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Category: Santo Tomás de AquinoConteúdo sindicalizado

Artigo 12 - Se a prudência é própria dos súditos ou só dos chefes.

O duodécimo discute-se assim. – Parece que a prudência não é própria dos súditos, mas só dos chefes.

1. – Pois, diz o Filósofo, a prudência é uma virtude própria só dos chefes; ao passo que as outras virtudes são comuns aos súditos e aos chefes. Mas, própria do súdito não é a virtude da prudência, senão a de opinar com verdade.

2. Demais. – Aristóteles diz, que o escravo não é absolutamente capaz de conselho. Ora, é a prudência que faz os bens aconselhados, como diz o mesmo. Logo, a prudência não é própria dos escravos, ou dos súditos.

3. Demais. – À prudência é próprio ordenar, como se disse. Ora, ordenar não pertence aos escravos nem aos súditos, mas, só aos príncipes. Logo, a prudência não é própria dos súditos, mas só dos chefes.

Mas, em contrário, diz o Filósofo, que a prudência política tem duas espécies: uma, que faz as leis, e é própria do chefe; a outra, que tem o nome comum de política, e versa sobre as coisas particulares. Ora, pertence também aos súditos praticar esses atos particulares. Logo, a prudência não é própria só dos chefes, mas também, dos súditos.

SOLUÇÃO. – A prudência tem sua sede na razão. Ora, à razão, propriamente pertence reger e governar. Por onde, na medida em que cada um participa da regência e do governo, nessa mesma lhe convém a razão e a prudência. Ora, é manifesto que aos súditos, como tais e, como tais, aos escravos, não compete reger e governar, mas antes, serem regidos e governados. Portanto, a prudência não é virtude de escravos, enquanto tais, nem de súditos, enquanto tais. Mas, todo homem, enquanto racional, participando, de certo modo, do governo, pelo arbítrio da sua razão, nessa mesma medida lhe convém a prudência. Por onde é claro, que a prudência existe no príncipe, a modo de arte arquitetônica, como diz Aristóteles; nos súditos, porém, a modo de arte do operário manual.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – A expressão do Filósofo deve ser entendida em sentido próprio; isto é, porque a prudência não é virtude do súbdito, enquanto tal.

RESPOSTA À SEGUNDA. – O escravo não é capaz de conselho, enquanto escravo; pois, como tal, é instrumento do seu dono. Contudo o é, enquanto animal racional.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Pela prudência o homem não só ordena aos outros, mas também, a si mesmo; isto é, no sentido em que dizemos que a razão ordena às potências inferiores.

Artigo 11 - Se a prudência, concernente ao nosso bem próprio é da mesma espécie que a concernente ao bem comum.

O undécimo discute-se assim. – Parece que a prudência, concernente ao nosso bem próprio, é da mesma espécie que a concernente ao bem comum.

1. – Pois, diz o Filósofo que a política e a prudência são um mesmo hábito, mas não têm o mesmo ser.

2. Demais. – O Filósofo diz, e a virtude de um bom varão é a mesma que a de um bom chefe. Ora, a política é própria, por excelência, ao chefe, em quem existe como virtude arquitetônica. Mas, a prudência, sendo virtude própria do bom varão, parece que o hábito da prudência e a política se identificam.

3. Demais. – Coisas que se ordenam a outra não diversificam a espécie ou a substância do hábito. Ora, o nosso bem próprio, dependente da prudência propriamente dita, ordena-se ao bem político, que concerne à política. Logo, a política e a prudência não diferem especificamente, nem pela substância do hábito.

Mas, em contrário, são ciências diversas: a política, ordenada ao bem comum da cidade; a econômica, cujo objeto concerne ao bem comum da casa ou da família; e a monástica, que tem por objeto o bem de cada pessoa em particular. Logo, por igual razão, também há diversas espécies de prudência, segundo essa diversidade de matéria.

SOLUÇÃO. – Como já dissemos, as espécies de hábitos se diversificam pela diversidade de objetos, a qual se considera em dependência da razão formal da mesma. Ora, a razão formal de todos os meios depende do fim, como do sobredito resulta. Por onde e necessariamente pela relação com fins diversos se diversificam as espécies de hábito. Ora, os fins diversos são: o bem próprio de cada um, o bem da família, o da cidade e do reino. Logo, é forçoso haja tantas espécies diferentes de prudência, quanta é a diferença desses fins. De modo que uma seja a prudência propriamente dita, ordenada ao bem próprio de cada um; outra, a econômica, ordenada ao bem comum da casa ou da família; a terceira, que é a política, ordenada ao bem comum da cidade ou do reino.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. ­– O Filósofo não quer dizer que a política é idêntica, pela substância do hábito, a qualquer prudência; mas, que o é à prudência ordenada ao bem comum. A qual é assim chamada, conforme à denominação geral de prudência, por ser uma aplicação da razão reta aos nossos atos. Mas se chama política, por ordenar-se ao bem comum.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Como o Filósofo diz, no mesmo lugar, é próprio do bom varão poder governar e obedecer bem. Por isso, a virtude do bom varão inclui também a do bom príncipe. Mas, a virtude do príncipe difere especificamente da do súbdito, como também difere da virtude do homem a da mulher.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Também fins diversos, dos quais um se ordena para o outro, diversificam a espécie do hábito. Assim, o cavaleiro, o militar e o cidadão diferem especificamente, embora o fim de um se ordene ao do outro. E do mesmo modo, embora o bem do particular se ordene ao da multidão, contudo isto não obsta que essa diversidade torne os hábitos diferentes especificamente. Mas daqui resulta que o hábito ordenado ao fim último é o principal e impere sobre os outros hábitos.

Artigo 10 - Se a prudência se estende ao governo da multidão ou se só ao de nós mesmos.

O décimo discute-se assim. – Parece que a prudência não se estende ao governo da multidão, mas só ao de nós mesmos.

1. – Pois, diz o Filósofo que a virtude relativa ao bem comum é a justiça. Ora, a prudência difere da justiça. Logo, a prudência não se refere ao bem comum.

2. Demais. – Parece que prudente é considerado quem procura e pratica para si mesmo o bem. Ora, frequentemente, os que buscam o bem comum descuidam do próprio. Logo, não são prudentes.

3. Demais. – A prudência se separa, por oposição, da temperança e da fortaleza. Ora, parece que a temperança e a fortaleza assim se chamam por só dizerem respeito ao bem próprio. Logo também a prudência.

Mas, em contrário, a Escritura: quem crês que é o servo fiel e prudente, a quem seu senhor pôs sobre a sua família?

SOLUÇÃO. – Como diz o Filósofo, alguns ensinaram que a prudência não se estende ao bem comum, mas só ao próprio. E isto por pensarem, que o homem não há de buscar senão o bem próprio. Mas esta doutrina repugna à caridade, que não busca os seus próprios interesses, como diz a Escritura Por isso, o Apóstolo diz, e si mesmo: Não buscando o que me é de proveito, senão o de muitos, para que sejam salvos. E também repugna à razão reta, que considera o bem comum melhor que o particular. Ora, à prudência pertence aconselhar retamente, julgar e ordenar sobre os meios conducentes ao fim devido. Por onde, é manifesto que a prudência se ocupa, não só com o bem particular de cada um, mas também, com o comum, de todos.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ No lugar citado, o Filósofo se refere à virtude moral. Pois, assim como toda virtude moral, relativa ao bem comum, chama-se justiça legal, assim também a prudência, relativa ao bem comum, chama-se prudência política. De modo que a política está para a justiça legal, como a prudência, absolutamente considerada, para a virtude moral.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Quem busca o bem comum da multidão busca, por consequência, também o seu bem próprio, por duas razões. Primeiro, porque o bem particular não pode existir sem o bem comum ou da família, da cidade, ou do reino. Por isso Valério Máximo diz, e os antigos Romanos preferiam ser pobres num império rico, que ricos num império pobre. - Segundo, porque, fazendo o homem parte de uma casa ou de uma cidade, é preciso levar em conta o que lhe constitui o bem, procedendo como prudente relativamente ao bem da multidão. Pois, a boa disposição das partes depende da sua relação com o todo; porque, como diz Agostinho, disforme toda parte que não está ligada ao todo.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Também a temperança e a fortaleza podem referir-se ao bem comum; por isso, se estabeleceram preceitos de lei que lhes regem os atos, como diz Aristóteles. Mas, a esse bem mais se refere a prudência e a justiça, pertencentes à parte racional, que tem por objeto o geral, assim como a parte sensitiva tem por objeto o particular.

Artigo 9 - Se a solicitude pertence à prudência.

O nono discute-se assim. – Parece que a solicitude não pertence à prudência.

1. – Pois, a solicitude implica uma certa inquietação, conforme Isidoro, que diz, chamar-se solícito. o que é inquieto. Ora, mover é próprio sobretudo da potência apetitiva. Logo, também a solicitude. Ora, a prudência não está na potência apetitiva, mas na razão, como se estabeleceu antes: Logo, a solicitude não pertence à prudência.

2. Demais. – Parece que à solicitude se opõe li certeza da verdade, donde o referir a Escritura, que Samuel disse a Saul - Pelo que toca às jumentas, que tu perdeste anteontem, não te dê isso cuidado, porque já se acharam, Ora, a certeza da verdade pertence à prudência, por ser esta uma virtude intelectual. Logo, a solicitude se opõe à prudência, longe de lhe pertencer.

3. Demais. – O Filósofo diz, que é próprio do magnânimo ser preguiçoso e ocioso, Ora, à preguiça se opõe a solicitude. Não se opondo, pois, a prudência à magnanimidade, por não ser o bem contrário ao bem, como diz Aristóteles, parece que a solicitude não pertence à prudência.

Mas, em contrário, a Escritura: Sede prudentes e vigiai em oração. Ora, a vigilância é o mesmo que a solicitude. Logo, a solicitude pertence à prudência.

SOLUÇÃO. – Como diz Isidoro, a palavra latina sollicitus são quase solers citus, porque, por uma certa solércia da alma, tomamo-nos expeditos para fazer o que devemos. Ora, isto pertence à prudência cujo ato principal é ordenar, relativamente ao que devemos praticar segundo o que foi antes aconselhado e julgado. Por isso, o Filósofo diz, que devemos fazer prontamente o que foi aconselhado, mas, aconselhar. lentamente. Donde vem, que a solicitude pertence, propriamente, à prudência. E, por isso, Agostinho dizer a prudência é uma sentinela. que vigia diligentissimamente, afim de que nenhum mau conselho penetre, subrepticiomente e aos poucos, em nosso espírito e o domine.

DONDE À RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ Certo, o movimento pertence à potência apetitiva, como ao seu princípio motor; porém, subordinado à ordem e à direção da razão; e nisso consiste essencialmente a solicitude.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Conforme o Filósofo, não devemos exigir a mesma espécie de certeza, em todas as matérias; mas, em cada qual, segundo o seu modo próprio. Ora, sendo a matéria da prudência os casos particulares contingentes, sobre os quais versam os atos humanos, a certeza da prudência não pode ser tal, que exclua de todo a solicitude.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Diz-se que o magnânimo é preguiçoso e ocioso, não por não ser solícito para com coisa nenhuma, mas, por não o ser superfluamente para com muitas coisas, e confiar no que deve, e não exercer uma solicitude supérflua para com tais coisas. Pois, o temor e a desconfiança supérfluos geram a solicitude supérflua; porque o temor nos torna conciliativos como dissemos quando tratamos da paixão do temor.

Artigo 8 - Se mandar é o ato principal da prudência.

O oitavo discute-se assim. – Parece que mandar não é o ato principal da prudência.

1. – Pois, mandar é relativo aos bens a serem feitos. Ora. Agostinho considera um ato de prudência acautelar-se contra as insidias. Logo, mandar não é o ato principal da prudência.

2. Demais. – O Filósofo diz que é próprio do prudente aconselhar. Ora, um ato é aconselhar e outro, mandar, como do sobredito resulta. Logo, o ato principal de prudência não é mandar.

3. Demais. – Mandar ou ordenar parece pertencer à vontade, cujo objeto é o fim, motor das outras potências da alma. Ora, a prudência não está na vontade, mas na razão. Logo, não é ato de prudência mandar.

Mas, em contrário, o Filósofo diz, que a prudência é preceptiva.

SOLUÇÃO. – A prudência é a razão reta aplicada aos nossos atos, como dissemos Por onde e necessariamente, o ato principal da prudência será o ato principal da razão aplicada aos nossos atos. Ora, três são os atos principais da razão. O primeiro é aconselhar, próprio da invenção, pois aconselhar é indagar, como já estabelecemos. O segundo ato é julgar as cousas descobertas; e a isso se limita a razão especulativa. Mas, a razão prática, que ordena para a obra, vai além e tem como terceiro ato mandar, ato consistente na aplicação à obra do que foi aconselhado e julgado. E sendo este ato mais próximo ao fim da razão prática, daí resulta ser ele o ato principal dessa razão e, por consequência, da prudência.

E a prova disto é que a perfeição da arte consiste em julgar, não porém em mandar. Por isso, é considerado melhor artista o que peca na sua arte, voluntariamente, mostrando assim ter um juízo reto, que o que peca involuntariamente, o que se considera falta de julgamento. Ora, com a prudência dá-se o contrário, como diz Aristóteles; pois, é mais imprudente quem peca voluntariamente, claudicando, por assim dizer, no ato principal da prudência, que é mandar, do que aquele que peca involuntariamente.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ O ato de mandar se estende aos bens, que devemos buscar e aos males, que devemos evitar. E contudo, o acautelar-se contra as ciladas Agostinho não o atribui à prudência, como o principal movimento dela, mas, somente diz, que esse ato da prudência não permanece na pátria.

RESPOSTA À SEGUNDA. – A bondade do conselho exige sejam aplicados à ação os bons meios descobertos. Por onde, mandar pertence à prudência, que aconselha acertadamente.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Mover, absolutamente falando, pertence à vontade. Mas mandar implica, a moção acompanhada de uma certa ordem. Logo, é um ato da razão, como dissemos antes.

Artigo 7 - Se a prudência pertence estabelecer o meio termo nas virtudes morais.

O sétimo discute-se assim. – Parece que à prudência não pertence estabelecer o meio termo nas virtudes morais.

1. – Pois, atingir o meio termo é o fim das virtudes morais. Ora, a prudência não preestabelece o fim às virtudes morais, como se demonstrou. Logo, não lhes estabelece o meio termo.

2. Demais. – O que existe por si mesmo não tem causa, mas o seu ser é a causa de si mesmo; pois, cada coisa é tal pela sua causa. Ora, existir como um meio termo convém à virtude moral por si mesma, por estar isso incluído, por assim dizer, na definição dela, como do sobredito se colhe. Logo, a prudência não é a causa do meio termo das virtudes morais.

3. Demais. – A prudência obra ao modo da razão. Ora, a virtude moral tende para o meio termo, a modo de natureza; pois, como diz Túlio virtude é um hábito conforme por natureza, à razão. Logo, a prudência não preestabelece o meio termo às virtudes morais.

Mas, em contrário, a definição da virtude moral supra referida, diz que ela consiste numa mediedade, determinada pela razão, como o sábio o determinaria.

SOLUÇÃO. – O mesmo conformar-se à razão reta é o fim próprio a cada virtude moral. Assim, a temperança visa impedir o homem de, por causa da concupiscência, afastar-se da razão; semelhantemente, a fortaleza, que dela se afaste, levado do temor ou da audácia. E tal fim é preestabelecido ao homem de conformidade com a razão natural; pois, a razão natural dita a cada um que viva segundo a razão. Mas, é por disposição da prudência que o homem sabe, ao agir, de que modo e por que meios, atingirá o meio termo racional. Por onde, embora o fim de toda virtude moral seja atingir o meio termo, contudo, é pela reta disposição dos meios, que esse meio termo é atingido. Donde se deduz clara a resposta à primeira objeção.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Assim como um agente natural leva a forma a existir na matéria, sem ser, contudo a causa de convir à forma o que já nela existe por natureza; assim também, a prudência constitui o meio termo das paixões e dos atos, sem contudo ser causa de convir à virtude a busca do meio termo.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A virtude moral visa atingir, a modo de natureza, o meio termo. Ora, este não existe do mesmo modo em todas as coisas. Por onde, a inclinação da natureza, que sempre obra do mesmo modo, não basta para tal, e é necessária a intervenção da prudência.

Artigo 6 - Se a prudência preestabelece o fim às virtudes morais.

O sexto discute-se assim. – Parece que a prudência preestabelece o fim às virtudes morais.

1. – Pois, tendo a prudência a sua sede na razão e a virtude moral na potência apetitiva, parece que a prudência está para a virtude moral, como a razão, para a potência apetitiva. Ora, a razão preestabelece o fim à potência apetitiva. Logo, a prudência preestabelece o fim às virtudes morais.

2. Demais. – O homem sobre excede os seres irracionais, pela razão; mas, por outro lado, tem certos pontos de comum com eles. Por onde, as outras partes do homem estão para a razão, como o homem, para as criaturas irracionais. Ora, o homem é o fim das criaturas irracionais, como diz Aristóteles, Logo, todas as outras partes dele se ordenam para a razão como para o fim, Ora, a prudência é a razão reta aplicada aos nossos atos, como se disse. Portanto, todos os nossos atos se ordenam à prudência como para o fim; e, por consequência ela preestabelece o fim a todas as virtudes morais.

3. Demais. – É próprio da virtude, ou da arte ou potência, a que pertence um fim, governar as outras virtudes ou artes que versam sobre os meios. Ora, a prudência dispõe das outras virtudes morais e as governa. Logo, preestabelece-lhes o fim.

Mas, em contrário, diz o Filósofo que a virtude moral torna reta a intenção do fim; e a prudência, a dos meios. Logo, à prudência não compete preestabelecer o fim às virtudes morais, mas só dispor dos meios.

SOLUÇÃO. – O fim das virtudes morais é o bem humano. Ora, o bem da alma humana é existir de acordo com a razão, como está claro em Dionísio. Por onde e necessariamente, os fins das virtudes morais hão de preexistir na razão. Ora, na razão especulativa há certas noções naturalmente conhecidas por si mesmas, e que são o objeto do intelecto; e certas outras que são conhecidas por meio delas, a saber, as conclusões, objeto da ciência. Assim também na razão prática preexistem certas noções, como princípios naturalmente conhecidos, e esses são os fins das virtudes morais; pois, na ordem das ações, o fim desempenha a mesma função que o princípio, na ordem especulativa, conforme já estabelecemos. E há também outras noções, no domínio da razão prática, que são como conclusões; e tais são os meios pelos quais chegamos aos fins. Ora, estes são o objeto da prudência, que aplica os princípios universais às conclusões particulares dos atos. Por onde, à prudência não compete preestabelecer o fim ás virtudes morais, mas só dispor dos meios conducentes ao fim.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – É a razão natural, chamada sinderese, como vimos na Primeira Parte que preestabelece o fim às virtudes morais, e não a prudência, pela razão já apontada.

E assim fica clara a RESPOSTA À SEGUNDA OBJEÇÃO.

RESPOSTA À TERCEIRA. – O fim concerne às virtudes morais, não pelo estabelecerem elas, mas por tenderem elas para o fim preestabelecido pela razão natural. E para isso são auxiliadas pela prudência, que lhes prepara o caminho, dispondo os meios. Donde se conclui que a prudência é mais nobre que as virtudes morais e as move. Ao passo que a sinderese move a prudência, assim como o intelecto dos princípios, a ciência.

Artigo 5 - Se a prudência é uma virtude especial.

O quinto discute-se assim. – Parece que a prudência não é uma virtude especial.

1. – Pois, nenhuma virtude especial entra na definição comum de virtude. Ora, a prudência entra na definição comum de virtude, conforme se vê pela definição de Aristóteles: a virtude é um hábito eletivo, consistente numa mediedade, determinada pela razão, relativamente a nós, como o sábio o determinaria. Ora, razão reta entende-se a que é conforme à prudência. Logo, a prudência não é uma virtude especial.

2. Demais. – O Filósofo diz que a virtude moral faz atingir o fim; ao passo que a prudência se ocupa com os meios. Ora, toda virtude para atingir o fim, deve empregar certos meios. Logo, a prudência está incluída em cada virtude e, portanto não é uma virtude especial.

3. Demais. – Uma virtude especial tem um objeto especial. Ora, a prudência, sendo a razão reta aplicada ao que devemos praticar, como diz Aristóteles, não tem um objeto especial; pois, devemos praticar as obras de todas as virtudes. Logo, a prudência não é uma virtude especial.

Mas, em contrário, ela entra na divisão das outras virtudes, entre as quais é enumerada, conforme à Escritura: Ensina a temperança e a prudência, a justiça e a fortaleza.

SOLUÇÃO. – Como os atos e os hábitos se especificam pelos objetos, segundo do sobredito resulta, necessariamente será um hábito especial aquele a que corresponde um objeto especial, distinto dos outros; e se for bom, dará lugar a uma virtude especial. E objeto especial é o considerado, não só na sua natureza material, mas sobretudo, quanto à sua natureza formal, conforme do sobredito se colhe. Pois uma mesma coisa pode ser objeto de diversos hábitos e mesmo, de diversas potências, segundo razões diversas. Ora, a diversidade de potências exige maior diversidade de objetos que a diversidade de hábitos; pois muitos hábitos podem pertencer à mesma potência, como dissemos. Logo, a diversidade de natureza, do objeto, que diversifica a potência, diversifica, com maioria da razão, o hábito.

Por onde, devemos concluir que a prudência, existindo na razão, como dissemos se diversifica por certo das outras virtudes intelectuais, segundo a diversidade material dos objetos. Pois, a sabedoria, a ciência e o intelecto versam sobre o necessário; ao passo que a arte e a prudência, sobre o contingente. Mas, enquanto que a arte versa sobre o factível, isto é, sobre o que é feito na matéria exterior, como uma casa, uma faca e coisas semelhantes; a prudência versa sobre as ações imanentes no próprio sujeito que as produz, como já estabelecemos. Mas, das virtudes morais a prudência se distingue pela razão formal diversificativa das potências; a saber, da potência intelectiva, em que a prudência reside; e da apetitiva, em que reside a virtude moral. Por onde, é manifesto que a prudência é uma virtude especial distinta de todas as outras virtudes.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – A definição citada não é da virtude em comum, mas da virtude moral. Na definição da qual se inclui a virtude intelectual que com ela tem de comum a matéria, a saber a prudência. Porque, assim como o sujeito da virtude moral é algo participante da razão, assim, a virtude moral tem natureza de virtude enquanto participa da virtude intelectual.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Da objeção feita se conclui, que a prudência coadjuva todas as virtudes e age sobre todas. Mas, isto não basta para provar que não seja uma virtude especial; pois, nada impede haver, num determinado gênero, uma espécie que, de certo modo, atue sobre todas as espécies desse gênero, assim como o sol influi, de certo modo, sobre todos os corpos.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Os atos são, certo, matéria da prudência, enquanto objetos da razão, a saber, sob o aspecto de verdade. São, porém, matéria das virtudes morais, enquanto objeto da virtude apetitiva, isto é, sob o aspecto do bem.

Artigo 4 - Se a prudência é virtude.

O quarto discute-se assim. – Parece que a prudência não é virtude.

1 – Pois, diz Agostinho, a prudência é a ciência das coisas que devemos desejar e das que devemos evitar. Ora, a ciência é distinta da virtude, como está claro em Aristóteles. Logo, a prudência não é virtude.

2. Demais. – Não há virtude de virtude. Ora, há uma virtude da arte, como diz o Filósofo. Logo, a arte não é virtude. Ora, na arte há prudência; pois, diz a Escritura que Rirão sabia lavrar todo gênero de escultura, e inventar engenhosamente tudo quanto é necessário em toda a casta de obras. Logo, a prudência não é uma virtude.

3. Demais. – Nenhuma virtude pode ser imoderada. Ora, a prudência é imoderada; do contrário, a Escritura teria dito em vão: Põe termo à tua prudência. Logo, a prudência não é virtude.

Mas, em contrario, Gregório diz que a prudência a temperança, a fortaleza e a justiça são quatro virtudes.

SOLUÇÃO. – Como já dissemos, quando tratamos das virtudes em geral, a virtude torna bom aquele que a tem e lhe torna boas as obras. Ora, podemos considerar o bem à dupla luz: materialmente, significando aquilo que é bom; e formalmente, aquilo que é em essência bom. Ora, o bem, como tal, é o objeto da potência apetitiva. Por onde, se há hábitos que regulem a consideração reta da razão, fazendo abstração da retidão do apetite, tais hábitos são virtudes menos essencialmente, porque ordenam para o bem materialmente, isto é, ao que é bem, mas não sob a sua razão formal. Mas os hábitos concernentes à retidão do apetite são virtudes, mais essencialmente, por terem por objeto o bem, não só material, mas também, formalmente, isto é, o que se apresenta sob a razão formal de bem. Ora, à prudência pertence a aplicação da razão reta às obras, o que não é possível sem a retidão do apetite, portanto, a prudência não só tem a natureza de virtude, como as outras virtudes intelectuais, mas também como as virtudes morais, entre as quais é colocada.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. ­– No lugar citado, Agostinho toma a ciência por qualquer retidão racional.

RESPOSTA À SEGUNDA. – O Filósofo diz, que há uma virtude da arte, porque a arte não implica a retidão do apetite. Por onde, para o homem usar bem da arte é necessário ter a virtude que produz a retidão do apetite. Ora, não há lugar para a prudência no concernente à arte; quer pela arte se ordenar a um fim particular; quer por ter meios determinados para chegar ao seu fim. Dizemos, contudo que alguém obra prudentemente, no domínio da arte, por uma certa semelhança. Pois, em certas artes, pela incerteza dos meios de se chegar ao fim, é necessário o conselho; tais as artes de curar foi de navegar, como diz Aristóteles.

RESPOSTA À TERCEIRA. – O dito citado do Sábio não se deve entender como significando que a prudência, em si mesma, deve ser moderada; mas, que devemos moderar todas as coisas, pela prudência.

Artigo 3 - Se a prudência conhece o particular.

O terceiro discute-se assim. – Parece que a prudência não conhece o particular.

1. – Pois, a prudência tem a sua sede na razão, como se disse. Ora, a razão tem por objeto o universal, segundo Aristóteles. Logo, a prudência não conhece senão o universal.

2. Demais. – As coisas particulares são infinitas. Ora, o infinito não pode ser compreendido pela razão. Logo, a prudência, que é a razão reta, não conhece o particular.

3. Demais. – O particular é conhecido pelos sentidos. Ora, a prudência não existe nos sentidos; pois, muitos têm os sentidos exteriores perspicazes e não são prudentes. Logo, a prudência não conhece o particular.

Mas, em contrário, o Filósofo, a prudência não conhece só o universal, mas, há de conhecer também o particular.

SOLUÇÃO. – Como se disse antes, à prudência pertence, não só o considerar racionalmente, mas também o aplicar-se à obra, fim da razão prática. Ora, ninguém pode convenientemente aplicar uma coisa à outra, sem conhecer a ambas, a saber, o que deve ser aplicado e o ao que deve sê-lo. Ora, os atos versam sobre o particular. Por onde e necessariamente, o prudente há de conhecer os princípios universais da razão e os casos particulares sobre que versam as ações.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Por certo que, primária e principalmente, a razão tem por objeto o universal; pode, porém, aplicar princípios gerais a casos particulares. Por isso, as conclusões dos silogismos não somente são universais, mas também particulares; porque o intelecto, por uma certa reflexão, também se estende à matéria, como diz Aristóteles.

RESPOSTA À SEGUNDA. – A infinidade dos casos particulares, não podendo ser compreendida pela razão humana, daí vem que são incertas as nossas providências, como diz a Escritura. Contudo, pela experiência, as infinitas coisas particulares se reduzem a um certo número finito delas, que se dão na maior parte dos casos, e cujo conhecimento basta à prudência humana.

RESPOSTA  À TERCEIRA. – Como diz o Filósofo, a prudência não tem sua sede nos sentidos externos, pelos quais conhecemos- os sensíveis próprios; mas, no sentido interno, aperfeiçoado pela memória e pela experiência, de modo a julgar prontamente das experiências particulares. Não, porém, que a prudência resida no sentido interior, como no sujeito principal; mas certo que, principalmente, está na razão; porém, por uma determinada aplicação, chega até ao senso interior.

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