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Category: TeologiaConteúdo sindicalizado

A Igreja do Céu

Gustavo Corção

 

“Em mim reside toda a graça do caminho e da verdade, em mim toda a esperança da vida e da virtude. Sou como a roseira plantada à beira das águas”. Ofertório — Nossa Senhora do Rosário

Vale a pena, nestes meses de outubro e novembro, meditar muitas vêzes na Comunhão dos Santos, e especialmente na intercessão daqueles que povoam a Igreja do Céu; e vale a pena consagrar uma especial atenção ao culto de veneração que devemos à Virgem Santíssima, de cujas mãos recebemos as graças de seu Filho para nossa salvação.

Bem sabemos que os tempos são ingratos para esta forma de piedade, tão católica e tão comprovadamente boa. Quase devemos ter força de mártir se quisermos dizer alguma coisa sobre o nono artigo do Símbolo: “creio na Comunhão dos Santos”, e sobretudo se quisermos meditar aos pés de Nossa Senhora. Ai de nós!, o tempo em que vivemos gaba-se de ser comunitário em todos os sentidos, exceto neste que se refere à Comunhão dos Santos; e gaba-se de ser pacífico e fraterno em todos os sentidos, exceto neste que se refere à nossa Mãe. (Continue a ler)

Pode a Igreja morrer?

Dom Lourenço Fleichman OSB

Muitas pessoas me pedem que atualize com mais freqüência o site. Confesso que não tenho conseguido me dedicar mais a este apostolado, levado pelo excesso de trabalho nas quatro capelas sob minha responsabilidade, nas revisões doutrinárias dos livros que editamos e na cura das almas. Estamos iniciando agora o projeto do Colégio São Bernardo, a primeira escola da Tradição no Brasil, sobre a qual falaremos a seu tempo.

Felizmente tenho a ajuda de uma equipe atuante no que toca a produção da Revista Permanência, de outra forma não conseguiria manter o ritmo dos lançamentos trimensais. Confesso que é um trabalho que nos traz muita satisfação.

Agora mesmo assistimos a mais um grave escândalo do ecumenismo desenfreado. A reunião promovida pelo papa Francisco I dentro do Vaticano, no domingo de Pentecostes é apenas um gemido naturalista, um grunhido da História, dentro da obra destruidora do Vaticano II.

LEIA A CONTINUAÇÃO

O sonho de Nabucodonosor

Conduzido para diante de Nabucodonosor, depois da promessa de narrar e interpretar a visão que o rei teve em sonho, disse Daniel estas palavras:

“O mistério cuja revelação o rei pede, respondeu Daniel ao rei, nem os sábios, nem os mágicos, nem os feiticeiros, nem os astrólogos são capazes de revelar-lhos. Mas no céu existe um Deus que desvenda os mistérios, o qual quis revelar ao rei Nabucodonosor o que deve suceder no decorrer dos tempos. Eis, portanto, teu sonho e as visões que se apresentaram a teu espírito quando estavas em teu leito. Senhor, os pensamentos que vieram ao teu espírito, enquanto estavas em teu leito, são previsões do futuro: aquele que revela os mistérios mostrou-te o futuro. Quanto a mim, se esse mistério me foi desvendado, não é que haja mais sabedoria em mim do que nos outros homens, mas para eu dar ao rei a interpretação, a fim de que se faça luz nos pensamentos do teu coração. Senhor: contemplavas, e eis que uma grande, uma enorme estátua erguia-se diante de ti; era de um magnífico esplendor, mas de aspecto aterrador. Sua cabeça era de fino ouro, seu peito e braços de prata, seu ventre e quadris de bronze, suas pernas de ferro, seus pés metade de ferro e metade de barro. Contemplavas (essa estátua) quando uma pedra se descolou da montanha, sem intervenção de mão alguma, veio bater nos pés, que eram de ferro e barro, e os triturou. Então o ferro, o barro, o bronze, a prata e o ouro foram com a mesma pancada reduzidos a migalhas, e, como a palha que voa da eira durante o verão, foram levados pelo vento sem deixar traço algum, enquanto que a pedra que havia batido na estátua tornou-se uma alta montanha, ocupando toda a região. Eis o sonho. Agora vamos dar ao rei a interpretação. Senhor: tu que és o rei dos reis, a quem o Deus dos céus deu realeza, poder, força e glória; a quem ele deu o domínio, onde quer que habitem, sobre os homens, os animais terrestres e os pássaros do céu, tu és a cabeça de ouro. Depois de ti surgirá um outro reino menor que o teu, depois um terceiro reino, o de bronze, que dominará toda a terra. Um quarto reino será forte como o ferro: do mesmo modo que o ferro esmaga e tritura tudo, da mesma maneira ele esmagará e pulverizará todos os outros. Os pés e os dedos, parte de terra argilosa de modelar, parte de ferro, indicam que esse reino será dividido: haverá nele algo da solidez do ferro, já que viste ferro misturado ao barro. Mas os dedos, metade de ferro e metade de barro, mostram que esse reino será ao mesmo tempo sólido e frágil. Se viste o ferro misturado ao barro, é que as duas partes se aliarão por casamentos, sem porém se fundirem inteiramente, tal como o ferro que não se amalgama com o barro. No tempo desses reis, o Deus dos céus suscitará um reino que jamais será destruído e cuja soberania jamais passará a outro povo: destruirá e aniquilará todos os outros, enquanto que ele subsistirá eternamente. Foi o que pudeste ver na pedra deslocando-se da montanha sem a intervenção de mão alguma, e reduzindo a migalhas o ferro, o bronze, o barro, a prata e o ouro. Deus, que é grande, dá a conhecer ao rei a sucessão dos acontecimentos. O sonho é bem exato, e sua interpretação é digna de fé..” (Dn 2,27-45).

Aqui Daniel, cheio de espírito profético, expõe o encadeamento dos séculos e descreve os acontecimentos políticos futuros, de modo tal que se poderia acreditar tratar-se não do adivinho do porvir, mas do fiel historiador do passado demonstrando em pormenor seus conhecimentos sobre os monumentos de outrora. Vários elementos desse oráculo são dignos de atenção.

Em primeiro lugar, a sucessão dos quatro impérios, representados pela cabeça de ouro da estátua, pelo seio de prata, pelo ventre de bronze, pelas pernas e pés metade de ferro, metade de barro. São eles as quatro grandes monarquias que dominaram o mundo civilizado, a partir da época de Daniel: os caldeus, os persas, os gregos, e finalmente os romanos. Não é mister insistir nem se aplicar, visto que as lições deste capítulo da história são mais claras que o sol. Tu és a cabeça de ouro, disse ele. Assinalou-se aqui os babilônios, que de fato alcançaram com Nabucodosonor II o pináculo do esplendor e do poder. Por isso, é comparado ao ouro fino, pois que não havia quem fosse mais rico nem magnífico que Babilônia (cf. Is 14, 4 sq., Jr 60 inteiro teor, Dn 4, 17 sq. Etc.). Depois de ti surgirá um outro reino menor que o teu: um reino de prata, i. é, o dos medos e persas, fundados por Ciro. Quando desviaram as águas do Eufrates do leito, a grande Babilônia fiou-se na imponência de suas torres e na inexpugnabilidade de seus bastiões, mas foi tomada de assalto em uma noite, e o último de seus reis, Baltazar, assassinado. Apesar de sua vastidão, poder e riqueza, o império persa não igualou o esplendor nem a duração do império assírio-babilônico. Por isso, assemelha-se à prata que, comparada ao ouro, lhe é inferior. Depois um terceiro reino, o de bronze, que dominará toda a terra, é o de Alexandre e dos macedônios seus sucessores. Pode-se dizer com todas as letras que este é o de bronze, observa São Jerônimo, porque entre todos os metais o bronze é particularmente sonoro; ele possui um timbre argentino, e sonoridade de grande alcance e amplitude, de sorte que põe em relevo não apenas a celebridade e o poderio deste reino, mas também a eloqüência da língua grega. Um quarto reino será forte como o ferro; o ferro, dizia eu, que esmaga e triunfa sobre tudo, atribui-se sem dúvidas ao império romano. Suas limitações se representam nos pés e nos dedos, metade em ferro, metade em barro, pois que no começo ninguém lhe superava a força nem a solidez, mas no final ninguém fora tão frágil: quando das guerras civis e das guerras contra nações estrangeiras, os romanos empregavam os demais povos bárbaros como mercenários (São Jerônimo, Comentário sobre Daniel 2). Considerem-se pois esclarecidos e manifestos os fatos relativos à sucessão dos quatro impérios.

Agora, considerem que os quatro reinos representados no sonho místico, apesar de diferentes uns dos outros, cada qual com características próprias, pertencem todavia ao mesmo gênero, pois que estão unidos entre si como partes de uma só estátua, um único colosso. No capítulo sete do mesmo livro, tornamos a nos deparar com os mesmos impérios - antes figurados por cabeça de ouro, seio de prata, ventre de bronze e pernas e pés de ferro e barro - manifestados sob outras formas, a de bestas ferozes: o primeiro se identifica com o leão, o segundo com o urso, o terceiro com o leopardo, e o quarto com outra fera, inominada, mas superando as demais em ferocidade. Vi o que me apareceu na visão noturna, diz o profeta, e eis que os quatro ventos do céu agitavam o mar imenso, e quatro enormes bestas surgiam do mar, cada qual na sua espécie (Dn 7, 2 sq.). Perguntou Daniel ao anjo a interpretação da visão, e este lhe respondeu: As quatro bestas enormes são os quatro reinos que se erguerão da terra, i. é, do mundo figurado pelo mar, cujas ondas representam os povos, e cujas tempestades as revoluções políticas. Notem bem a ordem, diz São Jerônimo: denomina-se leão aquele representado na imagem da cabeça de ouro. De fato, ao dizer que o primeiro é como um leão, e possui asas de águia, sublinha a ferocidade, a crueldade, a rapacidade e o orgulho do reino de Babilônia. E eis outra besta, semelhante ao urso. É a mesma que, na visão da estátua, figurava-se no seio de prata. Sabe-se que o urso não possui a majestade do leão, e sua dignidade é menor entre os animais. Além disso, não é caçador, como o leão, porém se provocado, torna-se terrível: assim os medos e os persas, se acreditamos em Xenofonte, habitavam pacificamente as montanhas escabrosas; mas logo que o rei dos assírios veio-lhes provocar, armaram-se até os dentes. Estes e outros fatos, os quais não relatarei, anunciam sem dúvida o segundo reino. Vi ainda um pouco mais, e eis outra besta, um como leopardo. O terceiro reino é o dos macedônios ou gregos, que reconhecemos na estátua sob a forma de ventre e de coxa de bronze. Aqui comparam-no ao leopardo, a mais veloz das bestas, que se precipita em direitura do sangue e que num salto voa para matar, como diz São Jerônimo. Nada fora tão avassalador quanto o triunfo de Alexandre, acumulando mais vitórias que combates, desde os mares Ilírico e Adriático até o Oceano Índico, e subjugando a Ásia inteira e parte da Europa em seis anos. Depois disso, vi uma quarta besta, aterradora e de força imensa; tinha dentes de ferro enormes, com os quais devorava e triturava, e o que sobrava fazia de escabelo para os pés – diferençava muito das outras feras que vi, e tinha dez chifres. Na estátua, representada nos pés de ferro, está a Roma pagã a devorar toda a terra. Difere muito dos precedentes pois Roma, ao devorar os demais reinos, primeiro sob a direção dos reis, depois dos tribunos, e finalmente dos ditadores e imperadores, assimilava-lhes a seiva, mas não se assemelhava a nenhuns deles; as influências não o abrandavam, mas ao contrário atiçava-lhe o instinto cruel acima das outras bestas feras. Observa assim São Jerônimo: “Admiro-me de que pudéssemos conhecer os três reinos no leão, no urso e no leopardo, mas que o império romano não fosse comparado a nenhuma besta conhecida; constrói-se uma besta terrificante, inominada, para que tudo quanto imaginemos de feraz nas demais bestas se compreenda como sendo os romanos”. Deste modo, as bestas e a estátua que representam os quatro grandes reinos são a mesma e única coisa, i. é, a civilização antiga que, no seio de diversas nações, uma após a outra, gozava do domínio e não obstante perdurava, conservando sua natureza, o mesmo estado de coisas, o mesmo gênero político sob a lei feroz e tirânica do príncipe das trevas, que o Evangelho denomina príncipe deste mundo. Por esta razão, mostram-se os reinos como levantados da terra, pois que eram puramente políticos e daí concebidos para conduzir e regrar a vida terrestre; mas conferiram-lhes a imagem de animais ferozes, porque inspirados não pelo espírito da verdadeira religião, mas pelo espírito bestial do falso culto dos demônios: culto da impiedade, do egoísmo, da crueldade, da luxúria, da impudicícia, do orgulho, da avareza e de tudo quanto o Apóstolo disse pertencer à escravidão da idolatria. Contempleis o imenso colosso, cuja aparição apavorou a alma de Nabucodonosor: ó rei, vós contempláveis uma estátua. A estátua era grande e sua aparência era extraordinária – ela postava-se diante de vós, e seu aspecto era terrificante (Dn 11, 31.)

Enquanto o colosso estava ali para ser reduzido à pó, anuncia-se um quinto império, como devendo nascer a partir dos precedentes. Vede-o, observai como a pedra que se desloca da montanha, sem intervenção de mão alguma, percute a estátua e esmigalha ao mesmo tempo ferro, barro, btonze, prata e ouro; e depois de reduzir a estátua em palha levada pelo vento de verão, a pedra transformou-se em grande montanha, e preencheu a terra. Não é espantoso que tal tenha se dado assim? Interrogai a ordem dos acontecimentos ilustres da história universal. Interrogai os monumentos, que por todo lado testemunham, no final do império romano, a renovação da face da terra. Ou ainda interrogai simplesmente os nomes dados às épocas e a cronologia que desde há muito está em uso no mundo civilizado. Interrogai-os todos, e vede se não modificam sua linguagem, se não apontam um ponto destacando-se no correr dos tempos e marcando, na sucessão dos séculos, o nascimento da nova ordem: esse instante não é a fundação de Roma, nem a instituição das Olimpíadas, tampouco o reino de Nabucodonosor ou de Ciro, rei dos persas, mas o fixado na profecia quando, sem intervenção de mão alguma, a pedra percuciente deslocou-se da montanha. “Que montanha é esta erigida da pedra que se deslocou, sem intervenção de mão alguma? É o reino dos judeus, adoradores do Deus único. Foi este Deus quem deslocou a pedra, que é Nosso Senhor... Esmagou todos os reinos da terra. Que eram os reinos da terra? Reinos de ídolos, reinos dos demônios – eles é que foram esmagados. Reinava Saturno sobre multidões humanas: que é de seu reino agora? Reinava Mercúrio não menor massa de homens: que é de seu reino agora? Foi esmagado, e os seus súditos conduzidos ao reino do Cristo. A pedra deslocada da montanha sem intervenção de mão alguma esmagou todos os reinos da terra. Que significa: deslocada sem intervenção de mão alguma? significa o Cristo nascido da raça judaica, sem intervenção do homem. De fato, os homens devem o nascimento ao ato conjugal. Ma o Cristo nasceu da Virgem, sem intervenção de mão alguma, i. é, sem intervenção de homem. Ele se levantou e, de golpe, esmagou os reinos da terra. Como imensa montanha, recobriu a face da terra. (Santo Agostinho, Discurso acerca do Salmo 98, conclusão.)

Consideremos agora, mais precisamente, a natureza do novo império e sua atitude em face dos quatro primeiros. Não é necessário nos demorarmos para demonstrar que sua natureza difere complemente dos demais. É certo que não está unido a eles como parte constitutiva da estátua, mas está acima e além dessa ordem. Daqueles se diz que se levantam da terra, mas deste que Deus o suscitou desde o céu. Porque terrestres, aqueles se reduzem à palha que o vento leva consigo. Este, porque celeste, nunca será destruído, e, ademais, aniquilará todos os reinos, subsistindo ele mesmo para sempre. Aqueles, fundados na força das armas, assemelham-se a bestas. Este, cujo nome é reino dos santos de Deus Altíssimo, não se deve constituir por violência, nem pela mão e valentia dos homens, mas contar tão-somente com a força celeste, que percute o colosso e cobre a terra inteira. Ele triunfará, em razão de algo por demais sabido para ser dito. Tudo bem, para rematar de uma vez por todas a vitória, houve mister que corresse sangue por três longos séculos – mas sangue de mártires – até que “o piedosíssimo Constantino imperador, suprimindo da república as perversidades do culto idolátrico, submete-se a onipotência do Senhor Jesus Cristo, e se converte com todas as veras da alma a Deus, junto com os povos que lhe prestavam obediência” (São Gregório, Magn., livro 3, carta 66). Eis aí o reino, reino espiritual, sobrenatural, cuja finalidade e origem são celestes. O reino de Cristo é a magnífica Igreja Católica.

Entretanto, não é porque este reino é espiritual que o devemos limitar à ordem religiosa, senão não seria lícito dizer que sucede aos quatro impérios precedentes, que sem dúvida pertencem à ordem política. A estatua, percutida e destruída, compunha-se de vários cultos e religiões idolátricas, não de diversos impérios temporais. Todavia, não se há de entender esta sucessão como a transferência de poder político à Igreja, pois um reino espiritual não tem como finalidade a administração da vida temporal, e formalmente está interdito de possuir um regime secular. Do mesmo modo, como sugere a imagem do colosso monstruoso, que a pedra mística deslocada sem intervenção de mão alguma percute e destrói, não se há de entender que fora esmagado enquanto representante do poderio político da gentilidade, pois em si o poderio político, em qualquer lugar em que se exerça, vem de Deus e não contraria seu reinado. Mas é força considerar que o poderio político, precisamente pelo fato de não se subordinar à verdadeira religião, está ao contrário subordinado ao demônio, aos ídolos, às pompas e às legiões.

O significado da profecia é o seguinte: com a destruição da idolatria e o reconhecimento do Cristo como redentor e promulgador da lei da graça, tornar-se-á a Igreja a reorganizadora das nações e dos povos, abrangendo inclusive as suas constituições políticas e sociais, certamente não pela absolvição dos poderes seculares, nem pela submissão direta, mas apenas de forma indireta, na medida em que a organização da cidade tem em vista os fins espirituais; desta feita, de modo verdadeiro e apropriado, a Igreja abatera os impérios terrestres precedentes que existiam durante o paganismo e os sucederá, substituindo-se a eles na direção suprema da sociedade. De fato, vemos que ela chegou em boa hora. Desde então, entre os cristãos, a norma ou regra suprema nas cidades não era mais a vontade despótica do tirano ou da lei de estado onipotente, que a tudo devora, mas sim a lei evangélica e a vontade de Deus manifestada na Igreja. Por meio dos bispos, dos concílios e sobretudo dos Papas, como atestam a eloquência dos monumentos históricos da Europa, a Igreja criara e conservara a nova civilização. (Liberatore, L’Église et l’État, I, 2, § 4). Assim, realmente esmagou-se ferro, argila, bronze, prata e ouro, reduzidos à palha carregada pelo vento de verão, depondo-se os césares e os nabucodonosores que abatiam os povos forçando-os a se imolar às suas veleidades, e entronizando em seu lugar príncipes cristãos, cujos títulos soam como uma definição, conforme o exemplo de Carlos Magno: Carlos, rei pela graça de Deus, soberano do reino dos Francos, e defensor zeloso da Santa Igreja, coadjutor da Sé Apostólica em todo necessário (Prefácio do Capituleiro de Carlos Magno, Migne, t. 97, col. 121).

[...]

Finalmente, resta a [...] questão das relações com o governo político, ou dos príncipes que devem servir de apoio para o comércio regular da sociedade temporal com a sociedade espiritual, fundada pela divindade de N.S.J.C.. Mas, desde há um século, esses príncipes começaram a se obnubilar tremendamente, inclusive os católicos. Daí, impregnados dos dogmas do liberalismo moderno por meio da educação, da familiaridade com o estado atual da humanidade, da opinião dominante e, se se pode dizer, da atmosfera ambiente, é dificílimo convencê-los da verdade. Diria eu com segurança que não há esperanças dum renascimento e reverdecimento de nações cristãs sobre a terra, enquanto se não restabelecerem tais príncipes. Mas a desesperança neste restabelecimento é o sinal anunciador de que a derradeira catástrofe não está distante, conforme o que diz o Apóstolo (2 Tes 11, 3).

[...]

 

Fonte: Prophéties de l”Histoire, éditions de L’Homme Nouveau, 2007

Tradução: Permanência

As sete igrejas e as sete idades

O Apocalipse relata o estado das sete igrejas da Ásia, para as quais São João teve de escrever, com o fim de lhes comunicar advertências para sua salvação. Ora, as sete igrejas figuram as sete épocas ou sete idades da Igreja universal, desde a Ascensão do Senhor até o Segundo Advento. Todas se denominam por nomes místicos que designam profeticamente o traço característico de cada uma das épocas.

A primeira igreja é a de EFÉSIO (2, 1-7). Em grego, Efésio significa impulso, o princípio da expansão ou do direcionamento a uma finalidade. Esse nome convém à idade apostólica, pois que os apóstolos pregaram por todo o mundo, com crescente êxito, após receberem o sopro impetuoso do Espírito Santo; Deus os ajudava, confirmando suas palavras com sinais. Mas a advertência epistolar convém igualmente, nesta época de que falamos, aos falsos apóstolos mencionados amiúde por São Paulo, e à seita dos nicolaítas, fonte primeva do gnosticismo impuro, criada por um dos sete primeiros diáconos. Escrito ao anjo a Igreja de Éfeso: Conheço tuas obras e teu trabalho... tu provaste os que se declaravam apóstolos e não o eram, apanhaste-os em mentira... Contudo, tens em testemunho de teu fervor o ódio pela obras dos Nicolaítas, obras que eu também odeio etc.

A segunda igreja é a de ESMIRNA (2, 8-11). Este termo designa a mirra, e também a idade durante a qual, em razão da crueldade das perseguições e da grande amargura das tribulações, se cumpriu na Igreja o que predissera a boca profética: a mirra caiu gota a gota de minhas mãos, e meus dedos estão cheios da mais excelente mirra (Ct 5, 5). Por isso, afirma o anjo à igreja de Esmirna: Eis que o diabo vai lançar alguns dentre vós no cárcere, para vos pôr à prova, e vossa aflição durará dez dias, significando claramente as dez perseguições gerais.

A terceira igreja é a de PÉRGAMO (2, 12-17). Célebre por sua literatura profana, Pérgamo é a cidade que deu origem ao pergaminho, batizando-o com seu nome. Quando alguém se refere à “pele de Pérgamo”, mais conhecida sob o nome de pergaminho, logo vem ao espírito os livros publicados e os embates e controvérsias travados com a pluma. Corresponde a igreja de Pérgamo à terceira idade, à época de Constantino, em que cessaram as perseguições cruéis aos santos e doutores, e se propagaram também as grandes heresias que satã perpetrara – os arianos, os maniqueus, os pelagianos, os nestorianos etc.. Deus suscitou grandes homens para defender a verdade, homens dignos de eterna memória: Atanásio, Basílio, Gregório Nazianseno, Ambrósio, Jerônimo, Agostinho, os dois Cirilos, e muitos outros ainda, que ilustraram magnificamente a fé católica em seus escritos. Logo, é de justiça que Pérgamo represente a terceira idade. É de justiça que se enviasse a advertência ao anjo desta igreja que, apesar de louvada pela constância da fé, está de contínuo exposta a grandes perigos, visto que habita na sé do trono de satã, havendo de se defender do sítio das doutrinas heréticas: Escrito ao anjo da igreja de Pérgamo: eu sei que habitais na sé do trono de satã, e que preservastes meu nome e não renegastes a fé etc..

Em quarto lugar, sucede à igreja de Pérgamo a de Tiatira (2, 18-29). Esta palavra significa esplendor do triunfo e solenidade pomposa, tendo origem nas festas celebradas em honra de Baco, e depois empregada para designar toda e qualquer festa ou desfile triunfal. Logo, a igreja de Tiatira representa a quarta idade, iniciada sob Carlos Magno, com a instituição do Sacro Império Romano, cuja duração exprimira o número milenar (de 800 a 1800). A instituição do Sacro Império Romano sela a subordinação da sociedade temporal à espiritual, a coroação da organização social de Nosso Senhor Jesus Cristo, predita por Isaías: De pé, Jerusalém, que brilha tua glória! Eis que vem tua luz, e a glória do Senhor se eleva sobre ti... As nações marcharão em direção à luz, e os reis à claridade de tua aurora... Sucederás a nata das nações, sucederás ao púbere dos reis, e saberás que eu, o Senhor, sou teu salvador, e que teu redentor é o Forte de Israel (Is 60, 1,3 e 16). A profecia corresponde às festas solenes, ao fulgor do triunfo e, geralmente, a tudo que diz respeito a esta época: Ao anjo da igreja de Tiatira escreveu: Conheço tuas obras, teu amor, tua fé, tua boa vontade; são tuas últimas obras mais abundantes que as primeiras. Entretanto, não faltaram maus, pois que o mistério de iniqüidade está sempre com as mãos à obra e, enquanto durar a vida presente, o triunfo da Igreja Militante não será maior do que convém. Na figura de Jezabel se anunciam os cismas funestos e as heresias que assolaram, nesta época, a Cidade de Deus, por exemplo, o cisma dos gregos no séc. XI, a heresia dos albigenses no séc. XII, e sobretudo a impiedade dos protestantes no séc. XVI, data a partir da qual o império cristão entra em decadência, se preparando a pouco e pouco, sem que ninguém percebesse, a idade da Revolução.

Por isso, teve fim Tiatira, sucedendo-lhe a quinta igreja, a de SARDES (3, 1-6). Sem dúvida, Sardes é a célebre cidade da Lídia, onde reina Crésus. Ela sugere assim a abundância de ouro e prata, de riquezas seculares a excitar as paixões, a ostentação e a prosperidade material.  Daí, o que se refere a essa igreja sabe à decadência. Por todos os lados, vê-se a defecção, a apostasia; são poucos os que conservam a fé em Jesus Cristo, enquanto muitos se afastam da religião. Em Sardes, existem pessoas que não mancharam seus vestidos. E ainda: passas por vivo, mas estás morto!  Passas por vivo, já que possuis a ciência, a liberdade, a civilização e o progresso; mas estás morto e te assentas nas trevas, à sombra da morte, pois que rejeitas a luz da vida, o Cristo Senhor. Por tal razão, disseram ao anjo desta igreja: Sede vigilante, e confirmai os que iam morrer, ordenando-lhe instantemente de continuar fiel aos ensinamentos dos santos apóstolos, e de não se afastar muito, sob o pretexto duma melhor compreensão, do sentir comum dos santos padres. Recorda-te de como escutaste e recebeste: guarda-o e comunica-o. Eis o que respeita à quinta idade. Mas o que se segue é mais animador.

Após a igreja de Sardes, surgiria a sexta igreja, a de FILADÉLFIA (3, 7-13). Tudo que se diz dela é bom, sobretudo por causa da chegada do momento capital, o mais insigne e singular dos todos os momentos desde o começo da história até os dias de hoje: a conversão em massa dos judeus, e sua entrada na Igreja dos gentios, de sorte que povos até então separados por um muro claustral tornam-se um só povo, servo do Cristo – assim, Jacó se reconcilia do Esaú, e Isaque com Ismael, conforme predissera o Apóstolo (Rm 25-32).  Daí denominarem esta igreja de Filadélfia, que quer dizer amor aos irmãos ou reconciliação dos irmãos. Se sua queda (refere-se aos judeus) foi a riqueza do mundo, que não será seu resgate em massa... Se sua recusa foi a reconciliação do mundo, que será sua reintegração, senão a ressurreição dos mortos? (Rm 11, 12; 15). Quando vier este tempo, deve-se esperar uma admirável expansão da vida cristã em todo o mundo, a insigne vitória do Cristo e da Igreja sobre a Revolução subjugada. Subjugada, disse eu, não destruída; sob a batuta de satã, a Revolução neste entrementes recupera suas forças e inflama-se de intenso furor, aprestando-se para a batalha, para a guerra definitiva contra seu adversário, o Cristo. Daí o aviso ao anjo da igreja de Filadélfia sobre a proximidade da hora da provação, que vai se abater sobre todo o mundo, para provar os habitantes da terra.

Assim, resta a sétima e última igreja, a de LAODICÉIA (3, 14-22). Laodicéia significa julgamento dos povos, indicando com clareza a época da consumação do séculos, quando o Cristo virá por sobre as nuvens do céu para julgar os vivos e os mortos.

As considerações acerca das sete igrejas do Apocalipse, ou as sete idades da Igreja do Cristo, amigo leitor, talvez não te pareçam improváveis! Concluímos que a idade em que vivemos é a quinta – a idade da defecção, da apostasia e do liberalismo, idade medianeira entre Tiatira e Filadélfia, entre o fim do Sacro Império Romano e a renovação, que o Apóstolo não hesita em comparar à ressurreição dos mortos (Rm 11, 15). Tomara nossa interpretação não se afaste da verdade! Em meio ao males presentes – tão numerosos e graves - de que padecemos, ela faz-nos nascer a esperança da restauração futura (se se pode falar assim) e da contra-revolução.

[...]

Busquemos pois o Reino de Deus e sua justiça, não desprezando o mais a que devemos prestar atenção, nem esquecendo que é possível aplicar à influência salutar a Igreja o que já se escreveu sobre a piedade: ela é a todos útil, tendo em si a promessa de vida, presente e futura.

 

Fonte: Prophéties de l’Histoire, Éditions L’Homme Nouveau

Tradução: Permanência

Por Cristo, com Cristo, em Cristo

“Regi saeculorum immortali et invisibili soli Deo honor et
gloria in saecula saeculorum, amem” (Ofício de Matinas).
 
“Tudo aquilo que nos torna dignos de ser amados aos olhos de Deus nos vem d’Ele mesmo e só nos pode ser dado por seu amor soberanamente livre e gratuito. Digno de ser amado é o Bem, e nenhum bem, seja de que natureza for, pode vir senão da Bondade essencial, fonte de todo bem. De toda a eternidade Deus ama necessariamente esta Bondade infinita que é Ele mesmo, nela encontra sua beatitude essencial. Ele não tinha nenhuma necessidade de nos criar, porque Ele não é maior, nem mais feliz, nem mais sábio por ter criado o universo (ver S. Tomás, 1, q. 19, a. 3). Mas Deus quis manifestar sua bondade livremente, fazer-nos participar das riquezas que estão n’Ele. Ele quis raiar, como o sol; como o rouxinol enche o ar com seu canto, assim quis Ele cantar para fora de Si mesmo, para outras inteligências e outras vidas, suas perfeições infinitas. ‘Coeli ennarant gloriam Dei.’ O amor de Deus é criador: longe de supor que são dignos de ser amados os seres que Ele ama, Deus cria neles a amabilidade por um bem-querer puro, soberanamente livre e gratuito (I. q. 20, a. 3). É por este amor gratuito que Deus nos deu a existência, a vida do corpo, a vida da alma espiritual e imortal; é por amor que Ele no-las conserva livremente, que nos dá a cada instante o socorro indispensável para que possamos fazer os atos de inteligência e vontade indispensáveis à conquista da verdade e do bem. Mesmo aquilo que parece ser exclusivamente nosso, a livre determinação pela qual escolhemos o bem de preferência ao mal, mesmo isso nos vem dele. De nós, com exclusividade, provém apenas a desordem, a fraqueza que se mistura freqüentemente a nossos atos e que exige apenas uma causa deficiente (I, IIa., q. 79, a. 1 e 2). Mas, quando escolhemos o bem, é Deus, causa primeira, inteligência primeira, primeira liberdade e fonte de todo o bem, que no-lo faz escolher vitalmente e livremente (ver  I, q. 19, a. 8 e também q. 83, a. 1, dif. 3). Deus é mais intimo a nós do que nós mesmos. Se retirássemos de nossa vida, de nossos atos tudo aquilo que provém dele, no mais estrito rigor das palavras não sobraria absolutamente nada. Este é o fundamento da virtude cristã da humildade: o dogma da criação ex nihilo e o da necessidade da graça para o menor ato de salvação. Assim, Deus nos amou de toda a eternidade e manifestou este amor no instante da criação, instante que se renova pela criação quotidiana de almas, que se renovou pela criação de nossa alma individual, a qual Deus conserva livremente neste minuto presente, depois de ter criado. Por amor Ele deu, originariamente, a vida natural ao primeiro homem, que no-la devia transmitir; mas Ele lhe deu também, por um amor ainda mais gratuito, a vida da graça, que ultrapassa sem medida a vida natural da alma e a dos anjos mais perfeitos, porque ela é uma participação na vida divina propriamente dita. Ele deu ao primeiro homem, para no-la transmitir, a semente da vida eterna, que consiste em contemplar a Deus como Ele se contempla e a amá-lo como Ele se ama. Esta graça santificante, semente da glória, o primeiro homem perdeu-a, para si e para nós (Concílio de Trento, ses. V, Denziger 789), do mesmo modo que a havia recebido para si e para nós (I, q. 95 e q. 1 00 e I, II, q. 81).”
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Curso de Religião

O texto deste "Curso de Religião", que aqui apresentamos com exclusividade, Corção deixou inacabado, embora o tenha continuado verbalmente em suas aulas em nossa sede. O leitor que quiser prosseguir com os estudos, contudo, não se verá prejudicado se, com o auxílio de bons livros, prosseguir do ponto em que este texto termina.

A visibilidade da Igreja

1. Vamos hoje nos deter na palavra visível de nossa primeira e aproximada definição da Igreja, isto é, vamos explorar mais em profundidade o conteúdo daquele termo, como se nele aplicássemos uma lente que não só amplia como também revela a riqueza de detalhes, de conseqüências e de aplicações que nos havia escapado em nossa primeira aproximação.

 

A teologia do santo sacrifício da Missa

Julho 26, 2009 escrito por admin

A “Confissão de Augsburgo”, protestante, viu bem a mudança radical do novo rito da missa, ao declarar: “Nós fazemos uso das novas preces eucarísticas (católicas) que têm a vantagem de pulverizar (reduzir a pó) a teologia do Sacrifício” (“L' Eglise d' Alsace”, dez/73 e jan/74. Apud “La Messa di Lutero”, por Dom Lefebvre).

Comentário sobre "As duas cidades" de Santo Agostinho

“Dois amores erigiram duas cidades, Babilônia e Jerusalém : aquela é o amor de si até ao desprezo de Deus ; esta, o amor de Deus até ao desprezo de si”.
Santo Agostinho, A Cidade de Deus,
2, L. XIV, XXVIII
 

Introdução. A moral

 
A moral é a ciência que deve regrar os costumes: definir a moral é demonstrar-lhe a indispensável necessidade. É inconteste o reconhecimento dos homens à necessidade da moral. Mas se se trata de descer ao fato, nem todos se põem de acordo de que ponto a moral deveria tirar sua regra e sanção.
 
Não obstante, se nos dispomos à reflexão, não é difícil reconhecer que a moral – conjunto de leis que se impõe a toda humanidade – nada mais é que a expressão da vontade Daquele que criou os homens e outorgou-lhes as leis de conduta e os meios por que podem alcançar seu fim.
 

As aflições dos homens e as consolações de Deus

[TRANSCRIÇÃO DE AULA DE 06/10/1975] Hoje, vou falar a propósito de um tema sobre o qual escrevi ultimamente em um artigo1, o problema da Santa Missa e do Pontificado — dois problemas interligados.

  1. 1. [N. da P.]Corção refere-se ao artigo “A voz dos Papas canonizados”
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