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Introdução ao domingo dentro da oitava do Natal

“Eis, diz Simeão, que este menino está posto para ruína e salvação de muitos” (Evangelho)

Paramentos brancos

 

Antes da vinda do Filho de Deus, enviado pelo Pai, para que também recebêssemos a adoção de filhos de Deus, o homem era como um herdeiro na sua menoridade que em nada se distinguia dum escravo. Pelo contrário, agora que a lei nova o emancipou da tutela da antiga, “ele já não é servo, mas filho” (Epístola). Desta maneira o culto dos filhos de Deus resume-se nesta palavra proferida com Jesus: “Pai” (Epístola).

O Evangelho descobre-nos qual será o grandioso papel, no futuro, deste Menino cuja manifestação começa hoje no templo. É o Rei cujo reino penetrará até o interior dos corações. Será para todos a pedra de toque, pedra de escândalo para os que O rejeitarem, e pedra angular de suporte para os que O receberem.

Do Intróito: Que beleza a escolha destes dois trechos da Sabedoria para evocar a vinda do Verbo que desce do trono real dos Céus para o meio das trevas da nossa noite.

Da Epístola: Só depois da maioridade é que o filho entra na posse da herança a que tem direito. Antes disso depende daqueles que em seu nome administram o patrimônio. Era assim para os judeus na lei mosaica. Esperavam pelo rico patrimônio da Nova Lei, mas estavam ainda sujeitos aos ritos e prescrições da Antiga Aliança, espécie de tutela do povo de Deus, enquanto esperava a herança que lhe fora prometida. Mas essa hora da herança chegou; o Filho de Deus fez-se homem para nos libertar da escravidão da Lei e tornar-nos filhos de Deus, coerdeiros do reino dos Céus. Com os tempos messiânicos cessa a lei mosaica e começa a maioridade do povo de Deus, alcançada por meio do Batismo.

Do Evangelho: O velho Simeão e a profetiza Ana (de mais de oitenta anos de idade), que passavam seus dias no Templo, dão testemunho de Jesus. Ele é o Messias e a sua vinda implica necessariamente uma separação ou um julgamento. Os pensamentos secretos de cada homem referentes a Cristo serão revelados no último dia, porque Ele perscruta os rins e os corações (8ª Lição de Mat.). Condenam-se os que O rejeitam, porque, fora d’Ele, não há salvação.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

15. Uma observação simplíssima que acabará de mostrar a questão sob seu verdadeiro ponto de vista

Não entendo como os liberais de boa-fé, se algum há que mereça ainda este caridoso atenuante de sua triste denominação, não façam cada dia uma reflexão que me fiz mil vezes. Vejamo-la:

Em nossos dias o mundo católico relaciona, com justiça e razão, a idéia de impiedade ao qualificativo de livre-pensador, aplicado a uma pessoa, a um jornal, a uma instituição qualquer. Academia livre-pensadora, sociedade de livres-pensadores, jornal escrito com critério livre-pensador, são expressões odiosas que suscitam horror à maior parte de nossos irmãos, mesmo aos que afetam estar mais afastados da feroz intransigência ultramontana.

E todavia veja-se como são as coisas, e quão pouca importância se dá em geral a meras palavras. As pessoas, as associações, os livros, os governos que não sejam regidos em matéria de fé e moral pelo critério único e exclusivo da Igreja Católica, são liberais. E reconhecem que o são, honram-se de sê-lo, e ninguém se escandaliza com isso, a não ser nós, os terríveis intransigentes!

Mudai porém a palavra; chamai-os de livres-pensadores: logo rejeitam o epíteto como uma calúnia, e dai graças a Deus se não vos pedirem satisfação pelo insulto.

Mas, vejamos, meus amigos, por que essas variações, cur tam varie?

Não haveis banido de vossa consciência, de vosso governo, de vosso jornal ou de vossa academia o veto absoluto da Igreja?

Não haveis erigido a razão livre como critério fundamental de vossas idéias e resoluções?

Pois, dizeis bem: sois liberais e ninguém pode contestar esse título. Mas, sabei-o: sois por isso mesmo livres-pensadores, ainda que esta denominação vos desagrade. Todo liberal, de qualquer grau ou matiz que seja, é ipso facto livre-pensador. E todo livre-pensador, por mais odiosa e ofensiva que seja esta denominação do ponto de vista das conveniências sociais, não é nada mais que um liberal lógico. É doutrina precisa e exata como uma equação matemática!

Aplicações práticas. Sois católicos mais ou menos condescendentes ou contaminados, e pertenceis, por infelicidade de vossos pecados, a um Ateneu1 liberal. Recolhei-vos por um momento e perguntai-vos: continuaria eu pertencendo a este Ateneu se amanhã ele se declarasse pública e francamente um Ateneu livre-pensador?

Que vos dizem a consciência e o pudor? Dizem que não.

Pois bem! Ordenai que se retire vosso nome do registro desse Ateneu, pois como católicos não podeis pertencer a ele.

Recebeis um jornal, vós o ledes e sem escrúpulo o dais a ler aos vossos, embora ele se intitule liberal e discorra como liberal. Continuaríeis assinando-o, se de repente aparecesse em sua primeira página o título de jornal livre-pensador? Parece-me que não, de forma alguma.

Portanto fechai-lhe logo as portas da vossa casa. Esse liberal, moderado ou violento, há anos não era nada mais nada menos que um livre-pensador.

Ah! De quantos prejuízos nos livraríamos, se apenas prestássemos um pouco de atenção ao significado das palavras! Toda associação científica, literária ou filantrópica, liberalmente constituída, é uma associação livre-pensadora. Todo governo, liberalmente organizado, é um governo livre-pensador. Todo livro ou jornal, liberalmente escrito, é um livro ou um jornal de livres-pensadores. Rejeitar com desgosto a palavra e não a coisa que ela representa, é uma cegueira manifesta. Pensem bem aqueles de nossos irmãos que, com a consciência demasiado endurecida, demasiado mole ou demasiado acomodada, consentem sem escrúpulo algum em fazer parte de círculos, de concursos literários, de redações, de governos, de instituições estabelecidas com plena independência do magistério da fé.

Em todas essas instituições reina o liberalismo e, por conseguinte, o livre-pensamento. Ora, nenhum católico pode fazer parte de um grupo livre-pensador, sem deixar de aceitar como seu o critério livre-pensador do grupo em questão. Logo, tampouco pode pertencer a um grupo liberal.

Quantos católicos, não obstante, servem intrepidamente ao diabo participando de obras desse gênero! Estarão agora convencidos da perversidade do liberalismo? Convencidos do justo horror que um católico deve ter às coisas liberais? Convencidos, enfim, de que nada é mais natural e mais legítimo que nossa intratável intransigência ultramontana?

  1. 1. Estabelecimento destinado a leituras e lições públicas.

Natal

“Mudei eu ou mudou o Natal?” — perguntou Machado a seus botões que deixaram a pergunta famosa mas sem resposta. Por eles, ao longo do tempo sugeriram respostas várias em torno do eterno tema da não-eternidade das coisas, e creio que ninguém deu a única resposta aceitável: Não mudara o Natal nem mudara o homem. O Natal continua a ser o invariável, o inoxidável mistério da natividade de Jesus, o Natal embora engatado nas engrenagens das órbitas e dos calendários permanece imóvel, idêntico a si mesmo.

Também o homem não mudou na sua frágil versatilidade e assim permanece no incerto não permanecer, correndo atrás da própria sombra ou do próprio vento. E é aqui nesta coincidência de duas tão diversas permanências que reside toda a aflição do homem e todo o incompreensível mistério do Natal. Porque o Natal não muda para que o homem mude. Sim, esta é a primeira e fundamental mensagem do Natal trazida pelo Percursor. João Batista anunciava o advento do constante, do Permanente, do Imóvel, e chamava para que os homens mudassem.

Como assim? Então é preciso o profeta clamar para que o inquieto coração do homem mude de ritmo, de direção, de desejo? Não, em verdade ninguém precisa aconselhar o homem a ser cambiante e instável, por si mesmo ele não pára de dançar e mudar. Mas o que o Natal veio ensinar foi justamente a mudança do mudar. Sim, veio ensinar que não podemos parar, que não podemos interromper a conversão, a mudança de vida, a penitência ou metanóia ensinada pela voz que clamava no deserto. A permanência que o natal nos ensina é a permanente ascensão, a permanente conversão. Ou é a permanente e progressiva gestação do Menino Jesus que quer nascer em nós como nasceu no seio da Virgem sempre Virgem.

A verdadeira participação do Natal é essa em que, de uma incomparável maneira, realizamos no mesmo ato uma imitação de Cristo e uma imitação de Maria. Tudo o mais, ainda que multipliquemos todos os recursos da humana ternura, será de festa de solidariedade humana, será data planetária, será efeméride, mas não é Natal. Sem a dócil obediência de Maria não há receptividade para o nascimento de Jesus em nós. O solene Natal cantado pela Igreja, com ressonâncias de todos os séculos, com ecos dos brados de João Batista e do cântico de Maria, só deseja de nós o trabalho, a conversão que nos torne mais humildes e mais puros, ou mais filhos de Maria, para termos com ela parte do prodigioso mistério que nos torna de algum modo mães de nosso Pai.

Tudo isto resolve as arrumações habituais do mundo, e é para revolvê-las, para trazer a mais revolucionária notícia de uma outra ordem, de uma nova dimensão, que a Igreja anuncia a vinda do Senhor como outrora, João Batista anunciou.

É terrível pensar que o mundo inteiro, em grossa e maciça maioria, mesmo nos povos que se dizem cristãos, fizera do Natal de Jesus e Maria uma festividade espessa e grosseira. Por isso mesmo o clamor litúrgico de nossa Mãe tem, nos tempos que correm, o patético timbre do grande anunciador da mudança essencial, da única que entre tantas e tantas reviravoltas, não queremos fazer.

“Quem és?” perguntaram a João, filho de Zacaria. Disse-lhes ele: “Eu sou a voz que clama no deserto, endireitai os caminhos do Senhor”.

E aí está: o Natal não muda, para que nós mudemos o nosso vão mudar.

 

PERMANÊNCIA, N° 62, Dezembro de 1973.

Introdução ao quarto domingo do advento

4° DOMINGO DO ADVENTO

João Batista prepara as almas para a vinda de Cristo pelo batismo de penitência. (Evangelho de S. Luc. 3, 3)

Paramentos roxos

Como toda a liturgia deste tempo, a Missa do 4° Domingo do Advento tem por fim preparar-nos para as duas vindas de Cristo, vinda de Misericórdia no Natal, em que comemoramos o nascimento de Jesus, e vinda de Justiça no fim do mundo. O Intróito, o Evangelho, o Ofertório e a Comunhão referem-se à primeira; a Epístola, à segunda; e a Oração, o Gradual e o Aleluia podem aplicar-se a uma ou a outra.

Encontram-se nesta Missa as três grandes figuras do Tempo do Advento: Isaías, S. João Batista e a SS. Virgem. No Evangelho aparece S. João Batista dando cumprimento na sua pessoa e pela sua pregação à profecia de Isaías: ele é a voz que clama no deserto: Preparai os caminhos do Senhor, endireitai as vossas veredas... e toda a carne verá a salvação de Deus. Ao comentar a pregação do Precursor, S. Gregório explica que a ira futura com que S. João ameaça o auditório é o castigo final que o pecador não poderá evitar, se não pela penitência: “O amigo do Esposo excita-nos a que façamos não só frutos de penitência, mas frutos dignos de penitência. Tais palavras são um apelo à consciência de cada um, convidando-nos a alcançar pela penitência um tesouro de boas obras, que deve ser tanto maior quanto mais profundos foram os estragos causados pelo pecado” (3° Noct.).

Vemos como a Igreja nunca perde de vista a última vinda de Jesus. Recordando-nos a SS. Virgem e o lugar principal que ela ocupa no mistério do Natal, a Comunhão e o Ofertório levam-nos ao nascimento de Belém. Na Comunhão escutamos a profecia de Isaías, que anuncia sete séculos antes o nascimento virginal: uma Virgem conceberá e dará à luz o Emanuel. O Ofertório é uma saudação delicada e pura em que a Santa Igreja, ouvindo as palavras do Arcanjo Gabriel e de S. Isabel, canta a graça especial de Maria ao gerar o Homem-Deus. “Gabriel quer dizer força de Deus, explica S. Gregório, foi enviado a Maria, porque ele vinha anunciar o Messias, que se dignou aparecer humilde e pequenino para vencer todos os potentados. Convinha fosse o Anjo Gabriel, a força de Deus, a anunciar Aquele que vinha como o Senhor dos exércitos, o Todo Poderoso, o Invencível nos combates, que havia de vencer todas as potências do mal” (Sermão 35).

A Oração alude a esta força de Deus, que antes de se mostrar na segunda vinda se manifesta já na primeira, pois que é revestido da nossa fraca e mortal humanidade que Jesus vence o Demônio.

Vendo aproximar-se a vinda de Jesus, nosso Libertador, digamos-lhe com a Santa Igreja: “Vinde, Senhor, não tardeis”.

Do Intróito: O “Rorate” de Isaías! Impossível encontrar o lirismo mais profundo, e ao mesmo tempo texto mais evocativo, que esta prece que constitui como o estribilho de todo o Advento. A terra que se entreabre para receber o orvalho do Céu e faz brotar o Salvador é a Virgem Maria Nossa Senhora.

Da Oração: O grande obstáculo à nossa salvação foi sempre o pecado, Satã e os poderes do mal; mas “o Senhor virá, diz Isaías, como o guerreiro poderoso que marcha para o combate” (3ª lição de 3ª feira). Nós não merecemos a nossa salvação; é da misericórdia de Deus que devemos implorar a força de nos levantarmos do mal.

Da Epístola: Só o Juiz Soberano conhece os pensamentos mais íntimos dos homens; é Ele que no último dia nos há de julgar. Não julguemos o próximo se não quisermos ser julgados por Deus. O apelo a não julgarmos os Ministros de Cristo determinou a escolha desta Epístola para as Ordenações das Quatro Têmporas do Advento.

Do Evangelho: O acontecimento capital da História do mundo vai realizar-se. Segundo a profecia de Isaías, S. João Batista vai apresentar ao mundo o Messias. O momento do aparecimento do Precursor é determinado com precisão. O Cristianismo funda-se em fatos históricos.

Do Ofertório: Com o Arcanjo Gabriel e Santa Isabel saudemos a Virgem Maria, tabernáculo vivo do Altíssimo.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

14. Pode o católico gloriar-se de ser liberal?

Permita-nos sobre isto transcrever aqui integralmente um capítulo de outra obra nossa (Coisas do dia), em que essa questão é respondida. Diz assim:

“Que Deus me ajude, caro leitor, com as palavras liberalismo e liberal! Andas realmente enamorado delas, e o amor te deixou cego, como todos os namorados. Que inconvenientes pode ter, me perguntarás, o uso dessas palavras? Para mim tem tantos, que chego a ver nele matéria de pecado. Não te assustes, mas escuta-me com paciência. Tu me entenderás logo e sem dificuldade. Não há dúvida de que a palavra liberalismo significa na Europa, no presente século, uma coisa suspeita e que não está inteiramente de acordo com o verdadeiro catolicismo. Não me digas que exponho o problema em termos exagerados. Deverás, com efeito, conceder-me que, na acepção ordinária da palavra, liberalismo e liberalismo católico são coisas reprovadas por Pio IX. Deixemos de lado, por enquanto, os poucos ou muitos que pretendem poder continuar professando um certo liberalismo que, no fundo, não querem reconhêce-lo como tal. Mas o certo é que a corrente liberal na Europa e na América neste século XIX em que escrevemos, é anti-católica e racionalista. Corramos os olhos pelo mundo: vê o que significa partido liberal na Bélgica, na França, na Alemanha, na Inglaterra, na Holanda, na Áustria, na Itália, nas repúblicas hispano-americanas, e em noventa por cento da imprensa espanhola. Pergunta a todos o que significa, na língua comum, critério liberal, corrente liberal, atmosfera liberal etc.; e vê se, entre homens que se dedicam a estudos políticos e sociais na Europa e América, noventa por cento deles não entendem por liberalismo o puro e cru racionalismo aplicado às ciências sociais.

“Pois bem. Por mais que tu e algumas dezenas de pessoas vos empenheis em dar um sentido de coisa indiferente ao que a corrente geral já marcou com o selo de coisa anti-católica, é indubitável que o uso, árbitro e norma suprema em matéria de linguagem, continua a ter o liberalismo como uma bandeira contra o catolicismo. Por conseguinte, ainda que em meio a mil distinções, exceções e sutilezas, consigas formar para ti apenas, um liberalismo que não tenha nada de contrário à fé, na opinião dos outros, a partir do momento em que te chames liberal, pertencerás como todos à grande família do liberalismo europeu, tal como o mundo o entende. Se tens um jornal e o chamas de ‘liberal’, ele será na opinião geral um soldado a mais entre os que, sob essa divisa, combatem a Igreja Católica de frente ou de flanco. Em vão te desculparás uma vez ou outra. E essas desculpas e explicações, tu não as pode dar todos os dias; isto seria muito trabalhoso. Em compensação, terás de usar em cada parágrafo a palavra liberal. Serás, pois, na crença comum, apenas mais um soldado como tantos outros que militam sob essa divisa, e por mais que, em teu interior, sejas tão católico como o papa (como se jactam de sê-lo alguns liberais), o certo é que, no movimento das idéias, na marca dos sucessos, influirás como um liberal; e mesmo contra a tua vontade, serás um satélite a mover-se dentro da órbita geral em que gira o liberalismo. E tudo isso por causa de uma palavra! Uma simples palavra! Sim, meu amigo, isto é o que ganharás por te chamares liberal e por chamares liberal o teu jornal. Desengana-te. O uso dessa palavra te faz quase sempre, e em grande parte, solidário ao que se ampara à sua sombra. E o que se ampara à sua sombra, já o vês e não podes negá-lo, é a corrente racionalista. Eu teria pois escrúpulos, em minha consciência, de aceitar essa solidariedade com os inimigos de Jesus Cristo.

“Vamos a outra reflexão. É também indubitável que, dentre os que lêem teus jornais e ouvem tuas conversas, poucos são capazes de fazer como tu distinções sutis entre liberalismo e liberalismo. É pois evidente que uma grande parte tomará a palavra no sentido geral, e crerá que tu a empregas assim. Sem ter essa intenção, e mesmo contra tuas intenções, obterias o seguinte resultado: adquirir adeptos para o erro racionalista.

“Diz-me agora: sabes o que é escândalo? Sabes o que é induzir o próximo ao erro com palavras ambíguas? Sabes o que é, por apego mais ou menos justificado a uma palavra, semear a dúvida, a desconfiança, e fazer vacilar na fé as inteligências simples? Quanto a mim, na qualidade de moralista católico, vejo nisto matéria de pecado, e se não tens a desculpa de uma extrema boa-fé ou de algum outro atenuante, matéria de pecado mortal.

“Ouve esta comparação: Sabes que nasceu, quase em nossos dias, uma seita que se chama: a Seita dos velhos católicos1. Ela teve o bom humor de chamar-se assim, deixemo-la fazer. Suponhamos agora que eu, por exemplo, que sou, pela graça de Deus e ainda que pecador, católico, e para cúmulo sou dos mais velhos, porque meu catolicismo data do Calvário e do Cenáculo de Jerusalém, datas muito antigas; suponhamos, dizia, que eu funde um jornal mais ou menos ambíguo e o intitule:  Diário velho católico. Este título será uma mentira? Não, porque sou um velho católico, no bom sentido da palavra. Mas, dirás tu, por que adotar um título mal soante, que é divisa de um cisma, e que dará ocasião para que os incautos creiam que sou cismático, e para que se encham de júbilo os velhos católicos da Alemanha, crendo que aqui lhes nasceu um novo confrade? Por que escandalizar assim os simples? — Uso esta expressão em bom sentido. — Que seja, mas não seria melhor evitar fazer crer que dizes em mau sentido?

“Eis aqui, pois, o que eu diria a quem ainda se empenhasse em considerar inofensivo o título de liberal, reprovado pelo papa, e causa de tanto escândalo para os verdadeiros crentes. Por que fazer gala de títulos que exigem explicações? Por que suscitar suspeitas, que logo será preciso procurar dissipar? Por que contar-se no número dos inimigos e fazer gala de sua divisa, se no fundo se é dos amigos?

“Dirás: as palavras não têm importância! Elas têm mais do que imaginas, meu amigo. As palavras são a fisionomia exterior das idéias, e tu sabes quanto a boa ou má fisionomia de um assunto é importante ao seu sucesso. Se as palavras não tivessem nenhuma importância, os revolucionários não se empenhariam tanto em trajar o catolicismo com palavras feias, chamando-o a toda hora de obscurantismo, fanatismo, teocracia, reação; eles o chamariam pura e simplesmente catolicismo, e eles mesmos não buscariam adornar-se a cada instante com formosos vocábulos de liberdade, progresso, espírito do século, direito novo, conquistas da inteligência, civilização, luzes, etc., mas se intitulariam sempre com seu próprio e verdadeiro nome: Revolução.

“Foi sempre assim. Todas as heresias começaram como um jogo de palavras, e acabaram como uma luta sangrenta de idéias. Algo semelhante devia já ter ocorrido no tempo de São Paulo, ou o bendito Apóstolo teve a intuição do que se passaria nos tempos futuros quando, dirigindo-se a Timóteo (I Tm 6,20), o exorta a viver prevenido, não só contra a falsa ciência (oppositiones falsi nominis scientiae), mas também contra a simples novidade na expressão ou nas palavras (profanas vocum novitates). Que diria hoje o Doutor das gentes, se visse certos católicos adornarem-se com o adjetivo de liberais, em oposição aos católicos que se chamam simplesmente com o antigo sobrenome da família, e permanecerem surdos às repetidas reprovações que com tanta insistância lançou a cátedra apostólica contra esta profana novidade de palavras? Que diria ao vê-los acrescentar à palavra imutável ‘catolicismo’, esse odioso apêndice que não conheceram nem Jesus Cristo, nem os Apóstolos, nem os Padres, nem os Doutores, nem um só dos mestres autorizados que constituem a magnifica cadeia da tradição cristã?

“Medita nisto, amigo, nos momentos lúcidos, se é que te concede alguma a cegueira da tua paixão, e conhecerás a gravidade do que à primeira vista te parece mera questão de palavras. Não, tu não podes ser católico-liberal, nem podes chamar-te com este nome reprovado, ainda que, por meio de sutis sofismas, chegues a encontrar um meio secreto de conciliá-lo com a integridade da fé. Não, a caridade cristã te proíbe, esta santa caridade que tu invocas a toda hora e que, se entendo bem, é para ti sinônimo da tolerância revolucionária.

“A  caridade te proíbe, porque a primeira condição da caridade é de não trair a verdade, de não ser uma armadilha destinada a surpreender a boa-fé dos menos avisados. Não, meu amigo, não; não podes chamar-te liberal.”

Nada mais temos a dizer aqui sobre este ponto, completamente resolvido, para um homem de boa-fé. Ademais, hoje os próprios liberais fazem já menos uso que antes desse nome, de tão gasto e desacreditado que anda, graças à misericórdia de Deus. Mas é todavia freqüente encontrar homens que, renegando a cada dia e a cada hora o liberalismo, estão dele imbuídos até a medula, e não sabem escrever, falar, agir, senão sob sua inspiração: estes homens são, hoje em dia, os que mais devemos temer.

  1. 1. Essa seita reagrupava os católicos alemães que recusaram o dogma da infalibilidade pontifícia definido no Concílio Vaticano I.

O Pôncio Pilatos de ontem e os de hoje

Pe. Jean Dominique, O. P.

 

Na sua Encíclica Pascendi Dominici Gregis, São Pio X resumiu o fundamento filosófico da heresia modernista com esses dois termos: agnosticismo e imanência vital. Ele apontava o dedo para as duas atitudes fundamentais do pensamento moderno, que são a recusa do conhecimento especulativo e uma hipertrofia da causalidade. Para bem compreender o espírito do nosso tempo e poder confrontá-lo, convém nos aprofundarmos nesses dois falsos princípios que se encontram na origem de tantos erros. Para ajudar nossos leitores nessa tarefa, propomos uma parábola sobre o agnosticismo, que não é mais do que uma forma derivada do ceticismo.

 

Uma parábola moderna -- o Senhor Philosophus

Os jornais traziam uma triste notícia. Um jovem de cerca de trinta anos fora massacrado, há pouco tempo, por um bando de malfeitores nas redondezas de Jerusalém. A crueldade dessa execução sumária e o renome desse jovem judeu deram ao ocorrido uma repercussão internacional. O Senhor Philosophus, detetive de reputação, foi incumbido de identificar os criminosos e localizar o seu líder. Pôs na cabeça o seu chapéu de feltro, armou-se de sua lupa e de sua lanterna de bolso e, sem mais delongas, lançou-se ao trabalho. Confiando na sua longa experiência e nas suas fontes de informação, nosso homem contava resolver o assunto em pouco tempo. Mas teve de deixar o seu otimismo de lado ao depara-se com uma multidão heterogênea de suspeitos e com testemunhos aparentemente contraditórios. Busquemos acompanhá-lo na sua investigação.

A vítima tinha precisamente trinta e três anos no momento do atentado. Vinha do norte de Israel de uma localidade chamada Nazaré. Sua mãe, presente no lugar do suplício, chamava-se Maria, e seu nome era Jesus.

Quem, portanto, poderia ter cometido uma tal abominação, condenar ao suplício da cruz um homem dotado de tão boa reputação? O Senhor Philosophus seguiu todas as pistas que se lhe apresentaram: os Palestinos?  Os próprios Judeus? Os Romanos que ocupavam a região? Um dos amigos do defunto chamado Judas? A covardia dos seus discípulos que o abandonaram diante do perigo? Soluções as mais contraditórias disputavam o espírito do detetive, sem que ele pudesse resolvê-las de modo categórico.

Ao cabo de muitos dias e noites de trabalho, após ter perseguido escrupulosamente os menores indícios que lhe pudessem conduzir a alguma conclusão, esgotado de tanto esforço sem resultado, Sr. Philosophus ingressou, num belo dia, na sala de reunião dos adeptos desse Jesus. Na esperança de obter um pouco de repouso, sentou-se confortavelmente num banco dessa igreja, abriu mecanicamente um livro que lá estava e, com ar distraído, leu uma página... e tudo mudou subitamente.

Ali, naquela página aberta por acaso, o criminoso tinha deixado seus traços! Repetidas vezes, e vagarosamente, o brilhante detetive repassou com sua lupa o texto em questão. Não havia mais dúvida: ele encontrara a solução do enigma.

 

A profissão de fé dos católicos

O texto que aqui mencionamos é conhecido dos católicos, é o Credo, sua profissão de fé. Ele merece uma leitura lenta, atenta – ser lido de lupa. Desse modo, ele revelará os tesouros que contém. Tudo é belo nesse Credo, é como uma sinfonia maravilhosa. Lá encontramos a glória de Deus, a bem-aventurança do Pai, do Filho e do Espírito Santo, a Encarnação do Verbo eterno, a virgindade perpétua e fecunda de Maria, o mistério tão consolador da remissão dos pecados e a promessa da vida eterna no céu.

Encantado pelo charme desse texto luminoso, o detetive tinha quase se esquecido das suas preocupações, e mesmo da missão de que fora incumbido de encontrar o assassino. Foi então que se deparou com a palavra que lhe revelaria o segredo que buscava. No meio da profissão de fé da Igreja, escondido no meio de verdades tão elevadas e reconfortantes, enquanto os católicos cantam de todo o seu coração infantil a bondade e a beleza de Deus, surge uma frase curiosa: “Sub Pontio Pilato passus et sepultus est” (Padeceu e foi sepultado sob Pôncio Pilatos). Este inciso aparece subitamente, como um convidado indesejável numa reunião de família, como um furúnculo num belo nariz, como o cabelo da cozinheira na sopa. Ora, essa dissonância, esse aparente erro de digitação permanecerá no Credo até o fim do mundo.

O fato é digno de nota. Pois, nessa profissão de fé, não se fala absolutamente da covardia de Pedro, nem da maldade de Judas, nem do ódio invejoso dos príncipes dos sacerdotes. Só Pilatos é citado no tribunal da história.

Podemos então imaginar a alegria do nosso detetive. Após sua descoberta sensacional, ele se ergueu prontamente, seguro de encontrar o culpado. Encontrar o esconderijo de desse Pilatos será moleza.

No entanto, nosso homem se depara com uma nova dificuldade. Ao abrir as páginas amarelas da cidade vizinha, encontra um senhor Pilchoswki, um Pilhart, e um Pikal. Entre esses nomes, não está o de Pilatos, que é o que procura. Então, expande a sua investigação e lança mão de todos os meios mais sofisticados -- tudo em vão. Por toda a parte, nenhum traço de Pilatos. Ele se desloca até Forez, para o Monte Pilatos onde, dizem os antigos, o célebre governador romano terminou os seus dias. Mas a lenda não foi de grande ajuda. Sobretudo uma vez que os suíços reivindicam o mesmo privilégio que os stéphanois. O seu Pilatusberg, próximo de Lucerna, seria indubitavelmente a derradeira morada do famoso malfeitor. O Sr. Philosophus se viu obrigado a render-se à evidência: o Pilatos que procura se esconde sob um falso nome, possui documentos falsos.

 

Pilatos nos quatro Evangelhos

Para identificar o assassino de Jesus, o detetive decidiu consultar as Sagradas Escrituras. Um exame cuidadoso lhe indicava quatro pistas: com efeito, falava-se de Pilatos nos quatro Evangelhos. Ele se lançou, portanto, à tarefa e, de lupa nas mãos, leu as páginas indicadas. Infelizmente, nem São Mateus, nem São Marcos, nem São Lucas lhe forneceram informações significativas. Havia motivo para se desencorajar.

Após ter utilizado todo o seu savoir faire, ter consagrado tanto esforço e tempo, ter posto em obra os meios mais modernos de investigação, nosso detetive profissional estava prestes a declarar derrota e desistir. Maquinalmente, mais por dever profissional do que por esperança genuína, Sr. Philosophus consultou a última página que ainda poderia lhe ajudar, leu o capítulo décimo oitavo do Evangelho segundo São João. E aí, contra toda esperança, recebeu a luz, descobriu a solução para o apaixonante enigma e conseguiu identificar Pôncio Pilatos. De agora em diante podia anunciar ao mundo quem matou Jesus.

Eis o famoso texto que nos revela a personalidade de Pilatos:

“Tornou, pois, Pilatos a entrar no Pretório e chamou Jesus, e disse-lhe: Tu és o rei dos judeus?”

Jesus respondeu:

“Tu dizes isso de ti mesmo, ou foram outros que to disseram de mim?”

Pilatos respondeu:

“Porventura sou eu judeu? A tua nação e os pontífices são os que te entregaram nas minhas mãos. Que fizeste tu?”

Jesus respondeu:

“O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, certamente que os meus ministros se haviam de esforçar para que eu não fosse entregue aos judeus; mas o meu reino não é daqui.”

Pilatos lhe disse:

“Logo tu és rei?”

Jesus respondeu:

“Tu o dizes, sou rei. Nasci, e vim ao mundo para dar testemunho da verdade; todo o que está pela verdade, ouve a minha voz.”

Pilatos lhe disse:

“O que é a verdade?”

Tendo dito isso, saiu novamente para ir encontrar os judeus, e lhes disse: “Não encontro nele crime algum. Ora é costume que eu, pela Páscoa, vos solte um prisioneiro; quereis, pois, que eu vos solte o rei dos judeus?”[1]

 

“O que é a verdade?”

A marca distintiva de Pôncio Pilatos, a sua impressão digital, por assim dizer, está toda nessa curta questão: “O que é a verdade?” Foi assim que ele entrou para história, foi esse estado de espírito que o levou a entregar Jesus aos verdugos.

Convém reler atentamente essa passagem decisiva para compreender o seu sentido.

O governador romano foi intimado pelos príncipes dos sacerdotes e pela multidão a condenar Jesus a morte. Como bom conhecedor das leis, Pilatos não poderia condenar um homem sem um motivo adequado. Interroga, portanto, o acusado para compreender melhor a natureza da acusação: “Tu és o rei dos judeus?”, o que pode ser compreendido como uma afirmação disfarçada: “Tu és realmente o rei dos judeus, não é?”. Se Jesus é efetivamente o rei dos judeus, Pilatos se encontra, portanto, diante de um caso de sedição de um povo dominado contra o seu legítimo chefe, o que daria ao processo um curso inteiramente novo. 

Com sua resposta, Jesus quer que Pilatos reflita. “Tu dizes isso de ti mesmo?” -- Ou seja, trata-se de um juízo pessoal, autêntico, fundamentado, ou repetes sem refletir os rumores dos que te rodeiam -- “ou foram outros que to disseram de mim?”. A coisa é grave demais para ser tratada de modo tão frívolo, ela não diz respeito apenas ao povo judeus, mas a ti mesmo, Pilatos, e àquele a quem representas, o Imperador.

A resposta de Pilatos mostra que ele indefere. “Porventura sou eu judeu?” – o pleito é um assunto interno do teu povo e quero jugá-lo desse modo. Se tu és o rei dos judeus, tua autoridade se encerra nos limites desse povo, a querela só diz respeito aos judeus. “Que fizeste tu?” – Tratemos o problema de modo puramente jurídico.

O versículo seguinte realmente foi capaz de assustar Pilatos: “O meu reino não é deste mundo”, o que significa, entre outras coisas, que ele está acima desse mundo, acima de todos os reinos e impérios desse mundo. O que se passa hoje em Jerusalém diz respeito a todos os povos da terra. Daí a questão apressada e inquieta de Pilatos: “Logo tu és rei?” -- Procuremos limitar o problema ao pequeno povo judeu. O governo romano está disposto a sustentar a autoridade legítima das terras sob sua ocupação, mas se ela pretende possuir uma autoridade superior, o problema se torna espinhoso.

Ora, é esse precisamente o caso. O reino de Jesus é o reino da verdade. “Nasci, e vim ao mundo para dar testemunho da verdade.” – este reino ultrapassa, portanto, os limites de toda realeza terrestre. Tudo que é verdadeiro lhe está submetido. “Todo o que está pela verdade, ouve a minha voz.”  -- Se tua autoridade é verdadeira, Pilatos, ela está sob minhas mãos. “Tu não terias poder algum sobre mim, se te não fosse dado do alto”[2], lhe dirá Jesus em breve.

Pilatos entende do que se trata, entende que, em nome da verdade, esse Jesus pretende possuir autoridade não apenas sobre os judeus, mas sobre o próprio governo e sobre aquele a quem representa, o Imperador de Roma. É nesse momento que Pilatos revela o fundo do seu pensamento e do seu ser: “O que é a verdade?” O que não significa absolutamente: “como seria interessante falar sobre a verdade, diga-me, o que é a verdade?”; mas antes: “não convém nem interessa falar sobre a verdade” – A verdade não tem nada a ver com o assunto em tela, nem com minha autoridade, nem com a religião. Tratar da verdade está fora de questão. Pilatos traduz aqui a atitude profundamente cética que caracterizava o pensamento dos romanos do seu tempo, o ceticismo enfadado diante da verdade e de suas pretensões.

Ora, foi precisamente essa palavra que condenou Jesus a morte. Jesus realmente padeceu “sob Pôncio Pilatos”, foi crucificado em razão do seu ceticismo.

A sequência do relato o mostra claramente. Após esta resposta evasiva, Pilatos se volta para os acusadores e lhes propõe escolher entre Barrabás e Jesus. Pouco importa a verdade, “não encontro nele crime algum”, pouco importa a inocência de um ou de outro, desde que a lei e as aparências sejam salvas. Eu lavo minhas mãos.

Portanto, foi o medo da verdade e das suas exigências, foi o espírito de dúvida e de indiferença em face de toda verdade especulativa, foi também o respeito humano decorrente, a arma com a qual Pilatos matou Jesus.

Esse ceticismo se encontra em todas as épocas

Mas a história mostra à saciedade que o ceticismo não é um fenômeno passageiro ou localizado, mas se verifica em todas as épocas e em todas as regiões do mundo. É um erro que aflige boa parte da humanidade e é um dos principais motores da história, é o algoz de Jesus e da sua Igreja. Esse estado de espírito ainda segue atual.

Poderíamos apontar todas as escolas de pensamento, todos os filósofos que reivindicam de modo mais ou menos explícito o ceticismo... Cronologicamente, foi o Oriente e o budismo que aparecem primeiro na cena da história. Em seguida vieram os sofistas gregos, depois os da Roma imperial. Na grande época da escolástica e no nominalismo também tiveram adeptos do ceticismo. A filosofia moderna não tem nada a invejar também...

A história demostrou claramente as constantes e os frutos da mentalidade cética, e permite esboçar uma resposta, ou melhor, uma terapia que dê aos espíritos céticos o gosto da verdade: não temamos a verdade e as suas exigências, calquemos aos pés o respeito humano que foi a arma com a qual Pilatos matou Jesus!

 


[1] Jo 18, 33-40.

[2] Jo 19, 11.

A Igreja concluiu pela veracidade da Assunção baseado no seu ensinamento sobre a Imaculada Conceição?

Prof. Felix Otten, O.P., e C.F. Pauwels, O.P.

A Assunção de Maria é um dogma católico, ainda que a Bíblia não diga nada sobre ela. A Igreja concluiu pela veracidade da Assunção baseado no seu ensinamento sobre a Imaculada Conceição?

A Igreja Católica fala da Assunção de Maria ao Céu em contraste com a Ascensão de Cristo. Ao usar linguagem diferente para classificar esses eventos, a Igreja quer indicar, claramente, que Maria não ascendeu ao Céu de corpo e alma por suas próprias forças. Ao invés, a Assunção de Maria é um privilégio especial, conferido a ela pelas forças de Deus, de que ela fosse levada ao Céu de corpo e alma. Essa doutrina, há muito aceita pelos católicos, não era chamada de dogma em sentido estrito por séculos porque ela não havia sido solenemente formulada, estabelecida e promulgada pelo Magistério infalível, assim como a doutrina da Imaculada Conceição de Maria por exemplo.

Porém, no dia 1º de novembro de 1950, o Papa Pio XII, solenemente, proclamou o dogma da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria. Antes disso, a Assunção era apresentada aos católicos pelo magistério ordinário da Igreja, ao qual os católicos não podem se opor. O reconhecimento histórico da Assunção é confirmado pela antiquíssima festa dada a esse evento no dia 15 de agosto, e pelo fato de que essa festa era celebrada por cristãos gregos e siríacos durante os séculos primordiais da Igreja.

Sem sombra de dúvidas, é verdade que a Assunção de Maria não é mencionada na Bíblia. Mas a Igreja Católica também ensina que há duas fontes das quais ela extrai a revelação de Deus, a saber, a palavra escrita de Deus, as Sagradas Escrituras, e a Santa Tradição. A Igreja conhece a Assunção de Maria através da Tradição.

Não se pode dizer, em sentido estrito, que a Assunção de Maria é consequência de sua Imaculada Conceição, ainda que essa graça especial lhe tenha dado uma dignidade única entre todos aqueles que já viveram. Fez-se uma comparação com a condição na qual os primeiros humanos viviam antes da queda, mas essa comparação não se sustenta. Pois Adão e Eva haviam sido criados num estado de graça santificante, mas seu privilégio de estar livres do sofrimento e da morte e de ser levados ao Céu sem morrer não vinha como consequência da posse dessa graça santificante.

E embora se possa dizer que Maria recebeu o dom que as primeiras pessoas puseram a perder para todos os seus descendentes, a saber, que ela foi concebida sem pecado original e possuía, imediatamente, a graça santificante, ela não recebeu todos os dons preternaturais que Adão e Eva possuíam. Afinal de contas, ela não esteve livre do sofrimento durante sua vida terrena.

É claro, a morte de Maria não foi uma punição por seus pecados, pois ela jamais havia pecado; foi, apenas, um resultado normal de seu corpo se esgotando e de suas forças diminuindo. Deus não dispôs as coisas de modo que Maria fosse isenta dessa lei da natureza. Por quê? Não sabemos com certeza. É, porém, provável que, no seu sofrimento e na sua morte, Maria refletia o sofrimento paciente de seu Filho e, portanto, foi um exemplo para nós.

Como apreciar o canto gregoriano

Pe. Gustavo Camargo, FSSPX

 

Objeção:

Quando escutamos o canto gregoriano pela primeira vez, a impressão que nos causa talvez seja negativa. Pode ser que nos impressione não tanto por que nele há, senão por que nele não há. Sentimos a ausência de harmonia ou de acompanhamento de apoio; ou bem sentimos a falta de valores de tempo definidos claramente e de acentos regulares; ou bem advertimos que a linha melódica por vezes toma giros estranhos, que muitas vezes não concluem na nota esperada; ou bem desgosta-nos o não intentar essa música tocar-nos os sentimentos ou mover-nos as emoções.

Em nossas capelas muitas vezes é difícil que se dê lugar merecido ao canto gregoriano. Há certo rechaço da parte dos fiéis, que o acham “demasiado simples, sem ornato, maçante, que alarga muito a cerimônia etc”, e mesmo também da parte dos sacerdotes, que lhe sentem uma desconfiança instintiva.

André Charlier1, em um de seus artigos sobre o canto gregoriano, traz a citação de um sacerdote que escrevera as seguintes palavras em “Semaine religieuse de Paris”, em 1965, as quais muitos de nós poderíamos talvez subscrever (lamentavelmente).

“O gregoriano é inaceitável, a não ser quando bem cantado, por religiosos ou por escola paroquial bem formada. Em toda parte, porém, ele é impraticável e não interessa a ninguém. O ouvido dos jovens, que estudam solfejo desde a escola primária com as tonalidades clássicas e com a notação musical moderna, já não intui nem pode captar quanto há de religioso no gregoriano. (…) Essas melopeias não incidem mais nas sensibilidades contemporâneas; bastante já durou essa experiência. Por que, então, tentar prolongá-la? Conservemos o gregoriano para os santuários como Solesmes, Saint-Wandrille e alguns cenáculos da cristandade. (…) Mesmo onde se canta com arte e conforme as regras, somente os da “Schola” cantam. A multidão permanece inerte e contenta-se com escutar. É este, acaso, o objetivo que se busca?”.

A essa desconfiança soma-se o desprezo a toda a Tradição da Igreja, que as reformas do Concílio Vaticano II difundiram universalmente, e que fizeram, entre muitas outras coisas, que o gregoriano se extinguisse em quase todas as paróquias.

Na prática, o resultado é que em nossas capelas se canta muito pouco o gregoriano, estuda-se menos, e o povo desconhece-o e até sente por ele certa repulsa.

 

Argumentos de autoridade:

Sem embargo, vendo o que os papas disseram constantemente, durante toda a história da Igreja, ficamos em situação incômoda. São Pio X, por exemplo, que iniciou magna obra de restauração do canto gregoriano, afirmou o seguinte, fazendo eco de toda a Tradição: “Essas qualidades (santidade, bondade de forma e universalidade) encontram-se em sua medida maior no canto gregoriano, e por isso ele é o único canto autêntico da Igreja romana. É o único que os padres da antigüidade legaram-nos; manteve-se com o maior esmero através dos séculos nos manuscritos litúrgicos. As últimas investigações lograram restaurá-lo felizmente em sua antiga integridade e pureza. Por isso, o canto gregoriano considera-se em certo modo como o mais elevado ideal da música sacra, podendo assentar-se como universalmente válida a seguinte regra: a música que seja apropriada para o uso religioso é tanto mais sagrada e litúrgica, quanto mais, por sua posição, espírito e irradiação, acerque-se do ‘melos’ gregoriano. Ao contrario, é menos adequada para o serviço divino se se afasta deste modelo. Destarte, o primitivo canto gregoriano deve ser de aplicação no âmbito dos serviços religiosos, e deve ter-se o convencimento de que uma cerimônia sagrada não perde brilho algum por vincular-se a esta arte musical” 2.

Pio XII não é menos absoluto: “Este canto, por causa da união íntima da melodia e do texto sagrado, não somente se lhe adapta perfeitamente, senão que igualmente parece expressar toda sua grandeza e eficácia, e penetra com sua doçura no espírito de quem o escuta. Tudo isso com meios musicais muito simples e fáceis, mas que, inspirados de arte sublime e muito santa, suscitam sincera admiração e convertem-se, para os mestres e conhecedores de música sacra, em fonte inesgotável de novas harmonias. Todos a quem Cristo Nosso Senhor confiou a custódia e dispensa das riquezas de sua Igreja devem conservar cuidadosamente o precioso tesouro do canto gregoriano e fazer o povo cristão participar dele profusamente” 3.

São Pio X faz referência à autoridade da própria liturgia quando diz: “manteve-se com o maior esmero através dos séculos nos manuscritos litúrgicos”. Recorde-se que a liturgia é uma escola de santidade. Todas as rubricas, gestos, mínimos detalhes foram guardados com sumo cuidado, muitos deles recebidos das mãos de Nosso Senhor mesmo e dos apóstolos, e transmitidos com tanto cuidado através dos séculos, que se chegou a constituir o que poderíamos chamar “a perfeita inserção do sagrado no material”, ou seja, o equilíbrio justo do uso do sensível no culto de Deus, permitindo-lhe ser perfeito instrumento ao fim próprio da liturgia. Exatamente nesse equilíbrio perfeito e inserção do sagrado no material, entra o canto gregoriano, parte constitutiva da Sagrada Liturgia. Trataremos adiante sobre este ponto importante.

São conhecidas as belas palavras de Santo Agostinho em seu livro Confissões: “Confesso que ainda agora encontro algum descanso nos cânticos que as vossas palavras vivificam, quando são entoadas com suavidade e arte. Não digo que fique preso por eles. Mas custa-me deixá-los quando quero. (…) Sinto que todos os afetos da alma encontram, na voz e no canto, segundo a diversidade de cada um, as suas próprias modulações, vibrando em razão dum parentesco oculto, para mim desconhecido, que entre eles existe. Mas o deleite da minha carne, ao qual se não deve dar licença de enervar a alma, engana-me muitas vezes. Os sentidos, não querendo colocar-se humildemente atrás da razão, negam-se a acompanhá-la. Só porque, graças a razão, mereceram ser admitidos, já se esforçam por precedê-la e arrastá-la! Deste modo peco sem consentimento, mas advirto depois.  (...) Quando me lembro das lágrimas derramadas ao ouvir os cantos da vossa Igreja nos primórdios da minha conversão à fé, e ao sentir-me agora atraído, não pela música, mas pelas letras dessas melodias, cantadas em voz límpida e modulação apropriada, reconheço, de novo, a grande utilidade deste costume.” 4.

 

Corpus:

Antes de responder às objeções, tratemos de aprofundar o tema. Que é o canto gregoriano? Como se constitui? Por que é tão apto para elevar nossas almas? Como entender e apreciá-lo?

Para responder a essas perguntas, evitemos um pouco o tema de sua história (formação, decadência e restauração) e centremo-nos em sua constituição íntima, com algumas mínimas noções musicais necessárias para entendê-la.

Quando escutamos distintos tipos de música, como por exemplo música medieval, renascentista, barroca, e mesmo músicas orientais, damo-nos conta (talvez sem poder defini-lo) de que cada uma tem um “ar” distinto. Esse “ar” chama-se “modo” e faz referência à relação das notas entre si. Se pomos lado a lado as notas de um “modo” particular, formamos a sua escala. A música moderna, nesse aspecto, é relativamente pobre, porque conservou apenas dois modos: o maior e o menor. Constrói-se sobre a base da escala diatônica (por tons e semitons) e possui somente essas duas variantes. A música oriental usa os ¼ de tom, intervalo difícil de captar e que lhe dá “ar” mais confuso.

 

Qual é o “ar” do canto gregoriano?

O “ar” do canto gregoriano deriva de seus modos, ou seja, da maneira como se dispõem as notas e os intervalos que formam a sua “estrutura interna”.

Há quatro notas iniciais de escala: Ré, Mi, Fá e Sol. Cada uma das notas dá origem a uma escala, que pode estar em registro superior (modo autêntico) ou inferior (modo plagal), e, conseqüentemente, aos oito modos gregorianos. Cada um dos modos tem uma “corda de recitação” ou “tenor”, que é uma nota dominante (este é o termo que se usa em música moderna) em redor da qual se desenvolve a melodia. 

Tudo isto possibilita grande variedade de estruturas modais, cada uma com suas características, seus recursos próprios, para expressar um “ar” particular, um “ethos”, estado de alma ou ideia5. A palavra “ethos” usavam-na os gregos para definir o caráter moral dos modos musicais.

Muitas vezes se disse e acreditou, e segundo isso se interpretou, que o gregoriano fosse canto totalmente impessoal, frio, sem sentimento. No entanto, sem deixar de afirmar a sobriedade, o canto gregoriano usa freqüentemente de recursos musicais para reforçar ideias e sentimentos. Alguns exemplos:

No responsório do Ofício de Trevas da Sexta-Feira da Paixão, a letra diz: “exclamou Jesus com grande voz: Deus meu, por que me abandonaste?”. Justamente nesse grito, “Deus meu”, o autor da melodia gregoriana põe notas muito altas - as mais altas registradas no gregoriano. Quer, obviamente, reproduzir e ilustrar musicalmente o grito de Nosso Senhor na Cruz.

Mais alguns exemplos (que são abundantes).

O intervalo de semitom, por suas características musicais, é bastante usado para indicar sentimento de tristeza, lamento. Em si mesmo, não tem a inteireza e estabilidade do tom inteiro, e, usando-se no final de frase ou inciso, produz instabilidade, como algo não concluído. É até muito usado por alguns autores (Bach, entre outros, e, em minha opinião, também dá-se no canto gregoriano) como recurso onomatopeico que se assemelha ao gemido. Todas essas características encontram-se no responsório penitencial “Media vita” (Cantus selecti, p. 41* ou 39). A letra diz: “Eis que chegamos ao meio da vida e encontrou-nos a morte: em quem buscaremos ajuda, senão em Ti, Senhor? Em Ti esperaram nossos pais, esperaram e Tu livraste-os; a Ti clamaram e não foram confundidos”.

Etc etc (há muitos exemplos na peça).

Como último exemplo, é muito interessante o jogo de alternância do tom inteiro e do semitom (usando o si bemol), no introito “Laetare” do 4.º Domingo de Quaresma. E nele, quando, exatamente, a letra diz “qui in tristitia fuistis”, insiste-se no si bemol (semitom), querendo, assim, ilustrar musicalmente a palavra “tristitia” (tristeza).

 

Tudo isso dá-nos ideia do que é o “ethos” do gregoriano.

Dentre os capitéis conservados no “celeiro” de Cluny, dois ilustram, sobre suas quatro fachadas, os oito tons gregorianos; cada destes com uma figura que simboliza o tom musical e uma pequena frase que o descreve.

1.º tom: “Eis aqui o primeiro tom, ordenador dos sons musicais”.

2.° tom: “Segue o tom que é o segundo por nome e lei”.

3.º tom: “O terceiro salta e mostra que Cristo ressuscitou”.

4.º tom: “Segue o 4.º tom, que é semelhante a poema de lamento” (justamente esse tom de lamento usa-se no “Media Vita”, canto penitencial).

5.º tom: “Mostra quanto é humilhado quem quer se inflar (por orgulho)”.

6.º tom: “Se buscas o sentimento de piedade, olha o sexto tom”.

7.º tom: “O sétimo introduz o Sopro benéfico (Espírito Santo) com seus dons”.

8.º tom: “O oitavo ensina que todos os santos são bem-aventurados”.

Além disso, os antigos assinavam um “ar” especial para cada tom.

 

1.º : Gravis (serenidade, nobreza, solenidade)

2.º : Tristis (recolhido, interior)

3.º : Mysticus (contemplativo, rico, extático, ardente)

4.º : Harmonicus (o modo que não termina; a oração contínua; interior; queixoso)

5.º : Laetus (alegria humana; corresponde ao modo maior moderno)

6.º : Devotus (piedade filial, candidez, alegria espontânea, equilíbrio, paz)

7.º : Angelicus (entusiasmo, juvenil, ligeireza, vivacidade)

8.º : Perfectus (plenitude; solene e cheio de fineza)

 

No quadro seguinte, podem ver-se resumidas todas essas características.

 

Modos antigos

Terminologia

Dominante

Corda de recitação ou tenor

Final

tônica

Escala

Qualificativo

Ethos

Referências

Exemplos

Moderna

Antiga

Protus

 

RÉ

1º

Autêntico

 

Agudo

LÁ

RÉ

Ré-Lá-Ré

Gravis

Modos ditos “menores” por sua “seriedade”.

Madurez adquirida.

Modo da paz, serenidade, nobreza, solenidade.

Intr. Statuit

Intr. Rorate

Grad. Ecce quam

2º

Plagal

 

Grave

FÁ

Lá-Ré-Lá

Tristis

Subjetivo.

Recolhido e um pouco fechado em si mesmo.

Intr. Cibavit

Intr. Dominus dixit

Resp. Emendemus

Ofert. Dne. Jesu Christe

Deuterus

 

MI

3º

Autêntico

 

Agudo

SI

MI

Mi-Si-Mi

Mysticus

Místico-contemplativo

Rico, um pouco desordenado, extático, ardente.

Intr. Vocem jucundit.

Ofert. Sperent in te

Kyrie II

Comm. Scapulis

4º

Plagal

 

Grave

LÁ

Si-Mi-Si

Harmonicus

Interior.

Modo “que não termina”; a oração contínua; lastimoso.

Intr. Reminiscere

Credo I

Resp. Subvenite

Grad. Dne. praevenisti

Tritus

 

FÁ

5º

Autêntico

 

Agudo

DÓ

FÁ

Fá-Dó-Fá

Laetus

Modos ditos “maiores” por sua alegria.

Alegre.

Alegria “humana”; “maior” moderno.

Intr. Laetare

Grad. Omnes de Saba

Comm. Domus mea

Grad. Constitues eos

6º

Plagal

 

Grave

LÁ

Dó-Fá-Dó

Devotus

Piedade filial.

A candidez da infância espiritual. Alegria espontânea.

Intr. In medio

Intr. Quasimodo

Intr. Requiem

Alle. Dne in virtute

Tetrardus

 

SOL

7º

Autêntico

 

Agudo

RÉ

SOL

Sol-Ré-Sol

Angelicus

Entusiasmo juvenil

Ligeireza, alegria, vivacidade.

Com. Factus est repente

Intr. Puer natus

Alle. Pascha nostrum

Grad. Dirigatur

8º

Plagal

 

Grave

DÓ

Ré-Sol-Ré

Perfectus

Plenitude

Cômodo em todas as partes. Solene e sonoro, mas também cheio de delicadeza.

Intr. Jubilate

Intr. Spiriuts Dni.

Alle. Venite ad me

Offert. Ave Maria

Respostas às objeções:

Mencionamos a crítica de que o canto gregoriano seria “fastidioso”, demasiado sóbrio, sem apelo à sensibilidade. Em primeiro lugar, a compreensão de suas características, do “ethos” de cada modo, como vimos acima, nos ajuda a apreciá-lo melhor. Ademais, entra aqui um tema muito importante e delicado, que diz respeito à música, e chega mesmo a relacionar-se com a arte em geral. Há na arte o [chamado] elemento material. No caso da música, poderíamos assinalar como exemplo, talvez, a combinação de sons, o modo escolhido etc. Há também o elemento formal, que poderíamos chamar (não com estrito rigor filosófico) a “mensagem” que a arte quer passar ou transmitir; seria a ideia central que ela intenta transmitir, algo de ordem intelectual. Ora, a arte verdadeira deve encontrar o equilíbrio entre os dois. Muitas vezes, o excesso de elemento material “afoga” a mensagem, pois traz o foco para si mesmo e dificulta a compreensão do elemento formal. Na pintura, por exemplo, os renascentistas chegaram a uma grande perfeição do elemento material, mas isso nem sempre ajudou a arte como um todo. Se compararmos uma “Virgem com o Menino Jesus” de Leonardo da Vinci, admiramos, sem dúvida, a perfeição técnica e material; mas talvez não nos inspire tanta piedade como um ícone bizantino, muito mais tosco e imperfeito tecnicamente. A economia de meios materiais e a sobriedade ajuda muitas vezes a transmitir melhor o elemento formal.

O gregoriano, podemos dizer, representa o equilíbrio perfeito dos dois elementos da arte musical, sendo assim mais apropriado ao canto litúrgico. Sua simplicidade não é pobreza, mas elevação. Custa-nos apreciá-lo, não porque seja muito pobre; custa-nos, na verdade, por ser assaz rico. Quando escutamos o gregoriano em nossas capelas, não sentimos o impacto sensível de uma polifonia. E, provavelmente, é essa a razão por que nos ajuda a elevar nossas almas, cumprindo assim sua função, sem deixar de ser arte verdadeira. Em lugar de deter-nos no gozo estético, a música sagrada deve elevar nossas almas a Deus.

A respeito disso dizia Charlier: “Deste modo, o artista (gregoriano) vai além da natureza. Isso não significa que ele a despreze; ao contrário, sobrepassa-a para dar-lhe o seu verdadeiro sentido. Priva-se de certos meios, que consideramos indispensáveis para a arte, e somos nós, no entanto, que nos equivocamos julgando-o pobre: ele é capaz de dar-nos mais do que lhe pedimos. Esses meios entorpecê-lo-iam. O objetivo da arte não é remover as paixões; é comover aquela parte de nós  que a vida diária não é capaz de alcançar e que é feita para a contemplação”.

Outra crítica, que creio mais fácil de responder, é a de que sua execução seja difícil. “Melhor não cantá-lo que cantá-lo mal”. Ora, isso vale para qualquer canto, mesmo o polifônico. Se fosse verdade teríamos de calar-nos completamente na Igreja. Demais, a experiência diz-nos o contrário. Diz-nos que, em todos os lugares em que um capelão consciencioso se propõe a cultivar o canto gregoriano, os resultados são sempre satisfatórios. Leiamos mais uma vez o testemunho interessante de Charlier:

“Durante vinte anos dirigi uma ‘Schola” composta de jovens. No começo, poucos tinham alguma cultura musical;  os outros só conheciam as notas musicais. Estavam acostumados, naturalmente, às tonalidades da música moderna (...); nada os dispunha a gostar da música gregoriana (...) todavia, compreenderam mui prontamente o caráter melódico de cada modo (...) eu seguia os progressos desta adaptação, pelas expressões de admiração que lhes escapava ante tal e qual frase melódica; achavam-se perfeitamente capacitados para sentir a beleza de tom de um salmo”.

Do mesmo modo, quando se diz que o gregoriano não foi feito para o povo das paróquias, afirma-se falsidade tão patente como seria o dizer que a arte românica não foi feita para o povo das paróquias, [afirmação] a que tantas e tantas igrejas de povos e aldeias testemunham contrariamente. A multidão [no passado] cantava o ordinário da missa e toda a salmodia, e reservava-se à Schola somente o próprio da missa.

Na aldeia em que habito, ainda não faz dez anos, todos sabem cantar a missa dos domingos ordinários, a missa “De Angelis”, a do Advento, a da Quaresma, e até a do tempo pascal. Em verdade, o gregoriano praticou-se nas paróquias, desde a reforma de São Pio X, em toda parte onde se encontrasse um sacerdote que verdadeiramente cresse na importância da adoção do gregoriano, em vista da fulguração religiosa que provoca nas almas ou, dito de outro modo, por ser o gregoriano simplesmente uma escola de santidade.

 

Conclusão:

Tratemos, pois, de entrar como crianças nesta escola de santidade da liturgia católica. A Mestra provou-se sempre idônea, e seus frutos são patentes, ao longo dos séculos. Aprofundemos o conhecimento deste canto sagrado e cultivemo-no em nossas capelas e igrejas.

“Homens perversos e depravados usam a música como excitante para entregar-se aos gozos terrenos, em vez de levantar-se beatificamente por seu meio a Deus e à contemplação das coisas divinas. De minha parte, (...) trabalho, graças a Deus, unicamente para conseguir que a modulação das vozes seja dedicada exclusivamente ao fim para que fora inventada no princípio, isto é: ‘Deo optimo clarissimo laudibusque suis’ (a Deus ótimo e glorioso e para seu louvor)” (Tomás Luis de Victoria).

(Revista Permanência 268 - Tradução: Permanência)

  1. 1. André e Henri Charlier, irmãos, ambos artistas, converteram-se ao catolicismo no princípio do século XX, na paróquia de Mesnil-Saint-Loup, em França. Foram grandes defensores do canto gregoriano e da arte cristã em geral.
  2. 2. Motu proprio de S. Pío X, 1903, “Codex musicae sacrae juridicus”.
  3. 3. Encíclica Mediator Dei.
  4. 4. Santo Agostinho, Confissões, livro X, cap. 33. Coleção “Os pensadores”, Editora Nova Cultural, São Paulo, 1987.
  5. 5. O Cônego Jeanneteau, estudioso do canto gregoriano, definia-o desta maneira: “O modo gregoriano é um conjunto homogêneo de notas que se desenvolvem sobre ‘cordas’ com dependência de uma final; cordas que têm seu papel artístico próprio, pois que os movimentos internos dessas notas entre si produzem um ‘vocabulário’, uma sintaxe e fórmulas particulares ou comuns. Todo o conjunto move-se por mesma dinâmina, criando estética própria, que chamamos ethos”.

Quando os inimigos se tornam amigos

Pe. Philippe Toulza, FSSPX

 

Como explicar o declínio da evangelização na Europa? A rigor, a resposta a essa pergunta é que qualquer decréscimo no Cristianismo tem como sua causa, ao menos na porção adulta que afeta, uma falta de cooperação com a ação de Deus. De fato, a graça nunca falta; se a evangelização não se consuma, então isso se dá porque o homem, a quem ela está destinada, apresentou um obstáculo a ela. A descristianização ocorre quando, em um grupo humano, uma proporção crescente de almas não mais adere à fé ou, embora se mantendo católica, negligencia seu progresso em direção a Deus ou mesmo abandona a fé (ou a vida católica). Durante o iluminismo, o filósofo Julien de la Mettrie (1709-1751) foi um desses casos; ele nasceu em uma família católica na Bretanha, e seu pai achava que ele poderia ser um Padre. Ele preferiu dedicar-se ao estudo da medicina, o que o levou ao materialismo, ao ateísmo e ao libertinismo; ele espalhou essas convicções em seus escritos e entrou para a história como um exemplo lamentável de secularização. Aqueles responsáveis pela descristianização são, portanto, homens como ele e outros que rejeitam, em maior ou menor grau, para si mesmos ou para aqueles sob seus auspícios conforme o caso, as exigências do Reinado de Cristo.

Essa explicação põe a culpa em várias portas de entrada e, portanto, não é muito específica. Por essa razão, muitos preferem explicar essa descristianização não pelas suas verdadeiras causas, que devem ser buscadas nas almas, mas por aquilo que incita as almas a se afastarem de Cristo. Algumas dessas causas começaram a agir em Pentecostes: o demônio e o mundo. Outras causas estão mais intimamente conectadas a circunstâncias específicas, e são essas causas que nos interessam: quais delas levaram à secularização da Europa?

 

O pensamento moderno

Uma realidade tão complexa quanto a descristianização e realizada em um continente inteiro ao longo de vários séculos, necessariamente, é resultado de diversas causas: a perda das raízes [de um povo] devido à industrialização, a subversão das sociedades intelectuais, o apoio eclesiástico à escravidão, o avanço do hedonismo, etc. E alguns fatores trabalharam no sentido de promover outros fatores. Porém, o consenso geral é que a principal causa da descristianização é a modernidade. A começar com o Renascimento, a Europa pensou que estava redescobrindo a grandeza da natureza humana que o teocentrismo medieval, supostamente, havia escondido. Havia dúvida quanto a se a raça humana realmente tinha o pecado original e se o homem realmente precisava bater no próprio peito. Então, com o ímpeto da reforma protestante, toda autoridade religiosa parecia perigosa à liberdade; seguindo Rousseau e, após, Kant, a Europa divinizou a autonomia do homem. Assim como Descartes, no Século XVII, havia recusado argumentos que apelassem à autoridade na Filosofia, os pensadores modernos questionaram o dogma; eles não tinham mais a fé da mãe de Villon. No fim, levantes políticos como aqueles de 1789 desafiaram as instituições. Pedia-se liberdade de expressão do pensamento. A aliança entre o trono e o altar era denunciada. Padres eram suspeitos de serem gananciosos e o jugo da moralidade foi jogado fora; o ódio de Voltaire se espalhava. A diversidade religiosa, mesmo aquela entre católicos e protestantes, tornou-se um pretexto para rejeitar a autoridade dos Padres; havia tantas religiões na terra… o fato do Catolicismo ser a religião de nossos pais bastava para torná-lo mais crível que as outras?

Os direitos humanos eram opostos à “intolerância” do passado, a razão à fé, a independência à lei. Essas ideias modernas encorajavam as almas e as instituições a se afastarem da religião tradicional. O resultado é que, hoje, como Danièle Hervieu-Léger escreve, “o Catolicismo, que era a matriz social, política e cultural do mundo ocidental, hoje, até mesmo nas áreas onde ele desenvolve seu poder civilizatório, é cada vez mais ostracizado às margens da vida social. É apenas uma questão privada de um número cada vez menor de indivíduos; ele não mais molda profundamente as condutas e as consciências”

A modernidade não é o único problema; a descristianização também tem sido atribuída ao progresso científico e tecnológico. Isso tem fundamento? É verdade que, nos Séculos XVI e XVII, o conhecimento humano da natureza progrediu; muitas descobertas foram feitas na astronomia, na mecânica e na geografia; os homens pararam de atribuir a seres espirituais os fenômenos que, agora, a ciência era capaz de explicar. Atenágoras e São Tomás haviam, por exemplo, atribuído o movimento das estrelas à ação dos anjos, mas, agora, a gravitação universal explicava esse movimento e parecia desacreditar a Teologia. Ao mesmo tempo, a imprensa, instrumentos ópticos e, mais tarde, o motor a vapor aumentaram o domínio humano sobre a natureza. As condições de vida melhoraram, o que colocou em parênteses a esperança na vida eterna. A ciência médica, em breve, seria capaz de proteger os homens da praga; eles realmente precisavam rezar? Primeiro os meios de transporte e, depois, as comunicações tornaram-se mais rápidos e levaram a contatos com outras civilizações, que viam nossa religião de uma perspectiva diferente. Em suma, o progresso científico e tecnológico não apenas estavam em conformidade com o pensamento moderno, eles também o ajudaram a florescer. Apesar disso, eles não eram mais que uma oportunidade favorável à descristianização, e não sua verdadeira causa; pois a ciência, em si mesma, não se opõe à religião. Além disso, ainda que o pensamento moderno tivesse sido impedido de florescer por alguma razão, o progresso científico e tecnológico ainda teria sido realizado, assim como aconteceu na Idade Média cristã. A descristianização da Europa não teve outra causa principal senão o crescimento da modernidade.

Qual foi a atitude da Igreja diante dele? Primeiramente, ela o deplorou. O edifício da Europa cristã estava rachando, suas paredes estavam desabando, ela ameaçava ruir; para o Corpo Místico de Cristo, era um golpe ao panorama da fé sobrenatural. O destino de São Thomas More foi emblemático desse tempo. Chanceler do Rei da Inglaterra, ele rejeitou a nova lei promulgada pela Coroa que separava o país da unidade da Igreja. Por isso, ele foi aprisionado na Torre de Londres até seu julgamento; terminou sendo decapitado, assim como Cosme, Damião e Cecília séculos antes. Em 1535, durante essas provações, ele escreveu um livro no qual contemplava A Tristeza de Cristo no Jardim das Oliveiras. Suas meditações também expressam sua própria tristeza diante da morte. Pode-se ver, nelas, também, a tristeza da Igreja face à descristianização da Europa, uma descristianização na qual o cisma que se formava do outro lado do Canal era um passo que levaria a Inglaterra ao anglicanismo. Mas a Igreja não se limitou a deplorar a perda de influência. Ela reagiu, e a história de sua ação compõe-se de duas grandes fases. Da reforma até o Vaticano II, a Igreja se opôs à modernidade. Após o Concílio, ela escolheu uma nova atitude. Passemos a analisar essas duas fases.

 

Oposição inicial

Até metade do Século XX, a apreensão da Igreja face à secularização se expressava, acima de tudo, nos documentos do Magistério. Eles revelam que, entre 1517 e 1965, o julgamento da Santa Sé sobre a modernidade era severo. Do Século XIX em diante, a maioria desses documentos eram encíclicas. Elas todas se baseiam numa arquitetura razoavelmente semelhante, da qual a Quanta Cura de Pio IX é um bom exemplo. Nesse texto, escrito em 1864, o Papa descreve o nascimento de uma nova ideia sobre o papel da religião na sociedade; ele deplorava o naturalismo dessa ideia e respondeu a ela com os ensinamentos tradicionais sobre os direitos públicos da Igreja. Pio IX baseava sua encíclica em dois pressupostos:

1. A secularização vem do erro e do mal. Quanta Cura estigmatizava as “calúnias dos hereges”, os “livros venenosos”, as “doutrinas ímpas”, as “iníquas maquinações dos malvados” e as “monstruosas opiniões”. O que levou Pio IX a ser tão severo foi o fato de que, 16 anos antes, forças revolucionárias o haviam despojado de uma parte dos Estados Papais. Em Novembro de 1848, o chefe de governo da Santa Sé, Pellegrino Rossi, até mesmo foi assassinado por rebeldes quando o Palácio do Quirinal foi cercado pelos seguidores de Giuseppe Mazzini. O Papa teve de fugir à noite. Pio IX sentiu a revolução na própria pele.

2. A oposição da Igreja à modernidade é justa, e os meios usados nessa oposição sempre foram prudentes. Na visão de Pio IX, seus predecessores “nada cuidaram tanto como descobrir e condenar […] todas as heresias e erros” com “apostólica fortaleza”, e ele desejava seguir “os passos ilustres de Nossos Predecessores”. Nem Pio IX, nem os outros pontífices se arrependeram da oposição da Igreja à modernidade. Eles convidavam os Bispos a rezar, a serem cautelosos na escolha dos candidatos ao sacerdócio, a pregar a verdade ainda mais, a refutar os erros, a recuperar as almas; eles proibiram publicações más e impuseram sanção após sanção. Mais tarde, Leão XIII optaria por um tom menos virulento em seus ensinamentos. Nenhum Papa agiu exatamente da mesma maneira que os outros, mas todos eles eram unânimes nesses dois pressupostos.

Alguns podem alegar que houve tréguas nesse confronto entre a Igreja e a modernidade. Por exemplo, Leão XIII pediu aos católicos franceses que apoiassem a República; Pio XI condenou a Action Française; Pio XII deu discursos de rádio modernos; outras concessões podem ser mencionadas também… Essas observações são verdadeiras; apesar disso, de Leão X a Pio XII, a conduta da Igreja, de modo geral, foi constante.

 

A grande tormenta

No começo do pontificado de João XXIII, essa descristianização ainda era causa de preocupação. Dom Marcel Lefebvre adentrou o anfiteatro conciliar em 1962 indagando-se sobre como a contra-atacar. Pois o seu tempo como Bispo em Tulle havia aberto os olhos do ex-missionário na África para a realidade da Europa: seminários vazios, clero desanimado, igrejas quase sem fiéis. A perseverança da juventude era causa especial de preocupação para os padres paroquianos. Já em 1938, François Mauriac havia escrito: “A primeira comunhão de uma criança é o sinal oficial e reconhecido de que ela vai abandonar Cristo e a Igreja”

O que tinha de ser feito? Essa questão preocupou os padres do Vaticano II, e um texto sobre as relações da Igreja com o mundo foi preparado. Ele levou à constituição Gaudium et Spes: nela, o Concílio promulgou um ponto de virada na conduta da Igreja. De acordo com certos Padres Conciliares, a oposição entre a Igreja e o mundo não apenas não havia solucionado o distanciamento entre os homens e a religião, mas havia aumentado ainda mais essa realidade. A Igreja havia perdido o apoio do poder secular, e, agora, ela precisava encontrar uma nova forma de se equilibrar; ela havia perdido a confiança das pessoas e precisava tornar-se mais atraente. Em suma, a Igreja precisava adaptar-se à situação. Bento XVI fala sobre essa ação: “O Catolicismo, que havia construído e adornado o mundo ocidental, parecia, cada vez mais, perder sua força. Ele parecia esgotado, e o futuro parecia estar destinado a ser governado por outras forças espirituais. Essa sensação de perda do presente por parte do Catolicismo e a tarefa que decorria dela foi bem expressada pelo termo aggionarmento. O Cristianismo precisava estar no presente, para ser capaz de formar o futuro”. Os Papas do Concílio delinearam, em essência, o caminho a ser seguido. No discurso inaugural de 1962, João XXIII insistiu que o passado não havia sido tão maravilhoso quanto eles haviam pensado, nem os tempos presentes tão ruins quanto eles haviam considerado, paradoxalmente unindo o conhecimento da secularização com um otimismo oculto; ele concluiu com a promessa de que, dali em diante, a Igreja seria mais misericordiosa. No discurso de encerramento de 1965, Paulo VI louvou o que ele acreditava que a Igreja tinha em comum com o humanismo contemporâneo: o culto do homem. Esses discursos, em conjunto com os textos do Concílio, definiram a nova atitude. Os dois pressupostos anteriores foram abandonados e substituídos por dois pressupostos, estes contrários:

1. Nem tudo na modernidade era falso ou mau. Muitas das aspirações dos homens eram justas. A severidade do julgamento da Igreja sobre o mundo foi substituída por um otimismo benevolente para obter uma reconciliação.

2. Na oposição histórica da Igreja ao mundo moderno, certas posturas haviam sido contrárias ao Evangelho e demandavam arrependimento.

Baseada nesses dois pressupostos, a nova postura da Igreja viria a afetar os três poderes eclesiásticos:

1. O Magistério: ele deveria denunciar menos os erros e enfatizar mais os elementos convergentes do Catolicismo com as culturas nas quais ele era forçado a viver; o primeiro desses elementos era a convicção de que o homem é bom. O diálogo entre religiões tornou-se uma palavra de ordem do Magistério. Abertura ao mundo.

2. Os sacramentos: decidiu-se que os ritos seriam reformados para os tornar mais aceitáveis aos nossos tempos, menos austeros e mais populares. A fronteira clara entre o profano e o sagrado foi questionada.

3. As leis da Igreja: elas se tornaram menos numerosas, menos repressivas à natureza humana, e as autoridades se mostrariam, dali em diante, mais flexíveis no controle da fidelidade a essas leis.

Nem tudo foi definido no Concílio, mas tudo foi expressado ou experimentado em decorrência dele. Parte das atividades paroquiais estaria, dali em diante, direcionada à criação de um ´mundo mais justo´. Juntamente com outras religiões e os governos, a Igreja tinha a intenção de combater a desigualdade econômica, trabalhar pela paz e promover os direitos humanos. A Teologia do Papa Wojtyla deu a esses objetivos uma densidade intelectual. Enquanto regimes totalitários causavam grandes desgraças a várias nações, João Paulo II explicava que a pessoa humana era o alfa e o ômega do governo. Seu personalismo foi visto como uma maneira de escapar do coletivismo.

 

O fim de Cristo Rei

Como sinal dessa amizade com a modernidade, o conceito de Cristandade foi abandonado. Essa decisão não foi uma mera coincidência. De fato, a aliança entre o altar e o trono havia sido uma força inestimável na oposição às ideias modernas, mas essas ideias não eram mais demonizadas. E o Catolicismo, enquanto religião do Estado, não era mais conducente à liberdade e soberania do povo.

Cristo, portanto, foi destronado. Até o começo do Século XX, a missão recebida d´Ele aplicava-se ao homem nas três dimensões que Deus lhe havia dado na criação: como indivíduo, como membro de uma família e como um cidadão. Os Padres liberais haviam negado a terceira dimensão. Eles proclamaram a liberdade religiosa (Dignitatis Humanae); o Vaticano II não foi além disso, ele não chegou a apoiar a neutralidade religiosa do Estado. Mas o Papa e os Bispos encerraram o trabalho depois dele. Eles assentiram à descristianização dos governos que já havia sido imposta à Igreja aqui e ali. Ela errou -- alegaram eles -- ao se envolver na política. Teodósio foi julgado e condenado, digamos assim. O historiador Jean Delumeau chegou a dizer que a Cristandade havia sido maléfica à fé, pois a religião de nossos ancestrais era frágil, e sua fidelidade aos mandamentos, rara! A Cristandade havia fracassado; na verdade, ela era responsável por esse fracasso: “A presente descristianização é, em grande parte, o preço a se pagar por aquela enorme aberração que durou um milênio e meio”

Delumeau estava, apenas, seguindo o rumo indicado pelas autoridades da Igreja. Esse novo rumo era como um tapa na cara dado por Paulo VI em Pio IX e seus predecessores. Pois, até 1965, se a religião causava alguma oposição, era uma oposição entre a Igreja e o mundo. Mas, com 1965, uma nova oposição nasceu, uma oposição entre aqueles que aderem ao passado da Igreja – e Dom Lefebvre estava entre eles – e aqueles que não mais o fazem.

(The Angelus, Set-Out 2020. Tradução: Permanência)

Introdução ao terceiro domingo do advento

“Eu sou, diz João Batista, a voz do que clama no deserto:
endireitai o caminho do Senhor. ”
(Jo 1, 23)

[ Paramentos roxos ou cor de rosa ]

São João Batista é, com Isaías e a SS. Virgem, uma das três grandes figuras que enchem o Advento. Ao mesmo tempo Profeta do Messias (o último dos Profetas) e testemunha de Cristo (foi o primeiro a pregar às multidões a sua vinda).

S. João Batista suscitado por Deus para preparar os caminhos do Senhor continua como outrora a cumprir a sua missão junto de nós. A Santa Igreja compraz-se em repetir-nos o testemunho do Precursor, as suas exortações à penitência, e apontando-o como exemplo de profunda humildade. Como os homens o tomassem por Cristo, humilhou-se até o ponto de se declarar indigno de desatar os cordões de seus sapatos. As suas exortações conservam ainda hoje toda a importância. O Salvador, que para nós já veio, está para vir ainda a muitas almas que continuam a ignorá-lo. Nós mesmos devemos recebe-lo cada vez mais em nossas almas. Na festa do Natal realiza-se a nossa filiação divina. Além disso, devemos preparar-nos para a última vinda do Senhor, em que Ele virá julgar-nos sobre a maneira como O recebemos neste mundo. A Igreja prepara-nos assim para a festa do Natal e também para essa última vinda de Jesus. A grande alegria dos cristãos à qual nos convida a Igreja, é a de sentirmos que o dia do Senhor se aproxima, dia em que virá cheio de glória para nos introduzir consigo na cidade celeste. Façamos votos para que o Natal nos prepare para este grande dia que o Apóstolo diz estar próximo, e para que ele se realize depressa. Todas estas aspirações do Advento, estes “Vinde”, são como que o eco dos Profetas e daquele “Veni” com que S. João termina o Apocalipse: “Vinde Senhor Jesus” é a última palavra do Novo Testamento. Como sinal de alegria, tocam-se os órgãos à Missa solene e o sacerdote pode usar paramentos cor de rosa, os quais simbolizam a alegria da Jerusalém celeste — Alegra-te Jerusalém, com grande alegria, porque a ti virá o Salvador, aleluia (2ª ant. de Vésperas). “Per adventum tuum libera nos, Domine”, cantamos nós nas Ladainhas de todos os Santos.

Do Intróito: O povo de Jacó libertado do cativeiro de Babilônia é uma figura do povo cristão libertado por Jesus da escravidão do pecado.

Da Epístola: S. Paulo exorta os fiéis a alegrarem-se com o pensamento da última vinda de Jesus para a qual, preparando-nos também para celebrarmos o aniversário da primeira vinda, nos prepara o Advento.

Do Evangelho: A esperança da vinda do Messias era tão grande, que todos o desejavam ver aparecer. S. João Batista foi obrigado a defender-se, declarando não ser ele o Messias.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

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