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Pe. Hervé de la Tour, FSSPX
Os momentos mais marcantes da nossa viagem de junho para Winona, à parte as ordenações, foram as reuniões noturnas ao redor das fogueiras no acampamento. As famílias se reuniram para cantar e tocar canções. Os jovens gostam das antigas baladas, que se tornaram clássicos, pois perduraram por gerações, tendo incorporado sentimentos pátrios, familiares e religiosos. Estas canções são parte de nossa cultura: músicas irlandesas e escocesas, cantos da Guerra Civil, canções caipiras, etc. Um dos livros musicais utilizados nos saraus traz o seguinte prefácio:
“’Só o amante canta’. Quão profundas são estas palavras de Santo Agostinho! Porque a canção é o casamento entre a poesia e a música e, como em qualquer casamento, tem por motivo o amor. Quer se cante a Deus, ao amado, ou até à pátria, canta-se por amor. O canto às vezes manifesta alegria, às vezes tristeza, mas sempre é uma manifestação de amor. Quem canta vai além do comum, pois deseja expressar algo que não se poderia expressar de outro modo. Assim como o pintor não só desenha alguma coisa, mas a pinta, o cantor não só diz algo, mas o canta.”
“Só o amante canta. Eis a razão por que o canto é tão natural para o católico. A vida católica é uma vida de amor, porque é uma vida de sacrifício. Daí todas as culturas da Europa Católica possuírem (além do sublime canto litúrgico) sua própria música folclórica, com belas canções e danças. Hoje, porém, não mais se canta. À medida que a cultura se torna cada vez menos católica, a verdade descamba e, juntamente com ela, a excelência, a beleza e, é claro, a caridade. Quando o homem se esquece de Deus, só lembra-se de si mesmo. Um homem egoísta não sabe amar, portanto, não é capaz de cantar.”
Henri Charlier foi um dos pensadores católicos proeminentes do século XX. Seus escritos sobre educação assemelham-se muito aos de John Senior. Ambos empenharam-se na restauração da cultura católica. A educação, de fato, foi um dos campos mais prejudicados neste século. Charlier diz o seguinte: “Existem dois tesouros para a educação infantil: as canções folclóricas e o canto gregoriano. Estas duas fontes representam os princípios básicos da tradição musical da humanidade”.
”O canto gregoriano é, sob certos aspectos, uma introdução mais fácil à música, porque nele as notas não têm a mesma proporção. Além do mais, ele nos introduz ao canto dos salmos do Ofício Divino e a uma cultura profunda, acessível a qualquer um através do missal e do breviário. O canto gregoriano, portanto, é o elo natural entre a música e aquilo que um homem fará de mais importante em sua vida”.
“A música folclórica, por sua vez, mantém o homem numa tradição humana, familiar e nacional. É a base e o fundamento do canto gregoriano.”
Como exemplo do que se perdeu e precisa ser restaurado, permitam-me citar A história de uma família, a biografia do Sr. e da Sra. Martin, os pais de Santa Teresinha do Menino Jesus. Ao descrever o Sr. Martin, que foi beatificado pela Igreja, o autor, Pe. Piat, diz:
“Gostava de recitar boa poesia (...) transmitiu a Maria e Teresa grande talento para a imitação. Ele sabia imitar entonações e palavras do dialeto auvernês, cantos de pássaros, tambores e toques de clarim de modo tão preciso, com um ritmo e uma expressividade tão grandes, que se tinha a impressão de estar ouvindo os sons genuínos. Acima de tudo, nutria um verdadeiro culto pelas antigas canções folclóricas e conhecia um vasto repertório delas.”
A mais pura forma de beleza
Todos necessitam de música, não importa a idade. Mas essa necessidade aparece com mais veemência na juventude. As crianças talvez não gostem de uma caminhada longa e cansativa, mas irão correr e dançar o dia inteiro sem reclamar. Em verdade, a dança deve-se unir à música, e não separar-se dela. Em nossas paróquias, como a de St. Marys ou Post Falls, as crianças aprendem as tradicionais danças folclóricas (irlandesas, mexicanas, polonesas, etc.).
Eis um conselho sobre a importância de fazer da boa música parte da vida doméstica para as crianças. Retirei-o dos escritos de Myrtle Douglas Keener, renomado educador:
“A educação moderna conduz a criança para longe das coisas ideais e destrói o desejo natural pela beleza. Eliminar a beleza da educação é destruir sua própria alma. Devemos permitir que nossas crianças entrem na vida adulta sem consideração para com a beleza, tendo perdido a verdadeira inclinação para alcançar o que há de mais profundo na natureza?”
“O canto põe a criança em contato com a forma mais pura de beleza e satisfaz seu anseio natural por melodia e ritmo. Mas, a fim de preservar esse anseio, os pais devem começar o trabalho em casa e não adiar o ensino desse importantíssimo elemento à educação infantil para a escola e para uma idade em que tais desejos inatos se enfraquecem ou se perdem.”
“Como se deve conduzir este entusiasmante trabalho com nossas crianças? O primeiro passo é cantar-lhes belas canções.”
A rainha Isabela de Castela aplicou tais princípios na educação de seus filhos. Eis uma passagem da sua biografia escrita por William Thomas Walsh:
“Gostava de ter cavaleiros que fossem bons músicos. Garcilaso de la Veja, cavaleiro que matou o gigante Yarfe ante os muros de Granada e que depois foi enviado como embaixador a Roma, era excelente harpista. Francisco Penalosa, outro espanhol, foi um dos músicos mais brilhantes do coro papal em que Palestrina, meio século depois, estabeleceria as fundações da música moderna. Isabel quase não viajava sem músicos ao seu redor. Em sua capela havia mais de quarenta cantores treinados, além de organistas e tocadores de clavecino, alaúde, viola bastarda, flauta e outros instrumentos. Ela levava os músicos para o acampamento quando ia guerrear.”
Certa vez se disse: “Tenho pena dos americanos, pois não têm luz, não têm música em suas vidas.” Cabe a nós restaurar a tradição dos cantos folclóricos! Pode-se começar como melodias simples no estilo Mother Goose (Mamãe Gansa) e terminar em canções mais elaboradas. Eis o conselho dado aos pais por Maria Von Trapp:
“Logo que nascer o bebê, a mãe deve cantar para ele. Existem inúmeras canções de ninar, cantigas infantis e pequenas orações que podem ser encontradas em livros musicais. Os pais ficarão impressionados com a rapidez com que os pequenos irão cantarolar uma melodia. Isso conduzirá naturalmente a canto em partes, com a mãe cantando a segunda parte e o pai, a terceira. Cantar é algo natural. Se se pudesse apenas curar aquela horrível fobia com que tanto nos deparamos: ’não posso cantar, não tenho piano em casa!’”.
O mais belo instrumento
“O mais belo instrumento é a voz humana, que Deus deu a todos.”
“Tenho anos de experiência aqui nos Estados Unidos e sei como todos se divertem ao cantar em ‘camadas’. Eis um bom método para consegui-lo: começa-se cantando a melodia em uníssono. Quando todos souberem a melodia suficientemente bem para cantá-la sozinhos, divide-se o canto em duas partes; e mais a frente, em três ou quatro. Logo veremos as pessoas cantarem essas diferentes ‘camadas’ em qualquer lugar em que estejam reunidas, quer estejam sentadas numa mesma sala ou então limpando um jardim. Cantar em ‘camadas’ é a maneira mais natural e fácil de educar o ouvido para cantar individualmente.”
Para concluir este artigo, trago uma citação do Pe. Schmidberger, da época em que foi Superior Geral da FSSPX:
“Neste país [Estados Unidos], é muito importante que não tenhamos apenas o ensino técnico e o de ciências naturais, mas que tenhamos especialmente empenho musical, uma atmosfera musical. Além do estudo de línguas e história, a música é muito importante para a formação das almas cristãs. É parte da vida interior – num nível natural, sim, mas um passo que nos aproxima de Deus e que, portanto, contribui para a formação de verdadeiras personalidades cristãs.”
“Estejam certos de que a música é um passo importante para o renascimento da América, da América Católica. Em todo lugar em que vive a fé, encontram-se as artes: pintura, teatro, música, literatura, desenho. As artes são importantes para nossa vida espiritual – são sinais dela – e quanto mais intensa é a nossa fé, mais florescem as artes.”
“Que nossas famílias e escolas sejam lares em que reina a boa música, em que as crianças sejam encorajadas a cantar belas canções, em que a cultura cristã não seja esquecida, mas transmitida!”
Termino com as inspiradoras palavras do livro musical usado no seminário:
“Que nós, peregrinos neste vale de lágrimas, encontremo-nos sempre a seguir as palavras de São Paulo, ‘cantando e celebrando de todo o coração os louvores do Senhor’ (Ef 5, 19), até que todos nós entremos na eterna canção de louvor, na Festa de Núpcias do reino celeste.”
(Angelus Press, março/abril de 2012.)
Paramentos vermelhos
“O Dom da Sabedoria é a iluminação do Espírito Santo, mercê da qual a nossa inteligência contempla as verdades da fé a uma luz deslumbrante e experimenta nela indizível prazer” (Pe. Meschler).
Lançara Jesus os fundamentos da Igreja e enriquecera-a com os seus poderes. Faltava ainda o Espírito Santo para acabar a formação dos apóstolos. “O Espírito Santo virá sobre vós. Deixai-vos ficar, pois, na cidade até receberdes a força do Alto”. A festa de hoje é a festa comemorativa da expansão da Igreja no mundo e foi sem dúvida por este motivo que se escolheu para estação de hoje a Basílica de S. Pedro dedicada ao Príncipe dos Apóstolos.
Dissera o Mestre que o divino Paráclito viria e a Epístola mostra-nos o cumprimento da promessa. Era a hora de Tércia, por volta das nove horas, quando se fez de repente sentir um vento impetuoso que encheu toda a casa, e línguas de fogo desceram sobre os apóstolos. Iluminados por esta luz e a transbordar deste fogo sagrado os apóstolos sentem-se novos e vão realmente renovar a face da terra. Este dom maravilhoso consiste para cada um de nós na plenitude da graça que recebemos no batismo e que se vai progressivamente desenvolvendo e ampliando até a maturação perfeita do céu. Para os apóstolos era isto mesmo com mais o dever, de que em parte não podemos também prescindir sem trair ainda que veladamente a nossa dignidade e a nossa vocação, de a transmitir a todos os homens. Remissão dos pecados, justificação, redenção, filiação divina, caridade cristã, comunhão dos santos, tudo isto, que constitui a riqueza e a vida da Igreja, nos foi e continuará a ser dado pelos sucessores dos apóstolos.
O Pentecostes neste sentido não é apenas a data comemorativa dum acontecimento passado, mas uma realidade presente, sempre viva no seio da Igreja e em nós. “Vinde Espírito Santo, enchei o coração dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor”: é a prece suplicante da Igreja ao Aleluia da missa. Façamo-la nossa e o Espírito Santo virá sobre nós.
Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.
“O Consolador que vos enviarei da parte do Pai, é o Espírito de verdade que procede do Pai” Evangelho.
Paramentos brancos
Este domingo prepara-nos para a festa de Pentecostes. Antes de subir ao céu, o Senhor prometera aos apóstolos que os não deixaria sós, mas lhes enviaria o Espírito consolador que os havia de acompanhar em todas as dificuldades e contingências até a consumação dos tempos. E os evangelhos dos domingos seguintes recordam-nos todos esta promessa do Senhor, como para recolher o sentido profundo da missão do Paráclito. Lembremo-nos no entanto, em conformidade com a doutrina exposta noutro lugar, que é sempre o espírito de Jesus que fecunda e governa a Igreja, que nos santifica e introduz pela graça no seio vivo e vivificante das três Pessoas divinas. Preparemo-nos, pois, para a festa integrando-nos no sentimento de Fé e de Esperança que animava os apóstolos reunidos no cenáculo e peçamos ao Senhor que assegure à Santa Igreja a presença e a ação renovadora do seu Espírito, que a santifica e a vivifica.
Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.
Supondo que a corrente, boa ou má, que aplaude ou condena uma coisa, deve constituir, para o católico simples, um critério comum e familiar de verdade, para viver ao menos com cautela e prevenido; e supondo que os jornais costumam ser o meio em que mais e melhor transparece esta corrente, e aos quais, portanto, se torna necessário recorrer em mais de uma ocasião, pode perguntar-se aqui: Quais devem ser, para o católico de hoje, os jornais que lhe inspirem verdadeira confiança? Ou melhor: Quais devem inspirar-lhe pouquíssima, e quais nenhuma?
Primeiramente, é claro (per se patet) que os jornais que se honram (ou melhor, se desonram) chamando a si mesmos liberais e considerando-se como tais, não devem nos inspirar nenhuma confiança. Como nos fiar a eles, se são precisamente os inimigos contra quem temos de prevenir-nos a toda hora e a quem temos de hostilizar constantemente? Este ponto está portanto fora de toda discussão. O que hoje se chama liberal, certamente o é; e por conseguinte é nosso formal inimigo e da Igreja de Deus. Não se deve, pois, levar em consideração suas recomendações ou aprovação, a menos que o façamos para olhar como suspeito tudo que acerca de religião ele recomende ou aprove.
Há uma classe de jornais, contudo, não tão descarada e pronunciada, que gosta de viver na ambigüidade de cores indefinidas e tintas indecisas. A toda hora ela se proclama católica, e por vezes detesta e abomina o liberalismo, ao menos como palavra. É comumente conhecida pelo nome de católico-liberal. Desta é preciso confiar menos ainda, e não se deixar ludibriar com seus fingimentos e pietismo. É certo que, apurado o caso, predominará nela a tendência liberal sobre a católica, ainda que entre ambas se proponha uma convivência fraterna. Assim se viu sempre e assim deve logicamente suceder.
A corrente liberal é mais fácil de seguir, em prosélitos é a mais numerosa, e ao amor-próprio a mais simpática. A corrente católica é mais áspera na aparência, tem menos seguidores e amigos, exige que se navegue sempre contra o impulso natural e corrompido das idéias e paixões. Em um coração ambíguo e vacilante, como o dos liberais, é portanto normal que esta corrente católica sucumba e que a corrente liberal prevaleça. Não se deve, pois, confiar nos casos difícies da imprensa católico-liberal. Mais ainda, esta apresenta o inconveniente de que seus juízos não nos servem, bem como os da imprensa liberal, para formularmos a prova contraditória, pela simples razão de que seu juízo não é absoluto e radical em nada, mas sim regularmente oportunista.
A imprensa boa é a imprensa integralmente boa, ou seja, a que defende o bem em seus princípios bons e em suas aplicações boas; a mais oposta a todo mal reconhecidamente mal, opposita per diametrum, como diz Santo Inácio, no livro de ouro de seus Exercícios; a que está do lado oposto das fronteiras do erro; a que olha sempre o inimigo de frente; e não a que por vezes anda em suas filas, ou apenas se opõe a certas evoluções suas; a que é inimiga do mal em tudo, porque é no todo que o mau é mau, ainda que, casualmente, possa trazer consigo algum bem.
Vamos fazer uma observação para explicar esta nossa última frase, que a muitos parecerá atrevida.
Os jornais maus costumam às vezes ter algo de bom. Que se deve pensar deste bem que por vezes os jornais maus trazem consigo? Deve-se pensar que não deixam de ser maus, porque é má a sua natureza intrínseca ou doutrina. Antes, este bem pode e costuma ser um artifício satânico para que se recomende o jornal, ou pelo menos para dissimular o mal essencial que ele traz consigo. Algumas qualidades acidentalmente boas não retiram de um ser mau sua natureza má. Um assassino ou um ladrão não são bons porque recitam às vezes uma Ave Maria ou dão esmola a um pobre. São maus, malgrado suas obras boas, porque o conjunto essencial dos seus atos é mau, assim como suas tendências habituais. E se se servem do bem que fazem para mais autorizar a sua maldade, resulta que, mesmo o que em si seria ordinariamente bom, torna-se mau pelo fim a que se propõe.
Ao contrário, sucede algumas vezes que jornais bons caem em tal ou qual erro de doutrina, ou em algum excesso de paixão, e fazem efetivamente algo que não se pode aprovar. Devem por isso ser chamados de maus? Devem ser reprovados? Não, por uma razão inversa, ainda que análoga. O mal neles é acidental, e o bem é substancial e ordinário. Um pecado ou alguns não fazem mau a um homem, sobretudo se protesta contra eles pelo arrependimento e pela emenda. Só é mau quem o é em plena consciência de causa, habitualmente, e protesta querer sê-lo. Os jornalistas católicos não são anjos, mas homens frágeis, miseráveis, e pecadores. Querer, pois, condená-los por um ou outro erro, uma ou outra indiscrição ou excesso, é fazer do bom e do virtuoso um conceito farisaico e jansenista, em desacordo com todos os princípios da sã moral. Se se deve julgar desta maneira, que instituição haverá boa e digna de estima na Igreja de Deus?
Em resumo: há jornais bons e jornais maus; dentre estes últimos devem incluir-se os ambíguos ou indefinidos. O que é mau não se torna bom por ter algumas coisas boas, e o que é bom não se torna mau por causa de alguns defeitos e mesmo de alguns pecados em que incorra. Se o bom católico julgar e decidir lealmente com base nestes princípios, raramente se equivocará.
Vejamos agora outra coisa, a propósito da última palavra do capítulo anterior. A obscuridade é o grande auxiliar da iniquidade. Qui male agit odit lucem, disse o Senhor. Daí o empenho constante da heresia em envolver-se entre névoas. Não há grande dificuldade em descobrir o inimigo que se apresenta de viseira levantada, ou em reconhecer como liberais os que, desde o princípio declaram que o são. Mas esta franqueza não convém ordinariamente à seita. Assim, pois, é preciso adivinhar o inimigo por trás do disfarce; e este muitas vezes é hábil e extremamante cauteloso. Acrescentemos, além disso, que na maioria das vezes o olho que terá de reconhecê-lo não é um olho de lince; torna-se necessário, portanto, um critério fácil, simples, popular para distinguir a cada momento o que é obra católica e o que é infernal armadilha do liberalismo.
Sucede freqüentemente que, no anúncio de um novo projeto, uma nova empresa, uma nova instituição, o fiel católico não consegue distinguir prontamente a que tendências obedece aquele movimento; e se por conseguinte convém a ele associar-se ou opor-se com todas as forças. Isto ocorre sobretudo quando o inferno procura astuciosamente tomar alguma das cores mais atrativas de nossa bandeira, ou mesmo empregar, em certas ocasiões, nosso próprio idioma. Nestes casos, muitos infelizmente fazem o jogo de Satanás, persuadidos de boa-fé que contribuem com uma obra católica! Mas, dirão: “Cada um pode consultar a Igreja, cuja palavra infalível dissipa toda incerteza”. Muito bem, mas a autoridade da Igreja não se pode consultar a cada momento nem para cada caso particular. A Igreja costuma deixar sabiamente estabelecidos os princípios e as regras gerais de conduta; mas a aplicação deles aos mil e um casos concretos de cada dia, ela deixa ao critério prudencial de cada fiel. E os casos desta natureza apresentam-se todos os dias, e devem ser resolvidos instantaneamente, em plena marcha. O jornal que aparece, a associação que se estabelece, a festa pública a que se convida, a assinatura que se pede, tudo isto pode ser de Deus ou do diabo, e o que é pior, pode ser do diabo apresentando-se, como temos dito, com toda a gravidade mística e compostura das coisas de Deus. Como guiar-se, pois, em tais labirintos?
Eis duas regras, de caráter bem prático, que nos parecem dever servir a todo cristão, para que em terreno tão escorregadio possa pisar com segurança.
1° - Observar cuidadosamente que classe de pessoas promovem o assunto. É a primeira regra de prudência e senso comum. Funda-se naquela máxima do Salvador: Não pode uma árvore má dar bons frutos. É evidente que os liberais estão naturalmente inclinados a produzir escritos, obras e trabalhos liberais, lamentavelmente informados de espírito liberal, ou pelo menos contaminados dele. Vejam-se, pois, quais são os antecedentes daquela, ou daquelas pessoas que organizam ou promovem a obra em questão. Se são tais que não podeis confiar inteiramente em suas doutrinas, olhai com cautela todas as suas empresas. Não as reproveis imediatamente, pois há um axioma de teologia que diz que nem todas as obras dos infiéis são pecados, e o mesmo se pode dizer das obras dos liberais. Porém não as considereis imediatamente como boas. Desconfiai delas, sujeitai-as a um detido exame, aguardai os resultados.
2° - Examinar o tipo de pessoas que louvam a obra em questão. É regra ainda mais segura que a anterior. Há no mundo atual duas correntes públicas e perfeitamente distintas. A corrente católica e a corrente maçônica ou liberal. A primeira é produzida, ou melhor, é refletida nos jornais católicos. A segunda é refletida e materialmente produzida cada dia pelos jornais revolucionários. A primeira busca sua inspiração em Roma. A segunda é inspirada pela maçonaria.
Anuncia-se um livro? Publicam-se as bases de um projeto? Olhai se a corrente liberal o aprova e recomenda e o toma por sua. Se sim, o livro e o projeto estão julgados: são coisa sua, porque é evidente que o liberalismo, ou o diabo que o inspira, reconhece imediatamente o que lhes é prejudicial ou favorável, e não são tão néscios a ponto de ajudar os que lhes são contrários, ou de oporem-se aos que favorecem seus projetos. Os partidos e as seitas têm um instinto ou intuição particular (olfactus mentis, como disse um filósofo) que lhes revela a priori o que para eles é bom e o que é hostil. Desconfiai, pois, de tudo o que louvam e admiram os liberais. Se assim o fazem, é claro que reconheceram no objeto, ou origem, ou meios, ou fins favoráveis ao liberalismo. Não costuma equivocar-se nisto o claro instinto da seita. Mais fácil é que se equivoque um jornal católico, louvando e recomendando como boa uma coisa que em si talvez não o seja muito. Em verdade, mais confiamos no olfato de nossos inimigos do que no de nossos próprios irmãos. Ao homem bom, cegam-no às vezes certos escrúpulos de caridade e natural costume de pensar bem, a ponto de ver intenções boas onde, por desgraça, não existem. Não é assim com os maus. Estes desde logo disparam artilharia pesada contra quem não concorda com seu modo de pensar, e tocam, incansáveis, a trombeta de todos os reclames em favor do que, por um lado ou por outro, ajuda a sua maléfica propaganda. Desconfiai, pois, de tudo que vossos inimigos recomendam.
Retiramos de um jornal os seguintes versos, que poderiam ser melhores, mas não poderiam ser mais verdadeiros.
Dizem assim, falando do liberalismo:
Diz que sim? Pois é mentira.
Diz que não? Pois é verdade.
O que ele chama iniquidade
Tu como virtude o mira;
Ao que persegue com ira,
Tem tu por homem honrado;
Mas evita com cuidado
Quem ele por bom queira dar-te;
Fazendo assim da tua parte,
Já o terá estudado.
Parece-nos que estas duas regras de senso comum, que antes poderíamos chamar de bom senso cristão, bastam, se não para nos fazer julgar definitivamente toda a questão, ao menos para nos impedir de tropeçar facilmente nas escabrosidades deste tão acidentado terreno em que marchamos e lutamos hoje.
Não se esqueça o católico, sobretudo o de nosso século, que a terra em que pisa está minada de todos os lados pelas sociedades secretas, que são as que dão voz e tom à polêmica anti-católica, e às quais servem inconscientemente muitas vezes ainda os mesmos que mais detestam seu trabalho infernal. A luta de hoje é, principalmente, subterrânea e contra um inimigo invisível, que raras vezes se apresenta com sua verdadeira divisa. É preciso, pois, cheirá-lo, mais do que vê-lo. É preciso adivinhá-lo com o instinto, mais do que apontá-lo com o dedo. Bom olfato, pois, e senso prático são mais necessários que raciocínios sutis e laboriosas teorias. O binóculo que recomendamos a nossos amigos nunca nos induziu ao erro.
Indicaremos alguns.
1° - A organização de todos os bons católicos, quer sejam numerosos ou não. Em cada localidade, é preciso que se conheçam, se vejam, se reúnam. Não deve haver hoje uma cidade ou vila católica que não tenha o seu núcleo de homens de ação. Isto atrai os indecisos, encoraja os hesitantes, contrapesa a influência do que dirão, faz forte a cada um com a força de todos. Ainda que sejais apenas uma dezena de corações firmes, fundai uma academia de juventude católica, uma conferência ou ao menos uma confraria. Ponde-vos logo em contato com uma sociedade análoga do povo vizinho ou da capital. Apoiai-vos deste modo em toda fronteira, associações com associações; formando como que a famosa testudo que formavam os legionários romanos, juntando seus escudos, e isto vos tornará invencíveis. Assim unidos, por poucos que sejais, levantai ao alto a bandeira de uma doutrina sã, pura, intransigente, sem ambigüidades nem alteração, sem pacto nem aliança com o inimigo. A firme intransigência tem seu aspecto nobre, simpático e cavalheiresco. É belo ver um homem atingido como um penhasco por todas as ondas e todos os ventos, e que permanece fixo, imóvel, sem retroceder. Bom exemplo, sobretudo, bom exemplo constante! Pregai com toda a vossa conduta, e pregai em todas as partes com ela. Já vereis como vos será fácil, primeiro, impor respeito, logo admiração, depois simpatia. Não vos faltarão prosélitos. Oh, se todos os católicos sãos compreendessem o brilhante apostolado secular que desta maneira podem exercer em suas respectivas comunidades! Unidos ao pároco, aderindo como a hera ao muro paroquial, firmes como seu velho campanário, podem desafiar toda tempestade e fazer frente a toda borrasca.
2° - Os bons jornais. Escolhei, entre os bons jornais, o melhor e que mais se adapte às necessidades e inteligência dos que os rodeiam. Lede-o, mas não vos contenteis com isto. Dai-o a ler, explicai-o e contai-o, fazei dele vossa base de operações. Fazei-vos correspondentes da sua administração, cuidai das assinaturas e pedidos, facilitai esta operação, que é a mais custosa de todas, aos pobres operários e lavradores. Dai-o aos jovens que começam suas carreiras, proponde-o pelo belo de suas formas literárias, pelo seu estilo acadêmico, pela sua vivacidade e elegância. Começarão gostando do molho, e acabarão comendo o cozido. Assim trabalha a impiedade, e assim devemos nós trabalhar. Um bom jornal é uma necessidade neste século. Diga-se o que se quiser de seus defeitos, nunca igualarão suas suas vantagens e benefícios. Convém, ademais, favorecer a circulação de qualquer outro impresso de caráter análogo: o folheto oportuno, o discurso notável, a carta pastoral enérgica etc.
3° - A escola católica. Onde o mestre oficial for um bom católico e de confiança, seja ele apoiado com todas as forças; onde não for, procure-se falar claramente para desautorizá-lo. Um homem assim é a pior praga da localidade. É necessário que todo mundo conheça por diabo aquele que é diabo, a fim de que não se lhe entregue incautamente o principal, que é a educação. Sendo assim, busque-se um modo de colocar escola contra escola, bandeira contra bandeira. Se possível, entregai-a a religiosos; se não os há, ponha-se um leigo íntegro à frente desta boa obra. Que a escola seja gratuita, e que abra no horário mais conveniente para todos: de manhã, de tarde, de noite. Nos dias festivos, que se atraiam as crianças, presenteando-as e animando-as. E que se lhes diga claramente que a outra escola do professor mau é a escola de Satanás. Um célebre revolucionário, Dantón, gritava sem cessar: “Audácia! Audácia!” Nosso grito de sempre há de ser: “Franqueza! Franqueza! Luz! Luz!” Nada vale mais para afugentar esses corvos do inferno, que só podem seduzir com a obscuridade.
Além desses caminhos por onde se vai ao liberalismo, há o que poderíamos chamar de causas permanentes dele na sociedade atual, e é nestas que devemos buscar as razões pela quais a sua extirpação se torna tão difícil.
São em primeiro lugar causas permanentes do liberalismo as mesmas que apontamos antes como caminhos e declives que conduzem a ele. Diz a filosofia: Per quae res gignitur, per eadem et servatur et augetur: “as coisas comumente se conservam e aumentam pelas mesmas causas que por que nasceram”. Porém, além dessas causas podemos apontar algumas outras que oferecem caráter especial.
1° - A corrupção dos costumes. A maçonaria a decretou, e à letra se cumpre seu programa infernal. Espetáculos, livros, quadros, costumes públicos e privados, tudo se procura saturar de obscenidade e lascívia. O resultado é infalível: de uma geração imunda, necessariamente sairá uma geração revolucionária. Assim se nota o empenho que tem o liberalismo em dar rédea solta a toda imoralidade. Sabe bem quanto esta o serve. É seu apóstolo e propagandista natural.
2° - O jornalismo. É incalculável a influência que exercem sem cessar os muitos periódicos difundidos todo dia e por todas as partes pelo liberalismo. Eles fazem — parece mentira! — com que o cidadão de hoje, queira ou não, tenha de viver dentro de uma atmosfera liberal. O comércio, as artes, a literatura, a ciência, a política, as notícias nacionais e estrangeiras, quase tudo chega por canais liberais, e tudo, por conseguinte, toma cor e sabor liberal. De tal modo que, sem perceber, o homem pensa, fala e age à moda liberal; tal é a maléfica influência deste ambiente envenenado. O pobre povo o traga com mais facilidade que ninguém, por sua natural boa-fé. Traga-o em verso, em prosa, em gravuras, a sério ou em piadas, na praça pública, na oficina, no campo, por toda parte. Este magistério liberal apoderou-se dele e não o deixa um instante sequer. E a sua ação se torna ainda mais perniciosa pela condição especial do discípulo, como mostraremos agora.
3° - A ignorância quase geral em matéria de religião. O liberalismo, ao rodear por todas as partes o povo de mestres embusteiros, aplicou-se muito habilmente em romper suas comunicações com o único mestre que lhe poderia fazer notar o embuste: a Igreja. Todo o empenho do liberalismo, de cem anos para cá, tem sido de paralisar a Igreja, de emudecê-la, para lhe deixar no máximo um caráter oficial e impedir-lhe todo contato com o povo. Foi este o objetivo — confessaram os liberais — da destruição dos conventos e mosteiros, das travas impostas ao ensino católico, do empenho tenaz em desprestigiar e ridicularizar o clero. A Igreja se vê rodeada de laços artificiosamente armados, para que em nada perturbe a marcha avassaladora do liberalismo. As concordatas, tal como se cumprem hoje em quase todas as nações, são como outras tantas argolas para apertar sua garganta e paralizar seus movimentos. Entre o clero e o povo abriu-se, e continua-se abrindo, mais e mais a cada dia, um abismo de ódios, preocupações e calúnias. De modo que uma parte do nosso povo, cristão pelo batismo, sabe tão pouco de sua religião quanto das de Maomé e de Confúcio. Procura-se, ademais, evitar todo contato possível com a paróquia, pela instituição do registro civil, matrimônio civil, sepultura civil etc., o fim dessas medidas é conduzir à ruptura de todo laço entre o povo e a Igreja. É um programa separatista completo, em cuja unidade de princípios, meios, e fins, se vê bem clara a mão de Satanás.
Poderíamos ainda apontar outras causas, mas a extensão desta obra não o permite, e nem todas se poderiam dizer aqui.
O Cânone 731, § 2º, claramente estabelece que “é proibido que os Sacramentos da Igreja sejam ministrados a hereges e cismáticos, ainda que peçam por eles e estejam de boa fé, exceto se, tendo rejeitado previamente os seus erros, eles se reconciliarem com a Igreja”
Todos os canonistas e moralistas concordam que aqueles que são hereges ou cismáticos e sabem que estão em erro não podem receber os Sacramentos da Igreja, a não ser que renunciem a seus erros e reconciliem-se com a Igreja. Numerosos decretos do Santo Ofício põem essa questão a salvo de qualquer controvérsia.
Há controvérsia acerca daqueles cristãos (batizados) que estão separados da Igreja de boa fé. É evidente que a Igreja não pode, como regra, permitir a administração dos Sacramentos a não-católicos. Isso negaria seus próprios princípios. Os Sacramentos são oferecidos àqueles que estão dispostos a viver de acordo com o que a Igreja ensina.
Acerca daqueles não-católicos que estejam em boa saúde, a proibição de dar os Sacramentos é absoluta. Mas, se estiverem em perigo de morte, parece que pode haver uma exceção.
O Santo Ofício, no dia 20 de Julho de 1898, permitiu a administração dos Sacramentos a hereges e cismáticos, desde que estejam de boa fé e tenham dado, ao menos, um sinal provável de boa fé, e desde que qualquer escândalo seja evitado.
Se eles estiverem inconscientes, o Santo Ofício declarou, no dia 26 de Maio de 1916, que a absolvição condicional e a extrema unção podem ser dadas se for possível julgar pelas circunstâncias que o cismático, ao menos implicitamente, rejeitou seus erros; deve-se evitar escandalizar os católicos presentes pela declaração do padre de que a Igreja supõe que aquela pessoa, em seus últimos momentos de consciência, desejou retornar à unidade da fé.
Deve-se salientar, porém, que é muito questionável se a administração dos Sacramentos da Penitência e da Extrema Unção (os dois Sacramentos acerca dos quais há discussões no caso de não-católicos que estejam em perigo de morte) é benéfica nesses casos. A principal dificuldade centra-se na intenção necessária para a recepção válida dos Sacramentos.
Acerca dos protestantes, como não acreditam nos sacramentos, especialmente nos da penitência e da extrema-unção, o caso deles não é um simples caso de falta de fé. Eles, positivamente, rejeitam o ensinamento católico. Mesmo havendo uma tristeza genérica pelos pecados cometidos, é difícil compreender como a vontade e a intenção genérica de "fazer tudo o que Deus pede" seria intenção suficiente para a recepção dos sacramentos, pois o próprio fundamento dessa intenção está ausente.
Supõe-se que eles desejariam receber os sacramentos se soubessem que são sacramentos, e se soubessem que Deus quer que eles os recebam. Como, na realidade, eles não sabem ou não creem, é difícil compreender como poderiam ter uma vontade ou intenção sobre algo que não conhecem ou não creem. Não parece ser possível que haja até mesmo uma intenção implícita. Por essa razão, os decretos do Santo Ofício requerem, ao menos, um sinal provável de boa fé e, portanto, ao menos pelas circunstâncias, rejeição implícita dos erros.
Não vos inquieteis com nada, mas em todas as circunstâncias manifestai a Deus as vossas necessidades
por meio de orações e de súplicas unidas à ação de graças (Fp 4,6)
Queridos fiéis,
Enquanto o mundo moderno se precipita de cabeça rumo à tirania política, recessão econômica e perseguição cultural, é natural – e sobrenatural – para os católicos, dirigirem-se a Deus.
À medida que somos, forçadamente, desconectados do nosso controle sobre as coisas materiais, é natural que nos apeguemos com maior afinco aos bens espirituais em nossas vidas: nosso relacionamento com Deus, a família e os amigos, e com nós mesmos. Com a ajuda da graça de Deus, lucraremos dessa desconexão forçada não apenas por contemplarmos o valor das coisas espirituais, mas também por colocá-las em sua ordem devida: amar a Deus sobre todas as coisas e, então, amar ao próximo como a nós mesmos por amor de Deus.
Uma das consequências naturais desse rearranjo será uma vida de oração mais fervorosa e eficaz.
Definição de oração
A oração, em sentido estrito, é a elevação da mente e do coração a Deus para Lhe pedir, corretamente, algo: as graças ou dons de que precisamos para viver na terra e para atingir a vida eterna.
A oração, em sentido amplo, é a elevação da mente e do coração a Deus, não apenas para Lhe pedir algo, mas para O adorar, agradecer a Ele e fazer-Lhe reparação.
A oração, no sentido mais amplo, é uma conversa com Deus, às vezes chamada de colóquio. A oração é uma conversa, uma conversa de duas vias, porque Deus sempre responde às nossas orações, seja por inspirações interiores ou eventos exteriores; basta que estejamos ouvindo.
A natureza e finalidade da oração está explicada na Figura 1.
Necessidade da oração
A oração é nosso dever primário não apenas enquanto cristãos, mas mesmo enquanto homens. É natural e necessário (i. e., parte da lei natural) que peçamos graças a Ele, de Quem recebemos tudo – até mesmo nossa existência. É natural e necessário que reconheçamos, coloquemo-nos diante, honremos e agradeçamos ao Ser Supremo. É natural que conversemos com Deus, com Quem unir-nos é nosso fim último, o propósito último de nossa existência.
A oração frequente, portanto, é necessária para obter o céu àqueles que atingiram a idade da razão.
Tipos de oração
Há certos modos de classificar a oração:
– As orações podem ser classificadas de acordo com seu fim: culto (isto é, adoração, ação de graças e reparação) ou petição.
– A oração pode ser pública ou privada. As orações públicas, neste sentido, são as orações oficiais da Igreja, também chamadas de Liturgia. Essas orações estão contidas nos livros oficiais da Igreja: o Missal, o Ofício Divino (Breviário), o Ritual e o Martirológio e são rezadas por um ou com um ministro da Igreja.
– A oração pode ser pessoal ou coletiva.
– A oração pode ser vocal ou mental.
Os vários tipos de oração estão explicados na Figura 2.
*Figura 1*

*Figura 2*

Eficácia da oração na santificação
A oração produz três efeitos maravilhosos na alma:
– ela promove, em nós, o desapego das criaturas
– ela nos une inteiramente a Deus
– ela, gradativamente, transforma-nos em Deus
A oração promove, em nós, o desapego das criaturas na medida em que elas são um obstáculo para nossa união com Deus. Esse efeito da oração decorre da sua própria natureza como uma elevação do coração a Deus.
O segundo efeito da oração – a união – é realizada através da conversação íntima e é preservado pelo temor de perder a Deus através do pecado mortal, ou de afastar-se dEle através do pecado venial ou das imperfeições.
A oração, gradativamente, transforma-nos em Deus pela graça santificante que Deus nos dá. São Francisco de Sales diz:
“Se a oração é um colóquio ou uma conversação da alma com Deus, então que falemos a Deus, e Ele fale de volta a nós; que aspiremos a Ele e respiremos nEle, e Ele, reciprocamente, inspire-nos e respire sobre nós”
Eficácia das orações de petição
As orações de petição sempre serão atendidas, pois temos a promessa do próprio Cristo:
“Pedi, e vos será dado; buscai e achareis; batei e abrir-se-vos-á" (Mt 7,7);
“Por isso vos digo: tudo o que pedirdes na oração, crede que o haveis de conseguir e que o obtereis” (Mc 11, 24)
Há, porém, algumas condições. Primeiramente, Deus só nos dá aquelas coisas que são verdadeiramente boas para nós, o que significa que nós só devemos rezar pedindo as coisas que, direta ou indiretamente, dizem respeito à nossa salvação ou à salvação de outro.
Então, quando rezamos, devemos rezar com atenção, fé firme, desejo ardente, esperança, docilidade e humildade.
Quando rezamos dessa maneira pedindo algo, jamais saímos sem ser recompensados. Pois, embora Deus já soubesse de cada necessidade nossa desde a eternidade, e tem Sua vontade fixa por toda a eternidade, Seu conhecimento prévio de nossas orações faz parte de Seu plano providencial para o universo. E, dessa maneira, podemos dizer que nossas orações, de fato, são a causa da munificência de Deus.
Se o que pedimos não for o melhor para nossa salvação, nossa oração, ainda assim, não deixará de nos trazer novas graças e um aumento da fé, esperança e caridade, desde que rezemos com humildade.
Oração vocal
Quando decidimos rezar, a maioria de nós, instintivamente, recorre à oração vocal, que envolve a recitação de textos fixos, como a Liturgia da Igreja, ou devoções como o Rosário, hinos, ladainhas, atos de consagração, etc, ou falando com palavras próprias.
A oração vocal, porém, não está na recitação de palavras; está na elevação da mente e do coração a Deus por atos afetivos de humildade, fé, esperança, caridade, gratidão e pesar que as palavras evocarem ou permitirem. É importante entender isso, pois nos ajudará a perceber que a atenção a Deus, a Quem nos dirigimos, é necessária e evitará que cometamos o erro de multiplicar nossas orações vocais sem atos afetivos de virtude. Não precisamos nos concentrar nas palavras, mas precisamos nos concentrar em Deus.
Oração mental
A oração mental é uma forma mais elevada de oração, pois é mais espiritual e, portanto, mais adequada à união com Deus. Também é mais difícil, razão pela qual muito poucos rezam bem dessa maneira.
A oração mental pode ser, de maneira ampla, dividida em oração meditativa ou oração contemplativa em razão das operações na alma de cada uma. Ela também é dividida de outros modos pelos autores espirituais.
A figura 3 contém a divisão da oração mental de Santa Teresa d’Ávila.
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Oração
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Sentidos exteriores
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Vontade
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Razão
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Memória
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Imaginação
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Origem
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Objetivo/resultados
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Mental (deliberação)
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Voluntariamente suspensos
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Uso completo
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Uso completo
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Uso completo
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Uso completo
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Natural & sobrenatural
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Discursivo
Refletir sobre verdades
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Recoleção
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Voluntariamente suspensos
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Uso completo
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Uso completo
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Uso completo
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Uso completo
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Natural & sobrenatural
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Consciência da presença de Deus
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Quietude
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Orações repetitivas/escrita
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Absorta em Deus
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Uso completo
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Uso completo
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Uso completo
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Puramente sobrenatural
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Quietude apesar de alguma distração parcial
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União
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Involuntariamente suspensos
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Absorta em Deus
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Absorta em Deus
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Uso completo
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Uso completo
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Puramente sobrenatural
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Paz no amor de Deus
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Êxtase/arrebatamento
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Involuntariamente suspensos
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Absorta em Deus
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Absorta em Deus
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Absorta em Deus
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Absorta em Deus
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Puramente sobrenatural
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Transes, êxtases, levitação
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Meditação
A oração meditativa é a forma mais simples de oração mental e pode ser definida como “uma divagante reflexão amorosa das verdades religiosas”, através da qual elevamos nossas mentes e corações a Deus.
O que isso significa é que, após nos colocarmos na presença de Deus (imaginando-nos ajoelhados ante Seu trono, ou sentados aos Seus pés ou de qualquer outra maneira que nos seja conveniente para nos imaginar na Sua presença), começamos a pensar nEle ou em algum aspecto de Seu mundo criado e das suas criaturas como sendo ordenadas a Ele. Mas o objeto desse esforço de reflexão discursiva não é obter uma compreensão melhor das verdades da nossa fé (ou mesmo verdades da Filosofia ou ciência relacionadas com Ele), e sim descobrir manifestações de Seu amor por nós.
São João da Cruz afirma, sucintamente: “O fim da meditação e da consideração mental das coisas divinas é obter algum conhecimento do amor de Deus” Portanto, a meditação pode ser vista como uma parte do primeiro estágio de cortejo. Assim dois espíritos semelhantes atraem-se um ao outro, eles se encontram conversando com prazer e, quando a sós, ponderando sobre sua conversação, pela meditação ponderamos as palavras e ações de Deus na Escritura, na Teologia e nas vidas dos Santos ou em nossas próprias vidas para descobrir novas razões para amar a Deus e novos sinais do amor de Deus por nós.
A diferença entre amantes humanos e amantes divinos é que, em vez de nos indagarmos se o outro nos ama, sabemos que Deus nos ama com certeza da fé e da razão. Nossas meditações, portanto, são um exercício na descoberta e elucidação desse amor e na provocação do nosso amor por Ele através dessa descoberta.
A oração da meditação, embora mais livre que a oração vocal, não deve estar totalmente privada de uma estrutura, pois nossa frágil natureza humana requer algum tipo de apoio. Tipicamente, a oração meditativa deve incluir os seguintes passos:
– Colocar-se na presença de Deus,
– Refletir sobre o tema da meditação (p. ex., o Evangelho do dia)
– Ponderar os pontos da meditação
– Conversar com Deus
– Formar resoluções
Sta Teresa d’Ávila admitia ter grande dificuldade de se concentrar nas meditações e, portanto, defendia a meditação com um livro, para que seja possível ler e reler a seção de um texto.
Algo que devemos evitar quando meditamos é tornar-nos o objeto da meditação. Nossa oração não deve ser uma torturante extensão do exame de consciência.
Contemplação
A meditação é o primeiro estágio do cortejo; é uma oração-meio conducente à perfeição da oração, que é a contemplação. Sta Teresa d’Ávila descreve a contemplação como “nada além do íntimo comércio da amizade, na qual uma alma conversa um a um com esse Deus, que ela sabe que a ama”
No começo, é um colóquio íntimo, totalmente pessoal e espontâneo, sem preocupações com forma e ordem e procedente, apenas, do fluxo de amor do coração. Assim como dois amantes, convencidos de seu amor mútuo, sentem total liberdade e prazer na companhia um do outro, a contemplação é aquela relação de amor com Deus livre, desinibida. Às vezes a alma fala, às vezes mantém-se em silêncio, ouvindo interiormente, para perceber os movimentos da graça, que são a resposta de Deus
Quando todos os desejos de nosso amor foram falados, assim como dois amantes podem olhar um para o outro em silêncio, nosso colóquio cessa e nossa alma é acalmada em contemplação silenciosa de Deus. Essa é a consumação da oração de contemplação: uma intuição simples da Verdade. Na contemplação, a alma em busca de Deus é iluminada por Sua luz e é atraída intensamente a Ele.
Essa é a forma mais elevada de oração e não é algo que pode ser atingido por um método; é um dom livre que Deus dá em breves momentos ou por períodos prolongados, para encorajar as almas em sua obra de santificação
Não vos inquieteis
Após termos lembrado a natureza, necessidade e tipos de oração, enquanto contemplamos as nuvens da revolução se fechando, lembremos, ainda, que nenhuma tirania, nenhuma pobreza e nenhuma perseguição religiosa pode nos remover o maior bem, aquela pérola que é nosso relacionamento pessoal com nosso Deus de amor. Como São Paulo diz,
Não vos inquieteis com nada, mas em todas as circunstâncias manifestai a Deus as vossas necessidades por meio de orações e de súplicas unidas à ação de graças (Fp 4:6)
In Jesu et Maria,
Pe. Robert Brucciani
(Ite Missa Est, Março-Abril 2021. Tradução: Permanência)
Cardeal Pie
Meus irmãos (...)
Nosso século clama: “tolerância, tolerância”. Tem-se como certo que um padre deve ser tolerante, que a religião deve ser tolerante. Meus irmãos, não há nada que valha mais que a franqueza e eu aqui estou para vos dizer, sem disfarce, que no mundo inteiro só existe uma sociedade que possui a verdade e que esta sociedade deve ser necessariamente intolerante. Mas antes de entrar no mérito, distinguindo as coisas, convenhamos sobre o sentido das palavras para bem nos entendermos e assim não nos confundiremos.
A tolerância pode ser civil ou teológica. A primeira não nos diz respeito e não falarei senão uma pequena palavra sobre ela. Se a lei tolerante quer dizer que a sociedade permite todas as religiões porque, a seus olhos, elas são todas igualmente boas ou porque as autoridades se consideram incompetentes para tomar partido neste assunto, tal lei é ímpia e atéia. Ela exprime não a tolerância civil como a seguir indicaremos, mas uma tolerância dogmática que, por uma neutralidade criminosa, justifica nos indivíduos a mais absoluta indiferença religiosa. Ao contrário, se, reconhecendo que uma só religião é boa, a lei suporta e permite que as demais possam se exercer por amor à tranqüilidade pública, esta lei poderá ser sábia e necessária se assim o pedirem as circunstâncias como outros observaram antes de mim.(...)
Deixo, porém, este campo cheio de dificuldades e volto-me para a questão propriamente religiosa e teológica em que exponho estes dois princípios:
A religião que vem do céu é verdade e ela é intolerante com relação às doutrinas errôneas
A religião que vem do céu é caridade e ela é cheia de tolerância quanto às pessoas.
Roguemos a Nossa Senhora vir em nossa ajuda e invocar para nós o Espírito de verdade e de caridade: “Spiritum veritatis et pacis”. Ave Maria.
Faz parte da essência de toda verdade não tolerar o princípio que a contradiz. A afirmação de uma coisa exclui a negação dessa mesma coisa, assim como a luz exclui as trevas. Onde nada é certo, onde nada é definido, pode-se partilhar os sentimentos, podem varias as opiniões. Compreendo e peço a liberdade de opiniões de coisas duvidosas: “in dubiis, libertas”. Mas logo que a verdade se apresenta com as características certas que a distinguem, por isso mesmo que é verdade, ela é positiva, ela é necessária e por conseqüência ela é uma e intolerante: “in necessariis, unitas”. Condenar a verdade à tolerância é condená-la ao suicídio. A afirmação se aniquila se ela duvida de si mesma, e ela duvida de si mesma se ela admite com indiferença que se ponha a seu lado sua própria negação. Para a verdade, a intolerância é o instinto de conservação, é o exercício legítimo do direito de propriedade. Quando se possui alguma coisa é preciso defendê-la, sob pena de ser despojado dela bem cedo.
Assim, meus irmãos, pela própria necessidade das coisas, a intolerância está em toda parte; porque em toda parte existe o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, a ordem e a desordem. Que há de mais intolerante do que esta proposição: “2 e 2 fazem 4”? Se vierdes me dizer que 2 e 2 fazem 3 ou fazem 5, eu vos respondo que 2 e 2 fazem 4. (...)
Nada é tão exclusivo quanto a unidade. Ora, ouvi a palavra de São Paulo: “Unus Dominus, una fides, unum batisma”. Há, no céu, um só Senhor: “Unus Dominus”. Esse Deus cuja unidade é seu grande atributo, deu à terra um só Símbolo, uma só doutrina, uma só fé: “una fides”. E esta fé, esta doutrina, Ele confiou-as a uma só sociedade visível, uma só Igreja, cujos filhos são, todos, marcados com o mesmo selo e regenerados pela mesma graça: “Unum batisma”. Assim, a unidade divina que esplende por todos os séculos na glória de Deus, produziu-se sobre a terra pela unidade do dogma evangélico cujo depósito foi confiado por Nosso Senhor Jesus Cristo à unidade hierárquica do sacerdócio: Um Deus, uma fé, uma Igreja: “Unus Dominus, una fide, unum batisma”.
Um pastor inglês teve a coragem de escrever um livro sobre a tolerância de Jesus Cristo e o filósofo de Genebra (Jean-Jacques Rosseau) disse, falando do Salvador dos homens: Não vejo que meu divino Mestre tenha formulado sutilezas sobre o dogma”. Bem verdadeiro, meus irmãos. Jesus Cristo não formulou sutilezas sobre o dogma, mas trouxe aos homens a verdade e disse: se alguém não for batizado na água e no Espírito Santo; se alguém, recusa-se a comer a minha carne e a beber o meu sangue, não terá parte em meu Reino. Confesso que nisso não há sutilezas, há intolerância, a exclusão a mais positiva, a mais franca. E mais, Jesus Cristo enviou seus apóstolos para pregar a todas as nações, isto é, derrubar todas as religiões existentes para estabelecer em toda a terra a única religião cristã e substituir todas as crenças dos diferentes povos pela unidade do dogma católico. E prevendo os movimentos e as divisões que esta doutrina vai incitar sobre a terra, Ele não se deteve e declarou que tinha vindo para trazer não a paz, mas a espada e acender a guerra não somente entre os povos, mas no seio de uma família e separar, pelo menos quanto às convicções, a esposa fiel do esposo incrédulo, o genro cristão, do sogro idólatra. A afirmação é verdadeira e o filósofo tem razão. Jesus Cristo não formulou sutilezas sobre o dogma.(...)
Falam da tolerância dos primeiros séculos, da tolerância dos apóstolos. Mas isso não é assim, meus irmãos. Ao contrário, o estabelecimento da religião cristã foi, por excelência, uma obra de intolerância religiosa. No momento da pregação dos apóstolos, quase todo o universo praticava essa tolerância dogmática tão louvada. Como todas as religiões eram igualmente falsas e igualmente desarrazoadas, elas não se guerreavam; como todos os deuses valiam a mesma coisa uns para os outros, eram todos demônios, não eram exclusivos, eles se toleravam uns aos outros: satã não está dividido contra si mesmo. O Império Romano, multiplicando suas conquistas, multiplicava seus deuses e o estudo de sua mitologia se complica na mesma proporção que o da sua geografia. O triunfador que subia ao Capitólio fazia marchar diante dele os deuses conquistados com mais orgulho ainda do que arrastava atrás de si os reis vencidos. A mais das vezes, em virtude de um Senatus-Consulto, os ídolos dos bárbaros se confundiam desde então com o domínio da pátria e o Olímpio nacional crescia como o Império.
Quando aparece o Cristianismo (prestem atenção a isso, meus irmãos, são dados históricos de algum valor com relação ao assunto presente), o Cristianismo, quando apareceu pela primeira vez, não foi logo repelido subitamente. O paganismo perguntou-se se, ao invés de combater a nova religião, não devia dar-lhe acesso ao seu seio. A Judéia tinha se tornado uma província romana. Roma, acostumada a receber e conciliar todas as religiões, recebeu a princípio, sem maiores dificuldades, o culto saído da Judéia. Um imperador colocou Jesus Cristo assim como Abraão entre as divindades de seu oratório, como viu-se mais tarde um outro César propor prestar-lhe homenagens solenes. Mas a palavra do profeta não tardou a se verificar: as multidões de ídolos que viam, de ordinário sem ciúmes, deuses novos e estrangeiros serem colocados ao lado deles, com a chegada do Deus dos cristãos, lançam um grito de terror, e, sacudindo sua tranqüila poeira, abalam-se sobre seus altares ameaçados: Ecce Dominus ascendit, et commovebuntur simulacra a facie ejus. Roma estava atenta a esse espetáculo. E logo, quando se percebeu que esse Deus novo era irreconciliável inimigo dos outros deuses; quando se viu que os cristãos, dos quais se havia admitido o culto, não queriam admitir o culto da nação; em uma palavra, quando se constatou o espírito intolerante da fé cristã, é aí então que começou a perseguição.
Ouvi como os historiadores do tempo justificam as torturas dos cristãos: eles não falam mal de sua religião, de seu Deus, de seu Cristo, de suas práticas; só mais tarde é que inventaram calúnias. Eles os censuram somente por não poderem suportar outra religião que não seja a deles. “Eu não tinha dúvidas, diz Plínio o jovem, apesar de seu dogma, que era preciso punir sua teimosia e sua obstinação inflexível: Pervicaciam et inflexibilem obstinationem”. “Não são criminosos, diz Tácito, mas são intolerantes, misantropos, inimigos do gênero humano. Há neles uma fé teimosa em seus princípios, e uma fé exclusiva que condena as crenças de todos os povos: Apud ipsos fides obstinata, sed adversus omnes alios hostile odium”. Os pagãos diziam geralmente dos cristãos o que Celso disse dos judeus, com os quais foram muito tempo confundidos, porque a doutrina cristã tinha nascido na Judéia. “Que esses homens adiram inviolavelmente às suas leis, dizia este sofista, nisto não os censuro; eu só censuro aqueles que abandonam a religião de seus pais para abraçar uma diferente! Mas se os judeus ou os cristãos querem se dar ares de uma sabedoria mais sublime que aquela do resto do mundo, eu diria que não se deve crer que sejam mais agradáveis a Deus que os outros”.
Assim, meus irmãos, o principal agravo contra os cristãos era a rigidez absoluta de seu Símbolo, e, como se dizia, o humor insociável de sua teologia. Se só se tratasse de um Deus a mais, não teria havido reclamações, mas era um Deus incompatível, que expulsava todos os outros: eis porque a perseguição. Assim, o estabelecimento da Igreja foi uma obra de intolerância dogmática. Toda a história da Igreja não é outra que a história dessa intolerância. O que são os mártires? Intolerantes em matéria de fé, que preferem os suplícios a professarem o erro. O que são os Símbolos? São fórmulas de intolerância, que determinam o que é preciso crer e que impõem à razão os Mistérios necessários. O que é o Papado? Uma instituição de intolerância doutrinal, que pela unidade hierárquica mantém a unidade da fé. Porque os concílios? Para frear os desvios de pensamentos, condenar as falsas interpretações do dogma; anatematizar as proposições contrárias à fé.
Nós somos então intolerantes, exclusivos em matéria de doutrina: nós disto fazemos profissão; nós nos orgulhamos da nossa intolerância. Se não o fôssemos, não estaríamos com a verdade, pois que a verdade é uma, e conseqüentemente intolerante. Filha do céu, a religião cristã, descendo sobre a terra, apresentou os títulos de sua origem; ela ofereceu ao exame da razão fatos incontestáveis, e que provam irrefutavelmente sua divindade. Ora, se ela vem de Deus, se Jesus Cristo, seu autor, pode dizer: Eu sou a verdade: Ego sum veritas, é necessário por uma conseqüência inevitável, que a Igreja Católica conserve incorruptivelmente esta verdade tal qual a recebeu do Céu; é necessário que ela repila, que ela exclua tudo o que é contrário a esta verdade, tudo o que possa destruí-la. Recriminar a Igreja Católica sua intolerância dogmática, sua afirmação absoluta em matéria de doutrina é dirigir-lhe uma recriminação muito honrosa. É recriminar a sentinela ser muito fiel e muito vigilante, é recriminar a esposa ser muito delicada e exclusiva.
Nós ficamos muitas vezes confusos do que ouvimos dizer sobre todas essas questões até por pessoas de senso. A lógica lhes falta, desde que se trata de religião. É a paixão, é o preconceito que os cega? É um e outro. No fundo, as paixões sabem bem o que elas querem quando procuram abalar os fundamentos da fé, pondo a religião entre as coisas sem consistência. Elas não ignoram que, demolindo o dogma, elas preparam para si uma moral fácil. Diz-se com uma justeza perfeita: é antes o decálogo que o Símbolo que as faz incrédulas. Se todas as religiões podem ser postas num mesmo nível, é que elas se equivalem todas; se todas são verdadeiras é porque todas são falsas; se todos os deuses se toleram, é porque não há Deus. E se se pode aí chegar, não sobra mais nenhuma moral incômoda. Quantas consciências estariam tranqüilas, no dia em que a Igreja Católica desse o beijo fraternal a todas as seitas suas rivais!
Jean-Jacques Rosseau foi, entre nós, apologista e propagador desse sistema de tolerância religiosa. A invenção não lhe pertence, se bem que tenha ido mais longe que o paganismo, o qual nunca chegou a levar a indiferença a tal ponto. Eis, com um curto comentário, o ponto principal do catecismo genovês, tornado infelizmente popular: todas as religiões são boas; isto é, de outra forma, todas as religiões são ruins (...).
A filosofia do século XIX se espalha por mil canais sobre toda a superfície da França. Esta filosofia é chamada eclética, sincrética e, com uma pequena modificação, é também chamada progressiva. Esse belo sistema consiste em dizer que não existe nada falso; que todas as opiniões e todas as religiões podem ser conciliadas; que o erro não é possível ao homem, a menos que ele se despoje da humanidade; que todo o erro dos homens consiste em crer possuírem exclusivamente toda a verdade, quando cada um deles só tem um elo e que, da reunião de todos esses elos, deve-se formar a corrente inteira da verdade. Assim, segundo essa inacreditável teoria, não há religiões falsas, mas elas são todas incompletas umas sem as outras. A verdadeira seria a religião do ecletismo sincrético e progressivo, a qual ajuntaria todas as outras, passadas, presentes e futuras: todas as outras, isto é, a religião natural que reconhece um Deus; o ateísmo que não conhece nenhum; o panteísmo que o reconhece em tudo e por tudo; o espiritualismo que crê na alma, e o materialismo que só crê na carne, no sangue e nos humores; as sociedades evangélicas que admitem uma revelação, e o deísmo racionalista que a rejeita; o cristianismo que crê no Messias que veio e o judaísmo que o espera ainda; o catolicismo que obedece ao papa, e o protestantismo que olha o papa como o anticristo. Tudo isto é conciliável. São diferentes aspectos da verdade. Da união desses cultos resultará um culto mais largo, mais vasto, o grande culto verdadeiramente católico, isto é, universal, pois que abrigará todas as outras no seu seio.
Esta doutrina que qualificais de absurda, não é minha invenção; ela enche milhares de volumes e de publicações recentes; e, sem que seu fundo jamais varie, ela toma, todos os dias, novas formas sob a pena e sobre os lábios dos homens em cujas mãos repousa os destino da França. — A que ponto de loucura nós então chegamos? — Nós chegamos ao ponto onde deve logicamente chegar todo aquele que não admite o princípio incontestável que estabelecemos, a saber: que a verdade é uma, e por conseqüência intolerante, excludente de toda doutrina que não é a sua. E, para juntar em poucas palavras toda a substância deste meu discurso, eu lhes direi: procurais a verdade sobre a terra? Procurai a Igreja intolerante. Todos os erros podem se fazer concessões mútuas; eles são parentes próximos, pois que tem um pai comum: Vos ex patre diabolo est. A verdade, filha do céu, é a única que não capitula.
Sim, Santa Igreja Católica, vós tendes a verdade, porque vós tendes a unidade, e porque vós sois intolerante, não deixais decompor esta unidade. É este, meus irmãos, nosso primeiro princípio: a religião que desce do céu é a verdade, e por conseqüência ela é intolerante quanto às demais doutrinas.
Não nos peçais a tolerância em relação às doutrinas. Encorajai, ao contrário, nossa solicitude em manter a unidade do dogma, que é o único laço da paz sobre a terra. O orador romano disse: a união dos espíritos é a primeira condição da união dos corações. E este grande homem faz entrar na definição mesma da amizade, a unanimidade de pensamento em relação às coisas divinas e humanas: Eadem de rebus divinis et humanis cum summa charitate juncta concordia.
Nossa sociedade está sujeita a mil divisões; nós nos lastimamos disso todos os dias. De onde vem este enfraquecimento das afeições, este resfriamento dos corações? Ah! meus irmãos, como seriam os corações aproximados onde os espíritos estão tão distantes? É porque cada um de nós se fecha no amor de si mesmo. Queremos por fim a essas dissidências sem número que ameaçam destruir todo espírito de família, de cidade e de pátria? Queremos não ser mais estrangeiros, adversários e quase inimigos uns dos outros? Voltemos a um Símbolo e nós reencontraremos logo a concórdia e o amor.
(Trecho de sermão pregado na Catedral de Chartres)