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Category: Pe. Félix Sardá y SalvanyConteúdo sindicalizado

Qual o problema do espiritismo?

Pe. Sarda y Salvany

Ao leitor

Este opúsculo não tem a pretensão de ser obra teológica ou filosófica, longe disso. É pura e simplesmente uma breve instrução caseira para o uso dos fiéis. Por isso, ao longo dele, e sobretudo na sua primeira parte, apela-se ao bom senso católico do leitor, mais do que a elevadas argumentações científicas. O espiritismo não precisa, para o seu deslustre, mais do que ser conhecido à luz das mais triviais noções da fé cristã e do sentido comum. Decidi, portanto, expô-lo sob estes dois pontos de vistas. Os que desejarem estudos mais profundos, poderão ler a obra excelente do Pe. Pailloux: Le magnétisme, le spiritisme et la possession, e também a série de artigos magníficos publicados em La Civiltà cattolica, e com o título: El espiritismo en el mundo moderno, traduzidos para o espanhol e editados em Lugo, casa editorial de Soto. (Continue a ler)

Da caridade nas chamadas “formas de polêmica”

 

Louis Veuillot

Pe. Félix Sardá y Salvani

(...) Ele [o liberalismo] prefere acusar incessantemente os católicos de serem pouco caridosos em suas formas de propaganda. É neste ponto, como dissemos, que certos católicos, bons no fundo, mas contaminados da maldita peste liberal, costumam insistir contra nós.

Vejamos o que dizer sobre isso. Nós, católicos, temos razão neste ponto como nos demais, ao passo que os liberais não têm nem sombra dela. Para nos convencermos disso analisemos as seguintes considerações:

1°) O católico pode tratar abertamente o seu adversário de liberal, se ele o é de fato; ninguém porá em dúvida esta proposição. Se um autor, jornalista ou deputado começa a jactar-se de liberalismo e não trata de ocultar suas preferências liberais, que injúria se faz em chamá-lo de liberal? É um princípio do Direito: Si palam res est, repetitio injuriam non est: "Não é injúria repetir o que está à vista de todos". Muito menos em dizer do próximo o que ele diz de si mesmo a toda hora. Entretanto, quantos liberais, particularmente os do grupo dos mansos ou temperados, consideram grande injúria que um adversário católico os chame de liberais ou de amigos do liberalismo?

O liberalismo de todo matiz e caráter foi já formalmente condenado pela Igreja?

 

Pe. Félix Sardá y Salvany

 

Sim, o liberalismo, em todos os seus graus e em todas as suas formas, foi formalmente condenado; de modo que, além das razões de malícia intrínseca que o fazem mau e criminoso, todo fiel católico tem acesso à suprema e definitiva declaração da Igreja a respeito do liberalismo: ela o julgou e anatematizou. Não se podia permitir que um erro de tal transcendência deixasse de ser incluído no catálogo das doutrinas oficialmente reprovadas, e aliás foi ele incluído em várias ocasiões.

Já quando apareceu na França, durante sua primeira Revolução, a famosa Declaração dos Direitos do Homem, que continha em germe todos os desatinos do moderno liberalismo, foi condenada por Pio VI.

Mais tarde, essa doutrina funesta foi desenvolvida e aceita por quase todos os governos da Europa, até pelos príncipes soberanos, o que é uma das mais terríveis cegueiras que ofereceu a história das monarquias. Tomou em Espanha o nome pelo qual hoje é conhecida em toda parte: liberalismo.

6. Do chamado liberalismo católico ou catolicismo liberal

De todas as inconseqüências e antinomias que se encontram nos graus médios do liberalismo, a mais repugnante e odiosa é a que pretende nada menos que unir o liberalismo com o catolicismo, para formar o que se conhece na história dos modernos desvarios pelo nome de “liberalismo católico” ou “catolicismo liberal”. E todavia ilustres inteligências e honradíssimos corações, que não podemos crer mal-intencionados, pagaram tributo a esta absurdidade! O liberalismo teve sua época de moda e prestígio que, graças ao céu, vai passando ou já passou.

Nasceu este funesto erro de um desejo exagerado de conciliar e pacificar a coexistência de doutrinas forçosamente inconciliáveis e inimigas por sua própria essência.

O liberalismo é o dogma da independência absoluta da razão individual e social. O catolicismo é o dogma da sujeição absoluta da razão individual e social à lei de Deus.

Como conciliar o sim e o não de doutrinas tão opostas?

Isto pareceu fácil aos fundadores do liberalismo católico. Alegaram uma razão individual, sujeita à lei do Evangelho, e inventaram uma razão pública ou social, coexistente com ela e livre de todo entrave. Disseram: “O Estado como tal não deve ter Religião, ou deve tê-la somente até certo ponto, que não disturbe os que não queiram tê-la”. Assim, o cidadão particular deve sujeitar-se à revelação de Jesus Cristo, mas por sua vez o homem público pode comportar-se como se a revelação não existisse. Deste modo compuseram a célebre fórmula: “Igreja livre no Estado livre”. Fórmula para cuja propagação e defesa se juramentaram na França vários católicos insignes, e entre eles um ilustre bispo 1.

Esta fórmula devia ser suspeita, desde que Cavour a tomou como divisa da revolução italiana contra o poder temporal da Santa Sé, porém nenhum de seus autores ainda se retratou formalmente, segundo sabemos, malgrado o seu evidente fracasso.

Esses ilustres sofistas não viram que, se a razão individual tem a obrigação de submeter-se à lei de Deus, a razão pública e social não pode dela se subtrair, sem cair num dualismo extravagante, que submete o homem à lei de dois critérios opostos e de duas consciências opostas. De modo que a distinção do homem privado e do homem público, o primeiro obrigado a ser cristão, e o segundo autorizado a ser ateu, cai imediatamente ao chão sob o peso esmagador da lógica integralmente católica. O Syllabus, do qual falaremos adiante, acabou de afundar esta tese, sem chance de remissão. Resta ainda desta brilhante mas funestíssima escola um e outro discípulo tardio, que já não se atreve a sustentar publicamente a teoria católico-liberal da qual foram em outros tempos fervorosos panegiristas, mas à qual ainda seguem obedecendo na prática; talvez, não se dão conta de que querem pescar com redes que, de tão conhecidas e usadas, o diabo já mandou recolher.

  1. 1. Alusão à famosa reunião presidida por Dom Félix Dupanloup no castelo de la Roche-em-Breny, na Borgonha, na casa de Montalembert, que colocará em seguida, ele mesmo, na sua capela privada, a seguinte inscrição: “Neste oratório, Félix, Bispo de Orléans, distribuiu o pão da palavra e o pão da vida cristão a um pequeno rebanho de amigos que, depois de longo tempo acostumados a combater juntos pela Igreja livre na pátria livre, renovaram o pacto de consagrar o resto de suas vidas a Deus e à liberdade. 12 de outubro de 1862.”

    Estavam presentes: Alfredo, conde de Falloux, Théophile Foisset, Augustin Cochin, Charles de Montalembert; ausente de corpo mas presente de espírito: Alberto, príncipe de Broglie.

5. Dos diferentes graus que podem existir e existem na unidade específica do Liberalismo

O liberalismo, como sistema de doutrinas, pode ser chamado de escola; como organização de adeptos para difundi-las e propagá-las, de seita; como agrupamento de homens dedicados a fazê-las prevalecer na esfera do direito público, de partido. Mas, quer se considere o liberalismo como escola, seita, ou partido, vê-se que ele oferece, dentro de sua unidade lógica e específica, diferentes graus ou matizes que o teólogo católico deve estudar e expor.

Antes de tudo, convém notar que o liberalismo é uno, isto é, constitui um organismo de erros perfeita e logicamente encadeados, motivo pelo qual o chamamos de sistema. Com efeito, se partirmos do seu princípio fundamental, a saber, que o homem e a sociedade são perfeitamente autônomos ou livres, com absoluta independência de qualquer outro critério natural ou sobrenatural que não seja o individual, chegaremos, por uma perfeita dedução de conseqüências, a tudo aquilo que a demagogia mais avançada proclama em seu nome.

A Revolução não tem nada de grande, a não ser sua inflexível lógica. Até os seus atos mais despóticos, executados em nome da liberdade, e que à primeira vista tachamos de inconseqüências monstruosas, obedecem a uma elevadíssima lógica. Porque se a sociedade reconhece como única lei social a opinião da maioria, não admitindo outro critério ou regulador, como se pode negar ao Estado o direito absoluto de cometer todo tipo de atropelo contra a Igreja, todas as vezes que, segundo seu único critério social, achar conveniente fazê-lo?

Admitindo-se que a maioria tem sempre razão, admite-se também que a única lei é a do mais forte, e assim, muito logicamente, se pode chegar até as últimas brutalidades.

Entretanto, apesar dessa unidade lógica do sistema, os homens não são sempre lógicos, e isto produz dentro dessa unidade a mais assombrosa variedade ou gradação de tintas. As doutrinas derivam necessariamente e por virtude própria umas das outras; mas os homens, ao aplicá-las, são em geral ilógicos e inconseqüentes.

Se os homens levassem até as últimas conseqüências seus princípios, eles seriam todos santos, quando os princípios fossem bons; e todos demônios do inferno, quando os princípios fossem maus.

É a inconseqüência que faz meio bons os homens bons, e meio maus os homens maus.

Aplicando essas observações ao presente assunto do liberalismo, nós diremos que, pela graça de Deus, encontram-se relativamente poucos liberais completos; o que não impede que a maioria, ainda que não tenha atingido o último limite da depravação liberal, seja composta de verdadeiros liberais, ou seja, verdadeiros discípulos, partidários ou sectários do liberalismo (conforme se considere o liberalismo uma escola, seita ou partido).

Examinemos estas variedades da família liberal.

Há liberais que aceitam os princípios, mas fogem das conseqüências, pelo menos das mais cruas e extremas.

Outros aceitam uma ou outra conseqüência ou aplicação que lhes agrada, enquanto são escrupulosos em aceitar radicalmente os princípios.

Quiseram alguns o liberalismo aplicado tão somente ao ensino; outros, à economia; outros tão só às formas políticas.

Só os mais avançados pregam sua aplicação em tudo e para tudo. As atenuações e mutilações do credo liberal são tão numerosas  quanto numerosos são os favorecidos ou prejudicados por sua aplicação. Pois, geralmente, existe o erro de crer que o homem pensa com a inteligência, quando o usual é que pense com o coração, e muitas vezes ainda com o estômago.

Daí que os diferentes partidos liberais preguem o liberalismo em diversos graus, assim como o taberneiro serve aguardente em diversos graus, ao gosto do consumidor.

É por isso que não existe liberal para quem seu vizinho mais avançado não seja um brutal demagogo, ou seu vizinho menos avançado não seja um furioso reacionário. É questão de escala alcoólica e nada mais. Assim, tanto os que em Cádis batizaram hipocritamente em nome da Santíssima Trindade seu liberalismo, como os que, nestes últimos tempos, têm como lema o grito "Guerra a Deus!", ocupam degraus diferentes na escala liberal. E a prova disto é que todos aceitam e invocam o denominador comum de liberal.

O critério liberal ou independente é sempre o mesmo para todos, ainda que as aplicações sejam mais ou menos acentuadas de acordo com os indivíduos.

De que depende essa maior ou menor intensidade? Muitas vezes dos interesses; não poucas vezes do temperamento; de certos traços de educação que impedem alguns de darem os passos precipitados que outros dão; de respeitos humanos, talvez, ou de considerações de família; de relações e amizades etc., etc. Sem contar a tática satânica que às vezes aconselha o homem a não radicalizar uma idéia, a fim de não alarmar as pessoas, de torná-la mais viável e facilitar sua aplicação.

Essa maneira de proceder pode, sem juízo temerário, ser atribuída a certos liberais conservadores, entre os quais sob a máscara de conservadorismo se oculta, comumente, um franco demagogo.

Mas, nos “semi-liberais”, em geral, a caridade pode supor certa dose de candor e de natural bonhomie ou tolice, que, embora não os torne inimputáveis, como mostraremos depois, obriga, não obstante, que se tenha para com eles alguma compaixão.

Fica pois demonstrado, caro leitor, que o liberalismo é um só, ao passo que os liberais, assim como o mau vinho, têm diferentes cores e sabores.

4. Da especial gravidade do pecado do Liberalismo

Ensina a teologia católica que nem todos os pecados graves são igualmente graves, mesmo na condição essencial que os distingue dos pecados veniais.

Há graus no pecado, mesmo dentro da categoria dos pecados mortais, assim como há graus de boas obras dentro da categoria das boas obras e conformes à lei de Deus. A blasfêmia, por exemplo, que ataca diretamente a Deus, é um pecado mortal mais grave do que um pecado que ataca diretamente o homem, como o roubo.

Pois bem, à exceção do ódio formal contra Deus e da desesperação absoluta, que raríssimas vezes são cometidos pela criatura, a não ser no inferno, os pecados mais graves de todos são os pecados contra a fé. A razão é evidente. A fé é o fundamento de toda a ordem sobrenatural e o pecado é pecado enquanto ataca algum ponto dessa ordem sobrenatural; por conseguinte, o pecado máximo é aquele que ataca o fundamento primordial dessa ordem.

Um exemplo para aclarar: talha-se uma árvore, cortando-lhe algum de seus ramos. Quanto mais importante o ramo que se retira, maior será o dano. Se se cortar o tronco ou a raiz o dano será mais grave ou mortal. Santo Agostinho, citado por Santo Tomás, dá ao pecado contra a fé esta fórmula incontestável: Hoc est peccatum quo tenentur cuncta peccata — “Este é um pecado que contêm todos os pecados”.

O Doutor Angélico discorre sobre esse ponto com sua habitual clareza: “Tão mais grave é um pecado, quanto mais por ele o homem se separa de Deus. Pelo pecado contra a fé, o homem se separa o mais que pode de Deus, pois se priva de seu verdadeiro conhecimento; daí que, conclui o Santo Doutor, o pecado contra a fé é o maior que se conhece.” 1

Porém, o pecado contra a fé é ainda mais grave quando não é simplesmente uma ausência culpável dessa virtude e desse conhecimento de Deus, mas negação e ataque formal aos dogmas expressamente definidos pela revelação divina. Neste caso, o pecado contra a fé, em si gravíssimo, adquire uma gravidade ainda maior, que constitui o que se chama “heresia”. Ele inclui toda a malícia da infidelidade, além de um protesto expresso contra um ensinamento da fé que, sendo falso e errôneo, é condenado pela mesma fé. Esse pecado gravíssimo contra a fé é agravado pela obstinação e contumácia, e por uma preferência orgulhosa: a da razão própria à razão de Deus.

Portanto as doutrinas heréticas e as obras heréticas constituem o maior pecado de todos, à exceção do ódio formal a Deus, ódio de que são capazes, como já dissemos, apenas os demônios e os condenados.

Por conseguinte o liberalismo, que é uma heresia, e as obras liberais, que são obras heréticas, são os pecados máximos que conhece o código da fé cristã.

Desta maneira, salvo os casos de boa-fé, de ignorância e de indeliberação, o fato de ser liberal constitui um pecado maior do que ser blasfemo, ladrão, adúltero, homicida, ou qualquer outra coisa que proíba a lei de Deus e que castigue sua justiça infinita.

O moderno naturalismo não o entende assim, é verdade. Mas as leis dos Estados católicos sempre o creram assim, até o advento da presente era liberal. A lei da Igreja assim prossegue ensinando, e assim continua julgando o tribunal de Deus. Sim, a heresia e as obras heréticas são os piores pecados de todos, e, portanto, o liberalismo e os atos liberais são, ex genere suo, o mal acima de todo mal.

  1. 1. II-II, q.10, a.3.

3. Se o Liberalismo é pecado, e que pecado é.

O liberalismo é pecado, seja considerado na ordem das doutrinas, seja na ordem dos fatos.

Na ordem das doutrinas, é pecado grave contra a fé, porque suas doutrinas são uma heresia.

Na ordem dos fatos, é pecado contra os mandamentos da lei de Deus e de sua Igreja, porque infringe a todos. Para esclarecer: na ordem das doutrinas, o liberalismo é a heresia radical e universal, porque compreende todas as heresias. Na ordem dos fatos, é a infração radical e universal da lei de Deus, porque autoriza e sanciona todas as outras infrações.

Procedamos por partes na demonstração.

Na ordem das doutrinas o liberalismo é uma heresia. Heresia é toda doutrina que nega formalmente e de maneira pertinaz um dogma da fé cristã. Ora, o liberalismo doutrinal começa por negar todos os dogmas do cristianismo em geral, e depois nega cada um deles em particular.

Ele os nega todos em geral quando afirma ou supõe a independência absoluta da razão individual no indivíduo, e da razão social ou critério público na sociedade.

Dizemos “afirma” ou “supõe", porque às vezes o princípio liberal não é afirmado nas conseqüências secundárias, mas tem-se já por suposto e admitido.

Ele nega a jurisdição absoluta de Cristo Deus sobre os indivíduos e as sociedades e, por conseqüência, nega a jurisdição delegada que o chefe visível da Igreja recebeu de Deus sobre todos e cada um dos fiéis, qualquer que seja sua condição e dignidade.

Nega a necessidade da revelação divina e a obrigação que tem o homem de admiti-la, se quer alcançar seu fim último.

Nega o motivo formal da fé, isto é, a autoridade de Deus que revela, admitindo da doutrina revelada apenas algumas verdades que seu curto entendimento alcança.

Nega o magistério infalível da Igreja e do Papa e, desta forma, nega todas as doutrinas definidas e ensinadas por eles.

E, depois dessa negação geral e em bloco, o liberalismo nega cada um dos dogmas, parcialmente ou por inteiro, à que medida que, segundo as circunstâncias, os encontra opostos ao seu juízo racionalista. Assim, por exemplo, ele nega a fé do batismo quando admite ou supõe a igualdade dos cultos; nega a santidade do matrimônio quando estabelece a doutrina do chamado matrimônio civil; nega a infalibilidade do Pontífice Romano quando recusa admitir como leis seus mandatos oficiais e seus ensinamentos, sujeitando-os ao seu exequatur, não para assegurar-se da autenticidade, como se praticava outrora, mas para julgar o seu conteúdo.

Na ordem dos fatos, o liberalismo é a imoralidade radical.

Ele o é porque destrói o princípio, ou regra fundamental de toda moral, que é a razão eterna de Deus impondo-se à razão humana; porque canoniza o absurdo princípio da moral independente, que é no fundo a moral sem lei, a moral livre, ou, o que é o mesmo, a moral que não é moral, pois a idéia de moral implica não só a idéia de direção, mas contém ainda essencialmente a idéia de refreio ou de limite. Ademais, o liberalismo é todo imoralidade, porque em seu processo histórico cometeu e sancionou como lícita a infração de todos os mandamentos, desde o que manda o culto de um só Deus, que é o primeiro do Decálogo, até o que prescreve o pagamento dos direitos temporais da Igreja e que é o último dos cinco que Ela promulgou1.

Pode-se dizer então que o liberalismo, na ordem das idéias, é o erro absoluto, e que na ordem dos fatos é a desordem absoluta. Por conseguinte, nos dois casos, é pecado grave, ex genero suo, pecado gravíssimo, pecado mortal.

  1. 1. Quinto Mandamento da Igreja: Ajudá-la em suas necessidades materiais.

2. Que é o liberalismo?

Ao estudar um objeto qualquer, depois da pergunta sobre sua existência, an sit?, faziam os antigos escolásticos a de sua natureza, quid sit? É desta que vamos nos ocupar no presente capítulo.

Que é o liberalismo?

Na ordem das idéias, é um conjunto de idéias falsas; na ordem dos fatos, é um conjunto de fatos criminosos, conseqüência prática daquelas idéias.

Na ordem das idéias, o liberalismo é o conjunto dos chamados princípios liberais, com as conseqüências lógicas que deles derivam. São princípios liberais: a absoluta soberania do indivíduo, com inteira independência de Deus e de sua autoridade; a soberania da sociedade, com absoluta independência do que não provenha dela mesma; a soberania popular, isto é, o direito do povo de legislar e governar com absoluta independência de todo critério que não seja o da sua própria vontade, expressa primeiro por sufrágio e depois pela maioria parlamentar; a liberdade de pensamento sem limites políticos, morais ou religiosos; a liberdade de imprensa, igualmente absoluta ou insuficientemente limitada; e a liberdade de associação também ilimitada.

São esses os princípios liberais em seu mais cru radicalismo.

O seu fundo comum é o racionalismo individual, o racionalismo político e o racionalismo social, de onde derivam: a liberdade de culto, mais ou menos restrita; a supremacia do Estado em suas relações com a Igreja; o ensino laico ou independente, sem laço algum com a religião; o matrimônio legislado e sancionado unicamente pela intervenção do Estado. Sua última palavra, que tudo abarca e sintetiza, é “secularização”, isto é, a não intervenção da religião em qualquer ato da vida pública, verdadeiro ateísmo social que é a conseqüência última do liberalismo.

Na ordem dos fatos, o liberalismo é um conjunto de obras inspiradas e reguladas por esses princípios; tais como as leis de desamortização[1]; a expulsão das ordens religiosas; os atentados de todo gênero — oficiais e extraoficiais — contra a liberdade da Igreja; a corrupção e o erro publicamente autorizados, seja na tribuna, na imprensa, nas diversões e nos costumes; a guerra sistemática contra o catolicismo e tudo o que é tachado de clericalismo, teocracia, ultramontanismo etc.

É impossível enumerar e classificar os atos que constituem a ação prática liberal, pois compreendem desde o ministro e o diplomata que legislam ou intrigam, até o demagogo que discursa no clube ou que assassina na rua; desde o tratado internacional ou a guerra iníqua, que usurpa do papa o seu principado temporal, até a mão que ambiciona o dote da monja ou que se apodera da candeia do altar; desde o livro pretensamente profundo e erudito que se passa como leitura na universidade, até a vil caricatura que faz a alegria dos bufões na taverna. O liberalismo prático é um mundo completo: tem suas máximas, modas, artes, literatura, diplomacia, leis, maquinações e atropelos. É o mundo de Lúcifer, disfarçado hoje sob o nome de liberalismo, e em oposição radical e guerra aberta com a sociedade dos filhos de Deus — a Igreja de Jesus Cristo.

Eis o liberalismo do ponto de vista da doutrina e da prática.

 


[1] Série de leis de confisco e desapropriação da propriedade visando, principalmente, à propriedade eclesiástica.

1. Existe hoje algo que se chama liberalismo?

Sem dúvida alguma, e a não ser que todos os homens de todas as nações da Europa e da América, regiões principalmente infestadas desta epidemia, tenham concordado em nos enganar ou nos fazer de enganados, seria desnecessário ocuparmo-nos em demonstrar a seguinte assertiva: existe hoje no mundo uma escola, um sistema, um partido, uma seita, ou chame-se como quiser, conhecida por seus amigos e por seus inimigos com o nome de liberalismo.

Os seus jornais, associações e governos qualificam-se abertamente de liberais. Seus adversários lançam-lhes ao rosto este nome e eles não protestam, se desculpam nem atenuam a acusação.

Mais ainda: lê-se diariamente que existem correntes liberais, tendências, reformas, projetos, personagens, datas e recordações, idéias e programas liberais. Em contrapartida, dá-se o nome de anti-liberalismo, clericalismo, reacionarismo ou ultramontanismo a tudo o que se opõe ao sentido dado à palavra “liberal”.

É, portanto, incontestável que existe atualmente uma certa coisa que se chama liberalismo e uma certa outra coisa que se chama anti-liberalismo. Como muito acertadamente já se disse, liberalismo é uma palavra de divisão, pois tem dividido o mundo em dois campos opostos.

Mas não é só uma palavra, pois a toda palavra corresponde uma idéia; nem é só uma idéia, pois a uma idéia corresponde de fato toda uma ordem de acontecimentos exteriores. Existe então o liberalismo, isto é, existem doutrinas liberais, obras liberais e, conseqüentemente, existem homens que professam doutrinas e praticam obras liberais. Ora, esses homens não são indivíduos isolados; eles vivem e trabalham como um grupo organizado com um fim comum, unanimemente aceito, sob a direção de chefes nos quais reconhecem o poder e a autoridade. O liberalismo, pois, não é apenas uma idéia, uma doutrina, uma obra, mas é sobretudo uma seita.

Portanto é evidente que quando tratamos de liberalismo e de liberais, não estudamos seres imaginários, puros conceitos intelectuais, mas realidades verdadeiras e palpáveis do mundo exterior. Bastante verdadeiras e palpáveis, infelizmente!

Sem dúvida nossos leitores terão observado que, em tempos de epidemia, a primeira preocupação que se manifesta é sempre a de sustentar que ela não existe. Não há lembrança, nas diferentes epidemias que nos afligiram no século presente ou nos séculos passados, de que uma só vez tenha deixado de se passar este fenômeno:

A enfermidade já devorou em silêncio grande número de vítimas e dizimou a população, quando enfim se começa a reconhecer que ela existe. Os comunicados oficiais têm sido por vezes os mais entusiasmados propagadores da mentira, e há casos em que a própria autoridade impôs até penas aos que afirmaram a realidade da epidemia.

O que se produz na ordem moral de que estamos tratando é análogo. Depois de cinqüenta anos ou mais vivendo em pleno liberalismo, ainda ouvimos pessoas respeitáveis nos perguntarem com assombrosa candidez: “Ah! Levas a sério essa de liberalismo? Não serão talvez apenas exageros do rancor político? Não valeria mais esquecer essa palavra que nos divide e nos indispõe uns contra os outros?”

Quando a infecção se difunde na atmosfera a ponto de a maior parte dos que a respiram se habituarem à contaminação e já não sentirem mais a infecção no ar, é sinal de um gravíssimo sintoma!

Logo o liberalismo existe, caro leitor; é um fato, e disto não te permitas nunca duvidar.

Introdução

Não te assustes, pio leitor, e não comeces desde o princípio a mostrar cara feia a este opúsculo. Não o rejeiteis com espanto ao folheá-lo, porque por mais abrasadas e candentes que sejam as questões que nele ventilamos, e iremos esclarecer nestas familiares e amistosas conferências, não queimarás teus dedos com elas, pois o fogo de que se trata aqui é metáfora e nada mais.

Já sei, e em tom de desculpa me dirás, que não és o único que sente invencível repulsa e profundo horror por essas matérias. Sei muito bem o quanto esta maneira de pensar e sentir tornou-se uma enfermidade, uma espécie de mania quase que geral. Mas, diz-me, em consciência: se fugimos das questões candentes, isto é, das questões vivas, palpitantes, contemporâneas e atuais, a que assuntos de verdadeiro interesse a controvérsia católica pode consagrar-se? A combater inimigos vencidos há séculos, e que como mortos e putrefatos, jazem esquecidos de todos no panteão da história? Ou a tratar a sério e com muita cortesia assuntos de hoje, é verdade, mas acerca dos quais não há nenhum desacordo na opinião pública, e nada de hostil aos direitos sagrados da verdade?

Por Deus! E será para isto que nós nos chamamos soldados, nós os católicos, e dizemos representar como exército a Igreja, e chamamos capitão a Nosso Senhor? É será essa a vida de luta a que somos sem cessar intimados, desde que pelo batismo e pela crisma fomos armados cavaleiros de tão gloriosa milícia? Será guerra de brincadeira em que se luta contra inimigos imaginários, com armas de festim e espadas sem ponta, a que somente se exige que brilhem e façam vão ruído, porém sem ferir nem causar nenhum prejuízo ao inimigo? 

Claro que não; porque se o catolicismo é a verdade divina, como de fato é, verdade e dolorosa verdade são também seus inimigos; verdade e sangrenta verdade, os combates que contra eles trava. Reais, portanto, e não pura fantasia de teatro, seus ataques e defesas. Verdadeiramente devemos nos lançar nessas empresas, verdadeiramente levá-las a cabo. Reais e verdadeiras devem ser, por conseguinte, as armas que se usem, reais e verdadeiros os  golpes e revezes que se deem, reais e verdadeiros as feridas que se causem ou recebam.

Se abro a história da Igreja, em todas as suas páginas encontro essa verdade escrita muitas vezes com letras de sangue. Jesus Cristo, nosso Deus, anatematizou com energia sem igual a corrupção judaica; e frente a frente com as mais delicadas preocupações nacionais e religiosas da sua época, hasteou a bandeira da sua pregação, pagando-a com a vida.

Os apóstolos, ao sair do Cenáculo em dia de Pentecostes, não hesitaram um só minuto em lançar em rosto dos príncipes e magistrados de Jerusalém o assassinato judicial do Salvador; e por ter ousado, naquele momento, tocar uma questão tão candente, foram de pronto açoitados, e depois mortos.

Desde então, todo herói de nosso glorioso exército tornou famosa a respectiva questão candente que lhe coube elucidar, a questão candente, a do dia e não a já fria e passada, que não interessa mais; nem a questão futura, que permanece nos segredos do porvir.

Os primeiros apologistas as elucidaram, no embate corpo a corpo com o paganismo coroado e sentado no trono imperial. Eram, portanto, questões candentes em que se arriscava a vida.

Atanásio, por exemplo, sofreu persecuções, desterros, fugas, ameaças de morte, excomunhões de falsos concílios, por causa da questão candentíssima do arianismo, que conturbou todo o mundo. E Agostinho, o grande campeão de todas as questões candentes do seu século, por acaso teve medo dos grandes problemas levantados pelos pelagianos, por que eram problemas de fogo?

Assim, de século em século, de época em época, a cada questão candente que o inimigo de Deus e do gênero humano traz incandescente das fornalhas infernais, a Providência suscita um homem, ou muitos homens que, como martelos de grande potência, batem fortemente nos erros candentes. Pois martelar sobre ferro candente é bom trabalho; e martelar sobre ferro frio é trabalhar em vão.

Martelo dos simoníacos e dos concubinários da Alemanha foi Gregório VII; Martelo de Averróis e dos falsos aristotélicos foi Tomás de Aquino; martelo de Abelardo foi Bernardo de Claraval; martelos dos albigenses foi Domingos de Gusmão, e assim até nossos dias. E se perderia muito tempo ao percorrer a história passo a passo para comprovar uma verdade que, de tão evidente, não merece discussão; mas, assim deve ser, por causa de tantos infelizes que, à força de levantar poeira, se empenham em obscurecer a própria evidência. 

Basta pois deste assunto, amigo leitor; e dando um pequeno passo a mais, te direi, em segredo, para que ninguém nos ouça, que assim como cada século teve suas questões candentes, também o nosso deve necessariamente ter as suas. E uma delas, a questão das questões, a questão maior, tão incandescente que não se pode tocá-la sem que solte fagulhas por todos os lados, é a questão do liberalismo.

"São muitos os perigos que corre a fé do povo nestes tempos”, disseram há pouco os sábios e valentes prelados da província eclesiástica de Burgos, “mas se resumem num só: que é, digamos assim, seu grande denominador comum: o naturalismo... Chame-se racionalismo, socialismo, revolução ou liberalismo, por sua maneira de ser e sua própria essência será sempre a negação franca ou artificiosa, mas radical, da fé cristã, e por conseguinte importa evitá-lo com diligência, assim como importa salvar as almas".

A questão candente de nosso século está oficialmente formulada nesta grave declaração. E, com ainda maior autoridade e claridade, pronunciou-se no mesmo sentido e repetidamente, em centenas de documentos, o grande Pio IX. Pronunciou-se assim também ao mundo, não com menos afinco, nosso atual Pontífice Leão XIII, na Encíclica Humanus Genus. Encíclica que deu, dá e dará o que falar, e que talvez não seja ainda a última palavra da Igreja de Deus sobre essas matérias.

E por que o liberalismo haveria de ter, sobre todas as demais heresias que o precederam, um privilégio especial de respeito e quase de inviolabilidade? Seria porque na negação radical e absoluta da soberania divina ele as resume e compreende todas? Seria porque mais que qualquer outra, estendeu sua infecção e gangrena por todo o corpo social? Ou seria porque, como justo castigo de nossos pecados, realizou o que jamais havia realizado nenhuma heresia: ser erro oficial, legalizado, entronizado nos conselhos dos príncipes e todo-poderoso no governo dos povos? Não, porque esses motivos são precisamente os que devem mover e forçar todo bom católico a pregar e sustentar contra o liberalismo, custe o que custar, aberta e generosa cruzada.

A este inimigo, a este lobo, temos nós, que recebemos do céu a missão de cooperar para a saúde espiritual do povo cristão, temos de gritar a todas as horas, seguindo a ordem do Pastor Universal.

A campanha está aberta, e esta série de breves e familiares conferências começada. Não será antes, porém, que eu tenha declarado que todas e cada uma das minha afirmações, nos menores detalhes, ficam sujeitas ao inapelável juízo da Igreja, único oráculo seguro de infalível verdade.

 

Sabadell, mês do Santíssimo Rosário,1884.

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