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Category: PensamentoConteúdo sindicalizado

Brasil católico

O Brasil, durante muito tempo, foi considerado o maior país católico do mundo. Parece que houve épocas em que mais de 90% dos brasileiros eram católicos. Não é para espantar. Os países colonizados pelos portugueses e espanhóis foram fundados por homens que tinham uma preocupação grande com a salvação das almas. Apesar de muitas mentiras contadas para as nossas crianças nos livros escolares onde o papel civilizador e santificador da Igreja Católica é enegrecido e brutalizado por calúnias, a verdade límpida e pura é evidente: houve abusos, houve comércio, enriquecimento de alguns, ganância e crimes, certamente, porque em todo empreendimento humano sempre será desta forma; houve sim porque nem sempre os portugueses ou espanhóis que vieram para cá foram homens católicos ou, pelo menos, que vivessem o catolicismo de modo puro e sincero. Ao contrário, havia até condenados pela justiça que encontraram nos riscos de tal aventura um meio de escapar da prisão. Mas o que faziam os missionários dentro daquelas cascas de noz que atravessavam o Atlântico? O que queriam? Possuir terras e riquezas? Ouro? É curioso como se inverte a realidade. Se assim fosse, não seria mais lógico que primeiro deixassem que o ouro fosse descoberto para depois vir participar da "divisão"? Porque os padres e religiosos viriam sem saber se ouro havia? Porque eles sabiam de uma só coisa, e era suficiente: havia gente. Havia povos pagãos que precisavam do Evangelho para conseguir ir para o céu. E os mentirosos como o sr. Mário Smith, autor nefasto de livros de História envenenam grande quantidade de crianças brasileiras com carimbos e chancelas dos nossos ministérios. Gente como este senhor precisava responder a processos judiciais por envenenamento de almas. Ele faz o contrário do que faziam os missionários, ele corrompe, mente, debocha, destruindo nas consciências dóceis das crianças o amor por nosso passado, por nossa cultura católica, por nossa Pátria.

Onde estão os católicos do nosso país para denunciar esta corrupção da verdade? Onde estão os bispos brasileiros para proibir aos seus fiéis o uso de tal medíocre e mentiroso livro?

O Brasil era um país católico. Chamou-se Terra da Santa Cruz porque foi batizado próximo da festa da Invenção da Santa Cruz, no dia 3 de maio, que celebra a descoberta da verdadeira Cruz de Nosso Senhor, por Santa Helena, em Jerusalém. A sociedade brasileira, apesar de seus governos liberais, maçônicos, anti-católicos, manteve sempre acesa a luz da Fé e chegou aos meados do século XX como essa grande nação católica, que causava admiração a tantos, pela simplicidade e pela convicção do seu povo. A grande guerra iniciou um mundo novo, um mundo orientado para liberdades desenfreadas, que romperam todos os limites morais impostos pela Lei sagrada de Deus. Apesar disso, ainda havia no Brasil uma força religiosa grande e em 1964 o povo católico foi às ruas das principais capitais, com o Terço na mão, pedindo a Nossa Senhora que não nos permitisse cair no comunismo. E o nosso Exército ouviu o clamor popular e derrubou o governo João Goulart Seria preciso todo um trabalho para falar sobre o governo dos militares, que são caluniados e chamados de "ditadores", quando na verdade formaram uma elite de políticos retos, ou mais retos do que os outros, para os ajudarem a governar um país que se tornara ingovernável pelos desmandos e pela sede de poder do sr. Goulart. Há pouco tempo atrás a imprensa brasileira muito falou sobre os 30 anos do AI-5. Este decreto governamental dos militares, meio de exceção para conter os crimes também de exceção, é o principal "bode expiatório" lançado como "pecado" dos militares contra o Brasil. Não foi. Foi apenas um instrumento de governo num momento em que a revolução armada, os assassinos de inocentes, assaltantes de bancos, seqüestradores, abusavam da liberdade que lhes era dada até então. Pois a imprensa foi entrevistar muitos dos políticos civis que, naquela época, sentavam com os militares no Conselho de Segurança. E todos eles confirmaram que os militares não tinham outra saída e fizeram o que precisava ser feito para não deixar o Brasil cair na guerra civil. Mas os intelectuais, jornalistas, políticos continuam contando ao povo essa enorme mentira que tenta fazer dos nossos soldados o contrário do que eles foram. Mas o povo simples sabe e repete. Na época dos militares, todo brasileiro era livre de fazer o bem que lhe agradava, saía nas ruas a qualquer hora sem perigo, tinha um emprego e uma inflação heroicamente controlada, e um crescimento anual de fazer inveja.

Mas aconteceu um fenômeno que fez aquele belo esforço dos nossos militares desaparecer num mar de lama e de corrupção: aconteceu o Concílio Vaticano II. O liberalismo desenfreado tomou conta da hierarquia católica e com isso, o Brasil católico começou a esvaziar-se como uma bola de aniversário. Foi murchando o Brasil, sendo dominado pela mentira de ideologias marxistas porque desapareceu a barreira do catolicismo. Todo o trabalho de formação dos brasileiros, nas escolas, nas universidades, passou a ser marxista, liberal, anti-católico. E o Brasil católico desapareceu. Leiam a introdução do Século do Nada, de Gustavo Corção e poderão compreender melhor essas verdades e tudo o que aconteceu no Brasil dos militares.

Onde está a Pátria brasileira? Onde está este Brasil católico?

Existe no mundo pequenos grupos de católicos que resistem bravamente contra a decomposição do catolicismo. Os inimigos da Igreja, dentro da hierarquia do Vaticano possuem estrutura, gente, dinheiro, imóveis, jornais, influências para destruir qualquer obstáculo que se apresente contra eles. E no entanto esses pequenos rebanhos, como são as nossas Capelas de N. Sra da Conceição, de São Miguel, e tantas outras espalhadas pelo mundo, continuam levantando suas preces nas Missas Tridentinas, no estudo da doutrina anterior a Vaticano II, protegidos pelo manto da Virgem Maria e da fé católica. Acusados e marginalizados por uma hierarquia que varia entre "conservadores" de reta intenção, mas que erram por excesso de juridismo, chegando aos loucos heréticos fomentadores de um catolicismo sem fé, de um Jesus Cristo sem divindade e que odeiam tudo o que é católico, seguem os fiéis da Tradição com o vigor e o ímpeto de amor que os leva a caminhar quarenta dias e quarenta noites pelo deserto. Mas somos poucos, muito poucos. Porém, quando esses pequenos grupos de fiéis se reúnem, o espetáculo é grandioso, porque a Tradição católica é assim.

Foi o que aconteceu no domingo dia 10 de outubro, quando participei da Peregrinação de Nossa Senhora de Lujan (leia-se: Lurran) padroeira da Argentina. Fiéis vindos de toda a América Latina caminharam 35 quilômetros, entre o Seminário da Fraternidade São Pio X e a Basílica de N. Sra de Lujan. Total de peregrinos ao longo das estradas: 520. Durante o dia todo, caminhamos rezando o Santo Rosário, cantando os cânticos tradicionais, enquanto os padres iam confessando os fiéis. Tudo isso organizado com duas paradas, sanitários, água, médicos e enfermeiras etc. Ao chegarmos na cidade de Lujan, nos dirigimos para um ginásio próximo à Basílica onde foi preparada a Santa Missa que celebrei, tendo sido convidado para pregar aos peregrinos. Esta missa foi assistida por mais de 700 fiéis. Dois sacerdotes cumpriram as funções de Diácono e Sub-diácono, com os seminaristas da Fraternidade São Pio X acolitando nas diversas funções. O côro da Capela de Buenos Aires cantou toda a missa, acompanhado pelo povo.

Ao término da cerimônia formou-se a procissão que dirigiu-se para a Basílica, já sendo noite. A imagem de Nossa Senhora ia à frente, os seminaristas e sacerdotes, cerca de cinqüenta, em ordem de dois e, por fim, os fiéis, encheram as redondezas com o som melodioso e a piedade de outrora. E o povo das ruas, emocionado, aplaudia, juntava-se aos fiéis e assim percorremos a grande praça até entrar na belíssima Basílica, obra monumental, riquíssima, em estilo gótico, que mais lembra uma catedral medieval. Não posso deixar de lamentar a falta de gosto, de arte, de amor e piedade daqueles que construíram o nosso Santuário de Nossa Senhora Aparecida, que vira um caixote gelado e vazio  diante da riqueza do Santuário de Lujan. Não é assim também a Catedral do Rio de Janeiro? Ou a de Brasília? Pobre povo brasileiro, arrancaram a sua fé a marretadas, arrancaram a beleza dos seus santuários, arrancaram o amor e a piedade dos nossos corações. Mas nós estávamos lá, junto aos católicos de língua espanhola, unidos pela mesma fé, o mesmo Credo, a mesma Virgem Maria, Mãe de Deus e nossa. Irmanados pela Verdade do catolicismo, pela Tradição, pela Pátria. Éramos uns dez ou doze brasileiros, a maioria vinda de Santa Maria, RS, da Capela da Fraternidade São Pio X. Ali representávamos todos os brasileiros, que sejam freqüentadores das nossas capelas ou simplesmente bons brasileiros que amam seu passado, suas raízes católicas, que não fizeram do seu patriotismo apenas torcer na Copa do mundo ou numa Olimpíada.

Em nossas preces à Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, Terra de Santa Cruz, em nossa devoção filial à Mãe de Deus, precisamos devolver à nossa Pátria o amor e o espírito de sacrifício daqueles que construíram nossa Pátria. Do Padre Manoel da Nóbrega, talvez o mais esquecido dos nossos fundadores, do Pe. José de Anchieta, Apóstolo do Brasil, dos reis de Portugal que enviaram os primeiros missionários para evangelizar os índios, abrindo-lhes as portas do Paraíso, de todos os católicos que se estabeleceram em nossa terra e construíram aqui uma sociedade familiar, nobre, honrada, religiosa, antes que a avalanche maçônica e liberal a destruíssem.

E é por isso que vale a pena continuar, sofrer esta brutal marginalização que é o martírio gota à gota dos tempos modernos, para mostrarmos aos nossos inimigos que não temos medo do combate e que, mesmo se formos esmagados na lida desta vida, espera-nos a coroa da glória, prometida por Jesus aos que sofrerem perseguição por amor do seu nome e da sua Justiça.

Feliz Natal

Dom Lourenço Fleichman OSB

O que deve ser o voto de Feliz Natal de um padre, de uma Capela como a nossa a todos os nossos fiéis, a todos os nossos amigos e leitores? É de praxe e de bom tom trocar votos de felicidades nesta data do nascimento do Menino Jesus. E fazemos bem. Pois no fundo de nossas almas paira ainda a teologal esperança que avança sem tréguas em meio ao mar revolto deste mundo. Servirão os votos que damos e recebemos, pois de alguma forma as pessoas precisam da paz natural para viver em sociedade.

Mas é esse lado natural o que me incomoda. E onde está a realidade sobrenatural do Natal? Onde encontraremos, perdidos e abandonados nos cantos das ruas, os santos de outrora, que talvez corressem agitados, preparando tudo, organizando os mínimos detalhes de uma festa sem fim: Et Verbum caro factum est! Pois o Verbo se encarnou e habitou entre nós. O Verbo de Deus, segunda Pessoa da Santíssima Trindade, recebe uma natureza como a nossa para nascer na manjedoura em Belém. E onde estão as almas admiradas e contemplativas para fugir do shopping, largar as bolsas de compras, os presentes dos filhos, o novo celular, e correr desembestado por um estacionamento entupido..... Ah! Ele nasceu, eu vi a estrela, eu vi o Menino. Hosanna in excelsis! Eu vi, eu compreendi o que acontece. Por que não nos dizem isso? Onde estão os padres, onde estão os bispos, onde está o sangue católico, que já não corre nas veias dos homens, para nos dizer, para nos lembrar que o louco não sou eu que corri feito doido largando tudo no chão; os loucos são eles, que estão lá dentro, fazendo compras e mais compras; os doidos são eles, que, mesmo quando criticam o esvaziamento do Natal católico, não param para meditar no Mistério dos mistérios, na candura e inocência, na paz... na paz... Para que foi mesmo que ele nasceu? Para nos trazer a paz...

Não foi isso o que eu vi, não foi isso o que Ele quis me dizer quando me fez mergulhar naquele mundo de silêncio, no meio da multidão que corria agitada atrás das compras, das promoções, da última moda. Não foi isso o que o Príncipe da Paz me disse, quando abri seu Livro Santo e li: "Não vim trazer a paz, mas sim a espada!" Não, ele não veio nos trazer a paz, nesse sentido natural que os homens querem. É isso! Era isso o que me incomodava. Às favas com essa falsa paz de que nos fala o profeta, esse romantismo abusado que usa o Inocente, nosso Deus, para fingir que deseja a paz a todos. Não, não é isso o que eles desejam! O que eles querem é o paraíso na terra, é prolongar a vida até não poder mais, é liberar-se de toda obediência à Verdade Eterna. Pergunte a um deles se querem seguir os ensinamentos da Verdade? Qual Verdade? Eles não querem aquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida. Eles querem, exigem, e batem pé: nós queremos a verdade de Pôncio Pilatos! Trata-se da verdade relativa, do liberalismo, de você seguir o que você pensa, autônomo, achando-se adulto, responsável... sem Deus, sem Cristo, sem a Igreja! Depois vêm me cantar musiquinhas bonitinhas na televisão para fazer chorar de emoção numa confraternização universal. Chega disso!

Por favor, não venham me dizer que é preciso esquecer certos acontecimentos, e deixar de lado as convicções, pois é noite de Natal. Acho que esse argumento pode ser válido para muitas ocasiões e para muitos natais. Mas se a causa de tantos desastres e tragédias está justamente no esquecimento de Jesus, no abandono da Criança de Belém, como não pensar nisso tudo? Se hoje a Argentina vive um Natal terrível e amanhã qualquer país o poderá viver também; se hoje aviões são lançados sobre prédios porque os loucos assassinos querem matar todos aqueles que não pensam como eles. Se tudo isso acontece porque o Rei Pacífico não tem direito de reinar sobre as nações, então essa paz e essa felicidade que eles desejam é de uma hipocrisia total!

E no entanto... E no entanto há lugar para a Paz, desde que não seja a paz dos jornais. Há lugar para cantar, numa noite de Natal, um cântico novo ao nosso Deus, ao Menino-Deus, desde que nossos olhos sejam olhos de filhos, puros e espirituais. Desde que nossas almas sedentas saibam dobrar os joelhos e rezar no silêncio da noite: Venite adoremus! vinde, adoremos a Criança, Jesus nosso Deus e Salvador, que nasceu hoje para morrer amanhã, para nos dar seu Sangue, para nos dar sua vida. Há lugar para desejar, ao menos para desejar, que o Rei da Paz seja o chefe das nações, o chefe de nossa Pátria; que ela se dobre diante do seu cetro e se deixe governar por seu Evangelho e por sua Igreja.

Então, sim, nesta hora em que nas igrejas soam os sinos, a missa do Galo, a Santa Eucaristia: meu Senhor e meu Deus. Que nossos corações tenham um ímpeto de amor e queiram com todas as forças espalhar pelo mundo as luzes do nosso Bom Deus. Então, sim, mergulhados na oração, saudemos nossos amigos e irmãos, troquemos nossos votos e orações, pois Ele nasceu, ele nos foi dado. "Hodie, filius datus est nobis — hoje, um Filho nos foi dado".

É por isso que desejamos a todos um Feliz Natal e um ano-bom repleto de todas as graças de Deus.

A ética do país das fadas

A minha primeira e última filosofia, em que acredito com uma certeza inabalável, foi aquela que aprendi no quarto de infância. E eu a aprendi em geral de uma ama-seca, quer dizer, da grave e luminosa sacerdotisa tanto da democracia quanto da tradição. As coisas em que eu mais acreditava então, as coisas em que eu mais acredito agora, são as coisas denominadas contos de fadas. Eles me parecem ser as mais racionais de todas as coisas. Não são fantasias: perto deles, as outras coisas é que são fantásticas. Perto deles, a religião e o racionalismo são ambos anormais, embora a religião seja anormalmente certa e o racionalismo anormalmente errado. O país das fadas não é outra coisa senão o ensolarado país do senso comum. Não é a terra que julga o céu, mas o céu que julga a terra; portanto, para mim pelo menos, não era a terra que criticava o país das fadas, mas o país das fadas que criticava a terra. Conheci o mágico pé de feijão antes de ter experimentado o grão de feijão; acreditei no Homem da Lua antes de ter certeza sobre a existência da própria lua. E isto estava de acordo com toda a tradição popular. Os modernos poetas menores são naturalistas, e falam de bosques ou de riachos; mas os cantores dos velhos poemas épicos e das fábulas eram supernaturalistas, e falavam dos deuses dos bosques e dos riachos. Isto é o que os modernos querem dizer quando afirmam que os antigos não “apreciavam a Natureza”, já que diziam que a Natureza era divina. As velhas amas-secas não falavam às crianças sobre a grama, mas sobre as fadas que dançam na grama; e os velhos gregos não conseguiam ver as árvores porque as dríades as encobriam.

Razão, Paixão e Namoro

Dom Lourenço Fleichman OSB

Hoje eu queria lhes falar sobre um tema que tenho pensado e exposto em algumas conferências que andei fazendo por aí. Tema difícil e que eu tenho falado como em uma espécie de laboratório, de reflexão, captando aqui e ali as ponderações das pessoas sábias. É dentro desse espírito que eu lhes trago aqui. Meu intuito é tratar do assunto do namoro de forma racional, buscando as razões profundas que levam os homens a se comportar com respeito, na obediência à Lei de Deus. Não é suficiente, hoje, um padre dizer aos jovens: não façam isso ou aquilo. Quem quer entender, busque a verdade!   Leia Mais

 

Falsas Lições sobre Gustavo Corção

 Dom Lourenço Fleichman OSB

 

Quando escrevi o prefácio ao livro O Pensamento de Dom Antônio de Castro Mayer, procurei denunciar a falsificação que seus sucessores e seus padres realizavam ao esconder e abandonar toda referência aos textos do grande bispo, com data a partir da década de 1970. Nesta época tornaram-se mais claras as causas dramáticas da crise da Igreja e por todo o mundo apareceram críticas mais severas ao Concílio Vaticano II e sua obra. LEIA A CONTINUAÇÃO
 

O sentido do mundo hispânico

Conferência proferida no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, sob o patrocínio do mesmo Instituto e da Casa de Cervantes, a 28 de abril de 1960. O autor era o editor da antiga e excelente revista Hora Presente.

A Esperança

Sejamos alegres pela esperança, sofridos nas tribulações. Porque quem bem espera bem sofre, e quem levanta o espírito aos bens eternos sabe portar-se bem nas misérias temporais.
 
Sabeis que coisa é a Esperança? Uma engenhosa máquina com que o espírito se guinda desde o mundo para a eternidade; e assim não lhe carrega o peso dos males que cá embaixo leva, porque tanto furta à aflição do trabalho que padece, quanto se levanta à contemplação do descanso que espera.

O mundo passa

Quanta verdade é que a figura deste mundo sempre está passando, e nós com ela!
 
Dos sábios e justos diz Isaías que vêem a terra de longe. Ora vem cá, alma minha, faze por ser sábia, toma as asas da contemplação, e suspende-se nelas, e olha de longe para esta bola da terra, e verás como a sua figura sempre está passando.
 
Que é o que vês? Mares, rios, árvores, montes, vales, campinas, desertos, povoados... e tudo passando.

A vida é morte

A um vaso de vinho misturado com três partes de água não chamaremos com razão vinho; nem a um pouco de açúcar envolvido em três tantos de sal chamaremos com razão açúcar.
 
Logo, se eu mostrar como a nossa vida é misturada, ao menos, com três tantos de morte, provado ficará que lhe não devemos chamar, absoluta e simplesmente, vida, pois vai o seu vigor tão aguado e a sua doçura tão salgada com as propriedades da morte.

A Língua litúrgica da Igreja

 

I. A língua latina convém ao culto católico porque é venerável, misteriosa e invariável.

A língua latina é venerável pela sua antiguidade: era a que empregavam os cristãos dos primeiros séculos para celebrar os louvores de Deus1. «Sente-se comoção e entusiasmo quando se ouve oferecer o Santo Sacrifício na mesma língua e com as mesmas palavras de que se serviam os primeiros cristãos nas profundidades sombrias das catacumbas»  A língua latina é uma línguamisteriosa, porque, como língua morta, o povo não a compreende. Empregando-a dá-se a entender que no altar se passa alguma coisa que se não pode compreender alguma coisa misteriosa. Nos primeiros séculos do cristianismo, o altar estava encoberto por um véu desde oSanctus até à Comunhão. Este uso desapareceu, mas existe sempre um véu diante do altar: é a língua latina que o povo não compreende, e que nos torna os santos misteriosos veneráveis. —Finalmente por ser língua morta é invariável e significa com isto a imutabilidade da doutrina católica, que não muda, como não mudam as formas desta língua2,  Além disso, convém notarque os Judeus e os Pagãos se serviam, no seu culto religioso, de uma língua que não era a língua vulgar. Entre os Judeus, por exemplo, empregava-se o antigo hebreu, que era língua dos Patriarcas. Jesus Cristo e os Apóstolos assistiram ainda ao ofício divino que se celebrava nessa língua e a história não nos diz que Jesus Cristo e os Apóstolos hajam censurado esse costume.  Na Índia, osânscrito é a língua sagrada, e difere dos dialetos que usa povo.  Os Gregos, quer os não unidos quer os unidos. empregam nas suas igrejas o grego antigo, e não o grego moderno ou vulgar.  Até na Igreja russa se servem grego antigo, ao passo que o povo fala o eslavo. — igreja anglicanaemprega o inglês antigo. Só os Romenos unidos se servem, com aprovação de Roma, da sua língua materna.
 
  1. 1. Se bem que é verdade ter o grego, sob este ponto de vista, maior dignidade: por isso a Igreja Católica usa ambos os idiomas: porém no ocidente emprega comumente o latim, mais semelhante às nossas línguas modernas.
  2. 2. Deste modo favorece a sua conservação, com a mudança das .palavras, variam também pouco pouco os conceitos.
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