Índice de autores
Antônio Hernandez
Há exatamente 300 anos, na pequena cidade de Eisenach, Alemanha Oriental, a poucos quilômetros de Kassel, nascia Johann Sebastian, quarto filho de Elisabeth e Johann Ambrosius Bach, mortos quando o menino mal completara dez anos. Johann Ambrosius era músico, altamente respeitado na região. Com ele, Bach aprendeu a tocar violino. Com seu irmão mais velho, Johann Christoph, estudou órgão e cravo. Na escola de Ohrdruf, onde vivia o irmão, aprendeu a cantar e tinha tantas qualidades que ainda menino conseguiu seu primeiro emprego, no coro local. A compor, ele aprendeu praticamente sozinho, copiando às escondidas partituras de mestres alemães, italianos e franceses quw seu irmão importava com dificuldades.
Através de seus próprios recursos, já adolescente, Bach ganhou também a melhor educação a que podiam aspirar os fihos dos nobres de sua época: latim, francês, teologia, literatura, filosofia. Aos 18 anos, organista célebre na região, tinha uma base cultural invejável que, aliada à maturidade fatalmente adquirida pela sua condição de órfão desde os dez anos, fazia dele um artista capaz de assumir responsabilidades profissionais como qualquer adulto.
A prática da música, do canto e das técnicas instrumentais e da composição eram quase fator hereditário na vida de Bach. Ao longo de mais de quatro séculos da história da criação musical, registram-se aproximadamente 40 músicos em sua família espalhados por diversas cidades alemãs. O mais antigo foi um conselheiro municipal de Wichmar, Haus Bach, apreciado na região como exímio tocador de cítara. Os conhecimentos técnicos e artísticos eram assim transmitidos de geração a geração e o nome de família chegou a ser sinônimo de músico. Casado duas vezes, o próprio Bach educou seus filhos com extremo cuidado no universo musical e vários deles, por seus próprios méritos, têm lugar assegurado entre os maiores vultos da história: Johann Christian, Carl Philip Emanuel, por exemplo, nomes de grande destaque na evolução das formas do período clássico.
Johann Sebastian Bach, mais do que a figura culminante da história de toda sua família, foi o ponto de confluência das mais importantes vertentes da cultura musical do Ocidente, na primeira metade do século XVIII. Além da síntese das qualidades artísticas que vinham desde a Renascença, Bach é também o ponto de partida da música moderna: suas luzes, que iluminaram Mozart e Haydn e os românticos continuaram a aquecer os cérebros de mestres como Shoenberg, Alban Berg, Stravinsky e Villa-Lobos que, considerando-o uma espécie de “repositório do folclore universal”, comprometeu o Brasil nessa homenagem monumental que são as nove “Bachianas Brasileiras”.
Quando Bach chegou ao mundo, vivia-se o segundo século da descoberta das Américas, da invenção da imprensa de Guttemberg e do protestantismo de Lutero. O criador da ópera, o italiano Claudio Monteverdi, havia falecido 50 anos antes. A grande explosão da polifonia ocorrera três séculos antes e já envelheciam os exageros contrapontísticos dos renascentistas, que chegaram a trabalhar peças a 30 partes reais. Nem anacrônico, nem revolucionário, na sua condição de criador, Bach comportou-se dentro dos limites de um conservadorismo nada estéril. No que diz respeito ao enriquecimento dos recursos armônicos, por exemplo, ele se pronunciou corajosamente em defesa do “Temperamento” da divisão da oitava em 12 semitons fixos, o que permitiria a utilização dos teclados em qualquer tonalidade, sem ajustes de afinação. E o pronunciamento veio com a força amazônica dos 48 Prelúdios e Fugas para o cravo bem temperado.
Quanto às formas que cultivou, Bach conseguiu levá-las, com espírito científico e capricho artesanal, até as últimas consequências, animando-as também com essa sensibilidade que, no século XIX, Robert Schumann reconheceria como autêntico romantismo.
Os aspectos biográficos, entretanto, não são particularmente favoráveis às explorações literárias. O mais alemão e ao mesmo tempo o mais universal de todos os compositores alemães jamais deixou a Alemanha. Casado com sua prima Maria Bárbara, que morreu ainda jovem, e depois, com Anna Magdalena, teve ao todo 17 filhos. Escreveu, dia e noite, à luz das velas ou da lua, até ficar cego. Trabalhou para a nobreza até os 37 anos e, a partir daí, até morrer, para a igreja e a municipalidade de Leipzig. Antes de assumir as funções de Kantor, que incluiam obrigatoriamente a criação de música para os serviços religosos, Bach viveu o período mais feliz de sua vida – segundo seu próprio depoimento em cartas – na corte do príncipe de Anhalt-Cohten. Esse período corresponde à sua produção instrumental mais importante: as Aberturas (ou Suítes para orquestra); os Concertos de Brandenburgo – um dos quais, o quinto, inaugura a forma tão prestigiada pelos românticos do diálogo concertante entre um instrumento de teclado e um grupo instrumental; as Sonatas e Partitas para violino solo, para violoncelo, para violino e cravo, para cravo solo, e, entre muitas outras obras importantes, o primeiro volume de Prelúdios e Fuga para o cravo bem temperado.
Romantismo latente e perfeição artesanal
A segunda parte da vida, em Leipzig, corresponde à composição da maior das cantatas, das Paixões – “segundo São Mateus” e “segundo São João” – o segundo volume para cravo (a Oferenda Musical) e, para mencionar apenas alguns dos monumentos maiores da criação de Bach, a Arte da Fuga, que deixou inacabada, para consagrar seus últimos anos à conclusão da Missa em si menor, uma tarefa que não obedecia a nenhuma encomenda nem tinha a menor perspectiva de execução em público.
Esse período em Leipzig foi marcado por desgostos e por desentendimentos com as autoridades. Compositor livre, Bach era um músico oprimido nas suas aspirações e até hostilizado nas suas tarefas de diretor de música e de professor. Homem forte, ele era capaz de vencer a pé grandes distâncias para poder ouvir os organistas célebres de seu tempo, como Buxtehude ou Pachelbel, influências marcantes na sua formação instrumental (como compositor de música religiosa, vinha de Schutz, que nascera justamente cem anos antes). Extremamente sensível, emocionava-se quando meditava sobre as responsabilidades que lhe cabiam pessoalmente pelos “sofrimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo”, segundo depoimento registrado no livro de sua mulher Anna Magdalena, que o surpreendeu gemendo na sua mesa de trabalho enquanto escrevia a Paixão segundo São Mateus.
Compondo para a “Maior Glória de Deus”, conciliando um romantismo latente com a perfeição do computador que tinha no cérebro, Bach deixou, aos 65 anos, obras perfeitas que pouco interessaram aos seus sucessores imediatos e que não chegaram até nós em sua totalidade. Calcula-se que apenas a metade do que escreveu está incluído nos catálogos modernos. E, a não ser por Haydn, Mozart e Bethoven, não existem muitas luzes de admiração pela sua obra, no século seguinte. Mesmo assim, a música instrumental teve razoável importância na vida concertista européia, sobretudo as Aberturas e os Concertos de Branderburgo, além dos Prelúdios – que eram a bíblia de músicos como o primeiro professor de Chopin. Seria preciso, entretanto, esperar até o século XIX para uma verdadeira ressurreição do nome de Bach, por ocasião da revelação da Paixão segundo São Mateus, por inciativa (e sob a direção) de Mendelsohn.
Todos os grandes românticos, particularmente Shumann, Liszt, Chopin e Brahms, prestaram homenagens significativas ao gênio de Bach. Depois, já no século XX, vieram os reconhecimentos de Villa-Lobos, animando as leis do reino bachiano com sangue brasileiro; de Strawinsky, confessando que o centro de suas aspirações era chegar a ser um pequeno Bach; e de Shoenberg e Alban Berg, que mergulharam na Arte da Fuga, procurando saídas na floresta do atonalismo.
São Roberto Bellarmino
Caríssimos irmãos, quando contemplo o início e o crescimento da religião de Cristo e recordo os sinais e prodígios do Redentor, duas coisas me parecem admiráveis e quase inacreditáveis: a primeira, que existam pessoas que se recusam a abraçar a Santíssima Fé; a segunda, que aqueles que a abraçaram persistam no pecado.
Muitas foram as predições dos profetas, e quase unânime o consenso dos povos, e sem conto o número dos milagres, e imensa a esperança depositada em nossa Fé. Fomentou-a a caridade, fixou-a a antigüidade, confirmou-a a sucessão dos bispos e, enfim, fortificou-a a autoridade da Igreja Católica Romana. Por isso, quem não se assombraria com o fato de que, desde o início da pregação da fé, ainda se encontrem pessoas para as quais a doutrina da Igreja Católica Romana é inconsistente, pessoas essas que não temeram endossar os atos dos autores das novas seitas e, portanto, do Mestre dos Erros? Semelhantemente, como se é capaz de escutar que certos indivíduos acreditam na punição eterna para quem viole as leis de Deus, mas não se abismar que tais indivíduos – os que aderem a essa crença – não obstante pecam contra Deus com a mais descarada tranqüilidade e audácia?
Ora, se a certa hora a ninguém se permitisse meter os pés para além dos portões da cidade – em razão dum edito do rei – sob pena de morte por enforcamento, quem haveria de ser tão descuidado e negligente da própria segurança a ponto de, à hora proibida e na presença de inúmeras testemunhas, aventurar-se a pôr o pé para além dos portões? E se acaso, por um motivo qualquer, alguém o fizesse, não lhe invadiria mais tarde o medo, não apenas das testemunhas mas também do portão, como se tal objeto estivesse cônscio do crime que se cometera? Por seu lado, estão todos os cristãos persuadidos de que Deus Onipotente proferiu uma sentença irrevogável, em cujo teor se lê que, quem partisse desta vida culpado de violação [grave] à lei de Deus, como condenado que é, seria ligado às correntes eternas e sofreria tormentos inauditos e infindos, [caso não se arrependesse dos pecados antes da morte] . Todavia, observamos dia após dia muitos que ofendem a Deus, sem que para isso sejam coagidos, instigados, e muitas vezes até sem serem convencidos, mas por iniciativa própria, de boa vontade e com boa consciência. Decerto, eles buscam as ocasiões de pecado, regozijam se as encontram e, se não, lamentam. Que haveríamos de apontar como causa disso?
Caríssimos, parece-me que há três causas principais: falta de meditação, ignorância e amor-próprio, a última das quais os gregos com maior propriedade e acerto chamam de filáucia. A falta de meditação não é a menor das causas; pelo contrário, talvez seja a principal razão por que o risco do tormento eterno, que está sempre a nos acossar a todos, não nos afasta do pecado. Para muitas pessoas não lhes falta a fé, mas antes a meditação atenta e diligente do que a Fé propõe e ensina. Por isso, acredito que empreenderia uma tarefa agradabilíssima a Deus e útil a vós se hoje, como prometi no sermão anterior, eu lhes puxasse pela memória e exibisse diante dos vossos olhos o quão horrível, atroz e inexorável são as torturas que Deus preparou para a gente ímpia e perversa. Mas antes de falar dos tormentos do inferno, convém fazer algumas refutações, apoiado em dois elementos que mencionei há pouco.
De início, porque ignoramos a gravidade e a magnitude do pecado, mal conseguimos acreditar nos tormentos infernais com que as Santas Escrituras admoestam os homens nefandos. Afirma Santo Agostinho, nestes termos: “Para a razão humana, a pena eterna parece dura e injusta, pois que nesta [nossa] enfermidade da razão carecemos do conhecimento da sabedoria pura e soberana, pela qual é possível sentir a grandeza da afronta cometida na prevaricação originária.” Se de fato entendêssemos a gravidade da falta, só com muita dificuldade alimentaríamos dúvidas acerca da severidade da pena. Gostariam de saber de mim a imensidão da gravidade do pecado? Caríssimos, é ele tão imenso que a consciência não consegue abarcá-lo, visto que sobrepuja as faculdades da alma humana e derrota a inteligência dos seres mortais. Será o pecado certamente um mal imenso e infinito, se medirmos a magnitude da ofensa com a medida da dignidade e da nobreza do ofendido, que são infinitas.
Bem sabereis o perigo e a gravidade da doença do pecado se a comparardes com a excelência e a dignidade do Médico e dos remédios necessários para a cura. Quando ouvimos dizer que há uma pessoa tão doente que, insatisfeita com os médicos das redondezas, manda chamar cirurgiões de lugares distantes e estranhos, e que necessita de drogas preparadas a primor e com grande custo, então nos seria lícito a nós – que não somos médicos – afirmar que tal pessoa padece duma enfermidade gravíssima. Que se há de pensar, pois, da doença do pecado, a qual nem a sabedoria, nem o gênio, nem o poder e nem as faculdades de todos os homens e de todos os anjos seriam capazes de curar? Se não descesse a mesma Sabedoria do seio de Deus Pai, e preparasse um remédio perfeito a partir do Sangue do seu Santíssimo Corpo, decerto a doença destruiria a humanidade inteira.
Verdadeiramente, caríssimos, não tivesse eu outro argumento para demonstrar a gravidade do pecado, este só bastaria para persuadir todos os homens de que qualquer falta cometida contra Deus é um crime tão incomensurável que – ao considerar a pena devida à falta – com muita justiça poderíamos afirmar: “Olhos ainda não viram, ouvidos ainda não ouviram, nem jamais penetrou em qualquer coração humano as torturas e tormentos que Deus tem preparado para aqueles que O ofenderam.” Por que Deus, a própria Sabedoria, desejaria fazer-se homem, ser levado a Cruz, morrer e destruir o reino do pecado, senão para derrotar o poder e o domínio [de satã] e se tornar Ele mesmo o exterminador do pecado? Se por vezes meditássemos nestas coisas, não nos inclinaríamos ao pecado com tanta facilidade, e teríamos uma opinião diferente das torturas do inferno. Mas voltemos às causas da persistência do nosso torpor.
Caríssimos irmãos, é assombrosa a força persuasiva do amor, do maldito amor-próprio. Ele é, por assim dizer, a persuasão encarnada; essa alcoviteira – poderosa por natureza – é tão aduladora que, com as suas manhas, convence quase todas as pessoas a cortejarem a crença de que não sofrerão nenhuma pena ou, se as sofrerem, hão de ser breves e parcas, mesmo que vivam vidas desonestas e iníquas. Esta é a origem da opinião célebre entre alguns filósofos que, segundo Aristóteles, atribuem a si mesmos a excelência dos seus feitos, esperando que o próximo lhes dê o crédito e a admiração pela autoria deles, ao passo que atribuem a causas externas toda a sorte de crimes e injúrias que não raro cometem. Por isso, se agem bem, desejam recompensa e, se mal, o perdão da dívida.
Um após o outro, os erros dessa raiz germinaram até na pena de escritores cristãos, erros que Santo Agostinho enumera e refuta no Livro XII d’A Cidade de Deus. Havia quem acreditasse que não existem penas reservadas para católicos, mesmo para os de vida corrupta. Já outros, de iniciativa própria, deram o veredito de que não apenas os católicos, mas até os hereges – se tivessem sido outrora católicos – estariam dispensados da pena eterna! Outros ainda afirmaram que nem os católicos, nem os hereges a que se conferisse o Sacramento do Batismo, padeceriam as torturas eternas. Há outros que, indo mais longe ainda, conceberam que todos os homens – fossem cristãos, judeus ou pagãos – seriam salvos no Julgamento Final, quer pelos próprios méritos, quer pela intercessão e sufrágios de outrem. Já chegaram a existir pessoas que prometeram a esperança do perdão e a salvação eterna não só aos homens, mas até aos demônios do inferno! Quem mais seria capaz de baralhar nestas pessoas o senso de compaixão e causar nelas a adesão a opiniões tão insensatas sobre as torturas do inferno, senão o amaldiçoado amor-próprio? Assim sendo, não nos deve espantar que o amor-próprio atualmente dissemine tais idéias entre indivíduos que só com lentidão e dificuldade compreendem que o perigo das insuportáveis torturas eternas também pairam sobre elas. Deveras, raciocina e diz entre si essa gente tola: “É claro que Deus não me teria resgatado a um preço tão alto, nem padecido tantos males aqui na terra, se Ele planejasse me jogar eternamente na masmorra, por causa duma simples blasfêmia ou outro crime qualquer!”
Em verdade, caríssimos irmãos, devemos nos insurgir contra essa opinião falsa e perniciosa e expor os frágeis fundamentos sobre que está assentada. Digamos que o nosso rei venha a se afeiçoar de certo homem obscuro, regalá-lo com cargos públicos e enfim alçá-lo ao governo duma bela e aprestada cidadela do seu império. Agora imaginemos que este tal conspire com inimigos contra o seu rei e lhes entregue a cidadela confiada aos cuidados dele. Se fosse o caso de que no curso dos acontecimentos esse homem fosse capturado e levado à presença do rei, que pensais que faria com ele o rei? O fato de que um dia o rei tivesse afeição pelo traidor lhe impediria de pronunciar as penalidades estabelecidas para a traição? Certamente, as penas seriam atrozes, e tanto mais quanto maiores os precedentes benefícios conferidos. Assim é conosco. Embora Deus nos tenha amado com amor sumo, enviado o Seu Filho até nós, disposto que Ele sofreria e padeceria muitas agonias para a nossa libertação – apesar de tudo isso, se desertássemos para o campo do inimigo e entregássemos as cidadelas da alma aos demônios, Ele ainda nos puniria com tormentos eternos.
Há alguém que ainda não ouviu a história do patriarca José? Venderam-lhe os seus irmãos como escravo, e quando lhe conduziram ao Egito, lá o comprou o mordomo de Faraó, que passou a lhe querer bem, nomeou-o supervisor de toda a sua casa e lhe confiou a administração de todos os negócios; porém, mal suspeitara que José houvesse seduzido a sua esposa e tivesse adulterado com ela, não se contentara em lhe arrancar a dignidade da prefeitura da casa, mas o mandou lançar no mais pestilento dos calabouços.
Que dizer dos anjos condenados? Não fora o Príncipe dos Demônios outrora o Príncipe dos Anjos? E como foi! Segundo ensinava São Gregório Magno, e bem antes dele Tertuliano, além de muitos outros escritores eclesiásticos, era ele o mais nobre e principal dos anjos, tanto assim que o grau da sua preeminência entre as obras de Deus passou a ser o de sua humilhação, desgraça e degradação. Donde na Sagrada Escritura é chamado de “Lúcifer” (Is 14.12), “O principal entre as obras de Deus” (Jó 40, 14), “o selo da semelhança (de Deus), cheio de sabedoria e perfeito na beleza.” (Ez 28, 13). Dele ainda Ezequiel: “teu vestido estava ornado de toda casta de pedras preciosas.” (Ex 28, 13). E ainda: “No jardim de Deus não havia cedros mais altos do que ele.” (Ez 31, 8). E igualmente: “tiveram dele emulação todas as árvores deliciosas que havia no jardim de Deus.” (Ez 31, 9).
Então, se o maior e o mais sábio e eminente dos anjos foi expulso do Paraíso, em razão dum único pecado, e arremessado no abismo, que há de acontecer conosco, que nos apegamos ao lodo dos inúmeros pecados, e nos indulgenciamos na benevolência e bondade de Deus? Como é possível fazer objeções a isso, se Deus afligiu não apenas os anjos mas até ao Seu Filho por causa dos pecados? Meus caros, Deus ama ao Seu Filho verdadeiro e dileto acima de tudo e, ainda assim, quando Ele carregou nos ombros todos os pecados e manifestou o desejo de satisfazer a ofensa deles, Deus o esmagou e, como apregoava o profeta Isaías, consumiu-o “com sofrimentos” (Is 53, 10). Deus O destinou para aflições e torturas que nunca nenhum ser humano provara nesta terra. Grande e implacável se mostrou o ódio de Deus contra o pecado, quando o Filho provou em Si a vingança severíssima dos crimes alheios! Mas “se isto se faz no lenho verde, que se fará no seco?” (Lc 23, 31). Nosso Senhor foi adornado com as primícias da salvação e iluminado com toda a graça e beleza espiritual. Se a raiva de Deus, incitada por crimes alheios, O vergastou com a chama da Paixão, de modo a reduzi-l’O ao “último dos homens, um homem de dores” (Is 53, 3), que se fará com a madeira seca, i. e., com os seres humanos desprovidos do orvalho da graça e da virtude? Ao que irá reduzi-los a fornalha do inferno, inflamada por tantos crimes, ultrajes e transgressões? Porque as coisas são assim, meus caros, não devemos sequer pensar em duvidar de que os castigos do inferno são insuportáveis e inenarráveis.
Entretanto, parece que escuto uma voz se levantar e objetar-me: “Já alguém retornou do inferno e confirmou que tais coisas são verdade?”. Ah, pergunta tola! Tanto mais temível é esse calabouço, justamente porque ninguém jamais conseguiu sair de lá! Se alguém retornasse do inferno, todos depositariam esperança em tal retorno. Como de lá nunca ninguém voltou, isso só prova que o inferno é um poço profundíssimo, donde não há saída possível.
Este bom-senso, se não tivéssemos outras fontes, aprenderíamos até nas fábulas. Por certo, narra a fábula que a raposa viu muitas criaturas entrando no covil do leão, mas nenhuma delas saindo de lá. Não se perguntou a raposa: “Ninguém vem para fora anunciar os riscos que existem no covil do leão; logo, não haverá nenhum risco.” A fábula, dizia eu, não nos conta que ela tenha dito isso, mas antes, ao contrário, conta-nos que a raposa se atemorizou ainda mais de aproximar-se do covil do leão pelo só motivo de que vira muitos entrarem e nenhum sair. Precisamos de mais confirmações? O poder divino já restaurou a vida a muitos mortos, que com palavras e atos nos referiram a magnitude das penas do inferno e, demais a mais, afiançaram de que elas excedem em muito qualquer coisa imaginável. São Gregório Magno, São João Clímaco e vários outros santos e doutores documentaram tais casos.
Deixai-me agora retornar ao ponto crucial do meu sermão. Em todo pecado existem duas malícias: uma é voltar as costas ao Sumo Bem Incriado, e a outra é voltar-se ao miserável bem criado [se comparado ao primeiro]. Semelhantemente, existem duas tristezas na pena correspondente à falta: a primeira se origina da perda da beatitude eterna, e a segunda das torturas e tormentos que assolarão igualmente a alma e o corpo. Chamam os teólogos a essas duas torturas de pena do dano e pena dos sentidos.
Falemos em primeiro lugar da perda da felicidade, que é das penas a mais rigorosa. Caríssimos, não é possível existir nenhuma punição inventada ou até imaginada tão monstruosa que não seja superada pela perda do Sumo Bem. O calor do fogo infligido ao corpo provoca dores insuportáveis, mas só lesiona a boa constituição e o temperamento do corpo, que no todo é um bem mediano e modesto. Quão brutal, então, será a tortura que há de afastar e separar [as almas] de Deus, cuja simples face é um bem tão incomensurável que santifica e contenta qualquer pessoa num instante! Entre os romanos [considerava-se] que dentre todas as punições a pior era de longe o exílio – i. e., quando obrigavam o cidadão, por causa de grandes crimes, a deixar a cidade, sendo assim despojado da convivência dos seus compatrícios, e a viver entre os bárbaros em ilhas ainda meio selvagens. Por isso afirmava Cícero, quando o exilaram, que havia ingressado como que num mundo novo; chegou ele a espantar-se e, por assim dizer, a confundir Céus e terra: “Contemplai a beleza da Itália!, exclamava ele, contemplai a celebridade de suas cidades e a delícia de seus territórios! Contemplai os prados, os frutos e a beleza de Roma! Contemplai a benevolência dos cidadãos e a dignidade e a majestade da República!” Que pesar imenso sentirá então quem for privado dos palácios do Paraíso, da Comunhão dos Santos, das regiões venturosas onde reinam a paz, o amor, a alegria e a tranqüilidade, e ressoa o hino de louvor e o júbilo, e se entoa o aleluia eterno e, acima de tudo, onde mora a Luz Puríssima, cuja face santifica e contenta quem a contempla! Que pesar imenso sentirá então quem for compelido a habitar para todo o sempre em calabouços infectos e em sentinas repletas de toda a imundície, “onde habita a sombra da morte, onde não há nenhuma ordem, mas um sempiterno horror” (Jó 10, 22), onde só se ouvirá a voz dos lamuriantes e blasfemadores, onde só se escutará o clangor dos malhos e o estalo dos açoites, na companhia da hoste dos demônios, monstruosos e bárbaros, e da escória dos pecadores!
Mas bem sei o que dirão os amantes desta vida presente: “Já não nos falta, nesta vida presente, tudo quanto mencionaste? Quem de nós reside em palácios celestiais? Quem de nós contempla luz puríssima? Mas nos entristece ou atormenta a falta disso? Pelo contrário: se nos fosse permitido sempre residir neste corpo e gozar dos bens da vida presente, pensaríamos ainda de leve nos bens do Paraíso?”
Caríssimos irmãos, esta é uma ilusão costumeira dos ignorantes, os quais não concebem que, após a morte, estimaremos as coisas que agora possuímos com outros olhos e outras idéias. São João Crisóstomo expressou essa mudança com estas belas palavras: “Quem arde no inferno perde para sempre o Reino dos Céus, e a perda do Reino é certamente uma pena maior que o tormento das chamas. Ora, sei que muitos temem o inferno, e sei também que a perda da glória celestial é uma punição muito mais amarga que o próprio inferno. Não é de espantar que eu não consiga descrever tais punições neste sermão, pois, assim como desconhecemos a bem-aventurança das recompensas divinas, naturalmente ignoramos de todo quais os efeitos de sua perda. Não obstante, certificar-nos-emos da magnitude desta perda, quando a experiência começar a nos instruir. Só então abriremos os olhos e retiraremos o véu; só então que os ímpios conhecerão – para a sua profunda aflição – qual é a diferença entre o Sumo e Eterno Bem e os bens frágeis e perecíveis deste mundo mortal”.
Para fins de ilustração deste tópico, tenham a bondade de aceitar a seguinte comparação, que foi a melhor que conseguimos. Existia certa vez um rei poderosíssimo, que não tinha filhos que o sucedessem na administração do reino. Um dia ele ouviu falar dum menino airoso e agradável de aparência, mas de origem humilde e meios parcos. Ordenou o rei que lhe trouxessem o menino, cuja instrução a partir daí foi confiada a tutores. Estipulou o rei que, se o menino quando chegasse à maturidade fosse educado, sábio, ajuizado e adornado de bons modos e de todas as virtudes, sendo assim pessoa conveniente para assumir a direção do estado, ele haveria de ser proclamado rei e soberano legítimo, instalado no trono real com cetro e diadema, e incumbido do governo de todo o reino; mas, ao contrário, se se transformasse num homem cruel, seria atado em correntes e condenado às galés, com toda a ignomínia e a desgraça da penalidade. Os ministros reais deram cumprimento imediato às ordens do rei: convocaram o menino e o confiaram aos tutores, que usaram de muita diligência ao educá-lo nas letras e costumes. Contudo, o menino deixou-se levar pelos outros meninos, sem notar os benefícios de que gozava. Mal o professor punha os pés fora da casa, o menino escondia o livro no canto mais escuro do quarto e vagabundeava o dia inteiro, construindo casinhas de cacos de vaso e brincando de piques. Já perto do pôr do sol o professor retornou e lhe fez uma sabatina das lições, mas o menino sequer se recordava onde pusera o livro. Irado o professor sovou o menino e apisoou as casinhas de caco; disse enfim ao pupilo: “Oh, se soubesses o que desperdiças com essas tuas criancices! Talvez aprendas mais tarde, mas só quando tal conhecimento já te não servir de nada.” Ora o menino, como menino que era, chorou com o castigo e a repreensão do professor, mas lamentou ainda mais as casinhas quebradas. Nem as palavras do professor, nem a vontade e o testamento do rei lhe pesaram no espírito. Decerto, no dia seguinte ele esqueceria a surra e a admoestação recebidas, e novamente construiria casinhas de cacos e voltaria aos jogos infantis. Quando o menino crescesse, os testamenteiros do rei se deparariam com uma pessoa rude e ignorante, e de modo geral incapacitada para governar o reino. Leriam para ele o testamento do rei, e então o poriam a ferros e o enviariam às galés na pior das degradações. Ora que pensais que mais lhe penalizou com lágrimas e amargura: a labuta das galés ou a perda do reino? Talvez escuteis de mim que ele lamentou amargamente a condenação às galés, porque não sou capaz de conceber um estado de vida mais desgraçado nesta terra. Certamente, a única esperança de quem foi sentenciado às galés é fartar-se de açoites. No entanto, tenho plena certeza de que o seu coração se angustiou e afligiu muito mais quando o despojaram da honra de governar o maior e mais suntuoso dos reinos, pois existe alguma coisa mais miserável e desgraçada para se dizer ou pensar do que a notícia de alguém que perdeu o mais esplêndido e nobre dos reinos, por causa de ninharias infantis?
Caríssimos irmãos, para quem de nós não se aplica essa parábola? Enquanto vivemos na terra, somos crianças. Não conhecemos nada de elevado, nem contemplamos nada de sublime. Estamos todos ocupados com assuntos burlescos e ninharias infantis. Quão ansiosos somos em amontoar casas de lama! Em que diferem elas das casas de cacos dos meninos, salvo serem algo maiores em tamanho? Assim é o entusiasmo dos mercadores, as ambições dos governadores e dos cortesãos, as obras dos arquitetos, as contendas dos reis e dos príncipes por cidades, províncias e reinos; assim também os processos judiciais dos cidadãos em torno de posses, limites e cursos d’água. Isso mesmo: são tudo ninharias! São ninharias só um pouquinho maiores que as das crianças, e por essa razão, escreve Santo Agostinho, são chamadas de negócios. Apesar de tudo quanto mencionei serem ninharias, se comparadas aos negócios da vida futura, não por isso elas ainda ocupam a maioria esmagadora das pessoas, de forma que não consigam dedicar um pensamento sequer aos negócios do reino celeste, que é único negócio sério e verdadeiro [desta vida]. E tudo acontece sob a vigilância do Professor Celeste, que se encarregou de nossa instrução; talvez ele nos encontre merecedores de tomar posse do Reino dos Céus. Ele lamenta continuamente nossa inconstância e deplora: “Até quando amareis (à maneira de) crianças, a infância? (Até quando é que) os insensatos cobiçarão as coisas que lhe são nocivas?” (Pr 1, 22). “Por que amais a vaidade e buscais a mentira?” (Sl 4, 3). Então, com Seu pé Ele destrói nossas casinhas de cacos.
Deus confunde amiúde os nossos desejos. O mercador espera o navio cargueiro abarrotado de mercadorias do Oriente, e eis que escuta a notícia de que a embarcação naufragou e a mercadoria submergiu no oceano! Já outros depositam toda a esperança no filho e confiam que em breve ele há de se tornar doutor em teologia, canonista, até Papa! Constroem sobre ele as torres altaneiras de seus planos, mas eis que chega a notícia de que uma leve febre acometeu o filho, e que depois de alguns dias o filho chegou ao termo da vida! Outro homem é convidado a um casamento, a um elegante repasto, a uma ilustre recepção. Ele está pronto para ir, mas eis que fica indisposto e, para que se consume a cura, deve abster-se de vinho e comida!
Quem é esse, pergunto-vos, quem é esse que faz isso conosco? Quem é esse que frustra os pensamentos e conselhos dos homens? Caríssimos irmãos, quem faz tais coisas é o nosso Professor, e as faz não porque nos odeie, mas porque nos ama com ternura! Porquanto é Seu desejo limpar os obstáculos que nos impedem de avançar no caminho do Paraíso que Ele nos preparou. Deveras, quais crianças tolas, suportamos contrariados a destruição das nossas casinhas de cacos, a perda dos bens da terra e outros castigos do Senhor. E eis que de novo amontamos nossos caquinhos, mas não dedicamos nenhum pensamento ao Reino dos Céus, que está nos chamando quando nos flagela.
Mas virá o tempo, acreditai-me, virá o tempo em que teremos de passar pelos portões da morte para o outro mundo, mundo onde reconheceremos num instante que já somos homens adultos; neste novo lugar não é possível encontrar crianças. A passagem desta para a outra vida, pelo simples fato de ser passagem, já nos torna a todos nós homens crescidos! Ouviremos então a seguinte declaração: “O Reino dos Céus e as suas lindas moradas estavam sendo preparadas para ti. Se ao menos tivesses dado ouvidos à verdadeira sabedoria! Mas porque preferiste às tolices infantis, e desprezaste a voz e as admoestações de teu professor, serás lançado com ignomínia e vergonha nas trevas exteriores, onde ‘haverá choro e ranger de dentes’ [Mt 25, 30]”, e outras torturas e punições eternas.
Caríssimos irmãos, que diremos então? Que pensaremos dessas casinhas de cacos, dessas honrarias ridículas, desses negócios infantis, quando percebermos com a clareza dos raios do sol que por causa de sombras e sonhos fomos persuadidos a abrir mão de bens duma bondade inexplicável, bens realmente duráveis e imperecíveis? Oh, com que pesar o espírito do homem pecador irá lamentar: “De que nos aproveitou a soberba? De que nos serviu a vã ostentação das riquezas? [Sb 5, 8]. De que nos aproveitou correr terras e oceanos, a fim de juntar riquezas? De que nos aproveitou esgotar-nos de tanto trabalhar, a fim de sustentar nosso fausto no palácio dos príncipes? De que nos aproveitou empregar todas as finezas da arte para cortejar as honrarias, i. e., para cortejar terra e cinzas, a fim de alcançar as honrarias por nós mesmos? De que nos aproveitou atormentar a cabeça e gastar noites a fio em estudos, a fim de compreender os autores mais obscuros e deles captar algum raio de luz? Portanto, vede que tudo passa como sombra, ao passo que ignoramos a verdadeira honraria, a verdadeira riqueza, o verdadeiro prazer, a verdadeira sabedoria da verdade e o Eterno e Soberano Bem. E uma vez perdidas, já não há esperança de recuperá-las!” Caríssimos, há de ser tão grande o pesar de espírito que, apesar de todos os condenados saberem perfeitamente que os portões da beatitude eterna estão encerrados para eles e um imenso precipício se cavou entre eles e a morada dos bem-aventurados, a força do desejo natural os compelirá a implorar: “Senhor, Senhor, abre-nos” (Mt 25, 11).
Por isso, o sapientíssimo doutor São João Crisóstomo afirma: “Certamente o inferno é algo de intolerável. Quem desconhece que a pena do inferno também é horrível?” Ora, ainda que alguém postulasse a existência de milhares de infernos, não seria capaz de dizer nada que transmitisse com exatidão o que é ser excluído das honras da glória bem-aventurada do Paraíso, o que é ser odiado por Cristo e o que é ouvir Dele estas palavras: “Nunca vos conheci” (Mt 7, 23), sendo assim condenado porque negara comida e bebida a quem tinha fome e sede. Melhor seria agüentar a descarga de milhares de raios, do que ver aquele rosto cheio de gentileza e piedade desviar-se de nós, e aqueles olhos cheios de tranqüilidade incapazes de suportar a visão de nossa presença. A perda do Soberano Bem acarreta [também] a perda de todas as coisas boas. Que isso significa? Apenas que os olhos dos condenados nunca mais apreciarão belas paisagens, nem os ouvidos escutarão cantos suaves, nem o paladar provará sabores aprazíveis, nem o tato sentirá objetos macios. Uma vez excluído do consórcio com Deus, o homem ficará de uma vez para sempre mergulhado num oceano de sofrimentos e calamidades, sem esperanças de fuga.
Deixai-me terminar neste ponto o que tenho para contar sobre o Soberano Bem e prosseguir agora discorrendo sobre aquela tortura que os teólogos denominaram pena dos sentidos. Denominaram-na assim porque ela deve incidir sobre os sentidos e as forças, exteriores e interiores, no corpo e na alma. Comecemos com a tortura dos sentidos interiores.
Existem quatro faculdades espirituais, pertinentes ao assunto de que tratamos, que no inferno padecerão tormentos espantosos. A primeira dessas faculdades, os gregos a chamavam de “fantasia”, mas nós a chamamos de “pensamento”; a segunda é a memória; a terceira, a inteligência; e a quarta, a vontade.
A faculdade do pensamento padecerá de certos tormentos gravíssimos e opressivos, que o corpo e o espírito terão de aturar. Se, pois, nesta vida uma dor intensa pode subjugar e reprimir o pensamento dum homem a ponto de ele não conseguir parar de pensar nela, embora o queira com ardor, o que as penas do inferno – em comparação, muito maiores – farão às almas? Assim, o pensamento aguçará as dores, e as dores excitarão o pensamento; e ambos se estimularão mutuamente, de modo que as almas ou os corpos dos condenados não repousarão jamais. Essas dores serão objeto de perpétua contemplação de quem poderia ter meditado frutuosamente nestas coisas, mas se recusou a pô-las em prática, ou de quem despreza nesta terra utilizar seus pensamentos mais profícuos como rédeas contra a luxúria. Na vida futura, tais pensamentos serão os cruéis verdugos a atormentá-lo.
Também a memória será uma pesada cruz para as almas condenadas, quando ela lhes patentear a felicidade dos velhos tempos e os prazeres passados, pelo bem dos quais vieram a se abismar naqueles tormentos. Só aí conhecerão o verdadeiro sabor do sal generoso e da pimenta picante que se esparziam nos banquetes, que outrora lhes eram tão aprazíveis. Mas muito maior sofrimento haverá quando elas compararem a brevidade dos prazeres passados com a eternidade das tristezas presentes; quem poderia topar com um matemático tão erudito que fosse capaz de nos calcular a extensão do abismo que separa o tempo e a eternidade? Por isso, quantos brados não irão lançar? Quantos suspiros não irão arrancar do imo peito quando, ao meditarem com cuidado, descobrirem que os prazeres, que mal duram um instante, passaram qual sombra ou sonho, enquanto a tristeza não terá fim nem termo!
A inteligência, porque é a faculdade mais eminente e perspicaz, padecerá uma cruz mais intolerável, pois nesta faculdade habitará o verme com que a Sagrada Escritura ameaça tão amiúde os pecadores: “O seu bicho não morrerá, e o seu fogo não se extinguirá” (Is 66, 24). Assim como o verme brota da madeira e rói o mesmo pau donde foi gerado, assim o verme nasce do pecado e trava com o pecado uma guerra eterna. Este verme nada mais é que a penitência perpétua, cheia de cólera e desespero, cheia da dor que se origina dos pecados e crava as unhas nas almas dos condenados, tão logo percebam que perderam o Reino dos Céus e atraíram para si torturas indescritíveis por causa de seus pecados. Lemos no livro do Gênese que certa vez os egípcios gozaram sete anos de tanta fertilidade e abundância que abarrotaram os silos onde armazenavam os grãos. A estes sete anos se seguiram outros sete de tanta esterilidade e penúria que os egípcios foram obrigados a trocar dinheiro, campos, gado e até a si mesmos por grãos. Quem poderia descrever o profundo arrependimento que sentiram nesta época, ao se darem conta da negligência em armazenar os grãos no tempo em que o frumento transbordava dos celeiros? Quem poderia descrever sua aflição, porque não acumularam para o tempo da futura penúria, quando o diligente armazenamento de grãos não apenas os livraria da pobreza e da fome, mas também torná-los-ia muitíssimo mais ricos.
Caríssimos irmãos, o verme dos condenados é de tal natureza, que não descansa nem de dia nem de noite, pois rói, mastiga, devora e se alimenta das entranhas dos desgraçados pela eternidade afora. E os desgraçados tampouco esquecem a oportunidade esplêndida, que tiveram cá nesta terra, de evitar essas penalidades a um custo baixo, e de assegurar o Reino dos Céus por um preço módico. Nessas circunstâncias, injuriar-se-ão uns aos outros para sempre, e dirão: “Ai de nós! O Reino dos Céus se ofereceu a nós, e se ofereceu grátis. Mais ainda, quase que implorou para que o recebêssemos, mas recusamos. Se nós nos tivéssemos arrependido dos pecados e confessado, tudo haveria de ser perdoado! Por acaso, eram suplícios colossais a penitência e a confissão? Se implorássemos misericórdia, ser-nos-ia dada quase de imediato! Se implorássemos pela bondade divina, ei-la ali a nosso dispor! Ora, se oferecêssemos um copo de água fria em honra de Deus, lograríamos encontrar a vida eterna! Mas agora vamos jejuar para sempre, vamos ser afligidos para sempre – e não haverá frutos disso. Oh, precioso tempo, que já passaste e nunca retornará, eternamente! Que nos oferece o mundo para que ousemos provocar a terrível cólera de Deus? Sim, se nos oferecessem todos os reinos e impérios do mundo, e se nos afiançassem que deles gozaríamos por milhares de anos, que seria isso tudo, comparado à menor destas penas eternas? Mas o mundo não nos oferece reinos, nem impérios, nem duração certa, mas a mera sombra dum prazer miserando. E é por isso que nos obrigamos a suportar o fardo das torturas eternas? Oh, por que somos tão tolos e tão cegos? Quem nos roubou o entendimento? Quem nos cerrou os olhos e entupiu os ouvidos? Quem nos traz tão enfeitiçados, que não refletimos sobre essas torturas, nem dedicamos um pensamento a esse novíssimo? Quem nos traz tão enfeitiçados, que nunca nos precavemos contra tal pobreza, nem atentamos naqueles que nos deram bom conselho?” Se a faculdade da inteligência há de sofrer tudo isso, que diremos da vontade, que é a causa principal dos pecados?
A vontade sofrerá a tortura duma inveja furiosa, que afrontará a glória e a honra de todos os santos e do próprio Deus; pois, como canta o salmista: “Ve-lo-á o pecador, e se indignará; rangerá os dentes, e se consumirá” (Sl 111, 10). Os danados também não possuirão aquilo que desejam, pois “o desejo dos pecadores perecerá” (Sl 111, 10). Daí levantar-se-á na vontade dos pecadores um ódio implacável contra Deus, e do ódio por sua vez originar-se-ão maldições horrendas e blasfêmias inauditas, que nunca hão de sair de seus lábios e bocas; não terão eles a menor esperança de salvação redentora, mas saberão com toda a certeza que nunca voltarão às graças de Deus, e que as torturas nunca hão de findar ou mitigar-se; compreenderão que é Deus quem os mantém atados em cadeias, por assim dizer, às penas eternas, e que é Ele quem – desde o alto – ateia sobre eles o fogo, e que é Ele quem atiça as fornalhas do inferno com seu hálito poderoso. Os réprobos ficarão encolerizados como cães raivosos, latindo blasfêmias e injúrias sem cessar; amaldiçoarão a Deus porque os criou e os condenou à morte; amaldiçoarão a Deus porque Ele os matará para sempre, não consentindo em que morram; amaldiçoarão Seu poder porque os tortura imensamente; amaldiçoarão Sua sabedoria porque nenhuma infração escapa dela; amaldiçoarão Sua bondade, porque se transformou para eles em ferocidade e condenação; amaldiçoarão Sua Cruz e o Sangue derramado sobre eles, porque os beneficiou muitíssimo; amaldiçoarão a Rainha dos Céus, porque ela foi para muitos pecadores a Porta da Vida e da Misericórdia, mas para eles se converteu agora em cruel madrasta. Enfim, amaldiçoarão todos os santos, porque em meio aos tormentos observá-los-ão regozijando e exultando em triunfo. Essas maldições serão a eterna sinfonia de seus ouvidos, suas matinas e vésperas, os salmos e cânticos entoados no templo tenebroso dos demônios, onde o incenso será de enxofre, e os círios poços donde sobem fumo e fogo e, em vez das harpas e órgãos, rangido de correntes e rumor de malhos e chibatas.
Verdadeiramente, se a simples menção de coisas tão horrendas incute terror e impõe respeito, que será então aturar realmente, naquele lugar de eternidade, as coisas que se escutaram e disseram? Que devemos fazer para que não sejamos compelidos a participar dessas solenidades tenebrosas?
Recorda o profeta Jeremias que o Senhor lhe mostrou dois cestos cheios de figos. Um deles continha figos bons, muito bons mesmo; o outro continha figos ruins, muito ruins mesmo, que não se poderiam de jeito nenhum comer. A não ser que eu esteja enganado, o profeta nos está ensinando que os dois tipos de figo são figura dos dois tipos de pessoas que haverá após esta vida. Por isso, todos chegaremos àquele estado que é bom, muito bom mesmo – ou que é ruim, muito ruim mesmo. Não há estado intermédio entre o estado dos bem-aventurados – que é bom, muito bom mesmo – e o dos condenados – que é ruim, muito ruim mesmo, porquanto o fogo do Purgatório, que alguns consideram um estado intermédio, arde até um tempo certo e definido, do que se depreende que todas as almas que agora estão lá ou que lá estarão [no futuro] serão partícipes da glória e felicidade eterna, alcançando aquele estado que é bom, muito bom mesmo. E com a ajuda de Deus lhes apresentaremos no próximo sermão o quão bom, muito bom mesmo, será o estado dos bem-aventurados; por sua vez, o estado dos condenados, que é ruim, muito ruim mesmo, ficará claro com o que já dissemos e ainda resta por dizer.
Assim manifestamos, com toda a nossa habilidade, que a tristeza decorrente da perda do bem supremo e que atormenta as faculdades da alma interior, é fortíssima e indescritível. Demonstraremos agora que as penas e torturas infernais que incidirão nos sentidos externos dos condenados são as mais atrozes de todas.
A recompensa dos bem-aventurados não é um bem particular em especial, separado e distinto doutros bens, mas um bem generalizado e comum, que contém em si todos os bens, prazeres e delícias. Assim a define Boécio: “Estado de perfeição, que consiste em possuir todos os bens.” De modo análogo, a pena dos condenados não é um pesar específico, que afetasse a cabeça ou os rins, os dentes ou os olhos, mas um mal generalizado que dissemina todos os sofrimentos pelos membros, articulações e sentidos do corpo. Nesta terra nunca provamos do sofrimento generalizado dos condenados, bem como nunca provamos o bem generalizado dos bem-aventurados, porque uma pessoa com dor nos olhos não sofre desta feita dos dentes, nem com dor de dentes sofre por isso dos olhos; esse padrão se aplica a todas as demais dores corporais. Porém, no inferno a dor atrocíssima há de ser uma só e simultânea, e acometerá rins e peito, e cada articulação, centro nervoso, medula, sentido e faculdade do corpo. Assim como o pecador usou os membros para ofender a Deus, assim não haverá parte, ou antes, não haverá a menor parte sua que não tenha torturador e algoz específico. Pergunto-vos: Que sentiria aquele de nós que, durante apenas um dia, fosse submetido à tortura geral dessa pena? Qual seria para ele a duração desse dia? Não lhe pareceria que cada momento dura mais que vários meses, e que cada hora, mais que vários anos? Sem dúvida, caríssimos, se víssemos na rua um cão sofrendo essa dor generalizada, não duvido de que ficaríamos comovidíssimos. Se for possível dalgum modo descrevê-las, eis aí a pena e eis a dor com que serão torturados os seres humanos condenados ao inferno, não apenas por um só dia, mas pelos séculos dos séculos. Mas procedamos a partir daqui a uma investigação mais atenta e diligente das várias espécies de penalidades.
Os olhos, porque observam todas as coisas, com muita justiça se oferecem como os primeiros à nossa consideração. Estes nossos olhos, aqui e agora, não os sacia o prazer: eles fitam avidamente as belas formas; quais depositários de curiosidades, voam ligeiros para assistir a espetáculos mesquinhos e ridículos; quais mulherengos impuros, levam amiúde imagens vulgares para a alcova do coração. A única coisa que não conseguem fitar é o infortúnio catastrófico dos pobres e miseráveis. Qual a cruz que há de torturar os olhos no inferno? Decerto, a primeira coisa que lhes aparecerá são as formas horrendas dos demônios: olhar um demônio é experiência tão horrível que dizem que algumas pessoas perderam a sanidade e outras a vida. Comentando o Salmo IX, conta São Bernardo de um de seus monges a quem certa noite lhe visitou uma figura pavorosa. Durante todo o dia seguinte, esse monge quase perdeu o tino por causa da visita, imaginando-se sempre em perigo. Até que, numa hora em que calhou de todos os monges estarem dormindo, ele deu um tal grito que os acordou a todos e os encheu de pavor. Cassiano, nas Colações, também relata que entre os antigos anacoretas [ermitões] às vezes assomava um temor tão forte do demônio – o qual fazia questão de lhes aparecer, mas sempre com formas horríveis – que ninguém tinha coragem de ficar só; tampouco os que compartilhavam celas ousavam dormir ao mesmo tempo: enquanto uns dormiam, outros faziam vigília, entoando salmos e hinos sem parar. Se neste mundo nosso os demônios podem reivindicar para si um poder tão grande sobre nós, e se aqui os tememos imensamente, que farão, pergunto-vos, que farão quando estiverem em seu próprio território, onde não precisam temer exorcismos, água benta, nem os méritos e as orações dos santos? Se eles vagueiam por aqui, donde são expelidos com tanta violência, que hão de fazer no país onde governam e dominam? Imaginem um homem andando pelo cemitério; se a mera suspeição da presença dos demônios o assaltasse, talvez fosse o suficiente para que ficasse de cabelos em pé e a voz se afogasse na garganta. Qual não será a confusão dos pecadores, quando naquele comum “Cemitério dos Condenados” encontrarem face a face com a multidão dos monstros, fantasmas e quimeras!
Além disso, que cruz os olhos dos condenados sofrerão, quando virem as suas esposas, pais e filhos nos mesmos tormentos! Hegesipo nos legou um relato da destruição de Jerusalém: Alexandre, filho de Hircano e capitão dos hebreus, quando quis infligir a algumas pessoas uma penalidade atrocíssima, ordenou a crucificação simultânea de oitenta prisioneiros na praça da cidade. Enquanto estivessem vivos, as esposas e filhos de cada um seriam cruelmente vergastados diante de seus olhos. Deste modo, os desgraçados padeceriam não uma mas muitas mortes. No inferno também não há de faltar essa punição: com imenso pesar, ali os filhos verão os seus pais e os pais verão os seus filhos, os maridos as suas esposas e as esposas os seus maridos; além disso, todos os que tiverem sido causa dos pecados de outrem, suportarão na companhia deles as torturas infernais!
Caríssimos irmãos, sei que nesta notável universidade [i. e., Lovaina, na Bélgica, onde se proferiu o sermão] a maioria dos moços – moços de fato modestos, pacatos, estudiosos e religiosos – está sendo cultivada e instruída. Estou ciente desse fato, em parte pelo que ouvi doutras pessoas, em parte pelo que observei em pessoa. Eu me regozijo imensamente com isso, e assim dou graças ao Senhor de todos nós. Mas o meu coração ficou muitíssimo contristado ao ouvir que, entre tantos moços direitos, existem corruptores e corrompidos, que circulam entre vós e assediam os simples de coração, seduzindo-os a freqüentar as bebedeiras, os bailes e outros estímulos à luxúria. Ai de vós, homens impuros, imitadores do diabo e flagelos da juventude! Ousais então invejar e roubar a dignidade dum bem tão excelente? Que hão de fazer quando, em meio à combustão das labaredas abrasadoras, virem-se na companhia daqueles a quem enganaram? Oh, quantas vezes não ireis repetir: “Morra o dia em que te vi pela primeira vez, morra o dia em que me empenhei em te manipular e enganar! Quando te jogava no vício da bebedeira e noutros crimes e escândalos, estava eu me jogando nestes tormentos!” Por sua vez, objetará o outro: “Morra o dia em que pela primeira vez te trouxe à minha companhia, ladrão e carrasco de minha alma; morra o dia em que pela primeira vez dei ouvidos aos teus discursos envenenados!” Eis o dueto e a sinfonia desses amaldiçoados, e tal sinfonia agora nos admoesta para que passemos dos olhos aos ouvidos.
Os ouvidos que outrora se deleitaram em canções licenciosas, regozijaram ao escutar infâmias e detrações contra vizinhos, ouviram indolentemente por horas a fio os mascates na praça pública, ao passo que se agastavam com um sermão de apenas uma hora na igreja – esses ouvidos, no inferno, só escutarão gemidos, urros, choros, contumélias, blasfêmias e maldições; pois, se no Reino dos Bem-Aventurados há de se entoar para sempre louvores divinos e aleluias melífluos, já no calabouço dos condenados há de ressoar para sempre gritos e blasfêmias; alguns desses hinos serão cantados no tom dos malhos e açoites.
Lembro-me de ter lido no livro Vida de Sula, de Plutarco, a seguinte história: certo dia esse cruel ditador ordenou se juntassem seis mil homens num pequeno círculo. Ao mesmo tempo, ordenou que o Senado deveria reunir-se num templo não muito distante dali. Daí então instruiu os soldados que, enquanto estivesse discursando, massacrassem os seis mil homens o mais rápido possível. Assim, quando Sula começou o discurso ao Senado, ouvia-se o estrépito e o fragor contínuo de inúmeras espadas, cujos sons se misturavam aos gritos e gemidos dos massacrados. O ditador advertiu os senadores para que escutassem os procedimentos na câmara, e não fossem curiosos nem prestassem atenção ao que acontecia do lado de fora. Entretanto, como todos os senadores ficassem apavorados e fora de si, mal puderam concentrar-se no discurso. Daqui é possível conjeturar qual “sinfonia” e quais “órgãos e harpas” escutaremos, se nos fosse permitido encostar o ouvido nos portais do inferno, onde não seis mil porém um sem conto de pessoas que choram, gritam e vociferam, serão massacradas, flageladas e golpeadas para sempre.
Que diremos sobre o sentido do olfato? Não existe sentina mais imunda, nem esgoto mais pestífero que se compare ao lago do inferno, onde se há de lançar toda a imundícia do mundo. São Vítor Africano descreve os tormentos que os vândalos arianos infligiram aos santos mártires, e assegura que um dos piores sofrimentos era o fedor da masmorra. A descrição do santo se refere aos Quatro Mil Novecentos e Noventa e Seis Mártires que juntos foram torturados no mesmo calabouço; ele relata que os vândalos jogaram literalmente os confessores de Cristo uns sobre os outros no recinto estreito do cárcere, como uma fieira de caranguejos ou, para falarmos com mais propriedade, como preciosos grãos de milho. Naquele amontoamento não havia lugar retirado para que alguém atendesse às necessidades da natureza. Premidos pela necessidade, deixavam as fezes e a urina num só canto, de forma que o fedor e o nojo superou todo o sortimento das punições. Os vândalos, por sua vez, sofreram severa punição na mão dos mouros, que eclipsaram aquela raça: os mouros conduziram publicamente ao mesmo calabouço os vândalos que, mal entrando lá, atolaram-se até os joelhos numa verdadeira voragem de lama. Assim os vândalos provaram na carne o cumprimento da profecia de Jeremias: “Os que se nutriam ente púrpuras, abraçaram o esterco” (Lm 4.5).
Meus caros, comparai a pena dos mártires com as torturas dos condenados. Havia poucas pessoas nas masmorras onde prenderam os confessores de Cristo; já nas masmorras do inferno haverá muitíssimas pessoas. Naquela, apenas a imundície humana exalava fedor; nesta, reunir-se-á em montão a imundície, o excremento, a carniça, a impureza e o fartum do mundo inteiro. Então, se o fedor do calabouço terrestre superou toda casta de punições, quem haverá de suportar o fedor do inferno, incomparavelmente mais impetuoso e horrendo? Quem consegue ler sem horror sobre aquela nova variedade de tormento que, seja verdade ou ficção, descreve o poeta latino ao cantar:
Vivos ligava a mortos, contrapondo
Mãos a mãos (que tormento!) e boca a boca,
E em triste abraço e pútrida sangueira
Nesta agonia longa os acabava.
Virgílio, Eneida.
Livro 8, linhas 485-488.
(Tradução de Manuel Odorico Mendes).
Que diremos perante esse quadro? Que um homem vivo e saudável será atado ao cadáver frio; que o desgraçado definhará, porque aspirará o abominável odor, a bicharia e o chorume que porejam do corpo; que um homem vivo há de ser assassinado por um homem morto – e quem não se aterraria apenas ao escutar isso, e quanto mais quem o testemunhasse? Mas se tais métodos de punição nos parecem severos e monstruosos – como de fato o são – que dizer do fedor do inferno, que se levantará das pilhas de corpos putrefatos?
Mas se o sentido do olfato sofre tais punições, ficaria imune à pena o sentido do paladar, que de praxe é causa de crimes muito mais numerosos e graves? Meus caros, os beberrões e os glutões impuros não hão de conhecer – e conhecer de fato, pela primeira vez – a que custo adquiriram pratos e licores delicados, cujo preço de compra nesta terra estimavam de pouquíssima monta? Verdadeiramente, o sentido do paladar será torturado com fomes e sedes indescritíveis. Quem hoje não suporta um jejum de dois dias – e acha que a natureza não estará saciada, a não ser que beba ao ponto de se intoxicar e vomitar – há de ser torturado com fome e sede tais, que é impossível conceber ou excogitar pena mais dolorosa. Quem não se comoveria com as palavras do homem rico do Evangelho: “Pai Abraão, compadece-te de mim, e manda Lázaro que molhe em água a ponta do seu dedo, para refrescar a minha língua, pois sou atormentado nesta chama” (Lc 16, 24). Que pobreza maior que essa poder-se-ia imaginar? Que coisa mais insignificante poderia desejar um rico, que outrora “se banqueteava esplendidamente todos os dias” (Lc 16, 19)? Ele, que não se satisfazia nem com vinhos preciosíssimos, não busca sequer um copo d’água, nem implora a Lázaro – o que é mais incrível – que mergulhe a mão inteira n’água: pede tão-somente que Lázaro umedeça a pontinha do dedo em água – e nem isso lhe é concedido! Deram-nos a conhecer essas coisas, para que saibamos que os efeitos da sentença de excomunhão e interdição que o Senhor proferiu contra os condenados são tão universais que ninguém é capaz de levar-lhes o mais leve conselho ou auxílio: para onde quer que os condenados voltem os seus olhos ou estendam as suas mãos, saberão que todos os canais de conselho ou auxílio lhes foram interditos.
Os náufragos em alto-mar amiúde retesam pés e mãos, como estivessem se sufocando e pelejando com a morte; todavia, não deparam nada além de água, o que frustra todo o empenho que intentam para se agarrarem em alguma coisa. Eis o que acontecerá com quem se tenha abismado naquele derradeiro Mar de Misérias, sufocando-se ali para todo o sempre. Implorarão todos os tipos de auxílios, chegarão até a pedir socorro à própria morte, mas em vão, pois lá não existe ninguém que possa dalguma sorte lhes prestar o mínimo socorro.
Caríssimos irmãos, são de fato verdade tais coisas? Donde as aprendemos? Quem no-las contou? Foi Homero? Platão? Virgílio? Quem no-las contou foi a Verdade em Si, a Sabedoria de Deus em pessoa, que não pode mentir! Ainda existe fé no mundo? Ainda usam os homens a razão? Podem formar julgamentos sobre qualquer coisa? Como sobreveio esse torpor nos homens que costumavam acreditar em tais coisas? Somos diligentíssimos em repelir outros males menores; por que motivo então nos não dispomos a encontrar um modo de evitar as torturas infernais?
Entretanto, as penalidades que temos mencionado nem de longe são as piores: existem outras ainda mais gravosas. O parecer da justiça divina exige que o sentido do tato, pelo qual se cometeram tantos crimes, ultrajes, sacrilégios, impurezas e adultérios, sofra torturas ainda mais atrozes que os demais sentidos. O algoz desse sentido será o fogo, um fogo tão poderoso, intenso e eficaz que, comparado a ele, o nosso fogo terrestre parece não ser fogo verdadeiro mas pintado. Não podemos duvidar de que o fogo há de causar imensa aflição e tormento, porque foi Deus quem o destinou para executor de Sua justiça. Meus caros, imaginai um homem lançado vivo numa fornalha ardente, cuja portinhola se fechasse enquanto ficasse ele lá durante uma hora inteira. Se fôssemos contemplar atentamente qual seria a sua dor, não teríamos um entendimento claro, mas a mera impressão, por assim dizer, do que é viver no inferno. Pergunto-vos: quais ombros suportarão as chamas ardentes? Quais peitos se não despedaçarão na eternidade das torturas? Como indagava o profeta Isaías: “Qual de vós poderá habitar em um fogo devorador” (Is 33, 14)?
Precisamos dizer mais alguma coisa? Além dessa punição, acrescentar-se-á outra – e, decerto, não das menores – para que os condenados sejam atormentados não apenas com o calor do fogo, mas também com o frio intolerável! Se nos estearmos nas palavras de São Basílio Magno, nenhuma das torturas se comparará com a dor resultante da amaríssima rispidez do frio.
São Basílio nos deixou a história dos Quarenta Mártires. Queria um tirano crudelíssimo e ferocíssimo supliciar esses mártires com tormentos indescritíveis. Chegou à conclusão de que o melhor tormento seria a morte de inverno, porquanto habitavam numa região fria por natureza. Era tão intenso o frio que lá vigorava que certos lagos congelavam, a ponto de as pessoas andarem por sobre eles com carroças e animais de carga; a torrente dos rios mais caudalosos se petrificava no leito, e de rios que eram se transformavam em estradas pavimentadas de mármore. O tirano escolheu uma noite em que o setentrião soprava com todo o ímpeto, e ordenou que se expusessem os mártires nus ao relento, permitindo que morressem dum tormento prolongado e indescritível.
Esses, caríssimos, serão os jogos dos condenados, e essas as suas partidas, nas quais – como lamenta Jó – serão compelidos do excesso de calor aos chuveiros de neve, e dos chuveiros de neve ao excesso de calor. Não se tratam de invenções nem fábulas dos poetas. Escutai o que diz o Senhor a Jó: “Entraste, porventura, nos depósitos de neve, ou viste os depósitos de saraiva, que eu preparei para usar contra o inimigo, no dia da guerra e da batalha?” (Jó 38, 22,23). Escutai o salmista: “Fará chover sobre os pecadores carvão ardente e enxofre; um vento abrasador será a porção do seu cálice” (Sl 10, 7). E se essa “porção” é amaríssima, que seria então ter de beber o cálice inteiro? Ah, infelizes, quão melhor ser-vos-ia se nunca tivesses nascido! Ah, olhos miseráveis, que serão aterrados com as horrendas formas demoníacas e torturados com fumo espessíssimo, e que sempre estarão abertos para observar as próprias misérias! Ah, ouvidos miseráveis, que escutarão pela eternidade o ruído dos açoites e blasfêmias, e o lamento dos malditos! Ah, nariz desgraçado, que sentirá pela eternidade o fedor dos ambientes infectos e dos corpos putrefatos! Ah, barrigas e bocas miseráveis, que serão atormentadas com fome e inanição perpétuas e sede intolerável! Ah, membros ignóbeis, que habitarão no poço que vomita flamas sulfurosas! Quanto tempo durará: dez anos, vinte anos, cem anos? De jeito nenhum, pois isso ainda seria uma espécie de consolação. Verdadeiramente, há de durar pela eternidade e além – se fosse possível chegar a um além. Eternidade. Ó mundo fugaz, que nos prenuncia uma realidade tão durável!
Caríssimos fiéis, a natureza dessa eternidade é tal, que sem ela nenhuma punição se julgaria severa, e com ela nenhuma se julgaria branda; não obstante, será este o sal que irá condimentar as penas dos condenados, porquanto os anos de torturas serão tão numerosos quanto as estrelas brilhantes do céu, os grãos de areia da praia e as gotas d’água no oceano. E quando se houver esgotado este abismo de eras, será tão-somente o recomeço das dores. A roda irá girar infinitamente. Canta o salmista: “Como (um rebanho de) ovelhas são postos no inferno; a morte os apascenta” (Sl 48, 15). Os cordeiros pastam as folhas das plantas, mas não arrancam as raízes, de modo que as plantas cresçam novamente e por sua vez os tornem a alimentar. Assim será nas pastagens do inferno, onde se acharão os rebanhos dos condenados, o pasto dos tormentos e a Morte, o pastor da manada. A Morte conduzirá os condenados aos pastos, onde pastarão tormentos para sempre; a forragem nunca acabará, nem o cálice do Senhor, que terão de beber, esgotar-se-á. Enquanto o Reino dos Céus existir, as masmorras infernais perdurarão; enquanto os bem-aventurados regozijarem, os condenados padecerão; enfim, enquanto o próprio Deus viver, no inferno os réprobos morrerão. A não ser que Deus deixe de ser o que Ele é, não cessarão eles de ser o que são. Ó vida de morte, ó morte imortal! Que nome afinal te daremos a ti, Morte ou Vida? Se és vida, porque matas? Se morte, porque deves perdurar? Não nos é lícito chamá-la nem morte nem vida, pois que cada um desses estados comporta algum bem: a Vida tem sossego, e a Morte tem um fim – mas tu não terás sossego e nem um fim. Que diríamos que és tu, senão a totalidade do mal contido na vida e na morte? Da morte herdaste o tormento, e da vida a duração. Verdadeiramente, despojou Deus a vida e a morte do bem que nelas havia, e o que sobrou Ele colocou em ti! Ó poção envenenada, ó droga amarga! Todos os pecadores hão de tragar o cálice do Senhor!
Caríssimos irmãos, decerto seria algo excelente se pudéssemos entender um pouquinho que fosse a eternidade das penas, pois essa meditação por si só – qual uma rédea – refrearia toda a nossa luxúria e moderaria as nossas vidas, de forma que todos nos pareceríamos não apenas cristãos, mas monges e anacoretas santíssimos! Pensai na cruz que um homem acometido dalguma moléstia suportasse no decorrer duma única noite. Quantas vezes não irá revirar-se daqui para acolá? Quão longa não lhe parecerá a noite! Quantas vezes conta as horas, e qual a duração de cada uma, segundo o julgamento dele? Que ansiedade não o acometerá à luz da alvorada! Quantas vezes se indaga quanto já se passou da noite e se o arrebol não tardará a aparecer! Se tal aflição nos parece enorme, qual não será a aflição dos que se deitarão não em leito macio, mas em labaredas ardentes e resplendentes, no decorrer duma noite sem aurora nem esperança de dia? Ó escuridão profundíssima! Ó noite, eterna noite! Ó noite, que a boca de Deus em pessoa amaldiçoou! Ó noite, que não há de ver o arrebol nem o esplendor da alvorada!
Caríssimos irmãos, se o mero pensamento dessa eternidade nos terrifica a nós, que será não [apenas] contemplá-la, mas abismar-se realmente nas penas eternas? O tormento eterno é uma coisa tão horrenda que, se tal pena incidisse apenas num só dos filhos de Adão, todos teríamos motivos para temer e tremer. Por que então não ficamos comovidos, quando sabemos com toda a certeza que o número dos tolos é infinito; quando sabemos que o caminho que nos conduz à vida é estreito e poucos são os que o encontram, e que o caminho da perdição é largo e muito são os que o percorrem [Mt 7, 13]? Se não acreditamos nessas coisas, onde está a nossa fé? Se acreditamos nelas, onde o [nosso] bom senso? Se temos boa cabeça e damos crédito às Escrituras, como é possível que ainda estejamos adormecidos, quando um perigo tão horrendo paira sobre nós? Como é possível que ainda nos agradem a bebedeira e a libertinagem, que ainda nos deleite a vida indolente? Por isso, cobremos ânimo. Sacudamos o torpor em alguma hora, para que assim alcancemos as dádivas da graça aqui nesta terra e depois da morte, na glória do Senhor, que para sempre seja santificado. Amen.
(Traduzido por Permanência a partir da tradução americana. Hell and its torments, TAN Books and Publishers, Inc; Rockford, Illinois, 1990.)
“E vieram os anjos e serviram-no”
Paramentos roxos
Neste domingo que era outrora o primeiro dia da Quaresma, reunia-se a estação na basílica de S. Salvador .
Toda a liturgia respira um pensamento de fortificante confiança, desde o Intróito, Gradual e Ofertório até a Comunhão, compostos todos com versículos do Salmo 90 que vem quase por inteiro no Tracto e se repete durante a Quaresma para ser, por assim dizer, o diapasão da vida nova, de bom combate, que devemos levar nestes dias. E não são acaso as lutas do Salvador, que se vão desenrolando diante de nós, para nos encorajar na batalha? A Igreja, pelo menos, assim nos dá a entender, propondo à nossa meditação o Evangelho que refere à tentação de Cristo. Era a missão que empreendera de esmagar Satã que começava, e referi-la a Igreja neste princípio da Quaresma parece querer indicar o verdadeiro motivo de confiarmos na vitória. O Senhor triunfou e a Igreja diz-nos que podemos triunfar com Ele, porque afinal a verdade é que a tentação e o combate que se desenrola em nós e à nossa volta, são a tentação e o combate e também a vitória de Cristo. O nosso esforço é d’Ele, as nossas forças são d’Ele e o nosso triunfo na Páscoa é d’Ele também. Empreendamos, pois, generosamente o bom combate cuja estratégia o Apóstolo em grandes linhas nos traça na Epístola da Missa. Encorajemo-nos com este pensamento de que o progresso espiritual nas almas é a vitória de Cristo que se prolonga e que o combate necessário para a garantir já foi dado. Estes dias da Quaresma são tempo de salvação, são o tempo favorável que nos permite marcar posições definitivas no combate incessante do espírito contra a carne. E a Igreja convida-nos com maternal solicitude a terçar armas neste combate glorioso, para celebrarmos purificados na alma e no corpo o mistério sublime da Paixão do Senhor.
É verdade, diz S. Leão em Matinas, que deveríamos viver sempre diante de Deus com as mesmas disposições requeridas para a condigna celebração dos mistérios pascais. Mas, porque isto é virtude e apanágio de poucos e porque a fragilidade humana tende sempre para o relaxamento, aproveitemo-nos ao menos da Quaresma para recuperarmos o tempo perdido e reparemos, pela penitência e boas obras, as faltas e negligências do outro tempo.
Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952
Pe. Dominique Bourmaud, FSSPX
Quando se observa um quadro do mundo religioso do século IV até a Reforma, nota-se facilmente a extraordinária unidade de pensamento, de fé e de moral, agrupada em torno da Igreja católica e difundida por todo o mundo civilizado. É claro que aqueles séculos não foram perfeitos e nem sempre sublimes, pois os homens eram humanos com os vícios que são seus companheiros inseparáveis. Porém, ao menos, o mundo cristão era uno. Estava unido pela mesma fé em um Deus bom, que quer a salvação de suas criaturas; pelo mesmo código moral, que estabelecia unanimemente que uma dada ação era boa e outra má; e pela mesma autoridade divinamente estabelecida, a que se obedecia como se obedece a Deus. Um século depois de Lutero, o mesmo quadro (do mundo religioso) mostra uma profunda ruptura na crença religiosa, pois o que era um aparece, dali em diante, como um vaso partido em mil pedaços. Havia ocorrido uma verdadeira revolução. Ela tinha diferentes facetas: política, internacional, sem mencionar o aspecto social dos costumes. Mas o núcleo dessa revolução, que dividiu para sempre a Europa cristã, foi a teologia. O epicentro do ciclone encontrava-se nas concepções irreconciliáveis sobre Deus e seu plano de salvação para os homens.
Falar da teologia da Reforma é como apontar o dedo para Lutero, seu pai. Devemos nos remeter a ele para compreender a raiz da Revolução que produziu a Reforma; é necessário estudá-lo de perto para entender a natureza do movimento modernista, que se desprendeu do luteranismo como uma fruta madura. De Lutero, pode-se dizer com toda exatidão que a doutrina é o homem. Ao retrocedermos à origem de suas ideias, poderemos deduzir facilmente as consequências dos seus princípios nos diversos domínios relativos ao dogma, à filosofia, à exegese e à teologia. Teremos condições de julgar que esses princípios estão em flagrante contradição com o luteranismo tal como se constituiu posteriormente.
1. Tal vida, tal doutrina
Se é possível, para ilustrar a doutrina e a vida de Santo Tomás de Aquino, fazer alusão aos escritores clássicos, no caso de Lutero, o começo da época romântica se encaixa como uma luva. O romantismo é o florilégio das grandes sinfonias de Beethoven, em que o passional domina o racional e a força suplanta o espírito. Lutero, como Beethoven, sentia dentro de si os impulsos passionais e agia sob sua influência.
Martinho Lutero (1483-1546) era filho de humildes camponeses. Sua mãe, cristã piedosa, era propensa a ver o demônio em toda parte, enquanto seu pai era a encarnação do juiz intratável, que nunca o perdoará por ter deixado a família para se tornar monge. Aos vinte e um anos, após ter feito os estudos de direito, e tomado de desespero durante uma tempestade, faz votos de entregar-se a Deus e, quinze dias depois, é aceito no mosteiro dos agostinianos de Erfurt, cidade universitária da Saxônia. Sua trajetória de monge sacerdote é fulgurante. No ano seguinte, faz seus votos perpétuos, é ordenado padre alguns meses mais tarde, e só então segue curtos, mas sérios estudos teológicos. Em 1508, é transferido para sua universidade natal, onde trabalha como professor. Em poucos anos, se tornará sub-prior de Wittenberg, doutor em teologia e porta-voz em Roma das disputas entre os conventos agostinianos em litígio. Seus estudos no convento o colocam em contato com Santo Agostinho, de quem pensa poder inferir a inutilidade da razão e da vontade, e com os místicos, de quem acredita poder deduzir o desprezo pelas obras exteriores. Também se familiariza com a escolástica decadente, sobretudo com o pensamento de Ockham, o filósofo que sustentava que as palavras são vazias de sentido e que a vida só se encontra em Cristo e na Sagrada Escritura. Ainda um jovem doutor, em seu comentário à Epístola aos Romanos, o irmão Martinho ensina, desde 1515, seu novo sistema sobre a justificação, que servirá de base para toda a teologia luterana. Havia nascido o movimento da Reforma.
Como Lutero chegou a este ponto? Muitos historiadores evitam esta questão e propõem respostas parciais. Alguns pretendem que em um bom dia ele descobriu na biblioteca de Erfurt uma Bíblia recém-impressa. Outros veem no irmão Martinho um monge incapaz de controlar suas paixões imorais. Com o propósito de chegarmos à verdadeira história, nada melhor que revelar a alma desse frade e o drama que viveu naqueles anos cruciais.
Que caráter tinha esse frade agostiniano? Se dentro do robusto Santo Tomás escondia-se um espírito superior, Lutero é um Hércules de vontade, de paixão e de fogo, dotado de uma inteligência limitada e sobretudo prática. Todos os historiadores o descrevem como um alemão por excelência, um Odin cristão, um verdadeiro Thor. Era dotado de uma natureza realista e lírica, valente, mas impulsiva, sentimental e hipersensível. Um espírito vulcânico nas coisas da vida, veemente em tudo, até mesmo em sua generosidade e em sua ternura. De natureza ardente, enérgica e apaixonada, sofre desmaios súbitos e momentos de profunda tristeza. Nele, a depressão é tão profunda como exuberante é a alegria. Isto se deve, talvez, a uma educação cheia de temores e mal equilibrada? Ou às suas crises de escrúpulos? Ou ao pensamento constante do mistério da predestinação, que o inquieta? Em seus momentos de otimismo natural, a paixão adianta-se facilmente às ideias, como acontecia em seus antepassados. Tem instinto guerreiro e se lança com toda ousadia nas discussões, que saboreia com paixão. Apresenta-se audacioso e veemente na defesa de sua causa, razão pela qual o jovem mestre foi enviado à Roma para advogar a causa do mosteiro. Espírito prático e decidido, prefere antes refutar seu oponente a escutar o lado oposto. Lutero, com sua linguagem vulgar, seu extraordinário poder de imaginação e sua torrente de palavras, é um pregador extraordinário, o que lhe valerá ser considerado como um dos mais poderosos criadores da língua alemã moderna. Suas palavras são armas de guerra. Há energia em seu gênio, veemência em suas palavras, uma eloquência brilhante e impetuosa que transmite admiração e encanta as multidões, uma audácia extraordinária diante dos aplausos, acompanhada de um ar de autoridade que faz com que seus alunos tremam diante dele e não se atrevam a contradizê-lo no que seja, não importa se grande ou pequena. Nisso reside sua força e sua fraqueza.
Tendo entrado na vida religiosa mais por paixão que por simpatia, como confessará mais tarde, o irmão Martinho é, no início de sua trajetória religiosa, um monge zeloso e diligente, certamente desejoso de alcançar a perfeição em seu estado sacerdotal, embora predisposto à ansiedade e ao escrúpulo. Não tarda a observar que todos os seus atos piedosos, suas «boas obras», não produzem aparentemente nenhuma mudança nele, e assim chega à conclusão de que elas não tem importância aos olhos de Deus; ou, para usar suas próprias palavras:
«Quando eu era monge, tinha o costume de acreditar que minha salvação estaria comprometida tão logo eu sentisse a concupiscência da carne, isto é, um movimento mau contra algum de meus irmãos, de inveja, de ira, de ódio, etc. Sempre me atormentava a ideia de que todas as minhas boas obras fossem inúteis».
Nesta conjuntura, nosso monge parece ter cometido dois erros sobre os princípios da vida espiritual. Em primeiro lugar, devido ao seu temperamento sentimental, busca com demasiado afinco experimentar as consolações sensíveis. O essencial é sentir-se em estado de graça, como se a graça pudesse ser sentida! A doutrina que ensina que a graça é infundida na alma quando se apaga o pecado, quase o leva a perder a esperança em Deus, porque não havia experimentado em si mesmo essa pureza perfeita da graça. Seu segundo erro é querer alcançar a virtude e a perfeição mais por suas próprias forças do que pela graça de Deus. Este voluntarismo individual é ainda mais perigoso porque, sendo escrupuloso, considera como pecados suas primeiras impressões sensuais involuntárias, e pretende alcançar uma santidade que não manifeste o menor indício da fraqueza humana. Por dez de anos, vive com a alma atormentada pelo terror da condenação eterna. É aconselhado, então, a colocar toda sua confiança no Redentor do gênero humano, que não morreu em vão.
Para sair deste estado de tortura interior em que o haviam confinado seus escrúpulos e seu voluntarismo orgulhoso, lança-se ao ativismo, à pregação e ao ensino. É tentado, então, de desespero: «Contenta-te em ser o que és, anjo caído, criatura deformada; teu encargo é fazer o mal, porque teu próprio ser é mau». É a réplica do drama que viveu o próprio São Paulo:
«Vejo em meus membros uma lei que luta contra a lei do meu espírito, e que me tem cativo sob a lei do pecado, que reside em meus membros. Pobre de mim! Quem me livrará deste corpo de morte? A graça de Deus por Jesus Cristo Nosso Senhor!» .
Jesus Cristo! Eis a resposta há mil e quinhentos fora sempre dada à angustiante pergunta da salvação. Saulo se tornou São Paulo porque lançou-se nos braços de seu Deus. Isto o distingue de Lutero, que, em vez de invocar seu Salvador, resigna-se às paixões baixas: «A concupiscência é invencível». Começa, então, a assinar suas cartas como «Luther, filho de Adão, o desterrado».
Vimos até agora a história do monge escrupuloso, deprimido pelo desespero. Mas esse é o momento em que tudo começa para o reformador Lutero, pois, a despeito do desespero e da resignação perversa, a santidade é recuperada. Para celebrá-la, a partir deste momento ele dá a si mesmo o nome de Lutherius - Martinho, o libertado. Há dez anos, Lutero se sentia atormentado pelo problema da salvação, e em vão buscava a maneira de evitar a fúria do justo Juiz. Em 1516, durante a leitura da Epístola de São Paulo aos Romanos, finalmente descobre o argumento decisivo:
«Porque a justiça de Deus revela-se de fé em fé, como está escrito: “O justo viverá pela fé”» .
O irmão Martinho explica que, segundo São Paulo, a justificação de Deus consiste em cobrir com um manto puramente exterior esse amontoado de pecados que é o homem. Para ser justo, o homem pecador só precisa da fé. Também acredita poder deduzir de São Paulo que todos os atos do homem são pecaminosos, que o homem não tem liberdade, e que este não é nada mais que um cavalo montado por Deus ou pelo diabo, dependendo de qual dos dois esteja em cima. Como não é mais que um animal depravado, o homem nada pode fazer por si mesmo para salvar-se. É inútil dedicar-se às boas obras, dado que Cristo já fez tudo em nosso lugar. A salvação só é obtida quando o homem põe toda sua fé, quer dizer, uma confiança cega, em Cristo. Esta confiança o leva a proferir a máxima: «Pecca fortiter sed crede firmius» — peca com força, mas crê ainda com mais força — . Este axioma não deve ser entendido como a glorificação do laxismo moral. A primeira parte, pecar ou não pecar, não tem importância; o que importa é crer. Crer, segundo nosso autor, é ter uma confiança tão firme como cega. A vida cristã não é nada mais do que um contínuo exercício por sentir que nós não temos pecado nem sequer quando pecamos, e que nossos pecados são carregados sobre Cristo.
É evidente que toda a doutrina de Lutero é o resultado de uma experiência pessoal. Ele transforma suas necessidades em verdades dogmáticas. Seus sentimentos íntimos convertem-se em princípios teológicos, e seu caso particular é transformado em lei universal. Sedento de segurança moral e de liberdade espiritual, livra-se dos escrúpulos da sua consciência, que desesperava sobre a questão das boas obras, lançando-se, como pecador que é, nos braços de Cristo. Quando surge a controvérsia das indulgências, já há mais de um ano que pregava esta doutrina na universidade. Se, de fato, os abusos das indulgências foram a faísca que deveria causar a explosão, eram tão somente um pretexto para começar a revolta. Quando prega as noventa e sete teses sobre as indulgências nas portas da igreja de Wittenberg, em 1517, Lutero já tem pronta sua própria doutrina sobre os temas fundamentais da salvação eterna, da justiça de Deus, da fé e das boas obras.
Sua reivindicação fundamental, e também a do protestantismo, não tem relação nem com os abusos das indulgências, nem com os escândalos do clero, nem sequer com seus próprios erros teológicos que levam diretamente à imoralidade e à blasfêmia. Não. Todo o drama da rebelião reside no fato de um monge pretender apagar quinze séculos de posse serena da verdade divina e conseguir subjugar com grande sucesso as multidões proclamando-se iluminado diretamente por Deus. O fundo do problema é que Lutero vangloria-se de compreender a São Paulo melhor do que ninguém até aquele momento; melhor que a porta-voz e guardiã da palavra divina, a própria Igreja Católica. A grande vitória de Lutero consiste em que, por meio da oferta sedutora de um paraíso automático e gratuito, esse orador de gênio conseguiu afastar meia Cristandade de tudo que, até aquele momento, ela acreditara sem discussão, e de levá-la a aceitar sua doutrina do paraíso gratuito simplesmente porque ele se dizia mais sábio. O livre exame é, portanto, o núcleo e o eixo da Reforma. Lutero professava o livre exame, que seria, mais que qualquer outro ponto de doutrina, o fermento mais eficaz para destruir o que a Igreja tem de mais precioso. O livre exame marca, de fato e de direito, a morte de todo o tesouro da Igreja.
2. Em filosofia: ignorantismo e egologismo
A época da escolástica decadente e do Renascimento pagão, desdenhosa das ideias e promotora de todo individualismo, não foi feita para promover a sã filosofia. Lutero, ao fazer profissão de ceticismo em matéria de ciência, se mostra um filho digno de seu tempo, e ainda mais quando, por inclinação natural, privilegiava a vontade em detrimento da razão. Seus discursos são mais diretos que sutis. Aristóteles é o suporte ímpio dos papistas. Ele é para a teologia o que as trevas são para a luz. Por outro lado, Santo Tomás nunca entendeu nem um só capítulo do Evangelho ou de Aristóteles. Semelhantes exageros verbais concordam perfeitamente com a doutrina luterana da natureza do homem, totalmente corrompida pelo pecado original. A razão, da mesma forma que a natureza, está intrinsecamente manchada, de maneira que todas as ciências especulativas estão erradas. Lutero não é um pensador que analisa seus princípios, mas um líder carismático que se apodera da multidão e a dirige pelo instinto, desprezando completamente as leis da lógica. A quem reprova suas contradições e inconsistências, ele responde com violência e injúrias verbais, sem preocupar-se em refutá-lo racionalmente.
Lutero, pelo fato de tudo basear na crença em detrimento do bom senso, é fideísta. Com efeito, sua «fé» não se sustenta em nada razoável. É uma pseudo-fé herética que não podia deixar de vir a ser o que hoje é para muitos protestantes: um salto mortal motivado pelo orgulho desesperado, um arrebatamento de angústia e de confiança, oriundo das profundezas de si, em direção ao desconhecido. Essa fé basta-se a si mesma, e a razão só pode corrompê-la. O reformador aniquila, assim, de um só golpe, mil anos de frutíferos esforços teológicos:
«A razão opõe-se diretamente à fé, e assim deve ser; os crentes deveriam exterminá-la e sepultá-la… Ela é a prostituta do diabo. Só sabe blasfemar e desonrar tudo o que Deus diz ou faz. É impossível reformar a Igreja se não for extirpada completamente a teologia escolástica e a filosofia, assim como o direito canônico… A lógica não tem nenhuma utilidade em teologia, pois Cristo não precisa de invenções humanas». «A Sorbonne, mãe de todos os erros, não poderia estar mais errada ao afirmar que, se uma coisa é verdadeira, é verdadeira para a filosofia e para a teologia; é uma impiedade da sua parte condenar aqueles que sustentavam o contrário».
Se nos atemos a suas próprias palavras, Lutero adota inteiramente a teoria da «dupla verdade» de Siger de Brabante, segundo a qual uma verdade de fé pode ser ao mesmo tempo um erro científico.
A este aspecto anti-intelectual da doutrina luterana se enxerta um movimento positivo puramente interior. Quando o homem se nega a seguir a luz natural outorgada por Deus e se move pela vontade cega e pelas paixões baixas, expõe-se a todas as aberrações possíveis. Ora, em Lutero reinam o sentimento e o desejo. É dominado pelos apetites afetivos, sobretudo pelos irascíveis, mas também por uma forte tendência à melancolia. Lutero exalta a liberdade, a interioridade da experiência individual e o espírito pessoal. Para ele, sua própria vontade faz as vezes de explicação última e irrevogável: « Sic volo, sic jubeo, sit pro ratione voluntas» — assim o quero, assim o ordeno, que a minha vontade sirva de razão — . Lutero opõe interior e exterior. É necessário rejeitar tudo o que vem de fora, particularmente os sacramentos e a Igreja, mas também a Revelação divina. Tudo isto está em consonância com a «lógica» do livre exame. O padre Ives Congar, admirador de Lutero, não se equivoca ao dizer que este havia reformulado todo o Cristianismo. Por quê? Porque era incapaz de receber algo que não proviesse de sua própria experiência. Kant desenvolverá, posteriormente, o princípio de autossuficiência com sua razão pura, emancipada das realidades exteriores.
3. A Revelação passada pelo crivo do livre exame
Se Lutero, merecendo com razão o título de protestante, rebela-se contra toda autoridade que imponha seja o que for, invoca a mesma independência de espírito em face da Revelação, seja ela a tradição oral do Magistério eclesiástico, ou a Bíblia escrita. O irmão Martinho rebela-se primeiro contra a Tradição, opondo-lhe a sola Scriptura — a Bíblia apenas — como norma de fé. A sola Scriptura é apenas um pretexto para eliminar a autoridade divina da Igreja, que havia condenado sempre o subterfúgio doutrinal que Lutero acabara de elaborar para tranquilizar sua consciência. A infalibilidade da Igreja, cuja voz ao menos era clara e direta, é demolida. A partir de então, é necessário pôr em seu lugar a infalibilidade de um livro, de per si acessível só a uma fração insignificante do povo, e cujo sentido é causa de violentas discussões entre os eruditos. A Bíblia, de onde o próprio Lutero tirará com frequência teorias perigosas, torna-se então a única fonte de salvação. Cada homem reformado é, ao mesmo tempo, sacerdote e profeta. Não obstante, essa atitude é extremamente perigosa. Os fiéis, que estavam acostumados a crer no que se lhes ensinava por via de autoridade, a partir daquele momento terão de assumir a árdua tarefa de encontrar por si mesmos, nas Escrituras, o que devem crer, e isto sob a ameaça de horríveis penalidades se acontecer de se enganarem.
Nosso heresiarca tem ao menos a intenção de conservar respeitosamente a Sagrada Escritura? Não, este postulado exagerado da sola Scriptura não é mais do que uma camuflagem para ocultar o princípio do livre exame, que o heresiarca estende com generosidade à própria Bíblia. Acaso não afirma que pode julgar «ex gustu et sapore» — pelo gosto e sabor — se um livro é realmente inspirado? Não vacila em modificar o texto sagrado. O texto da Anunciação: «Cheia de graça», é transformado em: «A graça está em vós» . O famoso texto de São Paulo: “Porque julgamos que o homem é justificado pela fé, sem as observâncias da lei.” É transcrita: “Consideramos que um homem é justificado sem as observâncias da lei, somente pela fé.”
Declara apócrifos os sete livros deuterocanônicos aceitos pela Igreja católica. Ostenta o mesmo desprezo pelos cinco livros de Moisés. Nem o Novo Testamento é poupado. Acusa a Epístola de São Tiago de ser uma epístola de palha; na Epístola aos Hebreus,
«não é necessário surpreender-se de lá encontrar pedaços de pau, feno e palha»;
e no que se refere ao Apocalipse,
«em minha opinião, não tem nenhum sinal de caráter apostólico ou profético… Cada qual pode formar seu próprio juízo sobre esse livro; da minha parte, sinto aversão a ele, e isto me basta para rejeitá-lo».
Sob a aparência do Lutero bibliólatra e da sola Scriptura esconde-se, na realidade, um biblioclasta radical.
Após tudo isso, Lutero queixa-se das liberdades exegéticas as quais se permitem Karlstadt e outros colegas seus! Chegará ao extremo de gravar em sua mesa do refeitório as palavras da consagração: «Este é meu corpo, este é meu sangue», e de exigir em tom ameaçador que se entendam estas palavras em seu significado literal. Na realidade, não compreende que ele mesmo deu o exemplo da mais desenfreada liberdade em matéria bíblica. Retirou das Escrituras seus únicos apoios, a Tradição e o Magistério da Igreja. É como se, antes de escrever as sagradas palavras em sua mesa, ele mesmo houvesse lhe serrado as pernas. Se a Bíblia tem autoridade por si mesma, se é verdade o que eu julgo como tal em meu foro íntimo, como esses textos bíblicos escritos sobre peles mortas podem se impor à minha crença? Na verdade, para Lutero, a Revelação é um assunto pessoal: minha Revelação é a Revelação. Depois de sua ruptura com Roma e com a Igreja, apesar de suas agonias interiores que não fazem senão crescer até o dia de sua morte, seu egocentrismo chega ao paroxismo. Tudo gira ao redor de Lutero. Toda lei externa é um insulto intolerável à sua liberdade cristã.
«Não admito que ninguém julgue minha doutrina, nem sequer os anjos. Aquele que não recebe minha doutrina não poderá salvar-se».
Em uma atitude de revolta, Lutero pretende, nem mais nem menos, substituir a Jesus Cristo.
4. Uma teologia invertida, centrada no homem
Toda a doutrina luterana deriva da vida íntima do escrupuloso irmão Martinho que, desesperado de não conseguir jamais vencer a concupiscência, acaba em um egocentrismo exacerbado. Faz desse drama pessoal sua doutrina universal, «urbi et orbi». Mas esta doutrina é falsa, ímpia e blasfema. Vejamos como ela reprova a teologia católica sobre o tema do pecado original:
«Logo, nada além de erro e cegueira a respeito desse artigo ensinam os doutores escolásticos [católicos], isto é, que desde a queda de Adão… o homem é livre para fazer o bem e evitar o mal, ou de evitar o bem e fazer o mal. Do mesmo modo, que o homem, por suas forças naturais, pode observar e cumprir os mandamentos de Deus. E igualmente, que o homem, por suas forças naturais, pode amar a Deus sobre todas as coisas e ao seu próximo como a si mesmo. E ainda, que, se o homem fizer o que dele depende, Deus lhe concede certamente sua graça».
Sua doutrina a respeito do assunto é a seguinte:
«Mesmo depois da regeneração, todos estão sob o que é mandado, e não podem deixar de ser incapazes, pois herdam uma natureza corrompida que fatalmente predispõe ao pecado. Tudo procede da graça, nada das obras, e o dom da graça é só por um ato de Deus. Tudo o que o homem é ou faz já foi determinado por Deus desde toda a eternidade; alguns nascem para salvar-se, outros para condenar-se, sem que conte para nada sua própria escolha, que na realidade nunca é livre».
Esta doutrina da justificação exterior, que lança um véu pudico sobre a miséria humana, gera sepulcros caiados. É profundamente imoral e impura, uma vez que anula as forças naturais do homem, especialmente sua liberdade; impede-o de realizar qualquer obra boa; e o torna incapaz de merecer o céu com a ajuda de Deus. Encurta o braço de Deus, que se vê impotente para santificar o homem a partir do seu interior. De acordo com essa doutrina, Deus é uma abstração distante, que salva por uma ficção jurídica e não por uma verdadeira conversão do coração efetuada desde o mais íntimo de cada um. Há mais. Esta doutrina torna Deus injusto, ao imputar-lhe o duplo crime de mandar o impossível e de predestinar, tanto ao inferno como ao céu, almas desprovidas de liberdade. Semelhante doutrina exige o sacrifício da consciência humana, ao impor que se adore como sumamente justa a arbitrariedade divina. Esse Deus, que Lutero fabricou do início ao fim, foi feito à imagem e semelhança do homem luterano, caído, injusto e privado da razão.
Dizíamos que o egocentrismo luterano é doutrinal. Mas o péssimo é que se torna teológico. Chegamos ao fundo do mistério da «teologia» luterana. Na doutrina católica, tudo gira ao redor de Deus, que é a fonte, o centro e o fim do homem. Pelo simples fato de estar ordenada a Deus, a teologia católica é uma ciência sobretudo especulativa. Como Deus é seu centro, a alma católica sente-se plenamente satisfeita quando conhece os mistérios de Deus e Seu amor misericordioso para com os homens. Como sabe quem é seu Deus e quão poderosamente Ele age nela, não se sente torturada pelo temor servil da condenação. Sabe que dispõe de todo o necessário para assegurar sua salvação: a fé, a esperança e a caridade.
O luterano, por outro lado, não pode reconhecer em Deus o seu Criador benéfico e misericordioso. O Deus protestante é o mesmo que criou o homem perverso, incapaz de santificá-lo e disposto a castigá-lo. O protestante só pensa em uma coisa: escapar da cólera divina do Todo-Poderoso, apesar da concupiscência indomável que envenena sua natureza. Por ter se tornado o centro da religião, a alma humana busca a salvação na justiça com que se cobre a si mesma. Lutero, que elimina a caridade e preserva um certo grau de temor servil, faz girar a ciência das coisas divinas ao redor da corrupção humana. Por esta razão, sem a absoluta certeza de seu estado de graça, a alma protestante não pode existir sem sucumbir no desespero.
Em quê Deus se converte nessa antropoteologia? É reduzido à uma entidade abstrata e distante, impotente e injusta. Pode-se pensar que, de acordo com Lutero, Deus estaria tanto mais implicado na salvação humana quanto mais impotente é o homem. Mas é o contrário. Na realidade, apesar das aparências, o luterano não deve esperar nada de Deus, porque segundo ele, somos nós mesmos que fazemos uso da
«habilidade de saltar de nosso pecado para a justiça de Cristo, e, portanto, para estar também seguros de possuir a piedade de Cristo como o estamos de ter nosso corpo».
Lutero, com sua absurda graça exterior recebida de Deus, mostra-se, na realidade, como o fundador do naturalismo mais desenfreado. Encarcera o homem em si mesmo e tudo deduz a partir do homem em todos os domínios, até mesmo em teologia.
5. Lutero nas antípodas do luteranismo
Ao estudarmos Lutero e sua relação com os princípios modernistas, não temos a intenção de nos determos no luteranismo. Por quê? Porque os princípios de Lutero são modernistas, mas os do luteranismo, não. De fato, a Igreja Reformada que Lutero fundou, com sua hierarquia, seu culto e seus dogmas, encontra-se nas antípodas dos princípios protestantes. Há solução de continuidade, há ilogismo completo e contradição absoluta no coração mesmo do protestantismo. O erudito protestante Harnack sublinhou com perfeição esta trágica esquizofrenia do sistema:
«O protestantismo padece de uma antinomia interna que é derivada de seu próprio princípio. Se não tens confissão de fé, o que és? Que sociedade formas? Por que existes? E se promulgas uma profissão de fé, se queres impô-la a mim sem dar-me explicações e apesar da resistência de minha consciência, como podes continuar sendo protestante? O que fazes tu que não faça o católico, e contra quem dizes que Lutero e Calvino tiveram razão de rebelar-se?».
Do mesmo modo, Hauser, referindo-se a Calvino, afirma que
«não viu, ou não quis ver, a espantosa antinomia que se encontra no núcleo mesmo de sua obra: refazer uma autoridade, um dogma e uma Igreja partindo do livre exame».
O livre exame não é um princípio viável, e a História não tardou em colocar um pouco de bom senso nas ideias do irmão Martinho, o libertado. Lutero viu-se obrigado a suavizá-lo e aplicá-lo de modo seletivo, apesar da flagrante contradição. Não significa que a meio caminho tenha renunciado a seu princípio do livre exame, mas que, oportunista e pragmático acima de tudo, o grande libertador transforma-se rapidamente em um sectário furioso, a partir do momento em que atentam contra sua própria liberdade, vale dizer, contra sua autoridade. Mas o princípio da liberdade para tudo e para todos, o livre exame, não poderia produzir logicamente nada além de caos, anarquia e rebelião universal, com relação a todos e a Lutero, em particular. Em 1525, Lutero proclama em alta voz que as autoridades não podem impedir nenhuma pessoa de ensinar e professar suas crenças. Cinco anos mais tarde, já consumado o cisma dos Anabatistas, ordena que as autoridades entreguem estes canalhas aos verdugos. Neste ínterim, o heresiarca vendera aos príncipes sua doutrina da liberdade de religião em troca da proteção deles. E, por isso, se separara dos camponeses radicais, a quem agora enchia de insultos e entregava à justiça dos príncipes alemães. Era uma escolha astuta, porque deste modo punha sua religião a salvo sob a tutela dos príncipes todo-poderosos. Havia retirado do Papa sua autoridade espiritual para oferecê-la aos príncipes, que seriam, ao mesmo tempo, déspotas e papas. Esses tiranos, promovidos a papas pela vontade de Lutero, não tardaram a apresentar exigências que superavam todos os limites, e, em pouco tempo, Lutero foi forçado a lhes entregar o resto do dogma e da vida moral a que ele próprio ainda não havia renunciado, a rejeição do divórcio e da poligamia, entre outros.
Este foi o resultado inevitável do livre exame. Abandonava-se a fé da Igreja e recebiam-se os dogmas imperiosos de Lutero, de Calvino, de Isabel e de Gustavo Adolfo. E a tal ponto eram imperiosos que - em Genebra, talvez mais do que em qualquer outra parte – pagava-se com a vida o uso demasiado amplo do direito do livre. Calvino, que não tolerava nem contradição nem concorrência, mandava para a fogueira todo aquele que se atrevesse a dogmatizar a seu lado, e em seus livros, hostilizava com insultos atrozes àqueles a quem não podia atingir de outra maneira. Assim, já não se estava com o Papa, mas seguiam-se os Quakers, os irmãos Moravos, a Knox e a milhares de outros que não faziam mais que demonstrar sua impotência para encontrar a verdade. Erasmo queixava-se disso, não sem malícia:
«Que bom defensor da liberdade evangélica é Lutero! Graças a ele, o jugo que suportamos tornar-se-á duas vezes mais pesado. Simples opiniões converter-se-ão em dogmas».
*
* *
Numerosos protestantes sinceros fizeram eco a essas críticas severas dos frutos da Reforma. No começo do século XX, alguns eminentes protestantes da Alta Igreja alemã lamentavam os frutos amargos da Reforma e estimavam que, em vez de celebrar o quarto centenário das teses de Lutero, eles deveriam, ao contrário,
«fazer penitência vestidos de saco e cinza; o movimento da reforma, que aconteceu em 1517, alcançou alguns bons resultados; porém, contribuiu muito mais para piorar a situação; e, se tal movimento expulsou um diabo, introduziu outros sete ainda mais cruéis. Lutero avançou sobre seu século como um demônio, esmagando sob seus pés o que mil anos haviam venerado. Quanto diminuiu nossa estima pelo Reformador depois dos estudos que nossos próprios investigadores fizeram sobre Lutero! Quanto diminuíram seus méritos! Tínhamos acreditado que lhe devíamos o espírito de tolerância e a liberdade de consciência, e não é assim absolutamente! Tínhamos reconhecido em sua tradução da Bíblia uma obra-prima que ostentava o selo da originalidade: hoje, devemos nos dar por contentes de que não seja considerada como um simples “plágio”! Ao julgar o conjunto dos “resultados” de seu trabalho, não podemos deixar de nos perguntarmos: Então, o que resta de Lutero?» .
O que resta de Lutero, respondem os católicos, é a ruína dos fundamentos da religião cristã e de toda religião, sob o efeito do princípio do livre exame, que é o eco do «Non serviam» de Lúcifer. A Reforma, em vez de reformar verdadeiramente o homem, o deformou e literalmente o perverteu. Como? Bastava separar o homem do elemento divino, isto é, reduzi-lo a suas próprias forças. Tratava-se de isolar o homem e separá-lo de Deus até no seio da religião. Lutero conseguiu realizar esse espantoso prodígio. Ele inventou a religião do livre exame, em que toda a fé do crente procede do mais recôndito de sua pessoa. Criou um cristão que, em face da Igreja, da intérprete da verdade divina, proclama a soberania da sua própria razão. Assim, na pessoa de Lutero, assistimos o aparecimento do Eu no âmbito espírito e da vida religiosa. Essa é a essência do modernismo, desde Kant até nossos dias.
(100 anos de modernismo. Tradição: R. Bellei)
Mas não é este último principalmente o terreno em que o liberalismo coloca a questão, porque sabe que no campo dos princípios seria irremediavelmente vencido. Ele prefere, em sua propaganda, acusar os católicos de pouca caridade, e é neste ponto que, como temos dito, certos católicos, bons no fundo, mas influenciados da maldita peste liberal, costumam especialmente insistir. O que há, pois, sobre este particular?
Há o seguinte: Que nós, os católicos, temos razão nisto como no mais, e que os liberais não têm nem sombra dela. Fixemo-nos para isto nos seguintes pontos:
1° Pode claramente o católico dizer a seu adversário liberal que é de fato um liberal. Ninguém porá em dúvida esta proposição. Se um autor, jornalista ou deputado começa a jactar-se de liberalismo, e não oculta nem pouco nem muito suas idéias ou afeições liberais, que injúria se faz em chamá-lo de liberal? É um princípio do direito: Si palam res est, repetitio injuriam non est: “Não é injúria repetir o que está à vista de todos”. Muito menos em dizer do próximo o que ele diz de si mesmo a todas as horas. Quantos liberais, no entanto, particularmente os do grupo dos mansos ou moderados, tomam como grande injúria que um adversário católico os chame de liberais ou amigos do liberalismo?
2° Dado que o liberalismo é coisa má, não é falta de caridade chamar maus os defensores públicos e conscientes do liberalismo.
Isto é, em substância, aplicar ao caso presente a lei de justiça que foi aplicada em todos os séculos. Nós, os católicos de hoje, não fazemos inovação neste ponto, nos atemos à prática constante da antigüidade. Os propagadores e fautores de heresias foram em todos os tempos chamados hereges, como os seus autores. E como a heresia foi sempre considerada na Igreja como mal gravíssimo, tais fautores e propagadores foram chamados sempre pela Igreja maus e malvados. Consultai as coleções dos autores eclesiásticos. Vede como os Apóstolos trataram os primeiros heresiarcas e como seguiram tratando-os os Santos Padres e depois os controversistas modernos e a própria Igreja em sua linguagem oficial. Não há, pois, falta de caridade em chamar ao mau, mau; aos autores, fautores e seguidores do mal, malvados; e ao conjunto de todos seus atos, palavras e escritos, iniqüidade, maldade e perversidade. O lobo foi sempre chamado lobo e nada mais, e nunca se acreditou que, ao chamá-lo assim, se fizesse obra má ao rebanho nem a seu dono.
3° Se a propaganda do bem e a necessidade de atacar o mal exigem o emprego de frases duras contra os erros e seus reconhecidos corifeus, seu emprego nada tem contrário à caridade. É um corolário ou conseqüência do princípio anterior. É preciso tornar o mal detestável e odioso; e não se pode fazer isto senão denunciando-o como mau, perverso e desprezível. A oratória cristã de todos os séculos autoriza o emprego das figuras retóricas mais violentas contra a impiedade. Nos escritos dos grandes atletas do cristianismo é contínuo o uso da ironia, da imprecação, da execração, dos epítetos depreciativos. A lei de tudo isto deve ser unicamente a oportunidade e a verdade.
Há ainda outra razão. A propaganda e apologética popular (e a religiosa é sempre popular) não pode guardar as formas sofisticadas e sóbrias da academia e da escola. Não se convence o povo senão falando-lhe ao coração e à imaginação, que só se emocionam com a literatura calorosa, inflamada e apaixonada. A paixão produzida pela santa paixão da verdade não é má. As chamadas intemperanças do moderno jornalismo ultramontano, além de muito leves se comparadas com as do jornalismo liberal (temos exemplos recentes por aí a cada passo), estão plenamente justificadas, basta abrir em qualquer página as obras dos grandes polemistas católicos dos melhores tempos.
São João Batista começou por chamar aos fariseus “raça de víboras”. Jesus Cristo Nosso Senhor não se absteve de lançar-lhes os epítetos de “hipócritas”, “sepulcros caiados”, “geração perversa e adúltera", sem que com isso cresse manchar a santidade de sua mansíssima pregação. São Paulo dizia, dos cismáticos de Creta, que “eram mentirosos, bestas más, ventres preguiçosos”. Ao sedutor Elimas, o mago, chama o mesmo Apóstolo “homem cheio de toda fraude e embuste, filho do diabo, inimigo de toda verdade e justiça”.
Se abrimos as coleções dos Padres, encontramos por toda parte tratos desta natureza, que não hesitaram empregar a cada passo em sua eterna polêmica com os hereges. Citaremos apenas um ou outro dos princiapais: São Jerônimo, disputando com o herege Vigilâncio, lança-lhe em rosto sua antiga profissão de taberneiro e lhe diz: “Outras coisas aprendeste (e não teologia) desde tenra idade; a outros estudos te dediscaste. Averiguar ao mesmo tempo o valor das moedas e o dos textos da Escritura; provar os vinhos e ter a inteligência dos profetas e dos apóstolos certamente não são coisas que um mesmo homem possa bem executar”. E vê-se que o santo controversista tinha afeição a esta maneira de desautorizar o adversário, pois em outra ocasião, atacando o mesmo Vigilâncio, que negava a excelência da virgindade e do jejum, pergunta-lhe com muita graça “se pregava assim para não perder o consumo de sua taverna”. Oh! Quantas queixas teria feito um crítico liberal, se tivesse escrito isto um de nossos controversistas contra um herege de hoje!
Que diremos de São João Crisóstomo na sua famosa invectiva contra Eutrópio, cujo caráter pessoal e agressivo só tem comparação com as cruéis invectivas de Cícero contra Catilina ou contra Verres? O melífluo São Bernardo não era certamente de mel ao tratar com os inimigos da fé. Chama Arnaldo de Bréscia, o grande agitador liberal de sua época, com todas as letras de “sedutor, vaso de injúrias, escorpião, lobo cruel”.
O pacífico Santo Tomás de Aquino esquece a calma de seus frios silogismos para lançar contra seu adversário Guilherme de Saint-Amour e seus discípulos, as violentas apóstrofes de “inimigos de Deus, ministros do diabo, membros do Anticristo, ignorantes, perversos, réprobos”. Nunca disse tanto o ilustre Louis Veuillot. O seráfico São Boaventura, tão cheio de doçura, dirige increpções a Geraldo com os epítetos de “imprudente, caluniador, espírito maléfico, ímpio, impudico, ignorante, embusteiro, malfeitor, pérfido e insensato”. Ao chegar a época moderna, vemos aparecer a figura encantadora de São Francisco de Sales, que, por sua distinta delicadeza e mansidão, mereceu ser chamado a imagem viva do Salvador. Credes que ele mostrou alguma consideração pelos hereges de seu tempo e país? Vamos então! Perdoou-lhes as injúrias, cobriu-os de benefícios, procurou até salvar a vida a quem tinha atentado contra a sua. Chegou a dizer para um rival: “Se me arrancasses um olho, não deixaria com o outro de olhar-te como irmão”. Pois bem; com os inimigos da sua fé não mostrava nenhum tipo de comedimento e consideração. Perguntando por um católico se podia dizer mal de um herege, que espalhava suas venenosas doutrinas, respondeu: “Sim, podeis, contanto que não digais dele coisa contrária à verdade, e só pelo sabeis da sua má conduta, falando do que é duvidoso como duvidoso, e segundo o grau maior ou menor de dúvida que sobre isto tenhais”.
Em sua Filotéia, livro tão precioso como popular, ele se exprime ainda mais claro: “Os inimigos declarados de Deus e da Igreja devem ser culpados e condenados com toda força possível. A caridade obriga a todos a gritar: ‘o lobo!’, quando este se introduzir no rebanho, e até em qualquer lugar em que se encontre.”
Haverá necessidade de dar a nossos inimigos um curso prático de retórica e de crítica literária? Em resumo, acabamos de dizer tudo o que há sobre a tão decantada questão das formas agressivas usadas pelo escritores ultramontanos, vulgo católicos verdadeiros. A caridade nos proíbe fazer aos outros o que razoavelmente não queremos para nós mesmos. Note-se o advérbio razoavelmente, no qual está todo o quid da questão.
A diferença essencial entre o nosso modo de ver e o dos liberais neste assunto, é que estes senhores consideram os apóstolos do erro como simples cidadãos livres, que, no uso do seu perfeito direito, opinam em matéria de religião diferentemente de nós. Por conseguinte, se crêem obrigados a respeitar essa opinião e não contradizê-la, senão nos termos de uma discussão livre. Nós, ao contrário, não vemos neles senão inimigos declarados da fé que estamos obrigados a defender, e em seus erros não vemos livres opiniões, mas heresias formais e culpáveis, tal como ensina a lei de Deus. Com razão, pois, diz um grande historiador católico aos inimigos do catolicismo: “Fazei-vos infames com vossas ações; pois bem, eu acabarei de vos cobrir de infâmia com meus escritos”. E com igual teor a lei das Doze Tábuas ensinava a viril geração romana dos primeiros tempos de Roma: Adversus hostem aeterna auctoritas esto, que se pode traduzir “contra os inimigos, guerra sem tréguas”.
Hoje em dia, os católicos são solicitados em toda parte. É impossível percorrer uma rua em Paris sem encontrar um pedinte, impossível encontrar um lugar na França onde não haja um estrangeiro pedindo abrigo. Qual é nosso dever de caridade? Perguntam-se os fiéis.
Voltemos às definições
Atualmente, todo mundo fala de tudo, mas não é capaz de dar as definições verdadeiras das palavras ou dos conceitos utilizados. Isso é assim de modo eminente para a caridade. Essa bela virtude foi aviltada pelo naturalismo devastador que há três séculos assola o mundo.
Então, o que realmente é a caridade? O catecismo responde assim: “A caridade é uma virtude sobrenatural, infusa por Deus na nossa alma, pela qual amamos a Deus por Ele mesmo acima de tudo, e amamos ao próximo como a nós mesmos, por amor de Deus.”
Quatro pontos vão reter a nossa atenção. A caridade é 1) uma virtude sobrenatural; 2) amor; 3) amor a Deus; e 4) amor ao próximo.
Virtude sobrenatural
Sabemos pela fé que recebemos duas vidas distintas e concomitantes. A vida natural é a da nossa natureza humana, recebida de nossos pais. O corpo e a alma, a inteligência e a vontade pertencem a essa vida.
Na sua bondade, Deus quis acrescentar à vida da natureza humana uma outra vida: a sua. O que nós chamamos de vida sobrenatural – por exceder as capacidades da natureza – é uma participação na vida divina. Nós chamamos também de vida da graça, porque ela é um dom puro e gratuito que Deus faz ao homem. É uma elevação a uma ordem muito superior à da natureza do homem. Elevação que não destrói em nada a vida natural, mas antes a aperfeiçoa.
Com efeito, ao nos fazer participar da sua vida divina pela graça, nosso Criador nos atribui um fim ou uma felicidade bem maior que aquela que a natureza abandonada a si mesma poderia nos fazer entrever. A realidade dessa vida sobrenatural, à exemplo da vida natural, tem seus componentes. A graça é a essência dela, as virtudes infusas são os seus princípios de ação. Assim como, com nossa natureza humana, possuímos faculdades que nos fazem agir como homens, do mesmo modo, na vida sobrenatural da graça, possuímos princípios de ação que nos fazem agir não mais apenas como homens, mas como filhos de Deus. Eis o que precisamente são as virtudes sobrenaturais.
A caridade é uma virtude sobrenatural. Dito de outra maneira, só pode existir na alma de quem possui a graça, e sua ação é essencialmente sobrenatural. Possuir a caridade, viver da caridade, realizar atos de caridade não são o apanágio do homem na plena posse da sua natureza, e sim algo próprio dos filhos de Deus, dos que vivem em estado de graça.
Um certo amor
Mas, o que é essa virtude? Uma virtude é um princípio de ação. Qual é a ação ou o ato da caridade? Trata-se de um amor, mas não de um amor qualquer. Santo Tomás possui longos e belos textos sobre o tema[1]. A caridade é uma amizade.
A amizade é uma forma particular de amor. O amor é uma atração, um apetite por um bem, um movimento que move o amante em direção ao ser amado.
Esse movimento pode se revestir de uma dupla intenção da parte de quem ama. No primeiro caso, o amante quer se apoderar da coisa amada para si mesmo, para o seu próprio bem ou satisfação. Falamos, nesse caso, em amor de concupiscência, termo que não possui aqui nenhuma conotação moral. Quando o leão é atraído pela gazela, trata-se de amor de concupiscência: ele quer a gazela para si. Também é assim com o homem que cobiça uma Ferrari ou a mulher que deseja uma bolsa de pele de crocodilo.
No segundo caso, o amor se volta para uma pessoa a quem o amante quer o bem. O ser amado não é mais desejado para si, como no amor de concupiscência, mas é amado em si mesmo, para o seu bem. Fala-se então de amor de benevolência, o que significa etimologicamente, de modo perfeito, a realidade desse amor: querer o bem. Assim, os pais têm pelos seus filhos um amor de benevolência, amor pelo qual desejam o bem aos seus filhos.
A amizade é um amor de benevolência, mas um amor de benevolência particular. A amizade acrescenta, com efeito, à benevolência uma reciprocidade: o amante quer o bem do amado e o amado quer o bem do amante.
Todo amor de benevolência não é necessariamente recíproco. O mestre ou o professor tem pelos seus discípulos um verdadeiro amor de benevolência que, infelizmente, nem sempre é retribuído... A amizade, ao contrário, pressupõe a reciprocidade, porque o amigo é amigo do seu amigo!
Essa reciprocidade merece ser explicitada. Com efeito, para que exista uma benevolência recíproca, é preciso que haja uma troca, algo de comum sobre o qual essa reciprocidade vai ser exercida. Dito de outro modo, existe um bem comum, uma comunhão de bens que permite, aos dois amigos, essa troca de amor.
Assim, toda amizade é um amor de benevolência recíproca, fundada em alguma comunhão ou comunicação de um bem.
O amor de Deus
Qual é, portanto, a comunicação do bem na caridade?
Santo Tomás responde de modo tão lapidar, que é quase desconcertante! “Portanto, quando há uma comunhão de bens entre o homem e Deus, posto que Deus nos faz partilhar a sua beatitude, resulta que essa partilha implica em uma amizade.”[2]
O bem comunicado é a beatitude de Deus. Dito de outro modo: o bem comunicado é a própria vida de Deus. Eis o que é a caridade. Um amor recíproco entre Deus e o homem fundado na vida divina, que nos é comunicada pela graça!
Quanta riqueza numa simples definição! Antes de mais nada, a caridade é um amor de Deus, amor pelo qual amamos a Deus tal como Ele se ama, posto que Deus é caridade. Que grande mistério, uma reciprocidade entre Deus e sua criatura!
Deus criou em nós a capacidade de amar (eis o porquê desse amor ser sobrenatural, essa capacidade excede nosso simples poder) e de amá-lo tal como Deus é na intimidade da sua vida trinitária (eis outra razão da caridade ser sobrenatural: o seu objeto está fora do nosso alcance, sendo inacessível e incognoscível a nossa vontade e conhecimento). Compreende-se também que, para viver de caridade, é preciso viver da graça, posto que essa última é uma participação na vida divina. Sem a graça, não há caridade, simplesmente porque não há mais nada de comum entre o homem e Deus. O simples fato de amar a Deus como nosso criador não basta tampouco para definir a caridade, posto que ela excede as capacidades da natureza humana, que não alcança a intimidade divina.
Se compreendemos bem em que consiste a caridade, podemos então nos perguntar em que consiste a caridade pelo próximo. Será ela possível, uma vez que a caridade é o amor recíproco entre o homem e Deus?
O amor ao próximo
Nosso Senhor, que nada diz em vão, acrescentou este pequeno inciso a propósito do mandamento de amar a Deus: “O segundo é semelhante a este: amarás o teu próximo...”[3]
Tudo está dito com a palavra semelhante! Não há duas virtudes de caridade. Há uma só que consiste em amar a Deus como Ele se ama, e amar a Deus no próximo por Deus e em Deus.
Tudo permanece sobrenatural no amor ao próximo. O que visa a caridade pelo próximo, não é o seu bem estar material, a quantidade de arroz na mesa ou a qualidade das cobertas com que passará a noite. Isso pode até fazer parte, mas não é o principal. O que define a caridade fraterna é a mesma comunicação que existe na caridade com Deus: a beatitude ou a vida de Deus.
Amar ao próximo é desejar-lhe a graça e a vida divina, é entretê-la nele. Amar ao próximo é ver nele a obra de Deus, por vezes ainda não iniciada, mas a ser começada. Amar ao próximo de modo material é predispor-lhe a receber o amor de Deus, pois aí está a felicidade de Deus a que o homem é chamado.
Desvio diabólico
Compreende-se bem, por esses desenvolvimentos, como a caridade foi aviltada. O naturalismo é a chave disso. Pois, após passar pelo filtro desse naturalismo, não restou grande coisa da caridade. Fez-se dela uma aptidão puramente humana, um amor humano. Atribuiu-se a ela um objeto humano: o emigrante; ao qual se acrescentou meios humanos: a acolhida. Para cúmulo, deu-se ao homem um fim humano: o globalismo, sob os aspectos do ecologismo e do respeito pela “mãe terra”.
O diabo é o símio de Deus. Nesse caso, sua força consiste em guardar a palavra caridade esvaziando-a de toda substância sobrenatural a fim de fazer dela um humanitarismo. O pior talvez não seja isso. A força do demônio é de fazer com que aquele que deveria agir como Vigário de Cristo esteja hoje a serviço do globalismo.
(Le Chardonnet no. 362 – Tradução: Permanência)
[1] S.T., IIa IIae, q. 23.
[2] S.T., IIa IIae, q. 23., a. 1.
Carta aos amigos e colaboradores da FSSPX Nº90
Meus caros fiéis, amigos e colaboradores,
Atualmente, estamos vivendo um momento fora do comum, quase sem precedentes na História, em razão da crise do coronavírus e de suas repercussões. Em uma situação como essa, mil perguntas surgem, às quais poderia haver mil respostas ou mais. Seria utópico desejar dar uma solução a cada problema em particular, e esse não é o propósito dessas breves considerações. Em vez, gostaríamos de analisar, aqui, um risco que, de certa maneira, é mais grave do que todos os males que afligem a humanidade atualmente: é o risco que correm os católicos de reagir de modo excessivamente humano à punição que, atualmente, aflige nosso mundo, que se tornou pagão mais uma vez pela sua apostasia.
Por várias décadas, estávamos esperando um castigo divino ou algum tipo de intervenção providencial para remediar uma situação que parecia perdida há muito tempo. Alguns imaginavam uma guerra nuclear, outros, uma nova onda de pobreza, um desastre, uma invasão comunista, uma crise do petróleo etc. Em suma, poderíamos esperar algum evento providencial através do qual Deus iria punir o pecado de apostasia de nossos países e causar uma reação saudável naqueles que tivessem boas intenções. De qualquer modo, esperávamos algo que tornaria as coisas mais claras de se perceberem. Mas, enquanto esse algo não tomou a forma que esperávamos, os problemas atuais, sem sombra de dúvidas, desempenham esse papel revelador.
O que está havendo nessa crise? Tentemos analisar as emoções que estão conquistando os corações de nossos contemporâneos e, acima de tudo, tentemos examinar se nossas próprias disposições, enquanto católicos, conseguem fazer jus à nossa fé.
Temores excessivamente humanos
Para colocar de maneira simples, encontramos três tipos de temores que, hoje, estão entrelaçados em quase todo ser humano e que consomem todas as suas energias.
Primeiramente, há o medo da epidemia enquanto tal. Não é uma questão de discutir, aqui, a nocividade do coronavírus. Mas o que é certo é que nosso mundo sem Deus está apegado à vida mortal como a um bem absoluto, ante o qual todas as considerações devem reverência e se tornam irrelevantes. Consequente e inevitavelmente, esse ponto de vista distorcido gera uma ansiedade universal e incontrolável. O mundo inteiro parece estar enlouquecendo. Hipnotizados pelo perigo que ameaça a prioridade das prioridades, literalmente em pânico, todos parecem estar fundamentalmente incapazes de pensar em outras questões, ou de elevar-se acima da situação que está diante deles.
Depois, há o problema da crise econômica. É perfeitamente normal que um pai esteja preocupado com o futuro de seus filhos, e Deus sabe muito bem que, naquele momento, há várias preocupações legítimas com as quais se deve lidar. Mas estou me referindo ao medo mais geral e, em última instância, mais egoísta de se tornar um pouco mais pobre e de não ser mais possível gozar o que, antes, era considerado como uma garantia e direito intocável. Essa percepção está diretamente ligada à anterior: pois, se a vida terrena é o bem supremo, as riquezas que nos permitem gozá-la mais, ou o quanto possível, também se tornam, por força das circunstâncias, um bem supremo.
A tudo isso, finalmente, soma-se o calvário da perda das liberdades individuais, que os homens gozavam até agora. Nunca antes se soube tanto sobre “direitos humanos”.
A análise desse temor de três cabeças e de tudo que está relacionado com ele poderia ser longamente desenvolvida. Digamos, apenas, que sua base comum é fundamentalmente natural, puramente humana, e que eles poderiam ser resumidos no receio de que nada vai ser como era antes da crise: esse “antes”, erronea e universalmente, considerado como um bem-estar ideal e inalienável, que a humanidade iluminada havia, gloriosamente, conquistado.
Porém, se analisarmos esse temor e o comportamento que ele causa a fundo, paradoxalmente encontramos subterfúgios semelhantes aqueles usados pelos pagãos antigos para explicar qualquer fenômeno fora do seu controle. Aquele mundo antigo, certamente culto, civilizado e organizado, mas infelizmente ignorante da Verdade, recorria a monstros, deuses de todos os gêneros e, acima de tudo, a mitos para explicar o que não conseguia compreender. Hoje, estamos testemunhando reações semelhantes: face ao medo, face à incerteza do futuro, uma série de explicações surgem, que vão em todas as direções, sistematicamente contraditórias umas em relação às outras, sem nunca chegar a lugar algum. Sua inconsistência é evidente pelo fato de que vão sendo continuamente substituídas, dentro de poucas horas ou semanas, por outras explicações que são mais demandadas, mais refinadas, aparentemente mais convincentes, mas não necessariamente verdadeiras. Estamos vendo verdadeiros mitos, nos quais elementos reais se misturam a histórias fictícias. E vemos um clamor enorme por uma solução miraculosa, uma solução utópica, capaz de, repentinamente, dispersar a grossa névoa e resolver todos os nossos problemas.
É um pouco como o grito antigo de confusão, ânsia e desespero, que reaparece, após dois mil anos, em uma humanidade que se tornou pagã novamente. E não poderia ser de outra maneira: ele deixa escancarado, para todos aqueles que podem ver, como essa humanidade sem Deus está indefesa e condenada à loucura. Acima de tudo, é extraordinário constatar que o homem moderno, que perdeu sua fé e, portanto, não crê mais, está tão apto a crer em qualquer coisa sem discernimento algum.
Nossa esperança está firmemente fincada no Céu
Mas nós mesmos estamos completamente imunes a esse espírito? É claro, os três temores que mencionamos são compreensíveis, e até legítimos em certo grau. O que não é legítimo é deixar que esses temores evitem e sufoquem considerações sobrenaturais e, pior ainda, que arruinem a possibilidade de se beneficiar desse calvário.
Afinal de contas, não esqueçamos que só permaneceremos na realidade e na verdade se encararmos essa situação através dos olhos de nossa fé: nada foge de Deus e de Sua Divina Providência. É certo que, acima e além dos acontecimentos que nos atacam, Deus tem um plano. E que lembrar as pessoas de sua condição mortal e da fragilidade de seus projetos pertence a esse plano.
Deus, em primeiro lugar, mostra ao homem contemporâneo, envenenado pelo positivismo (a negação da ordem divina), que as obras da natureza ao seu redor são Sua obra e que elas obedecem a Suas leis. Deus força o Prometeu moderno, inebriado de transhumanismo (a negação dos limites do homem), a entender que a natureza que Ele criou escapa da técnica e do controle das ciências do homem. Essa é uma lição extremamente necessária, especialmente hoje. Devemos fazer dela nosso tesouro, nosso mais precioso tesouro, tanto mais que o homem moderno, cego pelo seu sonho de poder absoluto, tornou-se incapaz de compreendê-la. Também devemos encontrar nela novos incentivos para adorar a grandeza de Deus e para viver intimamente dependentes d´Ele.
Mais concretamente, o que nos diz Nosso Senhor, Ele, a quem nada escapa e que planejou tudo com antecedência? “Por que temeis, homens de pouca fé? Não credes que eu sou verdadeiramente Deus? Que sou verdadeiramente onipotente? Que governo todas as coisas em minha sabedoria e bondade? Há um único fio de cabelo em vossas cabeças que cai sem meu conhecimento e sem minha permissão? Não sou eu o mestre da vida e da morte? Pensais que um vírus pode existir sem mim? Que governos podem fazer leis ignorando que sou o mestre supremo? Dizei-me: qual a pior coisa que pode suceder a vós durante essa tempestade, se estou com vós no barco?”
O problema todo reside nas respostas que conseguimos dar a essas perguntas. Nosso Senhor está mesmo no barco, ou seja, nas nossas almas? Se sim, estamos realmente olhando para as coisas através da nossa fé, que nos permite interpretar cada evento em nossa vida diária sob a luz da fé? Temos confiança total n´Ele, mesmo quando não compreendemos bem o que está havendo? As respostas eternas de nossa fé católica são suficientes para nós? Ou nós sentimos necessidade de as ignorar em detrimento dessas respostas constantemente atualizadas que encontramos na internet? Enquanto os meses passaram, nossa confiança em Jesus Cristo, Nosso Senhor, aumentou? Ou nosso ensimesmamento e nosso sentimento de falta de esperança aumentaram? Cada um de nós deve responder a essas questões sinceramente e de boa fé.
***
Também há alguns entre nós que temem, além da epidemia em si, o início de uma perseguição religiosa de longo prazo e, em particular, contra os católicos. É compreensível que essa questão surja, porque sabemos que o mundo nos odeia, e que, cedo ou tarde, isso vai acontecer: seja em razão da epidemia ou independentemente dela. Nós não poderemos escapar disso. Essa é uma verdade evangélica, que antecede qualquer predição atual. Nosso Senhor nos avisou: “Quando ouvirdes falar de guerras e de tumultos […] Levantar-se-á nação contra nação e reino contra reino. Haverá grandes terremotos por várias partes, pestes e fomes […] Lançar-vos-ão as mãos e vos perseguirão, entregando-vos nas sinagogas, nas prisões e vos levarão à presença dos reis e dos governadores por causa do meu nome” (Lc 21,9)
Mas, aqui, também, nossos medos devem ser banhados na tranquilizante luz da nossa fé: “Não temais”. Tendo sido avisados disso por muito tempo, devemos nos preparar para isso serenamente, entregando-nos, sem reservas, às mãos da Divina Providência e sem procurar, desesperadamente, uma maneira de fugir. Lembremo-nos dos cristãos dos primeiros séculos, vivendo sob perseguições: aqueles que olhavam para os algozes, os instrumentos da tortura ou as feras selvagens, esquecendo-se do amor de Deus, que os chamava a juntarem-se a Ele, não viam nada além de perigo, dor e medo… e terminavam apostatando. Eles tinham todas as informações de que precisavam, mas sua fé não era forte o suficiente, e não havia sido nutrida pela oração ardente: “Velai, pois, sobre vós, para que não suceda que os vossos corações se tornem pesados com as demasias do comer e do beber e com os cuidados desta vida, e para que aquele dia vos não apanhe de improviso; porque ele virá como um laço sobre todos os que habitam sobre a face de toda a terra. Vigiai, pois, orando sem cessar (Lc 21,34)
E Nosso Senhor também nos avisou: “Não é o servo maior do que o senhor. Se eles me perseguiram a mim, também vos hão de perseguir a vós”. Em todas as tribulações, há o segredo e precioso dom de nos enxergarmos remodelados, para nos tornarmos mais como nosso Divino Salvador, nosso modelo, e, portanto, aptos a “completar em nossa carne o que falta aos sofrimentos de Cristo”
***
Também há uma reflexão final que pode nos ajudar a manter-nos na realidade e deixar o problema do coronavírus no seu devido lugar. Paralelamente a essa crise presente, a Igreja Católica está atravessando uma crise muito mais terrível e devastadora, que nos afeta cada vez mais. Ai de nós se não fosse assim, porque seria sinal de que nós não enxergamos mais com os olhos de nossa fé! Essa outra crise é, de fato, muito mais mortífera, porque aqueles que perderam sua fé por causa dela correm o risco de perder suas almas para sempre. A isso, infelizmente, na presente situação, acrescenta-se a total ausência de uma mensagem sobrenatural da hierarquia da Igreja sobre as consequências do pecado, da necessidade de penitência, do amor da cruz e da preparação para a morte e do julgamento que aguarda todos os homens. É, verdadeiramente, uma catástrofe dentro da catástrofe!
Quanto a nós, não percamos nossa esperança, que não se baseia nem nos nossos esforços ou habilidades, nem nas nossas análises – por mais pertinentes que possam ser – mas nos méritos infinitos de Nosso Senhor Jesus Cristo. É a Ele que sempre devemos recorrer, especialmente quando estamos sobrecarregados e fatigados sob o peso de nosso jugo. Fazer isso, especialmente para nós que O conhecemos, é um dever de caridade em relação àqueles que vivem em uma trágica ignorância dessa realidade reconfortante. Se realmente queremos ser apóstolos para nosso próximo, nessas horas privilegiadas, o apostolado mais apropriado e eficiente é o da confiança ilimitada na Divina Providência. Essa é uma maneira exclusivamente cristã de carregar nossa cruz e de manter a esperança. Nosso desejo de retornar à “normalidade” deve ser, antes de tudo, um desejo de recuperar inteiramente essa confiança, nutrida pela fé, esperança e caridade.
Para obter essas preciosas graças, intensifiquemos nosso fervor – pais e filhos – na nossa Cruzada de Rosários, que nos aproxima e une, para que nossa oração ardente possa se transformar em um brado passional ao qual Deus não resistir: pela a Missa; pelas vocações; pelo mundo e a Igreja; e pelo triunfo da Bem-Aventurada Virgem Maria.
Esse é o verdadeiro caminho para sair da atual crise, sem necessidade de aguardar o fim da pandemia!
“Quem nos separará, pois, do amor de Cristo? A tribulação? Ou a angústia? Ou a fome? Ou a nudez? Ou o perigo? Ou a perseguição? Ou a espada? […] De todas essas coisas saímos mais que vencedores por aquele que nos amou. Porque eu estou certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as virtudes, nem as coisas presentes, nem as futuras, nem a força, nem a altura nem a profundidade, nem nenhuma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Jesus Cristo Nosso Senhor”.
Que Deus os abençoe!
Menzingen, 02 de fevereiro de 2021
Na Festa da Purificação da Bem-Aventurada Virgem Maria
Dom Davide Pagliarani, Superior Geral.
Intransigente! Intransigência! Assim ouço exclamar uma parte de meus leitores mais ou menos eivados de liberalismo, após a leitura do capítulo anterior.
Que modo pouco cristão de resolver a questão!, dizem eles. São os liberais ou não nossos próximos, como quaiquer outros? Onde vamos parar com essas idéias? Como tão descaradamente se recomenda contra eles o desprezo da caridade?
“Lá vêm eles!”, exclamaremos por nossa vez. Já lançam em nossa face a “falta de caridade”. Vamos, pois, responder também a esta crítica, que é para alguns o verdadeiro cavalo de batalha da questão. Se não o é, serve ao menos como verdadeiro parapeito contra nossos inimigos, os quais, como muito a propósito disse um autor, forçam gentilmente a caridade a servir como barricada contra a verdade.
Vejamos, antes de tudo, o que significa a palavra caridade.
A teologia católica nos dá a definição pelo órgão mais autorizado da propaganda popular, o catecismo, tão pleno de sabedoria e filosofia. Define-a assim: A caridade é uma virtude sobrenatural que nos inclina a amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos por amor de Deus. Desta definição, depois da parte que se refere a Deus, resulta que devemos amar o próximo como a nós mesmos, e isto não de qualquer maneira, mas em ordem e com sujeição à lei de Deus e por amor de Deus.
Pois bem, o que é amar? Amare est velle bonum, diz a filosofia: “Amar é querer bem a quem se ama”. E a quem diz a caridade que se há de amar ou querer bem? Ao próximo, isto é, não a tal ou qual homem somente, mas a todos os homens. E qual é o bem que se há de querer, para que dele resulte o verdadeiro amor? Primeiramente, o bem supremo, que é o bem sobrenatural; logo depois, os demais bens de ordem natural, que não são incompatíveis com aquele. E tudo vem a resumir-se naquela frase “por amor de Deus”, e em mil outras de análogo sentido.
Segue-se, pois, que se pode amar e querer bem ao próximo (e muito) desgostando-o, contrariando-o, prejudicando-o materialmente, e até privando-o da vida em certas ocasiões. Tudo se reduz a examinar se naquilo que o desgosta, o contraria, ou o mortifica, age-se ou não para seu próprio bem, para o bem de alguém cujos direitos são superiores aos seus, ou simplesmente para o maior serviço de Deus.
1° - Para o seu próprio bem. Se claramente se demonstra que, desgostando e ofendendo o próximo, age-se para o seu bem, é evidente que neste caso ele é amado, mesmos nas contrariedades e desgostos que lhe sejam impostos. Por exemplo: ama-se o doente queimando-o com o cautério, ou cortando sua gangrena com o bisturi; ama-se o mau corrigindo-o com repreensões ou castigos etc. Tudo isto é excelente caridade.
2° - Para o bem de outro cujos direitos são superiores. Muitas vezes é necessário contrariar alguém, não para seu próprio bem, mas para livrar de um mal a outrem que aquele lhe queira causar. Neste caso, é uma obrigação de caridade defender o agredido da violência injusta do agressor; e pode-se fazer ao agressor tanto mal quanto seja preciso ou conveniente para defesa do agredido. Assim sucede quando, em defesa de um passageiro, se mata o ladrão que o ataca. E então matar o injusto agressor, feri-lo, neutralizá-lo de qualquer modo, é ato de verdadeira caridade.
3.º - Para o serviço devido a Deus. O bem de todos os bens é a glória divina, assim como Deus é para todo homem o próximo de todos os próximos. Por conseguinte, o amor devido aos homens como próximos, deve estar sempre subordinado ao que todos nós devemos a nosso comum Senhor. Para seu amor e serviço, pois, deve-se (se necessário) desgostar os homens, feri-los e até (sempre se necessário) matá-los. Atente-se para a importância dos parênteses (se necessário); eles indicam claramente o único caso em que o serviço de Deus exige tais sacrifícios. Assim como numa guerra justa os homens se ferem e matam pelo serviço da pátria, assim pode-se também ferir e matar pelo serviço de Deus. E assim como, em cumprimento da lei, pode-se executar homens por suas infrações ao Código humano; tem-se o direito, numa sociedade catolicamente organizada, de justiçar os homens por infrações ao Código divino, naquilo que ele obriga exteriormente. Assim se justifica plenamente a criticada Inquisição. Todos esses atos (quando são justos e necessários) são atos de virtude e podem ser mandados pela caridade.
Não a entende assim o liberalismo moderno, e portanto a entende mal. Por isso, ele possui e dá aos seus adeptos uma falsa noção de caridade, e desconcerta os católicos mais firmes com suas censuras e acusações banais de intolerância e intransigência, renovadas sem cessar. Nossa fórmula é muito clara e concreta. É a seguinte: a suma intransigência católica não é senão a suma caridade católica. Esta caridade se exerce em benefício do próximo quando, para o seu próprio bem, ela o confunde, o envergonha, o ofende e o castiga. Ela se exerce em benefício de um terceiro quando, para livrá-lo do erro e de seu contágio, desmascara seus autores e fautores, chamando-os pelo verdadeiro nome, de maus, perversos, tornando-os odiáveis e desprezíveis como devem ser, denunciando-os à execração pública, e, se possível, ao zelo da autoridade social encarregada de os reprimir e castigar. Ela se exerce, finalmente, dirigida a Deus, quando por sua glória e serviço faz-se necessário impor silêncio a todas as considerações humanas, saltar todos os obstáculos, afrontar todo respeito humano, ferir todos os interesses, expor a própria vida e todas as vidas cujo sacrifício seja necessário para tão alto fim.
E tudo isto é pura intransigência no verdadeiro amor, e por isso, é suma caridade. Os tipos dessa intransigência são os heróis mais sublimes da caridade, como entende a verdadeira religião. E porque hoje há poucos intransigentes, há também pouca gente verdadeiramente caridosa. A caridade liberal, hoje em moda é, na forma, condescendente, afetuosa, e mesmo tenra, porém no fundo é o desprezo essencial dos verdadeiros bens do homem e dos supremos interesses da verdade e de Deus.
“Jesus disse-lhe: Vê; a tua fé te salvou.” (Evangelho)
Paramentos roxos
A Igreja estuda com particular diligência, nas três semanas da Septuagésima, as grandes figuras de Adão, Noé e Abraão, que respectivamente apelida: pai do gênero humano; pai de numerosa descendência; e pai dos crentes. Já estudamos nos domingos da Septuagésima e da Sexagésima os dois primeiros. Vamos estudar hoje Abraão. Na liturgia ambrosiana o Domingo da Paixão era chamado Domingo de Abraão e liam-se no ofício os responsórios de Abraão. Na liturgia romana o Evangelho desse Domingo é consagrado ainda ao grande patriarca. Mas depois, quando se juntou à Quaresma o Tempo da Septuagésima, reservou-se o Domingo da Quinquagésima para o Patriarca.
Querendo Deus criar um povo para Si e preservá-lo do contágio da idolatria, deu-lhe um chefe que o governasse, a quem chamou Abraão, que quer dizer pai de muitos povos. Retirou-o de Ur, cidade da Caldeia, e conduziu-o para a terra que lhe prometera e guardou-o em todos os seus caminhos. Foi pela fé, diz a Epístola aos Hebreus, que Abraão obedeceu ao apelo divino e partiu para o país que devia receber em herança. Partiu cheio de fé sem saber para onde ia. Foi pela sua fé que chegou a Canaã onde viveu 25 anos como estrangeiro. Foi pela sua fé que já na velhice se tornou pai de Isaac e que não duvidou, à voz de Deus, sacrificá-lo, não obstante, ser o filho único em quem tinha posta a esperança de ver realizar-se a promessa divina duma posteridade numerosa. Bem sabia o Patriarca que Deus era assaz poderoso para ressuscitar lhe o filho de entre os mortos. E por este motivo o recuperou, e isto em figura. De fato, Isaac, escolhido para ser gloriosa vítima de seu pai, foi uma figura de Jesus Cristo. Como Ele, levou às costas o instrumento do sacrifício e foi arrancado miraculosamente às garras da morte. Foi assim que Abraão, com a sua fé, acreditando sem hesitar na palavra de Deus, contemplou de longe o triunfo do Senhor na Cruz e alegrou-se. E foi então que Deus lhe confirmou a promessa: “Porque não recusaste sacrificar-Me o teu filho único, abençoar-te-ei e dar-te-ei uma descendência numerosa como as estrelas do Céu e como as areias das praias”. Estas promessas realizou-as Jesus Cristo com a sua Paixão. Jesus Cristo resgatou-nos, diz São Paulo, e deixou-se morrer na Cruz, a fim de que a benção de Abraão fosse comunicada por Ele aos gentios e recebêssemos pela fé a promessa do Espírito, quer dizer, do Espírito de adoção que nos fora prometido. E é por isso que a oração da 5ª leitura do Sábado Santo nos diz que Deus “Pai soberano dos crentes, derramando abundantemente sobre a Terra a graça da adoção, multiplica os filhos da promessa pelo mistério pascal constitui Abraão, seu servo, pai de todos os povos. É com efeito pelo Batismo (que outrora se ministrava na Páscoa e no Pentecostes) que nos tornamos filhos de Abraão e entramos na herança que Deus prometeu a nossos pais e que é a Igreja, simbolizada pela terra prometida”.
A fé em Jesus Cristo, que mereceu a Abraão a prerrogativa de pai dos crentes e nos dá a faculdade de nos tornarmos seus filhos, constitui o tema do Evangelho de hoje. Jesus Cristo anuncia a sua Paixão e triunfo e cura um cego dizendo-lhe: a tua fé te salvou. Este cego recobrou a vista, diz S. Gregório, na presença dos Apóstolos. E isto foi para confirmar a fé dos que não podiam ainda suportar toda a luz da revelação dum mistério celeste. Porque era necessário que, vendo-O mais tarde morrer pelo modo que lhes predissera, não duvidassem de que havia de ressuscitar também. A Epístola por seu lado põe em plena evidência a fé de Abraão. E não é como filhos carnais de Abraão que nos havemos de salvar, mas como filhos duma fé semelhante à de Abraão. Em Jesus Cristo, diz S. Paulo, nem a circuncisão (os Judeus), nem a não circuncisão (os Gentios) valem nada, mas a fé que opera na caridade. “Andai no amor, continua o Apóstolo, naquele amor de que nos amou Cristo”.
Neste domingo e nos dois dias seguintes costuma fazer-se uma adoração solene do SS. Sacramento, denominada, Adoração das 40 horas, pelos excessos cometidos nestes dias. Foi instituída por S. Antonio Maria Zacaria († 1539) e enriquecida com numerosas indulgências por Clemente XIII.
Do Evangelho: Este cego de que nos fala o Evangelho representa sem dúvida o gênero humano. Depois que foi expulso do Paraíso na pessoa do primeiro homem, ignora as claridades da luz sobrenatural e sofre as consequências do seu erro, mergulhado nas trevas do exílio.
Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.
[Nota da Permanência: O texto a seguir foi escrito por um monge beneditino norte-americano em homenagem a Dom Marcel Lefebvre. Tudo aquilo que o religioso escreveu acerca da importância do grande bispo para os católicos do seu país, podemos subscrever no que se refere aos católicos do Brasil]
A década de 1970 foi uma época turbulenta para a Igreja Católica. A aplicação das mudanças litúrgicas na Igreja foi brutalmente implementada com o assim chamado espírito do Concílio. Nós testemunhamos a destruição dos altares principais das igrejas, sendo substituídos pelo que ficou conhecido como as mesas de açougueiro de 1970 . Vimos as igrejas sendo destituídas da mesa de comunhão dos fiéis, das imagens dos santos e do crucifixo acima do altar principal, o qual foi substituído por uma cruz vazia e um véu branco representando o Cristo ressuscitado em oposição ao sacrifício de Cristo na Cruz. O tabernáculo foi escondido em alguma parte obscura da igreja. O sagrado canto gregoriano foi substituído, na melhor das hipóteses, por “Kumbaya, My Lord” , ou, na pior das hipóteses, com as missas “clown” ou “rock-n-roll”. A mais devastadora mudança foi no rito sagrado da missa em si, que ficou desfigurado a ponto de ficar essencialmente irreconhecível. Os clérigos daquela época tornaram-se centrados no homem. Eles não mais pregavam sermões sobre Deus e as almas, mas denunciavam a injustiça social sobre o proletariado.
As vítimas de todas essas mudanças foram os próprios padres e os fiéis sob seus cuidados. Algumas estimativas falam de 120.000 padres abandonando o sacerdócio. Só Deus sabe o dano feito às almas dos fiéis durante estes tempos terríveis. Esses pobres padres foram vítimas da ilusão de que o homem e o mundo têm mais a oferecer do que Deus. Foi nesses mesmos anos que os EUA aceitaram legalmente o assassinato de crianças ainda não nascidas.
Essa era a triste situação da Igreja na década de 1970. Esses exemplos são bem conhecidos, mas há muitos outros que permanecem ocultos na consciência das vítimas. Era como se os ladrões tivessem nos despojado de nossa Igreja, deixando-nos meio mortos à beira da estrada da vida. A maioria das famílias, confundidas por seus pastores, simplesmente deixaram a Igreja em busca de um sentido para a vida. Muitas almas desiludidas voltaram-se para as comunidades hippies, onde tentaram satisfazer sua sede pelo sobrenatural com drogas alucinógenas e prazer sensual que chamavam de "amor livre".
Essas feridas infligidas a toda a sociedade nos fazem pensar na parábola do Bom Samaritano. Nosso Senhor explica que a maior lei é o amor a Deus e a segunda é o amor ao próximo como a si mesmo. Um doutor da lei, para O tentar, pergunta: “Quem é meu próximo?” Nesta ocasião, Nosso Senhor apresenta a parábola do Bom Samaritano.
Um homem descia de Jerusalém para Jericó. Jerusalém simboliza a cidade da paz celestial e
Jericó, a cidade da vaidade mundana. Na década de 1970, desejamos descer da vida católica tradicional para a vaidade de uma sociedade decadente infestada de drogas. Caímos nas mãos de ladrões que nos despojaram do sacrifício da Missa tradicional e da formação de verdadeiros sacerdotes. Eles bateram em nossas almas com um catecismo herético deixando-nos moralmente meio mortos à beira da estrada da vida. Os antropocêntricos padres do Novus Ordo e os grupos de apostolado ofereciam treinamento da sensibilidade em vez de doutrina, eles não podiam ajudar nossas almas feridas. Esses foram tempos sombrios para o Corpo Místico de Cristo. Parecia não haver esperança enquanto esperávamos o que parecia ser uma morte certa para nossas almas.
Para aqueles que não viveram na década de 1970, tentem imaginar-se espiritualmente meio mortos, largados a beira da estrada, esperando a morte, incapazes de socorrer a si mesmos. Aqueles que deveriam ajudá-los passavam ao largo. Tentem olhar através dos olhos de uma alma meio morta quando finalmente vê alguém parando para ajudar. Imagine a sua alegria ao se deparar com um rosto desconhecido que olha com compaixão. Alegria, esperança e gratidão voltam a este corpo ferido. O único desejo deste tipo o homem é ajudar sem esperar nada em troca.
Para nós que atravessávamos aquela terrível tempestade, podemos dizer com sinceridade que a alegria, esperança e gratidão voltaram às nossas almas feridas quando Dom Marcel Lefebvre veio para a América. Ele não precisava de nós, apenas se ofereceu para ajudar nossas almas angustiadas porque nenhum outro bispo nos EUA vinha em nosso auxílio. Ele era realmente como o Bom Samaritano. O vinho que derramou em nossas feridas pode ser comparado ao Santo Sacrifício da Missa que mais de uma vez foi oferecida em nossas capelas improvisadas. O óleo que ele derramou sobre nós foi a unção do sacerdócio concedido ao nosso país com o seminário que fundou em nosso solo. Ele nos levou para a estalagem fortalecendo a nossa fé na Santa Mãe Igreja. Ele confiou nossas almas ao dono da estalagem que pode ser comparado aos jovens padres da Fraternidade São Pio X. As duas moedas dadas ao dono da estalagem para o nosso cuidado foram a formação que ele lhes deu na verdadeira doutrina católica e na vida moral de sempre.
Na realidade, o único Bom Samaritano é Nosso Senhor, mas Ele atua por meio dos ministros da Igreja. Na década de 1970, o ministro do Bom Samaritano para os católicos feridos da América foi Sua Excelência Reverendíssima Dom Marcel Lefebvre. Ele descobriu que nosso país fora espancado, ferido e deixado meio morto. Seu amor a Deus e ao próximo o impulsionou a vir em nosso auxílio. Vimos com nossos olhos sua caridade em ação. “Bem-aventurados os olhos que veem o que vós vedes”.
(The Angelus, Novembro de 2020)