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Índice de autores

6. A "Missão"

A “Missão”

 

“Uma coisa me penaliza, dizia o doce Salvador à sua humilde serva, é que há almas que olham a devoção às minhas Chagas como estranha, como desprezível, como uma coisa que não convém ... e é por isso que ela cai no esquecimento. No Céu, eu tenho santos que tiveram uma grande devoção às minhas Sagradas Chagas, mas na terra, quase ninguém me honra desta forma.”

Esta queixa tem todo o fundamento! Num mundo onde “gozar” parece ser a única preocupação, quantas pessoas, mesmo cristãs, perderam a noção do sacrifício!... Pouquíssimas almas compreendem a cruz! Muito poucas se aplicam a meditar a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, que S. Francisco de Sales chama, tão justamente, “a verdadeira escola do amor; o mais doce e o mais violento impulso da piedade”.

Ora, Jesus não quer que fique inexplorada esta mina inesgotável, nem que fiquem esquecidos e perdidos os frutos das Sagradas Chagas. Escolherá - e não faz Ele sempre assim? - o mais humilde dos instrumentos para executar a sua obra de amor. No dia 2 de outubro de 1867, a Irmã Maria Marta assistia a uma “tomada de hábito”, quando, abrindo-se a abóbada dos Céus, ali viu ela desenrolar-se a mesma cerimônia com um esplendor bem diferente do da terra. Toda a Visitação do Céu estava presente, e as primeiras madres, voltando-se para ela, como para lhe anunciar uma boa nova, disseram-lhe todas contentes:

“O Pai Eterno deu à nossa Santa Ordem o seu Filho, de três maneiras:

“1.° Jesus Cristo, a sua Cruz e as Chagas, a esta casa particularmente.

“2.° O seu Sagrado Coração.

“3.° A sua Santa Infância para honrar; é preciso que tenhais toda a simplicidade duma criança nas vossas relações com Ele.”

Este tríplice dom não parece novo. Remontando às origens do Instituto, encontramos na vida da nossa Madre Ana Margarida Clément, contemporânea de Santa Joana de Chantal, estas três devoções que distinguiram todas as religiosas formadas por ela. Alguns dias mais tarde, a nossa Rev.ma Madre Maria Paulina Deglapigny, falecida havia dezoito meses, apareceu à sua antiga filha e confirmou-lhe o dom das Sagradas Chagas: “A Visitação, disse-lhe ela, já tinha uma grande riqueza, mas não era completa. Eis aí porque é ditoso o dia em que deixei a terra, pois, em lugar de terdes somente o Sagrado Coração de Nosso Senhor, tereis toda a Santa Humanidade, isto é, as suas Sagradas Chagas. Eu pedi esta graça para vós.”

O Coração de Jesus! ah! quem o possue não possuirá Jesus todo? todo o amor de Jesus?... Sem dúvida. Mas as Sagradas Chagas são como que a expressão prolongada - e bem eloqüente - desse amor. Por isso é que Jesus quer que O honremos todo e que adorando o seu Coração ferido, não esqueçamos as suas outras Chagas, abertas também pelo amor. E não deixa de oferecer interesse, a êste propósito, comparar o dom da Humanidade Padecente de Jesus, feito à nossa Irmã Maria Marta, com o que foi concedido, na mesma época, à nossa venerável Madre Maria de Sales Chappuis: o dom da Humanidade Santa do Salvador.

S. Francisco de Sales, nosso bem-aventurado pai, que muitas vezes visitava a sua querida filha para a instruir paternalmente, também a confirmou na certeza da sua “missão”. Um dia que eles conversavam juntos, disse-lhe ela com a sua costumada ingenuidade:

- “Meu Pai, bem sabeis que as nossas Irmãs, não teem confiança nas minhas afirmações, porque eu sou muito imperfeita.”

- “Minha filha, respondeu o santo, as vistas de Deus não são as da criatura, - a criatura julga segundo as vistas humanas. - Deus dá as suas graças a uma miserável que nada tem, a fim de que tudo a Ele se atribua. Deves estar bem contente com as tuas imperfeições, porque elas escondem os dons de Deus. - Deus escolheu-te para completar a devoção ao Sagrado Coração: o Coração foi mostrado à minha filha Margarida Maria, e as Sagradas Chagas à minha pequenina Maria Marta!... É uma alegria para o meu coração de Pai, que esta honra seja prestada por vós a Jesus Crucificado! Isto faz o complemento da Redenção que Jesus tanto desejou!”

A SS.ma Virgem veio também, num dia da Visitação, confirmar a jovem Irmã no seu caminho. Acompanhada dos nossos santos fundadores e da nossa santa Irmã Margarida Maria, disse-lhe com bondade:

“Eu dou o meu fruto à Visitação, assim como o levei à minha prima Isabel. - O teu Santo Fundador reproduziu os trabalhos, a doçura e a humildade de meu Filho; a tua Santa Mãe de Chantal, a minha generosidade, passando por cima de todos os obstáculos para se unir a Jesus e fazer a sua santa vontade; a tua bem-aventurada Irmã Margarida Maria, reproduziu o Sagrado Coração de meu Filho para o dar ao mundo... E tu, minha filha, foste escolhida para deter a justiça de Deus fazendo valer os méritos da Paixão e das Sagradas Chagas do meu único e bem-amado Filho, Jesus...”

E como a Irmã Maria Marta opusesse algumas objeções sobre as dificuldades que havia de encontrar, disse-lhe a Virgem Imaculada:

“Minha filha, não vos inquieteis, nem tu, nem a tua superiora, porque o meu Filho sabe bem o que há-de fazer... Quanto a vós, fazei só, dia a dia, o que Jesus deseja...”

Os convites e as exortações da SS.ma Virgem multiplicavam-se e tomavam todas as formas:

“Se quereis riquezas, ide buscá-las às Sagradas Chagas de meu Filho... Todas as luzes do Espírito Santo saem das Chagas de Jesus, mas recebereis estes dons à proporção da vossa humildade...”

“Eu sou a vossa Mãe e digo-vos: ide buscar as graças às Chagas de meu Filho!... Sugai o sangue até o esgotar, o que, afinal, nunca aconteceria.”

“É preciso que tu, minha filha, apliques as Chagas de meu Filho pelos maus, para os converter.”

Depois das intervenções das primeiras madres, do nosso santo fundador (S. Francisco de Sales) e SS.ma Virgem, não devemos esquecer neste quadro, as de Deus-Pai, por quem a nossa querida Irmã sentiu sempre uma ternura, uma confiança filial e que por Ele foi divinamente amimada. - Foi Ele quem primeiro a instruiu acerca da sua “missão” futura e lha recordava de tempos a tempos:

“Minha filha, dou-te o meu Filho para te ajudar durante o dia, a fim de poderes pagar tudo o que deves à minha justiça por todos. Tirarás constantemente das Chagas de Jesus aquilo com que deves pagar as dívidas dos pecadores.”

A Comunidade fazia procissões e orações por diversas necessidades:

“Tudo isso que me dais nada é, declarou Deus-Pai.”

“- Se não é nada, replicou a audaciosa Irmã, ofereço-Vos tudo o que o Vosso Filho fez e sofreu por nós.”

“- Ah! responde o Pai Eterno, isso é muito!”

Por sua vez, Nosso Senhor, para fortificar a sua serva, assegura-lhe, muitas vezes, que ela é realmente chamada a reavivar a devoção às Chagas redentoras:

“Eu te escolhi para despertar a devoção à minha Santa Paixão nos desgraçados tempos em que viveis.”

Depois, mostrando-lhe as suas Sagradas Chagas como um livro onde queria ensinar-lhe a ler, ajunta o Bom Mestre:

“Não tires os olhos deste livro e nele aprenderás mais do que os maiores sábios. A oração às Sagradas Chagas compreende tudo.”

Noutra ocasião, durante o mês de junho, estando ela prostrada aos pés do SS.mo Sacramento, Nosso Senhor abrindo o seu Coração Sagrado, como a fonte de todas as outras Chagas, insiste ainda:

“Eu escolhi a minha fiel serva Margarida Maria para divulgar o meu Divino Coração, e a minha pequenina Maria Marta para insinuar a devoção às outras minhas Chagas!... As minhas Chagas salvar-vos-ão infalìvelmente; elas salvarão o mundo.”

Numa outra circunstância disse-lhe:

“O teu caminho é tornar-me conhecido e amado pelas minhas Sagradas Chagas, sobretudo no futuro.”

Pede-lhe que ofereça incessantemente as suas Divinas Chagas pela salvação do mundo:

“Minha filha, o mundo será mais ou menos perturbado, conforme tu tiveres feito a tua tarefa... Tu foste escolhida para satisfazer a minha justiça. Encerrada no claustro, deves viver na terra como se vive no Céu, amar-me, orar incessantemente para apaziguar a minha vingança e renovar a devoção às minhas Sagradas Chagas.

“Eu quero que, por esta devoção, não só as almas com quem vives sejam salvas, mas ainda muitas outras!”

«Um dia, pedir-te-ei contas se tu aproveitaste bem este tesouro em favor de todas as minhas criaturas”.

“Verdadeiramente, lhe disse Ele mais tarde, verdadeiramente, minha esposa, Eu habito neste lugar e em todos os corações!... Neles estabelecerei o meu reino de paz, destruirei pelo meu poder, todos os obstáculos, porque Eu sou o Senhor dos corações e conheço todas as misérias... Tu, minha filha, és o canal das minhas graças. Fica sabendo que o canal nada tem de seu, não tem senão aquilo que fazem passar por dentro dele. É preciso que, como canal, não guardes nada e digas tudo o que te comunico”.

“Eu te escolhi para fazeres valer os méritos da minha Sagrada Paixão por todos; mas quero que te conserves sempre escondida. - A mim me compete anunciar mais tarde que é por êste meio que o mundo há-de ser salvo - e também pelas mãos de minha Mãe Imaculada!...”

5. Opinião dos Superiores Eclesiásticos

Opinião dos Superiores Eclesiásticos

 

A superiora e directora duma alma tão privilegiada não podiam tomar só sobre si a responsabilidade deste caminho extraordinário... Consultaram os superiores eclesiásticos e em especial, o Rev.mo Cônego Mercier, Vigário Geral e Superior da Casa, sacerdote de grande prudência e de grande piedade; o Rev.o Pe. Ambroise, provincial dos Capuchinhos da Sabóia, homem de grande valor moral e doutrinal; o Rev.mo Cônego Boudier, apelidado “o Anjo dos Montes”, capelão da comunidade, cuja reputação de ciência e santidade passavam os limites da nossa província. O exame foi sério e completo. Os três examinadores foram unânimes em afirmar que o caminho, que a Irmã Maria Marta seguia, tinha o selo divino. Aconselharam que se escrevesse tudo, mas aliando a prudência às suas luzes, julgaram também que era preciso ocultar estes fatos até que aprouvesse “a Deus revelá-los diretamente”. Foi por isso que a Comunidade ignorou as graças insignes com que era favorecida, num dos seus membros - o menos apto para as receber, humanamente julgando. Foi por isso também que, considerando como sagrado o conselho dos superiores eclesiásticos, a Rev.ma Madre Teresa Eugênia Revel começou a relatar, diariamente, com escrupulosa exatidão, não omitindo mesmo certas faltas - frutos da ignorância ou de falta de memória - as narrações da humilde conversa, a quem Nosso Senhor dava ordem de nada ocultar à superiora. “Nós depomos aqui, na presença de Deus e dos nossos Santos Fundadores, por obediência e o mais exatamente possível, o que cremos ser-nos enviado do Céu por uma amorosa predileção do Divino Coração de Jesus, para felicidade da nossa Comunidade e bem das almas”.

“Deus parece ter escolhido, na nossa humilde família, a alma privilegiada que deve renovar, no nosso século, a devoção às Sagradas Chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo. É a nossa humilde Irmã doméstica Soror Maria Marta Chambon, que o Salvador gratifica com a sua presença sensível. Ele mostra-lhe todos os dias as Divinas Chagas, para que ela aplique constantemente os seus méritos, pelas necessidades da Santa Igreja, pela conversão dos pecadores, pelas necessidades do nosso Instituto, - e sobretudo para o alívio das almas do Purgatório”.

“Jesus fez dela o seu brinquedo de amor e a vítima do seu beneplácito... - e nós, cheias de reconhecimento, sentimos, a cada instante, a eficácia das suas orações sobre o Coração de Deus.”

Tal é a declaração com que se abre a narração da Rev.ma Madre Teresa Revel, digna confidente dos favores do Altíssimo. -É' às suas notas que vamos buscar todas as citações que vão seguir-se.

4. Três dias de êxtase

Três dias de êxtase

 

No mês de Setembro de 1867, a Irmã Maria Marta caiu, como lho tinha anunciado o Divino Mestre, num estado incompreensível, que difìcilmente se pode definir: estava deitada no seu leito, imóvel, sem falar, sem ver, não tomando alimento algum; mas o pulso continuava muito regular e tinha o rosto levemente colorido. Isto durou três dias, 26, 27 e 28, em honra da SS.ma Trindade, e foram, para a triste vidente, três dias de graças excepcionais... Todo o esplendor dos Céus veio iluminar o humilde lugar onde desceu a Trindade Santíssima. Deus Pai, apresentando-lhe Jesus numa hóstia, disse-lhe: “Eu te dou Aquele que tu me ofereces tantas vezes”, e deu-lhe a Comunhão. Depois desvendou·lhe os mistérios de Belém e da Cruz, iluminando a sua alma com vivas luzes sobre a Encarnação e a Redenção. Tirando depois de Si mesmo o seu Espírito como um raio de fogo, deu-lho afirmando-lhe: “Ele contém a luz, o sofrimento e o amor!... O amor será para mim; a luz para descobrires a minha vontade; o sofrimento, enfim, para sofreres, de momento a momento, como Eu quero que sofras.”

No último dia, convidando-a a contemplar, num raio que descia do Céu sobre ela, a Cruz do Filho, o Pai Celeste “fez-lhe compreender melhor as Chagas de Jesus, para o seu bem pessoal”. Ao mesmo tempo, num outro raio que partia da terra para o Céu, viu ela claramente a sua missão e como devia fazer valer os méritos das Chagas de Jesus para o mundo inteiro.

3. Vigílias e penitências corporais

Vigílias e penitências corporais

 

As Superioras, inclinando-se perante os sinais certos da vontade do Céu - sinais em que não podemos deter-nos para não avolumar este pequeno opúsculo – decidiram-se, pouco a pouco, apesar das apreensões, entregá-la às exigências de Jesus Crucificado.

A Irmã Maria Marta vê-se primeiro convidada a passar as noites estendida no soalho da cela. Depois recebe a ordem de trazer noite e dia um rude cilício. Em breve deve entrançar uma coroa de agudos espinhos que não lhe permite mais apoiar a cabeça, sem sentir dolorosos sofrimentos.

No fim de oito meses, em maio de 1867, não contente com as noites passadas no chão, com o cilício e a coroa de espinhos, Jesus exige à Irmã Maria Marta o sacrifício do próprio sono, pedindo-lhe que vele sozinha, junto do SS.mo Sacramento, enquanto tudo dorme no Mosteiro. Em tais exigências não encontra a natureza satisfação! Mas não é este o preço habitual dos favores divinos?... No silêncio das noites, Nosso Senhor comunicava-se à sua serva da maneira mais maravilhosa. Algumas vezes, é certo, Ele a deixava lutar penosamente, durante longas horas, com a fadiga e o sono, mas o mais freqüente era apoderar-se dela imediatamente e arrebatá-la a uma espécie de êxtase. Confiava-lhe as suas penas e os seus segredos de amor, enchia-a de carícias, tirava-lhe o coração para o meter dentro do seu. O seu trabalho nesta alma tão humilde, tão simples e dócil, aumentava todos os dias.

2. Primeiros anos de vida religiosa

Primeiros anos de vida religiosa

 

Francisca Chambon tinha 18 anos quando entrou no Mosteiro da Visitação de Santa Maria de Chambéry. Dois anos mais tarde, na festa de Nossa Senhora dos Anjos - 2 de agosto de 1864 - pronunciou os santos votos, tomando lugar, definitivamente, entre as religiosas de véu branco (leigas), com o nome de Irmã Maria Marta. Nada, exteriormente, fazia prever coisa alguma em favor da nova esposa de Jesus. A beleza da filha do Rei era verdadeiramente toda interior... Deus que, indubitavelmente se reservava compensações, tinha, no que respeita aos dons naturais, tratado a Irmã Maria Marta com verdadeira parcimônia!... Maneiras e linguagem rústicas, inteligência quase medíocre, que nenhuma cultura, nem sequer sumária, viera desenvolver: a Irmã Maria Marta não sabia ler nem escrever1; sentimentos que só se elevavam sob a influência divina; um temperamento vivo e um pouco tenaz; as suas Irmãs bem o dizem sorrindo: “Oh! era uma santa! mas uma santa que por vezes nos dava trabalho!...”

A “santa” bem o sabia! E com uma candura comovedora, queixava-se a Jesus por ter tantos defeitos: “As tuas imperfeições, respondia Ele, são a maior prova de que tudo o que se passa em ti vem de Deus. Eu nunca tas tirarei; elas são a cobertura que esconde os meus dons. Desejas muito ocultar-te? Eu ainda o desejo mais do que tu!...”

Ao lado deste retrato, gostaríamos de colocar outro, com traços mais atraentes. Sob estas aparências menos lisonjeiras, a observação mais atenta das superioras em breve adivinhou, e depois descobriu, uma fisionomia moral já muito bela, embelezando-se todos os dias sob a ação do Espírito de Jesus. Notam-se aqui traços marcados com esses sinais infaliveis que revelam o Artista Divino... e revelam-no tanto melhor quanto os senões da natureza não desapareceram: nesta inteligência tão apagada, quantas luzes, quantas vistas profundas! Neste coração sem cultura natural, que inocência, que fé, que piedade, que humildade, que sede de sacrifício! Bastará agora recordar o testemunho da superiora, a Rev.ma Madre Teresa Eugênia Revel: “A obediência é tudo para ela. A candura, a retidão, o espírito de caridade que a anima, a mortificação e, sobretudo, a humildade sincera e profunda, parecem-nos as garantias mais certas da ação de Deus sobre esta alma. Quanto mais recebe, mais entra num verdadeiro desprezo de si mesma, estando quase sempre esmagada pelo temor de estar na ilusão. Dócil aos conselhos que lhe dão, as palavras do sacerdote e da superiora têm um grande poder para lhe dar a paz... O que sobretudo nos tranqüiliza é o seu amor apaixonado à vida escondida, a imperiosa necessidade de fugir dos olhares humanos e o receio de que percebam o que nela se passa.”

* * *

Os dois primeiros anos de vida religiosa da nossa Irmã decorreram quase normalmente; a não ser um dom de oração pouco vulgar, um recolhimento perpétuo, uma fome e sêde de Deus contínuas, nada se lhe notava de verdadeiramente particular que fizesse prever coisas extraordinárias. Mas, em setembro de 1866, a jovem conversa começou a ser favorecida com freqüentes visitas de Nosso Senhor, da Santíssima Virgem, das almas do purgatório e dos Espíritos Bem-aventurados.

Jesus Crucificado - sobretudo - oferece, quase todos os dias, à sua contemplação, as Divinas Chagas, ora resplandecentes e gloriosas, ora lívidas ou ensangüentadas, pedindo-lhe que se associe às dores da sua Sagrada Paixão.

  1. 1. Importa nunca perder de vista esta completa ignorância da Maria Marta: dum lado ficaremos maravilhados por achar tanta “exatidão doutrinal e precisão de expressões” numa pessoa de tão pouca cultura; doutro, desculparemos facilmente o que houver a desejar em certos “pormenores que se não relacionam com a substância das coisas”. (Apreciação do Rev. Pe. Mazoyer, S. J.)

23. Se é conveniente, ao combater o erro, combater e desacreditar a personalidade de quem o sustenta e divulga.

Pe. Sarda y Salvany

Dirá alguém: “É certo que assim se passa com as doutrinas abstratas. Mas será conveniente combater o erro, por maior que seja, ao se fixar e encarniçar contra a personalidade de quem o sustenta?” Eis a nossa resposta: Sim, muitíssimas vezes é conveniente, e não só conveniente, mas até indispensável e meritório diante de Deus e da sociedade. E ainda que se possa deduzir essa afirmação do que anteriormente foi exposto, queremos todavia tratá-la aqui ex professo, pois é grande a sua importância.

Com efeito, não é pouco frequente a acusação que se faz aos apologistas católicos de preocupar-se sempre com pessoas, e quando se lança essa acusação a um dos nossos, parece aos liberais e aos contaminados de liberalismo que já não há mais que dizer para condená-lo. E contudo não têm razão; não, não a têm. As idéias más devem ser combatidas e desacreditadas, e é preciso torná-las odiosas, desprezíveis e detestaveis à multidão, a quem elas tentam enganar e seduzir.

Assim como as idéias não se sustentam em nenhum caso por si mesmas, elas não se difundem nem se propagam sozinhas; não poderiam, por si mesmas, produzir todo o mal de que sofre a sociedade. São como as flechas ou balas, que a ninguém iriam ferir, se não houvesse quem as disparasse com o arco ou o fuzil.

Ao arqueiro e ao fuzileiro devem se dirigir, pois, os tiros de quem pretenda destruir a sua mortal pontaria. E qualquer outro modo de fazer guerra será tão liberal como queiram, mas não terá senso comum.

Os autores e propagandistas de doutrinas heréticas são soldados com armas de envenenados projéteis; suas armas são o livro, o jornal, o discurso público, a influência pessoal. Não basta, pois, desviar-se para evitar o tiro. Não, a primeira coisa a se fazer, a mais eficaz, é inabilitar o atirador.

Assim, convém desautorizar e desacreditar o livro, o jornal e o discurso do inimigo; e não só isto, mas também, em certos casos, desautorizar e desacreditar a sua pessoa. Sim, a sua pessoa, pois este é o elemento principal do combate, como o artilheiro é o elemento principal da artilharia, e não a bomba, a pólvora ou o canhão. Pode-se, pois, em certos casos revelar em público suas infâmias, ridicularizar seus costumes, cobrir de ignomínia seu nome e sobrenome. Sim, leitor, e pode-se fazer em prosa ou em verso, a sério ou de piada, em caricaturas e por todos os meios e procedimentos que no futuro se possa inventar. É importante apenas não pôr a mentira a serviço da justiça. Isso não; não se pode sob pretexto algum faltar com a verdade, nem um iota. Porém, sem sair dos estritos limites desta verdade, lembremo-nos daquele dito de Crétineau-Joly: A verdade é a única caridade permitida à história; poderíamos acrescentar: e à defesa religiosa e social.

Os mesmos Santos Padres, que já citamos, provam esta tese. Os próprios títulos de suas obras dizem claramente que, ao combater as heresias, o primeiro tiro procuravam dirigi-lo contra os heresiarcas. Quase todos os títulos das obras de Santo Agostinho se dirigem ao nome do autor da heresia: Contra Fortunatum manichoeum, Adversus Adamanctum; Contra Felicem; Contra Secundinum; Quis fuerit Petilianus; De gestis Pelagii; Quis fuerit Julianus etc. De modo que quase toda a polêmica do grande Agostinho foi pessoal, agressiva, biográfica, por assim dizer, tanto como doutrinal; lutando corpo a corpo com o herege, como também contra a heresia. E o que dizemos de Santo Agostinho poderíamos dizer de todos os Santos Padres.

De onde o liberalismo tirou, pois, a novidade de que ao combater os erros se deve prescindir das pessoas e até mesmo as lisonjear e agradar? Firmem-se no que ensina sobre isto a tradição cristã, e deixem-nos a nós, os ultramontanos, defender a fé como se defendeu sempre na Igreja de Deus.

Que penetre, pois, a espada do polemista católico; que fira e vá direto ao coração! É a única maneira real e eficaz de combater.

1. Infância e juventude

Sua infância e juventude

 

Francisca Chambon nasceu duma família de agricultores, modesta mas cristã, na aldeia de Croix-Rouge, perto de Chambéry, no dia 6 de Março de 18411. No mesmo dia recebeu o santo batismo, na Igreja paroquial de S. Pedro de Lemenc. Aprouve a Nosso Senhor revelar-se muito cedo a esta alma inocente. Quando Francisca tinha nove anos, levando-a uma sua tia à adoração da cruz, numa sexta-feira santa, viu Jesus Cristo lacerado, ensanguentado, como no Calvário. “Oh! em que estado o vi!”... dirá ela mais tarde. Foi esta a primeira revelação da Paixão do Salvador, que devia ocupar tanto lugar na sua existência. Mas nos seus tenros anos, foi sobretudo favorecida pelas visitas do Menino Jesus. No dia da sua Primeira Comunhão, veio a ela visìvelmente; e desde então, em todas as comunhões, até à morte, será sempre Jesus Menino que ela verá na Santa Hóstia. Jesus tornou-se o companheiro inseparável da sua juventude, seguia-a ao trabalho, nos campos, conversava com ela pelos caminhos e acompanhava-a à casa paterna. “Estávamos sempre juntos... oh! como eu era feliz! tinha o Paraíso no coração!...” dizia ela recordando, no fim da vida, estas longínquas e dulcíssimas lembranças. Na época destes precoces favores, Francisca nem pensava em contar a sua vida de familiaridade com Jesus: contentava-se em gozá-la, julgando ingenuamente que toda a gente possuía o mesmo privilégio. Contudo, a pureza e o fervor desta menina não podiam passar despercebidos ao digno pároco da freguesia: e por isso dava-lhe freqüentemente a Sagrada Comunhão. Foi também ele que nela descobriu a vocaçao religiosa e a foi apresentar ao Mosteiro da Visitação. 

  1. 1. A data correta é 6 março 1841 [N. do ed.].

Introdução ao segundo domingo da Quaresma

“Este é meu Filho bem-amado, escutai-O” 

 

Paramentos roxos

 

A estação de hoje reunia-se na Igreja de Santa Maria, chamada In Dominica, pelo fato de os cristãos aí se congregarem no Domingo. Era tradição ter sido nela que São Lourenço distribuía os bens da Igreja aos pobres. Era no século V paróquia de Roma.

Como nos três Domingos da Septuagésima, Sexagésima e Quinquagésima, são nos 2°, 3° e 4° da Quaresma os textos do Antigo Testamento que formam a trama da composição das missas, de sorte que os séculos passados continuam a preparar-nos para os mistérios da Páscoa. No 2° Domingo da Quaresma, lemos em Matinas a história da benção solene do velho Isaac dada no leito da agonia ao seu filho Jacó. Todos conhecem esta bela página da Escritura. A Abraão e Isaac sucede Jacó, de preferência ao primogênito Esaú, para se tornar o herdeiro e transmissor das promessas e bênçãos divinas. “Sê o senhor dos seus irmãos e que as nações se prostrem diante de ti. Todos os povos serão abençoados em ti e no que nascer de ti” (Gênesis). Os Santos Padres veem no Patriarca Jacó que suplanta o irmão para ser, em vez dele, o objeto dos favores divinos, uma figura de Cristo, o segundo Adão que se torna, em vez do primeiro, o chefe duma humanidade regenerada e abençoada por Deus, aquele em quem o Pai pôs todas as complacências e os povos serão abençoados. Comparando os dois textos, o do Gênesis e o do Evangelho da Missa, facilmente poderemos ver como concordam e se completam no pormenor mais insignificante. Deus abençoou o seu filho revestido da nossa carne, como Isaac abençoou Jacó revestido das vestes do irmão. Santo Agostinho, que olha as peles de cabrito como um símbolo do pecado, diz que Jacó, cobrindo com elas as mãos e o pescoço, é a imagem de Cristo, que, sendo sem pecado, tomou sobre Si os pecados dos outros1.

Isto deixa-nos ver como a história de Jacó é figura de Cristo e da Igreja. E lembremo-nos que Jesus Cristo, o Filho de Deus, que o Evangelho de hoje nos apresenta a transfiguração no Monte Tabor como sendo o objeto das complacências do Pai, solidarizou-se conosco, ao ponto de se vestir “com a carne” e de se deixar morrer por nós para nos tornar coerdeiros da sua glória e filhos queridos do Pai dos Céus. Em Jesus fomos abençoados por Deus — n’Ele que é o mais velho, o primogênito de muitos irmãos.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

  1. 1. O Pontifical oferece-nos, na oração que o Prelado diz ao calçar as luvas, um simbolismo idêntico “Cobri, Senhor, as minhas mãos com a pureza do Homem Novo que desceu dos Céus a fim de que, tendo Jacó obtido com as mãos cobertas de peles de cabrito, a benção de seu pai, possa eu alcançar também a benção da vossa graça, oferecendo-Vos esta vítima de salvação”

Irmã Maria-Marta Chambon Da Visitação

Irmã Maria-Marta Chambon Da Visitação de Santa Maria de Chambéry e as Sagradas Chagas de N. S. Jesus Cristo

 

V. + J.

 

Irmã Maria-Marta Chambon

Da Visitação de Santa Maria de Chambéry

AS SAGRADAS CHAGAS DE N. S. J. CRISTO

 

5ª Edição

1926

 

ADAPTADO DA VERSÃO PORTUGUESA POR PERMANÊNCIA

Irmã Maria-Marta Chambon e a devoção às Santas Chagas

Pe. Garrigou-Lagrange, OP

A vida desta brava irmã conversa da Visitação de Chambéry, nascida em 1841, falecida em 1907, foi escrita em 1928 com muito zelo, precisão e piedade pelas religiosas desse convento, conforme as notas deixadas pelas superioras. Este livro, que traz nas páginas iniciais a autorização e um precioso elogio de Mons. Castellan, arcebispo de Chambéry, contém sobretudo exemplos de piedade e virtude, e apresenta uma vida profundamente marcada à semelhança de Jesus crucificado, com algumas imperfeições involuntárias, que subsistem até o fim na serva de Deus, a fim escondê-la.

Julgamos útil assinalar aqui alguns traços desta fisionomia espiritual: as graças dos primeiros anos; aquilo que parece bem ser sua missão especial: fazer recordar ao mundo a devoção às santas chagas do Salvador; suas virtudes cristãs, particularmente, a mortificação, a humildade, a obediência, a simplicidade e as virtudes teologais. Há nesta vida uma grande lição para os nossos tempos.

 

Primeiros anos e vocação

Françoise Chambon nasceu em Croix-Rouge, pequenina aldeia verdejante situada perto de Chambéry, em 6 de março de 1841. Neste mesmo dia, tornou-se ela filha de Deus pelo santo batismo. Pobreza extrema, mesmo miséria, reinava no lar onde sua mãe lhe deu à luz, semelhança notável com a penúria de Belém. Destinada a seguir o divino Mestre em suas humilhações, esta criança privilegiada reproduzia-lhe os traços desde a aurora de sua vida. Pequenina, o pensamento de Deus lhe absorve, lhe invade, ao ponto de deixar fugir a única cabra confiada aos seus cuidados. Seus pais, honestos, piedosos e trabalhadores, transmitiram aos seus filhos os sentimentos de fé profunda, o espírito de dever, o amor do trabalho. Seu pai, homem simples e reto, trabalhador rude, dedicava-se à agricultura ou trabalhava na pedreira das proximidades. Pelo trabalho, sua família atingiu certo bem estar material.

Sua mãe tinha gosto em levar a pequena primogênita às cerimônias da Via Sacra. Uma tia estimulava igualmente seu pendor pela oração. Numa Sexta-feira Santa, levou-a à adoração da Cruz. Françoise tinha oito ou nove anos. Solicitada pela tia, e apesar do grande cansaço, diz os cinco Pater com os braços em cruz. Neste momento, Nosso Senhor aparece-lhe pela primeira vez, crucificado, a carne em pedaços, coberto de sangue. Esta visão causou-lhe grande impressão e acendeu na sua alma ardente caridade. Comungar tornou-se, a partir de então, seu maior desejo. Logo aprende oralmente seu catecismo, pois jamais soube ler nem escrever. Foram a estas poucas noções elementares que se restringiu toda sua instrução. Françoise, possuída do amor de Jesus, sente nascer nela a necessidade de mortificar-se...o amor quer comunicar-se! “Mãe, roga ela, dá-me a sopa antes de pôr-lhe manteiga” (p. 11). De noite, quando todos repousam, ela levanta-se para rezar longo tempo, joelhos sobre a terra nua.

Os sacrifícios preparam-na para sua primeira comunhão, que foi para ela um acontecimento decisivo. “Ao comungar, dizia ela, foi o menino Jesus que vi e recebi... Oh! Como fiquei feliz!... Ele me disse que sempre que eu comungasse seria assim... Era o céu! Tem-se o paraíso no coração”(pp 12-13).

Aquele que se regozija com os humildes manifestar-se-á a esta alma predestinada, quer carregando sua cruz, quer sob a forma de uma adorável criança. Ele mesmo se incumbirá da direção de sua vida interior, e purificará, instruí-la-á e imprimirá nela os traços de sua Infância e Paixão.

A Paixão do Salvador é o grande motivo de Françoise. Ela só pensa em Jesus, quer “ocupar-se somente dele, viver como os anjos... não considerar mais as coisas do mundo...” (p. 15).

Não demora a aspirar à vida religiosa. Sua saúde, de aparência pouco robusta, foi um obstáculo a sua admissão ao Carmelo. Encaminha-se à Visitação de Chambéry, onde ingressa no ano de 1862. Françoise tinha vinte e um anos. Era aí que Deus a queria, entre as filhas da Visitação, cuja vocação é a de reproduzir a vida escondida de Nosso Senhor, adorá-lo e imitar a humildade do Verbo Encarnado. “Erigidas no Monte Calvário, devem crucificar-se com Nosso Senhor” (Constituição XLIV). Veremos a que ponto Nosso Senhor realiza este programa nessa alma de elite.

A nova postulante foi inicialmente admitida entre as moças do serviço de pensionato. Foi aí, na prática dos mais humildes trabalhos, um pouco à margem da comunidade, que a veremos levar uma vida de sofrimento e apostolado. Sua tomada de hábito ocorreu no dia 29 de abril de 1863, quando recebeu o nome de Irmã Maria-Marta. O ano seguinte foi o da sua profissão.

É preciso reconhecer que a Irmã Maria-Marta não possuía as graças da natureza, os charmes do espírito, que atraem a simpatia e favorecem as relações. De caráter rude e pouco refinado, temperamento vivo, vontade tenaz e pensamento limitado, suas características exteriores pouco amáveis tornavam a pobre irmã, por vezes, fatigante. Apesar dos esforços que fazia, suas imperfeições subsistiram até o fim de sua vida: Nosso Senhor servia-se delas como de um meio para mantê-la na obscuridade. Queixava-se delas ao divino Mestre: “Com todas as vossas graças, não me tirastes todos os meus defeitos” – “Tuas imperfeições, respondia-lhe, são a grande prova de que vem de Deus aquilo que se passa em ti. Jamais as tirarei; são o manto que esconde meus dons. Tens desejo de se ocultar? Muito mais o tenho eu” (p. 30). Contudo, como soube modelar essa alma a seu gosto, cultivá-la em sua tão simples inteligência, ocupando-a com as verdades eternas, encher esse coração de desejo do divino, de sede de sacrifício, de amor pelas almas!

 

O tesouro das Santas Chagas

Nosso Senhor fê-la conhecer os tesouros infinitos guardados nas suas Chagas, e instava-a a oferecê-los sem cessar a Deus Pai pelas necessidades da Igreja e de sua comunidade, para a conversão dos pecadores e para retirar almas do purgatório. “Com minhas Chagas, disse-lhe, tens todas as riquezas do céu para distribuir na terra”. “Deves fazer valer as riquezas de minhas santas Chagas”. “Tua riqueza é minha santa Paixão” (pp. 54-55).

Nosso Senhor queixa-se do esquecimento por parte das almas de suas sagradas feridas; elas não sabem colher-lhes os frutos, e chegam a menosprezá-las. E seu amor misericordioso elegeu uma pobre religiosa, Irmã Maria-Marta, para fazer lembrar as almas da devoção às suas Chagas. Não é ela particularmente conveniente nesses tempos tão atribulados? Não é chegado o momento de espalhar nesse pobre e confuso mundo os méritos infinitos do sangue redentor?

“Eu te escolhi, diz a Irmã Maria-Marta, para fazer despertar a devoção à minha santa Paixão no tempo infeliz em que vives” (p. 61). Quantas almas meditam na Paixão de Cristo? Quão pouco são os que estimam a Cruz, ou, se a contemplam, querem carregá-la! No entanto, é ela a verdadeira escola de amor, escola austera na qual Nosso Senhor formará sua fiel discípula.

“Eu te escolhi, diz ainda Jesus, para fazer valer os méritos de minha santa Paixão para todos; mas quero que tu mantenhas-te escondida. A mim caberá mais tarde de dar a conhecer que é por este meio que o mundo se salvará – e pelas mãos de minha Mãe Imaculada” (p. 61). “Minha filha, o mundo será mais ou menos atribulado conforme tu cumpras teu dever. Tu és escolhida para satisfazer minha justiça” (p. 61)

Mostrando-lhe suas Chagas: “Não desvies os olhos de cima deste livro e aprenderás mais que os grandes sábios. A oração às santas Chagas compreende tudo” (p. 61).

Segundo os testemunhos recolhidos de sua vida, Nosso Senhor fez com que ela participasse da sua crucifixão, imprimiu-lhe na carne os sagrados estigmas, alimentou-a unicamente com a Eucaristia por mais de quatro anos, enquanto seu amor a crucificava, na alma e no corpo, associando-a a sua obra redentora. Veremos como, por sua vez, Irmã Maria-Marta responde ao apelo do Mestre com todo o fervor e generosidade do seu amor.

 

Via Crucis

Bem parece que esta alma eleita, transparente como o cristal, não teria tanta necessidade de purificação para si mesma, mas as provações serão proporcionadas à sua missão apostólica e reparadora.

O divino Mestre convida-a a passar as noites estendida sobre o assoalho da sua cela. Tendo obtido de sua superiora permissão para tanto, que lhe fora inicialmente negada, dorme sobre a terra nua, e isto ao longo dos anos. Nosso Senhor vai além: é um rude cilício que ela deve usar noite e dia, que lhe causa muito sofrimento. A pedido e conforme as indicações do Mestre, faz uma coroa de espinhos muito pontiagudos e usa-a de noite. Doravante, carregada de vivas dores, não tem mais onde repousar a cabeça. Uma noite, no fim das forças, a esposa do Crucificado queixa-se ao seu Salvador. “Minha filha, persevere com mais força”, diz-lhe. Irmã Maria-Marta obedece corajosamente. Desta vez, Aquele que não se deixa vencer em generosidade, contenta-se com um simples aquiescer: e ela já não sente dor nenhuma. O dia em que Nosso Senhor disser-lhe: “Tua coroa não te faz mais sofrer o bastante” (p. 193), ela a trocará por um cinturão com pontas de ferro. Ei-la, estendida sobre o assoalho, coroada de espinhos, os braços em cruz, viva imagem do divino Crucificado. Nosso Senhor uniu desse modo a Irmã Maria-Marta à sua Paixão, que não pode fazer mais do que como Ele, com Ele. Seu coração abrasa-se de amor. Não realiza em si mesma o desejo do Salvador? “Gostaria de ver todas as minhas esposas como crucifixos!” (p. 76). Contudo, em certos momentos, a natureza se desespera; a pobre religiosa sente a tentação de abandonar essa intolerável coroa. Nosso Senhor aparece-lhe então em sofrimentos atrozes, a fronte traspassada de espinhos. “Minha filha, não abandone a minha coroa”, reprova-lhe amorosamente o Salvador (p. 194). Confusa, Irmã Maria-Marta retoma-a; cura-se de toda a recaída. Esposa, deve compartilhar a vida de seu divino Esposo, vida de sofrimentos e imolações; deve morrer a si mesma para viver somente para Ele.

“Elege em tudo e por onde for o que mais mortificar-te”, diz-lhe Jesus (p. 190). Sempre dócil, esta alma heróica escolhia, em tudo, o menos agradável, o mais penoso.

Nosso Senhor assedia a Irmã Maria-Marta com exigências, convida-a a sacrificar seu sono para velar perante o Santo Sacramento. Exausta, vemo-la solicitar um pouco de repouso aos seus superiores, mas eles, conhecendo o desejo formal de Nosso Senhor, conduzem-na a seu posto de oração, à tribuna.

Nosso Senhor aparece-lhe um dia em seu estado de crucificado, embebido em vinagre e fel. Irmã Maria-Marta afligiu-se tanto que jamais pôde esquecer. “É preciso, dizia o Mestre, que me mates a sede com tua mortificação” (p. 191). Contudo, a brava religiosa só tinha pensamentos para Jesus, desejava salvar almas para Ele. Apesar das suas vigílias, dos sofrimentos contínuos, permanecia fiel a todos os seus deveres, a ponto das superioras julgarem que fazia o trabalho de duas pessoas. Deus era toda a sua força. A esta mortificação exterior, juntava a mortificação de uma minuciosa fidelidade à Regra: sempre modesta, silenciosa, recolhida, percebia-se que estava ela mergulhada em profunda contemplação.

 

“Ele é tudo”

Nosso Senhor deliciava-se com esta alma límpida: “Tu não conheces mais o mal do que a criancinha antes de chegar à idade da razão”, dizia-lhe (p. 206). Aquele que se compraz com os lírios conservou este coração puro, sem o menor conhecimento do mundo. Ela podia dizer a uma de suas companheiras: “Ah, sim! Ele é todo amor, o bom Deus! Quando era pequenina, já me fazia compreender. Ele me deu tanto! Do mundo, não conheço nada, só conheço a Ele. Ah! eu o amo tanto!” (p. 209).

Todo seu pensamento era para Cristo. Por Ele, evitava toda reflexão inútil. Por ele, guardava seu coração desapegado. Certo dia, Jesus repreendeu-a severamente por procurar uma pequena satisfação do coração: “Ser religiosa, minha filha, significa ter banido de seu coração todo o criado... significa ver Jesus em tudo, seu Esposo, significa procurá-lo unicamente...Teu objetivo tem de ser o de estar face a face comigo” (pp. 210-211). A uma das irmãs que lhe indagava a razão das predileções divinas, respondeu: “Ah, minha irmã! eu sou ignorante, tenho um coração simples, sem estofo... tenho, portanto, um coração desapegado: Ele é tudo! Não busco nada... nada... não quero nada, não preciso de nada, não desejo nada, meu coração é livre” (pp. 209-210).

Puro, livre, o coração da Irmã Maria-Marta pertencia somente a Deus, seu pensamento ocupava-se apenas de seu objeto de amor. Semelhante a chama pura que sobe sempre, a alma desta esposa de Cristo eleva-se, degrau por degrau, rumo à perfeição do amor.

 

Combates

Nosso Senhor ensinara à Irmã Maria-Marta a fórmula para oferecer as santas Chagas; mas fazer com que a comunidade a adotasse não foi coisa fácil para as superioras. Descobre-se a origem destas invocações. O zelo da regra faz com que todas se alarmem. Não se podia tolerar que uma jovem noviça conversa se impusesse de tal modo. Quantos sofrimentos, vexações para Irmã Maria-Marta e suas devotadas superioras! Ela não demonstrava senão paciência, humildade, mansidão. Nosso Senhor encorajava, tranquilizava-a: “Maiores os obstáculos e dificuldades, mais abundantes as minhas graças” (p. 92). Nosso Senhor amava muito esta comunidade de Chambéry, apesar das críticas levantadas pela pretensa inovação. Críticas compreensíveis, diga-se. As religiosas da Visitação tinham suas Regras e Constituições como um legado sagrado de seus santos Fundadores. “Não lhes é permitido absolutamente, sob qualquer pretexto que for, incumbir-se de orações outras das que estão aqui assinaladas” (Constituição XVIII). Não se poderia ir contra isso. Deus permite, pois, essas contradições para lançar à luz do dia a virtude de sua privilegiada e aumentar seus méritos.

Uma vida tão extraordinária faz-nos compreender igualmente a atitude reservada dos superiores, e os defeitos que se verificavam sempre na humilde noviça conversa não deixam de espantar. Daí os murmúrios, recriminações. Irmã Maria-Marta sofria muito. Sustentada pelo dom da força, suportava tudo em silêncio: jamais uma alusão, uma queixa, e isso por quarenta anos! Mas quão mais dolorosa a provação que lhe veio de um superior mal informado por relatos imprudentes de algumas religiosas. O golpe foi duro. Entre outros, a comunhão quotidiana foi negada à Irmã Maria-Marta. Humildemente, ela se submete às ordens recebidas.

 

O Selo de Deus

Recordava-se ela da palavra de seu Mestre: “A vós (religiosas) só perguntarei uma coisa: o quanto obedeceram” (p. 204). A exemplo daquele que foi obediente até a morte, Irmã Maria-Marta conforma-se em tudo heroicamente à vontade divina, sancionada pela obediênca. Sua perfeita docilidade foi notável. Sacrificou sua vontade inteiramente às exigências de Nosso Senhor. Mestre absoluto, podia exercer sobre ela todos seus direitos. A Santíssima Virgem diz-lhe um dia: “Não quero que faças ato algum, por melhor que te pareça, fora desta obediência” (p. 110).

Se suas superioras recusam-se a conceder o que lhes pedia, a humilde Irmã inclinava-se sem insistir. “A obediência, para ela, é tudo” (p. 45), afirma sua superiora. Nunca uma réplica, nunca uma discussão diante dos mais duros sacrifícios. Somente esta palavra, obediência, poderia tirar-lhe de suas longas contemplações. É o sentimento unânime de seus confessores: “Ela seguia sempre literalmente as opiniões que lhe eram dadas” (p. 218). À luz das instruções divinas, Irmã Maria-Marta aprendera a pronta e simples obediência. Um dia, doente e acamada, sua superiora lhe diz: “Amanhã estarás boa” (p. 216). A dócil menina tomou o encorajamento por uma ordem. Nosso Senhor, contente com esta fé tão simples, curou-a no mesmo instante. Alimentou-se e retornou, no dia seguinte, a suas ocupações.

Quantas vezes as superioras recorreram à sua intercessão diante de Nosso Senhor! O vinho se avinagrava nos tonéis, as batatas apodreciam no porão, por obediência Irmã Maria-Marta incumbia-se de buscar a solução. Fazendo o sinal da cruz, ela invocava a Santíssima Trindade, as santas Chagas e tudo se restaurava: o vinho tornava-se bom, o bolor sobre as batatas secava. O Senhor atendia a todos seus desejos.

E era nas coisas espirituais, assim como com nas materiais; as superioras sempre experimentavam a eficácia das suas orações. Ela tinha o culto da autoridade – nela via Deus. Nosso Senhor lhe havia frequentemente repetido: “Minha filha, em tua superiora estou eu” (p. 215).

A abertura de coração, a confiança para com sua superiora, são traços distintivos de uma filha da Visitação. Para Irmã Maria-Marta Chambon, assaltada por dúvidas e temores, a palavra de sua superiora era infalível e sobremaneira eficaz. O demônio tenta-a a esse respeito; persuadindo-a de que era uma cruz para suas superioras, e por isso começa a evitá-las. Irmã Maria-Marta chega a experimentar repugnância extrema por sua superiora; não ousa mais aproximar-se e queixava-se disso a Nosso Senhor. “Se te afastares de tua superiora, errarás e perderás a verdadeira luz” (p. 217).

Amava muito sua regra, suas constituições. O temor de afastar-se delas por suas austeridades causava-lhe grande sofrimento. O santo Fundador da Visitação quis, com efeito, que o espírito de sacrifício interior e de perfeito abandono à vontade de Deus substituísse jejuns e outras mortificações exteriores do tipo, salvo em casos muito raros, desejados particularmente por Deus. São Francisco de Sales veio reconfortar sua estimada filha: “Segue o caminho que Jesus te traçou, esta é a Regra” (p. 85).

 

“Mestre, eu sou vossa pobre”

Irmã Maria-Marta não escreveu nada, não manteve conversações sábias, mas soube humilhar-se. Nosso Senhor pergunta-lhe um dia: “Minha filha, queres ser crucificada ou antes ser glorificada?” – “Bom Mestre, mais desejo ser crucificada”, responde, com ímpeto de coração (p. 76). Não busca a sua glória, mas o desprezo e a cruz. Pequenina, penetrada de sua insignificância, de sua indignidade, lançava-se no abismo do seu nada, querendo desaparecer. Viveu segundo a palavra de sua santa Fundadora: “O principal cuidado da alma deve ser o de humilhar-se”. Sua grande preocupação é sempre o temor de ser notada: vida escondida, humildade, esta é sua marca característica. Ademais, Nosso Senhor inclinava-a a isto. Ele humilhava-a severamente, repreendia as menores faltas: “Tu não serás uma verdadeira esposa se não amares a humilhação”. (p. 174)

“... A fim de te preparares a receber minhas graças, precisarás te aniquilar muito, pois só tenho olhos para o coração humilde!” (p. 174). Certo dia, extenuada de fadigas, após uma noite de sofrimentos, Irmã Maria-Marta para na porta do coro: “Bom Mestre, eu sou vossa pobre, dai-me esmolas, dai-me forças”, suplicava (p. 175). A humilde irmã não falava dos favores divinos que recebia senão com extrema repugnância. Tanto mais o Senhor cumulava-a de dons, tanto mais se apequenava. Mostrava-se ela ávida de correções, sempre a primeira a humilhar-se, a reconhecer e reparar seus erros, pois seu exterior guardara suas asperezas; daí os desencontros, os pequenos tropeços de sua natureza, tantas ocasiões de humilhações, de méritos. Por outro lado, as superioras não a poupavam. Irmã Maria-Marta, ao desprezar profundamente a si mesma, compreendia todo o benefício que daí tirava para sua alma e alegrava-se da glória que rendia a Deus. 

O Espírito Santo, pela iluminação dos dons de ciência e de inteligência, esclarecia-a mais e mais. Então, sentia-se como que esmagada sob o peso da grandeza divina e de sua própria miséria, sob a visão cada vez mais profunda de seus defeitos.

“Ó meu Jesus, dizia a Irmã, espero tudo de Vós somente, pois não sou senão miséria” (p. 171).

A mesma luz faz descobrir manchas nas nossas melhores ações. “Somos cheios de imperfeições, dizia ela, não há, na verdade, nada de bom em nós. – Quando nos vemos diante de Deus, não somos mais que pecado, miséria... mesmo aquilo que julgamos fazer bem, mesmo as ações mais santas, tudo é corrompido por nosso amor próprio...” (p. 186). Para retirar-lhe todo o amor próprio, Nosso Senhor mostrava-lhe por vezes, como num quadro, as qualidades bem superiores de suas irmãs, depois, humilhando-a: “Ser humilhada e tratada como mereces, eis o único desejo que deves ter” (p. 174), “Meu coração só age no selo da humildade” (p. 175). Um dia, lavando a louça, Irmã Maria-Marta viu-se de repente rodeada das Visitandinas do céu e de uma falange de santos. Cheia de alegria, falou-lhes: “Quereis transmitir uma palavra a Nosso Senhor? Dizei-lhe que sou... pecadora” (p. 175). Consciente de sua própria fraqueza, confiava totalmente no Salvador, esperando tudo dele pelos méritos infinitos de suas santas Chagas. Assim também, durante uma conversa com Nosso Senhor, Irmã Maria-Marta viu-se transportada ao céu e os santos, colocando-a num lugar de honra entre eles, cantavam em coro: “O menor torna-se o maior” (p. 188). Deus exalta os humildes!

 

Vida Teologal

Irmã Maria-Marta, enquanto imitava Jesus crucificado, trilhava a via da infância espiritual, tão propícia ao progresso e ao perfeito desenvolvimento das virtudes teologais. Com a simplicidade da criança, ela crê em Deus, espera nele e ama-o de todo seu coração.

Este espírito de fé espontânea inspira todos seus atos, todas as circunstâncias da sua vida: doenças, contradições, provações de todo gênero. Vê Deus em todas as coisas e não desperdiça parcela alguma da cruz.

A santa Missa, para ela, é a renovação do calvário. Irmã Maria-Marta vive do drama que se desenrola no altar, une-se à divina Vítima que recebe na santa comunhão com um fervor, com um amor cada vez maior. Deus faz com que ela viva dos mistérios da Santíssima Trindade, da Redenção, da Eucaristia. Ela vai o mais longe. Imersa em contemplação, é-lhe penoso voltar-se às coisas da terra. Contudo, chega o dia em que o divino sol dos espíritos se esconde, se obscurece. Desamparada, Irmã Maria-Marta sofre, busca seu Senhor e seu Deus. Estes abandonos torturam-na. Jesus, enfim, retorna: “purifiquei-te inteira ao abandonar-te” (p. 266). Outras vezes, após dias de sofrimento inauditos, Nosso Senhor, tendo-a unido a sua agonia e a seu abandono na cruz, diz-lhe: “Minha filha, chorei no jardim das Oliveiras e sobre a cruz em meu grande abandono” (p. 267).

Frequentemente, recebe rudes assaltos do espírito das trevas. Apresentando-se certo dia cinco vezes a ela sob uma forma corporal, Satanás diz-lhe: “Não há Deus!... De que servem tuas orações, não há Deus”. Irmã Maria-Marta responde-lhe: “Creio que há um Deus e que Ele é meu Esposo! Ele é meu Esposo! Meu alimento...” (p. 269). Ditas estas palavras, o demônio some numa fumaça. Perturbava-lhe também de mil maneiras com sugestões contra a autoridade, contra a humildade, contra a eficácia da oração, sempre tentando desencorajá-la, desviá-la de seu caminho. Mas esta humilde religiosa mantém-se firme no meio das trevas e lutas; fiel à sua missão, orava sem cessar com espírito de fé cada vez maior. Sua oração era ouvida, como demonstram-no as muitas conversões alcançadas.

“A terra nada é, minha filha, dizia Jesus a sua esposa, a terra inteira é um nada... olha para o céu! O céu é o único digno de teus desejos! Lembra-te da tua morada e não te esqueças de que pertences à grande família do céu...” (p. 292). Irmã Maria-Marta deseja sobretudo partir para ver a Deus. O inimigo de todo o bem aproveita-se para procurar desviá-la do único objeto de sua esperança. “O céu não é para ti”, diz-lhe (p. 265). A serva de Deus tem sua réplica, tão pronta como ingênua. Lança mão de mil astúcias para confundi-la: “bruxa hipócrita! enganas aos demais e és enganada...” (p. 264). Debocha de sua prática de oferecer as santas Chagas, chega até ao ponto de agredi-la. Irmã Maria-Marta sofre tormentos horríveis, julga ser joguete de ilusões. Torturada em sua alma e em seu corpo, embora sempre valente, repete com confiança invencível as invocações às santas Chagas. Tudo espera pelos méritos infinitos de seu Salvador. Fixando o olhar em Deus somente, abandona-se nos seus braços como uma criança, sem deixar de cumprir fielmente a missão que o Senhor lhe confiara. Como o Mestre não haveria de responder a tanta generosidade? Conduzindo-a ao seu Coração, sua doce voz lhe diz: “Minha bem-amada, estarás aqui agora e na eternidade” (p. 266)

Irmã Maria-Marta compreendera esta palavra de seu adorado Mestre: “Minha filha, ama-me acima de tudo, por mim mesmo” (p. 71). Com grande generosidade, respondia a este amor infinito que a atraía cada vez mais fortemente.

“Ensinar-te-ei a amar-me, dizia Jesus, pois não sabes como fazê-lo: a ciência do amor é dada à alma que considera o divino Crucificado e lhe fala, do coração ao coração” (p. 231). Com tocante bondade, ensina-a a rezar: “Descobre meu segredo de amor a alma que se une e entretém-se comigo no fundo se seu coração” (p. 231). “Minha união contigo é teu único bem: aqui é o teu progresso...” (p. 233). Toda sua vida foi um martírio de amor. Jesus crucificado possuíra seu coração. Podia Ele dizer-lhe: “Modelei teu coração para mim e segundo minha vontade. Tirei toda a consideração pelas criaturas... Coloquei nele a simplicidade da criança” (p. 168). “És a bem-amada de meu coração. Doravante, só amarás e respiraras pelo meu coração” (p. 72). Inteiramente livre, isenta de todo entrave humano, consumida pelo amor que a transforma, experimenta cada vez mais a fome de Deus: “Beati qui esuriunt et sitiunt justitiam”.

O chamado torna-se mais insistente: “Filhinha, suba o calvário comigo” “Quero-te vítima de pé” (p. 234) “Também tu, carrega os pecados dos homens” (p. 271). O amor busca a semelhança, e a união com o Salvador só se realiza na cruz. O amor transformante realizou sua obra. Marcada à imagem do Cristo, associada à sua missão redentora, a doce vítima segue, passo a passo, as pegadas de seu Mestre. Como Ele, oferece-se pelos pecadores, roga por eles, vive suas lutas, experimenta, nela mesma, suas dores e angústias. Certo dia, dá à sua superiora o nome do doente da paróquia que tantos sofrimentos lhe custava. Após sua morte, julgou ouvir dele as seguintes palavras:  “Foi por mim que tanto sofrestes. O demônio trabalhava pela perda da minha alma. Devo-te minha salvação: meu lugar era o inferno e, se estou no céu, é pelos méritos das chagas de Jesus que invocaste por mim” (p. 270).

A alma de Irmã Maria-Marta irradiava caridade ao seu redor. Interessava-se por cada uma de suas Irmãs. Sua dedicação não conhecia cálculos nem limites. Sabia às suas custas realizar o desejo de Jesus: “Jamais preocupar-se contigo, jamais recusar um serviço” (p. 236). Nosso Senhor pedia mais: “Deves a cada dia pagar as dívidas de cada alma desta comunidade para com minha justiça... Serás a vítima que expiará cada dia o pecado de todas” (p. 140). Que amor desinteressado não seria preciso para cumprir sua missão reparadora? O aproximar da morte de uma Irmã era sempre marcado por maior intensidade de sofrimentos: Irmã Maria-Marta, pela oração e pela imolação, supria o que lhe restava reparar.

Seu zelo apostólico levava-a a rezar constantemente e a sofrer pelas intenções do Vigário de Cristo e por todos os fiéis. Quantas almas do purgatório não se beneficiaram de suas orações? Um dia, na vigília da Ascensão, Nosso Senhor diz-lhe: “Não contes descansar hoje, pois muitas almas devem, pelos teus sofrimentos, chegar ao céu para ver o meu triunfo” (p. 256). Outro dia: “Minha filha, pela rude tentação que sofreste e por teu abandono interior, muitos pecadores se converteram e muitas almas do Purgatório foram para o céu... teu sofrimento era necessário para isso” (p. 268). Quantas noites não passou ela em oração pelos agonizantes! Nosso Senhor mostrava-os à Irmã: “Estás incumbida de todas estas almas, é preciso que lhes obtenha uma boa morte” (p. 253). Buscar a glória de Deus, a salvação das almas, tal era sua única ambição: “Meu Jesus, tenho sede das almas por vossa glória” (p. 253).

Verdadeira filha da santa Igreja, ultrapassava os muros de seu estreito claustro para cultivar os campos do Senhor. Sentindo-se cumulada dos pecados dos homens, esmagada sob o peso da justiça divina, clama: “Deus meu, não olheis nossa miséria, mas a vossa misericórdia!” (p. 251).

Jesus, por sua vez, instava-a: “Vem, conquiste almas!” (p. 248) Mostrando os pecadores por todo o mundo: “Mostro-os a fim de que não percas tempo algum” (p. 250). E a fervente missionária passava suas noites a colher almas. O sangue divino era o preço. Com firmeza dizia sua grande oração: o oferecimento das santas Chagas de nosso Salvador, que prometera renovar a cada dez minutos (p. 75).

Não se encontram aqui a heroicidade das virtudes teologais e morais, tanto quanto podemos julgar, até que a Igreja se pronuncie?

 

*

Conformada na sua vida a Jesus crucificado, a humilde esposa também o foi na sua morte. Combate supremo, em que as súplicas angustiadas à Mãe do céu nos permitem adivinhar o isolamento do coração, o abandono com Jesus na cruz, faz-nos lembrar a palavra que o Senhor um dia lhe dirigiu: ”Na cruz, no auge de meus sofrimentos, estava só... Eis por que quis que tu sofresses assim” (p. 267)

Por Maria, ela obteve esta última vitória sobre o inimigo, sobre o pecado. Esta Mãe celestial veio enfim buscá-la em 21 de março de 1907, nas primeiras vésperas de sua Compaixão.

 

*

Por meio de sua humilde serva, o divino Mestre dirige-se a nós: “Uma única gota do meu Precioso Sangue basta para purificar a terra, e não pensais nisso!” (p. 62). “A Chaga de meu Sagrado Coração abre-se largamente para conter todas as vossas necessidades!” (p. 79).

Toda esta vida é um apelo para lembrar-nos dos dons de Deus. O sangue redentor é de valor infinito.

Repetindo-nos isto a cada página, esta vida heróica nos faz sentir que nossa fé, que deveria nutrir-se cada vez mais desta verdade revelada, na maioria das vezes, é superficial. Ultrapassa pouco as fórmulas conservadas na memória e repetidas respeitosamente. Não atinge suficientemente as realidades divinas que exprimem.

Dignai-vos, ó Senhor, pela intercessão desta brava religiosa, conceder-nos algo ao menos de sua fé tão penetrante, tão estimulante, de sua contemplação do mistério da Cruz, perpetuada em substância sobre o altar durante a Missa!

Desta fé procede a firme esperança, o amor ardente de Deus e das almas, do qual precisamos nas tristezas da hora presente.

No momento em que o espírito de independência absoluta, de orgulho, levado até ao ateísmo, procura espalhar-se sobre a terra e sobre os países mais católicos, o Senhor sugere a muitas almas interiores rezar como o fazia a humilde conversa da Visitação de Chambéry. Ele as convida a pedir uma inteligência mais profunda do mistério da Redenção e o desejo de participar, na medida desejada para cada um de nós pela Providência, de suas santas humilhações, remédio a todos os orgulhos. O Senhor faz entrever a estas almas, como o fez a esta de que acabamos de falar, que encontrarão neste sincero desejo a força, a paz e, por vezes, a alegria, para suportar os sofrimentos que sobrevirem e encorajar os demais.

( La vie spirituelle, LIII, 150-168, 1937. Tradução: Permanência)

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