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Category: MúsicaConteúdo sindicalizado

História da polifonia sacra

Pe. Gustavo Camargo, FSSPX

 

Introdução

As seguintes anotações são, em sua maioria, resumos de diferentes livros de música que, por interesse pessoal, fui fazendo ao longo dos anos. Têm valor de resumo somente. São poucas as apreciações pessoais. É que me parece interessante primeiro conhecer o aspecto histórico do desenvolvimento da música, especialmente da música sacra, através dos séculos, para só depois estudar mais a fundo a sua essência mesma, a sua linguagem. 

Para a parte histórica, os resumos foram feitos sobretudo com base em História da Música, de Franco Abbiati (Edições Uteha, em cinco tomos). São poucas as citações entre aspas desta obra. Em geral, resumi a ideia com minhas próprias palavras. Mas a substância vem toda dela [N. do T.: da obra].

São Pio X, em seu Motu Proprio Codex musicae sacrae juridicus, diz que: “(...) o canto gregoriano considera-se, de certo modo, como o mais elevado ideal da música sacra, de maneira que, com razão, se pode assentar como geralmente válida a seguinte regra: uma obra musical que seja apropriada para o uso religioso será tanto mais sagrada e litúrgica, quanto mais, por sua posição, espírito e irradiação, aproximar-se do ‘melos’ gregoriano. Pelo contrário, será menos adequada ao serviço divino quanto mais afastar-se desse modelo”. 

Segundo São João da Cruz, a realização artística deve ser simples, pura, evocadora e despojada – para ser pura e simples – para conduzir a alma a Deus sem retê-la no gozo estético1. A arte na liturgia, como acessório que é do culto, deve subordinar-se estritamente a seu fim, a sua função. Será, pois, mais própria para a liturgia, a música que, ao ser escutada nas funções religiosas, não inclinar o ouvinte a deter-se nela, a estancar-se no gozo estético que produz; senão a levar sua alma, através desse gozo, ao recolhimento, à oração e a dispor-se para melhor receber as graças de Deus. (Continue a ler)

  1. 1. Cita-o em Quero ver a Deus o Pe. Maria Eugênio, (Ed. El Carmen), p. 595, na terceira nota. A nota inteira diz: “Não menospreza nem recusa São João da Cruz – como tampouco Santa Teresa – a natureza sensível, para encerrar-se numa noite que tudo ignora. O santo coloca a natureza no posto que lhe corresponde na escala de valores espirituais que devem conduzir-nos à união com Deus. Sabemos quanto os dois reformadores apreciavam que seus conventos estivessem em lugares de cujas belezas naturais pudesse a alma servir-se para recolher-se em si e elevar-se a Deus. Toda a teoria da arte em São João da Cruz dimana desse mesmo princípio: a realização artística deve ser simples, pura, evocadora e despojada – para ser pura e simples – para conduzir a alma a Deus sem retê-la no gozo estético”.

Como apreciar o canto gregoriano

Pe. Gustavo Camargo, FSSPX

 

Objeção:

Quando escutamos o canto gregoriano pela primeira vez, a impressão que nos causa talvez seja negativa. Pode ser que nos impressione não tanto por que nele há, senão por que nele não há. Sentimos a ausência de harmonia ou de acompanhamento de apoio; ou bem sentimos a falta de valores de tempo definidos claramente e de acentos regulares; ou bem advertimos que a linha melódica por vezes toma giros estranhos, que muitas vezes não concluem na nota esperada; ou bem desgosta-nos o não intentar essa música tocar-nos os sentimentos ou mover-nos as emoções.

Em nossas capelas muitas vezes é difícil que se dê lugar merecido ao canto gregoriano. Há certo rechaço da parte dos fiéis, que o acham “demasiado simples, sem ornato, maçante, que alarga muito a cerimônia etc”, e mesmo também da parte dos sacerdotes, que lhe sentem uma desconfiança instintiva.

André Charlier1, em um de seus artigos sobre o canto gregoriano, traz a citação de um sacerdote que escrevera as seguintes palavras em “Semaine religieuse de Paris”, em 1965, as quais muitos de nós poderíamos talvez subscrever (lamentavelmente).

“O gregoriano é inaceitável, a não ser quando bem cantado, por religiosos ou por escola paroquial bem formada. Em toda parte, porém, ele é impraticável e não interessa a ninguém. O ouvido dos jovens, que estudam solfejo desde a escola primária com as tonalidades clássicas e com a notação musical moderna, já não intui nem pode captar quanto há de religioso no gregoriano. (…) Essas melopeias não incidem mais nas sensibilidades contemporâneas; bastante já durou essa experiência. Por que, então, tentar prolongá-la? Conservemos o gregoriano para os santuários como Solesmes, Saint-Wandrille e alguns cenáculos da cristandade. (…) Mesmo onde se canta com arte e conforme as regras, somente os da “Schola” cantam. A multidão permanece inerte e contenta-se com escutar. É este, acaso, o objetivo que se busca?”.

A essa desconfiança soma-se o desprezo a toda a Tradição da Igreja, que as reformas do Concílio Vaticano II difundiram universalmente, e que fizeram, entre muitas outras coisas, que o gregoriano se extinguisse em quase todas as paróquias.

Na prática, o resultado é que em nossas capelas se canta muito pouco o gregoriano, estuda-se menos, e o povo desconhece-o e até sente por ele certa repulsa.

 

Argumentos de autoridade:

Sem embargo, vendo o que os papas disseram constantemente, durante toda a história da Igreja, ficamos em situação incômoda. São Pio X, por exemplo, que iniciou magna obra de restauração do canto gregoriano, afirmou o seguinte, fazendo eco de toda a Tradição: “Essas qualidades (santidade, bondade de forma e universalidade) encontram-se em sua medida maior no canto gregoriano, e por isso ele é o único canto autêntico da Igreja romana. É o único que os padres da antigüidade legaram-nos; manteve-se com o maior esmero através dos séculos nos manuscritos litúrgicos. As últimas investigações lograram restaurá-lo felizmente em sua antiga integridade e pureza. Por isso, o canto gregoriano considera-se em certo modo como o mais elevado ideal da música sacra, podendo assentar-se como universalmente válida a seguinte regra: a música que seja apropriada para o uso religioso é tanto mais sagrada e litúrgica, quanto mais, por sua posição, espírito e irradiação, acerque-se do ‘melos’ gregoriano. Ao contrario, é menos adequada para o serviço divino se se afasta deste modelo. Destarte, o primitivo canto gregoriano deve ser de aplicação no âmbito dos serviços religiosos, e deve ter-se o convencimento de que uma cerimônia sagrada não perde brilho algum por vincular-se a esta arte musical” 2.

Pio XII não é menos absoluto: “Este canto, por causa da união íntima da melodia e do texto sagrado, não somente se lhe adapta perfeitamente, senão que igualmente parece expressar toda sua grandeza e eficácia, e penetra com sua doçura no espírito de quem o escuta. Tudo isso com meios musicais muito simples e fáceis, mas que, inspirados de arte sublime e muito santa, suscitam sincera admiração e convertem-se, para os mestres e conhecedores de música sacra, em fonte inesgotável de novas harmonias. Todos a quem Cristo Nosso Senhor confiou a custódia e dispensa das riquezas de sua Igreja devem conservar cuidadosamente o precioso tesouro do canto gregoriano e fazer o povo cristão participar dele profusamente” 3.

São Pio X faz referência à autoridade da própria liturgia quando diz: “manteve-se com o maior esmero através dos séculos nos manuscritos litúrgicos”. Recorde-se que a liturgia é uma escola de santidade. Todas as rubricas, gestos, mínimos detalhes foram guardados com sumo cuidado, muitos deles recebidos das mãos de Nosso Senhor mesmo e dos apóstolos, e transmitidos com tanto cuidado através dos séculos, que se chegou a constituir o que poderíamos chamar “a perfeita inserção do sagrado no material”, ou seja, o equilíbrio justo do uso do sensível no culto de Deus, permitindo-lhe ser perfeito instrumento ao fim próprio da liturgia. Exatamente nesse equilíbrio perfeito e inserção do sagrado no material, entra o canto gregoriano, parte constitutiva da Sagrada Liturgia. Trataremos adiante sobre este ponto importante.

São conhecidas as belas palavras de Santo Agostinho em seu livro Confissões: “Confesso que ainda agora encontro algum descanso nos cânticos que as vossas palavras vivificam, quando são entoadas com suavidade e arte. Não digo que fique preso por eles. Mas custa-me deixá-los quando quero. (…) Sinto que todos os afetos da alma encontram, na voz e no canto, segundo a diversidade de cada um, as suas próprias modulações, vibrando em razão dum parentesco oculto, para mim desconhecido, que entre eles existe. Mas o deleite da minha carne, ao qual se não deve dar licença de enervar a alma, engana-me muitas vezes. Os sentidos, não querendo colocar-se humildemente atrás da razão, negam-se a acompanhá-la. Só porque, graças a razão, mereceram ser admitidos, já se esforçam por precedê-la e arrastá-la! Deste modo peco sem consentimento, mas advirto depois.  (...) Quando me lembro das lágrimas derramadas ao ouvir os cantos da vossa Igreja nos primórdios da minha conversão à fé, e ao sentir-me agora atraído, não pela música, mas pelas letras dessas melodias, cantadas em voz límpida e modulação apropriada, reconheço, de novo, a grande utilidade deste costume.” 4.

 

Corpus:

Antes de responder às objeções, tratemos de aprofundar o tema. Que é o canto gregoriano? Como se constitui? Por que é tão apto para elevar nossas almas? Como entender e apreciá-lo?

Para responder a essas perguntas, evitemos um pouco o tema de sua história (formação, decadência e restauração) e centremo-nos em sua constituição íntima, com algumas mínimas noções musicais necessárias para entendê-la.

Quando escutamos distintos tipos de música, como por exemplo música medieval, renascentista, barroca, e mesmo músicas orientais, damo-nos conta (talvez sem poder defini-lo) de que cada uma tem um “ar” distinto. Esse “ar” chama-se “modo” e faz referência à relação das notas entre si. Se pomos lado a lado as notas de um “modo” particular, formamos a sua escala. A música moderna, nesse aspecto, é relativamente pobre, porque conservou apenas dois modos: o maior e o menor. Constrói-se sobre a base da escala diatônica (por tons e semitons) e possui somente essas duas variantes. A música oriental usa os ¼ de tom, intervalo difícil de captar e que lhe dá “ar” mais confuso.

 

Qual é o “ar” do canto gregoriano?

O “ar” do canto gregoriano deriva de seus modos, ou seja, da maneira como se dispõem as notas e os intervalos que formam a sua “estrutura interna”.

Há quatro notas iniciais de escala: Ré, Mi, Fá e Sol. Cada uma das notas dá origem a uma escala, que pode estar em registro superior (modo autêntico) ou inferior (modo plagal), e, conseqüentemente, aos oito modos gregorianos. Cada um dos modos tem uma “corda de recitação” ou “tenor”, que é uma nota dominante (este é o termo que se usa em música moderna) em redor da qual se desenvolve a melodia. 

Tudo isto possibilita grande variedade de estruturas modais, cada uma com suas características, seus recursos próprios, para expressar um “ar” particular, um “ethos”, estado de alma ou ideia5. A palavra “ethos” usavam-na os gregos para definir o caráter moral dos modos musicais.

Muitas vezes se disse e acreditou, e segundo isso se interpretou, que o gregoriano fosse canto totalmente impessoal, frio, sem sentimento. No entanto, sem deixar de afirmar a sobriedade, o canto gregoriano usa freqüentemente de recursos musicais para reforçar ideias e sentimentos. Alguns exemplos:

No responsório do Ofício de Trevas da Sexta-Feira da Paixão, a letra diz: “exclamou Jesus com grande voz: Deus meu, por que me abandonaste?”. Justamente nesse grito, “Deus meu”, o autor da melodia gregoriana põe notas muito altas - as mais altas registradas no gregoriano. Quer, obviamente, reproduzir e ilustrar musicalmente o grito de Nosso Senhor na Cruz.

Mais alguns exemplos (que são abundantes).

O intervalo de semitom, por suas características musicais, é bastante usado para indicar sentimento de tristeza, lamento. Em si mesmo, não tem a inteireza e estabilidade do tom inteiro, e, usando-se no final de frase ou inciso, produz instabilidade, como algo não concluído. É até muito usado por alguns autores (Bach, entre outros, e, em minha opinião, também dá-se no canto gregoriano) como recurso onomatopeico que se assemelha ao gemido. Todas essas características encontram-se no responsório penitencial “Media vita” (Cantus selecti, p. 41* ou 39). A letra diz: “Eis que chegamos ao meio da vida e encontrou-nos a morte: em quem buscaremos ajuda, senão em Ti, Senhor? Em Ti esperaram nossos pais, esperaram e Tu livraste-os; a Ti clamaram e não foram confundidos”.

Etc etc (há muitos exemplos na peça).

Como último exemplo, é muito interessante o jogo de alternância do tom inteiro e do semitom (usando o si bemol), no introito “Laetare” do 4.º Domingo de Quaresma. E nele, quando, exatamente, a letra diz “qui in tristitia fuistis”, insiste-se no si bemol (semitom), querendo, assim, ilustrar musicalmente a palavra “tristitia” (tristeza).

 

Tudo isso dá-nos ideia do que é o “ethos” do gregoriano.

Dentre os capitéis conservados no “celeiro” de Cluny, dois ilustram, sobre suas quatro fachadas, os oito tons gregorianos; cada destes com uma figura que simboliza o tom musical e uma pequena frase que o descreve.

1.º tom: “Eis aqui o primeiro tom, ordenador dos sons musicais”.

2.° tom: “Segue o tom que é o segundo por nome e lei”.

3.º tom: “O terceiro salta e mostra que Cristo ressuscitou”.

4.º tom: “Segue o 4.º tom, que é semelhante a poema de lamento” (justamente esse tom de lamento usa-se no “Media Vita”, canto penitencial).

5.º tom: “Mostra quanto é humilhado quem quer se inflar (por orgulho)”.

6.º tom: “Se buscas o sentimento de piedade, olha o sexto tom”.

7.º tom: “O sétimo introduz o Sopro benéfico (Espírito Santo) com seus dons”.

8.º tom: “O oitavo ensina que todos os santos são bem-aventurados”.

Além disso, os antigos assinavam um “ar” especial para cada tom.

 

1.º : Gravis (serenidade, nobreza, solenidade)

2.º : Tristis (recolhido, interior)

3.º : Mysticus (contemplativo, rico, extático, ardente)

4.º : Harmonicus (o modo que não termina; a oração contínua; interior; queixoso)

5.º : Laetus (alegria humana; corresponde ao modo maior moderno)

6.º : Devotus (piedade filial, candidez, alegria espontânea, equilíbrio, paz)

7.º : Angelicus (entusiasmo, juvenil, ligeireza, vivacidade)

8.º : Perfectus (plenitude; solene e cheio de fineza)

 

No quadro seguinte, podem ver-se resumidas todas essas características.

 

Modos antigos

Terminologia

Dominante

Corda de recitação ou tenor

Final

tônica

Escala

Qualificativo

Ethos

Referências

Exemplos

Moderna

Antiga

Protus

 

Autêntico

 

Agudo

Ré-Lá-Ré

Gravis

Modos ditos “menores” por sua “seriedade”.

Madurez adquirida.

Modo da paz, serenidade, nobreza, solenidade.

Intr. Statuit

Intr. Rorate

Grad. Ecce quam

Plagal

 

Grave

Lá-Ré-Lá

Tristis

Subjetivo.

Recolhido e um pouco fechado em si mesmo.

Intr. Cibavit

Intr. Dominus dixit

Resp. Emendemus

Ofert. Dne. Jesu Christe

Deuterus

 

MI

Autêntico

 

Agudo

SI

MI

Mi-Si-Mi

Mysticus

Místico-contemplativo

Rico, um pouco desordenado, extático, ardente.

Intr. Vocem jucundit.

Ofert. Sperent in te

Kyrie II

Comm. Scapulis

Plagal

 

Grave

Si-Mi-Si

Harmonicus

Interior.

Modo “que não termina”; a oração contínua; lastimoso.

Intr. Reminiscere

Credo I

Resp. Subvenite

Grad. Dne. praevenisti

Tritus

 

Autêntico

 

Agudo

Fá-Dó-Fá

Laetus

Modos ditos “maiores” por sua alegria.

Alegre.

Alegria “humana”; “maior” moderno.

Intr. Laetare

Grad. Omnes de Saba

Comm. Domus mea

Grad. Constitues eos

Plagal

 

Grave

Dó-Fá-Dó

Devotus

Piedade filial.

A candidez da infância espiritual. Alegria espontânea.

Intr. In medio

Intr. Quasimodo

Intr. Requiem

Alle. Dne in virtute

Tetrardus

 

SOL

Autêntico

 

Agudo

SOL

Sol-Ré-Sol

Angelicus

Entusiasmo juvenil

Ligeireza, alegria, vivacidade.

Com. Factus est repente

Intr. Puer natus

Alle. Pascha nostrum

Grad. Dirigatur

Plagal

 

Grave

Ré-Sol-Ré

Perfectus

Plenitude

Cômodo em todas as partes. Solene e sonoro, mas também cheio de delicadeza.

Intr. Jubilate

Intr. Spiriuts Dni.

Alle. Venite ad me

Offert. Ave Maria

Respostas às objeções:

Mencionamos a crítica de que o canto gregoriano seria “fastidioso”, demasiado sóbrio, sem apelo à sensibilidade. Em primeiro lugar, a compreensão de suas características, do “ethos” de cada modo, como vimos acima, nos ajuda a apreciá-lo melhor. Ademais, entra aqui um tema muito importante e delicado, que diz respeito à música, e chega mesmo a relacionar-se com a arte em geral. Há na arte o [chamado] elemento material. No caso da música, poderíamos assinalar como exemplo, talvez, a combinação de sons, o modo escolhido etc. Há também o elemento formal, que poderíamos chamar (não com estrito rigor filosófico) a “mensagem” que a arte quer passar ou transmitir; seria a ideia central que ela intenta transmitir, algo de ordem intelectual. Ora, a arte verdadeira deve encontrar o equilíbrio entre os dois. Muitas vezes, o excesso de elemento material “afoga” a mensagem, pois traz o foco para si mesmo e dificulta a compreensão do elemento formal. Na pintura, por exemplo, os renascentistas chegaram a uma grande perfeição do elemento material, mas isso nem sempre ajudou a arte como um todo. Se compararmos uma “Virgem com o Menino Jesus” de Leonardo da Vinci, admiramos, sem dúvida, a perfeição técnica e material; mas talvez não nos inspire tanta piedade como um ícone bizantino, muito mais tosco e imperfeito tecnicamente. A economia de meios materiais e a sobriedade ajuda muitas vezes a transmitir melhor o elemento formal.

O gregoriano, podemos dizer, representa o equilíbrio perfeito dos dois elementos da arte musical, sendo assim mais apropriado ao canto litúrgico. Sua simplicidade não é pobreza, mas elevação. Custa-nos apreciá-lo, não porque seja muito pobre; custa-nos, na verdade, por ser assaz rico. Quando escutamos o gregoriano em nossas capelas, não sentimos o impacto sensível de uma polifonia. E, provavelmente, é essa a razão por que nos ajuda a elevar nossas almas, cumprindo assim sua função, sem deixar de ser arte verdadeira. Em lugar de deter-nos no gozo estético, a música sagrada deve elevar nossas almas a Deus.

A respeito disso dizia Charlier: “Deste modo, o artista (gregoriano) vai além da natureza. Isso não significa que ele a despreze; ao contrário, sobrepassa-a para dar-lhe o seu verdadeiro sentido. Priva-se de certos meios, que consideramos indispensáveis para a arte, e somos nós, no entanto, que nos equivocamos julgando-o pobre: ele é capaz de dar-nos mais do que lhe pedimos. Esses meios entorpecê-lo-iam. O objetivo da arte não é remover as paixões; é comover aquela parte de nós  que a vida diária não é capaz de alcançar e que é feita para a contemplação”.

Outra crítica, que creio mais fácil de responder, é a de que sua execução seja difícil. “Melhor não cantá-lo que cantá-lo mal”. Ora, isso vale para qualquer canto, mesmo o polifônico. Se fosse verdade teríamos de calar-nos completamente na Igreja. Demais, a experiência diz-nos o contrário. Diz-nos que, em todos os lugares em que um capelão consciencioso se propõe a cultivar o canto gregoriano, os resultados são sempre satisfatórios. Leiamos mais uma vez o testemunho interessante de Charlier:

“Durante vinte anos dirigi uma ‘Schola” composta de jovens. No começo, poucos tinham alguma cultura musical;  os outros só conheciam as notas musicais. Estavam acostumados, naturalmente, às tonalidades da música moderna (...); nada os dispunha a gostar da música gregoriana (...) todavia, compreenderam mui prontamente o caráter melódico de cada modo (...) eu seguia os progressos desta adaptação, pelas expressões de admiração que lhes escapava ante tal e qual frase melódica; achavam-se perfeitamente capacitados para sentir a beleza de tom de um salmo”.

Do mesmo modo, quando se diz que o gregoriano não foi feito para o povo das paróquias, afirma-se falsidade tão patente como seria o dizer que a arte românica não foi feita para o povo das paróquias, [afirmação] a que tantas e tantas igrejas de povos e aldeias testemunham contrariamente. A multidão [no passado] cantava o ordinário da missa e toda a salmodia, e reservava-se à Schola somente o próprio da missa.

Na aldeia em que habito, ainda não faz dez anos, todos sabem cantar a missa dos domingos ordinários, a missa “De Angelis”, a do Advento, a da Quaresma, e até a do tempo pascal. Em verdade, o gregoriano praticou-se nas paróquias, desde a reforma de São Pio X, em toda parte onde se encontrasse um sacerdote que verdadeiramente cresse na importância da adoção do gregoriano, em vista da fulguração religiosa que provoca nas almas ou, dito de outro modo, por ser o gregoriano simplesmente uma escola de santidade.

 

Conclusão:

Tratemos, pois, de entrar como crianças nesta escola de santidade da liturgia católica. A Mestra provou-se sempre idônea, e seus frutos são patentes, ao longo dos séculos. Aprofundemos o conhecimento deste canto sagrado e cultivemo-no em nossas capelas e igrejas.

“Homens perversos e depravados usam a música como excitante para entregar-se aos gozos terrenos, em vez de levantar-se beatificamente por seu meio a Deus e à contemplação das coisas divinas. De minha parte, (...) trabalho, graças a Deus, unicamente para conseguir que a modulação das vozes seja dedicada exclusivamente ao fim para que fora inventada no princípio, isto é: ‘Deo optimo clarissimo laudibusque suis’ (a Deus ótimo e glorioso e para seu louvor)” (Tomás Luis de Victoria).

(Revista Permanência 268 - Tradução: Permanência)

  1. 1. André e Henri Charlier, irmãos, ambos artistas, converteram-se ao catolicismo no princípio do século XX, na paróquia de Mesnil-Saint-Loup, em França. Foram grandes defensores do canto gregoriano e da arte cristã em geral.
  2. 2. Motu proprio de S. Pío X, 1903, “Codex musicae sacrae juridicus”.
  3. 3. Encíclica Mediator Dei.
  4. 4. Santo Agostinho, Confissões, livro X, cap. 33. Coleção “Os pensadores”, Editora Nova Cultural, São Paulo, 1987.
  5. 5. O Cônego Jeanneteau, estudioso do canto gregoriano, definia-o desta maneira: “O modo gregoriano é um conjunto homogêneo de notas que se desenvolvem sobre ‘cordas’ com dependência de uma final; cordas que têm seu papel artístico próprio, pois que os movimentos internos dessas notas entre si produzem um ‘vocabulário’, uma sintaxe e fórmulas particulares ou comuns. Todo o conjunto move-se por mesma dinâmina, criando estética própria, que chamamos ethos”.

O canto gregoriano é, antes de tudo, oração

Pe. Hervé Gresland

 

Existem muitas missas compostas por vários músicos que são boa música, e que podemos chamar de música religiosa, pois possuem caráter religioso. O gregoriano, porém, não é uma “música religiosa” entre outras, mas, segundo a feliz fórmula de Dom Gajard1, é uma “oração cantada”. Aí está toda a diferença.

A alma que canta essa oração, ou que escuta esse canto num espírito de fé, é o contrário de um esteta. Quem concorda em abrir a sua alma para o mistério do cantochão, atinge o objetivo para o qual foi concebido, pois o gregoriano tem a vocação de nos abrir e nos conduzir ao reino do qual Nosso Senhor nos fala no Evangelho, que é o reino da graça.

 

O canto gregoriano ensina a rezar

Antes de tudo, esse canto é essencialmente oração. É verdadeiramente um canto “consagrado” 2, porque deve servir unicamente ao culto. O seu fim primeiro, com efeito, é o “sacrifício de louvor” da Igreja. Por ser feito e por voltar-se para Deus, coloca-nos de saída diante do nosso Criador numa atitude de oração. Esse canto faz com que nos voltemos para as realidades sobrenaturais e divinas. Ensina ao homem o senso do sagrado e da grandeza de Deus. Ele lhe ensina a rezar, a contemplar a Deus, a louvá-lo. Ele nos faz encontrar a Deus para podermos lhe falar de coração a coração. Suas melodias nos introduzem imediatamente numa atmosfera sobrenatural.

A maior parte das peças gregorianas são curtas, mas são capazes de impor desde logo uma atitude de fé, de admiração, de confiança, de adesão a Deus e a sua vontade – elas nos fazem atingir Deus diretamente. Elas conduzem à contemplação dos mistérios mesmos que revivem. Com efeito, a virtude essencial do nosso canto é a de ser capaz de conduzir e manter o nosso olhar (tanto quanto possível aqui embaixo) em algo de perfeitamente puro, em Deus, que habita uma luz inacessível. Esse canto é transparente ao espiritual, reflete um outro mundo, diz o que nenhuma outra música diz: fala à alma do invisível, dos mistérios divinos. Introduz-nos no mistério, no sagrado, abre-nos as mais altas realidades espirituais. É uma arte impregnada do sobrenatural.

O canto gregoriano ajuda e favoriza assim o recolhimento, a contemplação e inspira o bom gosto3. Dirige-se ao que há de mais profundo dentro da alma. É por isso que atrai as almas amantes da beleza e do sagrado. Traz consigo uma graça própria que é a de nos introduzir de modo único no coração do mistério, na contemplação.

Ordenado desde o início ao louvor de Deus, é igualmente um admirável fator de vida interior. Transforma a alma que se abandona à sua divina influência. Em um canto assim, a música é instrumento de vida, de vida sobrenatural. Como explicava Dom Gajard, “são os atos com os quais louvamos a Deus que nos santificam”4. Esse canto é um veículo da graça, e é por essa razão que podemos chamá-lo de um sacramental, e mesmo de um poderoso sacramental. Por meio dele, a Igreja procura à nossa alma uma santificação certa. Sim, o canto gregoriano é um meio de santificação.

Isso mostra que foi composto não apenas por grandes artistas, por homens de gênio, mas por homens cheios de luz sobrenatural, grandes contemplativos que tiraram a sua inspiração de um contato estreito com Deus e viviam intensamente do Criador. Essa música nasceu da oração, da contemplação, e ela alimenta a contemplação.

Auguste Le Guennant tinha razão ao definir o gregoriano como “a oração que se fez música” 5. Verdadeiramente, assim como se dizia dos quadros pintados por Fra Angélico, algumas melodias gregorianas parecem ter sido compostas de joelhos.

É nesse mesmo espírito de oração que o canto deve ser escutado ou cantado, como dizia o Papa Pio XII:

“visto que a voz de quem reza repete os cantos escritos por inspiração do Espírito Santo, que proclamam e exaltam a perfeitíssima grandeza de Deus, é ainda necessário que a essa voz se junte o movimento interior do nosso espírito para fazer nossos aqueles mesmos sentimentos com os quais nos elevamos ao céu, adoramos a santíssima Trindade e lhe rendemos os devidos louvores e ações de graças: ´Devemos salmodiar de modo que a nossa mente concorde com a nossa voz´6. Não se trata, pois, de uma recitação somente, ou de um canto que, embora perfeitíssimo segundo as leis da arte musical e as normas dos sagrados ritos, chegue apenas ao ouvido; mas sobretudo de uma elevação da nossa mente e da nossa alma a Deus”7.

 

Origens do canto gregoriano

Após evocar os compositores desse canto, será útil ao nosso propósito dizer algumas palavras sobre a sua história.

Em conformidade com práticas que remontam ao Antigo Testamento, o uso do canto litúrgico na Igreja remonta ao início. Numa celebre carta ao imperador Trajano, Plínio, o Jovem, governador da Bitínia, descreve os católicos como homens que “se reuniam habitualmente num dia fixo [o domingo], antes do amanhecer, para cantar entre eles um cântico a Cristo como a um Deus”. Os católicos eram assim definidos como aqueles que cantam louvores a Cristo.

Mas, de quando data o canto gregoriano? Nos livros de canto que possuímos, as datas das composições das peças do Kyriale (isto é, Kyrie, Gloria, Sanctus, Agnus Dei) é indicada, por exemplo, como do XIo ou XIIo século. Mas, para o próprio das missas, nada está indicado. Qual é a razão disso? A data de composição de cada peça é a dos manuscritos mais antigos conhecidos, quando os encontramos; mas as peças próprias de cada missa formam os manuscritos mais antigos que possuímos, remontando ao IXo século. Antes dessa data, não existiam manuscritos e os cantos eram decorados. Portanto, as peças do próprio da missa já existiam no IXo século, no império de Carlos Magno, tal como as cantamos atualmente.

Mas, na verdade, o canto gregoriano é anterior a isso. Foi de São Gregório Magno (papa de 590 a 604) que tirou o nome. Não porque o canto tenha sido obra desse papa, mas por ter ele desempenhado um papel muito importante na refundação do repertório litúrgico. “Ele recolheu cuidadosamente e dispôs com sabedoria tudo o que os antigos haviam transmitido”8. Sua obra foi, portanto, a de reunir e ordenar “o tesouro das melodias sacras, a herança e a memória dos Padres.”9

“Do ponto de vista litúrgico e musical, o período criador estende-se do Vo ao VIIo século; no VIIIo século já havia se encerrado”10. Foi Carlos Magno que estendeu esse canto a todo o seu império: “a liturgia romana e o canto romano entraram na Gália franca sob Pepino, em 754, e foram impostos por Carlos Magno a todo o Império.”11 A perfeição desse canto era tamanha, a obra tão equilibrada e dotada de tal variedade, que ninguém ousou, a partir de então, retoca-la. Esse canto tornou-se a língua litúrgica de toda a Idade Média cristã.

O cantochão não foi uma obra artificial, uma construção que surgiu pronta num belo dia, como o esperanto, saída do cérebro de um intelectual. Suas origens ainda são misteriosas, mas os musicólogos pensam que partiu das ladainhas da liturgia sinagogal, das modas da música grega, dos velhos cantos celtas, gauleses ou romanos. Com esses elementos diversos, foi formado e lentamente elaborado por homens que lhe transmitiram sua marca própria: esses homens são os católicos. Quando esses homens receberam a revelação de que foram redimidos, reintroduzidos na família de Deus, feitos irmãos dos anjos pela graça e concidadãos dos santos, o seu canto precisou exprimir algo novo, algo que jamais havia sido expresso.

Canções de amor, de sofrimento ou marchas militares sempre foram inventadas, canções que exprimem a alegria ou o sentimento nacional -- ao menos é o que sabia fazer no passado, como testemunham muitas e admiráveis canções populares. Mas há uma coisa de que os cantos da terra não nos falam, a saber: da Beleza e da Bondade absoluta, de Deus. Se a alma iluminada pela fé conhece e saboreia o mistério da sua elevação à ordem sobrenatural, então, o seu canto não se assemelha a nenhum outro. O gregoriano não se assemelha a nenhum dos cantos de que lançou mão. A alma e a sensibilidade católica  os transformaram e transfiguraram para que pudessem dizer coisas que jamais foram ditas, e fazer com que servissem a um propósito que ultrapassa a ordem natural12.

Um pequeno número de exceções à parte, essas melodias são anônimas. Os nomes dos compositores não chegaram até nós. Poderíamos ver nisso uma intenção da Providência que, desejando dotar a Igreja de um canto muito próprio, dissimulou a sua origem sob o anonimato? Desse modo, as melodias não são de tal ou tal compositor, mas pertencem à Igreja. Camille Bellaigue escreveu a esse propósito: “Tudo que elas receberam dos homens, ainda que fosse um nome, pereceu. Elas só guardaram o que veio de Deus.”

 

A oração da Igreja

À nossa oração pessoal, o canto gregoriano acrescenta a eficácia espiritual da orgação da Igreja, posto que se trata aqui não da oração de um homem particular, ou de uma pequena comunidade, mas de um ato de toda a Igreja, da “sociedade do louvor divino” (como a definia Dom Guéranger), dito de outro modo, da Santa Igreja, do Corpo místico de Cristo, que apresenta pessoalmente – com Jesus à sua frente – essa súplica ao Pai.

A Igreja, e somente ela, possui o segredo da oração e sabe como se portar perante Deus. Ela traduz nesses cantos aquilo cujo segredo só ela possui. Ela mesma roga ao Pai, a Cristo, seu divino Esposo, por meio desses textos e dessas melodias. Nossas melodias são o seu canto. Exprimem os sentimentos com os quais presta culto ao Pai, por meio de Cristo, seu divino Esposo. Pois a liturgia não é outra coisa que a piedade da Esposa de Cristo que se une ao seu Esposo. Essa voz que nós ouvimos é a voz da Esposa que nos revela algo do seu mistério mais profundo. E nossa oração funde-se com a sua. Por meio dessas orações cantadas na liturgia, a alma da Igreja comunica-se a nossa, e essa alma é o Espírito Santo que a assiste sempre e que inspirou esses cantos.

Forma-se, assim, dia a dia, festa a festa, canto a canto, esse “sensus Ecclesiae” que cada católico pode adquirir quase automaticamente por meio da oração solene. A Igreja nos faz cantar como crê, como espera, como ama. O católico que entra nessa oração oficial e se associa a ela pode, com a certeza de ser ouvido, fazer seu o clamor da liturgia: “Não olhai os meus pecados, mas a fé da vossa Igreja.”

É por isso que a Igreja reconheceu no gregoriano o seu canto próprio. E o fez a tal ponto que podemos mesmo dizer que se tornou conatural à Igreja latina: quando a Igreja canta, exprime-se pelo gregoriano, que Dom Gajard chama de “o canto da Igreja em oração”, ou “oração cantada da Igreja”13.

Por essa razão, não é de se estranhar a beleza desse canto, pois a beleza da própria Igreja só poderia produzir algo belo. Posto que a Igreja é a Esposa de Cristo, sua música é um canto digno tanto de uma tal Esposa como de um tal Esposo. O gregoriano é, aqui embaixo, a antecipação do canto que ouviremos pela eternidade na Jerusalém celeste.

 

(Le Rocher, 54. Tradução: Permanência)

  1. 1. Dom Gajard foi por muito tempo mestre de coro dos monges de Solesmes, e dirigiu algumas gravações de grande reputação.
  2. 2. Dom Joseph Gajard: La vérité du chant grégorien, in Revue grégorienne, 1949.
  3. 3. Cf. P.-D. Delalande, O.P.: La valeur théologique et contemplative du chant grégorien, in Revue grégorienne, 1949.
  4. 4. Dom Joseph Gajard, art. Cit. La vérité du chant grégorien.
  5. 5. A. Guennant foi diretor do Instituto Gregoriano parisiense.
  6. 6. Capítulo XIX. Santo Agostinho já dizia: “Que nosso espírito esteja em conformidade com a nossa voz”.
  7. 7. Encíclica Mediator Dei.
  8. 8. Pio XII, Encíclica Musicae sacrae disciplina.
  9. 9. Pio XI, Constituição apostólica Divini cultus.
  10. 10. Pe. Delalande, O.P., em Initiation théologique (Cerf, 1949).
  11. 11. Dom Froger (monge de Solesmes): Origine, histoire et restitution du chant grégorien, na revista Musique et liturgie, fevereiro de 1951.
  12. 12. Essa idéia foi desenvolvida por Dom Gérard Calvet numa conferência pronunciada no dia 5 de junho de 1971 em Versailles, por ocasião do 6o congresso de Una Voce.
  13. 13. Revue grégorienne, 1949, p. 10.
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