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Category: Família e moralConteúdo sindicalizado

Grandeza do catecismo

Irmãs da Fraternidade São Pio X

 

Francisco está estudando no quarto ano no colégio mais famoso da cidade. Ao voltar da aula, ele entrega à sua mãe, Andreia, o boletim com as notas do bimestre. “Que bom!”, pensa Andreia: “Francisco tirou notas excelentes em matemática e em português. Com a sua prática em idiomas, com certeza ele vai poder entrar nas melhores universidades do país!”.

E Andreia já imagina seu filho sendo um advogado de prestígio, um engenheiro com êxito ou um cientista eminente... Que mãe não tem grandes ambições para seus filhos?

Ao mesmo tempo, Gustavo - estudando no 5º. ano no Colégio São Pio X – também entrega a Silvina, sua mãe, as suas notas bimestrais. Silvina lê com atenção: Catecismo: 9; Comportamento geral exemplar: bom espírito, responsável e prestativo com os menores. Silvina sonha também com o futuro do seu filho: “O que será de Gustavo no futuro? Um bom pai com uma família numerosa? Talvez padre?” (Clique para continuar)

Carta aos pais

André Charlier

 

Esta carta de André Charlier merece ser lida duas vezes. Uma, por seu conteúdo e oportunidade; Outra, tendo-se em vista a data em que foi escrita, 22 de outubro de 1954, quando Charlier era diretor da escola preparatória de Clères, na Normandia. 
 

Embora escrita para pais franceses, estas breves reflexões certamente interessarão ao leitor brasileiro.

 

(Continue a leitura)

As telas e a vida interior

Pe. Thierry Gaudray - Fsspx

 

O uso de eletrônicos — independente do formato — deve ser moderado. Estima-se, no entanto, que adolescentes de 13 a 18 anos gastem em média 6h45 diariamente na frente das telas. Eles não usam os aparelhos da mesma maneira: se as meninas passam uma hora e meia nas redes sociais, os meninos dedicam a elas 50 minutos; por outro lado, enquanto as meninas consagram aos videogames uma média de 10 minutos diários, os meninos gastam uma hora com esses jogos. Os entrevistados parecem estar cientes do perigo do uso da tecnologia, mas sua principal preocupação é com os outros: enquanto 10% das pessoas se declaram viciados nos eletrônicos, pensam que 70% dos outros também o são …

 

Estamos preocupados mais com os outros ...

Até mesmo pessoas mundanas compreendem que há algo de vergonhoso no uso excessivo de telas e tentam escondê-lo, até de si mesmos. Os participantes de uma pesquisa responderam que passavam em média 2h55 por dia em seus telefones, mas quando verificou-se o "spyware" instalado anteriormente em seus dispositivos, descobriu-se que eles realmente passavam 3 horas e 50 minutos.

Todos os estudos mostram que o uso de telas dificulta em muito a aquisição de conhecimento. Em uma pesquisa — e este é um exemplo entre centenas — crianças de 13 anos foram submetidas a um pequeno teste: após um exercício de memorização, foram-lhes oferecidas atividades diferentes uma hora depois. O primeiro grupo jogou um videogame violento, o segundo assistiu a um filme e o terceiro fez algum tipo de atividade. No dia seguinte, os três grupos haviam esquecido 47%, 39% e 18%, respectivamente, do que haviam aprendido.

 

Efeitos perniciosos

Os efeitos a longo prazo são muito mais graves. Certos problemas de atenção estão certamente relacionados ao uso de telas. Existem dois circuitos neurais diferentes, ambos nos tornam "focados" e fazem com que "não percebamos o tempo passar". O primeiro é automático e exógeno; permite-nos estar atentos ao mundo à nossa volta. O segundo é voluntário e endógeno: é o que nos permite entender, encontrar uma ordem lógica e aprender. As telas excitam artificialmente o primeiro e prejudicam o segundo. As variações sonoras, os flashes visuais, as mudanças de cenas, a multiplicação dos ângulos de visão, o rápido emaranhado de sequências narrativas... mantém o espectador agitado, sem que ele tenha feito esforço algum. E assim, a capacidade de pensar não para de diminuir. A empresa Microsoft publicou um estudo que mostra que o tempo de atenção dos homens caiu para 9 segundos em média. A própria companhia os compara ao peixinho dourado, que é capaz de fixar o olhar por 8 segundos... Se as mensagens não forem cada vez mais incisivas e provocantes, os homens se distraem com outras coisas. É preciso atrair constantemente a sua atenção, de um modo que somente os eletrônicos conseguem fazer. A realidade e os livros tornam-se entediantes para eles.

 

Homem virtuoso ou homem digital

Os católicos tradicionalistas estão imunes à onda que varre o mundo ao nosso redor? É muito difícil se proteger dessa revolução, uma vez que a presença desses eletrônicos nas casas, ou mesmo nos bolsos, torna-se muitas vezes inevitável. Ademais, muitos procuram se justificar afirmando que a nova tecnologia não é intrinsecamente perversa. Isso pode ser verdade, mas é uma tecnologia perigosa! É somente à custa de meios muito rigorosos que a ruína pode ser evitada. As telas fascinam; a luz e a rápida sucessão de novas imagens hipnotizam; a atração da curiosidade — que São João chama de concupiscência dos olhos — é poderosa. Pouquíssimas pessoas se impõem disciplina suficiente para regrar o uso de telas e, no entanto, isso é algo possível. Em Taiwan, não é permitido deixar uma criança com menos de dois anos de idade com um tablet (está prevista uma multa de 1.500 €) e seu uso por menores deve ser regulamentado (o objetivo é não deixar que utilizem por mais de 30 minutos consecutivos). A esperança da salvação eterna e a busca da santidade não são motivos mais poderosos do que uma contravenção? É essencial definir horários fora dos quais o uso dessas máquinas esteja proibido. O domingo deve ser mantido como um dia sagrado, longe da tecnologia escravizante.

O homem é responsável pelas influências a que se submete, correndo o risco de perder sua liberdade interior. A consciência hipnotizada pelas telas acaba adormecendo com o sono culpado. Embora Deus tenha fornecido à natureza humana capacidade de se adaptar às circunstâncias por meio da aquisição de saudáveis hábitos libertadores, os meios modernos de comunicação exploram as fraquezas da nossa psicologia para fins comerciais e revolucionários. O homem virtuoso se eleva acima do protesto da natureza ferida; o homem "digital" deixa-se levar pelas demandas habilmente projetadas do universo das telas.

Sejam sempre felizes, filhos de Deus

 

Irmãs da Fraternidade Sacerdotal São Pio X

 

Como preâmbulo, permitam-me narrar um pequeno fato ocorrido em um de nossos colégios primários. Certo dia, vieram-me avisar que um policial gostaria de falar comigo no parlatório. Com uma ponta de apreensão no coração, dirigi-me ao local indicado e logo me encontrei diante de um jovem que me cumprimentava respeitosamente, e me falava do seu desejo de matricular o filho no nosso colégio. Respirei mais livremente quando me apresentou os motivos que o levaram a essa decisão. Em seguida, declarou à queima-roupa: “Irmã, faço parte da S. D. A”.

Sem compreender do que se tratava, perguntava-me se seria alguma polícia secreta…

Mas o rosto sorridente do policial contrastava com meus pensamentos íntimos. “Eh… O que significa S. D. A.?” perguntei-lhe, vagamente inquieta. O homem respondeu com um enorme sorriso, um pouco surpreso com minha ignorância. “Ora, é a Sociedade da Alegria, de Dom Bosco!”

Que descoberta! Apesar do nosso mundo moderno, e da crise da Igreja, aquele rapaz soubera guardar sua alma na Fé da sua infância e na virtude, graças à Società dell’allegria, fundada por São João Bosco.

 

“Servi o Senhor com alegria” (Salmo) 1

A educação da criança católica não deve ser feita com moleza — isso nós já sabemos, pois, detrás do seu rostinho de anjo, há terríveis defeitos a serem combatidos.

Mas, para não nos arriscarmos a quebrar o caráter da criança, essa educação deve ser alegre.

Notemos desde já que não se trata aqui da alegria segundo o mundo, que muitas vezes traduzimos com a palavra diversão. A alegria católica é, antes de tudo, interior, fruto e manifestação do nosso amor por Deus. A atmosfera do bom Deus, da sua graça, é a alegria. O pecado só gera a tristeza.

A criança precisa aprender na sua casa que a virtude encerra alegrias profundas, que a religião não é amiga da tristeza e que, muito ao contrário, ela abençoa e encoraja toda alegria pura.

 

“A alegria seja sempre contigo”(Livro de Tobias)2

A criança só se desenvolverá realmente em um clima de alegria.

Preservar a alegria no lar é, para os pais, um dever e uma necessidade. Um dever, pois eles devem se lembrar que as mais puras alegrias da vida, o homem as desfruta ao longo da sua infância. Necessidade também, pois a alegria favorece a saúde física e moral, facilita o despertar da inteligência, afasta o vício, desenvolve a confiança, contribui, finalmente, para a eclosão da virtude. Cercada de uma alegre serenidade, a vontade aceita mais facilmente e executa com mais prontidão as ordens e os conselhos que recebe.

Criar ao redor de si uma atmosfera de alegria católica, difundir os seus raios benfazejos por onde passa é uma das melhores caridades que podemos fazer.

A maioria dos pais, cumulados de preocupações, não percebem as riquezas que desperdiçam — tanto para si mesmos como para os seus filhos — ao deixar de sorrir para eles. A criança, se não recebe sorrisos, não sabe sorrir. É claro que há na vida muitas dificuldades, muitos incômodos, mas nada mais funesto para o equilíbrio harmonioso de uma criança do que ralhar com elas desmesuradamente, sem considerar a sua idade. 

 

“Vivei realmente na alegria” (São Teófano Venard)

Para superar pacificamente as provações que a esperam, a criança deve saber reagir com bom humor e possuir uma boa dose de otimismo que lhe permita sempre considerar os homens e as coisas de modo bom. Para tanto, nada vale mais do que a atitude alegre e sorridente dos pais.

É desde os primeiros anos que lhe devemos habituar a agir com amabilidade, pois é essa uma virtude a ser conquistada, dia após dia.

Em um dia de férias, mamãe planejou uma bela caminhada na floresta com direito a piquenique. Todas as crianças ficaram felizes. Mas, uma chuva fria e persistente vêm entristecer o rosto dos pequenos. Mamãe reune os filhos: “O bom Deus quis assim e Ele nos ama. Que vamos fazer? Podemos caminhar assim mesmo, mostrando que somos valentes e não temos medo da chuva? Se não conseguirmos, vamos organizar uma tarde de jogos em casa!”

 

“Alegrai-vos incessantemente no Senhor" (São Paulo)3

É na vida concreta de todo dia, tirando partido de todas as ocasiões, que educaremos a criança para a alegria. Seus pequenos dissabores, seus fracassos, suas lágrimas, nós os receberemos com bondade, mas teremos o cuidado de não dramatizar e de animar a criança com algum comentário que lhe faça sorrir.

Se a criança manhosa se fecha num mutismo mal-humorado, como tirá-la disso? Quando o momento “passional" tiver passado, com tato e afeição, pediremos a ela que sorria. “Era assim que me corrigiam das minhas teimosias”, escreveu Santa Emília de Rodat.

Manifestar alegria é um meio de suscitá-la. Durante as refeições, os pais devem deixar de lado as suas preocupações e animar alegremente as conversas. Nas suas caminhadas, partilhem com as crianças a sua admiração pelas belezas da criação. Ao caminhar ao redor de um lago ou de uma montanha, pais surpresos ouviram da sua filhinha de dois anos: “Como é bonito!”. Muitas vezes, ela ouvira os seus pais expressando admiração pelas belezas da natureza e esses sentimentos se comunicaram a sua alma de criança.

 

“Sta Allegro” (São João Bosco)

O único meio de educar a criança na alegria católica é, antes de mais nada, possui-la. Se nossa alma está pesada e melancólica, repitamos com o salmista: “Por que te deprimes, minha alma? Por que te conturbas dentro de mim? Espera em Deus…”4

Pais católicos, pedi sem cessar a graça da alegria — pois exista uma — àquela que a Igreja chama, na Ladainha, de “Causa da nossa alegria”. E que o doce sorriso de Nossa Senhora da Alegria ilumine as suas casas e cada um dos seus membros.

  1. 1. Sl 99, 2.
  2. 2. Tb 5, 11.
  3. 3. Fl 4, 4.
  4. 4. Sl 42, 5.

Vocação e família

Irmãs da FSSPX

 

Durante um sermão em Ecône, em 11 de fevereiro de 1979, Dom Marcel Lefebvre saudou as famílias dos seminaristas assim:

“Penso que seria uma ingratidão deixar de invocar o papel da família católica na vocação sacerdotal ou religiosa. Certamente devemos muito das nossas vocações aos nossos queridos pais. Foram eles que, por seu exemplo, por seus conselhos, por suas orações, lançaram nas nossas almas o germe da vocação. Devemos desejar que existam muitas famílias católicas que favoreçam a eclosão de boas, santas vocações.”

A vocação vem de Deus, mas o canal ordinário que permitirá à alma responder generosamente a esse apelo é a genuína educação católica. É na célula familiar que Deus habitualmente prepara as almas que escolheu para si. É preciso, portanto, que os pais compreendam a importância da sua missão de educadores e não temam sonhar grande: o que queremos é formar católicos para que sejam santos!

Muitas vezes, os pais tem planos para o futuro das suas crianças: meu filho seguirá tal carreira que paga bem; minha filha fará um ótimo casamento e eu terei muitos netinhos… e não raro, infelizmente, os pais se opõem a uma vocação nascente. Contudo, não há benção maior nem honra superior a uma família do que ter sido escolhida por Deus para lhe entregar um ou mais dos seus filhos. Se por um lado jamais devemos forçar uma vocação, tampouco devemos impedir o seu despertar por meio de deboches, objeções materialistas ou por quaisquer outros meios dos quais os pais terão de prestar conta no tribunal de Deus.

 

Não se critica o padre!

Na prática, para favorecer a ação da graça, os pais deverão demonstrar respeito pelos padres e religiosos. É verdade que nem todos os padres são como o Santo Cura d’Ars, e que nem todas as religiosas são como Santa Bernardette… Mas não devemos criticar o padre ou a religiosa diante dos filhos, sobretudo por ninharias. Nas famílias em que as almas consagradas são criticadas, não há vocações, pois mata-se na alma da criança a estima pelo estado sacerdotal ou religioso.

Não é o suficiente não se opor a uma vocação, é ainda preciso cultiva-la por meio de uma educação religiosa sólida, conforme ao espírito dos conselhos evangélicos indicados por Nosso Senhor como via da perfeição: pobreza, castidade e obediência. Vigiem as amizades dos seus filhos, afastem deles as más companhias, os livros, revistas e eletrônicos perigosos; cuidem para que não busquem o supérfluo, mas se contentem com o necessário; ensinem a eles a obediência à Deus e às autoridades que o representam (pais, professores, padres…)

No nosso século amolecido pelo liberalismo vigente e pela procura incessante do conforto, a vocação, que exigirá uma renúncia constante, só poderá ser sólida se a pessoa que a recebe tiver o sentido do espírito de sacrifício. “Se algum quer vir após de mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me.” 

O papel da mãe é importantíssimo para fazer com que as crianças aprendam a transformar com generosidade os menores incidentes diários e as obrigações do dever de estado em sacrifícios “por amor de Jesus” ou por algum outro motivo sobrenatural: converter os pecadores, consolar Jesus, ganhar o Céu…

 

Ingressar na escola de Lu   

“Grande é na verdade a messe, mas os operários poucos”, constata Nosso Senhor. Qual é o meio que Ele apresenta para remediar a esse mal? “Rogai, pois, ao dono da messe que mande operários para a sua messe.” Que as mães não hesitem em suplicar a Deus que suscite vocações no meio dos seus filhos. Em Lu, pequena comuna da Itália, as mães decidiram rezar e assistir a cada primeiro domingo do mês a missa nessa intenção: o resultado foi que nessa pequena localidade de 4.000 habitantes surgiram 500 vocações de padres, religiosos ou religiosas em cinquenta anos!

Não há ninguém como a mãe para compreender o coração do seu filho. Quanto mais profundo for o amor maternal, mais buscará, em todas as circunstância, ajudar seu filho a conhecer e amar o bom Deus. E se, mais tarde, o divino Mestre chamar aquela alma, ele a encontrará disponível, inteiramente receptível graças à educação recebida. Que tesouros de graça o bom Deus quer comunicar pelo intermédio das famílias católicas!

Shhh… silêncio!

Irmãs da Fraternidade Sacerdotal São Pio X

 

A família Ducroit acaba de terminar o jantar. "Ufa, finalmente!" pensa a mãe, cansada pela conversa incessante dos seis filhos durante o jantar, que não sabem ouvir um ao outro. Como sempre, todo mundo lava a louça enquanto o pai vai ao escritório ler o jornal. Para acalmar os filhos, a Sra. Ducroit põe um CD com alguma música. As crianças ouvem um pouco, mas logo retomam a conversa infantil enquanto a música invade a cozinha. Terminada a louça, todos se reúnem para rezar o terço na sala, onde há uma gaiola com alguns canários bonitos. Os pássaros unem seu palreio às Ave Marias enquanto, não distante, o bebê Vicente chora a plenos pulmões. Para piorar, Marcelo brinca com seu caminhão de brinquedo ... Onde está a calma de que todos tanto precisamos?

 

A necessidade de silêncio

É necessário silêncio e calma para o desenvolvimento saudável. Infelizmente, as pessoas não toleram mais o silêncio. Nas lojas, nas salas de espera, nas estações de trem, em toda parte toca-se música. O barulho nos é imposto. Que o silêncio encontre lugar ao menos em nossas próprias casas!

No início, o silêncio pode exigir um esforço dos pais e dos filhos. No entanto, isso se tornará um hábito e será benéfico para todos. Em certos momentos, é apropriado gritar ou se envolver em brincadeiras alegres; por exemplo, durante um jogo de queimado no jardim. Mas, depois, ao voltar para casa, a mãe deve acalmar seu pequeno rebanho.

 

Por que silêncio?

As crianças estão na escola: a mãe passa a roupa em silêncio. Isso a ajuda a recordar, enquanto trabalha, do sermão do domingo anterior. Às quatro horas, ela entra no carro para ir buscar os filhos na escola. Fica feliz ao ver que eles têm muitas histórias para contar, mas faz com que apenas uma criança fale de cada vez, e que as outras saibam ouvir. Além disso, faz perguntas a Catarina, que é sempre quieta e de temperamento lento e, por isso, fica facilmente esquecida no meio dos seus irmãos tagarelas!

Sim, aprender a ouvir é uma coisa importante: ouvir as pessoas ao redor, ouvir a natureza — como o murmúrio de um riacho, a melodia dos pássaros, o barulho da chuva... Isso pode ser ensinado desde a tenra idade com joguinhos: o pai abre a janela e as crianças fecham os olhos para se concentrar e ouvir. Depois de dois ou três minutos, o pai fecha a janela e, por sua vez, todos podem relatar o que ouviram. Este exercício acalma as crianças, e a calma é muito benéfica!

O bebê está chateado e chora com frequência... Por que razão? Talvez seja porque estão movimentando-o mais do que preciso. Durante uma caminhada, passa de um braço para o outro, erguem-no se chora, levam-no daqui para lá.

Também é em silêncio que a mãe da família extrai energia e força para ensinar tranqüilidade aos seus queridos filhos. Para isso, ela deve saber como se sacrificar às vezes e desligar o telefone...

Para a criança, escutar é sinônimo de docilidade e receptividade: qualidades necessárias para crescer e construir caráter.

 

Seguindo o ritmo da criança

Além disso, o silêncio é contrário a um certo espírito de competição, que consiste no desejo de produzir muitas coisas rapidamente. Uma criança é normalmente lenta e, quando deixada no seu ritmo, é capaz de passar minutos inteiros olhando para uma foto, jogando incansavelmente o mesmo jogo, ouvindo a mesma música, a mesma história… ela precisa de certo tempo para se vestir, comer, pensar. Quando nós adultos exigimos que as crianças trabalhem rapidamente, quando compartilhamos nosso estresse com as crianças, estamos destruindo uma pequena parte do reino do seu silêncio interior!

É por isso que nem sempre é bom impor uma série de atividades nos fins de semana e subtrair das crianças o tempo precioso que passariam calmamente em seus quartos, em seus pequenos universos. Elas devem “baixar a bola", como se diz hoje, envolver-se em atividades que desenvolverão a sua imaginação e lhes farão descobrir, no seu ritmo, a beleza do mundo que as rodeia.

 

Algumas Práticas

Neste mundo agitado, é preciso reaprender a valorizar e amar o silêncio. Junte-se aos momentos de silêncio alguma atividade que seus filhos gostem. Clarinha gosta muito de desenhar. Às 19:00, quando seus irmãos vão dormir, ela, que é a mais velha, ainda tem meia hora acordada. Seus pais pedem que faça silêncio para não incomodar os pequenos. Durante esse período, Clarinha desenha e, até hoje, tem boas lembranças desses momentos.

O contato com a natureza também promoverá o gosto do silêncio: um belo passeio na floresta, nas montanhas, à beira-mar permitirá ouvir o canto dos pássaros, o som de uma cachoeira e rejuvenescerá toda a família.

O sono dos mais novos, durante o dia, pode ser uma ocasião de responsabilidade para os mais velhos: “Quietinhos! Não façam barulho porque sua irmãzinha dormiu e não devemos acordá-la!"

Finalmente, durante a oração em família, que, de acordo com a idade das crianças, será mais ou menos breve, os pais devem insistir desde cedo para que os brinquedos sejam deixados de lado, a fim de que a criança esteja totalmente presente em tudo o que faz. Para ajudar, devemos tentar que nossos filhos pequenos participem o máximo possível. Da mesma forma, durante a Missa, se os mais jovens precisarem de algo "material" para ocupá-los, daremos preferência a objetos religiosos que não fazem barulho (rosários de plástico, cartões sagrados em um álbum, livro de pano ou missal...)

Trabalhemos corajosamente para que esses momentos de silêncio, que pedimos a nossos filhos, não sejam um estorvo, mas um tempo de paz, um tempo desejado pelos seus benefícios. É também assim que a vida interior é capaz de se desenvolver, porque “O silêncio é a ajuda que damos a Deus para que Ele nos encha (com Sua vida), como deseja” (Madre Maria de Jesus, O.C.D.).

Vamos ler?

Irmãs da FSSPX

"Se meus filhos gostassem de ler, receberiam uma formação sólida, não enlouqueceriam em dias de chuva, não seriam alvos fáceis para a propaganda na mídia". Mas, como podemos despertar nas crianças esse hábito tão desejável?

O número de qualidades que uma criança adquire imitando os que estão à sua volta é incalculável. Se os pais lêem regularmente com prazer e nítido interesse, se as conversas familiares giram em torno de livros lidos por membros da família, grande parte do trabalho já terá sido realizado.

Antes de aprender a ler, a criança se familiariza com os livros no colo da mãe. Muitas vezes, se deixada sozinha, uma criancinha "lerá" um livro de gravuras em 30 segundos; ela terá visto tudo e não terá olhado nada. Com a mãe por perto, aprenderá a examinar todos os desenhos: onde está o galo? Qual a cor do gato? Ao fazer isso, a criança desenvolve a capacidade de se concentrar enquanto adquire um vocabulário rico e preciso.

Quando os livros fazem parte do universo da família, por volta dos cinco ou seis anos, a criança pedirá para aprender a ler. Ela quer fazer como os adultos: está cansada de ter se receber ajuda para ler uma história, e quer entender as alusões que ouve nas conversas das crianças mais velhas. Ofereça-lhe um livro sobre o alfabeto e, até o momento de poder ir para a escola, ensine-a a reconhecer os sons do seu idioma. A instrução em casa pode ir mais longe se a mãe tiver algum treinamento ou conselhos de um professor.

O aprendizado da leitura é fundamental. A leitura tem de se tornar fácil o suficiente para que a atenção da criança não esteja mais voltada para o ato de ler do que para o conteúdo do livro. É preciso banir intrepidamente os livros que empregam o método de alfabetização global ou semi-global, responsáveis por uma quantidade catastrófica de analfabetos ou leitores medíocres. Somente o método fonético está em conformidade com os processos analíticos do intelecto, exercidos pelo cérebro.

Assim que a criança começar a aprender a ler, forneça livros adaptados à sua capacidade ainda limitada (vocabulário simples, grandes letras, histórias curtas ou mais longas, divididas em capítulos curtos) e não hesite em ler com ela, revezando-se para ajudá-la e despertar seu interesse. Isso deve ser feito se sua leitura ainda não for fluente até o final da primeira série. Nem todas as crianças progridem no mesmo ritmo. Se a mãe não puder ajudar a criança a recuperar o atraso nas férias de verão, ou se a diferença for muito grande, talvez seja melhor que ela repita a primeira série, com o consentimento do professor, para garantir uma base sólida, em vez de avançar para a próxima série, onde pode vir a ter problemas para acompanhar as aulas e correr o risco de desanimar.

Um livro agradável pode se tornar a base de outras atividades que, por sua vez, podem exigir uma leitura complementar adicional: um romance sobre as Cruzadas pode inspirar a criança a construir no papelão seus próprios apetrechos de cavalaria, mas, para aperfeiçoar o trabalho, terá de pesquisar mais em outros livros. E como eram as fortalezas? E a vida de S. Luís, rei da França?

Para leitores verdadeiramente relutantes, pode-se inventar um grande concurso de jogos que ocupará a família durante as férias e remeterá as crianças para os Contos de Fada, aos irmãos Grimm ou à Terra Média em busca de pistas e respostas.

A leitura precisa de condições favoráveis: um pouco de solidão e silêncio. Os jogos barulhentos dos pequenos e os quartos compactos podem constituir obstáculos reais para algumas crianças, que precisam ser ajudadas. Durante as férias de verão, as horas quentes no início da tarde oferecem um tempo propício para a leitura. Enquanto os pequenos se deitam para tirar uma soneca, os mais velhos voltam-se para os livros e a família desfruta de um momento de silêncio.

É claro que só podem entrar na casa livros bons. Para que um livro seja considerado bom, não é preciso que o herói seja um santo, mas é indispensável que a ação se desenrole num contexto honesto e salutar. Ganha-se muito conversando com as crianças sobre o que estão lendo, perguntando o que gostaram e por quê, e o que elas podem ter encontrado para criticar e por quê.

A leitura de revistas em quadrinhos pode contribuir para o desenvolvimento do gosto da leitura? Sem entrar no debate sobre as vantagens e deficiências dos quadrinhos, sejamos realistas: a experiência mostra que a criança que já gosta de ler e costuma ler livros de verdade poderá relaxar com uma revista em quadrinhos sem prejuízo; mas que o leitor exclusivo desse tipo de revistas raramente se torna um leitor genuíno, já que sua preguiça é satisfeita apenas com a "leitura" dos desenhos.

Onde as famílias podem encontrar boas leituras com um orçamento razoável? As bibliotecas públicas oferecem muitos livros francamente ruins para que seja prudente deixar que as crianças as explorem sozinhas. Os pais poderão encontrar nas livrarias os clássicos da literatura infantil a preços modestos. O empréstimo de livros entre famílias é uma solução, além de oferecer uma oportunidade para se ensinar as crianças a terem cuidado com os livros e respeitarem a propriedade dos demais. 

Os editores católicos tradicionais se esforçam para oferecer livros de alta qualidade para crianças, e os avós e padrinhos encontrarão muitas idéias de presentes por lá.

Então, boa leitura para você!

O sepultamento, um rito desejado por Nosso Senhor

Pe. Olivier Parent du Châtelet - FSSPX

Atualmente, costuma-se falar em favor da cremação ― ou incineração ― do corpo dos defuntos. Contudo, a Igreja sempre se opôs mui firmemente a essa prática. Por quê? Agora que a Igreja modernista já não é tão firme neste assunto, o que devemos pensar?

 

A mentalidade da Igreja


Para nós, católicos, o primeiro reflexo deve ser a consulta ao ensinamento e à disciplina da Igreja. Ora, ela se pronunciou com precisão e firmeza sobre esse assunto, o que demonstra que ela atribui a ele uma importância real.

Leão XIII estabeleceu uma lei em 15 de dezembro de 1886: “Se alguém fez um pedido público de cremação e morreu sem se retratar desse ato culpável, é defeso conceder-lhe funeral e enterro eclesiásticos.”

O Código de Direito Canônico de 1917 reproduz essa lei e especifica: “Se alguém prescreveu que seu corpo seja entregue à cremação, não se poderá executar sua vontade. Se ela constar de um contrato, testamento ou qualquer outro ato, deve ser tida por não escrita.” (Cânon 1203, 2).

A cremação é um ato humano e, como todo ato humano, é governada por princípios, segue leis; é uma maneira de tratar o término da vida humana que molda costumes e mentalidades. De fato, há um estreito vínculo entre o culto dos mortos, a maneira de enterrá-los, os ritos funerários, e as idéias filosóficas e religiosas que estão por detrás. Os homens não agiram por acaso, e a história desses ritos, mesmo entre os pagãos, é reveladora.

 

História


Antiguidade greco-romana

Se recuarmos o máximo possível no tempo, veremos que as gerações antigas “encaravam a morte, não como dissolução do ser, mas como simples mudança de vida” (Fustel de Coulanges, La Cité antique). A alma permaneceria próxima dos homens e continuaria a viver sob a terra; ela permaneceria como que associada ao corpo. O melhor testemunho são os ritos fúnebres que atravessaram os séculos, mesmo à medida que mudavam as crenças.

Dizia-se ao morto: “Que fiques bem. Que a terra seja luz para ti.” Como o falecido continuava a viver, era preciso fornecer-lhe todo o necessário para a vida: roupas, vasos, armas, comida e bebida. Não só no dia do funeral, mas também em determinados dias do ano, trazia-se-lhe comida. Lucien de Samosate, em De luctu, explica: “um homem morto a quem nada se oferece está condenado à fome perpétua”. Essa prática ainda era observada entre os pagãos no início da era cristã.

Ademais, a alma continuava a viver, mas num lugar fixo; era preciso, portanto, que se cobrisse de terra o corpo ao qual ela permanecia ligada. A alma que não tinha um túmulo, não tinha morada: ficava errante, infeliz e, em geral, maléfica. A privação de alimentos tinha o mesmo efeito. Assim como a comida, o enterro era necessário para a sua felicidade. Pela mesma razão, havia de se cumprir todos os ritos prescritos e pronunciar as fórmulas determinadas.

Foi por isso que os atenienses puseram à morte os generais que, depois de uma vitória no mar, negligenciaram o dever de trazer os mortos de volta à terra firme para serem sepultados.

A privação de sepultura e demais cerimônias funerárias era um castigo que a lei impunha a crimes graves: infligia-se à alma um suplício como que eterno. É por isso que, na peça de Sófocles, Antígona prefere morrer a deixar de enterrar seu irmão, pois, diz ela, o enterro é uma lei dos deuses e homem nenhum tem o direito de transgredi-la.

À medida, entretanto, que evoluía o pensamento filosófico e religioso, o lugar dos mortos passou a ser uma região subterrânea, o Hades, onde as almas ficavam todas reunidas, e onde se distribuíam as penas e as recompensas. Já em Homero, nota-se que a existência após a morte se reduzia a uma imagem, uma sombra intangível, que todavia era o retrato físico e moral do falecido.

O ritual da cremação foi então introduzido para, segundo se pensava, acelerar a transição para esse estado evanescente da alma totalmente separada do corpo. A Ilíada e a Odisseia testemunham isso.

A mesma evolução se deu em Roma, especialmente no fim da República e sob o Império. Contudo, tal como observa Fustel de Coulanges, os ritos permaneciam inalterados (La Cité antique, p. 12).

Por outro lado, as almas dos mortos, que se chamavam Manes, recebiam um culto quase divino: “Prestai aos deuses-manes o que lhes é devido”, diz Cícero; “são homens que deixaram esta vida; tomai-os por seres divinos” (De Legibus II, 9). Eles tinham seu altar, e eram invocados em busca de socorro.

Outras religiões

Ter-se-á notado como os antigos costumes gregos e romanos são comparados àqueles, bem conhecidos, dos egípcios. Entre os japoneses, o xintoísmo tinha as mesmas práticas que os romanos, mas acentuava a dependência dos vivos para com os mortos: se um jovem homem estava para estudar na Europa, ia despedir-se de sus ancestrais mediante visita à sua tumba (Christus, p. 274). Os hindus tinham de início a mesma noção e as mesmas práticas que gregos e romanos. Esse culto aos mortos persistiu mesmo sob a religião de Brahma, e o redator do Código de Manu foi obrigado a levá-lo em conta, apesar das novas crenças, em particular a metempsicose (N. da P.: reencarnação), lhe fossem contrárias. Fustel de Coustanges observa: “Se é preciso muito tempo para que as crenças humanas se transformem, ainda mais é necessário para que mudem as leis e as práticas exteriores” (La Cité antique, p. 17).

Judeus e cristãos

Semitas, hebreus e cristãos sempre fizeram uso da inumação, devido à sua fé na imortalidade da alma e na ressurreição dos corpos. E se às vezes introduziu-se a cremação, foi sempre ligada a práticas idólatras: os pais queimavam vivos os seus filhos em honra aos deuses (cf. o rei Acaz, II Reis 16, 3). Mesmo nos primeiros séculos da Igreja, os católicos sempre preferiram o enterro dos corpos, ainda que cercada de dificuldades e perigos em razão das perseguições.

Assim, em Roma, sob a Basílica de São Pedro, encontram-se mausoléus pagãos que geralmente contêm urnas nas quais foram depositadas as cinzas dos mortos. Mas ao mesmo tempo, ao lado, estão as tumbas cristãs, nas quais os corpos dos católicos estão enterrados, e enterrados próximos ao corpo de São Pedro.

A Revolução e seus efeitos

Não foi até a Revolução Francesa que a incineração ressurgiu. Ainda assim, não logrou grande êxito. Foi só a partir da segunda metade do século XIX que começou a se impor e se espalhar, sob a ação da Maçonaria, através de sociedades para a propagação da cremação. E isso com um espírito materialista, utilitarista. As seguintes leituras bastarão para demonstrá-lo:

“Não encontrei nada mais simples do que colocar os corpos numa retorta de gás e destilá-los até que sejam reduzidos a cinzas, e acrescentaria que o gás proveniente dessa destilação bem poderia servir para a iluminação…” (Carta de M. X. Rulder ao Doutor Catte)

“Dado o número de mortes na cidade de Londres, poder-se-ia coletar ao cabo de cada ano, por meio de aparelhos crematórios, 200.000 libras de ossos humanos destinados a fertilizar o solo.” (H. Thompson ― ambas as citações são extraídas do artigo do DAFC, Dictionnaire apologétique de la foi catholique, sobre a cremação)

 

Dos ritos às convicções


Para além do caráter assaz grosseiro e inexato do culto aos mortos na Antiguidade greco-romana, essas práticas revelam dois pontos principais: a convicção na imortalidade da alma, bem como a consequente piedade filial.

A imortalidade da alma

Note-se que não se trata dos mistérios da fé sobre a natureza da vida após a morte, mas da realidade natural de que a alma é espiritual e, portanto, não pode morrer. Sobre este tema, fazemos nossa a conclusão de Fustel de Coulanges: “Talvez tenha sido à vista da morte que o homem teve pela primeira vez a noção do sobrenatural, e que quis esperar para além dos que os olhos veem. A morte foi o primeiro mistério. Ela elevou seus pensamentos do visível ao invisível, do efêmero ao eterno, do humano ao divino.” (La Cité antique, p. 20). Certamente, por si só, a morte do corpo leva a pensar na imortalidade da alma, mas esses são mistérios naturais dos quais Deus se serve para, com sua graça, ir levando os homens a considerar não somente o imortal, mas o sobrenatural.

Práticas cheias de piedade

Como o nome sugere (“culto” vem do latim colere, que significa “honrar” e que deu cultum, que significa “honra”), damos honra àqueles de quem recebemos a vida, àqueles de quem somos devedores. Somos gratos a eles, sejam nossos pais pela vida e todos os benefícios que deles recebemos, os antigos pela sua sabedoria, os grandes homens por suas façanhas. É nesse sentido que os heróis e grandes homens eram elevados ao patamar de deuses. Os gregos e romanos não eram estúpidos a ponto de considerar deuses aqueles que haviam sofrido a morte; eles erguiam à dignidade dos deuses aqueles através dos quais recebiam tantas bênçãos. Essa piedade tem duas consequências. Por um lado, como a alma do defunto não desaparecia, os vivos continuavam ligados a ela e, portanto, deviam ajudá-la tanto quanto podiam. Por outro lado, o culto dos mortos é importante para os próprios vivos. Com efeito, se quem é honrado em vida pode tirar algum proveito dela, o mesmo não se diz de quem é recebe honrarias depois da morte. Mas os vivos, estes tiram certo proveito da honra que prestam aos mortos: é o reconhecimento e a gratidão de tudo o que receberam deles, quer dizer, uma certa humildade.

Templos do Espírito Santo

Para os cristãos se acrescenta uma terceira realidade, a saber, que o corpo do fiel defunto era templo do Espírito Santo. Assim como, na missa, o incenso, que não é devido senão a Deus, estende-se aos fiéis porque são templos do Espírito Santo; assim como os corpos dos santos, e particularmente dos mártires, são venerados por causa do que o Espírito Santo neles realizou; assim também os corpos de todos os cristãos. Existe, portanto, um vínculo estreito entre a prática e as crenças, entre a maneira de se despedir dos mortos e o que se pensa sobre a morte, entre o visível e o invisível.

Ímpios, materialistas e orgulhosos

Na medida em que as crenças e filosofias se modifiquem mais rapidamente que as práticas exteriores e os ritos, não se pode negar que a alteração de ritos exteriores acabará, a pouco e pouco, influenciando o modo de pensar de seus participantes. Foi o que perceberam os propagadores da incineração no século XIX. Dom Chollet (citado no artigo do DAFC), arcebispo de Cambrai, fez conhecer a seguinte circular dos franco-maçons:

“A Igreja Romana nos lançou um desafio ao condenar a cremação (…) Os franco-maçons devem empregar todos os meios para difundir o uso da cremação. A Igreja, ao proibir a incineração dos mortos, afirma seus direitos sobre os vivos e os mortos, sobre as consciências e os corpos, e busca conservar no vulgo as velhas crenças, hoje dissipadas à luz da ciência, relativas à alma espiritual e à vida futura.”

 

Todo um estado de espírito


É à luz do parágrafo anterior que devemos ler e compreender os argumentos que se seguem.

Rumo a uma vida renovada

Os antigos ritos fúnebres pagãos, que acima mencionamos, ou ainda as cerimônias católicas de inumação, nos mostram que a morte não é uma destruição definitiva e absoluta. Ademais, “cemitério” bem do grego e significa “dormitório”. No cemitério, as almas descansam, num sono muito particular, decerto, mas à espera de alguma coisa, ou de um despertar para uma nova vida. A incineração suprime o simbolismo dos ritos e do cemitério, e a verdade que de que são portadores. O corpo enterrado, de fato, é como um grão de fermento lançado na terra e que se decompõe: dele, pela misteriosa ação da onipotência divina, brotará a vida. Mas o corpo incinerado é como o grão cozido ou torrado, que jamais fará nascer uma nova vida. Queimado, dele já não há mais nada a esperar. Um corpo reduzido a cinzas não espera mais nada: a destruição parece definitiva. Não é indiferente a passagem do simbolismo expressivo das cerimônias católicas para o simbolismo negador da incineração. Ao longo de séculos, essas cerimônias modelaram a mentalidade humano sobre o além. Suprimi-las não é algo sem maiores consequências. A passagem de um simbolismo a outro modifica nossas ideias, orienta-as para a negação de toda a vida após a morte. O homem passa a ser visto como não mais que um punhado de matéria, uma partícula entre outras… É por isso que, com razão, os novos cemitérios se chamam “parques ou jardins de memória”, a memória de algo que passou para sempre, que nunca mais voltará: ali não se conserva outra presença senão apenas “no coração dos vivos”, e não uma vida real após a morte.

Sepultados com Jesus

São Paulo nos ensina, e a Igreja no-lo recorda na noite de Páscoa: com Jesus somos sepultados na morte e com ele ressuscitaremos. É o significado do batismo, que, como todo sacramento, é um sinal. Se o símbolo se perder, o sacramento também perderá gradualmente o seu valor.

Respeito

Os antigos ritos pagãos, e mais ainda as cerimônias católicas, demonstram um grande respeito para com o corpo do defunto. Esse respeito associado à inumação prossegue com o túmulo, devidamente ornamentado, junto ao qual se vai rezar. Esse respeito em relação ao corpo se reverte para o próprio defunto. Deve-se vê-o sob dois aspectos: o enterro é uma destruição oculta, tudo se passa no subsolo, põe-se um véu sobre a miséria da corrupção e do retorno ao pó; por outro lado, é progressiva, de acordo com as leis da natureza, que vêm de Deus e são boas em si mesmas. Pelo contrário, a cremação é visível pode-se assistir a ela e ver o resultado nas cinzas que são depois entregues: a realidade da destruição é cruelmente posta diante dos olhos; além disso, é brutal: é quase uma violência que o fogo faz ao corpo e, através do corpo, uma violência feita ao viúvo ou viúva, ao pai, ao filho, ao amigo.

Aceitação do castigo

Sabemos, pela fé católica, que a morte é um castigo infligido por Deus em razão do pecado: “Tu és pó e ao pó retornarás”. Deus dissera a Adão e Eva que, se desobedecessem, seriam punidos com a morte. O homem deve humildemente reconhecer que Deus é o senhor de todas as coisas, e se submeter a esta sentença: Deus, em sua sabedoria, impõe este castigo; o homem, em humildade e confiança, deve se submeter a esse retorno ao pó. Pela inumação, essa sentença é executada como Deus a quer: o homem sofre em seu corpo esse regresso ao pó. Às vezes, para honrar seus santos, Deus os livra dessa miséria: seus corpos permanecem incorruptos. Na cremação, ao contrário, o defunto ordena que seu corpo se torne, não pó, mas cinzas. É ele mesmo que se impõe tal destruição, não Deus. Ele já não se submete, mas ordena. Queira ou não, essa maneira de proceder faz pensar que o homem já não sofre a sentença de Deus: ele escapa à autoridade de Deus e ao dever de se submeter a ela.

Humildade ou soberba risível

 Como escreveu o franco-maçom citado acima, “a Igreja, ao proibir a incineração dos mortos, afirma seus direitos sobre os vivos e os mortos”. Mas o homem de hoje quer ser o mestre absoluto. Ele se arroga o direito de suprimir a vida mal iniciada, e de interromper a vida prestes a terminar. Da mesma forma, também cobiça o poder de destruir seu corpo a seu gosto. Quer ser senhor de si mesmo não só até a morte, mas até mesmo depois da morte. Todavia, não possuindo o poder de restaurar a vida, nem tampouco de impedir a destruição, não lhe resta outra saída, para demarcar seu pretenso poder, senão ir mais longe na destruição.

Cúmplices de quem?


Infelizmente, em 1963 as autoridades romanas permitiram a cremação sem realmente aprová-la (sempre essa ambiguidade dos documentos posteriores ao Concílio Vaticano II). As associações de cremação não cessam de espalhar a notícia. Isso foi inserido no novo Código de Direito Canônico, de 1983. Roma coloca algumas reservas: a cremação “não deve ser desejada como negação dos dogmas cristãos em um espírito sectário, por ódio à religião católica ou à Igreja”. Abre-se a porta, fingindo fechá-la. Onde está a falsidade de tal raciocínio? Ei-la: por meio dessa reserva, os modernistas se permitem crer que o único problema com a cremação é a possível negação dos dogmas cristãos (dogmas da vida eterna e da ressurreição dos corpos), enquanto que se trata de muito mais, como vimos. É toda uma riqueza de convicções e de práticas cristãs que a Igreja abandona com essa atitude, ao passo que, até então, ela as mantinha com o mais zeloso cuidado. É tudo o que querem os maçons, ao menos por enquanto.

Todavia se dirá que a cremação, em si mesma, é neutra. Ora, não! Nesta vida nada é neutro, nada existe em si mesmo, mas apenas em consequência das razões pelas quais praticamos nossos atos. Ora, aceitar a cremação é abandonar a inumação. Qual razão, sim, qual razão pode justificar esse abandono em princípio?

Ouve-se dizer que em caso de necessidade, seria legítimo. Efetivamente, é preciso conceder que a sepultura é dessas práticas que comportam exceção, ao contrário do adultério ou do aborto. Mas quem não vê, antes de tudo, que as exceções são por natureza excepcionais e só revogam o curso ordinário fixado pela sabedoria divina por motivos específicos e raros que devem, eles também, corresponder à superior sabedoria de Deus? Por conseguinte, que não nos venham falar em epidemia, porque em tal caso o uso de pó de cal é desde sempre conhecido e preferível. Que não nos venham falar de falta de espaço, pois é precisamente aos vivos que compete criar o espaço adequado para o culto dos mortos, assim como se cria o espaço necessário para os templos… ou para o lazer.

 

Conclusão


Em uma frase, um escritor resumiu o princípio que nos guia: “Quem não vive tal como pensa, acaba pensando tal como vive”.

Por força de não rezar segundo sua crença, a pessoa termina por crer segundo reza.

Por força de não sepultarmos os mortos segundo nossas crenças, acabaremos por pensar conforme o modo como sepultamos os mortos. Ora, a cremação carrega consigo, em razão de seu simbolismo, uma outra maneira de pensar: o homem como senhor de si mesmo depois da morte; o homem sem alma imortal, nem esperança de uma outra vida após a morte; o homem reduzido à matéria e que, após a morte, só lhe resta retornar ao “grande todo”, à mãe-terra, e “fundir-se com ela”, como afirma o documento publicado pela Federação Francesa de Cremação em Paris.

(Fonte: La Porte Latine - Tradução: Permanência)

Quem vai arrumar a mesa?

Irmãs da FSSPX

Em uma família, as crianças não são como hóspedes de um hotel onde tudo lhes é servido. É essencial que participem das tarefas da família, e a primeira que vem à mente, por ser uma atividade diária simples, é pôr a mesa. Essa é até uma das primeiras tarefas que as crianças podem cumprir e terão orgulho de que as julguemos capazes de pôr a mesa.

Talvez os pais temam que os mais pequenos acabem por quebrar a louça. O risco não é tão grande. Veja como estão ansiosos para provar-lhes que são dignos da confiança que lhes foi dada. As crianças sabem como prestar atenção e ter cuidado quando necessário. Não é melhor correr esse risco mínimo de um vidro quebrado do que arriscar transformar os filhos em criaturas egoístas, pouco dispostas a prestar serviços? Se necessário, é possível utilizar pratos de plástico no início de seu aprendizado.

Quantas vezes devemos pedir-lhes isso? Pôr a mesa é uma tarefa diária, portanto, devemos solicitar sua ajuda diariamente, a fim de acostumar as crianças ao esforço, e não nos contentarmos com uma ajuda ocasional. Podemos nos organizar de acordo com a composição da família: é possível pedir um voluntário a cada vez, mas o risco é que seja sempre a mesma criança com temperamento mais generoso; e o que fazer se não houver voluntário? Pôr a mesa também pode ser um privilégio do filho mais novo, ao passo que os mais velhos teriam tarefas mais difíceis. Ou cada criança pode revezar: uma põe a mesa no almoço, outra no jantar. Essa é uma tarefa que pode ser requisitada tanto a meninos quanto a meninas quando mais jovens. Mas, à medida que envelhecem, seria melhor pedir aos meninos outros serviços mais masculinos, como tirar o lixo ou cortar a grama.

Não devemos hesitar em lembrar às crianças que é hora de pôr a mesa, principalmente as crianças. As outras crianças perceberão que estamos chegando perto da hora da refeição, e esse será o sinal para que deixem de lado seus jogos ou dever de casa e lavem as mãos antes de irem para a sala de jantar.

No começo, solicita-se aos pequenos que definam apenas as coisas essenciais: pratos, copos e talheres, mas aos poucos podemos ensiná-los a fazer todo o trabalho, sem esquecer os detalhes: utensílios de cozinha, jarra de água, cesto de pão, faca e prato de manteiga, guardanapos, sal e pimenta ... Para ter uma refeição bem organizada, certifique-se de que, no final da mesa, você tenha os últimos pratos, sejam queijo ou sobremesa, com os pequenos pratos que os acompanham. Isso evitará viagens desnecessárias à cozinha.

Quando houver convidados, é o momento de treinar as meninas mais velhas para o papel de futura dona de casa. Preparar uma mesa agradável não é uma tarefa onerosa: não falamos das artes da mesa? Toalhas de mesa e guardanapos combinados, pratos festivos, uma peça central será apresentada. Elas também terão que prever os diferentes pratos e a troca de pratos em função do menu, sem esquecer os detalhes: por exemplo, lavar pratos raramente usados, colocar os copos de vinho à direita e os copos de água à esquerda etc.

Por mais simples que pareça a mesa, é uma maneira de desenvolver muitas qualidades nas crianças: saber servir, atenção, perseverança, o senso de trabalho bem-feito, ou seja, nos mínimos detalhes, um senso de harmonia, conhecendo as regras de etiqueta e boas maneiras ... Seria uma pena não pedir isso a seus filhos, seja por não saber como fazê-lo ou por não querer ser ajudado!

Um ambiente familiar feliz

Irmãs da Fraternidade São Pio X

 

As flores, para desabrocharem, precisam dos raios quentes do sol. E no jardim das almas, é a alegria que proporciona a atmosfera necessária para os corações se expandirem. 

 

Não deixemos as crianças se fecharem em si mesmas

Há temperamentos alegres, otimistas, que nunca se mostram apáticos ou abatidos; sabem ser gratos ao bom Deus, e isso é um dom precioso. 

Ao lidarmos com crianças mal-humoradas, emburradas, ranzinzas e tristes (e que acabam por se afastar de todos), precisamos ensiná-las a serem alegres. Que saibamos apontar o lado bom das coisas — porque sempre há um. O tempo está ruim? A chuva nutre a Terra e ajuda as plantações a crescer. Se um motivo de aborrecimento se apresenta, encaremo-lo como uma oportunidade de oferecer um sacrifício ao Bom Deus! Recebi um pedaço menor de bolo que o meu irmão? Fico feliz por ele!

Não deixemos que as crianças fiquem ensimesmadas em seu mal-humor. Tão logo isso se apresente, devemos aliviar as tensões com uma piada ou um gracejo como “Cuidado, seu beicinho está crescendo! Vamos, tire rápido um sorriso do bolso!”, ou algo do tipo. Crianças irritadiças, que nunca estão satisfeitas, devem ser interrompidas com comentários do tipo: “Pare de reclamar. Você reclama tanto do que não tem, que esquece de perceber o que tem!”.

Não obstante, é necessário procurar identificar as causas se surgir alguma tristeza incomum, por exemplo, por uma má influência ou dificuldades na escola, sobre as quais a criança não se atreva falar. Se a criança puder confiar em algum adulto para ajudá-la, a alegria retornará.

Devemos tirar tempo para apreciar as pequenas alegrias da vida familiar, como as alegrias que se seguem ao trabalho: contemplar belos campos, admirar jardins ou mesmo um cômodo recém-limpo. Há também a beleza do reencontro após a semana passada no internato, a alegria de cantar enquanto lavamos a louça, os piqueniques e passeios, a felicidade de ser grande o bastante para ajudar o papai e tantas outras pequenas alegrias disseminadas entre nós por Deus. — Se a criança não encontra na vida familiar a atmosfera alegre de que precisa, é de se temer que irá procura-la em outro lugar, e só Deus sabe onde isso se dará.

Devemos mostrar, através de nossos exemplos, que a virtude (longe de a extinguir) é fonte da verdadeira felicidade. Uma virtude rígida, fria e por demais austera, porém, não é comunicável. Ao invés de atrair a criança, o excesso afasta-a e arrisca torná-la rebelde. A verdadeira virtude católica é naturalmente alegre, pois nos proporciona o conhecimento de sermos filhos amados de Nosso Pai Celestial, o gosto de lhe oferecermos os pequenos eventos de nossa vida diária e a satisfação de sermos perdoados de nossos erros e curados de nossas fraquezas. 

Nosso Senhor, nas “Bem-Aventuranças”, fala de oito promessas para nos fazer felizes. Ele abençoa e encoraja a alegria. Pode-se dizer que, depois do amor, a alegria é o presente mais doce que vem das Suas mãos.   

 

Os efeitos da tristeza

A tristeza, por outro lado, destrói as almas, mata o sabor do esforço e estimula o vício. Não sejamos educadores pessimistas, que nunca estão satisfeitos com os esforços da criança, fazendo comentários do tipo “Você não se saiu tão mau como de costume. Para você, até que não foi tão ruim”. Pelo contrário, devemos saber encorajar até mesmo quando repreendemos: “Sei que você é capaz de fazer melhor. Na próxima vez, tenho certeza que isso não se repetirá”. Que saibamos dar os fundamentos para uma boa reputação à criança, fazendo justiça aos seus esforços e regozijando-nos de seus sucessos.

Há certamente muitas cruzes em toda vida, por vezes muito duras. Para não entristecer a atmosfera familiar, devemos deixar as preocupações com os adultos: crianças não têm a força necessária para lidar com elas. Algumas provações não lhes escaparão, no entanto, como a dor de um falecimento ou uma doença: será preciso ajudá-las a lidar com elas sem se afogarem na tristeza. Com efeito, quando nos entregamos inteiramente à Vontade de Deus, mesmo se sofremos em demasia e a despeito de qualquer dor, ainda há um pouco de alegria no centro de nossas almas. Talvez não possamos senti-la, mas é real porque a alma ama a Deus — que está sempre presente. A alegria é um dos frutos da presença do Espírito Santo em nossas almas.

Dom Bosco usava a alegria como um dos pilares de seu método de Educação. Ele sabia que o demônio é um eterno infeliz e estende essa infelicidade às almas que leva para o inferno. Uma alma em estado de Graça, ao contrário, é cheia de alegria. Deixemos que as crianças brinquem, corram, riam e façam barulho — mas que não pequem! O santo até mesmo chegou a fundar a “Sociedade da Alegria”. São Domingos Savio bem compreendeu seus ensinamentos ao afirmar: “Fazemos a santificação consistir em estarmos estarmos sempre felizes”.

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