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Category: Pe. Félix Sardá y SalvanyConteúdo sindicalizado

Qual o problema do espiritismo?

Pe. Sarda y Salvany

Ao leitor

Este opúsculo não tem a pretensão de ser obra teológica ou filosófica, longe disso. É pura e simplesmente uma breve instrução caseira para o uso dos fiéis. Por isso, ao longo dele, e sobretudo na sua primeira parte, apela-se ao bom senso católico do leitor, mais do que a elevadas argumentações científicas. O espiritismo não precisa, para o seu deslustre, mais do que ser conhecido à luz das mais triviais noções da fé cristã e do sentido comum. Decidi, portanto, expô-lo sob estes dois pontos de vistas. Os que desejarem estudos mais profundos, poderão ler a obra excelente do Pe. Pailloux: Le magnétisme, le spiritisme et la possession, e também a série de artigos magníficos publicados em La Civiltà cattolica, e com o título: El espiritismo en el mundo moderno, traduzidos para o espanhol e editados em Lugo, casa editorial de Soto. (Continue a ler)

Da caridade nas chamadas “formas de polêmica”

 

Louis Veuillot

Pe. Félix Sardá y Salvani

(...) Ele [o liberalismo] prefere acusar incessantemente os católicos de serem pouco caridosos em suas formas de propaganda. É neste ponto, como dissemos, que certos católicos, bons no fundo, mas contaminados da maldita peste liberal, costumam insistir contra nós.

Vejamos o que dizer sobre isso. Nós, católicos, temos razão neste ponto como nos demais, ao passo que os liberais não têm nem sombra dela. Para nos convencermos disso analisemos as seguintes considerações:

1°) O católico pode tratar abertamente o seu adversário de liberal, se ele o é de fato; ninguém porá em dúvida esta proposição. Se um autor, jornalista ou deputado começa a jactar-se de liberalismo e não trata de ocultar suas preferências liberais, que injúria se faz em chamá-lo de liberal? É um princípio do Direito: Si palam res est, repetitio injuriam non est: "Não é injúria repetir o que está à vista de todos". Muito menos em dizer do próximo o que ele diz de si mesmo a toda hora. Entretanto, quantos liberais, particularmente os do grupo dos mansos ou temperados, consideram grande injúria que um adversário católico os chame de liberais ou de amigos do liberalismo?

O liberalismo de todo matiz e caráter foi já formalmente condenado pela Igreja?

 

Pe. Félix Sardá y Salvany

 

Sim, o liberalismo, em todos os seus graus e em todas as suas formas, foi formalmente condenado; de modo que, além das razões de malícia intrínseca que o fazem mau e criminoso, todo fiel católico tem acesso à suprema e definitiva declaração da Igreja a respeito do liberalismo: ela o julgou e anatematizou. Não se podia permitir que um erro de tal transcendência deixasse de ser incluído no catálogo das doutrinas oficialmente reprovadas, e aliás foi ele incluído em várias ocasiões.

Já quando apareceu na França, durante sua primeira Revolução, a famosa Declaração dos Direitos do Homem, que continha em germe todos os desatinos do moderno liberalismo, foi condenada por Pio VI.

Mais tarde, essa doutrina funesta foi desenvolvida e aceita por quase todos os governos da Europa, até pelos príncipes soberanos, o que é uma das mais terríveis cegueiras que ofereceu a história das monarquias. Tomou em Espanha o nome pelo qual hoje é conhecida em toda parte: liberalismo.

18. Sinais mais comuns para reconhecer se um livro, jornal ou pessoa está infectado ou somente manchado de liberalismo

Nesta variedade, ou melhor, confusão de matizes e meias-tintas que oferece a diversificada família do liberalismo, haverá sinais ou notas características com que se pode distinguir facilmente o liberal do não liberal? Eis outra questão também muito prática para o católico de hoje, e que de um modo ou de outro o teólogo moralista tem de resolver freqüentemente.

Para facilitar a solução, dividiremos os liberais (pessoas ou escritos) em três classes.

1° Liberais exaltados.

2° Liberais moderados.

3° Liberais impropriamente ditos, ou apenas eivados de liberalismo.

Ensaiemos uma descrição semi-fisiológica de cada um desses tipos. É um estudo que não carece de interesse.

O liberal exaltado se conhece de imediato, porque não trata de negar nem encobrir sua maldade. É inimigo formal do papa, dos padres, de toda gente da Igreja; basta que qualquer coisa seja sagrada para excitar seu ódio implacável. Dentre os jornais, procura os mais incendiários; vota nos candidatos mais abertamente ímpios; e de seu funesto sistema aceita até as últimas conseqüências. Glorifica-se de viver sem prática alguma de religião, e a duras penas a tolera em sua mulher e filhos. Costuma pertencer às seitas secretas, e quase sempre morre sem nenhum socorro da Igreja.

O liberal moderado costuma ser tão mau como o precedente, mas cuida bastante de não o parecer. As boas formas e as conveniências sociais são tudo para ele; salvo este ponto, o resto pouco lhe importa. Incendiar um convento parece demais para ele; apoderar-se do solar do convento incendiado, parece-lhe coisa muito mais normal e tolerável. Que um jornaleco qualquer, desses de bordel, venda suas blasfêmias em prosa, verso ou gravura a dez réis o exemplar, é um excesso que ele proibiria e até lamenta que um governo conservador não proíba; porém, que se digam absolutamente as mesmas coisas em frases cultas, em um livro bem impresso, ou em um drama de sonoros versos, sobretudo se o autor é acadêmico ou coisa semelhante, já não o acha inconveniente. Ouvir falar de clubes1 lhe dá calafrios e febre, porque ali, diz ele, se seduzem as massas e se subvertem os fundamentos da ordem social; mas, segundo ele, pode-se muito bem consentir na abertura de escolas livres; afinal, quem condenará a discussão científica dos problemas sociais? Escolas sem catecismo são um insulto à nação católica que paga por elas; mas uma universidade católica, ou seja, uma universidade inteiramente sujeita ao catecismo, ou mais exatamente ao critério da fé, devem ser relegadas aos tempos da Inquisição. O liberal moderado não detesta o papa; só desaprova certas pretensões da Cúria Romana e certos exageros do ultramontanismo2, que não condizem bem com as idéias de hoje. Ele gosta dos padres, sobretudo dos "esclarecidos", ou seja, dos que pensam à maneira moderna, como ele. Quanto aos fanáticos e reacionários, ele os evita ou deles se compadece. Vai à Igreja, e por vezes até mesmo se aproxima dos sacramentos; porém a sua máxima é que na Igreja se deve viver como cristão, mas fora dela convém viver conforme o século em que se nasceu e não se obstinar em remar contra a corrente. Navega assim entre duas águas, e costuma morrer com o sacerdote ao lado, porém com a biblioteca cheia de livros proibidos.

O católico simplesmente eivado de liberalismo se reconhece assim: Homem de bem e de práticas sinceramente religiosas, ele exala, não obstante, um odor de liberalismo em tudo o que diz, escreve, ou traz entre as mãos. Poderia dizer a seu modo, como Madame de Sevigné: "Não sou a rosa, mas estive perto dela, e peguei algo de seu perfume". Este bom homem fala e age como um liberal sem que se dê conta. O seu forte é a caridade, ele é a caridade em pessoa. Como detesta os exageros da imprensa ultramontana! Chamar mau um homem que difunde más idéias parece, aos olhos desse singular teólogo, pecado contra o Espírito Santo. Para ele não há senão extraviados. Não se deve resistir nem combater; o que se deve procurar sempre é atrair. "Afogar o mal com a abundância do bem", é sua fórmula favorita, que leu um dia em Balmes por acaso, e foi a única coisa que do grande filósofo catalão lhe ficou na memória. Do Evangelho, cita apenas os textos a sabor de açúcar e mel. Explica as terríveis invectivas contra o farisaísmo como excesso de gênio ou de zelo do divino Salvador. O que não o impede de se servir delas, e muito violentamente, contra os insuportáveis ultramontanos, que com seus exageros comprometem a cada dia a causa de uma religião que é toda paz e amor. Contra estes, o contaminado de liberalismo, normalmente tão doce, mostra-se acerbo e violento. Contra estes seu zelo é amargo, sua polêmica ácida, e sua caridade agressiva. A respeito dele exclamou o Pe. Félix, num discurso célebre a propósito das acusações de que era objeto a pessoa do grande Louis Veuillot: "Senhores, amemos e respeitemos até os nossos amigos". Mas não, nosso homem eivado de liberalismo não faz assim; guarda todos os tesouros da tolerância e da caridade liberal para os inimigos jurados da fé! É claro, de que outra maneira o infeliz os atrairá? Em troca, só tem o sarcasmo e a intolerância cruel para os mais heróicos defensores dessa mesma fé.

Em suma, o eivado de liberalismo não consegue compreender a oposição per diametrum3 de que fala Santo Inácio em seus Exercícios Espirituais. Não conhece outra tática senão a de atacar pelos flancos, tática que, em religião, costuma ser a mais cômoda, porém não a mais decisiva. Bem quisera ele vencer, mas à condição de não ferir o inimigo, nem lhe causar mortificação ou enfado. A palavra "guerra" irrita-lhe os nervos, mas ele se acomoda à discussão pacífica. Está pelos círculos liberais, onde se discursa e delibera, e não pelas associações ultramontanas, onde se dogmatiza e censura. Numa palavra, se pelos frutos se reconhece o liberal exaltado e o liberal moderado, é pelas afeições, principalmente, que se reconhecerá o eivado de liberalismo .

Por esses traços mal delineados, que não chegam a desenho ou esboço, e muito menos a verdadeiro e acabado retrato, será fácil discernir prontamente qualquer um dos tipos da família liberal, em suas diversas gradações.

Para resumir em poucas palavras o traço mais característico da fisionomia de cada um: o liberal exaltado ruge seu liberalismo; o liberal moderado o discursa; o pobre liberal eivado o suspira e o geme.

“Todos são maus”, como dizia dos seus pais aquele velhaco da fábula; porém, é preciso reconhecer que ao primeiro paraliza-o  muitas vezes seu próprio furor; ao terceiro a sua condição híbrida, por natureza estéril e infecunda. O segundo é o tipo satânico por excelência, o que em nossos tempos é verdadeira causa da devastação liberal.

  1. 1. Hoje diríamos, por exemplo, “grupos terroristas”.
  2. 2. No século XIX, essa corrente de pensamento representava os defensores do papa, que recusavam todo compromisso com o mundo saído da Revolução Francesa.
  3. 3. Diametralmente oposta.

17. Dos vários modos como, sem ser liberal, um católico pode tornar-se cúmplice do liberalismo

Um católico pode se tornar cúmplice do liberalismo de diversos modos, sem ser precisamente um liberal. Eis aqui um ponto prático, ainda mais prático que o anterior, e sobre o qual a consciência do fiel cristão nestes tempos deve estar cuidadosamente prevenida.

É certo que há pecados, de que nos fazemos culpados, não por verdadeira e direta comissão, mas por pura cumplicidade ou conivência com seus autores, sendo de tal natureza esta cumplicidade, que chega muitas vezes a igualar-se em gravidade ao ato pecaminoso diretamente cometido. Pode-se, pois, e deve aplicar-se ao pecado de liberalismo tudo quanto sobre esta questão da cumplicidade ensinam os autores de teologia moral.

Nosso objetivo é apenas deixar anotados aqui brevemente os principais modos pelos quais, acerca do liberalismo, se pode hoje tornar-se culpado por cumplicidade.

1° - Filiando-se formalmente a um partido liberal. É a maior cumplicidade nesta matéria, e mal se distingue da ação direta a que se refere. Há muitos que, em seu claro juízo, vêem toda a falsidade doutrinal do liberalismo, conhecem seus sinistros propósitos, e abominam sua detestável história. Mas por tradição de família, rancores hereditários, esperança de ganhos pessoais, reconhecimento de favores recebidos, temor de prejuízos que lhes possa sobrevir ou por outra causa qualquer, aceitam um posto no partido que sustenta tais doutrinas e propósitos, e permitem que sejam contados publicamente entre seus membros, e se honram com seu nome e trabalham sob sua bandeira.

Estes infelizes são os primeiros cúmplices, os grandes cúmplices de todas as iniqüidades do partido; e, mesmo sem conhecê-las detalhadamente, são verdadeiros co-autores delas e participam de sua imensa responsabilidade.

Assim, temos visto em nossa pátria verdadeiros homens de bem, excelentes pais de família, comerciantes ou artesãos honrados, figurar em partidos que trazem em seu programa usurpações e rapinas que nenhuma honradez humana pode justificar. São, pois, responsáveis diante de Deus por estes atentados, como o tal partido que os cometeu, sempre que esse partido os considere não como fatos acidentais, mas como um procedimento lógico do caminho que foi traçado. A honradez de tais sujeitos só serve para tornar mais grave esta cumplicidade, porque é claro que, se um partido mau fosse composto apenas de malvados, não haveria muito a temer dele. O horrível é o prestígio dado a um partido mau por pessoas relativamente boas, que o honram e recomendam figurando em suas fileiras.

2° - Sem estar formalmente filiados a um partido liberal, e mesmo declarando publicamente não pertencer a nenhum, tornam-se cúmplices ao manifestarem simpatias públicas por ele, elogiando seus personagens, defendendo ou desculpando seus jornais, tomando parte em seus festejos. A razão é evidente. O homem, sobretudo se vale alguma coisa por seu talento ou posição social, favoriza muito uma idéia qualquer quando se mostra em relações mais ou menos benévolas com seus fautores. Dá mais com seu prestígio pessoal do que se desse dinheiro, armas, ou qualquer outro auxílio material. Assim, por exemplo, um católico, sobretudo se é sacerdote, quando honra um jornal liberal com sua colaboração, o que faz é favorecê-lo com o prestígio de sua firma, ainda que com esta firma não defenda a parte má do jornal, e ainda que discorde publicamente desta mesma parte. Dir-se-á talvez que escrever ali é um meio de fazer com que muitos ouçam a voz da verdade, que em outro jornal não seria escutada. É verdade, mas por outro lado, a firma de um homem bom serve ali para abonar tal jornal à vista dos leitores pouco hábeis em distinguir as doutrinas de um artigo das de outro. Assim, o que se pretendia que fosse um contrapeso e uma compensação ao mal, se converte, para a maioria dos leitores, em uma efetiva recomendação dele. Mil vezes temos ouvido: "Será mau esse jornal? Ora, não escreve nele D. Fulano de tal?" Assim raciocina o vulgo, e vulgo é quase a totalidade do gênero humano. Por desgraça, é frequentíssima em nossos dias esta cumplicidade.

3° - Torna-se culpado de verdadeira cumplicidade quem vota em candidatos liberais, ainda que não se vote neles porque são liberais, mas por causa de suas opiniões em economia política, administração etc. Por mais que numa questão destas possa tal deputado estar de acordo com o catolicismo, é evidente que nas demais questões falará e votará segundo seu critério herético, e se tornará cúmplice de suas heresias quem o colocou na posição de escandalizar com elas o país.

4.º - É cumplicidade assinar um jornal liberal, ou recomendá-lo em um jornal de sã doutrina, ou lamentar seu desaparecimento ou sua suspensão pelas falsas razões de companheirismo ou de falsa cortesia. Ser assinante de um jornal liberal é dar dinheiro para fomentar o liberalismo. Mais ainda, é fazer com que, pelo exemplo, outro incauto se decida a lê-lo. É, além disso, ministrar à família e aos amigos da casa uma leitura mais ou menos envenenada. Quantos jornais maus seriam obrigados a renunciar da sua perniciosa e deplorável propaganda, se não fossem sustentados por assinantes tão ingênuos! O mesmo dizemos dos chavões dos jornalistas: "nosso estimado colega", ou aquela outra, de desejar-lhe "um grande número de assinaturas", ou a mais comum, "sentimos a perda do nosso colega", clichês usados quando se trata do primeiro número ou da suspensão de um jornal liberal. Não deve haver estes compadrios entre soldados de bandeiras tão opostas, como são a de Deus e a de Satanás. Ao cessar ou ser suspendido um jornal destes, deve-se dar graças a Deus, porque Sua Divina Majestade conta um inimigo a menos; e no dia de sua aparição, longe de saudar sua vinda, deve-se lamentá-la como uma calamidade.

5° - É cumplicidade administrar, imprimir, vender, distribuir, anunciar ou subvencionar jornais ou livros liberais, ainda que se o faça em conjunto com outros que são bons e ainda que seja por mera profissão, como meio material de ganhar o sustento diário.

6° - É cumplicidade dos pais de família, diretores espirituais, chefes de oficinas, professores e mestres, ficar em silêncio quando são perguntados sobre este tema, ou simplesmente não o explicar, quando têm a obrigação de ilustrar as consciências de seus subordinados.

7° - É cumplicidade às vezes ocultar suas boas convicções, dando assim ocasião de suspeitar que elas sejam más. Não se pode esquecer que há mil ocasiões em que é obrigação do cristão dar testemunho público da verdade, mesmo sem ser formalmente requerido.

8° - É cumplicidade comprar, sem autorização da Igreja, propriedades pertencentes ao clero ou obras de beneficência, ainda que a lei de desamortização as ponha em leilão, a não ser que sejam compradas para serem devolvidas ao legítimo dono. É cumplicidade remir foros eclesiásticos sem a permissão do verdadeiro senhor deles, ainda que se apresente muito lucrativa a operação. É cumplicidade intervir como agente em tais compras e vendas, publicar os anúncios de leilões, praticar corretagens etc. Todos estes atos trazem também consigo a obrigação de restituir na proporção do que com eles se contribuiu para a iníqua espoliação.

9° - É cumplicidade, de algum modo, emprestar a própria casa ou alugá-la para obras liberais, tais como: escolas laicas, clubes, redação de jornais liberais etc.

10° - É cumplicidade celebrar festas cívicas ou religiosas em homenagem a atos notoriamente liberais ou revolucionários; assistir voluntariamente a tais festas; celebrar exéquias patrióticas cujo caráter seja mais revolucionário que cristão; pronunciar elogios fúnebres de defuntos notoriamente liberais; adornar seus sepulcros com coroas e fitas etc. Quantos incautos terão vacilado na fé por essas causas!

Fazemos estas indicações compreendendo só as cumplicidades mais freqüentes nesta matéria. Elas podem variar tanto como os atos da vida do homem, que, por serem infinitos, são inclassificáveis.

Grave é a doutrina que acabamos de assentar; porém se a teologia moral é segura, aplicada a outros erros e crimes, por que será menos aplicável ao objeto de nosso atual exame?

16. Pode-se encontrar hoje o erro de boa-fé no liberalismo?

Falei acima de liberais de boa-fé, e me permiti exprimir uma dúvida sobre se existe ou não in rerum natura algum tipo desta raríssima família. Inclino-me a crer que poucos há, e que hoje o erro de boa-fé na questão do liberalismo, que poderia alguma vez tornar desculpável a sua profissão, é quase impossível. Não negarei porém em absoluto que um ou outro caso excepcional possa dar-se, porém defendo que será verdadeiramente um caso fenomenal.

Em todos os períodos históricos dominados por uma heresia, deram-se casos freqüentíssimos de um ou mais indivíduos que, arrastados de certa maneira pela torrente invasora, tornaram-se participantes da heresia, sem que se possa explicar tal participação, a não ser por uma suma ignorância ou boa-fé.

É preciso convir, porém, que se jamais um erro se apresentou isento de aparência alguma que o tornasse desculpável, este erro é o do liberalismo. A maior parte das heresias que assolaram o campo da Igreja procuraram cobrir-se com disfarces de piedade afetada, que dissimulassem sua procedência maligna. Os jansenistas, mais hábeis que qualquer um de seus antecessores, chegaram a ter um grande número de adeptos, a quem pouco faltou para que o vulgo cego tributasse as honras devidas somente à santidade. Sua moral era rígida, seus dogmas tremendos, o exterior de suas pessoas ascético e até iluminado. Acrescente-se que a maior parte das antigas heresias versaram sobre pontos muito sutis do dogma, só discerníveis por um teólogo hábil, e sobre os quais a multidão ignorante era incapaz por si própria de formar um juízo distinto do que recebia confiadamente dos seus mestres. Por isso, era natural que, quando o superior de uma diocese ou província caísse no erro, a maior parte de seus subordinados, plenos de confiança em seu pastor, caísse com ele; sobretudo quando as comunicações, naquela época mais difíceis com Roma, tornavam menos acessíveis para toda a grei cristã a voz infalível do Pastor Universal. Isto explica a difusão de muitas das antigas heresias, que nos permitiremos adjetivar de “puramente teológicas”. Isto dá a razão daquele angustioso grito com que exclamava São Jerônimo no século IV, quando disse: Ingemuit universus orbis se esse arianum: “O mundo inteiro gemeu, assombrado de encontrar-se ariano”. E isto explica também como, em meio aos maiores cismas e heresias, como são o cisma russo e a heresia inglesa, é possível que Deus preserve muitas almas, em quem não está extinta a raiz da verdadeira fé, por mais que esta, em sua profissão exterior, apareça deformada e viciada. Essas almas, unidas ao corpo místico da Igreja pelo batismo, e à sua alma pela graça interior santificante, podem chegar a ser conosco partícipes do reino celestial.

Acontece isto com o liberalismo? Apresentou-se envolto com o disfarce de meras formas políticas; porém este disfarce foi já, desde o princípio, tão transparente, que muito cego havia de ser quem não adivinhou toda a perversidade do miserável assim disfarçado.

O liberalismo não soube conter-se no véu da hipocrisia e do pietismo com que o encobriam alguns de seus panegiristas. Prontamente rasgou-o e anunciou com sinistros resplendores sua origem infernal. Saqueou igrejas e conventos; assassinou religiosos e padres; deu rédea solta a toda impiedade, e até nas imagens mais veneradas cevou seu ódio de condenado. De imediato acolheu debaixo da sua bandeira toda a escória social, e em toda parte a corrupção calculada foi sua precursora e introdutora.

Os novos dogmas que pregava e queria instituir em lugar dos antigos não tinham nada de abstratos e metafísicos: eram fatos brutais, que bastava ter olhos para vê-los e simples bom senso para  abominá-los.

Viu-se naquela ocasião um fenômeno importante, de grande utilidade para sérias meditações.

O povo simples e iletrado, mas honrado, foi o mais refratário à novidade. Os grandes talentos, corrompidos pelo filosofismo, foram os primeiros seduzidos, enquanto que o bom senso natural dos povos fez imediatamente justiça aos atrevidos reformadores. Nisto, como sempre, foi confirmado que a pureza de coração vê mais claro que a perspicácia da inteligência. E se o que acabamos de dizer se aplica justamente ao liberalismo em sua aurora, que não se poderá dizer dele hoje, quando tanta luz tem sido lançada sobre seu odioso desenvolvimento?

Jamais um erro teve contra si mais severas condenações: da experiência, da história e da Igreja. Mesmo quem não creia nesta última como bom católico, haverá de persuadir-se pelo testemunho da experiência e da história, a menos que tenha perdido até a sua honradez meramente natural.

O liberalismo, em menos de cem anos de reinado na Europa, já deu todos os seus frutos; a presente geração está recolhendo os últimos, que são bem amargos e perturbam sua tranqüila digestão. A lição do divino Salvador, que nos manda julgar a árvore por seus frutos, raras vezes teve aplicação mais oportuna.

Por outro lado, não se viu claramente desde seu princípio qual era o parecer da Igreja sobre a nova reforma social? Entre seus ministros, alguns, é verdade, foram arrastados à apostasia pelo liberalismo, e era este o primeiro dado com que os simples fiéis haviam de julgar uma doutrina que arrastava tais prosélitos. Mas, o conjunto da hierarquia católica não foi sempre reputado com muita razão como inimigo do liberalismo? A palavra clericalismo, com a qual os liberais têm honrado a escola mais tenazmente oposta a suas doutrinas, que prova ela senão que a Igreja docente foi sempre sua inimiga implacável? Como os liberais têm considerado o papa, os bispos, os padres e religiosos de todos os hábitos, e o comum das pessoas de piedade e de sã conduta? Eles os consideram sempre como clericais, ou seja, como anti-liberais. Como pode, pois, alguém alegar boa-fé num assunto em que aparece tão claramente distinta a corrente ortodoxa da heterodoxa? Logo, os que compreendem claramente a questão podem ver as razões intrínsecas dela; e os que não a compreendem têm autoridade extrínseca de sobra para formar um juízo exato, como deve fazê-lo todo bom cristão sobre as coisas relacionadas à sua fé. Luz não tem faltado, por misericórdia de Deus; o que tem sobrado é indocilidade, interesses bastardos, desejo de vida livre. O que produziu o erro aqui não foi a sedução que deslumbra o entendimento com um falso resplendor, mas a sedução que, envolvendo em negros vapores o coração, obscurece o entendimento.

Cremos, pois, que salvas raríssimas exceções, só grande esforço de engenhosíssima caridade pode fazer que, discorrendo segundo os retos princípios de moral, se admita hoje no católico a desculpa de boa-fé na questão do liberalismo.

15. Uma observação simplíssima que acabará de mostrar a questão sob seu verdadeiro ponto de vista

Não entendo como os liberais de boa-fé, se algum há que mereça ainda este caridoso atenuante de sua triste denominação, não façam cada dia uma reflexão que me fiz mil vezes. Vejamo-la:

Em nossos dias o mundo católico relaciona, com justiça e razão, a idéia de impiedade ao qualificativo de livre-pensador, aplicado a uma pessoa, a um jornal, a uma instituição qualquer. Academia livre-pensadora, sociedade de livres-pensadores, jornal escrito com critério livre-pensador, são expressões odiosas que suscitam horror à maior parte de nossos irmãos, mesmo aos que afetam estar mais afastados da feroz intransigência ultramontana.

E todavia veja-se como são as coisas, e quão pouca importância se dá em geral a meras palavras. As pessoas, as associações, os livros, os governos que não sejam regidos em matéria de fé e moral pelo critério único e exclusivo da Igreja Católica, são liberais. E reconhecem que o são, honram-se de sê-lo, e ninguém se escandaliza com isso, a não ser nós, os terríveis intransigentes!

Mudai porém a palavra; chamai-os de livres-pensadores: logo rejeitam o epíteto como uma calúnia, e dai graças a Deus se não vos pedirem satisfação pelo insulto.

Mas, vejamos, meus amigos, por que essas variações, cur tam varie?

Não haveis banido de vossa consciência, de vosso governo, de vosso jornal ou de vossa academia o veto absoluto da Igreja?

Não haveis erigido a razão livre como critério fundamental de vossas idéias e resoluções?

Pois, dizeis bem: sois liberais e ninguém pode contestar esse título. Mas, sabei-o: sois por isso mesmo livres-pensadores, ainda que esta denominação vos desagrade. Todo liberal, de qualquer grau ou matiz que seja, é ipso facto livre-pensador. E todo livre-pensador, por mais odiosa e ofensiva que seja esta denominação do ponto de vista das conveniências sociais, não é nada mais que um liberal lógico. É doutrina precisa e exata como uma equação matemática!

Aplicações práticas. Sois católicos mais ou menos condescendentes ou contaminados, e pertenceis, por infelicidade de vossos pecados, a um Ateneu1 liberal. Recolhei-vos por um momento e perguntai-vos: continuaria eu pertencendo a este Ateneu se amanhã ele se declarasse pública e francamente um Ateneu livre-pensador?

Que vos dizem a consciência e o pudor? Dizem que não.

Pois bem! Ordenai que se retire vosso nome do registro desse Ateneu, pois como católicos não podeis pertencer a ele.

Recebeis um jornal, vós o ledes e sem escrúpulo o dais a ler aos vossos, embora ele se intitule liberal e discorra como liberal. Continuaríeis assinando-o, se de repente aparecesse em sua primeira página o título de jornal livre-pensador? Parece-me que não, de forma alguma.

Portanto fechai-lhe logo as portas da vossa casa. Esse liberal, moderado ou violento, há anos não era nada mais nada menos que um livre-pensador.

Ah! De quantos prejuízos nos livraríamos, se apenas prestássemos um pouco de atenção ao significado das palavras! Toda associação científica, literária ou filantrópica, liberalmente constituída, é uma associação livre-pensadora. Todo governo, liberalmente organizado, é um governo livre-pensador. Todo livro ou jornal, liberalmente escrito, é um livro ou um jornal de livres-pensadores. Rejeitar com desgosto a palavra e não a coisa que ela representa, é uma cegueira manifesta. Pensem bem aqueles de nossos irmãos que, com a consciência demasiado endurecida, demasiado mole ou demasiado acomodada, consentem sem escrúpulo algum em fazer parte de círculos, de concursos literários, de redações, de governos, de instituições estabelecidas com plena independência do magistério da fé.

Em todas essas instituições reina o liberalismo e, por conseguinte, o livre-pensamento. Ora, nenhum católico pode fazer parte de um grupo livre-pensador, sem deixar de aceitar como seu o critério livre-pensador do grupo em questão. Logo, tampouco pode pertencer a um grupo liberal.

Quantos católicos, não obstante, servem intrepidamente ao diabo participando de obras desse gênero! Estarão agora convencidos da perversidade do liberalismo? Convencidos do justo horror que um católico deve ter às coisas liberais? Convencidos, enfim, de que nada é mais natural e mais legítimo que nossa intratável intransigência ultramontana?

  1. 1. Estabelecimento destinado a leituras e lições públicas.

14. Pode o católico gloriar-se de ser liberal?

Permita-nos sobre isto transcrever aqui integralmente um capítulo de outra obra nossa (Coisas do dia), em que essa questão é respondida. Diz assim:

“Que Deus me ajude, caro leitor, com as palavras liberalismo e liberal! Andas realmente enamorado delas, e o amor te deixou cego, como todos os namorados. Que inconvenientes pode ter, me perguntarás, o uso dessas palavras? Para mim tem tantos, que chego a ver nele matéria de pecado. Não te assustes, mas escuta-me com paciência. Tu me entenderás logo e sem dificuldade. Não há dúvida de que a palavra liberalismo significa na Europa, no presente século, uma coisa suspeita e que não está inteiramente de acordo com o verdadeiro catolicismo. Não me digas que exponho o problema em termos exagerados. Deverás, com efeito, conceder-me que, na acepção ordinária da palavra, liberalismo e liberalismo católico são coisas reprovadas por Pio IX. Deixemos de lado, por enquanto, os poucos ou muitos que pretendem poder continuar professando um certo liberalismo que, no fundo, não querem reconhêce-lo como tal. Mas o certo é que a corrente liberal na Europa e na América neste século XIX em que escrevemos, é anti-católica e racionalista. Corramos os olhos pelo mundo: vê o que significa partido liberal na Bélgica, na França, na Alemanha, na Inglaterra, na Holanda, na Áustria, na Itália, nas repúblicas hispano-americanas, e em noventa por cento da imprensa espanhola. Pergunta a todos o que significa, na língua comum, critério liberal, corrente liberal, atmosfera liberal etc.; e vê se, entre homens que se dedicam a estudos políticos e sociais na Europa e América, noventa por cento deles não entendem por liberalismo o puro e cru racionalismo aplicado às ciências sociais.

“Pois bem. Por mais que tu e algumas dezenas de pessoas vos empenheis em dar um sentido de coisa indiferente ao que a corrente geral já marcou com o selo de coisa anti-católica, é indubitável que o uso, árbitro e norma suprema em matéria de linguagem, continua a ter o liberalismo como uma bandeira contra o catolicismo. Por conseguinte, ainda que em meio a mil distinções, exceções e sutilezas, consigas formar para ti apenas, um liberalismo que não tenha nada de contrário à fé, na opinião dos outros, a partir do momento em que te chames liberal, pertencerás como todos à grande família do liberalismo europeu, tal como o mundo o entende. Se tens um jornal e o chamas de ‘liberal’, ele será na opinião geral um soldado a mais entre os que, sob essa divisa, combatem a Igreja Católica de frente ou de flanco. Em vão te desculparás uma vez ou outra. E essas desculpas e explicações, tu não as pode dar todos os dias; isto seria muito trabalhoso. Em compensação, terás de usar em cada parágrafo a palavra liberal. Serás, pois, na crença comum, apenas mais um soldado como tantos outros que militam sob essa divisa, e por mais que, em teu interior, sejas tão católico como o papa (como se jactam de sê-lo alguns liberais), o certo é que, no movimento das idéias, na marca dos sucessos, influirás como um liberal; e mesmo contra a tua vontade, serás um satélite a mover-se dentro da órbita geral em que gira o liberalismo. E tudo isso por causa de uma palavra! Uma simples palavra! Sim, meu amigo, isto é o que ganharás por te chamares liberal e por chamares liberal o teu jornal. Desengana-te. O uso dessa palavra te faz quase sempre, e em grande parte, solidário ao que se ampara à sua sombra. E o que se ampara à sua sombra, já o vês e não podes negá-lo, é a corrente racionalista. Eu teria pois escrúpulos, em minha consciência, de aceitar essa solidariedade com os inimigos de Jesus Cristo.

“Vamos a outra reflexão. É também indubitável que, dentre os que lêem teus jornais e ouvem tuas conversas, poucos são capazes de fazer como tu distinções sutis entre liberalismo e liberalismo. É pois evidente que uma grande parte tomará a palavra no sentido geral, e crerá que tu a empregas assim. Sem ter essa intenção, e mesmo contra tuas intenções, obterias o seguinte resultado: adquirir adeptos para o erro racionalista.

“Diz-me agora: sabes o que é escândalo? Sabes o que é induzir o próximo ao erro com palavras ambíguas? Sabes o que é, por apego mais ou menos justificado a uma palavra, semear a dúvida, a desconfiança, e fazer vacilar na fé as inteligências simples? Quanto a mim, na qualidade de moralista católico, vejo nisto matéria de pecado, e se não tens a desculpa de uma extrema boa-fé ou de algum outro atenuante, matéria de pecado mortal.

“Ouve esta comparação: Sabes que nasceu, quase em nossos dias, uma seita que se chama: a Seita dos velhos católicos1. Ela teve o bom humor de chamar-se assim, deixemo-la fazer. Suponhamos agora que eu, por exemplo, que sou, pela graça de Deus e ainda que pecador, católico, e para cúmulo sou dos mais velhos, porque meu catolicismo data do Calvário e do Cenáculo de Jerusalém, datas muito antigas; suponhamos, dizia, que eu funde um jornal mais ou menos ambíguo e o intitule:  Diário velho católico. Este título será uma mentira? Não, porque sou um velho católico, no bom sentido da palavra. Mas, dirás tu, por que adotar um título mal soante, que é divisa de um cisma, e que dará ocasião para que os incautos creiam que sou cismático, e para que se encham de júbilo os velhos católicos da Alemanha, crendo que aqui lhes nasceu um novo confrade? Por que escandalizar assim os simples? — Uso esta expressão em bom sentido. — Que seja, mas não seria melhor evitar fazer crer que dizes em mau sentido?

“Eis aqui, pois, o que eu diria a quem ainda se empenhasse em considerar inofensivo o título de liberal, reprovado pelo papa, e causa de tanto escândalo para os verdadeiros crentes. Por que fazer gala de títulos que exigem explicações? Por que suscitar suspeitas, que logo será preciso procurar dissipar? Por que contar-se no número dos inimigos e fazer gala de sua divisa, se no fundo se é dos amigos?

“Dirás: as palavras não têm importância! Elas têm mais do que imaginas, meu amigo. As palavras são a fisionomia exterior das idéias, e tu sabes quanto a boa ou má fisionomia de um assunto é importante ao seu sucesso. Se as palavras não tivessem nenhuma importância, os revolucionários não se empenhariam tanto em trajar o catolicismo com palavras feias, chamando-o a toda hora de obscurantismo, fanatismo, teocracia, reação; eles o chamariam pura e simplesmente catolicismo, e eles mesmos não buscariam adornar-se a cada instante com formosos vocábulos de liberdade, progresso, espírito do século, direito novo, conquistas da inteligência, civilização, luzes, etc., mas se intitulariam sempre com seu próprio e verdadeiro nome: Revolução.

“Foi sempre assim. Todas as heresias começaram como um jogo de palavras, e acabaram como uma luta sangrenta de idéias. Algo semelhante devia já ter ocorrido no tempo de São Paulo, ou o bendito Apóstolo teve a intuição do que se passaria nos tempos futuros quando, dirigindo-se a Timóteo (I Tm 6,20), o exorta a viver prevenido, não só contra a falsa ciência (oppositiones falsi nominis scientiae), mas também contra a simples novidade na expressão ou nas palavras (profanas vocum novitates). Que diria hoje o Doutor das gentes, se visse certos católicos adornarem-se com o adjetivo de liberais, em oposição aos católicos que se chamam simplesmente com o antigo sobrenome da família, e permanecerem surdos às repetidas reprovações que com tanta insistância lançou a cátedra apostólica contra esta profana novidade de palavras? Que diria ao vê-los acrescentar à palavra imutável ‘catolicismo’, esse odioso apêndice que não conheceram nem Jesus Cristo, nem os Apóstolos, nem os Padres, nem os Doutores, nem um só dos mestres autorizados que constituem a magnifica cadeia da tradição cristã?

“Medita nisto, amigo, nos momentos lúcidos, se é que te concede alguma a cegueira da tua paixão, e conhecerás a gravidade do que à primeira vista te parece mera questão de palavras. Não, tu não podes ser católico-liberal, nem podes chamar-te com este nome reprovado, ainda que, por meio de sutis sofismas, chegues a encontrar um meio secreto de conciliá-lo com a integridade da fé. Não, a caridade cristã te proíbe, esta santa caridade que tu invocas a toda hora e que, se entendo bem, é para ti sinônimo da tolerância revolucionária.

“A  caridade te proíbe, porque a primeira condição da caridade é de não trair a verdade, de não ser uma armadilha destinada a surpreender a boa-fé dos menos avisados. Não, meu amigo, não; não podes chamar-te liberal.”

Nada mais temos a dizer aqui sobre este ponto, completamente resolvido, para um homem de boa-fé. Ademais, hoje os próprios liberais fazem já menos uso que antes desse nome, de tão gasto e desacreditado que anda, graças à misericórdia de Deus. Mas é todavia freqüente encontrar homens que, renegando a cada dia e a cada hora o liberalismo, estão dele imbuídos até a medula, e não sabem escrever, falar, agir, senão sob sua inspiração: estes homens são, hoje em dia, os que mais devemos temer.

  1. 1. Essa seita reagrupava os católicos alemães que recusaram o dogma da infalibilidade pontifícia definido no Concílio Vaticano I.

13. Notas e comentários sobre a doutrina exposta no capítulo anterior

Dissemos que as formas de governo democráticas ou populares, puras ou mistas, não são liberais por si, ex se, e cremos tê-lo provado suficientemente. Entretanto, o que é verdade especulativamente ou abstratamente falando, não o é tanto na prática, isto é, na ordem dos fatos, à qual o polemista católico deve estar sempre atento.

Com efeito, apesar de que, consideradas em si mesmas, essas formas de governo não são liberais, elas o são em nosso século, tendo em vista que a revolução moderna, que não é senão o próprio liberalismo em ação, no-las apresenta sempre baseadas em suas doutrinas errôneas. Assim o vulgo, que entende pouco de distinções, classifica como liberalismo tudo o que em nossos dias se apresenta como reforma democrática no governo das nações; porque se não o é na essência mesma das idéias, ela o é de fato. Eis por que nossos pais mostraram um grande tino e uma singular prudência quando rechaçavam, como contrária à sua fé, a forma de governo constitucional ou representativa, preferindo-lhe a monarquia pura, que nos últimos séculos era o governo de Espanha. Um certo instinto natural fazia compreender mesmo aos menos avisados que as novas formas políticas, por mais inofensivas que fossem em si mesmas, tal como formas, vinham impregnadas do princípio herético liberal, razão pela qual faziam muito bem em chamá-las de liberais. Semelhantemente, a monarquia pura, que em si podia ser muito ímpia e mesmo herética, aparecia-lhes como uma forma de governo essencialmente católica, pois desde muitos séculos os povos a conheceram imbuída do espírito do catolicismo.

Ideologicamente falando, portanto, nossos monarquistas erravam quando identificavam a religião com o antigo regime político, e reputavam ímpios os constitucionalistas; mas acertavam, praticamente falando, porque, com o claro instinto da fé, eles viam a idéia liberal oculta sob aquilo que lhes queriam apresentar como uma mera forma política indiferente.

Isto sem contar tudo o que os corifeus e sectários do partido liberal fizeram, com blasfêmias e atentados, para que o povo não conhecesse qual era no fundo o verdadeiro significado de sua odiosa bandeira.

Também não é rigorosamente exato que as formas políticas sejam indiferentes à religião, ainda que esta as aceite todas. A filosofia sensata as estuda, as analisa, e sem condenar nenhuma, não deixa de manifestar sua preferência por aquelas que mais a salvo deixam o princípio de autoridade, que se baseia principalmente na unidade; o que nos permite dizer que a monarquia é a forma de governo mais perfeita de todas, porque, mais que as outras, ela se assemelha ao governo de Deus e da Igreja; assim como a mais imperfeita é a república, pela razão inversa. A monarquia exige a virtude de um homem só, a república exige a virtude da maioria dos cidadãos. É, pois, logicamente falando, mais difícil de realizar o ideal republicano que o ideal monárquico. Este último é mais humano que o primeiro, porque exige menos perfeição humana, e se acomoda melhor à ignorância e a aos vícios da maioria.

Mas de todas as razões que deve considerar o católico de nosso século contra os governos de forma popular, a mais forte deve ser o afã constante com que a maçonaria tem procurado em toda parte implantá-los. Por uma intuição maravilhosa, o inferno descobriu que esses sistemas de governo eram os melhores condutores de sua eletricidade, e que nenhum outro poderia servir-lhe mais a seu gosto. É pois indubitável que um católico deve considerar suspeito tudo o que, sob esse conceito, a Revolução lhe recomenda como mais apropriado a seus fins, e, portanto, considerar como liberalismo verdadeiro tudo o que a Revolução exalta e difunde com o nome de liberalismo, ainda que seja apenas questão de formas; porque, neste caso, as formas não são outra coisa senão o invólucro com o qual querem fazer-nos admitir em casa o contrabando de Satanás.

12. De algo que parece liberalismo e que não o é, e de algo que é liberalismo, ainda que não o pareça

O diabo é um grande mestre em astúcias e enganos, e sua diplomacia mais hábil consiste em introduzir confusão nas idéias. O maldito perderia metade do seu poderio sobre os homens, se as idéias boas e más, que ele manipula, aparecessem em toda a clareza e franqueza. Observemos, de passagem, que chamar o diabo de diabo não é moda hoje, sem dúvida porque o liberalismo nos acostumou a tratar também o senhor diabo com certo respeito. Portanto, a primeira coisa que faz o diabo em tempos de cismas e heresias é baralhar e desordenar o sentido próprio das palavras: meio infalível de marear e desordenar a maior parte das inteligências.

Assim se passou com o arianismo, a ponto de vários bispos de grande santidade chegarem a subscrever, no Concílio de Milão, uma fórmula que condenava o insigne Atanásio, martelo dessa heresia; e esses prelados apareceriam na história como verdadeiros fautores dela, se o santo mártir Eusébio, legado pontifício, não tivesse acudido a tempo para desenredar desses laços — o que o Breviário chama captivatam simplicitatem — alguns daqueles inocentes anciãos. O mesmo se passou com o pelagianismo; e mais tarde com o jansenismo. Hoje acontece o mesmo com o liberalismo.

Para alguns o liberalismo consiste em certas formas políticas; para outros, num certo espírito de tolerância e generosidade oposto ao despotismo e à tirania; para outros ainda, é a igualdade civil; para muitos, uma coisa vaga e incerta que se poderia traduzir simplesmente como o oposto a toda arbitrariedade governamental. É, portanto, indispensável tornar a perguntar aqui: o que é o liberalismo? Ou melhor: o que o liberalismo não é?

Em primeiro lugar, as formas políticas de qualquer natureza que seja, tão democráticas ou populares que se suponham, não são por si mesmas (ex se) o liberalismo. Cada coisa é o que é; as formas são formas, e nada mais. Uma república unitária, federal, democrática, aristocrática ou mista; um governo representativo ou misto, com mais ou menos atribuições para o poder real, ou seja, com o máximo ou mínimo de rei que se queira pôr na mistura; uma monarquia absoluta ou temperada, hereditária ou eletiva, nada disso tem que ver por si (repare-se bem neste por si) com o liberalismo. Tais governos podem ser perfeita e integramente católicos. Se eles aceitam a soberania de Deus, reconhecem tê-la recebido d'Ele e se sujeitam em seu exercício ao critério inviolável da lei cristã; se dão por indiscutível em seus parlamentos tudo o quanto definido por essa lei; se reconhecem como base do direito público a supremacia moral da Igreja e seu direito em tudo o que é de sua competência, esses governos são verdadeiramente católicos, e ninguém, nem os mais exigentes ultramontanos, pode censurá-los, porque eles são verdadeiramente ultramontanos.

A história nos oferece repetidos exemplos de poderosíssimas repúblicas fervorosamente católicas. Tais foram a república aristocrática de Veneza, a república mercantil de Gênova e a de certos cantões suíços. Como exemplo de monarquias mistas muito católicas, podemos citar a nossa gloriosíssima de Catalunha e Aragão, a mais democrática e, ao mesmo tempo, a mais católica do mundo na Idade Média; a antiga monarquia de Castela, até a casa de Áustria; a monarquia eletiva da Polônia, até o iníquo desmembramento deste religioso reino. Acreditar que as monarquias são por si, ex se, mais religiosas que as repúblicas, é um prejulgamento. Precisamente os mais escandalosos exemplos de perseguição ao catolicismo foram dados nos tempos modernos pelas monarquias, como a da Rússia e a da Prússia.

Um governo é católico, qualquer que seja a sua forma, se sua Constituição, sua legislação e sua política estão baseadas em princípios católicos; ele é liberal se baseia sua Constituição, legislação e sua política sobre princípios racionalistas. Não é o ato de legislar do rei na monarquia, do povo na república, ou dos dois juntos nas formas mistas, que constitui a natureza essencial de uma legislação ou de uma Constituição. O que a constitui é o fato de proceder ou não, em tudo, sob o selo imutável da fé e conforme ou não ao que a lei cristã manda aos Estados e aos indivíduos. Da mesma forma que, entre os indivíduos, um rei com sua púrpura, um nobre com seu brasão, e um trabalhador com sua blusa de algodão podem ser igualmente católicos, assim os Estados podem ser católicos, qualquer que seja o lugar que se lhes dê no quadro sinótico das formas de governo. Por conseguinte, o fato de ser liberal ou anti-liberal não tem nada a ver com o horror natural que todo homem deve professar à arbitrariedade e à tirania, com o desejo de igualdade civil entre todos os cidadãos e muito menos com o espírito de tolerância e generosidade, que, em sua devida acepção, não são mais que virtudes cristãs. Não obstante, tudo isto, na linguagem de certas gentes e mesmo de certos jornais, chama-se liberalismo. Eis, portanto, uma coisa que aparenta ser liberalismo, mas que não o é de forma alguma.

Há porém uma coisa que, não parecendo liberalismo, efetivamente o é. Imaginai uma monarquia absoluta, como a da Rússia, ou como a da Turquia, se preferirdes; ou ainda um desses governos chamados conservadores de hoje, e o mais conservador que se possa imaginar; e suponde que a Constituição e a legislação dessa monarquia ou desse governo conservador seja baseada no princípio da vontade livre do rei ou no da vontade livre da maioria conservadora, em lugar de se basear nos princípios do direito católico, na indiscutibilidade da fé, ou no respeito rigoroso aos direitos da Igreja; essa monarquia e esse governo conservador são perfeitamente liberais e anti-católicos. Pouco importa para o caso que o livre-pensador seja um monarca com seus ministros responsáveis, ou que ele seja um ministro responsável com seus corpos co-legisladores: do ponto de vista das conseqüências, é absolutamente a mesma coisa. Em ambos os casos, aquela política marcha sob a direção do livre-pensamento e, por conseguinte, é liberal. Pouco importa que tenha ou não, entre seus objetivos, agrilhoar a imprensa; que açoite o país por qualquer pretexto; que ela reja seus súditos com vara de ferro: o miserável país poderá não ser livre, mas será certamente liberal. Assim foram os antigos impérios asiáticos, assim várias monarquias modernas; assim será, se o sonho de Bismarck se realizar, o Império alemão; é assim a monarquia atual de Espanha, cuja Constituição declara o rei inviolável, mas não Deus.

Eis portanto o caso de algo que, parecendo não ser liberalismo, o é verdadeiramente, e o mais refinado e desastroso, justamente porque não aparenta sê-lo.

Daqui se verá com que delicadeza se deve proceder, quando se trata de tais questões. É preciso antes de tudo definir os termos do debate e evitar o equívoco, que é o que mais favorece o erro.

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