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Category: AnônimoConteúdo sindicalizado

Dos costumes divinos

[O opúsculo DOS COSTUMES DIVINOS é o LXII da EDIÇÃO ROMANA  das obras de Santo Tomas de Aquino (publicada em 1570 por ordem de São Pio V).

Hoje, não mais se atribui este texto ao Doutor Angélico, sendo desconhecido o seu autor. Contudo, quem quer que o tenha escrito, é interprete fiel de sua doutrina e, por sua elevação e ingenuidade, remetem-nos ao próprio santo Tomás.]

 

 

“Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48). A Santa Escritura nunca nos ordena e nos aconselha algo de impossível. Por essa palavra, o Senhor Jesus não nos manda fazer as próprias obras e os costumes de Deus, os quais ninguém pode atingir de maneira perfeita.

Mas nos convida a nos calcarmos neles o mais possível procurando imitá-los. Nos o podemos, com o socorro da graça, e devemos. E como diz o bispo João, nada convém mais ao homem do que imitar seu criador e executar, segundo a medida de seu poder, a obra de Deus. (Leia mais)

Sinopse dos erros imputados ao Concílio Vaticano II

    

Continuamos nosso trabalho de denúncia dos erros do Concílio Vaticano II. Consideramos ser este tipo de denúncia teológica a única saída, em termos humanos, para a crise que nos atormenta já há décadas, visto que da parte das autoridades do vaticano, os erros continuam a ser ensinados e difundidos.

O trabalho que a Permanência realiza há 50 anos procura denunciar os erros e publicar a Verdade, para que nossos leitores compreendam que, decididamente, Vaticano II não foi um concílio católico. Ele deve ser rejeitado, sim, e o será um dia pela autoridade suprema do Vigário de Cristo. Por enquanto ele ainda é a pedra de tropeço para tantas comunidades religiosas e padres que, acreditando ser possível manter a Tradição e aderir ao Concílio, aceitam acordos que sempre terminaram por inserir estes padres e fiéis no ambiente pervertido, heretizante e modernista que reina no Vaticano.

    

A presente Sinopse dos Erros de Vaticano II é a tradução da versão francesa do jornal SiSiNoNo, publicada a partir do número 247, de julho-agosto de 2002.

    

"Roma perderá a Fé"— 170 anos de La Salette

Relativamente à aparição da Santíssima Virgem em "La Salette", como a qualquer outra manifestação do Céu sobre a terra, nossa curiosidade humana procura saber o que o Céu foi levado a dizer à terra. Mas é antes o atrativo do divino e a solicitude com a nossa santificação que nos deveria impelir a conhecer estas revelações. Por isso, daremos, duma parte, "in extenso", as revelações feitas por Maria a 19 de setembro de 1846, em La Salette, doutra parte esperamos que tendo sido a inteligência instruída com estas coisas, a vontade será então fortificada, para que daí venha a santificação das almas: é o objetivo de Nossa Senhora, o qual deve ser o nosso. Que os curiosos sem desejo de santidade se abstenham de continuar a ler, pois se arriscariam de não compreender a Santíssima Virgem; os que, porém, querem se santificar que tirem proveito disso.

A 19 de setembro de 1846, duas crianças, Maximino Giraud e Melânia Calvat, originário de Corps no departamento de Isère, na França, guardam as suas vacas nos arredores do lugarejo de La Salette. Eis aqui o que Melânia escreverá desde 1860 e que publicará em 1875, com o "imprimatur" de Dom Zola, bispo de Lecce na Itália. Aí ela confia o texto do seu segredo que havia escrito e transmitido, como Maximino fizera com o seu, ao Papa Pio IX, em julho de 1851. Leia mais

O que são anjos?

Anjos são puros espíritos criados que possuem um intelecto e vontade mais elevados que os do homem. Eles não têm corpos e, portanto, não podem ser homens nem mulheres. Cada anjo é uma nova espécie em si mesma, e há nove coros angélicos. Eles cumprem a vontade de Deus ao serem mensageiros e guardiões dos homens, de papas, bispos, cidades e países. Há obras onde se atribui a eles a tarefa de manter o universo ordenado, guiando os planetas e estrelas nos seus movimentos. 

Nós só sabemos os nomes de três: Miguel, Gabriel e Rafael. Desde o Vaticano II, alguns adeptos da Nova Teologia têm negado a existência dos anjos porque essa verdade de fé seria um obstáculo para os não-católicos – e isso apesar das Sagradas Escrituras, que falam dos anjos em quase toda parte!

- Pe. Carl, Abril de 1979.

O que são os querubins e os serafins?

Querubim é a forma plural da palavra hebraica “cherub” e significa algo próximo a “aquele que abençoa” ou “aquele que reza” -- tratam-se de espíritos a serviço do Senhor Deus. Nós os encontramos, para citar apenas alguns lugares, após a expulsão de Adão do Jardim (Gn 3, 24) e na visão de Ezequiel (En 1, 10). Eles agem como guardiões no Antigo Testamento, seja de maneira real (Ez 28, 14), seja representados no Santo dos Santos sobre a Arca da Aliança.

Serafim é o plural de “seraph”, que significa “aquele que queima”. Nós os vemos na visão de Isaías ao redor do trono de Deus (Is 6, 1-7). Eles são descritos como possuindo seis asas e prostrados ante a divina majestade de Deus três vezes santo. Essas duas classes de seres celestiais são consideradas as mais elevadas, as mais próximas do trono de Deus.

(Trecho do livro "The best of Questions and Answers", Angelus Press)

Se Cristo sabe tudo, como pode dizer que não sabe o dia do julgamento?

Cremos que Cristo, como a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, sabe tudo, pois Ele é Deus. Então como Ele pode dizer que não sabe o dia do Julgamento, mas apenas o Pai?

As palavras nas quais essa dificuldade se baseia podem ser encontradas no Evangelho: “A respeito, porém, desse dia ou dessa hora, ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, mas só o Pai” (Mc 13, 32).

Essas palavras podem ser explicadas de duas maneiras, que refutam essa aparente dificuldade levantada na pergunta.

Primeiro, poderíamos salientar que Deus Filho, que se tornou homem, fala aqui não enquanto Deus, mas enquanto homem. Concluímos disso que Ele está falando sobre o conhecimento que tem enquanto homem. Pois Cristo, que era Deus e homem, tem um conhecimento perfeito, infinito, enquanto Deus; mas, enquanto homem, é claro, Ele possuía um tipo de conhecimento diferente, não sabendo, assim, tudo que sabia enquanto Deus.

Poderíamos dizer que Cristo fala aqui do mesmo modo que quando fala que o Pai é maior que Ele: que fala de sua natureza humana e de seu conhecimento humano, e que Ele, portanto, meramente indica que não sabe o dia do Julgamento enquanto homem.

Essa explicação, porém, foi rejeitada por um decreto do Santo Ofício em 05 de junho de 1918; portanto, devemos crer que, mesmo enquanto homem, em virtude de seu conhecimento humano, Cristo sabia todo o passado, presente e futuro; e, portanto, também conhecia o dia do Julgamento. É por essa razão que fazemos melhor em aderir à explicação tradicional que Santo Tomás de Aquino nos dá: Cristo não sabia o dia e a hora do julgamento com scientia communicabilis, isto é, com um conhecimento que poderia compartilhar com os outros. Foi por isso que disse que não sabia. Afinal de contas, nós também podemos responder a perguntas inadequadas sobre coisas que não podemos revelar dizendo: “Eu não sei”.

Com essas considerações, podemos dizer que os apóstolos demostraram uma curiosidade inadequada sobre o dia do Julgamento. E, portanto, Cristo indicou que o dia e a hora permaneceriam desconhecidos até que o Pai os tornasse conhecidos.

Como conciliar a doutrina do pecado original com a justiça divina?

Por Prof. Felix Otten, O.P., e C.F. Pauwels

Pergunta: Como o pecado oirginal pode ser conciliado com a justiça divina? Afinal de contas, em razão do pecado original, somos culpados de algo que não fizemos por conta própria, mas que foi feito por Adão nos primórdios da criação.

Resposta: Sabemos da Bíblia que Deus criou as primeiras pessoas em um estado de felicidade. Ele lhes deu os grandes privilégios de ter uma alma e um corpo. Acima de tudo, Ele direcionou o homem para um fim sobrenatural, isto é, a salvação eterna, que consiste na visão beatífica de Deus. Como meio de atingir esse fim sobrenatural, o homem recebeu de Deus a graça santificante, fazendo-o filho adotivo de Deus com direito ao céu como herança.

Esses e outros privilégios, tanto na ordem natural quanto na sobrenatural, foram dados ao homem como um dom totalmente imerecido. Tudo isso foi dado não apenas às primeiras pessoas pessoalmente, mas, nelas e através delas, a todos os seus descendentes, isto é, a todos aqueles que descenderiam deles por nascimento. Mas as primeiras pessoas tiveram de se mostrar dignas desses grandes privilégios através de uma fiel aliança com Deus e da obediência aos Seus mandamentos, a saber, a lei natural e, especialmente, o mandamento específico: não comer do fruto proibido.

Afinal de contas, Adão foi não apenas o ancestral natural de todas as pessoas, mas também foi nomeado por Deus como a cabeça moral, isto é, o representante de toda a humanidade no que diz respeito à graça santificante e à salvação eterna no Céu. Adão carregava a vida da humanidade, não apenas a física e natural, mas também a sobrenatural. Se ele continuasse a obedecer o mandamento de Deus, seus descendentes seriam felizes; se ele se tornasse infiel ao mandamento de Deus, a humanidade, nele e através dele como seu representante, tornar-se-ia infeliz.

Nós sabemos o que aconteceu. Portanto, a vida sobrenatural da humanidade foi profanada pelo representante da humanidade: Adão. E daí adveio que as pessoas que nascem sem a graça sofrem não apenas uma perda, mas um roubo. Todos os que descendem de Adão deveriam ter tido um bem que foi roubado. Isso deixou a natureza humana em um estado de desespero espiritual, que chamamos de pecado original.

Esse pecado original não é contrário à justiça de Deus. Afinal de contas, um príncipe, também, pode elevar um camponês e toda a sua família à nobreza, mas apenas sob condição de que essa pessoa sirva o príncipe fielmente. Se ele não servir, ele perde a nobreza não apenas para si, mas também para todos os seus descendentes. Esses descendentes poderiam acusar o príncipe de ser injusto porque nasceram sem nobreza? É claro que não! Devemos, portanto, prestar atenção a isto: por causa do pecado de Adão, só foram perdidos os bens aos quais não tínhamos direito. A natureza em si, com seus dons naturais, sobreviveu à destruição do pecado.

É melhor, portanto, darmos mais atenção ao amor ilimitado de Deus, que nos deu um Redentor, Cristo Nosso Senhor, e que, assim, tornou o pecado de Adão -- conforme à palavra de Santo Agostinho -- uma felix culpa, uma culpa feliz. Esse pecado foi feliz no sentido específico de que ele nos trouxe a bênção da Redenção.

The Angelus, Março-Abril de 2020

 

Se Deus é a causa de tudo, como podemos ser livres?

Por Prof. Felix Otten, O.P., e C.F. Pauwels

 

Nota do editor: este artigo é o segundo de uma série de respostas concisas a perguntas e objeções contrárias à fé católica frequentemente encontradas. As perguntas e respostas foram adaptadas da obra “As Dificuldades Mais Frequentemente Encontadas” (em inglês: “The Most Frequently Encountered Difficulties”), do Prof. Felix Otten, O.P., e C.F. Pauwels, O.P., publicada originalmente em holandês em 1939. 

 

Pergunta: A Igreja Católica ensina que o homem é livre e, ao mesmo tempo, que Deus é a causa de tudo. Se é assim, então não seria Deus a causa de nossa vontade? E, se Deus sabe, de antemão, o que vamos fazer e até mesmo causa o que vamos fazer, então como podemos ser livres?

Resposta: Pessoas que fazem perguntas dessa natureza, normalmente, estão equivocadas quanto ao conceito de “causa”. Um tratamento científico completo dessa pergunta demandaria treinamento filosófico profundo; portanto apenas alguns comentários serão feitos aqui.

A afirmação “Deus é a causa de tudo” poderia levar a muitos mal entendidos. Alguém poderia concluir dela: “Então Deus também é a causa do mal”, e essa conclusão seria totalmente absurda. Então, em vez, devemos dizer: “Deus é a causa de todo o bem”. E, como há algo de bom em todo ato humano, então Deus também é a causa de todo ato humano; porém Deus não é a única causa daquele ato.

Deus move tudo, mas Ele o faz como causa primeira. Isso significa que Ele nos deu nosso livre arbítrio. O livre arbítrio é, portanto, enquanto um dom de Deus, a causa de nossos atos livres. E não poderia ser de outra maneira: a vontade livre é criada e, portanto, deve depender da causa primeira, a saber, Deus. E, por ser a causa primeira, Deus move todas as coisas de acordo com sua natureza. De acordo com a ordem criada por Deus, é da nossa natureza ser livres.

Então nem Deus, nem a vontade livre são a única causa das ações humanas: Deus e a vontade trabalham juntos como a causa primeira e a causa segunda. Isso não significa que Deus e a vontade fornecem, cada um, um pedaço desses atos, mas que tanto Deus quanto a vontade causam o ato. Deus é a causa primeira, e a vontade, a causa segunda. E, se Deus não agisse como a causa primeira, a vontade jamais poderia ser a causa segunda.

Essa é uma questão difícil, e não podemos fazer nenhuma comparação que ajude a esclarecê-la. Pois já que apenas Deus, que é o Criador de tudo, é a causa primeira, não há nada parecido com isso. A solução a essa pergunta reside nisto: Deus é a causa que leva uma outra causa inferior a ser uma causa por sua vez.

The Angelus, Março-Abril de 2020

A ociosidade é inimiga da alma

Por um monge beneditino

Nossa vida espiritual é composta pela graça de Deus e nossa disposição para com sua graça. Tudo é dom de Deus, mas devemos fazer todo o possível para dispor nossa alma para recebê-Lo sem obstáculos em nossos corações. O maior obstáculo que se opõe à livre ação de Deus em nossas almas é uma má atitude, uma disposição que afaste nossos corações de Deus e de Sua vontade. São Bento em sua regra para monges define essa atitude como ociosidade. A ociosidade é uma inimiga para nossa alma porque é o primeiro passo para formar maus hábitos.

Ociosidade ou indolência é um tipo de negligência intencional em relação ao nosso dever de estado. A alma torna-se lenta para realizar a vontade de Deus por causa de uma crescente repugnância pelo esforço de vencer obstáculos que são difíceis de superar. Quando a alma foge do esforço, procura substituir o plano de Deus por uma opção mais fácil, recompensada por uma satisfação imediata. Todos os tipos de desordens e pecados rastejam para dentro da vida do homem indolente. A vida familiar se torna um fardo terrível; todos parecem ser um obstáculo à sua recém-descoberta "liberdade". Um tipo de aversão geral invade sua a vida e tudo o que antes era considerado sagrado por ele, agora é como uma pedra de moinho que o puxa para baixo. Um tipo problemático de ansiedade apodera-se lentamente de sua personalidade e aqueles que mais o amam se tornam seus piores inimigos. Ele começa a sentir que eles o acusam à luz dos bons exemplos deles. Sua vida de trevas não pode suportar a luz das virtudes. 

Essa pobre alma pode cair em dois extremos opostos que se originam da mesma desordem da indolência. O primeiro é simplesmente desistir de qualquer esforço solicitado a ele. Uma consequência é procurar consolo através do sono contínuo. Numa parábola do Evangelho, Nosso Senhor diz que a erva daninha foi semeada no campo enquanto os homens dormiam. A erva daninha do vício entra na alma quando ela foge do esforço necessário para se corrigir, buscando o sono profundo da indolência negligente. O outro extremo que tenta escapar da vontade de Deus é a atividade excessiva. Foge-se da luta necessária para realizar a vontade de Deus em prol de um ativismo exagerado. Em vez de se cumprir o dever de estado, considerado muito trabalhoso, procura-se outra atividade para substitui-lo. Gasta-se muito tempo e esforço realizando algo, que não é essencial. Essa atividade pode, por si só, ser boa, mas é uma fuga do dever de estado. Os exemplos a seguir são frequentemente observados: Pode-se ficar tentado a fugir da família sob o pretexto de caridade para os outros e deixar as crianças sem os cuidados necessários. Uma mãe que não prepara as refeições para os filhos porque quer aperfeiçoar sua espiritualidade está fugindo das suas obrigações. O pai que passa todo o seu tempo livre no bar ou na academia está recusando seu dever paterno.

Esses meios de fuga lentamente se tornam habituais. Essa desordem habitual do pecado é conhecida como vício na vida espiritual e leva a vícios materiais. Muitos dos jovens de hoje lentamente tornam-se apegados à tecnologia, videogame, pornografia, álcool e drogas porque têm repulsa pelo seu dever de estado. A razão pela qual se encontram nessa posição geralmente é a de terem recebido muito pouco amor de seus pais ou do vício da indolência que toma o controle de sua alma. Muitos pais estragam as crianças, temendo o esforço que seria necessário para corrigi-las. Eles permitem o crescimento da paixão e do vício que destruirá a vida das crianças. As crianças imitando o exemplo de indolência dado pelos pais vão habitualmente se esquivar de seus deveres básicos como católicas.

Os vícios vêm de uma desordem espiritual e o verdadeiro remédio é uma reordenação espiritual. Quando escolhemos a dependência de uma criatura para satisfazer nosso desejo de bondade, que Deus sozinho pode satisfazer, nos encontramos escravos dessa criatura, seja a garrafa ou a Internet. A alma que tenta substituir Deus por alguma criatura se decepciona. O verdadeiro remédio é retornar pacientemente a Deus. Leitura espiritual, oração e prática de virtude são necessárias para superar o vício em pecar, mas devem ser postas em prática de maneira muito vigorosa e tenaz. 

Santo Ambrósio, falando do cordeiro pascal do Antigo Testamento, explica como a refeição teve que ser tomada às pressas: “Não basta fazer o bem, devemos fazê-lo com avidez. A Lei dada a comer com rapidez o cordeiro Pascal é porque os frutos são muito mais abundantes quando nossa devoção é imediata.” O livro de Eclesiástico dá conselhos semelhantes: "Em todas as tuas obras seja solícito, e nenhuma enfermidade virá a ti." Se desejamos vencer os vícios, devemos mudar prontamente nossa má atitude e colocar em prática nossas boas resoluções. Com a graça de Deus, perseveraremos, correndo no caminho que leva ao Reino dos Céus. Devemos ter prontamente no coração as palavras de São Bento.

"A ociosidade é a inimiga da alma."

 

(The Angelus, novembro de 2019)

A estabilidade da Ordem Beneditina

Por um monge beneditino

 

 

Assim como todo floco de neve que já caiu sobre a face da Terra é formado por um diferente padrão de cristais de gelo, toda alma nascida neste mundo, que sai da mão de Deus, é única. Em Sua divina Providência, Deus cria um lugar para cada alma santificar sua vida e entrar no Reino dos Céus. Mosteiros e conventos são lugares inventados por Deus para permitir que as almas O amem sem limites. 

Todas as ordens religiosas têm um objetivo comum, mas elas são muito diferentes umas das outras. Os dominicanos, por exemplo, são chamados a contemplar a beleza da luz de Deus. Depois de contemplar as coisas de Deus, devem comunicar essas verdades ao próximo. Os franciscanos, atraídos pela alegria e liberdade de um filho de Deus, abraçam voluntariamente o caminho da pobreza material, da mortificação e da penitência. Eles se consideram os felizes esposos da Senhora Pobreza. Eles levam a simplicidade da mensagem do Evangelho aos pobres da Igreja. Os carmelitas, com sua bela vida de oração, habitam o castelo interior de suas almas na contínua presença de Deus. Sua comunidade celebra todo o ofício canônico e passa duas horas diariamente em silenciosa oração mental, conversando com o amado esposo de sua alma. Sua vida de sacrifício e oração enriquece a toda a Igreja. Os cartuxos sacrificam a maior parte de sua vida em silenciosa solidão, na adoração ao seu Criador, passando o dia a sós com Deus. Quando um monge cartuxo foi perguntado por que ele tinha um mapa do mundo na parede de sua cela, ele respondeu que considerava aquele o território de sua paróquia. Ele rezava continuamente pela salvação de todas as almas da Terra como se pertencessem à sua paróquia. 

Durante os 2.000 anos de existência da Igreja, foram fundadas muitas ordens religiosas  para cuidar de seus filhos. Alguns dos primeiros centros de educação gratuita, os primeiros hospitais e os primeiros orfanatos conhecidos pela humanidade foram criados por ordens monásticas, que procuravam cuidar dos menores e mais fracos membros da Igreja de Cristo.

Um dia, enquanto cantava a missa, Santa Matilde (uma mística beneditina do século XIII) recebeu uma revelação sobre o intróito da antífona "No centro da Igreja". Nosso Senhor disse-lhe: “O centro da Igreja é a Ordem de São Bento. Ela apoia a Igreja como o pilar sobre o qual repousa toda a casa, porque está em relação não apenas com a Igreja universal, mas também com as demais ordens religiosas. Está unida aos seus superiores, ou seja, ao papa e aos bispos, pelo respeito e obediência que lhes confere; e está unida às outras Ordens Religiosas pelo seu ensino, que fornece a estrutura para a perfeição de vida, já que todas as outras Ordens imitam a Ordem de São Bento em um ponto ou outro. Almas boas e justas encontram nesta Ordem conselho e ajuda; pecadores encontram compaixão e os meios para se corrigir e confessar seus pecados; as almas do purgatório encontram nesta Ordem o socorro das orações sagradas. Por fim, oferecem hospitalidade aos peregrinos, mantêm a vida dos pobres, aliviam os enfermos, nutrem os que têm fome e sede, consolam os aflitos, e rezam pela libertação das almas dos que partiram fielmente.”

Com seus 15 séculos de existência, e, segundo Dom Gaspar Lefebvre, com 57.000 santos beneditinos conhecidos, a Ordem de São Bento ocupa um lugar muito especial na Igreja precisamente porque não tem nenhuma especialidade. O carisma especial da vida beneditina é simplesmente tornar-se um bom católico rezando e trabalhando em um ambiente familiar e manter uma união perfeita com nosso Criador. 

A simplicidade desta vida produziu grandes frutos para a Igreja, abraçando todos os aspectos da vida católica. São Bento conta mais de 20 de seus filhos como papas, um grande número de bispos, cinco doutores da Igreja e muitos missionários que levaram a fé a mais de 20 grandes países, como Inglaterra e Alemanha. E seria impossível contar o número de santos ocultos, conhecidos por Deus apenas, que passaram a vida no segredo dos claustros.

São Bento escreveu sua Regra durante as invasões bárbaras, quando a sociedade romana estava se desintegrando rapidamente, tanto política quanto moralmente. A sociedade naquele momento necessitava da estabilidade de uma vida espiritual. 

São Bento descobriu a necessidade de uma vida interior estável pela própria vida que viveu. Quando era um jovem estudante em Roma, percebeu claramente a decadência da sociedade. Percebeu que se continuasse ali, sua alma estaria em perigo de condenação. Então escolheu fugir para Deus e viver uma vida isolada de oração e mortificação. Durante três anos de solidão, ele aprendeu muito sobre Deus e sobre si mesmo. A certa altura, foi fortemente tentado pela luxúria a deixar a vida religiosa.

Ele percebeu a desordem nas suas paixões e, unindo a mortificação à oração, passou por um longo tempo a esfregar-se em um canteiro de sarças, urtigas e espinhos. Mais tarde, reconheceu que essa mortificação o libertou de futuros ataques decorrentes de sua própria natureza decaída.

Sua santidade foi finalmente descoberta por outros e um mosteiro vizinho o convidou para ser seu superior. Enquanto tentavam reformar seus modos decadentes, os mesmos monges que o convidaram para o mosteiro quiseram envenená-lo. São Bento escapou da morte por um milagre e mais uma vez fugiu para Deus, abandonando o mosteiro. Ele acabara de descobrir do que até os religiosos são capazes quando seus deveres espirituais são negligenciados. 

Foi asssim que pode estabelecer 12 mosteiros florescentes, intimamente unidos e vivendo em paz com Deus e o homem. 

Mas, novamente, um padre inflamado pela inveja, de nome Florentius, tentou matá-lo em várias ocasiões. Cada tentativa foi frustrada pela intervenção de Deus, o que só fez aumentar a inveja de Florentius. O pobre padre decidiu então atacar a virtude dos jovens monges do mosteiro para assim destruir a reputação de São Bento. Enviou um grupo de mulheres decadentes para dançarem nuas na frente do mosteiro e atrair os noviços ao pecado da luxúria. São Bento, esperando assim apaziguar o ciúme de Florêncio, decidiu proteger seus filhos e deixar o mosteiro.

Quando consideramos todos esses exemplos de sua vida, parece que São Bento sempre foge de seus problemas. Na verdade, ele foge para Deus. Sua grande sabedoria é entender a natureza humana decaída e os meios de curá-la, voltando-se para Deus. 

O impulso constante de sua vida é buscar a Deus e as coisas que O agradam, curando as feridas de nossa natureza corrupta. Ele encontrou essas feridas na sociedade romana quando jovem. Ele as encontrou novamente em sua própria alma, quando sozinho na gruta lutava contra a concupiscência. Ele as observou na alma dos religiosos que tentaram envenená-lo, bem como na alma do padre que tentou matá-lo e destruir as almas de seus noviços. 

Sua vitória constante decorre da humilde e perseverante confiança de sua alma em Deus. Ele percebe a ferida do pecado e se afasta dele em direção à Deus. 

Tendo aprendido essa arte, ele foi capaz de ensinar os outros a fazer o mesmo. Sua regra é como um roteiro que leva a alma humana para longe da miséria do pecado e à presença alegre de Deus que nos ama sem reservas. Ela dá coragem aos filhos para reconhecer seus pecados e assim, pela graça de Deus, mudar suas vidas.

São Elredo de Rievaulx compara São Bento a Moisés, o legislador do Antigo Testamento. Moisés levou o povo escolhido para fora da escravidão do Egito, onde o Faraó os obrigava a fazer tijolos de barro e palha. No deserto, Moisés ofereceu sacrifícios a Deus e construiu a Arca da Aliança. Ele lhes deu os Dez Mandamentos que Deus escrevera em tábuas de pedra para que eles seguissem um caminho seguro para o Reino do Céu. 

São Bento conduz a alma ferida para fora da escravidão do pecado e da escravidão de concupiscência. Ele convida o monge a oferecer o sacrifício de sua vida a Deus e tornar-se Seu templo, em vez de fazer tijolos inúteis da lama dos prazeres passageiros desta vida. Ele dá a seus filhos uma regra de vida que os liberta do pecado e os conduz ao reino celestial de Nosso Senhor.

Um exemplo histórico desse tipo de conversão pode ser encontrado na grande abadia francesa de Cluny. Alguns críticos modernos acusaram a abadia de comprar escravos para explorá-los. De fato, eles compraram escravos, mas não para seu benefício pessoal. Eles educavam os escravos em sua fé e lhes davam também uma formação em agricultura e comércio. Depois que o escravo estava suficientemente instruído, a Abadia de Cluny lhe concedia a liberdade, bem como um pedaço de terra para ganhar a vida. Eles freqüentemente formavam confrarias e se tornavam oblatos do mosteiro. Desta forma, participavam dos benefícios materiais e espirituais do mosteiro. 

Durante as diferentes invasões bárbaras que ameaçaram a existência de toda a sociedade civilizada, esses oblatos procuraram refúgio atrás dos muros dos mosteiros e ajudaram a defendê-los e às suas próprias posses.

A maneira como os monges evangelizavam um país era diferente dos meios modernos empregados pelas ordens mais recentes. Essas últimas enviavam apóstolos viajantes ao redor do mundo para pregar a fé. Estavam sempre em movimento, buscando almas. O modo beneditino de levar a Fé a um país era simplesmente instalar-se ali, convidando os habitantes a ir até eles. Pelo exemplo de sua vida, ensinaram as almas recém-convertidas não apenas como cultivar a terra, mas principalmente como praticar as Virtudes católicas. 

São Bento introduziu o voto de estabilidade na vida monástica. Isto significa que o monge jura permanecer em seu mosteiro sob seu abade até a morte, o que dá grande longevidade à vida cristã e à prática da virtude, onde quer que o mosteiro se estabeleça. Ele também pede a seus monges que façam o voto de obediência e voto de conversão dos costumes, que é essencialmente o voto de praticar a virtude cristã. Mediante essa sabedoria, ele dá aos monges e oblatos das aldeias vizinhas um meio de longo prazo de afastar-se do pecado e ir ao encontro de Deus.

São Bento termina seu prólogo da regra com a visão do que ele espera que a ordem se torne e dos frutos a serem desenvolvidos dentro dos muros de seu mosteiro e nas aldeias ao redor.

“Nossos corações e nossos corpos devem, portanto, estar prontos para a batalha sob as ordens da santa obediência; e peçamos ao Senhor que Ele supra com a ajuda de Sua graça o que é impossível para nós por natureza. E se, voando das dores do inferno, desejamos alcançar a vida eterna, então, enquanto ainda há tempo, e ainda estamos na carne, e somos capazes durante a vida presente de cumprir todas essas coisas, devemos nos apressar a fazer agora o que nos beneficiará para sempre.

“Devemos, pois, constituir uma escola de serviço do Senhor. Nesta instituição esperamos nada estabelecer de áspero ou de pesado. Mas, se aparecer alguma coisa um pouco mais rigorosa, ditada por motivo de eqüidade, para emenda dos vícios ou conservação da caridade, não fujas logo, tomado de pavor, do caminho da salvação, que nunca se abre senão por estreito início.  Mas, com o progresso da vida monástica e da fé, dilata-se o coração e com inenarrável doçura de amor é percorrido o caminho dos mandamentos de Deus. De modo que não nos separando jamais do seu magistério e perseverando no mosteiro, sob a sua doutrina, até a morte, participemos, pela paciência, dos sofrimentos do Cristo, a fim de também merecermos ser co-herdeiros de seu reino. Amém" (Prólogo da Regra)

(The Angelus, Março-Abril de 2020. Tradução: Permanência)

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