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Category: PensamentoConteúdo sindicalizado

Mísera sorte! Estranha condição.

O gemido está no quarto canto de Os Lusíadas e quem o pronuncia é um ancião de “aspecto venerando” que não vê com bons olhos o esplendor da nova civilização que os varões da ocidental praia lusitana querem inaugurar.

Introdução a um livro

O ÚLTIMO CAPÍTULO1
 
 
Há cerca de trinta anos um bom e velho amigo tentou me inculcar, como excelente, o método de ler os livros de traz para diante, alegando que o modo vulgar de leitura tem o inconveniente, entre outros, de afrontar a liberdade o leitor. Na seqüência forçadas dos números, ficamos nas páginas como nos dias. E já nos basta a vida — dizia meu velho amigo com melancolia — já nos basta a vida, esse folhetim de abstrusa composição e gosto duvidoso, onde a única independência que nos fica é a de remexer à vontade nos números já publicados.

  1. 1. [N. do Autor] Esses três capítulos, a começar pelo último, fazem parte da Introdução de um livro que talvez nunca seja publicado.

Ano novo?

À meia-noite do dia 31 acordei sobressaltado com o foguetório que festejava, a seu modo grosso e ruidoso, o nascimento da coisa nenhuma que se dá o nome de Ano Novo. Confesso que meu primeiro sentimento foi o de uma justíssima irritação, mas logo sobreveio um segundo sentimento de admiração diante de tão comovente e estúpida obstinação. Quê? Então ainda esperam alguma coisa das folhinhas e das órbitas planetárias? Ou inventaram mais uma vez um modo de fingir que inventaram? Porque na verdade fingidor não é só o poeta, nem é ele que quase merece este título como definição de seu absurdo modo de ser, não; fingidor é o mundo inteiro. Finge tão ruidosamente que chega a fingir que espera do Ano Novo o que ainda já dos dias só desespera. Pobre gente.

Liberais e conservadores

Quais são realmente as mentalidades que se defrontam na Igreja de nossos dias, e mais especialmente no Sínodo? Já vimos que as denominações usadas no noticiário não nos parecem adequadas. Que denominações proporíamos nós em lugar daquelas?

O padre e a menina

Na semana em que estavam reunidos bispos e frades, e até no mesmo dia em que foi publicado um “documento base” a ser debatido na II Conferência geral do episcopado da América Latina em Bogotá, saiu publicado num canto de jornal, sem nenhum destaque, um pequeno tópico de faits-divers a que quase ninguém deu atenção, embora também envolvesse um padre, que, como ninguém ignora, é hoje o mais jornalístico dos personagens, como já o previra o Apóstolo Paulo: “somos dados em espetáculo ao mundo”.

 

O homem e a natureza

A julgar pelos vestígios que deixaram e pelas amostras de humanidade dispersa e degradada que os portugueses encontraram nas terras do Brasil, o homem paleolítico vivia num nível cultural de quase exclusiva e obsessiva preocupação de seu relacionamento com o mundo exterior e inferior. Vivia em luta com o meio. Não é fácil reconstituir e imaginar essa situação em que um ser dotado de dimensão racional, da mesmíssima espécie que hoje nos diferencia dos animais, estava obrigado a curvar a razão ainda impotente no domínio dos elementos, sem o socorro dos instintos que os animais possuem para adequar-se ao meio de mesmo nível ontológico. O homem não se espiritualizou gradativamente, isto é, não passou do ser não-espiritual para o ser espiritual por etapas contínuas ou discretas como pensam que pensam os evolucionistas ou como sugeriu o festejado Teilhard de Chardin que, infelizmente para a Companhia de Jesus e para a Igreja, não foi internado e metido numa camisa-de-força em momento oportuno.

O valor da vida

O jornal de anteontem anunciava aos berros: ABOLIDA A PENA DE MORTE NOS ESTADOS UNIDOS, e logo após enumerava os grandes criminosos beneficiados pelo penúltimo espasmo de permissiveness da grande nação agonizante. Lá estava o assassino do Senador Robert Kennedy. E demais homicidas. Quinhentos.

Exegese de um lugar comum

Há certas frases que todo o mundo pronuncia sentenciosamente e todo o mundo ouve com respeito, sem que ninguém se dê ao trabalho de examinar a sua significação. Pode ser que constitua um desses lemas de universal e anônima sabedoria; mas também pode ser que não passe de um lugar comum ou de uma meia verdade, que, como sabemos, é a mais insidiosa espécie de mentira que o "homo mendax", consegue produzir neste vale de lágrimas.

Depravação do corpo: "eles" começam pelas crianças

Muitas vezes aludimos à crise que envenenou o Ocidente cristão, e que hoje se tornou universal graças ao movimento histórico da ocidentalização que, por paradoxo, se volta contra o Ocidente. Mais de uma vez tentamos percorrer os marcos históricos e as correntes de idéias que animaram a chamada civilização moderna e que agora deságuam pelo imenso estuário de mil disparates num oceano de sombrias perplexidades. A Renascença e a Reforma, debaixo de seus aspectos progressistas, e a par dos reais progressos trazidos pelas ciências da natureza, que asseguraram ao homem o conhecimento e o domínio das coisas exteriores e inferiores, foi o primeiro degrau do itinerário em que o homem se extravia de si mesmo, e para ganhar o mundo hipoteca a própria alma. Depois, na Revolução Francesa temos outro marco onde começa a grande impostura moderna das histórias mal contadas. Poderíamos dizer, embora nos repugne o neologismo, que a história recente é uma sucessão de estórias mal contadas. Num processo de sucessivo empulhamento que começou nos primórdios da Revolução Francesa, com as famosas societés de pensée denunciadas por Augustin Cauchin, seguiu-se a história do socialismo, a ascensão do liberalismo, a Revolução Russa, e as duas grandes guerras. Até hoje se conta a história da 2ª Guerra como se a Rússia tivesse desempenhado nela papel decisivo, papel de vencedor. Agora temos a super-impostura do progressismo “católico”, como uma síntese de todos os erros cometidos pela humanidade nestes últimos séculos. E qual é a direção geral, o efeito principal desses movimentos históricos?

A vocação da mulher

No meu tempo de rapaz houve uma época em que, cansado de estudar as crateras da lua e os anéis de Saturno, passei a interessar-me pela avicultura. E, como sempre misturei às coisas mais práticas um pouco de teoria, comecei por munir-me de um tratado. Ora, esse tratado que então adquiri, começava por essas inacreditáveis palavras: «A galinha e as aves domésticas em geral, tanto podem ser cuidadas por um homem como por uma mulher».

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