda que deslumbrante, não tardou a diluir-se no vácuo donde se erguera. Faltou-lhe a consistência. Davi, não obstante o seu pecado terrível, é maior, porque chorou amargamente, e foi tão sincera a sua conversão que a sua piedade inspira ainda hoje a piedade das almas santas. Peçamos a Deus que nos conduza no caminho da Sua justiça e que aparte de nós tudo o que nos pode causar dano e nos conceda tudo o que nos pode servir de auxílio.

 

Da Epístola: os pecados da carne e do espírito têm por salário a vergonha e levam à morte eterna. A virtude tem por recompensa a santidade já neste mundo e a vida eterna no outro.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

Nota biográfica do Cardeal Merry del Val

Pe. Dominique Bourmaud, FSSPX

O Papa São Pio X e Rafael Merry del Val: difícil imaginar duas personalidades mais diferentes. Aquele nasceu no interior da Venécia, no seio duma família humilde, que conheceu dificuldades e provavelmente até fome. Antes de ser eleito papa, passou a vida em reitorias rurais e chancelarias provinciais, distante da publicidade e dos centros de poder.

Merry del Val (1865-1930), por outro lado, veio duma das mais proeminentes famílias do continente, recebeu educação cosmopolita e poliglota, e foi familiar às embaixadas e círculos mais exclusivos das capitais européias. As vidas desses dois prelados, que pareciam destinadas a trilhar caminhos separados, cruzaram-se quase por acidente e acabaram tão ligadas que mesmo hoje é difícil separá-las.

 

DE FILHO DE EMBAIXADOR A EMBAIXADOR DO PAPA

De acordo com Pio Cenci, biógrafo de Merry del Val, o próprio Leão XIII o pôs na Academia dos Nobres Eclesiásticos, devido à sua linhagem nobre e suas habilidades lingüísticas, uma vez que dominava perfeitamente os principais idiomas europeus. Antes de se tornar sacerdote, o papa utilizou-o em missões diplomáticas na Inglaterra, Alemanha e Áustria. Na cúria pontifícia, que procurava tão esforçadamente retornar sua presença internacional após a perda do poder temporal em 1870, esse descendente dos ilustres ingleses Merry e da ainda mais ilustre casa espanhola Val foi um enviado de Deus.  A ascensão rápida de Merry del Val deveu-se, além dos antecedentes familiares, à sua sólida formação histórico-jurídica, sua capacidade inata de bem relacionar-se, e à sua prontidão, como Bento XV diria, para resolver problemas.

Após graduar-se na Pontifícia Universidade Gregoriana, tornou-se figura de influência em Roma, especialmente na questão anglicana. Seu perfeito conhecimento do ambiente, as viagens freqüentes que fazia sobre o Canal da Mancha, e a estima do Cardeal Vaughan conferiram-lhe a autoridade necessária. Confiou-lhe Leão XIII com a espinhosa questão da validade das ordens anglicanas, e ele conduziu a Santa Sé à resposta negativa, dada oficialmente em setembro de 1896 com a bula Apostolicae Curae, da qual foi o principal arquiteto. Com base na prática estabelecida ao longo de trezentos anos, e numa exaustiva investigação histórica, Leão XIII confirmou a “nulidade” das “ordenações realizadas segundo o rito anglicano”, portanto negando que os seus bispos tenham a sucessão apostólica.

No ano seguinte, viajou para uma longa missão no Canadá como delegado apostólico. O jovem catolicismo canadense, dividido entre as tentações opostas de severidade e lassidão, pedia a ajuda de Roma. Merry del Val agiu com moderação, especialmente no problema das escolas católicas de Manitoba, e foi objeto de um reconhecimento público da parte do Papa na encíclica Affari Vos, de dezembro de 1897.

 

DE SECRETÁRIO DO CONCLAVE A SECRETÁRIO DE ESTADO

No tempo do conclave de 1903, reunido após a morte de Leão XIII, Merry del Val era bispo e presidente da Academia dos Nobres Eclesiásticos. Por um concurso de circunstâncias, foi promovido in extremis a secretário do conclave, na ocasião da morte do papa. Assim, embora não tivesse podido votar porque não era cardeal, teve de carregar a pesada carga de preparar e conduzir o mais difícil conclave dos últimos dois séculos.

O primeiro encontro com o Cardeal Sarto aconteceu durante o conclave. A Áustria vetara a eleição do Cardeal Mariano Rampolla del Tindaro e, após quatro dias, à sétima votação, escolheu-se para o papado, com o nome de Pio X, o relativamente desconhecido Patriarca de Veneza, Giuseppe Sarto. O jovem Merry del Val, que foi encarregado de buscá-lo e encorajá-lo a aceitar a nomeação, teve então uma primeira vista da santidade do “seu” Papa, que ele encontrou debruçado em oração diante do sacrário, rogando para que lhe afastasse a cruz do papado. Com o fechamento do conclave, Sarto pôde observar o prelado em ação e, assim, avaliá-lo. Dessa maneira, poucas horas após tornar-se Papa, Sarto informou-o, para sua completa surpresa, que decidira manter Mery del Val como Secretário de Estado interino. “Até agora não tenho ninguém”, conta-se que lhe teria dito calmamente. “Fique comigo. Depois veremos.”

Mas São Pio X, com sua aguda intuição, observou e analisou Merry del Val diariamente, e não demorou a entender que esse era o “homem de Deus” que a Providência colocara ao seu lado no Pontificado. Após período probatório de apenas dois meses, Pio X dissipou as dúvidas e, em 18 de outubro de 1903, nomeou-o Secretário de Estado e o fez cardeal. Abençoou-o e, com afeição paterna, lhe disse: “Aceite: é a vontade de Deus. Vamos trabalhar juntos e sofrer juntos por amor à Igreja”, ecoando dessa maneira o “coragem, Eminência” que Merry del Val sussurrara ao Cardeal Sarto poucos meses antes, encorajando-o a aceitar o Pontificado.

Pio X certamente levou em consideração outra qualidade de Merry del Val: sua vida de piedade. O louvor que o Papa Sarto lhe fez em 11 de novembro de 1903, dia em que recebeu o barrete de cardeal, é de uma linguagem tão incomum que merece ser citado na íntegra: “O bom perfume de Cristo, Sr. Cardeal, que espalhastes em todos os lugares, mesmo na vossa residência temporária, e os muitos trabalhos de caridade a que vos dedicastes no vosso ministério de sacerdote, principalmente na nossa cidade de Roma [ele subsidiou um grupo de jovens em Trastevere], granjeou para vós, com admiração, a estima universal.” Um Papa essencialmente religioso escolheu para si um Secretário de Estado com suas próprias características.

O novelista francês René Bazin louvou a decisão de Pio X, que “nomeando o Cardeal Merry del Val como Secretário de Estado, mostrou possuir as principais qualidades de um príncipe, que são conhecer os homens e saber escolher seus ministros para o bem do reino. Elevar de súbito o jovem prelado a tão alta posição exigiu coragem: mas Pio X reconheceu em Rafael Merry del Val um caráter extraordinário e uma inteligência superior.”

No primeiro Consistório, o Papa explicou aos cardeais que pessoalmente observara os seus “nobres dons de alma e caráter, sua notável prudência ao lidar com os assuntos da Igreja. Escolhi-o porque é um poliglota: nasceu na Inglaterra, foi educado na Bélgica, de nacionalidade espanhola, e vive na Itália; filho de diplomata, e ele mesmo um, está acostumado com os problemas das nações. Ele é muito modesto, um santo. Vem todas as manhãs e me informa de todos os assuntos do mundo. Nunca preciso adverti-lo de nada, e ele não conhece transigências”.

 

A CÚRIA DA IGREJA E A REFORMA DA IGREJA

Merry del Val movia-se graciosamente no mundo diplomático, era capaz de manejar problemas de política internacional, e compreendia a Cúria Romana perfeitamente. Alguém poderia dizer que o novo Secretário de Estado tinha tudo que faltava no papa. São Pio X costumava referir-se a Merry del Val como o “seu” Cardeal. Camille Bellaigue escutou do papa: “Separar-me do Cardeal Merry del Val? Preferiria separar-me da minha cabeça”. Em diversas ocasiões disse que “não podia agradecer suficientemente a Nosso Senhor por ter-lhe conferido tão precioso colaborador”.

A “política internacional” não foi tão primordial para São Pio X como o fora para Leão XIII. Ainda assim, o papa teve de lidar com várias crises internacionais que lhe exigiram toda a atenção e a de seu fiel colaborador, e a mais notável delas foi a dramática separação da Igreja e do Estado na França em 1905. Enfrentando óbvia chantagem, com um só golpe, a firmeza do papa limpou três séculos de galicanismo — a Igreja nacional — tornando o catolicismo francês novamente fiel a Roma. Merry del Val apoiou essa política com lealdade e convicção, tal como o fizera nas decisões de Pio X para reforma radical da Igreja: desde a supressão do direito de veto nos conclaves, seguindo com a reforma da Cúria, até a codificação do Direito Canônico.

A reforma da Cúria Romana, aprovada em 1908, embora visasse diretamente à expansão de seus poderes, fazia-o de tal modo que a Secretaria de Estado passava a ocupar o penúltimo lugar em relevo, dentre os cinco dicastérios romanos. O coração da Cúria de São Pio X não estava na Secretaria de Estado, ao contrário do que aconteceria sessenta anos mais tarde, na reforma de Paulo VI. O coração estava representado pelas onze congregações, sobretudo o Santo Ofício. Talvez por essa razão o papel de Merry del Val, diferentemente de qualquer dos seus antecessores ou sucessores, tenha coincidido com o do papa quase a ponto de se fundirem. Ao se dedicar pouco ou nada à política, mas sim a governar e renovar a Igreja, São Pio X extirpou da Secretaria de Estado muito da margem de manobra que fazia dela um agente autônomo, e estreitou sua vinculação ao papa.

Muito se tem escrito e muitos têm criticado a atitude decisiva do papa no combate ao modernismo, essa ameaça mortal que forjou uma crise interna na Igreja. Novamente, Merry del Val, mais que ninguém, teve o preciso entendimento da gravidade da situação, em que o rebanho universal corria o risco de gangrenar-se por toxinas internas. O anti-modernismo do cardeal precedia sua promoção ao cargo de Secretário de Estado. Ele se opôs à heresia do Americanismo, condenada por Leão XIII na Carta Apostólica de 1899 Testem benevolentiae. No mesmo ano, o prelado se pronunciou sobre outro livro, External Religion, do futuro modernista George Tyrrell, e escreveu ao Cardeal Vaughan sobre as heresias do cientista St. George Jackson Mivart. Ele prometeu a esse cardeal a aprovação pontifícia à sua carta pastoral conjunta, de 1900, que condenava o catolicismo liberal.

Logo que alcançou posição de autoridade como braço direito do Papa, Merry del Val escreveu ao Cardeal Ricardo de Paris o prefácio ao decreto do Santo Ofício que lançou cinco obras do Pe. Alfred Firmin Loisy no Índice de Livros Proibidos, e repudiou a sujeição imperfeita de Loisy. Escreveu a carta de 1904 que dissolveu a seção italiana da Opera dei Congressi, sujeitando o grupo leigo à autoridade da Igreja, em conformidade com os legítimos princípios de ação católica. Favoreceu similar subordinação à Igreja do partido do centro na Alemanha. Em 1910, ainda, participou na condenação papal ao movimento liberal francês Sillon.

Após a morte do Papa, o Cardeal Merry del Val manteve sua enorme devoção a Pio X: elaborou a petição que iniciou seu processo de canonização. No dia 20 de cada mês, o dia da morte do Papa, rezava missa pelo descanso da sua alma. Pediu que fosse sepultado “o mais próximo possível do meu amado pai e pontífice Pio X”. Quando morreu em 1930, seu corpo foi carregado por jovens de Trastevere à cripta de São Pedro e enterrado perto de Pio X. Lê-se a inscrição no mármore: Da mihi animas - Coetera tolle (“dá-me almas - leva o resto”), aplicação mística das palavras de Abraão, “Dá-me a mim as pessoas, e os bens torna-os para ti” (Gen. 14:21). Por requerimento do clero espanhol, sua causa de canonização foi iniciada em 1953. O processo informativo foi completado em 1956 e publicado em 1957. A causa, porém, pouco progrediu desde o Vaticano II.

(The Angelus no. 441. Tradução: Permanência)

A luta de São Pio X contra o modernismo

Pe. Hervé Gresland, FSSPX

 

Louis Jugnet expõe do seguinte modo a situação que São Pio X encontrou ao subir na cátedra de Pedro, em 4 de agosto de 1903:

“Hoje em dia todos sabem a que ponto o fim do pontificado de Leão XIII, apesar da sua doutrina tão magnificamente ilustrada, foi marcado pela eclosão de ideias falsas na Igreja, na Alemanha, na França, na Inglaterra e na Itália. Basta ler as Memórias de Loisy para ver o quanto a filosofia, a teologia, a história, a exegese, a disciplina eclesiástica e o pensamento político-social estavam impregnados dos erros da moda. Porém, graças ao que Loisy chamou, com um eufemismo divertido, de ´um forte movimento de opinião e de verdade´, designando assim grupos de pressão muito influentes (São Pio X falará mais tarde de “clandestinum foedus”[1]), possuindo ramificações por toda parte, nos seminários, nas faculdades católicas, no Episcopado e mesmo em alguns círculos da Cúria, seria quase impossível de obter do Magistério romano uma medida minimamente eficaz.”[2]

Esta apresentação nos permite compreender o papel capital que São Pio X desempenhou na ação contra o modernismo. Em face deste erro multiforme, a primeira medida do seu pontificado foi a condenação, já no final de 1903, das principais obras do Pe. Alfred Loisyt, um dos chefes de fileira do modernismo.

Em 1907, outras medidas mais genéricas vieram completar essa ação. Em 15 de abril de 1907, em uma alocução consistorial, o papa declarou que os que mais devem ser temidos são os que, dentro da Igreja, professam “erros monstruosos”.

No dia 3 de julho de 1907, a Sagrada Congregação do Santo Ofício publicou o decreto Lamentabili condenando 65 proposições[3].

 

A Encíclica Pascendi

No dia 8 de setembro do mesmo ano, São Pio X promulgou a Encíclica Pascendi pela qual desmascarou e condenou com força e clareza o modernismo. Essa encíclica surpreendeu não apenas os modernistas que trabalhavam às ocultas para espalhar as suas ideias, mas também muitos católicos adormecidos que não haviam percebido de modo algum o mal profundo que ameaçava a Igreja e a doutrina católica. Essa encíclica foi um clarão dissipando as trevas.

Desde as primeiras palavras, São Pio X indicou que seu primeiro dever de papa é o de “guardar com todo o desvelo o depósito da fé”. E continou dizendo que a razão que o levou a se pronunciar sem demoras é que “os partidários do erro já não devem ser procurados entre os inimigos declarados; mas, o que é muito para sentir e recear, eles se ocultam no próprio seio da Igreja.”[4]

Os modernistas não são apenas inimigos da Igreja, mas os seus piores inimigos, diz o papa, pois agem desde o interior da Igreja. Inicialmente, São Pio X usou da paciência e da mansidão para tentar reconduzi-los ao reto caminho, mas foi em vão. Agora, ele os denuncia publicamente: “Há, pois, um dever de quebrar o silêncio, que agora seria culpável. É hora de tornar bem conhecidos à Igreja esses homens tão mal disfarçados.”

A Encíclica expóe longamente as doutrinas modernistas e as analisa para demonstrar o laço lógico que há entre elas; demonstra que o modernismo constitui um sistema bem organizado, e que as partes são solidárias. A Encíclica decompõe os modernistas em diferentes personagens[5] a fim de passar em revista, uma após a outra, as idéias que professam. Ela remonta aos princípios errôneos na origem deste erro: se o modernismo é um erro religioso, sua raiz profunda é uma filosofia falsa. Esta é a fonte envenenada da qual tudo decorre, e é muito normal que assim seja, pois, no progresso do espírito humano – seja consciente ou inconsciente – tudo começa pela filosofia e depende dela. O papa começa, portanto, pela exposição do filósofo modernista.

 

O filósofo modernista

Os modernistas estabelecem como base do seu sistema o que chamamos de agnosticismo, que consiste no seguinte: só podemos conhecer as coisas aparentes, perceptíveis aos nossos sentidos; nossa razão não pode conhecer nada para além disso, não pode estar certa de uma verdade que ultrapassa o domínio dos sentidos, não pode possuir certeza intelectual. As consequências são imensas: a inteligência não pode conhecer nada sobre Deus, nem mesmo a sua existência: Deus é incognoscível. Ela não pode conhecer nada tampouco de uma revelação que Deus nos teria dado, nem dos motivos de credibilidade da fé.

Então, como o homem pode conhecer Deus e a religião? Posto que não pode lhes encontrar fora de si mesmo, todo acesso lhe estando vedado desse lado, ele vai encontrar-lhes em si mesmo. Eis a segunda face do modernismo, o seu segundo princípio, que chamamos de imanentismo. Isso quer dizer que a explicação da religião encontra-se no homem, mais precisamente, na vida do homem: “Em consequência, como o objeto da religião é Deus, devemos concluir que a fé, princípio e base de toda a religião, se deve fundar em um sentimento, nascido da necessidade da divindade”. “O sentimento religioso, que por imanência vital surge dos esconderijos da subconsciência, é pois o gérmen de toda a religião”, inclusive da religião católica. Esse sentimento que aparece na consciência é a “revelação” e, ao mesmo tempo, aquilo que os modernistas chamam de “fé”. Vê-se a importância fundamental do sentimento interior, da experiência individual, para os modernistas.

Na doutrina católica, o objeto da fé, o seu conteúdo, é exterior a nós. No modernismo, a fé vem do coração do homem, do seu foro interno. Somos nós que fazemos a fé, que forjamos aquilo em que cremos. A fé é, antes de mais nada, “vivida”; é preciso “partir da vida”, isso é uma verdadeiro lugar-comum na Igreja nos últimos 50 anos.

Assim, o modernismo não crê mais nas verdades contidas no Credo, mas produz sua própria opinião pessoal em função do que descobre e sente: “Para mim, Deus é isso ou aquilo, Jesus Cristo é isso ou aquilo”. A fé torna-se puramente subjetiva, e toda afirmação da realidade sobrenatural colide com esse muro subjetivo: “Isso é verdade... para você. Portanto, creia no que quiser, mas não queira impô-lo aos demais.”

 

O teólogo modernista

Posto que o modernismo coloca a fé (ou aquilo que chama de “fé”) na experiência vivida do divino, muitas consequências se seguem em todos os domínios: o conteúdo da fé deve ser relativizado, assim como a teologia.

A fé reside no sentimento religioso, mas o homem possui uma inteligência que quer exercer o seu papel de reflexão, é para ela uma necessidade natural. Por meio da sua inteligência, o crente vai trabalhar a sua fé, vai pensá-la, especificá-la, traduzir em formulas o que se passa na sua consciência: esses serão os dogmas, que buscam exprimir a fé de maneira mais ou menos adequada. Os dogmas são, pois, obra humana.

Se o sentimento interior do homem muda, se a consciência evolui, a fé que é o seu produto também evolui, e é necessário modificar o dogma para adaptá-lo ao novo pensamento. Como os sentimentos religiosos que traduzem, os dogmas devem, portanto, ser vivos, eles podem e devem evoluir. Daí esse aspecto de permanente construção a partir do “vivenciado”, de perpétua reinterpretação, que não poupa até mesmo os dogmas.

Do mesmo modo, não há mais verdades estabelecidas, definitivas, às quais o homem tenha de aderir, pois os modernistas não as querem. A verdade deve viver, e quem diz vida diz movimento: “A verdade não é mais imutável que o homem, pois que evolui com ele, nele e por ele.”[6] Permanece o núcleo, todo o resto evolui ao sabor dos tempos, das culturas, das circunstâncias históricas, da experiência e da vivência do “povo de Deus”. Finalmente, o dogma não se reveste mais de grande importância. O modernismo é, portanto, um evolucionismo radical.

 

Consequências desses princípios

Apliquemos esses princípios a diferentes pontos para mensurar a sua repercussão:

- A tradição católica transmite o objeto da fé; a tradição modernista se torna a transmissão da experiência da fé, daquilo que os crentes experimentam nas suas vidas. Ela é viva -- repetem sem cessar – e, portanto, evolutiva.

- O modernismo possui uma “fé” que, ao invés de se fundar no Deus que se revela, enraíza-se em um terreno puramente humano. Posto que a fé provém do sentimento religioso, “chega-se a afirmar que a nossa santíssima religião, no homem Jesus Cristo assim como em nós, é fruto inteiramente espontâneo da natureza. Em verdade, há algo mais capaz de destruir toda a ordem sobrenatural?”

- Esse naturalismo tem por consequência o indiferentismo religioso. Com efeito, a que título certas experiências religiosas seriam mais verdadeiras ou melhores do que outras? Todos os sentimentos religiosos são respeitáveis, dignos de serem acolhidos e, portanto, todas as religiões são válidas. O ecumenismo é uma consequência do imanentismo. Não há uma verdade, mas tantas quantas pessoas. É a fantasia subjetiva do homem no lugar da realidade objetiva de Deus.

- Para os modernistas, a Igreja, os sacramentos etc., são fruto de uma construção progressiva[7]. A inspiração das Sagradas Escrituras reduz-se a uma experiência pessoal. Os livros santos são compêndios de experiências religiosas. Os Evangelhos não são relatos de acontecimentos históricos por testemunhas oculares: possuem um fundo histórico, mas são em grande parte subjetivos, pois são o eco da “fé” cristã. Eles foram escritos para exprimir o que os cristãos das primeiras gerações criam de Jesus e queriam comunicar aos demais. Os sacramentos resultam de uma necessidade sensível dos crentes e são puros símbolos para alimentar nossa fé.

Cada crente continua, por sua vez, a elaborar a doutrina cristã, cada um acrescentando algo por si mesmo. De todos esses elementos individuais se desprende uma síntese coletiva. Mas esse edifício jamais será arrematado, e sempre deverá ser reconstruído. O magistério da Igreja é apenas o interprete de um movimento cujos resultados ele recolhe.

Fé, dogmas, Igreja, culto... tudo isso provém do sentimento, da experiência “vital”, necessariamente mutável e sujeita à evolução. Compreende-se que São Pio X chame o modernismo de “cloaca de todas as heresias”; ele utilizará muitas vezes essa expressão que revela o seu pensamento profundo[8].

Os modernistas estavam dentro da Igreja e pretendiam nela continuar. Sem dúvida, é essa a principal novidade dessa heresia. Os heresiarcas precedentes terminavam por abandonar a Igreja abertamente; continuavam a ataca-la, mas desde o exterior. O principal equívoco dos modernistas é pretender permanecer em uma Igreja com a qual estão em desacordo, com o intuito de mudá-la aos poucos, de fazer com que ela evolua desde o interior.

Os modernistas não são inimigos declarados, são inimigos de dentro. É essa uma característica essencial do modernismo: um modernista que abandona a Igreja não é mais um modernista. É talvez um racionalista, um protestante liberal... mas um modernista, não.

 

Os remédios

A salvação das almas estava em jogo, por isso, São Pio X não se contenta em demonstrar o erro: na última parte da sua encíclica, lança uma verdadeira campanha para impedir o modernismo de se estender pela Igreja, ele traça o plano de uma reconquista contra os modernistas. Percebe-se o homem de governo, que sabe o que quer e que lança mão de meios eficazes. Manda os bispos adotarem medidas imediatas contra os modernistas e suas doutrinas.

Como o modernismo é, na sua origem, um erro filosófico, o primeiro remédio é de ordem filosófica: São Pio X impõe que a filosofia de Santo Tomás de Aquino seja a base dos estudos.

Para a Santa Igreja não é possível submeter os seus filhos a autoridades manchadas de modernismo: São Pio X ordena que sejam excluídos das cátedras de ensino, nos seminários e universidades católicas, todos aqueles que estão imbuídos de modernismo, ou que favorecem esses erros. Os modernistas também devem ser excluídos do sacerdócio.

Os bispos impedirão a publicação e a leitura de livros ruins e instituirão conselhos de vigilância que terão “a incumbência de ver se, e de que modo, os novos erros se ampliam e se propagam.”

 

A continuação do pontificado

No dia 18 de novembro de 1907, São Pio X publicou um motu próprio que ajunta a pena de excomunhão aos contraditores do Decreto Lamentabili e da Encíclica Pascendi

Depois, em 1 de setembro de 1910, ele endereçou a toda a Igreja um motu próprio[9] “estabelecendo leis para repelir o perigo do modernismo.” Neste documento, o papa não hesita em afirmar que, apesar das condenações precedentes, os modernistas “não cessaram de arregimentar e filiar em uma associação secreta novos adeptos, e inocular neles, nas veias da sociedade cristã, o veneno das suas opiniões.” O perigo é muito atual: no interior mesmo da Igreja, notadamente entre o clero, os modernistas formaram uma sociedade mais ou menos fechada. O papa promulga, portanto, um juramento antimodernista, que deve ser prestado por todo o clero, ao menos antes de receber as ordens maiores, pelos professores e, de modo geral, por todos os padres que acedem a uma função[10].

O Santo Padre via longe, e sabia que muitos não o seguiam, pois os santos têm um amor pela verdade e uma detestação do erro que lhes são inspirados por Deus, mas que os outros homens compreendem mal. Ao bispo de Bergamo, confidenciava: “Alguns me acusam de ser pessimista e de ver o mal em toda parte. Mas o mal latente é muito mais grave e extenso do que se pode imaginar, e jamais haverá vigilância o bastante para descobri-lo”[11]. No dia 27 de maio de 1914, escreveu aos novos cardeais que acabava de introduzir no Sacro Colégio: “Entre tantos perigos, e em toda ocasião, não deixei de fazer com que minha voz fosse ouvida a fim de admoestar os que estão em erro, assinalar os danos e traçar aos católicos o caminho a seguir. Mas minha palavra não foi sempre, nem por todos, bem escutada ou interpretada, por mais clara e precisa que tenha sido.”

 

O modernismo depois de Pascendi

A publicação da Encíclica Pascendi representou um formidável golpe ao desenvolvimento do modernismo. Os leigos de boa fé que haviam sido atraídos para as idéias modernistas, sem verdadeiramente as compreender, rejeitaram os erros. A imprensa católica, por sua vez, denunciou o modernismo. Uma tal energia e uma tal constância no combate contra o erro enfraqueceram consideravelmente a corrente modernista. No momento da morte de São Pio X, em 1914, essas diversas medidas tinham começado a dar fruto.

Os modernistas, séria e eficazmente combatidos pelas autoridades romanas e por numerosos bispos, deram continuidade, no entanto, à sua ação. Souberam abaixar a cabeça para reergue-la progressivamente quando a repressão mostrou-se menos firme, o que veio a acontecer após a morte de São Pio X: os erros condenados recobraram ímpeto. A rede modernista se comportava como uma corrente subterrânea reaparecendo com força nos anos 1930 e 1940, para triunfar a partir do Concílio Vaticano II.

Hoje, o modernismo segue mais do que nunca vivo na Igreja. Esses erros reinam por toda parte, e os modernistas ou neo-modernistas detém todas as alavancas de comando. A encíclica de São Pio X não perdeu em nada o seu valor: esse texto que foi escrito há cem anos parece ter sido escrito para a Igreja de hoje, tal é a sua atualidade. Poder-se-ia dizer que São Pio X foi um verdadeiro profeta para os nossos tempos.

Esse papa foi o homem chamado por Deus para o papel capital de defender a fé, ameaçada pela mais terrível das heresias. A inteligência esclarecida pela luz da graça, mediu a gravidade do perigo que a Igreja corria, e lutou contra a heresia com uma coragem digna dos maiores pontífices de outrora. Como declarou Pio XII, foi a santidade que lhe deu a força de ser um campeão da fé: “A lucidez e a firmeza com as quais Pio X conduziu a luta vitoriosa contra os erros do modernismo, atestam a que grau heroico a virtude da fé queimava no seu coração de santo (...) Teve a consciência clara de lutar pela mais santa das causas, que é a de Deus e das almas”[12]

É com palavras do mesmo Pio XII que rogaremos a São Pio X guardar-nos firmes na fé:

“Ó Santo Pio X, pontífice de fé íntegra e de intrépida firmeza, volvei vosso olhar para a Santa Igreja, que tanto amastes. Obtende para ela a integridade e a constância no meio das dificuldades e perseguições de nosso tempo.”[13]

 

(Le Rocher, 90. Tradução: Permanência)

 


[1] Associação secreta.

[2] Comment combattre une hérésie, Itinéraires, 1964, pp. 126-127.

[3] Reconhecemos [nessas proposições] grandes clássicos da teologia e da catequese atuais. Damos dois exemplos: “Pode conceder-se que Cristo, tal como história o representa, é muito inferior ao Cristo, objeto da fé.” (proposição 29); “A ressurreição do Salvador não é propriamente um fato de ordem histórica, mas de ordem meramente sobrenatural que não foi demostrado, nem é demonstrável, e que a consciência cristã insensivelmente deduziu de outros fatos.” (proposição 36).

[4] Citações tiradas de Pascendi.

[5] O filósofo, o crente, o teólogo, o historiador, o crítico, o apologista e o reformador.

[6] Lamentabili, proposição no. 58.

[7] Lamentabili, proposição 54: “Os dogmas, os sacramentos e a hierarquia, tanto em sua noção quanto em sua realidade, não passam de interpretações e evoluções do pensamento cristão que, por meio de incrementos externos, desenvolveram e aperfeiçoaram um pequeno germe que existia em estado latente no Evangelho”.

[8] “Certo é que se alguém se propusesse fazer, por assim dizer, o destilado de todos os erros que a respeito da fé até hoje se produziram, nunca poderia chegar a resultado mais completo do que aquele que os modernistas alcançaram” (Pascendi).

[9] Sacrorum antistitum.

[10] A obrigação de prestar esse juramento foi suprimida após o Concílio Vaticano II, em 1967.

[11] Dal-Gal, Pie X, p. 306.

[12] Discurso por ocasião da canonização, 29 de maio de 1954.

[13] Idem.

Introdução ao sexto domingo de Pentecostes

“Comeram todos e ficaram saciados” (Evangelho)

 

Paramentos verdes

 

Um grande pensamento domina toda a liturgia de hoje: a necessidade de destruir o pecado por meio dum arrependimento sincero e de pedir a Deus a graça de não recair nele. É no Batismo que morremos para o pecado e é na Eucaristia que encontramos aquela energia que nos permite caminhar sem desfalecer no caminho da virtude. A Igreja impregnada ainda do pensamento destes dois sacramentos que conferiu aos fiéis na Páscoa e no Pentecostes, continua a falar-nos deles neste tempo. As lições de Matinas contam-nos, com efeito, o caso lamentável de Davi, em que este poderoso monarca sucumbiu às insinuações malignas da serpente, demonstrando que todo o homem, qualquer que seja o grau de dignidade ou virtude a que tenha ascendido, conserva sempre a lama original de que Deus o formou.

Queria Davi casar-se com Betsabé, esposa dum dos oficiais do exército. Para o conseguir enviou o seu marido Urias que andava em campanha para um lugar perigoso onde o risco de morte era iminente. Urias efetivamente morreu e Davi casou-se com Betsabé, de quem teve um filho. Mandou então o Senhor o profeta Natan a dizer-lhe: “Ó Rei, havia na cidade dois homens, um rico outro pobre. O rico tinha ovelhas e manadas de bois em grande número, o pobre não tinha coisa alguma senão uma ovelhinha que ele comprara e criara e que tinha crescido em sua casa juntamente com seus filhos, comendo do seu pão, bebendo do seu mesmo copo e dormindo no seu regaço. Ele lhe queria como filha. Como, pois, um forasteiro viesse ver o rico, não querendo este tocar nas suas ovelhas nem nos seus bois, para dar um banquete àquele forasteiro tomou a ovelhinha do pobre e preparou-a para dar de comer ao hóspede”. Davi indignado exclamou: “Por Deus, que tal homem é merecedor de morte” E tornou Natan: “Pois és tu esse homem. Tinhas todas as donzelas de Israel para escolheres como esposa e violentaste a mulher de Urias. Por isso, Deus suscitará da tua própria casa a desgraça contra ti” Então, Davi, arrependido, exclamou: “Ai de mim que pequei contra o Senhor” E tornou-lhe Natan: “Por causa do teu arrependimento o Senhor perdoou-te. Não morrerás. Mas serás castigado e o filho de Betsabé perecerá”. Passado algum tempo o pequeno morria e Davi oprimido pela dor ia prostrar-se no templo diante de Jeová.

Davi, comenta S. Ambrósio, não pôde tolerar o peso do pecado que o oprimia e sem dilação confessou diante do Senhor o seu crime. A generalidade dos homens não faz assim. Onde se encontra hoje um indivíduo um pouco mais rico que os seus vizinhos, que se não agaste como de coisa indigna da sua considerada posição, se o confessor o repreender e aconselhar a meter-se por caminhos mais retos e mais santos! Mas os santos do Senhor que ardem por avançar nas apertadas sendas de Deus, se lhes acontece de cair, levantam-se com mais ardor para a carreira e, estimulados pela vergonha da queda, redobram de coragem no combate para ressarcir, e sempre com vantagem, o inadvertido lapso.

A Missa completa perfeitamente as instruções do Breviário. Na Epístola, S. Paulo recorda-nos, e com que insistência, que, uma vez mortos para o pecado no Batismo, devemos viver a vida nova, a vida que é sem pecado e vem de Deus. E se pecarmos, se tivermos a grande desgraça de nos despojar dessa vida nova, então vamos aos pés de Deus implorar o seu perdão (Gradual), para continuarmos a louvá-lO em torno do seu altar (Comunhão). E Deus não deixará de ouvir a nossa prece e de firmar os nossos passos na vereda dos seus mandamentos, porque Ele diz que é coragem, escudo e guia para o seu povo. O Evangelho, finalmente, aponta-nos a fonte divina onde devemos beber a força de que precisamos para seguir o Senhor até o Céu sem desfalecer pelo caminho.

A multiplicação dos pães é com efeito figura da Eucaristia, que é viático para todos nós, não apenas no fim da vida quando se empreende a viagem para além, mas durante a vida toda. Ela aperfeiçoa a graça do Batismo, dando-nos força para não cair, e alentando e desenvolvendo a vida de Deus em nós até desabrocharmos na plenitude perfeita da pátria para onde vamos.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

Romeu e Julieta

Pe. Luis Cláudio Camargo, FSSPX

 

[Nota da Permanência: O texto seguinte é a transcrição de uma conferência do autor dada na Capela Nossa Senhora da Conceição, Pendotiba/RJ, em 24 de novembro de 2012, sobre a natureza do homem e da mulher na obra "Romeu e Julieta". Optamos por conservar o estilo oral]

 

Breve introdução sobre o catolicismo de Shakespeare

Por que Shakespeare? Shakespeare foi um católico que viveu no período da perseguição anglicana. Não terei tempo aqui para apresentar as provas do seu catolicismo, mas acreditem em mim. Chegou-se a dizer que ele foi um católico covarde; isso não é verdade. A sua família, tanto paterna como materna, está no centro da resistência católica contra a rainha Isabel I, “A Sangrenta”. Shakespeare presenciou a execução de seu confessor, o jesuíta São Roberto Southwell, que fora preso. Naquele período, ser católico era crime de alta traição (lesa-majestade), cujo castigo era a pena máxima denominada Hanged, drawn and quartered. Primeiro as vítimas eram enforcadas – mas sem que o condenado morresse –, em seguida lhes abriam o ventre, arrancavam as vísceras e depois cortavam os braços e as pernas. Era uma técnica satânica em que se tentava manter a pessoa viva com o intuito de que sofresse o máximo possível. Por fim, somente depois de a vítima estar morta, cortavam-lhe a cabeça. Era essa a pena aplicada aos católicos. A quantidade dos mártires isabelinos é enorme. A tortura, o grau de horror que sofreram foi algo terrível. Shakespeare pertencia a uma família de resistentes católicos. Seu pai fora preso por ser católico e não frequentar o rito reformado. Os católicos viviam clandestinamente, e na casa de Shakespeare celebrava-se uma das missas clandestinas de Londres.

 

Linhas de interpretação nas obras de Shakespeare

Nas obras de Shakespeare há quatro linhas de interpretação.

A primeira linha incide sobre a maneira como que ele escreve. Todos os grandes autores se deslumbram com a perfeição do movimento das linhas do enredo, a harmonia, o ritmo com o qual ele conduz as linhas do drama apresentado, a fineza da ironia nas palavras utilizadas. Shakespeare é intraduzível, pois usava muito o recurso que em inglês se chama pun, isto é, jogo de palavras. Ele é um mestre no uso desses jogos.

A segunda linha de interpretação incide sobre o que podemos chamar de drama humano, as considerações mais altas da vida do homem. Um dos temas mais recorrentes são os mecanismos que usamos para nos esconder, os mecanismos de hipocrisia com os quais enganamos o próximo e a nós mesmos. A fineza com que analisa essa série de mecanismos gera uma identificação do leitor com os personagens. Tomamos um susto quando nos vemos caricaturados no papel, pois as descrições são muito finas, claras, evidentes, e demonstram que o autor tinha um conhecimento incomum da alma humana, muito elevado e profundo. Ele trata da nobreza, do heroísmo, do amor verdadeiro, do amor falso, da sensualidade, da humildade verdadeira e de todas as grandes virtudes.

A terceira linha de interpretação das obras de Shakespeare, a mais velada, porém evidente para os católicos que sofriam a perseguição naquele momento, diz respeito à história da Inglaterra durante as perseguições. Os católicos entendiam perfeitamente a linguagem figurada e metafórica que o autor usava.

A quarta linha de interpretação é uma autobiografia. Ele se retrata, mostra e revela nos seus livros. Quem conhece a sua biografia e as circunstâncias histórias e lê as obras percebe que ele faz uma confissão, conta a sua vida, pecados e virtudes. É admirável. Ele consegue colocar essas quatro linhas de inteligência na mesma obra, e fazer com que as palavras se encaixem exatamente para cada uma delas, demonstrando genialidade sem igual. Comparo essa genialidade literária à genialidade musical de Bach.

Shakespeare portanto não é um autor fácil. Em razão da complexidade dos textos o leitor pode equivocar-se facilmente: por ex., na terceira linha de interpretação, a sua intenção é enganar os leitores não católicos. Ele escreve ao modo renascentista, utilizando-se de todas as más inclinações e a aparente futilidade renascentista. Nosso Senhor, citando Isaías, diz: “Para que vendo, não vejam e, ouvindo, não ouçam nem compreendam1”. Shakespeare consegue concretizar tal ideia: ele raramente cria um enredo original – algo que certamente poderia fazer, pois era dotado de genialidade extraordinária – mas preferia sempre histórias que estavam “na moda” (contos, histórias antigas), a fim de não chamar atenção, pois às vezes queria denunciar algo terrível; quanto menos chamasse a atenção sobre o que estava dizendo, melhor. Romeu e Julieta, por ex., é uma obra que já existia, emprestando-a de um autor italiano, se não me engano. Juntamente às linhas de interpretação, estão os períodos da vida de Shakespeare.

 

Períodos da vida de Shakespeare

Podemos marcar três períodos muito claros na vida de Shakespeare.

O primeiro período (1590-1601) é o da adolescência e começo da vida adulta, em que se nota um catolicismo muito valente, no entanto há uma euforia ingênua, como se dissesse: “Já vencemos, tudo é fácil”. Romeu e Julieta data dessa época. A história dos jovens vencidos, que venceram apesar de perseguidos, e cuja morte motivou a união das duas famílias inimigas, transmite uma mensagem aos católicos: “Não se preocupem, em breve retomaremos o poder, e recuperaremos a coroa, estamos sendo perseguidos, muitos dos nossos estão sendo executados, mas isso é bobagem, em breve tudo ficará bem, já vencemos, já ganhamos.”

Por ser muito brilhante e suas obras muito admiradas, ele foi rapidamente associado à Companhia de Teatro Real (The King’s Men). A rainha percebeu que ele era católico, mas o achou inofensivo. Ela admirava tanto as obras dele que não conseguia lhe fazer mal. Quem estuda com cuidado a vida da rainha Isabel I percebe que ela dava sinais claros de possessão diabólica, era uma figura terrível. Poderíamos dizer que esse primeiro período é um pouco mais humanista que os seguintes e um pouco mais otimista, semelhante ao otimismo de um noviço que entra no mosteiro e pensa: “Já cheguei à sétima morada.” Desse período são as obras Henrique VIII, A comédia dos erros, A megera domada, Os dois fidalgos de Verona, Ricardo III, Rei João, Tito Andrônico, Trabalhos de amor perdidos, Romeu e Julieta, Ricardo II, Henrique IV, Henrique V, e Sonhos de uma noite de verão – obra esta que despertou a atenção de Isabel, que começava a suspeitar dele, após o que Shakespeare escreve a sua obra mais renascentista, que é quase uma adulação à rainha, a fim de desviar as suspeitas.

O segundo período (1601-1608), podemos dizer que é o período da crise. A perseguição não terminava, o número de mártires só aumentava e os católicos começavam a se cansar. Morre a rainha Isabel e há certa tranquilidade. Sobe ao trono Jaime I, casado com uma católica, e os católicos sentem-se aliviados. É desse período a obra Tudo bem quando termina bem; o título evidencia o alívio sentido após a morte da rainha. Mas os calvinistas puritanos se lançam contra Jaime I, o qual, diante da instabilidade do trono, retoma a perseguição aos católicos de forma ainda mais violenta que Isabel. É um período de perplexidade e desânimo entre os católicos, que chegam à pobreza, à miséria, perdendo os bens; são despojados e desamparados. Dois tios de Shakespeare, irmãos de sua mãe, são executados como traidores da pátria, por se terem envolvido na Conspiração da Pólvora, uma armadilha preparada pelo governo inglês, com o intuito de que os católicos tentassem assassinar o rei e assim a coroa pudesse ter a oportunidade de retomar as perseguições. Os católicos caíram como bobos. Até hoje se celebra o dia da Conspiração da Pólvora, em que o rei se salvou dos “pérfidos” católicos.

A obra emblemática desse período é Hamlet. O príncipe Hamlet é o próprio Shakespeare, que se pergunta: por que lutar contra a corrupção do reino da Dinamarca? A minha mãe (a Inglaterra) abandonou meu verdadeiro pai (a monarquia católica) e se juntou a essa monarquia corrupta e vil. Os reis são irmãos (Rei Hamlet e Rei Cláudio), mas há uma diferença infinita entre os dois, pois um deles é assassino e perverso. Eu, filho da pátria inglesa, que devo fazer? O espírito do meu pai pede que eu ponha as coisas no lugar, que devo fazer? “The time is out of joint/ O cursed spite, That ever I was born to set it right: O tempo está fora do seu eixo/ Ó desgraçada ventura de ter nascido para colocá-lo de volta no lugar.” Parece-me a descrição da vida de Monsenhor Lefèbvre, mas se trata dele, da tentação de suicídio que ele sofre – é autobiográfico.

Em Otelo, a esposa fiel ama o marido, no entanto, movido pelo pérfido Iago, o marido começa a se deixar influenciar até que a mata. Nessa obra ele mostra a fidelidade dos católicos, fiéis à Igreja, fiéis à Inglaterra, e que morrem fiéis. Desse período são também Antônio e Cleópatra e Coriolano.

O terceiro período (1609- 1623), a sua última época, pode ser chamado de o período da virtude teologal da esperança. A obra emblemática desse período é A tempestade, na qual um rei traído e abandonado tem a ocasião de se vingar e, no entanto, perdoa. É uma mensagem para os católicos: “Prestem atenção, a nossa solução é sobrenatural, não vamos recuperar o reino com a força dos braços, mas que a nossa resistência não nos faça perder o céu; resistamos, mas façamo-lo com as armas mais altas, não devemos cometer o mesmo erro que eles; se nos odeiam, nós os perdoamos.” Essa é a grande solução dele, é quando o seu coração descansa. Ele morre como católico fervoroso.

 

Romeu e Julieta

Essa obra está mais centrada nas duas primeiras linhas de interpretação. A briga entre as famílias é aparentemente o seu aspecto central, por ser a causa da morte dos jovens esposos, mas na verdade é um problema secundário, a tela de fundo.

A ideia central que Shakespeare quer abordar em Romeu e Julieta é uma comparação entre três homens: Frei Lourenço, Romeu, e Mercúcio. Frei Lourenço é a figura do homem sábio, Romeu é a figura do homem afetivo e Mercúcio a figura do homem carnal. São descritos de modo exímio.

Mercúcio, jovem rico e inteligente, parente do príncipe, parece estar afastado do antagonismo das duas famílias de Verona e, no entanto, é a primeira vítima da obra. As suas qualidades, como nobre que era, não lhe dissimulam os vícios profundos. Desbocado e libertino, contente com a vida viciosa, olha a mulher como simples ocasião de prazer; é cínico e burlesco, consegue desprezar absolutamente tudo ao redor, leva a desordem até a morte, e morre insultando. A morte dele é uma morte impenitente: a morte de um homem carnal.

Romeu é a figura do homem afetivo: trata-se dos sentimentos, pois estamos no campo das paixões. Certo, não é um homem carnal, mas ainda não é um homem sábio. Seus afetos são nobres, normalmente, mas ele é capaz de ira irracional, medo irracional e amor irracional, embora o seu amor seja apresentado com nobreza.

O campo dos afetos é enorme, é um mar infinito e sem fundo. É possível que o homem afetivo se mantenha flutuando na altura de sentimentos nobres, mas qualquer movimento, qualquer correnteza forte arrasta-o para tal ou qual paixão. Tanto o homem carnal como o homem afetivo não alcançam a realidade, não conseguem descobrir as coisas como são. O desespero de Frei Lourenço consistia em tentar fazer Romeu entendê-lo, mas Romeu não o entendia, não era capaz de fazê-lo.

Frei Lourenço é a figura do homem medieval: um frade franciscano, sábio, conhecedor dos segredos das ervas, do drama de seu povo, profundo entendedor das almas, da situação histórica e das famílias. Ele é admirado, mas não é seguido. Pedem-lhe conselhos, mas não lhe obedecem. É o Renascimento diante da Idade Média, o qual olha esta com certa admiração, mas lhe diz: “Já passou, agora estamos em nível mais alto.” Romeu é a figura do homem renascentista.

Tendo em mãos essa chave de leitura, é muito interessante notar a relação entre os três personagens. Frei Lourenço, por exemplo, nunca fala com Mercúcio, e Mercúcio não faz nenhuma alusão a Frei Lourenço. Romeu fala com Frei Lourenço, Frei Lourenço fala com Romeu, Romeu fala com Mercúcio e Mercúcio fala com Romeu.

Outro ponto interessante, sublinhado na obra, é que Frei Lourenço entende muito bem Romeu e Mercúcio, ou seja, de cima para baixo o entendimento é possível. Porque está acima, Frei Lourenço entende-os, compreende os afetos de Romeu, quer conduzi-lo, protegê-lo e salvá-lo, mas Romeu não entende Frei Lourenço. De baixo para cima não é possível entendê-lo. Romeu não consegue sentir a sabedoria de Frei Lourenço, mas Frei Lourenço consegue entender os afetos de Romeu.

Romeu olha Mercúcio com benignidade e amabilidade, mas nunca entra no seu campo. Romeu é nobre, e a nobreza dos seus sentimentos – superiores aos sentimentos de um homem carnal – convence-o de que está à altura de Julieta. Shakespeare queria mostrar justamente que Romeu não estava à altura de Julieta. Romeu era um homem afetivo, e só o afeto não basta para que um homem alcance a sua esposa. Nem o homem carnal nem o homem afetivo são capazes de alcançar a esposa.

A insensatez de Romeu diante de Frei Lourenço é muito impressionante. Romeu merecia uma surra, não é um herói de modo algum. O cinema o retrata como galã de cabelo ao vento, mas é um homem desprezível, pois não chegou a ser homem, e é isso o que Frei Lourenço vai afirmar quando, de pé, diz a Romeu, que está jogado no chão tentando suicidar-se, que a solução para os seus dramas é a filosofia; estas são as palavras centrais da obra. Etimologicamente, filosofia significa amor à sabedoria, ou seja, sair do campo afetivo e chegar a ser homem verdadeiro, alcançar a altura da natureza humana. E a resposta de Romeu para Frei Lourenço é esta:

“Põe a filosofia numa forca, a menos que a filosofia possa fazer uma Julieta, uma cidade mudar, ou deixar írrito um decreto. Se não, de nada vale, para nada pode servir-me. Não me fales nisso (...) Falar não podes sobre o que não sentes 2.”

(É claro que se pode falar do que não se sente; não se pode é sentir aquilo que não se pensa. Justamente por não sentir os afetos de Romeu e por saber domar os próprios afetos, Frei Lourenço lhe entende perfeitamente.)

“Se, como eu, fosses moço; se Julieta te pertencesse, por se ter tornado tua esposa há uma hora; se tivesses morto Tebaldo, e louco, apaixonado como eu te visses: bem, assim podias falar, arrepelar a cabeleira, jogar-te ao solo como o faço agora, para dar a medida de uma cova que ainda vai ser aberta.”3

Frei Lourenço lhe responde:

“Detém essa desesperada mão. Acaso és homem? Tua postura o afirma, mas as lágrimas são de mulher, mostrando esses teus atos desesperados o furor selvagem dos próprios animais. Ó deformada mulher, sob a aparência de um mancebo, ó animal deturpado, sob a  forma de ambos: pasmado estou. Pela minha ordem sagrada: sempre fiz outro juízo de teu temperamento. Não mataste Tebaldo? Agora queres suicidar-te e, assim, matar a tua própria esposa, que de tua vida vive, revertendo contra ti próprio esse ódio amaldiçoado?”4

Essa resposta de Frei Lourenço é a demonstração de como o homem sábio enxerga o homem afetivo. Nós somos indulgentes demais: não sendo homem carnal parece-nos que já basta, parece-nos que já se é homem. Não é verdade.

Aqui tocamos o ponto central desta conferência: a obra do homem e a obra da mulher. A ideia é muito clara: a esposa vive dentro da alma do esposo, e a esposa vai estar na altura em que o esposo estiver. Se o esposo se matar, ele matará também a esposa. De fato, Julieta se suicida.

“(...) Por que insultas o berço, o céu e a terra? O berço, o céu e a terra unidos se acham em ti, e de uma vez perdê-los queres? Ora, envergonhas tua forma, o espírito, amor, que em barda tens, como  usurário, sem que nada uses no seu vero emprego para te ornar a forma, o amor, o espírito. Tua nobre figura é como imagem de cera, se o vigor viril lhe falta; teu amor tão prezado, oco perjúrio que mata o amor que proteger juraste; espírito, esse ornato da postura, como do amor, se encontra deformado pela conduta de ambos, como pólvora no frasco de um soldado inexperiente (...)”5

A razão está submetida aos afetos, e é capaz de explodir e lhe conduzir à morte.

“(...) que por tua própria ignorância explode, com tuas próprias armas desmembrando-te. Vamos, homem: levanta-te! Está viva tua Julieta, por quem te achas quase no ponto de morrer. Estás com sorte. Tebaldo quis matar-te; a morte deste-lhe. Nisso foste também mui venturoso. A lei se mostra tua amiga, a pena de morte atenuando para exílio: outra ventura. Sobre o dorso um fardo de bênçãos te caiu. Com seus mais ricos atavios te vem fazendo a corte sempre a felicidade; mas no jeito de um rapaz não polido e caprichoso, com a sorte e o amor amuado te revelas. Toma cuidado! Quem assim procede, acaba sempre mal."6

Shakespeare consegue descrever a estrutura da alma humana e a grande obra do homem. É necessário chegar à sabedoria para chegar a ser homem, eis o ponto central de Romeu e Julieta. Só quem chega à verdadeira sabedoria merece o título de homem. Somente na sabedoria é possível buscar a esposa. É necessário subir a rude escada do balcão de Julieta para estar à altura dela.

A mulher, se me permitem a expressão, tem uma natureza que poderíamos chamar de espelho. Como o que define a mulher é a sua maternidade, quer física ou espiritual, há nela um aumento do campo afetivo, pois este é um elemento necessário para o cumprimento da sua obra. A mulher tem, em razão dessa natureza afetiva, uma capacidade de percepção do particular, do concreto, muito superior ao homem – abstrato.

O homem deve vencer os seus afetos e alcançar a abstração. Se o homem não transcender o concreto e o particular, não realiza a sua obra. A mulher, por sua vez, deve, tal como um espelho, refletir o abstrato em concreto e particular.

O homem tem uma visão do fim muito mais clara que a mulher, que enxerga com mais clareza os meios. A grande obra do homem, depois de chegar à sabedoria, é transmiti-la. O grande meio de transmissão dessa sabedoria é a esposa, é a natureza feminina, que consegue transformar o que vê no esposo em instituições concretas e tangíveis.

O esposo tem uma ideia abstrata do que é a autoridade paterna ou a relação familiar. A esposa deve pensar em que lugar da casa a mesa vai estar para que a relação familiar funcione, que lugar ela vai ocupar na mesa para que a autoridade paterna seja exercida quando a família estiver reunida, ou seja, ela precisa transformar os ideais do marido em instituições práticas. É nesse sentido que Frei Lourenço diz que a esposa estava dentro de Romeu.

Vocês poderiam acusar-me de estar diminuindo a atividade feminina. Não, de modo algum. O homem é incapaz da sua obra sem a mulher. E a mulher é incapaz da sua obra sem o homem.

Poderiam perguntar-me: “E quanto ao sacerdócio?” Pois bem, a Igreja é feminina. Diz-nos o direito canônico: “Não se pode usar a batina suja; é preciso barbear-se, etc.”; esta expressão é a mais feminina possível da Esposa de Cristo, que transforma o que vê na alma do Esposo em costumes, instituições e obras. Mas é preciso que a ideia do esposo seja clara, específica, explícita, que ele saiba o papel que a esposa deve cumprir, o que é o meio, o que vai em direção ao fim e o que desvia do fim; assim, ele deve pronunciar-se: “Isso sim, isso não.” É preciso que o fim ilumine constantemente os meios, ou seja, é preciso olhar o fim e concretizar os em meios. A grande obra são os filhos: a transmissão por meio da esposa.

A mulher consegue facilmente perceber o que está acontecendo na alma do filho. Todavia, se perde de vista o fim, ela como que acelera em ponto morto, porque os meios não passam de meios, e perdem importância, se o fim não os ilumina. Se se perde a referência do fim e deixa-se de ser iluminado por ele, bem, tudo passa a ser igual. E, quando há ausência da iluminação do fim, o mecanismo de defesa feminino é a multiplicação dos meios.

O grande perigo do homem é não alcançar à sabedoria, e o grande perigo da mulher é a destruição e deformação do campo afetivo, é a perda da fineza afetiva, por carência de virtude e descontrole dos afetos. Que o homem não tenha afeto é uma deformação, e é errado, porém não é tão grave. Uma moça que destruiu os próprios afetos sofreu o que podemos chamar “masculinização”. Na sociedade atual há a destruição dos afetos ou a exacerbação deles, de tal modo que não podem ser iluminados pela razão. Há portanto destruição de ambos os lados.

Iluminados pela sabedoria, os afetos encontram o lugar e o sentido verdadeiros, são domados; os afetos são como cavalos puxando a carruagem, mas sem a iluminação superior da inteligência, são como cavalos selvagens, não domados, que seguem direções opostas: é a destruição da pessoa.

(Originalmente publicado na Revista Permanência, 270)

  1. 1. Mt 13,13.
  2. 2. Romeu e Julieta, ato III, cena III. Tradução de Carlos Alberto Nunes, Ediouro, 1998, pág. 72.
  3. 3. Ibid.
  4. 4. Ibid. pág.74.
  5. 5. Ibid.
  6. 6. Ibid. pág. 75.

No coração de um seminário católico

Faz já um tempo - bastante grande, na verdade - que o Diretor desta revista pediu-me um artigo sobre o Seminário onde desempenho o cargo de reitor, deixando-me a maior liberdade na escolha da abordagem do referido artigo.

Durante certo tempo busquei qual seria o ponto de vista mais interessante para os leitores da Permanência e terminei concluindo que, talvez, a maneira mais original e viva para conhecer um seminário por dentro fosse através dos olhos, das ilusões, das aspirações e dos sentimentos dos próprios seminaristas. Pedi então a três diáconos que escrevessem o que os senhores lerão na continuação.

Quando eu mesmo li estas reflexões dos referidos diáconos concluí que não me havia enganado ao deixar-lhes a redação do artigo: este permite não somente entrar no coração de um seminário católico, como diz o título, mas também no coração mesmo de um rapaz que quer doar-se totalmente a Nosso Senhor e que se deixa amoldar, pouco a pouco, pela graça de Deus, passando, no entanto, por algumas provas.

Enfim, atrevo-me a dar a sugestão aos que vão ler estas páginas, de não limitarem-se somente a lê-las, mas de também meditá-las. Lembrem-se, também, destes rapazes nas suas orações, para que sejam sacerdotes segundo o coração de Jesus.

 

Padre Davide Pagliarani, Reitor

 

 

 

Introdução

A enorme e espantosa crise da Igreja dos últimos cinquenta anos afunda cada vez mais no esquecimento a noção profunda e verdadeira do que é um seminário católico.

À falta de vocações se agrega a perda do sentido do sacerdócio, o que necessariamente leva à corrupção aqueles institutos cujo fim é justamente a formação sacerdotal.

Que jovem, ou que família pode, hoje em dia, formar-se uma idéia reta e suficiente sobre um seminário carecendo de exemplos concretos e próximos? Pior ainda, os exemplos que eventualmente possa conhecer lhe dão uma imagem totalmente distorcida ou desfigurada!

Frente a esta dolorosa falta de referências sólidas, vem este artigo, sem maiores pretensões, dar alguma noção sobre a vida do seminário Nª Srª Corredentora, de la Reja, no sentido, não tanto de uma descrição material e cronológica, mas de uma narração mais profunda das realidades que fundam e vivificam nosso seminário no mais íntimo do seu “coração”.

 

As Primeiras impressões

As primeiras impressões de um jovem recém chegado ao seminário são daquelas que não se apagam nunca mais da memória. A alegria das “boas vindas” dadas como a um bom amigo por longo tempo esperado o surpreende!

Por quê tanta alegria? Em certo sentido, pode ser comparado ao gozo de uma família ao receber um novo membro.

Mas o jovem candidato ainda não está em condições de entender que um seminário é uma família, e que, cada jovem que nele ingressa, aumenta o número de seus membros. Esta é uma realidade que só compreenderá dentro de algum tempo.

Passam os primeiros dias, e ainda não sabe explicar o que há de especial em sua nova vida. A simplicidade de vida é tal, e a rotina tão repetitiva, que se assombra da felicidade que reina neste lugar, não encontrando sua causa.

Levantam-se praticamente todos os dias à mesma hora, rezam os mesmos ofícios, fazem os mesmos trabalhos, assistem suas aulas todas as manhas e pela tarde estudam. Comem sempre à mesma hora, e às dez da noite, rezada a oração de Completas, todas as luzes se apagam.

No entanto, a monotonia é apenas aparente. O entusiasmo de todos é contagiante, e aquele que se entrega com generosidade à vida comum não vê o tempo passar.

A rotina semanal é radicalmente quebrada pelo esplendor da missa dominical! A liturgia católica cativa pelo seu brilho a todo o que por primeira vez dela participa. Ao som dos sinos, todos, sem exceção, se dirigem com respeitoso silêncio à Igreja, onde, dado o sinal, todos em uníssono contam as glórias de Deus. Enquanto ao longe se ouvem os ecos do barulhento mundo pagão, no íntimo do seminário, não com menos vigor, fazem-se ouvir as vozes dos filhos de Deus que intercedem pelos seus irmãos extraviados.

Mas a profunda meditação do nosso jovem deve ser interrompida para dar lugar às exigências da humana condição corporal. Os trabalhos da comunidade o chamam. Todos colaboram, cada um segundo a função que lhe é designada, o que ensina ao recém-chegado o valor da generosidade, que garante, pelo esforço em comum, o bem estar necessário a cada um dos membros.

Esta compreensão mais profunda do trabalho lança uma primeira luz às dúvidas sobre o modo alegre e generoso de viver uma rotina quotidiana, que vai se transformando, aos poucos de monotonia repetitiva em alegria sempre renovada.

Mas o trabalho não constitui a característica principal de um seminário. Os estudos, exigentes, ocupam uma boa parcela do dia. As matérias estudadas requerem dedicação, esforço e atenção: filosofia, teologia, latim, espiritualidade, catecismo e Sagrada Escritura são alguns exemplos do alto nível cientifico que se oferece a um seminarista.

No entanto, a fadiga intelectual é compensada pelas duas tardes semanais de esporte, nas quais o futebol, o vôlei, o tênis ou o cooper se encarregam do equilíbrio entre corpo e alma. Além dos desejados passeios mensais, que variam entre visitas à igrejas, museus ou uma tarde de jogos e caminhadas em algum parque ou fazenda próximas.

Todas estas impressões iniciais são de grande importância, ainda que não suficientes para uma verdadeira compreensão de um seminário. É necessário uma distinção purificadora entre o que é puramente humano e o que é divino. Distinção que costuma ocorrer na metade dos seis anos de formação de um seminarista.

 

O “meio-dia”

Assim como o sol do meio-dia faz sentir seus ardores sobre os já fatigados corpos dos que voltam do trabalho matinal, aumentando as suas penas, assim também os três primeiros anos de estudos, trabalhos e orações continuas pesam sobre o já não tão novato seminarista.

O entusiasmo inicial, mais humano que divino, perde seu impulso e vigor, deixando a inteligência e vontade, já sem a ajuda dos sentimentos, sozinhas no campo de batalha. É chegado o momento de viver o seminário não somente levado pelo exemplo dos companheiros, mas principalmente por uma convicção interior profunda, enraizada não na inconsistente areia dos sentimentos, mas na terra firme da graça de Deus.

Processo tanto mais doloroso quanto maior a alegria de seu desenlace final. Doloroso porque a rotina continua a mesma, não assim seu encanto. Os trabalhos supõem abnegação e sacrifício. O silencio, próprio de religiosos, exige um continuo esforço. A vida comum, ainda que proporcione muitas alegrias, igualmente traz suas dificuldades, desentendimentos, incompreensões.

O seminarista se pergunta: “vale a pena tudo isto?” Aparentemente não se produz nada útil. Os estudos não parecem estar direcionados a uma brilhante carreira no futuro, mas somente à contemplação e transmissão das verdades de fé. Há uma desconexão quase total das noticias do mundo exterior...

Mas justamente aqui está o ponto central que caracteriza uma vida de seminário: uma vez passado o que era mais humano que divino, começa o incrível drama do que é mais divino que humano.

À angustiante pergunta “para que tudo isto?” daquele que busca a solução, responde a nossa solícita Mãe, a Santa Igreja, com suas ternas e profundas palavras: “isto não é uma obra humana. Teu criador criou-te para si, e não para ti; e quer de ti um servidor fiel que dê a conhecer ao mundo a sua verdade e a sua bondade infinitas.”

O jovem coração não sabe o que responder. É algo tão acima do que imaginava nos seus primeiros anos... Confuso, vai em busca do conselho daqueles experimentados sacerdotes que estão a cargo de formá-lo até o ultimo passo, e se assombra ao descobrir que todos os antigos passaram pelo mesmo drama. E vendo neles a imagem de seu futuro, animado, prepara-se para os últimos anos de sua formação.

 

Os últimos anos

Esta nova e consoladora etapa, tão diversa dos anteriores, possui uma luz que transforma em sobrenatural tudo aquilo que lhe parecia tão natural. Todas as atividades quotidianas, desde o lavar pratos até os louvores divinos, tudo se faz para glória do único Deus vivo, por amor, obediência e fidelidade àquele que o criou e lhe pede seu coração.

A liturgia, a mesma de sempre, mas sempre nova, se transforma em uma conservação com Deus. Essa nova alegria, até então desconhecida, vai tomando conta do coração do futuro sacerdote, e vai deixando no esquecimento todas as mundanas alegrias, que se tornam efêmeras ao lado do serviço de Deus e sua glória. Já não pensa em “subir na vida” senão no sentido de crescer em perfeição interior e conhecimento da verdade.

Agora sim, dirá o seminarista, agora sim compreende-se que tantos jovens, tendo à “vida pela frente” venham a confinar-se entre as paredes de um edifício, deixando-se atar sua liberdade ao cumprimento de uma regra. Oh, sim, vale muito mais do que a pena!

 

As despedidas

Porém, aproximando-se o término dos estudos, deve o já experimentado seminarista preparar-se a receber aquilo que justificou seus seis anos de suores, sacrifícios, alegrias e consolações. Aproxima-se sua ordenação sacerdotal. A expectativa do grande dia contagia novos e antigos. Todo o seminário entra numa atmosfera de alegria tanto natural quanto sobrenatural.

O dia anterior à cerimônia é preenchido pelos intensos trabalhos preparativos, é necessário acomodar o refeitório para os numerosos convidados, limpar e preparar a Igreja, sem esquecer o cuidado do parque exterior.

Enquanto a comunidade se agita em ardoroso trabalho, nosso futuro sacerdote faz, silencioso, seu retiro de preparação. São-lhe dadas várias conferências sobre a responsabilidade que pesará sobre seus ombros, e sobre a sublimidade de sua vocação. No entanto também lhe é chamada a atenção sobre a enorme obrigação de fidelidade e gratidão a Deus, que gratuitamente, sem mérito algum de sua parte, confia-lhe o cuidado das almas.

Enfim, soa o sino do tão esperado dia! Com o coração levemente acelerado mas com espírito recolhido, integra a procissão solene de entrada à igreja e, a passos lentos, vai se aproximando do altar daquele que a seis anos atrás, de modo tão escondido havia lhe conduzido ao seminário. O sorriso exterior revela aquele outro interior, tão próprio de um homem, que ao compreender a sua condição de criatura, põe sua alegria em cumprir a vontade de Deus.

 

Conclusão

Quem diria, pois, que um tão sóbrio edifício em suas cores e formas, abrigasse em seus silenciosos claustros tão intensos movimentos de um coração humano, que em seu natural inquieto, busca o conhecimento do amor e da vontade de Deus, seu criador e redentor!

Isto é o coração de um seminário! Coração que recebe o seu impulso vital do coração de Cristo, aberto na cruz, e por outro lado, coração que reparte esta vida divina a todos os homens pela formação de sacerdotes missionários.

Obra essencial da Santa Igreja, um seminário é como uma fortaleza que garante a todo jovem que nela ingressa, não somente proteção e amparo, mas, principalmente, uma formação sólida que lhe abrirá os horizontes do discernimento da verdade e dos desígnios da Providência sobre os homens.

Que Deus se digne, por fim, inspirar em todo cristão ardentes desejos, orações e súplicas pelo florescimento cada vez maior desta tão bela obra, tanto mais necessária quanto maior é a sede de doutrina e vida cristã deste árido mundo moderno.

Introdução ao quinto domingo de Pentecostes

“Vai primeiro conciliar-te com o teu irmão” (Evangelho)

 

Paramentos verdes

 

A liturgia deste domingo ensina-nos o modo como devemos perdoar as injúrias e, como no anterior, tem aqui esta doutrina dois elementos por base: a história de Davi que continua a ler-se no Breviário e um passo da Epístola de S. Pedro cuja festa se celebra nesta altura. Esta semana era até chamada outrora, por este motivo, a dos Apóstolos 1.

Logo que Davi derrotou Golias, Israel triunfante vitoriava os soldados e cantava: “Saul matou mil e Davi dez mil”. Saul irritou-se com isto e a inveja mordeu-lhe o coração. “Mil eu e dez mil Davi, dizia. Então será Davi mais do que eu? Que lhe falta senão ser rei?”

E desde esse dia, nunca mais o pôde ver com bons olhos, como se adivinhasse que Davi fora escolhido por Deus. A inveja fê-lo criminoso. Por duas vezes tentou mata-lo e por outras tantas Davi evitou o golpe. Então mandou-o para a guerra, na esperança de que lá morreria. Davi, porém, regressou vitorioso à frente do exército. Saul desesperou e entrou de persegui-lo abertamente. Um dia que andava a procura-lo desceu para repousar a uma caverna tenebrosa onde Davi se ocultara; desceu e dormiu. Disse então a Davi um dos seus companheiros: “Eis o rei; o Senhor entregou-o nas tuas mãos. É sem dúvida o momento de o matares”. “Não, respondeu Davi. Não permita Deus que eu desrespeite jamais o que recebeu a unção santa”.

E contentou-se de lhe cortar a orla do manto e de lha mostrar de longe quando o dia rompeu. Então Saul chorou e disse: “O meu vassalo Davi é melhor do que eu”. Surpreendeu-o ainda outra vez Davi em pleno sono, com a lança à cabeceira e apenas lhe pegou nela e na taça, Saul abençoou de novo Davi sem, no entanto, deixar de o perseguir. Mais tarde os filisteus recomeçaram a guerra e os Israelitas foram derrotados. Suicidou-se Saul, lançando-se sobre a própria espada. Davi, longe de se alegrar com a morte do rei, rasgou as vestes e chorou amargamente e mandou cortar a cabeça ao amalecita que se atribuía o pretendido mérito de matar o monarca e lhe trouxera a notícia com a coroa. “Montanhas de Gelboé, exclamou, que nem o orvalho nem a chuva descem jamais sobre vós, que vistes tombar os heróis de Israel, Saul e Jonatas, tão amáveis e tão belos durante a vida e que a morte não pôde separar”.

A grande lição de caridade se depreende destas considerações e compreendemos agora a escolha do Evangelho e da Epístola que nos pregam ambos o dever impreterível de perdoar. “Sede, pois, unânimes na oração e não deis mal por mal, nem ultraje por ultraje”, diz a Epístola. “Se apresentares a tua oferta no altar, diz o Evangelho, e te lembrares de que o teu irmão tem contra ti alguma coisa, deixa diante do altar a oferta e vai reconciliar-te primeiro com o teu irmão”. A comunhão da Missa exprime os sentimentos de Davi ao apoderar-se da cidade de Sião e mandar colocar nela a Arca do Senhor. Isto foi a recompensa da sua invencível caridade, dessa virtude indispensável para que o culto tributado a Deus pelo homem no seu templo santo Lhe seja verdadeiramente agradável. A Epístola e o Evangelho salientam que é sobretudo quando nos reunimos para orar que mais nos devemos unir. E o melhor meio para alcançar esta virtude é o amor de Deus e o desejo veemente dos bens eternos e daquela felicidade que reina na corte do Deus vivo, onde se não entra senão pela porta estreita da renúncia e da abnegação cristã.

 

Da Epístola: A caridade é a virtude cristã por excelência porque, quando se pratica, põe em ação todas as demais virtudes. E então se a exercemos com aqueles que nos perseguem pela fé, torna-se a mais perfeita apologia do Cristianismo.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

  1. 1. As Missas destes primeiros domingos remontam a S. Gregório Magno.

Esto vir!

Dom Tissier de Mallerais

Após definir a fortaleza e mostrar em que consiste a disciplina, tratarei do papel da educação na aquisição dessas virtudes segundo Dom Lefebvre. Irei também considerar os defeitos e as virtudes ligadas à fortaleza e à disciplina. Isso nos fornecerá diretivas práticas segundo o modelo de um homem exemplar.

 

Definições de fortaleza

Disciplina é o controle de si, a ordem interior da alma e do corpo, que é a fonte da ordem exterior das coisas e dos homens. É fruto do dom de sabedoria (ordenar é próprio do sábio) e do dom de fortaleza ("sou mestre de mim mesmo e do universo", são as palavras que o dramaturgo Corneille põe na boca do Imperador Augusto).

Fortaleza, ou coragem, é uma das virtudes cardeais; é assistida pelo dom de fortaleza, um dos sete dons do Espírito Santo. O seu objeto é dominar o temor a fim de obter o bem difícil, seja na ordem temporal, como uma grande obra, uma vitória militar, ou na ordem espiritual, como a santidade e a salvação eterna.

 

O papel da educação e da escola na aquisição dessas virtudes

Essas virtudes e esses dons do Espírito Santo devem ser postos em prática desde a primeira infância, em casa ou na escola, para que sejam adquiridos de maneira estável.

O Marechal Foch, comandante supremo das forças aliadas na Primeira Guerra Mundial, via no infatigável trabalho do jovem a fonte do controle de si e da confiança, sobretudo na arte militar, que ele mesmo aprendeu na escola em Metz.

"Não creia em dons da natureza! Creia em trabalho duro!", exclamava a seus aspirantes. É pelo trabalho duro que se obtém conhecimento, e o conhecimento é o que constitui a dignidade do profissional e da sua habilidade. É o conhecimento, adquirido por meio da prática incansável, que o provê da confiança com que é capaz de tomar decisões sem ter de sempre recorrer a conselhos! Essa confiança estabelece o exercício da habilidade de decidir em meio às adversidades, e isso justamente é o que permite que confiemos nele.

O conhecimento adquirido por Foch foi o que lhe permitiu reagir imediatamente ao violento ataque inimigo nos terríveis dias da primavera de 1918: não se apavorou nem perdeu a cabeça, mas movimentou exércitos inteiros para preencher lacunas e contra-atacar com sucesso.

Dom Lefebvre vê a fonte da disciplina no espírito de sacrifício instilado na escola. Em 31 de março de 1982, numa escola, expressou-se deste modo:

"A escola católica", disse ele, "é a escola em que se aprende a disciplinar-se, em que se aprende o sacrifício, já que não se pode ser católico sem sacrifício. Por que sacrificar-se? Para encher-se da caridade e do amor.

"Fomos criados para amar a Deus, amar o próximo: isso é toda a lei de Deus. Não há outra lei. Toda a lei do Evangelho resume-se na caridade. Mas, para nos tornarmos caridosos, devemos nos sacrificar. Se não nos sacrificarmos, não nos devotaremos, não nos daremos.

"O egoísta, que pensa apenas em si mesmo, não é caridoso. Portanto numa escola católica deve-se aprender o sacrifício, a disciplina: a disciplina da inteligência, da vontade, do coração.

"Aprende-se a disciplinar a inteligência por meio do recebimento da verdade, da submissão à verdade ensinada. A verdade nos é ensinada desde cedo na infância até o último dia na escola. Assim se aprende a formar a inteligência conforme a verdade que nos ensina Nosso Senhor Jesus Cristo.

“Aprende-se também a formar a vontade, a discipliná-la. Todos temos defeitos, nascemos com o pecado original, e os efeitos dele permanecem em nós até a morte.

“Assim, temos de lutar contra as más tendências, os maus desejos em nós, e disciplinar a vontade, com a ajuda de Deus e da graça. É por isso que na escola há uma capela, que é o coração, o principal edifício. Tudo se orienta à capela, a Nosso Senhor Jesus Cristo: Ele é a nossa Verdade, a nossa força, o nosso amor.”

 

Defeitos adversos à fortaleza e à disciplina

Por falta de educação, de prática, de exercício, a fortaleza e a disciplina perdem lugar para a covardia e o desleixo, e em vez da coragem vê-se a fraqueza do apetite irascível. O apetite irascível é a paixão da alma, a paixão da parte sensível da alma humana. A paixão irascível deseja e busca o bem difícil, e o apetite concupiscível deseja o bem sensível e deleitável.

A falta do apetite irascível causa a pusilanimidade, a inconstância; também causa hesitação na inteligência, que, em vez de aplicar heroicamente os princípios, procura escapatórias, acordos, diante de um adversário ou de uma adversidade.

Em vez da disciplina, do controle de si, há a raiva (amiúde reação da fraqueza), desordem (na pessoa e nas coisas), e preguiça. O último, a preguiça, não consiste em não fazer nada, mas em preferir o trabalho menos útil ao mais útil e necessário.

Também aqui se vê o vestir desleixado ou o vestir contrário à modéstia corporal. Se compararmos o comportamento e o vestir dos rapazes em 1916 com o dos de 2016, notaremos a perda da virilidade, em apenas um século, da população inteira de um país, graças ao lento progresso de efeminação do comportamento e vestimenta dos rapazes.

 

Repercussão da força física na força da alma

É papel da família católica e da escola católica exercitar as crianças e os jovens na resistência física: através da fadiga, jejuns, vigílias, caminhadas etc.

Uma noite de oração ou uma hora de adoração noturna é excelente exercício de resistência física e piedade. A escola tem aulas semanais de educação física para ensinar os rapazes a ganhar flexibilidade e músculos. Sabe-se bem que a força e o tônus físicos são auxílio ao tônus moral.

O jovem Eugênio Pacelli, alto e magro, praticou exercícios físicos da infância até a adolescência, a fim de poder manter-se sempre ereto. Fazia equitação e tornou-se experiente e incansável cavaleiro nas suas corridas pelo interior romano. Em toda a sua vida, quando de pé, sentado, ou na sela, sempre se esforçou por manter-se impecavelmente aprumado com incansável disciplina corporal. Já como Papa Pio XII, nos visitantes inspirava de imediato respeito: "Só se podia aproximar de Pio XII com grande respeito", lembrava Dom Lefebvre.

 

A prática do controle de si e da ordem

O bom Pe. Barrielle, diretor espiritual do Seminário São Pio X em Écône, ensinou aos seminaristas princípios de ordem que lhes seriam muito úteis na direção de priorados, escolas e distritos. Ensinou as cinco regras do Fayolismo (do engenheiro Fayol, não do General Fayolle, que foi derrotado em 1917), que são, conforme o mesmo padre:

Planejar com antecedência: os objetivos e os meios: lugar, tempo, coisas, atribuições das pessoas. Organizar: as etapas, os gerentes, as reuniões preparatórias. Comandar: tomar decisões, organizar as pessoas com precisão. Controlar: as coisas, as pessoas, lembrá-los dos seus deveres. Trabalho de gabinete: escritos, telefone, arquivos.

Agora um exemplo tirado de Dom Lefebvre. Tão logo retornou de uma viagem, leva a bagagem ao quarto e vai direto à capela rezar o terço em comunidade, embora já tivesse rezado quinze dezenas com o motorista — "os deveres em comunidade têm precedência". Após a refeição, desfaz as malas, e leva a roupa suja à lavanderia. No dia seguinte, abre a abundante correspondência e, com bela e constante caligrafia, responde a cada carta com uma palavra cordial, mesmo que uma delas estivesse cheia de insultos.

À noite, dá conferência espiritual aos seminaristas. Espera ao pé da plataforma até o horário exato. Após o Veni Sancte Spiritus, senta-se com os pés juntos, sem nunca acostar-se. Descansa os pulsos na beirada da mesa e fala (às vezes sorrindo, às vezes sério quando há reprimendas a fazer) com a sua pequena, modesta, mas distinta voz.

Sua batina é simples, não se percebem os botões, amarrada na cintura com a modesta faixa espiritana, e os sapatos esmeradamente polidos.

É o exterior e o comportamento de um modesto sacerdote, de um respeitado e amado líder, que, sem ostentação, é um exemplo de ordem e controle de si para os seus filhos, membros da sua Fraternidade Sacerdotal São Pio X.

De onde recebeu tal disciplina, tal força interior? Certamente da sua família, do pai, que foi chefe de uma indústria; mas também do Pe. Henri Le Floch, reitor do seminário em Roma; e finalmente do noviciado espiritano. Foi bem ensinado, e se manteve homem forte, vir fortis, cuja mansidão conquistou a sua própria alma e a alma dos outros. "Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra." Dito de outra forma, nas palavras de Dom Delatte: "Terram quam terunt, terram quam gerunt, terram quam sunt — terra que pisam, terra que mandam (seus subordinados), terra que são (suas almas)”.

(The Angelus, september 2016 )

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