Skip to content

Category: Perguntas e RespostasConteúdo sindicalizado

Posso tomar a vacina da Covid-19?

Pe. John Brucciani, FSSPX

 

[Nota da Permanência: Acrescentamos que a liceidade de se tomar a vacina contra a Covid-19 nos casos apontados abaixo não implica na obrigação de fazê-lo.]

 

Muitos fiéis têm pedido orientação moral em relação às vacinas contra a Covid-19. Há vários artigos sobre o tema, que dão respostas diferentes ou nenhuma resposta. Esse artigo é uma tentativa de trazer clareza e solidez à questão

 

Posso tomar a vacina da Covid-19 se ela foi desenvolvida com células de fetos abortados?

Em relação à licitude de receber uma vacina desenvolvida com células fetais, a Pontifícia Academia para a Vida publicou, em 2005, um documento que concluiu que, em certas circunstâncias definidas, é moralmente permitido receber uma vacina desenvolvida de células fetais. Essa conclusão pode soar surpreendente, repulsiva e instintivamente errada, mas as conclusões advêm de princípios teológicos morais. Todos os teólogos morais da FSSPX concordam.

A questão, na nossa presente situação, deve levar em conta: (a) a existência de certas circunstâncias específicas e (b) circunstâncias adicionais, particulares à questão.

 

Circunstâncias específicas

As circunstâncias específicas que devem estar presente são as seguintes:

1. A doença é grave;

2. Não há vacinas alternativas disponíveis;

3. Protestou-se, vigorosamente, contra o uso de células fetais abortadas.

 

Circunstâncias adicionais

As circunstâncias adicionais da situação presente podem incluir:

4. O fato dos governos, mídia e empresas multinacionais estarem trabalhando duro para instaurar uma Nova Ordem Mundial essencialmente anticristã, com a cultura da morte no seu coração. A imposição global de uma vacina maculada pelo aborto é parte desse trabalho.

5. O desenvolvimento acelerado de uma vacina aumenta os riscos de efeitos colaterais maléficos.

6. A possibilidade de consequências penosas impostas àqueles que se recusarem tomar a vacina, como a demissão do trabalho ou mesmo o sequestro de seus filhos pelas autoridades.

 

Considerando as circunstâncias

As circunstâncias específicas se verificam no presente?

1. A doença é grave apenas para um pequeno grupo;

2. Há vacinas alternativas, mas elas não estão, necessariamente, disponíveis a todos;

3. O protesto vigoroso contra o uso de células fetais se trata de uma obrigação pessoal.

 

Em relação às circunstâncias adicionais:

4. Os católicos devem empregar todos os meios razoáveis para evitar cooperar com a imposição da cultura da morte pela Nova Ordem Mundial;

5. O risco de uma vacina desenvolvida às pressas é real, mas impossível de se avaliar;

6. Alguma penalidade pode ser imposta no futuro, mas, por enquanto, não no Reino Unido (N.T.: nem no Brasil);

 

Conclusão

À luz dessas circunstâncias concretas, a vacina desenvolvida de células fetais abortadas pode ser recebida sem pecado: (a) por um membro do grupo de risco, quando não houver vacina alternativa disponível e após protesto, ou (b) se a consequência de recusar a vacina for tão onerosa de modo a ameaçar a manutenção da vida pessoal ou familiar, e após protesto.

 

Santo Afonso de Ligório, padroeiro dos teólogos morais, rogai por nós

 

(Ite Missa Est, Jan-Fev. 2021. Tradução: Permanência)

Comunhão na língua é contrária às práticas sanitárias?

A comunhão na língua é contrária às práticas sanitárias. Assim afirma um artigo publicado no Catholic Leader australiano por Elizabeth Harrington, a oficial de educação para a Comissão de Liturgia da Arquidiocese de Brisbane:

É ruim para os ministros dar comunhão na língua às pessoas que estão de pé, que é a postura recomendada para comunhão na Austrália, e isso é anti-higiênico porque é difícil aos ministros evitar passar saliva para os outros comungantes1.

Essa afirmação (normalmente feita por proponentes da comunhão na mão) revela uma ignorância da prática tradicional da Igreja Romana e das rubricas para a distribuição da Santa Comunhão na língua.

Em primeiro lugar, o comungante deve ajoelhar-se; obviamente, são feitas exceções para os portadores de deficiência, que normalmente desejariam poderem ajoelhar-se. Não apenas esse ato mostra a humildade dos comungantes ao receber Nosso Senhor Sacramentado (i.e., Deus), mas essa postura submissa também permite dar a Hóstia na língua de maneira mais prática, segura e… Higiênica – em todos os três casos, muito mais que através da comunhão na mão.

Outro interessante aspecto é que a forma tradicional de receber a Comunhão de joelhos e na língua demonstra o caráter romano de praticidade que permeia o rito litúrgico de mesmo nome, resultando em uma maneira digna e reverente de receber o Pão dos Anjos, e fácil e eficiente ao mesmo tempo.

A rubrica tradicional do Rituale Romanum prescreve que o Padre deve, cautelosamente, tomar a Hóstia pela ponta com seu polegar e indicador direitos; nenhum outro dedo pode ser usado para realizar essa ação. Como diligentemente ensinado em aulas tradicionais preparatórias para a Primeira Comunhão, o comungante deve inclinar sua cabeça para trás levemente, abrir a boca e estender um pouco a língua, criando o que comumente se chama de “travesseiro da língua”. O Padre, então, consegue colocar, facilmente, a Hóstia na língua sem tocar a língua do comungante, até mesmo sem tocar seus lábios – o que resulta na ausência de contato físico entre o ministro e o comungante.

Mas, com a comunhão na mão, contato direto é feito entre o ministro (normalmente o Ministro de Eucaristia) e os comungantes, que, normalmente, não lavaram (ou higienizaram) suas mãos antes de receber. Portanto, com a comunhão na mão, existe um perigo real de se espalharem germes indesejados.

O fato é que, antes do clamor dos progressistas pela comunhão na mão (algo que foi feito sem aprovação da Santa Sé2, poderíamos acrescentar), o problema da higiene jamais foi levantado em relação à maneira tradicional de receber a Santa Comunhão – e isso durante uma era em que os pregadores da higiene estavam empenhados em tornar o mundo livre de germes.

A ironia dessa acusação contra a Comunhão na língua é que aqueles que promovem a comunhão na mão por razões inexistentes de higiene, ao mesmo tempo, encorajam a prática de “compartilhar o copo” (receber o Preciosíssimo Sangue comunalmente do cálice), prática essa que a Igreja Romana fez cessar em tempos antigos precisamente em razão de preocupações com a higiene (i.e., devido aos restos de saliva que, inevitavelmente, se acumulam quando um grupo de pessoas bebe do mesmo recipiente) – o que poderia levar a desdém por esse Sagrado Mistério.

Esse tema apenas fornece mais um exemplo de como, através de suas práticas tradicionais, a Santa Madre Igreja é zelosa tanto por nossas necessidades espirituais, quanto naturais. Pelo lado sobrenatural, ela nos dá uma maneira reverente na qual nós, pobres e indignos pecadores (“Domine non sum dignus”, citando os sentimentos do Centurião), podemos receber o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor, e, na esfera natural, de uma maneira que não prejudique nossa saúde corporal.

  1. 1. Esse é o jornal arquidiocesano, e o título do artigo era “Communion in the Hand”, publicado em 12 de Fevereiro de 2012, na coluna “Liturgy Lines”. Ele está indisponível online sem uma assinatura.
  2. 2. Cf. o livro fenomenal do Bispo Juan Laise, Communion in the Hand: Documents and History e essa página com um vídeo do Cardeal Burke, que inclui muitos links pertinentes sobre a comunhão na mão.

A Igreja concluiu pela veracidade da Assunção baseado no seu ensinamento sobre a Imaculada Conceição?

Prof. Felix Otten, O.P., e C.F. Pauwels, O.P.

A Assunção de Maria é um dogma católico, ainda que a Bíblia não diga nada sobre ela. A Igreja concluiu pela veracidade da Assunção baseado no seu ensinamento sobre a Imaculada Conceição?

A Igreja Católica fala da Assunção de Maria ao Céu em contraste com a Ascensão de Cristo. Ao usar linguagem diferente para classificar esses eventos, a Igreja quer indicar, claramente, que Maria não ascendeu ao Céu de corpo e alma por suas próprias forças. Ao invés, a Assunção de Maria é um privilégio especial, conferido a ela pelas forças de Deus, de que ela fosse levada ao Céu de corpo e alma. Essa doutrina, há muito aceita pelos católicos, não era chamada de dogma em sentido estrito por séculos porque ela não havia sido solenemente formulada, estabelecida e promulgada pelo Magistério infalível, assim como a doutrina da Imaculada Conceição de Maria por exemplo.

Porém, no dia 1º de novembro de 1950, o Papa Pio XII, solenemente, proclamou o dogma da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria. Antes disso, a Assunção era apresentada aos católicos pelo magistério ordinário da Igreja, ao qual os católicos não podem se opor. O reconhecimento histórico da Assunção é confirmado pela antiquíssima festa dada a esse evento no dia 15 de agosto, e pelo fato de que essa festa era celebrada por cristãos gregos e siríacos durante os séculos primordiais da Igreja.

Sem sombra de dúvidas, é verdade que a Assunção de Maria não é mencionada na Bíblia. Mas a Igreja Católica também ensina que há duas fontes das quais ela extrai a revelação de Deus, a saber, a palavra escrita de Deus, as Sagradas Escrituras, e a Santa Tradição. A Igreja conhece a Assunção de Maria através da Tradição.

Não se pode dizer, em sentido estrito, que a Assunção de Maria é consequência de sua Imaculada Conceição, ainda que essa graça especial lhe tenha dado uma dignidade única entre todos aqueles que já viveram. Fez-se uma comparação com a condição na qual os primeiros humanos viviam antes da queda, mas essa comparação não se sustenta. Pois Adão e Eva haviam sido criados num estado de graça santificante, mas seu privilégio de estar livres do sofrimento e da morte e de ser levados ao Céu sem morrer não vinha como consequência da posse dessa graça santificante.

E embora se possa dizer que Maria recebeu o dom que as primeiras pessoas puseram a perder para todos os seus descendentes, a saber, que ela foi concebida sem pecado original e possuía, imediatamente, a graça santificante, ela não recebeu todos os dons preternaturais que Adão e Eva possuíam. Afinal de contas, ela não esteve livre do sofrimento durante sua vida terrena.

É claro, a morte de Maria não foi uma punição por seus pecados, pois ela jamais havia pecado; foi, apenas, um resultado normal de seu corpo se esgotando e de suas forças diminuindo. Deus não dispôs as coisas de modo que Maria fosse isenta dessa lei da natureza. Por quê? Não sabemos com certeza. É, porém, provável que, no seu sofrimento e na sua morte, Maria refletia o sofrimento paciente de seu Filho e, portanto, foi um exemplo para nós.

O Evangelista Marcos indica que Maria duvidou da missão de Cristo. Isso não foi um pecado?

Prof. Felix Otten, O.P., e C.F. Pauwels, O.P.

Diz-se que Maria jamais pecou, nem poderia pecar. Mas o Evangelista Marcos indica que Maria duvidou da missão de Cristo. Isso não foi um pecado?

Maria, certamente, estava livre de várias tentações como resultado de sua Imaculada Conceição. Portanto, não havia más inclinações nela, as que consistem no descompasso entre o que há de mais elevado e o que há de mais baixo. Em nós, o corpo, frequentemente, é um agente de pecado, pois ele puxa para baixo a mente e, frequentemente, rebela-se contra as potências elevadas da alma. E, é claro, não havia nada disso em Maria, porque ela não havia sido contaminada com o pecado original, razão pela qual não havia o referido descompasso. Portanto, ela não poderia ser tentada por um desejo das potências baixas contra as elevadas. Ela poderia, porém, ser tentada nas potências mais elevadas da sua alma, na sua mente e na sua vontade, assim como até mesmo Cristo foi tentado pelo demônio.

Mas ser tentado e pecar são duas coisas diferentes. Que Maria nunca tenha cometido um pecado é absolutamente claro para os teólogos católicos, ainda que a Igreja jamais tenha se pronunciado oficialmente sobre isso. Maria, como dizem, era sem pecado. Mas Maria também era impecaminosa, isto é, ela não poderia sequer cometer um pecado?

Essa, obviamente, é outra questão completamente diferente. A maioria dos teólogos sustenta que Maria não poderia pecar. A razão não é que ela era livre do pecado original, pois Adão e Eva também foram criados livres do pecado original e, ainda assim, pecaram. Devemos buscar a razão na plenitude de graças que Deus lhe deu em atenção a sua maternidade divina. Por isso e, portanto, por um auxílio especial de Deus, a vontade de Maria sempre escolheu o bem.

E, agora, quanto à história do Evangelista Marcos: ele não diz, de modo algum, que Maria teria duvidado de Cristo. Ele anuncia, primeiramente, no terceiro capítulo, versículo 21, que os parentes de Cristo “foram O prender, porque diziam: Ele está louco” Então, aparentemente, havia parentes de Jesus que não acreditavam em Sua missão. Quem eram essas pessoas não está esclarecido; eles podem ter sido tios, primos e, talvez, parentes mais distantes ainda. Após, somos informados de algo completamente diferente, a saber, que Jesus entrou num debate contra escribas de Jerusalém acerca de exorcismos. E, então, é dito ao final do capítulo, “Chegaram sua mãe e seus irmãos e, estando fora, mandaram-nO chamar”. Se eles conversaram com Ele e sobre o que, isso não nos é dito.

Não é certo que essa conclusão está conectada com o início do capítulo que menciona a dúvida de alguns dos parentes de Cristo. E, portanto, não é sabido por que a mãe e irmãos de Cristo vieram. Mas, ainda que fosse verdade que Maria fosse com parentes descrentes de Cristo, isso não implica que ela compartilhava da descrença deles. Tal infidelidade da parte de Maria conflita com tudo o mais que sabemos sobre ela. Por que deveríamos aceitar tal conclusão de um texto discutivelmente ambíguo?

Que é heresia?

Pe. Juan Carlos Iscara - FSSPX

Originalmente, o termo grego hairesis era um termo neutro, que significava ter ou escolher determinado conjunto de opiniões. Ao ser usado pela Teologia católica, o termo, hoje, normalmente designa a profissão de um erro contra a fé.

Quando alguém expressa uma opinião que contradiz o dogma católico, ele está afirmando uma posição herética, mas isso não significa, necessariamente, que ele cometeu o pecado de heresia ou que ele deve ser considerado um herege.

Conforme definição do Direito Canônico, a heresia é um erro voluntário e pertinaz, no fórum externo e perante Deus, contra uma verdade que deve ser crida como fé divina e católica por um indivíduo batizado que confessa a fé em Cristo.

É um erro voluntário – um julgamento errado do intelecto, extraído de uma má vontade. Embora esteja ciente de que sua opinião contradiz um dogma revelado e proposto como tal pelo magistério solene ou ordinário da Igreja, ainda assim a pessoa, voluntariamente, nega ou põe em dúvida aquela verdade de fé. Não é um erro que vem da mera ignorância (ainda que tal ignorância seja culpável), nem a simples afirmação de um erro por palavras ou ações, por medo ou outro motivo, ainda que a fé interna fosse mantida.

O erro deve ser manifestado no fórum externo, já que as leis canônicas lidam apenas com o que pode ser apurado no exterior, com palavras e ações externamente manifestadas, e não com as disposições internas de um indivíduo.

É um erro pertinaz. “Essa pertinácia” não é uma simples teimosia ao se defender seus pontos de vista, mas um termo canônico precisamente definido; ela significa que a autoridade eclesiástica competente deu ciência à pessoa de que suas opiniões contradizem o dogma católico e que, apesar dessas admoestações repetidas, a pessoa persiste em sua opinião errônea.

Finalmente, para ser uma heresia, também deve ser professada por um católico, que conhece a autoridade da Igreja de ensinar aos homens as verdades de fé. Portanto, não é heresia se for professada por um não batizado (infiel, judeu, etc) ou por alguém que foi batizado na infância, mas nunca fez um ato pessoal de fé.

No mundo de hoje, é evidente que muitos católicos têm opiniões heréticas, mas – a não ser que todos os elementos acima estejam presentes – não podemos concluir que todos eles, necessariamente, caíram no pecado da heresia.

Desobedecemos a Nosso Senhor ao chamar o sacerdote de "Padre" (Pai)?

Pe. Juan Carlos Iscara, FSSPX

Os protestantes, frequentemente, admoestam a nós, católicos, por desobedecer ao mandamento de Nosso Senhor ao chamar o sacerdote de “Padre” (Pai). Eles têm razão? Nós, de fato, estamos desobedecendo?

Os protestantes costumam citar as Escrituras, mas, frequentemente, retirando as palavras de seu contexto e eliminando qualquer referência a outros textos – mas são esse contexto e essas referências que iluminam o verdadeiro sentido das expressões, um sentido que já havia sido confirmado, muitos séculos antes de Lutero, pela leitura e compreensão da Igreja Católica acerca delas.

No Evangelho de São Mateus (Mt. 23:8-10), de fato, lemos que Nosso Senhor disse: “Mas vós não façais chamar rabi, porque um só é vosso Mestre, e vós sois todos irmãos. A ninguém chameis pai sobre a terra, porque um só é vosso Pai, o que está nos céus. Nem façais que vos chamem mestres, porque um só é vosso Mestre, o Cristo”

Como Nosso Senhor não parece fazer nenhuma exceção, essas palavras demandariam que absolutamente ninguém poderia ser chamado de pai, professor ou mestre. Portanto, se as entendermos literalmente, seria proibido usar esses termos até para os que nos deram a vida, ou que nos ensinaram na escola… Ainda assim, Ele mesmo, na Palavra de Deus, usou esses termos para se referir a alguns homens nas Escrituras que Ele inspirou.

Ele usou o termo “pai” em referência a nossos pais biológicos quando revelou e, após, confirmou os mandamentos (Ex. 20:12, Lc 18:20). Mas também foi abundantemente usado em referência a relações que vão além da geração puramente biológica.

O profeta Eliseu usou o termo em um sentido espiritual, clamando a Elias quando este foi levado ao céu numa carruagem de fogo: “Eliseu o via e clamava: Meu pai, meu pai, carro de Israel e seu condutor” (II Reis, 2:12)

Ele é usado quando alguém se dirige a uma pessoa digna de respeito especial, como quando o homem rico clama a Abraão da sua condenação no inferno: “Gritando, disse: Pai Abraão, compadece-te de mim e manda Lázaro que molhe em água a ponta do seu dedo, para refrescar minha língua, pois sou atormentado nesta chama” (Lc. 16:24)

Ele é aplicado aos nossos anciões, mesmo quando eles nos perseguem, como Estêvão fez quando se dirigia àqueles que o condenavam: “Varões irmãos e pais, ouvi” (Atos, 7:2)

Ele é aplicado àqueles que detém o cuidado temporal sobre outros, como o patriarca José fez no Egito: “Não foi por vosso conselho que fui mandado aqui, mas por vontade de Deus, o qual me tornou como pai do faraó, senhor de toda a sua casa e príncipe em toda a terra do Egito” (Gen., 45:8)

Os Apóstolos consideravam-se pais espirituais de seus discípulos e chamavam-nos de filhos, e São Paulo se gloria dessa paternidade espiritual: “Não escrevo estas coisas para vos envergonhar, mas admoesto-os como a meus filhos caríssimos. De fato, ainda que tenhais dez mil preceptores em Cristo, não tendes todavia muitos pais, pois fui eu que vos gerei em Jesus Cristo por meio do Evangelho” (I Coríntios, 4:14-15)

Portanto, é evidente que Nosso Senhor não nos proíbe usar o termo “pai” nesses sentidos, que a Palavra de Deus usou abundantemente na Escritura inspirada. Ele Se expressa de maneira incisiva, numa hipérbole, para condenar aqueles que buscam títulos especiais e honrarias, buscando exaltar a si mesmos como acima dos outros.

Se Maria é Imaculada, como Jesus é o seu salvador?

Cristo é o Salvador do mundo e o Salvador de todos os homens. Ainda assim, se a Igreja Católica ensina que Maria é imaculada, portanto sem mancha, como, então, Cristo pode ser o salvador de Maria?

Muitos compreendem equivocadamente a doutrina católica da Imaculada Conceição de Maria. Essa doutrina sustenta, apenas, que Maria, devido a sua eleição como Mãe de Deus por uma graça especial do Altíssimo, foi tornada livre do pecado original. Isso é uma crença antiquíssima da Igreja Romana que foi solenemente declarada artigo de fé pelo Papa Pio IX em 1854 e proclamada nos seguintes termos:

“Declaramos […] que a doutrina que sustenta que a bem-aventurada Virgem Maria, no primeiro momento de sua conceição, por uma graça e um privilégio especiais de Deus Todo-Poderoso e tendo em vista os méritos de Jesus Cristo, o Salvador da raça humana, foi mantida livre da mancha do pecado original, [a doutrina do pecado original] foi revelada por Deus”

A solução da acusação levanta, a saber, que, de acordo com a doutrina católica, Maria não precisaria de Cristo como seu Salvador está evidente nas palavras em itálico da citação acima da declaração solene de Pio IX de que Maria, de fato, foi salva por Deus. Nesse sentido específico, Maria foi salva do pecado original por Deus. Como descendente de Adão, Maria deveria ter sido manchada pelo pecado original assim como todas as outras pessoas que já viveram.

E Deus fez todas essas coisas tendo em vista os méritos de Cristo. Assim como os justos da Antiga Aliança também foram salvos retroativamente pelos méritos de Cristo, assim também Maria, de fato, foi salva por Cristo, mas, novamente, de uma maneira mais sublime do que a da nossa salvação. A salvação dela consistiu não em remover o pecado original que já estava lá, mas em prevenir toda a contaminação pelo pecado. E é por isso que Maria, acertadamente, chamou Deus de seu “Salvador” no Magnificat.

A razão pela qual ela foi salva de maneira tão especial foi que ela foi escolhida para ser a mãe de Cristo. Apesar disso, a maneira sobrenatural do nascimento de Cristo, a saber, de uma mãe virgem, não tem nada a ver com a Imaculada Conceição de Maria. Esse é outro privilégio completamente diferente de Maria.

O sacrifício de Cristo no Calvário e a Missa

O sacrifício de Cristo no Calvário trouxe a salvação para todos os povos de todos os tempos, e, ainda assim, a Igreja Católica Romana ensina que Cristo é oferecido na Missa diariamente. Isso não nega o sacrifício da Cruz e a Epístola de São Paulo aos Hebreus?

Poderíamos pensar que o sacrifício da Santa Missa seria uma negação do sacrifício da Cruz se a Missa fosse um sacrifício diferente do sacrifício da Cruz. Mas não é o caso de acordo com a doutrina católica. A Igreja, claramente, ensina que o sacrifício da Santa Missa é o mesmo sacrifício da Cruz e difere apenas na maneira de oferecimento. O mesmo Cristo, que Se sacrificou cruentamente pelo povo no Calvário, sacrifica a Si mesmo na Missa.

O sacrifício da Missa também poderia ser considerado uma negação do sacrifício da Cruz se ele tivesse a mesma intenção. Também não é o caso, Afinal de contas, na Cruz, Cristo trouxe a salvação e todas as graças para os homens. Na Santa Missa, os méritos do sacrifício da Cruz já foram adquiridos e estão sendo tão somente aplicados e distribuídos ao povo. São duas coisas diferentes. E é belíssimo que a Santa Missa seja a comemoração mística do sacrifício da Cruz. Portanto, a lembrança dele é, assim, mantida viva entre os homens e, portanto, as graças conquistadas através do sacrifício do Cruz são dadas aos homens através dela.

E, portanto, o sacrifício da Missa não é uma negação do sacrifício da Cruz. Os textos de São Paulo, com os quais os protestantes querem provar que não há nenhum outro sacrifício além do sacrifício da Cruz, estão no 9º Capítulo da Epístola aos Hebreus, versículo 12 especificamente: “Mas Cristo […] com seu o seu próprio sangue, entrou uma só vez no Santo dos Santos, depois de ter adqurido uma redenção eterna”; versículo 25: “E não entrou para se oferecer muitas vezes a si mesmo”; e versículo 29:  “Assim também Cirsto se ofereceu uma só vez”. Aqui, o Apóstolo contrasta os sacrifícios repetidos dos hebreus da Antiga Aliança com o sacrifício único de Cristo, que trouxe a salvação de uma vez por todas. Esses textos não se referem, de maneira alguma, ao sacrifício da Missa. E, é claro, os católicos aderem integralmente ao ensinamento de São Paulo, pois nós não defendemos que o sacrifício diário da Missa traz uma nova redenção. Ademais, os numerosos sacrifícios dos judeus não podem ser comparados com a Missa, pois aqueles sacrifícios eram apenas figuras do sacrifício da Cruz. A Santa Missa, porém, foi instituída por Deus para compartilhar conosco os frutos do sacrifício da Cruz.

É permitido tolerar um mal?

Pe. Juan Carlos Iscara, FSSPX

Em si mesmo (per se), diante do mal e do erro, a única atitude prática permitida é guerra, repressão e ódio. Em circunstâncias normais, é a única maneira de impedir o que é mal e fazer o que é bom.

Mas, excepcionalmente (per accidens), pode haver casos em que a repressão de um mal causa o risco de gerar males ainda maiores do que aquele que estamos tentando impedir, ou casos em que, através da tolerância paciente e temporária do mal, grandes bens podem ser atingidos.

Como Santo Tomás explica, “O governo dos homens deriva do governo de Deus e deve imitá-lo. Deus – onipotente e infinitamente bom – permite o mal que acontece no universo: embora pudesse eliminá-lo, Ele o suporta, seja para atingir um grande bem, seja para evitar grandes males. De maneira semelhante, [nós] podemos, licitamente, tolerar certos males, para evitar males maiores ou atingir um grande bem (II-II, .q. 10, a.1, ad corpus).

Em circunstâncias excepcionais, portanto, uma mudança de atitude excepcional é compreensível – ao invés de repressão imediata, a tolerância.

Tolerância é a permissão negativa de um mal.

Seu objeto é um mal que, por razão séria, não pode ser evitado aqui e agora. Constitui uma permissão simples: permite que o mal subsista. A permissão é simplesmente negativa: ela é dada porque não se pode proceder de outra maneira.

A tolerância não é suportar passivamente apenas, mas um ato positivo da vontade através de que alguém se abstém, neste caso concreto delimitado, de reprimir o que deveria ser reprimido. Ela não significa aprovação ou garantia de liberdade para agir, pois a liberdade só é possível para o que é bom. Na verdade, ela significa, enfaticamente, a reprovação daquilo que é tolerado. A tolerância é um bem – mas o mal tolerado permanece sendo um mal.

Podemos escolher, querer e amar a tolerância, porque – em circunstâncias concretas – ela é um bem. Mas, mesmo em circunstâncias excepcionais, não podemos escolher, querer e amar o mal tolerado, pois ele é sempre um mal. Se estivermos impedidos de combater o mal, ainda assim devemos odiá-lo e evitar qualquer tipo de compactuação com ele.

Diretos naturais e "direitos humanos"

“Direito” (ius) é definido por São Tomás em termos estritamente objetivos como uma ipsa res iusta, uma coisa justa, algo que é devido. Essa “coisa justa” sempre é um bem honesto. Portanto, é uma contradição referir-se a atos pecaminosos como “direitos”.

Para melhor explicar a noção do que é devido, a doutrina católica distingue entre direitos inatos e direitos adquiridos.

Direitos inatos são estritamente naturais, absolutos, fundados na natureza do homem. Eles advêm do fim necessário do homem, a que ele está destinado por sua natureza. Essa necessidade natural lhe dá o direito de fazer, sem ferir o próximo, o que é necessário para atingir seu fim. Esses direitos são inerentes à natureza humana; eles não podem ser alienados ou extintos no que diz respeito a sua substância, embora um indivíduo possa abster-se de seu exercício quando ele não estiver obrigado a exercê-lo, e até mesmo renunciar a eles formalmente para buscar uma perfeição maior.

Direitos adquiridos são fundados em um fato livre, contingente – isto é, algo que poderia ou não ter acontecido, dependendo da ação livre de alguém. Por exemplo, eu posso escolher comprar um livro ou não, mas, uma vez que tenha decidido comprar um livro e cheguei a um acordo com o vendedor, o livro é meu, e o pagamento é do vendedor. Esses direitos podem ser perdidos ou transferidos a outro.

Em consequência, podemos dizer que os verdadeiros direitos naturais do homem são inerentes à sua própria natureza. Em relação a Deus, o homem não tem direitos; mas, em relação a outros homens, ele tem o direito de usar bens que sejam conformes a sua natureza – isto é, os bens que lhe sejam devidos.

Eles também são anteriores ao Estado, que não pode violá-los. Primordiais e inalienáveis, esses direitos existem antes de qualquer autoridade temporal; eles não são dados por ela. O Estado deve reconhecê-los e protegê-los e jamais sacrificá-los para o bem comum.

E, finalmente, eles são fundados em Deus. Assim como a natureza humana é dada por Deus, os direitos da natureza fundam-se n´Ele. Verdadeiros direitos advêm dos deveres de homem perante Deus – nós temos direitos concernentes a nossa vida, família, patrimônio, culto, porque, nessas coisas, temos deveres perante Deus.

Consequentemente, levando em conta que o homem é composto de alma espiritual (intelecto, vontade livre) e de corpo material (sentidos, movimento), há dois principais direitos naturais, totalmente imprescritíveis – o direito de saber a verdade e o direito de buscar os bens necessários para atingir a felicidade e nosso fim último (i.e., Deus e tudo que ajuda a chegar a Ele). Deus não retira esses direitos do homem durante essa vida; consequentemente, nenhum homem pode retirá-los de outro homem.

Há outros dois direitos naturais que não são imprescritíveis – i.e., eles podem ser perdidos como punição legítima por um crime: o direito de exercer nossa liberdade no que não for contrário a nossos deveres perante Deus e perante o próximo e o direito de preservar nossa pessoa e nossos bens.

Infelizmente, o mundo moderno proclama e protege como “direitos humanos” coisas que não têm esse status. Alguns são falsos porque sua fundação é má, em razão de se fundarem apenas na vontade do homem, não na natureza (isto é, em Deus, o criador da natureza). Outros são falsos porque seu objeto é injusto, pois são contrários à lei divina e natural – por exemplo, o “direito” ao aborto. Finalmente, alguns são falsos porque sua extensão é abusiva, como quando alguns direitos adquiridos são reivindicados como naturais (inatos)

AdaptiveThemes