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Índice de autores

O que exatamente é a obrigação imposta pelo segundo preceito da Igreja?

Os catecismos populares, normalmente, enunciam esse preceito como “confessar-se ao menos uma vez por ano ou mais se houver perigo de morte ou se se for receber a Comunhão”. O Código de Direito Canônico de 1917 é mais detalhado em suas prescrições. “Todos os membros dos fiéis de ambos os sexos, após atingir a idade da razão, estão obrigados a confessar seus pecados ao menos uma vez por ano” (Cânone 906)

Esse preceito vincula apenas aqueles que tenham pecados mortais em sua consciência, pois não há obrigação de confessar pecados veniais.

Ele obriga todos aqueles que atingiram o uso da razão – isto é, vincula as crianças desde que elas sejam capazes de cometer pecados mortais, ainda que não tenham atingido a idade de sete anos, e elas não estão isentas do preceito mesmo que não tenham feito sua primeira Comunhão. Se já tiverem feito primeira Comunhão, as crianças estão vinculadas tanto por este preceito quanto pelo da Comunhão anual, ainda que não tenham atingido a idade de sete anos.

Qualquer pessoa que faça uma confissão sacrílega ou voluntariamente inválida não cumpre o preceito de confessar seus pecados.

O Direito Canônico não especifica quando o intervalo de um ano começa. Em geral, entende-se que ele significa um ano comum, de Janeiro a Dezembro. Alguns autores sustentam que ele vai de uma Páscoa à próxima; outros, que abrange um ano após a prática de um pecado mortal. Na prática, as pessoas que vão ao confessionário e recebem a Santa Comunhão no tempo de Páscoa cumprem ambas as obrigações de confissão anual e Comunhão pascal.

Em perigo de morte, é obrigatório, se houver consciência de pecado mortal, por duas razões. Primeiro, pela obrigação que todo cristão tem de fazer tudo que pode para salvar sua alma. Agora, aquele que, estando em condições de se confessar, não quer fazê-lo, não pode obter perdão de seus pecados, ainda que faça um ato de contrição, que, nesse caso, não passa de uma ilusão, pois a contrição só tem valor se vier acompanhada do Sacramento da Penitência, que o pecador se propõe a receber. Segundo, a confissão é obrigatória em razão do preceito de receber o viaticum (viático), que é matéria grave e não pode ser recebido sem prévia confissão dos pecados mortais. Se a pessoa pode se confessar, um simples ato de contrição não é suficiente.

A confissão antes da Comunhão não é obrigatória se o pecador não está ciente de que está em pecado mortal. Mas, se ele estiver ciente de um pecado grave, por proibição expressa da Igreja (Cânone 856), o simples ato de contrição não é suficiente, por mais intenso que possa ser, a não ser que duas circunstâncias estejam presentes – necessidade urgente e ausência de confessor. Esse caso poderia acontecer, por exemplo, quando uma pessoa, já na mesa de comunhão e impossibilitada de se retirar sem chamar atenção dos outros, repentinamente se lembra de um pecado mortal que cometeu, ou se um Padre, precisando celebrar a Santa Missa para que os fiéis possam cumprir o preceito, não tem outro Padre para ouvir sua confissão. Nesses casos, um ato de contrição perfeita pode ser realizado antes da comunhão ou da celebração, mas sempre com a obrigação de se confessar posteriormente.

31. Dos caminhos por onde mais freqüentemente os católicos caem no liberalismo

São vários os caminhos por onde o fiel cristão cai no erro do liberalismo, e importa sobremaneira apontá-los aqui, tanto para compreender por seu estudo a universalidade desta seita, como para prevenir os incautos contra suas armadilhas e seus perigos.

Muito freqüentemente, cai-se na corrupção do coração pelos erros da inteligência; é todavia mais freqüente cair no erro da inteligência pela corrupção do coração. A história das heresias demonstra claramente este fato. Seus começos apresentam quase sempre o mesmo caráter: é um ressentimento de amor-próprio, ou um agravo que se queira vingar; é uma mulher que faz o heresiarca perder o juízo e a alma, ou uma bolsa de dinheiro pela qual ele vende sua consciência. Quase sempre o erro se origina, não de profundos e laboriosos estudos, mas daquelas três cabeças de hidra que São João aponta e que chama de concupiscentia carnis, concupiscentia oculorum, superbia vitae1. É por aí que se cai em todos os erros, por aí que se vai ao liberalismo. Vejamos esses caminhos nas formas mais usuais:

 

1° - O homem torna-se liberal por um desejo natural de independência e vida livre.

O liberalismo é necessariamente simpático à natureza depravada do homem, assim como o catolicismo lhe é repulsivo por sua própria essência. O liberalismo é emancipação, o catolicismo é coerção. Ora, o homem decaído ama por uma certa tendência muito natural um sistema que legitime e santifique o orgulho de sua razão e o desenfreio de seus apetites. Daí que assim como a alma, em suas nobres aspirações, é naturalmente cristã, como disse Tertuliano, assim pode-se igualmente dizer que o homem, pelo vício de sua origem, nasce naturalmente liberal. É, pois, lógico que se declare formalmente liberal, logo que comece a compreender que do liberalismo virá proteção para todos os seus caprichos e desenfreios.

 

2° - Pelo desejo de progredir. O liberalismo é hoje em dia a idéia dominante; ele reina em todas as partes e principalmente na esfera oficial. É, portanto, recomendação segura para fazer carreira.

Sai o jovem do seu lar e, olhando para as distintas vias que conduzem à fortuna, ao renome ou à glória, percebe que em todos é condição necessária ser homem do seu século, ser liberal. Não ser liberal é criar para si mesmo a maior de todas as dificuldades. É necessário, pois, heroísmo para resistir ao tentador, que lhe fala, como a Cristo no deserto, mostrando-lhe um futuro impressionante: haec omnia tibi dabo si cadens adoraveris me: “Tudo te darei se, prostrado, me adorares”. Ora, os heróis são raros. É pois natural que a maior parte da juventude comece sua carreira afiliando-se ao liberalismo. Isto proporciona elogios nos jornais, recomendação de poderosos patronos, reputação de esclarecidos e letrados. O pobre ultramontano precisa de mérito cem vezes maior para dar-se a conhecer e criar nome; e a juventude é geralmente pouco escrupulosa. O liberalismo, ademais, é essencialmente favorável à vida pública que a juventude tanto ama. Ele tem em perspectiva deputações, comissões, redações etc., que constituem o organismo da sua máquina oficial. É, pois, maravilha de Deus e da sua graça encontrar-se um jovem que deteste tão pérfido corruptor.

 

3° - Pela cobiça. A desamortização2 foi e continua a ser a principal fonte de prosélitos para o liberalismo. Esta iníqua espoliação dos bens eclesiásticos foi decretada tanto para privar a Igreja de seus meios de influência humana, como para adquirir com sua ajuda fervorosos adeptos da causa liberal. Os próprios corifeus do liberalismo o confessaram, quando foram acusados de ter dado quase de graça a seus amigos as ricas posses da Igreja. E ai daquele que um dia comeu o fruto do jardim alheio! Um campo, uma herança, umas casas que pertenceram ao convento ou à paróquia, e que hoje estão nas mãos de tal ou qual família, encadeiam esta família para sempre no erro liberal. Na maior parte dos casos, não há esperança provável de que renunciem ao liberalismo. O demônio revolucionário soube erguer entre eles e a verdade essa barreira insuperável. Temos visto ricos e influentes lavradores, católicos puros e fervorosos até 1835, e de então para cá liberais decididos e contumazes. Quereis a explicação? Observai aqueles campos irrigados, aquelas terras de trigo ou aqueles bosques, outrora propriedades do mosteiro. Com eles o lavrador de quem falamos aumentou suas fazendas, com eles vendeu sua alma e sua família à Revolução. A conversão de tais injustos possuidores é moralmente impossível. Todos os argumentos de amizade, todas as invectivas dos missionários, todos os remorsos de consciência tropeçam na dureza de sua alma, entrincheirada atrás de suas aquisições sacrílegas. É a desamortização que fez e ainda está fazendo o liberalismo. Esta é a verdade.

Tais são as causas ordinárias da perversão liberal, e a elas podem reduzir-se todas as demais. Quem tiver mediana experiência do mundo e do coração humano dificilmente poderá apontar outras.

  1. 1. 1 Jo 2, 16: “concupiscência da carne, concupiscência dos olhos, orgulho da vida.”
  2. 2. Ver nota 1 do Capítulo II.

Introdução ao quinto domingo depois da Páscoa

“Deixo o mundo e vou para o Pai” Evangelho.

 

Paramentos brancos

 

A liturgia continua a cantar o triunfo de Cristo e a liberdade do povo cristão que Ele resgatou.

E nesta semana das Rogações convida-nos particularmente a unir com a sua a nossa prece, como no-lo diz a Missa das Ladainhas e até a oração e o Evangelho de hoje. Mas é preciso pedir em nome do Senhor e pedir coisas realmente de valor e de interesse para nós, a salvação em primeiro lugar, evidentemente, e então sem falta nos concederá o que pedimos: para que seja perfeita a nossa alegria e para que crendo que Ele saiu de Deus, mereçamos entrar com Ele na glória do Pai.

Cautela, pois, não nos iludamos. A Epístola de S. Tiago frisa este ponto com insistência. Não basta orar, é preciso orar bem.

 

Evangelho: “Para pedir em nome do Senhor, diz S. Agostinho, é preciso pedir aquilo que nos deve proporcionar a alegria perfeita, a perfeita alegria espiritual. E isto pediremos se o objeto da nossa prece for unicamente a vida verdadeiramente ditosa. Porque pedir outra coisa é não pedir nada, pois em comparação deste grande bem, tudo o mais é nada”

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

A civilização na perspectiva da piedade

Jean Madiran

 

1. — Civilização é um termo recente, não tem dois séculos. Mas a idéia é antiga, pois os inimigos da civilização têm um nome bem antigo: BÁRBAROS. Esse nome foi dado pela civilização grega, e designava os estrangeiros. Nas primeiras páginas da Política de Aristóteles já encontramos referência aos bárbaros, os quais estarão presentes no pensamento desde os primórdios da filosofia e por toda a parte. Assim, desde o início, a civilização está presente na reflexão dos pensadores.

“Os bárbaros são definidos como povos que não vivem sob as leis”[1]. Há a lei eterna, a lei natural, as leis positivas e suas relações conhecidas ou desconhecidas:

“A lei natural, que deve ser a norma de todas as nossas leis humanas, pode ser definida como uma participação da lei eterna, que é Deus. É claro que o reconhecimento público da lei natural não gerará automaticamente a observância dessa lei — a história está aí para prová-lo, tanto na experiência dos indivíduos como na das nações. Mas, uma coisa é reconhecer que não observamos uma lei que sabemos ser preciso observar, outra coisa é pretender que não há nenhuma lei imutável e comum, e agir como se ela não existisse. Com esta atitude, instituímos a barbárie mais universal que pode haver. Os bárbaros, com efeito, eram definidos como homens que não viviam sob leis. Ora, os bárbaros da antigüidade jamais negaram a lei natural em toda a sua generalidade. O homem, para fazê-lo, e tornar-se o pessimum omnium animalium (Santo Tomás, in I Pol., lect. I) numa medida tão draconiana, precisaria esperar pelo século das luzes.”[2]

Por onde se vê que a civilização se define antes de mais nada por sua relação com a lei natural. Sob um primeiro enfoque, a civilização identifica-se com a lei natural. Sob um segundo enfoque, verifica-se o que a distingue: a lei natural é universal e imutável, enquanto as civilizações são particulares, com seus progressos e declínios, com sua história. As civilizações decaem ou desaparecem sob o peso da barbárie interior ou exterior; ou ainda, desmoronam após acontecimentos aparentemente fortuitos, sem relação visível com o bem ou o mal, ou com a oposição entre o homem civilizado e o bárbaro. Elas também conhecem ressurgimentos inesperados. A civilização de Cnossos e de Festo[3] desapareceu completamente por algum motivo desconhecido, como um inútil empecilho ao gênero humano; desde outro ponto de vista, ela sobreviveu por sua influência sobre Micenas e, por intermédio de Homero, talvez ela ainda nos diga algo sem que o saibamos. Há casos em que a decadência se dá de modo tranqüilo, com a civilização apodrecendo lentamente e de pé, sem que o ferro do bárbaro venha do exterior para dar cabo da sua vida. Decadências quase hermeticamente fechadas em si mesmas, peças de laboratório, porém misteriosas. Que os filósofos, ao menos os maiores, surjam de preferência no declínio das civilizações e não no seu alvorecer ou no apogeu, apenas aumenta o mistério.

 

2. — A lei natural foi inscrita por Deus na natureza das coisas e dos seres, gravada por Ele no coração dos homens e finalmente revelada no Decálogo. Ela é de si mesma acessível à razão humana, mas não sem dificuldades imensas e um grande risco de erro. Ela relaciona-se com a história, foi inscrita, enunciada e promulgada em vista de uma história: com efeito, a civilização é a lei natural e sua história entre os homens. O fluxo e refluxo de civilização e barbárie, é a história do modo com que a lei natural é recebida, conhecida, acatada e praticada pelo gênero humano.

A lei natural é conhecida de três maneiras. Na sua mais ampla generalidade, “é preciso fazer o bem e evitar o mal”[4], é a primeira evidência imediata da razão prática. A esse respeito, já é para nós inseparável de uma história, aquela que marca mais fortemente o ser humano: a história dos seus primeiros anos. Uma vez que o despertar da razão é posterior ao nascimento físico, esse despertar é favorecido, guiado, retardado ou paralisado pela educação. A lei natural “está inscrita no coração dos homens e nenhuma iniqüidade a pode apagar”[5], mas “é eclipsada quando se trata de uma ação particular a ser realizada, na qual a razão é impedida de aplicar o princípio geral ao caso particular do qual se trata, por causa da concupiscência ou de alguma paixão qualquer”[6]. Cabe à educação formar o homem para o domínio das paixões e concupiscências e, por isso, se não cumprir seu papel, será em parte responsável pelos eclipses que poderão ocorrer à lei natural mesmo na sua mais ampla generalidade.

Em segundo lugar, a lei natural é conhecida nos seus preceitos secundários por uma atividade discursiva da razão (ou ainda por conaturalidade). Ora, a lei natural comporta não apenas “princípios gerais conhecidos por todos”, mas também “princípios secundários mais particulares, que são como que as conclusões que decorrem dos princípios gerais”[7]. Sob esse aspecto, a educação intelectual e moral é muito importante para o conhecimento da lei natural. E esse conhecimento é bem mais frágil: “Quanto aos preceitos secundários, a lei natural pode ser apagada do coração dos homens, seja em razão de propagandas perversas[8], (…) seja por conseqüência de costumes depravados e hábitos de corrupção moral”[9].

Em terceiro lugar, a lei natural é conhecida como verdade revelada, pois além de acessível à razão ela nos foi dada por Deus no Decálogo: “Os Mandamentos do Decálogo são os primeiros preceitos da lei, e sua absoluta evidência os impõe facilmente ao assentimento da razão natural”[10]. Os domínios da razão e da fé não são tão estanques que uma mesma verdade não possa pertencer a um e outro domínio sob diferentes pontos de vista. “Mesmo no que se refere àquilo que a razão humana é capaz de conhecer acerca de Deus, era preciso que o homem fosse instruído pela revelação divina. Caso contrário, apenas poucos alcançariam o conhecimento de Deus, depois de longo tempo e de mistura com muitos erros. No entanto, a salvação do homem depende do conhecimento dessa verdade… Logo, para que a salvação adviesse aos homens de modo mais conveniente e seguro, cumpria que eles fossem, por divina revelação, ensinados nas coisas divinas”[11]. A lei natural foi expressamente recebida de Deus num dado momento da história do povo hebreu e, por meio dele, transmitida a toda a humanidade.

O conhecimento da lei natural aparece assim sob a dependência de uma educação, de uma transmissão e de uma história. Sua dependência é menor, sua sobrevivência é mais fortemente assegurada sob o primeiro aspecto, pois, uma vez que foi gravada por Deus no coração do homem, não pode ser arrancada dali. Contudo, isso não a põe inteiramente ao abrigo das particularidades da história individual ou coletiva. — Na medida em que comporta conclusões tiradas pela razão, sua dependência aumenta. Enquanto ela é a transmissão de uma revelação feita uma única vez, ela está inteiramente engajada nas vicissitudes da história.

O conhecimento natural da lei, “depois de longo tempo e de mistura com muitos erros”, foi a obra do pensamento grego, e nós recolhemos sua herança em Ésquilo e Sófocles, Platão e Aristóteles. A revelação sobrenatural da lei foi confiada ao povo hebreu e nos foi transmitida pela “história santa” e pela Igreja. O nascimento da civilização pode portanto ser situado no tempo e no espaço — ela nos vem da Grécia e da Palestina, e não de outra parte. No entanto, se é verdade que a civilização é a história da lei natural por entre os homens, existem claramente outros focos de civilização: contudo, estão eles não apenas privados do Decálogo, como chegaram muito aquém do pensamento grego no conhecimento racional da lei natural. Por analogia com os “preambula fidei”, poderíamos com maior exatidão chamá-las de “preâmbulos de civilização”.

 

3. — Vê-se, pois, a que ponto o homem é devedor:

“Nós nos tornamos obrigados para com os outros, segundo a excelência diversa deles e os benefícios diversos que nos fizeram. Ora, em ambos os casos o lugar supremo pertence a Deus, por ser perfeitíssimo e o princípio primeiro que nos deu o ser e nos governa. Mas, em segundo lugar, os princípios que nos governam e nos dão o ser são os pais e a pátria, em que e de quem nascemos, e que nos educaram. Portanto, depois de Deus, somos obrigados sobretudo aos pais e à pátria.”[12]

Este célebre texto de Santo Tomás, bem como a seqüência a que nos referiremos adiante, deveria estar no centro de todo pensamento sobre a civilização. Ele assinala a etapa inevitável, e fundamental, de uma reflexão sobre o assunto; a saber, escrutar a condição essencialmente devedora do homem: uma dívida que, não importa o seu talento, nem as suas ações, ele jamais poderá quitar. No tocante a Deus compreende-se claramente, mas isso também vale ao que se refere “aos pais e à pátria”. Essa dívida está além da justiça, pois esta última “implica render a outrem o que lhe é devido, de maneira a restabelecer uma igualdade”. Ora, por um lado “o homem não pode dar nada a Deus que não lhe seja devido, de modo que jamais quitará a sua dívida” e, por outro lado, "não podem os pais ser pagos, com igualdade, o que lhes é devido”[13]. Aristóteles já havia indicado: “É impossível quitar inteiramente as dívidas em todas as circunstâncias, como é o caso no que se refere às honras que rendemos aos deuses e aos pais… é justo que o beneficiário retribua os serviços que recebeu: o filho, contudo, faça o que fizer, jamais quitará os benefícios de que seu pai o cumulou e sua dívida subsistirá para sempre.”[14]

Essa condição devedora é o ponto de partida da reflexão de Charles Maurras sobre a civilização:

“O indivíduo que vem ao mundo numa 'civilização' recebe incomparavelmente mais do que dá. Uma desproporção que podemos chamar de infinita se estabelece entre o valor próprio de cada indivíduo e o acúmulo de valores no meio do qual surge.

“Quanto mais uma civilização prospera e se sofistica, mais crescem estes últimos valores (…) segue-se daí que uma civilização tem dois suportes. Ela é antes de mais nada um patrimônio, e é em seguida um patrimônio transmitido (…).

"O indivíduo é esmagado por uma quantidade de bens que não são seus e dos quais, contudo, tira proveito em maior ou menor medida. Rico ou pobre, nobre ou camponês, ele se banha numa atmosfera que absolutamente não é da natureza bruta, mas da natureza humana, que não é fruto das suas mãos, senão o resultado da grande obra dos seus predecessores diretos e próximos, ou antes, da sua associação fecunda e da sua útil e justa comunidade (…).

“De todos esses indivíduos, o mais insolvente é sem dúvida aquele que pertence à civilização mais rica e preciosa (…) Deveríamos, segundo penso, protestar contra um erro de linguagem muito comum. Falamos indistintamente a civilização ou as civilizações. Não se trata de coisas iguais, absolutamente. Na China, há uma civilização: quer dizer, um patrimônio material e moral que se transmite. Há indústrias, artes, ciências, costumes. Há riquezas, monumentos, doutrinas, opiniões, qualidade adquiridas, favoráveis à vida do ser humano. Mesmo fenômeno na Índia, Peru (…). Contudo, por mais desenvolvidas que forem essas diferentes civilizações, não são propriamente dizendo a civilização.

"A civilização só será definível pela história. Houve um momento, nos fastos do mundo, onde, mais inventivo e industrioso do que jamais fora, o homem percebeu, contudo, que tanta arte se consumia em vão. Com efeito, de que adianta aumentar o número de bens e a quantidade das riquezas? Toda quantidade é suscetível de novos acréscimos, e todo número, de um aumento indefinido. O maravilhoso, o sublime, o grandioso, o enorme, tudo o que depende da quantidade ou do número de elementos utilizados, não pode prometer à avidez do homem mais do que decepção. Uma torre ou uma coluna de cem pés pode ser aumentada em outros cem pés, que também podem ser aumentados em outro tanto. De que valem, pois, esses progressos meramente materiais? Nem nas ciências, nem nas artes, nem mesmo nas simples comodidades da vida, esse amontoado de coisas vale alguma coisa. Quanto mais incham, mais excitam nossos desejos, desesperando-nos (…).

"Sim, o desejo sempre crescerá e, com ele, a dor, a decepção e a inquietude. As civilizações, ao impor ao homem uma dívida, prometeram-lhe apenas uma corrida absurda e sem fim, rumo ao sentimento da ‘infinita vaidade de tudo’, como dizia o desventurado Leopardi.

“Os gregos, porém, ao perceberem a vaidade das buscas, não quiseram permitir que fosse infinita. Buscaram um termo à incessante corrida. Um instinto maravilhoso, muito mais do que a reflexão, ou antes, se quisermos, um brilho da razão sobre-humana ou divina, fez com que compreendessem que o bem não estava nas coisas, mas na ordem das coisas; que o bem não estava no número, mas na composição; e que o bem não se referia absolutamente à quantidade, mas à qualidade. Eles introduziram a forte noção dos limites, não apenas na arte, mas no pensamento e na ciência dos costumes. Em moral, ciência, arte, sentiram que o essencial não estava no lado da matéria e, mesmo utilizando os materiais mais preciosos, aplicavam-lhes a sua medida. A idéia do “ponto de perfeição e de maturidade” dominou esse grande povo pelo tempo em que seguiu fiel a si mesmo.

"O Rei Salomão julgava fazer ciência compilando a nomenclatura das plantas, desde a mais pequena até a mais alta. Um grego, Aristóteles, nos ensinou que esse catálogo de conhecimentos é apenas o ponto de partida, que não há absolutamente ciência verdadeira sem ordem e que a ordem da ciência não é aquela da grandeza ou da pequenez. Assim também, os artistas do Egito e da Ásia enviaram para lá amostras da sua arte: desenvolvendo-se nesta terra e nesta raça favorecida, os modelos orientais testemunharam que a arte não consiste em fazer colossos, nem em deformar a natureza em caretas monstruosas, nem em copiar ao máximo ou até à perfeição da semelhança: a arte grega inventou a beleza. Do mesmo modo, no governo de si mesmo, os moralistas ensinaram que a felicidade não consiste na multiplicidade dos bens de que nos apropriamos, nem tampouco na avareza ressecada da alma que se furta ao contato e se isola; é importante que a alma seja mestra de si mesma, mas também convém que saiba encontrar o seu bem e cultivá-lo, aperfeiçoando-se num esforço feliz. A filosofia grega abordou assim a virtude.

"Esta civilização toda voltada para a qualidade foi chamada simplesmente, nos seus belos dias, de Grécia. Coube a Roma difundi-la pelo universo, de início com as legiões dos seus soldados e colonos, em seguida com os missionários da fé cristã. As duas Romas conquistaram assim quase todo o mundo conhecido…”[15]

O pensamento maurrasiano segue, ao menos neste ponto, inteiramente alheio à idéia de uma civilização cristã: a Roma católica, do ponto de vista da civilização, não teria feito mais do que recolher e transmitir o capital inegável da civilização grega.

Trata-se seguramente de uma função histórica que a Igreja realizou de fato, da qual se honra de ter realizado e que há sempre de realizar: a Igreja não é indiferente à sabedoria dos Antigos[16]. Por outro lado, é verdade que o pensamento grego é aquele que iniciou a humanidade em um conhecimento natural da ORDEM, da BELEZA e da VIRTUDE. Mas, na época em que escrevia sua análise da civilização, que se tornou clássica, Maurras não conhecia claramente dívidas maiores do homem: ter recebido o Decálogo e a Fé católica. Mas não se enganava absolutamente ao assinalar que o homem é irremediavelmente constituído devedor, que não poderá jamais quitar sua dívida, e que quão mais civilizado for, mais devedor é.

Qual é, portanto, o dever em tal situação? Não se trata de um dever de justiça, estritamente falando, visto que não poderíamos satisfazer a justiça “que implica retribuir o que é devido de maneira a restabelecer uma igualdade”. Trata-se de um dever de piedade.

Mas, a piedade, dir-se-á, não é própria da religião, das “obras piedosas”, da atitude perante Deus? De modo algum! A virtude de piedade não é a virtude da religião. No entanto, clandestina, anônima, deixou-se levar e perdeu seu nome: assim como ocorreu com a virtude da prudência e outras, a linguagem fez delas o que bem quis. As palavras não esperam muito tempo para serem desfiguradas com a dissolução das realidades por elas designadas.

*

4. — Definamos:

A virtude da piedade não diz respeito ao culto devido a Deus, de que trata a virtude da religião. A virtude de piedade é a virtude da “piedade filial” e, por extensão, da “piedade nacional”. Ela é, como a virtude de religião, anexa à virtude principal da justiça. Ensina Santo Tomás:

“Nas virtudes anexas a uma virtude principal, devemos considerar dois elementos: primeiro, que essas virtudes hão de convir de algum modo com a principal; segundo, que, por outro lado, hão de se afastar da noção perfeita da principal. (…) Ora, a justiça, por natureza, consiste em dar a outrem o que lhe é devido, de modo a se restabelecer uma igualdade (…) Mas, tudo o que o homem retribui a Deus lhe é devido; logo, não pode haver aí igualdade, de modo que lhe retribua o quanto deve (…) Tampouco podem os pais ser pagos, com igualdade, do que lhes é devido.”[17]

Nessa situação, em que a justiça está fora do nosso alcance, a religião define nossa atitude com respeito a Deus; a piedade define nossa atitude com respeito aos homens, ela é a "manifestação de amor que temos para com os pais e a pátria”[18]; "a religião, que presta culto a Deus, é uma virtude diferente da piedade, que reverencia os pais e a pátria”[19]. A piedade nacional não esgota nossos deveres para com a pátria, pois é nosso dever para com a pátria enquanto “princípio conatural que nos deu o ser e nos governa”[20], e não enquanto é o lugar de um bem comum a ser promovido, defendido ou distribuído: “a piedade se estende à pátria, enquanto princípio da nossa existência; ao passo que a justiça legal visa ao bem da pátria, enquanto bem comum. Logo, a justiça legal tem, mais que a piedade, a natureza de virtude geral”[21]. Logo, "assim como o fim da religião é prestar culto a Deus, assim, em segundo grau, o objeto da piedade é reverenciar os pais e a pátria”[22].

O dever de piedade decorre dos primeiros princípios da lei natural, e está contido no Quarto Mandamento do Decálogo. O Mandamento ordena “honrar o pai e a mãe”, mas ele certamente concerne a toda a família, os ancestrais, a pátria inteira, conforme ensina Santo Tomás: "Os nossos deveres para com os pais têm prevalência sobre o que devemos à pátria e aos que nos são próximos pelo sangue; pois é por termos recebido de nossos pais a vida, que também temos consangüíneos e pátria. Portanto, como os preceitos do decálogo são os primeiros preceitos da lei, eles nos obrigam antes para com os pais do que para com a pátria e os demais consangüíneos. Nem por isso, porém, devemos deixar de entender que o preceito de honrar os pais também nos manda cumprir os nossos deveres para com qualquer outra pessoa, assim como o secundário está incluído no principal”[23].

Que a “piedade” tenha recebido na linguagem corrente um sentido religioso provém, muito provavelmente, da confusão entre a “virtude da piedade” e o “Dom de Piedade”. Este último é um dom do Espírito Santo, ou seja, uma das “disposições habituais da alma, que fazem com que ela se deixe facilmente mover por Ele”, e nos inspira, em particular, “um afeto filial para com Deus, conforme às palavras do Apóstolo (Rom 8, 15): Recebestes o espírito de adoção de filhos, segundo o qual chamamos, dizendo: Abba! Pai!”[24]. A analogia explica por que a virtude e o dom receberam o mesmo nome: assim como a virtude de piedade nos faz render aos nossos pais a honra que lhes devemos, do mesmo modo, o Dom de Piedade nos incita a prestarmos culto e reverência a Deus como a um Pai[25]; assim, “A piedade pela qual prestamos reverência aos pais carnais é uma virtude; mas a piedade, como dom, presta culto a Deus, como Pai”[26]. Por outro lado, o Dom de Piedade é distinto da virtude de religião, pois esta presta culto a Deus como Criador e Senhor, enquanto aquele o cultua como Pai[27]. Ademais, o Dom de Piedade não se encerra em Deus, mas estende-se a todos os homens inquantum pertinent ad Deum, isto é, "a todos os homens, enquanto filhos de Deus”. Pelo Dom de Piedade somos introduzidos na família de Deus.

Comenta João de Santo Tomás:

“O Dom de Piedade exige essencialmente estender-se aos homens enquanto filhos de Deus (…) é impossível que uma virtude ou um dom incline ao culto filial para com Deus e não incline, por via de conseqüência, à piedade no tocante a tudo o que é do Pai e concerne a seus filhos enquanto tais. E assim como todas as criaturas espirituais, salvo os condenados, são filhos de Deus, ou podem vir a se tornar, a todos se estende o Dom de Piedade.”[28]

 

5. — Um conhecimento não obscurecido da lei natural e uma observância habitual dela se formam e crescem em nós normalmente pela educação recebida no seio da família e da pátria ou nação[29]. A essa dívida, que não podemos quitar, corresponde, ou deveria corresponder, nossa piedade: assim, a civilização passa pela pátria, pela família e pela virtude de piedade.

(Parêntesis sobre o amor à pátria. O que aflige atualmente é não o vermos colocado em seu devido lugar na vida moral, é não ser chamado pelo seu nome, é ser incerta sua natureza exata. Devemos falar em “patriotismo”, “nacionalismo”, “civismo”? Trata-se de um sentimento, uma atitude política, um dever? Todo mundo admite o termo “civismo”, mas ele não designa exatamente o amor à pátria. “Nacionalismo" designou, sobretudo em França, desde Barrès, e Maurras, várias doutrinas políticas que, em todo caso, e seja qual for o julgamento que delas fizermos, situam-se aquém ou além da piedade nacional. “Patriotismo" é um termo geralmente admitido, mas o vemos em todas as cores: desde os “patriotas" jacobinos até os “patriotas" comunistas. Os deveres para com a pátria têm necessidade de ser ordenados numa ética explícita, de encontrar o seu lugar numa filosofia moral abrangente. O amor à pátria pode inspirar, de modo legítimo ou aberrante, sentimentos, paixões, doutrinas e sistemas em todos os níveis. Seria útil compreender e ensinar que se trata, antes de mais nada, de uma virtude[30], e que esta virtude é primeiramente uma piedade, a piedade nacional; e que se trata em seguida de outra virtude, que é uma justiça, a justiça social ou geral, a qual ordena ao bem comum os atos das outras virtudes. As virtudes, definidas e praticadas em seu lugar, numa ética de virtudes gerais e conexas, resistem mais fortemente aos contágios ideológicos, aos desvios práticos e ao desuso.)

Mas as definições clássicas da piedade filial e nacional correm o risco de não deixar ver o seu alcance num primeiro olhar mais apressado: “Honrar pai e mãe” soa protocolar, mesmo se tratando de um protocolo sagrado. “Honrar”, “render homenagens”, manifestar “uma certa expressão de amor”, isto é certamente devido, certamente bom, mas parece desprovido de impacto sobre a marcha do mundo. A piedade não parece inicialmente essencial à civilização: ela se apresenta como um fruto ou mesmo como um epifenômeno da civilização, não como uma condição da sua sobrevivência. Não reconhecer o que recebemos, ou não conceber nenhuma gratidão por isso, seguramente não é nobre, mas não impede o dom de ter sido realizado. O homem civilizado pode eventualmente não ser piedoso; será um erro não sê-lo, mas não será por isso menos civilizado.

É este o ponto.

O homem ímpio pode até ser um homem civilizado, mas é um homem que interrompe a civilização. Indiferente ou negligente acerca do que recebeu, ingrato no que concerne àqueles que o beneficiaram, será especialmente impróprio para transmiti-lo por sua vez. Influente por suas ações mais do que por seu discurso, difundirá ao redor de si a mesma indiferença, a mesma negligência, a mesma ingratidão. Ele respirará e inspirará um clima, um espírito de menoscabo, de ignorância do patrimônio moral da civilização.

Vamos mais longe. O homem ímpio tem toda probabilidade de não ser civilizado senão na aparência. Poderá conservar da civilização todo o exterior: a linguagem refinada, modos polidos diante dos demais, gestos e palavras benevolentes, um respeito literal pelas regras recebidas. Ele será um fariseu da civilização. Se, ao contrário, tivesse entrado no espírito da civilização, que é a formação para o conhecimento seguro e refinado da lei natural e uma prática habitual desta lei, teria normalmente, correlativamente, talvez sem saber o nome nem cultivar todas as suas delicadezas, o espírito de piedade. Exceções podem existir, por razões acidentais, boas ou más — mas não passam de exceções.

O homem civilizado é invariavelmente o homem piedoso. Inversamente, a impiedade é sinal certo e causa de uma interrupção na civilização. Para a transmissão dos valores civilizacionais é indispensável a atitude de coração e de espírito que desenvolve a virtude da piedade.

 

6. — Atitude de espírito e de coração pela qual se honra aquilo que se recebe, a virtude da piedade pode parecer um freio ao progresso da civilização, ao “progresso autêntico que é a vocação da sociedade civil”[31]. Atitude mais conservadora do que inovadora, que nos leva a recolher e a transmitir, que é tradicional e tradicionalista — é, apesar de ter seu valor, limitada, acostumada à rotina e inimiga da inovação. Se Aristóteles tivesse apenas uma atitude de piedade por seu mestre Platão, jamais teria realizado aquilo que o axioma resume: Amicus Plato, sed magis amica veritas. Os pensadores do tradicionalismo têm de convir aqui com Maurras: “Em toda tradição, como em toda herança, o ser racional tem de procurar suprimir o passivo. A verdadeira tradição é crítica, e sem estas distinções, o passado não serve mais para nada, seus êxitos deixam de ser exemplos e suas falhas deixam de servir de lição”[32]. Não é tudo: iniciativa, invenção e inovação são necessidades quotidianas da vida individual e coletiva, das quais a civilização se beneficia; podemos mesmo dizer que jamais teria havido espécie alguma de civilização sem elas. Essa é a objeção que nos fazem.

A linguagem, que tanto maltratou a piedade, vem em nosso socorro. Se dissermos que o professor corrigiu  o aluno piamente, isso não significa de modo algum que teria corrigido pouco. A piedade concorda com o amicus Plato, sed magis amica veritatis, e é fecunda: Aristóteles não teria sido quem foi se tivesse menosprezado a herança intelectual de Sócrates e Platão, ou se tivesse oposto a todo o pensamento que lhe precedeu uma negação universal e radical, como a negação cartesiana ou a negação kantiana. E aqui podemos sonhar com o que o gênio de Descartes teria produzido sem essa negação; ou com o que representaria contra Rousseau e os Enciclopedistas o talento de Voltaire, se fosse homem piedoso…

Particularmente desde o ponto de vista mais amplo e fundamental, que é também o primeiro em matéria de civilização, ou seja, no que se refere ao conhecimento e ao respeito da lei natural, a piedade não é má conselheira. Não é desejável, nem sensato, nem justo, reconstruir a lei moral a cada manhã ou a cada geração. O conhecimento que temos dela é certamente tributário das vicissitudes históricas. Mas existe um conhecimento adquirido e seguro no que se refere à natureza, ao fundamento e ao conteúdo da lei natural. Ele aponta o lugar onde podemos construir, o ponto a partir do qual poderemos progredir. Recolocar tudo em questão pode ser útil de modo acidental, mas não é essencialmente a via ou a condição do progresso; e se os questionamentos se renovam ou mesmo se multiplicam sistematicamente a cada geração, conforme a experiência feita pelo mundo moderno a partir de Descartes, chegamos ao caos no pensamento e nos costumes, chegamos ao nada.

O progresso está em outra parte. Uma vez firmemente sustentada a lei natural, suas implicações, conseqüências e aplicações descobrem-se pouco a pouco à humanidade. Se implicações novas são descobertas isoladamente, sem referência ao lugar que devem tomar no conjunto do patrimônio sólido da humanidade, tornam-se loucas, engendrando um turbilhão de ideologias e revoluções.

Porém, que a humanidade não tenha descoberto imediatamente todo o conteúdo da lei natural, e que seja sua vocação aprofundar e refinar o conhecimento e a prática que dela possui, isso sim é o progresso fundamental. Maritain percebeu isto:

“Abraão era um grande santo, um santo de estatura incomparável. Mas não sabia que certas ações que condenamos hoje estavam proibidas pela lei natural (…). O conhecimento preciso das leis morais naturais — exceção feita ao primeiro princípio, de si evidente, 'é preciso fazer o bem e evitar o mal' — é adquirido lentamente, com maior ou menor dificuldade (…).

"Nosso conhecimento das leis morais é progressivo por natureza. O senso de dever e de obrigação sempre esteve presente, mas o conhecimento explícito das diversas normas da lei natural cresce com o tempo. E algumas dessas normas, como a lei da monogamia, foram conhecidas mais tardiamente na história da humanidade, pelo que nossa investigação pôde alcançar. Podemos igualmente crer que o conhecimento dos preceitos particulares da lei natural, em todas as suas exigências e em todas as suas nuances, continuará a crescer até o fim da história humana.

“Penso que este progresso da consciência moral quanto ao conhecimento explícito da lei natural oferece um dos critérios menos duvidosos de progresso na humanidade. Bem entendido, não tenho absolutamente em vista um progresso no comportamento humano (ou um progresso na pureza e na santidade da consciência, pois Abraão, repitamo-lo, era um grandíssimo santo, com um coração absolutamente puro). O que tenho em vista é um progresso da consciência moral no tocante ao conhecimento dos preceitos particulares da lei natural. Esse progresso no conhecimento pode se dar ao mesmo tempo em que ocorre uma deterioração na conduta efetiva de muitos, mas isto é outra questão.

“Tomemos, por exemplo, a noção de escravidão. Temos hoje consciência do fato de que a escravidão é contrária à dignidade humana[33]. E, no entanto, vimos nos nossos dias o surgimento de Estados totalitários que reduzem sistematicamente o homem à escravidão. De resto, eles não querem reconhecer a coisa, precisamente porque é muito comumente reconhecido hoje que a escravidão é contrária à dignidade do homem; e é por isso que a propaganda lhes é tão necessária.”[34]

Certamente, o conhecimento da lei moral e o comportamento moral não são o mesmo. “Não basta possuir uma boa filosofia moral para ser um homem de bem”; e, inversamente, seria errôneo dizer: “Se você é um homem de bem, conhece a filosofia moral e essa filosofia é boa”[35]. É, em revanche, muito menos certo que uma “deterioração da conduta” não exerça, tanto no nível individual como no coletivo, alguma influência sobre o conhecimento mesmo da lei moral: ela certamente degrada o conhecimento moral por conaturalidade (que tem um lugar capital na vida quotidiana de cada um de nós, e mesmo na reflexão do filósofo), e é suscetível de manchar o conhecimento moral discursivo. Por outro lado, houve na história recuos no conhecimento moral — como é o caso atualmente — bem como progressos. De resto, podemos dizer que esse progresso, como os outros, e este talvez mais que os outros, é próprio da vocação das sociedades humanas. Feitas estas ressalvas, que Maritan provavelmente não contradiria, podemos continuar a seguir seu pensamento:

“Durante séculos e séculos, e mesmo em tempos cristãos, considerava-se inteiramente normal matar prisioneiros de guerra. Não se distinguia o combatente inimigo do prisioneiro. Quando se poupava a vida de um prisioneiro de guerra, tratava-se de um favor que se retribuía pela escravidão. Mas, hoje em dia, temos uma compreensão completamente diferente de nossas obrigações no que se refere aos prisioneiros de guerra. Outro exemplo se refere ao trabalho infantil. No início da idade industrial, o trabalho infantil era considerado inteiramente legítimo. Temos atualmente outras idéias nesta matéria, e são elas certamente mais conformes à lei natural. Outro exemplo ainda: este lida com a noção mesma do trabalho humano. A idéia de que o trabalho das massas é impossível sem o chicote da miséria — idéia largamente difundida no século XIX — parecia então em conformidade com a lei natural (…) Enfim, posso dizer que ainda estamos na obscuridade a respeito do papel que devem normalmente desempenhar, nas coisas temporais e políticas, as leis que se referem diretamente à vida espiritual, como a lei do perdão mútuo?”[36]

Esse progresso é tanto mais incerto quando é realizado fora da perspectiva da piedade. Um progresso isolado do conhecimento moral pode ser um fator de desordem e de imoralidade pelo tempo em que não estiver integrado no seu devido lugar no conjunto da vida moral. Os surtos violentos em prol da liberdade ou da dignidade do trabalho manual produziram ideologias devastadoras e perturbações sangrentas. O espírito de descoberta e de inovação, o espírito de progresso, o gênio mesmo, separados da virtude da piedade, julgam necessário derrubar todo o patrimônio da humanidade para impor nos espíritos e nos costumes mudanças que de si mesmas são benéficas: mas então, não se trata mais de um aporte, nem de um progresso, mas de uma revolução, uma inversão dos valores, um obscurecimento correlativo das consciências, um desencadeamento das paixões. É pouco evitável, com efeito, que isso não se produza periodicamente, ainda que por escleroses, incompreensões ou farisaísmo. Mas não é a via normal, nem a melhor. O esforço dos homens, quando consciente, quando equilibrado, não tende à revolução, que é a tentação ímpia e satânica, mas à reforma, à renovação e ao aperfeiçoamento.

 

7. — Desse modo, a piedade é útil: “a piedade para tudo é útil, tendo a promessa da vida presente e da futura”[37]. A piedade que tem a promessa também da vida presente, “a fim de viver longamente”, é bem aquela do Quarto Mandamento. Santo Tomás interpreta assim:

"A longevidade é prometida aos que honram os pais, não só na vida futura, mas também nesta, segundo aquilo do Apóstolo: 'A piedade para tudo é útil, tendo a promessa da vida presente e da futura'. E é razoável. Pois, quem demonstra gratidão por um benefício merece, por conseqüência, que se lhe conserve o benefício; e quem foi ingrato merece perdê-lo. Ora, o benefício da vida corporal, é dos pais que o temos, depois de Deus. Por isso, quem honra os pais, como agradecido a um benefício, merece a conservação da vida; e o que não os honra merece, como ingrato, ser dela privado.”[38]

É uma conveniência justa e racional: isso se dá rationabiliter. Mas o contrário também se dá, e é o mistério da história, a misteriosa (oculta) sabedoria dos julgamentos divinos. Santo Tomás acrescenta:

"Ora, os bens ou os males da vida presente não são meritórios ou demeritórios senão enquanto ordenados à remuneração futura, como dissemos. Por isso, às vezes, por uma razão oculta dos juízos divinos, que visam sobretudo à remuneração futura, alguns, embora tivessem sido pios para com os pais, são privados cedo da vida; ao passo que outros, que não o foram, vivem mais longamente.”[39]

Ocorre o mesmo na vida das civilizações. Dissemos que a ausência de piedade é sinal e causa de uma interrupção na civilização. Contudo, não possuímos o conhecimento pelas causas do fenômeno da decadência, que permanece misterioso. Por um lado, a relação entre a piedade e sua utilidade é uma relação que se dá rationabiliter, mas não automaticamente. Por outro, qual é a causa da impiedade? Pode ser o farisaísmo que se introduz na civilização. O farisaísmo é causa de impiedade, e a impiedade é causa do farisaísmo. As causas estão aqui ordinariamente numa relação recíproca de interdependência e intercausalidade. O mistério da história é finalmente aquele dos julgamentos de Deus, cuja sabedoria nos permanece escondida (occulta).

 

8. — Até aqui falamos de civilização, mas não de civilização católica. A lei natural, e a virtude de piedade que é parte dela, foram conhecidas e praticadas antes da vinda de Cristo. Elas podem ser conhecidas e praticadas fora do catolicismo, mas sob duas reservas.

Primeiro, a situação da humanidade não é a mesma antes da vinda de Cristo e depois. Segundo uma fórmula de Henri Charlier, “desde a Ressurreição o pensamento divino, a cada instante, nos confronta com o Filho morto por nós e que nos abriu as portas da Vida”. A situação não é a mesma para os que não conheceram Cristo e para os que, tendo-O conhecido, recusaram-No. A civilização grega não pôde conhecer o Cristo. A civilização dos chineses ou dos indianos, também elas anteriores à Incarnação, prolongaram-se ignorando a vinda de Cristo porque não lhes deram de conhecer. A civilização judaica, na qual veio Cristo, O recusou. O Islamismo a um tempo surgiu depois de Cristo e O recusou. O comunismo, sob este aspecto, é um segundo islamismo. Cada um desses casos é distinto, e deixa subsistir diversamente possibilidades bastante distintas de conhecer e de respeitar a lei natural.

Segundo, o homem abandonado a suas próprias forças não pode conhecer a lei natural de modo fácil, seguro, isento do risco de erro. Não pode tampouco respeitá-la normalmente e habitualmente sem a graça (mas o Espírito sopra onde quer, e é por isso que podem existir, e existiram, casos individuais de muçulmanos que respeitaram admiravelmente a lei natural).

 

9. — Depois de Cristo, a civilização é normalmente a civilização católica. Mas uma civilização pode ser dita católica sob diferentes aspectos (ao menos, quanto à diversidade dos critérios imediatos de apreciação). Uma civilização que, seja qual for o estado da sua cultura, das suas instituições e dos seus costumes, deixa à Igreja de Cristo a liberdade de transmitir as palavras e os sacramentos da salvação, pode ser dita católica.

Há uma eventualidade que é teórica, ou provisória, pela dupla razão da fecundidade da Igreja e da malícia humana: uma sociedade que fosse materialista e atéia por um lado, e que de outro deixasse a Igreja, por indiferença, ceticismo ou tática, a liberdade de realizar plenamente sua missão, não poderia permanecer por muito tempo num equilíbrio tão instável; rapidamente seria conduzida, seja à conversão, seja à perseguição. E é sem dúvida essa a razão de a Igreja não temer definir por vezes a civilização católica de modo meramente negativo:

“A vida de um povo, de uma nação, transcorre num domínio bastante variado que ultrapassa o da atividade propriamente religiosa. Desde que, em toda a extensão deste vasto domínio, uma sociedade respeitosa dos direitos de Deus interdiz a si mesma de transgredir os limites demarcados pela doutrina e moral da Igreja, ela pode legitimamente se dizer cristã e católica.”[40]

Definição gramaticamente negativa, mas cujo conteúdo real e cujas implicações necessárias estendem-se à toda vida individual e social.

Observemos que uma sociedade materialista e atéia não é uma sociedade civilizada. É por um abuso de linguagem que se fala hoje em civilização materialista, civilização atéia, civilização comunista. Jamais houve na história uma civilização materialista e não poderia haver; é uma não-civilização, é a barbárie mais completa: “uma barbárie certamente mais pavorosa do que aquela em que a maioria das nações se encontrava antes da vinda do divino Redentor”[41]. Outrora, eram chamados de bárbaros, sem que houvesse um nome para a civilização. Atualmente, só temos o nome de civilização, e atribuímo-lo a qualquer sociedade, de modo que o conceito e o termo de barbárie aparentemente perderam-se. Com efeito, o nome “bárbaro” sobreviveu na linguagem com o sentido de “cruel”. E civilização designa assim o conjunto de características particulares de uma sociedade, independente de todo critério referente à civilização e à barbárie. Fala-se em civilização técnica, civilização marxista, civilização moderna.

Ora, o desconhecimento da lei natural e, por mais forte razão, a sua negação radical, são o contrário da civilização. Não há civilização marxista. Não há civilização materialista. Mas ninguém tem a coragem intelectual — ainda que a sós com seus pensamentos — de chamá-la de barbárie: barbárie materialista, barbárie marxista. Tampouco há quem perceba que um cristão, ou seja, um homem que crê que Jesus Cristo é o Filho de Deus, pode ser em maior ou menor medida um bárbaro se recusa ou desconhece a constância, a universalidade, a obrigação da lei natural. Quanto à “civilização moderna”, ela coloca uma questão muito mais complexa, pois é uma mistura: mistura de um espírito moderno essencialmente bárbaro naquilo que tem de próprio; de uns resquícios e de diversos ressurgimentos do espírito católicos; e de algumas outras coisas.

Assim como a civilização é a história da lei natural entre os homens, a civilização católica é essa mesma história ajudada, elevada e transfigurada pela religião católica. Assim como aprendemos normalmente a conhecer e a observar a lei natural graças a uma educação recebida no seio de uma família e de uma pátria, assim aprendemos normalmente a conhecer e praticar a religião católica. De nossos pais e da pátria nos vêm a vida física, a vida moral e a vida religiosa.

Não escolhemos a fé católica: “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi a vós”[42]. A fé é um dom livre que recebemos livremente; mas nossa liberdade é exercida, mesmo aqui, segundo a condição humana, e não segundo a condição angélica; ou seja, ela é exercida no interior e por intermédio de um estatuto histórico e social; pelos pais, que têm a liberdade, o direito e a responsabilidade de decidir o batismo. Existiram, existem e existirão muitos batismos de homens adultos: mas estes mesmos não adiam o batismo de seus filhos até a idade adulta. Isso faz com que a maioria dos católicos tenha se tornado tal pela vontade livre e responsável de seus pais. A fé pede uma adesão livre: mas normalmente trata-se, antes de mais nada, da livre adesão dos pais.

A fé é transmitida de qualquer maneira pela onipotência e misericórdia de Deus; mas a maneira que é conforme à nossa condição humana, e que é incomparavelmente mais freqüente, é, segundo a expressão de Pio XII, aquela em que “a religião é uma herança viva dos ancestrais”. De resto, todo dia nascem homens que hão de ser os ancestrais da vida espiritual. O batismo de um adulto é o início de uma família católica que transmitirá a fé pelos séculos.

A virtude da piedade, que concerne a “nossos pais e nossa pátria, pelos quais e no seio da qual recebemos a vida e a educação”, também lhes concerne no tocante à vida espiritual e à educação religiosa. Aqui também encontramos a piedade e a impiedade, a história, o progresso, o aperfeiçoamento ou a revolução numa relação equivalente ou análoga ao que encontramos no que se refere à lei natural. Com a ressalva de que a Revelação encerrou-se e o Magistério da Igreja é o seu guardião e intérprete infalível, a virtude da piedade tem aqui as mesmas exigências e, segundo a palavra de São Paulo, a mesma “utilidade”.

 

10. — A lei natural e a religião de Cristo são universais. A sua transmissão, o seu conhecimento, o seu cumprimento até aos extremos do universo, constituem a essência da civilização católica.

Não inventemos falsos problemas. A unicidade da civilização católica não uniformiza mais os indivíduos e as nações do que a unidade da Igreja uniformiza os indivíduos. Claro que, pela estupidez dos homens ou pela sua malícia, tudo é sempre possível: e assim como podemos imaginar, sob as cores de apostolado, uma imprensa de massa e organizações de massa transformando os indivíduos em robôs (mas isto iria na contra-mão da religião católica), podemos conceber, do mesmo modo, sob o pretexto de civilizar, um Imperialismo totalitário (mas isto iria na contra-mão da civilização católica). Em todo caso, seria tão absurdo recusar a unicidade da civilização católica em nome da vocação particular das nações, quanto seria recusar a unidade da Igreja em nome da vocação de cada alma em particular.

O helenista mais fervoroso não chegará a ponto de impor à sua mulher o uso do peplo e, se for francês, é provável que não faça uso da culinária grega salvo em caso de absoluta necessidade. Tampouco saudará as pessoas na rua dizendo Kyrié.

Respeito pelos costumes, pelas particularidades étnicas e pelos idiomas? Sem dúvida. Mas é impossível, por um lado, escrutar a universalidade da lei natural e da religião de Cristo e, de outro lado, as condições sociais e históricas normais da sua transmissão, sem perceber certas necessidades.

O latim, o grego e o hebraico seguirão até o final do mundo línguas privilegiadas, as “três línguas”. Mediterrâneas? Sim, mas são estudadas e ensinadas nas Américas. E é bom que seja assim: não poderia ser diferente. Como as elites intelectuais dos povos não mediterrâneos que vieram ao cristianismo poderão se dispensar de vir ao latim, ao grego e ao hebraico? Sem isso, estes povos estariam desamparados: incapazes de estudar diretamente o texto das Escrituras, da teologia e da filosofia, seriam eternamente tributários de traduções estabelecidas e eternamente refeitas pelos outros. A justa autonomia intelectual de um povo católico requer que suas elites estejam em medida de compulsar elas mesmas as fontes da filosofia, da teologia e da fé. É inevitável que, ao mesmo tempo, em maior ou menor medida, de uma maneira ou outra, esse patrimônio cultural e essas línguas exerçam sua influência no interior de culturas não mediterrâneas.

Não é possível que os povos que vieram ao Cristianismo e entraram na Igreja considerem São Gregório Magno e São Pio X como estrangeiros, como pontífices “greco-latinos” ou “ocidentais”, e Santo Tomás como uma particularidade específica da cultura mediterrânea. É impossível que a piedade que tenham por eles, e por todos os ancestrais na fé desde São Pedro e São Paulo, não seja um fator de influência cultural.

É bem provável que a influência não se dê num sentido único: os povos mediterrâneos herdeiros das velhas culturas podem encontrar matéria para aprender em toda parte deste vasto mundo. Mas é inconcebível que não haja influência; e que esta influência não seja principalmente no sentido de uma extensão a todo o orbe do patrimônio a que o latim, o grego e o hebreu dão acesso.

Interrompamos aqui nosso ensaio, que poderemos desenvolver, ou que outros desenvolverão, numa outra oportunidade. A universalidade da verdade natural e sobrenatural, a condição histórica do homem, a virtude da piedade têm implicações necessárias. Podemos sair delas. Mas então não será uma outra civilização, mas a barbárie.

 

[Tradução: Permanência. La civilisation dans la perspective de la pieté, Revue Itinéraires ] 

 


[1] Charles de Koninck, “Deux tentatives de contourner par l’art les difficultés de l’action”, Laval théologique et philosophique, vol. XI, nº 2, 1955, p. 205.

[2] Ibid.

[3] Cnossos e Festo, grandes sítios arqueológicos na ilha de Creta, pertenciam à extinta civilização minóica. [N. do E.]

[4] Santo Tomás, S. T, Ia. IIae, q. 94, a. 2.

[5] Santo Agostinho, Confissões, II, 4.

[6] S. T., Ia. IIae, q. 94, a. 6.

[7] Ibid.

[8] “Malas persuasiones” no original. A tradução “propagandas perversas” restringe um pouco o sentido, mas, em contrapartida, é muito apropriada para os dias de hoje.

[9] Ibid.

[10] S. T., IIa. IIae, q. 122, a. 1.

[11] S. T. Ia. q. 1, a. 1.

[12] S. T., IIae IIae, q. 101, a. 1.

[13] S. T., IIae IIae, q. 80.

[14] Aristóteles, Ética a Nicômaco, VIII, 14, 4.

[15] Charles Maurras, “Qu’est-ce que la civilisation?” publicado na Gazette de France, 9 de setembro de 1901 — texto recolhido no livro Mes idées politiques, Fayard, 1937, reedição de 1948, pp. 71-84.

[16] Ver, entre outros, o início da Constituição apostólica Veterum sapientia, 22 de fevereiro de 1962.

[17] S. T., IIa IIae, q. 80.

[18] S. T., IIa IIae, q. 101, a. 3, ad 1.

[19] Ibid, ad 2.

[20] Ibid, corp.

[21] Ibid, ad 3.

[22] S. T., IIa IIae, q. 101, a. 1.

[23] S. T., IIa IIae, q. 122, a. 5.

[24] S. T., IIa IIae, q. 121, a. 1.

[25] Ibid.

[26] Ibid., ad 1.

[27] Ibid, ad 2.

[28] João de Santo Tomás, Les dons du Saint-Esprit, Téqui, 1950.

[29] De direito e de fato, os termos “pátria" e “nação" são distintos. Não os distinguimos aqui, tomando-os no sentido lato, em que sua significação é comum, e não no sentido estrito, em que sua significação é distinta.

[30] Isto pressupõe, claro está, o que mais falta, na ordem natural, ao pensamento e ao mundo modernos: uma ética e uma vida moral que sejam uma doutrina e uma prática das virtudes.

[31] Enc. Div. Red., §7.

[32] Maurras, op. cit., p. 67.

[33] No original, “dignité de la personne humaine”. Optamos pela tradução acima por ser mais fiel, se não ao pensamento do autor, ao menos à doutrina católica de sempre. Reconhecemos a dignidade da natureza humana criada por Deus, mas negamos o desvario de uma dignidade inalienável da pessoa humana, idéia que decorre do personalismo do mesmo Maritain, já muitas vezes refutado por grandes autores. "Quanto à idéia de 'dignidade' da pessoa humana", escreveu Júlio Fleichman, "lembremos que uma pessoa concreta e real que singulariza uma natureza humana, será digna ou indigna conforme seu comportamento moral” (http://permanencia.org.br/drupal/node/674). [N. do T.]

[34] Maritain, Pour un philosophie de l’histoire, Éd. du Seuil 1959, pp. 115-116.

[35] Charles de Koninck, “Liberté des consciences et droit naturel”, Revista Itinéraires, número 66, p. 212 e p. 214.

[36] Maritain, op. cit., pp. 117-118.

[37] 1 Tim 4, 8.

[38] S. T., IIa IIae, q. 122, a. 5 ad 4.

[39] Ibid.

[40] Pio XII, Discurso pela canonização de Nicolau de Flüe, 16 de maio de 1947.

[41] Pio XI, Encíclica Divini Redemptoris, §2.

[42] Jo 15, 16.

O que é a virtude da piedade?

O que é a virtude da piedade?

A palavra “piedade” pode ser usado em vários sentidos diferentes: a) como sinônimo de devoção, religiosidade, dedicação às coisas que dizem respeito ao culto de Deus, e, portanto, por isso costumamos falar de pessoas “piedosas” ou devotas; b) como um equivalente de compaixão ou misericórdia, e, portanto, costumamos dizer: “Senhor, tende piedade de nós”; c) para designar uma virtude especial derivada da justiça, a virtude da piedade; e d) para se referir a um dos sete dons do Espírito Santo, o dom de piedade.

Como virtude especial derivada da justiça, ela pode ser definida como um hábito sobrenatural que nos inclina a dar a nossos pais, a nosso país e a todos aqueles relacionados com eles a honra e o devido serviço (IIa IIae, q. 101, art. 3).

Santo Tomás explica, sucintamente (IIa IIae, q. 101, art.1): “O homem se torna devedor de outros homens de várias maneiras de acordo com suas excelências variadas e os vários benefícios recebidos deles. De toda maneira, Deus está em primeiro lugar, pois Ele é supremamente excelente, e é para nós o primeiro princípio do ser e de governo. Em segundo lugar, os princípios de nosso ser e governo são nossos pais e nosso país, que nos deram a vida e nos criaram. Consequentemente, o homem é devedor, acima de tudo, de seus pais e de seu país, depois de Deus. Por essa razão, assim como é próprio da religião dar culto a Deus, assim também é próprio da piedade, em segundo lugar, dar culto aos pais e ao país. O culto devido a nossos pais inclui o culto dado a todos os parentes, pois nossos parentes são aqueles que descendem dos mesmos pais de acordo com o Filósofo (Ética, VIII, 12). O culto dado a nosso país inclui homenagem a todos os nossos concidadãos e a todos os amigos de nosso país. Portanto, a piedade extende-se, primariamente, a essas coisas”.

Por extensão, aqueles que formam a mesma família espiritual em uma ordem religiosa se chamam de irmãos e irmãs, e o fundador da ordem é chamado de pai religioso. Eles, também, merecem a mesma honra e serviço.

A piedade difere das virtudes conexas a ela. A primeira delas é a caridade, que une todo o gênero humano a Deus, enquanto a piedade une apenas aqueles pertencentes ao mesmo tronco ou linha familiar comum. Em seguida, vem a justiça legal, isto é, a obediência que os súditos devem à lei. Essa justiça se refere à pátria, vista como o bem comum buscado por todos os cidadãos. De outro lado, a piedade se refere à pátria como a origem da sua própria existência. E, porque a pátria sempre preserva esse segundo aspecto em relação a nós, deve-se concluir que o homem, ainda que tenha adquirido cidadania em outro país, sempre está obrigado a preservar piedade em relação a seu país de origem, embora não esteja mais obrigado aos deveres oriundos da justiça legal, pois ele deixou de ser súdito do governo de seu país.

Como a piedade é uma virtude especial, deve-se concluir que os pecados cometidos contra ela também são pecados especiais, que devem ser expressamente acusados na confissão. Portanto, bater ou maltratar o pai ou a mãe é um pecado especial contra a piedade que é diferente e muito mais sério que bater num estranho. Algo semelhante pode ser dito sobre os pecados que são cometidos contra a pátria enquanto tal ou contra parentes ode sangue.

Dois pecados se opõem à piedade devida a nossa família, um por excesso, outro por falta. O amor exagerado pelos parentes se opõe, por excesso, à piedade (IIa IIae, q. 101, art. 4), o que levaria ao não cumprimento de deveres maiores que os devidos a ele (p. ex., quem se nega seguir sua vocação religiosa ou sacerdotal pela exclusiva razão de não entristecer sua família). Por falta, é a impiedade, a negação dos deveres de honra, reverência, auxílio espiritual ou econômico, etc, quando se está apto a cumpri-los.

O nacionalismo exagerado, ao desprezar em palavras e atos as outras nações, opõe-se, por excesso, à piedade devida a nosso país. Por falta, é o tão chamado cosmopolitanismo de homens sem uma pátria, cujo lema é o velho adágio pagão Ubi bene, ibi pátria, “onde eu estiver bem, confortável, lá é meu país”.

30. O que se deve pensar das relações que o papa mantém com governos e personagens liberais

Mas então, brada alguém, que devemos pensar das relações e amizades que a Igreja tem com os governos e as pessoas liberais, ou, o que é o mesmo, com o liberalismo?

Resposta. Devemos julgar que são relações e amizades oficiais, e nada mais. Não supõem afeto algum particular às pessoas com quem se mantêm, e muito menos aprovação de seus atos, e muitíssimo menos adesão às suas doutrinas ou sanção delas. Este é um ponto que convém esclarecer, porque sobre ele os sectários do liberalismo armam grande aparato de teologia liberal para combater a sã intransigência católica.

Convém antes de tudo observar que há na Igreja de Deus dois ministérios: um que chamaremos apostólico, relativo à propagação da fé e à salvação das almas; e outro que poderíamos muito bem chamar de diplomático, relativo às relações humanas com os poderes da terra.

O primeiro é o mais nobre; é, por assim dizer, o primário e o essencial. O segundo é inferior e subordinado ao primeiro, do qual é unicamente o auxiliar. No primeiro a Igreja é intransigente e intolerante; vai direto ao seu fim, e prefere romper-se a dobrar-se: Frangi non flecti. Veja-se apenas a história das suas perseguições. Trata-se de direitos divinos e de deveres divinos, e portanto não cabe neles atenuação nem transação possíveis. No segundo ministério, a Igreja é condescendente, benévola e plena de paciência. Ela discute, solicita, negocia, elogia com o fim de abrandar, cala-se às vezes para melhor triunfar, recua talvez para melhor avançar e para tirar em seguida um melhor partido da situação. Nesta ordem de relações sua divisa poderia ser: flecti non frangi. Trata-se aqui de relações humanas, e estas admitem certa flexibilidade e uso de recursos especiais.

Neste terreno, tudo o que não é declarado mau e proibido pela lei comum, nas relações ordinárias entre os homens, é licito e bom. Mais claro: nesta esfera a Igreja julga poder valer-se, e vale-se de fato, de todos os recursos que pode utilizar uma diplomacia honrada.

Quem se atreverá a censurá-la, seja porque envia e recebe embaixadores de governos maus e mesmo de príncipes infiéis; seja porque dá e recebe dos mesmos, presentes, obséquios e honras diplomáticas; porque oferece distinções, títulos, condecorações a seus representantes; honra com frases de cortesia e urbanidade as suas famílias e concorre a suas festas por meio de seus representantes?

Porém logo os tontos e os liberais vêm a nosso encontro: “Por que razão deveríamos detestar o liberalismo e combater os governos liberais, quando o papa trata com eles, reconhece-os, e os cobre de distinções?” Malvado ou estúpido — talvez os dois juntos! —, escuta a comparação que vou fazer e julga em seguida.

Supõe que és pai de família e tens quatro ou seis filhas, a quem educas com a mais rigorosa honestidade. Em frente à tua casa ou simplesmente separadas de ti por uma parede vivem umas vizinhas infames. Tu recomendas continuamente a tuas filhas a não ter nenhum tipo de relação com aquelas mulheres de má vida. Tu as proíbe até de olhá-las e saudá-las. Queres que tuas filhas tenham-nas por perversas e corrompidas e que aborreçam sua conduta e suas idéias; que tomem cuidado para em nada se assemelharem a elas, nem pela linguagem, nem pelas obras, nem pelos trajes. Tuas filhas, boas e dóceis, têm o dever evidente de seguir as tuas ordens, que são as de um pai de família prudente e muito ajuizado. Mas eis que uma questão se suscita entre ti e essa vizinhança sobre um ponto de interesse comum, sobre demarcação de limites, ou passagem de águas, por exemplo; e torne-se preciso que tu, honrado pai, sem deixar de o ser, venha a tratar com uma daquelas infames mulheres, que por isso não deixam de ser infames, ou pelo menos com quem as represente. Deves tratar do assunto e ter encontros, e falas e fazes os cumprimentos e fórmulas de cortesia usuais na sociedade, e procuras de todos os modos entender-te e chegar a um acordo sobre a questão em litígio.

Terão razão tuas filhas, se disserem logo: “Já que nosso pai trata com essas vizinhas más, não devem ser tão más como ele diz. Podemos tratar com elas nós também, reputar como bons seus costumes, modestos os seus trajes, e louvável e honrada sua maneira de viver”?

Diz-me: não falariam como néscias tuas filhas, se falassem assim? Apliquemos agora a parábola ou comparação.

A Igreja é a família dos bons (ou dos que deveriam sê-lo e que ela deseja que o sejam); mas está rodeada de governos perversos em maior ou menor grau. Ela diz então a seus filhos: “Detestai as máximas desses governos; combatei-os; sua doutrina é erro, suas leis, iniqüidade”. Porém, ao mesmo tempo, nas questões que envolvem interesse próprio ou de ambos, ela se encontra na necessidade de tratar com os chefes ou representantes desses governos maus; e efetivamente trata com eles, recebe seus cumprimentos e usa para com eles das fórmulas de urbanidade diplomática usuais em todos os países. Pactua com eles sobre assuntos de interesse comum, procurando tirar o melhor partido possível de sua situação entre esses vizinhos. É isto mau? Sem dúvida, não. Mas não é ridículo que saia logo um católico tomando tal conduta como uma aprovação de doutrinas que a Igreja não cessa de condenar, e como uma aprovação de atos que ela não cessa de combater?

Vejamos: por acaso a Igreja aprova o Corão, quando trata de potência a potência com os sectários do Corão? Aprova a poligamia, quando recebe presentes e embaixadas do Grão-Turco? Pois bem! Do mesmo modo, a Igreja não aprova o liberalismo, quando ela condecora seus reis e ministros, quando lhes envia suas bênçãos, que são simples fórmulas de cortesia cristã que o papa outorga até aos protestantes. É um sofisma pretender que a Igreja autoriza com tais atos o que por outros não deixa de condenar. Seu ministério diplomático não anula seu ministério apostólico; e é neste último que se deve buscar a explicação das aparentes contradições de seu ministério diplomático.

Assim se comporta o papa com os chefes das nações, assim o bispo com os da diocese, assim o pároco com os da paróquia. Cada um sabe até onde vão suas relações oficiais e diplomáticas e qual é o seu verdadeiro sentido; só os infelizes sectários do liberalismo e os que estão contaminados dele ignoram isto, ou fingem ignorá-lo.

Introdução ao terceiro domingo da Páscoa

“Ainda mais um pouco e não me vereis” Evangelho.

 

Paramentos brancos

 

A Santa Igreja, cheia ainda das alegrias da Páscoa, irrompe num cântico de júbilo e proclama a glória de Deus. “Ainda mais um pouco, disse Jesus no cenáculo, e não me vereis”; haveis de chorar então e de vos lamentar. E mais um pouco ainda, e ver-me-eis de novo e o vosso coração se alegrará”

Os apóstolos sentiram de feito esta alegria iluminante, de que transborda a liturgia pascal, ao contemplar de novo a carne e as feições do Amigo e do Mestre ressuscitado.

A Páscoa da terra é a preparação e a representação da Páscoa eterna, da Páscoa das alegrias totais, de que há de partilhar a Igreja depois de dar à luz no exílio e na dor os que foram marcados na fronte com o sinete da vida. E esta alegria já começa aqui na terra, começa na esperança, spe gaudentes, e por aquela presença de Cristo, invisível mas real, que prometeu aos que O buscam.

Peregrinos e estrangeiros vamos a caminho do céu, animemo-nos daquela alegria cristã que nos leva para Deus, o qual nos virá em auxílio e conduzirá ao termo da viagem e à vitória.

Evangelho: “Este pouco, de que falava o Senhor aos discípulos, parece-nos longo, diz S. Agostinho, porque ainda andamos cá no exílio. Mas quando ele acabar, então veremos com surpresa como foi breve.

Que a nossa alegria se não assemelhe, de longe sequer, com a de que se há de alegrar e se alegra de fato o mundo na breve ausência do Senhor. Mas, enquanto se não realizar o objeto dos nossos desejos, cultivemos aquela alegria santa que é florir da alma entre espinhos e que se alimenta da esperança do fruto que há de vir”

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

Introdução ao quarto domingo da Páscoa

“Se Eu não me for, o Espírito consolador não virá a vós; mas Eu vo-lo enviarei” Evangelho.

 

Paramentos brancos

 

A liturgia de hoje louva a justiça de Deus, que se manifestou no triunfo do Senhor e pela descida do Espírito Santo, que, de volta ao céu, o Senhor prometera.

Deus que dera testemunho de Seu Filho, ressuscitando-O dos mortos, condena o mundo que O crucificou. Este testemunho brilhante da justiça divina deve nos consolar a alma das amarguras e das dificuldades da vida presente.

Jesus abriu-nos o caminho; Ele é o caminho, a verdade e a vida. Enquanto vivermos na terra temos de beber sem dúvida o travor do exílio, de amargar com a perseguição e a hostilidade dos elementos adversos, mas quando desabrochar no dia pleno e luminoso, que antevemos, a aurora que nos leva, se olharmos então para trás, para esses pedaços de noite e dia por onde passamos, havemos de sentir com certeza como foi breve o caminho e suave o sofrimento que nos conduziram a tão grande vitória.

São Tiago exorta-nos a sofrer com paciência, com paciência cristã evidentemente, as arestas e fadigas da jornada, porque a paciência, diz o apóstolo, dá perfeição à obra, à obra da nossa santificação, e assemelha-nos a Deus “em quem não há vicissitudes nem mudança”

 

Evangelho: “O Espírito Santo convencerá o mundo do pecado”, do pecado tão grave como jamais se viu e que os judeus, sem advertir na gravidade do ato que faziam, perpetraram, rejeitando Cristo, o Redentor.

“O Espírito Santo convencerá o mundo da justiça”, da justiça de Cristo que o mundo desprezou, crendo-se a si mesmo justo, e que Deus glorificou, com os prodígios que se seguiram à tragédia do Calvário.

“Convencerá, finalmente, o mundo do juízo”, demonstrando pela santificação das almas e pelas conquistas sempre crescentes da Igreja, que “o príncipe deste mundo já está julgado”

 

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

O sobrenatural em Lourdes

 

D. José Pereira Alves

Conferência ilustrada com projeções

 

Meus senhores, não sou eu quem vai fazer conferência. O vivo das telas, o colorido dos quadros, tudo que há de impressionante nas projeções se encarregará de dizer à vossa alma o que a minha palavra não pode nem sabe.

Se algum raio de eloquência brilhar nesta palestra, será o raio de eloquência esmagadora do fato, estudado à luz da crítica sábia dos competentes. Dar-me-ei por imensamente remunerado se depois no santuário da minha alma a vossa consciência me disser: cumpriste o teu dever de padre, de semeador do Evangelho. O trabalho que ides ouvir não tem preocupações científicas: é o trabalho do vulgarizador religioso. Dividi esta palestra em duas partes: — uma histórica e a outra apologética. Na primeira parte ouvireis a narrativa dos acontecimentos de Lourdes, cidade do sul da França; na segunda, vereis que esses prodigiosos acontecimentos provam a existência do sobrenatural, a divindade e a verdade da religião católica que os possui. Ponde em ação as vossas nobres faculdades e contemplai este novo paraíso que Deus plantou na terra e no qual Maria, a nova Eva, a Mãe da vida, oferece o fruto fecundo de extraordinárias bênçãos, de incontáveis benefícios de um coração de mãe.

 

A GRUTA

Eis ali a gruta, a gruta abençoada, onde a Formosa Senhora aparece a Bernadete Soubirous! Eis ali a gruta selvagem, silenciosa e triste entrelaçada pelos ramos de uma roseira brava! Quem diria que esta solidão seria o lugar de tanta maravilha? Quem diria que a rocha bruta desses ermos seria o teatro das graças mais escolhidas do Altíssimo?

Falando da gruta, o peregrino convertido escreveu o livro Du Diable à Dieu. Adolfo Retté arranca da sua alma na sua obra Un séjour à Lourdes estes belos sentimentos: “Daí se irradiam através das brumas do materialismo, as claridades deste astro fixo: o Sol da graça. Na gruta, o Sursum Corda realizado que se experimenta por toda a parte em Lourdes, toma todo o seu desenvolvimento.

A alma, embebida de oração, sente que aí é proibido ao mau girar em torno de si.

O influxo sobrenatural penetra-a, com uma imperiosa doçura e vivifica-a: é alguma coisa como uma Eucaristia de luz. Parece que se está numa estufa quente, onde pompeiam as palmas e as flores da vida contemplativa, enquanto o inverno reina lá fora.

Nesta tépida atmosfera, sente-se a presença da Santa Virgem. Os olhos do espírito se abrem, não é mais a estátua de Fabisch que ocupa a cavidade onde se deram as aparições: é a Imaculada mesma. Ela está lá: de suas mãos descem sobre as cabeças inclinadas as consolações e os ensinos. A gente se ajoelha e, como Bernadete, a gente beija o chão e fica-se num extase de uma inefável paz de espírito”

Meus senhores, a gruta selvagem e muda, nas rochas de Massabielle, vai em breve dourar-se de uma celeste e esquisita claridade.

A 1° de fevereiro de 1858, uma menina, acompanhada de sua irmã e uma amiga, se achava diante desta gruta agreste, silenciosa e triste. Era Bernadete.

 

BERNADETE

Vede, meus senhores: é a fisionomia, cheia de paz e de sinceridade, da eleita de Maria.

Mas quem era Bernadete? Era uma humilde filha de Lourdes, de 14 anos, o mais novo rebento do casal Soubirous. No lar paterno reinava a pobreza. Mais uma vez a lei ordinária da Providência que escolhe os fracos e os humildes para as grandes coisas, ia receber uma solene confirmação. A indigência dos Soubirous precisara de lenha e Bernadete, Maria, sua irmã, e Joana Abadie, sua companheira, partiram a busca-la. Fazia frio. Os cuidados da mãe de Bernadete, que sofria de asma, não permitiram que ela fosse sem meias.

Caminhavam elas ao longo do Gave que serpeava cantando a eterna queixa de suas águas e se viram na extremidade da ilha de Chalet, formada pelo Gave e pelo canal de Savy que se atirava à corrente fluvial ao pé da gruta selvagem, rodeada de silvas.

Maria e Joana tiraram os seus tamancos e atravessaram o raso canal do moinho. Bernadete de saúde delicada, temeu passar a corrente.

As companheiras se negaram a transportá-la; Bernadete esforçou-se inutilmente para passar o canal a pé enxuto. Resolveu tirar as suas meias. Já havia soado o meio-dia. Uma calmaria grande pairava no ar. O silêncio das margens do Gave era apenas interrompida pelo gemido da corrente. As folhas das árvores, imóveis, pendiam dos ramos tranquilos. Dir-se-ia que a natureza pressentindo um mistério se recolhera em uma solene e grandiosa meditação.

Ingênua e descuidada camponesa, tira as tuas meias que a terra que vais pisar, é santa. A calma da natureza que te envolve, não te impressiona? Meus senhores, o céu se aproximava da terra e a escolhida de Deus e da Virgem de nada suspeita em plena posse da mais perfeita tranquilidade do espírito, sem a excitação nervosa de espécie alguma, despreocupada. Apenas Bernadete tira uma das meias, um ruído de ventania forte quebrou a monotonia do campo. A menina ergueu os seus lindos olhos e nada viu. Dominava o mesmo silêncio de morte. Enganar-se talvez.

De súbito, um outro ruído, semelhante, apavorou a criança. Contemplou a paisagem em volta. Reinava a mesma calma nas bordas do Gave. Do lado oposto do canal, porém, a roseira brava que abraçava a gruta cavada na rocha abrupta era agitada por um vento forte. A rocha começou a iluminar-se. Um nimbo dourado se forma no rochedo e acima da moita agreste da roseira brava, uma visão deslumbra os olhos ofuscados de Bernadete. Era uma mulher de estranha e inigualável beleza, augusta e nobre.

 

A APARIÇÃO

Moisés se quedara, cheio de assombro, diante da sarça ardente do Horeb, donde trovejava a voz de Jeová.

Do centro duma sarça luminosa se erguia agora diante de uma simples camponesa o perfil celestial de uma mulher no viço da juventude, olhar de bondade e de expressão soberana. “Ela era jovem e bela, conta Bernadete, sobretudo bela, como eu nunca vi. Ela olhava-me, sorria, fazia sinal para que me aproximasse sem receio. E com efeito, eu não tinha mais medo, mas parecia que não sabia mais onde estava”

A Bela Senhora, de branca túnica, como a neve da montanha, cingida de azul, tinha sobre os alvos pés nus uma brilhante rosa de ouro. Das mãos postas em divinal atitude caiam as contas de um lindo terço alvíssimo.

Bernadete, instintivamente, de joelhos, começou a recitar o terço e a Formosa Aparição, sorrindo e aprovando, começou a passar entre os dedos angélicos as contas do seu terço, sem dizer palavra. Abria apenas os lábios purpurinos para dizer com Bernadete: — Gloria Patri, et Filio et Spiritui Sancto.

“Quando o terço acabou de ser recitado, diz Bernadete, a Senhora tornou a entrar no rochedo e a nuvem de ouro desapareceu com ela”

O espetáculo grandioso da visão mergulhava a menina privilegiada num êxtase e a lembrança doce e profundamente viva da deslumbrante e graciosa jovem não deixava o espírito de Bernadete.

Foi nesta doce contemplação que de joelhos a acharam suas companheiras que riram muito de encontrá-la em oração numa paragem tão deserta e triste.

Bernadete levantou-se e ajudou Maria e Joana a trazerem os três feixes de varas secas que tinham reunido.

O coração de Bernadete, porém, não pode resistir e contou tudo em segredo, à sua irmã. Em casa, debaixo da pressão de sentimento causado pelo maravilhoso fato começou a chorar. “Que tens Bernadete? ” Perguntou-lhe Mme. Soubirous. Maria revelou todo o segredo de sua irmã. “São ilusões, minha filha, disse sua mãe, expulsa essas ideias e sobretudo não voltes a Massabielle”. 12 e 13, sexta e sábado, foram para Bernadete dias de tortura. Ela ansiava por voltar à gruta. Um não sei que de misterioso a atraia. Meus senhores, iam principiar as grandes cenas desse drama divino que abalou e abala o mundo inteiro. No dia 14, Mme. Soubirous permitia que a filha fosse a Massabielle. As suas amigas tinham-na aconselhado a levar água benta. Diante da roseira brava ajoelhou Bernadete, orou e, pouco depois, rompeu o seu silêncio religioso, gritando: — “Lá está ela! Lá está ela! ”. Depressa, gritou-lhe uma companheira, atira-lhe água benta. Bernadete obedeceu e a Virgem luminosa sorriu. Foi a segunda aparição. Mme. Soubirous repreendeu sua filha e a ameaçou. Dias depois, a pedidos instantes de várias pessoas, Bernadete obteve autorização de ir à Gruta que exercia no seu espírito de criança uma sedução irresistível. Era o dia 18 de fevereiro. “Ei-la, exclamou Bernadete, e rindo, sem agitação apresentou à Senhora uma folha de pape. “O que tenho a dizer não é preciso escrever”, disse a visão, e pedindo a Bernadete que voltasse durante 15 dias, ajuntou: “Prometo tornar-te feliz, não neste mundo, mas no outro”. A notícia espalhou pela cidade como o raio. A curiosidade popular agitou-se, as opiniões dividiram-se. Entretanto as aparições sucederam-se na presença de milhares de testemunhas. Já na quarta houve 500 pessoas. A vidente foi examinada, interrogada pelo médico de Lourdes, Dr. Dozous, pelo Sr. Dufo, advogado, pelo Sr. Pougat, presidente do tribunal. Suas respostas simples, precisas, claras, cheias de verdade e sinceridade, deixaram-nos estupefatos.

Na 6ª aparição, estudada cientificamente pelo Dr. Dozous, que nada verificou de anormal no organismo de Bernadete, a visão pediu que ela rezasse pelos pobres pecadores, pelo mundo tão agitado. “Deixando estes lugares onde a emoção geral era tão grande, narra o Dr. Dozous, testemunha ocular interessada, Bernadete retirou-se como sempre, na atitude mais simples, mais modesta, sem prestar atenção à ovação pública de que era objeto”. Os poderes públicos julgam prudente intervir; intentam dissuadi-la de ir a Massabielle e ela tem para dar-lhes uma resposta de heroína: “Não vo-lo prometo”. A franqueza lutava com a força e venceu-a.

Ameaçada de prisão, resiste. Não tinha ela prometido à Bela Senhora voltar durante 15 dias? Daí em diante gendarmes acompanhavam a vidente à gruta.

No dia 24, renova-se a aparição. No dia 25, depois de alguns minutos de meditação, Bernadete levanta-se, afasta os ramos da roseira brava e beija a terra debaixo da rocha além da sarça. E voltando continua a sua prece. Levanta-se de novo, indecisa, adianta-se para o Gave, recua, parece escutar alguém. Volta para a gruta e depois de ter levantado a cabeça como para interrogar a Visão começa a cavar a terra. A cavidade que fizera, enche-se de água: ela bebe desta água e com ela lava o rosto. O fio d’água se avoluma, torna-se um jorro potente e transforma-se nesta fonte maravilhosa que abastece as nove piscinas de Lourdes, produzindo 122 mil litros de água por dia. Na 11ª aparição, Bernadete recebeu esta mensagem: “Ide dizer aos padres que aqui se deve edificar uma capela”. Vinte dias depois do dia 4 de março, entre 15 a 20 mil pessoas assistiram ao êxtase, a branca Aparição já esperava no seu nicho de pedra a sua predileta. Era o dia 25 de março, dia da Anunciação. Bernadete partira para Massabielle à primeira alvorada. Contra a sua expectativa, a rocha já estava banhada pelo suave e divino resplendor da Visão que, jovem e radiante, pousava sobre a sarça da roseira selvagem. Bernadete caindo de joelhos pediu-lhe que dissesse quem era. A Bela Senhora deixou aflorar nos lábios um sorrido.

“Ao meu terceiro pedido — conta Bernadete — a Senhora juntou suas mãos, elevou-as até o peito, olhou para o céu, depois, separando lentamente as mãos e inclinando-se para mim, me disse: Eu sou a Imaculada Conceição”

Na poesia virgiliana, em formoso hexâmetro, se encontra este belo verso do cisne mantuano: — Incessu patuit Dea — A Deusa revelou-se pelo andar.

Bem mais luminosa, bem mais bela, de maior candura de mais augusta majestade que a Deusa olímpica — fantasia de poeta — sois Vós, ó Imaculada. Nos revelastes pelas palavras, cheias de emoção e de virtude, com que confirmas com tanta solenidade o dogma de vossa Imaculada Conceição, proclamado pela voz infalível de Pio IX. Ah! Meus senhores, o véu do mistério que envolvia a gruta, caíra e nesta onda de luz reveladora como numa visão apocalíptica fulge no céu da História da Igreja um grande sinal. Era uma mulher vestida de sol! Depois de sua morte, Maria ainda não se revelara tão solenemente à sua grande família humana!

A multidão, ao saber da celeste resposta, delirante e transportada de entusiasmo, caiu de joelhos e fez ressoar pelas margens do Gave murmurante, a invocação da Imaculada: — “Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a Vós”

 

O MILAGRE DA VELA

A 7 de abril, a doce e graciosa visão iluminou a rocha de Massabielle. Foi então que se deu o célebre milagre da vela. Damos a palavra ao Dr. Dozous, testemunha do fato que assim o descreve:

“No momento em que ela começava a fazer de joelhos a sua ascensão ordinária, sobreveio de repente um tempo de suspensão neste movimento, e sua mão direita, aproximando-se então da esquerda, pôs a chama da grossa vela debaixo dos dedos desta mão, bastante afastados uns dos outros para que esta chama pudesse passar facilmente entre eles. Ativada nesta ocasião por uma corrente de ar assaz forte, não me pareceu produzir na pele que atingia nenhuma alteração. Cheio de pasmo diante deste fato estranho, impedi que alguém o fizesse cessar, e, tomando o meu relógio, pude, durante um quarto de hora, observá-lo facilmente. Concluída a sua oração e havendo desaparecido de sua face a transformação, Bernadete levantou-se e dispôs-se a retirar-se da gruta. Retive-a um momento e lhe pedi que me mostrasse a mão esquerda que examinei com o maior cuidado. Não encontrei vestígio nenhum de queimadura. Dirigindo-me então à pessoa que havia tomado a vela, roguei-lhe que a acendesse e me desse. Imediatamente coloquei muitas vezes, continuadamente a chama da vela sob a mão esquerda de Bernadete que a retirou, dizendo-me: Não me queimeis. Este fato refiro-o como o vi e como muitas pessoas, colocadas como eu perto de Bernadete, o verificaram perfeitamente; refiro-o tal como se deu, sem explica-lo”

Meus senhores, o milagre da vela desafia a ciência humana a explica-lo dentro das leis que regem a natureza. Ele permanecerá inexplicável, senão apelarmos para Deus que assim vinha autenticando irrefragavelmente os assombrosos acontecimentos de Lourdes. A décima-oitava e última aparição realizou-se no dia de N. S. do Carmo. “A Virgem sorriu a Bernadete, diz um orador, como para confirmar o passado e iluminar o futuro”. Desse dia em diante Bernadete volta à sua vida ordinária, frequentando a escola, simples, de uma ingenuidade adorável. Viveu depois destas maravilhas mais 20 anos. Em Nevers tornou-se Soror Maria Bernard. Ela escondeu-se na dobra de sua grande humildade. “Não se a imagina casada, mãe de família; perdida nos tumultos e nas algazarras do século”, diz Adolpho Retté. Deve-se-lhe aplicar o belo verso de Luiz de Cordonell.

Radiante por ter desposado o silêncio; ela sepultou-se num mosteiro. Escolheu a melhor parte e renunciando a si mesma, acabou de merecer a felicidade eterna cuja segurança a Santa Virgem lhe tinha dado. Bernadete cumprira a sua missão, abrira para a humanidade enferma, um caminho de vida, de benção, de paz, o caminho trilhado pelos peregrinos de todo o mundo, que conduz a Lourdes, a humilde cidade transformada pela celestial predileção da Virgem no paraíso de suas graças e no grande empório de fé para onde convergem as multidões que vão suplicar à Imaculada a cura do seu corpo e a luz de sua alma.

Lourdes é a cidade de Maria, é a nova Jerusalém, é a Canaã, onde mana leite e mel perenemente.

Tendes diante de vós, um panorama de Lourdes.

Lourdes, envolvida no manto azul da Virgem luminosa, Maria escolheu-te entre as tuas irmãs para seres a urna sagrada do seu coração de Mãe. Salve, Lourdes!

Lourdes é a cidade da Virgem. Depois que o clarão de Massabielle se projetou sobre ela como uma benção de luz, Lourdes tornou-se o centro da atração universal das almas, um foco interno de vida e de salvação.

Lá está a nova piscina de Siloé, onde os doentes deixam as suas muletas e os seus bordões, as suas compressas e os seus catres. Maria aí pronuncia um contínuo — surge et ambula — a todos que vão implorá-la na sua gruta bendita. Ela dissera: “Eu quero que aqui venham em procissão”

E de todo o mundo ali tem vindo, em imponentes peregrinações, a procissão de toda a Cristandade. Que dizem, senhores, as estatísticas? Ouçamos Bertrin: de 1867 a 1909 exclusivamente houve em Lourdes 5.207 peregrinações que tiveram 4.919.000 peregrinos. Naturalmente, os primeiros anos fornecem a parte mais modesta nesta espantosa estatística. Se, desprezando o ano excepcional do cinquentenário, tomarmos os dez que o precederam, veremos que há uma média anual de 155 peregrinações. Em dez anos 2.491 trens levaram 1.549 grupos, que compreendiam 1.636.000 peregrinos. A estas cifras pasmosas, ajuntemos o número incalculável de peregrinos isolados, de turistas e curiosos. A estação de Lourdes, ela só, recebe por ano mais de um milhão de viajantes.

De todos os países do globo afluem peregrinos. O Episcopado está a frente deste grandioso movimento. Os santuários de Lourdes onde drapejam as bandeiras dos povos em honra de Maria e que recordam pela piedade dos fiéis as bondades inexplicáveis da Virgem de Massabielle, têm sido visitados por 2.013 bispos, arcebispos, primazes, cardeais, vindos dos mais diversos e remotos pontos do mundo.

A nossa querida pátria enviou a Lourdes 36 bispos que depositaram aos pés de Maria a homenagem da terra do Cruzeiro que é também a terra da Imaculada! E Lourdes, cantada pela harpa da Cristandade, exaltada pelo episcopado, coroada de glória pelos Pontífices Romanos, achou pequena a França para contê-la e multiplicou-se pelo mundo inteiro nas pequenas grutas, representativas da sua, espalhadas pelo orbe. Leão XIII falando de sua gruta nos jardins do Vaticano dizia a um cardeal: “Que quereis? É o meu canto de França”. O Gave não rola mais as suas águas por deserta e solitária natureza, mas um Te Deum de gratidões eternas perpassa, vibrante de fé, pelas suas margens outrora despovoadas. “Que tiveste, ó Gave, exclama Mons. Pie para fugires, porque recuastes? E de ti, Montanha, que transportes se apoderaram para saltares como os carneiros suspensos dos teus cumes, e vós, colinas, para dardes pulos como os cordeiros presos aos vossos flancos? ”

O globo inteiro sentiu uma comoção desde que, pela virtude da ordem celeste, a pedra foi cavada em forma de bacia e de reservatório, desde que o rochedo foi convertido em uma fonte d’agua que não deixou de correr. Qui convertit petram in stagna aquarum et rupem in fontes aquarum”

Meus senhores, Lourdes é o grande hospital que a Providência abriu na terra para as chagas físicas e morais do gênero humano. Milhares de doentes ali desembarcam para merecerem o favor da Virgem. É um espetáculo vivo da dor humana gravada naquelas faces macilentas e cavadas pelas enfermidades, naqueles membros cobertos de chagas e paralíticos. O trem branco silva, levando o sofrimento da humanidade à Gruta miraculosa, às suas piscinas, aos seus santuários, erigidos pela fé e pelo amor. Seria infindável a lista das diversas enfermidades de toda a espécie, curáveis e incuráveis.

Em leitos, em catres, de muletas, em carros, os doentes invadem a cidade de Maria. E a palavra humana poderá dizer o delírio, o entusiasmo e sobretudo o hino de gratidão que rebenta do peito dos miraculados? E Lourdes está tão impregnada de fé, de esperança, de amor, sente-se ali tanto a presença maternal da Virgem que, coisa notável, ainda os não miraculados partem dali com a alma inebriada de uma paz reconfortante e de uma alegria viva e admirável. E a partida dos trens de Lourdes é para os que se ausentam daquele pedaço do céu, um aperto do coração, o despertar amargo de uma saudade que acabrunha.

As glórias de Maria não podem ser comparadas às glórias do seu Filho. Em 1888 o Santíssimo Sacramento começou a receber uma solene manifestação de fé. É a imponente procissão do Santíssimo Sacramento. Os círios tremem brilhantes. Os estandartes oscilam reverentes, no espaço. A voz grave da tribo sacerdotal é interrompida pelas aclamações dos fiéis. Sublime espetáculo!

Como tu és bela, como tu és grande, como tu és divina, ó incomparável religião que produzes tais maravilhas! E lá estão os enfermos que pedem ao Filho de Davi a sua cura, lá estão nos seus catres os grandes doentes esperando a passagem miraculosa do Filho de Maria. Dá-se uma cura e um frêmito eletriza a multidão. É o triunfo do Cristo, é o triunfo de Maria. Magnificat, cantam mil vozes; Magnificat, gritam mil peitos; e o Cântico da Virgem ondula por aquela massa iluminada que se agita, reboando ao longe. Lourdes, teatro de tão estupendos prodígios, apresenta ao mundo civilizado e à incredulidade sarcástica a prova científica dos seus milagres. Lá está Le bureau des constatations criado em 1887, dirigido a princípio pelo Dr. Saint-Maclou e depois pelo ilustre Dr. Boissarie. “Redige, diz um escritor, uma média de 140 processos verbais por ano. Aí houve em 1897, sobre 210 trens de peregrinações, 2.825 doentes hospitalizados; 5.053 em 1901; 5.502 em 1904, 5.618 em 1907”

Neste ofício de verificações médica, são as curas examinadas com o rigor dos processos científicos. Todos os médicos, quaisquer que sejam suas ideias e opiniões, podem estudar os fatos miraculosos. Em Lourdes tudo se faz às claras, como testemunham atestados de profissionais que não partilham das nossas crenças.

 

A GRUTA (estado atual)

Meus senhores, encerrando o quadro breve e imperfeito da história de Lourdes, eu vos peço mais um olhar para a gruta de Massabielle, não mais para a gruta selvagem e deserta das bordas do Gave, mas para a gruta, bruta e selvagem na sua natureza severa, transformada pela piedade reconhecida. Ei-la! Acima da roseira brava se destaca A Madona de Fabisch, em mármore Carrara, de formosura ideal.

Dezenas de muletas, ali deixadas pelos agraciados da Virgem, pendem como troféus de vitória. Os círios trêmulos que a mão do reconhecimento acende iluminam o sagrado recinto. “Eu poderia, diz Adolpho Retté, o anarquista convertido, descrever as multidões que se sucedem na Gruta, salientar as diversas maneiras porque revelam a sua devoção. Eu poderia dizer estes furacões de litanias e de invocações que reclamam às vezes o gesto e a palavra dum diretor de peregrinações. Eu poderia juntar os doentes e seus olhares e suas fisionomias transfiguradas pela esperança”. Sim, meus senhores, o mundo se precipita sobre Lourdes e se acotovela nas grades da Gruta abençoada. Ali todas as classes se misturam e se abraçam como irmãos. Lourdes promove a confraternização dos povos, prega o heroísmo da caridade com o exemplo de suas instituições de assistência cristã dos seus liteiros abnegados; desperta o sentimento religioso e estabelece a harmonia social unindo as nacionalidades num cosmopolitismo admirável e sublime.

A grua misteriosa, em cujas rochas a Virgem deixou para sempre o rastilho, a impressão luminosa de sua visão, a benção fecunda do seu amor, agasalhando-os debaixo de sua túnica de Mãe, cinge todos os corações num só halo de esperança, numa democracia bendita, a democracia de Maria Imaculada.

Meus senhores, Loures que é um foco de religião e de amor, é no meio da Igreja de Deus a apologética viva de nossa fé. Deus encarregou sua Mãe adorável de dar à audácia insultante da incredulidade a resposta esmagadora dos assombrosos milagres de Massabielle, que demonstram irrespondivelmente a existência do sobrenatural e a divindade da religião que a possui.

É o que vamos ver na senda parte desta palestra.

 

II PARTE

 

Meus senhores, as aparições de Bernadete foram reais? Este movimento universal, esta manifestação grandiosa é apenas uma forma de fanatismo que tem as suas raízes no embuste ou na ilusão? Meus senhores, a realidade das aparições de Massabielle trazem o cunho duma verdade indubitável.

As leis que regem o testemunho histórico dos fatos naturais são as mesmas que regem o testemunho dos fatos maravilhosos. Se o testemunho de Bernadete está revestido das condições devidas para arrastar o consenso, ninguém mais poderá negar a realidade de suas extraordinárias visões.

Ora, ele o está duma maneira soberana. Para que Bernadete seja digna de crédito, basta provarmos que ela não quis enganar-nos nem se enganou: a sinceridade e a ciência de Bernadete. Quem estuda a psicologia de Bernadete, quem observa a alma ingênua desta montanhesa, simples não pode duvidar da sua sinceridade.

A ignorância, a simplicidade, a modéstia, o desinteresse dessa menina, deixam à parte toda a suspeita.

Impossível que Bernadete fosse uma comediante.

Quanto a afligiam os interrogatórios!

Jamais quis focalizar na sua pessoa que mais escondia na solidão do claustro.

Menina, pobre, sem recursos jamais quis aceitar um real da generosidade pública. Os testemunhos abundam. As suas respostas em interrogatórios habilmente preparados e feitos por pessoas por responsabilidade social, foram sempre resposta claras, precisas, sem a mínima contradição. Bernadete, ignorante e simples camponesa, triunfou sempre de todas as provas de todos os laços armados para surpreendê-la. Na hora de sua morte, neste momento solene em que a alma vai comparecer ao tribunal do Deus vingador, vinte anos depois dos extraordinários sucessos. A Igreja quis fazer a Bernadete, então Soror Maria Bernard, um supremo interrogatório. Os delegados dos Bispos de Tarbes e Nevers, assistidos pelas religiosas, junto àquele leito já ensombrado pela asa da morte, ouviram da vidente risonha a confirmação formal das suas revelações. Bernadete morreu dizendo: — “Eu a vi, sim, eu a vi”. Mas se a sinceridade de Bernadete escapa a toda dúvida, não ter-se-á enganado ela, não teria sido vítima duma profunda alucinação mental? Sim, respondem os céticos. Não, respondemos nós, responde a ciência, responde a eloquência das circunstâncias desta grande história.

As influências nervosas supõem uma natureza nervosa. Ora, Bernadete, além de asma, não sofria doença. O seu temperamento era calmo, são, alegre e risonho. A ideia religiosa não lhe teria produzido no espírito uma agitação profunda? Nenhuma. A piedade de Bernadete era uma piedade simples que nada tinha de extraordinário. A sua cultura religiosa, a dificuldade que ela tinha a esse respeito, não a puderam preparar para um misticismo tão exaltado. Nem a exercícios espirituais a menina Soubirous assistia. Ainda não fizer a primeira comunhão. A natureza física e moral de Bernadete era contrária absolutamente a qualquer alucinação. Antes da visão, durante a visão e depois da visão, a conduta, as maneiras, as palavras de Bernadete, repugnam às leis da alucinação. Não me sendo permitido assinalar as provas abundantes da não alucinação de Bernadete, limito-me a salientar a explicação científica do Dr. Voisin, médico e notável e competente de Salpetrière.

A alucinação de Bernadete foi completa e deveria ter produzido o desarranjo cerebral, porque o cérebro de uma criança não pode resistir a uma alucinação de tal natureza. E, concluindo que tal era a alucinação de Bernadete, afirmou que ela ficara louca e por isso fora internada num convento. Ora, a loucura de Bernadete é uma calunia. Não há nada melhor provado do que o senso perfeito de Bernadete, o que é atestado pelos médicos e por todos. A conclusão do Dr. Voisin prova, pois, a não alucinação de Bernadete. Se fora alucinada teria perdido a razão; ora, tal não se realizou. E assim, meus senhores, o testemunho de Bernadete, cheio de sinceridade e pleno e real conhecimento, se impõe a todo o espírito reto e imparcial. Qual foi a atitude da Igreja diante das aparições de Massabielle? Foi a da prudência e da reserva. Para que recordar a severidade e a prudência de Mons. Peyramale, pároco de Lourdes, recebendo as declarações de Bernadete, as exigências de seu zelo talvez um tanto excessivas? Os fatos maravilhosos de Lourdes foram tomando tanto vulto que Mons. Peyramale se viu obrigado, cheio de emoção, a levar a seu Bispo o estado singular de sua paróquia. Mons. Laurence apelou para a ação do tempo até que veio o momento oportuno de nomear solenemente uma comissão episcopal de sindicância, composta de dezesseis membros. Depois de longas e paciente investigações, foi a 18 de janeiro de 1862 que apareceu o mandamento do Sr. Bispo de Tarbes dando julgamento sobre a aparição que se realizou em Lourdes.

“Nós julgamos que a Imaculada Maria realmente apareceu a Bernadete Soubirous a 11 de fevereiro de 1858 e dias seguintes, em número de 18 vezes na Gruta de Massabielle, perto da cidade de Lourdes; que esta aparição reveste todos os caracteres da verdade e que os fiéis têm motivos fundados para crê-la certa. Submetemos humildemente o nosso juízo ao juízo do Soberano Pontífice, que é encarregado de governar a Igreja Universal”. Os Sumos Pontífices, não se tratando de fé e de moral, não intervieram para confirmar o sentido diocesano. Mas pelas suas palavras, pelo seu exemplo, pela sua devoção, têm dado a equivalência desta aprovação pública.

Pio X, gloriosamente reinante, não estabeleceu como festa litúrgica da Igreja Universal a 11 de fevereiro, a Festa da Aparição da Imaculada?

Meus senhores, não há que duvidar, a realidade das aparições de Lourdes é um fato de solidíssimas bases históricas e a Virgem de Massabielle o continua a demonstrar com o argumento fulgurante dos seus milagres.

A crítica científica exige que nos tempos presentes fatos e fenômenos para construir os alicerces de suas verdades. Pois bem, Lourdes, se satisfaz plenamente. O projecionista vai fazer desfilar diante de vós, como numa procissão de dor e ao mesmo tempo de ventura, diversos mártires do sofrimento curados pela Virgem de Lourdes.

Eu quisera ter tempo de analisar e criticar cada um destes milagres para fazer ressaltar a intervenção do divino, do sobrenatural.

Mas ainda assim a sua simples exposição é impressionante e vale um argumento.

 

YVONNE AUMAITRE

É uma interessante criança de 23 meses. Tinha os dois pés aleijados. Seu pai que era médico mergulhou-a na piscina e, ao retirá-la, abraçou-a curada e sã.

 

VION DURY

É um velho soldado. Num incêndio as chamas lhe queimaram os olhos. Verificava-se um duplo descolamento da retina. Fez uma novena no Hospital de Anfort à Virgem de Lourdes.

Repentinamente sentiu uma grande dor. Maria restituiu a vista ao cego.

A sociedade francesa de oftalmologia proclamou que era um caso sem precedentes.

 

CONSTANCE PIQUET

Foi declarada incurável, afetada dum cancro horrível que a devorava há três anos, é miraculada em Lourdes pela divina e celeste “consoladora dos aflitos”. Dois minutos após a imersão, o cancro havia desaparecido.

Cura instantânea, verificada uma hora mais tarde por 15 a 20 médicos, inclusive o Dr. Regnauld, da Escola de Medicina de Reims.

 

VIUVA PECANTET

Atacada de lúpus é igualmente beneficiada pela misericordiosa Virgem de Massabielle.

 

CATHERINE LAPEYRE

Devorada por um cancro na língua, arrastada pela fama dos prodígios daquela que é a Mãe de Misericórdia e nossa esperança, teve um olhar de súplica para Maria que, bondosa e terna, lhe restituiu a saúde.

 

GABRIEL GARGAN

Para descrever este milagre de um grande valor apologético por causa da excepcional circunstancia em que se realizou, eu apelo para a pena brilhante do poeta, convertido acima citado: — “E que dizer daqueles que não possuíam a fé e que se vangloriavam de sua incredulidade e que vieram apenas a Lourdes a instância duma família crente ou para adoçarem o pesar duma mãe piedosa? ”

Estou perdido, dizem eles, pouco importa o que fizerem de mim. Foi o caso de Gargan. Sua história tem sido muitas vezes contada.... Recordo somente que, depois de um acidente da linha de ferro, Gargan, acometido de um traumatismo da medula espinhal, viu-se inteiramente paralisado. De mais, seu estômago apenas suportava quantidade ínfima de alimento; não dormia e sofria dores intoleráveis. Enfim, à sua chegada a Lourdes, a gangrena havia invadido os seus membros inferiores.

Resistiu por muito tempo as súplicas de sua mãe, que, vendo-o condenado pelos médicos, só esperava na Santa Virgem. Ele cedeu apenas para ter paz. Durante a viagem, recusou a orar e pouco antes de entrar na estação, como sua mãe lhe pedisse para levantar os olhos para o crucifixo que culmina a montanha chamada do Calvário, ele desviou a cabeça aborrecido.

Era um incrédulo total! A vinte de agosto de 1901, levaram-no numa padiola à esplanada para receber a benção do Santíssimo Sacramento. Tinha perdido os sentidos. Sua face apresentava uma coloração azul; seu corpo estava gelado. Parecia tão perto da morte que os assistentes estiveram a ponto de reconduzi-lo ao hospital para que a vista deste cadáver não atemorizasse os outros doentes. Não, deixai-o gritou a pessoa que o acompanhava, se ele morrer cobrir-lhe-ei a face e após a benção o levaremos.

O Santíssimo Sacramento passou no meio de cânticos e invocações. Apenas o sinal sagrado foi traçado sobre a cabeça de Gargan, este levanta-se, salta da padiola, dá alguns passos, gritando: — “Santa Mãe de Deus, eu vo-lo agradeço”. Estava curado.

Meus senhores, que há na terra de mais sublime? Que há de mais maravilhoso do que a Benção da Imaculada salvando a vida aos próprios incrédulos de um modo tão espantoso? Lourdes confunde a impiedade e Lourdes a salva.

Dupla cura: do corpo e do coração. Em Lourdes, agradecido, Gabriel Gargan, vai fazer todos os anos o serviço de carregar as padiolas e banhar os doentes na piscina!

 

CAROLINE ESSERTEAU

Era doente da medula espinhal. A cabeça, as pernas não podiam virar-se em todas as direções.

Foi declarada incurável. Mas a Virgem de Lourdes encontrou na sua divina terapêutica o remédio para os seus males.

 

CLEMENTINA TROUVÉ

Tinha uma doença dos ossos da cabeça. O seu lugar de moradia era protestante.

Curada, instantaneamente ao primeiro banho da piscina, ela foi na terra objeto de discussões. O médico que a examinou antes da partida não pode deixar de exclamar: fosse o bom Deus ou o diabo, a menina está curada.

 

MARIE LEBRANCHU

Tuberculose no 3° grau. Era um esqueleto vivo, diz Bertin; a tosse a sacudia de um modo deplorável. Ao sair da primeira imersão, escrevem os médicos de Lourdes, Marie Lebranchu experimenta um bem-estar instantâneo. Examinamo-la com cuidado no gabinete dos médicos. Não encontramos nem estertores, nem sopros, nem palidez. O Presidente do Bureau ajunta: — Não restava nem o menor traço de lesão no pulmão.

 

MARIE LEMARCHANEL

A sua cura pertence à classe das curas instantâneas. Eis o que diz uma testemunha ocular, o Dr. Homtres: “Lembro-me muito bem de ter visto Marie Lemarchanel diante das piscinas esperando a sua vez de tomar banho.

Seu aspecto, particularmente repugnante, tocou-me. As duas faces, a parte inferior do nariz, o lábio superior, estavam cobertos de uma úlcera inferior do nariz, o lábio superior, estavam cobertos de uma úlcera de natureza tuberculosa, e segregando um pus muito abundante. Os panos que cobriam esta face estavam cobertos de pus. Ao sair da piscina, eu dirigi-me imediatamente ao hospital, para junto dessa mulher.

Reconheci-a muito bem, ainda que o seu aspecto estivesse inteiramente mudado. Em lugar da repugnante chaga que eu acabava de ver, achei uma superfície, ainda vermelha, na verdade, mas seca e como recoberta de uma epiderme de nova formação. Os panos que tinham servido para prensar a chaga, antes de sua entrada na piscina estavam ao lado dela todos manchados de pus”. E o médico, atestando a cura de igual chaga na perna da doente, termina vivamente impressionado por uma tão súbita mudança, produzida por uma simples imersão na água fria, numa afecção, como o lupus, tão rebelde a toda espécie de medicamentos.

São estes últimos doentes as três personagens do célebre romance de Émile Zola, o blasfemador das obras de Maria.

Mas... adiante, meus amigos, não nos envenenemos na atmosfera deletéria de Émile Zola.

 

PIERRE DE RUDDER

A perna deste homem foi arrebentada por uma árvore. A cura deste miraculado ficou célebre. Os ossos quebrados, saíam das suas chagas que foram examinadas pelos médicos. Foi curado no santuário de Nossa Senhora de Lourdes, em Oostakker, na Bélgica. A sua cura foi instantânea. Os ossos fragmentados se soldaram, fechando-se a chaga. Depois da morte de Rudder, exumaram o seu cadáver e todo o mundo verificou a soldadura.

Que mais para o milagre?

Senhores, em Lourdes a intervenção do sobrenatural é uma evidência. Só os espíritos orgulhosos, pseudocientíficos, de parti pris, num apriorismo lamentável de incredulidade, ousam negá-lo.

As curas operadas pela Virgem de Lourdes, se operam na Gruta, na passagem do Santíssimo, nos trens e mesmo fora de Lourdes. Recebem o favor do céu crentes e incrédulos.

Apelaram para a sugestão e os apologistas católicos poderão responder com o Dr. Beruhens no seu livro “De la suggestion et de ses aplications á la therapeutique”. Muitas vezes opera maravilhas, mas não milagres. Não há remédio que possa restaurar o que foi destruído. A sugestão nunca poderá restabelecer uma função cujo órgão indispensável já não existe”. Apelaram para as virtudes terapêuticas da água de Lourdes, e a análise química não encontrou na fonte milagrosa qualidades curativas. Excelente água potável simplesmente. Charcot comparou os doentes de Lourdes aos seus internados de la Salpêtrière. Mas, oh! Que diferença! A placidez, a piedade, a resignação dos enfermos de Lourdes, estão em oposição com os fenômenos de alucinação e histeria dos doentes daquele hospício. Batidos, em todos os pontos, os inimigos refugiam-se nos redutos do agnosticismo. É a força desconhecida. A força desconhecida, meus senhores, é Deus, é Maria. Terminemos com as notáveis palavras do Dr. Varguez, inspetor das águas de Baséges, professor da Faculdade do Montpellier. Há aí certamente uma força contingente superior às que foram dadas à natureza, estranha à água de que ela se serve para a manifestação do seu poder. Se me perguntarem o que eu vi em Lourdes, disse o eminente professor, antes de morrer, eu posso responder: “Pelo exame dos fatos mais autênticos, colocados acima do poder da ciência e da arte, eu vi, eu toquei a obra divina, o milagre”

Meus senhores, Lourdes é o sobrenatural revelado em pleno século materialista e irreligioso.

Mas se existe o sobrenatural na Gruta de Massabielle, divina é a Fé que ilumina Lourdes, divina é a Igreja Católica em cujo seio Lourdes esplende como radiante estrela. Divino são os preceitos desta religião de maravilhas e, como tais, impõem à consciência na conduta moral dos indivíduos, das famílias e da sociedade.

Quando a impiedade ousou gritar: — Deve-se fechar Lourdes! 2.500 médicos uns em nome da religião, outros em nome da humanidade, diversos em nome da medicina, refutando as ridículas objeções, responderam: — Não!

Em Dr. Vicent se podem ler as suas abalizadas e doutas respostas.

Senhores, sob as abóbadas da basílica mariana continuam os cânticos da gratidão mundial. Das suas colunas tremulam, como homenagem dos povos, os pavilhões das nações de Maria, e ali, eu vejo ondular a bandeira de minha pátria, carregada, dos troféus de sua grandeza, como o símbolo auriverde do coração do Brasil, a terra da Imaculada. O mundo inteiro canta aos pés de Maria: Salve, ó Virgem Coroada, Salve! Doce visão de paz e de ternura inigualável a se destacar imaculada e branca, destes nimbos misteriosos, tu resumes o ideal da Beleza, da Verdade e do Amor. O Bardo dos cânticos já tinha cantado: — Pomba minha, mostra a tua face nas aberturas da rocha. Senhora, enquanto a harpa humana tiver uma corda, ela vibrará em tua honra, enquanto o coração dos teus filhos tiver uma fibra, ela soluçará o hino de sua gratidão, e o eco do seu gemido irá se juntar a esse Ave, Ave, Maria, que reboa, há mais de 50 anos pelas ilhargas das montanhas de Massabielle.

 

Dom José Pereira Alves - Discursos e Conferências, Imprensa Nacional 1948.

A Cultura e Hamlet

Niilismo e crença na peça Hamlet, de Shakespeare

 

O prof. David Allen White, como insistia nas suas aulas e conferências, apontou que as ideias inscritas em Hamlet, de Shakespeare, foram o começo do mundo moderno. A peça, escrita por volta de 1600, dramatiza o conflito entre a rica cultura católica da Idade Média e o ascendente individualismo dos inícios da idade moderna, uma das mais profundas mudanças de paradigma da civilização ocidental, e cujos efeitos persistem até os nossos tempos pós-modernos. Uma imagem útil dessa mudança vem do filósofo Eric Voegelin, que percebeu que o homem moderno deixou de considerar-se um elo na cadeia hierárquica que se origina em Deus e passou a ser ele mesmo o centro do universo e de todo o significado – uma visão “macroantrópica”, nos termos de Voegelin. Um fato notável é a ressurreição, por obra dos humanistas da Renascença, da frase de Protágoras: “O homem é a medida de todas as coisas”. Um dos eixos da ação de Hamlet é a dúvida que corrói as velhas certezas e que permite que o príncipe das vestes negras procure de per si o significado das coisas e confie no seu raciocínio e na sua melancolia a fim de atuar no podre reino da Dinamarca. Embora a tragédia se encerre com múltiplas mortes, Shakespeare durante o curso da trama dá uma resposta e uma solução às dúvidas de Hamlet, com um resultado angustiante; essa resposta estabelece as bases para uma restauração da tradição perene, e dá uma das maiores contribuições a ela.

 

As dúvidas corrosivas de Hamlet

Um breve porém significante momento no Ato 2, Cena 2 da peça identifica o problema central desse primevo homem moderno. Na tentativa de explicar o comportamento estranho de Hamlet, o conselheiro da corte Polônio lê para o rei e a rainha uma carta de amor que Hamlet enviara à sua filha Ofélia. Escrita num tempo anterior à narrativa, enquanto ainda estudava na Universidade de Wittenberg – célebre por ser o lugar onde Lutero produzira as 95 teses e como que o nascedouro do Protestantismo – a carta de Hamlet expressa as dúvidas corrosivas que envolviam o início da cultura moderna:

 

          Duvides [isto é, suspeites] que a estrela é ardente,

          Divides que o astro-rei irá se pôr,

          Duvides [isto é, suspeites] que a verdade sempre mente,

          Mas não duvides tu do meu amor.

 

Ó querida Ofélia, enojam-me esses números [isto é, versos]. Falta-me a arte de expressar os meus gemidos. Mas amo-te bem mais que a eles. Oh, muito mais, acredites. Adeus.

          Sempre mais teu, caríssima senhora,

          Enquanto nele durar esta máquina,

          Hamlet.

 

É interessante que os dois primeiros versos do poema envolvem dúvidas sobre a visão tradicional do universo: pensar que as estrelas são ardentes significa que elas não são feitas de matéria celestial como se pensava; duvidar do movimento do sol indica a crença no movimento heliocêntrico em oposição ao modelo geocêntrico de Ptolomeu. Mais importante ainda é como esse modo de ver as coisas se universaliza no terceiro verso: Ofélia deve suspeitar que a mesma verdade é falsa. O jovem desnorteado só pode ter certeza duma coisa: do seu íntimo sentimento pessoal de amor por Ofélia. O ácido corrosivo da dúvida dissolveu tudo exceto a emoção, e o lance subsequente mostra que os sentimentos, ainda que se expressem de forma apaixonada, podem mudar. Ataques de melancolia – Hamlet é o que hoje em dia chamaríamos de depressivo diagnosticado – misturam-se com a incerteza e a angústia, quiçá também a loucura oprima o príncipe; ele despenca no abismo do niilismo, ao rejeitar quase tudo e quase todos ao seu redor, inclusive Ofélia na terrível cena logo após o famoso discurso “Ser, ou não ser”.

Depois de quatro atos de confusão, angústia, e até assassinato, o ato final começa no local para onde se inclina a peça inteira: no cemitério. A Cena 5, Ato 1 é o passo mais importante do drama moderno; ele não apenas recapitula o tema do niilismo mas também dá uma resposta a ele. Já de volta à Dinamarca, após sobreviver providencialmente a uma tentativa de assassinato, Hamlet, com o seu amigo Horácio, aproximam-se de dois homens cavando uma cova. Uma vez que por falta de espaço reutilizam-se as covas, o coveiro e o seu assistente estão empurrando vários ossos para o lado enquanto Hamlet prepara a cena. Começa o diálogo com um gracejo entre os coveiros e depois entre eles e Hamlet; a comédia recorda o homem da sua natureza humana e coloca-lhe os pés no chão, de molde que ela é relevantemente apropriada a uma cena cujo tema é o final de cada um dos homens. Os coveiros pedem a Hamlet que identifique um crânio em particular, mas porque a morte é uma grande niveladora Hamlet é incapaz de fazê-lo. Enfim, diz o coveiro que o crânio pertencia ao antigo bobo da corte, Yorick. O que se segue é um dos mais icônicos momentos da história do drama: Hamlet segura o crânio dum comediante, “um tipo de graça infinita e de incomparável fantasia”, que outrora produzira “gracejos que faziam os convivas cair na gargalhada”. Nada disso importa, contudo, pois tudo se encaminha à dissolução, retorna ao pó. Hamlet pede ao crânio que se dirija ao “quarto da minha dama e diga-lhe” que ainda que ela emboce o rosto com uma polegada de maquiagem, ao cabo também ela transformar-se-á numa caveira. No abismo niilístico de Hamlet, não existe significado real: Yorick, uma bela dama, Alexandre o Grande, “o imperioso César, morto e tornado em lama”, tudo se transfigura em caveiras fétidas a apodrecerem na terra. Imediatamente após esses momentos, que antecipam o drama ateísta do século XX, chega a procissão fúnebre de Ofélia: enquanto Hamlet estava fora, a virtuosa moça enlouquece e afoga-se. Imagens da beleza pousam no cemitério niilístico: “a carne bela e impoluta” de Ofélia e as violetas são símbolos da castidade e da fidelidade. Hamlet, espantado, apresenta-se e faz um anúncio decisivo:

 

          Este sou eu,

          Hamlet o Danês,

          Amei Ofélia. Nem quarenta mil irmãos,

          Some-se embora todo o seu amor,

          Seriam páreos ao meu.

         

 

Amor, e não falta de sentido

No abismo do túmulo, quando lhe morrera alguém próximo, Hamlet não encontra a falta de sentido, mas a força mais poderosa do universo: o amor. Com a reafirmação do sentido, pode Hamlet novamente ser uma pessoa completa – por isso, ao dar o passo à frente, diz o seu nome e apresenta o seu título real – mas na tragédia é significativo que tal fato ocorra apenas após a morte de Ofélia. Nas palavras de Charles Boyer, apenas depois de ser ela destruída durante um lance trágico o herói consegue perceber “o que se perdeu em razão da sua visão equivocada do mundo”. Com a proximidade da sua própria morte, na cena seguinte, a última da peça, Hamlet expressa de contínuo a sua crença na velha ordem. Diz ele a Horácio que “Há uma divindade que ao fim nosso molda / Mui distinto do que ansiamos”, que “Na queda dum pardal / Especial providência existe”, numa resposta clara à mais célebre fala da peça, “A prontidão é tudo… deixa estar”. Eis o conhecimento adquirido pela dor, que é um dos distintivos da tragédia.

Em The Death of Christian Culture [A Morte da Cultura Cristã], John Senior escreve que “a literatura é o boi de carroça da cultura, e a sua besta de carga”. Na literatura, as ideias e os valores da cultura se transmitem indiretamente enquanto o leitor vivencia a história ao lado das personagens. O conflito de Hamlet se torna o nosso conflito, assim como é nossa a peregrinação de Dante e nossa a viagem de Ulisses. Nesse sentido os grandes autores não são apenas “as breves crônicas abstratas do nosso tempo” mas os arquitetos da mesma civilização. Citando novamente Senior:

“A cultura, como em ‘agricultura’, é o cultivo da alma a partir do qual o homem cresce. Para que se estabeleçam os métodos adequados, devemos ter ideias claras acerca da colheita. ‘Que é o homem?’, pergunta o Catecismo de Um Vintém [The Penny Catechism], que responde: ‘Uma criatura feita à imagem e semelhança de Deus, para conhecê-Lo, amá-Lo e servi-Lo’. A cultura, portanto, tem claramente essa simples finalidade, a despeito da complexidade e a dificuldade dos meios.”

Por isso, a cultura sempre repetirá as mesmas verdades sob distintas expressões no decorrer do tempo, pois sempre haverá a necessidade de relembrar os homens daquilo que já conhecem mas esqueceram, e daquilo que amam, para que esse amor seja novamente acalentado.

 

(The Angelus - tradução: Permanência)

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