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Paramentos brancos
Em 1° de novembro de 1950, o Santo Padre Pio XII definiu o dogma da Assunção da SS. Virgem Maria. Proclamava assim solenemente que a crença segundo a qual Maria, ao fim da sua vida terrestre, foi levada em corpo e alma à glória do Céu, faz realmente parte do depósito da fé, recebido dos Apóstolos. “Bendita entre as mulheres”, em razão da sua maternidade divina, a Virgem Imaculada, que desde a sua concepção, tivera o privilégio de ser isenta do pecado original, não devia conhecer a corrupção do túmulo. Para evitar qualquer dado impreciso, o Papa absteve-se inteiramente de determinar o modo e as circunstâncias de tempo e de lugar em que a Assunção deveria ter-se realizado: somente o fato da Assunção, em corpo e alma, à glória do Céu, constitui o objeto da definição.
Também a Missa, publicada pela S. Congregação dos Ritos na mesma data, se contenta em pôr em evidência a Assunção em si mesma com as suas conveniências teológicas. Ela vê Maria glorificada na Mulher descrita no Apocalipse (Intróito), na Filha do Rei vestida com um manto de ouro do Salmo 44 (Gradual), na Mulher que, com seu Filho, será a inimiga vitoriosa do demônio, do Gênesis (Ofertório). Aplica-lhe os louvores cantados a Judite triunfante (Epístola), e, sobretudo, vê na Assunção o coroamento de todas as glórias que procedem da maternidade divina e que Maria cantou ela mesma no seu Magnificat (Evangelho). As orações fazem-nos pedir a Deus a graça de podermos, como a SS. Virgem, estar continuamente voltados para as coisas do alto, esperar a ressurreição feliz e partilhar da sua glória no Céu.
Na Liturgia encontra-se o culto da Assunção desde o século VI no Oriente. Em Jerusalém, comportava uma procissão ao túmulo da Virgem. Esta procissão estendeu-se a Constantinopla. Em Roma, do século VII ao XVI constituía uma das “procissões de ladainhas” e tinha lugar na Basílica de Santa Maria Maior.
Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.
Gustavo Corção
Num de seus mais belos livros, The Everlasting Man, que o editor com toda a razão diz ser "more thrilling than any novel", Chesterton, no apogeu de seu gênio rutilante e explosivo, deixou-nos um acervo de idéias onde cada uma parece responder com suas cintilações à soma de espantosos disparates e tolices com que o mundo, sai século, entra século, pretende empoeirar, esconder ou destruir o Cristianismo. Com sobeja razão disse desse livro um crítico: "É um poderoso e belo livro. Para realizá-lo assim, formoso e poderoso, o poeta e o soldado em Mr. Chesterton se coligaram, e juntos conseguiram dar-lhe as cores, a fúria e a fé romântica das cruzadas."
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Uma das tolices de todos os tempos que tentou atravessar-se no caminho do poeta-soldado e cruzado foi a que hoje tem calorosa acolhida no mundo católico, e especialmente nas casas religiosas que, por isso mesmo, deixaram de ser religiosas. Eu a definiria assim: idéia da não singularidade do cristianismo. E Chesterton a derruba num só golpe: "aqueles que vêem Cristo lado a lado com outros mitos similares, e sua religião lado a lado com outras religiões, estão apenas repetindo desgastadas e sujas fórmulas que são desmentidas pela fulgurante evidência dos fatos."
Em outro lugar Chesterton retoma esta idéia que anima toda a sua estratégia apologética: "escrevi este livro apenas para mostrar que o Cristianismo, surgido em certa altura da história, tem todas as características de uma coisa única. Não se parecia com nenhuma outra coisa; e quanto mais o estudamos menos se parece ele como outras coisas". No sentido mais absoluto do termo, o cristianismo foi uma coisa nova na história; é a única coisa nova, não apenas no seu surgimento histórico mas em cada momento em que o considerarmos.
Em torno de mim, no meu escritório, estão os objetos familiares, os livros amados e os livros detestados, as cartas lidas e ainda não respondidas. E diante de mim a mesa desarrumada dá-me boa imagem das coisas velhas que seguem a lei da matéria, a lei do envelhecimento. Se me adornarem a jarra com uma rosa insolentemente jovem e formosa, ainda assim já advinho atrás da seiva a corrupção e atrás do viço o desbote. Tudo em torno de nós envelhece irresistivelmente. Sobre todas as coisas desce a névoa crepuscular de um desgaste universal. A grande e bela criação de Deus segue sua sorte de criatura sujeita a todas as vicissitudes. Mas suas abóbadas fechadas sobre si mesmas, economicas, zelosas de suas causas segundas, de seus ciclos e epiciclos, um dia foram atravessadas, e um dardo de luz trouxe a esta criação a notícia de uma nova criação e o anunciador desta boa-nova é o Verbo Divino que se encarnou para nossa salvação e que estará sempre entre nós, na sua Igreja, no meio de nós como o Novo absoluto e perpétuo que levou São Paulo a exclamar, ébrio de graça divina: quem está em Cristo e torna nova criatura... Vede! tudo é novo! (2Cor 5, 17).
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A leitura, mesmo distraída, do Antigo Testamento revelará a chave, o segredo que troveja pela voz dos profetas, e que grava nas pedras: Ele é Um, e não admite outros deuses diante de sua Face. Mas é no Novo Testamento que eclode, explode, o Novo absoluto, o Novo eterno; mas também é aqui que, por um paradoxo da Encarnação, se torna mais velada a face de Deus. A Trindade é, sem dúvida alguma, o mais majestoso, o mais profundo dos mistérios; mas a Encarnação é o mais perturbador, o que mais induziu a heresias e erros que, no fundo, querem sempre a mesma coisa: reduzir o Cristianismo a um humanismo. Jesus passou três anos a ensinar que o cristianismo não é um humanismo. Todas as suas respostas tem sempre o mesmo cunho de quem não aceita o plano e os termos em que é feita a pergunta. Ao longo de vinte séculos a história do cristianismo oscila sempre entre dois acervos, dois modos de capitalizar e de guardar o tesouro das palavras de Cristo. De um lado está o cabedal de sabedoria e de santidade guardada no seio, no interior, no lado de dentro da Igreja, e de outro lado estão todas as tentativas feitas, no exterior da Igreja, por homens que se julgavam tanto mais eclesiais quanto originais.
A tendência natural do homem, o peso do corpo e as feridas da alma levam-no sempre a querer fazer do cristianismo um humanismo, e do candente amor de Deus uma filantropia.
Quando os homens, num relance, desconfiam da absoluta e insólita novidade do cristianismo, duas reações opostas e violentas podem surgir: a violência de um vislumbre de amor divino precipita a alma agradecida e maravilhada, no meio da Igreja, in medio Ecclesia; a outra violência, ditada ao orgulho por Satã, fará dessa alma um rebelde que sairá pelo mundo a anunciar que o cristianismo é não somente um humanismo, mas também, e sobretudo, um humanismo ávido de cooperar com o desumanismo que não admite sequer o Nome de Deus, nem admite que seus membros humanos queiram ser especificamente humanos.
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Pensando na explosão de imbecilidade que encheu nosso século graças aos tão festejados meios de comunicação, repassando na memória as frases infinitamente tolas que foram pronunciadas dentro do chamado catolicismo "progressista", vêm-me à memória, irresistivelmente, as palavras com que Jesus diz que não foi para dirimir estas questões que Ele nasceu de Maria Virgem, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi morto e crucificado. Através dos abismos ouço esta resposta de Jesus aos desajustes humanos: "Homem, quem me constituiu juiz ou partidor entre vós outros?" (Lc 12,13).
(O Globo, 12-8-71)
Pe. Juan Carlos Iscara, FSSPX
A Lei natural é, de acordo com Santo Tomás, nada mais que a participação da criatura racional na Lei eterna. Portanto, devemos começar pela noção de Lei eterna. Santo Tomás explica que ela é o plano da sabedoria divina por meio do qual Deus direciona todas as ações e movimentos das criaturas visando o bem comum de todo o universo.
A Lei natural é a mesma Lei eterna conhecida pelo homem através da razão natural.
Deus conhece e ordena, desde a eternidade, o que é conveniente e proporcionado à razão natural; e essa ordenação existente na mente divina é chamada de ou constitui a Lei eterna. Ao criar o homem, Deus imprimiu essa ordenação em sua própria natureza; portanto, simplesmente por ter nascido, todo homem está sujeito a essa Lei. Essa participação na Lei eterna, ou a ordem moral constituída por Deus, é a Lei natural objetivamente considerada.
Quando o homem atinge a idade da razão, conhece ao menos os princípios básicos da Lei natural (p.ex., deve-se praticar o bem e evitar o mal) como algo que tem obrigação de cumprir, e essa participação na Lei eterna é a Lei natural subjetivamente considerada.
A Lei natural recebe esse nome por duas razões. Primeiro, porque abrange apenas os preceitos que são deduzidos da própria natureza do homem. É por isso que ela obriga todos os homens sem exceção, e obrigaria da mesma maneira ainda que o homem não tivesse sido elevado por Deus à ordem sobrenatural. Segundo, porque pode ser conhecida diretamente pelas luzes da razão natural, sem necessidade de fé divina ou ensinamento humano.
Negada pelos ateístas, materialistas, panteístas etc, a existência da Lei natural é, porém, uma verdade inegável que pode ser provada mesmo pelas evidências.
Está dito claramente na Sagrada Escritura:
Com efeito, quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, a si mesmos servem de lei e mostram que o que a lei ordena está escrito nos seus corações, dando-lhes testemunho a sua própria consciência e os pensamentos de dentro que os acusam, se fizerem o mal, ou também os defendem, se fizerem o bem. Isto ver-se-á naquele dia em que Deus, segundo o meu Evangelho, há de julgar as coisas ocultas dos homens por meio de Jesus Cristo. (Rom 2, 14-16)
Além disso, o testemunho da própria consciência dita a todos os homens, de maneira clara e irresistível, que é necessário praticar o bem e evitar o mal; que há ações que são más em si mesmas (p.ex., matar um inocente), e outras que são boas ainda que não sejam ordenadas por nenhuma Lei humana (p.ex., honrar pai e mãe). Por essa razão, quando esses claros preceitos da Lei natural são violados, o homem sente arrependimento e vergonha; e, de modo contrário, seu fiel cumprimento o enche de alegria e paz.
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Loud mockers in the roaring street
Say Christ is crucified again;
Twice pierced His gospel-bearing feet,
Twice broken His great heart in vain.
I hear, and to myself I smile,
For Christ talks with me all the while.
No angel now to roll the stone
From His unawaking sleep,
In vain shall Mary watch alone,
In vain the soldiers vigil keep.
Yet while they deem my Lord is dead
My eyes are on His shining head.
Ah! never more shall Mary hear
That voice exceeding sweet and low
Within the garden calling clear:
Her Lord is gone, and she must go.
Yet all the while my Lord I meet
In every London lane and street.
Poor Lazarus shall wait in vain,
And Bartimaeus still go blind;
The heeling hem shall ne’er again
Be touch’d by suffering humankind.
Yet all the while I see them rest,
The poor and outcast, on His breast.
No more unto the stubborn heart
With gentle knocking shall He plead,
No more the mystic pity start,
For Christ twice dead is dead indeed.
So in the street I hear men say:
Yet Christ is with me all the day.
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Trocistas, alta a voz, na zoeira da rua,
De Cristo vão pregoando a nova imolação:
Seus pés de evangelista imóveis contra a crua
Madeira; e o nobre peito alanceado em vão.
Ouço-os falar, sorrio, e, em silêncio, prossigo,
Pois Cristo, sem cessar, vai falando comigo.
Anjo algum haverá que a pedra role e à cena
Convoque-O desta vida em seu sono sem fundo.
Ao pé da tumba, em vão, quedará a Madalena,
Em vão a guarda vã dos grandes deste mundo.
No entanto, enquanto crêem que meu Senhor jaz morto,
Na face esplandecente os olhos fito, absorto.
Outra vez, no jardim, não ouvirá Maria
Mais doce e grave voz que a voz de outro qualquer
Seu nome proferir tão clara como o dia:
Partido seu Senhor, também parta a mulher.
No entanto, a meu Senhor, sem cessar e em verdade,
Vislumbro em cada rua e viela da cidade.
Lázaro, morto, em vão há de esperá-Lo; em vão
Uma pouca de luz Bartimeu pedirá.
E a túnica que, outrora, os enfermos com a mão
Tocavam, por guarir, nunca mais guarirá.
No entanto, sem cessar, pobres vejo e os sem porto
A seu peito acorrer em busca de conforto.
Não mais Ele há de vir à porta, suavemente,
Bater dos corações empedernidos, nem
À mística piedade induzir corpo e mente:
Que Cristo morto está não duvide ninguém.
Isto é o que ouço, na rua, a gente proclamar;
No entanto, ao lado meu, vai Cristo a caminhar.
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(Revista Permanência 285. Tradução de Sergio Pachá)
“Ephpheta! — Abra-te! ” (Evangelho).
Paramentos verdes
Separado das doze tribos do Norte, apenas morto Salomão, o reino de Judá durou 350 anos e contou 20 monarcas. Muitos de entre eles foram ímpios e maus, tendo alguns, como Salomão, acabado no pecado. Quatro, no entanto, distinguiram-se na virtude e nas armas e mereceram ser colocados pela veneração do povo na galeria dos varões ilustres de Israel. Ezequias, de que nos fala hoje o Breviário: “Confiou no Senhor, Deus de Israel, e não teve semelhante nos reis de Judá. Por isso, Deus foi sempre com ele”. Quando Senacarib, rei dos assírios se quis apoderar de Jerusalém, Ezequias subiu ao templo e orou com tanto fervor como teriam orado Davi e Salomão. Mandou-lhe então o Senhor o Profeta Isaías para lhe anunciar que não temesse. E, com efeito, o anjo exterminador de Jeová feriu de peste 185.000 assírios e Senacarib teve de voltar, a marchas forçadas, para Nínive. Alguns anos mais tarde, caíra o rei doente e Isaías anunciara-lhe que tinha chegado ao fim dos seus dias. Temeu então Ezequias que Senacarib se aproveitasse da sua morte para desforrar-se da derrota e cercar Jerusalém e pediu ao Senhor que lhe prolongasse a vida. Mais uma vez o Senhor o ouviu, como assevera a Escritura: “Ouvi a tua oração e vi as tuas lágrimas e curar-te-ei e subirás ao Templo no terceiro dia”. O rei convalesceu, com efeito, e Jerusalém foi libertada do terror dos inimigos. Ezequias, prostrado no leito e levantando-se três dias depois para defender o reino, é figura da morte e da ressurreição do Senhor. Este pensamento domina toda a Missa. O Intróito proclama a vitória do povo de Deus e a fuga dos inimigos. Na Epístola, insiste S. Paulo na ressurreição de Cristo, fundamento e garantia da nossa predestinação. No Evangelho, finalmente, a cura do surdo-mudo com o Ephpheta que o Senhor pronunciou e a Igreja aplicou sabiamente no rito do Batismo, recorda-nos que, passados da morte para a vida, ficamos daí em diante também “abertos” às coisas da fé. E podemos dizer que a escolha para o Ofertório de um versículo do Salmo 29 aplicado pela tradição da Igreja à Ressurreição e Ascensão do Senhor foi inspirada pela mesma ordem de ideias. De modo que a Missa de hoje apresenta-se-nos numa espécie de tríptico. No primeiro plano, destaca-se a figura de Cristo ressurgindo glorioso do sepulcro; no painel da esquerda, Ezequias prostrado pela doença e curado por Deus; à direita os frutos da vitória de Cristo aplicados ao povo pelo Batismo.
É, pois, um programa de vida magnífico. Oxalá o ponhamos em prática para vivermos com Cristo a vida nova a que fomos chamados pela fé.
Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.
Gustavo Corção
Se nós tivéssemos de discutir com o Senhor a salvação de nossa cidade, como se vê no capítulo dezoito do Gênese que Abraão o fez para a defesa de Sodoma, deveríamos deter o regateio da misericórdia na condicional existência de uns quinhentos justos. Se Sodoma precisava de dez, nossa gloriosa e populosa cidade precisará cinquenta vezes mais. Digamos quinhentos.
Tomando o termo no sentido sobrenatural, como convém às passagens da Sagrada Escritura, e procurando-os entre os pobres, os oprimidos, as criadas de servir, os religiosos, os simples, facilmente apresentaríamos a Deus, creio eu, os quinhentos ou mais justos que obscuramente, na invisível comunhão, afastam de nós o fogo dos céus. Mas se transpusermos o problema da ordem sagrada para a profana, e se quisermos achar quinhentos homens de bem entre os que visível e oficialmente respondem pelas vigas das instituições e pelo arcabouço temporal da República, então veremos, com profunda apreensão, que nem a décima parte conseguiríamos reunir. Homens bons, graças a Deus, conheço muitos; mas homens públicos honestos, creio que não conheço cinquenta. Conhecerei quarenta? Trinta? Vinte? Ah! Se tivesse a certeza de poder contar dez!
Antes de continuar devo definir o que entendo por honesto e o que entendo por homem público honesto. O termo honesto, no tempo de Cícero, tinha uma austera significação que se estendia por toda a ordem moral. “Ita fit, ut, quod bonum sit, id etiam honestum sit”. Das letras clássicas o termo ingressou no vocabulário da filosofia escolástica para significar aquilo que é moralmente bom e que se distingue do bom deleitoso e do útil. Com o advento da moral burguesa, que sabidamente é uma regra de exterioridades, o termo entrou na linguagem comum com uma significação diferente. Ou melhor, com duas significações. Para homens: honesto é o que não tira o dinheiro do bolso do outro diretamente com a mão; e o que não se descuida de pagar suas contas em dia certo. Para Senhoras: honesta é a excelentíssima senhora que não dorme com homem que não seja o seu marido. Note, porém, o leitor, que o homem, nessa nova acepção do termo, pode dormir com uma senhora, que não seja exatamente aquela a que o ligaram os doces laços do himeneu, sem deixar de ser honesto. E a senhora pode enganar a cozinheira na conta dos dias, sem se tornar desonesta.
Com tal definição, que aliás, ao que parece, já é considerada rigorosa demais, poderíamos congregar algumas dúzias de justos. Mas voltemos à significação clássica, e procuremos o que quer dizer dirigente honesto, homem público honesto, nesse esquecido vocabulário. A função pública se define pela promoção do bem-comum. A obrigação moral do homem com cargo público se orienta por esse critério, e sua honestidade consistirá em jamais antepor seu interesse ao interesse público no exercício da função. Para ser honesto, dentro desta definição, não basta não roubar nem deixar que outros roubem: é preciso também não empregar os filhos recém-diplomados em lugares excelentes e com vencimentos de veterano; é preciso não transformar o poder em prestígio; é preciso que o cargo seja cargo e não carga para os outros; é preciso espírito de sacrifício, desapego, e fervor na defesa do interesse público. Tudo isto, aliás, costuma ser dito nos discursos de posse e nas inaugurações. Só não costuma aparecer no lugar próprio, isto é, nos atos dos homens públicos.
Pondere agora o leitor, e conte pelos dedos os homens honestos que conhece. Verá que são poucos, muito poucos. Mas não desanimemos. Nem imaginemos que as coisas do Brasil só andarão razoavelmente quando todos os titulados forem homens de grande estatura. A história dos dez justos de Sodoma aplica-se bem à ordem temporal, à política, para ensinar que sempre serão poucos os defensores e fiadores de muitos. A famosa frase de Churchill, relativa à defesa de Londres pelos aviadores da RAF, tem a mesma significação. Apenas, onde ele diz nunca eu diria sempre. Sempre será assim: muitos devendo muito a muito poucos. A excelência é rara, a bondade é difícil, mas em compensação é difusiva. Custa a aparecer, mas quando aparece tem força de cristalizar, de polarizar, e de melhorar milhares de pessoas menores, mais pusilânimes, que só precisavam de um exemplo, de um impulso, para produzirem atos bons. Há sem dúvida muita maldade no mundo, como se vê agora em Alagoas, onde parece que o demônio firmou residência; mas o que mais há no mundo é mediocridade, tolhimento, pequenez, burrice, chatice. No amago do mais encolhido coração sempre haverá, entretanto, uma nostalgia de bondade e até um secreto desejo de heroísmo. E por isso, basta aparecer um homem bom para que os homens melhorem, basta aparecer um ato honesto, uma explosão de generosidade, para que todos tenham ao menos um pequeno movimento voltado para o bem de todos. O mal é contagioso, mas o bem é difusivo e explosivo.
(O Globo, 17/02/57)
Pe. Dominique Bourmaud, FSSPX
Foi em 1853 que se inaugurou o Seminário Francês em Roma, tanto para elevar o nível intelectual e espiritual do clero quanto para promover o movimento ultramontano de adesão a Roma. Foi o Papa Pio IX que o aprovou em 1859, confiando-o perpetuamente à Congregação do Espírito Santo. A orientação romana e o favorecimento papal foram coroados em 1902 com sua conversão em Instituto de Direito Pontifício.
O Pe. Henri Le Floch (1862-1950) foi seu Reitor de 1904 a 1927. Nascido em 1862, natural da diocese de Quimper, formado pelos Padres espiritanos desde 1878 e ordenado sacerdote em 1886, atuou primeiro como professor de Seminário, depois como Diretor do Colégio de Beauvais em 1895, Superior do Escolasticado de Chevilly em 1900 e finalmente Reitor do Seminário Francês em Roma a partir de setembro de 1904. Conhecido por não ter qualquer envolvimento político, opunha-se fortemente, todavia, ao laicismo militante presente na França da época.
Durante seus 23 anos como Reitor, fortaleceu o Seminário, anteriormente desmoralizado por falta de liderança, aumentando o número de seminaristas de 100 para 209, ampliou os prédios, renovou a equipe e adotou a postura anti-modernista de São Pio X. Amigo de outras figuras anti-modernistas, adquiriu com o tempo uma posição de considerável importância em Roma como consultor de várias Congregações romanas, incluindo o Santo Ofício, o que lhe deu considerável influência sobre a escolha de bispos franceses.
Dom Marcel Lefebvre o conheceu em outubro de 1923 ao entrar no Seminário Romano. O Padre Superior havia reunido os seminaristas para lhes dar sua primeira palestra espiritual do ano. Aos 61 anos, Pe. Henri Le Floch já caminhava para o ocaso quanto à idade, mas não quanto a suas faculdades intelectuais. De estatura alta e exalando confiança, lembrava uma árvore frondosa na exuberância de sua plena maturidade. Pele corada e rosto largo, no qual as proeminentes sobrancelhas contrastavam com a finura de seu nariz e lábios, portava-se com nobre dignidade, trazendo um aspecto de firmeza em seus olhos azuis acinzentados. Sua natural seriedade era aliviada por um ar de bondade e um sorriso discreto, ainda que prontamente exibido. Deu sua palestra sem demonstrar qualquer afetação; era a dignidade e a afabilidade em pessoa. Além disso, havia ali uma mistura de extrema auto-confiança e total esquecimento de si mesmo: um servo da Igreja, um homem de doutrina verdadeira e católica. Obviamente era um teólogo, mas seu espírito, intuitivo e inquieto, alcançava grandes alturas sem ter de passar por todos os níveis do argumento teológico. Não que ele desprezasse a teologia como uma ciência racional, mas, em última análise, quase nunca a usava dessa maneira. Sua firmeza na Fé vinha acompanhada por uma profunda compreensão dos mais frutuosos conceitos teológicos.
“Eu sofria por não ver o reino de Deus estabelecido onde deveria estar.” O reino de Deus, diz São Gregório, é freqüentemente entendido na linguagem sacra como “a Igreja do tempo presente”. Pe. Le Floch admitia sofrer por isso, algo que o acompanhou por toda a vida. Mas enquanto era capaz de agir, enquanto podia combater, ele não apenas sofreu: agiu, lutou por essa causa, a única pela qual valia a pena consagrar seus esforços, sem poupar nada para si, tudo entregando pelo reino da Igreja. A Igreja é o único meio de salvação, mas não o entendamos apenas com referência à salvação eterna. Pe. Le Floch o entendia também em relação à salvação temporal. A Igreja é o único órgão autorizado da Revelação divina e possui o depósito das verdades que o Pai quis que conhecêssemos ao falar por meio de Seu Filho.
“O único homem pleno é o cristão…” O homem, tendo sido criado para ser cristão, não o sendo, não terá alcançado a plenitude de sua humanidade. Isso porque os valores humanos em si mesmos, a partir do pecado original, só podem ser plenamente acessíveis a todos, sem mistura de erro, no contexto dos valores cristãos e com a modificação interna operada por estes. Nem tudo isso é dogma, mas teologia certa, vigorosa e invencível, diante da qual cabe perguntar como o liberalismo pode se sustentar por um momento que seja na mente de um cristão, que não deve considerar nada tão precioso quanto a glória da Igreja. O erro do liberalismo consiste em pensar que, na presente ordem da sociedade humana, podemos abandonar a realidade da soberania da Igreja desde que a mantenhamos como um ideal, ainda que irrealista.
O jovem seminarista Lefebvre escreveu: “Dei-me conta de que, de fato, eu tinha um punhado de idéias erradas. Estava muito satisfeito por aprender a verdade, feliz em saber que estava errado, que tinha de mudar minha forma de pensar sobre certas coisas, especialmente ao estudar as encíclicas dos papas, que nos mostravam todos os erros modernos; aquelas encíclicas magníficas de todos os papas até São Pio X e Pio XI. Para mim foi uma completa revelação. Foi assim que nasceu silenciosamente em nós o desejo de conformar nosso juízo ao dos papas. Costumávamos dizer entre nós: Mas como os papas julgavam esses eventos, idéias, homens, coisas e épocas?”
Para Dom Marcel Lefebvre, “o Pe. Le Floch fez-nos entrar e viver na história da Igreja, nessa luta que os poderes perversos travam contra Nosso Senhor. Fomos mobilizados contra esse medonho liberalismo, contra a Revolução e as forças do mal que tentavam prevalecer sobre a Igreja, o reino de Nosso Senhor, os Estados católicos e toda a cristandade. Acho que toda a nossa vida como sacerdotes ― ou como bispos ― foi marcada por essa luta contra o liberalismo. Esse liberalismo era praticado por católicos liberais, pessoas de duas caras que se diziam católicos, mas que não suportavam ouvir toda a verdade, não queriam condenar o erro ou os inimigos da Igreja, não toleravam viver continuamente uma cruzada.”
Homem da verdade e da doutrina, o Pe. Le Floch também era, na força e integridade de sua vocação, um homem da Igreja. Quais seriam as convicções interiores que impulsionavam toda sua atividade? Como um homem da Igreja, colocava-se exclusivamente a seu serviço, defendendo apenas o que era diretamente de interesse dela. Preferia manter com determinação aquela atitude reservada que a Igreja, com raras exceções, impõe aos clérigos; ao longo de toda a sua vida, envolveu-se num único tipo de polêmica, a saber, a defesa da Santa Sé, de quem era, de acordo com o testemunho do Cardeal Secretário de Estado, “a caneta francesa”. Salvo essa única circunstância, trabalhava em silêncio, sem poder evitar que um crescente renome se lhe viesse associar, ao mesmo tempo em que não podia deixar de flagelar seu próprio coração com o desdém pela glória mundana. Extremamente reservado, tendia a mostrar-se cada vez menos e a desaparecer cada vez mais. Homens de seu calibre não se preocupam em parecer o que não são. Sabem muito bem que aquilo que são vale muito mais do que a imagem que poderiam construir de si mesmos. Mas o Pe. Le Floch não estava nem mesmo preocupado em parecer o que era.
“Era possível se enganar, e nós nos enganamos a princípio”, disse o Pe. Berto, futuro teólogo de Dom Marcel Lefebvre no Concílio Vaticano II. “Durante todo o meu primeiro ano no Seminário, perguntava-me como puderam colocar numa posição tão elevada um homem que, apesar de possuir uma presença nobre, parecia exercer tão pouco sua autoridade.” Pe. Berto compartilhou sua opinião com um colega seminarista que, ao ouvir essa bobagem, exclamou com espanto: “O que você está dizendo, meu amigo? Nada se faz aqui que não esteja de acordo com a vontade do Padre Superior. Só que não dá para ver.” Era algo tão discreto, de fato, que se poderia pensar que a instituição mantinha seu curso por conta própria, sendo que a verdade era completamente o contrário. A direção era mantida por uma mão tão firme e segura, com uma atenção tão vigilante, sem jamais deixar de prestar atenção ou fazer um movimento em falso, que a ação do piloto tornava-se tanto mais imperceptível quanto mais poderosa e bem ordenada. Por natureza e por graça, por intuição e por estudo, o Pe. Le Floch colocava acima de tudo a ordem, e a desordem abaixo de tudo. Em todas as coisas, era um homem de ordem: tão firme e inflexível ao comunicar seus pensamentos, quanto lhe eram estranhos todo desejo e toda necessidade de comunicar-se a si mesmo.
Sob o comando do Pe. Le Floch, o Seminário Francês permaneceu perfeitamente fiel ao papado sob São Pio X, Bento XV e Pio XI, particularmente quanto à condenação do modernismo social por este último, em 1922. O Pe. Le Floch deixou bem claro que aceitava a condenação da Action Française em dezembro de 1926, apesar de pessoalmente acreditar que a Igreja não devesse se envolver nessa política. Entretanto, sua renúncia em 1927 foi causada pela oposição pessoal do Papa Pio XI, baseada numa suposta conexão que teria com a Action Française, seguida por ataques de quatro professores e dez estudantes do Seminário. Viveu os 23 anos restantes de sua vida numa aposentadoria ativa.
Mons. Pucci, um padre italiano que tinha informações internas sobre as circunstâncias de sua remoção, logo escreveria: “Pio XI decidiu que o Pe. Le Floch, tendo servido por 20 anos sob um diferente arranjo político, não estava apto a servir sob o seu, ou a conduzir sua implantação.” Como se uma implantação desse tipo tivesse algo a ver com os estudos num Seminário! Volta e meia, entretanto, alguns seminaristas tiveram de fazer as malas porque o clima em Roma não lhes era propício. Foram por isso chamados de “Pro Action Française”, quando, na realidade, só não haviam conseguido lidar com a partida do Pe. Le Floch e com a nova atmosfera. Marcel Lefebvre permaneceu em Santa Chiara, não sem certa nostalgia pela perda de um grande líder, a quem ele sempre chamava com emoção de “nosso querido Reitor”.
(Angelus Press no. 444. Tradução: Permanência)
Gustavo Corção
Os acontecimentos desses últimos dias marcados de violência levaram-me a pensar que têm muita razão os que já apontaram o predominante papel do medo na cultura moderna.
No princípio deste século – quando a morte era vencida nas cidades pelo arco-voltaico, quando os recantos mais secretos da vida e do mundo eram vasculhados pela luz da ciência, e quando os fantasmas, os lobisomens e as assombrações, expulsos de seus últimos redutos, eram relegados às anedotas e ao folclore – muita gente certamente pensava que esta civilização científica e arejada iria progredindo de claridade em claridade, de descoberta em descoberta, até o dia confortável em que o Medo, esse anacrônico personagem, fosse definitivamente dominado pela Razão.
Era assim que pensava o cidadão otimista e comodista que se extasiava diante dos pavilhões iluminados na Exposição Universal em Paris, em 1900.
Ora, no meio-dia deste mesmo século desce uma sombra sobre o mundo. O prestígio da Razão, ainda alto no domínio das ciências e das técnicas, nunca esteve tão baixo na vida cotidiana. O racionalismo deu lugar ao instintivismo. A alma humana já não é procurada na linha da razão e sim na dos instintos. O homem tem como seu, propriamente seu, não o que vê e conhece, mas o que dele mesmo se esconde nos porões da memória trancada. E o comodismo tranquilo deu lugar a um comodismo inquieto; e o grande Medo expulso voltou sob a forma do medo do Terror.
Houve tempo em que o homem tinha um terrível medo religioso de perder sua alma; depois, no apogeu da moral leiga, o homem teve um medo supersticioso de perder sua honra; mas hoje ele tem medo do abismo que, de certo modo, advinha no itinerário de um mundo liberal que quer marchar para o socialismo.
Houve tempo, em nossa vida, em que tínhamos medo de almas do outro mundo e nos abrigávamos desse temor no regaço materno; depois tivemos medo de ladrões e púnhamos embaixo do travesseiro um apito para chamar a polícia; mas hoje há teorias que nos induzem a ter medo do regaço materno, campanhas de “slogans” que nos querem levar a ter medo dos policiais e não dos assassinos.
E de todos os temores dispersos e difusos que hoje nos assaltam, filhos do comodismo otimista, o menor e mais numeroso, o básico, medo atômico fundamental, que supera os restos de amor pela justiça e pela verdade, é o medo de mudar de vida.
Agora chegados neste ponto, detenhamo-nos e procuremos adivinhar, prever, deduzir o que acontecerá nessa sociedade amolecida em que o santo temor de Deus foi substituído por esses medos pequenos, de meio quilo, de meio metro, que formam o traço mais característico desta civilização.
É fácil prever: uns poucos, por uma série de circunstâncias, vão se encontrar em posição de paralisar essa sociedade de timoratos e vão agir simultaneamente em dois sentidos, prometendo segurança e espicaçando os pontos sensíveis da pusilanimidade, tranquilizando e metendo medo. E esses mesmos, cuja maior volúpia consiste em meter medo, esses mesmos viverão constantemente com medo. E então começa aí, nessa raiz de covardia, nesse germe de abdicações, o reino da violência procurado pelos terroristas.
Vejam bem que a lógica do erro é a contradição, e que não é de admirar que seja a violência a sucessora do comodismo. Examinem bem a precisão de nosso raciocínio quando anunciamos que numa sociedade em que todos têm medo de guerra haverá guerras atrozes. Se todos têm medo de incômodos haverá bombardeios atômicos e tiranias inauditas. Se todos têm medo da pobreza haverá miséria. E houve. Aconteceu isto nos países que se entregaram a formas totalitárias, por comodismo. E continua acontecendo um pouco em todo o mundo. A violência é a filha mal-educada do comodismo. O instintivismo é o único filho que se poderia esperar do racionalismo.
Estamos sob o império da violência. Mas por favor não comparem esses tumultos com o retinir de armas que encheu a Idade Média. Há violência e violência. Há violência que se organiza em cruzadas, há violência que toma de assalto o próprio Reino de Deus; mas há também essa outra convulsão telúrica, semi-voluntária: a violência dos mornos que só se traduz em pânico, em salve-se quem puder, em massacres de reféns inocentes e em gavetas onde se trancam, com o ódio dos fracos, a verdade e a justiça.
Andei ouvindo nesses dias o belíssimo livro, o último que Bernanos escreveu, Dialogues des Carmelites, e logo no frontispício o trecho transcrito de La Joie, do mesmo autor, que reza assim: “En un sens, voyes-vous, la Peur est tout de même fille de Dieu, rachetée la nuit de Vendredi-Saint. Elle n´est pas belle à voir – non! – tantôt raillée, tantôt maudite, renoncée par tous... Et cependant, ne vous y trompez pas: elle est au chevet de chaque agonie, elle intercède pour l´homme”.
Bernanos nos fala aqui do Medo, desta terrível paixão que abala os alicerces da alma, e no-la apresenta ora escarnecida, ora maldita e sempre repelida, mas também filha de Deus, resgatada na noite de Sexta-Feira Santa, essa mesma paixão que se debruça nos leitos de agonia e intercede pelos moribundos.
Deus quer de nós a inteligência e a vontade, mas quer também as paixões porque o homem, sem paixões, é menos homem. Quer o nosso amor, quer a nossa alegria, quer as nossas tristezas. Quer também o nosso temor.
Do amor, que Deus espera todo de nós, rendido, incondicional, Ele mesmo decretou que essa grande oferta seja profusamente espalhada por tudo e por todos. E assim, dispersa, solta aos quatro ventos que a grande paixão do amor obedece melhor à Caridade que é o Santo Amor, jovem capitão de um exército inumerável de afeições.
Da alegria, que Deus manda servir à Esperança (como às vezes também a tristeza a serve do seu modo) Deus espera d enós a mesma generosa profusão, porque “un saint triste est un triste saint”, e ele mesmo nos legou palavras de agradecimento para todas as criaturas de sua gloriosa mão.
Mas o caso do temor é diferente. Ainda se refrata nas criaturas, sendo bom que exista e condicione certas relações, mas eu diria que se refrata em ângulo apertado, sem muita dispersão, porque depende disso, dessa concentração, dessa economia, o equilíbrio do homem entre os homens. A Deus dizemos: “sanctum et terribile nomem ejus. Initium sapientiae timor Domini”. Santo e terrível é o seu nome. O início da sabedoria é o temor de Deus.
E depois de termos assim temperada a nossa alma, nós podemos cantar o hino de nossa coragem perfeita, como na oitava da Ascensão a Igreja canta em seu intróito: “Dominus illuminatio mea, a quo trepidabo?” Senhor, luz minha e minha salvação, a quem temerei? Senhor, protetor de minha vida, o que me fará estremecer?
Eis aí, ó leitor, o segredo dessa paixão de nossa alma, que parece feia (elle n´est pas belle à voir...) que parece desprezível, que parece maldita, e que, entretanto, não duvide, ó leitor, está na cabeceira de cada agonia, intercedendo pelo homem. Eis aí, ó amigo, a antiga receita dos bravos, como Santa Joana D´Arc, como S. Luís de França, que só tinham medo de uma coisa: pecar contra Deus.
E eia aí também a triste explicação das nossas fraquezas. Onde morre o temor de Deus pululam os vermes de todos os medos.
(O Globo, 6/4/78)
Michael J. Rayes
[Nota da Permanência: O leitor interessado no tema dos quatro temperamentos encontrará um estudo valioso publicado na Revista Permanência no. 270, à venda na nossa livraria]
Você está disciplinando dois dos seus filhos. Um deles está bem na sua frente com olhar firme na cara, ouvindo seu sermão e seu tom de voz ríspido. O outro está do seu lado e não consegue sequer olhar para você. Ele começa a chorar. Por que as crianças reagem de modo tão diferente à mesma coisa?
Talvez você já tenha lido sobre os quatro temperamentos. Mas o que isso tem a ver com você enquanto pai hoje? Como aplicar o conhecimento dos temperamentos ao seu estilo de educação? Talvez você já tenha uma ideia genérica de que não pode responder a cada filho da mesma maneira, mas modificar seu jeito para se adaptar às necessidades de cada um deles. No mundo real, como reagir do modo mais eficiente e caritativo a cada um de seus filhos?
Temperamento e personalidade
O que é o temperamento, afinal de contas? Temperamento é algo que alguém está inclinado a fazer devido ao modo como foi “programado” no nascimento. A personalidade combina o temperamento com o sexo, a educação (inclusive o ambiente familiar), a força de vontade interna, os hábitos adquiridos da pessoa e outros fatores externos e eventos na vida.
Então o temperamento é como você nasceu, mas a personalidade é o que você se torna. O temperamento é como você reage a algo. Você já percebeu que algumas pessoas são naturalmente agitadas, enquanto outras são naturalmente calmas? Isso é o temperamento.
Sua personalidade como um todo enquanto adulto é a combinação do temperamento com os outros fatores mencionados acima. Por exemplo, dois sanguíneos de 25 anos terão personalidades muito diferentes se um cresceu em Beverly Hills, e o outro no Afeganistão. A força de vontade também tem muito a ver com a personalidade de um adulto. Dois coléricos de 50 anos que viveram suas vidas inteiras na mesma cidade, na mesma cultura e no mesmo background familiar terão personalidades diferentes se um deles passou os últimos 30 anos, deliberadamente, tentando conter suas paixões e arranjando tempo para oração privada.
Por que levar em conta os temperamentos, então? Estamos etiquetando as pessoas? Não exatamente. Perceba que, quando falamos da personalidade de alguém, estamos nos referindo a adultos apenas. As crianças não têm personalidades plenamente formadas, e, portanto, nós olhamos para o temperamento delas. Elas estão muito mais propensas, por estarem no seu estado temperamental “cru”, a reagir a eventos de maneira previsível. Os pais podem usar sua compreensão do temperamento dos filhos para facilitar seu trabalho.
Como determinar o temperamento do seu filho
Dê uma olhada nessa tabela e veja quais atributos, reações e orientações sua criança tende mais a exibir. E lembre-se: provavelmente ninguém tem um temperamento puro. Somos combinações de temperamentos dominantes e secundários (ex: sanguíneo colérico)
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Temperamento
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Tipo
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Atributos
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Reação
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Orientação
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Necessidades
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Colérico
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(C) intrometido
(A) realizador
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Ambicioso, ativo, insensível, autoritário
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Rápida, profunda
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Tarefas
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Lealdade dos demais, ocupação
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Sanguíneo
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(C) brincalhão
(A) festeiro
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Palhaço, amigável, extrovertido, sem foco, dramático, ativo.
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Rápida, superficial
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Diversão
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Diversão, grupos, pessoas
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Melancólico
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(C) preocupado
(A) meticuloso
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Introspectivo, introvertido, preocupado, temperamental, s/ autoconfiança
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Lenta, profunda
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Detalhes
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Apoio, elogio
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Fleumático
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(C) desleixado
(A) pacificador
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Lento, pode ser preguiçoso, calmo, passivo, cabeça-dura.
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Lenta, superficial
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Ideias
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Paz, harmonia
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(C) Criança; (A) Adulto
Abordagem prática para a vida familiar
Em uma família grande, você pode juntar os filhos mais velhos e os mais novos para cuidarem dos irmãos, em vez de simplesmente contar com o filho mais velho para cuidar da tropa inteira. Por exemplo, junte um fleumático mais velho e calmo com um colérico mais ativo em idade pré-escolar; um melancólico preocupado mais velho com um sanguíneo mais novo e otimista.
Na hora da tarefa de casa, os sanguíneos costumam gostar de ter música tocando no fundo enquanto começam os trabalhos. Muitos melancólicos não podem ouvir música nessas circunstâncias, pois isso tiraria seu foco. Você pode ter que separar as crianças para que elas não se distraiam umas às outras.
Vamos usar a matemática como exemplo de como iniciar as tarefas escolares de casa. O pai pode usar uma das seguintes abordagens a depender do temperamento do filho:
Se o filho for colérico, o pai pode dizer: “Aqui está sua tarefa de matemática. É muito importante, pois nos ajuda a pensar e a resolver problemas. Você consegue resolver essa tarefa?”
Para o sanguíneo: “Aqui está sua tarefa de matemática. Faça apenas metade por enquanto, tudo bem? Vamos começar a primeira juntos”.
Para o melancólico: “Sente aqui comigo, e vamos começar a tarefa de matemática juntos”.
Para o fleumático: “Hora da tarefa de matemática. Vá lá e faça a tarefa agora. Vamos começar agora mesmo”.
Repare nos pontos centrais: com o colérico, o pai enfatiza que a matemática é importante e, então, desafia a criança; com o sanguíneo, o pai compartilha o trabalho com o filho para que ele não esteja só e diminui a quantidade de trabalho (por enquanto); o filho melancólico recebe apoio por estar junto do pai; e o fleumático ouve a palavra “agora” mais de uma vez.
Como ensinar crianças temperamentais
Crianças coléricas não têm muita paciência para aulas longas e chatas. Essas crianças podem praticar bullying na escola se não receberem atividades suficientes.
Crianças sanguíneas têm problemas de concentração. Você não pode dar a elas um monte de material de estudos e dever de casa e ir embora, como faria com um colérico. Elas precisam de monitoramento frequente. Dê prazos a elas e recompensas. Elas gostam de ver o todo, mas é preciso dividir suas tarefas para que possam se concentrar melhor assim. Se for divertido, elas farão sem a menor dificuldade; se não for divertido, será como mover montanhas.
Crianças melancólicas precisam do seu próprio espaço. Precisam de ordem, estrutura e rotina. Elas, normalmente, são as vítimas do bullying escolar. Conseguem fazer toda a tarefa de casa uma vez que sintam que tem o apoio de que tanto necessitam e, então, ficarão confortáveis trabalhando. Se não estiverem acostumadas com uma tarefa, sua timidez as impedirá de fazê-la. Quando uma criança melancólica precisa de ajuda com a tarefa escolar, virá diretamente a você. Quando uma criança sanguínea precisar de ajuda, vai se esgueirar silenciosamente em direção a outra coisa mais divertida.
Crianças fleumáticas têm traços de teimosia. Elas não costumam realizar grandes façanhas e podem se comprazer apenas em ver as outras crianças brincarem. Precisam ouvir, respeitosamente, que é hora da próxima atividade ou tarefa. Essas crianças precisam de paz e harmonia. Se o mau desempenho delas for apresentado como um problema, elas se sentirão motivadas a consertar isso para que possam retornar à sua rotina normal, pacífica. Elas também precisam de respeito e são desencorajadas por ranzinzices.
Como você elogia seu filho vai depender do temperamento dele. Ao colérico diga: “Gostei do seu trabalho”. Ao fleumático: “Eu gosto de você”. Uma criança sanguínea precisa ouvir: “Você é bonita!” Mas o melancólico precisa ouvir: “Bom trabalho”, ou “Gostei do jeito como você fez isso!”
Em outras palavras, os coléricos precisam de reconhecimento pelo que fazem. Fleumáticos precisam de reconhecimento por simplesmente serem o que são. Sanguíneos precisam de reconhecimento pela sua aparência ou pelo modo como agem. Melancólicos precisam de reconhecimento pelo modo com que fizeram algo. Lembre-se, o elogio que você faz a cada filho precisa ser específico, ou vai soar falso.
O que toda criança precisa
Os quatro tipos de temperamento são diferentes, mas todas as crianças são criadas à imagem e semelhança de Deus, e todos têm livre arbítrio para escolher seu comportamento. À luz disso, há algo de que todo tipo de criança precisa? Que traços universais ajudarão as crianças a crescerem e irem para o céu?
A resposta é amor e estabilidade
Quando os pais se amam, amam seus filhos e proporcionam um ambiente emocionalmente estável para a vida familiar, as crianças encontram um lar onde podem prosperar e se tornar adultos católicos. É a isso que Deus lhes direciona no sacramento do matrimônio. O propósito da vida familiar é voltar as almas a Deus. Lembre-se disso quando se sentir exasperado nos problemas com os filhos e serviços domésticos. Ao lhes dar amor, estabilidade e respostas adequadas aos seus temperamentos, estamos fazendo uma obra de Deus.
(The Angelus, March/2012. Tradução: Permanência)
“Todo o que se exalta será humilhado, e todo o que se humilha será exaltado” (Evangelho)
Paramentos verdes
A liturgia deste domingo procura inculcar no espírito dos fiéis o sentido justo da humildade cristã, que consiste em atribuir a Deus todo o bem verdadeiro e toda a santidade. Porque os nossos atos, com efeito, só poderão ser sobrenaturais, isto é, santos, se procederem do Espírito que Jesus enviou aos apóstolos no dia de Pentecostes, e que não cessa de conceder àqueles que humildemente lho pedem. Pelo que a obra da nossa santificação é inteiramente impossível, se tentarmos realizá-la sozinhos. É necessário reconhecer a nossa incapacidade, as nossas más tendências, toda esta gama de coisas mínimas e imponderáveis que não vemos e nos fazem apalpar tristemente a lama original da nossa natureza; é necessário, digo, reconhecer tudo isto, ser humildes, então, para sentirmos a necessidade de pedir e Deus ter ocasião de nos dar. Porque Deus conhece de longe os orgulhosos e vê de perto os humildes. O orgulho é, portanto, o maior inimigo das almas.
A Igreja desenvolve este pensamento, de modo tristemente realístico, nas lições do Breviário. Atália, depois de ter cometido os mais graves atentados contra o Deus de Jacó, de Abraão e dos Profetas e de ter levado o seu arrojo e o seu orgulho ao ponto de levantar no átrio do templo um altar a Baal, foi lançada por uma janela do seu palácio à rua e devorada pelos cães. E Joás, um pobre órfão, descendente de Davi, mas perseguido pela fúria de Atália, que procurava extinguir toda a família real para melhor assegurar a impunidade dos seus desvarios, foi alçado ao poder com 7 anos apenas e dele deixou a Escritura este belo elogio: “Joás praticou o que era justo diante de Deus”. É que há duas classes de homens, conforme diz Pascal: “Os santos que se julgam réus de todos os crimes e os pecadores que não encontram em si culpa alguma. Os primeiros são humildes e Deus glorifica-os; os segundos são orgulhosos e Deus abate-os e castiga-os”. “Deus, diz S. João Crisóstomo, verbera o orgulhoso. Ele submergiu o mundo, queimou Sodoma, destruiu o exército dos egípcios, porque, não tenhamos dúvida, foi Deus que feriu todos estes povos. Mas, direis vós, Deus é bom e é Pai. É, sem dúvida. Todavia, isto não são palavras vazias, mas fatos que não podemos negar. Ou não foi punido o rico que desprezou Lázaro? E as virgens loucas não foram repudiadas pelo esposo? O Senhor diz que sim! Ora pelo que o Senhor disse e fez no passado podemos prever o que fará no futuro. Tenhamos, portanto, sempre diante de nós o rio de fogo, as cadeias que rolam, as trevas, o ranger dos dentes e o verme que dilacera e que rói. Será o modo mais eficaz de cultivarmos a humildade que nos faz dizer com a Igreja: “Clamei pelo Senhor e Ele ouviu-me” (Intróito).
Defendei-me, Senhor, como a pupila dos olhos. Vós vedes, Senhor, o que é reto e justo (Gradual). Ao Senhor elevei a minha alma e n’Ele coloquei a minha esperança. Não me torneis, Senhor, objeto de irrisão para aqueles que me querem mal.
Meditemos, além disso, na grande lição do Evangelho, do fariseu e do publicano.
Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.