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Category: AnônimoConteúdo sindicalizado

Renovação carismática: testemunho de um arrependido

Agosto 10, 2018 escrito por admin

Carta dirigida a sì sì no no:

 

«Gostaria de dar a conhecer minha experiência com a Renovação Carismática e ao mesmo tempo pedir perdão a todas as pessoas, muitas seculares e sacerdotes, que convidei e induzi a entrar em contato com esta nova ‘realidade espiritual’, participando em diversas reuniões de oração de grupos carismáticos que, graças a vossa revista sì sì no no, se me mostram cada vez mais como movimentos de natureza diabólica.

Antes de tudo peço perdão a minha mulher e a minhas filhas por haver sido incapaz de ver os perigos destas ‘seitas’, ou por havê-las conduzido a atividades que, passado o tempo, contribuíram de forma essencial na divisão de minha família e até na nossa separação. Como cabeça da família não fui bem alerta, cegando-me o orgulho carismático; espero que o Senhor, em sua misericórdia, na qual creio, se dignará voltar a unir o que o homem separou.

Realmente podem classificar-se entre as ‘seitas’ os grupos da Renovação Carismática; com efeito, não se pode entrar de fato nestes grupos senão através do ‘batismo no espírito’, e, uma vez que entrou, dificilmente pode alguém sair, já que a Verdade é manipulada, crêem possuí-la, situando-se ademais em um nível espiritual superior com respeito aos demais, que ‘são incapazes de compreender’; não aceitam nenhum conselho, nem sequer de um sacerdote, enquanto este não se mostre de acordo com a visão carismática.

Comecei a assistir, junto com minha futura esposa, ao grupo da Renovação Carismática Comunidade Cristã para uma vida nova, em Villafranca (Itália), no ano de 1981, chegando a ser muito rapidamente um de seus principais membros, e recebendo até pouco tempo depois, como minha mulher, o fatídico e satânico vestígio do ‘batismo no espírito’, dentro já do grupo carismático de Bréscia, o grupo do Pe. Dino Foglio, coordenador nacional da Renovação Carismática.

O grupo, que então contava só com algumas pessoas, centrava-se na personalidade carismática de seu diretor, De Pieri Luciano, de Mântua, que havia sido expulso dos grupos da Renovação em Verona, nos quais eu havia estado, por causa de sua conduta e idéias nada conformes à maioria destes grupos.

Com o tempo, e devido à atração exercida pelo diretor do grupo com seus ‘carismas’ de cura e doutrinamento, crescia constantemente o número de pessoas que participavam nos encontros de oração, os quais tinham lugar às terças-feiras para os ‘renovados no espírito’ (quer dizer, os que já haviam sido iniciados mediante o ‘batismo no espírito’ ou ‘efusão no espírito’, segundo o jargão carismático) e aos sábados para todos em geral. Tais ensinamentos estavam orientados, amiúde, para o conhecimento do Maligno e de suas artimanhas; questões que atraíam a curiosidade dos presentes e que ao mesmo tempo davam a entender, por parte dos que as apresentavam, um profundo conhecimento do mundo referente ao ocultismo. Pouco antes de deixar tudo isso, encontrei no lugar de nossas reuniões, onde rezávamos pelas necessidades dos que se nos encomendavam, um livro de práticas esotéricas e uma pirâmide de metal.

Nas reuniões que se organizavam nos fins de semana sobre diversos temas bíblicos, podíamos ouvir amiúde oradores protestantes, tais como Fred Ladenius, Chablot, Mauro Adragna e muitos outros. Essas reuniões eram também ocasião para recolher fundos (pela inscrição nestes cursos, por fitas cassete e por várias outras coisas). O grupo crescia, muitos receberam a ‘efusão do espírito’, os ‘carismas’ iam aparecendo: amiúde esses ‘carismas’ eram concedidos ou retirados ao bel-prazer do diretor. Os mais solicitados eram os de profecia, discernimento e cura. Era uma espécie de procura dos carismas mais chamativos; só faltava um na comunidade, o principal: a caridade.

Criaram-se pequenos ‘cenáculos’ de oração nas casas dos mais antigos do grupo, para que assim as pessoas iniciadas no caminho carismático pudessem crescer ‘espiritualmente’ de forma mais intensa. Minha casa se converteu em um centro de reunião para um ‘cenáculo’ na sexta-feira pela tarde. Hoje recordo com pesar a decisão nefasta que tomei então: pensava invocar o Espírito Santo, mas invocava, em verdade, o espírito de Satanás; cria louvar a Deus falando diversas línguas, mas, muito pelo contrário, maldizia-o, e isso em minha própria casa, até na Sexta-Feira Santa.

Minhas filhas, com ainda poucos anos, começaram a rezar em línguas estrangeiras. O grupo crescia tanto, que foi necessário fazer duas reuniões no sábado.

Passados dez anos desde o início destas reuniões, teve-se notícia por pessoas de fora das ‘curas’ que ali se produziam; os jornais da região transmitiram as opiniões dos que se haviam sentido ‘beneficiados’, e desta forma o bispo de Verona de então, Dom Amari, enviou um representante seu para informar-se da situação. Este sacerdote não foi bem recebido. Sentado no fundo da sala onde se dava a reunião, não pôde contar com a ajuda dos responsáveis da comunidade para levar a cabo sua missão.

O informe que entregou ao bispo não foi positivo, principalmente por estas três razões:

1) Tempos de oração que se realizam geralmente sob impulsos emocionais, sem espaço para uma adequada catequese que permita uma experiência cristã fundamentada na objetividade da fé e no caráter concreto da vida eclesial.

2) A oração para obter publicamente uma cura, levada a cabo de forma sensacionalista, está centrada na fórmula ‘ver para crer’; tudo isso vivido em um contexto muito emocional, que pode levar a confundir uma sugestão coletiva de pessoas, amiúde em situação difícil, com a intervenção milagrosa do Espírito.

3) A experiência, centralizando-se de forma quase exclusiva na petição de curas, alentava, sobretudo nos enfermos, falsas e ilusórias esperanças que podiam conduzir a uma visão religiosa deformada e às vezes a uma espécie de enfeitiçamento das consciências.

O bispo solicitou aos responsáveis que suspendessem as reuniões, proibindo os sacerdotes, religiosos e religiosas de participar nelas, e de dirigir a intervenção dos fiéis nestes atos, exortando também os seculares a que não comparecessem de maneira alguma. Mas nós, em espírito de ‘obediência’, continuamos com nossas reuniões, afirmando que o bispo não havia compreendido nada e que havia sido mal informado, e que — de qualquer forma — era preciso ‘obedecer a Deus antes que aos homens’.

Enquanto isso, minhas relações com o ‘dirigente’ do grupo se tornaram mais tensas, devido a suas atitudes autoritárias e às decisões pessoais que tomava, pelas quais as pessoas mais humildes eram excluídas amiúde de seus favores. Em nosso grupo se manifestava sempre com mais força o verdadeiro espírito carismático da renovação, quer dizer, os ‘carismas’ próprios do Maligno ou, o que é o mesmo, o orgulho, a inveja, os zelos amargos, e especialmente o ódio e a intolerância para com todos aqueles que se rebelavam contra o chefe carismático. ‘O chefe jamais se equivoca’, dizia-me um membro antigo do grupo. Então eu era o responsável pela seção ‘canto’ dentro da comunidade, mas, por causa destas atitudes contrárias ao que sentiam todos, fui cada vez mais marginalizado. Depois de lançarem contra mim uma mentira que era evidente e dita diante de todos os responsáveis da comunidade, que conheciam a verdade mas não fizeram nada para defender-me, tomei a decisão de deixar definitivamente o grupo.

Neste tempo se foi criando, de forma lenta, uma muito séria incompreensão entre minha mulher e mim, pois ela continuava participando nos encontros de oração. Tempos depois me disseram que sobre ela se haviam pronunciado amiúde orações segundo a maneira típica da ‘Renovação’, com imposição das mãos, invocação do ‘Espírito Santo’, preces em diversas línguas, profecias e leituras de passagens bíblicas. Durante a oração para os enfermos tinha lugar, às vezes, o que segundo a terminologia carismática se chama ‘repouso do espírito’. Trata-se de uma espécie de ‘transe’ consciente, no qual a pessoa afetada chega a ouvir as vozes dos que a rodeiam, mas não pode mover-se. Crê-se que é nesse estado que se está em condições ótimas para a cura.

Dois anos mais tarde minha mulher e eu nos separamos. Durante esse tempo o grupo se havia dividido: a maioria havia seguido o ‘chefe’, instalando-se na nova sede de Peschiera; eu continuava com outros no mesmo lugar, o qual agora era sede de um grupo de Pentecostais de raça negra. Outro grupo se formou graças a novos ‘batismo no espírito’, chegando-se até a pronunciar a invocação sobre um sacerdote, Pe. Saverio Mazzi, encarregado pelo bispo de Verona, Dom Nicora, sucessor de Dom Amari, de estar presente nos encontros de oração. Por essa época conheci um grupo de católicos tradicionalistas de Verona, mas sua Fé católica era incompatível com a minha. Tive de escolher e deixei definitivamente, apesar das dificuldades, a experiência carismática. Dou graças a Deus, o qual me fez conhecer verdadeiros amigos, que nunca me abandonam e que são uma referência constante para mim.

Esses quinze nos passados na Renovação Carismática não deixaram nenhum vestígio positivo em minha vida. Aos 44 anos me encontro sem família, a qual amo e à qual me sinto unido, com a sensação de haver perdido inutilmente tanto tempo e com poucas forças para rezar e seguir o único caminho que considero válido atualmente: o caminho do catolicismo tradicional. De qualquer forma, creio que para os que amam a Deus tudo sucede para seu bem e que Ele pode mudar totalmente em um momento a situação em que me encontro, da qual, ao menos por ora, não vejo saída alguma.

A crise atual da Igreja, da qual Nossa Senhora falou em Fátima e da qual faz parte a Renovação Carismática como elemento principal, terá fim. Acabarão, para maior glória de Deus, as adulações humanas, os falsos carismas e as mentiras dessa espiritualidade demoníaca».

 

Carta devidamente assinada

Pseudo-misticismo modernista

Agosto 10, 2018 escrito por admin

Um padre nos escreve:

 

“Senhor Diretor,

 

"Obrigado, obrigado por sua defesa da verdade católica, obrigado por seus artigos documentados e precisos. Mas, se posso me permitir uma sugestão, porque não lança um olhar mais atento às numerosas publicações "religiosas" que, atrás do biombo do decreto da Congregação pela Doutrina da Fé, confirmado pelo Papa Paulo VI, não são mais submissas ao imprimatur e publicam o que querem? 1 Por exemplo, o que se deve pensar de certas publicações das Edizioni Dehoniane de Roma, que publicam livros como La vrai vie de Dieu de Vassula Ryden, páginas pretensamente escritas "sob o ditado de Jesus"? Ela é comparada a Santa Francisca Romana; "ela comunga tanto entre os católicos como entre os ortodoxos ou anglicanos" (segundo René Laurentin). Que podemos pensar das numerosas "mensagens" de Jesus, de Nossa Senhora, etc...? das profecias sobre o próximo fim do mundo (é assim que se explica o terceiro segredo de Fátima)? E o senhor conhece L´avenir avant l´an 2000 de Jean Stiegler (Edizioni Segno)? Aí encontramos Medjugorje, dom Gobbi e outros "místicos". O que devemos pensar? Como devemos acolher tais publicações, que alguns fiéis submetem a nosso julgamento..."

 

Carta assinada.

 

Caro amigo,

 

Em tempos normais nossa resposta teria sido breve e concisa: os filhos da igreja devem seguir o exemplo de sua santa Madre Igreja, que não exclui as pretensas revelações privadas, mas pede garantias para estar certa de que não se trata de ilusões privadas ou, ainda pior, de imposturas humanas ou de enganações diabólicas. A primeira garantia é que estas "revelações" estejam em harmonia com a Revelação de que a Igreja é depositária há dois mil anos.

São João da Cruz escreve: "Tão grande é a importância de nos servirmos da razão e doutrina evangélica que, mesmo no caso de recebermos algo por via sobrenatural  queiramos ou não  só devemos admiti-lo quando é conforme à razão e aos ensinamentos do Evangelhos" (A Subida do monte Carmelo, 1.2 c. 21 n. 4; ver também em Si Si No No, ed. francesa, de agosto de 1990: Brouillards du révélationnisme et lumière de la foi, pelo padre Calmel O.P.).

E, com esta regra fundamental, se faria justiça à imensa maioria das "revelações" atuais. Mas o atual pululamento de fenômenos pseudo-místicos é tão estreitamente ligado à crise neo-modernista que atormenta a Igreja, que se torne necessária uma explanação muito mais vasta.

 

Raízes protestantes

A Igreja Católica ensina de modo infalível que a fé é essencialmente um assentimento sobrenatural da inteligência à verdade revelada por Deus (Vaticano I, Dz. 1789). Certo, a inteligência é levada a este assentimento sob a ação da graça; certo, esse assentimento é acompanhado de humildade, de confiança, de abandono (o ato de fé não é um frio julgamento científico), mas o ato de fé é antes de tudo e essencialmente um ato da inteligência, a adesão do espírito a uma verdade, obscura em seus "porque" e no "como" e, no entanto, muito certa, porque revelada por Deus, que não se engana nem pode nos enganar.

O protestantismo, ao contrário, realizou uma verdadeira revolução coperniana: o ato de fé, para Lutero, não é um ato de conhecimento ou intelectual (a razão seria, em matéria de religião, inteiramente cega e a Igreja católica teria errado em lhe dar confiança demais), mas um simples ato efetivo ou emocional; não mais a adesão a todas as verdades reveladas (fé dogmática), mas simples sentimento de bem estar espiritual, confiança de ser perdoado e salvo. A revolução coperniana de Lutero achou sua sistematização filosófica no kantismo, que desvaloriza a razão (agnosticismo) e recorre à vontade ou "razão prática" para dar um fundamento à religião.

 

A revolução modernista

O modernismo hoje e o neomodernismo marcham sobre os traços do protestantismo ou do kantismo, mesmo se à oposição kantiana entre "razão pura" (inteligência) e "razão prática" (vontade) eles preferem a oposição entre razão e sentimento: "para os modernistas, escreve São Pio X, a revelação divina não pode ser crível por sinais exteriores, e [...] é somente pela experiência individual ou pela inspiração privada que os homens são movidos à fé" (Pascendi).

De fato, para o modernista, contrariamente às definições infalíveis do Concílio dogmático Vaticano I (De Fide, can. 3 e De Revel. can. 1), o homem não pode saber com a razão se Deus existe realmente nem se interveio realmente na história do gênero humano com uma Revelação exterior. E, no entanto, o modernista não faz profissão de ateísmo. Ao contrário, ele se declara fiel: Deus  afirma  existe realmente e tenho certeza. E de onde pode tirar tal certeza? Não da razão, não da Revelação divina, mas de sua "experiência religiosa". É esta experiência individual, subjetiva, interior, esta "intuição do coração" que, sozinha, para os modernistas, torna o homem certo da existência de Deus: aquele que não "sente" Deus em si não pode achá-lo em outro lugar; somente o sentimento e a experiência religiosa, manifestando Deus ao homem, fazem do homem um "crente" (ver São Pio X, Pascendi). De onde pode deduzir-se que toda atividade do modernista é voltada a fazer e a promover a "experiência" do divino, porque para ele e contra o Concílio dogmático Vaticano I, os homens devem ser levados à fé somente "pela experiência individual ou pela inspiração privada" (Conf. Pascendi e Vaticano I, De Fide can. 3). 

Ora, é verdade que a experiência religiosa, entendida como caminho da fé, traz maior luz e mais calor às verdades da fé, mas também é certo que a vida de fé nasce das verdades da fé e que sem verdades de fé não há vida de fé autêntica, porque neste domínio, igualmente, o conhecimento deve guiar e esclarecer a vontade, a sensibilidade e toda experiência do divino, seja ela qual for. Uma vez posta a doutrina de lado, nada assegura mais ao homem que ele não seja vítima de uma ilusão (ou de uma enganação diabólica) quando segue um convite ou uma atração interior. A pretensão de um contato sensível e imediato com o divino constitui arrogância culpável e é este o abismo pelo qual o falso misticismo se precipita nas ilusões, nas enganações diabólicas, e freqüentemente na lama. Quando esta procura de experiências místicas, mesmo extraordinárias, é acompanhada da recusa, mesmo tácita, da doutrina católica, o abandono da parte de Deus ao "espírito de vertigem" (Is 19, 4) é certo e as imposturas se multiplicam.

 

Desordem doutrinal

Antes de falar nisso é necessário lançar um olhar na desordem doutrinal radical, que no modernismo nasce da exaltação da "experiência religiosa"; desordem que não poupa nenhuma das verdades católicas fundamentais. O pseudo-misticismo, de fato, é somente a ponta de um iceberg diabólico no caminho da Igreja católica.

, já vimos, não é mais (no Modernismo) um assentimento sobrenatural do espírito à Revelação divina, mas um ato emocional muito natural. A Revelação não é mais um fato histórico, exterior ao fiel, fato que se fechou com a morte do último Apóstolo e que veio a nós pela tradição escrita e oral; mas é um fato atual, interior, destinado a renovar-se continuamente em cada indivíduo e para cada geração, é a tomada de consciência pelo homem de sua "experiência" do divino. A própria religião cristã só é o fruto da experiência do divino, realizada na consciência de Cristo, "homem de natureza excelente como nunca se viu nem nunca se verá" (mas somente homem), experiência destinada a se renovar em seus discípulos. Pode-se, entretanto, até se admitir uma "experiência religiosa" análoga igualmente em Maomé, Buda e todos os outros iniciadores de grandes religiões. Além do mais, pode-se admitir em Cristo um grau mais elevado de experiência e de consciência religiosa, mas do mesmo modo que se fala da revelação cristã, assim se pode e se deve falar (como hoje de fato se fala) de uma "revelação" maometana, budista, etc. etc. Isto resulta na abolição de toda diferença entre religião natural e religião sobrenatural revelada, entre verdadeira e falsas religiões: de um lado a religião cristão "do homem Cristo", não menos que nos outros fundadores de religiões positivas, é um "fruto inteiramente espontâneo da natureza" (naturalismo) e, de outro lado, todas as religiões são boas e reveladas por Deus (ecumenismo). Uma vez descartados os motivos da credibilidade do Cristianismo e toda referência doutrinal sólida, e posto no lugar este fundamento de "experiência religiosa— escrevia São Pio X —  "a doutrina da experiência juntamente com a outra do simbolismo, consagra como verdadeira toda religião, sem excetuar a religião pagã. Não encontramos experiências deste gênero em todas as religiões? Muitos o dizem. Ora, com qual direito os modernistas negariam a verdade às experiências religiosas que se fazem, por exemplo, na religião mahometana? E em virtude de que princípio atribuiriam eles, somente aos católicos, o monopólio das experiências verdadeiras? Eles se protegem bem dessas perguntas: uns escondidos, outros abertamente, tomam por verdadeiras todas as religiões" (Pascendi).

Tradição, portanto, não é mais a transmissão das verdades reveladas por Deus mas, sim, a transmissão de "experiências religiosas", que devem suscitar novas experiências (Tradição "viva"). A própria Sagrada Escritura, no antigo e novo Testamento, é somente um produto e uma colheita de "experiências religiosas", e a inspiração não é nada mais do que um impulso que expressa estas experiências.

dogma, enfim, é somente a formulação intelectual, segundo as concepções filosóficas dominantes, de uma experiência religiosa que, contudo, assim como toda experiência, fica individual e incomunicável. Os dogmas, então, não fixam de um modo estável uma verdade revelada, mas são a formulação provisória e sempre imprópria da experiência religiosa. Eles não têm valor cognitivo, mas somente prático. Por exemplo, quando me dizem que Deus me julgará, querem dizer somente: "Comporta-te como se Deus te fosse julgar". Se em seguida Deus me julgará realmente, é um fato que não sabemos e que nunca saberemos (agnosticismo). Um dogma é "verdadeiro" enquanto demonstre ser apto para alimentar a piedade ou a suscitar novas emoções religiosas; se não for mais útil para isto, será "falso" e deverá então ser mudado (evolucionismo dogmático).

Assim, tudo no modernismo é levado ao sentimento e à experiência religiosa e explicado em função destes elementos. A própria Apologética se reduz, para um modernista, a levar a incredulidade e a dúvida a "fazer a experiência" do Cristianismo.

 

A apostasia

Pelo caminho da "experiência religiosa" o modernismo chega também a uma "nova religião", que não é mais a religião fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo. É uma verdadeira apostasia vestida de razões mais ou menos especiosas, particularmente de uma falsa "caridade", porque é privada de seu fundamento que é a fé: a caridade "ecumênica".

 

Sob os véus de uma "mística" enganosa

O repúdio a uma verdade objetiva e imutável (que por si permite julgar pretensas "revelações") associada à procura de "experiências religiosas" mesmo extraordinárias (coisa que é severamente proibida pela verdadeira mística), faz do modernismo, como já fez do protestantismo, o terreno de cultura mais propício para ilusões místicas, fruto da fantasia e do sentimento, por imposturas humanas e mesmo por enganações diabólicas. São João da Cruz escreve: "O demônio se alegra muito quando uma alma facilmente admite revelações, e quando ele a vê inclinada a isto, porque então ele tem numerosas ocasiões e modos de insinuar erros e de derrogar a fé no que lhe é possível" (Subida do Monte Carmelo I, II c. X n. 10).

É um fato (explique quem puder...) que quase todos os "místicos" e os "carismáticos" atuais, sob o véu do convite à oração, ao jejum, etc, etc. (o demônio, como se sabe, está disposto a "perder um pouco para ganhar muito") difundem os dois erros mais perniciosos do modernismo: o indiferentismo religioso e o ecumenismo.

Tomemos o exemplo de Vassula Ryden, a quem nosso amigo leitor fez alusão. Tiramos nossas informações de Medjugorge - espírito e verdade, março de 1992 (pode-se notar que Vassula Ryden e Medjugorje se fazem publicidade recíproca).

Vassula, a "santa Francisca Romana de nosso tempo" (somente porque ela tem marido e filhos), não é nem mesmo católica, mas ortodoxa, e dá a volta ao mundo para pregar aos católicos, em nome do católico "Sagrado Coração" a... "caridade sem fé" dos modernistas (São Pio X). "A chave da unidade — diz ela — é o amor e a humildade [...] Muitos padres ortodoxos gregos pensam que a unidade virá quando os católicos se converterem para se tornarem ortodoxos gregos e muitos católicos pensam o inverso. Bem, as duas partes estão erradas" (pág. 82). "Então, tudo estará no nível do coração?" pergunta o jornalista. Resposta: "exatamente" (pág. 83). E então, afirma Vassula, não há "nenhuma razão para me fazer católica" (pág. 83), o que Jesus quer é "a unidade por meio do coração. A nova (sic!) Igreja que Ele quer unir é unida no coração" (ibid).

Evidentemente, o "Jesus" de Vassula pensa muito diferente do Jesus do Evangelho, que não quer unir nenhuma "nova Igreja", porque sua Igreja Ele já uniu, e não somente "no coração", mas na realidade, e isso há dois mil anos. Depois disso Ele a manteve unida até hoje, não obstante as defecções de numerosos batizados durante os séculos.

"Você nunca se perguntou — sugere a "mística" Vassula à seu entrevistador —  por que Jesus não escolheu um católico para transmitir esta mensagem, apesar de se apresentar como o Sagrado Coração? Ele quis tomar uma ortodoxa que não conhece nada. Ele a forma como quer em termos católicos, precisamente para mostrar que Ele não faz diferença. Sim, a unidade se fará no coração. A virgem disse isso também em Medjugorje" (ibid). Então "no domingo vou à Igreja ortodoxa... nos outros dias vou à católica. Não faço diferença... Jesus me guia e nunca fez objeções a este meu modo de agir." E assim, em nome de Jesus "místico", a "vidente" pretende fechar a boca daqueles que teriam ainda objeções a fazer em nome de Jesus do Evangelho. Não! Jesus — o verdadeiro —  não se contradiz. Não contradiz tampouco o que a sua Igreja ensina infalivelmente há dois mil anos. Na realidade, este "Jesus" de Vassula, sob alguns "termos católicos", leva a crer em uma doutrina não católica: a heresia do modernismo, que considera que todas as religiões são boas; faz que seja "deglutido" o indiferentismo religioso, a "unidade na diversidade" do protestante Cullmann e do cardeal Ratzinger (ver Sim Sim Não Não, julho de 1994, "Ratzinger, Prefeito ecumênico... pela "abolição" do papado...!?").

Esta "unidade no coração", sem unidade de fé, já foi condenada por Pio XI em Mortalium Animos e com palavras que podem parecer ter sido escritas para Vassula Ryden: "Estes "pan-cristãos", que procuram federar as Igrejas, parecem perseguir o nobilíssimo desejo de desenvolver a caridade entre todos os cristãos: mas como imaginar que este crescimento de caridade se faça em detrimento da fé? Ninguém ignora que o próprio São João, o Apóstolo da caridade, aquele que no seu Evangelho transmite de algum modo os segredos do Sagrado Coração de Jesus, aquele que não cessava de lembrar a seus fiéis o novo preceito: "Amai-vos uns aos outros" (1 Jo 4, 7-11), proibia de modo absoluto toda relação com aqueles que não professassem a doutrina de Cristo inteira e pura: "Se alguém vem a vós e não traz esta doutrina, não o receba em sua casa e nem mesmo o cumprimente" (2 Jo 10). (O Ecumenismo. Publicações Courrier de Rome, pág. 137).

Mas eis em nossos dias uma nova "apóstala da caridade", escolhida por Jesus entre os ortodoxos "precisamente para mostrar que Ele não faz diferença", que vem mostrar aos católicos que o Sagrado Coração de Jesus hoje... mudou de opinião e que pensa exatamente o contrário!

 

Um clero e uma hierarquia cúmplices

Que católico pode levar a sério tais "revelações"? As regras católicas para discernir se as pretensas "revelações" vêm de Deus ou de outras fontes (ilusão ou impostura do demônio) são claras: "Devemos considerar como falsa toda revelação privada oposta a uma verdade de fé" (A. Tanquerrey - Précis de théologie ascétique et mystique no. 1501 a). "Então, se [...] nos for revelada alguma coisa nova e diferente no domínio da fé, não devemos aceitar de modo nenhum, mesmo se estivermos certos que aquele que nos manifesta é um anjo do Céu. Assim afirma São Paulo... (Gl 1, 8)" (São João da Cruz - Subida do Monte Carmelo, livro 2, capítulo 27 número 3).

O que dizer então, se não se trata de um anjo que se afirma mensageiro do Céu, mas de uma ortodoxa que, não obstante seus contatos "místicos" com o "Sagrado Coração", proclama que quer ficar no cisma e na heresia.

E no entanto, constata-se (fato mais explicável!) que estes "místicos" e "carismáticos" encontram bom acolhimento pelos clérigos neomodernistas. Os Dehonianos (o falso da imprensa "católica" não conhece mais limites nem medidas), publicam os escritos de Vassula Ryden, enquanto que Laurentin, um dos mais nefastos teólogos do pós-concílio, que não crê na virgindade de Maria mas "crê" em Medjugorje, faz uma propaganda muito ativa da "mística" ecumênica Vassula 2. E Il Segno del soprannaturale (revista italiana que mistura ingenuamente revelações verdadeiras com outras falsas   para ser mais exato: mistura mais falsas do que verdadeiras) publicava há algum tempo a foto de Vassula Ryden recebida em audiência por... João Paulo II!

Aliás, sabe-se por muitas fontes que João Paulo II observa "com inquietude e alegria" os fatos de Mejugorje (cf. Mons. Hnilica em Il Segno del soprannaturale, maio de 1988; ver também Eco di Medjugorje no. 96, outubro de 1992, pág. 1). O cardeal Ratzinger, por sua vez, exprime assim seu "julgamento de fundo positivo" sobre o movimento "carismático": "Certamente, trata-se de uma esperança, de um sinal positivo dos tempos, de um dom de Deus à nossa época" (Conferências sobre a Fé, Cardeal Ratzinger, V. Messori, Fayard, 1985, pág. 186).

Devemos então contradizer estes fiéis, que exibindo pseudo-revelações de pseudo-místicos afirmam que estes são rejeitados pela Igreja oficial. Talvez alguns padres ou bispos, ainda conscientes de sua responsabilidade diante de Deus, se recusem a ser cúmplices de uma fraude tão grave e tão grosseira, mesmo se é orquestrada em escala mundial. É, por outro lado, um fato reconhecido que hoje os "místicos" e os "carismáticos" são favorecidos imprudentemente e sem discernimento, enquanto que os verdadeiros místicos (basta pensar no padre Pio) encontram não somente uma prudente reserva, mas mesmo certa hostilidade. Assim, para nos limitar aos nossos exemplos, o movimento "neo-pentecostal", não obstante suas heresias, denunciadas de muitos lados, conseguiu aprovação e apoio por parte de João Paulo II. Assim o cardeal Ratzinger enterrou habilmente a condenação de Medjugorje pelo bispo Zanic e o julgamento substancialmente negativo ("o caráter sobrenatural dos fatos não está estabelecido") da conferência episcopal iugoslava. Assim, o bispo "guerreiro" Mons. Milingo, que garantiu o falso ridículo da foto "milagrosa" de Jesus (conf. Sì Sì No No, 15 de abril de 1994, pág. 4), contestado por seus confrades africanos, achou proteção e hospitalidade no Vaticano. Como explicar então, esta derrogação à prudência tradicional da Igreja face aos fenômenos "carismáticos"? Porque a hierarquia católica, até o cume (é nosso dever dizer), é composta de numerosos modernistas e filomodernistas favoráveis, por motivos já explicados, às "experiências religiosas" de todo gênero. Basta aqui lembrar Urs von Balthasar, um dos "padres" do neo-modernismo, perdido atrás do falso "misticismo" de Adrienne von Speyr, nomeado cardeal por João Paulo II. O qual João Paulo II desejou e cobriu com sua própria autoridade um simpósio romano em honra de Adrienne von Speyr (v. Sim Sim Não Não de fevereiro de 1994. "Urs von Balthasar, o pai da apostasia ecumênica).

 

"Perder um pouco para ganhar muito"

Há, entretanto, outro motivo que pode explicar o favor mais ou menos tácito dado pelos membros modernistas da hierarquia ao "pseudo-misticismo". Quando o velho modernismo parecia morto, A. Loisy deu assim a razão: "Com menos razão e mais entusiasmo religioso, ele foi mais forte" (Choses passées, pág. 355). Na realidade, os modernistas, conquanto inimigos da razão, são intelectuais e seus sofismas e sua linguagem, se podem fascinar algumas "elites", mostram-se frios e incompreensíveis para a massa (o cardeal Ratzinger, em 30 dias, exprimiu há algum tempo um lamento substancialmente idêntico a respeito dos "novos" teólogos). Logo, não há nada mais adaptado do que os "místicos" ou os movimentos "carismáticos" para suscitar nos simples fiéis este "entusiasmo religioso" que o neomodernismo precisa para não ser, ele também, um "estado maior sem tropa" (J. Rivière) destinado, mais uma vez, à derrota. Mesmo Teilhard de Chardin, S. J., um dos "santos padres" do neomodernismo, queria que a "nova Fé para a Terra" se desenvolvesse no seio do velho cristianismo, "partindo da maravilhosa realidade de seu "Cristo Ressuscitado", não como uma entidade abstrata, mas como objeto de uma larga corrente mística extraordinariamente adaptável e vivaz" (carta a um dominicano apóstata que o convidava a sair oficialmente da Igreja - ver Courrier de Rome, junho de 1994, pág. 5).

Não é temerário supor que os atuais membros modernistas da hierarquia vejam nos movimentos "carismáticos" de toda sorte e em diversas "místicas" ecumênicas, o instrumento mais eficaz para difundir o modernismo no nível da massa, assim como para justificar pelo "Céu" o novo curso eclesiástico. E o povo cristão, duplamente enganado, nem mesmo imagina que é levado para a apostasia através das nuvens "místicas" e "carismáticas" do convite à caridade, à oração e à penitência (jejum inclusive). Tanto é verdade que o demônio "sabe que é preciso perder um pouco para ganhar muito" (bem-aventurada Acarie, fundadora do carmelo na França). E no caso presente, o lance no jogo é enorme e decisivo. Os Papas nos advertiram muitas vezes: "o fundamento sobre o qual [o movimento para promover a união entre os cristãos] se apóia, é de natureza a desorganizar totalmente a constituição divina da Igreja", escrevia Pio IX ao episcopado inglês em 16 de setembro de 1884; e Pio XI advertiu aos católicos, que aderindo ao movimento ecumênico ou o ajudando, eles "estariam atribuindo autoridade a uma religião falsa, inteiramente estranha à única Igreja de Cristo" (Mortalium animos). Não nos deveríamos espantar que Satanás, para sustentar o ecumenismo atual, gaste todas as suas baterias.

 

Como se salvar

Como se vê, caro amigo, a impostura dos "místicos" e dos "carismáticos" atuais de todo gênero (colocamos também nesta categoria aqueles chamados "movimentos eclesiásticos", todos mais ou menos "poluídos" de pietismo), é um fenômeno muito mais grave do que o dos falsos místicos contra os quais, periodicamente, a Igreja teve que defender-se.

Você compreende agora, também, porque nós combatemos de preferência no campo doutrinal; lutando contra os erros doutrinais do neo-modernismo, vamos também à raiz do pseudo-misticismo atual. Seja sobre o plano doutrinal, seja em face às pretensas "revelações", a atitude de um filho da Igreja é substancialmente idêntica: permanecer solidamente no que a Igreja ensina desde dois mil anos e que, no que concerne aos fenômenos místicos, é assim resumido por Tanquerrey:

"toda revelação contrária à fé ou aos bons costumes deve ser inexoravelmente rejeitada, como ensinam unanimemente os doutores apoiados sobre as palavras de São Paulo: "Quando nós mesmos ou um anjo vindo do Céu vos anunciar um evangelho contrário ao que vos anunciamos, que seja anátema". A. Tanquerrey, Précis de Théologie Ascétique et Mystique, no. 1501).

Isidorus

(Revista Sim Sim Não Não n°36, dezembro de 1995)

  1. 1. Paulo VI confirmou, em 14 de outubro de 1966, o decreto da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé (Acta Apostolicae Sedis no. 58/16 de 29.12.1966) permitindo a publicação de escritos concernindo às manifestações sobrenaturais, mesmo se esses escritos não estão revestidos do "nihil obstat" das autoridades eclesiásticas.
  2. 2. Na França, um dos órgãos principais do pseudo-misticismo modernista é a publicação mensal Chrétien magazine, cujo editorialista é o padre Laurentin.

O dever de desobedecer aos homens para obedecer a Deus

Agosto 10, 2018 escrito por admin

Um leitor nos escreve:

 

Prezado Diretor,

Faço questão de participar-lhe do alívio e da satisfação que senti ao ler o Si Si No No de fevereiro de 2003 [edição italiana], especialmente o artigo ‘Autoridade e verdade. Noite ao meio dia?’ [que está sendo publicado neste número da edição brasileira]. Realmente, a brilhante argumentação referente à autoridade papal, que não é absoluta e está limitada pelo direito divino e, portanto, nem sempre obriga à obediência, confirmou-me, mais uma vez, que têm razão de sobra os que decidem continuar pertencendo à Igreja de sempre, isto é, à Igreja da Tradição Apostólica.

Suas demonstrações e provas, dedicadas à refutação dos neomodernistas e “conciliaristas” (que hoje estão soltos pelo mundo e como que possessos por uma sanha diabólica), baseiam-se num plano profundo da moral e da doutrina que nos enche de certeza e esperança quanto ao futuro da Igreja e também à salvação de nossas almas.

Mas, caro diretor, eis aqui a razão de minha carta: há pouco tempo deparei-me com um texto que transcrevo brevemente e que me causou uma pequena “crise” [...]. Trata-se de um livro sobre os grandes santos italianos [...] em que Santa Catarina de Sena, a grande santa do século XIV, padroeira da Itália, dirige-se a Sire Bernabó Visconti, senhor de Milão, um dos mais perigosos inimigos do papado (1373): “Pecamos diariamente, e por isso necessitamos diariamente de receber o perdão de nossos pecados, mas só a Igreja administra este sacramento, por ser a única depositária do sangue do Cordeiro. Então, quão néscio é quem se afasta do Vigário de Cristo, guardião das chaves do céu! Mesmo que fosse o diabo encarnado, o senhor não deveria rebelar-se contra ele, e sim, humilhar-se sempre e pedir o sangue [do Cordeiro] por misericórdia. De outro modo não poderia obtê-lo nem participar de seus frutos. Rogo-vos, pelo amor de Cristo crucificado, que nunca façais nada contra vosso Chefe [...]. Dai-vos conta de que só o demônio pode vos ter tentado a fazer justiça em relação aos maus pastores da Igreja. Não creiais no demônio; o castigo dos prelados não é vossa incumbência; não o consente nosso Salvador, que não quer que Vós nem criatura alguma faça tal justiça, pois é ele próprio quem deseja realizá-la [...]”.

Mais tarde [...], em 1375, a República de Florença rebelou-se abertamente contra a autoridade do Papado; Catarina trovejou e fulminou seus anátemas contra os reitores do Povoado de Sena:

“Quem, como membro infecto, rebela-se contra a Santa Igreja e contra nosso Pai, o Cristo na Terra, cai no domínio da morte, porque o que se faz ao Vigário de Cristo faz-se ao próprio Cristo. Prestai atenção ao que conseguistes com vossa desobediência e perseguições: cair na morte, tornar-vos odiosos a Deus e desagradáveis a Ele; não vos podia acontecer coisa pior do que estar privados de Sua graça. Admito que muitos imaginam não ofender a Deus agindo assim, e que enquanto perseguem a Igreja e seus pastores se desculpam alegando que eles são maus e autores de toda sorte de dano. Mas digo-vos que Deus quer e manda que, apesar de o Cristo na terra e os outros pastores serem diabos encarnados, submetamo-nos igualmente e os obedeçamos. Não por causa de suas pessoas, senão por obediência a Deus, pois o Papa é o vigário de Cristo”.

Chegando a esse ponto, caro Diretor, peço-lhe um comentário, uma explicação sobre as afirmações de Santa Catarina relativas ao Papa e à obediência absoluta que lhe devemos, como parece, em qualquer caso ou circunstância, mesmo que seja o demônio encarnado. Encontro-me entre a “cruz” das poderosas razões que o senhor expôs no artigo supracitado e a “espada” das palavras da padroeira da Itália que parecem, à primeira vista, irrefutáveis e irrepreensíveis”.

Carta assinada

 

Para compreender os textos de Santa Catarina é mister levar em conta que para ela eram perfeitamente normais e verdadeiras as noções de obediência e desobediência. São Pedro também dizia aos escravos que obedecessem a seus senhores mesmo que fossem maus (I Pedro 2, 18) mas, certamente, não queria dizer com isso que deviam obedecer às más ordens dos maus senhores, nem a Igreja jamais o compreendeu assim (caso contrário, os mártires teriam oferecido sacrifícios aos deuses para obedecer ao imperador). Portanto, aproveitando a ocasião que nos oferece o leitor, “tiremos o pó” da doutrina católica sobre a obediência, já recordada aqui em mais de uma ocasião.

Comecemos por descartar que Santa Catarina exija uma obediência “absoluta” ao Papa. Na verdade, a Igreja ensina que a obediência absoluta se deve somente a Deus. Santo Tomás pergunta-se, em sua Summa Theologica se é necessário obedecer a Deus em tudo (S. Th. II-II, q.104, a.4). Sim, responde, porque além de ser o senhor supremo, Deus não pode mandar nada contra a verdade e a virtude (ibid. ad 2). Depois o santo pergunta-se se os subordinados também estão obrigados a obedecer em tudo a seus superiores (S.Th. II-II, q.104, a.5). Não, responde, porque o superior pode mandar alguma coisa contra Deus, e nesse caso é imperativo obedecer a Deus sem considerar a ordem da autoridade inferior, de acordo com o princípio proclamado por São Pedro (At 5, 29): “É preciso obedecer a Deus antes que aos homens”(ibid.).

Tampouco é absoluta a obediência a que estão obrigados por voto os religiosos. Tal obediência está submetida à norma supracitada, e a partir daí Santo Tomás distingue três tipos de obediência:

“A primeira, suficiente para a salvação, limita-se a obedecer nas coisas obrigatórias; a segunda, perfeita, obedece em todas as coisas lícitas; a terceira, desordenada (indiscreta), obedece também no que é ilícito” (ibid. ad 3). Entretanto, é em nome dessa última obediência “indiscreta”, desordenada e sem discernimento, que muitos religiosos e eclesiásticos se dobram frente ao modernismo, outrora condenado pela Igreja.

Assim, “a obediência é ilimitada quando diz respeito a Deus...; quanto aos homens, ela é limitada pelo direito divino (natural e positivo), por toda autoridade humana superior e pela matéria subtraída ao poder do superior” (Enciclopédia Católica, verbete “ubbidienza”).

Não há autoridade humana que seja superior à do Papa, mas seu poder não está isento dos outros dois limites: o direito divino (natural e positivo) e a matéria que não é de sua competência.

A revista jesuíta La Civiltá Cattolica, que era, então, influente, gloriosa e benemérita, escrevia há mais de um século:

Todo poder absoluto nesse mundo repugna. Nem a Igreja o possui: ela tem no Evangelho um código imutável; em seu organismo, uma constituição de que não pode afastar-se; na assistência divina um guia que a conforta. Temos algum poder graças à verdade, mas nada podemos contra ela. São Paulo escreveu: Non possumus aliquid adversus veritatem, sed pro veritate [...]. Só Deus, Senhor supremo de Suas criaturas, carece de limites de qualquer tipo, porque não necessita deles de modo algum, sendo reto e sábio por essência; portanto só Ele é regra para si próprio. [...] Qualquer outro poder só pode ser ministerial, pois acha-se circunscrito por limites e necessita de direção” (vol II, série XV, 1892, pág. 10). Também comentou acerca do Papa em particular: “Mas, enfim, é verdade que o Papa goza de soberania absoluta na Igreja? Tal expressão, se nos fixarmos no sentido próprio das palavras, é falsa. Não há dúvida de que a Igreja parece reger-se monarquicamente – assim é, de fato. Mas uma coisa é pôr no Papa uma soberania monárquica na forma, e outra muito distinta é fazer dele sujeito de uma soberania absoluta. A soberania monárquica refere-se ao sujeito do poder, e significa governo de um só; a soberania absoluta faz referência ao poder, e significa um poder independente de quem quer que seja. O Papa goza da soberania monárquica enquanto que só nele está concentrado todo o governo da Igreja, mas não tem a soberania absoluta, visto que não é rei nem dono da Igreja, senão vigário de seu rei e de seu dono: Cristo. Donde se segue que, assim como o vigário não pode exercer a administração de que está encarregado a seu “bel prazer” e está obrigado a submeter-se às prescrições daquele de quem é vigário, também o Papa não pode conduzir a Igreja de acordo com seus caprichos, mas tem que depender da vontade de Cristo, de quem é vigário. Em outros termos, o Papa tem que guardar, sem violar, as leis e prescrições dadas por Cristo e, atendo-se a elas, tem de administrar a Igreja com prudência” (vol VII, série IX, 1875, pág 193).

Por isso Bento XIV escreveu o seguinte ao bispo de Breslava (12 de setembro de 1750): “O fato de que nós conhecemos isso e o toleramos deve ser suficiente para tranqüilizar vossa consciência, pois nesse assunto não há nenhuma oposição ao direito divino (natural ou positivo) [caso houvesse oposição, a consciência do bispo não poderia gozar de tranqüilidade], somente ao direito eclesiástico”.

E, até mesmo nessa questão de uma tolerância não contrária ao direito divino, o Papa se acha na obrigação de justificar-se: “Tudo que fazemos, testemunhamos diante de Vós, e ao pé do crucifixo, fazemo-lo somente para evitar maiores males à nossa religião”.

Assim respondeu Pio VI a Napoleão, que lhe pedia que anulasse o matrimônio – válido - de seu irmão: “Se usurpássemos uma autoridade que não temos, tornar-nos-íamos culpáveis do abuso mais abominável de nosso ministério diante do tribunal de Deus e da Igreja” (Que Votre Majesté, 26 de junho de 1805).

Compreendido isso, claro está que ao falar de obediência ao Papa, Santa Catarina refere-se, como São Pedro, a ordens que não usurpem uma autoridade que o Papa não recebe de Cristo; ela se refere a ordens que não contrariem o direito divino (natural ou positivo), que mesmo sendo um “demônio encarnado”, o Papa pode dar. Se além de ser um “demônio encarnado” o Papa der ordens próprias de um “demônio encarnado”, então o fato de ser Papa não basta para “tranqüilizar a consciência” de ninguém (cf. Bento XIV cit).

A obediência, na verdade, exige não apenas que a autoridade seja legítima, mas que as ordens sejam também legítimas (e por aqui se vê a inconsistência do sedevacantismo: se meu pai me ordena algo mau, não devo me preocupar em provar que ele não é meu verdadeiro pai. Para negar-lhe obediência, basta que sua ordem seja má).

A obediência é uma virtude moral, não teologal. Entre as duas categorias há uma diferença fundamental: não é possível pecar por excesso nas virtudes teologais (fé, esperança e caridade), porque tendo Deus por objeto direto, quanto mais se crê, mais se espera e mais se ama, melhor. Nas virtudes morais, entretanto, pode-se pecar por excesso ou por falta. Quanto à obediência, “peca-se por defeito quando não se executa uma ordem legítima. Nesse caso, há desobediência. Peca-se por excesso contra a obediência quando se obedecem a coisas contrárias a uma lei ou um preceito superiores; nesse caso há abjeção (ou servilismo)” (cf Roberti, Dizzionario de Theologia Morale, ed. Studium verbete “ubbidienza”). Por isso São Francisco de Sales escreve: “Muitos se enganaram profundamente ao crer que a obediência consistia em cumprir, com ou sem razão, tudo que nos é mandado, mesmo quando for contrário aos mandamentos de Deus e da Santa Igreja, no que erraram sobremaneira [...] porque em tudo que diz respeito aos mandamentos de Deus, os superiores não têm faculdade para dar uma ordem contra eles e os subordinados não têm jamais obrigação de obedecer em tal caso. Pior ainda: se obedecessem, cometeriam um pecado” (Centelhas Espirituais, cap IX, págs 170-171).

Assim, o dever de obedecer pressupõe sempre que a ordem do superior seja sempre legítima. Caso contrário, não há obediência e sim, pecado contra a obediência. E para a obediência perfeita, também chamada “cega” o Padre Persh esclarece: “Para que ocorra um ato de obediência é necessário que o subordinado veja duas coisas: 

1o. Que quem manda é um superior competente.

2o. Que aquilo que ele manda não é um pecado. 

Para assegurar-se desses dois pontos, a obediência deve enxergar e não ser cega... Em que sentido então se fala de obediência “cega” como ato perfeito de obediência? No sentido de que, estando seguros acerca dos dois pontos acima, tanto da competência do superior quanto da liceidade de sua ordem, nós excluímos a prudência carnal, que torna odioso para nós tudo aquilo que vai contra nossa natureza corrompida e nos estimula a buscar razões para subtrairmo-nos aos preceitos desagradáveis” (Pralectionas Dogmatical, t. 9, ed 1923, nn 261 s.).

Contudo, há um caso em que se deve ao Papa uma obediência “verdadeiramente” cega, e é quando ele fala “ex cathedra” (magistério extraordinário infalível) ou quando ele propõe novamente o que a Igreja sempre creu e ensinou (magistério ordinário infalível). Assim, a obediência cega pressupõe uma autoridade infalível (cardeal Billot, De Ecclesia): no primeiro caso, o Papa goza pessoalmente da infalibilidade prometida a Pedro e a seus sucessores; no segundo, seu ensino goza da infalibilidade prometida por Nosso Senhor Jesus Cristo à sua Igreja em geral. Por isso, a obediência cega, que “não examina a intenção nem pesa as razões [...] é absolutamente necessária em relação a Deus e ao magistério infalível da Igreja” (Enciclopedia Cattolica, verbete “ubbidienza”).

Conclui-se que, fora do magistério infalível, vale para o Papa o mesmo critério que para qualquer superior (melhor dizendo, vale com maior razão para o Papa, dadas suas gravíssimas responsabilidades): nos casos em que ele não goza do dom de infalibilidade, ele tem o dever de ser muito prudente e os súditos não têm obrigação de obedecer “cegamente”, achando-se, sim, obrigados àquela obediência que pode e deve “enxergar”, como dizia acima o padre Persh. “Enxergar” é perceber com o “sensus fidei” (que não é o juízo pessoal dos luteranos) um contraste com o que a Igreja sempre creu, ensinou, e praticou constantemente. Claro, não nos referimos a um contraste de gostos ou opiniões particulares.

Por isso os bispos alemães responderam a Bismarck, depois da definição da infalibilidade pontifícia, que “a Igreja Católica não é, certamente, uma sociedade em que se admite o princípio imoral e despótico de que a ordem do superior libera, sem condições, os inferiores de qualquer responsabilidade pessoal”; e que tampouco a infalibilidade faz do Papa “um soberano absoluto”, como pretendia o chanceler alemão, porque “a infalibilidade é uma propriedade que se refere unicamente ao magistério supremo do Papa; e isto coincide com o âmbito do magistério infalível da Igreja em geral e está diretamente ligado às Sagradas Escrituras e à Tradição, assim como às definições efetuadas pelo magistério eclesiástico”.

Pio IX aprovou, em nome de sua suprema autoridade apostólica, a supracitada declaração coletiva dos bispos alemães, louvou-a e fê-la sua, e por isso ela figura no Denzinger 5 (cf parag. 3115-3116).

Na Inglaterra, Gladstone acusou os católicos de não poderem ser súditos leais à rainha porque deviam ao Papa uma obediência “absoluta”, o que dava ao Papa “o direito de criar uma consciência falsa para seus fins” e tornava os católicos “escravos intelectuais e morais”. O cardeal Newman respondeu que o Papa não reivindicava uma obediência absoluta, nem os católicos obedeciam daquela maneira, em coisas lícitas ou ilícitas. Newman citou São Belarmino, entre outros doutores da Igreja: “assim como seria lícito resistir ao Papa se ele atacasse fisicamente qualquer homem, também seria lícito resistir-lhe se ele atacasse as almas e perturbasse os Estados, e com maior razão se ele pretendesse destruir a Igreja. Seria lícito resistir-lhe não cumprindo o que ele mandasse e impedindo que sua vontade fosse cumprida” (Newman, carta ao Duque de Norfolk, Belarmino, De Romano Pontifice, II, 29). Se devêssemos interpretar os textos de Santa Catarina no sentido em que entendeu nosso leitor, com sua conseqüente perturbação (o demônio é bem esperto na hora de arrumar um jeito de roubar a paz às almas de boa vontade), teríamos de dizer que, apesar do ensinamento da Igreja e de seus doutores, a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo é realmente uma sociedade em que está vigente o princípio imoral segundo o qual a ordem do superior libera, sem condições, os subordinados de toda responsabilidade pessoal, o que é falso. Portanto, devemos supor, e a história daquele tempo no-lo confirma, que se tratavam de príncipes ou governantes que resistiam a ordens papais legítimas (ou que não estavam fora de sua competência) e que se justificavam hipocritamente, como se depreende da carta ao povo de Sena, com o pretexto da indignidade pessoal do Papa e dos demais pastores da Igreja; por isso, Santa Catarina sublinha que se devia obediência “àquele e a estes, não por causa de suas pessoas, mas por obediência a Deus, de quem o Papa é vigário”. A Santa não teria escrito tal coisa se a obediência exigida pelo Papa fosse contrária a Deus e ao ofício do vigário de Cristo.

Quando as ordens ou as diretrizes do Papa contradizem o direito divino (natural ou positivo), deve-se obediência a uma autoridade mais alta que o Papa, a Jesus Cristo Nosso Senhor, de quem ele é o vigário. Vale então para o Papa o que vale para toda autoridade terrena: “quando o mandato é contrário à razão, à lei eterna, à autoridade de Deus, então deve-se desobedecer aos homens para obedecer a Deus” (Leão XIII, Libertas Praestantissimum, no. 15).

No que tange à situação atual, limitar-nos-emos a uns poucos exemplos:

1) Sabemos que Deus quer que o Evangelho seja pregado a todos os homens, porque não há salvação fora de Jesus Cristo nem de sua Igreja (Mc 16, 15-16), e por isso a Igreja sempre foi missionária.

O ecumenismo atual, entretanto, quer que abracemos a idéia de que já não é necessário pregar o evangelho de Jesus Cristo, nem que as pessoas sejam batizadas em sua Igreja; além disso, tacha de “proselitismo” toda ação missionária de cunho tradicional, porque dizem que para os mouros se salvarem basta que sejam bons mouros (o que significa negar a Trindade de Deus, a divindade de Jesus Cristo, a realidade de seu sacrifício pelos homens, etc.); para os hindus, basta serem bons hindus (o que significa até negar a unidade de Deus), e assim para todos os outros, inclusive os heréticos e cismáticos.

A quem prestaremos a obediência de nosso intelecto: a Deus ou a alguns homens da Igreja que traem a Deus e a sua Igreja? (Não julgamos seu grau de responsabilidade, porque não nos cabe julgar).

2) O direito divino proíbe que os fiéis tenham parte e relação com os infiéis, a não ser no campo das atividades materiais e por necessidade (São Paulo: Haereticum hominem devita: “evita o herege”, Tito 3, 10, e São João: “Nem sequer o saudais”. 2 Jo. 10, etc.). Na verdade, é um pecado contra a fé expô-la ao perigo (cf. Enciclopedia Cattolica, verbete fé). O ecumenismo atual, entretanto, promove contatos em todos os níveis, inclusive no âmbito do culto e da pregação (intercâmbio de púlpitos), com infiéis de todo tipo (hereges, cismáticos, idólatras).

A quem devemos obediência: a Deus, ou a homens que, mesmo sendo homens da Igreja, não agem como tais?

3) Nosso Senhor Jesus Cristo fundou sua Igreja na unidade da fé, raiz e fundamento da vida cristã e de toda virtude, a caridade inclusive, porque é conforme à própria natureza do homem que a concórdia das vontades nasça da concórdia das inteligências (cf. Leão XIII, Satis Cognitum, Pio XI, Mortalium animos).

O ecumenismo atual nos diz, entretanto, que devemos colocar a “caridade” como fundamento, desconsiderando a fé e abraçando a idéia de “unidade na diversidade” (salta aos olhos que se referem à diversidade de fé, porque a diversidade na unidade de fé sempre houve na Igreja). A quem obedeceremos: a Deus ou aos homens? E poderíamos estender-nos muito mais em nossos exemplos. 

Sabemos – porque a Santa Madre Igreja sempre nos ensinou (e porque a reta razão no-lo dita) – que é preciso obedecer primeiro a Deus, e depois aos homens (Atos, 5, 29), mesmo que sejam homens da Igreja (mas que abusam de sua autoridade). Conclui-se que, com tranqüilidade de consciência, defendamos nossa fé e a de nossos irmãos contra o “novo rumo” promovido na Igreja em nome de um concílio apresentado como “pastoral” e imposto como “dogmático”; melhor dizendo, como se fosse o único concílio dogmático, ou ao menos como se fosse superior a todos os demais, inclusive ao de Nicéia (Paulo VI!), que defendeu a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo contra Ário.

O que diria hoje Santa Catarina? Ela fez os desobedientes voltarem à verdadeira obediência, mas em sua carta ela também exortou aos Papas, com extrema franqueza, que cumprissem seus deveres: “Peço-vos que façais virilmente o que tendes de fazer, e com temor de Deus”. “Sede homem varonil, não um covarde” (a Gregório XI). Assim, as deficiências daqueles Papas não eram nem de longe como as da hierarquia atual. E tal comentário não supõe que estejamos nos arrogando o direito de “julgar” o Papa (ou os outros pastores). Na verdade, escreve Vitoria, grande teólogo dominicano, citando Caetano e outros teólogos de renome na Igreja: “Nós afirmamos tudo isso (o direito de resistir, inclusive publicamente, ao Papa que demole a Igreja), não porque alguém tenha o direito de julgar o Papa ou porque tenha autoridade sobre ele (exceto Deus, entende-se), mas porque é lícito defender-se. Todo mundo goza do direito (inclusive natural) de resistir a um ato injusto, de tentar impedi-lo, de defender-se dele” (Vitoria, Obras, pág. 487). Com maior razão quando se trata de fé.

Não, os príncipes e governantes a quem Santa Catarina escrevia, não tinham de escolher, como nós, entre a fé e uma “obediência” indevida ao Papa, entre a fidelidade a Cristo e uma “fidelidade” indevida a seu vigário, que deslumbrado pela quimera do ecumenismo, sai de seus limites de vigário e expõe a fé, as almas e a Igreja a todos os tipos de perigo. Caso contrário, Santa Catarina, ao exortar-nos a uma falsa obediência ao homem, indevida e ruinosa, teria nos exortado a desobedecer a Deus para obedecer aos homens.

 

Georgius

 

Islã: religião tolerante e favorável ao Catolicismo?

Agosto 10, 2018 escrito por admin

Nas discussões atuais sobre as relações entre o Islã e o Cristianismo defrontamo-nos continuamente com três juízos preconcebidos que não resistem a um estudo preciso do que é o Alcorão. Esses juízos, no entanto, parecem paralisar de maneira preocupante a capacidade de defesa da nossa sociedade contra essa religião cheia de perigos. São correntes de fato, as seguintes afirmações:

1) É preciso distinguir entre islamitas fanáticos e muçulmanos moderados. Estes últimos se referem, com razão, às exortações à tolerância feitas por Maomé: é preciso, pois, colaborar com estes;

2) Os judeus e os cristãos gozariam segundo o Alcorão de certos direitos: enquanto juridicamente “protegidos”, eles deveriam ser separados dos “infiéis” que o Islã combateria mais duramente;

3) A base dessa distinção estaria na classificação alcorânica dos judeus e dos cristãos como “gente do livro”, porque titulares de uma Escritura inspirada por Deus. Nesse contexto, cita-se muitas vezes a Surata 5, 51 segundo a qual o Cristianismo dependeria abertamente, em aparência, das normas da Bíblia: “As pessoas do Evangelho julgam portanto segundo o que Deus revelou nele”.

Começando por esse último ponto, cabe notar que seria totalmente errado considerar que o Alcorão reconhece as verdades anunciadas no Novo Testamento tais quais chegam a nós na Tradição Apostólica. Na realidade, não se pode avaliar corretamente a referência do muçulmano às duas outras “religiões do Livro”, se não se conhece a doutrina do tahrif, isto é, em substância, a acusação que se dirige igualmente aos judeus e aos cristãos, de terem falsificado a posteriori a Revelação recebida, que é — segundo os muçulmanos — a que originariamente teria sido comunicada ao “profeta” 1. Essa doutrina é originária de Sour e está solidamente enraizada no Alcorão (cf. Surata 5, 16-18). A teoria da falsificação oferece aos muçulmanos, com efeito, a chave hermenêutica para interpretar as contradições múltiplas, unilaterais e muitas vezes grotescas, que se encontram entre o Alcorão de um lado e Antigo e o Novo Testamento de outro. Infelizmente, no clima atual, cheio de irenismo ecumênico, perdeu-se o conhecimento dessa condição de base, decisiva para compreender a maneira segundo a qual o Alcorão entende o Cristianismo; um conhecimento que, no século XV, o grande papa humanista Pio II possuía ainda que de maneira totalmente natural... Esse papa fez de fato a única coisa que era realmente essencial: refutou essa doutrina completamente absurda, com uma série de análises críticas apertadas dos textos 2.

A origem da teoria não falta de interesse. O Alcorão afirma ter sido comunicado diretamente a Maomé pelo arcanjo Gabriel (Surata 2, 91) e pretende que representa uma cópia, comunicada oralmente, do Livro original que se encontra no céu e que constitui como o arquétipo de todas as outras Santas Escrituras (Surata 56, 77-80). Em nítida oposição a essas afirmações, nenhum especialista moderno honesto pode negar que Maomé, à maneira dos sincretistas, tenha claramente se servido de empréstimos tomados ao seu próprio meio cultural. De resto, isto já lhe tinha sido censurado durante toda sua vida (Surata 16, 103). As fontes desses empréstimos, que não podem ser concretamente negadas, são o gnosticismo “cristão” e sobretudo o maniqueísmo que lhe está ligado.

Por grandes que sejam as diferenças entre os sistemas religiosos de um Manés e de um Maomé, não se pode no entanto negar que o árabe tenha tomado diversos elementos (de modo algum secundários) da escola do persa. Dessa última escola vem de fato a teoria de uma sucessão profética na qual os anúncios ou revelações sucessivas são consideradas como cópias perfeitas de um Livro que é o arquétipo celeste da Revelação, cópias que teriam sido, não obstante, falsificadas pelos homens (com exceção, naturalmente, da cópia original!). E exatamente do mesmo modo que Manés, Maomé definiu como o “Marca dos profetas” (Surata 30, 40); e claramente como o “Paráclito” prometido por Jesus (Jo. 14, 16 ss.). (CF. Surata 61, 6, onde a palavra grega é interpretada de maneira completamente falsa, como se significasse “o glorioso” [e não o consolador n.d. t.], que em árabe, é ahmed, ou ainda, Mohammed, Maomé). À maneira dos gnósticos, as duas religiões negam, pelo contrário, o sofrimento físico e a morte de Jesus na Cruz, e a Redenção oferecida aos homens que dela resulta (Surata 4, 157). Esses aspectos e outros foram daí por diante definitivamente estabelecidos pela mais recente pesquisa científica 3.

Abordemos agora os dois juízos apriorísticos mencionados nos pontos 1) e 2). No que diz respeito ao primeiro, muitas vezes se superestima a condição de “protegidos”, afirmando que ela seria capaz de garantir os judeus e os cristãos que se encontram sob o domínio muçulmano. Todo “Dhimmi” ou “protegido” goza, em realidade, de uma liberdade (relativa) de religião, em troca da qual ele deve pagar uma taxa — algumas vezes alta — e contentar-se com uma posição subordinada na sociedade e no Estado4. Assim, por exemplo, é expressamente proibido aos muçulmanos ligar-se por amizade com judeus e cristãos (Surata 5, 56). Mas — o que é ainda pior — também é superestimada a amplitude da tolerância no Islã. Seu conceito, no Alcorão, não se deixa caracterizar jamais, de maneira unívoca e moral, nem mesmo para os muçulmanos. Os islamitas fanáticos poderiam, por exemplo, referir-se à versículos do seu “livro sagrado” com a mesma legitimidade com que os muçulmanos liberais, ao aludir a outros versículos, invocariam esse mesmo “livro sagrado” para demonstrar a disponibilidade pacifica de sua religião ao diálogo. A causa de um fato tão extraordinário está nas numerosas contradições que se encontram nas Escrituras de Maomé, contradições determinadas, em grande parte, pela radicalização extrema da vida do “profeta”, particularmente após sua transferência de Meca para Medina 5. Com isso, as relações de Maomé com os judeus e os cristãos foram enormemente perturbadas. Assim, na Surata 9, 29-33, os cristãos são considerados como adoradores de ídolos e pagãos assimilados aos “infiéis”, por causa da sua fé na natureza divina de Cristo: o Alcorão incita, portanto, à luta contra eles6. O que espera os cristãos quando os muçulmanos se sentirem obrigados a preparar a Djihad, o “grande esforço” pela “ortodoxia”, no plano da luta armada, encontramos na Surata 47, 4 e 5: “Quando reencontrar aqueles que não crêem, mate-os [literalmente: corte sua cabeça], até que tenha feito um massacre; então, reforce os ferros dos restantes. Depois disso, ou dê-lhes a graça [literalmente: liberte-os] ou exija um resgate, até o momento em que a guerra tenha deposto suas armas”.

Quando se conhece esses contextos, não é possível evitar o espanto ante o fato de que, recentemente, Walter Kasper — bispo alemão — haja anunciado que nada tem a objetar à introdução de cursos de religião islâmica nas nossas escolas 7. O porta-voz da representação da C.D.U. no parlamento do Saarre, J. Schreier, mostrou, por sua parte, melhor compreensão da realidade. Numa carta ao diretor 8 sobre o mesmo tema, repetiu que existem dúvidas consideráveis a respeito de que princípios determinados do Islã possam harmonizar-se com a Constituição do “Land”, assim como com a concepção dominante dos valores e com os fins da educação. Entre esses princípios (incompatíveis) cita-se: a posição da mulher na sociedade, a poligamia, o sistema penal draconiano do Alcorão, a falta de liberdade de fé e de consciência, a falta de tolerância para com as outras crenças e a vinculação da religião com o Estado. A assembléia de primavera da Conferência Episcopal Alemã, que houve em Münster no início deste ano, sentiu-se obrigada a manifestar sua preocupação face à evolução da situação na Argélia, no Paquistão e no Sudão, países nos quais as minorias cristãs estão sempre mais ameaçadas, não somente no livre exercício da sua fé mas também na sua vida e nos seus bens 9. E na Turquia, que foi um tempo considerada muito liberal nos assuntos religiosos, poderia-se citar episódios específicos, que demonstram como se tornou cada vez mais difícil dar às crianças uma educação cristã, conservar os lugares de reunião e as instituições cristãs 10. Quem estiver seriamente convencido de que o ensinamento do Islã nas escolas alemãs deveria ajudar a incentivar as tendências de um Islã moderado e tolerante se verá constrangido a lamentar sua incompreensão da realidade. Em todo caso, deverá meditar a conclusão que tiraremos deste artigo. Perguntemo-nos, de fato, abertamente e com espírito crítico se, como cristãos, por causa da tibieza da nossa fé, não temos nós boa parte de responsabilidade pela rápida expansão do Islã em nossos países. Um chefe religioso iraniano, o cheik Morteza Motahhari, recentemente exprimiu-se com desprezo totalmente justificado sobre o modo de conceber a religião no Ocidente: “Não é possível que alguém negue a existência de Deus ou de Jesus e ainda afirme ser cristão. São pequenas brincadeiras que não têm nada a ver com a religião autêntica da qual a humanidade tem necessidade11.

(Extraído de Mitteilungsblatt der Priesterbruderschaft St Pius X fuer den deutschen Sprachum. Boletim da Fraternidade São Pio X, de lingua alemã)

 (Revista SIM SIM NÃO NÃO n° 45 ― Setembro de 1996)

 

  1. 1. H. Stieglecker, Die Glaubenslehre der Islam, Paderborn 1962, pp. 79 ss.
  2. 2. R.W. Southern, Das Islambild der Mittelalters, Stuttgart 1981, p. 68.
  3. 3. T. Olsson, The Manichean Background of Eschatology in the Koran in Manichean Studies, Lund 1988, pp. 273-282.
  4. 4. A. Th. Khoury, Toleranz in Islam, Munich 1980 p. 209.
  5. 5. Islam-Lexikon, Herder 1991, II p. 461 ss.
  6. 6. H. Busse, Die theologischen Bezienhungen der Islam zu Judentum and Christentum, Darmstadt 1988, p. 59.
  7. 7. Informação do Deutsch Tagesport de 19.01.1995 p. 8.
  8. 8. Rheinische Merkur de 10.02.1995 (p.8).
  9. 9. Deutsch Tagesport de 11.03.1995 (p. 1).
  10. 10. Deutsch Tagesport de 16.03.1995 (p. 3).
  11. 11. Focus 6/1995, p. 208.

Reflexões sobre as exigências espirituais na ordem temporal

Agosto 10, 2018 escrito por admin

Há verdades fundamentais que cada vez se nomeiam menos, quando não são deixadas sistematicamente no esquecimento; silêncio que explica por que nossos contemporâneos encontram um não sei quê de estranho e antinatural cada vez que, devido a circunstâncias excepcionais, estas verdades chegam a seus ouvidos.

Convém observar que em tempos normais — tanto em sua vida social como pessoal — o homem manifesta uma atração pela verdade se esta se apresenta sob uma aparência lisonjeira e sedutora. 

E se, ao contrário, a verdade requer um esforço nos atos ou uma renúncia? O homem se aparta rapidamente para seguir seu próprio interesse ou prazer; não consente em escutar essa voz que vem do alto, e só o faz quando que se encontra oprimido, metido em um caminho sem saída ou presa do sofrimento.

Chegamos nós hoje a tal extremo no plano das realidades temporais? Sem dúvida ainda não de todo. No entanto, desde há alguns anos um sentimento novo parece manifestar-se nas massas: um desgosto e uma inquietude que não provêm somente das dificuldades do momento presente ou das dificuldades que se prevêem para um futuro mais ou menos próximo, mas que consistem mais profundamente em uma angústia mesclada com um ceticismo acerca das respostas dadas às aspirações humanas de felicidade e de justiça em todas as formas técnicas de organização.

Na medida em que estas dúvidas afastem de nós uma segurança artificialmente alimentada durante décadas pelo racionalismo e pelo positivismo político, devemo-nos alegrar: o florescimento de tal sentimento é provavelmente a percepção do que um filósofo chamou “a insuficiência essencial das coisas visíveis”. Sobre a terra, somente o homem é capaz desta percepção.

O fato curioso é que esse fenômeno geral e ainda bastante informe não parece ser advertido no plano da classe dirigente, seja porque esta tem o poder e em tal caso não percebe o que sucede nos corações inquietos acerca da ordem por ela estabelecida, seja porque se encontra na oposição, em cujo caso se mostra totalmente insensível àquilo que não entra em uma visão catastrófica do homem e das coisas.

De qualquer forma o fato está aí, imponente. E assim os “políticos”, em vez de dignar-se considerar esse desgosto coletivo, se limitam a lançar reformas superficiais, incessantemente submetidas a discussões por um prurido psicológico de mudanças, ou a elaborar programas unicamente centrados no melhoramento das condições técnicas.

Essa solicitude pelo progresso material, comum a todas as instituições, trate-se de instituições amigas ou rivais, impede-lhes conceber o futuro de outra maneira que não seja sob a forma de uma benéfica evolução contínua, concebida segundo o modelo — admirado por todos — do desenvolvimento científico. Desta perspectiva, a visão social do futuro não pode evidentemente consistir em outra coisa senão em proporcionar cada vez mais abundantes vantagens e direitos aos cidadãos, os quais cada vez estão mais exigentes com respeito à quantidade e variedade dos alimentos terrestres oferecidos a seu apetite.

 

Só se trata de um consumidor para alimentar e divertir?

É verdade que faz parte da responsabilidade do Poder procurar tais bens, e seria injusto reprovar a dita preocupação dos governantes, os quais se esforçam com boa vontade e com talento por corresponder às aspirações gerais da população. Todos esses esforços, no entanto, não impedem que as coletividades entrem em uma engrenagem geradora de novas dificuldades. Assegura-se-nos um nível de vida cada vez mais alto, mas os recursos do universo são ilimitados? A explosão demográfica do Terceiro Mundo nos permitirá desfrutá-los tranqüilamente? Os danos trazidos pelo progresso técnico não atentam contra o bom funcionamento dos fatores naturais? E, sobretudo, o homem se torna com tudo isso mais sábio?

Os governantes do mundo se submetem ansiosamente aos problemas próprios de nosso tempo recorrendo a novos remédios materiais, dado que, uma vez mais, não podem imaginar outros. 

Como não se perguntar se esse comportamento político-econômico universal não traduz uma filosofia do homem radicalmente insuficiente, que desemboca no desconhecimento de suas necessidades autênticas?

É como se nossos governantes considerassem o homem só sob o aspecto de um consumidor que há que alimentar e divertir, como se não vissem nele mais que uma emanação da ordem material, já que não se fala nunca do que constitui sua essência e sua nobreza, ou seja, sua participação na ordem espiritual, nem, com maior razão, se fala da subordinação da ordem espiritual à da Graça.

Podemos figurar a diversão dos homens públicos a quem se pediu que se debruçassem sobre as exigências morais e espirituais dos cidadãos, assim como, por outra parte, podemos figurar a irritação dos ditos homens se lhes dissessem que as vantagens materiais devem ter em vista seu próprio bem e não a satisfação de seus próprios egoísmos; sua ascensão às alturas e não seu envilecimento na lama.

Ai de mim! A maior parte de nossos chefes — também cristãos (sem dúvida cristãos na vida privada, mas fortemente “laicilizados” em seus pensamentos e comportamentos políticos, por terem demasiado bem aprendida a lição dos clérigos desviados) — já não querem saber que coisa é o homem, donde vem, para onde vai, as aspirações de seu coração nem a grandeza de seu destino.

 

Subdesenvolvimento moral e espiritual

É mister ir ainda mais longe e deplorar o fato de que a filosofia política dos tempos modernos se baseia no repúdio deliberado da “ferida original”, sem a qual é impossível compreender o homem e ajudá-lo eficazmente no plano político-social.

Alguns pensadores disseram que seria necessário dar ao mundo “uma alma suplementar” ou recordaram que as civilizações são mortais. Suas vozes não são escutadas: a batalha cotidiana, provocada pela busca dos próprios interesses, sufoca todos os clamores da razão.

Para estarem ainda mais seguros de que nenhuma luz seria projetada sobre a condição real do homem, foi negado às autoridades espirituais o direito de “informar” e de “animar” a ordem temporal, deixando-lhes somente o direito de ocupar-se do culto e a possibilidade de testemunhar sua simpatia a um mundo em decadência, e é necessário reconhecer que, salvo raras exceções, elas não fizeram muitos esforços por rechaçar a voz do Tentador.

É finalmente demasiado evidente que os bens materiais, ainda que sejam necessários tanto para o exercício da inteligência especulativa e prática como para a satisfação dos sentidos, não podem nutrir o corpo nem a alma. Mas os governantes não olham para o alto: limitam-se a formar eruditos, artistas, técnicos, amantes de doçuras sensíveis e de raciocínios sutis. Estão oficialmente impossibilitados de formar corações leais, ardentes e puros, almas cheias de coragem e de fé. Esse campo está “minguado”, “posto entre parênteses”, como dizem os filósofos alemães.

O resultado dessa extraordinária carência se manifesta agora: o mundo inteiro se encontra imerso em um subdesenvolvimento moral e espiritual, o qual comove todos os ambientes, e do qual pouquíssimos homens públicos parecem ter consciência, sem porém ousar dizer uma palavra.

 

Ao rés do chão, como as andorinhas que anunciam a chuva

Conhecer sempre mais a fundo o mundo exterior, interpretá-lo e transformá-lo para melhor gozá-lo parece ser verdadeiramente o único objetivo dos governantes e dos governados.

Até que ponto chefes e cidadãos compartilham esta visão mutilada e mutilante do homem, pudemos constatá-lo por ocasião dos debates sobre a anticoncepção e o aborto. Guias e guiados, todos sofrendo a mesma cegueira, trabalharam por via legal no delito mais inescusável, explicando solidamente seu repúdio em aceitar que no homem há algo que ultrapassa o mesmo homem.

No entanto, essa cumplicidade não tira absolutamente a maior responsabilidade dos governantes.

Os programas que hoje nos propõem sofrem todos esta lacuna. Nenhuma perspectiva ética ou espiritual se delineia, nem sequer em filigrana. Seja em nome da justiça, do progresso ou da liberdade, nós continuamos voando ao rés do chão como andorinhas que anunciam a chuva. Não nos surpreendamos que nessas condições nos choquemos contra obstáculos que podíamos evitar alçando os olhos um pouco mais alto.

Não imaginando tampouco a subordinação da ordem temporal à ordem espiritual e da ordem espiritual à ordem sobrenatural, os governantes podem esperar somente um redobramento de concupiscências ferozes, estendidas para colher os frutos proibidos, o que portanto fará necessário pôr em prática medidas repressivas destruidoras da liberdade.

 

Uma “liberdade” homicida

Quando se perdem de vista a origem e o fim do homem, por que o Poder e os cidadãos se deveriam privar de violar as leis naturais e morais, cujos imperativos os perturbam? Uma liberdade que se exercita no contexto de uma filosofia mutilada não é mais que uma liberdade egocêntrica e se torna, mais cedo ou mais tarde, uma liberdade homicida.

Dizem-nos que a metafísica e a religião não devem entrar no plano de nossos economistas e de nossos políticos, da mesma maneira que no século passado eram também declaradas alheias ao trabalho de nossos sábios. Mas essa decisão arbitrária nada pode contra a realidade: dado que criado por Deus, o homem é constitucionalmente um animal metafísico e religioso. O não levar em conta sua verdadeira natureza e seu fim leva aos piores erros doutrinais e práticos, até ao próprio sacrifício das vidas humanas.

Repetimo-lo: não podemos rechaçar em nome da verdade — ao contrário! — nenhum dos esforços realizados para melhorar a vida cotidiana dos homens. Digamos somente que é uma loucura querer limitar-se a obrar só no nível “cérebro-digestivo”, oferecer ao espírito humano só algumas quimeras astrais e a seu apetite só alimentos materiais. Estamos seguros de que os demônios que dormem em nós não tardarão a despertar para desencadear uma espantosa carnificina. Esse extermínio já se está realizando diante de nossos olhos, mas não perturba o sono de ninguém!

 

Uma escolha dramática

Em verdade se trata de uma escolha dramática, que consiste em salvar nossa vida ou perdê-la. Amiúde se comparou a vida humana à subida de uma alta montanha: antes de alcançar o cume onde nos espera Aquele que não pode enganar-se nem enganar-nos, nós caminhamos penosamente, não sem ser tentados a cada passo a tomar sendas equivocadas que nos convidam a descer facilmente a abismos bem dissimulados.

Não existe um caminho no meio! A maior parte dos homens gostaria de poder divertir-se descuidadamente sobre vertentes menos escarpadas, onde brotassem a cada passo todos os tipos de alimentos agradáveis. Mas este agradável hedonismo entra nas miragens ou paraísos que se podem chamar, com toda a justiça, artificiais.

O êxito sanguinário do século XVIII, tão próximo de nós por seu aspecto racional e por seu afã de gozo, está cheio de ensinamentos. Lembra aquele amante apaixonado da liberdade que, no momento de subir ao patíbulo, teve de reconhecer os crimes cometidos em nome dessa idéia. Como poderia ser de outra maneira, dado que se havia querido cortar o laço ontológico que une o homem à sua origem e ao seu fim? Estavam condenados a não compreender mais nada do mistério do homem e a deixar de respeitar sua dignidade. Algo desventurosamente semelhante nos ameaça ainda. As hierarquias desmoronam por todos os lados, enquanto as barreiras legais e morais, protetoras da Sociedade, se transtornaram. Sinal revelador, que, não podemos cansar de repeti-lo como um Leitmotiv, é o massacre legalmente autorizado dos inocentes.

 

Vae victoribus! (Ai dos vencedores!)

Em verdade, o trabalho que cabe a nossos governantes é gigantesco. Muitos deles se dedicam sinceramente a dar à gente o alimento e as diversões que exigem. Quase nenhum — ai de mim! — tem a coragem de praticar e de requerer dos outros o agere contra e o sursum corda (equivalente social e moral da inesgotável fórmula dada pela Virgem em Lourdes: “Oração e penitência”), o que constitui o preâmbulo indispensável para qualquer diretriz nacional.

Resta alguma esperança humana? Uma só poderia ser: a existência de certo número de dirigentes decididos que conheçam perfeitamente, conscientemente, as medidas por tomar:

  • para favorecer a unidade e a fecundidade da célula familiar;

  • para ensinar aos jovens e aos não tão jovens o respeito às leis fundamentais que regem a vida humana;

  • para restituir às instituições civis e militares o sentido de sua missão e para inseri-los novamente no “tecido” nacional.

Esta breve admoestação patriótica e moral feita aos governantes pode, por outro lado, ser dirigida aos governados. Deploramos já a cumplicidade na astúcia e no mal que infecciona de cima a baixo a pirâmide social. Essa constatação permite dizer aos cidadãos que também eles devem merecer os governantes que desejam ter.

Observemos, finalmente, um ponto importante que está relacionado com o que eu disse: as relações entre o poder temporal e o poder espiritual. Esse ponto mereceria, por si só, uma longa explanação. Basta dizer que sobre esse ponto capital haveria que corrigir muitas coisas tanto no plano dos princípios como no que se refere a atos concretos. Em todo o caso, não pode ser supérfluo recordar que os representantes dos dois poderes estão submetidos aos mesmos imperativos do bem e da verdade, e que tal exigência veda qualquer acordo secreto ao serviço de causas equívocas.

Estas últimas afirmações parecerão duras a alguns. Poderia pensar-se que fossem infundadas. Ao contrário, no curso da metade do século passado não assistimos muito freqüentemente à marginalização de espíritos excelentes pelas pressões, às vezes conjuntas (e jamais confessadas), das autoridades civis e religiosas? Sem dúvida é uma lei constante que a Cruz seja a sorte daqueles que amam e servem a verdade, ao passo que aqueles que abusam de seus poderes legítimos recebem na terra sua recompensa. Mas não duvidamos em dizer: Vae victoribus!, ai dos vencedores por um dia, que crucificam os justos com a aprovação do mundo e do inferno! São responsáveis pela dupla ruína do Templo e de Jerusalém, quer dizer, da Igreja e da Sociedade, à espera de serem os grandes vencidos na eternidade.

 

Conclusão

Possam os dirigentes em todas as ordens e de todos os graus:

  • compreender que a grandeza de um país não está ligada à acumulação de riquezas materiais nem ao desenvolvimento da arte e da técnica, mas que está unida sobretudo ao valor moral e espiritual dos homens que o compõem;

  • reconhecer, por conseguinte, que só a formação dos planificadores, peritos e eruditos, por muito honrosos que esses qualificativos possam ser, não acrescenta um côvado à estatura moral de uma nação;

  • dar-se conta de que, limitando-se a fabricar cada vez mais objetivos de consumo para indivíduos moralmente subdesenvolvidos, faz crescer consideravelmente o risco de graves desequilíbrios passionais tanto no plano individual como no coletivo;

  • aceitar corajosamente pôr em seu verdadeiro lugar os ídolos apresentados muito freqüentemente pelos tribunais oficiais como fins supremos;

  • pôr termo à mortal separação entre a política, a metafísica e a religião;

  • assumir os cargos públicos para servir ao bem comum e não para seu próprio proveito pessoal ou para o prestígio de um partido;

  • rechaçar os jogos de prestidigitação que consistem em apresentar a realidade sob uma luz incerta ou falsa, propícia para todos os maquiavelismos;

  • dedicar-se desde agora a construir, sobre os fundamentos dos verdadeiros princípios, a arca temporal que nos permitirá enfrentar sem demasiados danos o dilúvio devastador cujos sinais premonitórios já se fazem sentir;

  • em uma palavra, tomar consciência da excepcional responsabilidade tanto moral como social que pesa sobre eles, acrescentando que um dia serão julgados de maneira proporcional ao uso que hajam feito de seu poder e à energia que hajam utilizado para tal.

Está bem claro: só o ordenamento da ordem temporal à lei natural e sobrenatural apresenta caráter de necessidade; não está permitido (non licet) a nenhuma autoridade civil ou religiosa nem a nenhum súdito o subtrair-se. Ao contrário, as modalidades de atribuição ou de devolução do poder apresentam, enquanto puras técnicas institucionais, um caráter contingente; elas podem variar sensivelmente segundo os dados da história e do temperamento dos povos. Nesta perspectiva, a legitimidade do poder não está unida nem à forma do regime, nem a um homem eleito segundo os acontecimentos, nem a uma dinastia, mas essencialmente à fidelidade de que dá prova aquele regime, aquele homem ou aquela dinastia diante da lei natural e sobrenatural.

Fora dessa referência meta-histórica, o poder não pode senão alegar justificações mutiladas ou relativas que, por outro lado, ele não tarda a absolver, imitando a verdade para idealizar suas próprias ações e para melhor seduzir os espíritos.

Finalmente, é evidente que em nenhum país do mundo os mecanismos políticos, econômicos e sociais podem funcionar normalmente se estão “gangrenados” contemporaneamente pela sujeição de uma fração importante da nação a um empreendimento progressivo e programado de dominação planetária, e pela existência de um poder paralelo, difundido por todos os lados, que duplica de maneira oculta as instituições oficiais (civis, militares ou religiosas).

 

(Sim Sim Não Não, no. 106)

Sedevacantismo: uma resposta ilógica e indefensável

Agosto 10, 2018 escrito por admin

Um leitor nos escreve:

 

Caro diretor,

Li com grande interesse seu artigo no Sim Sim Não Não de setembro passado (há sete anos devoro esse jornal, forte alimento espiritual que tem renovado minha vida) e gostaria de partilhar certas considerações e questões sobre um assunto que para mim é de importância vital. O senhor diz com Leão XIII que às vezes é preciso desobedecer aos homens para obedecer a Deus, o que é muito correto. Pergunto-me, entretanto, como o simples fiel pode fazer distinção, cada vez que o Papa fala, entre o que está correto e o que não está. O simples fiel tem uma noção da infalibilidade que talvez não seja teologicamente exata, mas é uma noção de bom senso: normalmente, podemos confiar tranqüilamente no que diz o Papa quando se trata de um assunto justo e santo, mesmo que tal assunto não esteja dentro do âmbito da infalibilidade. O Papa age e fala normalmente para o bem das almas e não para sua perdição. Na verdade, a atitude da maioria esmagadora dos católicos em relação aos que são fiéis à tradição é uma atitude de desconfiança, pois aparentemente, estes “pretendem saber mais do que o Papa”. Nós temos o Sim Sim Não Não e outras publicações excelentes para nos guiar, mas o que farão os que não têm essa chance? Como pode o simples católico se orientar nos meandros do magistério papal, guardando o que deve ser guardado e rejeitando o que deve ser rejeitado? O Papa não é a norma estrita da verdade? Quero dizer que, se formalmente o discurso de Georgius não muda de rumo, conclui-se que, pelo intuito ou pelo bom senso (não falo do sensus fidei), ou deve-se aceitar tudo o que o Papa diz ou deve-se tudo desprezar. Não me refiro a assuntos menores, mas à linha magisterial em seu conjunto, linha caracterizada por um extremismo ecumênico sem precedentes, fundada sobre um erro doutrinal de fundo (o fundamento da salvação deslocado da Redenção para a Encarnação), como bem mostrou o professor Doerman em suas obras. Eis porque as posições sedevacantistas, sem entrar nas distinções entre elas, me parecem mais lógicas e mais defensáveis, entre outras razões, porque permitem não nos  alinharmos com os extremistas de “esquerda”, que criticam o Papa por motivos opostos. Não ignoro que o sedevacantismo origina alguns problemas doutrinais, mas eles me parecem menos graves do que o fato de reconhecer como Pontífice uma pessoa que, ocasionalmente, tem razão em pontos particulares, mas que fundamenta seu pontificado sobre uma doutrina já condenada pela Igreja, e que instaurou na própria Igreja (os senhores ilustram isso regularmente na rubrica “Semper Infideles”) uma situação aparentemente desesperadora. Não foi o senhor que nos explicou (esses princípios estão gravados na minha alma) que “a fé ou é inteira ou não é”, que “a pior mentira é aquela que se aproxima da verdade”, e que nas heresias e nas falsas religiões “a verdade serve ao erro”? Não podemos repetir tudo isso, falando de João Paulo II? Ele não parece lembrar-se da doutrina católica somente de vez em quando? Para que tenhamos certeza de que ele não é Papa, ao menos formalmente (o caso do Papa herético é previsto pela doutrina), o que teria ele ainda de dizer ou fazer, pior do que já tenha dito ou feito até hoje?

Essas questões me atormentam há anos, desde que conheci o tradicionalismo. A divisão sobre esse ponto separa muitas pessoas, muitos bons combatentes, espalhando incompreensões e ódio entre eles, a ponto de fazer o que Leopardi deplorava em “Ginestra”: voltar as armas contra os próprios companheiros em vez de apontá-las contra o inimigo comum. Essa é uma situação que literalmente me impede de dormir. É possível que tudo isso esteja no plano de Deus? 

Com devoção e gratidão, in Jesu et Maria,

Carta assinada.

 

Caro amigo,

A posição sedevacantista não é nem a mais lógica nem a mais defensável; ela é apenas a resposta mais simplista que se pode dar à atual crise da Igreja. Ela se justifica apoiando-se sobre o seguinte silogismo: 1) o Papa é sempre infalível; 2) o Papa se engana; 3) logo ele não é Papa. Mas quando foi que a Igreja ensinou que o Papa é sempre infalível, mesmo quando não fala ex cathedra?

Antes do Concílio Vaticano I, em 1859, o Padre Zaccaria S. J., escrevendo contra Febronius, exprimia assim a fé da Igreja: “o privilégio dado aqui [Lc 22, 32, ss] a Pedro e a seus sucessores comporta a infalibilidade [1onas decisões solenes[2oem matéria de fé e de moral[3odirigidas por ele mesmo a toda a Igreja (Anti-Febronius, t. II c.X). O Concílio Vaticano I apenas dogmatizou essa fé perene da Igreja.

A Cilviltà Cattolica, que era editada sob o controle da Santa Sé, escrevia em seu número 4, de março de 1902:

Mas todo ensinamento é infalível?

"Eis o ponto da questão que muitos negligenciam sem malícia. Mas é dessa negligência que provêm os escândalos que enumeramos abaixo.

Um assunto pode encontrar-se fora da esfera da infalibilidade do magistério eclesiástico de dois modos, isto é, por duas razões: seja por estar fora do objeto da infalibilidade prometida à Igreja, seja por estar fora do sujeito ao qual a infalibilidade foi prometida. São objetos da infalibilidade todas as verdades que concernem à fé e à moral ou que estão necessariamente ligadas a elas. O sujeito da infalibilidade é duplo: O Papa, mesmo sozinho, e a Igreja com seu chefe, quando exercem a autoridade de ensino em seu grau supremo. É preciso reter bem esse último ponto, para não cair em equívoco; na verdade é raro que a Igreja e o Papa, no exercício de seu poder e ensino, façam uso de seu poder no mais alto grau, porque eles podem – e é o que acontece normalmente – exortar, aconselhar, permitir, ordenar, sem verdadeiramente definir ex cathedra por sentença irrevogável”.

A posição sedevacantista é fundada sobre uma premissa errada (o Papa é sempre infalível), e essa razão já é suficiente para considerá-la como ilógica e indefensável.

Todos os textos de teologia católica, além disso, (da verdadeira teologia católica, naturalmente, não da “nova teologia” que é elucubração neomodernista) distinguem o magistério pontifical infalível do magistério pontifical simplesmente autêntico (isto é, provido de autoridade, mas não infalível), e portanto, distinguem o assentimento absoluto, incondicional, sem exame (cego), devido ao magistério infalível, do assentimento que se deve ao magistério “mere authenticum”: assentimento relativo, condicionado, em que o exame é permitido, e portanto também a eventual suspensão ou eventual recusa do próprio assentimento. Os sedevacantistas pularam essa página da teologia católica. Com que direito?

Além do mais: a questão do “Papa herético” é ainda uma questão controvertida, sobre a qual teólogos (e canonistas) estão longe de entrar num acordo e sobre a qual a própria Igreja não se pronunciou.

Assim, certos teólogos competentes excluem o fato de que o Papa, como “pessoa privada” (mas o que significa pessoa privada não está muito claro) possa cair em heresia, outros teólogos tão competentes quanto os anteriores sustentam o contrário, enquanto que outros ainda levam em consideração as duas hipóteses. Quase todos os teólogos autorizados sustentam que o Papa herético é destituído de seu pontificado, mas outros, como Bouix, afirmam o contrário, e mesmo dentro do primeiro grupo há divergência: alguns pensam que o Papa herético perde seu pontificado no mesmo momento em que cai na heresia, outros pensam que ele o perde quando sua heresia torna-se manifesta (esses últimos não chegam a um acordo sobre o que se deve entender por heresia “manifesta”); enfim, segundo alguns, o Papa herético perde ipso facto, automaticamente, o pontificado; segundo outros, é necessária uma declaração de heresia por parte – e aqui também há divergência – de um concílio ou de cardeais ou de bispos.

Resumimos tudo isso rapidamente1 mas é o suficiente para podermos indagar: é lógica e defensável uma posição cujo fundamento, em matéria tão grave, está numa hipótese (e não numa doutrina) teológica ainda controvertida?

Além de tudo, o senhor próprio escreve que para poder falar de um “Papa herético” é necessário que ele seja formalmente herético. Portanto, é preciso que ele professe um erro contrário à fé (heresia material) e também, consciente e deliberadamente, sustente a heresia com obstinação, o que constitui propriamente a essência, a forma da heresia. Ora, podemos afirmar com certeza que os últimos Papas sejam Papas formalmente heréticos? Não poderiam ser eles – e esta é nossa modesta opinião – Papas teologicamente mal formados e, sobretudo, fascinados pela ilusão ecumênica, em que eles não percebem plenamente todas as implicações heréticas?

Não queremos discutir opiniões, e o que acabamos de expor é apenas uma opinião. De definido e claro há apenas o fato de que, enquanto a heresia formal não for provada, não se pode falar em “Papa herético”.

Abordemos agora o problema das almas. Normalmente  (o senhor tem toda razão de sublinhar esse termo) é de bom senso confiar tranqüilamente no Papa, mesmo quando o que ele ensina não está garantido pelo carisma da infalibilidade. O Papa normalmente (ainda é o senhor que frisa) fala e age para o bem das almas, mas o sensus fidei e os frutos da atual corrente eclesial nos advertem de que não estamos mais em tempos normais.

Uma vez que o fiel tenha tomado consciência da anormalidade dos tempos, não é preciso que ele faça distinção, cada vez que o Papa se pronuncia, entre o que está certo e o que está errado. Não. Basta que ele, em cada caso, recuse o que ele percebe ser contrário à fé constante da Igreja. Essa fidelidade, que não exige grande ciência teológica, atrairá para ele, da parte de Deus, luzes cada vez maiores. Para quem teve a sorte de conhecer a normalidade dos tempos com Pio XII, basta ater-se ao que foi ensinado naqueles tempos de posse tranqüila da doutrina. É verdade que a doutrina já estava atingida pelo modernismo, mas ela era defendida por Roma (e hoje os modernistas acusam a Igreja de ter feito isso). As gerações seguintes, mesmo se não tiverem acesso ao Sim Sim Não Não e outras ótimas publicações, têm a ajuda interior do Espírito Santo e o catecismo de São Pio X, que resume a fé perene da Igreja (e por isso ele é tão mal visto pelos modernistas). Os erros de hoje são tão enormes que basta, para percebê-los (não estou dizendo para refutá-los), conhecer bem o catecismo da Santa Igreja.

Infelizmente, o Concílio aconteceu quando os católicos já se encontravam num deplorável estado de ignorância culpável e de fé morta não traduzida em atos na vida prática. Os Pontífices Romanos pré-conciliares lutaram, sem terem sido escutados, contra essa decadência. Lembremo-nos do brado de S. Pio X: “Catecismo! Catecismo!” e do doloroso discurso de Pio XII sobre as “almas mortas”, numerosas demais.

Como o sensus fidei não pode se exercer sem um conhecimento elementar das verdades da Fé e um esforço sério para viver segundo a Fé, compreende-se que muitos católicos não tenham sabido enfrentar a prova, cuja gravidade talvez nem tenham percebido (o que demonstra falta de vitalidade espiritual). O ensinamento da Sagrada Escritura se verifica aqui: os maus pastores são uma punição para todo o povo infiel.

Seja como for, a provação atinge também as almas de boa vontade, e é uma verdadeira prova, pois, como escreve o Padre Palmieri2, o Papa, “mesmo que não fale com toda plenitude de sua autoridade (magistério infalível), fala com autoridade, eis porque não se pode considerá-lo como um doutor qualquer”. É então difícil e doloroso – eu diria até antinatural – para toda consciência católica ter de resistir ao Papa, assim como seria difícil, doloroso e antinatural um filho ter de resistir ao pai se este o obrigasse a fazer qualquer coisa contra Deus. Difícil e doloroso, mas justo, por fidelidade a Cristo e para sua própria salvação e previsto pela doutrina católica (mesmo se até Pio XII não foi necessário ensiná-la comumente ou lembrá-la). Na verdade, deve-se ao Pontífice Romano, quando ele não ensina infalivelmente, “um assentimento religioso desde que não haja nada que aconselhe, segundo a prudência, a suspensão do assentimento”3. Hoje, o motivo que aconselha a suspensão prudente do assentimento é fundamental: o magistério dos últimos Pontífices, dotado de autoridade, mas não de infalibilidade, está, por razões abertamente ecumênicas, em contradição com o ensinamento infalível e bimilenar da Igreja. Ora, é claro que “o Papa é norma estrita da Fé”, mas, precisamente por ser “norma estrita”, o Papa tem o dever de estar em harmonia com a norma mais alta da Fé: a Revelação divina (Sagrada Escritura e Tradição), tal como ela foi fiel e infalivelmente transmitida e explicada pela Igreja durante dois mil anos. Eis porque um Papa em ruptura com a Tradição, que em lugar do “depósito da Fé” propõe suas opiniões pessoais e suas utopias, cessa de ser norma “estrita da Fé”.

A suspensão do assentimento pode também ser geral, se a prudência exigir, mas tal suspensão não tem nada a ver com a proclamação de que o Papa é “herético” e que a sede de Pedro está vazia, proclamação que seria também – esperamos tê-lo demonstrado – altamente imprudente, pois corre o risco de lançar os sedevacantistas num cisma irreparável.

Nessa provação, que é castigo para uns e provação para outros, o fiel é socorrido pela graça divina e reconfortado pela certeza de que, mesmo a partir dos males atuais, Deus saberá tirar um bem maior para a Igreja e para as almas. Além disso, sabemos por experiência própria – e sua carta no-lo confirma – que Deus não permite que almas sinceras e de boa vontade se percam por causa da crueldade do tempos. Parece que Ele, ao contrário, aumenta Sua graça na proporção em que crescem as necessidades. Se os semeadores da cizânia trabalham nessa noite pós-conciliar, Deus, como o fazendeiro da parábola, não perde o controle da situação e tudo voltará à ordem no tempo oportuno. Então, confiança e coragem!

Passemos às divisões entre os que resistem ao neomodernismo. Essa divisões certamente não são desejadas por Deus mas elas não são de admirar nesse quadro tão transtornado da atualidade. Quando a cabeça não funciona, todo o resto do corpo vacila (“Ferirei o Pastor e as ovelhas se dispersarão” Mc 14, 27). Além disso, essas divisões têm uma função providencial porque elas nos lembram a importância da Autoridade na Igreja e afastam as almas de boa vontade da tentação de erigir uma “Igreja” por conta própria sob pretexto de que a infidelidade dos homens da Igreja encobriu com um véu a Igreja de Nosso Senhor.

Essas divisões (não achamos que cheguem a ser ódios) nascem, enfim, da fraqueza e da miséria humana. Deus nos previne, pela boca de São Paulo: “Não discutam sobre opiniões!” Mesmo assim, alguns não sabem se limitar a defender a Fé sem emitir opiniões pessoais que gostariam de impor aos outros, apesar de não terem a menor autoridade para isso. Eles não se dão conta de que somos como pessoas mergulhadas nas trevas do imprevisto, a quem só resta esperar imóveis que a luz volte, exatamente no mesmo lugar onde a escuridão os surpreendeu. E isso, sem se aventurar a fazer movimentos irrefletidos, bruscos, arriscando cair não se sabe onde.

O centro de unidade estabelecido por Deus é e continua sendo o Pontífice Romano, guardião supremo da verdadeira Fé. Ora, mesmo que os últimos Pontífices pareçam (contra os princípios do Concílio dogmático Vaticano I) ter exercido mais o papel de “inventores” de uma “nova religião” do que o de guardiões da Fé revelada, não estamos totalmente nas trevas, apesar de estarmos mergulhados na obscuridade desde que a lâmpada mais próxima de nós se apagou: contra as heresias do modernismo, temos para nos guiar, diferentemente dos cristãos dos primeiros séculos, dois mil anos de Magistério ordinário e extraordinário. Nenhum “Papa de hoje em dia” tem autoridade para contradizê-lo e é em sua direção que podemos e devemos nos voltar como faríamos em direção a uma luz que ilumina nossas trevas, começando pelo simples e luminoso catecismo de S. Pio X. Tudo isso não significa pretender “saber mais do que o Papa”, é somente pretender saber o que sabe a Igreja, infalível “coluna e fundamento da verdade” (S. Paulo). Nós participamos dessa infalibilidade quando professamos a fé perene, que todo Papa tem o dever de “confirmar” e que ele não tem o direito de transformar nem de por em perigo.

Já dissemos, mas não nos cansaremos jamais de repetir: é tempo que as almas de boa vontade reconstruam em si mesmas e em suas vidas o que elas, sofrendo, vêem se destruído na Santa Igreja de Deus. É assim, e não através de polêmicas perigosas e estéreis contra as vítimas do neomodernismo (que também são, a nosso ver, sedevacantistas) que apressaremos a hora da divina Misericórdia.

Hirpinus

  1. 1. Remetemos os leitores interessados por esta questão ao excelente estudo, detalhado e documentado, que Arnaldo Xavier da Silveira fez sobre este assunto em Considerações sobre o “Ordo Missae” de Paulo VI (edição francesa La nouvelle Messe de Paul VI. Qu’en penser?). Limitamo-nos a citar aqui uma observação importante do autor, que vem a ser igualmente a conclusão do estudo: no estado atual da questão teológica do Papa herético, ninguém pode adotar uma posição determinada, e ainda menos impô-la aos outros.
  2. 2. Tractatus de Romano Pontífice, tese 32, scholion 2.
  3. 3. Ibidem

"Instaurare omnia in Christo"

Agosto 10, 2018 escrito por admin

Giuseppe Sarto nasceu em 1853, padre em 1858, cura em 1867, vigário geral em 1875, bispo de Mantua em 1885, cardeal em 1893, patriarca de Veneza em 1894, foi eleito papa em 1903 e tomou o nome de Pio X. Depois de onze anos de pontificado, entrega sua alma a Deus em 20 de agosto de 1914.

Foi o último papa a ser canonizado.

Impressionante é a fecundidade de sua ação para “Instaurare Omnia in Christo”. Seu pontificado foi a ocasião da renovação da vida sacramental nas paróquias, renovação do canto litúrgico, renovação do ensino catequético, renovação dos seminários, renovação do direito canônico. Ele favorece e encoraja o apostolado dos leigos. A Cúria romana lhe deve uma reorganização que a tornou mais eficaz e mais rápida em suas decisões.

Em seu pontificado houve também a condenação do modernismo com a encíclica Pascendi. Condenação corajosa, pois São Pio X não se contenta com uma análise clara e profunda, mas coloca em sua encíclica medidas disciplinares para impedir o modernismo de se infiltrar no interior da Igreja. A Pascendi foi ainda profética, pois o Papa previu as conseqüências graves para a fé se os erros triunfassem. Depois do Concílio Vaticano II e suas reformas, podemos constatar como Pio X tinha razão.

Por sua santidade, por seu espírito eminentemente sobrenatural, pela sabedoria de seu governo, o Papa São Pio X deixa o exemplo sempre atual para nossa época de apostasia geral.

“Para fazer reinar Jesus Cristo, nada é mais necessário do que a santidade do clero”. (carta ao Cardeal Respighi, 1904).

“Estamos, infelizmente, num tempo em que se acolhem e adotam com grande facilidade certas idéias de conciliação da fé com o espírito moderno, idéias que conduzem muito mais longe do que se pensa, não somente à fraqueza mas à perda total da fé” (alocução aos cardeais, 27 de maio de 1914).

O modernismo: “síntese de todas as heresias”, “caminho para o ateísmo”, “ataque aos fundamentos da fé”.

“Vocês alargam as portas para introduzir aqueles que estão fora, e enquanto isso fazem sair aqueles que estão dentro” (São Pio X ao modernista Semeria).

Os compromissos “sem converter nenhum de nossos adversários (...) causam grande dano aos bons: estes, procurando a luz, encontram as trevas (...). Nossa bandeira deve ser desfraldada; é somente pela lealdade e franqueza que podermos fazer algum bem” (carta ao Prévost de Casalpusterlengo, 20 de outubro de 1912).

 

(Revista SIM SIM NÃO NÃO n° 9 ― Setembro de 1993)

A protestantização litúrgica

Agosto 10, 2018 escrito por admin

Em la Nostra Valle, publicação mensal interparoquial da diocese de Fano-Fossombrone (julho de 1997, pp. 4-5) lemos o título: "Menos missas para uma missa mais verdadeira" [sic!]

O articulista se alegra por "ter ouvido dizer" que "nossos bispos italianos deram normas concretas" para a celebração das missas: "por exemplo: numa mesma igreja, entre uma celebração e outra, interponha-se um espaço de tempo razoável determinado em uma hora e meia, ao menos" (embora o articulista não o precise, temos que supor ques e trata das missas dos dias festivos, dado que uma hora e meia de intervalo para a minimissa de Paulo VI, que não ultrapassa o quarto de hora nem mesmo no melhor dos casos, seria absolutamente incompreensível nos dias de trabalho).

Eis os motivos dessa disposição: "não acumular as celebrações..., pois ninguém deve sentir-se forçado a celebrar apressadamente uma liturgia para não invadir o tempo assinalado para a seguinte". Suposto isto, ainda que não seja verdade, não estaria mais em consonância com a fé limitar o tempo da homilia (geralmente tão prolixa e tão vazia, ou algo pior ainda), do que diminuir o número das missas? Isto porque uma diminuição ulterior do número das missas é a conseqüência inevitável do dispositivo supracitado. Daqui o lema lançado pelo artigo: "menos missas e mais missa", ou seja, "um menor número de missas para uma missa mais verdadeira". Sim, porque -- explica o articulista -- esta é a "razão fundamental" das disposições ditadas pelo episcopado italiano: "é pastoralmente oportuno, ou melhor, necessário diminuir o número de missas" (como se o seu número não tivesse já sido diminuído consideravelmente pelas "concelebrações", nas quais há muitos concelebrantes, porém uma só missa), dado que a sua multiplicação (em tempos passados, entenda-se) "não favoreceu o incremento da estima em que os fiéis tinham um ato tão divinamente grande como a celebração da Eucaristia (...). A multiplicação das missas ofuscou o seu valor, rebaixando a sua celebração ao nível do rotineiro, do obrigatório (preceito!) [sic!], do mero sufrágio pelos defuntos, do devocionismo; a celebração por excelência converteu-se na celebração para todas as circunstâncias... [e então? não o é?]. Eis aí os "Ofícios de missa" pelos mortos [horror!]: uma missa celebrada atrás da outra; eis aí as "festas", cuja solenidade se mede pelo número de suas missas...".

Médico, cura-te a ti mesmo!

Antes de tudo, é evidente que quem assim escreve (e fazemos votos de que não seja um sacerdote, como tememos) não tem a menor estima nem pela santa missa nem pela sua "divina grandeza", embora afirme esta e se levante como seu paladino.

O concílio de Trento definiu solenemente que Nosso Senhor Jesus Cristo instituiu a santa Missa a fim de que a virtude salvífica de seu sacrifício cruento "se nos aplique para a remissão dos pecados que diariamente cometemos" (Denz. 938); e Pio XII escreve na Mediator Dei, ratificando este ensinamento solene: "o augusto sacrifício do altar é um insigne instrumento para a distribuição aos fiéis dos méritos derivados da Cruz do Divino Redentor": cada vez que se oferece este sacrifício, se realiza a obra da nossa Redenção" (1)

Em conclusão, diremos com o Pe. De Condren que "o sacrifício da cruz merece tudo, mas não aplica nada; o sacrifício da missa não merece nada, mas aplica tudo" (2).

Ora, posto que a Missa nos aplica todos os méritos do Calvário, é mister dizer com Santo Tomás: "o bem comum espiritual de toda a Igreja se encerra essencialmente no Sacramento da Eucaristia" (3), e "com mais Missas... se multiplica a oblação do sacrifício e, por isso, se multiplica o efeito do sacrifício" (4), multiplicar as Missas significa multiplicar a efusão sacramental do sangue de Cristo, e, por conseguinte, de toda a graça, sobre a Igreja e toda a humanidade.

Se o articulista de La nostra valle acreditasse, com a Igreja, que cada vez que se celebra uma Missa "se realiza a obra da nossa redenção", consideraria, com a Igreja, "pastoralmente oportuno, ou melhor, necessário" não diminuir, mas multiplicar o número das Missas.

O eco de Lutero

Digna de nota é a impressionante semelhança que prevalece entre os motivos pretextados pelo articulista de La nostra valle e as "razões" aduzidas por Lutero e seus colegas "reformadores".

Na Confissão Augustana que, embora redigida por Melanchton, exprime a "teologia" de Lutero e ainda hoje os protestantes a consideram "como a expressão oficial da fé da igreja luterana" (5), se lê: "é manifesto -- seja dito sem jactância -- que a Missa se celebra com mais recolhimento e seriedade entre nós [protestantes] que entre os inimigos da nossa causa [os católicos]" (6). Como se a disputa versasse sobre o fervor subjetivo, pessoal, e não sobre o valor intrínseco, objetivo, da Missa, sacrifício verdadeiro e próprio, e não comemoração pura e simples da Ceia e do Calvário!

Na Confissão Augustana - protestante - tudo se passa depois do ataque contra as "missas inúteis e supérfluas": do "erro abominável" da Missa como sacrifício "proveio a grande quantidade, a quantidade incalculável das Missas". Pretendia-se obter, assim, com tal ato, tudo o que era necessário. ao mesmo tempo, a fé em Cristo e o verdadeiro culto de Deus caíam no esquecimento" (7). Também os protestantes, portanto, pediam "menos Missas e mais Missa", ou seja "um menor número de Missas para uma Missa mais verdadeira".

Não obstante, os luteranos eram coerentes com a sua heresia: rechaçavam a práxis católica da multiplicação das Missas porque rejeitavam a doutrina católica da Missa como sacrifício; a troco de quê multiplicar um simples "memorial", uma "comemoração pura e simples" do sacrifício efetuado e concluído duma vez por todas?

Mas... e o articulista de "La nostra valle"? É um incoerente ou um outro herege?

Da Missa "protestantizada" a uma mentalidade protestantizante

Em Sì Sì No No (ed. italiana de 30 de novembro de 1996), na seção Semper infideles, escrevemos sobre outra "novidade" publicada por um boletim paroquial da diocese do Cardeal Carlo M. Martini, S. J.: a Missa sem comunidade "só da medo"; portanto, é "absolutamente" necessário reduzir o número das Missas nos dias de festa para ter "menos Missas" e "mais comunidade" (o pretexto é distinto, porém o alvo é o mesmo).

Este também é o eco dito "católico" da polêmica luterana contra as "Missas ditas num canto" (Winkelmess), isto é, "as Missas particulares, celebradas pelo sacerdote, sem a assistência dos fiéis" (8). Porém, também nisto os luteranos são coerentes com a sua heresia: com efeito, ao negar a Missa como sacrifício, negam o valor objetivo, intrínseco, da Santa Missa.

Mas os católicos, que sabem ter a Missa valor em si, independente do número dos presentes, ou melhor ainda: independente da própria presença dos fiéis, podem continuar, pergunta-se, a chamar-se católicos quando, como os protestantes, fazem depender o valor da Missa da assistência da comunidade, e duma comunidade numerosa?

Na Mediator Dei (1947), Pio XII, entre os desvios que então se propagavam subrepticiamente e "contaminam" a auspiciada "renovação litúrgica" com "erros concernentes à fé católica e à doutrina ascética", condena também o erro dos que "aproximando-se de erros já condenados ensinam (...) ser preferível que os sacerdotes "concelebrem" junto com o povo presente a oferecerem, na ausência deste, em particular, o "Sacrifício" e até "reprovam absolutamente as Missas celebradas em particular e sem a assistência do povo", ou afirmam também "que os sacerdotes não podem oferecer a Vítima divina em altares distintos ao mesmo tempo, porque, desta maneira, dissociam a comunidade e põem sua unidade em perigo".

Salta à vista que hoje triunfam os erros condenados por Pio XII, "erros relativos à fé católica", e, por detrás deles, triunfam "os já condenados", muito semelhantes aos de Martinho Lutero e demais heresiarcas do protestantismo. O Novus Ordo Missae nos deu um rito da Missa com o qual "se aproxima, substancialmente, da teologia protestante, que destruiu o Sacrifício da Missa" (9). Hoje colhemos os frutos da Missa "protestantizada": a presença de uma mentalidade cada vez mais protestantizante. E é inevitável: a lex orandi é inseparável da lex credendi; reza-se como se crê e crê-se como se reza: se se reza como os protestantes, acaba-se pensando como eles.

"Uma simples festa da unidade humana"

Até aqui o desprezo essencial que o articulista de La nostra valle mostra sentir pela Missa. Entretanto, relativamente aos fiéis, ele é assaltado por uma dúvida: a de que o seu menosprezo pela Missa não se deva à multiplicação das Missas, mas a fatores muito diversos, entre os quais se conta, embora não em último lugar, a subversão posta em marcha pelo Papa Montini sob a capa de "reforma litúrgica"

 A estima dos fiéis pela Missa não se consegue diminuindo o número delas, e sim restabelecendo aquele rito que é uma "contínua profissão de fé católica" (Pio XII, Mystici Corporis) com a dignidade que sempre teve e hoje não mais possui, e que simultaneamente alimentava a piedade pessoal ou subjetiva, tão denegrida hoje (também pelo articulista) como "devocionismo".

Na Mediator Dei, Pio XII também condenou o erro, que então já se prenunciava, de quantos "queriam abandonar ou atenuar 'a piedade subjetiva' ou 'pessoal', porque 'consideravam que se deviam abandonar as outras práticas religiosas não estritamente litúrgicas e realizadas fora do culto privado".

"É verdade -- escreve ele -- que os sacramentos e o Sacrifício do altar têm uma virtude intrínseca, enquanto são ações do próprio Cristo que comunica e difunde a graça da Cabeça divina nos membros do corpo místico; porém, para ter a devida eficácia, exigem boas disposições da nossa alma". E estas se adquirem recorrendo precisamente a "todos os preâmbulos e exercícios de piedade não estritamente litúrgicos", como "a meditação das realidades sobrenaturais", o exame de consciência e todas as demais "práticas espirituais" (hoje em desuso): "desta maneira, a ação individual e o esforço ascético, dirigido à purificação da alma, estimulam as energias dos fiéis e os dispõem para participarem, com melhores disposições, do augusto Sacrifício do altar; e assim tirarem melhor fruto da recepção dos Sacramentos, bem como a celebrarem os sagrados ritos de modo a saírem deles mais animados e formados na oração e abnegação cristã; e a cooperarem ativamente com as inspirações e convites da graça imitando sempre mais as virtudes do Redentor, não só em proveito próprio, mas também no de todo o corpo da Igreja; dessa igreja onde todo o bem que se realiza provém da virtude da Cabeça e redunda em benefício dos membros". Assim, da piedade pessoal, nasce a participação frutuosa, e, desta, a estima da Santa Missa.

"Por grandes motivos -- assinala Pio XII -- prescreve a Igreja aos ministros do altar e aos religiosos que, em tempos determinados, se dediquem à piedosa meditação, ao diligente exame e emenda da consciência e aos outros exercícios espirituais (cf. CIC, can. 125, 126, 565, 571, 595, 1397), visto estarem eles, de modo particular, destinados a cumprir as funções litúrgicas do Sacrifício e do louvor divino". E conclui: "sem dúvida, a prece litúrgica, por ser uma súplica oficial da inclita esposa de Jesus Cristo, tem uma dignidade maior que as orações particulares; mas esta superioridade não significa uma oposição ou contraste entre estes dois tipos de oração. Ambas se fundem e se harmonizam por estarem animadas por um único espírito: "Cristo é tudo em todos" (Col. 3, 11) e tem o mesmo objetivo: "ver Cristo formado em vós" (Gal 4, 19)".

Ora, o que aconteceu com a "piedade subjetiva" e com as "orações particulares" depois do Concílio? Deixemos que no-lo diga o Cardeal Siri, ao escrever em 1978: "experimenta-se um tipo de oração considerado válido somente se é feito em comunidade e em virtude dela. A oração particular, sobre ser negligenciada, é escarnecida, e daí não se reza, se falta um membro duma comunidade. Parece um simples erro de fato, mas, pelo contrário, não é assim. Debaixo dele se difundem erros veladamente, não percebidos diretamente, mas adquiridos inconscientemente mediante a práxis: quando cometidos conscientemente, constituirão as melhores mostras da raiva contra tudo o que é, que foi e que será. Eis os erros: negação da pessoa em proveito da comunidade (não é difícil ver nisto uma provável nota marxista); a supervalorização da comunidade, não tanto por amor dela (ou do gueto, talvez) quanto por causa da prioridade dada à base sobre o vértice, ou seja: invertem a instituição da Igreja e, portanto, a tornam agradável aos supostos protestantes (...)

"Não é difícil ver nisto o dedo dos que desejam retornar a Lutero. Mas, para cúmulo, há de permeio um Concílio Ecumênico Tridentino que creu fazer muitas dezenas de definições infalíveis no sentido estrito. A práxis inconsciente é o caminho do erro subversivo. A doutrina católica, magnificamente exposta e resumida na "Mediator Dei", concede à piedade e à oração particular o que lhes corresponde, como a princípios de verdade e diligência, (como preparação) para a oração pública e oficial. Aqueles que, nas igrejas, martelam continuamente nos ouvidos, não deixando instante algum para a concentração pessoal, estão, sem sabê-lo (assim o esperemos!) na parte não bem informada [eufemismo caridoso]" (10).

Ao mesmo tempo, quando se denegria e desanimava a piedade pessoal, se introduziam na Missa, reduzida a um rito pressuroso e ambíguo: "costumes estrambóticos e dignos de um circo -- continua o Cardeal Siri -- e com isto não é de admirar que a Eucaristia se torne para alguns uma simples festa da unidade humana" (12). Com a estima que merece "uma simples festa da unidade humana" -- acrescentamos nós.

Dois jubileus e o triunfo da "seita antilitúrgica"

E aqui está a exortação final do articulista de La nostra valle: "neste primeiro ano do triênio de preparação imediata para o jubileu do segundo milênio (...), a reflexão encaminhada para operar a nossa "conversão" deveria levar-nos a pôr a Eucaristia no centro do nosso trabalho de revisão e compromisso". Trabalho de "revisão", cuja primeira etapa se funda na diminuição ulterior do número de Missas, já notavelmente reduzido pelas concelebrações. Exatamente nos antípodas do "ano de Jesus Cristo" celebrado por Pio XI para comemorar o XIX Centenário da Redenção (1935). Naquela ocasião, se celebraram na gruta de Lourdes, ininterruptamente, por três dias e três noites, cento e quarenta Missas, em conclusão do "Jubileu da redenção humana", com sumo agrado de Pio XI, que aplaude "sem reservas" a iniciativa (imitada noutras dioceses) numa carta a D. Gerlier, bispo de Lourdes, na qual declara que o jubileu não se poderia concluir "mais digna e convenientemente". Hoje, a um jubileu concluído com a multiplicação das Missas se quer opor, ao que parece, um jubileu coroado pela... diminuição do número de Missas.

O que D. Guéranger escrevia sobre o que chamava "a seita antilitúrgica" tem todas as características de uma profecia. A propósito do sínodo de Pistóia, cujos erros derivam do protestantismo através do jansenismo, escreve D. Guéranger: "porém, voltando ao divino Sacrifício, vede quão insistentemente se repete esta verdade (em si mesma incontestável, mas da qual é tão fácil abusar nesta época de calvinismo mascarado): que o povo oferece (o Sacrifício) junto com o sacerdote (...). E não basta à seita poder insultar o Sacrifício católico, mas não aboli-lo. Por isso, todos o seu esforço tenderá a tornar menos freqüente a sua celebração (...). Vê-la-emos proibir a celebração simultânea das Missas numa mesma igreja; chegará até a reduzir o número dos altares a um só (...); achará um novo meio para limitar ulteriormente a oblação deste sacrifício a ela tão odioso: seria (é um pretexto!) o restabelecimento do uso da igreja primitiva segundo o qual todos os sacerdotes duma igreja concelebravam uma única Missa..." (13)

A partir da "reforma litúrgica" de Paulo VI, assistimos uma realização minuciosa deste programa de "autodemolição" litúrgica e, se as coisas andam como pressagia o articulista de La nostra valle, o jubileu do ano 2000 coroará, entre outras coisas, também o triundo da "seita antilitúrgica".

 

 

Notas:

(1) Missale Romanum, secreta do IX domingo depois de Pentecostes, citada também pelo Vaticano II no Decreto Presbyterorum Ordinis

(2) Cit. em Per meglio servire Dio, Ed. Paulinas, 1957

(3) S. T., II q. 65, a. 3 ad 1: "bonum commune spirituale totius Ecclesiae continetur substantialiter in ipso Eucharistiae sacramento". Cf. Concílio de Trento, seção de 17 de setembro de 1562: decreto sobre a Santa Missa.

(4) S. T., q. 79, a. 7 ad 3: "In pluribus vero missis multiplicatur sacrificii oblatio. Et ideo multiplicaur effectus Sacrificii" [certamente num número maior de Missas se multiplica a oblação do sacrifício, e por esta razão se multiplica o efeito do Sacrifício]

(5) Segundo Pierre Jundt na introdução à Confissão de Augsbourg (tradução da Aliança Nacional das Igrejas Luteranas da França, 1979)

(6) Ibidem

(7) Ibidem

(8) Ibidem

(9) Breve exame crítico do "Novus Ordo Missae", apresentado a Paulo VI pelos cardeais Ottaviani e Bacci

(10) Renovatio XIII (1978), fasc. 2, pp. 147-150.

(11) Rivista Diocesana Genovese, outubro de 1977, pp. 278-280.

(12) Renovatio VI (1970), fasc. 4, pp. 477-490.

(13) Dom Guéranger, Institutions liturgiques, Le Mans-Paris, 1841, t. II, pp. 607 e ss

O concílio e o ateísmo de Estado

Agosto 9, 2018 escrito por admin

Por mais difícil e desagradável que seja, teremos de admitir cedo ou tarde que o senhor Adel Smith, Presidente da União dos muçulmanos da Itália, recentemente fez calar a elite política e intelectual italiana. Nós vismos alguns "laicistas", "moderados" e pessoas "políticamente corretas" escandalizarem-se com o tom e as afirmações deste senhor e saírem das posições em que estavam instalados, convencidos de que deviam se retratar. Como? Depois de vários anos de "doutrinação" sobre o "diálogo", sobre o multiculturalismo, sobre o Estado multi-étnico, sobre a riqueza das diferenças... Traição! Entretanto, ninguém, até o momento, foi capaz de se opor com argumentos sólidos ao Presidente da União dos muçulmanos da Itália, se bem que todos reagiram como se tivessem sido picados por uma tarântula. Parece que a lógica desse "novo Averróis" não tem uma falha: se, com a Nova Concordata a religião católica não é mais reconhecida como a religião do estado italiano, que sentido tem deixar os crucifixos nos lugares públicos? Alguns pensarão: "Será que o Sim Sim Não Não também mudou de idéia?" Não, senhores! Mas temos de reconhecer que não há como escapar das conseqüências que o senhor Adel Smith tira das premissas nessa questão. O problema está justamente nas premissas que utiliza. Há mais ou menos vinte anos, o senador Gozzini declarou: "Em um futuro próximo, estaremos diante do problema da exposição do crucifixo em lugares públicos. E este problema deverá ser resolvido em coerência com o pluralismo, respeitando todas as confissões religiosas que emergem assim da Nova Concordata"[1]. Profecia? Não, simples lógica.

O mais triste espetáculo, infelizmente, é o que o mundo "católico" oferece: nas raras vezes em que se levantam para defender Nosso Senhor, não se dão ao trabalho de buscar a raiz do problema. Defenderam ao máximo as razões culturais para manter a presença do crucifixo nos lugares públicos; mas seria isso suficiente? Podemos nos contentar em dizer: "nós mantemos o crucifixo porque ele é o sinal das raízes cristãs de nosso país"[2]? E por que então não expor algo que faça lembrar nossa antiguidade imperial; ou ainda as raízes celtas na Lombardia, as raízes dos Bourbons no Sul...? E esses muçulmanos, não teriam eles o direito de reclamar algum sinal que lhes faça lembrar sua presença na Sicília?

O problema é outro e, infelizmente, bem mais grave: a realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo sobre a sociedade não é mais reconhecida! S. Pio X afirmava: "É uma tese absolutamente falsa, um erro muito perigoso, pensar que se deve separar a Igreja do Estado. Esta opinião está fundamentada sobre o princípio de que o Estado não deve reconhecer nenhum culto religioso. E isto é absolutamente injurioso a Deus (magnam infert iniuriam Deo) porque o Criador do homem é também o fundador das sociedades humanas... É por isso que nós lhe devemos não apenas um culto privado mas também um culto social e honras públicas (non privatim tantummodo colatur necesse est, sed etiam publice)"[3]. A imutável Tradição da Igreja afirma e repete sem cessar esse princípio, porque ela nunca pôs em dúvida que a religião católica é a única religião verdadeira, a única capaz de dar as provas de sua origem divina. Mas ninguém, manifestamente, nessa polêmica atual, ousa fazer alusão a isso. Ninguém teve a coragem (e, talvez, a capacidade) de aceitar o desafio no terreno da apologética (falando nisso, o que aconteceu com essa disciplina na formação dos seminaristas?). 

A questão está aqui, precisamente: "Não será difícil — escreve Leão XIII — distinguir qual a religião verdadeira, desde que se exerça nessa procura um julgamento prudente e imparcial. De fato, através de numerosas e evidentes provas (argumentis enim permultis atque illustribus), tais como as profecias realizadas, o número extraordinário de milagres, a rápida difusão da Fé em meio de inimigos e obstáculos muito graves, o testemunho dos mártires, e outras provas semelhantes, ficou manifesto que a única verdadeira religião é aquela que o próprio Jesus Cristo fundou e confiou à sua Igreja, para que ela a conserve e a difunda pelo mundo"[4]. 

É inaceitável que o Estado fique indiferente diante do problema religioso. O Estado delibera em matéria de economia, de saúde, de educação, de política,... mas decide não tomar nenhuma posição em matéria religiosa. Por que? Como podemos considerar que religiões resoluta e objetivamente opostas umas às outras, devam ser colocadas num mesmo plano? Um Estado que visa o bem comum de seus cidadãos pode ficar indiferente à veracidade ou à falsidade de uma religião da qual provém um resultado temporal e uma conseqüência eterna?

Um Estado que adota uma atitude neutra ("a neutralidade desarmada" de Don Abbondio?) em matéria religiosa, é um Estado ateu, de um ateísmo prático, de facto. Tal Estado exclui Deus da vida pública. Além disso, afasta-O da consciência dos indivíduos. Agindo assim, ele já declarou que Deus não tem o direito de ser considerado na esfera pública: Deus não tem o direito de ser Deus! Essa "abstenção" do Estado é na realidade uma posição arbitrária. É uma posição contra Deus e contra a verdade objetiva, que designa o Cristianismo como única religião verdadeira, revelada e instituída por Deus.

Hoje, a hierarquia eclesiástica também tem de tomar uma decisão: seguir, como é seu dever, o ensino tradicional, que tem que chamar os governantes dos países a reconhecer a Religião Católica como a religião do Estado, ou continuar no caminho atual cujo termo inevitável é o destronamento completo de Cristo na vida pública.

A Conferência Episcopal Italiana informa que "o Protocolo Adicional [da nova Concordata] adverte que 'considera-se não estar mais em vigor o princípio de que a religião católica seja a única religião do Estado'. Compreendemos as razões de uma tal mudança que, à luz da Declaração do Concílio [que agora tornou-se o Concílio!] sobre a liberdade religiosa, se inspira no respeito devido a quem quer que possua uma outra fé ou uma convicção de consciência diferente".[5] Se é possível reconhecer a árvore por seus frutos... muitíssimo obrigado, Concílio!

Lanterius 

(Sim Sim Não Não no. 136)

Um concílio atípico

Agosto 9, 2018 escrito por admin

Até 1962, a história da Igreja contava com 19 Concílio ecumênicos, segundo o Dictionnaire de Théologie Catholique de Vacant. Denzinger acrescenta o Concílio de Constança (1414), elevando o total a 20. Com o Vaticano II, a lista dos Concílio ecumênicos chega a 21.

O  Dictionnaire de Théologie Catholique define o Concílio ecumênico ou universal como a assembléia solene dos bispos de todo o mundo, reunidos por convocação do RomanoPontífice e sob a sua autoridade e presidência, para deliberarem assuntos relativos a toda a Cristandade.

Talvez se prefira a definição proposta pelo Dicionário Teológico de Rahner, que ressalta mais os três critérios externos de regularidade: “os Concílios (ou Sínodossãoassembléias compostas sobretudo por bispos [alusão aos Concílios aos quaisoutrora, assistiam príncipes e soberanos cristãos], convocadas para discutir assuntoseclesiásticostomar decisões e promulgar decretos (...). A Assembléiaregularmente convocada (convocada, dirigida e confirmada pelo Papa), dos representantes de toda a Igreja, se denomina Concílio Ecumênico.

Os bispos que, reunidos em Concílio Ecumênico, deliberam e tomam decisões com o Papa e sob a sua direção, exercem, conforme a doutrina católica e o direito canônico (CIC, cânon 228) o poder supremo na Igreja e quando o Concílio profere uma definição solene, gozam de infalibilidade em matéria de Isto vale também quando exercem e manifestam globalmente o magistério ordinário da Igreja”.

Por conseguinte, as condições de uma existência para um Concílio ecumênico são: a convocação pelo Papa, a direção dos trabalhos por parte dele (pessoalmente ou por meiode legados), a confirmação de seus atos pelo Pontífice, a qual pode ser antecedente (quando o Papa começa impondo as suas diretrizes), concomitante (ao participar dostrabalhos) ou conseqüente (ao ratificar os atos do Concílio com um assentimento posterior). É a confirmação papal que dá às decisões dum Concílio um valor jurídico universal(CIC 227).

Estes são os critérios externos de regularidade e existência dum Concílio. A este tríplice critério deve-se acrescentar um critério interno: a matéria tratada que, necessariamente se limita aos assuntos eclesiásticos concernentes à fé e aos costumes ou então intimamente relacionados com eles, com exclusão de tudo que não seja decompetência da Igreja (este ultimo se explica por si mesmo tanto que alguns tratados teológicos nem sequer o mencionam). Do fato de ter um Concílio ecumênico os sinais de regularidade formal, não se segue contudo que suas declarações sejam garantidas pela infalibilidade e se imponham como tais à fé e à adesão dos fiéis. Não se deve confundirecumenicidade com infalibilidade.

Encontramo-nos aqui com a questão complexa e, às vezes, difícil para os próprios teólogos, do valor doutrinal das decisões dum Concílio, do qual depende o assentimento devido a elas pelos fiéis. Três princípios teológicos devem ser tomados em consideração (cf. Dic. De Théol. Cath., V, Concile, col. 666): 1) primeiramente, a amplitude e o sentido de uma definição se medem pela intenção do autor, e portanto, antes de tudo é preciso examinar esta intenção; 2) ademais a igreja pode ensinar-nos uma verdade como “de fé”, mas também como “certa”, “comum”, “provável”, etc.; do mesmo modo, uma proposição pode ser considerada como herética, mas também como “errônea”, “temerária”, ou uma censura teológica inferior. Em todos os casos, o juízo definitivo da autoridade suprema é infalível, e exige dos fiéis um assentimento absoluto, mas não obriga igualmente nem sob as mesmas penas: por exemplo, quando uma verdade é proposta como de fé, deve ser considerada como revelada por Deus e crida sob a pena de heresia; se se propõe apenas como certa, deve-se admitir somente sob pena de pecado. A condenação duma preposição como herética equivale a afirmar a proposição contrária como de fé, mas nenhuma outra condenação comporta semelhante equivalência; 3) não se deve perder de vista um terceiro princípio: em toda definição, somente a substância cai debaixo da garantia da infalibilidade.

A aplicação destes 3 princípios teológicos aos 20 Concílios precedentes ao Vaticano II não apresenta muitas dificuldades, porque todos, a exceção do quarto (Calcedônia, 451) e do décimo terceiro (Lião, 1245), incluem a clássica divisão em duas partes; uma doutrinal, chamada capítulo, que contém a exposição da verdadeira doutrina católica a ser defendida contra os ataques, e outra defensiva, o cânon, que encerra numa fórmula breve e condensada, a condenação dos erros opostos, acompanhada pelas diversas sanções: anátema, condenação, reprovação, nota de heresia, etc., além das sanções disciplinares exigidas pelo caso.

Quanto aos critérios externos, os 20 Concílios que precederam o Vaticano II, são todos ecumênicos e regulares na forma;  ademais todos trataram de assuntos disciplinares ou administrativos, sem ultrapassarem o campo das matérias eclesiásticas, próprios da Cristandade. Pelo contrário, quando examinamos os documentos do Vaticano II, à luz dos princípios teológicos antes lembrados, se vai de estupor em estupor.

primeiro motivo de pasmo é a presença de centenas de “observadores” representando praticamente todas as seitas, que participaram ativamente dos trabalhos de “rejuvenescimento da Igreja”.

Ao convocar o Concílio Vaticano I, o Papa Pio IX dirigiu um apelo a todos os protestantes e acatólicos, convidando-os com a Carta Apostólica Iam vos omnes (13 de setembro de 1868), a refletirem se estavam seguindo o caminho prescrito por Nosso Senhor Jesus Cristo, e exortando-os a retornar à Igreja Católica, da qual “faziam parte os seus antepassados”, encontrando nela “alimento saudável de vida”. Contudo quando os dissidentes lhe pediram que apresentasse os seus argumentos ao próximo Concílio, Pio IX, no Breve Per ephemerides accepimus (4 de setembro de 1869), respondeu que “a Igreja não pode permitir que se ponham em discussão erros que já foram demoradamente examinados, julgados e condenados”. Posteriormente, com outro Breve (30 de outubro de 1869), o Papa permitiu aos protestantes e acatólicos a exposição de suas dificuldades a uma comissão de teólogos católicos, porém fora do Concílio.

Ao contrário, no Vaticano II os chamados “observadores” heréticos e cismáticos participaram ativamente dos trabalhos dele, indireta e até diretamente, como testemunha um deles, R. McAfee Brown em Observer em Rome (Methuen, 1964, pp. 227-228): “embora não tivéssemos voz direta no Concílio, realmente tivemos uma voz indireta, por meio de muitos contatos possíveis com os padres e com a sua indispensável e poderosa mão direita, os peritos”. E o mesmo McAfee Brown disse que, para o esquema sobre o ecumenismo, os “observadores” heréticos e cismáticos redigiram as suas opiniões, incorporadas nas intervenções escritas de alguns bispos (op. cit. p. 173) E então, Vaticano II não foi somente um Concílio ecumênico, mas – se se pode chamar assim – “super-ecumênico”; e, apesar disto, católico?

segundo motivo de pasmo é a prolixidade literária dos documentos conciliares. Constitui um motivo real de pasmo o fato comprovado de que todos os textos (constituições, decretos, declarações e mensagens) não ocupam menos de 800 páginas num volume de 4 cm de espessura, enquanto o Denzinger, que abarca todas as definições e declarações em matéria de fé e moral de todos os Concílios, não só ecumênicos, mas também locais, além dum bom número de declarações desde São Clemente I (terceiro sucessor de São Pedro) até 1958 (data da edição do Denzinger por nós manuseada) não chega a 700 páginas e cabe num volume de igual espessura. 

Que significa isto? Aparentemente nada. Mas a prolixidade duma exposição está freqüentemente unida a falta de rigor do pensamento, e a imprecisão deste permite interpretá-lo no sentido desejado, o qual inutiliza os textos conciliares como referência doutrinal, enquanto que a consulta do Denzinger sobre um ponto de doutrina traz sempre uma resposta clara, nítida e definitiva.

Ora, é precisamente o caráter nítido e definitivo que se quis excluir do Vaticano II. Isto se deduz particularmente do discurso de João XXIII na abertura do Concílio, a 11 de outubro de 1962: “não se trata de condenar nem de repetir a doutrina de todos, mas é mister fazer caso dos ‘profetas de desgraças’, a Igreja deve avançar...”

Estranho propósito, que poderia ser interpretado no sentido de que, para avançar, a Igreja deve deixar para trás a doutrina conhecida de todos! A antítese é evidente: antes, depois; para frente, para trás... É fácil prever os protestos contra esta interpretação, mas além da disputa verbal, não é está a realidade que salta a vista? Acaso se encontra nos “conciliares” a doutrina que todos conhecem? Sim, mas apenas nos seus velhos livros de teologia, fechados e talvez vendidos em liquidação há trinta anos.

terceiro motivo de pasmo é a outra afirmação de João XXIII no discurso inaugural: “uma coisa é a substância do “depositum fidei” (...) e outra a maneira com que se exprime”. Ora, já que não existe doutrina sem formulação, esta conserva a ortodoxia da doutrina, e a história da Igreja demonstra que freqüentemente os campeões da ortodoxia católica combateram por uma só palavra e que, uma vez encontrada a formulação definitiva, sempre se considerou que não se devia mudar.

Pelo caminho indicado por João XIII, ao contrário, é fácil chegar a contradizer as irreformáveis decisões do Vaticano I (cap. I, XXX sessão), impondo como regra de fé que os dogmas se devem entender eodem sensu eademque sententia, ou seja, sempre com o mesmo sentido com que foram mantidos, princípios que São Pio X exige em sua encíclica contra o modernismo (n. 38) com referência ao Syllabus de Pio IX e à sua encíclica Qui pluribus (1846).

A declaração de João XXIII é, entre tantos outros, um índice duma mentalidade modernista e indica a vontade de romper com a Tradição.

quarto (mas não último) motivo de pasmo consiste em que, enquanto todos os Concílios anteriores (exceto os de Calcedônia e Lião) se apresentam sob a forma rigorosa da doutrina certa, seguida da  condenação dos erros opostos, o Vaticano II se mostra como um conjunto de conferências seguidas de recomendações, exortações, orientações, tido sem muita precisão, o que permitiu e permite acomodar os textos ao significado desejado.

 

 Mansuetus

 

(Revista Sim, Sim, Não, Não Nº 74, edição portuguesa, abril de 1999.)