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Índice de autores

Introdução ao domingo da Septuagésima

“Ide vós também para a minha vinha” (Evangelho)

 

Paramentos roxos

 

A aproximação dos textos do Breviário e do Missal, esta semana, esclarece-lhes singularmente o sentido e a importância. As lições e os responsórios do Ofício da noite são tirados do Gênese e relatam a história da criação do mundo e do homem, a queda dos primeiros pais, a promessa do Redentor e finalmente a morte de Abel e a sequela das gerações até Noé. “No princípio, diz o Livro Santo, Deus criou o Céu e a Terra, formou o homem e colocou-o num jardim delicioso para o cultivar”. Jesus Cristo, observa São Gregório, diz-nos que o Reino dos Céus é semelhante a um pai de família que assalaria operários para a sua vinha. Ora, quem pode melhor representar o pai de família do que o Criador, que governa com a sua Providência tudo o criado e traz neste mundo os seus escolhidos como o Senhor traz os servos em sua casa? A vinha é a Igreja. Todos os que se aplicaram com retidão à prática do bem e exortaram os outros com a palavra ou com o exemplo a enveredar pelos caminhos da virtude, são operários desta vinha. Pelos da primeira, da terceira, da sexta e da nona hora, quis o Senhor designar o povo judeu, que desde o princípio se esforçou por servir a Deus na pessoa dos seus profetas e dos seus santos e não cessou de trabalhar no cultivo da vinha. Pelos da undécima, designou os gentios e a eles se dirige: “Porque estais aqui o dia todo sem fazer nada? ”Todos os homens são, pois, convidados a trabalhar na vinha do Senhor, quer dizer, na própria santificação e na alheia, e glorificar por este modo a Deus. Mas Adão, falhou à sua missão: “porque tu comeste do fruto da árvore que te ordenara não comesse, a terra será maldita e tirarás dela o teu sustento à força de trabalho. Só dará espinhos e cardos. Comerás o pão no suor do teu rosto até que voltes à terra donde saíste”. Exilados do Paraíso, diz S. Agostinho, o primeiro homem comunicou a pena de morte e reprovação a todos os descendentes. O gênero humano, assim condenado, foi, por assim dizer, afundado na desgraça que vai arrastando consigo através das misérias da vida. Os textos da Missa estão cheios dos mesmos pensamentos. “Dores de morte me cercaram”, diz o Intróito. E é com justiça, diz a Oração, que sofremos pelos nossos pecados. A Epístola apresenta-nos a vida como um circo onde é necessário lutar para ganhar a coroa. O denário da vida eterna, acrescenta o Evangelho, será dado só àquele que trabalhar na vinha do Senhor. Deus na sua sabedoria preferiu, diz S. Agostinho, tirar o bem do mal a não permitir mal algum. Deus com efeito compadeceu-se dos homens e prometeu-lhes um segundo Adão que restabeleceria a ordem perturbada pelo primeiro. O Paraíso era “a sombra duma vida mais perfeita”. Exilados de lá com Adão, perdêramos o direito a essa vida que ele representava. Porém, o segundo Adão veio reabrir-nos a porta e dar possibilidade de lá reentrarmos. Senhor, canta a Igreja, Vós sois o nosso auxílio na angústia e na indigência. Tendes o perdão convosco, iluminai sobre nós a Vossa face e salvai-nos.

A Missa da Septuagésima assim estudada prepara-nos para começar este novo período do ano litúrgico com uma compreensão mais perfeita dos mistérios pascais. Aprende-se melhor deste modo tudo o que a Páscoa representa e o que a Igreja nos ensina quando diz: “Deus criou o homem duma maneira admirável e resgatou-o de maneira mais admirável ainda”.

 

Do Evangelho: O amanhecer do mundo, a primeira hora, diz S. Gregório, pode entender-se do tempo que vai de Adão até Noé; a terceira, de Noé até Abraão; a sexta, de Abraão até Moisés; a nona, de Moisés até a vinda do Salvador; a undécima, desde a vinda do Salvador até o fim do mundo. Todos os homens são, portanto, chamados a trabalhar para a glória de Deus e a receber como salário o denário da vida eterna.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

Introdução ao terceiro domingo depois da Epifania

“Dizei uma só palavra e o meu servo será curado”

 

Paramentos verdes

 

Estes quatro domingos têm todos o mesmo Intróito, Gradual, Aleluia, Ofertório e Comunhão, e referem-se todos igualmente à realeza de Cristo. Os dois milagres referidos no Evangelho de hoje têm ambos a mesma significação. O primeiro é a cura dum leproso judeu. E o Senhor quer que os Príncipes dos Sacerdotes constatem oficialmente o prodígio. O segundo é o do Centurião, dum pagão, que humildemente confessa a sua indignidade e a sua fé. Todos os povos são, pois, convidados a tomar parte na herança do reino e no banquete da glória, em que a própria divindade será o pão da nossa alma. Filhos do reino de Deus, renovemos a nossa fé na divindade de Cristo e proclamemo-la com atos de virtude e daquela caridade que constitui o grande mandamento e que S. Paulo nos recorda na epístola de hoje. “A graça da fé em Jesus, diz S. Agostinho, opera a caridade”. Que nada nos separe desta caridade, e que ela produza na nossa alma sentimentos de paz e de amor para com todos os homens.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

19. Principais regras de prudência cristã que o bom católico deve observar no trato com os liberais

E não obstante, caro leitor, com os liberais exaltados, os liberais moderados e com os católicos miseravelmente eivados de liberalismo temos de viver no século presente, como com os arianos se viveu no século quarto, com os pelagianos no quinto, com os jansenistas no décimo sétimo. E não é possível deixar de conviver com eles, porque os encontramos em toda parte: nos negócios, nas diversões, nas visitas, talvez até nas igrejas e na própria família.

Como deverá, pois, se portar o bom católico em suas relações com esses empestados? Como prevenir e evitar, ou diminuir pelo menos, o constante risco de contaminação?

É dificílimo indicar regras precisas para cada caso, mas é possível indicar as máximas gerais de conduta, deixando à prudência de cada um o cuidado de aplicá-las no que lhe diz respeito individualmente.

Parece-nos que, antes de tudo, convém distinguir três classes de relações possíveis entre um católico e o liberalismo, ou melhor, entre um católico e um liberal. Dizemos assim porque as idéias, na prática, não se podem considerar como separadas das pessoas que as professam e sustentam. O liberalismo ideológico é um puro conceito intelectual; o liberalismo real e prático são as instituições, as pessoas, os livros e os jornais liberais. Três classes, pois, de relações se podem supor entre um católico e um liberal:

- Relações necessárias.

- Relações úteis.

- Relações de pura afeição ou prazer.

 

1° - Relações necessárias. As relações necessárias são impostas a cada um por seu estado ou posição particular: não se pode evitá-las. São as que existem entre filhos e pais, marido e mulher, irmãos e irmãs, subordinados e superiores, patrões e empregados, discípulos e professores etc. É claro que, se um bom filho tem a infelicidade de seu pai ser liberal, não deve abandoná-lo por isso, nem a mulher ao marido, nem o irmão ou parente a outros da família, a não ser nos casos em que o liberalismo destes chegasse a exigir de seus respectivos subalternos atos essencialmente contrários à religião, induzindo-os à apostasia formal. Não, quando somente se impedisse a liberdade de cumprir os preceitos da Igreja, pois é sabido que a Igreja não pretende obrigar ninguém sub gravi incommodo1.

Em todos esses casos, o católico deve suportar com paciência sua dura situação e rodear-se de todas as precauções para evitar o contágio do mau exemplo. Como se aconselha em todos os livros que tratam das ocasiões próximas necessárias, o católico deve ter o coração elevado a Deus, e rogar todo dia pela sua própria salvação e pela das infelizes vítimas do erro; fugir sempre que possível de conversações e discussões sobre tais matérias, e não entrar nelas senão bem munido de armas ofensivas e defensivas; estas armas lhe serão fornecidas na leitura de bons livros e jornais, aprovados por um diretor prudente; contrabalançar a inevitável influência de  pessoas contaminadas de tais erros pela freqüentação de outras pessoas de ciência e autoridade, que estejam em posse clara da sã doutrina; obedecer a seu superior em tudo que não se oponha à fé e à moral católica, porém renovar cada dia o firme propósito de negar obediência a quem quer que seja, em tudo que seja direta ou indiretamente oposto à integridade do catolicismo. E não desanime quem se encontra nessa situação. Deus, que observa suas lutas, não faltará com o auxílio conveniente.

Convém observar aqui que os bons católicos de países liberais e de famílias liberais costumam distinguir-se, quando são verdadeiramente bons, por seu especial vigor e têmpera de espírito. É este o constante proceder da graça de Deus, que auxilia com mais firmeza aí onde mais urgente e apertada vê a necessidade.

 

2° - Relações úteis. Outras relações há que não são absolutamente indispensáveis, mas que o são moralmente, porque sem elas não é possível a vida social, que se baseia toda numa troca mútua de serviços. Tais são as relações de comércio, as do patrão e seus empregados, as do artista com seus clientes etc. Nestas não há a estrita sujeição das relações do grupo anterior; pode-se, pois, agir com mais independência. A regra fundamental é não por-se em contato com tal gente, senão quando o exige a engrenagem da máquina social. Se és comerciante, não traves outras relações que as de comércio; se és empregado, limita-te às que exige o serviço; se és artesão, contenta-te ao “entregue” e ao “recebido” relativos à tua profissão.

Guardando esta prudência, e considerando as precauções gerais recomendadas no grupo anterior, pode-se viver sem prejuízo da fé, mesmo em meio a um povo de judeus; sem esquecer que neste caso não pode haver razão alguma de vassalagem, e que a independência católica tem o dever de manifestar-se com freqüência para impor respeito aos que crêem poder aniquilar-nos com seu liberalismo indecente. E no caso de uma imposição arbitrária, deve-se repeli-la com toda a franqueza, e erguer-se ante a desfaçatez do sectário com toda a nobre e firme intrepidez de um discípulo da fé.

 

3° - Relações de mera afeição. Estas são as que contraímos e mantemos por gosto ou inclinação e que podemos romper livremente, bastando querê-lo. Com liberais devemos abster-nos delas como de verdadeiros perigos para a nossa salvação. Aqui tem pleno lugar a sentença do Salvador: “Quem ama o perigo perecerá nele” (Eclo 3, 27). Custa? Rompa-se o laço perigoso, ainda que muito custe. Tenhamos presente as seguintes considerações, que certamente nos convencerão, ou pelo menos nos confundirão, se não nos convencem. Se certa pessoa estivesse atacada de uma moléstia contagiosa, terias contato com ela? Sem dúvida não. Se tuas relações com ela comprometessem tua reputação, as manteria? É certo que não. Por acaso a visitaria, se professasse idéias injuriosas com respeito à tua família? Também não. Pois bem, nesta questão que toca à honra de Deus e à salvação espiritual, façamos o que a prudência humana nos aconselha fazer pelo nosso interesse material e nossa honra humana.

Sobre este ponto, lembramo-nos ter ouvido uma pessoa de alta hierarquia hoje na Igreja dizer: "Nada com os liberais; não freqüenteis suas casas, não cultiveis suas amizades!" O Apóstolo São Paulo já antes havia dito a seus contemporâneos: Ne commiscemini: "Não vos relacioneis com eles" (1Cor 5, 9) Cum hujusmodi nec cibum sumere: "Com eles nem sentar-se à mesa." (1Cor 5, 11).

Horror, pois, à heresia que é o mal acima de todo mal! Em país empestado, o que primeiro se procura é isolar-se. Quem nos dera poder estabelecer hoje um cordão sanitário absoluto entre os católicos e os sectários do liberalismo!

  1. 1. Se disso se resultasse um grave inconveniente .

Entre Papas e Cardeais

Dom Lourenço Fleichman, OSB

Eis que, surpreendentemente, nos preparamos para conhecer o sexto papa do Concílio Vaticano II. Tendo já ultrapassado a marca dos 50 anos do seu início (1962), não podemos dizer que as coisas, no meio dessa crise, sejam previsíveis. Ainda há espaço para sustos e surpresas.

O papa Pio XII1 morreu em outubro de 1958. Com ele morria uma visão ainda tradicional da vida da Igreja, da moral, da liturgia, dos dogmas e da influência impressionante que a Igreja mantinha há dois mil anos sobre os caminhos da humanidade. Mesmo sendo constantemente perseguida e maltratada, os maus não conseguiam avançar sem freios e sem limites, porque havia uma palavra divina, um homem vestido de branco, sentado na Cátedra de S. Pedro, e que servia de consciência para todos os povos, para governantes e súditos, mesmo quando estes já não eram mais católicos.

Não que fosse obedecido e amado. Mas era uma referência, e o mundo não se entregava ao mal sem temer a condenação que viria da Igreja. Com isso, a decadência era contida; seguia seu curso, é verdade, mas em ritmo mais lento.

Foi eleito, então, para o trono de São Pedro, o cardeal Roncalli, o papa João XXIII2. Descrito por seus historiadores como um homem simples, amigável, quebrando protocolos, conversando com todos, ficou conhecido como o “bom” papa João. Na verdade, seu espírito ecumenista data de muito tempo, como aparece em suas atividades de jovem bispo, na Bulgária, quando iniciou relações com os ortodoxos daquele país, ou em Paris, como Núncio. Em suas encíclicas, João XXIII dará provas de um pensamento liberal e equivocado, ao tentar assimilar as tendências de um mundo socialista para torná-lo aceitável dentro de uma doutrina católica que, para ele, devia ser aberta e tolerante. O resultado são textos dúbios, calcados em preocupações temporais de certa paz e de concórdia, isentas das exigências próprias do reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo.  Desenvolvia assim temas caros à maçonaria, como direitos humanos, dignidade da pessoa e afins, que fugiam completamente das preocupações espirituais de um catolismo tradicional, voltado para a defesa do depósito da fé e da Revelação sobrenatural .

João XXIII fará, então, a convocação do Concílio Vaticano II, e depois de propagar como finalidade a não condenação das heresias modernas, desejou um concílio voltado para conversas pastorais, troca de experiências e um otimismo beato sobre o futuro da Igreja. Pior do que isso foi a cumplicidade do chefe da Igreja com os revolucionários que tomaram de assalto o Concílio, sob a batuta do Cardeal Lienart. Logo no início do Concílio, este prelado exigiu a substituição dos textos já preparados para debate, por outros, liberais, que um grupo de bispos já havia preparado em segredo e por debaixo dos panos. João XXIII aceitou tal revolução, assim como aceitou outras que viriam em seguida, dando a esses progressistas da Aliança Europeia o domínio completo das ações do concílio3.

No meio de tantas ambigüidades, aberturas e revoluções, não se pode admirar que o Concílio Vaticano II tenha estabelecido uma nova religião dentro de Roma e na alma do povo católico. O resultado terrível foi a perda da fé generalizada, a destruição da doutrina tradicional da Igreja, e a diminuição constante da sua autoridade moral e espiritual sobre os desígnios da humanidade.

Apesar de ter escrito textos com ideais maçônicos, visões naturalistas sobre a vida social e política, de ter mesmo mantido certas relações com a maçonaria, não se conhece provas cabais de que tenha sido, ele próprio, maçon. Não nos parece fonte fidedigna um ou dois livros escritos por maçons, onde se afirma tal relação. Claro está que interessa a esta seita secreta vangloriar-se de ter tido um papa no seu grêmio, o que tira desses autores qualquer valor histórico.

O cardeal Montini4 era Patriarca de Milão quando foi eleito no lugar de João XXIII. A porta do erro e da decadência tinha sido entreaberta por João XXIII, ela será escancarada por Paulo VI. Quando trabalhava na Secretaria de Estado do Vaticano, o bispo Montini recebera um castigo grave por ter mantido contatos com os comunistas de Moscou nas costas de Pio XII. Será afastado de Roma. O erro de Pio XII foi ter dado a este bispo desobediente uma diocese cardinalícia, mesmo não tendo recebido esta honraria do papa Pacelli. Será cardeal no 1º consistório de João XXIII, abrindo caminho para a sua eleição, poucos anos depois.

Com Paulo VI a Igreja verá um tempo de destruições. Todo o belo edifício doutrinário e sacramental da Igreja será demolido. Não sobrará pedra sobre pedra. Todos os sacramentos serão reformulados segundo o novo espírito, a missa nova será assinada, sendo mais um culto protestante do que verdadeira missa; a disciplina eclesiástica será tão mitigada que os escândalos sexuais começarão a surgir de todos os lados. A fé será ultrajada, com padres e bispos deturpando a divindade de Nosso Senhor, a perpétua virgindade de Maria, a natureza da revelação, a sacralidade dos ritos e sua eficácia. Enfim, tudo será abalado. A destruição será o resultado de um grande terremoto religioso. E o povo fiel perderá a fé sobrenatural e até mesmo a noção do que seja essa fé.

De João Paulo I5 só podemos dizer que deu a impressão de querer reverter o quadro de destruição, senão na questão de fé, pelo menos nas influências maçônicas dentro do Vaticano. Não teve tempo. Seu pontificado durou 33 dias, e muitos afirmam que foi assassinado.

João Paulo II6 dará continuidade à obra do Concílio Vaticano II, cabendo a ele a reconstrução de todo o edifício destruído por Paulo VI, mas agora com o novo espírito do Concílio. Terminará a reforma dos sacramentos, fará um novo Código de Direito Canônico, prosseguirá a reforma completa da Cúria Romana, publicará o novo Catecismo oficial, nova tradução oficial da Bíblia, nova Via Sacra, modificando até mesmo o Rosário da Virgem Maria. Além disso, levará o ecumenismo ao seu ponto mais afastado da verdadeira fé católica, instituindo os encontros de Assis, onde todas as religiões enviam seus chefes para rezarem juntos, significando que pouco importa a religião de cada um. Desse encontro heretizante, surgirá o que o papa chamou de “espírito de Assis”, um novo espírito que passa a governar a Igreja de Vaticano II.

Finalmente, Bento XVI7, que ainda é papa quando escrevemos esse editorial, apesar de ter tido algumas atitudes mais conservadoras, jamais renunciou à obra do Concílio, nem mesmo se permitiu diminuir a influência deste sobre seu pensamento e seus atos.

Suas encíclicas dão prova dessa influência constante do Concílio, mesmo dos textos claramente opostos à doutrina católica, como Gaudium et Spes, freqüentemente citado pelo papa. Tomemos como exemplo a primeira encíclica, Deus Caritas est8 , onde Bento XVI envereda por certa tese acadêmica sobre a noção de amor. Mas não consegue se livrar dela ao abordar a questão do amor como está no Novo Testamento, e faz comparações do amor divino em termos de Eros e Agape, no mínimo, inconvenientes.

Essa tendência intelectualista de escrever teses aparece também nas demais encíclicas do papa. Em Spes Salvi9, a erudição é grande, mas o espírito católico fica de lado, jamais encontrando a definição clara do dogma católico sobre a virtude da Esperança. Em Caritas in Veritate10, o papa faz o elogio da Populorum Progressio11,  de Paulo VI, sobre a política e desenvolvimento dos povos, sob o enfoque liberal do Concílio Vaticano II.

Em nenhum momento Bento XVI apresenta a doutrina católica pelo seu dogma, por aquilo que ela tem de imutável e eterno. Sempre reflexões, aberturas, autores estrangeiros ao catolicismo e mesmo inimigos da fé são convidados à mesa de “discussões” de Bento XVI. O grande sucesso desses textos junto aos novos católicos desse mundo de hoje deve-se mais à imensa ignorância que se tem da verdadeira fé, do que à fidelidade da doutrina ali contida.

Todos os seus livros, mesmo aqueles contendo erros graves de tempos mais progressistas, foram reeditados depois de se ter tornado papa, e jamais ouvimos de sua boca um sinal de querer mudar o que antes escrevera.

Se, por um lado, escreveu o Motu Proprio Summorum Pontificum, em 2007, afirmando que a missa tradicional nunca fora ab-rogada e pode ser celebrada, não se vê interesse, no Vaticano, em defender a causa de tantos padres que são perseguidos por seus bispos diocesanos e impedidos de celebrar a missa de sempre. De certa forma, o Motu Próprio serviu para confirmar e estender a perseguição, pois ela agora se aplica também a padres diocesanos mais conservadores.

Mais tarde, em 2009, teve a coragem de levantar as falsas excomunhões impostas aos quatro bispos da Fraternidade São Pio X, mas logo viu-se obrigado a dar explicações numa carta que escreveu a todo o clero. Ainda aqui, Vaticano II era como um manto que cobria todo o pensamento do papa.

 

Finalmente, ordenou que se recebesse uma comissão teológica da Fraternidade S. Pio X, para debater os pontos de litígio apresentados por esta. Após dois anos de debates, o impasse impediu que se prolongassem as conversas, pois os representantes do Vaticano não aceitavam que a doutrina progressista do Vaticano II se opunha à Tradição católica. Queriam de todas as maneiras forçar o pensamento em aceitar que Vaticano II estaria na continuidade da Tradição, mesmo diante de evidentes contradições.

Dessas conversas surgiram, em 2011-2012, tentativas de um entendimento prático que daria à Fraternidade um estatuto oficial reconhecido por Roma. Mas após meses de grandes angústias nos meios tradicionais, o próprio papa encerrou a conversa, afirmando, em carta pessoal ao Superior Geral da Fraternidade, que a aceitação do Vaticano II, dos ritos novos, do novo espírito, era exigência para um reconhecimento da Fraternidade.

Agora, diante da surpresa da renúncia do papa, nos deparamos com mais uma grave questão. O tempo todo, Bento XVI se refere ao seu ministério. Sempre que fala da renúncia, refere-se a esse ministério petrino. Temos a impressão que os próprios papas desse catolicismo deformado já não acreditam muito na realidade que lhes foi imposta pelo Divino Espírito Santo. Falam como se tivessem aceito uma função, como um acionista de grande empresa aceitaria ser Diretor Presidente por certo tempo. Aliás, faz parte da linguagem transformada pelo Vaticano II, chamar a esse ministério, de “serviço”, o que só vem reforçar essa triste impressão. E essa constatação nos faz lembrar aquelas palavras antigas de Mons. Marcel Lefebvre, quando afirmava que nós, os que guardamos a Tradição contra os detratores da Igreja, somos os verdadeiros defensores do papa e do papado. Eles próprios já não acreditam mais no poder sobrenatural do sucessor de Pedro.

O pontificado de Bento XVI não trouxe nenhuma solução aos graves problemas de fé que assolam a Igreja há décadas. O estilo tornou-se mais comportado, mais conservador na liturgia, mais intelectual nos escritos; porém, o naturalismo horizontal, o ecumenismo irenista onde cada qual encontra o seu deus e se sente bem, o liberalismo político e social e a oposição constante à Tradição da Igreja, continuaram até o fim. E a crise não terminou.

Estes são os papas do Vaticano II. Eles o fizeram, prosseguiram, impuseram ao povo católico sem se preocuparem se era da vontade de Deus ou para a salvação das almas. Da noite para o dia, uma missa sem sacrifício e sem cruz foi imposta, sob penas severas, a todos os padres. Muitas almas perderam a fé, escandalizadas pelo que viam acontecer na Igreja. Outras a perderam por terem absorvido o novo espírito de Vaticano II, tornando-se protestantes sem se darem conta. Paralelamente, o laicismo invadiu toda a Igreja, causando um esvaziamento impressionante dos mosteiros e casas religiosas. Muitos conventos fecharam as portas e foram vendidos para se tornarem museus ou escolas. O número de católicos foi diminuindo em todo o mundo e já não podemos mais falar de uma Civilização ocidental Católica, aquela impressionante herança dos mil anos de Idade Média, que formaram a Europa e o mundo católico.

Enquanto isso, os papas e bispos, ao longo desses últimos 50 anos, nunca conseguiram enxergar a realidade do mundo segundo a verdade de Deus. A todo momento interpretam os desastres, acidentes, guerras e tudo o mais com palavras pacifistas, moles, sem eficácia e sem sentido. Raras vezes atribuem os escândalos ao pecado e nunca se ouve um chefe católico se preocupar com a condenação eterna das almas. Só falam de uma falsa paz, só pregam a concórdia nessa vida, só se preocupam com o corpo do homem e sua felicidade na terra, e de salvar as aparências de certa “decência” boazinha.

Um novo papa será eleito. Humanamente não há nada que nos incline a achar que algum dos cardeais possa vir a restaurar a Igreja e ajudar as almas a se salvarem. Todos eles, para chegarem onde estão, aderiram de todo o coração aos desmandos desse maldito concílio que tanto mal trouxe para a Igreja e para as almas. Estão, pois, certos de que devem continuar a propagar esse Humanismo com tintas de religiosidade, que tudo contaminou.

Não temos preferências. Se for eleito um péssimo cardeal, progressista, destruidor, as coisas podem ficar mais claras, a evidência da falta de fé ficaria mais patente, o que nos ajudaria a segurar melhor a espada do bom combate. Por outro lado, a perseguição se tornaria mais amarga, e nós teríamos apenas a graça divina como sustento, o que já é nossa condição há 50 anos. Se for eleito um cardeal “conservador”, veremos as mesmas ambigüidades atuais perdurarem na Igreja. Cada vez que o papa falar em latim, ou celebrar uma missa mais conservadora, os blogs conservadores de plantão darão urras de alegria e dirão que o papa está restaurando a Igreja.

Mas Deus vomita os mornos e não aceita que a defesa da sua Igreja seja feita por homens cegos, ingênuos e débeis. Porque a restauração da Igreja só poderá ser realizada quando nós merecermos, por nossos sacrifícios e dores oferecidas, pelas humilhações e perseguições suportadas, pela constância das nossas orações e das nossas lágrimas. Somente assim o Divino Espírito Santo realizará o milagre da conversão de um papa. Sem essa conversão espetacular, espiritual, sem que o papa entenda na fé, ao menos em parte, todo o enlace da crise atual, não haverá grandes mudanças no horizonte da Igreja.

Peçamos a São José, esposo da Virgem Maria, protetor da Santa Igreja, e a São Miguel Arcanjo, chefe da milícia celeste, que nos permita ver com nossos olhos, ouvir com nossos ouvidos, o dia abençoado em que tal conversão chegará ao coração do sucessor de São Pedro.

(Editorial da Revista Permanência 269)

  1. 1. Eugênio Pacelli (1876-1958)
  2. 2. Angelo Giuseppe Roncalli (1881-1963)
  3. 3. Cf. Wiltgen, Ralph, S.V.D., O Reno se lança no tibre, Ed. Permanência
  4. 4. Giovanni Battista Enrico Antonio Maria Montini (1897-1978)
  5. 5. Albino Luciani (1912-1978)
  6. 6. Karol Józef Wojtyła (1920-2005)
  7. 7. Joseph Alois Ratzinger (1927-2005)
  8. 8. 25 de dezembro de 2005
  9. 9. 30 de novembro de 2007
  10. 10. 29 de junho de 2009
  11. 11. 26 de março de 1967

18. Sinais mais comuns para reconhecer se um livro, jornal ou pessoa está infectado ou somente manchado de liberalismo

Nesta variedade, ou melhor, confusão de matizes e meias-tintas que oferece a diversificada família do liberalismo, haverá sinais ou notas características com que se pode distinguir facilmente o liberal do não liberal? Eis outra questão também muito prática para o católico de hoje, e que de um modo ou de outro o teólogo moralista tem de resolver freqüentemente.

Para facilitar a solução, dividiremos os liberais (pessoas ou escritos) em três classes.

1° Liberais exaltados.

2° Liberais moderados.

3° Liberais impropriamente ditos, ou apenas eivados de liberalismo.

Ensaiemos uma descrição semi-fisiológica de cada um desses tipos. É um estudo que não carece de interesse.

O liberal exaltado se conhece de imediato, porque não trata de negar nem encobrir sua maldade. É inimigo formal do papa, dos padres, de toda gente da Igreja; basta que qualquer coisa seja sagrada para excitar seu ódio implacável. Dentre os jornais, procura os mais incendiários; vota nos candidatos mais abertamente ímpios; e de seu funesto sistema aceita até as últimas conseqüências. Glorifica-se de viver sem prática alguma de religião, e a duras penas a tolera em sua mulher e filhos. Costuma pertencer às seitas secretas, e quase sempre morre sem nenhum socorro da Igreja.

O liberal moderado costuma ser tão mau como o precedente, mas cuida bastante de não o parecer. As boas formas e as conveniências sociais são tudo para ele; salvo este ponto, o resto pouco lhe importa. Incendiar um convento parece demais para ele; apoderar-se do solar do convento incendiado, parece-lhe coisa muito mais normal e tolerável. Que um jornaleco qualquer, desses de bordel, venda suas blasfêmias em prosa, verso ou gravura a dez réis o exemplar, é um excesso que ele proibiria e até lamenta que um governo conservador não proíba; porém, que se digam absolutamente as mesmas coisas em frases cultas, em um livro bem impresso, ou em um drama de sonoros versos, sobretudo se o autor é acadêmico ou coisa semelhante, já não o acha inconveniente. Ouvir falar de clubes1 lhe dá calafrios e febre, porque ali, diz ele, se seduzem as massas e se subvertem os fundamentos da ordem social; mas, segundo ele, pode-se muito bem consentir na abertura de escolas livres; afinal, quem condenará a discussão científica dos problemas sociais? Escolas sem catecismo são um insulto à nação católica que paga por elas; mas uma universidade católica, ou seja, uma universidade inteiramente sujeita ao catecismo, ou mais exatamente ao critério da fé, devem ser relegadas aos tempos da Inquisição. O liberal moderado não detesta o papa; só desaprova certas pretensões da Cúria Romana e certos exageros do ultramontanismo2, que não condizem bem com as idéias de hoje. Ele gosta dos padres, sobretudo dos "esclarecidos", ou seja, dos que pensam à maneira moderna, como ele. Quanto aos fanáticos e reacionários, ele os evita ou deles se compadece. Vai à Igreja, e por vezes até mesmo se aproxima dos sacramentos; porém a sua máxima é que na Igreja se deve viver como cristão, mas fora dela convém viver conforme o século em que se nasceu e não se obstinar em remar contra a corrente. Navega assim entre duas águas, e costuma morrer com o sacerdote ao lado, porém com a biblioteca cheia de livros proibidos.

O católico simplesmente eivado de liberalismo se reconhece assim: Homem de bem e de práticas sinceramente religiosas, ele exala, não obstante, um odor de liberalismo em tudo o que diz, escreve, ou traz entre as mãos. Poderia dizer a seu modo, como Madame de Sevigné: "Não sou a rosa, mas estive perto dela, e peguei algo de seu perfume". Este bom homem fala e age como um liberal sem que se dê conta. O seu forte é a caridade, ele é a caridade em pessoa. Como detesta os exageros da imprensa ultramontana! Chamar mau um homem que difunde más idéias parece, aos olhos desse singular teólogo, pecado contra o Espírito Santo. Para ele não há senão extraviados. Não se deve resistir nem combater; o que se deve procurar sempre é atrair. "Afogar o mal com a abundância do bem", é sua fórmula favorita, que leu um dia em Balmes por acaso, e foi a única coisa que do grande filósofo catalão lhe ficou na memória. Do Evangelho, cita apenas os textos a sabor de açúcar e mel. Explica as terríveis invectivas contra o farisaísmo como excesso de gênio ou de zelo do divino Salvador. O que não o impede de se servir delas, e muito violentamente, contra os insuportáveis ultramontanos, que com seus exageros comprometem a cada dia a causa de uma religião que é toda paz e amor. Contra estes, o contaminado de liberalismo, normalmente tão doce, mostra-se acerbo e violento. Contra estes seu zelo é amargo, sua polêmica ácida, e sua caridade agressiva. A respeito dele exclamou o Pe. Félix, num discurso célebre a propósito das acusações de que era objeto a pessoa do grande Louis Veuillot: "Senhores, amemos e respeitemos até os nossos amigos". Mas não, nosso homem eivado de liberalismo não faz assim; guarda todos os tesouros da tolerância e da caridade liberal para os inimigos jurados da fé! É claro, de que outra maneira o infeliz os atrairá? Em troca, só tem o sarcasmo e a intolerância cruel para os mais heróicos defensores dessa mesma fé.

Em suma, o eivado de liberalismo não consegue compreender a oposição per diametrum3 de que fala Santo Inácio em seus Exercícios Espirituais. Não conhece outra tática senão a de atacar pelos flancos, tática que, em religião, costuma ser a mais cômoda, porém não a mais decisiva. Bem quisera ele vencer, mas à condição de não ferir o inimigo, nem lhe causar mortificação ou enfado. A palavra "guerra" irrita-lhe os nervos, mas ele se acomoda à discussão pacífica. Está pelos círculos liberais, onde se discursa e delibera, e não pelas associações ultramontanas, onde se dogmatiza e censura. Numa palavra, se pelos frutos se reconhece o liberal exaltado e o liberal moderado, é pelas afeições, principalmente, que se reconhecerá o eivado de liberalismo .

Por esses traços mal delineados, que não chegam a desenho ou esboço, e muito menos a verdadeiro e acabado retrato, será fácil discernir prontamente qualquer um dos tipos da família liberal, em suas diversas gradações.

Para resumir em poucas palavras o traço mais característico da fisionomia de cada um: o liberal exaltado ruge seu liberalismo; o liberal moderado o discursa; o pobre liberal eivado o suspira e o geme.

“Todos são maus”, como dizia dos seus pais aquele velhaco da fábula; porém, é preciso reconhecer que ao primeiro paraliza-o  muitas vezes seu próprio furor; ao terceiro a sua condição híbrida, por natureza estéril e infecunda. O segundo é o tipo satânico por excelência, o que em nossos tempos é verdadeira causa da devastação liberal.

  1. 1. Hoje diríamos, por exemplo, “grupos terroristas”.
  2. 2. No século XIX, essa corrente de pensamento representava os defensores do papa, que recusavam todo compromisso com o mundo saído da Revolução Francesa.
  3. 3. Diametralmente oposta.

Santo Tomás e a teologia dogmática

Pe. Dominique Bourmaud, FSSPX

Depois de Santo Agostinho, a Igreja assume definitivamente o papel de educadora e civilizadora que havia ficado vacante pelo desaparecimento do Império Romano. Esse movimento doutrinal, essa cultura, que se mantém durante os mil anos em que durou a Idade Média, tem um nome: escolástica. Os grandes intelectuais, pelo fato de serem igualmente sábios e cristãos, acreditam-se na obrigação de analisar sua fé em termos tão racionais quanto seja possível. É a fé que procura entender as coisas de Deus, mas é também a fé queserve para compreender o universo terrestre. Desse trabalho realizado para expressar melhor a Deus, nasce na Igreja o esforço teológico e dogmático, cujo representante em mais alto grau é Santo Tomás de Aquino. Ao descrever a gênese e o apogeu da escolástica, e ao estudar seus mais ferozes adversários, poderemos esclarecer muito bem esta nova intuição própria da verdade cristã, a saber, a harmonia que há entre a Revelação e a razão.

 

1. A escolástica e Santo Tomás

Do século VII até o XVI, os filósofos e teólogos, apesar das suas diferenças, recebem um mesmo nome, o de escolásticos (homens da escola), porque são solidários em todos os pontos nevrálgicos do conhecimento. Nessa época, a Cristandade está perfeitamente unificada no plano político e religioso. O mesmo acontece com o pensamento. Há um idioma comum: o latim eclesiástico, que permite harmonizar os esforços na busca da verdade. O método é uniforme: a demonstração racional rigorosa, tanto em filosofia quanto em sua aplicação à Revelação em teologia. As fontes são idênticas: a insuperável filosofia de Aristóteles e a fé. Deste modo, durante vários séculos, gerações de sábios anônimos apoiam-se em seus predecessores com a única pretensão de clarificar e ordenar a cultura cristã. Longe de ser um castigo, os limites tão amplos e tão saudáveis da escolástica não podiam senão alcançar resultados prodigiosos.

Os hercúleos esforços da escolástica chegariam ao coroamento no século XIII, o século mais importante da História cristã e da História como um todo. É o século de São Luis e de Dante, o século que vê o nascimento da catedral de Colônia e da Suma Teológica, o século do Poverello de Assis e de São Domingos. E, como nos tempos do apogeu da época pagã, deparamo-nos com mentes brilhantes que oferecem uma vigorosa síntese. Mencionemos, em particular, Santo Alberto, São Boaventura e, sobretudo, Santo Tomás de Aquino, o maior de todos. O auge da escolástica deve-se a três fatores simultâneos: a fundação das universidades, coroado pela de Paris; a constituição da ordem dominicana, que fornece os primeiros monges universitários; e, principalmente, a tradução das obras de Aristóteles.

Com efeito, a chegada do Filósofo às escolas foi o acontecimento capital que deu ao século XIII uma fisionomia própria. A sabedoria pagã, expressa em uma ampla síntese científica e com seu ideal próprio de vida, se realinhava em face da sabedoria cristã conservada pela corrente agostiniana. Era a primeira confrontação da humilde filosofia das realidades humanas com a elevada teologia das coisas do céu. O encontro não aconteceu sem choques.

Aristóteles faz sua entrada por intermédio de comentadores judeus e árabes da Espanha meridional, que mereciam antes o nome de corruptores, entre outras coisas, por suas concepções de  sabor panteísta. Esse tesouro da sabedoria humana estava impregnado do veneno do paganismo. Chegariam a triunfar sobre o coração cristão os deuses da antiguidade? Todo o mérito do século XIII consistiu em elaborar a síntese que as culturas seguintes não puderam jamais repetir. O Renascimento humanista e as revoluções subsequentes do protestantismo e do «século das Luzes», ao fazer do homem o centro de tudo, não conseguiram senão destruir a unidade medieval. Com efeito, esta unidade e harmonia das duas grandes sabedorias que até esse momento corriam por caminhos separados, foi alcançada durante a Cristandade medieval. Este trabalho de integração das duas verdades, humana e divina, requeria um gênio providencial. E a Providência não negaria este homem ao século da fé.

Apelidaram-no de Boi mudo não só por seu físico e mutismo, mas também por ter sido um ruminante perpétuo. Tomás de Aquino, napolitano de gênio precoce, teve sempre a inteligência orientada para as coisas mais elevadas, desde que perguntou aos monges de Monte Cassino, quando contava com apenas cinco anos: «O que é Deus?». Esta pergunta o acompanhará até o dia de sua morte. O humilde frade mendicante, temeroso da responsabilidade de pregador, que renunciou generosamente a toda dignidade exterior, havia assimilado todos os livros acessíveis em sua época. Conhecia a Bíblia Sagrada de memória e teve acesso as melhores fontes escritas, tanto em Roma como nos demais centros universitários. Desde sua chegada a Paris, aurora borealis e capital intelectual do mundo cristão, Santo Tomás surpreende a todos os seus contemporâneos, que logo se aglomerarão ao seu redor para escutar o mestre mais famoso da Universidade de Paris. Os biógrafos não poupam elogios ao seu ensino: um novo método, novos argumentos, novos pontos doutrinais, uma nova série de problemas, uma nova luz. Executou um aggiornamento pelo simples fato de não buscar a novidade, mas a verdade apenas. Acreditava na verdade, e defendia a todo custo as verdades tiradas da experiência para fazer delas seus princípios imutáveis. Ele as hierarquizava e unia em uma síntese fecunda e de fácil leitura. Não resta dúvida que estava perfeitamente provido das armas necessárias para realizar a tarefa que lhe incumbia a escolástica de seu tempo: articular a verdade natural e a verdade sobrenatural em uma síntese harmoniosa.

 

2. O sofisma das «duas verdades» de Siger

A integração de Aristóteles na Cristandade havia de encontrar oponentes ferozes. Os agostinianos lançavam anátemas contra aquele intruso que foi apresentado com traços de panteísmo e paganismo. Seguiam a um Santo Agostinho limitado: uma teologia eminentemente espiritual e sublime, perdida em Deus, mas divorciada dos conhecimentos terrestres. Sua filosofia, inspirada em Platão, era mais angélica que humana, e mais fundada nas ideias do que na realidade. Esses agostinianos lançavam suas construções teológicas como certos arquitetos audaciosos que erguem pilares altos demais e elegantes demais. Eles construiam uma teologia sublime antes de se assegurar de seus fundamentos racionais. Eles detinham a autoridade em Paris, mas a sabedoria da filosofia eterna que fluía abundante dos escritos de Aristóteles não podia permanecer escondida debaixo do alqueire e, cedo ou tarde, haveria de impor-se aos escolásticos. O tempo e a curiosidade intelectual dos medievais ganharão a disputa contra os agostinianos, mesmo com o arcebispo de Paris fulminando anátemas contra as teorias tomistas.

Neste processo de integração se insere o episódio do turbulento Siger de Brabante. Siger, seguindo ao pé da letra o Aristóteles dos comentadores impregnados de panteísmo, ensinou graves erros dogmáticos em seus cursos na Universidade de Paris. Para ele, Aristóteles é a sabedoria natural inquestionável. A fé revela a verdade sobrenatural, também inquestionável. Ambas têm direito de ocupar um lugar no mundo, mas como? Fixando o limite de cada uma: a fé está a salvo em sua própria esfera, e a verdade filosófica na sua. Siger estabelecia o divórcio entre as duas ordens do conhecimento, entre a razão e a fé, entre o laboratório e a oratória. Chesterton, em sua biografia do Boi mudo, explica, em um estilo inimitável, a dramática crise dessa luta corpo a corpo entre as duas doutrinas:

«O demônio é o macaco de Deus. O erro nunca é mais falso do que quando está muito próximo da verdade. É quando o punhal toca o nervo da verdade que consciência cristã grita de dor … Siger de Brabante levanta-se e diz qualquer coisa de tão horrivelmente semelhante a São Tomás, e tão horrivelmente diferente, que (como o Anticristo) ele poderia enganar até os eleitos. Ele diz o seguinte: a Igreja, teologicamente, tem de ter razão,  mas, cientificamente, ela pode falhar. Há duas verdades: a verdade do mundo sobrenatural e a verdade do mundo natural, que contradiz o mundo sobrenatural. Enquanto formos naturalistas, estamos livres para supor que a Cristandade é sem sentido; mas quando nos lembramos de nossas raízes cristãs,  nós devemos admitir que a Cristandade é verdadeira, até mesmo se ela é sem sentido.

Em outras palavras, Siger de Brabante cortou a cabeça em duas, como no golpe de machado de uma velha lenda guerreira. Ele declara que o homem tem dois espíritos: um tem de ser inteiramente crente; o outro pode ser inteiramente descrente. Para muitos, isso parece uma paródia do tomismo. Na verdade, era o assassinato do tomismo. Não eram duas vias que conduziam à mesma verdade. Era uma via falsa que afirmava haver duas verdades… Aqueles que se queixam que os teólogos fazem distinções sutis dificilmente encontrariam exemplo melhor de sua própria loucura. De fato, uma distinção sutil pode ser uma contradição pura e simples. É evidentemente o caso aqui.» 1.

Santo Tomás aceitava de boa vontade a existência de dois caminhos para achar a única verdade, precisamente porque estava seguro de que havia uma única verdade. Uma vez que a fé é a verdade absoluta, nada há na natureza que possa contradizer a fé. É certo que se tratava de uma confiança total na realidade da religião. Com sua lógica concisa, o santo levantou-se com todas as suas forças contra aquela paródia sigeriana da verdade:

«É ainda mais grave, pois logo em seguida ele [Siger] diz: “Pela razão concluo necessariamente que a inteligência é numericamente uma só [para todos os homens], mas, pela fé mantenho firmemente o contrário.” Assim, pois, concede que a fé tenha por objeto coisas das quais necessariamente o oposto poderia ser concluído. Ora, como não se pode concluir necessariamente mais que a verdade necessária, cujo oposto é a falsidade impossível, resulta que, de acordo com sua declaração, a fé tem por objeto a falsidade impossível, o que entretanto nem o próprio Deus pode fazer. E isso é algo que os ouvidos dos fiéis não podem suportar»2.

Não poderia haver melhor refutação para essa «dupla verdade» aberta à contradição. Nem melhor defesa de que a verdade é una, que o Deus de Moisés é também o Criador do céu e da terra, e que o Verbo Encarnado que multiplicou os pães é o mesmo que faz crescer as espigas de trigo.

A disputa que Siger de Brabante e Santo Tomás de Aquino sustentaram na Universidade de Paris não foi uma simples discussão bizantina. Ela tocava o cerne da verdade cristã. Para um cristão, a fé é essencialmente imbuída de razão do começo ao fim.

Em primeiro lugar, o juízo da fé, como todo juízo humano, deve ser movido por motivos racionais, o que faz o santo doutor afirmar que ninguém creria se não visse que tem de crer. Por isso, nossa religião é, entre todas, a única que se dirige ao homem enquanto homem, ao homem que pensa por sua razão e que se nega a crer cegamente em algo de que não tenha nenhuma evidência. A religião cristã eleva os olhos ao céu e conserva os pés na terra. Para Siger e seus seguidores, ao contrário, a religião é um salto no absurdo, um golpe ao acaso, um tiro no escuro com toda a chance de errar o alvo.

Em segundo lugar, não pode haver desenvolvimento do dogma se os artigos de fé nâo são ilustrados e e explicados à luz da razão. Nossa religião pretende conhecer o único Deus verdadeiro, autor da natureza e da graça, por meio da razão intimamente unida à fé. Ela está sempre disposta a se submeter à prova de teses filosóficas e científicas rigorosas, porque sabe que Deus não se contradiz. A teologia tomista é eminentemente científica, uma vez que a razão demonstra rigorosamente as conclusões teológicas fundadas na fé. Ao contrário, a teologia de Siger, não sendo ciência no sentido estrito, converte-se, ao longo do tempo, em um discurso sentimental e carregado de imagens, tirado de uma Revelação carismática e fundado nas emoções.

O divórcio que Siger estabelece conduz ao fideísmo essencialmente irracional, que encontramos na fé cega de Lutero e na fé sentimental de Kant. Todos os modernistas fizeram profissão de fideísmo: Loisy opôs o Cristo histórico ao Cristo da fé; Tyrrell disse que aquilo que é falso especulativamente (segundo a razão) pode ser verdade na prática (segundo a fé). Esse fideísmo, que nega ao homem o uso de sua razão, é uma caricatura da verdade, pois pretende que a fé em Deus pode ser absurda sob o pretexto de que Deus é misterioso. É, portanto, a caricatura modernista da fé católica.

 

3. A função do teólogo: harmonizar as duas sabedorias

Santo Tomás pôs tranquilamente mãos à obra, sem se preocupar com o que diriam seus adversários. Porém, semelhante trabalho de harmonização teria de enfrentar as dificuldades inerentes aos moldes em que essas duas sabedorias se desenvolveram. A sabedoria grega crescera segundo o molde aristotélico, mais realista e terra à terra; a cristã, segundo o molde agostiniano, mais teológico e divino, longe das questões materiais.

E, no entanto, para o ouvido afinado de Santo Tomás, estas duas melodias, elaboradas em momentos históricos distantes, emitiam sons muito similares, como se uma fuga de Bach fosse tocada separadamente em dois teclados distintos.

Como um compositor genial, ele se propõe então tocá-las simultaneamente em seus respectivos teclados, para produzir os mesmos sons e realçar a riqueza dos harmônicos e a plenitude dos acordes. Semelhante composição requeria duas coisas: era preciso purificar cada um das melodias que ainda tivessem notas discordantes, apesar da correspondência da linha geral. Em seguida, era preciso uni-las em uma síntese orgânica superior e profunda, que produzisse um som tão mais harmonioso e adequado quanto mais distinto. E então, assim como Bach teve de primeiro temperar seus teclados antes de harmonizar com êxito suas tocatas e fugas, Santo Tomás também teve de primeiro revisar suas fontes, antes de reuni-las em uma síntese teológica superior.

O imenso respeito que tinha pelas luzes do Cristianismo fez com que o santo doutor conservasse sempre uma grande veneração pelo gênio de Santo Agostinho. Na realidade, seus enfoques eram verdadeiramente distintos. Enquanto o Pai da Igreja propunha uma meditação sobre as coisas de Deus, o doutor medieval lhes buscava as causas fundadas na razão. Entretanto, apesar dos inevitáveis ajustes, pode-se dizer que a substância do agostinismo passou à Suma Teológica3.

De fato, porque era, acima de tudo, teólogo, Santo Tomás tinha de escolher o instrumento filosófico apropriado. Somente a filosofia de Aristóteles lhe servia. Por quê? Porque é a única que merece com razão o nome de filosofia eterna por seu realismo, seu rigor lógico e seu impulso em direção aos primeiros princípios das coisas. O aristotelismo é a glorificação da sensatez, a sistematização filosófica do senso comum. Fora da filosofia aristotélica, a inteligência só pode equivocar-se, como prova a história da Grécia antiga. Porém, as conclusões do filósofo pagão eram pouco claras, sobretudo no que se refere ao Além, à Criação, à imortalidade da alma e a Deus. Por quê? Porque a sabedoria de Aristóteles era mais horizontal do que vertical, mais realista do que sublime. Aristóteles se detém na substância criada; Santo Tomás tinha de levar a análise filosófica mais longe e mais alto.

Uma vez afinadas, as duas sabedorias, divina e humana, tinham de ser unidas em uma síntese teológica harmoniosa. Também aqui, como no caso da filosofia e da fé, na origem da doutrina sagrada encontramos em Santo Tomás uma intuição profunda.

Com efeito, as duas linhas melódicas entoam o mesmo Autor, o mesmo Criador e o mesmo Deus. Mas, em que ponto elas se harmonizam com êxito? Em que chave teológica as duas linhas convergentes da razão e da fé unem-se para se reforçar mutuamente? Qual é o ponto comum, a noção metafísica universal que corresponde à Revelação mais definitiva de Deus? Santo Tomás foi o primeiro a descobrir essa evidência, tão natural que se poderia dizer conhecida desde os primórdios da humanidade. Ele viu que tudo remete ao ser e, mais precisamente, ao ato de ser — esse — que define Deus perfeitamente. Deus, ao revelar Seu nome a Moisés, lhe diz: «Eu sou o que sou». Jesus diz igualmente: «Antes que Abraão fosse, Eu sou». Os santos não têm outra linguagem: Deus é tudo, enquanto o homem não é nada! Toda criatura tem existência, mas só de Deus pode ser dito que é. Só Deus é totalmente simples; a criatura é composta, é uma natureza, uma essência que existe. Santo Tomás acrescentou ao pensamento aristotélico o ponto de vista supremo, o binômio essência-existência, o único que permite distinguir o criado do incriado, o composto finito do infinitamente simples. O professor Gilson, especialista em Idade Média, comenta essa concepção suprema do Aquinata:

«O simples fato de conceber Deus como o Ato de ser puro e subsistente por si mesmo, causa e fim de todos os demais seres, é criar uma teologia que pode justificar tudo aquilo que há de certo nas outras teologias, do mesmo modo que a metafísica do esse [existência] tem todo o necessário para justificar tudo o que há de certo nas outras filosofias. Porque inclui a todas, essa teologia do Ato incriado do ser, ou de Deus cujo nome próprio é “Eu sou”, é tão verdadeira como todas consideradas em seu conjunto, e mais verdadeira que cada uma delas considerada separadamente. Se não me equívoco, esta é a razão secreta por que a Igreja escolheu Santo Tomás como seu Doutor comum… Para aqueles que vivem dela, a metafísica do Doutor comum, recebida em sua plenitude, é o nec plus ultra da compreensão, insuperável por direito e insondável em suas consequências»4.

A analogia do ser, pedra angular do tomismo, permite então ao olho de águia do santo doutor alçar-se diretamente à mais elevada sabedoria. Dessa maneira, são reconciliados o Evangelho e a filosofia pagã, a fé e o gênio natural, mas inspirado, de Aristóteles. Reconciliados, mutuamente reforçados e unidos para construir um estado superior do conhecimento: a teologia que fala de Deus o quanto pode fazê-lo a razão e a fé. A doutrina tomista, comparada com o simples catecismo, eleva-se como uma gigantesca catedral gótica ao lado da casa de um camponês. Ambas as sabedorias apoiam-se mutuamente para elaborar o esforço arquitetônico intelectual mais audacioso da história, a Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino.

Por que a Igreja, por mais de sessenta Papas, recomenda o tomismo acima de qualquer outra doutrina? Por que, por exemplo, não se poderia seguir com a mesma segurança a síntese de um Santo Agostinho ou de um São Boaventura? Por duas razões muito simples. Em primeiro lugar, como já mostramos, porque é a teologia mais universal e mais provada. Assim como na ciência, as hipóteses que coordenam um maior número de fatos e se relacionam mais estreitamente com princípios superiores têm mais peso que as demais, do mesmo modo, um sistema teológico é tanto mais certo quanto mais provas ofereça em todos os campos5. Ora, isso é próprio do tomismo. Em nossos dias, o teólogo que queira fazer sua disciplina avançar deve se erguer sobre os ombros de Santo Tomás, como o físico sempre considera as descobertas precedentes, ou a ciência ainda estaria no tempo de Arquimedes.

A segunda razão que faz do tomismo a teologia oficial da Igreja é que ela se funda, em última instância, sobre princípios eternos e imutáveis: a Revelação e a filosofia realista. Se é verdade que só há uma Revelação, é igualmente verdade que esta só se converte em uma teologia científica quando a inteligência humana a estuda fazendo uso dos princípios do bom senso codificados por Aristóteles. Uma vez que não há mais que uma Revelação e uma filosofia eterna, tampouco pode haver, definitivamente, mais do que uma ciência teológica que reúna os dados da fé e as conclusões teológicas em rigorosa coordenação. Se a Igreja se aferra tanto ao tomismo, não é por fanatismo ou por disciplina, mas por uma necessidade lógica. Em arquitetura o estilo de construção varia de acordo com a época, mas para a construção de qualquer edifício imperam leis idênticas e invariáveis, como a gravidade e a resistência, sem as quais não haveria castelos, nem casas, nem choças Acontece o mesmo com Santo Tomás. Seu valor não reside tanto em ter elaborado uma admirável síntese teológica, mas em ter avançado mais que nenhum outro no conhecimento da teologia e na sistematização científica de princípios fundamentais que sempre servirão de base para todo aquele que queira tornar-se um teólogo, do mesmo modo que se vai à escola de arquitetura para se tornar arquiteto6. Ora, essas leis e princípios essenciais do tomismo são o que a Igreja manda seguir como diretivas certas quando ela obriga o uso de São Tomás.

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*    *

Terminaremos nosso estudo de Santo Tomás com o elogio que o Papa Pio XI lhe faz. Esta será a melhor introdução ao estudo da crise modernista.

«Se queremos evitar os erros que são a origem e a fonte de todas as misérias de nosso tempo, o ensinamento do Aquinate tem de ser mais do que nunca seguido religiosamente. Pois Santo Tomás refuta as teorias propostas pelos modernistas em todos os domínios, em filosofia, protegendo, como já dissemos, a força e o poder do espírito humano e demonstrando a existência de Deus pelos argumentos mais eficazes; em dogmática, distinguindo a ordem sobrenatural da natural e explicando as razões da fé e os dogmas neles mesmos; em teologia, mostrando que os artigos da fé não se fundam apenas na opinião, mas sobre a verdade e são, portanto, intangíveis; em exegese, transmitindo o verdadeiro conceito de intuição divina; na ciência da moral, da sociologia e do direito, estabelecendo os princípios certos da justiça legal e social, comutativa e distributiva, e explicando as relações entre justiça e caridade; no estudo do ascetismo,por seus preceitos de perfeição da vida cristã e sua refutação dos inimigos das ordens religiosas de seu tempo. Enfim, contra liberdade excessiva do espirito humano e sua independência em face de Deus, ele declara os direitos da Verdade primeira e a autoridade do Senhor supremo de todos nós. É, pois, claro que os modernistas têm todas as razões para temer Tomás de Aquino mais do que qualquer outro doutor da Igreja. Assim, como ele em outra ocasião dissera aos egípcios em tempos de fome: Ide a José, a fim de que eles possam receber dele a provisão de trigo para alimentar seus corpos, nós dizemos a todos que desejem a verdade: Ide a Tomás, e pedi a ele que vos dê em abundância o alimento da doutrina substancial para possais nutrir vossas almas para a vida eterna.”

(Cem Anos de Modernismo, tradução: Ricardo Bellei)

  1. 1. Gilbert Keith Chesterton, Saint Thomas Aquinas, pp. 106-108.
  2. 2. De unitate intellectus contra Averroistas, circa finem, em Ramírez, De fide divina, p. 108; cf. Vaticano I, Dei Filius, cap. 4.
  3. 3. Gilson, Les tribulations de Sophie, p. 40.
  4. 4. Gilson, ibídem, p. 44.
  5. 5. Gardeil, Le donné révelé et la théologie, pp. 253-284.
  6. 6. Em Labourdette, Dialogue théologique, p. 12.

Introdução ao segundo domingo depois da Epifania

Jesus transforma a água em vinho nas Bodas de Caná.

 

Paramentos verdes

 

Fiel à promessa que fizera a Abraão, Deus enviou o seu Filho para resgatar o povo eleito, que se não circunscrevia à órbita judaica somente, mas compreendia os homens de todos os lugares e de todos os tempos. Jesus é, pois, aquele rei que a terra toda deve adorar e servir. Havendo sido convidado às núpcias em Caná, diz S. Agostinho, aceita o convite para nos revelar o profundo mistério que nelas se encobre e que é a união de Cristo com a sua Igreja. Todos os Padres são unanimes em ver neste milagre aí operado, além da confirmação da missão redentora de Cristo, o símbolo da Eucaristia e da aliança que Jesus Cristo estabeleceu com as almas e selou com o sinete do seu sangue e a qual se consuma na sagrada comunhão. São as núpcias divinas na terra, prelúdio das eternas do céu. Éramos água e Cristo fez-nos vinho, vinho novo, duma vinha que é também nova e que foi regada com o sangue dum homem-Deus. Diz S. Tomás que a conversão da água em vinho é símbolo da transubstanciação, milagre tamanho que faz do vinho eucarístico o sangue da aliança de paz que Deus estabeleceu com a sua Igreja.

Do Evangelho: O milagre de Caná mostra-nos bem o que pode Maria junto do Coração do Filho. Mas diz S. Ambrósio que ela não Lhe pede serviços vulgares, mas aquilo que só Deus pode fazer.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

Formação e deformação do homem

O texto a seguir é a transcrição adaptada e completada de uma conferência pronunciada a um grupo de rapazes católicos, na Capela Nossa Senhora da Conceição, em janeiro de 2012. Foi mantido o estilo coloquial.

 

Introdução

O meu propósito nesta conferência é tratar um problema muito sério que ocorre na vida de todos, de todas as famílias, de todos os casais. Vocês bem sabem, e não vou entrar neste detalhe, que a sociedade moderna não ataca apenas a religião e a fé, mas perverte também a natureza das coisas. No comportamento dos homens também existem distorções graves, fruto desses duzentos anos de liberalismo e dos quinhentos anos de espírito revolucionário. As transformações foram se fixando e atingiram aspectos essenciais da vida social. Assim, a tese que quero apresentar para vocês é a seguinte: “vocês não são homens”.

Por que posso dizer isso? Porque a atitude geral dos homens casados não é mais uma atitude de homem. E se assim ocorre, se a maioria dos jovens casados ingressa na vida familiar sem uma atitude de homem, é porque não estão sendo formados como homens. Apesar de freqüentarem a Capela, de serem católicos e estudarem o catecismo, vocês respiram esse ambiente cultural decadente. Por isso, preciso alertá-los antes, para que saibam agir como homens agora. Será que as mulheres os aceitarão, quando perceberem que vocês recuperaram a condição e as atitudes próprias dos homens? Talvez não. Será preciso, por outro lado, formar as mulheres, o que é outra tarefa necessária na reeducação da sociedade católica.

O problema não é saber se são homens por terem vida masculina, por usarem calças compridas e agirem exteriormente como homens. Não é a voz grossa ou a força física que falta na nossa sociedade. Eu diria mesmo que quanto menor a atitude essencialmente masculina, mais o homem engrossa a voz e ameaça com os punhos, para tentar impor-se pelo temor. Trata-se de saber o que é ser homem, o que isso significa. O mundo perdeu essa noção, e vocês a perderam juntos.

Paralelamente, o mundo levou a mulher a ocupar o lugar dos homens, a ocupar o vazio deixado pelo homem nos estudos, no trabalho, na prática da autoridade; e isso altera os fundamentos da sociedade.

Há, portanto, um movimento duplo e simultâneo, no qual as atitudes de chefia, de autoridade, de força moral e de referencial da sociedade bascularam do lado masculino para o lado feminino. Elas assumiram esse papel sem que vocês se dessem conta; ou melhor, insensivelmente, os homens deixaram para elas o papel de comando da sociedade.

Não discuto, de modo algum, a maior ou menor capacidade das mulheres de exercerem a chefia e a autoridade. Estou pronto para reconhecer a grandeza delas. O que me ocupa aqui é um problema de ordem superior, espiritual, causado por uma deficiência da natureza humana, tal como foi criada por Deus, e das conseqüências desastrosas que ela tem causado na vida da sociedade.

 

A Casa

Tudo começa dentro de casa: é onde recebemos educação. E aqui acontece a primeira deficiência: a falta ou a recusa de educação.

Gostaria de deixar claro que não podemos considerar como educação o mesmo que é pregado pelos governantes atuais. Segundo eles, o que falta ao Brasil é educação. Para remediar, pretendem investir em maior número de escolas, ou de vagas universitárias, como se escolaridade desse ao homem a verdadeira educação. De que adianta dar um diploma a todos, se nas escolas e nas famílias já não se transmite o caráter reto? Nem sempre os povos sem escolaridade foram povos mal educados. Hoje, ao contrário, quando a escolaridade se espalhou e universalizou, o que mais se encontra pelo mundo é a falta de caráter e de virtudes.

Nosso propósito é analisar a ausência de virtudes na educação moral dispensada pelos pais e pelas escolas.

Ora, dentro do conceito de educação, deveríamos pensar em obediência – é a primeira virtude que nos é exigida na vida. Deveríamos todos aprender a obedecer desde o berço, mas crescemos sem conhecer essa virtude, porque os pais não sabem se impor. A televisão, a internet, os jornais dizem aos pais que eles têm de dar liberdade à criança, não podem castigar, não podem repreender. Com isso, a criança não sabe obedecer, porque os pais não sabem mandar. Como tudo na vida moderna, é pelo lado subjetivo que se encara o exercício da educação, e ficam com pena, não podem dar uma palmada simples, que serviria perfeitamente como linguagem muito bem conhecida de uma criança que não despertou ainda para as ideias universais. Quando a desobediência e a arrogância dos filhos mal educados começar a ficar mais grave, aí os pais exercerão sua autoridade de modo excessivo e bruto, porque foram guardando a raiva, sempre subjetiva, até que não agüentam mais e explodem com violência.

Deveríamos pensar também na virtude da justiça: ela nos ensina a dar a cada um segundo os seus méritos e segundo a sua qualidade. Dentro de casa é que se aprende a verdadeira justiça. E o primeiro ato de justiça é dar aos pais a submissão que lhes é devida; dar a si mesmo a condição de subordinado, de filho, condição igualmente devida às crianças. Hoje, dentro de casa, ela já não existe, porque cada um morde o seu pedaço, cada um quer a sua parte, e todos vivem do egoísmo. O mundo moderno, individualista e subjetivista, produz o egoísmo, e por isso ele vai querer ensinar a justiça no comunismo, que é o regime do inferno levado à vida social. É aí, na política esquerdista, fomentadora das maiores injustiças que o mundo já conheceu, que se ouve falar de justiça, mas de uma noção deturpada, porque dentro de casa já não se ensina mais. Os próprios pais se consideram em igualdade em relação aos filhos, a quem atribuem pseudo-direitos e mínimos deveres.

Outra virtude que será demolida pela sociedade atual é a amizade. Também ela é uma virtude. Eis outra coisa que o mundo moderno tira da alma. Ora, a amizade se produz no convívio dentro de casa, sobretudo entre irmãos. Uma casa onde as crianças devem conviver com seus irmãos, devem partilhar de seus bens, devem aprender a generosidade para com o próximo, é uma fonte de amizade verdadeira, que será um dia aplicada ao próximo.

A vida familiar, na convivência entre um grupo de irmãos, também produz atritos. É preciso aprender a lidar com os atritos. Mais tarde, a sociedade e até mesmo o mercado de trabalho será cruel com quem não souber suportar o próximo. As pessoas, em casa, não sabem mais suportar os atritos. Fecham-se em seu amor-próprio, na desobediência, nas injustiças e não conseguem mais um mínimo de paz. Os filhos que aprendem a obediência, a justiça, a amizade, aprendem também a suportar as ordens mais pesadas e os defeitos dos seus irmãos.

Outra virtude que se deveria aprender em casa é a ordem, a boa ordenação das coisas, a hierarquia e o respeito. Mas isso já é sabido: desde os anos 60 que os filhos se colocam no mesmo nível dos pais, numa guerra insana contra seu próprio lar. O que vemos, nos dias de hoje, é a criança dar ordens aos pais, e estes os servirem como se fossem seus empregados. Tiram dos filhos a capacidade de reagir diante das situações da vida, tolhem as iniciativas humanas, a começar pelo copo d’água que se apressam em buscar quando a criança grita, deitada num sofá: — Mãe, traz água!!!! São raras as famílias em que os pais ensinam a seus filhos o espírito de sacrifício.

Há certos ritos naturais na vida da casa, que também se devem ensinar às crianças: saber se levantar quando uma visita chega; saber comer à mesa com a família reunida, e não vendo televisão; os meninos não irem à mesa sem camisa, as meninas não usarem roupas indecentes, etc. Tudo isso são coisas muito importantes na formação do caráter.

Desapareceram também, na casa, a oração e a piedade. É dentro de casa, pequenino, que se aprende a rezar. E quando não se aprende pequenino a rezar, não se aprende mais. Por uma graça, alguém, muito mais velho, é sacudido por Deus e se converte. Conseguirá perseverar? Claro que existem casos de perseverança na vida católica e na oração, entre convertidos adultos, mas é difícil, tudo fica mais difícil. Se a piedade e a regra da oração não forem ensinadas no berço, é bem mais difícil perseverar. Aqueles que receberam isso desde a pequena infância, agradeçam a Deus; aqueles que não receberam, saibam que não existe verdadeira vida de homem sem piedade. Vocês são católicos, batizados, precisam estar em contato com Deus. Isso influenciará cada uma das etapas de suas vidas.

Piedade não é ir a Missa todo domingo: isso é obrigação estrita de todo católico; piedade é a prática do catolicismo: o homem católico confia em Deus, tem uma relação com Deus. Não basta dizer: “Ah! Eu Creio” – é pouco; “Eu vou à Missa” – é pouco; “Mas é Missa de São Pio V” – ainda é pouco. É preciso mais do que isso. É preciso amar a Deus em tudo, com todas as forças, fazer d’Ele a referência primeira das nossas vidas. E esta referência precisa estar presente em todas as etapas, em todas as idades. Isso se aprende em casa.

A criança é deformada dentro de casa. Não o é por falta de amor dos pais, não é isso. Os pais amam seus filhos, mas amam de um amor errado. O equívoco está em achar que o amor sentimental é o verdadeiro amor que vem do espírito racional. Tudo isso nós podemos colocar como sendo causado pelo sentimento. Vocês não são homens. Por quê? Porque vivem dos sentimentos e não da razão. O demônio é um anjo esperto; ele quer levar todo mundo para o inferno; sabe que é pelos sentimentos que ele pega o homem. É pelos sentimentos que pecamos. O pecado vem pelo sentimento. Quando não se consegue mais dominar os sentimentos pela razão, então o homem deixa de ser homem, age como animal irracional, e cai no pecado.

Com Adão e Eva foi exatamente assim. Foram criados numa situação de natureza íntegra: a razão humana dominava as paixões. Quando Adão e Eva pecaram, a integridade se rompeu, a natureza tornou-se decaída. Nós nascemos, por castigo de Deus, com o pecado original. Duas coisas que estão juntas: a mancha do pecado original e a natureza decaída. O Batismo limpa a mancha, não muda a natureza, que continua decaída.

É por isso que não somos verdadeiramente homens, porque, se definimos o homem como um animal racional, então a razão deveria imperar sobre aquilo que é animal. Porque os animais também têm sentimentos. Todos têm algum tipo de sensibilidade, ainda que seja a menor de todas, que é a sensibilidade física. Sentem fome, sentem necessidades e vão em busca do necessário, movidos pelo instinto. Deus lhes deu o instinto para isso; a nós, não. Para nós, Deus deu a razão. E é pela razão que vamos em busca das nossas necessidades. Também pela razão devemos controlar nossos sentimentos animais para obedecer à Lei do Criador.

Porém, com a natureza decaída, a situação se inverte, e não a dominamos mais. Impera dentro de nós a lei das paixões: “Porque eu não faço o bem que quero, mas o mal que não quero” 1.

E como podemos fazer com que volte a razão a dominar? Pela graça. Só a graça, essa criação de Deus soprada dentro de nós, pode restaurar nossa condição humana. Mas ela é instável, não é algo que se tenha em definitivo, pois somos levados a pecar quando esquecemos de ter em Deus nossa referência principal.

Formar homens significa inverter a tendência da natureza decaída, devolver à razão o reinado sobre os sentimentos, em todas as situações que se apresentarem diante de nós. Somos homens, somos racionais, por isso precisamos aprender a dominar a nós mesmos para, em seguida, dominar as situações da vida que se apresentarem diante de nós.

 

Escola

Se dentro de casa não aprendemos essas coisas, não é na escola que as iremos aprender. Ao contrário, na escola de hoje, somente reforçaremos a desordem, a inimizade, a injustiça, o egoísmo. A escola de hoje é formadora de vícios, porque não nos dá o que deveríamos receber. Somos forçados ao sentimento. Freqüentemente lemos nos jornais afirmações como esta: “o homem precisa viver de paixão”. Está errado. O homem precisa aprender a dominar suas paixões, orientá-las pela razão. Muitos psicólogos modernos acusam a Igreja de querer uma condenação sumária das paixões, o que teria provocado os distúrbios que se encontram na juventude. Mas isso não é verdade. A Igreja sempre ensinou que as paixões fazem parte da natureza sensível do homem. Em si, elas não são nem boas nem más, seriam neutras se não houvesse sempre uma polarização dos nossos atos entre o bem e o mal. Acontece que a natureza decaída se inclina com facilidade ao mal, movida por paixões desregradas. Se nossa natureza inclinada ao mal não fizer um esforço de elevação espiritual, cairá no pecado, na desobediência, na impureza ou na avareza. Essa é a situação da natureza decaída em Adão e Eva.

Os pais de vocês, quando se converteram, aprenderam algo sobre esse combate espiritual, mas não souberam aplicá-lo na educação dos seus filhos: podem ter tentado ensinar algo disso, mas não tudo. Às vezes dão aos filhos essa compreensão, mas esquecem de ensinar a piedade. Ora, como vocês vão sobreviver sem a piedade? Como vocês vão conseguir a graça, que é o único meio de manter a razão reinando sobre os sentimentos? Vocês sabem o que os pais dizem? “Não dá tempo para ensinar tudo”. Se eu pergunto: “você reza com seus filhos?” — “Não consigo, não dá tempo”. Mas eu pergunto: por que não dá tempo?

Vamos ver que alguns dos problemas que encontramos em casa, também os encontramos na escola.

Mas na escola damos um passo a mais na nossa vida social. Nela aprendemos uma coisa que, infelizmente, em casa já não se aprende. Na escola temos obrigações a cumprir. O ideal é que as crianças tenham suas tarefas e obrigações em casa, mas isso é raro.

Com essas obrigações aprende-se a fazer sacrifícios. Aprende-se a superar suas próprias deficiências e a desenvolver seus talentos: saber lidar com as vitórias e com as derrotas. É na escola que a criança deveria perceber que tem um desafio a realizar, boas notas, bom estudo, bom comportamento. Se ela repetir de ano, sentirá o remorso e o arrependimento, a vontade de melhorar e recuperar o tempo perdido.

A amizade e os atritos serão vividos de um modo novo, na escola. Uma coisa é ter atritos com o irmãozinho, outra coisa bem diferente é não se entender bem com alguém que pode bater em você, ou prejudicar sua estabilidade no convívio com os demais. Na escola a criança deverá aprender a firmar suas amizades com aqueles que merecem. Muitas vezes as amizades são fontes de muitos erros, de negligências e pecados. Toda criança bem educada conseguirá conciliar a alegria e o senso lúdico com a obediência, a honestidade e a pureza.

Qual a finalidade da escola? Qual a finalidade da família? A educação recebida em casa ou na escola deve desenvolver o caráter, a honra, e a Fé. Essas coisas se aprendem e passam a fazer parte da nossa natureza. A criança deve tornar-se um homem que não mente, que preza a honestidade em tudo o que faz, e que procura conviver com os amigos.

Na escola, a finalidade primeira é o estudo. Uma formação complementar à vida em família e que deveria ser subordinada à orientação moral ensinada pelos pais. A escola hoje, na verdade, já não tem mais o papel que deveria ter.

A escola hoje é dominada pelo Estado. Existe uma usurpação, por parte do Estado, do poder de ensinar. A criança tem de ir para a aula, tem de estar na escola. No fundo existe uma intenção de tirar dos pais o dever de criar e educar os filhos. A proibição, no Brasil, do home-schooling é significativa. Na cabeça deles, os pais não podem dar aulas porque o Estado é o responsável. Cuidado! Esse erro vai entrando, vai entrando dentro da gente, e perde-se a noção da verdade. Quem tem a obrigação de educar é a Igreja, na ordem sobrenatural, e são os pais, na ordem natural. Essa é a ordem estabelecida por Deus desde a criação do mundo. A escola é complementar, recebe dos pais delegação para atender seus filhos. O Estado nosso, que se impõe como educador, é comunista, é socialista, e manipula as consciências.

Aprende-se, tanto em casa como na escola, uma certa cultura. Quando falo de cultura, quero dizer aprender a ler. Não me refiro a aprender o alfabeto, a ser alfabetizado; digo aprender a ler, compreender que é através da leitura dos grandes clássicos, da verdadeira literatura, que aprendemos a conhecer a vida, aprendemos, pelo exemplo, o bem e o mal, e também adquirimos a capacidade de bem escrever. Cabe aos pais ter uma biblioteca ou usar uma biblioteca verdadeira para dar aos filhos essa formação de leitura.

Mas isso lhes parece muito chato: por que irão ensinar à criança o gosto da boa leitura, se podem apertar um botão e colocá-la diante de imagens vivas e cativantes da televisão ou de um computador? Então existe um problema aqui também na formação da criança, na formação da cultura. Temos aqui uma questão de cultura, tanto na literatura quanto na música. E temos também uma questão de Fé.

Dirão vocês: escola e Fé? Ora, a obrigação de toda escola deveria ser dar a Deus o verdadeiro culto, que é o culto católico. Temos de receber na escola uma complementação da casa, tanto na parte do convívio, da obediência, amizade, da formação do caráter, como da cultura e da Fé.

Quando eu era criança, estudava num colégio católico de leigos, não eram religiosos. Todo mês de maio, por exemplo, um menino e uma menina eram escolhidos para serem “Guardiães de Nossa Senhora”. A cada semana novas crianças eram escolhidas; uma coisa aparentemente boba, mas era a maior honra que podíamos ter no colégio. Quando a educação é feita com Fé, os pequenos ritos e gestos têm uma importância enorme, nunca mais se esquece. Meus antigos colegas de Primário, mesmo os que não guardaram a Fé, lembram-se ainda hoje: “Gostávamos de ser Guardiães de Nossa Senhora”. Cabe à escola nos dar algo da verdadeira Fé, do estudo sério e da formação complementar do caráter.

Os pais precisam ter conhecimento da escola em que matricularão seus filhos, devem saber o que procurar quando vão escolher uma escola. Não se trata de buscar aquela que vai levar o filho ao primeiro lugar no vestibular, não é isso. Além do bom nível de ensino e da disciplina, ela deveria oferecer o complemento de uma educação católica para seus filhos.

Com a crise de Fé que se espalhou dentro da Igreja, arma-se um novo problema, pois as escolas religiosas já não são aptas para dar às crianças uma educação que inclua a perseverança na Fé. De tal forma os erros do Concílio Vaticano II estão impregnados nessas escolas, que elas servem mais para arrancar a Fé do coração das crianças.

Os pais deverão procurar institutos de leigos com boa disciplina e bom nível de estudo, de pessoas sérias que se preocupem com a formação da família tradicional, e depois eles mesmos devem complementar em casa o que a escola não proporciona. Isso exige dos pais espírito de sacrifício, em casa. Em vez de gastar seu tempo com o Facebook, os pais têm a obrigação de se sentar com os filhos para ver as notas, acompanhar de perto os livros que são analisados na escola, e ensinar-lhes em casa as disciplinas que a Escola não ensina, como a vida dos santos, catecismo, história da Igreja, e diversas outras atividades culturais importantes. Nesse sentido, adquire grande importância o curso de Catecismo da Capela, ou de qualquer Priorado tradicional. Os pais não podem negligenciar essa formação dos seus filhos, pois na crise da adolescência a base moral e religiosa adquirida na infância será de grande valor.

E eu termino este capítulo sobre a Escola, voltando à casa, para lembrar a grave necessidade de se organizar a oração do Terço em família, além de se criar um ambiente de respeito e de interesse pelas coisas da Igreja. Talvez possam fazer em casa pequenos gestos ou cerimônias que marquem as crianças. No Natal, por exemplo, mostrar para a criança pequena o Presépio e, no dia 24 de dezembro, na Noite de Natal, colocar o Menino Jesus no Presépio, com uma pequena oração ou um cântico de Natal. Pequenos gestos que formam a Fé, e que podem se repetir em outras ocasiões.

 

Faculdade

O significado de estudo na faculdade não é o mesmo da Escola. Temos uma técnica a aprender. Devemos aprender as coisas que serão úteis para o trabalho honesto, com vistas a uma remuneração suficiente para o nosso sustento e o da nossa família. Mas é preciso evitar a visão marxista do homem trabalhador no sentido de ser uma força produtiva. Vivemos num mundo que respira o socialismo, que esquece o sentido espiritual do trabalho, que é o resgate da condição de pecado da humanidade. “A terra será maldita por tua causa; tirarás dela o sustento com trabalhos penosos todos os dias da tua vida” 2.

O fato é que vamos aprender uma técnica para possuir uma profissão. Vocês vão considerar as oportunidades e seguir uma carreira. Na faculdade continua havendo um problema com a justiça, com a obediência, apesar de que isso diminui um pouco, pois o regime agora é de maior liberdade. Por outro lado, os esquerdistas tentarão convencê-los de que os jovens podem consertar o mundo injusto, segundo eles causado pelos monstros capitalistas. Falarão da justiça social e do bem do Povo, uma entidade sem forma e sem lei, que lhes serve perfeitamente para a Revolução.

O convívio na faculdade parece mais maduro, mas está ainda longe da maturidade adulta. Continuará a vida de amizades assim como os atritos. A piedade não poderia, nessa hora, diminuir, mas é o que, em geral, acontece: o mundo abre-se para o jovem como se fosse um sonho; ele aspira à autonomia, aos amores da vida, à posse do dinheiro e da liberdade. Pela primeira vez a educação recebida na infância vai mostrar para que serve, pois será preciso saber lidar com esses anseios e paixões mais fortes. Aqueles que aprenderam desde cedo a obedecer, a ser equitativos e justos, a dividir com os outros da casa e da escola, passarão pela faculdade sem cair num deslumbramento perigoso.

Aqui aparece mais um problema na vida do jovem, a relação com o dinheiro. Todo o mundo moderno vive em torno do dinheiro. Como os homens perderam a noção da vida eterna e desta vida passageira neste mundo, vão concentrar nas riquezas materiais o fim de suas vidas. Fazem do dinheiro o seu deus.

Ora, nós não trabalhamos pelo dinheiro. É preciso que o católico saiba que há um problema moral relacionado ao dinheiro. Nosso sentimento nos inclina à posse de bens, isso é natural. Faz parte daquilo que chamamos de concupiscência. Nesse caso, é a concupiscência dos olhos que nos inclina de modo exagerado à busca pelo dinheiro e pelos bens. Pelas inclinações perversas da nossa natureza decaída, temos uma dificuldade para nos conter; pela falta de moralidade do mundo em que vivemos, somos literalmente empurrados ao pecado pela explosão de ofertas de toda espécie, sobretudo dos objetos e aparelhos eletrônicos que invadiram a nossa sociedade.

Se alguém disser, numa roda de amigos, que não se interessa pelo dinheiro, que prefere uma vida modesta, é chamado de louco.

Mas não podemos esquecer o exemplo dado por Nosso Senhor nos Evangelhos, pela vida pobre que viveu, pelo pouco que possuiu, e pela dificuldade extrema que declarou haver para que um rico entre no Céu. A pobreza levada aos extremos é ruim, pois gera a falta do mínimo necessário para se viver em paz e em certa harmonia espiritual e material. Porém, a riqueza posta como centro da vida gera tantas obrigações e falsas necessidades, que o homem perde também a paz, vive estressado e doente, cria inimigos e falsos amigos, e não tem tempo para cuidar da sua salvação eterna.

É preciso ainda saber que muitos homens não levam jeito para lidar com muito dinheiro. Se cada um souber se contentar com aquela vida que parece ser a melhor para si, seguindo os passos da Divina Providência, certamente terá paz mais segura.

 

Vocação religiosa

Um dia alguém recebe de Deus um chamado. É muito difícil haver um chamado para a vocação se a criança não for educada com princípios católicos, em casa, na escola e na faculdade. Sempre que posso eu alerto os pais de família, porque não formaram seus filhos para a vocação. Isso é um problema que vocês vão ter de enfrentar. Por que não formaram seus filhos para a vocação? Porque os formaram para ganhar dinheiro.

Eles os formaram para ter mulheres, viver no prazer ou para o sexo? Não, absolutamente. É verdade que, em geral, foram fracos quando não limitaram o uso da televisão, da internet, as noitadas em ambientes sensuais, atravessando a madrugada, toda essa vida social decadente e imoral que se vê hoje, e que leva ao pecado. Contudo, não foi essa a intenção primeira deles. Tiveram falta de visão? Sim, mas não era essa a intenção. A conseqüência dessa fraqueza é uma vida estéril, vazia, sem busca da verdade, sem amor pela oração, e sem vocações nas nossas famílias da Tradição.

Vocês podem objetar que o mundo é assim, exige que se viva dessa maneira. Respondo: nem tanto, nem tão pouco; é possível conviver com os amigos, jogar bola, se divertir, e não pecar. O pecado é como um muro: podemos chegar bem perto, até bater com a cabeça nele, mas não podemos ir além, senão, não somos homens. O homem quando peca, não é homem. Não tem mais a razão iluminada pela graça, dominando sobre os sentimentos; ele inverteu o seu reino interior e perdeu sua qualidade de filho de Deus.

A vocação é o fruto da presença de Deus. A maioria das vocações é uma graça que Deus dá apesar de o jovem ter vivido dessa forma. Quando há algo dentro do coração do homem que é dócil a esse chamado de Deus, o jovem abandona tudo e segue a Cristo. Mas acontece o contrário, quando há algo que não é dócil, porque preso ao vício, preso aos prazeres, preso ao gosto do dinheiro, preso ao gosto da liberdade. E a vocação morre na esterilidade da semente do espírito.

Eu falei da presença de Deus, de Jesus Cristo. Qual a relação do homem católico com Jesus Cristo, que é homem? É preciso que o católico tenha alguma relação com Jesus Cristo: relação séria, de homem a homem. Às vezes é preciso sentar-se diante de nosso pai, e ter uma conversa de homem a homem, já não mais de criança. O problema é que Jesus virou uma espécie de mito para a gente. Ele está no crucifixo, está no altar. Aos domingos vamos à Missa, comungamos; sabemos mais ou menos que se trata da Presença Real de Jesus, mas não estamos mais ligados a nada. Vocês não têm a seriedade de olhar para Ele e dizer: “Eis O homem”. Tenho de me espelhar n’Ele, Ele é o meu modelo. Tudo aquilo que posso dizer sobre minha virilidade, Ele possui em perfeição. Tudo o que posso dizer sobre meu modo de ser homem, Ele se encarnou para me ensinar. Tudo o que tenho como preocupação de homem, posso falar com Ele, pois serei ouvido. É na Fé, é verdade. Mas é preciso passar pela Fé para podermos ter com Ele a conversa eterna que iniciaremos na porta do Paraíso. Um dia morreremos, e quando isso ocorrer, Ele estará lá, sentado em seu trono. Então, chegaremos. A quem puder olhar nos seus olhos e dizer: –“Senhor, estou aqui. Posso entrar no vosso Reino? Fui fiel para poder entrar, lutei para poder entrar, fiz tudo para poder entrar”, Ele vai olhar nos seus olhos e dirá: “Entre, venha tomar parte no Reino que lhe foi preparado desde o princípio”. Porém, se o homem começar a desviar o olho, a não poder encará-Lo face a face, Ele dirá: “Afaste-se de mim, maldito, e vá para o fogo do inferno”.

Então, estamos na faculdade, na profissão, em casa, estudando, praticamos esporte... Ele tem de ter participação nisso.

Vocês talvez não tenham sido chamados à vocação, mas precisam ter uma relação com Jesus Cristo, como todo católico.

 

O que na educação ajuda a vocação religiosa?

Piedade, honra, Fé, educação, aprender a rezar... O pai deve perder tempo com o filho, saber que não pode ficar pendurado na internet, com seus amigos: ele tem de perder tempo com o filho. A primeira coisa que vão tentar colocar na cabeça de vocês é que ter filhos atrapalha. Todo mundo vai dizer isso para vocês: filho atrapalha, atrapalha o meu projeto de vida. Ora, quem disse que Deus quer esse seu projeto de vida? Você perguntou para Ele? Ele disse que tem de ser assim?

Ter filhos não atrapalha, porque o filho é o fruto do casamento, é a razão de ser da vida familiar. Ter filhos, para um jovem casal moderno, é reverter a situação de decadência, é sermos homens de verdade. Parece que eu avancei um pouco ao falar do casamento, mas não faz mal. Voltaremos a falar no assunto.

 

Esporte

Dentro de tudo isso entra a questão do esporte. É uma questão menor, podemos dizer assim, mas pode ser perigosa. Pode significar saúde e bem estar. Aqueles que não gostam de praticar esporte devem se esforçar para fazer alguma atividade física, porque o mundo moderno corrompe o corpo e a alma; sim, corrompe o corpo também. Não temos medida na comida, não temos medida na bebida. O mundo moderno é profundamente intemperante.

O homem antigo não precisava praticar esporte. A vida já era um esporte: ele cortava lenha, roçava a terra, andava a cavalo, tudo nele era esforço. A vida era um combate físico, de modo que o homem era saudável naturalmente. Hoje, não: o homem fica sentado atrás de uma cadeira, na escola toda, na faculdade toda e também na profissão: computador, computador, computador. Assim, vai atrofiando, desenvolvendo dores, gordura etc. Dessa intemperança pecaminosa surge a grave preguiça, a inversão da noite e do dia, a perda do ritmo natural do sono restaurador.

Mas, além da saúde, existe a paixão. E a paixão vicia, é sentimento sobrepondo-se à razão. Quando o esporte significa uma paixão, ele acarreta muitos erros e faltas, a começar pelos estudos e demais obrigações. O esporte é saudável, é gostoso, mas tem de se tomar cuidado. Outro problema relacionado com o esporte é a vaidade com o corpo. Chega a ser doentio o cuidado que vemos em rapazes ligados ao esporte, ou às academias de ginástica, onde se promove o culto do corpo. Muitos católicos se deixam levar por erros grosseiros como este.

Muitas vezes, por outro lado, encontra-se na prática do esporte a formação do sentido de justiça que pode ser uma virtude. O espírito de sacrifício e de superação também podem estar presentes, assim como o aprendizado da aceitação virtuosa da vitória e da derrota, como vimos na escola. Também podemos ver os jovens desenvolverem as amizades, o sentido da ordem, da hierarquia e da camaradagem.

A piedade muitas vezes cai muito, pode desaparecer por completo. É muito bom viajar com os amigos, competir, mas é preciso lembrar que temos nossas obrigações religiosas. O 3º Mandamento é uma obrigação estrita, e não podemos faltar à missa por causa de uma competição. Quando estamos no meio do mundo, temos obrigação de rezar. O católico tem obrigação de rezar, pois não seria normal estarmos numa casa e nunca nos dirigirmos ao dono da casa. Deus é o Senhor do nosso coração, e devemos todos os dias dar a Ele o nosso tributo de amor, que se manifesta pela obediência aos seus Mandamentos e pela oração.

 

Meu trabalho, minha profissão

A dedicação. Um dia acordamos e estamos formados. Vamos aprender que não podemos fazer somente o que queremos. É preciso acordar cedo. Dedicação. O profissional dedicado vai ser visto pelo patrão, vai buscar a perfeição: não apenas a obrigação, mas o gosto de fazer a coisa bem feita, não pela vaidade.

Cuidado com o comunismo. Aqui o comunismo vai atuar muito forte: virá o sindicato, o Procon, a tentação de tudo resolver nos tribunais. Tentarão impingir nas suas cabeças que o patrão é necessariamente usurpador e mau; o espírito de vingança será a tônica do ensinamento comunista. Todo mundo tem isso hoje no sangue. Somos deformados. Em alguns casos pode ser necessário entrar na justiça, mas em geral, não é esta a atitude de um homem católico. Cuidado com o desejo de se dar bem na vida. Já vi muitos católicos, que freqüentam a Missa, entrarem na justiça contra o patrão. Às vezes o patrão faz algo que não deveria fazer, isso pode acontecer; mas é preciso suportar com paciência muitas injustiças, e a vida continua. Não se pode querer tudo no rigor da justiça, sabem por quê? Porque acabaremos achando que essa vingança mesquinha é o normal da vida, e não saberemos agir de outra forma. Leiam o Evangelho. O que custa todo dia ler um pedacinho do Evangelho? Nele, aprendemos a conhecer esse homem, que é também Deus, e nos ensina a viver como verdadeiros homens. Ora, lá no Evangelho lemos a história do sujeito que devia uma boa quantia, suplicou ao patrão e teve a dívida perdoada. Logo em seguida, esse mesmo homem encontrou um companheiro que lhe devia um valor insignificante, bateu nele e o colocou na prisão. O patrão, ao saber disso, chamou-o e disse: “Eu não perdoei a sua dívida, que era muito maior? Por que você não teve misericórdia com ele?”. Eis o Evangelho, e ele é contra o sindicato, contra o comunismo, contra esse mundo de aproveitamentos mesquinhos em que se vive hoje.

Qual a finalidade da profissão? Subsistência, viver, comer; isso significa ganhar dinheiro. Agora, esse dinheiro é diferente daquele outro. Isso aqui é nossa obrigação: é preciso ganhar dinheiro. E esse dinheiro precisa ser ganho com a razão dominando os sentimentos.

Existe ainda outro ato de justiça nosso para com o patrão. Quantas tentações as pessoas têm de roubar. “Não faz falta, não”. Ora, não faz falta, mas não é seu. É preciso manter a seriedade da propriedade. Nosso Senhor vai pedir contas disso. Vocês sabem que quando alguém se confessa de furto, o padre explica ao penitente sobre a obrigação da devolução. Não basta se confessar, é preciso devolver; a justiça de Deus o exige.

Por outro lado, pode acontecer de um católico se deparar com alguma exigência contrária à moral ou à fé. A alma católica precisa ponderar com cuidado, pedir conselho, e uma vez ficando estabelecido que aquele ato é, em si mesmo, um pecado, conversar com seus chefes e explicar sua dificuldade de consciência. Atos ilícitos com contratos, favorecimento de abortos, e outros tipos de exigências não podem ser realizadas.

Por fim, é preciso considerar que o mundo moderno levou o homem a divinizar o trabalho, talvez por causa do apego exagerado, que ele mesmo criou, ao dinheiro. O fato é que muitos pais de família negligenciam o tempo que deveriam dedicar aos filhos e à esposa, para ganhar mais dinheiro. Muitas vezes até mesmo o descanso dominical e a missa ficam relegados a segundo plano. Somos levados insensivelmente a considerar as obrigações familiares e religiosas como algo secundário, como um peso e um estorvo para a nossa vida. Para aprofundar essa noção, recomendamos a leitura do artigo “A Casa”, de Gustavo Corção. Tenhamos um grande apego às nossas famílias. O ambiente familiar deve ser de tal forma preservado que a volta para casa seja sempre acompanhada de alegria e de repouso. O mundo moderno empurra o homem para fora de si mesmo, para a perda da vida interior, ao mesmo tempo em que o empurra para a rua, para o exterior da sua casa, do seu casulo onde são alimentadas as amizades profundas e a piedade.

 

Casamento

Eu digo para vocês que não são homens, também por causa da relação que têm com a mulher. Dirão vocês: “É o contrário. É por isso mesmo que somos homens: é natural ao homem buscar a mulher”. É verdade, mas quando nessa busca deixam que imperem os sentimentos, a coisa se complica, porque gera o pecado.

A mulher, em princípio, é a companheira. Adão procurou, entre todos os seres, uma companhia para si e não a encontrou. Deus, então, tirou a costela de Adão e fez a mulher. Adão reconheceu em Eva o osso dos seus ossos, a carne da sua carne. Chamou-a de mulher da sua carne. Virago. “Vir” significa homem, em latim. Aquela que veio do homem.

Ela é complemento, porque de fato preenche a vida do homem. E esse complemento começa como uma fortaleza que deve ser conquistada. A relação do homem começa com uma conquista, e não é qualquer mulher que deve ser conquistada.

Que significa conquistar uma mulher? Para quê? É uma ordem da natureza a conquista da mulher, para que ela seja companheira, para que ela seja o complemento. Por causa dessa finalidade, a fortaleza deve ser vencida e conquistada. Esse ímpeto que conduz o homem à conquista do seu castelo é o amor.

O que o mundo moderno faz neste ponto, esse mundo sem lei e sem honra, é viver de paixões, extravasar as paixões na busca da mulher. Isso não é o verdadeiro amor, que está na formação de uma companheira, de um complemento. Porque uma coisa é a conquista de uma fortaleza – lugar forte, estável, definitivo – outra coisa é possuir um “carrinho de mão”.

Uso aqui a figura de um carrinho de mão para mostrar a instabilidade, a coisa cambiante e cambaleante.

A mulher de hoje, que é conquistada pela juventude, é “carrinho de mão”. Tem rodinha. Rotatividade. O verdadeiro amor só pode ser por uma fortaleza, que se conquista para ser sua, para ser sua morada e seu domínio. Aparece aqui a veracidade desse bem do casamento, tal como Deus o instituiu no Paraíso, que é a indissolubilidade. Todo casamento é indissolúvel, porque é a conquista de uma fortaleza amada, que se tornou sua morada definitiva.

Como se realiza essa conquista? Vocês sabem muito bem que no passado, no regime de casamento natural, ele passava a existir a partir da união carnal. Se um homem e uma mulher tiveram relações, consideravam-se casados. Nós, católicos, batizados, temos um sacramento. O sacramento do Matrimônio gera uma graça sobrenatural que sela a união do casal. Nosso Senhor instituiu um sacramento próprio para isso, próprio para o amor, próprio para o sexo, próprio para a conquista da fortaleza. É um sacramento, e se é assim, se é um sacramento, se a conquista da fortaleza vem pela graça, olhem então para Jesus Cristo e perguntem se vocês podem namorar como o mundo hoje namora. Vale a pena fazer isso? Essa é a questão: Perguntem a Jesus Cristo. Vocês não estão sendo homens quando levam uma vida de pecado, quando se entregam a qualquer coisa. Vocês têm uma casa para formar. Não percebem que tendo com a mulher uma relação banalizada, estão destruindo essa fortaleza? Não estão considerando os fundamentos da sua casa futura? A mulher que não é a fortaleza a ser conquistada, é casa sem muralha, é porta aberta, onde os homens entram e saem ao sabor das paixões e sentimentos.

Os jovens de hoje diminuem tudo quando não percebem que a mulher é a porta aberta ao pecado. Vocês vão ter de criar um casulo, criar asas coloridas, como a borboleta. Quando um homem se une a uma mulher, ele a possui. Mas isso não acontece nesses namoros sexuais modernos. Ele a levou para casa? Vai dar comida para ela? Vai ter filhos com ela? Claro que não; então, eles não possuem a mulher, não é amor verdadeiro. Não tem Jesus Cristo. Não tem finalidade.

E eu já ouço a resposta: “Ah! Mas eu a amo”. É claro que ama! Qualquer homem ama uma mulher que está em seus braços. Mas não é o verdadeiro amor. É um amor de sentimento, uma paixão que une a carne, mas não é a conquista de uma fortaleza. É a conquista de um carrinho de mão. Um a mais, na coleção dessa falsa virilidade.

Quando isso é feito com a finalidade própria, então a razão domina sobre os sentimentos. O homem possui a mulher nesse sentido profundo de que falei, e o sentimento de posse é verdadeiro. Há uma falsa posse no sentimento que vem a um homem quando tem relações com uma mulher que não é a sua esposa, que não é a sua escolhida, a sua companheira conquistada.

O mundo da Revolução em que vivemos propaga que, quanto maior o número de mulheres com quem um homem tem relações, mais viris são. É o contrário disso: eles são menos homens. Qual a mulher que quer hoje ser possuída? Pergunto aos que têm condições para já estarem casados: Por que até hoje não se casaram? Porque a mulher não quer. Ela tem profissão, ela quer se formar, quer manter sua liberdade. Então vocês não as possuíram. Na hora que vocês conquistarem a fortaleza, a mulher se entrega, e ela só quer uma coisa: ser do homem. E aí ela se casa. Hoje em dia ninguém se casa por causa disso. Não existe o verdadeiro amor. Portanto, não existe verdadeiro sexo. É tudo uma enganação, um prazer passageiro e egoísta. Não é posse, não é a conquista da fortaleza. Isso tem de ser visto, isso precisa ser analisado de modo muito profundo diante de Jesus Cristo.

A formação da família passa por essa crise profunda, em que a mulher se igualou ao homem na busca de uma profissão, no dinheiro que quer ganhar, deixando de lado o maior bem que é a maternidade e a transmissão aos filhos do caráter e da honra, que é a verdadeira educação. Quando ela considera o casamento um bem para si mesma, une-se de modo instável ao seu namorado, considerando mais a manutenção da sua vida própria do que a doação de si mesma ao seu marido. Ele, por sua vez, deformado pela falsa ideia de masculinidade que lhe passaram, não saberá viver como verdadeiro homem. Os dois terão diante de si o desafio de voltar à casa, e nem sempre saberão como realizar este retorno.

 

Voltamos à casa

Tudo começa dentro de casa, para a criança que se tornará um homem adulto. Após todas as etapas que procuramos analisar, voltamos à casa, à nova casa criada pelo casamento. Ao longo da vida de criança até alcançar a idade adulta, a grande questão será a formação da cabeça do homem. É aqui que eu queria chegar. Toda esta conferência foi feita para analisarmos como os homens, hoje, iniciam sua vida de casados. Vocês não são homens porque a cabeça de vocês é deformada. Não sabem mais possuir. Digo isso porque, quando chegam na casa, não são chefes, não são autoridade, não são pais. Continuam sendo garotos mimados, egoístas, agora em disputa com a mulher para ver quem, no igualitarismo moderno, vence a queda de braço.

 

Qual a característica de um chefe em casa?

Em primeiro lugar, o papel do chefe da casa é comandar a sua casa, amar sua esposa, educar seus filhos. Em seguida existe a grande obrigação de dar subsistência à casa. Que a mulher ajude nesse ponto, como o homem ajuda a cuidar dos filhos, entende-se, apesar de que deve haver um esforço da sociedade familiar para proteger e priorizar a permanência da mãe junto a seus filhos. Que o homem se lembre de que cabe a ele essa obrigação, e a ela a obrigação própria da maternidade. Um primeiro ponto muito importante para a boa formação do lar é a harmonia das tarefas e das funções.

O pai precisa saber que ele dominou, ele conquistou a fortaleza, ele adquiriu a autoridade. Essa autoridade não significa que a mulher não seja companheira dele. Os dois se completam, mas não como duas peças de uma máquina. A vida da esposa é, ao mesmo tempo, complementar e subordinada à vida do marido. A analogia que poderíamos tomar seria a relação entre a cabeça e o coração. Um não vive sem o outro, mas a cabeça é mais do que o coração. Nela reside a inteligência, o conhecimento e a visão. Sem o sangue bombeado pelo coração, a cabeça morre, mas sem a cabeça, a bomba de sangue não serviria para nada. Essa harmonia está na essência da casa, ela é muito mais do que uma harmonia de agir, de bom entendimento entre os dois. A essência da família está nessa relação de autoridade e de subordinação. Ela é bela e profunda e o casal ganharia muito se compreendesse a riqueza que existe nesse fundamento espiritual da família.

Os dois mandam nos filhos, os dois têm autoridade sobre os filhos, mas entre os dois existe uma hierarquia. Ele é o chefe da casa, mas o homem de hoje não sabe mais ser chefe, ser cabeça. Não foi formado dentro dessa perspectiva. As mulheres trabalham, estudam, têm altas posições nas empresas, e quando chegam em casa não sabem mais se posicionar diante do marido. A mulher enfrenta o marido porque tem vontade própria. O marido reclama da mulher porque tem suas atividades próprias e a casa atrapalha. O filho enfrenta os pais. Tudo é invertido.

Então, o sujeito chega com a noiva para se preparar para o casamento (muitas vezes já vivem como marido e mulher). O padre explica “Adão e Eva... Pecado Original... Deus deu Eva para Adão... instituiu o casamento natural... Jesus Cristo elevou o casamento ao nível de sacramento, um ato sagrado... formação da família”. Casam-se, e logo começa a briga. “Eu quero isso”, “eu quero aquilo”, “eu quero assim”, etc. Perdeu-se a ordem das coisas. O homem com seus sentimentos, vontades e gostos; e a mulher, com seus sentimentos, vontades e gostos vão fazer uma mistura. Casamento hoje é mistura. Na hora em que os sentimentos, vontades e gostos do homem não derem certo com os da mulher – porque sentimento, vontades e gostos são coisas que variam – acaba o casamento. Não é isso o casamento. Casamento é passar por cima dos sentimentos, vontades e gostos porque existe algo chamado família, e família é mais do que o homem e mais do que a mulher. Existe um bem comum, e esse bem comum o homem tem obrigação de preservar. Ele, em primeiro lugar, porque é o chefe: Deus vai lhe pedir contas do que fez com sua família. Se Deus instituiu a reforma da razão sobre os sentimentos por meio do sacramento do Matrimônio, é porque Jesus Cristo tinha, para com a família, algo de muito forte, e confia ao homem algo que é d’Ele: “Eu te dou esta família, homem, chefe, para você cuidar, para propagar o gênero humano, para levar isso adiante, até o dia em que Eu tenha a corte celeste completa e acabe com esse mundo passageiro, para todos viverem na glória do Paraíso, enquanto os pecadores irão para o inferno”. Jesus Cristo tinha uma intenção muito forte, e Ele põe isso na mão do homem, na chefia da família. O homem esqueceu que ele tem essa responsabilidade. Hoje é tudo vivido no mesmo nível, no igualitarismo. Ouvem o que o padre tem para dizer, a doutrina bimilenar da Igreja, mas não sabem pôr em prática, porque o mundo não deixa. A mulher também não sabe mais o que significa essa subordinação, revolta-se contra ela como se trabalhar num escritório ou num projeto qualquer também não lhe trouxesse submissão às autoridades. Perdeu a noção de que, subordinada àquele que ama, àquele que a ama, e voltada para o bem dos filhos a quem deu à luz, viveria mais feliz do que no deserto de um mundo cruel e implacável. Como disse Gustavo Corção, elas acharam mais interessante arrumar um fichário do que arrumar a gaveta do armário.

Esta situação significa um desequilíbrio grave nas forças naturais da sociedade, no fundamento da família. O convívio dos meninos com meninas da mesma idade, continuando na adolescência e na juventude alterou completamente a relação entre os dois sexos. A saudável diferença de idades que existia antigamente, quando as mulheres casavam-se com homens mais velhos, desapareceu quase por completo, pois o convívio diário atrai os jovens da mesma sala da escola ou da faculdade. Como a psicologia da mulher é mais amadurecida do que a do homem, elas acabam tendo mais dificuldades para a função que lhes é própria na hierarquia da família, enquanto os homens se acomodam, sem perceber, numa confortável dependência da mulher mais madura do que eles.

Jamais a humanidade conheceu época tão desequilibrada como a atual. O meio século que nos separa do final da 2ª Guerra Mundial abriu um abismo entre o mundo moderno e o anterior. Estamos em uma nova civilização que já não tem mais nada de cristã. Está destruída a família, está destruído o homem e também a mulher. Este novo mundo é formado por uma geração de homens que perderam a noção da fortaleza própria do homem; uma geração de mulheres que perdeu o gosto pela maternidade e pela grande aventura de educar filhos, para que recomecem, mais tarde, o ciclo da vida social, pela fundação de uma nova família.

Os católicos podem resistir a essa destruição. Mesmo não tendo mais o Evangelho como critério da civilização, podemos mantê-lo como critério das nossas casas, da educação dada aos filhos, das escolas que possamos fundar e do mundo empresarial que consigamos formar.

No final da nossa formação, recomeçamos todo o processo: casa, escola, faculdade, vocação, esporte, profissão... Mas agora são vocês, e não seus pais. São vocês com suas esposas e com os filhos que vieram do casamento. Porque vocês souberam ser homens, souberam vencer o mundo, reverter a situação que o mundo trouxe para a vida de vocês.

Então, vocês vão viver a vida sabendo que têm uma finalidade, que é assumir o turno de vocês na construção da civilização cristã.

Essa é a realidade em que se vive hoje. Pensem nessas coisas e considerem isso de um modo profundo na vida de vocês. Não sei se tem solução para toda a sociedade, pois isso depende de um milagre, e nem sempre os homens merecem os milagres. Mas certamente existe uma solução pontual para cada um de vocês. Basta que procurem voluntariamente a formação necessária e a vida virtuosa que, só ela pode nos dar a graça divina necessária para a restauração do homem ainda nessa vida, e a conquista do céu, na vida eterna.

  1. 1. S. Paulo Rom, VII, 19.. E mais adiante o Apóstolo completa: “Mas vejo nos meus membros uma outra lei que se opõe à lei do meu espírito” Idem, VII, 23.
  2. 2. Gn 3, 17

Santo Agostinho e a Revelação do Filho de Deus

Pe. Dominique Bourmaud -- FSSPX

Aristóteles, usando o senso comum e a lógica, foi o primeiro a elucidar as bases definitivas da razão humana. As coisas existem e a inteligência pode, certamente, conhecê-las. Qualquer pessoa que negue as verdades do senso comum expõe-se a viver como uma planta, incapaz de fazer ou dizer qualquer coisa. Se as consequências são desastrosas no âmbito natural, que acontecerá quando se tratar do conhecimento de Deus? Quem nega estas evidências, poderá aceitar em algum momento a verdade absoluta da Revelação divina? Para admitir que Deus diz a verdade, é preciso demonstrar antes, por meio da razão, que Deus existe. Para isso, é preciso também que o homem seja capaz de reconhecer com certeza o fato da Revelação. É preciso saber com absoluta certeza que Deus se manifesta por sinais milagrosos, e isto supõe conhecer a natureza e suas leis. Em seguida, é preciso que Deus possa comunicar em linguagem humana as verdades sobre sua natureza misteriosa. Mais radicalmente ainda, é preciso  ao menos acreditar na verdade.

É evidente, portanto, que somente os princípios da filosofia realista podem servir de base à Revelação divina. E para que a Revelação possa manifestar-se efetivamente, a divina Providência teve que oferecer todas as provas necessárias para provocar o assentimento de qualquer homem razoável. Nesse caso, um realista não terá nenhuma dificuldade em ver que deve acreditar. Ao contrário, se um incrédulo se nega a crer, não será porque duvide da Revelação em si mesma, mas por um preconceito filosófico, nesse caso, um preconceito cético.

O nome de Agostinho vem naturalmente à mente quando se fala do cético inquieto que busca a sabedoria verdadeira e é conquistado, pouco a pouco, pela fé católica. Sua evolução permite reconstituir o itinerário típico do cético moderno, que passa pelas fases de hesitação, de recusa e, por fim, de submissão ao Deus encarnado. Na medida em que nossa escolha da fé é fruto de um ato da razão, sua história é, na realidade, nossa própria história. Santo Agostinho converte-se quando compreende que a Revelação é necessária para o gênero humano. E, ao longo de sua vida, explicará as Sagradas Escrituras, em particular o Evangelho, como um fato e uma história vivida, e não um mito. Retraçar as etapas da conversão de Santo Agostinho é descobrir o fundamento da Revelação; é compreender o mecanismo racional que nos dá a evidência desse fato único, de onde deriva toda a cultura cristã.

 

1. Necessidade da Revelação e da Igreja

Santo Agostinho (354-430), depois de vários anos de estudo e de ensino na África do Norte, sente-se atormentado por uma enorme sede de conhecer a verdade. A graça o persegue tanto quanto as lágrimas de sua santa mãe, Mônica. No ano de 383, fugindo de sua mãe e da graça de Deus, embarca com destino à Itália e consegue, em Milão, uma cátedra de retórica. Ali o esperava a conversão. Agostinho, adepto da heresia maniqueia, nunca perdeu o desejo da verdade. Rejeita finalmente a heresia quando o bispo herético Fausto, acossado por suas perguntas, confessa-lhe sua ignorância. Então, regressa à fé de sua infância e nesse mesmo ano começa a ouvir Santo Ambrósio, sem estar seguro ainda de que exista um caminho para alcançar a sabedoria. Sua conversão intelectual, ocorrida no ano de 385, baseia-se em uma dupla necessidade. Ele compreende que, além da razão, uma autoridade é necessária para possuir a verdade com absoluta certeza. Ele funda essa necessidade sobre a Providência divina que não pode negar ao homem a capacidade de conhecer a verdade necessária para sua salvação. Ora, os homens, pela razão apenas, são impotentes para conhecê-la, como ele podia julgar por sua própria experiência. Mas, por que a autoridade da Igreja católica? Pela mesma razão: seria contradizer a Deus e sua Providência afirmar que uma sociedade religiosa tenha conquistado o mundo inteiro se proclamando falsamente detentora da Revelação divina. Ora, a Igreja julga tranquilamente o mundo inteiro.

Como se vê, o orgulhoso retórico não se submeteu finalmente à Revelação senão pela mediação da Igreja. Ela é a porta-voz de Deus. Ela é a Mãe e a Mestra da verdade. Ela estabelece a ponte entre o presente e a Revelação de Nosso Senhor Jesus Cristo, já então quatro vezes centenária. Ela nos permite remontar do efeito à causa, do rio à fonte. Se a Igreja existe, é porque seu Fundador existiu realmente. Se a Igreja é uma sociedade milagrosa, é porque sua fundação foi milagrosa e divina. Ora, a Igreja é uma instituição visível e viva, milagrosamente difundida pelo mundo que ela conquistou, apesar das mais violentas perseguições. O catecúmeno de Milão sente-se tocado:

«Ainda não vemos a Cristo, mas vemos a Igreja: creiamos, pois, em Cristo. Os Apóstolos, ao contrário de nós, embora vissem a Cristo, não viam a Igreja a não ser através da fé. Viram uma coisa e acreditaram em outra: façamos nós o mesmo. Creiamos em Cristo, a quem não vemos ainda, e, mantendo-nos unidos à Igreja a qual vemos, chegaremos, finalmente, a ver Aquele a quem ainda não podemos ver»1.

Na vida da Igreja, o que mais chama a atenção dos espectadores do mundo pagão, e de Agostinho de princípio, é a santidade dela, este selo de Deus que a Igreja traz na fronte e derrama ao seu redor. Seus princípios morais são puros e santificantes, e são, deste modo, a causa da santidade de seus membros, e a causa da extraordinária revolução moral que purificou e elevou o meio tão corrupto da bacia do Mediterrâneo durante o período de decadência imperial. «Vejam como eles se amam», diziam admirados os judeus em face da caridade cristã. Onde reina a verdade sobrenatural floresce a santidade, o heroísmo do martírio e, em particular, a virgindade consagrada; e isto nas épocas e lugares em que menos poderia alguém esperá-lo. De forma que Santo Agostinho podia responder a seus oponentes que, se Platão e Sócrates tivessem visto o que eles viam, também teriam acreditado. Mais tarde, o magistério não fará mais do que repetir Santo Agostinho. O Concílio Vaticano I, entre outros, afirma que:

«a Igreja por si mesma, por sua admirável propagação, exímia santidade e inesgotável fecundidade em todos os bens, pela sua unidade católica e invicta estabilidade, é um grande e perpétuo motivo de credibilidade, e um testemunho irrecusável da sua divina missão»2.

Em resumo, a Igreja católica está dotada de todas as marcas suficientes para que todo homem de boa fé adira a verdadeira Igreja.

 

2. A Igreja foi fundada por Jesus Cristo

Ao frequentar a Igreja católica e seus bispos, o retórico encontra-se em condições de conhecer Jesus, seu Fundador. Através da Igreja, Agostinho tem acesso a outro monumento histórico desta Revelação divina, preservado há quatro séculos: o testemunho escrito das profecias messiânicas e da vida e doutrina de Jesus. Já antes de abraçar a fé, teve a oportunidade de estudar o Antigo e o Novo Testamento como simples documentos históricos. O Antigo Testamento serve de ponto de apoio ao Novo, uma vez que o prepara e prediz. Por esta razão, Santo Agostinho poderá dizer que os judeus da diáspora, fanaticamente opostos ao Cristianismo, são, de fato, seus melhores testemunhos, uma vez que fornecem todas as garantias possíveis da verdade das profecias passadas. Desta forma, a um homem de boa fé, livre de preconceitos, é-lhe suficiente confrontar a história de Jesus com as profecias messiânicas, para ver o fundamento da fé cristã e reconhecer em Jesus ao Messias esperado.

A história de Jesus nos é relatada pelos Evangelhos, que nos são apresentados como descrições históricas da manifestação de Deus aos homens:

«O que era no princípio, o que ouvimos e vimos com nossos próprios olhos, o que contemplamos e que nossas mãos sentiram do Verbo de Vida, porque a Vida se manifestou e nós a vimos»3.

Repugna aos Evangelhos serem tratados como produtos da imaginação fértil de poetas semíticos, como pretendem todos os modernistas imbuídos do vírus idealista. Santo Agostinho teve contato com as elucubrações absurdas dos maniqueus. É indubitável, pois, que ele sabe distinguir entre um conto de fadas e a Revelação divina. Homem de vasta cultura, sabe que, dentre todos os escritos antigos, os Evangelhos são os mais bem conservados. Compreende naturalmente que esses escritos, apresentados como descrições históricas, não são de fato outra coisa.

Ora: o que eles nos revelam? Os evangelistas contam a história de um homem que viveu entre eles durante três anos, realizou milagres em profusão e cumpriu todas as profecias messiânicas, morreu crucificado e ressuscitou ao terceiro dia. Esses evangelistas, homens de vida ao ar livre e acostumados ao trabalho duro, eram pouco propensos a alucinações. Além disso, se os milagres fossem lendas, teria sido fácil aos seus inimigos negá-los ainda durante sua própria vida; e, não obstante, eles tomaram o cuidado de não fazê-lo. Será possível acusar esses escritores de enganar conscientemente os leitores, quando não hesitaram em selar seu testemunho com o próprio sangue? Se há testemunhas dignas de fé, são certamente aquelas que não temem morrer como mártires da verdade histórica que proclamam.

Pouco a pouco, o jovem professor de retórica, ainda lutando com suas próprias dúvidas, começa a amar e reconhecer na pessoa de Cristo o taumaturgo que cura aos enfermos e leprosos, o grande profeta dos acontecimentos futuros que realmente aconteceram, como a destruição de Jerusalém no ano 70. Sobretudo, n’Ele vê o Messias anunciado durante quatro mil anos. Os milagres e as profecias serão sempre as melhores e mais objetivas provas de que o dedo de Deus está presente. Agostinho havia encontrado o caminho da salvação, mas seu orgulho continuava pondo obstáculos à verdade revelada. Via que deveria crer, mas lhe faltava querer. Não era humilde o bastante para conceber que o humilde Jesus fosse seu Deus, e não havia compreendido a lição de sua fraqueza humana4.

Finalmente, em setembro do ano de 386, compreende o profundo mistério da encarnação. Recebe a graça da conversão quando entende que Cristo, o Deus encarnado, manso e humilde de coração, é o único caminho da salvação. Todas as lutas e indecisões de seu coração curam-se de um só golpe quando, sob a repentina inspiração da voz de uma criança que lhe sugere que abra as Escrituras, ele lê a passagem de São Paulo sobre a continência5. Seu amor e sua humilde submissão a Jesus Cristo tinham vencido seu orgulho e suas paixões. Agostinho, da mesma forma que Saulo no caminho de Damasco, converte-se definitivamente a Jesus, seu Salvador. Como Saulo, o catecúmeno, a partir de então, prega Jesus Cristo, gloriando-se de não conhecer senão a Jesus Cristo, e a Jesus Cristo crucificado. Como São Paulo, tudo é medido em função de Nosso Senhor. «Se Jesus Cristo não ressuscitou, vã é nossa fé»6. Para ambos, o fundamento de toda sua fé é a Revelação histórica de Deus na pessoa de Jesus Cristo.

Depois, o itinerário de sua própria conversão serve de modelo aos que o ouvem. Ele os conduz pelo mesmo caminho que o conduzira à Revelação histórica de Jesus Cristo. Os incrédulos negam que Deus tenha falado aos homens, mas não é racional, pois não podem explicar a existência da Igreja e dos documentos históricos que formam o Antigo e o Novo Testamento. A primeira lição dada aos catecúmenos refere-se aos fatos evangélicos entendidos como a história da salvação e não como uma teoria ideal e imaginária, tal como queriam seus velhos amigos neoplatônicos. Aos neófitos, escreve Santo Agostinho ao diácono Deogratias, é preciso explicar a história real da boa nova de Jesus, como a explicou Felipe, sentado no carro do ministro da rainha Candace, isto é, interpretando as profecias e explicando como elas foram cumpridas. Tudo, desde a criação até nossos dias, centra-se em Nosso Senhor Jesus Cristo e na Igreja, e neles encontra sua perfeição. Em suma, a conversão e as obras do bispo de Hipona estão fundamentadas na evidência da Revelação, no fato de que Deus falou aos homens.

 

3. A Sagrada Escritura é infalível

Depois de aceitar a fé e receber o batismo das mãos de Santo Ambrósio, Santo Agostinho pôde dedicar-se com toda tranquilidade ao estudo de sua nova religião. Consagrará a ela toda sua vida. Toma novamente nas mãos a Palavra de Deus e sobre ela medita. Em sua época, raros são os espíritos críticos que negam que Deus possa se revelar e e dizer que Ele é em uma linguagem humana, por imperfeita que ela seja. São poucos os céticos que consideram as profecias da Sagrada Escritura como experiências pessoais, idealizadas pela fé e pela emotividade passional do profeta. Para esses, respondeu o santo bispo com as palavras de São Paulo: «Se a trombeta não dá senão um som confuso, quem se preparará para a batalha?» 7. Se Deus fala, não é para nada. E como a Revelação pública tem uma utilidade comum, a Providência divina deve protegê-la de qualquer erro, pois de sua aceitação ou rejeição depende a salvação ou a condenação eterna.

E se Deus falou, quem não vê que é preciso acreditar de todo o coração na autoridade de Deus, porque Ele não pode se enganar nem nos enganar? Diz o santo, ao comentar os salmos:

«O que significa dizer que “a palavra do Senhor é justa?” (Significa) Que Ele não te engana. E tu,  não o enganes. Ou melhor, não enganes a ti mesmo. Poderias tu enganar Aquele que tudo sabe? 8.

Ele tem olhos para conhecer, tu os tem para crença. O que Deus vê, tu, nisso creias»9.

Por isso, o santo bispo sustentará, contra todas as dificuldades, a inerrância bíblica, isto é, a infalibilidade absoluta da Sagrada Escritura. Para ele, a Sagrada Escritura é não só a obra de Deus, mas o próprio Verbo encarnado. Com frequência, ele retorna ao tema da autoridade bíblica:

«Dessa cidade para onde vamos, chegaram várias cartas que nos exortam a viver adequadamente. Jesus falou pela boca dos profetas e guiou a pena dos Apóstolos; os escritos dos Apóstolos são os escritos do próprio Jesus Cristo. “Oh, homem: aquilo que declaram minhas Escrituras, sou Eu quem O diz”. A fé será indecisa se a autoridade da Escritura é hesitante. Ninguém duvida da verdade das Escrituras, com exceção do infiel e do ímpio. Se te parece ter achado um erro no texto, é porque ou a cópia foi mal feita, ou o tradutor se equivocou, ou não compreendeste. Nas Escrituras, aprendemos quem é o Cristo, aprendemos o que é a Igreja»10.

Para Santo Agostinho, a Sagrada Escritura fala de Jesus Cristo; é Jesus Cristo quem fala nela; ela é Jesus Cristo.

Como se entende a relação entre a Sagrada Escritura e a Igreja?  Elas mantêm entre si um papel complementar, porque contribuem para promover a Revelação perfeita de Deus aos homens. Essa Revelação divina, depósito da fé, contém tudo o que foi dado por Deus até Jesus Cristo, em forma oral ou escrita. Ela é dupla porque abarca a Tradição apostólica e a Sagrada Escritura, ou, dito mais simplesmente, o catecismo e a Bíblia. As duas fontes estão unidas, mas subordinadas. A Sagrada Escritura ocupa o segundo lugar, não só porque foi escrita depois da pregação apostólica, mas também porque é incompleta: está muito distante de descrever tudo o que Jesus disse e fez11. Só depois de ter provado a divindade da Igreja, o catecúmeno se debruça sobre Revelação propriamente dita. Segundo Santo Agostinho, o Evangelho, sozinho, está como que suspenso no ar e privado de fundamento. Somente pode converter-se em regra de fé sob a autoridade divinamente estabelecida da Igreja.

«Da Igreja recebemos as Escrituras. É ela que fundamenta sua autoridade e seu ensino. A Igreja é a guia que devemos seguir na interpretação do Evangelho e da Tradição. Se te encontrasses com alguém que ainda não crê no Evangelho, o que responderias quando te dissesse: “Não creio?” Pessoalmente, eu não acreditaria no Evangelho se não me obrigasse a isto a autoridade da Igreja católica»12.

É todo o sistema protestante da sola Scriptura que se vê aqui condenado pelo doutor preferido de Lutero. Santo Agostinho sente demasiado respeito pelo Evangelho para deixá-lo livre à interpretação arbitrária do primeiro recém-chegado. Sabe que os homens têm necessidade de uma sociedade que fale com gravidade e autoridade divinas para ensinar infalivelmente a verdade e a salvação. O mundo tem necessidade de uma Igreja que seja Mãe e Mestra da Revelação divina anunciada por Jesus Cristo, o Filho de Deus feito homem.

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*    *

O estudo da vida e da conversão de Santo Agostinho nos mostra o itinerário natural do espírito para provar a verdade da Revelação em sua integridade. Vamos dos efeitos atualmente visíveis às causas. Se, a despeito das perseguições sangrentas, existe hoje uma sociedade religiosa que dominou milagrosamente o mundo, que santificou milagrosamente uma sociedade decadente, é aquela marcada com o selo de Deus; ela e seu Fundador. E, uma vez que ela existe realmente, seu Fundador também existiu realmente.

Se, além do mais, temos escritos contemporâneos da vida, dos milagres e das palavras desse Fundador, será muito frutífero verificar se essa vida e essa doutrina sublimes são dignas de Deus e capazes de enobrecer o homem.

Se for possível confrontar a vida desse Fundador com os antigos escritos messiânicos que supostamente Ele cumpriu, temos um motivo adicional para crer nessa religião. Dessas investigações conclui-se que Deus se revelou aos homens, e essa Revelação é tão real quanto o é a Igreja católica. Para Santo Agostinho, e para todo cristão digno deste nome, a evidência do fato histórico da Revelação de Deus é o fundamento de toda a fé cristã. Ora, este caráter histórico da Revelação divina é precisamente o obstáculo em que tropeçarão todos os modernistas. Inventarão mil mentiras para desvincular o Evangelho e a Igreja de seu Fundador, isto é, os efeitos da sua causa. As soluções artificiais dos racionalistas só podem ressaltar mais ainda seus erros filosóficos, e servem, por outro lado, para reforçar nossa fé em Jesus Cristo, nosso Salvador.

 

(100 Anos de Modernismo, tradução: Ricardo Bellei)

  1. 1. Sermão 238.
  2. 2. Vaticano I, constituição Dei Filius, DzB 1794.
  3. 3. 1Jo 1, 1.
  4. 4. Confissões, VII, 18.
  5. 5. Rom 13, 13-14.
  6. 6. 1Cor 15: 17.
  7. 7. 1Cor 14, 8.
  8. 8. In Psalmo 32, serm. 1, ML 36, col. 284.
  9. 9. In Psalmo 36, enarrat. 2, n. 2, ML 36, col. 364.
  10. 10. Frases extraídas, respectivamente, das seguintes obras: In Psalmo 90, 2, 1, ML 37, col. 1159; De Doctr. christ. 2, 6; De Doctr. christ. 37, ML 34, col. 35; De Gen. ad litt.; Contra Faustum 11, 4, ML 42, col. 249; Confesiones 13, 28, ML 32, col. 864; Epístola 105, 3, 14, ML 33, col. 401.
  11. 11. Jo 21, 25.
  12. 12. De Gen. ad litt. 1, Ep. Man. 5, 6, ML 42, col. 176.

Comunhão na língua é contrária às práticas sanitárias?

A comunhão na língua é contrária às práticas sanitárias. Assim afirma um artigo publicado no Catholic Leader australiano por Elizabeth Harrington, a oficial de educação para a Comissão de Liturgia da Arquidiocese de Brisbane:

É ruim para os ministros dar comunhão na língua às pessoas que estão de pé, que é a postura recomendada para comunhão na Austrália, e isso é anti-higiênico porque é difícil aos ministros evitar passar saliva para os outros comungantes1.

Essa afirmação (normalmente feita por proponentes da comunhão na mão) revela uma ignorância da prática tradicional da Igreja Romana e das rubricas para a distribuição da Santa Comunhão na língua.

Em primeiro lugar, o comungante deve ajoelhar-se; obviamente, são feitas exceções para os portadores de deficiência, que normalmente desejariam poderem ajoelhar-se. Não apenas esse ato mostra a humildade dos comungantes ao receber Nosso Senhor Sacramentado (i.e., Deus), mas essa postura submissa também permite dar a Hóstia na língua de maneira mais prática, segura e… Higiênica – em todos os três casos, muito mais que através da comunhão na mão.

Outro interessante aspecto é que a forma tradicional de receber a Comunhão de joelhos e na língua demonstra o caráter romano de praticidade que permeia o rito litúrgico de mesmo nome, resultando em uma maneira digna e reverente de receber o Pão dos Anjos, e fácil e eficiente ao mesmo tempo.

A rubrica tradicional do Rituale Romanum prescreve que o Padre deve, cautelosamente, tomar a Hóstia pela ponta com seu polegar e indicador direitos; nenhum outro dedo pode ser usado para realizar essa ação. Como diligentemente ensinado em aulas tradicionais preparatórias para a Primeira Comunhão, o comungante deve inclinar sua cabeça para trás levemente, abrir a boca e estender um pouco a língua, criando o que comumente se chama de “travesseiro da língua”. O Padre, então, consegue colocar, facilmente, a Hóstia na língua sem tocar a língua do comungante, até mesmo sem tocar seus lábios – o que resulta na ausência de contato físico entre o ministro e o comungante.

Mas, com a comunhão na mão, contato direto é feito entre o ministro (normalmente o Ministro de Eucaristia) e os comungantes, que, normalmente, não lavaram (ou higienizaram) suas mãos antes de receber. Portanto, com a comunhão na mão, existe um perigo real de se espalharem germes indesejados.

O fato é que, antes do clamor dos progressistas pela comunhão na mão (algo que foi feito sem aprovação da Santa Sé2, poderíamos acrescentar), o problema da higiene jamais foi levantado em relação à maneira tradicional de receber a Santa Comunhão – e isso durante uma era em que os pregadores da higiene estavam empenhados em tornar o mundo livre de germes.

A ironia dessa acusação contra a Comunhão na língua é que aqueles que promovem a comunhão na mão por razões inexistentes de higiene, ao mesmo tempo, encorajam a prática de “compartilhar o copo” (receber o Preciosíssimo Sangue comunalmente do cálice), prática essa que a Igreja Romana fez cessar em tempos antigos precisamente em razão de preocupações com a higiene (i.e., devido aos restos de saliva que, inevitavelmente, se acumulam quando um grupo de pessoas bebe do mesmo recipiente) – o que poderia levar a desdém por esse Sagrado Mistério.

Esse tema apenas fornece mais um exemplo de como, através de suas práticas tradicionais, a Santa Madre Igreja é zelosa tanto por nossas necessidades espirituais, quanto naturais. Pelo lado sobrenatural, ela nos dá uma maneira reverente na qual nós, pobres e indignos pecadores (“Domine non sum dignus”, citando os sentimentos do Centurião), podemos receber o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor, e, na esfera natural, de uma maneira que não prejudique nossa saúde corporal.

  1. 1. Esse é o jornal arquidiocesano, e o título do artigo era “Communion in the Hand”, publicado em 12 de Fevereiro de 2012, na coluna “Liturgy Lines”. Ele está indisponível online sem uma assinatura.
  2. 2. Cf. o livro fenomenal do Bispo Juan Laise, Communion in the Hand: Documents and History e essa página com um vídeo do Cardeal Burke, que inclui muitos links pertinentes sobre a comunhão na mão.
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