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Um católico pode se tornar cúmplice do liberalismo de diversos modos, sem ser precisamente um liberal. Eis aqui um ponto prático, ainda mais prático que o anterior, e sobre o qual a consciência do fiel cristão nestes tempos deve estar cuidadosamente prevenida.
É certo que há pecados, de que nos fazemos culpados, não por verdadeira e direta comissão, mas por pura cumplicidade ou conivência com seus autores, sendo de tal natureza esta cumplicidade, que chega muitas vezes a igualar-se em gravidade ao ato pecaminoso diretamente cometido. Pode-se, pois, e deve aplicar-se ao pecado de liberalismo tudo quanto sobre esta questão da cumplicidade ensinam os autores de teologia moral.
Nosso objetivo é apenas deixar anotados aqui brevemente os principais modos pelos quais, acerca do liberalismo, se pode hoje tornar-se culpado por cumplicidade.
1° - Filiando-se formalmente a um partido liberal. É a maior cumplicidade nesta matéria, e mal se distingue da ação direta a que se refere. Há muitos que, em seu claro juízo, vêem toda a falsidade doutrinal do liberalismo, conhecem seus sinistros propósitos, e abominam sua detestável história. Mas por tradição de família, rancores hereditários, esperança de ganhos pessoais, reconhecimento de favores recebidos, temor de prejuízos que lhes possa sobrevir ou por outra causa qualquer, aceitam um posto no partido que sustenta tais doutrinas e propósitos, e permitem que sejam contados publicamente entre seus membros, e se honram com seu nome e trabalham sob sua bandeira.
Estes infelizes são os primeiros cúmplices, os grandes cúmplices de todas as iniqüidades do partido; e, mesmo sem conhecê-las detalhadamente, são verdadeiros co-autores delas e participam de sua imensa responsabilidade.
Assim, temos visto em nossa pátria verdadeiros homens de bem, excelentes pais de família, comerciantes ou artesãos honrados, figurar em partidos que trazem em seu programa usurpações e rapinas que nenhuma honradez humana pode justificar. São, pois, responsáveis diante de Deus por estes atentados, como o tal partido que os cometeu, sempre que esse partido os considere não como fatos acidentais, mas como um procedimento lógico do caminho que foi traçado. A honradez de tais sujeitos só serve para tornar mais grave esta cumplicidade, porque é claro que, se um partido mau fosse composto apenas de malvados, não haveria muito a temer dele. O horrível é o prestígio dado a um partido mau por pessoas relativamente boas, que o honram e recomendam figurando em suas fileiras.
2° - Sem estar formalmente filiados a um partido liberal, e mesmo declarando publicamente não pertencer a nenhum, tornam-se cúmplices ao manifestarem simpatias públicas por ele, elogiando seus personagens, defendendo ou desculpando seus jornais, tomando parte em seus festejos. A razão é evidente. O homem, sobretudo se vale alguma coisa por seu talento ou posição social, favoriza muito uma idéia qualquer quando se mostra em relações mais ou menos benévolas com seus fautores. Dá mais com seu prestígio pessoal do que se desse dinheiro, armas, ou qualquer outro auxílio material. Assim, por exemplo, um católico, sobretudo se é sacerdote, quando honra um jornal liberal com sua colaboração, o que faz é favorecê-lo com o prestígio de sua firma, ainda que com esta firma não defenda a parte má do jornal, e ainda que discorde publicamente desta mesma parte. Dir-se-á talvez que escrever ali é um meio de fazer com que muitos ouçam a voz da verdade, que em outro jornal não seria escutada. É verdade, mas por outro lado, a firma de um homem bom serve ali para abonar tal jornal à vista dos leitores pouco hábeis em distinguir as doutrinas de um artigo das de outro. Assim, o que se pretendia que fosse um contrapeso e uma compensação ao mal, se converte, para a maioria dos leitores, em uma efetiva recomendação dele. Mil vezes temos ouvido: "Será mau esse jornal? Ora, não escreve nele D. Fulano de tal?" Assim raciocina o vulgo, e vulgo é quase a totalidade do gênero humano. Por desgraça, é frequentíssima em nossos dias esta cumplicidade.
3° - Torna-se culpado de verdadeira cumplicidade quem vota em candidatos liberais, ainda que não se vote neles porque são liberais, mas por causa de suas opiniões em economia política, administração etc. Por mais que numa questão destas possa tal deputado estar de acordo com o catolicismo, é evidente que nas demais questões falará e votará segundo seu critério herético, e se tornará cúmplice de suas heresias quem o colocou na posição de escandalizar com elas o país.
4.º - É cumplicidade assinar um jornal liberal, ou recomendá-lo em um jornal de sã doutrina, ou lamentar seu desaparecimento ou sua suspensão pelas falsas razões de companheirismo ou de falsa cortesia. Ser assinante de um jornal liberal é dar dinheiro para fomentar o liberalismo. Mais ainda, é fazer com que, pelo exemplo, outro incauto se decida a lê-lo. É, além disso, ministrar à família e aos amigos da casa uma leitura mais ou menos envenenada. Quantos jornais maus seriam obrigados a renunciar da sua perniciosa e deplorável propaganda, se não fossem sustentados por assinantes tão ingênuos! O mesmo dizemos dos chavões dos jornalistas: "nosso estimado colega", ou aquela outra, de desejar-lhe "um grande número de assinaturas", ou a mais comum, "sentimos a perda do nosso colega", clichês usados quando se trata do primeiro número ou da suspensão de um jornal liberal. Não deve haver estes compadrios entre soldados de bandeiras tão opostas, como são a de Deus e a de Satanás. Ao cessar ou ser suspendido um jornal destes, deve-se dar graças a Deus, porque Sua Divina Majestade conta um inimigo a menos; e no dia de sua aparição, longe de saudar sua vinda, deve-se lamentá-la como uma calamidade.
5° - É cumplicidade administrar, imprimir, vender, distribuir, anunciar ou subvencionar jornais ou livros liberais, ainda que se o faça em conjunto com outros que são bons e ainda que seja por mera profissão, como meio material de ganhar o sustento diário.
6° - É cumplicidade dos pais de família, diretores espirituais, chefes de oficinas, professores e mestres, ficar em silêncio quando são perguntados sobre este tema, ou simplesmente não o explicar, quando têm a obrigação de ilustrar as consciências de seus subordinados.
7° - É cumplicidade às vezes ocultar suas boas convicções, dando assim ocasião de suspeitar que elas sejam más. Não se pode esquecer que há mil ocasiões em que é obrigação do cristão dar testemunho público da verdade, mesmo sem ser formalmente requerido.
8° - É cumplicidade comprar, sem autorização da Igreja, propriedades pertencentes ao clero ou obras de beneficência, ainda que a lei de desamortização as ponha em leilão, a não ser que sejam compradas para serem devolvidas ao legítimo dono. É cumplicidade remir foros eclesiásticos sem a permissão do verdadeiro senhor deles, ainda que se apresente muito lucrativa a operação. É cumplicidade intervir como agente em tais compras e vendas, publicar os anúncios de leilões, praticar corretagens etc. Todos estes atos trazem também consigo a obrigação de restituir na proporção do que com eles se contribuiu para a iníqua espoliação.
9° - É cumplicidade, de algum modo, emprestar a própria casa ou alugá-la para obras liberais, tais como: escolas laicas, clubes, redação de jornais liberais etc.
10° - É cumplicidade celebrar festas cívicas ou religiosas em homenagem a atos notoriamente liberais ou revolucionários; assistir voluntariamente a tais festas; celebrar exéquias patrióticas cujo caráter seja mais revolucionário que cristão; pronunciar elogios fúnebres de defuntos notoriamente liberais; adornar seus sepulcros com coroas e fitas etc. Quantos incautos terão vacilado na fé por essas causas!
Fazemos estas indicações compreendendo só as cumplicidades mais freqüentes nesta matéria. Elas podem variar tanto como os atos da vida do homem, que, por serem infinitos, são inclassificáveis.
Grave é a doutrina que acabamos de assentar; porém se a teologia moral é segura, aplicada a outros erros e crimes, por que será menos aplicável ao objeto de nosso atual exame?
Jesus veio para Nazaré e vivia sujeito a eles (Evangelho).
Paramentos brancos
“Não era acaso conveniente, diz São Leão, celebrar o nascimento real do Filho do Pai eterno, a casa de David, e os nomes gloriosos dessa antiga linhagem? Mas é mais doce ainda para nós recordar a pequena casa de Nazaré e a humilde existência que aí se passa; é mais doce celebrar a vida obscura de Jesus. É aí que o Divino Infante se exercita no humilde ofício de carpinteiro, aí, na sombra, cresce em idade, mostrando-se feliz por partilhar dos trabalhos de São José.
Que o suor, diz ele, banhe os membros antes de os inundar a efusão do sangue redentor, que a mortificação do trabalho sirva também de expiação para o gênero humano. Junto do Menino se encontra sua terna Mãe, junto do Esposo a Esposa dedicada. Como ela se julga feliz em poder aliviar, com afetuosos cuidados, as sua penas e fadigas”. “Ó vós que não fostes isentos nem de preocupações nem de trabalhos, e que conhecestes o infortúnio, olhai para os desgraçados que lutam contra as dificuldades da vida e se veem na indigência”. (Hino de Matinas).
Na humilde casa de Nazaré, Jesus, Maria e José santificaram a vida familiar pelo exercício das virtudes domésticas (Oração). Praticaram a humildade, a paciência, a moderação, a ajuda mútua, a caridade, o respeito e a obediência, de que nos falam a Epístola e o Evangelho da Missa. Vivendo sempre no recolhimento e na oração, encontraram a alegria e a paz. Oxalá a grande família que é a Igreja e cada lar cristão pratique na terra as virtudes que praticou a Sagrada Família a fim de que possa viver um dia em sua santa companhia no Céu (Oração).
Da Epístola: Devido à grande misericórdia perdoou-nos Jesus as nossas faltas formando a grande família da Igreja que Ele é o Chefe. Saibam os que dela fazem parte agradecer a Deus e usar de misericórdia uns para com os outros.
Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.
Dom Lourenço Fleichman, OSB
A Permanência nasceu das aulas de Gustavo Corção. Nasceu da necessidade de dar continuidade ao trabalho de formação intelectual iniciado no Centro Dom Vital, onde Corção ensinou a doutrina Tomista durante muitos anos. Da decomposição dos princípios e intenções do seu fundador, Jackson de Figueiredo, devido às inclinações marxistas do então presidente, Alceu Amoroso Lima, não restou outra solução a Corção e a seus alunos senão abandonar aquele alto lugar de estudos católicos. Estávamos em tempos do Concílio Vaticano II. Alguns anos mais tarde seria fundada a nossa Permanência. Tinha sede em Laranjeiras, onde o Cardeal Dom Jaime Câmara celebrou a missa inaugural, em 29 de setembro de 1968. Os trabalhos foram iniciados com o lançamento da Revista Permanência, modesta no tamanho, grande no conteúdo, e que levou a todo o Brasil ao longo de 22 anos, a doutrina da Tradição católica, segura, apaziguadora, infalível. Como nossos leitores sabem, retomamos a publicação da Revista no Natal de 2011.
No último mês de novembro foi realizada numa fazenda perto de Taubaté, S.P., a Jornada de Formação, organizadas pela Fraternidade São Pio X, com a colaboração da Permanência, e que reuniu cerca de oitenta pessoas, entre jovens e adultos. O tema desse ano foi, justamente, a formação intelectual do católico, seus estudos, a necessidade de se aprofundar o catecismo para respondermos aos questionamentos constantes das pessoas que nos cercam, no trabalho, na escola, nas ruas da cidade.
As conferências estiveram a cargo dos padres que trabalham no Brasil, mas foram enriquecidas pela vinda do Pe. Alvaro Calderón, professor no Seminário N. Sra Corredentora, em La Reja, Argentina, um dos principais teólogos da Fraternidade S. Pio X.
Sua conferência tratou de interessante paralelo entre as quatro Notas da Igreja, Una, Santa, Católica e Apostólica, e a família católica. Por esta analogia mostrou com clareza a diferença entre a família católica e a família liberal.
Se nossas famílias da Tradição não estiverem atentas com o modo de interagir com o mundo liberal, serão contaminadas e porão em risco os fundamentos da sua essência, perdendo, em seguida, o caminho para alcançar o seu fim último, que é a salvação dos seus membros.
Para evitar a contaminação com o espírito liberal e os erros modernos, devemos considerar com toda a atenção o que está acontecendo hoje com a humanidade, em termos civilizacionais.
No seu livro Dois Amores Duas Cidades, Gustavo Corção explica o aparecimento, no século XIV, do principal personagem dos tempos modernos, após a quebra da Idade Média católica:
“Entra em cena agora o personagem que desempenha o papel mais importante dos tempos modernos; ou melhor, o personagem cujo tipo, cuja índole, cujos códigos, em resumo, cujo espírito constitui um dos mais característicos fatores da nova civilização. Trata-se do “burguês”, que é o invasor dos tempos modernos pelas forças da Renascença e da Reforma, como os bárbaros foram os invasores do Império Romano. (...) Queremos dizer que surgiu um novo ideal coletivo, que diferenciou-se um novo super-ego, ou que ascendeu ao firmamento da mitologia do tempo um novo arquétipo.”
A força civilizacional do espírito burguês, característica da quebra da civilização do homem interior, do homem católico, produziu a civilização do homem exterior, do homem moderno, como explica Corção. Esse homem burguês produzirá na sociedade uma vida voltada para o enriquecimento e para a boa aparência; a moral burguesa estabelecerá suas regras de conduta, seu comportamento estereotipado, rígido e falso, isento de Deus, mas ainda envolvido em um ambiente estoico de domínio de si e desprezo das fraquezas humanas.
Mais tarde, nos séculos XVIII e XIX, o espírito burguês não conseguirá mais manter as aparências de uma falsa moralidade sem Deus, e deixará transparecer sem maiores escrúpulos o mundanismo sensual que culminará, no final do século XIX, na manifestação de homens importantes da cultura e da política, mergulhados no homossexualismo e no adultério generalizado.
Apesar da reação antimodernista de São Pio X e do crescimento, na primeira metade do século XX, do catolicismo tradicional, a Revolução triunfou no Concílio Vaticano II, derrubando as muralhas espirituais e morais que a Igreja Católica representava na tentativa de manter viva a Civilização Católica Ocidental. Ainda não se conseguiu medir com precisão a gravidade e o alcance civilizacional dos desmandos dos papas e bispos que atacaram com força total a Tradição da Igreja, precipitando-a na mais grave crise de toda a sua história, e abandonando seu papel de represar a decadência da humanidade caminhando para o inferno.
Mas o tempo passa inexorável e insistente, deixando para trás os séculos que se reputavam grandiosos e inovadores. O novo século, o nosso eletrônico e digital século XXI, modificou profundamente o homem em seus interesses e em seu comportamento. Deu a ele ferramentas novas que moldaram a humanidade no que talvez seja seu derradeiro estado.
O espírito burguês surgido no século XIV iniciou uma civilização fundada na concupiscência dos olhos, na busca das riquezas e das aparências enganadoras; mesmo as grandes navegações, que tanto nos encantam por diversos aspectos, não deixaram de ser uma busca intensa pelas riquezas do oriente e pelas novidades do mundo lá fora. Mercantilismo dominante, produção do dinheiro e aparecimento do Capitalismo materialista, que mistura à liberdade própria do espírito humano, a ganância das paixões isentas da Lei de Deus.
O enriquecimento brutal das nações não podia deixar de ser seguido por certo conforto e deleites da vida. O espírito mundano será um passo a mais, a conseqüência natural do dinheiro fácil. Por isso a civilização nova será movida agora também pela concupiscência da carne.
Nesse início de século XXI, estamos assistindo ao aparecimento de um novo homem, de uma nova civilização, ou, se preferirem, do acabamento dessa civilização moderna iniciada há mais de setecentos anos atrás. Depois de estabelecer na cultura e nas artes, nas casas e nas tabernas, nas cidades e no campo, um mundo marcado pelas riquezas e pelos prazeres, o homem respira, hoje, por todos os poros, a soberba da vida; a última concupiscência que faltava como força de civilização, como preparação para o Anti-Cristo. Com ela termina a formação desse homem sem Deus, sem família, sem Pátria.
Este é o principal aspecto do que estamos vivendo hoje. Impregnou-se nas almas uma nova mitologia, como falava Corção acima; não mais homens isolados que vivem do orgulho ou do egoísmo, mas a própria civilização que erigiu a soberba da vida como sistema, completando assim o quadro em que aparece o Adão terminal, o terceiro Adão, o autor do que Corção chamou de “pecado terminal”, fonte do século do desamor.
Esta civilização fundamentada no Amor-próprio, depois de ter desviado seus olhos e interesses das coisas do alto para buscar as riquezas da terra; depois de ter desviado seus atos da fortaleza e pureza da vida para mergulhar nos prazeres da carne, volta-se agora para a destruição de toda e qualquer autoridade, para o achincalhe do 4º Mandamento.
“Vêem-se tendências contestatárias, torrentes de recusa e de protesto atiradas contra o passado, contra a tradição, contra o pai. As novas gerações são solicitadas a manifestarem sua maioridade com a bofetada na mãe e a morte do Pai”...
“O mundo moderno, nos seus pruridos revolucionários, é anticristão porque é todo orientado por uma soberba rejeição do Pai. E para maior escárnio inventaram uma fraternidade revolucionária baseada na decapitação do Rei, já que não tinham à mão a própria cabeça do Pai que está no Céu.”
No advento das grandes Revoluções, o desprezo pela autoridade do pai era assunto dos salões e dos livros de filósofos iluministas; tornou-se lei quando os revolucionários ocuparam o poder; hoje está presente no ar que se respira e ocupou as almas de modo universal. Mesmo nas melhores famílias católicas, formadas em torno das Capelas tradicionais, reina este espírito de soberba que se manifesta pela completa autonomia de pensamento, de decisões e de gostos.
Jovens dos dois sexos, às vezes crianças, adultos e velhos, todos partem do princípio de que cada um tem sua opinião, que todos têm o direito de manifestá-la livremente, e que as tradicionais instituições reguladoras e orientadoras das almas: a família, a paróquia, a escola, já não podem mais se manifestar.
O amor-próprio manifesta-se, em primeiro lugar, na nossa inteligência, estabelecendo o reino da opinião. Seria útil que o leitor retorne à leitura de alguns capítulos do livro A Descoberta do Outro, onde Gustavo Corção explica o processo da opinião na alma humana. A inteligência fica cega e não consegue enxergar a verdade.
Em seguida, o amor-próprio age na nossa vontade inclinando-a a tomar decisões baseadas em suas próprias opiniões, causando equívocos e erros difíceis de serem revertidos.
Finalmente, o amor-próprio excita nossa sensibilidade, causando paixões exageradas que nos impedem de perceber o erro das decisões da vontade e o vazio da argumentação das opiniões.
Os prodígios do Anti-Cristo foram então oferecidos a esta geração, filhos do orgulho. Abriu-se para o homem atual grande quantidade de ferramentas modernas, digitais, suficientes para que a civilização da soberba se manifestasse de modo integral e completo. Esse ambiente generalizado de blogs e facebooks era tudo o que o homem dessa civilização precisava para vomitar suas opiniões sobre tudo e sobre todos.
Não há mais regras, não há mais leis, não há mais espírito de obediência ou de humildade. Cada um encontra em sua casa, em sua vida, no trabalho ou na condução, o meio de estar conectado em tempo integral, ocupando sua mente e seus interesses com o mais superficial, raso e vazio oceano de mediocridades. Sente o prazer irresistível da força fictícia e enganadora, da aparência de autonomia de pensamento, de liberdade de escolhas, de impressão de erudição, falsa cultura de uma alma inebriada do seu próprio nada.
Trazemos um exemplo marcante ocorrido recentemente no ambiente da Tradição e que ainda incendeia as almas. Advertimos o caro leitor para o fato de não estarmos ocupados com o mérito da questão, mas tão somente com o método adotado pelo homem do orgulho e da soberba no caso vertente. Pela primeira vez desde a sua fundação, a Fraternidade São Pio X atravessou uma crise interna sem ter conseguido guardar um único segredo. Diante da exposição constante na internet, dos mais sigilosos documentos, se enganaria o leitor que imaginasse a existência de um sussurro que fosse, soprado ao pé do ouvido, e que não tivesse sido revelado. Não houve. Como se a casa de Monsenhor Marcel Lefebvre tivesse virado um botequim ou uma rua de vila, tornou-se proibido guardar segredo; uma espécie de “permissão” parecida dada para que cada um tirasse suas conclusões apressadas, totalmente fora do alcance de qualquer autoridade sobre esta terra, e mesmo no céu.
Não é difícil entender por que este ano ficou famoso pela enxurrada de falsos doutores, cada qual ocupado na estranha tarefa de tornar pública e notória sua própria opinião, exposta na vitrine da internet de blogs e facebooks. Em cada um desses casos não se encontra nenhum vínculo verdadeiro com uma autoridade qualquer. Ei-lo o homem pós-moderno, o homem sem limites, sem leis, sem freios. Desembestou pelas ladeiras e curvas desse mundo e já não consegue mais parar. Em algum lugar será encontrado meio morto, levado pela fúria do seu falso saber, enganado por suas próprias decisões. E quando um anjo se aproximar, ouvirá da sua boca cheia de terra, num último sorriso, a confissão do seu pecado: “eu sou um gênio”.
“A alma que se conhece a si mesma se humilha. Nada vê, com efeito, de que possa se orgulhar. Ela alimenta dentro de si o doce fruto de uma ardente caridade, conhecendo nela a bondade sem limites de Deus.” (Santa Catarina de Sena, Carta ao Papa Gregório XI)
“A humildade recomenda a pequenez dos meios, sem recomendar a pequenez dos fins. Quanto aos fins, é tão magnânima como a magnanimidade. Santa Teresinha do Menino Jesus escolheu a pequena Via, porque queria ir mais longe e mais alto” (Gustavo Corção, Dois Amores Duas Cidades, Vol. II, parte I, cap. 3, pag. 109-110)
(Editorial da Revista Permanência 268)
Pe. Hervé Gresland,FSSPX
Nesse ano do centenário [o artigo é de 2014 - N. da P.], a fim de nos remetermos à escola da pura e luminosa figura de Pio X, estudemos um pouco a santidade do único papa canonizado desde o século XVI. A atualidade nos obriga a começar por emitir sérias reservas no que diz respeito às canonizações recentes. Após as pretensas “canonizações” dos Papas João XXIII e João Paulo II, o presente estudo nos permitirá recordarmos o que é a verdadeira santidade.
O programa do seu pontificado
O filho do agente comunal de Riese conheceu uma “prodigiosa ascensão desde a pequenez da aldeia natal e desde a humildade do nascimento aos cumes da grandeza e da glória sobre a terra e no céu” ; foi-lhe dado conhecer a vida da Igreja de ponta a ponta, se assim podemos dizer, visto que foi, sucessivamente, vigário, cura, cônego, professor, chanceler, bispo, cardeal e, finalmente, papa. Em todas essas funções, pôde demonstrar a sua grande alma, em particular no papado: o povo via nele um santo, e dizia: “Il Papa Sarto, il Papa santo.”
Na sua primeira encíclica, São Pio X anunciou o programa do seu pontificado, declarando que seu único fim era o de “instaurare omnia in Christo”, ou seja, restaurar tudo em Cristo, reconduzir tudo à unidade de Cristo. Ele retornará incessantemente a essa idéia: os ensinamentos e os atos do seu pontificado resumem-se inteiramente nessa firme vontade de reconduzir tudo a Cristo, para render a Cristo o primado que lhe pertence de direito. Mas, como realizar esse programa? Pelos padres, pois eles são o meio instituído por Jesus Cristo para estabelecer o seu reino. “Para fazer Jesus Cristo reinar sobre o mundo, nada é mais necessário do que a santidade do clero, a fim de que, pelo exemplo, pela palavra e pela ciência, seja o guia dos fiéis que, conforme um antigo provérbio, sempre serão tais como forem os padres: Sicut sacerdos, sic populus”.
“Ele via no sacerdócio, com razão, o fundamento indispensável para a realização do seu programa de restauração de todas as coisas em Cristo (...). Essa convicção era tão viva nele, que, quando foi diretor espiritual do seminário de Treviso, ou bispo de Mântua, ou ainda patriarca de Veneza, estava como que obcecado por essa ideia” . Pode-se escrever que “o aspecto mais evidente da santidade de Pio X era, antes de tudo, sacerdotal. Ele teve realmente o gênio do sacerdócio” .
Os padres foram, portanto, o objeto privilegiado das suas solicitudes, sobretudo porque compreendia a ameaça que o mundo moderno representava especialmente para o padre (pois o demônio sabe bem onde atacar para destruir a Igreja). Bispo, zelava pessoalmente pela formação dos seminaristas. Papa, desde o início do seu pontificado, recomendou instantemente aos bispos de pôr todo o seu empenho em formar Cristo naqueles cuja missão é a de formar Cristo nos outros: “Se assim é, Veneráveis Irmãos, quão grande não deve ser a vossa solicitude para formar o clero na santidade! Não há negócio que não deva ceder o passo a este. E a consequência é que o melhor e o principal do vosso zelo deve aplicar-se aos vossos Seminários” . Ele demanda que, nos seminários, zele-se pela integridade da doutrina: cuidado com “uma certa ciência nova que se enfeita com a máscara da verdade e onde se não respira o perfume de Jesus Cristo; ciência mendaz que, com o favor de argumentos falazes e pérfidos, se esforça por abrir caminho aos erros do racionalismo ou do semi-racionalismo”.
O documento que revela melhor a sua alma de padre, pai dos padres, é sua comovente exortação Haerent animo, que ainda guarda toda a sua atualidade, pois o sacerdócio permanece e permanecerá sendo aquilo que é desde que Jesus Cristo o instituiu. O papa recorda aos bispos o seu dever primordial de se ocupar dos padres e, aos padres mesmos, a necessidade de trabalharem para a sua própria santificação, de modo a se assemelharem mais e mais com Jesus, o Padre eterno. O que é mais necessário ao padre é a santidade, pois a Igreja tem necessidade, sobretudo, de padres verdadeiramente santos, de padres que rezam, que oram: isso é algo de importância capital. Podemos constatar a mediocridade espiritual e a fragilidade de um padre sem oração. Um padre sem fervor tem pouca eficácia apostólica. Ao contrário, um padre verdadeiramente santo possui uma eficácia impressionante.
Paralelo entre São Pio X e Dom Marcel Lefebvre
É muito interessante constatar que encontramos o mesmo pensamento no nosso fundador, Dom Marcel Lefebvre. Para ele, o diagnóstico era claro: “A causa fundamental da crise é o embotamento do sacerdócio” . Ele indica o remédio, que é o seu pensamento profundo, no prefácio do seu Itinerário espiritual:
“Diante da degradação progressiva do ideal sacerdotal, transmitir, em toda a sua pureza doutrinal, em toda a sua caridade missionária, o sacerdócio católico de Nosso Senhor Jesus Cristo, tal como Ele o transmitiu aos seus apóstolos e tal como a Igreja romana o transmitiu até meados do século XX”.
“Como realizar este que me parecia então o único caminho para a renovação da Igreja e da Cristandade? (...) O desejo de fundar as vias da verdadeira santificação do padre nos princípios fundamentais da doutrina católica e da santificação católica e sacerdotal sempre me absorveu (...) É pela razão do reinado de Nosso Senhor não estar mais no centro das preocupações e das atividades daqueles que são nossos “praepositi” que eles perdem o senso de Deus e do sacerdócio católico, e que nós não os podemos mais seguir”.
Percebemos que nosso fundador está perfeitamente alinhado com São Pio X. Para ambos, o fim a ser perseguido é o reinado de Nosso Senhor, que deve estar no “centro das nossas preocupações e das nossas atividades”; o caminho para atingi-lo é o autêntico sacerdócio católico, a santidade dos padres. Esse parentesco das visões de São Pio X e de Dom Marcel Lefebvre sobre o lugar central do padre é uma das razões que levaram o bispo a escolher o santo papa como patrono da sua Fraternidade: “A Fraternidade coloca-se sob o patrocínio de São Pio X, porque a preocupação primordial dessa santo papa foi a integridade do sacerdócio e a santidade que dele decorre” .
Uma ação impregnada do sobrenatural
Como todo bom papa, Pio X procurou santificar o rebanho que Jesus Cristo lhe confiou. Sua grandeza vinha de que ele mesmo estava repleto de vida sobrenatural, e seu pontificado não tinha outro fim que o de transmitir essa vida às almas. Ele recordou pela palavra e pelo exemplo que o primeiro dever de cada um é de tender à santidade: é sempre ao buscar a santidade na intimidade das almas que a Igreja encontra uma juventude renovada. O segredo da reforma estará sempre na união com Nosso Senhor pela oração, pelos sacramentos, pela fidelidade, pela mortificação. Ao invés de buscar inventar novas teorias, novas espiritualidades, ao sabor da fantasia de cada um, é preciso se aplicar a encontrar a santidade tal como a Igreja nos ensina na sua tradição e no exemplo dos seus santos. Não há santidade sem a graça; não há apostolado verdadeiro e eficaz sem vida interior, sem uma vida interior fundada na autêntica tradição espiritual da Igreja, isto é, à base de oração. Não poderia haver espiritualidade verdadeira onde falta o senso de adoração ou o espírito de sacrifício.
É a preocupação de ir às fontes da vida sobrenatural que levou São Pio X a conduzir o povo fiel à Eucaristia. Coube a ele ser, em nosso tempo, o papa da Santa Eucaristia. Se ele quis que os católicos vivessem mais desse sacramento, é que ele mesmo viveu intensamente dele. “A Eucaristia é o centro da fé”, dizia, e sua fé ardente encontrava nela o seu alimento. Seus decretos sobre a comunhão das crianças representaram uma revolução na Igreja, a ponto de provocar algumas resistências. Ele “deu Jesus para as crianças e as crianças para Jesus” e foi o promotor da Cruzada eucarística, suscitando assim santos no meio das crianças.
São Pio X conhecia a importância da beleza do culto para elevar as almas, em particular, a importância da música sagrada, pois a música tem um poder sobre as almas que as demais artes não tem: pode lhes rebaixar como pode lhes abrir as portas da contemplação. É por isso que ele restabeleceu o canto litúrgico na sua pureza e na sua primitiva beleza, foi o restaurador do canto gregoriano. O canto gregoriano é, a um tempo, arte popular e uma arte que nos introduz nos mais altos mistérios da fé pelo seu caráter sobrenatural. É o melhor educador da vida espiritual.
É preciso dizer, portanto, que, para São Pio X, importava sobretudo o conhecimento da doutrina católica, o ensino do catecismo, tanto aos adultos como às crianças. Por toda a sua vida deu a isso uma importância primordial, e sempre deu o exemplo: mesmo quando era papa, em certos domingos, após o almoço, ele mesmo comentava o evangelho do dia para os fiéis das paroquias de Roma. Por isso foi muito justamente chamado de papa da doutrina cristã.
A santidade de Pio X
Com relação aos santos de épocas mais distantes, cuja fisionomia mal conhecemos, quando conhecemos, temos a felicidade de possuir muitas fotografias de São Pio X. “Quando estudamos uma série de retratos desse grande papa nas diferentes idades da sua vida, ficamos impressionados com a harmonia cada vez mais radiante que deles depreende. É preciso que essa alma tenha sido constantemente fiel às inspirações do Espírito Santo para que emane dela um charme tão sobrenatural” . O rosto é enérgico e ponderado, com uma grande distinção. Os traços são amáveis, o olhar paternal e bom. Esse rosto irradia uma bondade envolvente e uma mansidão impregnada de força. Assim, a vida de Deus na alma se manifesta exteriormente.
O que caracteriza um santo são as virtudes, e as de Pio X foram, ao longo da sua vida, cada vez mais arrebatadoras. Seu espírito eminentemente sobrenatural vivia da fé, na dependência da Providência. Assim como nasceu em uma família modesta, quis viver e morrer pobre. Era a um tempo firme e doce, simples, afável e acessível a todos. Sua caridade foi atestada por uma quantidade de testemunhos que nos revelam um coração inesgotável, transbordando de amor pelo próximo.
A oração da sua festa ressalta duas qualidades em especial com que Deus o dotou “para defender a fé católica e reunir todas as coisas em Cristo”: uma sabedoria celeste e uma força apostólica, isto é, digna dos apóstolos. Detalhemos essas duas qualidades.
A sabedoria divina com que Deus o cumulou lhe deu a luz nas conjunturas mais difíceis. Ela se manifestava por “uma amplidão e uma clareza de vista que são próprias dos santos”. E que força de persuasão!
“A sua palavra era trovão, era espada, era bálsamo; comunicava-se intensamente a toda a Igreja e estendia-se muito ao longe com eficácia; atingia o irresistível vigor, não só pela incontestável substância do conteúdo, mas também pelo seu íntimo e penetrante calor. Sentia-se nela ferver a alma de um Pastor que vivia em Deus e de Deus, sem outro objetivo senão levar para Ele os seus cordeiros e as suas ovelhas.”
Como um bom pastor vigilante, que cuida do seu rebanho, praticou de maneira eminente e mesmo sublime as duas virtudes necessárias a todo aquele que governa: a prudência e a força. “o formidável furacão provocado pelos que negam a Cristo e pelos seus inimigos, soube demonstrar desde o princípio uma consumada experiência no manejo do leme da barca de Pedro”, declarou Pio XII. A sabedoria do seu governo, que todos admiravam, mostrava que ele estava inspirado por Deus.
Ao mesmo tempo, o seu coração magnânimo lhe permitiu empreender numerosas reformas na Cúria romana, o direito canônico, o breviário... Diante da imensidade da tarefa, era preciso uma coragem e um zelo sobrenatural para se pôr a obra. Ele se mostrou intrépido na defesa da fé e da Igreja, e “demonstrou no seu espírito a indomável firmeza, a robustez viril, a grandeza da coragem, que são as prerrogativas dos Heróis da santidade.”
“Aos olhos do mundo moderno, viu-se surgir essa grande figura de doutor, de pai, de chefe. Esse santo monarca espantou pelo vigor extremo com que apoiou os direitos da verdade e da justiça, pela grandeza de alma que lhe permitiu afrontar o ódio dos homens para manter-se fiel a Deus, pela força que nele se unia à mansidão de uma caridade inextinguível.”
Seu equilíbrio, tanto na ordem natural como na sobrenatural fazem dele um papa modelo. É essa harmonia de virtudes no heroísmo que marca a verdadeira santidade, pois ela só pode ser encontrada numa estreita união com Deus. Entre os papas dos últimos séculos, não há nenhum que alcance tantos méritos e virtudes.
Que do céu a sua intercessão nos assegure a fé nesses tempos difíceis! Que seu exemplo suscite uma geração de padres que possuam todas as virtudes sacerdotais das quais ele deu um tão belo exemplo, e um devotamento sem reservas à Santa Igreja!
(Le Rocher, junho de 2014. Tradução: Permanência)
Pe. Dominique Bourmaud, FSSPX
Santo Ambrósio disse que toda verdade, seja qual for, é obra do Espírito Santo. A verdade cristã, à primeira vista, apresenta um rosto eminentemente humilde e humano, porque se fundamenta no patrimônio de toda a humanidade, composto pelas verdades mais simples e evidentes. Este conhecimento se dá em dois níveis. No nível do vivido, é determinado pelo que nós chamamos verdades do senso comum; e, no nível científico, é constituído pelas verdades de ordem filosófica. O esforço filosófico, como parecem sugerir seus primórdios históricos, funda-se, de fato, em verdades do senso comum, que provocam a surpresa e a admiração dos homens ávidos de sabedoria. Em todo caso, o conhecimento natural começa, progride e termina sempre na realidade concreta. Pensar no nada equivale a não pensar, pois todo juízo é, em última instância, um juízo de existência.
Os sofistas, no tempo de Aristóteles, negaram esta postura natural e realista. As posições dos sofistas e do evolucionista Heráclito permitem-nos, de agora em diante, explicar as noções tipicamente modernistas em matéria de filosofia, para as quais estabeleceremos um epíteto característico. Denominaremos o agnosticismo de ignorantista; o imanentismo, de egologista; e à evolução, de revolucionista.
1. Os primórdios da filosofia
A investigação das coisas e das suas causas, a filosofia propriamente dita, começou com os gregos no século VI antes de Cristo. De todas as culturas antigas, foram eles, e somente eles, que nos ensinaram a pensar, uma vez que as demais civilizações baseavam-se em crenças religiosas e consideravam a razão como uma intrusa. Ora, quando se contempla a filosofia grega em seu conjunto, a primeira coisa que se observa é o estado de trevas que rodeava os raros gênios que a iluminam. A reflexão sobre a essência das coisas é uma tarefa árdua à natureza ferida. Foi preciso toda a serenidade e equilíbrio mental dos gregos para lançar-se à investida da verdade somente com a ajuda da experiência. Os primeiros esforços filosóficos foram reflexões na escuridão. Durante muito tempo, os gregos buscaram somente na matéria a causa de todas as coisas. Heráclito pertenceu a essa escola, mas suas teorias, mais que raciocínios no escuro, foram como a visão de um ébrio que acredita que tudo dá voltas ao seu redor: tudo muda, nada permanece, não há ser. Quando Parmênides opôs o ser à mudança perpétua, começou na Grécia uma guerra de titãs que terminaria estagnando-se no sofisma cético. Seja como for, vê-se que a filosofia, desde seus primórdios, interroga-se sobre a existência da matéria e do movimento, isto é, sobre a experiência concreta. Este é o ponto cardeal do pensamento humano, que veremos reaparecer continuamente ao longo das especulações helênicas.
Neste céu obscuro apareceram, então, sucessivamente, os três maiores luminares da sabedoria grega: Sócrates, com sua busca das essências; Platão, que só contempla as perfeições em suas causas mais elevadas; e Aristóteles, que se torna, para sempre, como que a estrela polar do firmamento filosófico. Se é verdade que certos homens encarnam o gênio de um povo, e que estes vastos e poderosos espíritos são como o ato e a perfeição em que todo um mundo de virtualidades alcança seu termo e seu acabamento, Aristóteles, mais do que qualquer outro, foi um desses homens. Nele, o gênio filosófico da Grécia encontrou sua expressão mais perfeita e universal.
Nascido em Estagira, cidade de Trácia, Aristóteles (384-322) viajou à Atenas aos dezessete anos para converter-se em humilde discípulo de Platão durante nada menos que vinte anos. O mestre apreciava o espírito vivaz de seu aluno, a quem chamava a Inteligência. Por outro lado, Aristóteles não hesitava em manifestar certa independência em suas ideias: «Sou amigo de Platão, porém mais amigo da verdade». Durante três anos, foi preceptor do filho do rei da Macedônia, o futuro Alexandre Magno. Pode-se pensar que os elevados pontos de vista de um mestre de tamanha envergadura tiveram muita influência no ideal de conquista e civilização universal de Alexandre. De regresso a Atenas, Aristóteles fundou sua própria escola no Liceu, que, em pouco tempo, eclipsou a Academia fundada por Platão. Morreu em Cálcis, aos sessenta e dois anos.
A herança aristotélica chegou à Europa de maneira indireta, através dos árabes da Espanha meridional, antes de fazer sua entrada triunfal nas universidades do Ocidente, no século XIII, e estimular poderosamente a cultura cristã. Como não ver uma intenção providencial no papel extraordinário que desempenhou essa sabedoria pagã, que se revelará como o instrumento perfeitamente apto para a teologia católica? Mas, por que, à exclusão de todos os outros sistemas, a teologia só pode servir-se das bases filosóficas de Aristóteles? A resposta é muito simples: Aristóteles soube estabelecer os fundamentos da verdadeira filosofia. Foi o único que pôs a inteligência humana no caminho da verdadeira sabedoria. Sua sabedoria é a filosofia eterna, válida para todas as latitudes e para todas as épocas, porque se baseia na intuição filosófica fundamental que se encontra na origem de todo conhecimento, tanto natural como sobrenatural. Aristóteles, contra os filósofos do seu tempo, admite que a razão humana conhece a realidade e pode dizer a verdade. Seus princípios são profundamente realistas, do início ao fim de toda sua investigação filosófica. Por isso mesmo são irrefutáveis, ainda que algumas de suas aplicações concretas tenham caducado com o progresso das ciências, como, por exemplo, a astronomia de Ptolomeu.
2. A filosofia é o conhecimento do ser
Para aqueles que se perguntam se devem pensar ou não, Aristóteles responde: Queiramos ou não, temos de filosofar. Não poderíamos evitá-lo ainda que o quiséssemos. Pois, declarar que a filosofia não tem valor é já adotar uma posição filosófica. Na tenra idade em que a inteligência se abre à realidade, já não se revelam os poderes mais naturais do homem? Nessa idade, a criança interroga os pais até cansá-los com seus «O que é isto?», seus «Porquê?» e seus «Como?». O homem faz o mesmo quando busca as essências, as causas e os princípios. Por sua vez, o adulto como a criança começa a filosofar no momento em que, confrontado com algo que o assombra, ele procura sua causa profunda. Admirado e surpreso, a princípio, diante das coisas mais humildes, pouco a pouco ele avança na admiração das coisas mais elevadas, como as mudanças da lua e do sol, até chegar, enfim, a se perguntar sobre a origem do universo inteiro. Diz-se que o homem é uma criança grande. Esta declaração é certamente verdadeira no sentido preciso de que, à imagem da criança, o homem faz filosofia (tão naturalmente) como respira.
A filosofia é essencialmente uma investigação, e, acima de tudo, a investigação das coisas reais. Se os Hamlets de todas as épocas apresentam-se a questão da existência, «Ser ou não ser, eis a questão», Aristóteles responde decidido, dizendo: «O ser é». Ele é o objeto de toda a verdade. Assim como não se põe em dúvida a própria existência ou o dom da vida, o sábio não põe tampouco em julgamento os fatos evidentes, como a natureza das coisas e a faculdade humana de conhecê-las. O Estagirita fundamenta toda sua filosofia na experiência: «A experiência é a mestra da filosofia». Cada uma de suas análises se apoia em uma experiência sensível, em uma intuição de algo concreto. Como poderia Aristóteles ter fundado a biologia sem dissecar porquinhos-da-índia, sem esse conhecimento experimental dos seres vivos? Ele, que era filho de médico, pôde criar múltiplas ciências porque sempre esteve próximo dos fatos, sempre à escuta das coisas, explorando as riquezas da natureza. Na realidade, a observação e a experiência do fato concreto determinam o desenvolvimento posterior de todas as ciências. Sobre essa base realista, finaliza-se o trabalho de fermentação intelectual que conduz à descoberta das leis científicas, que não têm outra ambição que a de adequar-se o melhor possível aos fatos concretos. Por outro lado, qualquer um que se dedique a questionar esse contato direto com as coisas compromete-se a destruir toda a ciência.
O que vale para as ciências físicas vale a fortiori para a ciência filosófica. Mais do que todas as outras ciências, ela é tributária do real, porque seu objeto é precisamente o ser enquanto existente. O filósofo não estuda somente o ser vivo do biólogo, ou o ser inanimado do físico, ou o ser quantitativo do matemático, mas estuda o que se encontra no centro mesmo do ser: sua existência íntima. O filósofo deve ir diretamente ao coração do ser, à realidade viva e concreta, sob pena de não ser filósofo. Se partisse de outro ponto, não seria nada. Seria como um lógico que negasse a razão, ou um matemático que negasse a unidade e a multiplicidade, ou um biólogo que negasse a vida. Cometeria o suicídio da filosofia, e não só da filosofia, mas também de toda a ciência. Porque toda ciência, sempre e quando é realmente científica, funda-se na filosofia, como afirma Einstein:
«Por mais “positiva” [descritiva] que pareça, a verdade teórica é uma espécie de metafísica obscura».
Os autênticos cientistas pressupõem sempre as verdades filosóficas, a existência de um universo real, a capacidade humana de conhecer a verdade, a causa por trás dos efeitos. Estas verdades, embora evidentes e triviais, são a condição necessária de toda verdade humana. Negá-las é reduzir o homem ao estado vegetal.
Se é um fato evidente que a razão é tributária do real, é igualmente fácil explicar por que tem de ser assim. De fato, compreender é informar-se e, portanto, receber uma forma do exterior. A inteligência humana vive e se enriquece na medida em que se abre ao exterior, porque por si mesma está vazia: não é mais que uma folha em branco na qual não há nada escrito. A inteligência humana, como as plantas, alimenta-se dos seres que a rodeiam. É justamente o oposto de um pensamento fechado ao mundo, confinado egoistamente em si mesmo, que jamais poderá desenvolver-se; porque não conhecer nada é não conhecer.
Aristóteles, da mesma forma que seu régio aluno, lança-se à conquista do mundo. Alexandre Magno queria mudar o mundo, submetendo-o à civilização grega. Aristóteles também pretende conquistar o mundo, mas sujeitando-o à sua inteligência. Esta é a única maneira de filosofar e de conquistar mundos. Longe de nós pensarmos que nossas ideias regulam as coisas; ao contrário, sabemos que são as coisas que regulam e ajustam nossas ideias. A inteligência humana é uma matriz que só está esperando ser fecundada pela realidade e afirmá-la como existente, dizendo: o céu é azul, o homem é racional. O vocabulário do conhecimento traduz perfeitamente esta submissão à realidade: o pensamento, fecundado pelo ser, dá à luz a uma concepção fértil, o conceito; este conceito do ser se chama ideia — visão — visão que é evidentemente a visão de algo; e então a inteligência intus-legit — lê por dentro — o livro aberto da criação, a mensagem inteligível da sabedoria divina.
Diante do universo que a rodeia, a atitude da inteligência humana não é a de um artesão que fabrica o mundo, o homo faber, mas a de um contemplativo, o homo sapiens. O conhecimento é extático porque nos coloca literalmente fora de nós mesmos, e nos torna capazes de abarcar e nos converter no outro, sem deixar de ser nós mesmos. A filosofia, ciência contemplativa do mundo criado, chega a seu ponto culminante com a contemplação do Incriado, a teologia natural. Como nos recordam as Sagradas Escrituras:
«As perfeições invisíveis de Deus se tornaram visíveis desde a criação do mundo pelo conhecimento que delas nos dão suas criaturas». «Os céus narram a glória de Deus, e o firmamento proclama as obras de suas mãos».
Aristóteles prova a existência de Deus pelo estudo do movimento e pela ordem que há na natureza. Chama Deus de ser vivo, eterno e perfeito, porque n’Ele está a vida eterna. Deus é o Ato puro, a Inteligência pura que se contempla a si mesma. O Filósofo conclui sua Metafísica dizendo que Deus é uno, porque a multiplicidade de superiores não é boa: é necessário que um só governe. Aristóteles demonstra, assim, que o espírito humano, em boa lógica, só pode escolher Deus ou o absurdo. E todos os esforços dos maus filósofos e dos modernistas para negar o além não fazem senão reforçar essa tese, pois sempre naufragam na mais lamentável contradição.
3. Os negadores do ser e da verdade
Atenas era, no século V antes de Cristo, o ponto de encontro intelectual de todas as escolas filosóficas, mas a confrontação entre elas revelou amargamente suas limitações e contradições. Foi nesse contexto que apareceu então a espécie tão desonesta quanto improdutiva dos sofistas, a quem seria melhor chamar soficidas — assassinos da sabedoria. Eram professores ambulantes, mais ávidos dos benefícios da ciência que da verdade que desesperavam alcançar. Praticavam atos de ilusionismo intelectual. Incapazes de realizar algo construtivo, dedicaram-se a criticar todas as coisas. Para esses homens, da mesma forma que para as crianças, a destruição era o modo mais fácil de demonstrar sua força. Dois aspectos da escola sofista devem prender nossa atenção: o agnosticismo - como aspecto negativo - e o imanentismo - como substituto positivo. Veremos, na sequência, o sistema de Heráclito, embora tenha precedido historicamente os sofistas.
Górgias é o melhor representante do aspecto ignorantista dos sofistas: a negação da verdade. Tornou-se célebre por sua tríplice declaração:
«Nada é real. E ainda que algo existisse, não poderíamos conhecê-lo, pois o objeto muda, enquanto que o pensamento permanece. E mesmo que pudéssemos conhecer o ser, este conhecimento seria incomunicável, porque o pensamento permanece, enquanto que a palavra é fugaz».
A este suicídio intelectual, Sócrates respondeu com o otimismo da inteligência. Assim se fez porta-voz do senso comum, um sentido inato e idêntico em todos os homens. Negue a existência da luz e todo o mundo zombará de você! Ora, este mesmo senso comum protesta a favor do realismo dos nossos conhecimentos.
Entre os sofistas, Protágoras representa a corrente subjetiva ou egologista.
«A verdade depende do parecer de cada pessoa, de modo que um mesmo objeto pode ser branco para um e negro para outro. Há dois discursos para cada coisa, contraditórios entre si. O homem é a medida e a razão de todas as coisas: das que existem, faz que elas existam; e das que não existem, faz que elas não existam».
Aristóteles lhe respondeu indiretamente ao dirigir-se aos pitagóricos, não sem certa pitada de humor:
«Quando as coisas não concordavam com seus números, eles as corrigiam, ajudando, deste modo, Deus a construir o mundo».
Todas estas pessoas partem unicamente do pensamento e nele permanecem. Desde o princípio, combatem os fatos concretos que dão estabilidade e consistência ao pensamento, e, sem os quais, ele nada mais é que um sonho. Estes subjetivistas, idealistas e imanentistas, seja qual for o nome que se lhes dê, negam o fundamento essencial do conhecimento. Rejeitam a realidade que os sentidos veem, tocam e percebem, e que se dirige a uma inteligência humana, não a um anjo. São investigadores que nada investigam. Estes homens, vítimas das suas alucinações fantásticas, estendem freneticamente as mãos para, em vão, pegar o objeto das suas quimeras. Não são filósofos, mas ideósofos, estudantes do pensamento e das ideias, e não homens desejosos de conhecer o que é.
De todos os seus predecessores, nenhum sofreu tanto os ataques de Aristóteles como Heráclito (540-475). Isto se deu porque seu sistema era o contrário do realismo aristotélico. Ao afirmar o ser das coisas e sua natureza, Aristóteles pretende poder conhecê-las. A inteligência pode conhecer as coisas porque elas são. Heráclito nega o ser, e, por isso mesmo, nega também a faculdade do ser, que é a inteligência. Em sua disputa com Parmênides sobre a mudança, ele faz sua escolha entre o ser e o devir. Segundo ele, se o ser é admitido, a mudança é impossível; ora, a mudança existe:
«Tudo muda, tudo se move, nada se detém. O universo é como um rio. Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio. O fogo é o elemento onipresente e a causa de toda mudança. É a contradição mesma, porque o que é, enquanto é, não é. O fogo é algo vivo e divino, o princípio supremo, mas ao mesmo tempo impessoal e imanente no mundo. É a identidade entre Deus e o mundo. A própria alma humana, faísca procedente da grande fogueira universal, ao fim voltará a ela, dotada de uma imortalidade impessoal».
Faz, também outra comparação para explicar a mudança:
«A guerra é a causa de todas as coisas. Descemos e não descemos o mesmo rio; somos e não somos; a água do mar é, ao mesmo tempo, a mais pura e a mais contaminada; o bem e o mal são uma única e mesma coisa. Tudo se separa e tudo se une: o mesmo ser vivo está morto, o animal vive da morte da planta».
Estas palavras têm um tom mais que marcial, talvez quase marxista, mas certamente modernista e destruidor da inteligência e do ser. A guerra heracliteana, fonte da contradição e do caos universal em perpétua evolução, só pode gerar a destruição.
Em sua defesa do princípio de não contradição, Aristóteles não se expressa com rodeios:
«É impossível que a mesma coisa tenha e não tenha o mesmo ser. Pouco importa o que Heráclito, como alguns pretendem, tenha opinado sobre o tema, porque não é necessário que se pense o que se afirma».
Aristóteles explica que o erro de Heráclito foi negar as essências, que são o sujeito imprescritível da mudança. Negou as essências porque confundiu sentido e razão, ver e saber; porque seus olhos só foram capazes de ver as coisas sensíveis em perpétuo movimento. Como se os dados dos sentidos fossem suficientes para proporcionar o verdadeiro saber! Os sentidos, com efeito, percebem a trajetória de uma bola no ar, mas não que a bola continua sendo idêntica a si mesma. O dedo submergido na água que está sendo aquecida sente o frio e o calor, sem perceber que a água que se esquenta é a mesma. O mundo de Heráclito é uma pura mudança, um voo de pássaro sem pássaro, uma corrida sem corredor, um crescimento sem o ser que cresce. Teria ele percebido que, da mesma forma que aquele animal lendário da Idade Média que comia seus próprios pés, seu sistema de pura mudança acaba por destruir o próprio movimento? Ao reduzir a inteligência humana ao conhecimento sensível próprio dos animais, Heráclito é levado a reduzir o mundo visível ao puro movimento, quer dizer, ao nada.
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* *
Desde os primórdios do esforço filosófico, alguns espíritos se desencaminharam, embriagados pela fugacidade das coisas e pelos vapores opacos do mundo sensível, que oculta o mundo inteligível. O pensador Marcel de Corte julga com dureza estes intelecticidas:
«A maioria dos nossos contemporâneos que romperam deliberadamente com o real e com sua própria realidade são adolescentes tardios que não puderam resolver psicologicamente sua crise da puberdade. Por isso, estes efebos perpétuos veem-se obrigados a construir um mundo de quimeras… Na ordem intelectual e moral, não suportam a realidade, porque sua débil inteligência não pode perfurar sua cabeça dura e tenaz. Por isso a negam. Querem aniquilá-la, porque sua simples presença manifesta sua fraqueza. Um ato de humildade diante dela, uma confissão de seu mistério, seria, ao menos, um reconhecimento de sua existência. O adolescente tardio nega-se a isso: já não pode sequer, seja qual for sua idade, sair de seu eu em que o aprisiona a crise permanente que sofre. Seu narcisismo constitucional também o obriga a satisfazer-se com as representações mentais saídas de sua própria substância, e então ele impõe o modelo a todas as coisas para criar um mundo acessível e não acede, nem nunca acederá, senão a ele. Ele constrói esse mundo mundo, esse homem novo, esa sociedade nova, porque ele adora a si mesmo.” .
Ao fazer um diagnóstico tão severo da inteligência moderna em perigo de morte, o autor nos dá a chave da tragédia modernista: a negação do ser, a negação do outro e, portanto, a negação do Outro que é o Ser por excelência, o único que pode fazer-nos viver, porque é a Vida. O homem, ao enclausurar-se sobre si mesmo por amor próprio, condena-se à morte, pois, sendo uma pobre criatura, por si mesmo nada é. E ao amar-se e fechar-se sobre si mesmo, envenena-se e morre de inanição. Sufoca o germe da vida intelectual e moral que só pode alcançar seu pleno desenvolvimento abrindo-se ao ser e à fonte de vida. É exatamente o que sugerem as palavras evangélicas, em uma ordem de valor muito mais sublime:
«Aquele que amar sua vida, perdê-la-á; mas aquele que perde sua vida por Mim, a salvará».
(Cem Anos de Modernismo, cap. 1. Tradução: Ricardo Bellei)
“Que ao nome de Jesus todo o joelho se dobre: no Céu (Anjos), na Terra (Homens), e nos infernos (Demônios) ”. (Intróito)
Paramentos brancos
A Igreja revela-nos as grandezas do Verbo encarnado, cantando as glórias do Seu Nome.
Era por ocasião do rito da circuncisão que os judeus impunham o nome aos filhos; por isso a Igreja vai buscar hoje o Evangelho da Festa da Circuncisão fazendo realçar as últimas palavras: “e foi-Lhe dado o nome de Jesus, nome que já o Anjo Lhe havia dado antes de ser concebido no seio da Virgem”. O nome de Jesus significa Salvador, e diz São Pedro, que não foi dado aos homens outro Nome, pelo qual nos possamos salvar (Epístola).
É ao Nome de Jesus, diz São Bernardo, que os coxos andam, que os cegos veem e que os surdos ouvem. A pregação do Nome de Deus é a luz do mundo, o unguento que unge, reconforta e sustenta (Matinas). O Nome de Jesus “é mel para os lábios, melodia para os ouvidos e alegria do coração”. Que durante a nossa vida ele nunca saia dos lábios para termos um dia a alegria de vermos o nosso junto ao d’Ele inscrito no Céu (Depois da Comunhão).
As primeiras origens desta festa remontam ao século XVI em que era celebrada na Ordem de São Francisco. Em 1721, Inocêncio XIII, estendeu-a ao mundo inteiro.
(Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.)
Falei acima de liberais de boa-fé, e me permiti exprimir uma dúvida sobre se existe ou não in rerum natura algum tipo desta raríssima família. Inclino-me a crer que poucos há, e que hoje o erro de boa-fé na questão do liberalismo, que poderia alguma vez tornar desculpável a sua profissão, é quase impossível. Não negarei porém em absoluto que um ou outro caso excepcional possa dar-se, porém defendo que será verdadeiramente um caso fenomenal.
Em todos os períodos históricos dominados por uma heresia, deram-se casos freqüentíssimos de um ou mais indivíduos que, arrastados de certa maneira pela torrente invasora, tornaram-se participantes da heresia, sem que se possa explicar tal participação, a não ser por uma suma ignorância ou boa-fé.
É preciso convir, porém, que se jamais um erro se apresentou isento de aparência alguma que o tornasse desculpável, este erro é o do liberalismo. A maior parte das heresias que assolaram o campo da Igreja procuraram cobrir-se com disfarces de piedade afetada, que dissimulassem sua procedência maligna. Os jansenistas, mais hábeis que qualquer um de seus antecessores, chegaram a ter um grande número de adeptos, a quem pouco faltou para que o vulgo cego tributasse as honras devidas somente à santidade. Sua moral era rígida, seus dogmas tremendos, o exterior de suas pessoas ascético e até iluminado. Acrescente-se que a maior parte das antigas heresias versaram sobre pontos muito sutis do dogma, só discerníveis por um teólogo hábil, e sobre os quais a multidão ignorante era incapaz por si própria de formar um juízo distinto do que recebia confiadamente dos seus mestres. Por isso, era natural que, quando o superior de uma diocese ou província caísse no erro, a maior parte de seus subordinados, plenos de confiança em seu pastor, caísse com ele; sobretudo quando as comunicações, naquela época mais difíceis com Roma, tornavam menos acessíveis para toda a grei cristã a voz infalível do Pastor Universal. Isto explica a difusão de muitas das antigas heresias, que nos permitiremos adjetivar de “puramente teológicas”. Isto dá a razão daquele angustioso grito com que exclamava São Jerônimo no século IV, quando disse: Ingemuit universus orbis se esse arianum: “O mundo inteiro gemeu, assombrado de encontrar-se ariano”. E isto explica também como, em meio aos maiores cismas e heresias, como são o cisma russo e a heresia inglesa, é possível que Deus preserve muitas almas, em quem não está extinta a raiz da verdadeira fé, por mais que esta, em sua profissão exterior, apareça deformada e viciada. Essas almas, unidas ao corpo místico da Igreja pelo batismo, e à sua alma pela graça interior santificante, podem chegar a ser conosco partícipes do reino celestial.
Acontece isto com o liberalismo? Apresentou-se envolto com o disfarce de meras formas políticas; porém este disfarce foi já, desde o princípio, tão transparente, que muito cego havia de ser quem não adivinhou toda a perversidade do miserável assim disfarçado.
O liberalismo não soube conter-se no véu da hipocrisia e do pietismo com que o encobriam alguns de seus panegiristas. Prontamente rasgou-o e anunciou com sinistros resplendores sua origem infernal. Saqueou igrejas e conventos; assassinou religiosos e padres; deu rédea solta a toda impiedade, e até nas imagens mais veneradas cevou seu ódio de condenado. De imediato acolheu debaixo da sua bandeira toda a escória social, e em toda parte a corrupção calculada foi sua precursora e introdutora.
Os novos dogmas que pregava e queria instituir em lugar dos antigos não tinham nada de abstratos e metafísicos: eram fatos brutais, que bastava ter olhos para vê-los e simples bom senso para abominá-los.
Viu-se naquela ocasião um fenômeno importante, de grande utilidade para sérias meditações.
O povo simples e iletrado, mas honrado, foi o mais refratário à novidade. Os grandes talentos, corrompidos pelo filosofismo, foram os primeiros seduzidos, enquanto que o bom senso natural dos povos fez imediatamente justiça aos atrevidos reformadores. Nisto, como sempre, foi confirmado que a pureza de coração vê mais claro que a perspicácia da inteligência. E se o que acabamos de dizer se aplica justamente ao liberalismo em sua aurora, que não se poderá dizer dele hoje, quando tanta luz tem sido lançada sobre seu odioso desenvolvimento?
Jamais um erro teve contra si mais severas condenações: da experiência, da história e da Igreja. Mesmo quem não creia nesta última como bom católico, haverá de persuadir-se pelo testemunho da experiência e da história, a menos que tenha perdido até a sua honradez meramente natural.
O liberalismo, em menos de cem anos de reinado na Europa, já deu todos os seus frutos; a presente geração está recolhendo os últimos, que são bem amargos e perturbam sua tranqüila digestão. A lição do divino Salvador, que nos manda julgar a árvore por seus frutos, raras vezes teve aplicação mais oportuna.
Por outro lado, não se viu claramente desde seu princípio qual era o parecer da Igreja sobre a nova reforma social? Entre seus ministros, alguns, é verdade, foram arrastados à apostasia pelo liberalismo, e era este o primeiro dado com que os simples fiéis haviam de julgar uma doutrina que arrastava tais prosélitos. Mas, o conjunto da hierarquia católica não foi sempre reputado com muita razão como inimigo do liberalismo? A palavra clericalismo, com a qual os liberais têm honrado a escola mais tenazmente oposta a suas doutrinas, que prova ela senão que a Igreja docente foi sempre sua inimiga implacável? Como os liberais têm considerado o papa, os bispos, os padres e religiosos de todos os hábitos, e o comum das pessoas de piedade e de sã conduta? Eles os consideram sempre como clericais, ou seja, como anti-liberais. Como pode, pois, alguém alegar boa-fé num assunto em que aparece tão claramente distinta a corrente ortodoxa da heterodoxa? Logo, os que compreendem claramente a questão podem ver as razões intrínsecas dela; e os que não a compreendem têm autoridade extrínseca de sobra para formar um juízo exato, como deve fazê-lo todo bom cristão sobre as coisas relacionadas à sua fé. Luz não tem faltado, por misericórdia de Deus; o que tem sobrado é indocilidade, interesses bastardos, desejo de vida livre. O que produziu o erro aqui não foi a sedução que deslumbra o entendimento com um falso resplendor, mas a sedução que, envolvendo em negros vapores o coração, obscurece o entendimento.
Cremos, pois, que salvas raríssimas exceções, só grande esforço de engenhosíssima caridade pode fazer que, discorrendo segundo os retos princípios de moral, se admita hoje no católico a desculpa de boa-fé na questão do liberalismo.
“A heresia individual, com o laicismo liberal, torna-se social e política” (M.Ayuso)
“Da forma dada à sociedade, segundo esteja de acordo ou não com as Leis Divinas, depende o bem ou o mal das almas. Diante dessas considerações e previsões, como poderia ser lícito à Igreja (...) permanecer espectadora indiferente diante dos perigos que os seus filhos enfrentam; calar ou fingir não enxergar situações que (...) tornam difícil ou praticamente impossível uma conduta de vida cristã ?” (Pio XII, Radiomensagem “A Solenidade”, Pentecostes de 1941).
Prólogo
Miguel Ayuso, professor de Direito Constitucional na Universidade Comillas de Madri, Presidente da União de Juristas Católicos, escreveu, em 2008, um livro muito interessante sobre as relações entre a Igreja e o Estado, traduzido em italiano pelas Edizione Scientifiche Italiane, de Nápoles, em 2010, com o título “A Constituição cristã dos Estados”(1). Em seu livro, o célebre jurista toma em consideração inclusive o tema da liberdade religiosa, tal como foi enfrentado pelo Decreto Dignitatis Humanae do Concílio Vaticano II e o compara com o ensinamento do Direito Público Eclesiástico, colocando às claras as diferenças entre a doutrina tradicional e o ensinamento pastoral de Vaticano II de um ponto-de-vista cientificamente jurídico.
Breve excursus das relações entre Estado e Igreja
Na Antiguidade pagã era inconcebível a ideia da separação entre poder temporal e espiritual. A esfera política e a religiosa se identificavam. A religião era considerada uma virtude social ou política, enquanto a impiedade era, além de um pecado, um crime político bem grave, uma vez que a unidade da Cidade se baseava sobre o princípio da piedade em relação à Divindade (2)
O Cristianismo sempre ensinou a dependência da sociedade temporal em relação à religiosa e, a partir de Constantino, orientou também na prática o bem comum temporal ao sobrenatural e espiritual. Esses dois poderes são distintos (diferentemente de como era no paganismo), mas não separados (diferentemente de como é no laicismo) (3).
A partir da Revolução Francesa se chega à neutralidade ou separação entre Estado e Igreja, que vai da indiferença à perseguição. É a época da secularização ou do laicismo, que tentaram abater indiretamente a Fé cristã atacando diretamente a Cristandade ou a Constituição cristã dos Estados europeus (4). Nessa época procurou-se destruir a ordem natural e divina mediante a Revolução ou a subversão das relações entre temporal e espiritual, natureza e graça, razão e fé. Em parte, foi bem sucedido o intento descristianizando a sociedade temporal mediante as ideias e as instituições políticas. A heresia de individual, com o laicismo liberal, torna-se social e política(5). A Revolução é uma doutrina social ou política, que quer fundar a sociedade temporal, não sobre Deus, mas sobre o homem. A Contra-Revolução é a doutrina política que funda o Estado sobre Deus e Sua Lei (6).Ora, “a toda ação corresponde uma reação igual e contrária”. Logo, se a Revolução “heretizou” socialmente, a Contra-Revolução deve dar um remédio não só individual, mas social e político à heresia social que o laicismo liberal é. Se a Revolução quer aniquilar a Cristandade ou o Estado católico para depois destruir a própria Fé, a Contra-Revolução (que não é uma Revolução de sinal trocado, mas é o contrário per diametrum da Revolução) quer restaurar a Civilização cristã, ou seja, a moral social cristã como ensinada pela Tradição apostólica e, depois, inscrita nas Constituições civis a partir de Constantino (7).
O Magistério da Igreja é citado por Ayuso para demonstrar o quanto exposto. Pio VI, na Alocução ao Consistório, de 9 de março de 1789, condena as liberdades modernas e na encíclica Adeo nota, de 1791, condena a “Declaração dos direitos do homem e do cidadão”. Gregório XVI, na encíclica Mirari Vos, de 1832, condena o catolicismo liberal. Leão XIII, na encíclica Diuturnum illud, de 1881, na Immortale Dei, de 1885, na Libertas, de 1888, e, por fim, na Annum ingressi, de 1902, expõe a doutrina católica sobre as relações entre Igreja e Estado e condena toda doutrina separacionista dos dois poderes. São Pio X, na encíclica Vehementer nos, de 1906 e na Notre Charge Apostolique, de 1910, condena a separação entre o poder temporal e espiritual e o modernismo político ou “Democracia Cristã”. Pio XI, em Quas Primas, de 1925, fala da Realeza social ou política de Cristo e condena o laicismo. Por fim, Pio XII, na encíclica Summi Pontificatus, de 1939, na Radiomensagem Benignitas et humanitas, de 1944 e no Discurso aos juristas católicos italianos, de 1953, continua o mesmo ensinamento de união e subordinação entre os dois poderes e de condenação da sua separação(8).
Questão social, política e moral católica
A Questão Social, isto é, a relação entre trabalhador e patrão, não é somente econômico-financeira, mas sobretudo moral e religiosa. De fato, para Aristóteles e Santo Tomás de Aquino, a economia é a virtude de prudência aplicada à família (diferente da área de negócio, crematística ou finanças, que é a arte de arriscar-se); e a política é a virtude de prudência aplicada à sociedade temporal. Para resolver o conflito, que surgiu no século XIX entre trabalhadores e patrões – segundo o Magistério – não basta uma resposta puramente financeira ou de salário, mas deve se elevar um pouco e ver a questão à luz da Moral e da Fé. O problema operário – segundo Leão XIII na encíclica Rerum Novarum de 1891, Permoti nos de 1895 e Graves de communi re de 1901 – resolve-se, sobretudo, com a virtude de caridade e de justiça e, depois, com o justo salário. Leão XIII, na encíclica Rerum Novarum, explica beníssimo que o “desejo de novidade” ou a “rerum novarum cupiditas”, do campo político (Liberalismo) transbordou para o econômico-financeiro (Liberalismo/Socialismo). Logo, para resolver e refutar o problema liberal e social-comunista (primado da economia ou área de negócio, materialismo histórico), é preciso primeiro responder ao erro liberal (primado da liberdade como fim absoluto e não como meio para tomar o fim). O Papa mostra a ligação que há entre Revolução religioso-dogmática e revolução moral, já que a moral é a Fé praticada e vivida (“agere sequitur esse”), e, depois, entre Revolução política, que é a heresia dogmática e moral transferida do nível individual ao campo social, e Revolução econômico-financeira(9). “Depois da heresia individual vem a Revolução social ou política e, depois da Revolução é a hora do carrasco” (Donoso Cortès, Ensaio sobre o Catolicismo, o Liberalismo e o Socialismo).
Miguel Ayuso entendeu perfeitamente o caráter do Magistério eclesiástico dos séculos XIX e XX de contestação da modernidade. A Igreja enfrentou os temas de caráter político (Liberalismo), cultural (Tomismo/modernismo), econômico-financeiro (social-comunismo), oferecendo uma doutrina completa e orgânica sobre a Realeza Social além de individual, temporal além de espiritual, de Cristo já sobre esta terra, além de no Paraíso.
A ruptura ou Revolução de Vaticano II
Se a Modernidade é a Revolução filosófica, dogmática, moral, política e econômica (modernismo, liberalismo, libertarismo, socialismo) a doutrina católica tradicional é a Contra-modernidade ou Contra-revolução. Infelizmente, com o Concílio Vaticano II foi “esquecida com desenvoltura esta Tradição. (...) Esquecimento acompanhado muitas vezes de desprezo”(10). A causa de tal ruptura com a Tradição apostólica em matéria de doutrina social Miguel Ayuso encontra na “fase de conformismo (conciliar e pós-conciliar) com respeito à modernidade”(11). Entenda-se: “modernidade” significa pensamento filosófico moderno subjetivista e relativista, que vai de Descartes a Hegel, e não significa “fazer-se compreender pelo homem de hoje”, o que é completamente legítimo e normal, mas totalmente diferente da condescendência eclesiástico-pastoral com a “modernidade”. A Igreja havia contestado e refutado a modernidade com o Magistério tradicional dos séculos XIX e XX, referindo-se à doutrina de Papa Gelásio I. Infelizmente, com a Declaração sobre a liberdade religiosa ou Dignitatis humanae subverteu-se ou “revolucionou-se” a doutrina de dogmática em pastoral e pressionou-se os “católicos a conformarem-se à modernidade (...) e a sair do gueto em que a Igreja tradicional os havia reduzido (12), contrariando o dizer de São Paulo “: “Nolite conformari huic saeculo!”.
O Magistério tradicional contrasta com a Modernidade
A conclusão que Miguel Ayuso tira é que, se o Magistério constante e tradicional da Igreja contestou e refutou a modernidade subjetivista e relativista (Liberalismo, Modernismo, libertarismo e social-comunismo), o ensinamento pastoral de Vaticano II chegou mesmo à “renúncia da tradicional doutrina política – baseada sobre a Constituição cristã dos Estados – (...) [e revelou-se] incapaz de delinear uma nova estratégia” (13), ou seja, não apenas abandonou a doutrina social tradicional sobre relações entre Estado e Igreja, mas não consegiu nem mesmo propor uma alternativa filosofico-política adequada ao surgimento do novo laicismo, sempre mais radical e paroxístico.
O Vaticano II se rendeu à Modernidade
Renderam-se em face da modernidade e da pós-modernidade sem mostrar resistência, esperando não serem perseguidos mas deixados em paz, não se quis opor uma resistência doutrinal (filosófica e teológica) ao mundo contemporâneo e calou-se, logo, fugiram da frente do lobo que veio despedaçar o rebanho, esperando serem poupados, como o mercenário e o mau pastor do Evangelho, que “trai as ovelhas não só fugindo, mas também calando” (São Gregório Magno). A tática ‘não-pastoral’ de não condenar, desaprovar e criticar o erro, equivale à atitude do mercenário, que cala quando vê o lobo vir, ao invés de gritar e de alertar o seu rebanho. É por esse motivo que não apenas doutrinalmente houve ruptura entre ensinamento pastoral e falível do Vaticano II e Tradição apostólica, mas também pastoralmente, isto é, ao calar a doutrina e os princípios no caso prático e no modo de agir, o Vaticano II revelou-se um imenso fracasso, porque em vez de avisar que um perigo repousava, nos anos 60, sobre a Cristandade e a Fé Católica (pense-se no Comunismo e em 1968), quis calar-se para não parecer “profeta de desgraças”, e, analogamente no pós-concílio mais recente (2005-2011) não se alertou o rebanho contra o perigo do teoconservadorismo, do catolicismo liberal, do judeo-cristianismo e do ateísmo devoto, os quais estão matando hoje também aquele “pequeno rebanho”, que tinha resistido ao modernismo e neomodernismo. É evidente a todos que para ensinar a verdade (por exemplo que 1+1=2) não se pode aprovar o erro (1+1=3) e, logo, não se pode não condenar.
Combater e promover. O professor Ayuso comenta: “Trata-se não apenas de combater aquilo que é socialmente nocivo em relação ao influxo que exercita sobre as almas, mas também de promover aquilo que é socialmente benéfico, em virtude de seu valor intrínseco”(14). De fato, não se pode ser somente “contra” ou limitar-se a pars destruens ou negativa, mas ocorre também propor alguma coisa “pró”, ou seja, de positivo(15).
Não se pode calar, senão “as pedras gritarão”
Pio XII tinha previsto esse perigo e o denunciara já em 1941: “Da forma dada à sociedade, segundo esteja de acordo ou não com as Leis Divinas, depende o bem ou o mal das almas. Diante dessas considerações e previsões, como poderia ser lícito à Igreja (...) permanecer espectadora indiferente diante dos perigos que os seus filhos enfrentam; calar ou fingir não enxergar situações que (...) tornam difícil ou praticamente impossível uma conduta de vida cristã ?” (Pio XII, Radiomensagem “A Solenidade”, Pentecostes de 1941). Não se pode calar ou fingir não enxergar o perigo de uma situação que torna difícil viver cristãmente. Ora, a “liberdade das falsas religiões”, o abandono do ideal do Estado Católico ou da Realeza Social de Cristo, sancionados pelo Concílio Vaticano II são exatamente uma situação ou um modo de vida que torna praticamente impossível a prática cristã. Os homens de Igreja caíram num tipo de “surdo-mudismo” pelo qual fingem não terem ouvido de modo a não deverem falar. Não podem permanencer espectadores indiferentes, que olham mas não gritam: “Lobo ! Socorro! Perigo! Atenção!”. Seria aceitar na prática e implicitamente, mesmo se não explicitamente ou por princípio, o erro e o mal, ou seja, a negação prática do primeiro princípio da moral per se conhecido: “malum vitandum, bonum faciendum”. Ora, quem nega os princípios per se conhecidos não é escusável por ignorância invencível, porque estes são evidentes a todo mundo, são mostrados, não demonstrados. Como os homens de Igreja hoje calam esta verdade social, esta – como disse Jesus – é gritada pelas pedras, isto é, pelos monumentos do passado, que testemunham uma verdade histórica: “Houve um tempo em que a filosofia do Evangelho governava os Estados” (Leão XIII, Immortale Dei, 1885). Que tremenda responsabilidade não haver querido condenar o erro, não haver querido alertar a Cristandade e os fiéis cristãos contra o perigo. Não o tendo desaprovado ou condenado, implicitamente se o aprovou. “Um Papa bom não é um bom Papa”, dizia padre Innocenzo Colosio. “O médico piedoso faz a chaga gangrenosa”, recita o provérbio popular. O excesso de “bondade” pode se tornar a máxima crueldade (“summo bonarietas, summa malvigatas”).
Pars destruens et construens. Miguel Ayuso explica muito bem que “a Igreja não age em política apenas ‘negativamente’, mediante condenações (...), mas também intervém positivamente, declarando quais são os princípios que devem presidir a organização de uma comunidade” (16). A neutralidade, o pluralismo ou a indiferença do Estado em matéria religiosa não são princípios conformes à Tradição apostólica quanto às relações de Igreja e Estado, assim como está ensinado pela Sagrada Escritura, pelos Padres da Igreja do século IV e pelo Magistério, a partir do Papa Gelásio I (496) até Pio XII (1958).
A Cristandade já existe e não está por ser inventada
São Pio X ensinou formalmente – retomando o Magistério tradicional de seus predecessores, continuado pelos seus sucessores até Pio XII – que “a Civilização cristã não deve ser inventada, nem a Cidade deve ser construída sobre as nuvens. Ela existiu e existe. É a Civilização cristã, a Cidade católica. Trata-se apenas de instaurá-la e estabelecê-la e restaurá-la e restabelecê-la, incessantemente, sobre os fundamentos naturais e divinos, contra os ataques sempre novos da utopia malsã, da Revolução e da impiedade: omnia instaurare in Christo” (Notre Charge Apostolique, 1910). A solução do problema político (relações entre Estado e Igreja) e social (relações entre mundo do trabalho e capital) é simplicíssima, porque não existe nada por ser inventado, basta instaurar ou fundar uma Pólis ou Civitas católica, baseada na Lei divina e natural nos lugares onde não tenha ainda começado a existir e restaurá-la ou consertá-la lá onde existiu, mas foi assaltada pela Revolução, que quer separar o Estado e a Igreja, os trabalhadores e os patrões, a justiça e a caridade, a economia e a moral, destruindo assim a Civitas christiana. Até 1968, havia ainda vestígios, traços ou “ruínas” dessa Civilização cristã, (que tinha sido somente ferida, ainda que gravemente) e bastava restaurar as ruínas como se faz com as obras de arte dos séculos passados. Hoje ela está aniquilada ou ferida de morte pelo assalto da Revolução maçônica, que invadiu inclusive o ambiente eclesiástico, como denunciou Paulo VI mesmo: “a fumaça de Satanás penetrou na Igreja de Deus”. Por isso, agora na Europa (o berço da Cristandade), é preciso não mais restaurar a Civilização cristã, mas sim instaurá-la, mas sempre sobre os idênticos fundamentos (Lei eterna e natural) e princípios (cooperação de subordinação ou hierarquização do temporal em relação ao espiritual).
Nova Cristandade. Não é preciso inventar a “nova Cristandade” como fizeram Maritain (Humanismo Integral, 1936) (17) e Dignitatis humanae (1965), construindo-a sobre as “nuvens” da doutrina liberal e laicista da separação entre Igreja e Estado. Leão XIII, mesmo antes de São Pio X, havia escrito: “Houve um tempo em que a filosofia do Evangelho governava os Estados” (Immortale Dei, 1885). Essa é a doutrina social substancialmente imutável da Igreja: o Estado fundado sobre a Lei natural e divina e dirigido pelos princípios da reta filosofia e da Revelação sobrenatural, em cooperação de subordinação hierarquizada com o poder espiritual. Podem existir tonalidades acidentais nessa doutrina (plenitudo potestatis ou potestas indirecta in temporalibus ratione peccati), mas não essenciais (liberdade das falsas religiões posta no mesmo plano daquela da única verdadeira Religião, e indiferença religiosa da sociedade temporal ou separação do Estado e da Igreja).
A Nova Cristandade maritainiana e conciliar
O Concílio Vaticano II. Infelizmente, na Declaração Dignitatis humanane se encontra uma fratura, uma mutação substancial, com a doutrina tradicional contida na Sagrada Escritura e na Tradição apostólica (que são as duas fontes da Revelação), sob a guia do Magistério constante da Igreja (de Papa Gelásio I até Pio XII). Pio XII disse desse ensinamento sobre as relações entre Igreja e Estado que “está definitivamente estabelecido quanto aos seus pontos fundamentais, é suficientemente amplo para ser adaptado às múltiplas vicissitudes dos povos, desde que isso não aconteça às custas dos seus princípios imutáveis e permanentes. (...). Isso é em todo aspecto obrigatório. Nem se pode distanciar disso sem perigo para a Fé e a ordem moral” (Discurso ao Congresso da Ação Católica italiana, 29 de abril de 1945).
Ruptura e não continuidade. É mesmo isso que Dignitatis humanae fez. Ora, se o ensinamento pastoral de Vaticano II discorda daquele dogmático constante e infalível da Igreja, deve ser modificado e tornado conforme à Tradição apostólica. Especialmente hoje, de frente ao assalto final do laicismo agressivo e daquele mascarado de teoconservadorismo, é preciso retornar à Tradição apostólica e antes de tudo repropor a doutrina da cooperação subordinada entre Estado e Igreja para depois procurar trabalhar na prática à restauração das condições a fim de que a Civilização cristã possa renascer, permitindo aos indivíduos, às famílias e aos corpos intermédios realizarem facilmente a sua finalidade próxima ordenada ao fim último sobrenatural. A Civilização cristã não deve ser inventada ex novo, mas agora instaurada, porque, infelizmente, já não há mais nada para restaurar. A pós-modernidade e o pós-concílio destruíram os vestígios, as ruínas ou restos da Cristandade que ainda sobravam.
A Igreja não pode não fazer “política”
O homem é um animal naturalmente social. Disso vem a necessidade de ensinar, hoje mais do que nunca, a doutrina social da Igreja e de não se trancar nas sacristias, como desejavam os católicos liberais, mascarando tal rebaixamento ao catolicismo liberal sob uma máscara de excessivo espiritualismo ou angelismo desencarnado, cujo lema é “não é preciso fazer política!”. Ao contrário, a realidade, e logo, a verdade, é que o homem é composto de alma e de corpo, que é um animal racional e também social, isto é, político, feito para viver na Societas ou na Pólis, e não é um anjo, um ente desencarnado ou um monge que vive isolado. Os monges são casos “excepcionais” e “heróicos” que confirmam a regra.
O Perigo do Angelismo ou do espiritualismo exagerado. O erro dos conservadores e de alguns “tradicionalistas” católicos atuais é o de eliminar o elemento social da natureza humana, que, ao contrário, foi criada por Deus naturalmente sociável. (Aristóteles, Politica, VI; Santo Tomás de Aquino, De regimine principum, lib. I, cap. 14) e de querer transformar o homem num singular indivíduo (como o liberalismo individualista) sem espaço social e político, para endereçá-lo, com um empurrão puramente natural (mesmo se vem do padre, que permanence sempre um homem, mesmo que consagrado e não é Deus, mas só um instrumento de Deus para ajudar os fiéis a fazerem a Vontade de Deus, que não é necessariamente a do sacerdote) em direção a uma vida consagrada e à qual, ao contrário, só Deus chama e, na qual, só com a ajuda de Deus se persevera. “Não fostes vós que me escolhestes, mas Eu que vos escolhi” disse Jesus no Evangelho aos Seus Apóstolos. A vocação é um conselho e não um preceito e não se pode obrigar a seguir um conselho sob pena de pecado (18).È preciso contestar, refutar e contrastar o lacicismo, na teoria e na prática, arruinar tal modo de vida subversivo e revolucionado, fazer a históriamais do que sofrê-la passivamente e tentar criar as condições de um viver social, que facilite o viver espiritual. Como “a Graça pressupõe a natureza, aperfeiçoa-a, e não a destrói” (Santo Tomás de Aquino), assim a Fé pressupõe a humanidade civilizada (19), aperfeiçoa-a, mantém-na viva, e não a deve destruir. Do mesmo modo, a vocação sagrada pressupõe a vida familiar, social e política, aperfeiçoa-a, e não a deve aniquilar. Se não houvesse uma sociedade familiar, não poderia haver um “chamado” e se a sociedade temporal, ao invés de ajudar o indivíduo e a família a chegar ao próprio fim, obstaculizasse-o, os “chamados” seriam muito menos. É por isso que é preciso “dar a César o que é de César (obediência às leis temporais conformes à lei natural) e a Deus o que é de Deus (a adoração)”.
É possível hoje um Estado Católico ?
Doutrinalmente. A questão pareceria, à primeira vista e superficialmente, um anacronismo, como até Miguel Ayuso concorda (20). De fato, historicamente não existe hoje nenhum Estado católico, mas a questão doutrinal que se põe é se seja possível fazê-lo reviver. Na teoria ou quanto ao princípio doutrinal a resposta é evidente: o Estado não pode ser neutro, dada a sociabilidade natural do homem, da família e da sociedade temporal, que devem todas as três dar a Deus o culto e a adoração que Lhe é devida. Na prática ou nos fatos, contudo, encontramo-nos diante do enorme problema da pastoral sobre a liberdade religiosa (Dignitatis humanae) do Vaticano II, que não se contrapôs à modernidade ou à sociedade permissivista (21), mas entrou em diálogo simpatizante com ela e acelerou a secularização ou descristianização da sociedade. Miguel Ayuso traz o exemplo da Ley de libertad religiosa de 1967, pedida por Paulo VI ao general Francisco Franco e a consequente Nova Concordata espanhola de 1978 (22), similar àquela italiana de 1984 (que ab-rogou a Concordata de 1929), definida por João Paulo II como “ideal”, em quanto se passou (na Espanha como na Itália) do Estado confessional, que reconhecia Religião católica como religião oficial de Estado, ao Estado neutro em matéria religiosa. Ayuso comenta: “Estamos assistindo à separação consciente e desejada entre Igreja e sociedade, depois que foi consumada a separação entre a Igreja e o Estado”(23). Hoje, encontramo-nos em uma sociedade anti-cristã por princípio e na prática, que seria melhor chamar de “Dis-sociedade” (Marcel de Corte) ou “Sinagoga de Satanás” (Apocalipse 2, 9), que é a “Contra-Igreja” ou o “perigo maçônico” (Ernest Jouin) (24). Se a doutrina católica sobre as relações entre Estado e igreja é imutável(25), infelizmente, “a linguagem (...) em seguida ao Vaticano II, distingue-se claramente da precedente. (...). O direito à liberdade religiosa levanta não poucas dificuldades do ponto-de-vista do Magistério tradicional”(26). Ou seja, não existe continuidade real entre Tradição apostólica e Dignitatis humanae (de agora em diante ‘DH’), mesmo se esta continuidade vem afirmada, mas não demonstrada. Ayuso encontra em ‘DH’ um tipo de heterodoxia pública, isto é, um erro em matéria de doutrina social e política (27).
Prudencialmente. Ayuso se pergunta se um retorno imediato ao Estado católico é realista. A realidade hodierna, em que, ou não se toma nem mesmo em consideração o problema das relações hierarquizadas entre poderes político e espiritual ou se as tem como atualmente insustentável, “ é assim – e isso é ainda pior – da parte da própria hierarquia eclesiástica”(28), não favorece na prática tal retorno imediato, antes o torna humanamente impossível e só miraculosamente viável. Certamente, é necessário evitar os dois erros opostos por excesso (fanatismo ideológico simplista: tudo e agora) e por defeito (oportunismo pragmatístico: renúncia dos princípios e/ou aquiescência prática com o erro), mas é preciso sempre tender ao ideal ou à doutrina da cooperação hierarquizada e subordinada entre Estado e Igreja, que é “uma moral invariável da ordem política (...), não é algo de meramente facultativo, (...) mas é o constitutivo interno [ou a essência] da sociedade temporal”(29), ainda que na prática esta hoje é dificilmente viável no imediato ou no futuro próximo, mas não absolutamente impossível de se realizar gradualmente ou no futuro remoto. É preciso, então, “recolocar em pé – como escreve Ayuso – a doutrina da Igreja (...) sobre as bases da Tradição” (30). Sobretudo, não se deve nunca desesperar, nem quanto à salvação eterna da própria alma e nem quanto à salvação temporal da sociedade, a qual deve e pode voltar a cumprir o seu dever e chegar ao seu fim: o bem estar temporal dos cidadãos subordinado ao bem estar espiritual dos mesmos. De fato, Deus é a Causa Primeira do homem, “animal racional”, que vive em uma sociedade imperfeita de ordem natural (família) e perfeita de ordem temporal (Estado) e sobrenatural (Igreja). Por isso o Estado deve trabalhar em cooperação hierárquica com a Igreja, como o corpo com a alma. Deus é onipotente e providente, seja para a alma singular e a sua salvação, seja para a família e a sociedade (temporal e religiosa). Então deve-se esperar a salvação eterna da própria alma como também o estabelecimento do Reino Social de Cristo e trabalhar por estes. De fato, “quem quer o fim, toma os meios”.
Conclusão
● “A Igreja não pode, sem trair a própria missão, deixar de afirmar que existe uma lei moral natural (...) à qual devem estar submetidos os poderes públicos. Esse é o núcleo do Estado católico”(31), como ensinou Pio XI na sua primeira encíclica Ubi Arcano Dei de 1922, sintetizada no lema desse Papa: “Pax Christi in Regno Christi”. O “pecado original” da modernidade consistiu no ter posto no homem e não em Deus o fundamento da vida social e política do Estado (“eritis sicut Dii”). O antropocentrismo social ou político é o ‘princípio e fundamento’ da filosofia e da civilização modernas, como o antropocentrismo individualístico o é do modernismo. A heresia dogmática modernistas se transformou em Revolução social liberal ou modernismo político (cf. São Pio X, Notre Charge Apostolique, 1910)(32). Todas ou quase todas as Revoluções sociais nascem de erros filosóficos e de heresias dogmático-morais.
● A Verdade filosófica, dogmática e moral foi sintetizada teocentricamente pelo lema de São Paulo: “Non est Potestas nisi a Deo”, a Contra-Igreja o revolucionou antropocentricamente em: “Non est poetestas nisi ab Homine”(33). Assim a heresia dogmática modernistas influiu na Revolução política democrático-cristã e esta acabou por demolir os último traços ou “ruínas” de uma civilização, que era ainda cristã antes de ser demo-cristianizada. Certamente, ‘DH’ teve um papel filosófico, teológico e político nesse processo de laicização ou secularização. O Bispo espanhol, Dom José Guerra Campos tinha convidado a “reedificar a doutrina [social] da Igreja” por causa das notáveis “incoerências na pregação atual”(34). Com ‘DH’, assiste-se ao fenômeno de penetração do laicismo em ambiente católico e eclesial até ao ponto de que a separação entre Igreja e Estado é pregada pelos próprios homens de Igreja. O pós-concílio agravou o erro laicista de ‘DH’ até ao ponto de fazer rever as Concordatas com a Espanha (1978) e a Itália (1984) em sentido separacionista, o que foi definido como “ideal” por João Paulo II no que concerne à Concordata italiana de 1984. O próprio João Paulo II, na Carta apostólica aos Bispos franceses, de 11 de fevereiro de 2005, por ocasião do primeiro centenário da lei francesa de 1905 sobre a separação de Igreja e Estado (lei condenada por São Pio X na encíclica Vehementer nos, 1906) escreveu: “O princípio da laicidade(...) pertence à doutrina social da Igreja”. Isto é, o “Estado livre e Igreja livre” de Cavour se tornaram doutrina social católica!!!
●Só Deus nos pode fazer sair de uma situação de apostasia geral, que penetrou até no santuário e nas mentes dos hierarcas da Igreja. Ele, de fato, prometeu-nos: “Portae inferi non praevalebunt adversus eam”.
[Tradução: Permanência]
NOTAS
(1) www.edizioniesi.it / info@edizioniesi.it / 116 paginas. E também: http://www.deastore.com/libro/la-costituzione-cristiana-degli-stati-miguel-ayuso-edizioni-scientifiche-italiane/9788849520774.html
(2) M. Ayuso, La costituzione cristiana degli Stati, “Edizioni Scientifiche Italiane”, Napoles, 2010, p. 13. Cfr. J. A. Widow, El ombre, animal politico, Santiago del Cile, Editorial Universitaria, 1984.
(3) Ibidem, p. 14.
(4) Ibidem, p. 18. Cfr. ainda Ramòn Orlandis, Pensamientos y occurrencias, Barcelona, Balmes, 2000; Francisco Canals, Polìtica española: pasado y futuro, Barcelona, Acervo, 1977.
(5) Ibidem, p. 21.
(6) Cfr. A. De Mun, Ma vocation sociale, Paris, Lethielliieux, 1908.
(7) Ibidem, p. 22.
(8) Ibidem, pp. 24-26. Cfr. M. Ayuso, La revoluciòn liberal y sus metamorfosis ante el pensamento catòlico, in J. M. Sànchez, Polìtica y religiòn en la crisis de la modernidad, Madri, Fundaciòn Tomàs Moro, 2000; A. Gambra, Los catòlicos y la democrazia. Génesis històrica de la democrazia cristiana, Madri, Speiro, 1982.
(9) M. Ayuso, La costituzione cristiana degli Stati, cit., p. 27.
(10) Ib., p. 28.
(11) Cfr. F. Rodrìguez, Introduciòn a la polìtica social, Madri, Civitas, 1979; M. Ayuso, La polìtica, officio del alma, Buenos Aires, Nueva Hispanidad, 2007; Id., Koinòs. El pensamiento politico de Rafael Gambra, Madri, Speiro, 1998; D. Castellano, L’ordine della politica, Napoles, Edizioni Scientifiche Italiane, 1996, tradução espanhola, La naturaleza de la polìtica, Barcelona, Scire, 2006; Id., De Christiana Republica, Napoles, ESI, 2004; Id., Costituzione europea, diritti umani e libertà religiosa, Napoles, ESI, 2005; Id., L’ordine politico-giuridico, Napoles, ESI, 2007; Id., La politica tra Scilla e Cariddi, Napoles, ESI, 2010; A. d’Ors, Ensayos de téoria polìtica, Pamplona, Eunsa, 1979; F. E. de Tejada, Europa, tradizione, libertà, Napoles, ESI, 2005; J. Ousset, Pour Qu’il Règne, Paris, Office international, IIa ed., 1970.
(12) Ib., p. 29. Sobre a Tradição apostólica e as novidades de Vaticano II cfr. Brunero Gherardini, Concilio Ecumenico Vaticano II. Un discorso da fare, Frigento, Casa Mariana Editrice, 2009; Id., Tradidi quod et accepi. La Tradizione, vita e giovinezza della Chiesa, Frigento, Casa Mariana Editrice, 2010; Id., Concilio Vaticano II. Il discorso mancato, Turim, Lindau, 2011; Id., Quaecumque dixero vobis. Parola di Dio e Tradizione a confronto con la storia e la teologia, Turim, Lindau, 2011.
(13) M. Ayuso, La costituzione cristiana…, cit., p. 36.
(14)La costituzione cristiana…, cit., p. 38.
(15) Cfr. A. Millàn Puelles, Sobre el hombre y la sociedad, Madri, Rialp, 1976.
(16) La costituzione cristiana…, cit., p. 39. Cfr. V. Rodrìguez, Temas clave del humanismo cristiano, Madri, Speiro, 1984.
(17) Cfr. J. Meinvielle, Il cedimento dei cattolici al liberalismo. Critica a Maritain, Roma, Sacra Fraternitas Aurigarum, 1991.
(18) Cfr. P. C. Landucci, La sacra vocazione, Roma, Paoline, 1956.
(19) Cfr. M. de Corte, Essai sul la fin d’une civilisation, Paris, De Médicis, 1949.
(20) La costituzione cristiana…, cit., p. 71.
(21) J. Guerra Campos, Amor, deber y permissivismo, Madri, Adue, 1978.
(22) M. Ayuso, Las murallas de la ciudad, Buenos Aires, Nueva Hispanidad, 2001.
(23) La costituzione cristiana…, cit., p. 75.
(24) Cfr. J. Meinvielle, Influsso dello gnosticismo ebraico in ambiente cristiano, Roma, Sacra Fraternitas Aurigarum, 1989.
(25) Cfr. D. Castellano, L’aristotelismo cristiano di Marcel De Corte, Florença, Pucci-Cipriani, 1975; Id., La razionalità della politica, Napoles, ESI, 1993; J. Orlandis, Historia y espìritu, Pamplona, Eunsa, 1975;
(26) Ib., p. 84. Cfr. L. E. Palacios, Nota critica a la declaratiòn conciliar sobre libertad religiosa, in “Anales de la Real Academia de Ciencias Morales y Politicas”, Madri, n. 56, 1979, pp. 45 ss.
(27) La costituzione cristiana…, cit., p. 85.
(28) La costituzione cristiana…, cit., p. 91.
(29) La costituzione cristiana…, cit., p. 89. Cfr. J. Guerra Campos, Hacìa la estabilizatiòn polìtica, Madri, Uniòn Editorial, 1983; M. Ayuso, Une culture pour l’Europe de démain, Paris, Editions Universitaires, 1992; D. Castellano, Razionalismo e diritti umani, Turim, Giappichelli, 2003.
(30) La costituzione cristiana…, cit., p. 91.
(31)La costituzione cristiana…, cit., p. 106.
(32) D. Composta – D. Castellano, Questione cattolica e questione democristiana, Padoa, Cedam, 1987.
(33) Cfr. C. Fabro, La svolta antropocentrica di Karl Rahner, Milão, Rusconi, 1974; Id., L’avventura della teologia progressista, Milão, Rusconi, 1974.
(34) J. Guerra Campos, La Iglesia y la comunidad polìtica, XIV centenario del III Concilio di Toledo, 1989
EDITORIAL Nº 266
Uma das características mais importantes de uma instituição é sua fidelidade à idéia mestra que definiu sua fundação e sua linha de pensamento. Se os reponsáveis por uma empresa, por um projeto qualquer, ou por uma ordem religiosa, variassem a cada passo na finalidade que determinou aquela reunião de homens, ela jamais poderia perdurar no tempo, pois seus membros não saberiam em que direção estariam caminhando.
É nesse contexto que devemos entender aquela palavra que atribui à santidade dos fundadores das grandes ordens religiosas a perseverança delas ao longo dos séculos. Comparem a existência da Ordem de São Bento, dos Franciscanos ou dos Dominicanos, com qualquer empresa moderna. Enquanto aquelas gloriam-se por permanecerem idênticas na sua essência, ao longo de quinze séculos (S. Bento) ou setecentos outros (S. Francisco e S. Domingos), basta uma empresa qualquer alcançar vinte e cinco ou cinqüenta anos para se considerar tradicional e cheia de experiência. E de fato assim é, se considerarmos o mundo sempre cambiante e ondulante em que vivemos.
A Permanência não é uma ordem religiosa, mas tampouco é uma empresa comercial. Apesar de termos como objetivo a difusão da doutrina católica tradicional e, a partir dela, a resistência aos erros do último Concílio do Vaticano, algo mais do que a doutrina nos une. Em torno de Gustavo Corção criou-se na Permanência uma família que se caracteriza por um espírito sobrenatural que vai muito além da sã doutrina. Algo de difícil definição e delineamento, mas real e pessoal.
Esse espírito nasceu das aulas e escritos de Gustavo Corção. Ali era transmitido, como de pai para filhos, certo posicionamento diante das coisas de Deus e da sua Igreja que poucas vezes se encontra pelo mundo. Alguns dos nossos jovens tiveram a oportunidade de ver como os franceses da Tradição, nos anos 1980, chegavam nos mosteiros ou no seminário conhecendo latim, grego e Sto Tomás de Aquino. Mas bastava um acontecimento mais grave e polêmico surgir no âmbito da crise da Igreja ou da política internacional, para se perceber que aqueles rapazes não tinham recebido em sua formação o sensus fidei necessário para um julgamento sobrenatural reto e certeiro.
Quanto tempo se perde a ler e estudar coisas irrelevantes que mais se aproximam da curiosidade do que da formação católica! Quantas vezes ouvimos, nas aulas de Gustavo Corção, o mestre simplesmente ignorar algum assunto proposto por um de seus alunos, mostrando em duas palavras o porquê de não podermos perder tempo com aquilo. Ao mesmo tempo, nas situações mais difíceis e delicadas, com que genial simplicidade ele mostrava a solução teológica mais exata, sempre voltada para a salvação das almas e com um aspecto constante: de fácil compreensão, pois Corção era, realmente, um animal-professor, como ele próprio gostava de dizer.
Um dos pontos em que esse espírito sobrenatural aparece de modo impressionante é na compreensão a que ele chegou sobre a natureza da crise que submerge a Igreja Católica no cataclisma atual. Desde cedo ele entendeu que estava em jogo muito mais do que os aspectos diversificados e pontuais comentados pela maioria dos defensores da Tradição. Via a importância de se defender a missa contra a revolução protestante emanada de Vaticano II, ou de se criticar as edições absurdas das Biblias modernistas, ou ainda os catecismos heretizantes produzidos pelas Conferências Episcopais com o aval da Roma modernista. Porém seu espírito aguçado exigia de si mesmo e dos seus alunos a compreensão exata sobre a natureza da crise: é a essência do catolicismo que está ameaçada. Porque “se o sal perder a sua força, para que servirá?”
Parece-nos importante levar ainda mais adiante a nossa lembrança dos princípios do nosso fundador quanto à crise da Igreja e, para tanto, transcrevemos aqui o artigo “A Descoberta da Outra”, de 1977, na íntegra. Pedimos especial atenção dos nossos leitores aos termos precisos usados por Corção para definir a crise pelo que ela tem de esssencial e que aparecem logo nos primeiros parágrafos. São eles que nos servem ainda hoje para a posição da Permanência diante da crise que perdura:
Um leitor que se diz assíduo, numa longa conversa telefônica, estranhou o pós-conciliar. O leitor entende o termo como se significasse a mesma Igreja Católica, na era pós-conciliar. Bem sei que nesse período conturbado continua a existir, na terra, a Igreja Católica dita militante. Ora, minha sofrida e firme convicção, tantas vezes sustentada aqui, ali e acolá é que existe, entre a Religião Católica professada em todo o mundo católico até poucos anos atrás e a religião ostensivamente apresentada como "nova", "progressista", "evoluída", uma diferença de espécie ou diferença por alteridade. São portanto duas as Igrejas atualmente governadas e servidas pela mesma hierarquia: a Igreja Católica de sempre, e a Outra. E note bem, leitor: quando acaso der a essa outra o nome de Igreja pós-conciliar não quero de modo algum insinuar a infeliz idéia de que, após o Concílio, a Igreja de Cristo se teria transformado a ponto de tornar-se irreconhecível, devendo os fiéis de bem formada doutrina católica acreditar nessa nova forma visível da Igreja, por pura disciplina, ainda que a maioria das pregações e dos novos ensinamentos sejam ostensivamente diversos e as vezes opostos à doutrina católica. Não! A Igreja Católica e Apostólica continua a existir na era pós-conciliar, submetida a duras provações, mas sempre permanente e fiel guardiã do depósito sagrado.
Se o leitor me perguntasse agora quais são as essenciais diferenças que separam as duas religiões, eu responderia: diferença de espírito, diferença de doutrina, diferença de culto e diferença moral. Como terei chegado a tão assustadora convicção? Com muito sofrimento e muito trabalho, são milhares os católicos que chegaram à mesma convicção.
Começamos por confrontar os novos textos, as novas alocuções, as novas publicações pastorais com a doutrina ensinada até anteontem. A começar pelos textos emanados dos mais altos escalões, citemos alguns daqueles que mais dolorosamente e mais irresistivelmente nos levaram à conclusão de que se inspiram em outro espírito e se firmam em outra doutrina. Entre os textos conciliares, citamos os seguintes: Constituição Pastoral sobre a Igreja e o Mundo Atual (Gaudium et Spes); Decreto sobre o Ecumenismo (Unitatis Redintegratio); Declaração sobre a Liberdade Religiosa (Dignitatis Humanae); Discurso de Encerramento do Concílio, 7 de Dezembro de 1965; Institutio Generalis do Novus Ordo Missae: Ponto 7 (na primeira redação, de 1967, e principalmente a segunda redação de 1970). Além desses documentos dos mais altos escalões, poderíamos encher as páginas deste jornal com obras e pronunciamentos de cardeais, arcebispos, bispos e padres que eram bisonhos, retraídos e discretos quando tinham vaga consciência de suas deficiências filosóficas e teológicas e que subitamente descobrem que na "nova Igreja" podem dizer tudo o que lhes vem à boca que fala ou à mão que escreve. O que menos se conhece é a Teologia, mas o que mais abunda na Nova Igreja são os "teólogos da libertação".
Devemos dar especial atenção aos pronunciamentos das Conferências Episcopais que rarissimamente dizem coisa parecida com a Santa Religião ensinada por Jesus Cristo. Basta prestar atenção, ler, e comparar toda a prodigiosa logorréia dos reformadores com o que já lemos dos santos doutores, dos santos Papas, e de toda a Tradição católica. Eles não falam a mesma língua de nossa Mãe Igreja, não usam o mesmo léxico, não seguem o mesmo espírito. Evidencia-se com brutalidade dolorosa o fato de ter sido a Igreja invadida, ou de ter se deixado seduzir pelos mesmos inimigos que combatia. Uma das notas mais características do novo espírito é a da tolerância erigida em máxima virtude, e o correlato horror por qualquer espécie de luta ou combate. Os novos levitas corrompem a juventude, destroem as famílias, mas quando alguém ergue a voz pedindo punição severíssima para os seqüestradores e para os traficantes de drogas, logo começam a esganiçar gritinhos: Violência, não! Violência, não!
E aqui encerro a concisa resposta que dou ao leitor escandalizado: foi a atenta observação desses fatos, foi a paciente leitura de himalaias de mediocridade e foi a comparação gritante entre o que ensinam e o que ensinaram os santos, e creio que foi principalmente a graça de Deus certamente pedida cada dia, cada hora, nessa especial e gravíssima intenção, que nos levaram a essas conclusões. Se é preciso usar o recurso dos gritos que tanto usam hoje, gritarei eu também, e não esconderei a reação que tive em 1965 após a primeira leitura da Constituição sobre a Sagrada Liturgia: corri ao telefone do amigo mais próximo já chorando, já engasgado de soluços que me sacudiam o corpo todo. E gritei: eles estão loucos! Eles estão loucos! E mais não digo.
Vejo em seguida nos meios católicos um dilúvio de calamidades pavorosas. Nas melhores famílias católicas, tradicionalmente católicas, os jovens, pervertidos pelos professores de colégios católicos, se transformam em anormais, comunistas, criminosos seqüestradores, ou em inutilizados toxicômanos. Meu Deus! Como pode? Como pode? Como Pode? O mistério da permissão divina nos traz vertigens quando pensamos em tantos bons pais tão terrivelmente atingidos.
Mas quando pensamos que a crise de costumes que dissolve todos os valores morais de uma civilização é principalmente gerada pela impiedade e pelo orgulho dos homens, que reivindicam todas as liberdades e todos os direitos; e principalmente quando pensamos que é exatamente nessa hora sombria que os homens de Igreja julgam ter feito uma descoberta muito inteligente, e muito oportuna – a de se abrir para o mundo e até a de nele procurar inspirações para o novo humanismo que apregoam – então, com temor e terror, pensamos que a misteriosa permissão divina, já nos foi profeticamente revelada na Sagrada Escritura, e durará até o dia em que os homens descobrirem apavorados que desprezaram Deus, que contrariaram Deus, que se riram de Deus. E, nesse dia de espantosa desolação descobrirão "que não passam de homens" e que só Deus é o Senhor.
Neste ponto da entrevista, o leitor me faz uma pergunta muito séria e de importância capital:
— Qual é, na sua convicção, o traço principal, o conteúdo essencial dessa Outra religião que o senhor vê nos recintos da Igreja Católica?
— Mais uma vez insistido neste ponto: a desordem que se observa nos meios eclesiásticos e que produz tais malefícios, não pode ser apenas uma pura desordem. A desfiguração da Igreja do Verbo Encarnado, isto é, da religião do Deus que se fez homem, tem uma figura: a da religião do homem que se faz Deus. Essa é a figura da desfiguração.
— Não foi o próprio Papa Paulo VI quem disse no discurso de encerramento do Concílio que "a Igreja de Deus que se fez homem encontrou-se no Concílio com a religião do homem que se faz Deus"?
— Exatamente. E se o amigo continuar a atenta leitura desse documento, se convencerá de que não exagero nem me perco em fantasias se lhe disser que a figura essencial da Outra é a de um humanismo que se torna uma nova religião que difere do cristianismo por seu desolado naturalismo, isto é, pela ausência da mais bela de todas as obras de Deus – a ordem da graça e da salvação.
Eles tentam disfarçar a chatice e a tristeza sinistra e feia, com retalhos de cristianismo sem vida mas a anemia profunda do corpo sem sangue está na visibilidade da Outra que só serve para eclipsar a Santa Visibilidade da Igreja de Cristo.
— E como poderá a Igreja Católica desembaraçar-se desses equívocos e voltar a ser visível, dourada, um pouco mais hoje, um pouco menos amanhã, mas sempre anunciando aos homens, aprisionados no efêmero, um Reino que não é deste mundo?
— O senhor espera ainda ver neste mundo a Igreja Militante em todo o seu esplendor?
— Não. A desordem é profunda demais e chegou aos vasos capilares dos membros da Igreja. Se ela não fosse obra sobrenatural de Deus eu diria, em termos usados pelos físicos, que a desordem é sempre prodigiosamente irreversível.
E, no caso, a improbabilidade de tal recuperação seria expressa por números espantosos como dez elevado a menos mil (10-1000) que, na verdade, não exprimem nada. Não são números concretos nem entes de razão; quando muito diríamos que só são entes de giz no quadro negro. Emile Borel dizia francamente que, diante de tais improbabilidades, é melhor dizer simplesmente que são impossíveis. Mas nós aqui estamos falando da mais maravilhosa das obras de Deus:
"Deus qui humanae substantiae dignitatem mirabiliter condidisti, et mirabilius reformasti"
E o que a nós parece impossível, é possível para Deus. Mas nossa esperança teologal não nos obriga a esperar acontecimentos neste mundo. No ponto da vida em que me acho, só posso esperar, pela misericórdia de Deus e pelo Sangue de Cristo, a felicidade de ver brevemente a Igreja do Céu em toda a sua beleza eterna e fora do alcance dos flagelos humanos.
E é a alegria dessa esperança teologal que, nestes dias de transição desejo aos meus leitores e companheiros de trabalho.
A Permanência aprendeu de seu fundador a manter-se sempre igual, pacifica e fiel, profundamente ligada à vontade de Deus segundo critérios de fé sobrenatural, ou seja, da adesão devida ao Mistério de Deus, verdade primeira, e que se declara e manifesta pela profissão de fé católica, mesmo nos momentos mais confusos e nebulosos que nos foi dado viver. Devemos permanecer nesses princípios se pretendemos continuar sendo a Permanência de Gustavo Corção, de Julio Fleichman e dos demais mestres que nos precederam.
*
Por outro lado, o fundador da Permanência deu à nossa instituição um exemplo de constante aplicação dos princípios da Lei Natural, iluminados pela fé, à coisa política da nossa Pátria. Porque também no governo dos povos a verdade precisa estar em primeiro lugar.
Por causa dessa verdade, Gustavo Corção viu no movimento militar de 1964 a reação espontânea do povo brasileiro contra a implantação forçada do regime comunista em nossas vidas. Foram as mulheres católicas, com panelas vazias em uma das mãos e o Terço na outra, que forçaram nossos militares a cumprirem seu dever cívico de defesa da Pátria. Por um milagre da Virgem padroeira do Brasil, nossos soldados expulsaram os inimigos do povo sem um único tiro, sem massacres ou guerra civil. Protegeram a população contra a guerrilha urbana dos esquerdistas, que matavam civis inocentes sem piedade, e até mesmo seus próprios companheiros de milícia, quando isso lhes interessava. Raramente o povo brasileiro passou por momentos de perigo no combate à luta armada comunista. E isso, graças aos cuidados extremos dos nossos generais. Quem viveu nessa época sabe que a população vivia em paz; quem tinha a temer eram os terroristas ou os ideólogos de carteirinha.
Porém hoje, após oito anos do governo Lula, com seu romantismo quase beato em favor de um comunismo adocicado, os antigos guerrilheiros assumiram o controle do nosso país, gente perversa, que está dando passos seguros no caminho de uma vingança pessoal contra aqueles que os derrotaram de modo tão brilhante e total.
Hoje o Brasil parece entregue a uma decadência certa, pois assistimos a elaboração de leis e à formação dessas “comissões” que nada mais são do que instrumentos paralelos para estabelecer uma máquina comunista no Brasil. Como sempre, pelo voto.
Política Econômica: O governo só enxerga a curto prazo e, nesse caso, está completamente desconectado da realidade: busca fazer o país crescer estimulando artificialmente o consumo. Ora, isso não tem como dar certo: todo chefe de família sabe que, se em sua casa começarem a gastar demais, logo toda a família estará atolada em dívidas e terá de apertar os cintos. Hoje as estatísticas demonstram que é recorde o endividamento dos brasileiros: em média, 20% do que ganham vai para o pagamento de dívidas. Imagine o que ocorrerá quando todo o país tiver de apertar os cintos!
Código Florestal: Verdadeira paródia de um conto para crianças, aqui também há vilões, heróis e uma linda mocinha em perigo. A mocinha é a natureza. Os anti-heróis são os estudantes, celebridades e jornalistas. Os vilões, na visão deles, são os homens do campo. É um enredo curioso porque no caso, os "homens de cidade" seriam os amantes e defensores da natureza; os "homens do campo", os que se dedicam e cultivam a terra, seriam os seus inimigos. O objetivo dos “heróis”, portanto, é impedir a ação dos “maus”: por trás da campanha "Veta Dilma" está a concepção ambientalista, que subverte o objetivo do negócio rural: ao invés de ser a produção racional, passa a ser a preservação das matas. Essa história não tem final feliz, porque paralisa o país, impedindo o desenvolvimento da produção agrícola.
Comissão da Verdade: A ironia dessa comissão é ter sido criada por uma presidente que, ela própria, dissimula sua participação em crimes do período militar (como guerrilheira). Nenhum membro escolhido busca a verdade nos fatos, mas apenas na ideologia. Apesar da Lei de Anistia, os esquerdistas não descansam enquanto não conseguirem sua vingança pré-programada; martelam nessa mesma tecla até que as amarras jurídicas caiam e a vingança possa ser executada.
Além desses pontos, a política atual está minando toda a integridade que ainda restava no povo brasileiro. Vão forçando e insistindo até que conseguem seu intento. Por isso preparam-se para novas tentativas de desarmamento, para novas leis favoráveis ao aborto, para liberar o porte de drogas e de destruição da família brasileira. Os espantalhos vão sendo espalhados pelo Brasil de modo a assustar a todos, tirando do povo simples e dos mais bem formados, qualquer poder de reação.
Hoje já não há mais o Exército Brasileiro capaz de combater esses vingadores derrotados de outrora. Por outro lado, não há mais a Igreja Católica capaz de conduzir a sociedade aos atos morais necessários para que se mantenha a paz e a harmonia entre os homens. Nem mesmo políticos há, que se oponham de modo verdadeiro ao lixo de uma esquerda retrógrada.
Pela Igreja e pela Pátria, peçamos a Nossa Senhora Aparecida que nos proteja dos nossos inimigos, enquanto nós tratamos de seguir os passos firmes de Gustavo Corção.
(Revista Permanência, 266)
Gustavo Corção
I
Uma primeira vista d’olhos sobre o panorama da atualidade, em todo o mundo, nos dá a impressão de uma efervescência sem regras nem rumo. A História, segundo esta primeira impressão, seria uma agitação errática e desordenada de vidas que querem viver seu fugaz momento, movimento browniano de pó de vidas.
Uma análise mais atenta revela-nos, indubitavelmente, linhas-de-história de marcada ascensão humana, e, portanto de marcado propósito de procurar um mundo melhor. Em que sentido? O único que nos parece incontrovertido é o do progresso, pela ciência e pela técnica, do domínio do homem sobre o mundo exterior e interior. Há um indiscutível e admirável progresso nas ciências e técnicas. O homem já vê a distancia, e já pôs o pé na Lua. Nos países mais avançados naquela linha já se entrevê uma melhor divisão dos bens materiais a despeito da atoarda que ainda fazem os revolucionários que assim vêem escapar-lhes das mãos o triunfo da miséria com que exploram a miséria.
O que não se vê, por mais que se queira abrir créditos ilimitados aos fatores materiais da vida humana, é um sinal de verdadeira ascensão humana na efervescência do momento histórico. Ao contrário disso vêem-se tendências contestatórias, torrentes de recusa e de protesto atiradas contra o passado, contra a tradição, CONTRA O PAI. As novas gerações são solicitadas a manifestarem sua maioridade com a bofetada na mãe e a morte do pai.
Essa estranha tendência contrária à lei natural contraria o próprio interesse do homem, trabalha para seu rebaixamento e sua perdição. Não se poderia, pois, pensar que tal inclinação seja normal, e faça parte dos dinamismos da História.
Em nossos dias essa aberração anti-histórica, anti-humana, aparece claramente como obra de uma contracorrente atuante ao arrepio dos mais altos interesses humanos. Essa contracorrente, indecentemente atuante em nosso tempo, vem de movimentos históricos organizados, e reativados nos últimos quatro séculos, com os quais uma caravana de dementes oferece a miragem de um mundo melhor desde que lhes permitam reduzir a pó este mundo mal feito que recebemos de nossos pais.
Quando Largo Caballero tomou as rédeas da Revolução na Espanha em 1936, proclamou: “Nosotros no dejaremos pedra sobre pedra de esta España, que devemos destruir para rehacer la nuestra!”.
Este é o ideal central da Revolução: destruir tudo, voltar à estaca zero para então recrear ex-nihilo. Seus dirigentes são deuses.
Em nossos dias ganham destaque, na turbulência dos eventos, as linhas de contestação do Pai.
***
Ora, o Cristianismo é, essencialmente, a Religião em que Deus se revela como Pai. Desde o Antigo Testamento se vê, passo a passo, que a preparação do Advento do Senhor é uma tradição de pai para filho: “Escutai, filhos, a instrução de um pai (...) Eu também fui um filho para meu pai, um filho dócil junto de minha mãe...” (Prov. 4, 1-2). “Não despreza, filho, a correção de Javé, e não tenhas aversão por seus castigos, porque Javé castiga aquele que ama, como um pai castiga o filho predileto” (Prov. 3, 11). E em Isaías: “Vós, Javé, sois nosso Pai, nosso Redentor. Este é o vosso nome desde tempos imemoriais. Por que, Javé, permitis que andemos errantes longe de vossas vias, com o coração endurecido contra o vosso temor?” (Is.53, 16-17).
Mas é no Novo Testamento que ganha todo o esplendor a paternidade de Deus. Desde os abismos de sua vida íntima e trinitária, Deus é Pai, e toda a vida divina procede do Pai e volta ao Pai. Analogamente, para arremate perfeito da Criação, Deus quererá para si todas as criaturas, e muito especialmente quererá a volta daquela criatura feita à sua imagem e semelhança. E envia ao mundo seu Filho Unigênito para resgate dos homens que doravante tornados filhos adotivos no Sangue do Unigênito, possam dizer com pleno direito Abba Pai. E é o próprio Jesus, num dia memorável entre todos os dias, que ensina aos homens a língua com que devem falar a Deus: “Pai Nosso”. Nessas duas palavras estão concentrados todos os mandamentos, porque a primeira diz Pai, e dirige-se a Deus, enquanto a segunda diz nosso e derrama-se em torno de nossos irmãos.
O mundo moderno, nos seus pruridos revolucionários, é anticristão porque é todo orientado por uma soberba rejeição do Pai. E para maior escárnio inventaram uma fraternidade revolucionaria baseada na decapitação do Rei, já que não tinham à mão a própria cabeça do Pai que está no Céu. Não é por mero acaso que a Revolução Francesa escolheu a linguagem das decapitações. Não é por mero acaso, também, que os revolucionários, da nova Igreja, dita “progressista”, exaltam o ídolo do “jovem” liberado definitivamente do 4° Mandamento.
Nós sabemos que toda a grande tradição católica tirou do 4° Mandamento as lições relativas ao princípio de autoridade e de ordem social. E assim, a moderna contestação do 4° Mandamento, pregado abundantemente na era pós-conciliar, não apenas dissolve a família como também a pátria. Toda a noção de ordem, sem a qual não há sociedade politicamente organizada e orientada para o bem-comum, prende-se à fundamental relação Pai-Filho, que o revolucionismo quer destruir.
E é com infinita tristeza, com cansadíssima tristeza que vemos, mais uma vez, o espetáculo da degradação e da impotência dos novos Bispos, ou dos Bispos atualizados, que já não sabem mais nada do tema central de toda a Revelação. Agora mesmo, na nova reunião ou congresso dos Bispos americanos, falou-se no problema da família na América Latina, e logo surgiram frases estereotipadas: os pais precisam dialogar com os jovens, nós temos confiança no jovem, e outras do mesmo quilate. Terá a Igreja Católica perdido o seu diapasão e esquecido o 4° Mandamento, terão seus hierarcas perdido o gosto de dizer Pai, e o gosto de dizer “filho, inclina o ouvido e escuta as palavras de um Pai amoroso...?”
Quem passou a vida inteira a ler e reler as palavras de Deus nas Sagradas Escrituras, ou as palavras dos santos na vida da Igreja, não reconhece a mesma Voz nesse linguajar das conferências e congressos episcopais. Mais depressa reconhece o sotaque do velho conhecido lobo.
II
Peço ao leitor a paciência de suportar a insistência com que bato na mesma tecla: o nervo de toda a subversão e de toda a agitação que se observa hoje no mundo católico, especialmente no clero, é o da contestação do Mandamento “honrarás pai e mãe”.
Acima mostramos que este é o eixo da Revolução anticristã que de século em século se avoluma. A frase conhecida de Lacroix: “la democratie est le meurtre du père”, aplica-se melhor à Revolução que, desde a Renascença e a Reforma, pretende trazer ao mundo um novo humanismo liberado do Cristianismo, e, portanto, voltado contra o Cristianismo. Como se não bastasse a contestação de Deus Pai, e o repúdio da tradição e do passado, em favor de um progresso sem entidade idêntica a si mesma e capaz de aperfeiçoar-se sem deixar de ser o que é, ainda inventaram os homens, nas instâncias psicológicas, uma idéia de paternidade opressiva que representasse a consciência moral. E assim, em todos os níveis, a idéia de paternidade é demolida para que o novo homem, filho sem pai, possa realizar sua liberação total.
Dentro do mundo católico, esse monstro produziu aberrações que nem sempre parecem diretamente ligadas ao grande ideal parricida. Uma dessas aberrações é a frenética promoção d’O JOVEM. À primeira vista parece simpática, otimista e esperançosa essa exaltação da juventude; melhor reflexão, todavia, revela sua falsidade, e então o que parecia auroreal e otimista torna-se lúgubre e até obsceno. Tomemos por exemplo a frase “eu tenho confiança no jovem” de que muitos Padres e Bispos não conseguiram escapar. Essa frase parece uma proposição inofensiva, um sorriso, uma amabilidade, uma generosidade; na verdade, porém, é uma frase destituída de sentido e carregada das mais dissolventes conotações. De início a proposição é tola porque o jovem, por definição, é algo que ainda não disse ao que veio e, portanto, é alguém de que só posso dizer que tenho esperanças ou inquietações, conforme os sinais que nele observo. Mas dizer que tenho arrematada confiança em quem ainda não deu provas, é dizer um nonsense. A rigor, dos jovens e aos jovens, só podemos dizer com propriedade e sinceridade que cresçam e apareçam.
Com verdadeiro amor só posso dizer aos moços que não tenham tanta jactância de suas imaturidades e que cuidem diligentemente de aprender duas coisas. Primeira – agradecer a Deus e aos homens o que encontraram feito: água nas bicas e no mar, frutos nas árvores e no prato. O primeiro sinal que me predisporá a ter confiança num moço será essa disposição de agradecer. O segundo será a visível disposição de continuar e prolongar o que encontrou.
Ora, a adulação, com que os padres progressistas cercam os moços, só pode produzir o resultado oposto a essas duas virtudes: sim, só pode produzir a fatuidade e a soberba.
Para agradar ao semideus moderno os padres progressistas não recuam diante das mais ousadas iniciativas. Uma delas é a de promoção de “encontros” em que se misturam, com forte densidade, os jovens dos dois sexos.
Pode à primeira vista parecer que esses “encontros” visam principalmente a destruir os tabus do 6° Mandamento. Também isto entra nas cogitações dos aduladores dos jovens, mas o principal objetivo visado é sempre o pai. O pai da Terra e o Pai do Céu.
A exaltação da autonomia dos jovens tende evidentemente a mostrar que qualquer ação normativa e educadora é contrária à liberação do jovem, e, portanto, é contrária ao espírito da nova Igreja, e do mundo novo. Num mundo em que os padres têm horror à paternidade e pervertem os moços tranqüilizando-os e estimulando-os na soberba e na jactância, é fácil prever o desamparo em que ficam os educadores. Em si nunca tal tarefa foi isenta de espinhos. Daí a insistência com que Deus revelou a necessidade de defender essa linha. Dificílima, porém, se tornará a tarefa quando a sociedade em torno da família conspira contra os pais e ainda mais árdua se torna quando, além de faltar o socorro da Igreja, os padres trabalham sofregamente na perversão da juventude. Os pais, transtornados, perdem o pé, e então o anti-pai triunfa e aponta-o como clara demonstração de impotência e de inutilidade. Acelerado o círculo vicioso chega-se ao ponto em que se torna impossível educar.
Numa sociedade assim pervertida os jovens serão “os únicos juízes de seus atos”, como diz com toda ênfase e garbo um dos catecismos aprovados neste País pelas autoridades eclesiásticas que querem corrigir as distorções socioeconômicas das regiões menos favorecidas, mas não mostram nenhum empenho em evitar que os jovens sejam pervertidos por padres revolucionários.
E aqui torno a dizer que não ponho o acento tônico dessa perversão no 6° e sim no 4° Mandamento. Os desvios do 6° Mandamento podem-se explicar por fraquezas sensíveis que estão na linha da natureza das coisas: mas os desvios do 4° Mandamento são obra de um espírito de orgulho que está na origem de todos os desconcertos do mundo.
É horrível o espetáculo que o mundo católico, na área dita progressista, nos proporciona hoje. E a conseqüência não se faz esperar. Sim, senhores Bispos, é preciso ter sempre em mente que as coisas têm conseqüências. Se os jovens são arrancados à autoridade dos pais, cedo ou tarde terão de esbarrar em outro tipo de autoridade mais áspero. Tornados viciados, indisciplinados, revoltados, e eventualmente arrastados pelos agentes da subversão até a ação direta do terrorismo, os mesmos jovens adulados e caramelados pelos ávidos padres terão de esbarrar na repressão policial que é mais dura do que os pitos e conselhos do pai.
Eu não chego a dizer que os padres progressistas promotores de jovens tenham desde o início o desejo de transformar seus amiguinhos em criminosos, mas não hesito em pensar que é isto, precisamente, que o Demônio espera desses padres.
E agora que leio nos jornais que os senhores Bispos da América Latina concluíram que, para a restauração da família, é necessário que os pais entrem em diálogo com os filhos. Sim, diálogo, conversa, tolerância, mas não palavra de pai amoroso que quer o bem de seu filho. Para esse tipo de relacionamento entre pai e filhos não podemos contar com as reuniões episcopais.
Revista Permanência, setembro de 1973, n° 59, Ano VI.