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[ Nota da Permanência: Não sabemos se alguém no Brasil já ouviu falar em Henri Charlier (1883-1975). Se na França ele nunca foi muito conhecido, quanto mais nos trópicos incultos do nosso Brasil, tomado pelos seguidores das modas nas letras, nas artes, e em tudo mais. Mas quando os brasileiros têm a oportunidade de visitar este centro de combate pela Tradição católica, e, mais ainda, quando passam um tempo razoável, capaz de introduzi-los nos meios culturais e religiosos da Tradição na França, imediatamente ouvem falar no nome do grande escultor e escritor convertido.
A entrevista que trazemos para os nossos leitores foi, na verdade, escrita pelo seu próprio irmão, de modo anônimo, num esforço para tornar mais conhecido na França o nome do irmão. O texto foi publicano na Revue Itinéraires, nº 266, de março de 1972, e nos mostra claramente qual a linhagem artística de Henri Charlier.]
André Charlier
Entre Troyes e Sens, a vinte e cinco quilômetros de Troyes, na França, encontra-se uma aldeia original, chamada Mesnil-Saint-Loup. Em uma região quase descristianizada, essa aldeia permaneceu católica, ou melhor, voltou a ser, graças a um pároco que foi ao mesmo tempo um santo e homem genial, o Père Emmanuel. Nos dias de grandes festas os paroquianos passam, ainda hoje, ao menos quatro horas na igreja, pois cantam matinas, a missa solene, as horas menores, vésperas, e completas. Mesmo nos domingos comuns todos se reúnem na igreja para a missa solene, vésperas, completas, benção e terço. Canta-se ainda um puro gregoriano, apesar do progressismo.
Essa aldeia tem outra originalidade, que é o fato de nela habitar um escultor, Henri Charlier. Conheço pouca coisa de sua obra, pois está dispersa nos quatro cantos da França e mesmo em países estrangeiros; mas tinha visto dele, em Paris, uma bela estátua da Virgem que está no jardim do Seminário dos Carmelitas, e um afresco na igreja do Espírito Santo. Em 1930 tive a oportunidade de ler um artigo de Pierre du Colombier, em “Amour de l’Art”, que sublinhava a importância de Charlier. O fato de Henri Charlier viver retirado longe do mundo desde 1925 me parecia uma explicação insuficiente. Mas quando li o livro que publicou em 1957, “Le Martyre de l’Art ou l”Art livré aux bêtes” , compreendi melhor esse silêncio. Charlier é um reformador que tem ideias precisas sobre arte, nascidas de uma profunda meditação sobre as formas de arte do passado; essas ideias o levam a se opor à arte moderna pela qual mostra uma extrema severidade, e em que vê uma verdadeira corrupção do espírito; e como faz arte cristã, é igualmente severo com os religiosos que pretendem dirigir a arte sacra e se tornam cúmplices dessa corrupção do espírito, só para apresentarem um ar moderno. Assim, não é de estranhar que tenha se formado uma verdadeira unanimidade contra ele e que se tenham vingado ignorando-o.
Entretanto, um de meus amigos lera uma carta de Paul Claudel que lhe exprimia uma admiração sem reservas: “Charlier é um grande entalhador de imagens, dizia ele, um desses artistas que seguem o coração de Deus, dos quais fala um dos livros Sapienciais. Sua estátua de São José, na Pierre-qui-Vire, é magnífica, e apreciei infinitamente a sua policromia. É excelente caminho.” O mesmo Claudel manifestava seu sentimento sobre os escritos de Henri Charlier em um artigo intitulado “Le goû du fade” (O gosto do insípido); “Charlier publica atualmente no Bulletin des Missions de Santo André de Lophem admiráveis artigos, com uma competência que não tenho.”
Tudo isso excitou bastante minha curiosidade para me por a caminho do Mesnil Saint Loup. Lá cheguei um domingo na saída das vésperas e avistei na multidão um homem de boné, com partituras debaixo do braço (porque era também o organista), que se parecia com a descrição que me haviam feito. Abordei-o com certo temor, pois tinha o sentimento de ser um visitante inoportuno. Contrariamente ao que esperava achei-o muito cordial e mesmo jovial. Não sei se ficou encantado em me ver, mas na hora apreciei que tenha me deixado essa impressão. Levou-me para sua casa, onde sentados em um banco à sombra de uma macieira conversamos amigavelmente.
– Como se explica, Mestre, que não se veja nenhuma de suas obras em exposições?
– Em 1922 expus uma Joana d’Arc no Salão de Outono, tendo em seguida sido admitido como sócio. A escultura fez muito sucesso, e isso aconteceu pelo fato dela ter sido muito bem colocada por Georges Desvallières: não se podia deixar de vê-la. Além disso, suas cores se harmonizavam muito bem com as cores do quadro de Desvallières, que estava atrás. Depois expus a Pleureuse, do monumento aos mortos de Onesse, nas Landes. Foi também bem colocada porque eu estava lá: coloquei-a como era preciso. O sujeito que estava encarregado de arrumar as obras era um pintor. Ele próprio expunha um ônibus. Quis protestar e impor seu próprio lugar. Mas eu respondi: “– Por acaso o senhor me toma por um ônibus?”, e mandei-o passear. Depois disso, quando expus o Anjo de Acy, eu não estava; naturalmente puseram-no em um canto e à sombra, ninguém o via. Então decidi não expor mais. Mas em 1928, quando apareceu meu álbum de talha direta, Desvallières, Bourdelle e outros me disseram: “Como você faz tais coisas e não expõe?” Quis então fazer uma ultima tentativa. Mandei fazer um molde do Sagrado Coração, que está sobre a cúpula da capela do Pe. de La Colombière, na casa dos Jesuítas, em Paray Le Monial. Novamente foi colocado de maneira ridícula. Dessa vez disse para mim mesmo que não recomeçaria. No momento ganho a vida com minha arte, não tenho necessidade de expor.
–O senhor conheceu Bourdelle?
Conheci Bourdelle, e também Rodin. Em 1913 fui escolhido por Rodin para executar afrescos que lhe foram encomendados, mas nossa colaboração foi interrompida pela guerra e Rodin morreu em 1916. Comparado com Bourdelle, Rodin tinha outra envergadura. Este me disse por volta de 1913: –“Pai Rodin está ficando velho, vai sobrar um bom lugar de escultor”. Eis a alta concepção que Bourdelle tinha da arte. Foi ainda Bourdelle quem me disse, um dia em que me mostrava as obras de seu atelier: – “Entenda, em sua idade, eu também como você procurava a forma”. Para ele era algo muito difícil, o que o levou a procurar caminhos mais fáceis.
–O senhor disse que procurava a forma. Pode explicar-me como foi sua evolução artística?
Eu era alguns anos mais moço do que Picasso. Vi, pois, em minha juventude, as mesmas obras que todos os meus contemporâneos; foram propostos à minha admiração os mesmos membros do Instituto. Comecei como Matisse e tantos outros; fui para um atelier onde nos entediávamos. Entrei, aos 19 anos, no atelier de Jean Paul Laurens. Se é verdade que me tornei escultor, fiz até os meus trinta anos uma carreira de pintor. No fim de um ano escapei desse antro, onde o mestre era um bom sujeito, mas os alunos não eram bobos, pois repetiam sempre esse refrão: Pan, pan, pan. – Quem está aí? – sou eu Jean-Paul Laurens. – O que quer? Diz o Sultão. – Quero um barril de betume para fazer cadeiras transparentes. - Não é verdade, diz o Sultão, e mandou cortar-lhe a cabeça. Passado um pouco: “Pan, pan, pan. – Quem está aí?” E o refrão continuava, passando para dois, depois três barris, e assim por diante.
Jovem artista como era, continuei a estudar sozinho na Academia Colagrossi.
Quais foram os acontecimentos de minha formação artística? Lembro-me de que aos 7 ou 8 anos, minha mãe levou-me ao Salão do Palácio da Indústria; vi um quadro que me impressionou e que mais tarde reconheci ser o Ave Picardia Nutrix, de Puvis de Chavannes. É um dos menos literários, dos mais puramente plásticos e decorativos, no grande sentido da palavra, de seu autor.
O segundo acontecimento foi a exposição dos Primitivos franceses, em 1904, que foi um acontecimento para muitos outros, em particular para Peguy, que lhe consagrou um de seus Cadernos. Foi lá que apareceu pela primeira vez a Pieta d’Avignon e a Coroação da Virgem de Enguerrand Charanton, até então escondidos na Cartucha de Villeneuve-les-Avignon. O problema que essas obras traziam era o seguinte: como reencontrar as qualidades de forma e de cor nesta vida, sem cair na imitação e no pastiche? A questão já estava resolvida em seu fundamento por Van Gogh e Gauguin, mas esses artistas eram desconhecidos da juventude artística. Em 1904 Gauguin morria ainda jovem, nas ilhas Marquesas. As telas de Van Gogh teriam sido queimadas por sua família, se não fosse sua admirável cunhada. Essas obras só foram conhecidas em 1910.
Em 1906 realizou-se uma grande exposição de Cézanne depois da morte do artista. Eu nunca tinha visto suas obras: pensei que encontrava diante de mim um frescor de imagens análogas àquelas de La Fontaine. Voltava à mesma questão, desta vez com um artista contemporâneo: como adquirir essa qualidade pelo estudo da natureza?
Essa ausência de mestres estragou quase todos os artistas dessa geração. O fato é que nenhum dos grandes artistas desse tempo pôde ensinar. Não é de espantar que a maior parte deles, mesmo os mais conhecidos, se tenham atolado, até que os mais espertos conseguiram passar sua inexperiência e suas falhas como se fosse a marca de um espírito novo e revolucionário.
Ora, Cézanne, Van Gogh, Gauguin, Rodin não eram absolutamente revolucionários; eram reformadores, e sabiam disso: ”Não tomo o lugar do passado, diz Cézanne, somente acrescento um novo elo.” E Van Gogh: “Esse broto verde saiu de um velho tronco...” Rodin foi um Michelangelo redivivo, mas no espírito da modelagem em terra.
– No seu entender, a lição desses grandes artistas do começo de nosso século (século XX) não foi compreendida?
Certamente não! A sociedade em que viviam, burguesa e materialista, tinha interditado a esses grandes espíritos qualquer possibilidade de ensinar o que sabiam, e a geração que os sucedeu ficou desamparada. As obras de Picasso, o mais bem dotado entre eles, por volta de 1910, mostram uma espécie de desespero para conseguir dar o passo que separa o desenho de Poussin do de Gauguin. Desenhava como que às cegas, na esperança de que um dia conseguiria. Mas os artistas estavam entregues desde a juventude nas mãos dos comerciantes de quadros que lhes pagavam em mensalidades. Os pseudo amadores perceberam o erro de ter comprado Meissonier, Bouguereau, Bonnat, pois o valor desses quadros não “subiam”, ao contrario. Apostaram no que lhes parecia revolucionário, e os negociantes forçaram os artistas e clientes a fazer e a procurarem qualquer coisa, desde que ainda não tivesse sido visto.
Havia nessa época duas vias a serem escolhidas: a da facilidade, que era a via revolucionária e que, hoje sabemos, não levava a nada; ou perseverar na via aberta por Gauguin e Rodin, a do aprofundamento nas buscas sobre a forma e a cor e seu sentido espiritual.
– Foi então a segunda via que o senhor escolheu?
Naturalmente, e assim me separei da corrente que tinha os favores da moda. Tendo-me convertido pela graça de Deus, prometi a mim mesmo, como antes Desvallières, de só fazer arte cristã. Procurei persuadir os artistas católicos de que todos esses elementos de uma nova estética cristã, de uma grande arte religiosa tinham sido reunidas por nossos predecessores. Rapidamente renunciei, pois meus camaradas só sonhavam em substituir comercialmente a arte de Saint-Sulpice.
Veio a guerra de 1914, de que participei até o fim. Foi durante esse tempo que os “gringos” apareceram e se tornaram famosos como cabeças da arte francesa. O que faltou à França entre as duas guerras foi a geração dos que foram mortos. É verdade tanto para a arte como para outras manifestações da vida pública; e aqueles que tinham escapado se viram reduzidos à impotência. Quando levei um retrato para o Salão dos Independentes, na primeira exposição depois da guerra, encontrei instalado como presidente do comitê um de meus antigos camaradas do atelier de Jean-Paul Laurens, que me disse:
– “Ah! Charlier! Você por aqui! Há um século que não o vejo! O que andava fazendo?... – Eu estava no Exército... – Ah!, disse ele, pensava que fosse inteligente.”
Isso me foi dito à alta voz diante de uma centena de pessoas que não acharam nada para dizer. A partida estava jogada, e a renovação da arte francesa abandonada e entregue aos aproveitadores. Isso eu percebi na hora. Fiquei em casa e renunciei às exposições, contentando-me a executar as encomendas que chegavam, não apenas da França, mas de vários países da Europa e da América, porque há sempre pelo mundo uma centena de verdadeiros conhecedores.
– Em suma, o senhor se propôs a continuar a reforma começada no fim do século XIX por Puvis de Chavannes e por aqueles que são chamados erroneamente – se lhe compreendo bem – os Impressionistas?
Os grandes decoradores que foram Puvis de Chavannes e Gauguin, (principalmente o segundo) tinham achado os princípios plásticos essenciais abandonados na Renascença, esses que Poussin, de La Tour, Watteau, David, Ingres tentaram retomar. Mas tinham fracassado na técnica porque ficaram com a pintura a óleo, inventada para os fundos negros e o claro-escuro e para dizer o contrário daquilo que queriam dizer: ao menos, eles tinham tentado. Era preciso voltar a uma técnica feita para obter, ao mesmo tempo, a qualidade de tensão das formas (o que se chama vulgarmente de estilo, no desenho) e as cores frescas e claras em toda parte: é a técnica da têmpera e, sobretudo, a técnica do afresco.
Quanto a Rodin, o único escultor depois de Michelangelo e Jean Goujon, seu fracasso do ponto de vista monumental é manifesto. Nenhuma das suas esculturas poderia fazer parte de uma arquitetura. Para que uma escultura tenha esse caráter, é preciso que seja concebida na pedra e não na terra, e em relação com seu lugar arquitetural. Compreendi que eu era escultor quando me dei conta de que com bons desenhos poderia esculpir diretamente na pedra, sem nenhum intermediário.
É claro que essas reformas não podiam estar na moda: os amadores e os marchands queriam vender quadros como se faz com os títulos da Bolsa, fazer várias modelagens de terracota ou de gesso. Mas deixei muitas obras que a especulação não pode atacar: são afrescos pintados nas paredes ou estátuas feitas para uma arquitetura.
– Quais são suas obras que considera mais importantes?
Quer dizer, as que considero como mais bem sucedidas? É difícil de dizer. Fiz mais de uma centena de Virgens e cada uma corresponde a uma ideia particular. Entre aquelas em que realizei o que queria fazer poderia citar a do claustro de Solesmes, a que está na capela das Beneditinas de Vanves, ou ainda a do mosteiro de Santo André de Lophen, na Bélgica. Vá ver, em Aisne, o monumento dos mortos de Acy, onde representei o Anjo do Apocalipse pousando... depois venha me dizer o que achou.
Se quiser falar dos conjuntos que realizei, há primeiramente o de La Bourboule, que é considerável, pois compreende as esculturas do tímpano e dos capitéis, o altar e o sacrário, duas estátuas, uma Via Sacra em cerâmica, e uma pintura no batistério. Os capitéis foram talhados na própria lava, que é o material do lugar, e os da nave são enormes. Não é amassando bocados de terra que se pode avaliar semelhante trabalho.
Outro conjunto é o Oratório de São José du Mont Royal, em Montreal no Canadá, cujo arquiteto foi o R. P. Dom Bellot. Lá esculpi o altar-mor monumental, e acima do altar um calvário cujos personagens são maiores que o natural (a escultura do calvário foi feita em madeira para ser moldada no bronze). É o momento do Evangelho: “Exclamans magna voce, exspiravit”. Ao mesmo tempo, a Virgem Maria renova seu Fiat e São João nos toma como testemunha da grandeza indizível do sacrifício. O baixo relevo do altar representa a Ressurreição. Também esculpi ali os doze Apóstolos que, em razão da altura em que estão colocados, são muito grandes (têm quase quatro metros). Enfim pintei um afresco da morte de São José.
Meu último trabalho foi a decoração da cripta e da capela da casa matriz dos Oblatos de São Francisco de Sales, em Troyes. A cripta é dedicada a Santo Egídio, porque estava no lugar de uma igreja em madeira, do século XIII, queimada no bombardeio de 1940, que era dedicada ao mesmo padroeiro. Fiz toda a decoração, inclusive o altar. Pintei um afresco de 12 metros quadrados em hemiciclo, que representa a descoberta do eremita por um grupo de caçadores, que o acharam em sua gruta na companhia de um cervo. Figuram também os donos e os fundadores da Congregação, e ainda um talhador de pedras, de joelhos, que oferece a Santo Egídio um modelo do famoso Parafuso de Santo Egídio, escada em parafuso da famosa abadia de Camargue, lugar de peregrinação (como a Santa Baume, na Provença) dos “Compagnons”, talhadores de pedra do “Tour de France” .
Um elevador no andar superior tornou necessário dois alicerces de cimento armado. Decorei-os com duas estátuas de São Francisco de Sales e de Santa Joana de Chantal e de um baixo relevo da Visitação.
A capela superior, muito larga, foi centrada por um arco triunfal aplicado à parede e emoldurando o altar-mor. Nele foram esculpidos Moisés e Elias, as testemunhas da Transfiguração, que no relato de São Lucas conversavam com Jesus sobre o modo como ele devia morrer. Sob o arco encontra-se um grande Cristo em cruz e triunfante. O deambulatório da nave foi decorado com uma Via Sacra de grande dimensão. Só falta, para acabar esse conjunto, esculpir a estátua de Nossa Senhora da Luz, padroeira da capela.
Em todas essas obras me esforcei em aplicar à arte cristã, sem nada esquecer, os princípios eternos da grande arte reencontrada pela geração que nos precedeu. Como conclusão, vou ler um fragmento do prefácio que escrevi outrora para meu álbum de talhas diretas:
“Aos dezoito anos, com a pretensão própria dessa idade, via como objetivo de minha vida reformar a arte e o pensamento, no sentido do espírito francês, porque o achava mais universal. E isso, sobretudo, contra a filosofia e a música alemães. Dez anos mais tarde percebi que o que havia de universal no espírito francês era católico, e que a primeira coisa a reformar era eu mesmo.”
Pe. Robert Brucciani, FSSPX
Sumário: o poder político, econômico e cultural na China está concentrado nas mãos do Partido Comunista Chinês (PCC). O poder cultural engloba o poder sobre a religião. Com ajuda direta do Ocidente, a China adotou o Capitalismo de Estado e, agora, é uma superpotência global. No Ocidente, o poder político, econômico e cultural está semelhantemente concentrado, não nas mãos de uma organização política ou de um Estado individual, mas nas mãos de uma elite financeira menos visível. Tanto na China quanto no Ocidente, o poder cultural tem sido exercido para promover uma antitética cultura da morte e para oprimir e subverter a Igreja Católica. À luz de eventos recentes, parece que a profecia de Nossa Senhora de Fátima sobre o comunismo global está se tornando realidade, e nós faríamos bem em imitar os fiéis católicos da China, que preservaram sua fé em um Estado comunista sem Deus.
Essência e propriedades do comunismo
A essência e as propriedades do comunismo são descritas pelo Papa Pio XI em sua encíclica Divinis Redemptoris. O comunismo é o materialismo ateu, no qual:
não há espaço para a ideia de Deus; não há diferença entre matéria e espírito, entre alma e corpo; não há sobrevivência da alma após a morte, nem nenhuma esperança em uma vida futura… O comunismo, além disso, retira do homem sua liberdade, despoja a personalidade humana de toda a sua dignidade e remove todas as limitações morais que controlam as erupções dos impulsos cegos. Não há o reconhecimento de nenhum direito do indivíduo em suas relações com o coletivo; nenhum direito natural é reconhecido à personalidade humana, que é apenas uma engrenagem no sistema comunista. Nas relações do homem com outros indivíduos, além disso, os comunistas sustentam o princípio da igualdade absoluta, rejeitando toda a hierarquia e a autoridade constituída por Deus, incluindo a autoridade dos pais.
O comunismo na China
Pouco após Mao Tse-Tung, o Secretário-Geral do Partido Comunista Chinês (PCC), subir ao poder absoluto após declarar a fundação da República Popular da China no dia 1º de outubro de 1950, na Praça Tiananmen, deu-se início ao desmantelamento da sociedade chinesa. O objetivo alegado do PCC era criar um Estado comunista ideal: uma sociedade sem classes, sem Deus, com a propriedade comum dos bens.
A ignorância de Mao Tse-Tung da natureza humana era talvez tão profunda que ele de fato acreditou na viabilidade da utopia comunista; ou, talvez, apenas via a ideologia comunista como um meio para obter o poder absoluto. De todo modo, lançou mão do seu poder para criar um regime totalitário, um Estado servil.
O PCC começou com a destruição da ordem natural na sociedade: impôs a ideologia comunista e instigou medo em toda a população por meio de leis que mudavam constantemente, ameaças e prisões arbitrárias. Declarou classes inteiras (proprietários de terras, homens de negócios, intelectuais, toda a classe média) bem como as religiões como inimigas do PCC e as privou de suas posses. Chegou ao ponto de privar os camponeses de suas possessões – tomando deles a terra que lhes havia sido dada após as espoliações dos proprietários privados de terra. Ele destruiu a riqueza e os empreendimentos independentes. Matou 60 milhões de almas em suas prisões e campos de concentração. Os católicos foram perseguidos de maneira especial, e a Associação Patriótica Católica Chinesa (APCC), controlada pelo PCC, foi estabelecida em 1957, numa tentativa de substituir a Igreja Católica na China.
O único partido político permitido era o PCC; a economia foi planejada centralmente pelo PCC, a cultura era ditada pelo PCC, e a religião foi tornada subserviente ao PCC. O resultado foi um cruel fracasso. Como poderia ser de outra maneira, se a Lei natural era atropelada e toda a aspiração à virtude, exinta? Todos aqueles que detinham posições de comando eram oficiais do partido, e todos os oficiais do partido eram corruptos.
Comunismo chinês: Capitalismo com caraterísticas chinesas
Após uma disputa pelo poder em seguida à morte de Mao Tse-Tung em 1976, Deng Xiaoping foi proclamado “Lider político” pelo PCC. Deng Xiaoping lidou com o problema do fracasso econômico introduzindo o capitalismo de mercado na China, alegando que isso seria, apenas, uma adaptação temporária dos princípios comunistas para adequação às condições locais, visando garantir que, eventualmente, fosse atingida a utopia comunista de uma sociedade sem classes, com propriedade comum de todos os bens. As reformas tanto encorajaram o empreendedorismo quanto toleraram a propriedade, mas sempre sob controle do PCC. Esse é o modelo que o atual Secretário-Geral do PCC, Xi Jinping, tem desenvolvido desde que se tornou o “Lider político” em 2012.
Com uma enorme quantidade de mão de obra barata, enormes investimentos de multinacionais e bancos ocidentais, mercados ocidentais abertos, tecnologia prodigiosa do ocidente (garantida por espionagem industrial patrocinada pelo Estado), controle político total e tirania cultural, a China tem buscado uma estratégia vigorosa e inescrupulosa de imperialismo econômico. Ela tem comprado influência e garantido recursos no exterior ao remover ativos comerciais, financiar políticos e acadêmicos estrangeiros e escravizar países em desenvolvimento com projetos de infraestrutura que são bons demais para ser verdade. O resultado geral é que a China, agora, é uma superpotência com posição central nas questões globais, enquanto permanece sem Deus e desprezando a Lei natural. Esse desprezo se manifesta, claramente, no seu bárbaro programa de controle de população e no uso extensivo de “centros de reeducação” para dissidentes políticos e religiosos. É importante notar dois fatos: em primeiro lugar, nada do desenvolvimento chinês teria sido possível sem o capital ocidental, os mercados ocidentais e a colaboração ocidental; e, em segundo lugar, a China permanece totalmente dependente do ocidente para a continuação da sua prosperidade.
Poder concentrado no Ocidente
O poder político, econômico e cultural no Ocidente também tem seguido uma trajetória de concentração. A fonte do poder político no ocidente é, discutivelmente, a democracia, mas é a elite financeira que, na verdade, detém controle sobre a educação, a mídia, os grandes negócios e os políticos que lhes entregam o poder. O mesmo vale para o poder econômico porque quase todo governo, empresa e indivíduo depende dos bancos que lhes emprestam dinheiro, assim se tornando dependentes daqueles que controlam os bancos. Finalmente, a cultura ocidental, controlada pelas empresas de mídia globais, políticos e a academia e o conjunto de instituições do Capitalismo de Estado, também se conforma à elite financeira.
Até mesmo a Igreja Católica, antes uma poderosa força em prol da ordem natural e sobrenatural no mundo, parece estar sob o jugo da mesma elite. Desde o Concílio Vaticano II, os homens da Igreja, querendo se fazer amados pelo mundo, fecharam os olhos para o fim sobrenatural do homem e para o Reinado Social de Cristo Rei e abraçaram a nova cultura global com sua nova religião secular. Eles até se submeteram às autoridades chinesas, traindo assim seus filhos chineses perseguidos naquele país.
O partido não pode durar
Em suma, o poder tem sido comprado com dinheiro, mas esse recurso tem suas limitações. Quando todo o dinheiro em circulação for emprestado e não houver crescimento econômico suficiente para pagar os juros, todo o sistema financeiro está destinado a entrar em colapso. Isso é um problema urgente que o mundo, incluindo a China, está enfrentando. Desde a política de quantitative easing empregada pelos Bancos Centrais em 2009 para alavancar o vacilante sistema financeiro após a crise de 2008, o sistema financeiro mundial tem sobrevivido com aparelhos de sobrevida sem nenhum remédio real para o trazer de volta à saúde.
Tornando-se um comunista chinês com características ocidentais
Nesse contexto, veio a resposta ao vírus da Covid-19, com empréstimos governamentais enormes, erosões das liberdades individuais sem precedentes (notadamente a prática religiosa), aumento alarmante de vigilâncias e sabotagem econômica direcionada – tudo coordenado em escala global.
O que estamos vivendo agora parece muito com uma demolição controlada da antiga ordem mundial baseada no dólar americano para pavimentar o caminho para “O Grande Recomeço” (The Great Reset) que promete maravilhas, mas, na realidade, é um comunismo sem a intenção de resultar na propriedade comum dos bens. O Ocidente está se tornando chinês com características ocidentais: a saber, controle totalitário da política, economia e cultura à moda da República Popular da China, mas, em vez de haver um ápice visível de poder – o Líder político com seus asseclas – a fonte do poder no Ocidente está escondida e opera através de uma infinidade de instituições que formam o “Establishment”, seguindo o modelo de hegemonia cultural descrito pelo teórico marxista Antonio Gramsci (1891-1937); e, em vez do culto do chefe de Estado, uma nova religião de culto terreno e politicamente correto está sendo imposta.
Quem é o Líder Supremo do Ocidente?
Fizemos alusões à “elite financeira” como estando no controle direto de governos, da política econômica e da cultura no Ocidente e no controle indireto da China. Essa elite financeira, segundo se crê, é composta por membros dos Rothschild, Rockefeller, Carnegie e outras dinastias financeiras, em conjunto com estrelas globais que conseguiram adentrar esse círculo seleto. Há bastantes evidências para crer nessa alegação – até mesmo a confissão deles – mas estariam eles no topo da pirâmide? O que os une? É a maçonaria ou algo a que a própria maçonaria é subserviente? Quando se lembra que um tema comum das mudanças políticas, econômicas e culturais ao longo dos últimos 70 anos é a erosão deliberada da Lei Natural e a promoção da cultura da morte, parece que há forças mais sombrias do que a ganância e a megalomania de uma elite em jogo. Quando vimos, também, que a Igreja Católica tem sido objeto de uma infiltração organizada e tem sofrido sua própria revolução (no Concílio Vaticano II), podemos discernir os traços de Satanás no mundo.
Virando católico chinês.
O que estamos testemunhando agora pode, muito bem, ser o cumprimento da profecia de Nossa Senhora de Fátima em 13 de julho de 1917: os erros da Rússia – os dogmas da ideologia comunista – se espalharão pelo mundo.
Para os católicos, principalmente por estarmos em números tão pequenos e porque grandes setores da hierarquia da Igreja são cúmplices da revolução, é irreal imaginar que podemos vencer as forças do mal lançando-nos contra aquelas instituições onde a cultura da morte reina. Como na China, a rota natural está fechada; devemos, portanto, empenhar toda nossa energia no sobrenatural.
Se nossa sociedade está caindo no comunismo chinês com características ocidentais, faríamos bem ao observarmos como a Igreja Católica sobreviveu e até cresceu face à perseguição do PCC. Desde 1952, a Igreja na China tornou-se clandestina, e, apesar de isolamentos sociais, prisões, multas, lavagens cerebrais, torturas e execuções, muitos católicos perseveraram. Os fiéis católicos correram a Nossa Senhora quando foram ameaçados: eles recitaram o terço na ausência da Missa e ingressaram na Legião de Maria na ausência de uma estrutura paroquial. Eles correram para os santuários dela, os terços eram suas armas, a Legião de Maria, seu exército. Trazida da Irlanda para a China pelo Pe. Aedan McGrath, da Sociedade Missionária de São Columba, a Legião de Maria, tornou-se um instrumento da sobrevivência da Igreja Católica quando a hierarquia visível era desmantelada pelo PCC entre 1950 e 1955. Os legionários treinavam catequistas, batizavam, testemunhavam casamentos e encorajavam a devoção e a perseverância entre os fiéis quando não havia Padres. Eles trabalhavam em segredo, dando aos católicos e aos catecúmenos uma formação que os ajudaria a suportar o sofrimento da perseguição e a espalhar a fé a outras almas aflitas que, privadas das distrações do mundo material, eram terra fértil para a vida divina.
É improvável que os católicos no ocidente serão submetidos aos mesmos sofrimentos físicos que os católicos chineses, mas pressão moral, financeira e legal pode, certamente, ser esperada. Devemos imitar os católicos chineses em suas virtudes de oração, penitência e perseverância, e, talvez, seja o tempo de reformar a Legião de Maria no Distrito.
Em Fátima, Nossa Senhora revelou a Lúcia, Francisco e Jacinta que os erros da Rússia podem ser evitados pela consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria, pela devoção dos cinco primeiros sábados e pela recitação diária do terço. Apesar de apenas o Papa, em união com todos os Bispos do mundo, poder consagrar a Rússia ao Imaculado Coração de Maria, essa é uma causa pela qual podemos rezar e divulgar. Quanto à devoção dos cinco primeiros sábados e à recitação diária do terço, isso é algo que a maioria dos católicos pode fazer – certamente o terço diário.
Devemos estar prontos para seguir o exemplo dos católicos chineses perseguidos, que eram, de várias maneiras, como a Sagrada Família. A Sagrada Família estava sem abrigo, pois ela foi forçada a fugir de sua casa para cumprir uma lei governamental, foi mal recebida e tratada como gado pelo establishment de Belém e teve de abandonar tudo na sua fuga de Herodes. Tendo perdido tudo no mundo, eles, ainda assim, possuíam o maior de todos os tesouros: a Divina Criança – Deus em carne e Deus em suas almas.
Enquanto adoramos o Menino Jesus na manjedoura neste Natal, peçamos as graças de fidelidade e fortaleza para o que pode ser um ano dramático. Em nome de todos os membros da Fraternidade, queridos fiéis, por favor, aceitem meu agradecimento por toda sua ajuda espiritual e temporal ao longo do último ano, e estejam certos de nosso desejo, nossas orações e sacrifícios para que vocês possam encontrar paz verdadeira no único lugar onde ela pode ser encontrada: nos braços de nossa Mãe Celestial, que estende Seu Filho a nós.
Nossa Senhora da China, rogai por nós!
(Ite Missa Est)
Pregado na Capela Real, no ano de 1655.
Semen est verbum Dei. S. Lucas, VIII, 11.
I
E se quisesse Deus que este tão ilustre e tão numeroso auditório saísse hoje tão desenganado da pregação, como vem enganado com o pregador! Ouçamos o Evangelho, e ouçamo-lo todo, que todo é do caso que me levou e trouxe de tão longe.
Ecce exiit qui seminat, seminare. Diz Cristo que «saiu o pregador evangélico a semear» a palavra divina. Bem parece este texto dos livros de Deus. Não só faz menção do semear, mas também faz caso do sair: Exiit, porque no dia da messe hão-nos de medir a semeadura e hão-nos de contar os passos. O Mundo, aos que lavrais com ele, nem vos satisfaz o que dispendeis, nem vos paga o que andais. Deus não é assim. Para quem lavra com Deus até o sair é semear, porque também das passadas colhe fruto. Entre os semeadores do Evangelho há uns que saem a semear, há outros que semeiam sem sair. Os que saem a semear são os que vão pregar à Índia, à China, ao Japão; os que semeiam sem sair, são os que se contentam com pregar na Pátria. Todos terão sua razão, mas tudo tem sua conta. Aos que têm a seara em casa, pagar-lhes-ão a semeadura; aos que vão buscar a seara tão longe, hão-lhes de medir a semeadura e hãolhes de contar os passos. Ah Dia do Juízo! Ah pregadores! Os de cá, achar-vos-eis com mais paço; os de lá, com mais passos: Exiit seminare.
Mas daqui mesmo vejo que notais (e me notais) que diz Cristo que o semeador do Evangelho saiu, porém não diz que tornou porque os pregadores evangélicos, os homens que professam pregar e: propagar a Fé, é bem que saiam, mas não é bem que tornem. Aqueles animais de Ezequiel que tiravam pelo carro triunfal da glória de Deus e significavam os pregadores do Evangelho que propriedades tinham? Nec revertebantur, cum ambularent: «Uma vez que iam, não tornavam». As rédeas por que se governavam era o ímpeto do espírito, como diz o mesmo texto: mas esse espírito tinha impulsos para os levar,não tinha regresso para os trazer; porque sair para tornar melhor é não sair. Assim arguis com muita razão, e eu também assim o digo. Mas pergunto: E se esse semeador evangélico, quando saiu, achasse o campo tomado; se se armassem contra ele os espinhos; se se levantassem contra ele as pedras, e se lhe fechassem os caminhos que havia de fazer? Todos estes contrários que digo e todas estas contradições experimentou o semeador do nosso Evangelho. Começou ele a semear (diz Cristo), mas com pouca ventura. «Uma parte do trigo caiu entre espinhos, e afogaram-no os espinhos»: Aliud cecidit inter spinas et simul exortae spinae suffocaverunt illud. Outra parte caiu sobre pedras, e secou-se nas pedras por falta de humidade»: Aliud cecidit super petram, et natum aruit, quia non habebat humorem. «Outra parte caiu no caminho, e pisaram-no os homens e comeram-no as aves»: Aliud cecidit secus viam, et conculcatum est, et volucres coeli comederunt illud. Ora vede como todas as criaturas do Mundo se armaram contra esta sementeira. Todas as criaturas quantas há no Mundo se reduzem a quatro gé neros: criaturas racionais, como os homens; criaturas sensitivas, como os animais; criaturas vegetativas, como as plantas; criaturas insensíveis, como as pedras; e não há mais. Faltou alguma destas que se não armasse contra o semeador? Nenhuma. A natureza insensível o perseguiu nas pedras, a vegetativa nos espinhos, a sensitiva nas aves, a racional nos homens. E notai a desgraça do trigo, que onde só podia esperar razão, ali achou maior agravo. As pedras secaram-no, os espinhos afogaram-no, as aves comeram-no; e os homens? Pisaram-no: Conculcatum est. Ab hominibus (diz a Glossa).
Quando Cristo mandou pregar os Apóstolos pelo Mundo, disse-lhes desta maneira: Euntes in mundum universum, praedicate omni creaturae: «Ide, e pregai a toda a criatura». Como assim, Senhor?! Os animais não são criaturas?! As árvores não são criaturas?! As pedras não são criaturas?! Pois hão os Apóstolos de pregar às pedras?! Hão-de pregar aos troncos?! Hão-de pregar aos animais?! Sim, diz S. Gregório, depois de Santo Agostinho. Porque como os Apóstolos iam pregar a todas as nações do Mundo, muitas delas bárbaras e incultas, haviam de achar os homens degenerados em todas as espécies de criaturas: haviam de achar homens homens, haviam de achar homens brutos, haviam de achar homens troncos, haviam de achar homens pedras. E quando os pregadores evangélicos vão pregar ar a toda a criatura, que se armem contra eles todas as criaturas?! Grande desgraça!
Mas ainda a do semeador do nosso Evangelho não foi a maior. A maior é a que se tem experimentado na seara aonde eu fui, e para onde venho. Tudo o que aqui padeceu o trigo, padeceram lá os semeadores. Se bem advertirdes, houve aqui trigo mirrado, trigo afogado, trigo comido e trigo pisado. Trigo mirrado: Natum aruit, quia non habebat humorem; trigo afogado: Exortae spinae suffocaverunt illud; trigo comido: Volucres caeli comederunt illud; trigo pisado: Conculcutum est. Tudo isto padeceram os semeadores evangélicos da missão do Maranhão de doze anos a esta parte. Houve missionários afogados, porque uns se afogaram na boca do grande rio das Amazonas; houve missionários comidos, porque a outros comeram os bárbaros na ilha dos Aroãs; houve missionários mirrados, porque tais tornaram os da jornada dos Tocatins, mirrados da fome e da doença, onde tal houve, que andando vinte e dois dias perdido nas brenhas matou somente a sede com o orvalho que lambia das folhas. Vede se lhe quadra bem o Notum aruit, quia non habebant humorem! E que sobre mirrados, sobre afogados, sobre comidos, ainda se vejam pisados e perseguidos dos homens: Conculcatum est! Não me queixo nem o digo, Senhor, pelos semeadores; só pela seara o digo, só pela seara o sinto. Para os semeadores, isto são glórias: mirrados sim, mas por amor de vós mirrados; afogados sim, mas por amor de vós afogados; comidos sim, mas por amor de vós comidos; pisados e perseguidos sim, mas por amor de vós perseguidos e pisados.
Agora torna a minha pergunta: E que faria neste caso, ou que devia fazer o semeador evangélico, vendo tão mal logrados seus primeiros trabalhos? Deixaria a lavoura? Desistiria da sementeira? Ficar-se-ia ocioso no campo, só porque tinha lá ido? Parece que não. Mas se tornasse muito depressa a buscar alguns instrumentos com que alimpar a terra das pedras e dos espinhos, seria isto desistir? Seria isto tornar atrás? -- Não por certo. No mesmo texto de Ezequiel com que arguistes, temos a prova. Já vimos como dizia o texto, que aqueles animais da carroça de Deus, «quando iam não tornavam»: Nec revertebantur, cum ambularent. Lede agora dois versos mais abaixo, e vereis que diz o mesmo texto que «aqueles animais tornavam, e semelhança de um raio ou corisco»: Ibant et revertebantur in similitudinem fulgoris coruscantis. Pois se os animais iam e tornavam à semelhança de um raio, como diz o texto que quando iam não tornavam? Porque quem vai e volta como um raio, não torna. Ir e voltar como raio, não é tornar, é ir por diante. Assim o fez o semeador do nosso Evangelho. Não o desanimou nem a primeira nem a segunda nem a terceira perda; continuou por diante no semear, e foi com tanta felicidade, que nesta quarta e última parte do trigo se restauraram com vantagem as perdas do demais: nasceu, cresceu, espigou, amadureceu, colheu-se, mediu-se, achou-se que por um grão multiplicara cento: Et fecit fructum centuplum.
Oh que grandes esperanças me dá esta sementeira! Oh que grande exemplo me dá este semeador! Dá-me grandes esperanças a sementeira porque, ainda que se perderam os primeiros trabalhos, lograr-seão os últimos. Dá-me grande exemplo o semeador, porque, depois de perder a primeira, a segunda e a terceira parte do trigo, aproveitou a quarta e última, e colheu dela muito fruto. Já que se perderam as três partes da vida, já que uma parte da idade a levaram os espinhos, já que outra parte a levaram es pedras, já que outra parte a levaram os caminhos, e tantos caminhos, esta quarta e última parte, este último quartel da vida, porque se perderá também? Porque não dará fruto? Porque não terão também os anos o que tem o ano? O ano tem tempo para as flores e tempo para os frutos. Porque não terá também o seu Outono a vida? As flores, umas caem, outras secam, outras murcham, outras leva o vento; aquelas poucas que se pegam ao tronco e se convertem em fruto, só essas são as venturosas, só essas são as que aproveitam, só essas são as que sustentam o Mundo. Será bem que o Mundo morra à fome? Será bem que os últimos dias se passem em flores? -- Não será bem, nem Deus quer que seja, nem há-de ser. Eis aqui porque eu dizia ao princípio, que vindes enganados com o pregador. Mas para que possais ir desenganados com o sermão, tratarei nele uma matéria de grande peso e importância. Servirá como de prólogo aos sermões que vos hei-de pregar, e aos mais que ouvirdes esta Quaresma.
II
Semen est verbum Dei.
O trigo que semeou o pregador evangélico, diz Cristo que é a palavra de Deus. Os espinhos, as pedras, o caminho e a terra boa em que o trigo caiu, são os diversos corações dos homens. Os espinhos são os corações embaraçados com cuidados, com riquezas, com delícias; e nestes afoga-se a palavra de Deus. As pedras são os corações duros e obstinados; e nestes seca-se a palavra de Deus, e se nasce, não cria raízes. Os caminhos são os corações inquietos e perturbados com a passagem e tropel das coisas do Mundo, umas que vão, outras que vêm, outras que atravessam, e todas passam; e nestes é pisada a palavra de Deus, porque a desatendem ou a desprezam. Finalmente, a terra boa são os corações bons ou os homens de bom coração; e nestes prende e frutifica a palavra divina, com tanta fecundidade e abundância, que se colhe cento por um: Et fructum fecit centuplum.
Este grande frutificar da palavra de Deus é o em que reparo hoje; e é uma dúvida ou admiração que me traz suspenso e confuso, depois que subo ao púlpito. Se a palavra de Deus é tão eficaz e tão poderosa, como vemos tão pouco fruto da palavra de Deus? Diz Cristo que a palavra de Deus frutifica cento por um, e já eu me contentara com que frutificasse um por cento. Se com cada cem sermões se convertera e emendara um homem, já o Mundo fora santo. Este argumento de fé, fundado na autoridade de Cristo, se aperta ainda mais na experiência, comparando os tempos passados com os presentes. Lede as histórias eclesiásticas, e achá-las-eis todas cheias de admiráveis efeitos da pregação da palavra de Deus. Tantos pecadores convertidos, tanta mudança de vida, tanta reformação de costumes; os grandes desprezando as riquezas e vaidades do Mundo; os reis renunciando os ceptros e as coroas; as mocidades e as gentilezas metendo-se pelos desertos e pelas covas; e hoje? -- Nada disto. Nunca na Igreja de Deus houve tantas pregações, nem tantos pregadores como hoje. Pois se tanto se semeia a palavra de Deus, como é tão pouco o fruto? Não há um homem que em um sermão entre em si e se resolva, não há um moço que se arrependa, não há um velho que se desengane. Que é isto? Assim como Deus não é hoje menos omnipotente, assim a sua palavra não é hoje menos poderosa do que dantes era. Pois se a palavra de Deus é tão poderosa; se a palavra de Deus tem hoje tantos pregadores, porque não vemos hoje nenhum fruto da palavra de Deus? Esta, tão grande e tão importante dúvida, será a matéria do sermão. Quero começar pregandome a mim. A mim será, e também a vós; a mim, para aprender a pregar; a vós, que aprendais a ouvir.
III
Fazer pouco fruto a palavra de Deus no Mundo, pode proceder de um de três princípios: ou da parte do pregador, ou da parte do ouvinte, ou da parte de Deus. Para uma alma se converter por meio de um sermão, há-de haver três concursos: há-de concorrer o pregador com a doutrina, persuadindo; há-de concorrer o ouvinte com o entendimento, percebendo; há-de concorrer Deus com a graça, alumiando. Para um homem se ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos. Que coisa é a conversão de uma alma, senão entrar um homem dentro em si e ver-se a si mesmo? Para esta vista são necessários olhos, e necessária luz e é necessário espelho. O pregador concorre com o espelho, que é a doutrina; Deus concorre com a luz, que é a graça; o homem concorre com os olhos, que é o conhecimento. Ora suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos: de Deus, do pregador e do ouvinte, por qual deles devemos entender que falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus?
Primeiramente, por parte de Deus, não falta nem pode faltar. Esta proposição é de fé, definida no Concílio Tridentino, e no nosso Evangelho a temos. Do trigo que deitou à terra o semeador, uma parte se logrou e três se perderam. E porque se perderam estas três? -- A primeira perdeu-se, porque a afogaram os espinhos; a segunda, porque a secaram as pedras; a terceira, porque a pisaram os homens e a comeram as aves. Isto é o que diz Cristo; mas notai o que não diz. Não diz que parte alguma daquele trigo se perdesse por causa do sol ou da chuva. A causa por que ordinariamente se perdem as sementeiras, é pela desigualdade e pela intemperança dos tempos, ou porque falta ou sobeja a chuva, ou porque falta ou sobeja o sol. Pois porque não introduz Cristo na parábola do Evangelho algum trigo que se perdesse por causa do sol ou da chuva? -- Porque o sol e a chuva são as afluências da parte do Céu, e deixar de frutificar a semente da palavra de Deus, nunca é por falta: do Céu, sempre é por culpa nossa. Deixará de frutificar a sementeira, ou pelo embaraço dos espinhos, ou pela dureza das pedras, ou pelos descaminhos dos caminhos; mas por falta das influências do Céu, isso nunca é nem pode ser. Sempre Deus está pronto da sua parte, com o sol para aquentar e com a chuva para regar; com o sol para alumiar e com a chuva para amolecer, se os nossos corações quiserem: Qui solem suum oriri facit super bonos et malos, et pluit super justos et injustos. Se Deus dá o seu sol e a sua chuva aos bons e aos maus; aos maus que se quiserem fazer bons, como a negará? Este ponto é tão claro que não há para que nos determos em mais prova. Quid debui facere vineae meae, et non feci? -- disse o mesmo Deus por Isaías.
Sendo, pois, certo que a palavra divina não deixa de frutificar por parte de Deus, segue-se que ou é por falta do pregador ou por falta dos ouvintes. Por qual será? Os pregadores deitam a culpa aos ouvintes, mas não é assim. Se fora por parte dos ouvintes, não fizera a palavra de Deus muito grande fruto, mas não fazer nenhum fruto e nenhum efeito, não é por parte dos ouvintes. Provo.
Os ouvintes ou são maus ou são bons; se são bons, faz neles fruto a palavra de Deus; se são maus, ainda que não faça neles fruto, faz efeito. No Evangelho o temos. O trigo que caiu nos espinhos, nasceu, mas afogaram-no: Simul exortae spinae suffocaverunt illud. O trigo que caiu nas pedras, nasceu também, mas secou-se: Et natum aruit. O trigo que caiu na terra boa, nasceu e frutificou com grande multiplicação: Et natum fecit fructum centuplum. De maneira que o trigo que caiu na boa terra, nasceu e frutificou; o trigo que caiu na má terra, não frutificou, mas nasceu; porque a palavra de Deus é tão funda, que nos bons faz muito fruto e é tão eficaz que nos maus ainda que não faça fruto, faz efeito; lançada nos espinhos, não frutificou, mas nasceu até nos espinhos; lançada nas pedras, não frutificou, mas nasceu até nas pedras. Os piores ouvintes que há na Igreja de Deus, são as pedras e os espinhos. E porquê? -- Os espinhos por agudos, as pedras por duras. Ouvintes de entendimentos agudos e ouvintes de vontades endurecidas são os piores que há. Os ouvintes de entendimentos agudos são maus ouvintes, porque vêm só a ouvir sutilezas, a esperar galantarias, a avaliar pensamentos, e às vezes também a picar a quem os não pica. Aliud cecidit inter spinas: O trigo não picou os espinhos, antes os espinhos o picaram a ele; e o mesmo sucede cá. Cuidais que o sermão vos picou e vós, e não é assim; vós sois os que picais o sermão. Por isto são maus ouvintes os de entendimentos agudos. Mas os de vontades endurecidas ainda são piores, porque um entendimento agudo pode ferir pelos mesmos fios, e vencer-se uma agudeza com outra maior; mas contra vontades endurecidas nenhuma coisa aproveita a agudeza, antes dana mais, porque quanto as setas são mais agudas, tanto mais facilmente se despontam na pedra. Oh! Deus nos livre de vontades endurecidas, que ainda são piores que as pedras! A vara de Moisés abrandou as pedras, e não pôde abrandar uma vontade endurecida: Percutiens virga bis silicem, et egressae sunt aquae largissimae. Induratum est cor Pharaonis. E com os ouvintes de entendimentos agudos e os ouvintes de vontades endurecidas serem os mais rebeldes, é tanta a força da divina palavra, que, apesar da agudeza, nasce nos espinhos, e apesar da dureza nasce nas pedras.
Pudéramos arguir ao lavrador do Evangelho de não cortar os espinhos e de não arrancar as pedras antes de semear, mas de indústria deixou no campo as pedras e os espinhos, para que se visse a força do que semeava. E tanta a força da divina palavra, que, sem cortar nem despontar espinhos, nasce entre espinhos. É tanta a força da divina palavra, que, sem arrancar nem abrandar pedras, nasce nas pedras. Corações embaraçados como espinhos corações secos e duros como pedras, ouvi a palavra de Deus e tende confiança! Tomai exemplo nessas mesmas pedras e nesses espinhos! Esses espinhos e essas pedras agora resistem ao semeador do Céu; mas virá tempo em que essas mesmas pedras o aclamem e esses mesmos espinhos o coroem.
Quando o semeador do Céu deixou o campo, saindo deste Mundo, as pedras se quebraram para lhe fazerem aclamações, e os espinhos se teceram para lhe fazerem coroa. E se a palavra de Deus até dos espinhos e das pedras triunfa; se a palavra de Deus até nas pedras, até nos espinhos nasce; não triunfar dos alvedrios hoje a palavra de Deus, nem nascer nos corações, não é por culpa, nem por indisposição dos ouvintes.
Supostas estas duas demonstrações; suposto que o fruto e efeitos da palavra de Deus, não fica, nem por parte de Deus, nem por parte dos ouvintes, segue-se por consequência clara, que fica por parte do pregador. E assim é. Sabeis, cristãos, porque não faz fruto a palavra de Deus? Por culpa dos pregadores. Sabeis, pregadores, porque não faz fruto a palavra de Deus? -- Por culpa nossa.
IV
Mas como em um pregador há tantas qualidades, e em uma pregação tantas leis, e os pregadores podem ser culpados em todas, em qual consistirá esta culpa? -- No pregador podem-se considerar cinco circunstâncias: a pessoa, a ciência, a matéria, o estilo, a voz. A pessoa que é, e ciência que tem, a matéria que trata, o estilo que segue, a voz com que fala. Todas estas circunstâncias temos no Evangelho. Vamo-las examinando uma por uma e buscando esta causa.
Será porventura o não fazer fruto hoje a palavra de Deus, pela circunstância da pessoa? Será porque antigamente os pregadores eram santos eram varões apostólicos e exemplares, e hoje os pregadores são eu e outros como eu? -- Boa razão é esta. A definição do pregador é a vida e o exemplo. Por isso Cristo no Evangelho não o comparou ao semeador, senão ao que semeia. Reparai. Não diz Cristo: saiu a semear o semeador, senão, saiu a semear o que semeia: Ecce exiit, qui seminat, seminare. Entre o semeador e o que semeia há muita diferença. Uma coisa é o soldado e outra coisa o que peleja; uma coisa é o governador e outra o que governa. Da mesma maneira, uma coisa é o semeador e outra o que semeia; uma coisa é o pregador e outra o que prega. O semeador e o pregador é nome; o que saneia e o que prega é ação; e as ações são as que dão o ser ao pregador. Ter o nome de pregador, ou ser pregador de nome, não importa nada; as ações, a vida, o exemplo, as obras, são as que convertem o Mundo. O melhor conceito que o pregador leva ao púlpito, qual cuidais que é? -- o conceito que de sua vida têm os ouvintes.
Antigamente convertia-se o Mundo, hoje porque se não converte ninguém? Porque hoje pregam-se palavras e pensamentos, antigamente pregavam-se palavras e obras. Palavras sem obra são tiros sem bala; atroam, mas não ferem. A funda de David derrubou o gigante, mas não o derrubou com o estalo, senão com a pedra: Infixus est lapis in fronte ejus. As vozes da harpa de David lançavam fora os demónios do corpo de Saul, mas não eram vozes pronunciadas com a boca, eram vozes formadas com a mão: David tollebat citharam, et percutiebat manu sua. Por isso Cristo comparou o pregador ao semeador. O pregar que é falar faz-se com a boca; o pregar que é semear, faz-se com a mão. Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração, são necessárias obras. Diz o Evangelho que a palavra de Deus frutificou cento por um. Que quer isto dizer? Quer dizer que de uma palavra nasceram em palavras? -- Não. Quer dizer que de poucas palavras nasceram muitas obras. Pois palavras que frutificam obras, vede se podem ser só palavras! Quis Deus converter o Mundo, e que fez? -- Mandou ao Mundo seu Filho feito homem. Notai. O Filho de Deus, enquanto Deus, é palavra de Deus, não é obra de Deus: Genitum non factum. O Filho de Deus, enquanto Deus e Homem, é palavra de Deus e obra de Deus juntamente: Verbum caro factum est. De maneira que até de sua palavra desacompanhada de obras não fiou Deus a conversão dos homens. Na união da palavra de Deus com a maior obra de Deus consistiu a eficácia da salvação do Mundo. Verbo Divino é palavra divina; mas importa pouco que as nossas palavras sejam divinas, se forem desacompanhadas de obras. A razão disto é porque as palavras ouvem-se, as obras vêem-se; as palavras entram pelos ouvidos, as obras entram pelos olhos, e a nossa alma rende-se muito mais pelos olhos que pelos ouvidos. No Céu ninguém há que não ame a Deus, nem possa deixar de o amar. Na terra há tão poucos que o amem, todos o ofendem. Deus não é o mesmo, e tão digno de ser amado no Céu e na Terra? Pois como no Céu obriga e necessita a todos a o amarem, e na terra não? A razão é porque Deus no Céu é Deus visto; Deus na terra é Deus ouvido. No Céu entra o conhecimento de Deus à alma pelos olhos: Videbimus eum sicut est; na terra entra-lhe o conhecimento de Deus pelos ouvidos: Fides ex auditu; e o que entra pelos ouvidos crê-se, o que entra pelos olhos necessita. Viram os ouvintes em nós o que nos ouvem a nós, e o abalo e os efeitos do sermão seriam muito outros.
Vai um pregador pregando a Paixão, chega ao pretório de Pilatos, conta como a Cristo o fizeram rei de zombaria, diz que tomaram uma púrpura e lha puseram aos ombros; ouve aquilo o auditório muito atento. Diz que teceram uma coroa de pinhos e que lha pregaram na cabeça; ouvem todos com a mesma atenção. Diz mais que lhe ataram as mãos e lhe meteram nelas uma cana por ceptro; continua o mesmo silêncio e a mesma suspensão nos ouvintes. Corre-se neste espaço uma cortina aparece a imagem do Ecce Homo; eis todos prostrados por terra, eis todos a bater no peito eis as lágrimas, eis os gritos, eis os alaridos, eis as bofetadas. Que é isto? Que apareceu de novo nesta igreja? Tudo o que descobriu aquela cortina, tinha já dito o pregador. Já tinha dito daquela púrpura, já tinha dito daquela coma e daqueles espinhos, já tinha dito daquele ceptro e daquela cana. Pois se isto então não fez abalo nenhum, como faz agora tanto? -- Porque então era Ecce Homo ouvido, e agora é Ecce Homo visto; a relação do pregador entrava pelos ouvidos a representação daquela figura entra pelos olhos. Sabem, Padres pregadores, porque fazem pouco abalo os nossos sermões? -- Porque não pregamos aos olhos, pregamos só aos ouvidos. Porque convertia o Baptista tantos pecadores? -- Porque assim como as suas palavras pregavam aos ouvidos, o seu exemplo pregava aos olhos. As palavras do Baptista pregavam penitência: Agite poenitentiam. «Homens, fazei penitência» -- e o exemplo clamava: Ecce Homo: «eis aqui está o homem» que é o retrato da penitência e da aspereza. As palavras do Baptista pregavam jejum e repreendiam os regalos e demasias da gula; e o exemplo clamava: Ecce Homo: eis aqui está o homem que se sustenta de gafanhotos e mel silvestre. As palavras do Baptista pregavam composição e modéstia, e condenavam a soberba e a vaidade das galas; e o exemplo clamava: Ecce Homo: eis aqui está o homem vestido de peles de camelo, com as cordas e cilício à raiz da carne. As palavras do Baptista pregavam despegos e retiros do Mundo, e fugir das ocasiões e dos homens; e o exemplo Clamava: Ecce Homo: eis aqui o homem que deixou as cortes e as sociedades, e vive num deserto e numa cova. Se os ouvintes ouvem uma coisa e vêem outra, como se hão-de converter? Jacob punha as varas manchadas diante das ovelhas quando concebiam, e daqui procedia que os cordeiros nasciam malhados. Se quando os ouvintes percebem os nossos conceitos, têm diante dos olhos as nossas manchas, como hão-de conceber virtudes? Se a minha vida é apologia contra a minha doutrina, se as minhas palavras vão já refutadas nas minhas obras, se uma cousa é o semeador e outra o que semeia, como se há-de fazer fruto?
Muito boa e muito forte razão era esta de não fazer fruto a palavra de Deus; mas tem contra si o exemplo e experiência de Jonas. Jonas fugitivo de Deus, desobediente, contumaz, e, ainda depois de engolido e vomitado iracundo, impaciente, pouco caritativo, pouco misericordioso, e mais zeloso e amigo da própria estimação que da honra de Deus e salvação das almas, desejoso de ver subvertida a Nínive e de a ver subverter com seus olhos, havendo nela tantos mil inocentes; contudo este mesmo homem com um sermão converteu o maior rei, a maior corte e o maior reinado do Mundo, e não de homens fiéis senão de gentios idólatras. Outra é logo a causa que buscamos. Qual será?
V
Será porventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos? Um estilo tão empeçado, um estilo tão dificultoso, um estilo tão afectado, um estilo tão encontrado a toda a arte e a toda a natureza? Boa razão é também esta. O estilo há-de ser muito fácil e muito natural. Por isso Cristo comparou o pregar ao semear: Exiit, qui seminat, seminare. Compara Cristo o pregar ao semear, porque o semear é uma arte que tem mais de natureza que de arte. Nas outras artes tudo é arte: na música tudo se faz por compasso, na arquitectura tudo se faz por regra, na aritmética tudo se faz por conta, na geometria tudo se faz por medida. O semear não é assim. É uma arte sem arte caia onde cair. Vede como semeava o nosso lavrador do Evangelho. «Caía o trigo nos espinhos e nascia» Aliud cecidit inter spinas, et simul exortae spinae «Caía o trigo nas pedras e nascia»: Aliud cecidit super petram, et ortum. «Caía o trigo na terra boa e nascia»: Aliud cecidit in terram bonam, et natum. Ia o trigo caindo e ia nascendo.
Assim há-de ser o pregar. Hão-de cair as coisas hão-de nascer; tão naturais que vão caindo, tão próprias que venham nascendo. Que diferente é o estilo violento e tirânico que hoje se usa! Ver vir os tristes passos da Escritura, como quem vem ao martírio; uns vêm acarretados, outros vêm arrastados, outros vêm estirados, outros vêm torcidos, outros vêm despedaçados; só atados não vêm! Há tal tirania? Então no meio disto, que bem levantado está aquilo! Não está a coisa no levantar, está no cair: Cecidit. Notai uma alegoria própria da nossa língua. O trigo do semeador, ainda que caiu quatro vezes, só de três nasceu; para o sermão vir nascendo, há-de ter três modos de cair: há-de cair com queda, há-de cair com cadência há-de cair com caso. A queda é para as coisas, a cadência para as palavras, o caso para a disposição. A queda é para as coisas porque hão-de vir bem trazidas e em seu lugar; hão-de ter queda. A cadência é para as palavras, porque não hão-de ser escabrosas nem dissonantes; hão-de ter cadência. O caso é para a disposição, porque há-de ser tão natural e tão desafectada que pareça caso e não estudo: Cecidit, cecidit, cecidit.
Já que falo contra os estilos modernos, quero alegar por mim o estilo do mais antigo pregador que houve no Mundo. E qual foi ele? -- O mais antigo pregador que houve no Mundo foi o céu. Coeli enarrant gloriam Dei et opera manuum ejus annuntiat Firmamentum -- diz David. Suposto que o céu é pregador, deve de ter sermões e deve de ter: palavras. Sim, tem, diz o mesmo David; tem palavras e tem sermões; e mais, muito bem ouvidos. Non sunt loquellae, nec sermones, quorum non audiantur voces eorum. E quais são estes sermões e estas palavras do céu? -- As palavras são as estrelas, os sermões são a composição, a ordem, a harmonia e o curso delas. Vede como diz o estilo de pregar do céu, com o estilo que Cristo ensinou na terra. Um e outro é semear; a terra semeada de trigo, o céu semeado de estrelas. O pregar há-de ser como quem semeia, e não como quem ladrilha ou azuleja. Ordenado, mas como as estrelas: Stellae manentes in ordine suo. Todas as estrelas estão por sua ordem; mas é ordem que faz influência, não é ordem que faça lavor. Não fez Deus o céu em xadrez de estrelas, como os pregadores fazem o sermão em xadrez de palavras. Se de uma parte há-de estar branco, da outra há-de estar negro; se de uma parte dizem luz, da outra hão-de dizer sombra; se de uma parte dizem desceu, da outra hão-de dizer subiu. Basta que não havemos de ver num sermão duas palavras em paz? Todas hão-de estar sempre em fronteira com o seu contrário? Aprendamos do céu o estilo da disposição, e também o das palavras. As estrelas são muito distintas e muito claras. Assim há-de ser o estilo da pregação; muito distinto e muito claro. E nem por isso temais que pareça o estilo baixo; as estrelas são muito distintas e muito claras, e altíssimas. O estilo pode ser muito claro e muito alto; tão claro que o entendam os que não sabem e tão alto que tenham muito que entender os que sabem. O rústico acha documentos nas estrelas para sua lavoura e o mareante para sua navegação e o matemático para as suas observações e para os seus juízos. De maneira que o rústico e o mareante, que não sabem ler nem escrever entendem as estrelas; e o matemático, que tem lido quantos escreveram, não alcança a entender quanto nelas há. Tal pode ser o sermão: -- estrelas que todos vêem, e muito poucos as medem.
Sim, Padre; porém esse estilo de pregar não é pregar culto. Mas fosse! Este desventurado estilo que hoje se usa, os que o querem honrar chamam-lhe culto, os que o condenam chamam-lhe escuro, mas ainda lhe fazem muita honra. O estilo culto não é escuro, é negro, e negro boçal e muito cerrado. E possível que somos portugueses e havemos de ouvir um pregador em português e não havemos de entender o que diz?! Assim como há Lexicon para o grego e Calepino para o latim, assim é necessário haver um vocabulário do púlpito. Eu ao menos o tomara para os nomes próprios, porque os cultos têm desbaptizados os santos, e cada autor que alegam é um enigma. Assim o disse o Ceptro Penitente, assim o disse o Evangelista Apeles, assim o disse a Águia de África, o Favo de Claraval, a Púrpura de Belém, a Boca de Ouro. Há tal modo de alegar! O Ceptro Penitente dizem que é David, como se todos os ceptros não foram penitência; o Evangelista Apeles, que é S. Lucas; o Favo de Claraval, S. Bernardo; a Águia de África, Santo Agostinho; a Púrpura de Belém, S. Jerónimo; a Boca de Ouro, S. Crisóstomo. E quem quitaria ao outro cuidar que a Púrpura de Belém é Herodes que a Águia de África é Cipião, e que a Boca de Ouro é Midas? Se houvesse um advogado que alegasse assim a Bártolo e Baldo, havíeis de fiar dele o vosso pleito? Se houvesse um homem que assim falasse na conversação, não o havíeis de ter por néscio? Pois o que na conversação seria necessidade, como há-de ser discrição no púlpito?
Boa me parecia também esta razão; mas como os cultos pelo pulido e estudado se defendem com o grande Nazianzeno, com Ambrósio, com Crisólogo, com Leão, e pelo escuro e duro com Clemente Alexandrino, com Tertuliano, com Basílio de Selêucia, com Zeno Veronense e outros, não podemos negar a reverência a tamanhos autores posto que desejáramos nos que se prezam de beber destes rios, a sua profundidade. Qual será logo a causa de nossa queixa?
VI
Será pela matéria ou matérias que tomam os pregadores? Usa-se hoje o modo que chamam de apostilar o Evangelho, em que tomam muitas matérias, levantam muitos assuntos e quem levanta muita caça e não segue nenhuma não é muito que se recolha com as mãos vazias. Boa razão é também esta. O sermão há-de ter um só assunto e uma só matéria. Por isso Cristo disse que o lavrador do Evangelho não semeara muitos géneros de sementes, senão uma só: Exiit, qui seminat, seminare semen. Semeou uma semente só, e não muitas, porque o sermão há-de ter uma só matéria, e não muitas matérias. Se o lavrador semeara primeiro trigo, e sobre o trigo semeara centeio, e sobre o centeio semeara milho grosso e miúdo, e sobre o milho semeara cevada, que havia de nascer? Uma mata brava, uma confusão verde. Eis aqui o que acontece aos sermões deste género. Como semeiam tanta variedade, não podem colher coisa certa. Quem semeia misturas, mal pode colher trigo. Se uma nau fizesse um bordo para o norte, outro para o sul, outro para leste, outro para oeste, como poderia fazer viagem? Por isso nos púlpitos se trabalha tanto e se navega tão pouco. Um assunto vai para um vento, outro assunto vai para outro vento; que se há-de colher senão vento? O Baptista convertia muitos em Judeia; mas quantas matérias tomava? Uma só matéria: Parate viam Domini: a preparação para o Reino de Cristo. Jonas converteu os Ninivitas; mas quantos assuntos tomou? Um só assunto: Adhuc quadraginta dies, et Ninive subvertetur: a subversão da cidade. De maneira que Jonas em quarenta dias pregou um só assunto; e nós queremos pregar quarenta assuntos em uma hora? Por isso não pregamos nenhum. O sermão há-de ser de uma só cor, há-de ter um só objecto, um só assunto, uma só matéria.
Há-de tomar o pregador uma só matéria; há-de defini-la, para que se conheça; há-de dividi-la, para que se distinga; há-de prová-la com a Escritura; há-de declará-la com a razão; há-de confirmá-la com o exemplo; há-de amplificá-la com as causas, com os efeitos, com as circunstâncias, com as conveniências que se hão-de seguir, com os inconvenientes que se devem evitar; há-de responder às dúvidas, há-de satisfazer às dificuldades; há-de impugnar e refutar com toda a força da eloquência os argumentos contrários; e depois disto há-de colher, há-de apertar, há-de concluir, há-de persuadir, há-de acabar. Isto é sermão, isto é pregar; e o que não é isto, é falar de mais alto.
Não nego nem quero dizer que o sermão não haja de ter variedade de discursos, mas esses hão-de nascer todos da mesma matéria e continuar e acabar nela. Quereis ver tudo isto com os olhos? Ora vede. Uma árvore tem raízes, tem tronco, tem ramos, tem folhas, tem varas, tem flores, tem frutos. Assim há-de ser o sermão: há-de ter raízes fortes e sólidas, porque há-de ser fundado no Evangelho; há-de ter um tronco, porque há-de ter um só assunto e tratar uma só matéria; deste tronco hão-de nascer diversos ramos, que são diversos discursos, mas nascidos da mesma matéria e continuados nela; estes ramos hão-de ser secos, senão cobertos de folhas, porque os discursos hão-de ser vestidos e ornados de palavras. Há-de ter esta árvore varas, que são a repreensão dos vícios; há-de ter flores, que são as sentenças; e por remate de tudo, há-de ter frutos, que é o fruto e o fim a que se há-de ordenar o sermão. De maneira que há-de haver frutos, há-de haver flores, há-de haver varas, há-de haver folhas, há-de haver ramos; mas tudo nascido e fundado em um só tronco, que é uma só matéria. Se tudo são troncos, não é sermão, é madeira. Se tudo são ramos, não é sermão, são maravalhas. Se tudo são folhas, não é sermão, são versas. Se tudo são varas, não é sermão, é feixe. Se tudo são flores, não é sermão, é ramalhete. Serem tudo frutos, não pode ser; porque não há frutos sem árvore. Assim que nesta árvore, à que podemos chamar «árvore da vida», há-de haver o proveitoso do fruto, o formoso das flores, o rigoroso das varas, o vestido das folhas, o estendido dos ramos; mas tudo isto nascido e formado de um só tronco e esse não levantado no ar, senão fundado nas raízes do Evangelho: Seminare semen. Eis aqui como hão-de ser os sermões, eis aqui como não são. E assim não é muito que se não faça fruto com eles.
Tudo o que tenho dito pudera demonstrar largamente, não só com os preceitos dos Aristóteles, dos Túlios, dos Quintilianos, mas com a prática observada do príncipe dos oradores evangélicos, S. João Crisóstomo, de S. Basílio Magno, S. Bernardo. S. Cipriano, e com as famosíssimas orações de S. Gregório Nazianzeno, mestre de ambas as Igrejas. E posto que nestes mesmos Padres, como em Santo Agostinho, S. Gregório e muitos outros, se acham os Evangelhos apostilados com nomes de sermão e homilias, uma coisa é expor, e outra pregar; uma ensinar e outra persuadir, desta última é que eu falo, com a qual tanto fruto fizeram no mundo Santo António de Pádua e S. Vicente Ferrer. Mas nem por isso entendo que seja ainda esta a verdadeira causa que busco.
VII
Será porventura a falta de ciência que há em muitos pregadores? Muitos pregadores há que vivem do que não colheram e semeiam o que não trabalharam. Depois da sentença de Adão, a terra não costuma dar fruto, senão a quem come o seu pão com o suor do seu rosto. Boa razão parece também esta. O pregador há-de pregar o seu, e não o alheio. Por isso diz Cristo que semeou o lavrador do Evangelho o trigo seu: Semen suum. Semeou o seu, e não o alheio, porque o alheio e, o furtado não é bom para semear, ainda que o furto seja de ciência. Comeu Eva o pomo da ciência, e queixava-me eu antigamente desta nossa mãe; já que comeu o pomo, por que lhe não guardou as pevides? Não seria bem que chegasse a nós a árvore, já que nos chegaram os encargos dela? Pois por que não o fez assim Eva? Porque o pomo era furtado, e o alheio é bom para comer, mas não é bom para semear: é bom para comer, porque dizem que é saboroso; não é bom para semear, porque não nasce. Alguém terá experimentado que o alheio lhe nasce em casa, mas esteja certo, que se nasce, não há-de deitar raízes, e o que não tem raízes não pode dar fruto. Eis aqui por que muitos pregadores não fazem fruto; porque pregam o alheio, e não o seu: Semen suum. O pregar é entrar em batalha com os vícios; e armas alheias, ainda que sejam as de Aquiles, a ninguém deram vitória. Quando David saiu a campo com o gigante, ofereceu-lhe Saul as suas armas, mas ele não as quis aceitar. Com armas alheias ninguém pode vencer, ainda que seja David. As armas de Saul só servem a Saul, e as de David a David; e mais aproveita um cajado e uma funda própria, que a espada e a lança alheia. Pregador que peleja com as armas alheias, não hajais medo que derrube gigante.
Fez Cristo aos Apóstolos pescadores de homens, que foi ordená-los de pregadores; e que faziam os Apóstolos? Diz o texto que estavam: Reficientes retia sua: «Refazendo as redes suas; eram as redes dos Apóstolos, e não eram alheias. Notai: Retia sua: Não diz que eram suas porque as compraram, senão que eram suas porque as faziam; não eram suas porque lhes custaram o seu dinheiro, senão porque lhes custavam o seu trabalho. Desta maneira eram as redes suas; e porque desta maneira eram suas, por isso eram redes de pescadores que haviam de pescar homens. Com redes alheias, ou feitas por mão alheia, podem-se pescar peixes, homens não se podem pescar. A razão disto é porque nesta pesca de entendimentos só quem sabe fazer a rede sabe fazer o lanço. Como se faz uma rede? Do fio e do nó se compõe a malha; quem não enfia nem ata, como há-de fazer rede? E quem não sabe enfiar nem sabe atar, como há-de pescar homens? A rede tem chumbada que vai ao fundo, e tem cortiça que nada em cima da água. A pregação tem umas coisas de mais peso e de mais fundo, e tem outras mais superficiais e mais leves; e governar o leve e o pesado, só o sabe fazer quem faz a rede. Na boca de quem não faz a pregação, até o chumbo é cortiça.
As razões não hão-de ser enxertadas, hão-de ser nascidas. O pregar não é recitar. As razões próprias nascem do entendimento, as alheias vão pegadas à memória, e os homens não se convencem pela memória, senão pelo entendimento.
Veio o Espírito Santo sobre os Apóstolos, e quando as línguas desciam do Céu, cuidava eu que se lhes haviam de pôr na boca; mas elas foram-se pôr na cabeça. Pois por que na cabeça e não na boca, que é o lugar da língua? Porque o que há-de dizer o pregador, não lhe há-de sair só da boca; há-lhe de sair pela boca, mas da cabeça. O que sai só da boca pára nos ouvidos; o que nasce do juízo penetra e convence o entendimento. Ainda tem mais mistério estas línguas do Espírito Santo. Diz o texto que não se puseram todas as línguas sobre todos os Apóstolos, senão cada uma sobre cada um: Apparuerunt dispertitae linguae tanquam ignis, seditque supra singulos eorum. E por que cada uma sobre cada um, e não todas sobre todos? Porque não servem todas as línguas a todos, senão a cada um a sua. Uma língua só sobre Pedro, porque a língua de Pedro não serve a André; outra língua só sobre André, porque a língua de André não serve a Filipe; outra língua só sobre Filipe, porque a língua de Filipe não serve a Bartolomeu, e assim dos mais. E senão vedeo no estilo de cada um dos Apóstolos, sobre que desceu o Espírito Santo. Só de cinco temos escrituras; mas a diferença com que escreveram, como sabem os doutos, é admirável. As penas todas eram tiradas das asas daquela pomba divina; mas o estilo tão diverso, tão particular e tão próprio de cada um, que bem mostra que era seu. Mateus fácil, João misterioso, Pedro grave, Jacob forte, Tadeu sublime, e todos com tal valentia no dizer, que cada palavra era um trovão, cada cláusula um raio e cada razão um triunfo. Ajuntai a estes cinco S. Lucas e S. Marcos, que também ali estavam, e achareis o número daqueles sete trovões que ouviu S. João no Apocalipse. Loquuti sunt septem tonitrua voces suas. Eram trovões que falavam e desarticulavam as vozes, mas essas vozes eram suas: Voces suas; «suas, e não alheias», como notou Ansberto: Non alienas, sed suas. Enfim, pregar o alheio é pregar o alheio, e com o alheio nunca se fez coisa boa.
Contudo eu não me firmo de todo nesta razão, porque do grande Baptista sabemos que pregou o que tinha pregado Isaías, como notou S. Lucas, e não com outro nome, senão de sermões: Praedicans baptismum poenitentiae in remissionem peccatorum, sicut scriptum est in libro sermonun Isaiae prophetae. Deixo o que tomou Santo Ambrósio de S. Basílio; S. Próspero e Beda de Santo Agostinho; Teofilato e Eutímio de S. João Crisóstomo.
VIII
Será finalmente a causa, que tanto há buscamos, a voz com que hoje falam os pregadores? Antigamente pregavam bradando, hoje pregam conversando. Antigamente a primeira parte do pregador era boa voz e bom peito. E verdadeiramente, como o mundo se governa tanto pelos sentidos, podem às vezes mais os brados que a razão. Boa era também esta, mas não a podemos provar com o semeador, porque já dissemos que não era ofício de boca. Porém o que nos negou o Evangelho no semeador metafórico, nos deu no semeador verdadeiro, que é Cristo. Tanto que Cristo acabou a parábola, diz o Evangelho que começou o Senhor a bradar: Haec dicens clamabat. Bradou o Senhor, e não arrazoou sobre a parábola, porque era tal o auditório, que fiou mais dos brados que da razão.
Perguntaram ao Baptista quem era? Respondeu ele: Ego vox clamantis in deserto: Eu sou uma voz que anda bradando neste deserto. Desta maneira se definiu o Baptista. A definição do pregador, cuidava eu que era: voz que arrazoa e não voz que brada. Pois por que se definiu o Baptista pelo bradar e não pelo arrazoar; não pela razão, senão pelos brados? Porque há muita gente neste mundo com quem podem mais os brados que a razão, e tais eram aqueles a quem o Baptista pregava. Vede-o claramente em Cristo. Depois que Pilatos examinou as acusações que contra ele se davam, lavou as mãos e disse: Ego nullam causam invenio in homine isto: Eu nenhuma causa acho neste homem. Neste tempo todo o povo e os escribas bradavam de fora, que fosse crucificado: At illi magis clamabant, crucifigatur. De maneira que Cristo tinha por si a razão e tinha contra si os brados. E qual pôde mais? Puderam mais os brados que a razão. A razão não valeu para o livrar, os brados bastaram para o pôr na Cruz. E como os brados no Mundo podem tanto, bem é que bradem alguma vez os pregadores, bem é que gritem. Por isso Isaías chamou aos pregadores «nuvens»: Qui sunt isti, qui ut nubes volant? A nuvem tem relâmpago, tem trovão e tem raio: relâmpago para os olhos, trovão para os ouvidos, raio para o coração; com o relâmpago alumia, com o trovão assombra, com o raio mata. Mas o raio fere a um, o relâmpago a muitos, o trovão a todos. Assim há-de ser a voz do pregador, um trovão do Céu, que assombre e faça tremer o Mundo.
Mas que diremos à oração de Moisés? Concrescat ut pluvia doctrina mea: fluat ut ros eloquim meum: Desça minha doutrina como chuva do céu, e a minha voz e as minhas palavras como orvalho que se destila brandamente e sem ruído. Que diremos ao exemplo ordinário de Cristo, tão celebrado por Isaías: Non clamabit neque audietur vox ejus foris? Não clamará, não bradará, mas falará com uma voz tão moderada que se não possa ouvir fora. E não há dúvida que o praticar familiarmente, e o falar mais ao ouvido que aos ouvidos, não só concilia maior atenção, mas naturalmente e sem força se insinua, entra, penetra e se mete na alma. Em conclusão que a causa de não fazerem hoje fruto os pregadores com a palavra de Deus, nem é a circunstância da pessoa: Qui seminat: nem a do estilo: Seminare; nem a da matéria: Semen; nem a da ciência: Suum; nem a da voz: Clamabat. Moisés tinha fraca voz; Amós tinha grosseiro estilo; Salamão multiplicava e variava os assuntos; Balaão não tinha exemplo de vida; o seu animal não tinha ciência; e contudo todos estes, falando, persuadiam e convenciam. Pois se nenhuma destas razões que discorremos, nem todas elas juntas são a causa principal nem bastante do pouco fruto que hoje faz a palavra de Deus, qual diremos finalmente que é a verdadeira causa?
IX
As palavras que tomei por tema o dizem. Semen est verbum Dei. Sabeis, Cristãos, a causa por que se faz hoje tão pouco fruto com tantas pregações? É porque as palavras dos pregadores são palavras, mas não são palavras de Deus. Falo do que ordinariamente se ouve. A palavra de Deus (como diria) é tão poderosa e tão eficaz, que não só na boa terra faz fruto, mas até nas pedras e nos espinhos nasce. Mas se as palavras dos pregadores não são palavras de Deus, que muito que não tenham a eficácia e os efeitos da palavra de Deus? Ventum seminabunt, et turbinem colligent, diz o Espírito Santo: «Quem semeia ventos, colhe tempestades». Se os pregadores semeiam vento, se o que se prega é vaidade, se não se prega a palavra de Deus, como não há a Igreja de Deus de correr tormenta, em vez de colher fruto?
Mas dir-me-eis: Padre, os pregadores de hoje não pregam do Evangelho, não pregam das Sagradas Escrituras? Pois como não pregam a palavra de Deus? Esse é o mal. Pregam palavras de Deus, mas não pregam a palavra de Deus: Qui habet sermonem meum, loquatur sermonem meum vere, disse Deus por Jeremias. As palavras de Deus, pregadas no sentido em que Deus as disse, são palavras de Deus; mas pregadas no sentido que nós queremos, não são palavras de Deus, antes podem ser palavras do Demónio. Tentou o Demónio a Cristo a que fizesse das pedras pão. Respondeu-lhe o Senhor: Non in solo pane vivit homo, sed in omni verbo, quod procedit de ore dei. Esta sentença era tirada do capítulo VIII do Deuteronómio. Vendo o Demónio que o Senhor se defendia da tentação com a Escritura, leva-o ao Templo, e alegando o lugar do salmo XC, diz-lhe desta maneira: Mille te deorsum; scriptum est enim, quia Angelis suis Deus mandavit de te, ut custodiant te in omnibus viis tuis: «Deita-te daí abaixo, porque prometido está nas Sagradas Escrituras que os anjos te tomarão nos braços, para que te não faças mal.» De sorte que Cristo defendeu-se do Diabo com a Escritura, e o Diabo tentou a Cristo com a Escritura. Todas as Escrituras são palavra de Deus: pois se Cristo toma a Escritura para se defender do Diabo, como toma o Diabo a Escritura para tentar a Cristo? A razão é porque Cristo tomava as palavras da Escritura em seu verdadeiro sentido, e o Diabo tomava as palavras da Escritura em sentido alheio e torcido; e as mesmas palavras, que tomadas em verdadeiro sentido são palavras de Deus, tomadas em sentido alheio, são armas do Diabo. As mesmas palavras que, tomadas no sentido em que Deus as disse, são defesa, tomadas no sentido em que Deus as não disse, são tentação. Eis aqui a tentação com que então quis o Diabo derrubar a Cristo, e com que hoje lhe faz a mesma guerra do pináculo do templo. O pináculo do templo é o púlpito, porque é o lugar mais alto dele. O Diabo tentou a Cristo no deserto, tentou-o no monte, tentou-o no templo: no deserto, tentou-o com a gula; no monte, tentou-o com a ambição; no templo, tentou-o com as Escrituras mal interpretadas, e essa é a tentação de que mais padece hoje a Igreja, e que em muitas partes tem derrubado dela, senão a Cristo, a sua fé.
Dizei-me, pregadores (aqueles com quem eu falo indignos verdadeiramente de tão sagrado nome), dizei-me: esses assuntos inúteis que tantas vezes levantais, essas empresas ao vosso parecer agudas que prosseguis, achaste-las alguma vez nos Profetas do Testamento Velho, ou nos Apóstolos e Evangelistas do Testamento Novo, ou no autor de ambos os Testamentos, Cristo? É certo que não, porque desde a primeira palavra do Génesis até à última do Apocalipse, não há tal coisa em todas as Escrituras. Pois se nas Escrituras não há o que dizeis e o que pregais, como cuidais que pregais a palavra de Deus? Mais: nesses lugares, nesses textos que alegais para prova do que dizeis, é esse o sentido em que Deus os disse? É esse o sentido em que os entendem os padres da Igreja? É esse o sentido da mesma gramática das palavras? Não, por certo; porque muitas vezes as tomais pelo que toam e não pelo que significam, e talvez nem pelo que toam. Pois se não é esse o sentido das palavras de Deus, segue-se que não são palavras de Deus. E se não são palavras de Deus, que nos queixamos que não façam fruto as pregações? Basta que havemos de trazer as palavras de Deus a que digam o que nós queremos, e não havemos de querer dizer o que elas dizem?! E então ver cabecear o auditório a estas coisas, quando devíamos de dar com a cabeça pelas paredes de as ouvir! Verdadeiramente não sei de que mais me espante, se dos nossos conceitos, se dos vossos aplausos? Oh, que bem levantou o pregador! Assim é; mas que levantou? Um falso testemunho ao texto, outro falso testemunho ao santo, outro ao entendimento e ao sentido de ambos. Então que se converta o mundo com falsos testemunhos da palavra de Deus? Se a alguém parecer demasiada a censura, ouça-me.
Estava Cristo acusado diante de Caifás, e diz o Evangelista S. Mateus que por fim vieram duas testemunhas falsas: Novissime venerunt duo falsi testes. Estas testemunhas referiram que ouviram dizer a Cristo que, se os Judeus destruíssem o templo, ele o tornaria a reedificar em três dias. Se lermos o Evangelista S. João, acharemos que Cristo verdadeiramente tinha dito as palavras referidas. Pois se Cristo tinha dito que havia de reedificar o templo dentro em três dias, e isto mesmo é o que referiram as testemunhas, como lhes chama o Evangelista testemunhas falsas: Duo falsi testes? O mesmo S. João deu a razão: Loquebatur de templo corporis sui. Quando Cristo disse que em três dias reedificaria o templo, falava o Senhor do templo místico de seu corpo, o qual os Judeus destruíram pela morte e o Senhor o reedificou pela ressurreição; e como Cristo falava do templo místico e as testemunhas o referiram ao templo material de Jerusalém, ainda que as palavras eram verdadeiras, as testemunhas eram falsas. Eram falsas, porque Cristo as dissera em um sentido, e eles as referiram em outro; e referir as palavras de Deus em diferente sentido do que foram ditas, é levantar falso testemunho a Deus, é levantar falso testemunho às Escrituras. Ah, Senhor, quantos falsos testemunhos vos levantam! Quantas vezes ouço dizer que dizeis o que nunca dissestes! Quantas vezes ouço dizer que são palavras vossas, o que são imaginações minhas, que me não quero excluir deste número! Que muito logo que as nossas imaginações, e as nossas vaidades, e as nossas fábulas não tenham a eficácia de palavra de Deus!
Miseráveis de nós, e miseráveis dos nossos tempos! Pois neles se veio a cumprir a profecia de S. Paulo: Erit tempus, cum sanam doctrinam non sustinebunt: Virá tempo, diz S. Paulo, «em que os homens não sofrerão a doutrina sã. Sed ad sua desideria coacervabunt sibi magistros prurientes auribus: Mas para seu apetite terão grande número de pregadores feitos a montão e sem escolha, os quais não façam mais que adular-lhes as orelhas. A veritate quidem auditum avertent, ad fabulas auten convertentur: Fecharão os ouvidos à verdade, e abri-los-ão às fábulas». Fábula tem duas significações: quer dizer fingimento e quer dizer comédia; e tudo são muitas pregações deste tempo. São fingimento, porque são sutilezas e pensamentos aéreos, sem fundamento de verdade; são comédia, porque os ouvintes vêm à pregação como à comédia; e há pregadores que vêm ao púlpito como comediantes. Uma das felicidades que se contava entre as do tempo presente era acabarem-se as comédias em Portugal; mas não foi assim. Não se acabaram, mudaram-se; passaram-se do teatro ao púlpito. Não cuideis que encareço em chamar comédias a muitas pregações das que hoje se usam. Tomara ter aqui as comédias de Plauto, de Terêncio, de Séneca, e veríeis se não acháveis nelas muitos desenganos da vida e vaidade do Mundo, muitos pontos de doutrina moral, muito mais verdadeiros, e muito mais sólidos, do que hoje se ouvem nos púlpitos. Grande miséria por certo, que se achem maiores documentos para a vida nos versos de um poeta profano, e gentio, que nas pregações de um orador cristão, e muitas vezes, sobre cristão, religioso!
Pouco disse S. Paulo em lhe chamar comédia, porque muitos sermões há que não são comédia, são farsa. Sobe talvez ao púlpito um pregador dos que professam ser mortos ao mundo, vestido ou amortalhado em um hábito de penitência (que todos, mais ou menos ásperos, são de penitência; e todos, desde o dia que os professamos, mortalhas); a vista é de horror, o nome de reverência, a matéria de compunção, a dignidade de oráculo, o lugar e a expectação de silêncio; e quando este se rompeu, que é o que se ouve? Se neste auditório estivesse um estrangeiro que nos não conhecesse e visse entrar este homem a falar em público naqueles trajos e em tal lugar, cuidaria que havia de ouvir uma trombeta do Céu; que cada palavra sua havia de ser um raio para os corações, que havia de pregar com o zelo e com o fervor de um Elias, que com a voz, com o gesto e com as ações havia de fazer em pó e em cinza os vícios. Isto havia de cuidar o estrangeiro. E nós que é o que vemos? Vemos sair da boca daquele homem, assim naqueles trajos, uma voz muito afectada e muito polida, e logo começar com muito desgarro, a quê? A motivar desvelos, a acreditar empenhos, a requintar finezas, a lisonjear precipícios, a brilhar auroras, a derreter cristais, a desmaiar jasmins, a toucar primaveras, e outras mil indignidades destas. Não é isto farsa a mais digna de riso, se não fora tanto para chorar? Na comédia o rei veste como rei, e fala como rei; o lacaio, veste como lacaio, e fala como lacaio; o rústico veste como rústico, e fala como rústico; mas um pregador, vestir como religioso e falar como... não o quero dizer, por reverência do lugar. Já que o púlpito é teatro, e o sermão comédia se quer, não faremos bem a figura? Não dirão as palavras com o vestido e com o ofício? Assim pregava S. Paulo, assim pregavam aqueles patriarcas que se vestiram e nos vestiram destes hábitos? Não louvamos e não admiramos o seu pregar? Não nos prezamos de seus filhos? Pois por que não os imitamos? Por que não pregamos como eles pregavam? Neste mesmo púlpito pregou S. Francisco Xavier, neste mesmo púlpito pregou S. Francisco de Borja; e eu, que tenho o mesmo hábito, por que não pregarei a sua doutrina, já que me falta o seu espírito?
X
Dir-me-eis o que a mim me dizem, e o que já tenho experimentado, que, se pregamos assim, zombam de nós os ouvintes, e não gostam de ouvir. Oh, boa razão para um servo de Jesus Cristo! Zombem e não gostem embora, e façamos nós nosso ofício! A doutrina de que eles zombam, a doutrina que eles desestimam, essa é a que lhes devemos pregar, e por isso mesmo, porque é mais proveitosa e a que mais hão mister. O trigo que caiu no caminho comeram-no as aves. Estas aves, como explicou o mesmo Cristo, são os demónios, que tiram a palavra de Deus dos corações dos homens: Venit Diabolus, et tollit verbum de corde ipsorum! Pois por que não comeu o Diabo o trigo que caiu entre os espinhos, ou o trigo que caiu nas pedras, senão o trigo que caiu no caminho? Porque o trigo que caiu no caminho: Conculcatum est ab hominibus: Pisaram-no os homens; e a doutrina que os homens pisam, a doutrina que os homens desprezam, essa é a de que o Diabo se teme. Dessoutros conceitos, dessoutros pensamentos, dessoutras sutilezas que os homens estimam e prezam, dessas não se teme nem se acautela o Diabo, porque sabe que não são essas as pregações que lhe hão-de tirar as almas das unhas. Mas daquela doutrina que cai: Secus viam: daquela doutrina que parece comum: Secus viam; daquela doutrina que parece trivial: Secus viam; daquela doutrina que parece trilhada: Secus viam; daquela doutrina que nos põe em caminho e em via da nossa salvação (que é a que os homens pisam e a que os homens desprezam), essa é a de que o Demónio se receia e se acautela, essa é a que procura comer e tirar do Mundo; e por isso mesmo essa é a que deviam pregar os pregadores, e a que deviam buscar os ouvintes. Mas se eles não o fizerem assim e zombarem de nós, zombemos nós tanto de suas zombarias como dos seus aplausos. Per infamiam et bonam famam, diz S. Paulo: O pregador há-de saber pregar com fama e sem fama. Mais diz o Apóstolo: Há-de pregar com fama e com infâmia. Pregar o pregador para ser afamado, isso é mundo: mas infamado, e pregar o que convém, ainda que seja com descrédito de sua fama?, isso é ser pregador de Jesus Cristo.
Pois o gostarem ou não gostarem os ouvintes! Oh, que advertência tão digna! Que médico há que repare no gosto do enfermo, quando trata de lhe dar saúde? Sarem e não gostem; salvem-se e amargue-lhes, que para isso somos médicos das almas. Quais vos parece que são as pedras sobre que caiu parte do trigo do Evangelho? Explicando Cristo a parábola, diz que as pedras são aqueles que ouvem a pregação com gosto: Hi sunt, qui cum gaudio suscipiunt verbum. Pois será bem que os ouvintes gostem e que no cabo fiquem pedras?! Não gostem e abrandem-se; não gostem e quebrem-se; não gostem e frutifiquem. Este é o modo com que frutificou o trigo que caiu na boa terra: Et fructum afferunt in patientia, conclui Cristo. De maneira que o frutificar não se ajunta com o gostar, senão com o padecer; frutifiquemos nós, e tenham eles paciência. A pregação que frutifica, a pregação que aproveita, não é aquela que dá gosto ao ouvinte, é aquela que lhe dá pena. Quando o ouvinte a cada palavra do pregador treme; quando cada palavra do pregador é um torcedor para o coração do ouvinte; quando o ouvinte vai do sermão para casa confuso e atónito, sem saber parte de si, então é a preparação qual convém, então se pode esperar que faça fruto: Et fructum afferunt in patientia.
Enfim, para que os pregadores saibam como hão-de pregar e os ouvintes a quem hão-de ouvir, acabo com um exemplo do nosso Reino, e quase dos nossos tempos. Pregavam em Coimbra dois famosos pregadores, ambos bem conhecidos por seus escritos; não os nomeio, porque os hei-de desigualar. Altercou-se entre alguns doutores da Universidade qual dos dois fosse maior pregador; e como não há juízo sem inclinação, uns diziam este, outros, aquele. Mas um lente, que entre os mais tinha maior autoridade, concluiu desta maneira: «Entre dois sujeitos tão grandes não me atrevo a interpor juízo; só direi uma diferença, que sempre experimento: quando ouço um, saio do sermão muito contente do pregador; quando ouço outro, saio muito descontente de mim.»
Com isto tenho acabado. Algum dia vos enganastes tanto comigo, que saíeis do sermão muito contentes do pregador; agora quisera eu desenganar-vos tanto, que saíreis muito descontentes de vós. Semeadores do Evangelho, eis aqui o que devemos pretender nos nossos sermões: não que os homens saiam contentes de nós, senão que saiam muito descontentes de si; não que lhes pareçam bem os nossos conceitos, mas que lhes pareçam mal os seus costumes, as suas vidas, os seus passatempos, as suas ambições e, enfim, todos os seus pecados. Contanto que se descontentem de si, descontentem-se embora de nós. Si hominibus placerem, Christus servus non essem, dizia o maior de todos os pregadores, S. Paulo: Se eu contentara aos homens, não seria servo de Deus. Oh, contentemos a Deus, e acabemos de não fazer caso dos homens! Advirtamos que nesta mesma Igreja há tribunas mais altas que as que vemos: Spectaculum facti sumus Deo, Angelis et hominibus. Acima das tribunas dos reis, estão as tribunas dos anjos, está a tribuna e o tribunal de Deus, que nos ouve e nos há-de julgar. Que conta há-de dar a Deus um pregador no Dia do Juízo? O ouvinte dirá: Não mo disseram. Mas o pregador? Vae mihi, quia tacui: Ai de mim, que não disse o que convinha! Não seja mais assim, por amor de Deus e de nós.
Estamos às portas da Quaresma, que é o tempo em que principalmente se semeia a palavra de Deus na Igreja, e em que ela se arma contra os vícios. Preguemos e armemo-nos todos contra os pecados, contra as soberbas, contra os ódios, contra as ambições, contra as invejas, contra as cobiças, contra as sensualidades. Veja o Céu que ainda tem na terra quem se põe da sua parte. Saiba o Inferno que ainda há na terra quem lhe faça guerra com a palavra de Deus, e saiba a mesma terra que ainda está em estado de reverdecer e dar muito fruto: Et fecit fructum centuplum.
Pe. Robert Brucciani, FSSPX
Definição comum
O politicamente correto, normalmente, é definido como “evitar formas de expressão ou ações que excluam, marginalizem ou insultem grupos de pessoas que estão socialmente desavantajadas ou que sofrem discriminação” (Dicionário de Oxford)
Essa definição normal apresenta o politicamente correto como uma louvável expressão da lei da caridade fraterna, mas seus efeitos mostram que essa definição pode ser gravemente enganadora.
Os efeitos
Exemplos do poder destrutivo do politicamente correto são incontáveis: feministas que creem, sinceramente, que o aborto é uma questão de saúde, crianças tendo contato com pornografia e contracepção na idade mais tenra por parte do Estado para sua proteção, pobres crianças suicidas que realmente creem que podem decidir seu sexo, negação do Direito Natural pelo Judiciário, a perpétua re-escrita da história para transformar nossos ancestrais em monstros, demonização dos Santos e da Igreja Católica. A lista prossegue indefinidamente.
Verdadeira definição
O politicamente correto é uma aplicação do marxismo cultural através da qual a civilização é deliberadamente minada por meio da supressão legal e moral do direito do indivíduo de recorrer ao bom senso e à tradição (ou seja, à cultura).
Background
O marxismo econômico, de um lado, alega que toda a história é determinada pela propriedade dos meios de produção. Se se puder adquirir os meios de produção, adquire-se, enfim, poder absoluto. O marxismo cultural, de outro lado, alega que toda a história é determinada pelo poder de certos grupos sobre outros grupos. Conquistar o poder absoluto, portanto, é possível através de um processo de fortalecimento de certos grupos em detrimento de outros. Politicamente correto é o nome dado ao instrumento pelo qual essa revolução se torna realidade.
Os teóricos marxistas Antonio Gramsci, da Itália, e George Lukacs, da Hungria, alegaram que o fracasso da Revolução Russa (1917) em se espalhar por toda a Europa se deveu ao apego das classes trabalhadoras à cultura ocidental, que era definida pelo Cristianismo. O triunfo do marxismo econômico não seria possível, portanto, até que a cultura ocidental fosse destruída.
Em 1923, um think-tank dentro da Universidade de Frankfurt formou-se na Alemanha para definir o marxismo em termos culturais e recebeu o nome de Instituto para a Pesquisa Social, para esconder seus objetivos marxistas. O think-tank foi forçado a mover-se para os EUA quando os nazistas chegaram ao poder em 1933, mas, no final dos anos 1930, o instrumento do politicamente correto estava quase pronto.
Como funciona
1. Certos grupos são apresentados por uma “autoridade” (a mídia, o Estado, grupos ativistas) como sendo vítimas de opressão por outros grupos. Os grupos vítima são definidos com base em sua origem, suas características físicas ou comportamento (ao qual eles têm um direito absoluto de acordo com a “autoridade”) e, em alguns casos, realmente são grupos que sofrem opressão real
2. A “autoridade” rejeita a compreensão usual do mundo, que é definida pela cultura (incluindo o significado comum das palavras), e adota uma visão binária do mundo, na qual toda ação é interpretada como sendo a favor ou contra um dos seus proclamados grupos vítimas
3. A “autoridade” acusa abertamente qualquer um que julgue ter agido contra o grupo vítima (de acordo com a autoridade), mas essa conclusão não se baseia em nenhum ato em si mesmo, nem nas intenções dos acusados, nem nas circunstâncias dos fatos, mas no dano causado aos sentimentos das vítimas (de acordo com a conclusão da “autoridade”)
4. Um brado de fúria é insuflado e termina por ser aceito por quem teme ser objeto de semelhantes acusações (incluindo legisladores)
5. Indivíduos saudáveis, então, terminam adotando o mindset da aberrante “autoridade” por medo, desejo de ser acolhido, ou apenas por hábito; legisladores aprovam leis para “proteger” o grupo vítima, assim destruindo os princípios do bom senso e da tradição e consagrando, na lei, uma nova moralidade e um novo “pensamento”. A “autoridade”, assim, recebe poder para levar a revolução adiante.
O processo é eficiente porque apela para um senso natural de justiça no homem comum (p. ex., punir alguém que debocha de uma criança aleijada), mas é traiçoeiro porque uma “autoridade” oculta se torna apta a:
(a) inserir uma nova moral na sociedade (assim rompendo os laços da sociedade com seu bom senso e sua cultura) através de uma onda de falsas indignações morais
(b) julgar os outros baseando-se em sentimentos subjetivos, e em fatos reais; e
(c) demolir, brutalmente, a oposição sem qualquer justiça ou direito de contraditório.
Definição real
A definição real, portanto, pode ser mais ou menos assim: “O politicamente correto é a deliberada provocação de uma indignação moral desproporcional com o propósito de remover qualquer oposição a uma nova ordem social”
O politicamente correto é a tirania mascarada de caridade fraterna. Seu uso tem sido fundamental para uma revolução muito pior que a Reforma que dividiu a Cristandade há 500 anos atrás. Estamos vivendo uma destruição indiscriminada dos restos da civilização ocidental (cristã).
O remédio
O remédio para o politicamente correto não é atacar os grupos de vítimas, reais ou fabricadas. O remédio é (a) bom senso, cultivado por boas leituras, estudo e oração, para conhecer a verdade; (b) entender como o politicamente correto funciona; e (c) coragem sobrenatural para defender a verdade mesmo que o mundo inteiro esteja contra você.
(Ite Missa Est)
Se esta conduta convém observar com as pessoas, muito mais conveniente, e por sorte muito mais fácil, é observá-la com as leituras.
O liberalismo é sistema completo, como o catolicismo, ainda que em sentido contrário. Tem, pois, suas artes, suas ciências, suas letras, sua economia, sua moral, ou seja, um organismo inteiramente próprio e seu, animado por seu espírito, marcado com seu selo e sua fisionomia. Também o tiveram as mais poderosas heresias, como por exemplo, o arianismo na antiguidade e o jansenismo nos tempos modernos. Há, pois, não só jornais liberais, mas livros liberais, ou contaminados de liberalismo; são abundantes e, triste é dizê-lo, deles se nutre principalmente a geração atual, motivo por que mesmo sem saberem ou suspeitarem, são tantos os que se encontram miseravelmente contaminados.
Que regras dar neste caso? Regras análogas ou quase idênticas às que demos com relação às pessoas. Leia-se o que dissemos há pouco, e aplique-se aos livros o que se disse dos indivíduos. Não é trabalho difícil e popupará, a nós e aos leitores, o incômodo da repetição.
Daremos aqui apenas uma advertência, especialmente em relação aos livros. É que nós devemos nos guardar de desfazer-nos em elogios a livros liberais, seja qual for seu mérito científico ou literário, a menos que o façamos com grandíssimas reservas e ressalvando sempre a reprovação que merecem por seu espírito ou sabor liberal.
Insistamos um pouco neste ponto. Muitos católicos ingênuos (mesmo no jornalismo católico), querem ser considerados imparciais, e dar-se um verniz de saber sempre lisonjeiro. Deste modo, tocam bombo e sopram a trombeta da fama em favor de qualquer obra científica ou literária vinda do campo liberal. Dizem que assim agem para provar que aos católicos não custa reconhecer o mérito, onde quer que se encontre (maldito sistema de atração, que acaba por tornar-se o jogo de ganha-perde, pois, sem sentir, somos nós os atraídos); e que, finalmente, não há perigo algum nisto, mas sim notório espírito de eqüidade.
Que pena nos deu há poucos meses ler num jornal fervorosamente católico repetidos elogios e recomendações de um poeta célebre que escreveu, em ódio à Igreja, poemas como Visão de Pe. Martinho e A Última Lamentação de Lorde Byron! Que importa seja grande ou não o seu mérito literário, se serve para assassinar as almas que devemos salvar? Seria o mesmo que ter consideração para com o bandido pelo brilho da espada com que nos ataca, ou pelos belos entalhes que adornam o fuzil com que dispara contra nós. A heresia envolvida nos artificiosos afagos de uma rica poesia é mil vezes mais mortífera do que a revestida de silogismo escolástico, árido e fastidioso. A grande propaganda herética de quase todos os séculos foi sempre ajudada por versos sonoros. Os arianos tiveram seus poetas de propaganda; tiveram-nos também os luteranos, entre os quais muitos se prezavam, com seu Erasmo, de cultos humanistas. Quanto à escola jansenista de Arnauld, de Nicole e de Pascal, é desnecessário dizer que foi essencialmente literária. Todos sabem a que Voltaire deveu o começo e a duração de sua espantosa popularidade. Como é possível, pois, que nós, os católicos, nos façamos cúmplices de tais sirenes do inferno, dando-lhes nome e fama, e ajudando-os em sua obra de fascinação e corrupção da juventude? O que lê em nossos jornais que tal ou qual poeta é um admirável poeta, ainda que liberal, vai e compra na livraria aquele admirável poeta, ainda que liberal; e o devora avidamente, ainda que liberal; assimila-o e envenena com ele o seu sangue, tornando-se por fim tão liberal como seu poeta favorito. Quantas inteligências e corações foram perdidas pelo infeliz Espronceda! Quantas, o ímpio Larra! Quantas, há pouco, o malfadado Bécquer! Sem falar dos vivos, que poderíamos citar às dezenas. Por que temos de fazer à Revolução o serviço de pregar suas glórias funestas? Para que fim? Para parecer imparcial? Não, a imparcialidade não é permitida quando ofende a verdade, cujos direitos são imprescritíveis. Uma mulher de má vida é infame por bela que seja, e quanto mais bela, mais perigosa é. Seria por gratidão? Não, porque os liberais, mais prudentes que nós, não recomendam nossas obras, ainda que sejam tão belas quanto as suas; ao contrário, antes procuram desacreditá-las pela crítica, ou enterrá-las pelo silêncio.
Santo Inácio de Loyola, diz seu ilustre biógrafo, o Pe. Ribadeneyra, era tão zeloso neste ponto, que nunca permitiu se lesse em suas aulas obra alguma do famoso humanista de sua época, Erasmo de Roterdã. E o motivo é que, embora muitos de seus elegantes escritos não se referissem à religião, a maior parte deles tinha sabor protestante.
Do Pe. Faber, que ninguém acusará de pouco letrado, inserimos aqui um precioso trecho a propósito de seus famosos compatriotas Milton e Byron. Dizia assim o grande escritor inglês, em uma de suas belíssimas cartas:
“Não compreendo a estranha anomalia das gentes do mundo, que citam com elogio homens como Milton e Byron, manifestando ao mesmo tempo que amam a Cristo e põem n'Ele toda a esperança de salvação. Se amam a Cristo e à Igreja, por que louvam na sociedade os que blasfemam da Igreja e de Cristo? Bradam contra a impureza como coisa odiosa a Deus, mas exaltam um autor cuja vida e obras estão saturadas deste vício. Não posso compreender a distinção entre o homem e o poeta, entre as passagens puras e as passagens impuras. Se alguém ofende o objeto de meu amor, não posso receber dele consolo nem prazer, e não posso conceber que alguém, tendo amor ardente e delicado a nosso Salvador, possa gostar das obras de seus inimigos. A inteligência admite distinções, o coração não. Milton (maldita seja a memória do blasfemo!) passou grande parte de sua vida escrevendo contra a divindade de meu Senhor, minha única esperança e meu único amor. Este pensamento me exaspera! Byron, esquecendo os seus deveres para com a pátria e todos os afetos naturais, rebaixou-se vergonhosamente, vestindo com formosos versos o crime e a incredulidade. O monstro que colocou (ousarei dizê-lo?) Jesus Cristo no nível e como companheiro de Júpiter e de Maomé, não é para mim outra coisa que uma besta feroz, mesmo em suas passagens mais puras, e nunca me arrependi de ter lançado no fogo, em Oxford, uma bela edição de suas obras em quatro volumes... A Inglaterra não precisa de Milton. Como pode meu país necessitar de uma política, de um mérito, de um talento ou de qualquer outra coisa amaldiçoada por Deus? E como pode o Pai Eterno abençoar o espírito e a obra de quem, em prosa e em verso, renegou, ridicularizou e blasfemou da divindade de seu Filho? Si quis non amat Dominum Nostrum Jesum Christum, sit anathema, dizia São Paulo.”
Nestes termos escrevia o grande literato católico inglês, um dos maiores nomes da literatura inglesa moderna. E escrevia antes de ter feito a sua abjuração completa do protestantismo. Assim discorreu sempre a sã intransigência católica, assim falou sempre o bom senso da fé.
Espanto-me de que tenha havido tantas discussões e polêmicas sobre se convinha à juventude a educação clássica, baseada no estudo dos autores gregos e latinos da antiguidade pagã, embora atenuada em seus efeitos pela distância dos séculos, pela diferença das idéias e diversidade das línguas, e que quase nada se tenha dito sobre o veneno mortal da educação revolucionária, que muitos católicos dão ou toleram sem escrúpulo a seus filhos.
“A semente é a palavra de Deus” (Evangelho)
Paramentos roxos
O Breviário fala-nos de Noé toda semana.
“Vendo Deus que era grande a malícia do homem sobre a Terra, disse: Vou exterminar o homem que criei. Faze, pois, uma arca de madeira e entra nela, que estabelecerei contigo a minha aliança. E Deus fez então chover sobre a Terra, quarenta dias e quarenta noites. A arca flutuava à superfície das águas que se elevaram acima das grandes montanhas. Os homens pereceram e Noé salvou-se com os seus na arca... Passou algum tempo e Noé soltou uma pomba, que regressou com um ramo de oliveira. Noé compreendeu que as águas tinham baixado. E então disse-lhe Deus: Sai da arca e multiplicai-vos sobre a Terra. E Noé levantou um altar e ofereceu a Deus um sacrifício de agradável odor”.
Esta narração, referida ao mistério pascal, é comentada por uma bela oração de Sábado Santo. Ei-la: “A justa cólera do Criador submergiu o mundo culpado nas águas da vingança, e só Noé se salvou na arca. Depois a virtude admirável do amor lavou o universo no sangue”. Foi o madeiro da arca que salvou o gênero humano e foi o da Cruz que resgatou o mundo. “Só tu foste digna, diz a Igreja ao falar da Cruz, de seres para o mundo naufragado a arca que o leva ao porto”. A porta aberta no costado da arca e por onde entraram os que se haviam de salvar do dilúvio nos é apresentada na liturgia como figura do mistério da Redenção; porque do lado de Jesus saiu sangue e água simbolizando os sacramentos do Batismo e da Eucaristia.
“Ó Deus que, lavando nas águas os crimes do mundo corrompido, nos destes no mesmo dilúvio a imagem da regeneração, para que um mesmo elemento fosse o fim dos vícios e a imagem das virtudes, olhai com bondade para a vossa Igreja e multiplicai nela a vossa intervenção regeneradora, abrindo por toda a Terra as fontes do batismais que devem renovar os povos”.
No tempo de Noé, diz S. Pedro, salvaram-se do dilúvio 8 pessoas somente, e isto foi símbolo do Batismo que nos salva a todos. E quando o Bispo benze na Quinta-feira Santa o azeite de oliveira que há de servir para os sacramentos diz:
“Quando os crimes do mundo tinham já sido expiados nas águas do dilúvio, veio uma pomba anunciar a paz à Terra com o ramo de oliveira no bico, que era símbolo então das graças que nos reservava o futuro. Este símbolo realiza-se, quando a unção do azeite, depois que água do Batismo nos lavou, nos vem dar ao rosto paz e beleza”.
Mas no que Noé se assemelha mais com Jesus Cristo é na missão que Deus lhe confiou de ser o pai de numerosos povos. Noé é, com efeito, o segundo progenitor do gênero humano e o símbolo da vida renascida.
“O ramo da oliveira simboliza a feliz fecundidade que Deus concederia a Noé depois de sair da arca, e a arca é denominada no Ofício de hoje por S. Ambrósio “seminarium”, quer dizer, lugar onde se guarda a semente da vida que deve recobrir o mundo. Ora, bem melhor que Noé, Jesus Cristo repovoou o mundo com a prodigiosa descendência das almas crentes e fiéis a Deus. É por isso que a oração da 2ª profecia do Sábado Santo pede ao Senhor que realize os seus desígnios eternos e complete na paz a obra da redenção do homem: “... possa ver o mundo sentir a reparação do que estava caído e a renovação do que envelhecera e todas as coisas restabelecidas na integridade primeira por aquele mesmo que deu a todos o ser”.
No princípio, foi pelo Verbo, quer dizer, pela Palavra, que Deus fez o mundo. E foi pela pregação do Evangelho, que Jesus, o Verbo de Deus, veio regenerar os homens. Fomos regenerados, diz S. Pedro, por uma semente incorruptível, que é a palavra de Deus, que nos foi anunciada pelo Evangelho. A esta luz, já vemos todo o relevo da parábola do Semeador, que vem na Missa de hoje.
Se nos tempos de Noé os homens pereceram, diz S. Paulo, foi por serem incrédulos. Noé que acreditou salvou-se na arca. Do mesmo modo, os que acreditarem e guardarem a palavra do Senhor serão salvos. E S. Paulo enumera na Epístola de hoje tudo o que é necessário para levar aos povos a fé no nome de Deus. Ele foi, com efeito, o pregador por excelência, o Ministro de Cristo que Deus escolheu para levar aos povos os clarões da Boa-Nova do Verbo Encarnado.
Do Evangelho: Jesus deita a semente da palavra nos corações bem dispostos. Procuremos recebe-la bem e façamo-la frutificar na paciência para que Aquele que passou a vida a lançar nas almas a boa doutrina continuando a fazê-lo por meio da sua Igreja, nos possa recompensar com o cêntuplo que prometeu aos que O escutarem e seguirem fielmente.
Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.
Dom Lourenço Fleichman, OSB
Certos anos passam na rapidez vertiginosa e estranha que nos angustia. Outros teimam em não terminar. Dizem que 1968 foi um desses anos que não terminou. A Revolução mostrou sua face gélida e diabólica em diversas partes do mundo, numa tentativa desesperada de destruir de vez a Civilização Católica. Talvez tenha conseguido em parte, mas não devemos desesperar da misericórdia de Deus. Para Ele, nada é impossível.
Devemos rezar para que 2018 alcance rapidamente o seu termo e ceda o lugar para o que lhe há de seguir. No fundo, o que muda quando adentramos em 1º de janeiro? Será a noite da virada diferente de qualquer outra? Espera a Divina Providência a chegada do limiar da convenção humana para dar novas graças ou receber novas orações? Deus, que vive no presente eterno não se incomodaria com esses detalhes não fosse seu singular cuidado em agradar aos homens, esperando que assim estes se inclinem mais a agradar a Deus. Por isso podemos crer nas especiais graças de um novo ano, de um novo nascimento, de uma luz qualquer que brilhe nesse mundo dos homens.
A crise inicial
Ainda no 1º semestre, o ano de 2018 nos trouxe graves apreensões. Os caminhoneiros de todo o Brasil paralisaram nosso país de modo ilícito e irresponsável, sob o olhar conivente dos democratas de carteirinha que, por escrúpulos ou por malícia, não enviaram as tropas para livrar nossas estradas e nossa liberdade. O país ficou escravo de uma casta sedenta de privilégios.
Naquela ocasião reunimos um grupo de colaboradores da Permanência a fim de elaborar um texto explicativo da posição oficial da Permanência diante daquela situação de terríveis consequências para o Brasil. O editorial de hoje retoma partes daquele texto que ainda não tinha sido publicado.
Critérios de avaliação
O primeiro critério de avaliação dos princípios que regem a política dos povos é a própria Revelação, o que Deus revelou aos homens.
São Pedro, em sua Epístola, diz com todas as letras: “Servos, sede submissos a toda instituição humana, por amor de Deus”. Pesem as palavras do Apóstolo: há motivo sobrenatural – o amor de Deus – para critério de nossa atitude social e política. O texto continua: “... quer ao rei, como a soberano, quer aos governadores como enviados por ele para tomar vingança dos malfeitores e para louvar os bons; porque esta é a vontade de Deus, que fazendo o bem, façais emudecer a ignorância dos insensatos; procedendo como homens livres, e não como tendo a liberdade por véu para encobrir a malícia, mas como servos de Deus”.
E o primeiro papa continua nesse tema: “Servos sede obedientes aos vossos senhores (empregados sede obedientes aos vossos patrões), com todo o temor, não só aos bons e moderados, mas também aos agressivos. Porque é uma graça o suportar alguém as contrariedades, sofrendo injustamente, pelo conhecimento do que deve a Deus”.
Dois motivos sobrenaturais são, pois, apresentados: obedecer por amor a Deus e obedecer para suportar com paciência a Cruz desta vida.
São Paulo não é menos enfático, na epístola aos Romanos:
“Não há autoridade que não venha de Deus, e as que existem foram estabelecidas por Deus. De modo que aquele que se revolta contra a autoridade, opõe-se à ordem estabelecida por Deus. E os que se opõem atrairão sobre si a condenação”. (...) “Dai a cada um o que lhe é devido: o imposto a quem é devido; a taxa a quem é devida; a reverência a quem é devida; a honra a quem é devida”.
Após verificar como a Revelação nos instrui, devemos procurar o pensamento da Igreja na Tradição, sobretudo no ensinamento dos papas ao longo da vida da Igreja, para discernir como aqueles princípios foram sendo aplicados com o passar dos séculos.
Ao mesmo tempo não podemos interpretar ao proveito de nossas opiniões o parecer doutrinário e moral consignado nos textos do Magistério. Esse sempre foi o erro dos modernistas, tal como aparece no pensamento do Card. Joseph Ratzinger, por exemplo, ao afirmar que os textos dos papas antigos serviam para a Igreja daquela época, mas com as circunstâncias atuais eles já não teriam valor.
Esse não é o pensamento da Igreja, que atribui aos textos do Magistério valor de verdade a ser seguida, variando apenas a gravidade do pecado no caso de se recusar essa verdade.
No caso da paralisação dos caminhoneiros, em maio de 2018, chegaram a dizer que as greves condenadas por Leão XIII na Rerum Novarum seriam de outra natureza das greves atuais, e que por isso o ensinamento de João Paulo II e do Novo Catecismo seriam corretos, quando dão às greves a legitimidade recusada pelos papas antigos. Porém, não há nada na história do século XIX que indique greves mais violentas do que as atuais. Esse argumento não é válido, e o que devemos concluir é que, assim como a doutrina da Igreja foi dissolvida com o liberalismo do Concilio Vaticano II, no que toca o ecumenismo ou a liberdade religiosa, assim também os princípios católicos, que sempre nortearam a ação política, desviaram-se para uma espécie de socialização que nasce com João XXIII e continua até os dias do Papa Francisco.
De fato, quando a Igreja ensina a doutrina da Verdade, ela o faz através de princípios que são sempre verdadeiros, e devemos ter uma devoção toda especial para com essa orientação, rechaçando as inovações modernistas.
“Porquanto não é lícito desprezar o poder legítimo, seja qual for a pessoa em que ele resida, mais do que resistir à vontade de Deus; ora, os que lhe resistem correm por si mesmos para sua perda. ‘Quem resiste ao poder resiste à ordem estabelecida por Deus, e os que lhe resistem atraem a si mesmos a condenação” (Rom 5, 2). Assim, pois, sacudir a obediência e revolucionar a sociedade por meio da sedição é um crime de lesa-majestade, não só humana, mas divina”.
Ainda Leão XIII, condenando o comunismo por desprezar a autoridade divina e humana:
“Nada deixam intacto ou inteiro do que foi sabiamente estabelecido pelas leis divinas e humanas para a segurança e honra da vida. Enquanto censuram a obediência devida às autoridades às quais o Apóstolo nos ensina que toda a alma deve ser sujeita e que receberam por empréstimo de Deus o direito de mandar, eles pregam a igualdade absoluta de todos os homens no que diz respeito aos direitos e deveres”.
Alguém perguntaria quando se torna lícito fazer alguma manifestação contra os governantes ou contra os patrões? O mesmo papa responde em outra encíclica;
“A única razão que os homens têm para não obedecer é quando algo demandado por eles repugna abertamente ao direito natural ou ao direito divino; porquanto não podem ser mandadas e nem executadas todas aquelas coisas que violam a Lei natural ou a vontade de Deus. Se, pois, suceder que o homem se veja obrigado a fazer uma das duas coisas, ou seja, ou desprezar os mandamentos de Deus ou desprezar a ordem dos príncipes, ele deve obedecer a Jesus Cristo, que nos manda dar a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus (Mt. 22, 21), e, a exemplo dos Apóstolos, responder vigorosamente; ‘Importa obedecer mais a Deus do que aos homens’ (Atos 5, 29)”.
Mas isso não é motivo para qualquer greve ou paralisação. Muitas vezes ao trabalhador é pedida a virtude da paciência e a visão do Bem Comum, mais do que seus interesses particulares ou corporativos.
“O trabalho muito prolongado e pesado e uma retribuição mesquinha dão, não poucas vezes, aos operários ocasião de greves. É preciso que o Estado ponha cobro a esta desordem grave e freqüente, porque estas greves causam danos não só aos patrões e aos mesmos operários, mas também ao comércio e aos interesses comuns; e em razão das violências e tumultos, a que de ordinário dão ocasião, põem muitas vezes em risco a tranqüilidade pública.
Na mesma encíclica o papa tinha dito um pouco antes: “importa à salvação comum e particular que a ordem e a paz reinem por toda a parte (...) É por isso que os operários, abandonando o trabalho ou suspendendo-o por greves, ameaçam a tranqüilidade pública”.
O texto da Rerum Novarum é tão atual que parece ter sido escrito para os dias de hoje. Eles são opostos em todos os pontos às concessões admitidas pelos papas mais recentes. Vejam que a Igreja, partindo de São Paulo, considera que os homens devem ter um espírito de obediência aos governantes, quaisquer que sejam, limitando essa obediência apenas aos casos em que estes nos obrigariam a atos contrários à Lei de Deus, ou seja, o Decálogo, ou à Lei Natural, inscrita nos corações de todos os homens, de qualquer tempo e de qualquer lugar.
A noção de Bem Comum
Logo o Brasil entrou em época de campanha eleitoral, a qual, por tensa e densa que foi, parece ter levado um tempo muito maior do que os poucos meses que de fato se passaram. Procuramos, então, adaptar aquele trabalho inicial, alargando seu leque de considerações para uma visão mais geral sobre a política católica, que servisse de critério para os eleitores interessados em porem em prática os princípios da filosofia política da Igreja na sua Tradição bi-milenar.
Agora que a escolha do novo chefe da nação ficou definida, podemos voltar a esse estudo com mais calma para lembrarmos dos princípios católicos que regem nossos atos morais na vida individual e na vida política.
Uma das noções mais difíceis de se compreender dentro do ambiente da democracia liberal moderna é a de Bem Comum. Os liberais interpretam o Bem Comum de dois modos equivocados: em primeiro lugar consideram equivocadamente o voto como sendo o sinal mais eficaz da vontade do povo, e a partir daí, entendem “Bem Comum” como sendo essa vontade expressa pelo voto, pela maioria, pelo número. Nada mais contrário à verdadeira noção de Bem Comum, a qual, como o termo mesmo já expressa, é necessariamente o Bem. Ora, quem fixa como meta o bem, em qualquer obra que realize, considera em primeiro lugar o fim a ser alcançado. Como o fim último do homem no seu ser ou em qualquer coisa que faça é Deus, a Beatitude, todas as obras humanas necessitam dessa meta, desse fim último alcançado que gera o repouso e a felicidade eterna.
Assim, o critério para sabermos se algo, ou um ato, faz parte do Bem, é provar que ele obedece à Lei eterna de Deus, obedece aos Mandamentos de Deus e à Igreja Católica, a qual recebeu, e apenas ela recebeu, autoridade divina sobre a orientação dos homens e das nações. Esse lado prático do Bem orienta o homem na escolha dos meios a serem adotados para alcançar o bem particular que lhe é devido.
A outra interpretação equivocada de Bem Comum é vê-lo como sendo o bem pessoal ampliado ao máximo pelas liberdades totais. Quanto mais livre, mais independente e mais rico. Espalha-se a riqueza material e com isso todos ficam felizes e satisfeitos. Logicamente essa autonomia afasta drasticamente o homem do seu fim último, e o orienta a uma atuação política contrária muitas vezes ao Bem que vem de Deus e nos conduz a Ele.
Por outro lado, os socialistas e comunistas interpretam o Bem Comum com essa visão estereotipada que considera o Estado Socialista como sendo o único bem do povo, o único provedor, o único dono, o único produtor. Quanto mais Estado, mais dependência e menos necessidade de possuir. O resultado é a pobreza geral na qual todos os povos socialistas caíram.
Alívios
Cabe lançarmos um olhar para os últimos anos do nosso Brasil. Quando o sr. Aécio Neves perdeu a eleição em 2014, os liberais que adoram a democracia ficaram sem chão. Como o Brasil vivia há anos sem uma política verdadeira, dominado que estava pelas esquerdas desde Fernando Henrique Cardoso, parecia que o domínio do PT continuaria por muitos anos ainda. Não contam nunca com a vontade de Deus, não acreditam na Providência divina.
As coisas se precipitaram rapidamente e conhecemos dois anos do governo Michel Temer em que muitas coisas começaram a serem consertadas no Brasil. Pode ser que o sr. Temer seja tão ladrão quanto os demais, e que termine na prisão. Mas o trabalho que fez à frente do governo devolveu ao país um projeto sério. Enquanto o governo do PT já tinha abandonado o país ao retorno da inflação galopante, Temer conseguiu em um ano levar a inflação a percentuais espetaculares e estimulantes, além de diminuir pela primeira vez, desde o início da era PT, o desemprego no país. Além disso alavancou o cadáver da Petrobrás, nos livrou do domínio dos sindicatos, preparou a reforma da Previdência, a qual só não foi votada por causa do crime cometido pelo sr. Janot, de lançar ao ventilador da mídia as acusações contra o presidente que frearam as possibilidades políticas de Temer e do Brasil.
Hoje, quando Jair Bolsonaro se prepara para assumir a presidência, deve agradecer ao seu predecessor por ter tirado o Brasil do fundo buraco em que o PT o havia precipitado. E Bolsonaro parece saber disso.
Não podemos fechar o ano de 2018 sem mencionar a mudança impressionante que tem acontecido com a política do nosso país. As multidões que se sentiam asfixiadas pelo PT, acuadas e escondidas, parecem ter despertado. Os resultados das eleições foram lições dadas aos antigos políticos que abusaram e traíram o país com seu projeto de perpetuar-se no poder. O PT sobretudo, foi rechaçado fortemente, e todas as mentiras lançadas sobre golpe e volta de suposta ditadura foram desfeitas pela verdade.
Apesar de muitas atitudes fanatizadas de certos grupos, o fato é que temos hoje um presidente da República capaz de entender o que é o Bem Comum, de estabelecer seus ministros com esse critério específico de buscar o Bem, a Lei Natural em primeiro lugar, e apesar de seus equívocos causados pelo protestantismo de sua mulher, pelo menos ele tem sabido se portar corretamente, atribuindo a Deus a orientação do Brasil no caminho da verdade e do Bem.
Alertas
Algumas das idéias levantadas nessa fase de transição do governo soam límpidas, naturais e benfazejas. Outras nos afligem e nos deixam um sabor agridoce diante do que virá pela frente. Estamos na iminência de vermos equipes técnicas e competentes darem rumos novos ao Brasil, aliviando de diversas formas as crises que se abateram sobre a nação. Ao mesmo tempo, ainda não é possível avaliar corretamente o que significa a presença tão forte dos protestantes na orientação do novo governo. Não nos iludamos. Historicamente, quando os protestantes encontram meios, fazem de tudo para denegrir, atrapalhar ou mesmo perseguir a Igreja. É verdade que a ausência de padres, bispos, autoridades católicas no apoio a Bolsonaro só contribuiu para a presença de pastores protestantes. Mas eles não são os únicos.
Há também uma nova direita chamada “conservadora” que se pretende católica, mas que segue orientações de hereges notórios, de adeptos de religiões comparadas, de seguidores de René Guénon e outros. A Permanência não poderia se alinhar com esse tipo de pensamento, pois ele rompe com a fé íntegra, falsifica a noção de Religião e conduz os homens a caminhos ruins para o pensamento e para a vida prática.
Continuamos cumprindo nosso papel de formação católica do pensamento, dentro da orientação dada pela Igreja e pelos papas até as vésperas do Concílio Vaticano II. A Tradição, para um católico, significa Revelação transmitida oralmente, verdades de fé infalível que não foram escritas, mas transmitidas pela Igreja por obra do Divino Espírito Santo. Esperamos que o novo governo de Jair Bolsonaro saiba esquivar-se de tantos enganos que o cercam tentando abocanhar poder na nova oportunidade.
Resta-nos manter nossa Esperança na Divina Providência, sabendo que Nosso Senhor é o Rei das nações, e Ele só pode abrir as portas, e elas necessariamente se abrirão; fechá-las e serão fechadas com toda a certeza. Nesse Tempo do Advento e Natal ouviremos as grandes Antífonas Ó, com que a Igreja conclama Nosso Senhor para vir, para se encarnar. Com uma delas terminamos esse Editorial, pedindo ao Menino Jesus, Rei e Senhor do Brasil, que olhe por nossos governantes e pelo povo brasileiro.
“Ó chave de Davi e cetro da casa de Israel, que abres e ninguém fecha, que fechas e ninguém abre. Vinde tirar do cárcere o prisioneiro que está nas trevas e na sombra da morte.” (Antífona do dia 20)
Pe. John Brucciani, FSSPX
[Nota da Permanência: Acrescentamos que a liceidade de se tomar a vacina contra a Covid-19 nos casos apontados abaixo não implica na obrigação de fazê-lo.]
Muitos fiéis têm pedido orientação moral em relação às vacinas contra a Covid-19. Há vários artigos sobre o tema, que dão respostas diferentes ou nenhuma resposta. Esse artigo é uma tentativa de trazer clareza e solidez à questão
Posso tomar a vacina da Covid-19 se ela foi desenvolvida com células de fetos abortados?
Em relação à licitude de receber uma vacina desenvolvida com células fetais, a Pontifícia Academia para a Vida publicou, em 2005, um documento que concluiu que, em certas circunstâncias definidas, é moralmente permitido receber uma vacina desenvolvida de células fetais. Essa conclusão pode soar surpreendente, repulsiva e instintivamente errada, mas as conclusões advêm de princípios teológicos morais. Todos os teólogos morais da FSSPX concordam.
A questão, na nossa presente situação, deve levar em conta: (a) a existência de certas circunstâncias específicas e (b) circunstâncias adicionais, particulares à questão.
Circunstâncias específicas
As circunstâncias específicas que devem estar presente são as seguintes:
1. A doença é grave;
2. Não há vacinas alternativas disponíveis;
3. Protestou-se, vigorosamente, contra o uso de células fetais abortadas.
Circunstâncias adicionais
As circunstâncias adicionais da situação presente podem incluir:
4. O fato dos governos, mídia e empresas multinacionais estarem trabalhando duro para instaurar uma Nova Ordem Mundial essencialmente anticristã, com a cultura da morte no seu coração. A imposição global de uma vacina maculada pelo aborto é parte desse trabalho.
5. O desenvolvimento acelerado de uma vacina aumenta os riscos de efeitos colaterais maléficos.
6. A possibilidade de consequências penosas impostas àqueles que se recusarem tomar a vacina, como a demissão do trabalho ou mesmo o sequestro de seus filhos pelas autoridades.
Considerando as circunstâncias
As circunstâncias específicas se verificam no presente?
1. A doença é grave apenas para um pequeno grupo;
2. Há vacinas alternativas, mas elas não estão, necessariamente, disponíveis a todos;
3. O protesto vigoroso contra o uso de células fetais se trata de uma obrigação pessoal.
Em relação às circunstâncias adicionais:
4. Os católicos devem empregar todos os meios razoáveis para evitar cooperar com a imposição da cultura da morte pela Nova Ordem Mundial;
5. O risco de uma vacina desenvolvida às pressas é real, mas impossível de se avaliar;
6. Alguma penalidade pode ser imposta no futuro, mas, por enquanto, não no Reino Unido (N.T.: nem no Brasil);
Conclusão
À luz dessas circunstâncias concretas, a vacina desenvolvida de células fetais abortadas pode ser recebida sem pecado: (a) por um membro do grupo de risco, quando não houver vacina alternativa disponível e após protesto, ou (b) se a consequência de recusar a vacina for tão onerosa de modo a ameaçar a manutenção da vida pessoal ou familiar, e após protesto.
Santo Afonso de Ligório, padroeiro dos teólogos morais, rogai por nós
(Ite Missa Est, Jan-Fev. 2021. Tradução: Permanência)
Pe. Dominique Bourmaud, FSSPX
Temos tido o cuidado de sublinhar como o luteranismo entra em contradição com os princípios de Lutero. Lutero, a princípio, desprezou todo o passado racional, histórico e dogmático. Pretendia deixar que a liberdade individual fosse expressa abertamente, com todo seu séquito de desordem e anarquia. Mas como essa doutrina não é viável, encheu de defesas e dificuldades o seu sistema e fundou a Igreja luterana, que é diametralmente o oposto do seu conceito de liberdade de pensamento e de fé. O luteranismo, juntamente com todas as seitas que dele saíram, é um sistema incoerente que oscila entre dois polos contraditórios: o livre exame e a autoridade religiosa, a salvação por si mesmo e a necessidade de uma Igreja. Durante dois séculos, o protestantismo dogmático fez um grande esforço para esconder pudicamente esta deficiência congênita, pondo em relevo principalmente o aspecto moral ou o aspecto político e antipapista; mas esses subterfúgios não faziam mais que retardar o aparecimento de uma crise que, cedo ou tarde, teria que explodir com grande violência.
Os verdadeiros sucessores de Lutero tirarão todas as conclusões lógicas da doutrina do livre exame. Por meio de sua nova filosofia, de sua nova religião e de sua nova Revelação, eles fundamentarão tudo no homem e somente no homem, sem fé e sem lei, sem razão e sem Revelação exterior, sem Deus e sem nada. Essa será, respectivamente, a obra de Kant, Strauss e Schleiermacher, que estudaremos nos próximos capítulos. Indiscutivelmente, o primeiro deles e o verdadeiro fundador da escola é Kant, a quem devemos associar o filósofo Hegel.
A filosofia eterna, segundo Aristóteles, ensina que as coisas existem e que podemos conhecer sua natureza. Para fazê-lo, ela supõe três coisas: 1) que a inteligência humana pode conhecer a verdade; 2) que ela é capaz de conhecer a realidade exterior; 3) que ela conhece o elemento estável do ser, sua natureza e sua essência. Com Descartes, já há uma mudança de perspectiva: o cogito cartesiano — «Penso, logo existo» — parte do sujeito para terminar no real. O germe cartesiano, junto com o idealismo kantiano, produzirá frutos amargos. Kant vangloria-se de ter feito a «revolução copernicana» em filosofia. Durante muito tempo, acreditou-se que o Sol girava ao redor da Terra, e Copérnico demonstrou o oposto, que era a Terra que girava ao redor do Sol. Do mesmo modo, sempre foi aceito que o espírito se adequava às coisas com o fim de conhecê-las, mas Kant, ao contrário, pretende demonstrar que é o objeto que se adequa ao pensamento, e que o pensamento é de fato o centro de gravidade do conhecimento. Kant sustenta que o homem não pode conhecer a verdade das coisas e que a inteligência está confinada em si mesma sem nenhuma referência externa. Por isso, professa abertamente o agnosticismo ignorantista e o imanentismo egologista, limitado a conhecer somente o seu eu. Hegel ataca principalmente o terceiro ponto, a estabilidade do ser, por meio de sua dialética da evolução revolucionista. Ainda que, à primeira vista, pareça que Hegel encarna melhor o espírito modernista, entendido como a evolução da Revelação a partir da consciência, na verdade, é Kant quem lhe dá sua expressão mais profunda.
1. Kant e sua época
O século XVIII foi a época da Aufklärung — o Iluminismo. Kant descreve perfeitamente a Aufklärung como o esforço do homem para se liberar de sua imaturidade culpável, vale dizer, de sua incapacidade de raciocinar sem a ajuda de outro. Para isso, é necessário deixar de lado Deus e a religião e substituí-los pela religião do homem. O maçom Lessing, em sua obra A Educação do gênero humano, propunha a religião da razão pura, emancipada de Deus:
«Por que não ver simplesmente, em todas as religiões positivas, esta ordem em que a inteligência humana desenvolve-se e segue desenvolvendo-se só e por si mesma, em vez de criticar ou escarnecer essa ou aquela?» .
Essa declaração deveria inspirar todo o desenvolvimento ou, melhor dito, toda a revolução teológica do século XIX. Seu principal agente e propulsor não foi propriamente um teólogo, mas um filósofo da Aufklärung, Immanuel Kant.
Kant nasceu em Könisgberg em 1724. Era o quarto filho de pais honrados, a quem sempre admirou, principalmente sua mãe:
«Minha mãe era de temperamento doce, afetuosa e piedosa, uma mulher direita e uma mãe terna, que educou seus filhos no temor de Deus segundo uma doutrina piedosa e um exemplo virtuoso».
A educação recebida de sua mãe, que era fiel de uma seita protestante pietista, contribuiu muito para fazê-lo aceitar sem contestação o valor da moral e da religião. Ao mesmo tempo, na universidade, instruiu-se nas ciências modernas, especialmente no sistema astronômico de Newton, que o impressionou até o ponto de proporcionar-lhe um segundo fato, tão evidente e inquestionável aos seus olhos quanto o fato moral: a existência de uma ciência positiva necessária e universal. Com exceção de uma curta ausência, passou toda a vida em sua cidade natal, como professor de lógica e metafísica na universidade. De acordo com o poeta Heine, é muito difícil escrever a história da vida de Immanuel Kant, porque não teve nem vida nem história. Levou uma vida de solteiro metodicamente ordenada e abstraída, em uma tranquila avenida de Könisgberg, antiga cidade do nordeste da Alemanha. Sua vida é a caricatura da vida de um professor. Tudo tinha seu tempo regulado: levantar-se, tomar café da manhã, lecionar, comer, dar um passeio; a tal ponto que, quando Immanuel Kant saía de sua casa, com seu casaco cinza e sua bengala espanhola na mão, para caminhar ao longo da avenida, logo rebatizada de O passeio do filósofo, os vizinhos sabiam que eram exatamente quatro e trinta da tarde. Apesar da saúde frágil, Kant alcançou, desse modo, uma longa carreira, repleta de trabalhos intelectuais, frutos de suas reflexões um tanto lentas, mas profundas e perseverantes. Não começou a ruminar seu sistema, que haveria de revolucionar toda a filosofia, senão nos anos de 1770. Embora desfrutasse de uma natureza mais sociável do que a descrita por Heine, visto que sua presença era muito solicitada nos alegres salões da cidade, é certo que a moral do dever desse celibatário haveria de influenciar imensamente o espírito calvinista e puritano.
Quanto à sua obra filosófica, podemos dizer que gira em torno de duas estrelas de sua juventude: a evidência da ciência física newtoniana e a certeza da lei moral no fundo do coração, inspirada em Rousseau. Toda sua ambição intelectual, todo seu sistema filosófico, foi construído para defender esses dois pontos cardeais contra todos os problemas e obstáculos, a tal extremo que desejou que fosse escrito em sua tumba: «O céu estrelado sobre mim e a lei moral dentro de mim». O epitáfio poderia servir de epígrafe a suas obras, pois as resume perfeitamente. De fato, o sistema filosófico de Kant articula-se para conciliar essas duas verdades intangíveis, a física newtoniana e a moral rousseauniana, e, ao mesmo tempo, confiná-las em dois domínios distintos, com o propósito de evitar qualquer conflito entre elas.
Em consonância com o empirista inglês David Hume, Kant reconhece que as coisas existem realmente, mas também assente que não é possível conhecê-las tal como são. A única ciência verdadeiramente certa é a física experimental de Newton, que não capta a realidade em si mesma, mas só os fenômenos, isto é, as coisas tais como aparecem sob as lentes da inteligência humana. Há algo sob essas lentes que informam e deformam, mas não se pode saber se transmitem verdadeiramente o que está além do vidro. As substâncias, o eu e Deus, a realidade além do sujeito que conhece, tudo isto pertence à ordem da terra incognita, terra desconhecida e no man´s land. Por esta razão a metafísica, que trata das «coisas em si», é incerta e frequentemente falsa. Disto trata seu primeiro livro: A crítica da razão pura. Mas, no segundo livro, A crítica da razão prática, defende a moralidade pietista e devolve à metafísica o valor de conhecimento que retira da própria física. Como ele próprio explica: «Destruí a razão para dar lugar à fé». A metafísica, inválida no campo científico, pode chegar a ser válida quando é utilizada em proveito da vida moral, reduzida que foi a uma fé cega. As «coisas em si» do mundo real são falsas do ponto de vista científico, mas verdadeiras do ponto de vista moral, posto que são úteis para viver. Aquilo que, na realidade, é duvidoso, converte-se em certeza prática, mediante a varinha mágica da moral do dever. O mais além, Deus, o mundo e o «eu» com sua liberdade, não são objetos do conhecimento físico e científico, mas devem existir, uma vez que são moralmente necessários. Pertencem à ordem do «pode ser», mas, é preciso viver «como se» eles fossem. O homem nega todo conhecimento razoável do mundo das coisas, mas deve agir como se soubesse muito a respeito deste mundo. Nunca se sabe com segurança o que há para além das lentes da inteligência, mas devemos viver como se estivéssemos seguros dessas coisas. À custa de semelhante dualismo, que separa hermeticamente a ordem prática da ordem especulativa, Kant consegue preservar as duas estrelas fixas de sua vida. Falta-nos ver com mais detalhes de que modo um sistema como esse é fundamentalmente ignorantista e egologista.
2. O ser é? Pode ser!
Heine queixava-se que Kant era um comerciante mesquinho que a natureza havia criado para pesar chá e açúcar. Desgraçadamente, Kant, ultrapassando seus limites naturais, se fez pensador, e seu pensamento acabou destruindo um mundo. Na Prússia dos primeiros anos da vocação de escritor de Kant, a caça aos hereges estava aberta. O pequeno professor de lógica de Könisgberg já havia publicado alguns trabalhos de estilo confuso, que só poderiam interessar a alguns intelectuais específicos, quando veio à luz sua Crítica da razão pura, em 1781. Seu estilo complexo e enfadonho o salvou da censura do Ministério de Educação prussiano. O inquisidor que, em Berlim, quisera condenar sua obra, se viu em apuros para extrair do livro uma única heresia contra a fé luterana; ele teria muito pouco sucesso, pouca gente o leria e certamente ninguém o compreenderia. Esse livro, embora ignorado de início, foi sendo descoberto pouco a pouco. Tornou-se o manifesto do idealismo, porque nega à inteligência o poder de conhecer a realidade. É o agnosticismo subjetivo, a filosofia do incompreensível. Kant sofreu a influência de seus contemporâneos, e seu sistema pretende conciliar o ceticismo do inglês Hume com a ciência física de Newton. Para ilustrar como Kant compreende o mistério do conhecimento, imaginemos um diálogo entre os dois filósofos durante uma partida de petanca:
— Caro Hume, minha primeira bocha ficou a dois dedos do bolim. Cabe a ti deslocá-la!
— Aqui vai, caro Kant. Veja! Tenho a impressão de afastar tua bocha com a minha, mas é só uma ilusão. Desde minha mais tenra infância, aprendi a associar o antes e o depois como a causa e o efeito, de maneira que o primeiro movimento da bocha seria causa do segundo. Na realidade, não é nada disso. Há duas manchas de cor de aço, dois movimentos, um antes e outro depois, isso é tudo. É a mesma coisa que dizia nosso amigo Descartes, que reduzia os corpos a sua simples extensão. Além disso, as substâncias que chamamos bochas e o primeiro movimento entendido como causa do segundo, tudo isso é fruto de nossa imaginação e dos erros de nossa infância.
— O que diz, caro Hume, é muito profundo e me leva a sair de minha ilusão realista. Temos a certeza de apreender alguma vez as coisas e suas causas? Não, isso é impossível. Não obstante, veja! Quando lanço minha segunda bocha, não há dúvida de que estou consciente da lei da gravidade que Newton descobriu. O problema, então, é saber de onde vem esta lei evidente, universal e necessária. Concedo-te que não vale a pena dizer que procede da experiência recebida do exterior. Portanto, há de proceder do interior, do sujeito. Tal como o entendo, o conhecimento é obra do meu espírito que produz suas próprias ideias a partir dos fatos brutos, da mesma forma que o escultor produz a estátua ao trabalhar a pedra.
O ponto de partida da crítica de Kant é eliminar das coisas sua natureza e essência. Desta forma, nem o pinheiro e nem o carvalho compartilham a natureza comum de árvore. Além disso, a natureza humana não é comum a Pedro e a Paulo, de modo que uma inteligência possa compreendê-los sob o conceito de «homem». Para ele, as coisas são um plasma informe e incognoscível, e a inteligência nada aprende da realidade. O ser é? Pode ser, mas as coisas são impermeáveis à inteligência, e, se delas inteligência há, só pode ser de si mesma que ela as tira. Assim, o pensamento, acreditando apreender e contemplar um objeto desconhecido, não capta e contempla senão a si mesmo. Esta é a essência do idealismo: o pensamento não alcança a coisa em si mesma, mas só a ideia. No idealismo, o espírito humano, ao desprezar desde o início os fatos da experiência, tem de, no fundo, dar forma àquilo que conhece. E, ao término do percurso, só chega a conhecer suas próprias ideias, e não as coisas exteriores. Da perspectiva idealista, sobretudo segundo os discípulos radicais de Kant, as coisas são postas pelo espírito humano e se reduz ao conhecimento que o sujeito tem delas, ao contrário do realismo.
Que ilusão colossal é este conhecimento idealista! Conhece seu pensamento — o fenômeno — mas não a realidade — a coisa em si. É um divórcio completo entre a inteligência e a realidade. Kant proclama deste modo a autonomia total da inteligência humana frente à realidade exterior. As consequências são trágicas. Kant, por exemplo, não vê nenhuma contradição entre dizer que uma coisa que aparece está sujeita a leis e que essa mesma coisa é independente, pois a pessoa tem de se observar das duas maneiras.
O kantismo, ao aceitar a existência de um pensamento de nada, de uma representação sem coisa representada, chega à conclusão de que a contradição é possível. E vai ainda mais longe: arruina a eterna noção de verdade. A verdade kantiana define-se como a conformidade do pensamento consigo mesmo: é verdade tudo aquilo que é coerente. Nestas condições, é desnecessário dizer que um kantiano nunca se equivoca; é infalível em todo lugar e em todo momento, porque as ideias que seu cérebro produz são a verdade. Seus sonhos mais rocambolescos tornam-se ipso facto verdadeiros pelo simples fato de serem pensados. E, não obstante, esse pensamento que não sabe sair de si mesmo é a definição de verdade professada por todos os modernistas, a exemplo de seu mestre. Em matéria de iluminismo, esta filosofia moderna assina um pacto com as trevas e faz aberta profissão de ignorantismo. Em matéria de sabedoria, desaba em um obscurantismo declarado.
3. O egologismo fideísta
Diz-se em tom de gracejo que a Crítica da razão pura, que desdenhou de todas as coisas e da religião, encheu de desespero ao criado de Kant. Por isso, dez anos depois, o mestre decidiu escrever a Crítica da razão prática para reabrir espaço à moral. O segundo volume segue a mesma linha que o precedente: a melhor maneira de destruir algo é substituí-lo por outra coisa. Kant chegara à conclusão de que a razão pura nada pode conhecer. Agora, ia provar que a razão prática, que se ocupa das questões morais, pode conhecer as verdades metafísicas sobre o homem e sobre Deus pela única via ainda resta aberta: o eu pensante. Essa segunda obra foi objeto de uma investigação mais profunda por parte dos inquisidores de Berlim. É que o autor tratava de questões religiosas como a existência de Deus, a imortalidade da alma e a liberdade, já expostas em seu primeiro volume, mas que passaram despercebidas naquele denso conjunto. Mas, ali também, Kant, que provara a existência delas por um caminho original e obscuro, conseguiu ocultar-se das redes da censura. Os berlinenses, embora lamentassem que o professor não pusesse os pés na igreja, estavam satisfeitos com suas conclusões corretas, apesar de seu raciocínio manco.
Para Kant, com efeito, as três grandes ideias metafísicas — Deus, a alma, o mundo — não são mais que preconceitos na ordem da razão especulativa. Deus é da ordem do «pode ser», é uma «coisa em si» desconhecida. Porém, Kant herdara de sua mãe pietista a convicção indubitável de que a vida moral é uma necessidade, um dever que funda o bem-viver. E o dever — o imperativo categórico — reivindica certas condições, como a existência de Deus, da alma humana e da liberdade. Da mesma forma, a ideia de Deus é uma consequência da ordem moral e não seu fundamento, porque, segundo Kant, a moralidade é mais importante que Deus. Deus existe porque é útil. Esta maneira kantiana de ver as coisas, não é tomar os desejos por realidades?
Essa via de fuga, a exigência moral, que pretende provar o que a razão engenhosamente negara, é, na verdade, um eco das teorias de Lutero e Siger. De Lutero, porque é a expressão mais perfeita de sua fé-confiança cega. O dever moral kantiano não apreende jamais o racional e a verdade. É um ato de fé cega em nossos instintos morais e na existência de Deus, da alma imortal e do mundo. Ao mesmo tempo, é um fideísmo ao estilo de Siger. Tanto para Kant quanto para Siger, existem duas verdades completamente separadas que podem se contradizer tranquilamente: a verdade como conhecimento científico dos fenômenos e a verdade como crença cega nas coisas. Entre as duas, o jogo é desigual. A verdade científica não tarda em humilhar sem piedade a verdade fideísta, limitada ao domínio dos dogmas pietistas e sentimentais de sua religião materna. Daí provém a tese comum entre os modernistas, de que aquilo que é falso especulativamente pode ser verdadeiro na prática.
Para aplicar seus princípios utilitaristas à religião, Kant publicou um terceiro livro, ainda mais audacioso que os anteriores, A religião nos limites da razão pura, que continha uma minuciosa análise das doutrinas luteranas mais sensíveis, cujo fundamento histórico ele nega. Os credos protestantes têm um valor puramente «simbólico». Pouco importa que o homem tenha cometido historicamente o pecado original, pois a consciência é suficiente para revelar nossas más inclinações. Jesus Cristo, historicamente, era só um homem, mas resultava útil apresentá-lo como Deus aos fiéis, para que entendessem, dessa forma, que também eles são, de algum modo, filhos de Deus. Toda a Revelação fica reduzida à razão pura. Por exemplo, os milagres não precisam ser provados, pois o único testemunho que vale é o da alma, e, seja como for, o único Deus possível de se conhecer é aquele que está dentro de nós. Esse Deus é tão somente uma quimera, e uma quimera não pode mandar ninguém para o Paraíso ou para o inferno. Tamanha abstração da divindade corresponde ao que pensavam os deístas de seu tempo, que lançaram o desafio blasfemo: «Façamos Deus à nossa imagem!». E tal ideia abstrata de Deus, imagem de uma humanidade abstrata, imagem da unidade do gênero humano, era a única maneira de promover a paz na terra. Longe dos credos que dividem, Kant erigia assim a religião da consciência, que logo será reivindicada por seu discípulo, Schleiermacher.
4. Hegel e o puro devir
Kant fez com que tudo procedesse da consciência humana perfeitamente autônoma. Como passar deste fundamento estático à revolução das ideias? Era preciso acrescentar um elemento dinâmico. Essa foi a obra de Hegel, que haveria de proporcionar novos recursos ao idealismo. O modernismo então fecha o círculo com a teoria evolucionista, que transforma a evolução e a torna verdadeiramente revolucionista. O evolucionismo radical é o ponto nuclear do sistema modernista, pelo qual os modernos justificam sua revolução, que se estende desde a filosofia até o dogma, a moral, a História e a exegese bíblica. Não se trata da evolução das espécies segundo Darwin, mas da hipótese mais sutil e estendida do devir universal, que é a base da «nova» filosofia de Hegel, e que procede diretamente do velho Heráclito: o ser não é, tudo é puro devir.
Hegel não é um autor fácil de ler. Na Alemanha, um filósofo só é levado a sério quando é obscuro. Entretanto, se adota um estilo mais denso do que o de seu compatriota, Hegel tem sobre Kant a grande vantagem de apresentar princípios claros, porque, para ele, o racional é o real e o real é o racional, ou, em outras palavras, o pensamento é a realidade. A filosofia se define como o saber absoluto, a ciência que Deus tem de si mesmo e de todas as coisas. A obra filosófica de Hegel consiste em construir e encadear metodicamente os conceitos para apreender o processo de geração do universo. Os conceitos — ainda que para ele os conceitos sejam as coisas — encadeiam-se por meio do método dialético, que supera as contradições fazendo progredir o pensamento até as ideias superiores. Toda sua Lógica, que pretende descrever o universo bem ordenado segundo seu sistema, é uma verdadeira valsa de conceitos que funciona em três tempos: tese-antítese-síntese.
Para chegar ao ápice da consciência de si mesma, a religião deve passar, como qualquer outra ideia, por uma cascata de formas inferiores graduadas em grupos de três: a religião naturalista do Oriente de um Deus impessoal (magia, budismo, zoroastrismo); a religião do Deus individual e espiritual (judaica, grega, romana ou prática); ambas se fundem para produzir o Cristianismo, religião de um Deus infinito unido a humanidade finita (também com sua tríade: encarnação, Paixão, história da Igreja), tudo unificando-se na Santíssima Trindade. A religião cristã, resumo das riquezas contraditórias do passado, não é, porém, o cume da consciência do Espírito. Assim, a história das religiões mostra a evolução das crenças primitivas inferiores às religiões superiores, que as reúne em uma síntese mais rica, para desembocar na filosofia hegeliana, pináculo da religião da razão.
É necessário sublinhar alguns pontos desse gigantesco palácio de ideias. Em Hegel, Deus — a quem chama de o Absoluto — não existe ainda, e só existirá ao término de sua própria evolução. Com efeito, antes de ser plenamente Ele mesmo como termo final, o Absoluto é o processo de geração do universo; logo, parte integrante do universo e de todo espírito. Ademais, tudo o que é posterior a outra coisa é necessariamente superior ao que o precede. Este é um dos postulados modernistas da História necessariamente progressiva, um dogma muito prático porque permite jogar para debaixo do tapete as crenças anteriores pelo simples fato de serem anteriores, pois, tudo o que é anterior é a priori inferior.
Para Hegel, o homem torna-se pouco a pouco divino por suas próprias forças. Passa do conhecimento sensível ao conhecimento inteligível até alcançar a consciência absoluta divina. Este movimento ininterrupto para a divinização das criaturas, tese panteísta por excelência, é um dogma constante entre os modernistas radicais, particularmente em Teilhard de Chardin e Karl Rahner. Rahner restaura por sua conta a tese hegeliana de que o conceito de Deus, e Deus mesmo, é a projeção da consciência humana. Em vez de existir antes do homem, Deus é fruto do espírito humano.
Como vemos, a fé do filósofo Hegel pretende mover muitas montanhas. Mas crer que os próprios conceitos são a medida do mundo é divinizar o homem e rebaixar a Deus. No fundo, o hegelianismo é um panteísmo ateu, onde a pura matéria parte do não-ser, e progressivamente, pela lei dos contrários, termina no cérebro humano. Então, refletindo sobre si mesma, toma consciência de sua divindade sem tê-la ainda, posto que é só um Deus in fieri — um Deus em potência — um Deus que ainda não é e que jamais poderá chegar a ser. Nunca o panteísmo havia sido formulado com tanto rigor.
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Ao considerarmos de perto os filósofos das Luzes do outro lado do Reno, é surpreendente notar um fato que, infelizmente, os historiadores da filosofia normalmente deixam de lado. Todos estes idealistas alemães atacam a religião. Seu combate é, em última instância, teológico. Com efeito, qual é a grande tentação do pensamento alemão? Em Kant, Fichte, Schelling, Hegel, Nietzsche, mesmo em Feuerbach e Marx, a filosofia se engaja em um combate titânico contra o Deus transcendente, que ela procura conduzir ao interior do homem. De Kant, que faz de Deus um guardião da moral, passando por Feuerbach, que faz d’Ele um produto do homem, até Nietzsche, que proclama sua morte, os mais ilustres pensadores alemães se esforçaram para apagar a irrupção de Cristo-Deus na história, e, em seguida, liquidar com a supremacia divina. Esses supostos filósofos são abertamente ignorantistas e egologistas. Os filósofos iluministas são mais obscuros, e o fato de que desprezem verdades tão claras como a luz do dia prova-nos que são movidos por um preconceito: o ódio à religião e à autoridade que ela representa. Manter um preconceito naturalista como esse custa caro, pois é preciso lhe sacrificar a razão e seu objeto: a verdade. Eles se assemelham aos alquimistas da Idade Média que pretendiam transformar os metais em ouro por meio da pedra filosofal. Do mesmo modo, nossos filósofos modernos pretendem transformar a natureza de Deus e da religião por meio da pedra filosofal do momento, a pedra ignorantista e egologista. Atacam ao Deus de seus pais para substituí-lo por um deus «feito em casa», na medida do eu-ego, princípio e fim de tudo.
São Pio X, ao condenar o modernismo, não duvida em atribuir a Kant toda a culpa: o kantismo é a heresia moderna. Kant é o teórico e o príncipe do modernismo. Depois dele, seus discípulos não produziram nada mais que variações da melodia de seu mestre. Nada falta a seu sistema. Tudo já foi preparado, tudo já foi dito. Seus sucessores, Strauss em Sagrada Escritura e Schleiermacher em teologia, não farão mais que explorar as ideias emitidas por seu mestre. O dueto Kant-Hegel marca um acorde final na sinfonia modernista, ponto de encontro de seus princípios fundamentais. Estes filósofos defendem todos os princípios de onde brota a religião do homem, onde a Revelação é um produto da imaginação e da consciência do crente. Com semelhantes princípios, estamos já no coração do modernismo.
(100 anos de modernismo, tradução: Ricardo Bellei)
Nota da Permanência: O presente artigo foi escrito em 1959, centenário do nosso compositor maior, pelo crítico musical Antônio Hernandez. O texto foi tirado do livro "Músicos - Compositores - Interpretes", e posso ser adquirido na nossa livraria.
O mundo celebra hoje o centenário de Heitor Villa-Lobos, o mais importante compositor das Américas, em todos os tempos. Nascido no Rio, iniciado desde a infância pelo pai, violoncelista, clarinetista, violonista, diretor de orquestra, autodidata – as suas passagens pelos conservatórios foram breves – e cultivado à luz da Bach, de Haydn e dos valores mais puros procedentes da terra, Villa-Lobos deixou ao morrer, em 1959, um catálogo de mais de novecentas obras de diversificada destinação, transcedente pela invenção idiomática, pela representatividade nacional, pelo valor instrumental. Os Quartetos, as Bachianas Brasileiras, a música religiosa, a obra para piano, os Concertos, a imensa cordilheira dos Choros, a produção camerística, tudo configura um símbolo sonoro do Brasil culto e respeitado no mundo. Título de maioridade da arte brasileira, todas as autoridades reconhecem em Villa-Lobos o grande, senão “o único” (segundo Bandeira) gênio nascido no País. Em termos de grande público, entretanto, a sua obra continua a ser ignorada. De domínio popular são apenas alguns números para piano e para violão, poucas canções e as Bachianas Brasileiras n° 5. Algumas das obras de maior importância não tiveram sequer uma audição no Brasil, nas últimas décadas.
Durante três décadas, Villa-Lobos ocupou, nos Estados Unidos e na França, o trono do maior compositor das Américas. Quando ele morreu não foi substituído, apesar do reconhecimento dos méritos do norte-americano Aaron Copland, do argentino Alberto Ginastera e do mexicano Carlos Chávez, defendidos fanaticamente pelos seus compatriotas.
Foi o mestre nascido no Rio mais do que um prodígio do “Terceiro Mundo”, um grande entre os grandes do século, ao lado de Bartok, Strawinsky, Mnuel de Falla, e diferente de todos. Frustradas são as tentativas de explicar um gênio, mas sempre tem alguma utilidade a lembrança das circunstâncias que permitiram a sua formação. Em Villa-Lobos impõe-se o reconhecimento da vontade paterna, como primeiro impulso cultural. Uma vontade sem a qual teria sido impossível preparar o artesão. Comentaristas de hoje identificam naquele pai, Raul Villa-Lobos, falecido em plena juventude quando o futuro compositor apenas começava a superar a primeira infância, uma espécie de déspota de interesses exclusivamente elitistas. Modesto funcionário, porém, Raul Villa-Lobos deixou bela impressão no seu filho (entrevista de 1957):
“Além de ser homem de aprimorada cultura geral e excepcionalmente inteligente, meu pai era músico prático, técnico e perfeito. Com ele assisti a ensaios, concertos e óperas... Aprendi, também, a tocar clarinete e era obrigado a discernir o gênero, estilo, caráter e origem das obras, como a declarar com presteza o nome da nota dos sons ou ruídos que surgiam incidentalmente, como, por exemplo, o guincho da roda do bonde, o pio de um pássaro, a queda de um objeto de metal... Pobre de mim quando não acertava...”
Tão pequeno era o menino quando foi iniciado ao violoncelo, que o pai precisou adaptar uma viola para que ele conseguisse colocar os dedos nas cordas, abraçar o instrumento e fazê-lo cantar com o arco.
A influência daquele pai é determinante. Villa-Lobos estaria, poucos anos depois, em condições de reeditar o prodígio de Mozart, que reproduziu de memória o Miserere de Allegri, até então de uso exclusivo do Vaticano. O compositor brasileiro fez outro tanto, no campo do repertório de bandas de cidades rivais do interior do Brasil. Isso lhe permitiria depois poupar anos de trabalho nos conservatórios. Violoncelo, clarinete, piano – que aprendera de ouvido bebendo o Cravo bem temperado, de Bach, das mãos da tia – violão, que cultivara às escondidas, o menino aos 12 anos era um músico bem equipado, capaz de discernir, modificar e sintonizar o sentimento popular e vestir as ideias com roupagens requintadas. Com os anos desenvolveria o talento necessário para inovar também em matéria de roupagens. Antes de ter ouvido sequer mencionar o nome de Claude Debussy, ele já adivinhara o Impressionismo. Antes de conhecer Igor Strawinsky, coincidia com ele na força da invenção, na capacidade de pensar a multiplicidade de elementos superpostos que fazem o esplendor da Sagração da Primavera, do mestre russo, ou do Noneto que resume o Brasil, na obra de Villa-Lobos.
As outras forças formadoras do gênio foram, depois de Raul Villa-Lobos e de Bach, os Quartetos de Haydn; os chorões cariocas; os motivos folclóricos de Minas Gerais, onde a família se refugiou em tempo de contrariedades políticas do pai; a ópera italiana (é quase palpável a afinidade com Puccini), o folclore nordestino, que ele pesquisou com fome pantagruélica, mas sem as preocupações científicas de Pedrell, na Espanha, ou de Bartok, na Hungria (nesse campo, Villa-Lobos está mais perto do instintivismo de Chopin). Não levou gravadores, o futuro autor das Cirandas e do Guia Prático, na sua infatigável peregrinação pelo Brasil, mas era tal a identificação do sentimento popular com a sua própria consciência que, com total autenticidade ele poderia afirmar, anos mais tarde: “O folclore sou eu”. Em circunstâncias parecidas, Luís XIV da França afirmara com menos autoridade: “O Estado sou eu”.
A declaração de plenos poderes explicava um certo processo de simbiose entre Villa-Lobos e o folclore, principalmente no que concerne às práticas dos chorões cariocas, no início da carreira do compositor, fenômeno que se registraria mais tarde na evolução de Francisco Mignone (Chico Bororó).
De qualquer maneira, a simpatia do músico pelos valores autênticos da terra ficou documentada nas suas declarações à imprensa quando visitou pela primeira vez a França: “Estudei no Conservatório de Cascadura, na classe de mestre Pixinguinha”.
Villa-Lobos era já o autor de obras que conquistaram de maneira fulminante as plateias mais cultas do mundo. A Prole do Bebé, por exemplo, que Rubinstein revelara nos anos vinte e que cultivou até o fim da vida. O Polichinelo deve ter alcançado o índice de mais de cinco mil execuções públicas nos recitais do pianista polonês. Era também autor do Noneto, obra pouco mais jovem do que a História do Soldado de Strawinsky, e não menos interessante no que diz respeito às inovações idiomáticas e que, pour cause, até hoje continua quase totalmente desconhecida.
Capítulos especiais, nas matérias comemorativas, mereceriam a colaboração do mestre com o Governo da Revolução de 1930, sobretudo no campo da educação musical, das concentrações de 40 mil vozes de escolares, da fundação do Conservatório de Canto Orfeônico e da Academia Brasileira de Música, instituições que bem merecem reativação. Milhares de brasileiros cresceram condicionados pela espécie de pedal que representou nas consciências a prática do canto em conjunto. Era o povo se capacitando para um dia chegar a entender as obras de arte de seu mais autorizado porta-voz.
Em matéria de registros discográficos o panorama é lamentável. Não apenas no que toca às técnicas mais modernas de gravação numérica para leitura a raio laser. Os discos convencionais de música de Villa-Lobos são de má qualidade, a maioria, e o repertório gravado é pequeno, em comparação com o imenso número de obras importantes: as Bachianas Brasileiras; os Choros, que começam com espécies de diários íntimos e se transformam em verdadeiras epopeias; as Sinfonias; as 16 Cirandas; preciosidades do repertório pianístico, como as Danças Africanas e as duas séries de Proles do Bebê; os cinco Concertos para piano (já editados em versão de Fernando Lopes com a Orquestra de Campinas, mas não disponíveis no mercado), os Concertos para harpa, para harmônica de boca, para violoncelo, para violino, as Sinfonias, o Guia Prático e centenas de títulos de música de câmara que contém o melhor Villa-Lobos.
As obras mais favorecidas em discos continuam sendo os Estudos e os Prelúdios para violão. O poema sinfônico Amazonas, a música incidental para A Floresta do Amazonas (o filme Green Mansions), as quatro Suites do Descobrimento do Brasil, as Óperas, as Canções e a gigantesca produção coral, os 17 Quartetos para cordas e a música religiosa, tudo está à espera de registros modernos, sob a responsabilidade de intérpretes tecnicamente habilitados, sensíveis e, sobretudo, honestos e sem compromissos com o sucesso comercial.
A edição da música em de Villa-Lobos em termos internacionais ficou em boas mãos, com a Casa Max Eschig, em Paris. Para os consumidores brasileiros, porém, isso traz dificuldades, que o Museu Villa-Lobos vem tentando solucionar.
Em matéria de estudos de interesse musicológico, apesar da tradição implantada por Dona Arminda Villa-Lobos, faltam atividades. Foram excelentes os exemplos dos trabalhos de artistas como Arnaldo Estrella, Adhemar Nóbrega, Souza Lima. Poucas pessoas, entretanto, conhecem no Brasil trabalhos de excepcional interesse crítico produzidos em universidades e publicados apenas no exterior. Juan Orrego Salas, por exemplo, fez análises da maior seriedade, nem sequer foram traduzidas para o português.
O Globo, 5 de março de 1987