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Category: AnônimoConteúdo sindicalizado

3. Vigílias e penitências corporais

Vigílias e penitências corporais

 

As Superioras, inclinando-se perante os sinais certos da vontade do Céu - sinais em que não podemos deter-nos para não avolumar este pequeno opúsculo – decidiram-se, pouco a pouco, apesar das apreensões, entregá-la às exigências de Jesus Crucificado.

A Irmã Maria Marta vê-se primeiro convidada a passar as noites estendida no soalho da cela. Depois recebe a ordem de trazer noite e dia um rude cilício. Em breve deve entrançar uma coroa de agudos espinhos que não lhe permite mais apoiar a cabeça, sem sentir dolorosos sofrimentos.

No fim de oito meses, em maio de 1867, não contente com as noites passadas no chão, com o cilício e a coroa de espinhos, Jesus exige à Irmã Maria Marta o sacrifício do próprio sono, pedindo-lhe que vele sozinha, junto do SS.mo Sacramento, enquanto tudo dorme no Mosteiro. Em tais exigências não encontra a natureza satisfação! Mas não é este o preço habitual dos favores divinos?... No silêncio das noites, Nosso Senhor comunicava-se à sua serva da maneira mais maravilhosa. Algumas vezes, é certo, Ele a deixava lutar penosamente, durante longas horas, com a fadiga e o sono, mas o mais freqüente era apoderar-se dela imediatamente e arrebatá-la a uma espécie de êxtase. Confiava-lhe as suas penas e os seus segredos de amor, enchia-a de carícias, tirava-lhe o coração para o meter dentro do seu. O seu trabalho nesta alma tão humilde, tão simples e dócil, aumentava todos os dias.

2. Primeiros anos de vida religiosa

Primeiros anos de vida religiosa

 

Francisca Chambon tinha 18 anos quando entrou no Mosteiro da Visitação de Santa Maria de Chambéry. Dois anos mais tarde, na festa de Nossa Senhora dos Anjos - 2 de agosto de 1864 - pronunciou os santos votos, tomando lugar, definitivamente, entre as religiosas de véu branco (leigas), com o nome de Irmã Maria Marta. Nada, exteriormente, fazia prever coisa alguma em favor da nova esposa de Jesus. A beleza da filha do Rei era verdadeiramente toda interior... Deus que, indubitavelmente se reservava compensações, tinha, no que respeita aos dons naturais, tratado a Irmã Maria Marta com verdadeira parcimônia!... Maneiras e linguagem rústicas, inteligência quase medíocre, que nenhuma cultura, nem sequer sumária, viera desenvolver: a Irmã Maria Marta não sabia ler nem escrever1; sentimentos que só se elevavam sob a influência divina; um temperamento vivo e um pouco tenaz; as suas Irmãs bem o dizem sorrindo: “Oh! era uma santa! mas uma santa que por vezes nos dava trabalho!...”

A “santa” bem o sabia! E com uma candura comovedora, queixava-se a Jesus por ter tantos defeitos: “As tuas imperfeições, respondia Ele, são a maior prova de que tudo o que se passa em ti vem de Deus. Eu nunca tas tirarei; elas são a cobertura que esconde os meus dons. Desejas muito ocultar-te? Eu ainda o desejo mais do que tu!...”

Ao lado deste retrato, gostaríamos de colocar outro, com traços mais atraentes. Sob estas aparências menos lisonjeiras, a observação mais atenta das superioras em breve adivinhou, e depois descobriu, uma fisionomia moral já muito bela, embelezando-se todos os dias sob a ação do Espírito de Jesus. Notam-se aqui traços marcados com esses sinais infaliveis que revelam o Artista Divino... e revelam-no tanto melhor quanto os senões da natureza não desapareceram: nesta inteligência tão apagada, quantas luzes, quantas vistas profundas! Neste coração sem cultura natural, que inocência, que fé, que piedade, que humildade, que sede de sacrifício! Bastará agora recordar o testemunho da superiora, a Rev.ma Madre Teresa Eugênia Revel: “A obediência é tudo para ela. A candura, a retidão, o espírito de caridade que a anima, a mortificação e, sobretudo, a humildade sincera e profunda, parecem-nos as garantias mais certas da ação de Deus sobre esta alma. Quanto mais recebe, mais entra num verdadeiro desprezo de si mesma, estando quase sempre esmagada pelo temor de estar na ilusão. Dócil aos conselhos que lhe dão, as palavras do sacerdote e da superiora têm um grande poder para lhe dar a paz... O que sobretudo nos tranqüiliza é o seu amor apaixonado à vida escondida, a imperiosa necessidade de fugir dos olhares humanos e o receio de que percebam o que nela se passa.”

* * *

Os dois primeiros anos de vida religiosa da nossa Irmã decorreram quase normalmente; a não ser um dom de oração pouco vulgar, um recolhimento perpétuo, uma fome e sêde de Deus contínuas, nada se lhe notava de verdadeiramente particular que fizesse prever coisas extraordinárias. Mas, em setembro de 1866, a jovem conversa começou a ser favorecida com freqüentes visitas de Nosso Senhor, da Santíssima Virgem, das almas do purgatório e dos Espíritos Bem-aventurados.

Jesus Crucificado - sobretudo - oferece, quase todos os dias, à sua contemplação, as Divinas Chagas, ora resplandecentes e gloriosas, ora lívidas ou ensangüentadas, pedindo-lhe que se associe às dores da sua Sagrada Paixão.

  1. 1. Importa nunca perder de vista esta completa ignorância da Maria Marta: dum lado ficaremos maravilhados por achar tanta “exatidão doutrinal e precisão de expressões” numa pessoa de tão pouca cultura; doutro, desculparemos facilmente o que houver a desejar em certos “pormenores que se não relacionam com a substância das coisas”. (Apreciação do Rev. Pe. Mazoyer, S. J.)

23. Se é conveniente, ao combater o erro, combater e desacreditar a personalidade de quem o sustenta e divulga.

Pe. Sarda y Salvany

Dirá alguém: “É certo que assim se passa com as doutrinas abstratas. Mas será conveniente combater o erro, por maior que seja, ao se fixar e encarniçar contra a personalidade de quem o sustenta?” Eis a nossa resposta: Sim, muitíssimas vezes é conveniente, e não só conveniente, mas até indispensável e meritório diante de Deus e da sociedade. E ainda que se possa deduzir essa afirmação do que anteriormente foi exposto, queremos todavia tratá-la aqui ex professo, pois é grande a sua importância.

Com efeito, não é pouco frequente a acusação que se faz aos apologistas católicos de preocupar-se sempre com pessoas, e quando se lança essa acusação a um dos nossos, parece aos liberais e aos contaminados de liberalismo que já não há mais que dizer para condená-lo. E contudo não têm razão; não, não a têm. As idéias más devem ser combatidas e desacreditadas, e é preciso torná-las odiosas, desprezíveis e detestaveis à multidão, a quem elas tentam enganar e seduzir.

Assim como as idéias não se sustentam em nenhum caso por si mesmas, elas não se difundem nem se propagam sozinhas; não poderiam, por si mesmas, produzir todo o mal de que sofre a sociedade. São como as flechas ou balas, que a ninguém iriam ferir, se não houvesse quem as disparasse com o arco ou o fuzil.

Ao arqueiro e ao fuzileiro devem se dirigir, pois, os tiros de quem pretenda destruir a sua mortal pontaria. E qualquer outro modo de fazer guerra será tão liberal como queiram, mas não terá senso comum.

Os autores e propagandistas de doutrinas heréticas são soldados com armas de envenenados projéteis; suas armas são o livro, o jornal, o discurso público, a influência pessoal. Não basta, pois, desviar-se para evitar o tiro. Não, a primeira coisa a se fazer, a mais eficaz, é inabilitar o atirador.

Assim, convém desautorizar e desacreditar o livro, o jornal e o discurso do inimigo; e não só isto, mas também, em certos casos, desautorizar e desacreditar a sua pessoa. Sim, a sua pessoa, pois este é o elemento principal do combate, como o artilheiro é o elemento principal da artilharia, e não a bomba, a pólvora ou o canhão. Pode-se, pois, em certos casos revelar em público suas infâmias, ridicularizar seus costumes, cobrir de ignomínia seu nome e sobrenome. Sim, leitor, e pode-se fazer em prosa ou em verso, a sério ou de piada, em caricaturas e por todos os meios e procedimentos que no futuro se possa inventar. É importante apenas não pôr a mentira a serviço da justiça. Isso não; não se pode sob pretexto algum faltar com a verdade, nem um iota. Porém, sem sair dos estritos limites desta verdade, lembremo-nos daquele dito de Crétineau-Joly: A verdade é a única caridade permitida à história; poderíamos acrescentar: e à defesa religiosa e social.

Os mesmos Santos Padres, que já citamos, provam esta tese. Os próprios títulos de suas obras dizem claramente que, ao combater as heresias, o primeiro tiro procuravam dirigi-lo contra os heresiarcas. Quase todos os títulos das obras de Santo Agostinho se dirigem ao nome do autor da heresia: Contra Fortunatum manichoeum, Adversus Adamanctum; Contra Felicem; Contra Secundinum; Quis fuerit Petilianus; De gestis Pelagii; Quis fuerit Julianus etc. De modo que quase toda a polêmica do grande Agostinho foi pessoal, agressiva, biográfica, por assim dizer, tanto como doutrinal; lutando corpo a corpo com o herege, como também contra a heresia. E o que dizemos de Santo Agostinho poderíamos dizer de todos os Santos Padres.

De onde o liberalismo tirou, pois, a novidade de que ao combater os erros se deve prescindir das pessoas e até mesmo as lisonjear e agradar? Firmem-se no que ensina sobre isto a tradição cristã, e deixem-nos a nós, os ultramontanos, defender a fé como se defendeu sempre na Igreja de Deus.

Que penetre, pois, a espada do polemista católico; que fira e vá direto ao coração! É a única maneira real e eficaz de combater.

1. Infância e juventude

Sua infância e juventude

 

Francisca Chambon nasceu duma família de agricultores, modesta mas cristã, na aldeia de Croix-Rouge, perto de Chambéry, no dia 6 de Março de 18411. No mesmo dia recebeu o santo batismo, na Igreja paroquial de S. Pedro de Lemenc. Aprouve a Nosso Senhor revelar-se muito cedo a esta alma inocente. Quando Francisca tinha nove anos, levando-a uma sua tia à adoração da cruz, numa sexta-feira santa, viu Jesus Cristo lacerado, ensanguentado, como no Calvário. “Oh! em que estado o vi!”... dirá ela mais tarde. Foi esta a primeira revelação da Paixão do Salvador, que devia ocupar tanto lugar na sua existência. Mas nos seus tenros anos, foi sobretudo favorecida pelas visitas do Menino Jesus. No dia da sua Primeira Comunhão, veio a ela visìvelmente; e desde então, em todas as comunhões, até à morte, será sempre Jesus Menino que ela verá na Santa Hóstia. Jesus tornou-se o companheiro inseparável da sua juventude, seguia-a ao trabalho, nos campos, conversava com ela pelos caminhos e acompanhava-a à casa paterna. “Estávamos sempre juntos... oh! como eu era feliz! tinha o Paraíso no coração!...” dizia ela recordando, no fim da vida, estas longínquas e dulcíssimas lembranças. Na época destes precoces favores, Francisca nem pensava em contar a sua vida de familiaridade com Jesus: contentava-se em gozá-la, julgando ingenuamente que toda a gente possuía o mesmo privilégio. Contudo, a pureza e o fervor desta menina não podiam passar despercebidos ao digno pároco da freguesia: e por isso dava-lhe freqüentemente a Sagrada Comunhão. Foi também ele que nela descobriu a vocaçao religiosa e a foi apresentar ao Mosteiro da Visitação. 

  1. 1. A data correta é 6 março 1841 [N. do ed.].

Introdução ao segundo domingo da Quaresma

“Este é meu Filho bem-amado, escutai-O” 

 

Paramentos roxos

 

A estação de hoje reunia-se na Igreja de Santa Maria, chamada In Dominica, pelo fato de os cristãos aí se congregarem no Domingo. Era tradição ter sido nela que São Lourenço distribuía os bens da Igreja aos pobres. Era no século V paróquia de Roma.

Como nos três Domingos da Septuagésima, Sexagésima e Quinquagésima, são nos 2°, 3° e 4° da Quaresma os textos do Antigo Testamento que formam a trama da composição das missas, de sorte que os séculos passados continuam a preparar-nos para os mistérios da Páscoa. No 2° Domingo da Quaresma, lemos em Matinas a história da benção solene do velho Isaac dada no leito da agonia ao seu filho Jacó. Todos conhecem esta bela página da Escritura. A Abraão e Isaac sucede Jacó, de preferência ao primogênito Esaú, para se tornar o herdeiro e transmissor das promessas e bênçãos divinas. “Sê o senhor dos seus irmãos e que as nações se prostrem diante de ti. Todos os povos serão abençoados em ti e no que nascer de ti” (Gênesis). Os Santos Padres veem no Patriarca Jacó que suplanta o irmão para ser, em vez dele, o objeto dos favores divinos, uma figura de Cristo, o segundo Adão que se torna, em vez do primeiro, o chefe duma humanidade regenerada e abençoada por Deus, aquele em quem o Pai pôs todas as complacências e os povos serão abençoados. Comparando os dois textos, o do Gênesis e o do Evangelho da Missa, facilmente poderemos ver como concordam e se completam no pormenor mais insignificante. Deus abençoou o seu filho revestido da nossa carne, como Isaac abençoou Jacó revestido das vestes do irmão. Santo Agostinho, que olha as peles de cabrito como um símbolo do pecado, diz que Jacó, cobrindo com elas as mãos e o pescoço, é a imagem de Cristo, que, sendo sem pecado, tomou sobre Si os pecados dos outros1.

Isto deixa-nos ver como a história de Jacó é figura de Cristo e da Igreja. E lembremo-nos que Jesus Cristo, o Filho de Deus, que o Evangelho de hoje nos apresenta a transfiguração no Monte Tabor como sendo o objeto das complacências do Pai, solidarizou-se conosco, ao ponto de se vestir “com a carne” e de se deixar morrer por nós para nos tornar coerdeiros da sua glória e filhos queridos do Pai dos Céus. Em Jesus fomos abençoados por Deus — n’Ele que é o mais velho, o primogênito de muitos irmãos.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

  1. 1. O Pontifical oferece-nos, na oração que o Prelado diz ao calçar as luvas, um simbolismo idêntico “Cobri, Senhor, as minhas mãos com a pureza do Homem Novo que desceu dos Céus a fim de que, tendo Jacó obtido com as mãos cobertas de peles de cabrito, a benção de seu pai, possa eu alcançar também a benção da vossa graça, oferecendo-Vos esta vítima de salvação”

Irmã Maria-Marta Chambon Da Visitação

Irmã Maria-Marta Chambon Da Visitação de Santa Maria de Chambéry e as Sagradas Chagas de N. S. Jesus Cristo

 

V. + J.

 

Irmã Maria-Marta Chambon

Da Visitação de Santa Maria de Chambéry

AS SAGRADAS CHAGAS DE N. S. J. CRISTO

 

5ª Edição

1926

 

ADAPTADO DA VERSÃO PORTUGUESA POR PERMANÊNCIA

apresentação do primeiro domingo da quaresma

“E vieram os anjos e serviram-no”

 

Paramentos roxos

 

Neste domingo que era outrora o primeiro dia da Quaresma, reunia-se a estação na basílica de S. Salvador 1.

Toda a liturgia respira um pensamento de fortificante confiança, desde o Intróito, Gradual e Ofertório até a Comunhão, compostos todos com versículos do Salmo 90 que vem quase por inteiro no Tracto e se repete durante a Quaresma para ser, por assim dizer, o diapasão da vida nova, de bom combate, que devemos levar nestes dias. E não são acaso as lutas do Salvador, que se vão desenrolando diante de nós, para nos encorajar na batalha? A Igreja, pelo menos, assim nos dá a entender, propondo à nossa meditação o Evangelho que refere à tentação de Cristo. Era a missão que empreendera de esmagar Satã que começava, e referi-la a Igreja neste princípio da Quaresma parece querer indicar o verdadeiro motivo de confiarmos na vitória. O Senhor triunfou e a Igreja diz-nos que podemos triunfar com Ele, porque afinal a verdade é que a tentação e o combate que se desenrola em nós e à nossa volta, são a tentação e o combate e também a vitória de Cristo. O nosso esforço é d’Ele, as nossas forças são d’Ele e o nosso triunfo na Páscoa é d’Ele também. Empreendamos, pois, generosamente o bom combate cuja estratégia o Apóstolo em grandes linhas nos traça na Epístola da Missa. Encorajemo-nos com este pensamento de que o progresso espiritual nas almas é a vitória de Cristo que se prolonga e que o combate necessário para a garantir já foi dado. Estes dias da Quaresma são tempo de salvação, são o tempo favorável que nos permite marcar posições definitivas no combate incessante do espírito contra a carne. E a Igreja convida-nos com maternal solicitude a terçar armas neste combate glorioso, para celebrarmos purificados na alma e no corpo o mistério sublime da Paixão do Senhor.

É verdade, diz S. Leão em Matinas, que deveríamos viver sempre diante de Deus com as mesmas disposições requeridas para a condigna celebração dos mistérios pascais. Mas, porque isto é virtude e apanágio de poucos e porque a fragilidade humana tende sempre para o relaxamento, aproveitemo-nos ao menos da Quaresma para recuperarmos o tempo perdido e reparemos, pela penitência e boas obras, as faltas e negligências do outro tempo.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952

  1. 1. A Quarta-feira de Cinzas e os dias subsequentes até o 1° Domingo só mais tarde foram adicionados á Quaresma para completar os 40 dias de jejum.

Introdução ao domingo da Quinquagésima

Jesus disse-lhe: Vê; a tua fé te salvou.” (Evangelho)

Paramentos roxos

A Igreja estuda com particular diligência, nas três semanas da Septuagésima, as grandes figuras de Adão, Noé e Abraão, que respectivamente apelida: pai do gênero humano; pai de numerosa descendência; e pai dos crentes. Já estudamos nos domingos da Septuagésima e da Sexagésima os dois primeiros. Vamos estudar hoje Abraão. Na liturgia ambrosiana o Domingo da Paixão era chamado Domingo de Abraão e liam-se no ofício os responsórios de Abraão. Na liturgia romana o Evangelho desse Domingo é consagrado ainda ao grande patriarca. Mas depois, quando se juntou à Quaresma o Tempo da Septuagésima, reservou-se o Domingo da Quinquagésima para o Patriarca.

Querendo Deus criar um povo para Si e preservá-lo do contágio da idolatria, deu-lhe um chefe que o governasse, a quem chamou Abraão, que quer dizer pai de muitos povos. Retirou-o de Ur, cidade da Caldeia, e conduziu-o para a terra que lhe prometera e guardou-o em todos os seus caminhos. Foi pela fé, diz a Epístola aos Hebreus, que Abraão obedeceu ao apelo divino e partiu para o país que devia receber em herança. Partiu cheio de fé sem saber para onde ia. Foi pela sua fé que chegou a Canaã onde viveu 25 anos como estrangeiro. Foi pela sua fé que já na velhice se tornou pai de Isaac e que não duvidou, à voz de Deus, sacrificá-lo, não obstante, ser o filho único em quem tinha posta a esperança de ver realizar-se a promessa divina duma posteridade numerosa. Bem sabia o Patriarca que Deus era assaz poderoso para ressuscitar lhe o filho de entre os mortos. E por este motivo o recuperou, e isto em figura. De fato, Isaac, escolhido para ser gloriosa vítima de seu pai, foi uma figura de Jesus Cristo. Como Ele, levou às costas o instrumento do sacrifício e foi arrancado miraculosamente às garras da morte. Foi assim que Abraão, com a sua fé, acreditando sem hesitar na palavra de Deus, contemplou de longe o triunfo do Senhor na Cruz e alegrou-se. E foi então que Deus lhe confirmou a promessa: “Porque não recusaste sacrificar-Me o teu filho único, abençoar-te-ei e dar-te-ei uma descendência numerosa como as estrelas do Céu e como as areias das praias”. Estas promessas realizou-as Jesus Cristo com a sua Paixão. Jesus Cristo resgatou-nos, diz São Paulo, e deixou-se morrer na Cruz, a fim de que a benção de Abraão fosse comunicada por Ele aos gentios e recebêssemos pela fé a promessa do Espírito, quer dizer, do Espírito de adoção que nos fora prometido. E é por isso que a oração da 5ª leitura do Sábado Santo nos diz que Deus “Pai soberano dos crentes, derramando abundantemente sobre a Terra a graça da adoção, multiplica os filhos da promessa pelo mistério pascal constitui Abraão, seu servo, pai de todos os povos. É com efeito pelo Batismo (que outrora se ministrava na Páscoa e no Pentecostes) que nos tornamos filhos de Abraão e entramos na herança que Deus prometeu a nossos pais e que é a Igreja, simbolizada pela terra prometida”.

A fé em Jesus Cristo, que mereceu a Abraão a prerrogativa de pai dos crentes e nos dá a faculdade de nos tornarmos seus filhos, constitui o tema do Evangelho de hoje. Jesus Cristo anuncia a sua Paixão e triunfo e cura um cego dizendo-lhe: a tua fé te salvou. Este cego recobrou a vista, diz S. Gregório, na presença dos Apóstolos. E isto foi para confirmar a fé dos que não podiam ainda suportar toda a luz da revelação dum mistério celeste. Porque era necessário que, vendo-O mais tarde morrer pelo modo que lhes predissera, não duvidassem de que havia de ressuscitar também. A Epístola por seu lado põe em plena evidência a fé de Abraão. E não é como filhos carnais de Abraão que nos havemos de salvar, mas como filhos duma fé semelhante à de Abraão. Em Jesus Cristo, diz S. Paulo, nem a circuncisão (os Judeus), nem a não circuncisão (os Gentios) valem nada, mas a fé que opera na caridade. “Andai no amor, continua o Apóstolo, naquele amor de que nos amou Cristo”.

Neste domingo e nos dois dias seguintes costuma fazer-se uma adoração solene do SS. Sacramento, denominada, Adoração das 40 horas, pelos excessos cometidos nestes dias. Foi instituída por S. Antonio Maria Zacaria († 1539) e enriquecida com numerosas indulgências por Clemente XIII.

 

Do Evangelho: Este cego de que nos fala o Evangelho representa sem dúvida o gênero humano. Depois que foi expulso do Paraíso na pessoa do primeiro homem, ignora as claridades da luz sobrenatural e sofre as consequências do seu erro, mergulhado nas trevas do exílio.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

O bom samaritano da década de 1970 nos Estados Unidos

[Nota da Permanência: O texto a seguir foi escrito por um monge beneditino norte-americano em homenagem a Dom Marcel Lefebvre. Tudo aquilo que o religioso escreveu acerca da importância do grande bispo para os católicos do seu país, podemos subscrever no que se refere aos católicos do Brasil]

 

A década de 1970 foi uma época turbulenta para a Igreja Católica. A aplicação das mudanças litúrgicas na Igreja foi brutalmente implementada com o assim chamado espírito do Concílio. Nós testemunhamos a destruição dos altares principais das igrejas, sendo substituídos pelo que ficou conhecido como as mesas de açougueiro de 19701 . Vimos as igrejas sendo destituídas da mesa de comunhão dos fiéis, das imagens dos santos e do crucifixo acima do altar principal, o qual foi substituído por uma cruz vazia e um véu branco representando o Cristo ressuscitado em oposição ao sacrifício de Cristo na Cruz. O tabernáculo foi escondido em alguma parte obscura da igreja. O sagrado canto gregoriano foi substituído, na melhor das hipóteses, por “Kumbaya, My Lord” 2, ou, na pior das hipóteses, com as missas “clown” 3 ou “rock-n-roll”. A mais devastadora mudança foi no rito sagrado da missa em si, que ficou desfigurado a ponto de ficar essencialmente irreconhecível. Os clérigos daquela época tornaram-se centrados no homem. Eles não mais pregavam sermões sobre Deus e as almas, mas denunciavam a injustiça social sobre o proletariado.

As vítimas de todas essas mudanças foram os próprios padres e os fiéis sob seus cuidados. Algumas estimativas falam de 120.000 padres abandonando o sacerdócio. Só Deus sabe o dano feito às almas dos fiéis durante estes tempos terríveis. Esses pobres padres foram vítimas da ilusão de que o homem e o mundo têm mais a oferecer do que Deus. Foi nesses mesmos anos que os EUA aceitaram legalmente o assassinato de crianças ainda não nascidas.

Essa era a triste situação da Igreja na década de 1970. Esses exemplos são bem conhecidos, mas há muitos outros que permanecem ocultos na consciência das vítimas. Era como se os ladrões tivessem nos despojado de nossa Igreja, deixando-nos meio mortos à beira da estrada da vida. A maioria das famílias, confundidas por seus pastores, simplesmente deixaram a Igreja em busca de um sentido para a vida. Muitas almas desiludidas voltaram-se para as comunidades hippies, onde tentaram satisfazer sua sede pelo sobrenatural com drogas alucinógenas e prazer sensual que chamavam de "amor livre".

Essas feridas infligidas a toda a sociedade nos fazem pensar na parábola do Bom Samaritano. Nosso Senhor explica que a maior lei é o amor a Deus e a segunda é o amor ao próximo como a si mesmo. Um doutor da lei, para O tentar, pergunta: “Quem é meu próximo?” Nesta ocasião, Nosso Senhor apresenta a parábola do Bom Samaritano.

Um homem descia de Jerusalém para Jericó. Jerusalém simboliza a cidade da paz celestial e

Jericó, a cidade da vaidade mundana. Na década de 1970, desejamos descer da vida católica tradicional para a vaidade de uma sociedade decadente infestada de drogas. Caímos nas mãos de ladrões que nos despojaram do sacrifício da Missa tradicional e da formação de verdadeiros sacerdotes. Eles bateram em nossas almas com um catecismo herético deixando-nos moralmente meio mortos à beira da estrada da vida. Os antropocêntricos padres do Novus Ordo e os grupos de apostolado ofereciam treinamento da sensibilidade em vez de doutrina, eles não podiam ajudar nossas almas feridas. Esses foram tempos sombrios para o Corpo Místico de Cristo. Parecia não haver esperança enquanto esperávamos o que parecia ser uma morte certa para nossas almas.

Para aqueles que não viveram na década de 1970, tentem imaginar-se espiritualmente meio mortos, largados a beira da estrada, esperando a morte, incapazes de socorrer a si mesmos. Aqueles que deveriam ajudá-los passavam ao largo. Tentem olhar através dos olhos de uma alma meio morta quando finalmente vê alguém parando para ajudar. Imagine a sua alegria ao se deparar com um rosto desconhecido que olha com compaixão. Alegria, esperança e gratidão voltam a este corpo ferido. O único desejo deste tipo o homem é ajudar sem esperar nada em troca.

Para nós que atravessávamos aquela terrível tempestade, podemos dizer com sinceridade que a alegria, esperança e gratidão voltaram às nossas almas feridas quando Dom Marcel Lefebvre veio para a América. Ele não precisava de nós, apenas se ofereceu para ajudar nossas almas angustiadas porque nenhum outro bispo nos EUA vinha em nosso auxílio. Ele era realmente como o Bom Samaritano. O vinho que derramou em nossas feridas pode ser comparado ao Santo Sacrifício da Missa que mais de uma vez foi oferecida em nossas capelas improvisadas. O óleo que ele derramou sobre nós foi a unção do sacerdócio concedido ao nosso país com o seminário que fundou em nosso solo. Ele nos levou para a estalagem fortalecendo a nossa fé na Santa Mãe Igreja. Ele confiou nossas almas ao dono da estalagem que pode ser comparado aos jovens padres da Fraternidade São Pio X. As duas moedas dadas ao dono da estalagem para o nosso cuidado foram a formação que ele lhes deu na verdadeira doutrina católica e na vida moral de sempre.

Na realidade, o único Bom Samaritano é Nosso Senhor, mas Ele atua por meio dos ministros da Igreja. Na década de 1970, o ministro do Bom Samaritano para os católicos feridos da América foi Sua Excelência Reverendíssima Dom Marcel Lefebvre. Ele descobriu que nosso país fora espancado, ferido e deixado meio morto. Seu amor a Deus e ao próximo o impulsionou a vir em nosso auxílio. Vimos com nossos olhos sua caridade em ação. “Bem-aventurados os olhos que veem o que vós vedes”.

(The Angelus, Novembro de 2020)

  1. 1. “1970 butcher block table”: O autor refere-se a grandes blocos de madeira quadrados ou retangulares usados inicialmente por açougueiros como mesa de corte, porém em alguns continentes passou a ser usado também em cozinhas domésticas. Nota do tradutor.
  2. 2. "Kum ba yah" (“Vinde” em um dialeto africano) “My Lord” (Meu Senhor): Cântico de data ainda disputada, sabe-se que era cantado por escravos africanos cristianizados nos E.U.A. Durante as décadas de 1950 e 1960 do século XX ganhou forte conotação política sendo usado em movimentos por direitos civis também nos E.U.A. A letra em si não possui nada de contrário à doutrina católica, são insistentes súplicas de um pecador para que Deus não o abandone, porém no conjunto o cântico é inapropriado para a liturgia, ainda mais por ter sido impregnado de conotação política. Nota do tradutor.
  3. 3.Missas “clown” (Palhaço): Série de conhecidos ultrages à missa católica onde pessoas fantasiadas de palhaço cumprem funções litúrgicas e recebem a Sagrada Comunhão. Nota do tradutor.

Introdução ao domingo da Sexagésima

“A semente é a palavra de Deus” (Evangelho)

 

Paramentos roxos

 

O Breviário fala-nos de Noé toda semana.

“Vendo Deus que era grande a malícia do homem sobre a Terra, disse: Vou exterminar o homem que criei. Faze, pois, uma arca de madeira e entra nela, que estabelecerei contigo a minha aliança. E Deus fez então chover sobre a Terra, quarenta dias e quarenta noites. A arca flutuava à superfície das águas que se elevaram acima das grandes montanhas. Os homens pereceram e Noé salvou-se com os seus na arca... Passou algum tempo e Noé soltou uma pomba, que regressou com um ramo de oliveira. Noé compreendeu que as águas tinham baixado. E então disse-lhe Deus: Sai da arca e multiplicai-vos sobre a Terra. E Noé levantou um altar e ofereceu a Deus um sacrifício de agradável odor”.

Esta narração, referida ao mistério pascal, é comentada por uma bela oração de Sábado Santo. Ei-la: “A justa cólera do Criador submergiu o mundo culpado nas águas da vingança, e só Noé se salvou na arca. Depois a virtude admirável do amor lavou o universo no sangue”. Foi o madeiro da arca que salvou o gênero humano e foi o da Cruz que resgatou o mundo. “Só tu foste digna, diz a Igreja ao falar da Cruz, de seres para o mundo naufragado a arca que o leva ao porto”. A porta aberta no costado da arca e por onde entraram os que se haviam de salvar do dilúvio nos é apresentada na liturgia como figura do mistério da Redenção; porque do lado de Jesus saiu sangue e água simbolizando os sacramentos do Batismo e da Eucaristia.

“Ó Deus que, lavando nas águas os crimes do mundo corrompido, nos destes no mesmo dilúvio a imagem da regeneração, para que um mesmo elemento fosse o fim dos vícios e a imagem das virtudes, olhai com bondade para a vossa Igreja e multiplicai nela a vossa intervenção regeneradora, abrindo por toda a Terra as fontes do batismais que devem renovar os povos”.

No tempo de Noé, diz S. Pedro, salvaram-se do dilúvio 8 pessoas somente, e isto foi símbolo do Batismo que nos salva a todos. E quando o Bispo benze na Quinta-feira Santa o azeite de oliveira que há de servir para os sacramentos diz:

“Quando os crimes do mundo tinham já sido expiados nas águas do dilúvio, veio uma pomba anunciar a paz à Terra com o ramo de oliveira no bico, que era símbolo então das graças que nos reservava o futuro. Este símbolo realiza-se, quando a unção do azeite, depois que água do Batismo nos lavou, nos vem dar ao rosto paz e beleza”.

Mas no que Noé se assemelha mais com Jesus Cristo é na missão que Deus lhe confiou de ser o pai de numerosos povos. Noé é, com efeito, o segundo progenitor do gênero humano e o símbolo da vida renascida.

“O ramo da oliveira simboliza a feliz fecundidade que Deus concederia a Noé depois de sair da arca, e a arca é denominada no Ofício de hoje por S. Ambrósio “seminarium”, quer dizer, lugar onde se guarda a semente da vida que deve recobrir o mundo. Ora, bem melhor que Noé, Jesus Cristo repovoou o mundo com a prodigiosa descendência das almas crentes e fiéis a Deus. É por isso que a oração da 2ª profecia do Sábado Santo pede ao Senhor que realize os seus desígnios eternos e complete na paz a obra da redenção do homem: “... possa ver o mundo sentir a reparação do que estava caído e a renovação do que envelhecera e todas as coisas restabelecidas na integridade primeira por aquele mesmo que deu a todos o ser”.

No princípio, foi pelo Verbo, quer dizer, pela Palavra, que Deus fez o mundo. E foi pela pregação do Evangelho, que Jesus, o Verbo de Deus, veio regenerar os homens. Fomos regenerados, diz S. Pedro, por uma semente incorruptível, que é a palavra de Deus, que nos foi anunciada pelo Evangelho. A esta luz, já vemos todo o relevo da parábola do Semeador, que vem na Missa de hoje.

Se nos tempos de Noé os homens pereceram, diz S. Paulo, foi por serem incrédulos. Noé que acreditou salvou-se na arca. Do mesmo modo, os que acreditarem e guardarem a palavra do Senhor serão salvos. E S. Paulo enumera na Epístola de hoje tudo o que é necessário para levar aos povos a fé no nome de Deus. Ele foi, com efeito, o pregador por excelência, o Ministro de Cristo que Deus escolheu para levar aos povos os clarões da Boa-Nova do Verbo Encarnado.

Do Evangelho: Jesus deita a semente da palavra nos corações bem dispostos. Procuremos recebe-la bem e façamo-la frutificar na paciência para que Aquele que passou a vida a lançar nas almas a boa doutrina continuando a fazê-lo por meio da sua Igreja, nos possa recompensar com o cêntuplo que prometeu aos que O escutarem e seguirem fielmente.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.