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CAMPANHA DE ROSÁRIOS PELAS ELEIÇÕES

 

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Category: Don A.MConteúdo sindicalizado

João Paulo II, promotor da “Nova Teologia” - 1a. parte

Dom A. M.

 

Um admirador de Henri de Lubac e dos “novos teólogos”

Paulo VI morreu em 6 de agosto de 1978 na cidade de Castel Gandolfo, para grande pesar dos maçons do Grande Oriente da Itália. Depois do curto parêntesis que foi o pontificado do Papa Luciani, que durou só 33 dias, em 16 de outubro de 1978 foi eleito à Sé Pontifícia o Cardeal Karol Wojtyla, arcebispo da Cracóvia, Polônia. 

O nome mesmo escolhido pelo novo Papa — João Paulo II — não pressagiava nada de bom, pois constituía um claro indício de sua vontade de seguir pela desastrosa “via conciliar” traçada por João XXIII e por Paulo VI. As pessoas mais bem informadas sabiam que, durante os trabalhos do Vaticano II, as posições de Dom Wojtyla estavam claramente alinhadas com as funestas novidades conciliares, quintessência do liberalismo e da “nova teologia”. Mais ainda, Dom Wojtyla fora um membro entusiasta da comissão incumbida da redação de Gaudium et Spes, ou seja, do documento conciliar que foi mais tarde definido pelo Cardeal Ratzinger como um verdadeiro contra-Syllabus.

Sempre durante o Concílio, Dom Wojtyla — como relata seu velho amigo e colega de seminário clandestino, Dom Mieczyslaw Malinsky — exprimira sua grande admiração pelos piores entre os peritos conciliares neo-modernistas: Henri de Lubac, Yves Congar, Karl Rahner, Hans Kung1.

Dom Karol Wojtyla ignorava as condenações de Pio XII e dos Papas precedentes contra o liberalismo e o modernismo Certamente não, de modo que só nos resta concluir — infelizmente — que Dom Wojtyla fez sua escolha: em favor de Lubac e de seus amigos neo-modernistas e, consequentemente, contra o Papa Pio XII e seus predecessores. De resto, muitas das ações que realizará mais tarde durante o seu pontificado irão confirmar essa triste realidade.

Durante sua viagem pastoral na França, em 1980, por exemplo, João Paulo II, percebendo entre os presentes o Padre Henri de Lubac, interrompeu o discurso oficial no meio para dizer: “Eu me inclino perante o Padre Henri de Lubac, teólogo jesuíta que ocupava os mais altos postos ao lado do Pe. Congar; eles que, antes do período conciliar, tiveram dificuldades com Roma”2.

Mais de vinte anos depois, no seu livro-entrevista “Cruzando o limiar da Esperança”, João Paulo II escrevia textualmente: “assim, portanto, já durante a terceira seção [do Vaticano II - NDR] eu me encontrava na equipe que preparava […] o documento que viria a ser a constituição pastoral Gaudium et Spes. Devo muito em particular ao Pe. Yves Congar e ao Pe. Henri de Lubac. Ainda hoje me lembro das palavras com as quais este último me encorajou a perseverar na linha que eu definira nas discussões. Isso ocorria quando as seções se davam no Vaticano. A partir desse momento, travei uma amizade especial com o Pe. De Lubac."

Ao longo do seu pontificado, como veremos, João Paulo II iria concretizar progressivamente sua admiração e… quitar sua dívida, elevando tanto Lubac como Congar à dignidade cardinalícia, além de muitos outros representantes, velhos e novos, da nova teologia: von Balthasar, Grillmeyer, von Schönborn e outros. Não foi por acaso que o Pe. Henri de Lubac, durante o pontificado de Paulo VI, confiou aos seus amigos próximos: “no dia em que for preciso escolher um Papa, já tenho meu candidato: Wojtyla”3. (Continue a ler)

  1. 1. Mieczyslaw Malinsky, Mon ami Karol Wojtyla, éd. Le Centurion, 1980, p. 189.
  2. 2. Le Monde, 3 de junho de 1980.
  3. 3. 30 Giorni, julho de 1985.

As demolições de Paulo VI

Dom A. M

Nota da Permanência: Retomamos a publicação da série "Breve crônica da ocupação neo-modernista na Igreja Católica", utilíssima para quem quiser compreender como chegamos ao atual estado de coisas em Roma. Na foto ao lado, o Papa Paulo VI entrega seu anel episcopal ao "arcebispo" anglicano Ramsey.

 

Quanto a Paulo VI, é claro que um filo modernista como ele, chegando a ocupar – com a permissão de Deus e em punição de nossos pecados – a Sé de Pedro, não poderia ser senão um demolidor da Igreja. Além, evidentemente, de suas intenções pessoais, ou melhor, de suas utopias pessoais.

Admirador de personagens como Blondel, Teilhard de Chardin, Henri de Lubac, do "segundo" Jacques Maritain e de outros da mesma laia, o Papa Paulo VI se emprenhou, com obstinação digna das melhores causas, à aplicar em todos os domínios as novas doutrinas do Vaticano II. Ele desmantelou todas as defesas da Igreja, em particular pela reforma do Santo Ofício; promoveu a difusão da nova teologia em todas as faculdades pontificais, universitárias e seminários (ainda hoje, como já sublinhamos, Henri de Lubac e Von Balthasar, com Karl Rahner, dominam imperturbavelmente o currículo dos estudos teológicos); obrigou os religiosos dos dois sexos a um aggionarmento catastrófico de suas Regras e Constituições segundo o “espírito” do Vaticano II (resultado: conventos vazios e vocações raras); favoreceu também o aggionarmento de padres e seminaristas a fim de que se engajassem na abertura ao mundo promovida pelo Concílio (resultado: defecção súbita de dezenas de milhares de padres e a difusão lenta mas inexorável de um espírito secularizado, que se reflete até mesmo nas vestimentas); deixou completamente impunes os propagadores de heresias e de imoralidades que, imediatamente após o Vaticano II, espalharam-se como fogo no mundo católico. (Continue a ler)

"Novidades conciliares": Lumen Gentium, Unitatis Redintegratio e Nostra Aetate

Breve crônica da ocupação neo-modernista da Igreja Católica 

AS "NOVIDADES CONCILIARES", QUINTESSÊNCIA DA NOVA TEOLOGIA

Vamos nos debruçar aqui sobre as "novidades conciliares" em suas grandes linhas, examinando somente alguns textos do Vaticano II, a saber: Lumen Gentium nº 8; Unitatis Redintegratio c. I nº 3; Nostra Aetate; Dignitatis Humanae; Gaudium et Spes e Lumen Gentium c. III. 

Temos de deixar de lado, por razões de concisão, outros documentos importantes do Vaticano II, como por exemplo, Dei Verbum e outros acontecimentos graves decisivos, como as tratativas informais da Santa Sé, por intermédio do cardeal Bea, com os representantes do judaísmo mundial a fim de chegar a uma representação favorável ao judaísmo no documento Nostra Aetate; ou ainda a escandalosa e deliberada ausência de condenação do comunismo (por razões ecumênicas): era a condição posta pelo governo soviético para a presença de representantes do patriarcado ortodoxo de Moscou no Vaticano II como "observadores", com o abandono da petição apresentada pelos 450 padres conciliares...

Lumen Gentium

A constituição dogmática Lumen Gentium afirma: "... a única Igreja de Cristo [...], constituída e organizada neste mundo como uma comunidade subsiste na Igreja católica, governada pelo sucessor de Pedro e os bispos em comunhão com ele".[1]

Trata-se de uma única palavra: "subsiste", mas de uma palavra sustentada por uma questão de fé, e uma das mais graves.

A doutrina católica, na verdade, sempre identificou a única, verdadeira Igreja de Cristo com a única Igreja católica romana, excluindo as diversas seitas heréticas e cismáticas que se separaram dela ao longo dos séculos. Trata-se, em última análise, da questão mais importante na vida de cada homem, a da verdadeira religião e da verdadeira Igreja na qual poderemos encontrar a vida eterna. A voz da Tradição e dos Padres da Igreja sempre foi unânime neste assunto.

Vaticano II, primeira sessão: o início da Revolução

 

Breve crônica da ocupação neo-modernista da Igreja Católica

 

VATICANO II, PRIMEIRA SESSÃO:
O INÍCIO DA REVOLUÇÃO

 

A primeira sessão do Concílio Vaticano II se abriu na manhã de 13 de outubro de 1962[1], mas os neo­modernistas tiveram todo o tempo necessário para se organizar e aproveitar a ocasião propícia.

O grupo principal da ala modernista e liberal dos Padres conciliares era constituído por bispos alemães e ingleses — evidentemente discípulos entusiastas de seus novos teólogos que os manobravam a seu gosto — com os quais logo fizeram bloco outros episcopados da Europa, e que formaram o "grupo do Reno" ou a "Aliança Europeia", como os denominou um cronista conciliar, o Pe. Ralph Wiltgen.

O Concílio do Papa João

 

Breve crônica da ocupação neo-modernista da Igreja Católica 

O CONCÍLIO DO PAPA JOÃO

    

Ângelo Giuseppe Roncalli: o futuro João XXIII

No conclave após a morte de Pio XII, o cardeal Ângelo Giuseppe Roncalli, patriarca de Veneza, foi eleito Soberano Pontífice e tomou o nome de João XXIII. O novo Papa tinha antecedentes bastante inquietantes.

Na época de seus estudos eclesiásticos, o jovem Ângelo Giuseppe Roncalli tinha se tornado amigo de certos condiscípulos já ligados ao modernismo e que deviam depois se tornar seus célebres representantes: Dom Ernesto Buonaiuti, Dom Alfonso Manaresi e Dom Giulio Belvederi, que ele encontrava todas as noites na igreja do Gesú em Roma para a visita ao Santíssimo Sacramento, mas também para inflamadas discussões “progressistas”.

A condenação oficial da nova teologia

Breve crônica da ocupação neo-modernista da Igreja Católica

A CONDENAÇÃO OFICIAL DA NOVA TEOLOGlA

  

O Papa Pio XII condena a nova teologia 

O cardeal Eugenio Pacelli, eleito Soberano Pontífice em 1939 com o nome de Pio XII, perfeitamente consciente das consequências letais de uma tomada de poder na Igreja pelos novos teólogos, interveio resolutamente para condenar em nome da Igreja a nova teologia e seus propagadores.

Num discurso pronunciado em 17 de setembro de 1946 no Capítulo Geral dos Jesuítas, o Papa já tinha alertado os Padres capitulares contra uma "nova teologia que evolui juntamente com a evolução de todas as coisas, semper itura, numquam perventura, "sempre a caminho (para a verdade) sem nunca atingi-la", acrescentando estas palavras proféticas: "Se tal opinião for abraçada, o que será da imutabilidade dos dogmas, o que seria da unidade e da estabilidade da fé?[1]”.

Os novos modernistas da nova teologia

 

Breve crônica da ocupação neo-modernista da Igreja Católica

Os novos modernistas da Nova teologia[1]

 

Henri de Lubac e os “novos teólogos”

Nos anos 30 e 40, uma nova geração de modernistas entrou em cena. Seus nomes serão muito conhecidos mais tarde, como os dominicanos Marie-Dominique Chenu e Yves Congar, os jesuítas Henri de Lubac, Hans Urs von Balthasar e, em seguida, Karl Rahner, formuladores de uma “nova teologia”, cujas raízes estão fincadas no velho modernismo.

Assim como os “velhos” modernistas, os novos teólogos estavam, eles também, fortemente impregnados de imanentismo, subjetivismo e relativismo, com todas as consequências imagináveis no domínio da dogmática e da moral.

O Padre Henri de Lubac, por exemplo, líder da Nova Teologia e, por isso mesmo, tido como “pai” do Concílio Vaticano II e da nova Igreja conciliar, tinha ele também, assim como seus mestres modernistas, uma noção muito elástica da verdade.

A denúncia de Dom Lefebvre

A prova dos nove

Não se pode negar honestamente – a menos que se queira ir contra as evidências – que o Concílio Vaticano II retomou em seus documentos principais, com maior ou menor mimetismo, grande parte das posições seja dos primeiros modernistas, seja de seus sucessores da nouvelle théologie. 

Em apoio ao que acabamos de dizer, parece-nos conveniente expor aqui algumas declarações significativas sobre a matéria, feitas por representantes qualificados da “nova teologia” hoje triunfante, ou ainda por personalidades da esfera maçônica e comunista.

N o verão de 1976, por exemplo, o L´Osservatore Romano (quotidiano oficial da Santa Sé) dedicou a sua famosa “terceira página” a um artigo celebrando o modernista Tommaso Gallarati-Scotti, no qual o quotidiano reconhecia:

“Nos últimos anos, uma grande consolação lhe veio [a Gallarati-Scotti – n. d. r] do Concílio Vaticano II, porque sentiu que as amarguras experimentadas em sua juventude [por causa da condenação do modernismo – n. d. r.] não foram sofridas em vão: a Igreja avançava por um caminho áspero e difícil, mas no qual muitas coisas, outrora esperadas, se tornavam realidade viva.”1

Ora, se o Vaticano II representou uma ‘consolação’ para o modernista impenitente Tommaso Gallarati-Scotti e se o L´Osservatore Romano pôde tranquilamente elogia-lo no período pós-conciliar, fica claro qual julgamento fazer – ao menos para aqueles que não procuram se cegar voluntariamente – acerca de um Concílio que transformou em “realidades vivas” as posições modernistas; e é fácil compreender quem manda hoje na Igreja.

Por seu lado, o dominicano subversivo Yves Congar (logo nomeado cardeal, evidentemente pelos “méritos” adquiridos) exultava afirmando que, com o Vaticano II, “a Igreja fez sua pacífica revolução de outubro.”2

Edward Schillebeeckx o.p., enfim, era more solito ainda mais explícito:

“...Vaticano II foi uma espécie de confirmação do que tinham feito os teólogos [neo-modernistas, n.d.r] antes do Concílio: Rahner, Chenu, Congar e outros; [...] não foi de modo algum o ponto de partida de uma nova teologia, mas somente o selo do que certos teólogos tinham feito antes do Concílio; teólogos que tinham sido condenados, afastados do ensino, exilados, foram os responsáveis pela teologia que triunfou no Concílio. [...] O Concílio foi um compromisso. Por um lado, foi um Concílio liberal, que consagrou os novos valores modernos da democracia, da tolerância, da liberdade. Todas as grandes idéias da revolução americana e francesa, combatidas durante gerações pelos papas, bem como todos os valores democráticos foram aceitos pelo Concílio. Por outro lado, o concílio não conseguiu dar uma resposta ao fermento de revolta que já se anunciava. [...] Ele aceitou nossa teologia, nos confirmando em nossa pesquisa teológica. Nós nos sentimos livres como teólogos e liberados das suspeitas, do espírito de inquisição e de condenação. O espírito de Humani Generis (1950) pesava sobre nós, essa encíclica de Pio XII que condenou Le Saulchoir e la Fourvière: as escolas dos dominicanos e dos jesuítas [Congar, Chenu, Lubac e amigos – n. d. r.]. Nós éramos todos suspeitos antes do Concílio e o Concílio nos liberou.”3

Quando se fala em clareza...

“A extraordinária abertura do Concílio – escreveu o número especial de Propaganda do Partido Comunista italiano por ocasião de seu congresso de 1964 – justamente comparado aos Estados Gerais de 1789, mostrou ao mundo inteiro que a velha Bastilha político-religiosa fora abalada em suas fundações. [...] Apareceu uma possibilidade, até então imprevista, de nos aproximarmos, através de manobras adaptadas, de nossa vitória final.”4

Yves Marsaudon, alto dignatário maçom também entoou seu canto de vitória pelo triunfo dos “valores” maçônicos acolhidos pelo Vaticano II:

“Se existisse ainda algumas ilhotas em comunhão de pensamento com a época da Inquisição, elas seriam afogadas pela maré ascendente do ecumenismo e do liberalismo, cuja consequência das mais tangíveis será a inversão das barreiras espirituais que ainda dividem o mundo. Desejamos do fundo do coração o sucesso da Revolução de João XXIII5

E para os que não estão completamente convencidos, eis o final: “Os católicos não devem esquecer de que todos os caminhos [isto é, todas as religiões – n. d. r.] conduzem a Deus, e eles devem se manter nessa corajosa noção de liberdade de pensamento que – a este respeito pode-se realmente falar de revolução, partindo de nossas lojas maçônicas – se estendeu magnificamente acima da cúpula de São Pedro”; depois do Vaticano II, naturalmente, e é por isso que Marsaudon pôde concluir, exultante: “todo maçom digno do nome [...] não fará outra coisa senão se alegrar sem nenhuma restrição dos resultados irreversíveis do Concílio.”6

“Sem nenhuma restrição”. Está claro o suficiente?

Os partidários da nova “Igreja conciliar” e do “irreversível caminho ecumênico” estão em boa companhia.

 

Adesão da “Igreja Conciliar” à Maçonaria

Fica claro o porquê de, por ocasião da morte de Paulo VI, o Grão Mestre do Grande Oriente italiano (e “bispo” da esotérica “Igreja gnóstica” na Itália), Giordano Gamberini, ter podido escrever a guisa de elogio fúnebre do papa: “Para nós, trata-se da morte daquele que derrubou a condenação de Clemente XII e de seus sucessores. É, pois, a primeira vez – na história da maçonaria moderna – que morre o Chefe da maior religião ocidental sem que esteja em estado de hostilidade com os maçons. [...] pela primeira vez na história, os maçons podem prestar homenagem no túmulo do papa, sem ambiguidade nem contradição.”7

De resto, a abertura feita pelo Vaticano II aos “valores” do iluminismo e a “dois séculos de cultura liberal” (Cardeal Ratzinger), com a política de mãos estendidas para a maçonaria, que é a guardiã e a representante mais importante desses valores, havia sido programada bem antes. É o que nos diz o célebre religioso Pe. Rosario Esposito (abertamente pró-maçom) que numa carta enviada ao Grão Mestre Gamberini, e publicada em La Rivista Massonica, escreveu: “Caro Gamberini, apreciei, mesmo na sua frieza cartesiana, o seu editorial sobre a morte do papa [Paulo VI – n. d. r.]. Julgo que ele teria gostado, pois nunca teve medo de nada. [...] O dominicano Pe. Félix Morlion, muito conhecido como fundador da Universidade Internacional “Pro Deo” [...], me relatou um dia ter conversado com o então Monsenhor Montini acerca das relações desastrosas entre a Igreja e a maçonaria. Montini lhe teria dito: “Não passará uma geração e, entre as duas sociedades, a paz se estabelecerá”. O episódio já tinha sido narrado, sem citar o nome do pontífice, em um artigo publicado em “Vie Pastorale”, de dezembro de 1974. Agora que o pontífice morreu, não há razão de se manter o segredo. E a previsão – ou antes, a decisão – cumpriu-se plenamente...”8

A “paz”, como vimos, efetivamente ocorreu, mas com a rendição incondicional da Igreja católica, em nome da qual, após a obra de demolição iniciada por João XXIII, Paulo VI e os homens do Vaticano II, abusando de sua autoridade, aceitaram e impuseram aos fiéis o liberalismo e o laicismo de Estado (Dignitatis Humanae), o falso ecumenismo (Lumen Gentium I, 8; Unitatis Redintegratio; Nostra Aetate) e a mentalidade democrática antropocêntrica (Lumen Gentium III, 22) que sempre fora o estandarte da ideologia laico-maçônica.

O estandarte das filhas da viúva, como gostam de se definir os maçons, foi içado triunfalmente sobre a cúpula de São Pedro. O vírus da AIDS iluminista e neo-modernista fora inoculado nas veias do mundo católico, e todas as suas defesas imunitárias iriam desaparecer, uma após a outra.

 

A denúncia de Dom Marcel Lefebvre

No dia 20 de dezembro de 1966, numa carta-resposta ao Cardeal Ottaviani, Prefeito do Santo Ofício, que, alarmado pela súbita e universal explosão da crise no seio do clero e entre os fiéis, enviara um questionário a esse respeito aos bispos do mundo inteiro, Dom Marcel Lefebvre apontou abertamente a causa, a saber: as “novidades” do Concílio Vaticano II.

Reproduzimos aqui longos trechos desta carta:

“[...] Creio que é meu dever vos expor de modo claro – escrevia o prelado francês – o resultado das minhas conversas com muitos bispos, padres e leigos da Europa e da África, e das minhas leituras em países de língua inglesa e francesa.

Seguiria com gosto a ordem das verdades anunciadas na vossa carta, mas ouso dizer que o mal presente me parece bem mais grave do que a negação ou o questionamento de uma verdade da nossa fé. Ele se manifesta atualmente por meio de uma confusão extrema das ideias, na desagregação das instituições da Igreja, instituições religiosas, seminários, escolas católicas, em suma, daquilo que representou o permanente sustento da Igreja, mas isso não é senão a continuação lógica das heresias e dos erros que minam a Igreja há muitos séculos, em particular após o liberalismo do século passado, que buscou a todo preço conciliar a Igreja com as ideias que desaguaram na Revolução.

A Igreja avançou na medida em que se opôs a essas ideias, que vão contra a sã filosofia e a teologia; ao contrário, cada comprometimento com o pensamento subversivo provocou um alinhamento da Igreja com o direito comum e o risco de torná-la escrava das sociedades civis.

Por outro lado, cada vez que grupos católicos se deixaram levar por esses mitos, os papas corajosamente lhes reconduziram ao bom caminho, lhes esclareceram e, quando preciso, lhes condenaram. O liberalismo católico foi condenado por Pio IX, o sillon por São Pio X, o comunismo por Pio XI e o neomodernismo por Pio XII. Graças a essa vigilância admirável, a Igreja se consolidou e se desenvolveu. As conversões de pagãos e de protestantes eram numerosas; a heresia estava em completa derrota, os Estados aceitaram a legislação católica.

Mas, certos grupos de eclesiásticos, impregnados dessas falsas doutrinas, lograram divulgá-las na Ação Católica e nos seminários, graças a uma certa indulgência dos bispos e a uma tolerância de certos Dicastérios romanos. Não passou muito tempo e os bispos foram escolhidos do meio desses padres. E aqui entramos na questão do Concílio. As comissões preparatórias dedicaram-se a proclamar a verdade em face dos erros, para fazer com que desaparecessem da Igreja. Isso teria sido o fim do protestantismo e o início de uma nova era fecunda para a Igreja. Ao contrário, essa preparação foi odiosamente rejeitada para dar lugar à maior tragédia que a Igreja jamais sucumbiu. Assistimos ao matrimônio da Igreja com as ideias liberais. Negaríamos as evidências se fechássemos os olhos e não afirmássemos corajosamente que o Concílio permitiu que aqueles que professam erros e tendências condenadas pelos papas que citamos, crer legitimamente que as suas doutrinas agora são aprovadas. [...] Em regra quase geral, quando o Concílio inovou, enfraqueceu a certeza das verdades ensinadas pelo Magistério autêntico da Igreja como pertencentes ao tesouro da Tradição. Quer se trate da transmissão da jurisdição dos bispos, das duas fontes da Revelação, da inspiração das Escrituras, da necessidade da graça para a justificação, da necessidade do batismo católico, da vida da graça nos heréticos, cismáticos e pagãos, dos fins do matrimônio, da liberdade religiosa, dos novíssimos etc., sobre esses pontos fundamentais, a doutrina tradicional era clara e ensinada de forma unânime nas universidades católicas. Ao contrário, numerosos textos do Concílio agora permitem que se duvide dessas verdades.

As consequências foram rapidamente tiradas e aplicadas na vida da Igreja.

- Dúvidas sobre a necessidade da Igreja e dos sacramentos provocaram o desaparecimento das vocações sacerdotais.

- Dúvidas sobre a necessidade e a natureza da conversão de todas as almas estão em vias de provocar o desaparecimento das vocações religiosas, a ruína da espiritualidade tradicional nos noviciados, a inutilidade das missões.

- Dúvidas sobre a legitimidade da autoridade e a exigência da obediência, causadas pela exaltação da dignidade humana, da autonomia da consciência, da liberdade, estão em vias de atingir todas as sociedades, a começar pela Igreja, as sociedades religiosas, as dioceses, a sociedade civil, a família. O orgulho tem por consequência todas as concupiscências dos olhos e da carne. Isso talvez seja uma das constatações mais assustadoras de nossa época: ver a que decadência moral chegaram a maior parte das publicações católicas. Nelas se fala sem nenhum pudor da sexualidade, da limitação da natalidade por todos os meios, da legitimidade do divórcio, da educação mista, do flerte como meios necessários para a educação católica, questiona-se o celibato sacerdotal etc.

- Dúvidas sobre a necessidade da graça para a salvação estão em vias de provocar o desprezo do batismo, agora adiado, o abandono do sacramento da penitência. De resto, trata-se sobretudo de um comportamento dos padres, e não dos fiéis. Ocorre o mesmo com respeito à Presença Real: são os padres que agem como se não cressem mais, escondendo o tabernáculo, suprimindo todos os sinais de respeito relacionados ao Santíssimo Sacramento e todas as cerimônias em sua honra.

- Dúvidas sobre a necessidade da Igreja, fonte única de salvação, sobre a Igreja católica, única religião verdadeira, decorrentes das declarações sobre o ecumenismo e a liberdade religiosa, destruindo a autoridade do Magistério da Igreja. Roma, com efeito, não é mais a única e necessária “Magistra Veritatis” (Mestra da Verdade)

É preciso concluir, portanto, constrangidos pela evidência dos fatos, que o Concílio favoreceu de modo inconcebível, a difusão dos erros liberais. A fé, a moral, a disciplina foram atingidos nos seus fundamentos, segundo as previsões de todos os papas. A destruição da Igreja avança a passos largos.

Por ter concedido uma autoridade exagerada às conferências episcopais, o Soberano Pontífice tornou-se impotente. Quantos exemplos dolorosos em um único ano!

Contudo, o sucessor de Pedro, e ele apenas, pode salvar a Igreja. Que o Santo Padre se cerque de valorosos defensores da fé, que os designe às dioceses mais importantes. Que se digne a proclamar, por meio de documentos importantes, a verdade, para combater o erro sem temor das contradições, sem medo de cismas, sem receio de pôr em questão as disposições pastorais do Concílio.”

Esse diagnóstico preciso e doloroso de Dom Lefebvre – inútil recordá-lo – caiu no vazio mais absoluto.

  1. 1. Osservatore Romano, 7 de junho de 1976.
  2. 2. Yves Congar, Le Concilie jour a jour. Paris, pág. 215.
  3. 3. Entrevista em Jesus, maio de 1993.
  4. 4. Citado in Mons. R. Graber, Saint Athanase et l´Église de notre temps, ed. Civiltà, Brescia 1974, pág. 73.
  5. 5. Y. Marsaudon, L´oecumenisme vu par um franc-maçon de tradition, ed. Vitiano, Paris, 1964.
  6. 6. Ibidem
  7. 7. La Rivista Massonica, julho, 1978, n. 5, p. 290.
  8. 8. La Rivista Massonica, agosto de 1978, n. 6, pp. 371-372.

"Novidades conciliares": Dignitatis Humanae, Gaudium et Spes, Lumen Gentium cap. 3.

Dignitatis Humanae

Uma enésima reviravolta doutrinal aconteceu na declaração Dignitatis Humanae sobre a liberdade religiosa, na qual os Padres conciliares e os redatores do documento (sobretudo o jesuíta Courtney Murray, Mons. Pavan e o dominicano Hamer) proclamaram, em contradição patente com as condenações constantes da Santa Sé, que “a pessoa humana tem direito à liberdade religiosa [...] de tal sorte que, em matéria religiosa, ninguém seja forçado a agir contra sua consciência, nem impedido de agir, dentro dos justos limites, segundo sua consciência, em privado ou em público, sozinho ou associado a outros.

“[O Concílio Vaticano II] declara que o direito à liberdade religiosa tem seu fundamento na própria dignidade da pessoa humana [...] Este direito [...] deve ser reconhecido de tal maneira que constitua um direito civil.”1

O documento conciliar afirma a seguir: “O direito à liberdade religiosa não é fundado numa disposição subjetiva da pessoa, mas em sua própria natureza”, razão pela qual este direito persiste “mesmo naqueles que não satisfazem à obrigação de buscar a verdade e aderir a ela: seu exercício não pode ser entravado desde que a ordem pública esteja resguardada.”2

Dignitatis Humanae afirma então o direito a não ser impedido de professar publicamente e promover ativamente uma religião falsa, designando este direito como um direito inalienável fundado sobre a dignidade da própria natureza do homem.

É em sentido diametralmente oposto que o Magistério constante da Igreja sempre se exprimira, como resumiu o Papa Leão XIII: “Se a inteligência aderiu a opiniões falsas, se a vontade escolheu o mal e se apega a ele, nem uma nem a outra atinge sua perfeição, todas as duas decaem de sua dignidade nativa e se corrompem. Então não é permitido divulgar e expor aos olhos dos homens o que é contrário à virtude e à verdade, e muito menos ainda colocar esta licença sob a tutela e a proteção das leis”3. O Papa Pio XII reafirmou também, pela enésima vez, nove anos apenas antes do início do Concílio Vaticano II, a eterna doutrina católica: “O que não corresponde à verdade e à lei moral não tem objetivamente nenhum direito à existência, nem à propaganda, nem à ação.”4

Segundo Dignitatis Humanae, ao contrário, até a seita dos “Filhos de Deus” (hoje “Família de amor”), que pratica a prostituição e a pedofilia; até os discípulos de seitas satânicas (com que lógica discriminá-los dos outros “portadores de direito”?), assim como qualquer outra pseudo “confissão religiosa” teriam o direito estrito de não serem impedidos de praticar o mal, desde que uma hipócrita “ordem pública” seja resguardada; dito de outro modo, basta-lhes a simples legalidade exterior, o beneplácito de um Estado agnóstico, ateu na prática. O documento insiste e precisa ainda, com inacreditável insolência, que “seria fazer injúria à pessoa humana e à própria ordem estabelecida por Deus para os seres humanos recusar ao homem o livre exercício da religião na sociedade desde que a justa ordem pública seja resguardada”5 e “o poder civil [...] ultrapassa seus limites se atribui-se o direito de dirigir ou impedir os atos religiosos” (exteriores e públicos).6

Consequentemente:

Segundo Dignitatis Huamane a Santa Igreja Católica teria durante quase dois milênios feito “injúria à pessoa humana e à própria ordem estabelecida por Deus”, pois ela sempre negou, por um lado, o direito ao exercício público das falsas religiões e, por outro, sempre inculcou o princípio segundo o qual o Estado, dada a possibilidade de distinguir a verdadeira religião das falsas, tem o dever de apoiá-la e reconhece-la até juridicamente como a única verdadeira, além do dever de impedir o exercício público dos falsos cultos (que podem, no máximo e em certos casos, para evitar males maiores, serem apenas tolerados; o que se tolera continua a ser sempre falso e permanece um mal, enquanto o que tem direito só pode ser aquilo que tem caráter de verdadeiro e de bom).

Dignitatis Humanae promoveu o agnosticismo do Estado, isto é, o ateísmo prático do Estado, que não teria mais nenhum dever em relação ao verdadeiro Deus e à verdadeira religião, nem mesmo o de conformar suas leis com as de Cristo, já que deve permanecer – sempre segundo Dignitatis Humanae, naturalmente – acima dos partidos para garantir que “não ocorra nenhuma discriminação” entre os cidadãos por motivos religiosos.7

Mas – gostaríamos de perguntar à hierarquia “conciliar” fomentadora deste liberalismo “católico” – uma vez aprovado o agnosticismo-ateísmo de Estado, uma vez declarada a incapacidade ou incompetência presumida deste último para emitir julgamentos em matéria religiosa (e, portanto, para distinguir entre o erro e a verdade, e consequentemente também entre o bem e o mal), como se poderá pretender que este Estado garanta uma ordem pública justa?8

As contradições e absurdos de Dignitatis Humanae são evidentes e os resultados concretos e amedrontadores desta ideologia católico-liberal que os Padres do Vaticano II quiseram impor, em contradição com o Magistério eterno e para agradar ao “mundo moderno”, estão hoje sob os olhos de todos: o ateísmo laico do Estado, tão exaltado pelos “Padres conciliares” triunfa hoje por todos os lados, sabotando a Igreja, corrompendo as almas, destruindo – sempre com o discurso enganador e o sorriso nos lábios – a sociedade católica e as famílias através da pornografia distribuída a mão cheias, pela promoção de leis favorecendo divórcio e aborto, por uma escola do Estado que produz permanentemente novos cidadãos “democratas” impregnados até a medula de idéias maçônicas e iluministas etc., e pouco se importando – senão, como seria um Estado leigo? – com os apelos e as lamentações estéreis e contraditórias dos “papas conciliares” em matéria de contracepção, divórcio, aborto, homossexualidade, manipulações genéticas, eutanásia, liberação da droga...

A audácia chegou ao auge, entretanto, quando os redatores de Dignitatis Humanae, na introdução (que Paulo VI mandou acrescentar para tentar tranquilizar os que se opunham a esse texto), na qual se assegurava que a Declaração “não traz nenhum prejuízo à doutrina católica tradicional sobre o dever moral do homem e das associações a respeito da verdadeira religião e da única Igreja de Cristo”.9 Basta, ao contrário, ler os documentos da Santa Sé sobre este assunto, de Gregório XVI a Pio XII – sem falar dos mais antigos – para perceber exatamente o contrário: todos os Papas precedentes condenam o que Paulo VI e os “Padres do Vaticano II” aprovam e vice-versa.

 

Gaudium et Spes

Na Constituição pastoral Gaudium et Spes sobre o mundo contemporâneo, os padres conciliares anunciaram ao mundo que “... o Concílio se propõe antes de tudo a julgar nessa luz os valores mais considerados por nossos contemporâneos e ligá-los a sua fonte divina. Pois estes valores, na medida em que procedem do engenho humano, que é um dom de Deus, são muito bons; mas não é raro que a corrupção do coração humano os afaste da ordem desejada: é por isso que eles necessitam ser purificados”.10

Esses famosos “valores considerados por nossos contemporâneos” e que constituem a base ideológica da Gaudium et Spes, não são outra coisa senão a liberdade, a igualdade e a fraternidade (o tríptico da Revolução maçônica francesa de 1789), das quais o documento conciliar tratou de modo difuso. Gaudium et Spes é, em suma, o documento oficial exprimindo a vontade dos homens do Vaticano II de se reconciliar com as Revoluções de 1776 (Estados Unidos) e de 1789 (França), promotoras destes pseudo “valores”. A obra de decantação do espírito anticristão – larvado ou virulento – que os regenerasse (a “purificação” evocada acima) permitiria, segundo os relatores da Gaudium et Spes, a sua introdução na doutrina e na práxis da Igreja: esta se reconciliaria plenamente com o “mundo moderno” neopagão, nascido precisamente destas Revoluções e impregnado destes “valores”.

Infelizmente para os “Padres conciliares”, diante destas admiráveis perspectivas de pacificação e de fraternidade universal erigidas sobre bases naturalistas e, portanto, maçônicas, se armavam as barreiras das múltiplas condenações dos Soberanos Pontífices contra o espírito da Revolução, matriz dos “valores” em questão, dos quais os papas tinham demonstrado que eles eram inseparáveis. Eis, por exemplo, as palavras claras e precisas com que o Papa Bento XV tinha condenado as “novas idéias” da Revolução francesa, tão caras aos “padres do Vaticano II”:

“Depois dos três primeiros séculos desde as origens da Igreja, ao longo dos quais o sangue dos cristãos fecundou toda a terra, pode-se dizer que jamais a Igreja correu perigo semelhante a este que se manifestou no fim do século dezoito, ocasião em que uma filosofia em delírio, prolongamento da heresia e da apostasia dos Inovadores, adquiriu sobre os espíritos um poder universal de sedução e provocou um abalo profundo, com o propósito determinado de fazer ruir os fundamentos cristãos da sociedade, não somente na França, mas pouco a pouco em todas as nações”.11

Antes dele, São Pio X tinha afirmado sem possibilidade de equívoco:

“Nosso cargo apostólico nos impõe velar sobre a pureza da fé e sobre a integridade da disciplina católica, de preservar os fiéis dos perigos do erro e do mal, sobretudo quando o erro e o mal lhes são apresentados numa linguagem fascinante, que, dissimulando o caráter vago das idéias e o equívoco das expressões sob o ardor do sentimento e da sonoridade das palavras, pode inflamar os corações por ideais sedutores, mas funestos. Tais foram em tempos recentes as doutrinas dos pretensos filósofos do século dezoito, as da Revolução e do liberalismo, tantas vezes condenadas”.12

Mas, para os “novos teólogos” autores da Gaudium et Spes (entre os quais figurava infelizmente também o Padre conciliar Karol Wojtyla), tudo isso não passava de uma “doutrina velha” da Igreja do passado, ainda fechada em seu “dogmatismo” arcaico, e que devia de agora em diante dar lugar à nova Igreja conciliar, pronta a fazer as pazes com todos os inimigos de Deus.

O espírito naturalista e antropocêntrico da Revolução que invadiu a Gaudium et Spes emerge, em uma leitura atenta, em diversas passagens do documento, apesar de mergulhado no habitual contexto “tranquilizador”, aparentemente ainda católico.

Este espírito não católico, antropocêntrico, se nota, por exemplo – simples ponta de um iceberg – na afirmação ambígua segundo a qual “crentes e não crentes estão geralmente de acordo sobre este ponto: tudo sobre a terra deve estar ordenado para o homem, seu centro e seu cume”.13 Ou ainda quando se procurava fazer crer que o homem é “a única criatura sobre a terra que Deus quis por si mesma”14, contra o ensinamento da Revelação, pela qual Deus criou tudo para Si15, pois o fim último de toda criatura é Deus e não o homem.

Gaudium et Spes se apresentava em suma como um documento que, apesar das habituais precauções adotadas pelos redatores, queria evidentemente romper com o ensinamento da Igreja e negar as condenações dos Soberanos Pontífices contra o mundo moderno, isto é, contra o pensamento moderno que quer substituir Deus pelo homem. De resto, o “novo teólogo” Joseph Ratzinger admitia isso francamente: “Se se procura um diagnóstico global do texto [Gaudium et Spes – n.d.r], poder-se-ia dizer que ele é (ligado como os textos sobre a liberdade religiosa e sobre as religiões do mundo) uma revisão do Syllabus de Pio IX, uma espécie de contra-Syllabus [...]. Contentemo-nos com a constatação de que o texto desempenha o papel de um contra-Syllabus na medida em que representa uma tentativa de reconciliação oficial com o mundo tal como ele se tornou desde 1789”.16

É difícil compreender com que lógica Paulo VI pôde depois falar da “abertura ao mundo” programada pelo Vaticano II como de “uma verdadeira invasão do pensamento mundano na Igreja”17, lamentando-se da presença da “fumaça de Satanás” no “Templo de Deus”.18

 

Lumen Gentium, c. 3

No capítulo 3, no. 22 da Lumen Gentium, aparecem os resultados evidentes do esforço titânico dos novos modernistas para atacar o Primado jurisdicional do Soberano Pontífice.

A ala liberal modernista do Concílio conseguiu comprometer o dogma do Primado papal de jurisdição graças à introdução da noção de “colegialidade episcopal”, que implica a necessidade de um governo colegial da Igreja: o Papa dividiria o poder de agora em diante com os bispos, praticamente em igualdade com eles, reduzindo seu Primado a um simples primado de honra (como “Primus inter pares”, primeiro entre os iguais)

Aqui também o intuito “ecumênico” dos conjurados é claro: uma vez eliminado o Primado de jurisdição (isto é, de governo) do Papa, a Igreja católica se tornaria finalmente aceitável por aqueles – ortodoxos e protestantes – que não queriam e não querem reconhecer a autoridade suprema do Vigário de Cristo. Mas tal Igreja—e isso é evidente para todo mundo, a não ser para os “Padres do Vaticano II” – não seria mais aquela que Nosso Senhor Jesus Cristo fundou sobre Pedro e seus sucessores, apesar de que, para falar como Pio XII, tudo teria sido “unificado, mas para a ruína”.19

A reação de um grupo de cardeais e de bispos do Coetus Internationalis Patrum conseguiu parcialmente abrandar o golpe e convencer Paulo VI a precisar o sentido do texto – afastando a interpretação abertamente democrática proposta pelos neo-modernistas – pelo acréscimo de uma Nota explicativa praevia que, entretanto, num estilo montiniano clássico, deixava intacto o texto do documento.20

Assim se conseguiu evitar o pior, ao menos por curto tempo, mas o abalo tinha sido forte demais e os primeiros desabamentos começaram a se manifestar com rapidez.

Se é verdade que a ala progressista do Concílio não chegou a obter a capitulação completa do Papado (difícil demais de obter de improviso sem uma lavagem cerebral prévia e progressiva dos fiéis), conseguiu, entretanto, plantar sólidas premissas para isso, começando a introduzir na Igreja o vírus da democracia, da assembléia e do Sínodo (concretizado logo depois no parlamentarismo do Sínodo dos bispos, das Conferências episcopais, dos diversos Conselhos – presbiteriais, pastorais etc.) que mais tarde explodiram no pós-Concílio. Se bem que a proposta feita pelo próprio João Paulo II (!) de mudar o modo de exercício do Primado papal e, portanto, de aniquilá-lo na prática – ainda que, como costuma ocorrer, por vias alternativas e em etapas progressivas – para agradar aos habituais heréticos impenitentes e irredutíveis (cf. Encíclica Ut unum sint), não constitua outra coisa senão o fruto quase maduro desta colegialidade herética.

 

A confissão de Paulo VI: o discurso de encerramento do Vaticano II

Ainda que não se trate de um documento conciliar no sentido estrito, é interessante trazer algumas passagens realmente significativas da homilia pronunciada por Paulo VI por ocasião do encerramento do seu Concílio¸em sete de dezembro de 1965.

Feliz com os resultados obtidos, Paulo VI se deixou levar a confissões que, pondo em relevo o espírito não católico no qual os trabalhos conciliares tinham sido conduzidos, deveriam ser suficientes para abrir os olhos de bastante gente. “O humanismo laico profano – exclamou Paulo VI – apareceu enfim com sua verdadeira estatura e, num certo sentido, desafiou o Concílio. A religião do Deus que se fez homem se encontrou com a religião (porque é uma religião) do homem que se fez Deus. O que aconteceu? Um choque, uma luta, um anátema? Tudo isso poderia ter acontecido, mas não aconteceu [...] Reconheçam ao menos este mérito, vós humanistas modernos, que renunciai a transcendência das coisas supremas, e sabei reconhecer nosso humanismo: nós também, nós mais do que qualquer outro, nós temos o culto do homem.”

Um discurso completamente nas antípodas do grito do Apóstolo dos Gentios, que exclamou: “Se alguém não ama o Senhor, que seja anátema”21, não hesitando em pôr os fiéis em guarda contra o “filho da perdição”, o Anticristo que, no meio da apostasia geral, se oporá e elevará “acima de tudo que se chama Deus ou objeto de culto até a se sentar em pessoa no Templo de Deus, se tornando a si mesmo por Deus”22 Mas eis, ao contrário, que Paulo VI se apresenta com seu Vaticano II que, em vez de lançar o anátema contra o humanismo moderno (isto é, contra a “religião do homem que se faz Deus” como o Anticristo), o abraça fraternalmente. Não mais excomunhões, não mais Syllabus – triste herança dos sombrios tempos pré-conciliares – mas uma união híbrida e sacrílega entre o catolicismo e o mundo anticristão, entre a Igreja e as ideias da Revolução.

Não era difícil prever o que aconteceria: derrubadas as muralhas que separam a Igreja do mundo, isto é, as barreiras entre a Verdade e o erro, e entre o bem e o mal, o rebanho se dispersaria. Os Papas “conciliares”, enganados por uma falsa teologia e pelos complôs dos inimigos jurados da Igreja, se transformariam paulatinamente em capelães da Nova Ordem Mundial maçônica, novos Pontífices de uma super igreja ecumênica e liberal, reduzida a uma simples fachada, lugar de reencontro de todas as religiões. A paz sobrenatural prometida por Jesus Cristo a seus fiéis se transformaria em uma paz completamente terrestre para unir todos os povos na apostasia, da qual o encontro inter-religioso de oração em Assis, em 1986, não passou de um primeiro sinal.

 

(Continua)

  1. 1. DH no. 2/a.
  2. 2. DH no. 2/b.
  3. 3. Encíclica Immortale Dei.
  4. 4. Alocação Ci riesce, 6 de dezembro de 1953.
  5. 5. DH no. 3/d.
  6. 6. DH no. 3/e.
  7. 7. DH no. 6/d.
  8. 8. DH no. 3 e no. 7/c.
  9. 9. DH no. 1/d.
  10. 10. GS no. 11/b.
  11. 11. Carta Anno iam exeunte, 7 de março de 1917.
  12. 12. Nosso cargo apostólico – carta sobre “O Sillon”, 25 de agosto de 1910.
  13. 13. GS no. 12/a.
  14. 14. GS no. 24/d.
  15. 15. Col 1, 16.
  16. 16. J. Ratzinger, Les príncipes de la théologie catholique, ed. Téqui, 1982, pág. 426.
  17. 17. 23 de novembro de 1973.
  18. 18. 30 de junho de 1972.
  19. 19. Humani Generis.
  20. 20. Paulo VI adotará mais tarde a mesma tática “dupla face” em relação ao Novo catecismo holandês herético dos anos 70
  21. 21. 1Cor 16, 22.
  22. 22. 2Ts 2, 3-4.

Breve crônica da ocupação neo-modernista da Igreja

Breve crônica da ocupação neo-modernista na Igreja Católica

   

Preâmbulo

Eis que há quatro décadas o mundo católico assiste a uma série aparentemente sem fim de mudanças na Igreja.

Como se estivessem em um estranho espetáculo pirotécnico eclesiástico, os católicos viram numerosas verdades de Fé se desfazerem, umas após as outras, de modo mais ou menos direto, nos fogos de artifício inventados por uma Hierarquia e um clero cada vez mais inspirado pelo aggiornamento conciliar, aberto a todas as correntes de pensamento, e pronto para trocar a verdade revelada pela miragem de um falso ecumenismo e de uma falsa paz mundial.

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