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Category: Família e moralConteúdo sindicalizado

Grandeza do catecismo

Irmãs da Fraternidade São Pio X

 

Francisco está estudando no quarto ano no colégio mais famoso da cidade. Ao voltar da aula, ele entrega à sua mãe, Andreia, o boletim com as notas do bimestre. “Que bom!”, pensa Andreia: “Francisco tirou notas excelentes em matemática e em português. Com a sua prática em idiomas, com certeza ele vai poder entrar nas melhores universidades do país!”.

E Andreia já imagina seu filho sendo um advogado de prestígio, um engenheiro com êxito ou um cientista eminente... Que mãe não tem grandes ambições para seus filhos?

Ao mesmo tempo, Gustavo - estudando no 5º. ano no Colégio São Pio X – também entrega a Silvina, sua mãe, as suas notas bimestrais. Silvina lê com atenção: Catecismo: 9; Comportamento geral exemplar: bom espírito, responsável e prestativo com os menores. Silvina sonha também com o futuro do seu filho: “O que será de Gustavo no futuro? Um bom pai com uma família numerosa? Talvez padre?” (Clique para continuar)

Carta aos pais

André Charlier

 

Esta carta de André Charlier merece ser lida duas vezes. Uma, por seu conteúdo e oportunidade; Outra, tendo-se em vista a data em que foi escrita, 22 de outubro de 1954, quando Charlier era diretor da escola preparatória de Clères, na Normandia. 
 

Embora escrita para pais franceses, estas breves reflexões certamente interessarão ao leitor brasileiro.

 

(Continue a leitura)

Aprendendo a dizer obrigado

Irmãs da Fraternidade Sacerdotal São Pio X

 

Jeremias desembrulha o presente de aniversário, olha para a história em quadrinhos que ganhou: "Ah! Essa já tenho..." Larga o pacote ao lado, enquanto seus pais, levemente ofendidos, não ousam dizer nada: "Ele ao menos poderia ter dito obrigado..."

É Natal, mas o Sr.e a Sra. Durand estão sozinhos: as crianças cresceram, foram embora. O dia passa sem que nenhuma delas pense em ligar, ainda que para desejar um rápido feliz Natal. "Pelo menos poderiam ter pensado na sua mãe", resmunga o Sr. Durand.

Esses dois exemplos (imaginários?) mostram que a gratidão mais elementar não é mais natural para nós desde o pecado original. Três obstáculos se juntam para isso.

O primeiro é o orgulho. Se devemos ser gratos, é por um serviço recebido, e recebido muitas vezes porque não conseguimos prestá-lo a nós mesmos: há uma inferioridade que estamos relutantes em reconhecer. Aqui somos constituídos devedores, dependentes dos outros, e nossa autoestima dá um passo atrás. Essa é a razão pela qual algumas crianças sentem embaraço e teimosamente se recusam a pronunciar educadamente o 'muito obrigado' que a mãe pede. O que fazer? Armar-se de paciência e coragem para não ceder: mamãe não vai soltar o prato da Paulinha que acabou de servir até ouvir o devido agradecimento.

O segundo obstáculo é o egoísmo. A criança mimada não sabe ser grata: Como saberia, já que é o centro do mundo e tudo lhe é devido? A oração será aqui de grande ajuda para ensinar a criança a reconhecer todos os benefícios gratuitos de que é cumulada: "Obrigado Deus, porque o Senhor me deu um pai e uma mãe, uma casa e a verdadeira missa no domingo". Em nosso rosário, constummos acrescentar um pedido a cada dezena, e isso é excelente; Mas, às vezes, não esquecemos a oração de Ação de Graças?

O terceiro obstáculo, finalmente, é a preguiça. Pedro recebeu de seu padrinho um carrinho com controle remoto, com que adora brincar. "Ele é legal, seu padrinho, não é?" -- "Sim, muito legal!" -- "Você vai escrever uma carta para ele agradecendo?" Diante dessa perspectiva, o entusiasmo da criança desaparece... Como Pedro ainda é pequeno, mamãe não vai exigir uma carta formal, com uma escrita rebuscada que repugne o dever de gratidão. Um belo desenho do fundo do coração será suficiente. Mas, quando Pedro crescer, terá de aprender a exprimir o seu reconhecimento nas formas exigidas pela boa educação: uma mensagem de agradecimento rabiscada em um guardanapo não sai do fundo do coração.

Ao educar os filhos para a gratidão, as mães às vezes encontram uma dificuldade: dão o melhor de si em sua tarefa de mães, mas sentem que, afinal, apenas cumprem o seu dever, e não pensam em exigir reconhecimento por aquilo que de bom grado fazem. De certa forma, estão absolutamente corretas: não se pode exigir reconhecimento tão estritamente quanto se exige obediência. No entanto, a gratidão é um dever estrito das crianças.

Os exemplos que vamos dar mostrarão, de modo geral, várias formas pelas quais um coração grato e engenhoso pode expressar o seu reconhecimento:

Na família Dupond, o pai era o cabeça dos pequenos conspiradores que preparavam como supresa para a mamãe um dia de "férias": nada de cozinha, nada de louça, nada de faxina no Dia das Mães, para agradecer por tudo que ela fez nos outros 364 dias do ano.

Para o aniversário do pai, a mãe discretamente inspirou algumas idéias para as crianças: Domitila fará o bolo favorito do pai, Teresa recitará o poema que escreveu; já os meninos vão lavar bem o carro: papai trabalha tanto para pagar boas escolas ...

Clarinha acaba de saber que sua madrinha, que tantas vezes a mima, está esperando seu primeiro filho: com a mãe, está aprendendo a tricotar para fazer um par de botinhas para o bebê.

Dom prior comemora os 25 anos de sacerdócio. Toda a família quer se juntar à surpresa: os meninos serviram a missa de ação de graças da manhã impecavelmente; as meninas fizeram com a mamãe uma barraquinha para a feira da tarde e papai estava no comitê organizador do presente.

Bento é convidado a passar o fim de semana com o amigo; para agradecer a mãe do amigo, leva um cesto de cerejas do jardim, foi ele mesmo quem as colheu.

Para o aniversário de dona Regina, a professora, as mães chegaram a um acordo e as crianças ofereceram uma grande caixa de biscoitos que elas mesmas prepararam.

As bodas de ouro de vovô e vovó foram preparadas há meses! Todos os netos encenaram uma peça, os mais velhos cuidaram dos cenários e dos figurinos, além de acompanharem do ensaio dos menores.

Uma família que sabe agradecer é uma família cheia de amor e felicidade. Obrigada, meu Deus, por todas essas boas famílias unidas, porque a gratidão aquece os corações.

(Fideliter, no. 200, março-abril de 2011)

Nossa posição sobre certas tecnologias

Pe. Jean-Pierre Boubée, FSSPX

 

“— Esse meu garoto, como é esperto! Você precisa vê-lo usando o computador...”

“— Para o meu, dei um tablet de Natal”.

Essa conversa banal entre duas mães de família ocorreu enquanto os meninos se entretinham com seus vídeo-games portáteis, a menos que estivessem enviando uma de suas cinqüenta mensagens quotidianas.

 

Nos últimos sessenta anos assistimos a uma acelerada e insuspeita evolução técnica de nossos instrumentos de vida. O universo das telas[1] se impôs em nosso modo de conhecimento, em nossas comunicações, nossas relações profissionais, em nossos lazeres e, amiúde, como fundamento de nosso juízo. É notório que tais novidades tecnológicas tenham modificado consideravelmente:

- nosso comportamento individual,

- nossos hábitos sociais, e por esse mesmo fato, o savoir-vivre,

- mas também, mais profundamente, nossos processos mentais

- e nossa vulnerabilidade moral, pois tais novidades arquitetam um novo universo de tentações e pecados.

O tema é amplo. Dizer que tudo melhorou e alardear um irenismo tolo seria absurdo e irrealista. Não bastaria, também, resignar-se a um lamento apocalíptico e dizer que tudo vai mal... que a fortiori tudo está proibido. O homem de bem, sobretudo o católico, não pode todavia resolver-se num fatalismo que cruza os braços. Ele não pode se contentar em dizer — à maneira de um liberal — “que agora é assim”, e “que não se pode voltar atrás”. Há provações e graças próprias a cada época, e convém que não as deixemos escapar.

É evidente que todas as técnicas trazem novas possibilidades, esplêndidas, e que nós as podemos utilizar. Mas uma análise sã nos permitirá demarcar o que é admirável, o que é útil e o que é prejudicial.

 

O mecanismo intelectual do homem é uma maravilha

O homem foi admiravelmente concebido para alcançar os conhecimentos mais elevados.

- Seus sentidos permitem-no atingir o mundo que o rodeia, e a inteligência consegue assim conhecer a natureza das coisas;

- confrontado com o real, ele pode então agrupar as idéias, compô-las, encadeá-las. Elas o conduzirão a emitir juízos práticos e prudentes;

- em seguida cabe à vontade mover-se na direção do bem;

- a perfeição de seu impulso chama-se amor;

- essa perfeição vem para regular os sentimentos ou paixões que poderiam se demonstrar mais desordenados;

- assim estruturado, o homem se orienta rumo à perfeição, respeitando essa ordenação desejada pelo Criador que chamamos de moral; seu aspecto mais nobre é precisamente uma forma de amor chamada Caridade.

 

Eis o funcionamento do homem. Mas a chegada maciça de técnicas novas modificou consideravelmente esses comportamentos elementares da psicologia, a tal ponto que cada um deles exige uma reflexão.

 

 

  1. Utilizamos nossa inteligência segundo seu modo normal? Estamos aptos para alcançar a verdade?

O processo de conhecimento

Uma linha manifesta de ruptura aparece com a chegada generalizada da televisão. Podemos marcar essa virada em torno de 1960. Até então, o homem estava habituado a conhecer o real tal qual ele é, a assimilá-lo, e em seguida exercer seu juízo. Necessariamente, esse acesso ao real colocava em movimento também as paixões: os sentimentos nasciam a um ritmo humano. A educação e a experiência levavam ao regulamento dos sentidos pela razão.

Uma inteligência alcança seus primeiros saberes pelos sentidos, segundo uma proporção concebida pelo Criador: vê-se, entende-se, toca-se, respira-se... Desse conjunto a inteligência tira “conceitos”. São idéias, abstratas e universais, formadas como verdadeiros espelhos do real. A especificidade extraordinária do homem é essa inteligência, capaz de pensamentos abstratos, mas que correspondem ao real.

Quanto mais bem-feita a educação, mais ela desenvolve essa faculdade propriamente humana. A percepção e o aprendizado de palavras solicitam a ajuda da educação; e também a leitura, certamente. O lugar de honra pertence à qualidade e à exatidão da linguagem, pois elas nos obrigam a adequar nosso pensamento e nos tornam capazes de transmiti-lo e recebê-lo de outrem.

A imagem artificial que por vezes ilustra uma leitura é apenas uma ajuda: ela a alivia, pois em vez de fazer trabalhar a inteligência, dirige-se à imaginação, que é uma faculdade da ordem do sensível. Sabemos que diante de uma imagem desenhada, ou de uma fotografia, a impressão passional é mais forte, e o juízo menos fundamentado.

Se nós aumentamos indevidamente o número de imagens, o conhecimento se produz então globalmente por essas representações artificiais: estas tocam muito mais profundamente a imaginação e a sensibilidade do que a inteligência. Se se formam conceitos, eles serão inadequados: isto é, as idéias formadas não terão nem a amplitude, nem a qualidade de penetração do real que trazem aquelas idéias formadas pelos caminhos ordinários da descoberta e da comunicação do saber.

 

O cyber-cérebro diante de um novo processo de conhecimento

Ora, de repente, o homem se viu diante de um recrudescimento da imagem, e mais particularmente daquela que se move e fascina. Essa multiplicação de imagens irá sobre-excitar os sentimentos, suscitados por “pequenos resumos parciais do real”, tanto mais traiçoeiros quanto a imagem possa convencer a objetividade[2].

Com esse advento universal da imagem, a inteligência encontra-se então frustrada[3]: ela é “geralmente” substituída pela sensibilidade. O processo de conhecimento da inteligência foi gravemente prejudicado. O funcionamento rotineiro da inteligência da criança, e do adulto, em seguida, encontra-se atrofiado. A incapacidade de compreender, de julgar, de questionar, de afirmar sua personalidade torna-se moeda corrente.

Fez-se recuar a inteligência do homem moderno ao estado da dos “primitivos”. Com efeito, nossos contemporâneos reagem exageradamente com as paixões diante de conceitos que não atingiram o estado de “pensamento”.

Qualquer jornalista que se arrogue “especialista em humanidade” usa termos como racista, fascista, os direitos, a economia, a democracia, sem nenhum conteúdo conceitual sério!  Ser-lhe-ia uma enorme dificuldade defini-los, o que é o cúmulo! O leitor, porém, é da mesma laia.

Na área comercial, o resultado não é muito mais brilhante, uma vez que vemos toda gente correr para as “liquidações” sem saber se realmente precisa de algum produto novo.

 

A tela se tornou mais verdadeira que o real

A publicidade foi a primeira a pôr em relevo um fenômeno gravíssimo. Os produtos são vendidos agora com os dizeres “conforme visto na televisão”. Eles adquiriram da televisão um selo de qualidade ou confiabilidade. Teríamos todos os motivos para estarmos preocupado com tal inversão: não é o fato de ser apresentado sobre a tela que confere perfeição intrínseca a um objeto.

A situação agravou-se. Um estudo revela que para a criança “o que a televisão mostra é verdade... porque ela o vê”.[4] Ora, a criança passou então a interrogar seus pais para ver se a resposta deles está de acordo com a enciclopédia da internet.

Esse mal difundiu-se entre os adultos, que julgam e exprimem livremente suas opiniões de “Doutores em todas as ciências” após a leitura de alguns fóruns, ou após receberem um documento de um amigo. Quando consideramos que alguns tribunais passam mais de trinta anos revisando sucessivamente seus documentos, em razão de não terem a totalidade dos dados, não podemos senão ficar preocupados com o risco de juízo temerário consentido pela maioria de nossos contemporâneos. Fato tanto mais grave quando se trata de medicina, história, filosofia ou religião.

 

O homem moderno está predisposto a ser escravo

Essa fraqueza conceitual predispõe o homem a ser “escravo”: com efeito, separados do seu contexto, selecionados entre os outros, reduzidos à medida de uma tela, elaborados segundo um certo plano de pontos de vista, as representações escolhidas, ou os textos retidos têm por fim engendrar sentimentos fortes, impressões intensas, mas totalmente artificiais.

Os jornalistas de toda estirpe tiram partido disto. Acrescentando a esse processo a rapidez das imagens e o seu encadeamento lógico, eles não têm nenhum escrúpulo em fazer com que seja admitido como verdadeiro o que denominaram como tal, já que os espíritos não têm os meios nem o tempo de se colocarem em funcionamento.

Facilmente, o efeito dos filmes e desenhos animados modernos aparece com acuidade: as mudanças de plano, de personagens, de luminosidade se produzem em geral a cada três segundos. Os primeiros cineastas falavam de sete a oito segundos mínimos para que o espírito tivesse tempo de compreender o tema. Um webmaster sabe que dispõe desse tempo, e não mais, para convencer um internauta a permanecer em seu site.

A população está acostumada a esse modo de funcionamento. Trata-se manifestamente de uma vontade deliberada para impedir que a percepção se fixe no processo de atingir a inteligência.

As últimas pesquisas científicas apoiam essas constatações[5]. Seria um tema para outro estudo: pode-se observar com precisão as zonas do cérebro solicitadas segundo os diferentes modos de percepção cognitiva. Os aparelhos mostram claramente que a imagem — sobretudo animada — não solicita o mesmo funcionamento de nosso cérebro.

Não é à toa que todos os diretores de escola, sem exceção, notaram nos anos 1960 um enfraquecimento considerável do desempenho das crianças quando a televisão era introduzida em casa. O tempo perdido pode explicar parte disso; mas a modificação radical do processo habitual de conhecimento e reflexão tem aí participação considerável.

 

O real tal como o queremos

O computador[6], cerca de 25 anos depois, veio trazer a “intervenção” na imagem. Essa intervenção se dá em superfícies bem pequenas, de maneira bastante simplificada, com a ponta dos dedos. Ela não tem nada de semelhante à intervenção de um homem no real. Não é mais a vida no mundo sensível, mas apenas na imagem bem fragmentada deste mundo.

Surgem duas novidades:

- Não é todo o ser, não são todos os membros, não é toda a personalidade que intervém.

- Essa intervenção não implica mais a responsabilidade física sobre um acontecimento real: com que lamentável facilidade as crianças estão habituadas a matar nas telas, ou os adultos se lançam em situações moralmente sulfurosas. (Falamos de responsabilidade física: com efeito, a responsabilidade moral — a qualidade que um ato tem de ser bom ou mal — permanece sempre diante de Deus!)

O desligamento do real foi ainda mais amplificado. A imaginação se tornou mestra do comportamento.

 

Erradicação do verdadeiro pensamento

Quantas crianças, quantos adultos doravante redigem antes de pensar e fabricam assim um caleidoscópio de frases. Máxime quando a cultura reduz-se a um copiar-colar de algumas linhas da internet.

Muitos professores exigem trabalhos escolares que representam uma monstruosa caricatura do saber, pois o produto final não transitou pela inteligência!!! Não houve nem abstração, nem compreensão, nem juízo no sentido intelectual do termo. Não se pode fazer nem uma síntese, nem uma análise segundo um plano rigoroso e embasada sobre a essência do tema em questão.

Entre os mais velhos, a imensa feira de fóruns, blogs e outras intervenções sobre a internet é, infelizmente, uma espécie de zoológico dessa ausência de pensamento.

Graças a algumas escolas de pedagogia tradicional, alguns sobreviventes ainda aprendem a fazer dissertações com lápis e papel. Com efeito, antes de se lançar na redação, a pesquisa das idéias, sua classificação, sua simplificação é um elemento fundamental do que chamamos simplesmente “o pensamento”.

O primeiro serviço a se prestar a uma criança é ensinar-lhe a conceituar, a pensar, a julgar.

Para os que perderam o hábito de fazê-lo, sem dúvida seria saudável que se obrigassem a reconstruir seu pensamento de maneira manuscrita antes de se pôr a exprimi-lo por via eletrônica.

 

 

II – Estamos aptos a exercer um verdadeiro juízo da inteligência segundo a virtude?

 

A faculdade do juízo

Uma das perfeições da natureza humana e de seu instrumento intelectual manifesta-se pelo juízo. Utilizando conceitos que ela formou, a inteligência é capaz de associá-los, ligando a existência de um à do outro. Assim, vai-se afirmar que “a casca da árvore é branca”.

Essa riqueza não serve unicamente para aperfeiçoar os conhecimentos, mas também para guiar a ação. Esse domínio é o do juízo que chamamos de “prudencial”.

Esse desenvolvimento conhece um progresso particular na entrada dos 6 e 7 anos de idade, quando a criança ultrapassa sua experiência do mundo para construir com lógica elementos que ultrapassam sua simples percepção sensível imediata.

 

A solicitação imediata das impressões

O mundo das técnicas modernas acrescenta a seu dilúvio de imagens um assédio de incitações ao juízo imediato, mediante votações, questionários, opiniões a se emitir.

Temos o direito de nos perguntarmos se um jovem que responde a cada instante o que pensa sobre uma informação imediata, exibindo-a num fórum, espalhando-a pelos múltiplos modos de comunicação do seu telefone, estará apto um dia a se tornar um chefe de empresa. A resposta é não!

Com efeito, ele se acostumou a considerar como “real” o que não passa de uma minúscula afirmação peremptória, sem nenhuma verificação, sem nenhum trabalho de sua parte, sem o verdadeiro uso de seus sentidos e de sua abstração. Sua inteligência especulativa não foi utilizada; seu juízo não é um juízo — no sentido pleno do termo — porque não é fruto de uma prudência ancorada na parte da inteligência chamada “prática”.

Ora, a qualidade moral de um homem, a retidão de sua personalidade, realiza-se e manifesta-se pelos progressos da virtude da “Prudência”[7].

No dia-a-dia, o juízo prático é inexistente: faltam-lhe, antes de tudo, os conceitos; faltam-lhe as informações: faltam-lhe os elos de uma avaliação relativa a todo o contexto. O homem se acostuma ao impulso: ele expressa suas opiniões, não sabe agir de outro modo.

Ele habitua-se a viver nos antípodas da construção de uma personalidade, da capacidade de gerir a realidade da vida com verdadeira responsabilidade.

Enfim, quando se sabe até que ponto os homens engendram ações tortas e discórdias catastróficas, quando os impulsos precedem a reflexão, é previsível que seus hábitos mentais amplificarão e multiplicarão essas desordens.

 

Uma falsa construção da personalidade pelo jogo

A natureza, segundo seu curso normal, previu que a criança ou o adolescente se predispusesse à vida futura de adulto de diversas maneiras, entre as quais as brincadeiras ocupam lugar predominante. Elas o submergem num universo que é “semelhante ao real”, uma espécie de irreal real — se podemos nos permitir tal oposição de termos.

Com os jovens, sobretudo, seu corpo, seus sentimentos, sua inteligência, seu juízo, tudo se entretém. Eles fazem um tipo de digestão da soma extraordinária de informações que receberam para experimentá-las no mundo real. Mesmo num jogo organizado, mais tranqüilo como um jogo de tabuleiro, ou mais exaltado como uma partida de futebol, toda a personalidade é engajada: mas sabe-se bem que é a personalidade real, num mundo real.

O jogo de computador, os consoles de jogo, os pequenos jogos eletrônicos arrancam os jovens da verdadeira percepção sensorial e racional do real, e os reintroduzem no irreal. Esses jogadores modernos penetram na “imagem”, e não no mundo, através de um uso exacerbado de certos sentidos de modo desequilibrado. Eles se esforçam a fundo para se reconstruírem num mundo que não comporta pontos de contato com aquele em que vivem.

O jogo, portanto, não serve mais para prepará-los para o futuro, como se dava com o comportamento normal de uma criança.

Além disso, o sistema nervoso aí perde seu equilíbrio por um excesso de estímulos, choques, claridade e situações freqüentemente violentas[8]. Esta super-excitação esgota a faculdade da atenção calma, como notam depois os professores nas salas de aula. Os médicos são afrontados com casos sérios de epilepsia foto-sensível, enfermidade recente. Porém, desse uso frenético, surge uma ânsia que cria freqüentes dependências[9], em graus diferentes. Em particular, os jogos violentos que adoecem o jogador num hábito “toxicomaníaco condicionado”; ou seja, reflexos condicionados diante de situações agressivas que liberam dopamina[10] no cérebro, trazendo uma espécie de prazer e de necessidade artificial.

Essa sede é aumentada pelos jogos em rede[11]. Em escala internacional, organizam-se jogos de estratégia pela internet. As partidas se renovam, desenlaces surpreendentes se multiplicam sem nenhum fim. Organizam-se até desafios, e meios de se fazer conhecido nesse microcosmo.

Um tipo de pseudo-mundo é criado; tem-se aí uma missão. É preciso estar pronto para interferir contra outros combatentes, às vezes a qualquer hora do dia e da noite. O condicionamento é tal que uma parte da dependência provém da frustração de sua missão, enquanto que o jogo continua sem você. É preciso subir nos degraus de uma hierarquia, tornar-se o melhor de sua corporação...

Mas quando se reflete nisso, qual a seriedade dessa hierarquia? E a glória, os desafios, os embates que são apresentados como reconhecidos internacionalmente, o que trazem de construtivo ao homem? Nada. Somente vento e um isolamento abismal! Às vezes, é como as loterias, os jogadores deixam-se seduzir pela atração enganosa da glória e do dinheiro que um só conseguiu ganhar, ao passo que milhares de outros se afundam na dependência.

Pode-se afirmar que um homem incapaz de ação, e apto somente para os sonhos, se comportaria verdadeiramente bem, ainda que todos os seus membros estivessem em bom estado?[12]

 

 

III – Ainda amam alguém de fato?

Se a inteligência sofreu um rude golpe com esse modo de comunicação, se o sentido do juízo diminui perante as solicitações dos impulsos imediatos e irrefletidos, outros aspectos arruínam definitivamente a pessoa: os que atacam o uso da vontade.

O homem é feito para “amar”, no sentido mais nobre. Ele possui sentimentos e uma vontade aptos a se orientarem firmemente rumo ao que é bom, ou em direção a alguém que o eleva.

Essa capacidade de amar, tão rica na natureza humana, sofreu um golpe com o papel conjugado do telefone celular e das mensagens enviadas pela internet.

 

Amar verdadeiramente

O amor também se aprende. No contato com nossos pais, nossos irmãos e nossas irmãs, com nossos diversos colegas, aprendemos a viver com o outro. É preciso se doar, mas também se calar. É preciso contrariar-se, assim como é preciso entusiasmar-se. Mas existe um ritmo: aprendemos, no contato com o outro, que uma irritação ou uma frase malvada dita grosseiramente trazem conseqüências que é preciso administrar; que um ato de caridade é por vezes custoso, mas ilumina uma atmosfera.

 

As diferentes esferas de amizade

O homem se desenvolve no seio de diferentes esferas: a esfera íntima da família; e depois, a dos amigos mais ou menos próximos. Existem pessoas para as quais um certo savoir-vivre implica comportamentos que são a manifestação de uma caridade elaborada.

Em outras circunstâncias, essa caridade não tem as mesmas exigências. A família, por exemplo, tem o direito de nos conhecer nos nossos piores dias. A caridade aí é mais exigente, mas a codificação menos constrangedora.

 

Os ausentes presentes e os presentes ausentes

O mundo moderno parece agora estar aberto a um vasto campo de comunicação e de amizades, ao menos em aparência: entretanto, por uma sinistra ironia, o inverso se impõe a nós. Observemos bem: quando nossos modernos antenados estão ao nosso lado, eles estão se comunicando com outras pessoas. Os ausentes impõem-se então por sua falsa presença, e os presentes são para nós como estranhos. Em conclusão, as pessoas ausentes estão sempre presentes, e as pessoas presentes, sempre ausentes! Não é isso a predisposição a um modo de funcionamento que se chama clinicamente esquizofrenia? A questão merece ser levantada.

Duas pessoas acabaram de se despedir? Elas logo estarão se chamando. Dois jovens, em vez de aguardar o dia seguinte, comunicam a cada instante os acontecimentos de sua vida de família, os seus sentimentos fugazes, as palpitações do seu espírito. A inconstância do espírito torna-se uma segunda natureza.

Outro inconveniente: os efeitos das relações habituais, como a caridade, a amizade, a paciência, ou mesmo os bons modos tornam-se impossíveis. As relações não são mais com os únicos presentes: é preciso levar em consideração a existência de um terceiro que intervém, e do qual se ignora a identidade. Por exemplo, um pai repreende um de seus filhos, este último tem a possibilidade imediata de se abrir a outrem; ele perde totalmente, por esse fato, o fruto de uma reflexão necessária sobre a observação que lhe foi feita — antes de tudo na ordem das paixões, em seguida, pouco a pouco, na ordem da razão. Ele perde esse valor acrescentado à personalidade, que chamamos de educação.

Enfim, a vida familiar, ou o prazer de estar com amigos se ressente. Você acreditaria ter um interlocutor, um amigo... mas ele está em comunicação com o exterior. Mesmo os que se encontram pela internet se comunicam com várias pessoas! Não é raro que tenham várias “janelas” abertas ao mesmo tempo.

 

As falsas amizades

Por outro lado, a amizade conhece outro enorme avatar: são todas essas redes sociais que incitam os jovens a entrarem em relação com o “máximo de pessoas” para compartilhar todo o medíocre de suas vidas.

São de fato amigos? Não podem ser amigos, porque um amigo se freqüenta.

• As verdadeiras amizades se fundam, em primeiro lugar, numa freqüentação verdadeira, e não na tela ou na troca de mensagens medíocres.

• Os amigos são pouco numerosos.

• Mas, sobretudo, são eles que nos descobrem e não nós que nos vangloriamos. Nessas redes, os usuários se apresentam tal como querem parecer. Em resumo: teatralizam-se.

Entre os jovens, as virtudes raramente são colocadas em destaque, pois é mais fácil atrair com coisas malsãs, com pecados, ou com limites que se ousou ultrapassar.

Diante de todos, exerce-se uma espécie de voyeurismo: “ele ousou”, “ele fez”, “ela se veste assim”, “ele também tem uma namorada”... Nós falamos há pouco dessas esferas múltiplas nas quais a delicadeza da personalidade aprende a reconhecer que há coisas que se pode dizer em certas circunstâncias, mas não em outras. Mas nesse sistema, tudo se torna público, mesmo o quotidiano comezinho que não deveria entrar nessa esfera.

- Perda de juízo.

- Perda do pudor.

- Perda do bom senso.

- Perda do savoir-vivre.

- Perda do senso da família.

- Perda do senso da amizade,

A avaliação final é péssima![13]

 

Os numerosos e privilegiados interlocutores do sexo oposto

O fenômeno fica ainda mais estranho quando se trata de um rapaz e uma moça, que estabelecem relações desse tipo. Hoje em dia, qualquer que seja o meio, desde os 14, 15, 16 anos eles comunicam-se por mensagens de texto, duas, três, seis, dez vezes numa noite. (A média nacional entre adolescentes chega a 83 por dia![14]) Quase sempre tolices, um boa-noite, uma opinião, que importa! Tomou-se o hábito de contar tudo a todo mundo.

Poderíamos imaginar que um meio católico sério não conheceria o fenômeno inglês e protestante dos namoros precoces. A multiplicação dessas relações indiscretas importou essa decadência para o mundo católico, inclusive para os meios que visam a uma educação mais bem cuidada dos sentimentos: mesmo se o nome não é pronunciado, a realidade existe.

Freqüentemente essas comunicações se querem divertidas. Os mais inocentes — supondo que o sejam — tornaram-se tão relaxados com a convivência com o outro sexo que pensam não ser menos mau exprimir pequenas observações passageiras a uma moça que a um rapaz. Trata-se de falta de bom senso, a menos que não seja de má-fé! A natureza retoma seus direitos; a personalidade é tocada, discretamente talvez, porém mais profundamente do que parece. E então, estabelecem-se tipos de pseudo-amizades, pseudo-paixões “amorosas”. Quando um confessor quer tentar iluminar a consciência, ele constata a perda violenta que isso provoca: prova de que existiam vínculos relativamente profundos.

Para cúmulo, cada um possui vários interlocutores do sexo oposto. Mesmo se um tem a preferência, os outros ocupam bastante espaço. Quando alguém comunica uma dificuldade ou uma tristeza singular, então se estabelece uma comunicação telefônica muita longa. Essas trocas podem se multiplicar, chegar até encontros para ajuda mútua. Na semana seguinte, será com uma pessoa diferente. Teríamos dificuldade em descrever o desconcerto psicológico, a destruição das disposições ao amor matrimonial.

Os deslizes que podemos imaginar não são tão raros quanto se quer fazer crer. Nesse campo, seja permitido lembrar que cada geração sabe muito bem como mentir, enganar os pais e inventar desculpas falsas para sua própria consciência.

Mas antes de se considerar como culpado, ou simplesmente pecador, existe um profundo desgaste psicológico, porque a ordem da natureza não foi respeitada.

 

A construção desordenada do amor marital

Quando, mais tarde, sobrevém uma verdadeira paixão amorosa — que pode evoluir num matrimônio saudável — os sentimentos estão embotados. Ordinariamente, a paixão ardente tem dificuldade de se expressar; mas quando ela quer se preparar ao matrimônio, com ajuda da imaginação, ela aspira a grandes coisas. Mas a vida mostrará em seguida aos dois esposos que eles vivem também de pequenas coisas que, concretamente, os obrigam à Caridade.

Essas múltiplas comunicações inverteram o processo: os jovens perdem muitos anos em pequenas coisas que não exigem nenhuma caridade porque elas são “narradas sem ser vividas”. Assim, uma dor, um mal-estar expresso ao outro não tem nenhum impacto, não implica nenhuma dificuldade para si mesmo, nenhum ato de verdadeira caridade.

Mas durante esse tempo, as trocas são muito numerosas para pensar em coisas grandes.

Chegados ao casamento, essa inversão da ordem natural da preparação trará uma decepção clara. É certo que a construção dos futuros lares se ressente disso.

Notem bem que a infiltração desse comportamento é dificílima de se estigmatizar enquanto não engendra ainda pecado explícito. Os pais vêem-se impotentes para retomar o bom senso e a vigilância dos sentimentos que se deve ter na relação com o sexo oposto. Como e a partir de que momento assinalar a um jovem que ele ultrapassou os limites admissíveis e que ele arruína sua capacidade de amar, seu senso do real e a seriedade dos seus sentimentos?

Durante esse tempo, a noção de amor é igualmente destruída e o respeito pelo próximo diminui. A grandeza dos lares cristãos em formação não tem nada a ganhar com isso.

 

A indecisão

Contrariamente à expansão social que teríamos imaginado graças a essas comunicações, o jovem tornou-se indeciso, o que freqüentemente o conduz a uma insatisfação, como se vivesse solitário. A instantaneidade o escravizou ao juízo dos outros; ora, este último se encontra incessantemente questionado. O celular contribui largamente para isso. Como ele permite a revisão das decisões práticas tão bem como os encontros, ele gera a instabilidade de toda decisão e de todo compromisso.

A maioria de nossos jovens está, doravante, incapaz de se decidir com alguns dias de antecedência — ou pior, de semanas — para uma atividade com datas definidas e para as quais ele se engaje firmemente. Nos fatos, eles esperam as modificações dos programas dos outros, ávidos pelo que lhes parecerá mais interessante. Eles decidem então ao improviso, na última hora, mesmo as diversões.

Vivem assim na concupiscência do que os outros possuem ou na expectativa do que os outros vão fazer. Frustrados, jamais se estabelecem na “realidade de suas vidas”, não encontrando paz em sua condição.

Os professores universitários[15] participam descaradamente dessa destruição das jovens personalidades. O costume está instalado de não dar a hora ou a data do próximo curso senão por mensagem telefônica ou internet, tendo como conseqüência a revisão incessante da organização dos estudantes.

Em razão desses hábitos de inconstância, alguns deles não chegam nunca a se decidir sobre o matrimônio ou a vocação. Pior ainda, quando se engajam, a sensação de estar numa situação definitiva os oprime a tal ponto que eles buscam se libertarem dela. A idéia de um esforço duradouro não os estimula mais.

 

Dever de estado em más condições

Não fosse o bastante, a grande maioria dos jovens trabalha com o telefone ligado, e as mensagens abertas. Tudo isso enquanto se debruçam sobre seus livros de matemática ou francês; respondem instantaneamente a toda solicitação. Pode-se esperar que desenvolvam o hábito de um trabalho sério? E malgrado tudo, é raríssimo que coloquem a questão no plano moral, perante Deus.

 

Isolamento cada vez maior

As estatísticas[16] pretendem que a juventude atual possui um número equivalente de amigos, e talvez até um pouco mais que em outros tempos. Entretanto, o modo de troca se modificou e ampliou. Esperar-se-ia até um verdadeiro frenesi se não fossem os professores para lembrar do trabalho escolar.

Por algum paradoxo, essa aparência de “presença constante” dos outros torna fragilíssima a construção da própria personalidade. A morosidade, os suicídios, a fuga da realidade manifestam uma juventude que não encontrou seu lugar. Com efeito, dessas comunicações desordenadas resulta uma sede insaciável, um escapismo, que não deixa tempo para forjar profundamente sua identidade. Apesar desta comunicação incessante, as riquezas dos verdadeiros amigos se tornam raras.

Uma espécie de lógica interna engloba esses condicionamentos modernos: ao excesso de paixões instantâneas sucede o medo de refletir. O vazio dos sentimentos reais, essas falsas amizades, essas falsas comunicações, a soma de tudo isso gera medo de ser si mesmo em sua verdadeira identidade, medo do que é sério, do silêncio; numa palavra, conduz à fuga de si mesmo, a eliminar seu próprio destino... e finalmente a não estar apto a viver com Deus!

Quando a isso se acrescenta o ipod para preencher os vazios e a chegada dos vídeo-games ao lar, não podemos senão temer pelo futuro do adolescente assim construído! Por que tantos suicídios entre a juventude, como o revelam os escritórios oficiais do Estado[17]? A droga não está aí à toa, é verdade; ela se difunde não só por causa da curiosidade ou do desejo de imitar os outros, mas também pela necessidade de uma felicidade inalcançável. Mais profundamente, porém, por acaso não fechamos a porta a tudo o que poderia ser simplesmente humano, impedindo por isso mesmo a abertura franca ao sobrenatural?

 

IV – Perante o julgamento de Deus

Até o momento, foi abordada a destruição da psicologia elementar. Mas o problema moral não pode ser contornado, pois está longe de ser insignificante.

 

Regras de teologia moral

Inicialmente, é preciso ter diante dos olhos alguns princípios essenciais da teologia moral.

O primeiro deles: o homem — tanto adulto como criança — deve estar preparado a todo momento para comparecer diante do seu Criador; isso significa que é preciso buscar, acima de tudo, viver em “estado de Graça”.

A vida, infelizmente, nos cerca de “ocasiões de pecado”. São de duas espécies:

• ocasião distante. Encontramo-la ao longo de todo o dia. Não se pode evitá-la, no sentido que Deus permite que adquiramos a virtude pela luta contra essas solicitações. Entretanto, não é legítimo moralmente criar novas situações indevidamente.

• ocasião próxima. É a que faz ordinariamente cair no pecado de maneira quase inevitável.

- algumas são absolutas porque elas fazem cair no pecado “todo o mundo”: assim, um jornal pornográfico é ocasião próxima de pecado para todo o mundo.

- outras são apenas relativas, ligadas à condição pessoal de um homem ou outro. Particularidades que dependem de suas próprias dificuldades de idade ou condição.

É sempre proibido colocar-se numa ocasião próxima de pecado. E quando o trabalho ou dever de estado obrigam a se aproximar de uma ocasião perigosa, os mestres espirituais exigem que se multipliquem as barreiras de prudência, e que se aumentem as orações e penitências. Tais são os princípios gerais da vida cristã.

 

O alargamento do senso de juízo moral

É notável que a televisão tenha transformado o juízo de muitas pessoas assaz “laxistas”; particularmente nas famílias que assistem a muitos filmes. Pouco a pouco, as referências são desviadas pelo costume, ou pela tibieza diante das modas psicológicas, de vestimentas, mundanas...

A época da televisão soube habituar pouco a pouco as consciências mais lúcidas a espetáculos inadmissíveis. Assim como bastam algumas gotas de arsênio para envenenar uma deliciosa sopa, bastam poucas imagens para danar uma família que desejasse relaxar sãmente ao assistir a um filme. Às vezes, até imagens que seriam simplesmente ousadas, tornam-se ocasiões próximas de pecado para seres frágeis como os adolescentes.

De um modo mais difuso, os exemplos repetidos em todos os espetáculos de “desordens passionais”, ou de “famílias desestruturadas” predispõem os espíritos — sobretudo os jovens — a tudo suportar, e mais grave ainda, a tudo justificar.

Pio XII já alertava: “Mesmo os filmes moralmente irretocáveis podem, todavia, ser espiritualmente nocivos se eles descobrem no espectador um mundo em que não se faz nenhuma alusão a Deus e aos homens que crêem n’Ele e O veneram, um mundo em que as pessoas vivem e morrem como se Deus não existisse”[18].

É realmente perigoso para nossa alma nos habituar a uma mentalidade pagã e admirar comportamentos que são animados por um ideal malicioso.

Acrescentemos que muitos jovens jogam também com jogos que suscitam uma quebra dos sentimentos e comportamentos que não se permitiriam jamais na vida: ódio, violência, lassidão, vestimentas aberrantes, prazer de destruir...

 

O abandono de uma parte da educação

Um efeito notável da televisão nas famílias, e a fortiori dos espetáculos individuais na internet, é ter abandonado a outros a qualidade do patrimônio intelectual, artístico e moral a se transmitir. Inevitavelmente, está-se submisso ao que se é proposto. E mesmo se a janela da internet oferece um leque mais amplo, os pais só poderão explicar a história, a filosofia, a moral com os elementos que foram vistos. Em resumo, fez-se entrar em nossa casa um estranho que toma a responsabilidade de formar a família[19].

Quando chegam as redes sociais, os diversos modismos por intermédio das telas, ou uma mensagem político-social que encanta a criança, vai-se fabricar uma “modelização”, um ideal a seguirem à revelia dos pais. O poder da imagem tornará o acontecimento muito mais precoce e intenso que os impulsos clássicos de autonomia da adolescência.

 

A vida de família conturbada

O coração da sociedade é constituído pela família. A mesa familiar, o trabalho das crianças, a ajuda mútua dos familiares, e as noites que permitem trocas de experiências equilibram e formam a personalidade das crianças. As máquinas de imagens, o isolamento perpétuo de um ou outro para assistir algo que os retira do grupo não é uma conquista da modernidade, nem um progresso da vida de família.

Muitos lares são deficientes no que toca à sua missão educadora, seja pelo que fazem ou pelo que deixam de fazer.

 

Um dever de estado deficiente

A generalização da internet foi um golpe fatal na noção de “dever de estado”[20]. “Por dever de estado, entendem-se as obrigações particulares de cada qual em razão de seu estado, de sua condição, e da situação que ocupa”[21]. Cada um de nós sabe que o “tempo” é um dom de Deus. Precisamos fazer bom uso desse tempo para estarmos seguros de realizar Sua vontade e merecer o céu. “Foi Deus quem impôs aos diversos estados seus deveres particulares”[22]. Experimentamos uma sucessão de trabalhos próprios à nossa condição pessoal, seja de estudante, artesão ou chefe de família... mas também gozamos de repouso e de momentos em sociedade. Os acontecimentos tristes ou felizes são também sinais do que é o nosso dever. Existe um dever de estado para com Deus, para com seu cônjuge, para com seus filhos, para com seu trabalho, para com a sociedade e as pessoas que nos rodeiam.

Já evocamos os estudos dos jovens que não hesitam em se manterem conectados às redes sociais durante seu trabalho ou a responder instantaneamente a um SMS.

Poderíamos também acrescentar aqui a perda de tempo nas empresas por causa dessas trocas de mensagens, das ocupações ou vagabundagens pessoais: atitudes que não são de uma perfeita honestidade moral.[23]

O dever de estado familiar não parece estar mais bem protegido: forçaram entrada, nos programas familiares, os espetáculos da noite ou certos jogos imperdíveis[24]. Acrescente-se aí o tempo que gastam pais, mães, filhos lendo a caixa de e-mail, navegando na web, assistindo a pequenos vídeos ou filmes[25].

 

O prejuízo ao próximo

O poder de persuasão do que é visual, somado à possibilidade de encontrar imediatamente informações sobre praticamente todos os assuntos, dá às pessoas a impressão de que elas “sabem”. Se elas sabem, podem julgar, e emitir opiniões. Percebe-se infelizmente que esses elementos não podem jamais constituir um dossiê profissional.

Outros acumulam cópias de textos cujo valor real é geralmente fundamentado em poucas coisas: o todo apresentado com uma norma de objetividade.

Segue-se uma vasta feira de afirmações duvidosas proferidas de maneira peremptória, em todos os domínios. Em acréscimo, não é raro que o próximo sofra as conseqüências dessas ações, sempre em nome da “defesa da verdade”. Outrora, havia-se a honestidade de acusar-se no confessionário a calúnia[26], a difamação ou o juízo temerário. O confessor advertia sobre o dever de se tentar reparar o dano. Noções que passam bem longe de grande número de contemporâneos. Seria bom lembrar-lhes que o Evangelho nos diz que teremos de prestar contas até de nossas palavras ociosas, e das injúrias feitas aos outros.

 

Numerosos riscos humanos e morais não controlados

Uma multidão de outros riscos pulula nessa galáxia onde o anonimato parece proteger[27]. Imaginamo-los longínquos, e, todavia, eles são mais freqüentes do que parecem; eles surgem nas famílias que se crêem protegidas.

Citemos, por exemplo:

- a desesperança quando se tem a reputação, ou às vezes a simples logomarca arruinada nas redes sociais... tais situações conduzem ao suicídio ou à anorexia, em especial entre adolescentes;

- as solicitações aos encontros e à devassidão...;

- os contatos com câmera com finalidades imundas...;

- casamentos duvidosos que os jovens arrumam com desconhecidos do outro lado do mundo...;

- as trapaças...;

- a violência banalizada pelos filmes e os jogos, que cria um desequilíbrio intenso nas paixões, e reduz a capacidade de administrá-las;

- as agitações com fins propriamente revolucionários beneficiando-se da possibilidade de destilar informações escolhidas num meio visado. Assim toda associação ou obra pode se ver colocada em perigo...

 

A maré pornográfica... sobretudo na internet

Bem entendida, a forma que tomou a licença de costumes na internet é um flagelo que não se sabe mais como conter. Não é mistério para ninguém que, com ou sem códigos de segurança, a pornografia é acessível a todos. Não só ela é acessível, mas ela é proposta todo o tempo.

- Os pais relaxam: “Eu vigio”, dizem eles. É falso! Porque vigiar é olhar a mesma tela que aquele que a utiliza, e no mesmo tempo em que ele.

- Outros não imaginam a engenhosidade de sua progenitura perante a atração da carne que desperta bem cedo, malgrado a aparente inocência ou ignorância das crianças. Basta uma criança de 11 anos ter um aparelho com qualquer sistema de ligação que seja (wi-fi, bluetooth e outros, que tenha um telefone, ou a possibilidade de acessar a internet sob o pretexto de ler um e-mail...); logo, seu espírito sabe que essa tentação — precisamente nesse domínio — é acessível. Pode-se temer, além disso, que um colega lhe tenha indicado algo impróprio! Quantos resistem ao desejo de satisfazer sua curiosidade...?

- Outros pais preservam sua consciência: “É tudo uma questão de educação!”, afirmam eles, esquivando-se assim das exigências que lhes caberiam. Raciocínio igualmente falacioso porque, perante certos instintos da natureza, qualquer que seja a educação, certas “ocasiões de pecado” são moralmente “próximas” para todos. E Deus sabe que esse problema atinge largamente tanto adultos como jovens.

A título de exemplo, imaginem uma criança que seja enviada a um shopping center: é verdade que numerosas concupiscências serão despertadas nela. Por acaso iremos enviá-la ali com freqüência, com o pretexto de reforçar sua virtude? Não! Ao contrário, deve-se educá-la no espírito de pobreza.

Por isso é aconselhável não antecipar ou multiplicar os combates que se apresentarão um dia, sabendo que ninguém ousará confessar suas tentações e quedas.

Uma comparação virá, novamente, a nosso socorro: uma serra elétrica faz parte dos instrumentos de jardinagem: ela é útil, durante momentos específicos, com um perímetro de segurança. O resto do tempo, não virá a ninguém a idéia de deixar as crianças brincarem com ela, sob a afirmação de que é uma questão de educação! Tampouco que seria divertido deixá-la ligada para se distrair.

Compreende-se que num caso como no outro o uso é muito restrito.

Infelizmente, a indolência ou a falta de coragem conduzem muito objetivamente a um mal profundo. Estamos fabricando uma geração que examinou durante minutos — supondo que sejam apenas minutos! — vídeos dos quais poderíamos ignorar a existência em toda uma vida! Não contemos com as vítimas para falarmos sobre isso, nem para responder com franqueza sobre o tema.

Para os pais cristãos dignos desse nome, uma só questão merece resposta: o estado de graça é o que mais importa para um homem? Dessa resposta depende a atitude dos pais, adolescentes, jovens e de todos nós!

Além disso, estamos diante de uma arma temível contra as vocações e os santos matrimônios. Jovens profundamente corrompidos por quedas morais desse tipo, com conceitos pervertidos sobre o relacionamento entre moças e rapazes são de uma fragilidade que não é fácil corrigir. Igualmente, o serviço mais elevado, o de Deus, torna-se para eles mais dificilmente acessível. E os próprios casamentos não são preparados com a elevação de alma com que se deveria encarar.

 

Quem sou eu?

É preciso que você mesmo, perante Deus, seja objetivo para responder a algumas perguntas.

— Quando um assunto me interessa, por acaso eu tento refletir ou me contento em copiar no computador após uma breve leitura?

— Acontece-me de preencher a ociosidade colocando-me na frente da tela sem saber o que realmente vou fazer?

— Se tenho filhos ou netos, por ventura tenho a imprudência de me refugiar no fato de que eles são “bons filhos totalmente confiáveis” para que eu não esteja presente em suas atividades diante da tela?

— Sou um curioso por elementos insípidos, medíocres ou malsãos da vida dos outros, amando passear por eles ou lê-los?

— Sou capaz de permanecer só, de percorrer um trajeto, de encarar horas de trabalho ou de silêncio sem mandar mensagens de texto que poderiam ser enviadas depois ou não existir?

— Sou um comentador incompetente que tem prazer em dar opinião nos fóruns? Sou um impulsivo que emite opinião em baixo das páginas que a solicitam?

— A fim de resistir mais facilmente ao pecado, estou usando os aparelhos de um modo que refreie as tentações?

— Em resumo, sou mestre de minha máquina, ou é ela que me impõe seus horários, e se impõe sobre mim?

 

Se você não tem a humildade e a simplicidade de se fazer essas perguntas e de respondê-las, então você corre um duplo risco, humano e espiritual:

- a perda do que deveria ser a grandeza da sua personalidade e

- a perda da vida da Graça.

 

Rumo a resoluções concretas

- Uma resolução se impõe claramente: um computador não deveria nunca ficar num quarto privado.

- Nada é menos propício à virtude que distribuir acesso à internet sem fio em toda a casa. Não se pode deixar enganar: que seja pelo próprio telefone, seu telefone emprestado, ou pelo de um amigo convidado à casa, seus filhos e seus “mais velhos” explorarão essa abertura... e infelizmente para o mal, uma vez ou outra. Desconectar esse modo de emissão é extremamente simples.

- É preciso se exercitar a não deixar seu tempo ser absorvido por esse aparelho, ser capaz de ligá-lo durante a estrita duração prevista. Devemos usar aquilo que é útil, não abusar dele.

- Nem tudo é “pecado” toda hora; mas a convergência e o desequilíbrio dessas técnicas materiais são muito notavelmente nocivos e desestruturantes. Quando os utilizamos, levantemos a questão de saber se esses instrumentos nos são necessários naquele exato momento. Como todo comportamento humano em que a paixão pode dominar, não se pode omitir um verdadeiro espírito de penitência, portanto um exercício de restrição em união à Cruz.

 - Quando da simples infância, até 12 anos, não há nenhuma razão verdadeira para deixar uma criança diante do computador. Os jogos no real são o procedimento normal de despertar para o mundo que a rodeia.

- Na idade seguinte, só se pode tratar de iniciação a coisas úteis como o processamento de texto, ou edição de fotos. Isso freqüentemente basta para divertir esse pré-adolescentes. Essas experiências não têm necessidade de ser prolongadas fora da presença efetiva e atenta dos pais.

- Não existe nenhuma justificativa para que uma criança tenha seu endereço de e-mail, ou que o administre sozinha. As mensagens, nesta idade, não são mais úteis por e-mail do que se as recebesse pelo correio. Se abrirmos essa porta à criança, as tentações se multiplicarão ao infinito. Está-se a um clique de distância do pecado mortal!

Por que tantas crianças e adolescentes têm em suas mãos telefones com acesso à internet[28]? Quanta falta de vigilância! Alguns têm plano de internet, outros usam secretamente a rede da casa. Muitos pais também permitem que seu próprio aparelho seja usado, o que dá no mesmo.

- Sabemos por experiência que as crianças que possuem dispositivos de áudio escutam muitas músicas que fogem ao controle dos pais. É de espantar, pois, se elas possuírem um tablet ou um computador, se introduzirem, à revelia dos pais, filmes ou jogos de grafismo duvidoso em casa?

Quando o computador se torna necessário

Para um grande número de pessoas, é evidentemente impossível viver sem esse instrumento, porque toda a vida não pode ser vivida sem utilizá-lo! Esse é sem dúvida o verdadeiro problema.

Se para um jovem, por exemplo, as exigências dos Estudos Superiores exigem a posse de um computador pessoal, então aparentemente não há o que fazer. Começa uma imensa luta moral. Raros são os que não sofrem os prejuízos[29].

Enquanto os pais se ocupam com tanta ansiedade e zelo da seqüência dos estudos, da hospedagem dos seus “mais velhos”, não é sábio aceitar essa importante mutação de sua vida sem ter negociado com eles um acompanhamento espiritual com um padre, e o esclarecimento periódico de sua consciência nos retiros espirituais[30]. “Eles não têm tempo”, dirão... mas eles encontrarão tempo para os deslizes morais!

Assim como os jovens, os adultos de todas as idades que são afrontados com o uso necessário desses instrumentos deveriam demonstrar bom senso, e se voltar a questionar diversos temas.

 

No que concerne à inteligência:

- Qual deve ser meu uso desse instrumento para manter minha inteligência aberta ao verdadeiro raciocínio e aos esforços especulativos?

- Como manter um distanciamento por meios naturais a fim de preservar minha liberdade de juízo?

- Como lutar para não se afundar na preguiça intelectual, na ignorância dos livros e da cultura?

 

No que concerne à vontade:

- Quais regras me impor para permanecer no campo do estritamente utilitário, e das relações familiares, amigáveis, legítimas e mesuradas?

- Quais correções trazer para evitar as ocasiões de pecado...

• ...com relação ao dever de estado que é omisso, ou feito de forma difusa, à imensa perda de tempo, ao excesso de lazeres?;

• ...com relação às relações que poderiam ser perigosas para mim?;

• ...com relação ao que me faz causar dano ou aceitar o que é prejudicial à reputação dos outros?;

• ...com relação à vida de família que sofre, talvez, um desconforto ou atenuação notável?;

• ...com relação à virtude da pureza? e

• ...com relação à fuga da vida espiritual?

Ora, trata-se da própria arquitetura da vida humana.

Esse novo combate é particularmente difícil: ele ultrapassa verdadeiramente as forças de nossa natureza humana. Mesmo a convicção sobre a necessidade de “higiene psicológica” não basta para se manter firme nessas resoluções. Sem um verdadeiro aprofundamento espiritual, os desvios continuarão a invadir nossa vida. Devemos nos impor o silêncio, os momentos de solidão, de leitura, de reflexão, retornemos ao real! Demos tempo a Deus!

Compreende-se por que razão os pregadores de retiros insistem sobre a “regra de vida”. É o único termômetro de nossa independência e da nossa lucidez.

No momento do nosso exame de consciência quotidiano e de nossas confissões, não podemos evitar de fazer esforço para julgar novamente perante Deus a fidelidade de nossas resoluções neste domínio, em função das transgressões fáceis para nós e para aqueles sobre quem temos responsabilidade moral.

É somente a partir dessa disciplina de vida que se pode ser beneficiado pelas enormes aberturas da técnica, tanto para o trabalho quanto para os avanços contra-revolucionários. Mas isso só é possível se nossa alma está acostumada a esse combate espiritual. Caso contrário, ela se encontra ameaçada de ser arrastada na torrente de irreflexão e de paixões desordenadas.

 

 

V – Germes de esperança

Esse afresco dos últimos anos e seus ganhos tecnológicos põe em evidência as provações do destino humano: muitas descobertas e progressos seriam aperfeiçoamentos consideráveis para a existência se o homem encontrasse a justa medida no seu emprego. Esses poucos aparelhos enunciados deveriam unir os amigos afastados, permitir a troca de documentos com facilidade, colocar à disposição bibliotecas inteiras, abrir o espírito para coisas ignoradas.

Entretanto, quanto mais invenções despertam os comportamentos primários, passionais, até mesmo carnais, mais se torna difícil contê-los ao seu único campo de utilidade.

Diante dessa aceleração imprevisível, nossa geração comumente corre riscos inúteis, por excesso, por falta de equilíbrio. Não estamos dizendo que esse equilíbrio será fácil de se reencontrar. As solicitações são muito numerosas, muito acessíveis, e elas anestesiam os comportamentos. Nosso mundo tem, portanto, necessidade de força sobrenatural.

Acaso não temos essa vocação magnífica de cristãos de primeira linha? Se na época dos jogos de circo ser cristão era heróico, nosso século requer um heroísmo ainda maior: com efeito, não são mais os corpos que são mortos, mas as almas que morrem. Os que resistem são esses mártires do cotidiano, os únicos que difundem a Graça do Evangelho.

Esse grande combate do inferno contra as almas ultrapassa de muito longe o que poderíamos imaginar. Vocês são pais ou jovens do mundo atual em situações bem concretas. É evidente que, nesse combate, estabelece-se uma mescla de armas sobrenaturais e de vigilância natural. Se não existe regra absoluta para suprimir o joio no campo do mestre, é nosso dever abrir os olhos para os grandes traços do maligno que tritura literalmente a natureza humana.

O grito de alarme está na boca de Jesus: “Quando vier o Filho do homem, julgais vós que encontrará fé sobre a terra?[31]. O mais freqüente é perder a Fé pela perda da moral. Quando a isso se acrescenta o hábito de utilizar mal as capacidades de nossa inteligência e nossa vontade, qual acesso restará à Verdade?

A graça se desenvolve sobre uma natureza que a ela se predispõe. O resto é da ordem do milagre excepcional e que não é esperado. “A graça perdoa tudo, mas a natureza, ao contrário, capitaliza os erros” (existem santos inválidos, mas não são eles que se mutilam).

Sem a reordenação das predisposições naturais, é impossível transmitir a civilização. A verdadeira força contra-revolucionaria é a força do caráter.

Por piedade pela nova geração,

• pela beleza de sua inteligência,

• pela força de sua vontade,

• pela grandeza de sua capacidade de amar,

• pela pureza de sua virtude,

os pais devem reencontrar o funcionamento natural, o uso limitado das imagens e dos espetáculos, as relações verdadeiramente humanas, a vigilância para com o que pode desviar.

Os grandes elementos que permitirão permanecermos “em pé” na crise são propriamente de ordem da “perfeição evangélica”: o espírito de pobreza é o elemento predominante ― nele, encontramos o amor da cruz, e o uso racional das coisas da terra. A sua linguagem habitual — que não é a do mundo — é ensinar que nenhuma vida pode ignorar a Cruz.

São Luís Maria Grignion de Montfort falava de modo profético dos apóstolos dos últimos tempos[32]: pois quanto mais o mundo avança, mais os riscos de perder a alma constituem uma espécie de fascinação, de sedução tanto pelos erros quanto pelo mundo[33], ameaçando até os eleitos. Ele assinala que os chamados por Deus não poderão se manter firmes senão com uma especialíssima ajuda de Nossa Senhora. Consagração ao seu serviço, devoção profunda, recitação cotidiana do Terço parecem ser indispensáveis para encontrar o verdadeiro caminho nesta debacle universal, e para tomar o gosto da verdadeira liberdade de espírito, aquela que é o desabrochar da obra da Redenção em nossas almas.

 

(Communications, écrans, internet, jeux vidéo... et si on faisait le point! -- Conférences données en 2013-2014. Tradução: Permanência)

 


[1] Televisores, computadores — profissional, familiar ou individual — conexões de internet, celulares, tablets, videogames.

[2] Poderíamos citar os magníficos exemplos de V. Volkoff, em suas obras sobre a desinformação.

[3] Poder-se-ia objetar: a chegada da imprensa modificou também fortemente nossa maneira de fazê-lo. É simultaneamente verdadeiro e falso: porque a transmissão do que é pensado faz também parte do comportamento humano. Não se transmite apenas pela palavra, mas também por sinais, gestos. A multiplicação dos sinais convencionais que chamamos a escrita tem antes tendência a fortalecer o espírito de abstração que a diminuí-lo.

[4] Philippe Meirieu, psicólogo cuja influência é forte sobre a Educação Nacional, Une autre telévision est possible — Ed. de la Chronique sociale.

[5] Pela técnica denominada o FMRI ou Functional Magnetic Resonance Imaging (imagem funcional por ressonância magnética), mede-se o fluxo sangüíneo localmente de maneira muito fina: com efeito, quando um grupo de neurônios, em alguma parte do cérebro, é excitado (ativado) por um ou mais estímulos, estes últimos têm necessidade de um maior fluxo de oxigênio para realizar sua tarefa; em conseqüência, localmente, o fluxo sanguíneo é acelerado.

Pode-se então seguir de perto as partes do cérebro solicitadas para cada atividade, o que põe fortemente em relevo as dissonâncias que engendram os novos modos cognitivos com os circuitos normais, e certas atrofias conseqüentes. Pode-se ler com proveito:

• Böttger S et al. — Brain Research (2010) vol. 1354 pp. 132-139. Differences in cerebral activation during perception of optokinetic computer stimuli and video clips of living animals: an FMRI study.

• Fraedrich EM et al. — Neuroreport (2010) vol. 21(8) pp. 596-600. Spatiotemporal phase-scrambling increases visual cortex activity.

[6] O computador — cujo ancestral é a máquina de calcular de Pascal em 1642 — pretendia ser um utensílio de cálculo de alto desempenho, capaz de reproduzir os encadeamentos lógicos humanos.

 

A chegada do célebre Apple II, concebido por Steve Jobs e Steve Wozniak em 1977, revolucionou o conceito ao introduzir o computador na microempresa, e difundir o computador pessoal. O processamento de texto, e depois a edição de imagem abriram o caminho para o jogo sobre tela.

[7] É importante retomar a verdadeira definição da virtude moral de “prudência”, que confere uma facilidade para julgar com retidão o que se precisa fazer para alcançar o bem. Essa virtude está, portanto, na encruzilhada de todo o comportamento humano.

[8] Em 16 de dezembro de 1997, centenas de japoneses foram hospitalizados depois de terem assistido a um episódio de Pokemon na televisão! A sociedade japonesa foi obrigada a corrigir um episódio em que o número de flashes foi destruidor. Isso significa que submeter os jovens a uma dose menor de flashes seria razoável e moral?

[9] Desde então, foi preciso abrir serviços hospitalares especiais para tratar pessoas atingidas por esses problemas (os “game-addicts”).

[10] A dopamina é um neurotransmissor sintetizado por certas células nervosas. O estímulo, ou inibição das redes produtoras e receptoras de dopamina condicionam o interesse ou desinteresse por uma ação. Experimentos com animais mostram que um estímulo artificial dessas redes cria uma impressão de prazer fabricado que pode conduzir a desordens de comportamento, como esquecer-se de se alimentar.

[11] No momento são chamados pelas iniciais de uma sigla americana: os MMPORG (Massive Multiplayer Online Role-Playing Game).

[12] Charles Baudelaire. Citado em “Le dossier noir du cannabis”, Serge Lebigot, Ed. Salvator 2013.

[13] Evidentemente, existem casos em que alguma rede social pôde, de modo fortuito, fazer bem a um infeliz... mas a custo de quantas pessoas destruídas!

[14] Um estudo do Arcep, publicado recentemente, revela que o número de mensagens trocadas entre os franceses ao longo dos três últimos meses nunca foi tão alto. Os maiores usuários são os adolescentes, que em média enviam 83 SMS por dia.

[15] Por outro lado, boa parte desses professores tem outra vida profissional.

[16] Enquete internacional “a saúde dos adolescentes em foco” – HBSC 2010 (Health Behaviour in School-aged Children). Enquete que surge a cada quatro anos desde 1982, sob a égide da OMS.

[17] O suicídio representa uma grande proporção das mortes entre os 25-34 anos: 20,6%. Portanto, é de longe a primeira causa de mortalidade nessa faixa etária. Ele representa a segunda causa de mortalidade (após os acidentes de trânsito) entre os 15-24 anos (16,3% de mortes). Fonte: Ministério dos negócios sociais e da saúde da França – 4 de julho 2013.

[18] Discurso aos profissionais do cinema que participaram do Congresso internacional em Roma, 28 de outubro de 1955.

[19] “É preciso, portanto, dar bastante atenção a esse caráter sugestivo das transmissões televisivas na intimidade do santuário familiar, onde sua influência será incalculável sobre a formação da vida espiritual, intelectual e moral dos membros da própria família, e sobretudo dos filhos, que sofrerão inevitavelmente o fascínio pela nova técnica. Se é verdade que ‘uma pequena quantidade de fermento leveda a massa’ (Gal V, 9), e que na vida física dos jovens um germe de infecção pode impedir o desenvolvimento normal do corpo, quanto mais um elemento novo na educação pode comprometer o equilíbrio espiritual e o desenvolvimento moral!” Pio XII – Exortação sobre a televisão, 1º de janeiro de 1954. A. A. S. XXXXVI, 1954, p. 21; cf. Documents Pontificaux 1954, p. 17.

[20] Irmã Lúcia, que viu a Santíssima Virgem em Fátima, redigiu a um de seus confessores (Dom Manuel Ferreira), em 28 de fevereiro de 1943, uma carta em que ela relata que o Cristo lhe fez saber numa revelação, numa quinta-feira 12 de junho de 1941 (que foi festa de Corpus Christi) que Ele deseja que se faça compreender as almas que a verdadeira penitência que Ele quer e exige agora consiste antes de tudo no sacrifício que cada um deve se impor para realizar seus próprios deveres religiosos e seus deveres de estado.

[21] Catecismo de São Pio X, 3ª parte, capítulo 5.

[22] Ibidem.

[23] Um funcionário pára 1h37min por dia na internet no escritório, ou seja, oito minutos a mais que em 2011. 59% desse tempo é de uso pessoal, diz-nos um estudo Olfeo de 2013, o que representa uma soma de 28,5 dias por ano!

[24] Um adolescente (91,5%) passa em média duas horas por dia em frente da tela, portanto mais que nos estudos. O tempo de sono é inexoravelmente diminuído. — Enquete internacional “a saúde dos adolescentes em foco” – HBSC 2010 (ver nota 16).

[25] A internet foi criada em razão de um imperativo militar, em plena Guerra Fria, por volta dos anos 1950. A fim de encobrir possíveis interrupções das comunicações simples, surgiu a idéia de um tipo de rede.

Seu desenvolvimento comercial explodiu graças à chegada da micro-informática individual. Ela se impõe doravante em três direções:

• as informações (concernentes tanto aos acontecimentos recentes como para recolher elementos esparsos de conhecimentos em todos os domínios);

• a comunicação, a possibilidade de trocar opiniões a despeito da distância ou dos conhecimentos (aqui entram as mensagens, mas também os fóruns, os blogs, as redes sociais...)

• as distrações: os jogos, espetáculos, vídeos de curiosidade...

Entre os adultos, na hora presente, vêm em ordem de preferência os blogs e fóruns, em seguida os sites de compartilhamento de vídeos, de notícias e as redes sociais... (cf. enquete ut supra).

 

[26] A calúnia é um pecado que consiste em atribuir ao próximo faltas e defeitos que ele não tem. A difamação consiste em levar ao conhecimento do próximo defeitos dos outros, podendo prejudicar indevidamente a sua reputação. O juízo ou suspeita temerário é um pecado que consiste em julgar mal ou suspeitar o mal do próximo sem justo motivo. O grande catecismo de São Pio X trata dele na 3ª parte, capítulo 3.

[27] Essa imunidade é aparente. Sabemos, doravante, que os dados são conservados praticamente de modo perpétuo. Há o que temer.

[28] “Se acreditarmos numa enquete de TNS Sofres para o cômputo da União nacional das associações familiares (Unaf) e Action Innocence, 34% das crianças de dez anos estão equipadas com telefones celulares multifuncionais que fornecem acesso à Internet... Com 15 anos, 56% dos adolescentes vivem com um Iphone, um Samsung Galaxy ou um BlackBerry. Um objeto com alto poder de causar dependência que os mantém em ligação permanente com todos os seus amigos e provoca não pouca exasperação e altas crises na família...” – Le Parisien – 24/10/12.

[29] Acrescentemos de passagem que é também extremamente grave que essas tolerâncias — já nocivas aos adolescentes — sejam estendidas aos pré-adolescentes e aos menores da família, independentemente dos pais, pelos irmãos mais velhos que emprestam seu aparelho.

[30] Entre os retiros, o lugar de honra recai sobre o método dos “Exercícios espirituais” de Santo Inácio, que constitui um meio perfeito para reajustar regularmente os fundamentos da vida espiritual e humana.

[31] Lc 18,8.

[32] Tratado da verdadeira devoção a santíssima Virgem – s. 58

[33] Ver Mt 24, e Ts 2, em particular.

Mamãe, conta uma historinha?

Irmãs da Fraternidade Sacerdotal São Pio X

 

“Era uma vez um anjo muito bonito que se chamava Rafael...” Pedro está sentado no chão, aos pés da sua mãe. Domitila se espreme no sofá enquanto Ágata, ajoelhada, chupa o polegar. Os três prestam atenção na sua “alegria da noite”: mamãe contando uma história...

Desde o Gilgamesh, a mais antiga epopeia da humanidade, escrita 1.800 anos antes de Cristo, passando pela Ilíada e a Odisseia, que Homero recitava de casa em casa, e pelas Canções de Gesta, que os trovadores narravam a nossos antepassados, até os contos que nossas vovós contavam perto do fogo, os homens de todas as idades e de todos os tempos sempre gostaram de ouvir histórias.

É muito natural. Por meio de nobres epopeias ou de simples contos, as histórias, sejam ingênuas, fantasiosas, engraçadas ou trágicas, transmitem, num clima de poesia, uma cultura, uma civilização, uma concepção do homem e do mundo. Ao tocar os sentidos e a imaginação, elas nos fazem refletir sobre o bem e o mal, a vida e a morte, os trabalhos e as conquistas, nossa condição humana e o sentido do nosso destino.

Aí está a importância das histórias para a formação de nossos filhos. Mas, não se contentem, queridos pais, em deixar os seus filhos lerem sozinhos. Contatas por vocês, as histórias adquirem uma força de persuasão e uma autoridade muito maior; elas se revestem da sua própria experiência de vida, ao passo que o tom da sua voz, seus gestos e mímicas capturam a atenção e dão vida às histórias.

 

Ao redor da lareira

Havia um momento privilegiado para contar histórias, como bem sabiam os nossos antepassados: era quando, terminado o trabalho do dia, toda a família se reunia em volta da lareira. Era um costume excelente contar cada dia uma história, ou um capítulo de uma narrativa maior, a ser continuada no dia seguinte. Esse momento tão esperado, de abraços e de felicidade, é um bom incentivo para as crianças que demoram para se preparar para dormir. “Quando todo mundo estiver pronto, com os dentes escovados, vou contar uma história”, anuncia a mãe: eis uma frase mágica para apressar quem está molengando!

No entanto, é preciso atentar para que a história contada à noite não seja excitante demais, a menos que se torne calma no final: é difícil pôr para dormir um pequeno “Ivan, o cavaleiro do leão” de pijamas, reproduzindo com as pantufas, ao lado do irmão, a cena do torneio. Com crianças de temperamento muito sensível devemos evitar histórias “que dão medo”, com canibais, lobos etc, que podem causar pesadelos. Para essas histórias, devemos preferir contá-las durante o dia, durante o sono da tarde dos irmãozinhos, por exemplo; os maiores não ficarão assustados e estarão prontos para ir brincar em seguida, enquanto a grande luz do dia dissipa o terror.

Que história escolher? Uma história bela e apaixonante, claro! Pode ser uma história real, como a vida dos santos e dos heróis (ou episódios delas); esses modelos a serem imitados entusiasmam particularmente os maiores. A história também pode ser inventada; basta ouvir a fórmula maravilhosa, “era uma vez...”, que ninguém mais se impressiona com animais que falam ou abóboras que viram carruagens. No entanto, as crianças gostam mais das histórias reais, e os maiores costumam perguntar: “Isso aconteceu de verdade?”  Se for o caso, eles saborearão o enredo de modo muito profundo e se sentirão tocados. Se a resposta for negativa, se a história for inventada, ficarão certamente contentes com esses momentos tão agradáveis, mas não darão tanta atenção ao seu conteúdo. Essa reação infantil tão marcante nos recorda, em pequena escala, que todo ser humano é feito para a verdade, para o belo e para o bem soberano que é Nosso Senhor Jesus Cristo.

A história deve ser moral, ou seja, o pecado jamais deve ser apresentado de modo atraente (salvo brevemente, para explicar uma tentação; mas então seguirá o relato da luta vitoriosa ou das consequências nefastas da derrota); o bem nunca será alvo de zombaria. Os vencedores não serão “espertalhões” e sim homens virtuosos. Contudo, uma história “moral” não é necessariamente uma história “moralizante”, no sentido pejorativo do termo, designando uma história desagradável, cujos personagens são dotados de uma psicologia simplória, e terminando em alguma conclusão moral forçada. As editoras da Tradição publicam bons livros para as crianças. Pode-se também encontrar alguns clássicos a preços módicos nos livreiros. Fora disso, é preciso conhecer a história antes de contá-la aos pequenos.

A história deve ser adaptada à idade e à capacidade de compreensão dos ouvintes. Os pequeninos, que ainda não sabe ler, tem ainda mais necessidade do que os outros de que as histórias lhes sejam contadas. Não se espantem se pedirem para ouvir de novo e de novo a mesma história que tanto amam, e que já conhecem quase de cor. É normal nessa idade: as crianças se sentem reconfortadas ao pisar em terreno conhecido, e amam reviver os mesmos sentimentos que experimentaram da primeira vez.

No entanto, os mais crescidos preferirão ouvir histórias diferentes a cada vez, e sua capacidade de atenção lhes permitirá acompanhar histórias “a serem continuadas” a cada noite. Pode acontecer dos filhos adolescentes acharem que ouvir histórias é "coisa para bebês", que não é próprio para a sua idade. Nesse caso, há muitas possibilidades, conforme a personalidade de cada um: podemos deixa-los à vontade para não prestarem atenção às histórias contadas para os mais novos e se dedicarem às suas leituras; ou contar duas histórias: uma para os pequenos no início da noite, e outra adaptada para os mais velhos mais tarde, depois dos irmãos terem dormido; finalmente, podemos estimular um adolescente a participar da história, lendo ou interpretando um dos papéis.

 

Simplesmente ousar

Pode ser que você ainda hesite em começar a ler para os filhos: “Não sou bom de histórias, me atrapalho quando leio”. Não tenha medo: as crianças são um bom público e ficam muito contentes quando um adulto decide se ocupar delas. Comece com uma história de que gosta e conhece bem, a que preferia quando era criança, por exemplo. Isso permitirá que não tenha de ficar com os olhos presos ao texto, e poderá se soltar do relato e tornar a história mais viva pelo seu tom de voz, gestos, olhando sempre para os pequenos ouvintes. É preciso esquecer de si mesmo nesses momentos, não prestar atenção na própria voz, nem hesitar em se fazer pequeno com os pequenos. O olhar radiante das crianças servirá de encorajamento e, rapidamente, lhe dará confiança.

E se você ainda não estiver convencido, considere simplesmente o exemplo de Nosso Senhor contando uma parábola: que contador deveria ser! Como gostaríamos de fazer parte daquele auditório, saboreando cada palavra! Ele soube nos fazer compreender as verdades mais elevadas por meio de histórias bem simples, e suas belas parábolas, como a ovelha desgarrada, o filho pródigo, a pedra preciosa ou a dos talentos, continuarão a encantar os homens até o fim do mundo.

(Fideliter no. 255. Tradução: Permanência)

Como lidar com o seu filho

Michael J. Rayes

 

[Nota da Permanência: O leitor interessado no tema dos quatro temperamentos encontrará um estudo valioso publicado na Revista Permanência no. 270, à venda na nossa livraria]

Você está disciplinando dois dos seus filhos. Um deles está bem na sua frente com olhar firme na cara, ouvindo seu sermão e seu tom de voz ríspido. O outro está do seu lado e não consegue sequer olhar para você. Ele começa a chorar. Por que as crianças reagem de modo tão diferente à mesma coisa?

Talvez você já tenha lido sobre os quatro temperamentos. Mas o que isso tem a ver com você enquanto pai hoje? Como aplicar o conhecimento dos temperamentos ao seu estilo de educação? Talvez você já tenha uma ideia genérica de que não pode responder a cada filho da mesma maneira, mas modificar seu jeito para se adaptar às necessidades de cada um deles. No mundo real, como reagir do modo mais eficiente e caritativo a cada um de seus filhos?

 

Temperamento e personalidade

O que é o temperamento, afinal de contas? Temperamento é algo que alguém está inclinado a fazer devido ao modo como foi “programado” no nascimento. A personalidade combina o temperamento com o sexo, a educação (inclusive o ambiente familiar), a força de vontade interna, os hábitos adquiridos da pessoa e outros fatores externos e eventos na vida.

Então o temperamento é como você nasceu, mas a personalidade é o que você se torna. O temperamento é como você reage a algo. Você já percebeu que algumas pessoas são naturalmente agitadas, enquanto outras são naturalmente calmas? Isso é o temperamento.

Sua personalidade como um todo enquanto adulto é a combinação do temperamento com os outros fatores mencionados acima. Por exemplo, dois sanguíneos de 25 anos terão personalidades muito diferentes se um cresceu em Beverly Hills, e o outro no Afeganistão. A força de vontade também tem muito a ver com a personalidade de um adulto. Dois coléricos de 50 anos que viveram suas vidas inteiras na mesma cidade, na mesma cultura e no mesmo background familiar terão personalidades diferentes se um deles passou os últimos 30 anos, deliberadamente, tentando conter suas paixões e arranjando tempo para oração privada.

Por que levar em conta os temperamentos, então? Estamos etiquetando as pessoas? Não exatamente. Perceba que, quando falamos da personalidade de alguém, estamos nos referindo a adultos apenas. As crianças não têm personalidades plenamente formadas, e, portanto, nós olhamos para o temperamento delas. Elas estão muito mais propensas, por estarem no seu estado temperamental “cru”, a reagir a eventos de maneira previsível. Os pais podem usar sua compreensão do temperamento dos filhos para facilitar seu trabalho.

 

Como determinar o temperamento do seu filho

Dê uma olhada nessa tabela e veja quais atributos, reações e orientações sua criança tende mais a exibir. E lembre-se: provavelmente ninguém tem um temperamento puro. Somos combinações de temperamentos dominantes e secundários (ex: sanguíneo colérico)

 

Temperamento

Tipo

Atributos

Reação

Orientação

Necessidades

Colérico

(C) intrometido
(A)  realizador

Ambicioso, ativo, insensível, autoritário

Rápida, profunda

Tarefas

Lealdade dos demais, ocupação

Sanguíneo

(C) brincalhão
(A) festeiro

Palhaço, amigável, extrovertido, sem foco, dramático, ativo.

Rápida, superficial

Diversão

Diversão, grupos, pessoas

Melancólico

(C) preocupado
(A)  meticuloso

Introspectivo, introvertido, preocupado, temperamental, s/ autoconfiança

Lenta, profunda

Detalhes

Apoio, elogio

Fleumático

(C) desleixado
(A) pacificador

Lento, pode ser preguiçoso, calmo, passivo, cabeça-dura.

Lenta, superficial

Ideias

Paz, harmonia

             

(C) Criança; (A) Adulto

 

Abordagem prática para a vida familiar

Em uma família grande, você pode juntar os filhos mais velhos e os mais novos para cuidarem dos irmãos, em vez de simplesmente contar com o filho mais velho para cuidar da tropa inteira. Por exemplo, junte um fleumático mais velho e calmo com um colérico mais ativo em idade pré-escolar; um melancólico preocupado mais velho com um sanguíneo mais novo e otimista.

Na hora da tarefa de casa, os sanguíneos costumam gostar de ter música tocando no fundo enquanto começam os trabalhos. Muitos melancólicos não podem ouvir música nessas circunstâncias, pois isso tiraria seu foco. Você pode ter que separar as crianças para que elas não se distraiam umas às outras.

Vamos usar a matemática como exemplo de como iniciar as tarefas escolares de casa. O pai pode usar uma das seguintes abordagens a depender do temperamento do filho:

Se o filho for colérico, o pai pode dizer: “Aqui está sua tarefa de matemática. É muito importante, pois nos ajuda a pensar e a resolver problemas. Você consegue resolver essa tarefa?”

Para o sanguíneo: “Aqui está sua tarefa de matemática. Faça apenas metade por enquanto, tudo bem? Vamos começar a primeira juntos”.

Para o melancólico: “Sente aqui comigo, e vamos começar a tarefa de matemática juntos”.

Para o fleumático: “Hora da tarefa de matemática. Vá lá e faça a tarefa agora. Vamos começar agora mesmo”.

Repare nos pontos centrais: com o colérico, o pai enfatiza que a matemática é importante e, então, desafia a criança; com o sanguíneo, o pai compartilha o trabalho com o filho para que ele não esteja só e diminui a quantidade de trabalho (por enquanto); o filho melancólico recebe apoio por estar junto do pai; e o fleumático ouve a palavra “agora” mais de uma vez.

 

Como ensinar crianças temperamentais

Crianças coléricas não têm muita paciência para aulas longas e chatas. Essas crianças podem praticar bullying na escola se não receberem atividades suficientes.

Crianças sanguíneas têm problemas de concentração. Você não pode dar a elas um monte de material de estudos e dever de casa e ir embora, como faria com um colérico. Elas precisam de monitoramento frequente. Dê prazos a elas e recompensas. Elas gostam de ver o todo, mas é preciso dividir suas tarefas para que possam se concentrar melhor assim. Se for divertido, elas farão sem a menor dificuldade; se não for divertido, será como mover montanhas.

Crianças melancólicas precisam do seu próprio espaço. Precisam de ordem, estrutura e rotina. Elas, normalmente, são as vítimas do bullying escolar. Conseguem fazer toda a tarefa de casa uma vez que sintam que tem o apoio de que tanto necessitam e, então, ficarão confortáveis trabalhando. Se não estiverem acostumadas com uma tarefa, sua timidez as impedirá de fazê-la. Quando uma criança melancólica precisa de ajuda com a tarefa escolar, virá diretamente a você. Quando uma criança sanguínea precisar de ajuda, vai se esgueirar silenciosamente em direção a outra coisa mais divertida.

Crianças fleumáticas têm traços de teimosia. Elas não costumam realizar grandes façanhas e podem se comprazer apenas em ver as outras crianças brincarem. Precisam ouvir, respeitosamente, que é hora da próxima atividade ou tarefa. Essas crianças precisam de paz e harmonia. Se o mau desempenho delas for apresentado como um problema, elas se sentirão motivadas a consertar isso para que possam retornar à sua rotina normal, pacífica. Elas também precisam de respeito e são desencorajadas por ranzinzices.

Como você elogia seu filho vai depender do temperamento dele. Ao colérico diga: “Gostei do seu trabalho”. Ao fleumático: “Eu gosto de você”. Uma criança sanguínea precisa ouvir: “Você é bonita!” Mas o melancólico precisa ouvir: “Bom trabalho”, ou “Gostei do jeito como você fez isso!”

Em outras palavras, os coléricos precisam de reconhecimento pelo que fazem. Fleumáticos precisam de reconhecimento por simplesmente serem o que são. Sanguíneos precisam de reconhecimento pela sua aparência ou pelo modo como agem. Melancólicos precisam de reconhecimento pelo modo com que fizeram algo. Lembre-se, o elogio que você faz a cada filho precisa ser específico, ou vai soar falso.

 

O que toda criança precisa

Os quatro tipos de temperamento são diferentes, mas todas as crianças são criadas à imagem e semelhança de Deus, e todos têm livre arbítrio para escolher seu comportamento. À luz disso, há algo de que todo tipo de criança precisa? Que traços universais ajudarão as crianças a crescerem e irem para o céu?

 

A resposta é amor e estabilidade

Quando os pais se amam, amam seus filhos e proporcionam um ambiente emocionalmente estável para a vida familiar, as crianças encontram um lar onde podem prosperar e se tornar adultos católicos. É a isso que Deus lhes direciona no sacramento do matrimônio. O propósito da vida familiar é voltar as almas a Deus. Lembre-se disso quando se sentir exasperado nos problemas com os filhos e serviços domésticos. Ao lhes dar amor, estabilidade e respostas adequadas aos seus temperamentos, estamos fazendo uma obra de Deus.

 

(The Angelus, March/2012. Tradução: Permanência)

Esto vir!

Dom Tissier de Mallerais

Após definir a fortaleza e mostrar em que consiste a disciplina, tratarei do papel da educação na aquisição dessas virtudes segundo Dom Lefebvre. Irei também considerar os defeitos e as virtudes ligadas à fortaleza e à disciplina. Isso nos fornecerá diretivas práticas segundo o modelo de um homem exemplar.

 

Definições de fortaleza

Disciplina é o controle de si, a ordem interior da alma e do corpo, que é a fonte da ordem exterior das coisas e dos homens. É fruto do dom de sabedoria (ordenar é próprio do sábio) e do dom de fortaleza ("sou mestre de mim mesmo e do universo", são as palavras que o dramaturgo Corneille põe na boca do Imperador Augusto).

Fortaleza, ou coragem, é uma das virtudes cardeais; é assistida pelo dom de fortaleza, um dos sete dons do Espírito Santo. O seu objeto é dominar o temor a fim de obter o bem difícil, seja na ordem temporal, como uma grande obra, uma vitória militar, ou na ordem espiritual, como a santidade e a salvação eterna.

 

O papel da educação e da escola na aquisição dessas virtudes

Essas virtudes e esses dons do Espírito Santo devem ser postos em prática desde a primeira infância, em casa ou na escola, para que sejam adquiridos de maneira estável.

O Marechal Foch, comandante supremo das forças aliadas na Primeira Guerra Mundial, via no infatigável trabalho do jovem a fonte do controle de si e da confiança, sobretudo na arte militar, que ele mesmo aprendeu na escola em Metz.

"Não creia em dons da natureza! Creia em trabalho duro!", exclamava a seus aspirantes. É pelo trabalho duro que se obtém conhecimento, e o conhecimento é o que constitui a dignidade do profissional e da sua habilidade. É o conhecimento, adquirido por meio da prática incansável, que o provê da confiança com que é capaz de tomar decisões sem ter de sempre recorrer a conselhos! Essa confiança estabelece o exercício da habilidade de decidir em meio às adversidades, e isso justamente é o que permite que confiemos nele.

O conhecimento adquirido por Foch foi o que lhe permitiu reagir imediatamente ao violento ataque inimigo nos terríveis dias da primavera de 1918: não se apavorou nem perdeu a cabeça, mas movimentou exércitos inteiros para preencher lacunas e contra-atacar com sucesso.

Dom Lefebvre vê a fonte da disciplina no espírito de sacrifício instilado na escola. Em 31 de março de 1982, numa escola, expressou-se deste modo:

"A escola católica", disse ele, "é a escola em que se aprende a disciplinar-se, em que se aprende o sacrifício, já que não se pode ser católico sem sacrifício. Por que sacrificar-se? Para encher-se da caridade e do amor.

"Fomos criados para amar a Deus, amar o próximo: isso é toda a lei de Deus. Não há outra lei. Toda a lei do Evangelho resume-se na caridade. Mas, para nos tornarmos caridosos, devemos nos sacrificar. Se não nos sacrificarmos, não nos devotaremos, não nos daremos.

"O egoísta, que pensa apenas em si mesmo, não é caridoso. Portanto numa escola católica deve-se aprender o sacrifício, a disciplina: a disciplina da inteligência, da vontade, do coração.

"Aprende-se a disciplinar a inteligência por meio do recebimento da verdade, da submissão à verdade ensinada. A verdade nos é ensinada desde cedo na infância até o último dia na escola. Assim se aprende a formar a inteligência conforme a verdade que nos ensina Nosso Senhor Jesus Cristo.

“Aprende-se também a formar a vontade, a discipliná-la. Todos temos defeitos, nascemos com o pecado original, e os efeitos dele permanecem em nós até a morte.

“Assim, temos de lutar contra as más tendências, os maus desejos em nós, e disciplinar a vontade, com a ajuda de Deus e da graça. É por isso que na escola há uma capela, que é o coração, o principal edifício. Tudo se orienta à capela, a Nosso Senhor Jesus Cristo: Ele é a nossa Verdade, a nossa força, o nosso amor.”

 

Defeitos adversos à fortaleza e à disciplina

Por falta de educação, de prática, de exercício, a fortaleza e a disciplina perdem lugar para a covardia e o desleixo, e em vez da coragem vê-se a fraqueza do apetite irascível. O apetite irascível é a paixão da alma, a paixão da parte sensível da alma humana. A paixão irascível deseja e busca o bem difícil, e o apetite concupiscível deseja o bem sensível e deleitável.

A falta do apetite irascível causa a pusilanimidade, a inconstância; também causa hesitação na inteligência, que, em vez de aplicar heroicamente os princípios, procura escapatórias, acordos, diante de um adversário ou de uma adversidade.

Em vez da disciplina, do controle de si, há a raiva (amiúde reação da fraqueza), desordem (na pessoa e nas coisas), e preguiça. O último, a preguiça, não consiste em não fazer nada, mas em preferir o trabalho menos útil ao mais útil e necessário.

Também aqui se vê o vestir desleixado ou o vestir contrário à modéstia corporal. Se compararmos o comportamento e o vestir dos rapazes em 1916 com o dos de 2016, notaremos a perda da virilidade, em apenas um século, da população inteira de um país, graças ao lento progresso de efeminação do comportamento e vestimenta dos rapazes.

 

Repercussão da força física na força da alma

É papel da família católica e da escola católica exercitar as crianças e os jovens na resistência física: através da fadiga, jejuns, vigílias, caminhadas etc.

Uma noite de oração ou uma hora de adoração noturna é excelente exercício de resistência física e piedade. A escola tem aulas semanais de educação física para ensinar os rapazes a ganhar flexibilidade e músculos. Sabe-se bem que a força e o tônus físicos são auxílio ao tônus moral.

O jovem Eugênio Pacelli, alto e magro, praticou exercícios físicos da infância até a adolescência, a fim de poder manter-se sempre ereto. Fazia equitação e tornou-se experiente e incansável cavaleiro nas suas corridas pelo interior romano. Em toda a sua vida, quando de pé, sentado, ou na sela, sempre se esforçou por manter-se impecavelmente aprumado com incansável disciplina corporal. Já como Papa Pio XII, nos visitantes inspirava de imediato respeito: "Só se podia aproximar de Pio XII com grande respeito", lembrava Dom Lefebvre.

 

A prática do controle de si e da ordem

O bom Pe. Barrielle, diretor espiritual do Seminário São Pio X em Écône, ensinou aos seminaristas princípios de ordem que lhes seriam muito úteis na direção de priorados, escolas e distritos. Ensinou as cinco regras do Fayolismo (do engenheiro Fayol, não do General Fayolle, que foi derrotado em 1917), que são, conforme o mesmo padre:

Planejar com antecedência: os objetivos e os meios: lugar, tempo, coisas, atribuições das pessoas. Organizar: as etapas, os gerentes, as reuniões preparatórias. Comandar: tomar decisões, organizar as pessoas com precisão. Controlar: as coisas, as pessoas, lembrá-los dos seus deveres. Trabalho de gabinete: escritos, telefone, arquivos.

Agora um exemplo tirado de Dom Lefebvre. Tão logo retornou de uma viagem, leva a bagagem ao quarto e vai direto à capela rezar o terço em comunidade, embora já tivesse rezado quinze dezenas com o motorista — "os deveres em comunidade têm precedência". Após a refeição, desfaz as malas, e leva a roupa suja à lavanderia. No dia seguinte, abre a abundante correspondência e, com bela e constante caligrafia, responde a cada carta com uma palavra cordial, mesmo que uma delas estivesse cheia de insultos.

À noite, dá conferência espiritual aos seminaristas. Espera ao pé da plataforma até o horário exato. Após o Veni Sancte Spiritus, senta-se com os pés juntos, sem nunca acostar-se. Descansa os pulsos na beirada da mesa e fala (às vezes sorrindo, às vezes sério quando há reprimendas a fazer) com a sua pequena, modesta, mas distinta voz.

Sua batina é simples, não se percebem os botões, amarrada na cintura com a modesta faixa espiritana, e os sapatos esmeradamente polidos.

É o exterior e o comportamento de um modesto sacerdote, de um respeitado e amado líder, que, sem ostentação, é um exemplo de ordem e controle de si para os seus filhos, membros da sua Fraternidade Sacerdotal São Pio X.

De onde recebeu tal disciplina, tal força interior? Certamente da sua família, do pai, que foi chefe de uma indústria; mas também do Pe. Henri Le Floch, reitor do seminário em Roma; e finalmente do noviciado espiritano. Foi bem ensinado, e se manteve homem forte, vir fortis, cuja mansidão conquistou a sua própria alma e a alma dos outros. "Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra." Dito de outra forma, nas palavras de Dom Delatte: "Terram quam terunt, terram quam gerunt, terram quam sunt — terra que pisam, terra que mandam (seus subordinados), terra que são (suas almas)”.

(The Angelus, september 2016 )

Sabemos que devemos amar ao próximo como a nós mesmos, mas como devemos amar a nós mesmos?

Pe. Juan Iscara, FSSPX

 

É necessário ter ideias claras acerca do verdadeiro amor de caridade por si mesmo, porque há muitas maneira de amar a si mesmo que não têm nada a ver com a caridade sobrenatural que deve regular nossas relações com o próximo.

Primeiramente, há o amor sensual, desordenado e imoral, que o pecador professa a seu corpo, dando-lhe todo tipo de prazeres ilícitos.

Também há o amor puramente natural, que consiste em preservar a própria existência e buscar o próprio bem. Não é uma virtude sobrenatural, pois é apenas algo puramente instintivo e natural, mas não é uma desordem em si. Esse amor-próprio é comum a todos os homens, bons e maus.

Há uma espécie superior de amor, o amor sobrenatural de desejo, pelo qual a felicidade eterna da glória do céu é desejada. Ele é bom e honesto, porém imperfeito e, na verdade, pertence à virtude da esperança, não da caridade.

Finalmente, há o amor sobrenatural de caridade, pelo qual amamos uns aos outros em Deus, através de Deus e por Deus. Essa é uma forma perfeitíssima de amor, da mais alta dignidade, pois, tendo Deus como seu motivo formal – embora recaia materialmente sobre outros homens – pertence, propriamente, à virtude teológica da caridade e recebe dela sua excelência. 

De acordo com essas distinções, então, o amor sobrenatural de caridade por si é o ato sobrenatural pelo qual amamos a nós mesmos em Deus, através de Deus e por Deus. O amor de caridade por si próprio estende-se à nossa própria pessoa e a tudo que pertence a nós, tanto na ordem natural, quanto na sobrenatural, pois tudo deve estar relacionado com Deus.

Portanto, em relação à vida natural, o homem tem a obrigação de amar seu próprio corpo e de preservar sua própria vida. O corpo não deve ser amado por ele mesmo, mas por Deus, enquanto instrumento da alma apto a dar honra a Deus e a praticar virtude (Rom 6,13-19), e enquanto templo vivo do Espírito Santo (1Cor 6,19-20), santificado pela graça (1Cor 3,16-17) e capaz da glória eterna em razão da glória da alma (1Cor 15,42-44).

O dever de preservar a vida natural proíbe fazer qualquer coisa contrária à saúde do corpo e exige o uso dos meios ordinários de recuperar a saúde que se perdeu. Mas não estamos obrigados a usar meios extraordinários, a não ser que nossa vida seja necessária à família ou ao bem comum, e haja fundada esperança de sucesso no uso de meios extraordinários à nossa disposição. Porém, é permitido praticar mortificação voluntária, mesmo muito severas, para expiar pecados de si ou de outros que não conformam suas vidas com Jesus Cristo, mesmo que isso acarrete uma redução não pretendida de nossa vida na terra.

Porém, para que essa mortificação seja perfeita e a autoimolação lícita e meritória, ela deve ser regulada pela prudência cristã. Nada pode ser feito contra a obediência, nem algo que tenha a intenção direta de abreviar a própria vida.

Também se pode – e, às vezes, deve-se – sacrificar a própria vida por caridade ao próximo ou pelo bem comum temporal. E, portanto, por exemplo, é lícito e altamente meritório dedicar-se, por caridade, a pessoas com doenças contagiosas, mesmo que haja perigo real de contrair a doença e vir a morrer. O pároco é obrigado a ministrar os últimos sacramentos aos doentes, mesmo que o faça com perigo imediato a sua própria vida.

Como corolário da obrigação de preservar sua vida e de buscar a perfeição humana máxima, o homem deve buscar, por caridade com ele mesmo, um futuro humano digno, proporcional a suas habilidades pessoais e ao ambiente social no qual ele vive. Buscar melhorar seu próprio status e condição social não é apenas lícito, mas até mesmo obrigatório por exigência da caridade com si mesmo.

Mas não podemos esquecer que a vida sobrenatural é incomparavelmente mais importante que a vida natural. Nesse tocante, a caridade com nós mesmos prescreve duas coisas fundamentais: uma negativa, evitar o pecado a qualquer custo; e outra, positiva, praticar a virtude com o máximo possível de intensidade, buscando alcançar as alturas da perfeição cristã.

Se a caridade é amor, e o amor consiste em querer o bem à pessoa que amamos, segue-se que, quanto mais amarmos a nós mesmos com verdadeiro amor de caridade, mais tentaremos buscar o maior de todos os bens, o aumento e desenvolvimento da vida sobrenatural em nossas almas. Um grau maior de graça nesta vida corresponde a um grau maior de glória eterna no céu. Não pode haver ato de caridade maior consigo que buscar, com todas as nossas forças, na grande tarefa de nossa própria santificação, e isso até mesmo se custar a perda de todos os bens terrenos, a saúde corporal e a própria vida.

(The Angelus, Maio/2021)

A restauração da tradição musical

Pe. Hervé de la Tour, FSSPX

Os momentos mais marcantes da nossa viagem de junho para Winona, à parte as ordenações, foram as reuniões noturnas ao redor das fogueiras no acampamento. As famílias se reuniram para cantar e tocar canções. Os jovens gostam das antigas baladas, que se tornaram clássicos, pois perduraram por gerações, tendo incorporado sentimentos pátrios, familiares e religiosos. Estas canções são parte de nossa cultura: músicas irlandesas e escocesas, cantos da Guerra Civil, canções caipiras, etc. Um dos livros musicais utilizados nos saraus traz o seguinte prefácio:

“’Só o amante canta’. Quão profundas são estas palavras de Santo Agostinho! Porque a canção é o casamento entre a poesia e a música e, como em qualquer casamento, tem por motivo o amor. Quer se cante a Deus, ao amado, ou até à pátria, canta-se por amor. O canto às vezes manifesta alegria, às vezes tristeza, mas sempre é uma manifestação de amor. Quem canta vai além do comum, pois deseja expressar algo que não se poderia expressar de outro modo. Assim como o pintor não só desenha alguma coisa, mas a pinta, o cantor não só diz algo, mas o canta.”

“Só o amante canta. Eis a razão por que o canto é tão natural para o católico. A vida católica é uma vida de amor, porque é uma vida de sacrifício. Daí todas as culturas da Europa Católica possuírem (além do sublime canto litúrgico) sua própria música folclórica, com belas canções e danças. Hoje, porém, não mais se canta. À medida que a cultura se torna cada vez menos católica, a verdade descamba e, juntamente com ela, a excelência, a beleza e, é claro, a caridade. Quando o homem se esquece de Deus, só lembra-se de si mesmo. Um homem egoísta não sabe amar, portanto, não é capaz de cantar.”

Henri Charlier foi um dos pensadores católicos proeminentes do século XX. Seus escritos sobre educação assemelham-se muito aos de John Senior. Ambos empenharam-se na restauração da cultura católica. A educação, de fato, foi um dos campos mais prejudicados neste século. Charlier diz o seguinte: “Existem dois tesouros para a educação infantil: as canções folclóricas e o canto gregoriano. Estas duas fontes representam os princípios básicos da tradição musical da humanidade”.

”O canto gregoriano é, sob certos aspectos, uma introdução mais fácil à música, porque nele as notas não têm a mesma proporção. Além do mais, ele nos introduz ao canto dos salmos do Ofício Divino e a uma cultura profunda, acessível a qualquer um através do missal e do breviário. O canto gregoriano, portanto, é o elo natural entre a música e aquilo que um homem fará de mais importante em sua vida”.

“A música folclórica, por sua vez, mantém o homem numa tradição humana, familiar e nacional. É a base e o fundamento do canto gregoriano.”

Como exemplo do que se perdeu e precisa ser restaurado, permitam-me citar A história de uma família, a biografia do Sr. e da Sra. Martin, os pais de Santa Teresinha do Menino Jesus. Ao descrever o Sr. Martin, que foi beatificado pela Igreja, o autor, Pe. Piat, diz:

“Gostava de recitar boa poesia (...) transmitiu a Maria e Teresa grande talento para a imitação. Ele sabia imitar entonações e palavras do dialeto auvernês, cantos de pássaros, tambores e toques de clarim de modo tão preciso, com um ritmo e uma expressividade tão grandes, que se tinha a impressão de estar ouvindo os sons genuínos. Acima de tudo, nutria um verdadeiro culto pelas antigas canções folclóricas e conhecia um vasto repertório delas.”

 

A mais pura forma de beleza

Todos necessitam de música, não importa a idade. Mas essa necessidade aparece com mais veemência na juventude. As crianças talvez não gostem de uma caminhada longa e cansativa, mas irão correr e dançar o dia inteiro sem reclamar. Em verdade, a dança deve-se unir à música, e não separar-se dela. Em nossas paróquias, como a de St. Marys ou Post Falls, as crianças aprendem as tradicionais danças folclóricas (irlandesas, mexicanas, polonesas, etc.).

Eis um conselho sobre a importância de fazer da boa música parte da vida doméstica para as crianças. Retirei-o dos escritos de Myrtle Douglas Keener, renomado educador:

“A educação moderna conduz a criança para longe das coisas ideais e destrói o desejo natural pela beleza. Eliminar a beleza da educação é destruir sua própria alma. Devemos permitir que nossas crianças entrem na vida adulta sem consideração para com a beleza, tendo perdido a verdadeira  inclinação para alcançar o que há de mais profundo na natureza?”

“O canto põe a criança em contato com a forma mais pura de beleza e satisfaz seu anseio natural por melodia e ritmo. Mas, a fim de preservar esse anseio, os pais devem começar o trabalho em casa e não adiar o ensino desse importantíssimo elemento à educação infantil para a escola e para uma idade em que tais desejos inatos se enfraquecem ou se perdem.”

“Como se deve conduzir este entusiasmante trabalho com nossas crianças? O primeiro passo é cantar-lhes belas canções.”

A rainha Isabela de Castela aplicou tais princípios na educação de seus filhos. Eis uma passagem da sua biografia escrita por William Thomas Walsh:

“Gostava de ter cavaleiros que fossem bons músicos. Garcilaso de la Veja, cavaleiro que matou o gigante Yarfe ante os muros de Granada e que depois foi enviado como embaixador a Roma, era excelente harpista. Francisco Penalosa, outro espanhol, foi um dos músicos mais brilhantes do coro papal em que Palestrina, meio século depois, estabeleceria as fundações da música moderna. Isabel quase não viajava sem músicos ao seu redor. Em sua capela havia mais de quarenta cantores treinados, além de organistas e tocadores de clavecino, alaúde, viola bastarda, flauta e outros instrumentos. Ela levava os músicos para o acampamento quando ia guerrear.”

Certa vez se disse: “Tenho pena dos americanos, pois não têm luz, não têm música em suas vidas.” Cabe a nós restaurar a tradição dos cantos folclóricos! Pode-se começar como melodias simples no estilo Mother Goose (Mamãe Gansa) e terminar em canções mais elaboradas. Eis o conselho dado aos pais por Maria Von Trapp:

“Logo que nascer o bebê, a mãe deve cantar para ele. Existem inúmeras canções de ninar, cantigas infantis e pequenas orações que podem ser encontradas em livros musicais. Os pais ficarão impressionados com a rapidez com que os pequenos irão cantarolar uma melodia. Isso conduzirá naturalmente a canto em partes, com a mãe cantando a segunda parte e o pai, a terceira. Cantar é algo natural. Se se pudesse apenas curar aquela horrível fobia com que tanto nos deparamos: ’não posso cantar, não tenho piano em casa!’”.

 

O mais belo instrumento

“O mais belo instrumento é a voz humana, que Deus deu a todos.”

“Tenho anos de experiência aqui nos Estados Unidos e sei  como todos se divertem ao cantar em ‘camadas’. Eis um bom método para consegui-lo: começa-se cantando a melodia em uníssono. Quando todos souberem a melodia suficientemente bem para cantá-la sozinhos, divide-se o canto em duas partes; e mais a frente, em três ou quatro. Logo veremos as pessoas cantarem essas diferentes ‘camadas’ em qualquer lugar em que estejam reunidas, quer estejam sentadas numa mesma sala ou então limpando um jardim. Cantar em ‘camadas’ é a maneira mais natural e fácil de educar o ouvido para cantar individualmente.”

Para concluir este artigo, trago uma citação do Pe. Schmidberger, da época em que foi Superior Geral da FSSPX:

“Neste país [Estados Unidos], é muito importante que não tenhamos apenas o ensino técnico e o de ciências naturais, mas que tenhamos especialmente empenho musical, uma atmosfera musical. Além do estudo de línguas e história, a música é muito importante para a formação das almas cristãs. É parte da vida interior – num nível natural, sim, mas um passo que nos aproxima de Deus e que, portanto, contribui para a formação de verdadeiras personalidades cristãs.”

“Estejam certos de que a música é um passo importante para o renascimento da América, da América Católica. Em todo lugar em que vive a fé, encontram-se as artes: pintura, teatro, música, literatura, desenho. As artes são importantes para nossa vida espiritual – são sinais dela – e quanto mais intensa é a nossa fé, mais florescem as artes.”

“Que nossas famílias e escolas sejam lares em que reina a boa música, em que as crianças sejam encorajadas a cantar belas canções, em que a cultura cristã não seja esquecida, mas transmitida!”

Termino com as inspiradoras palavras do livro musical usado no seminário:

“Que nós, peregrinos neste vale de lágrimas, encontremo-nos sempre a seguir as palavras de São Paulo, ‘cantando e celebrando de todo o coração os louvores do Senhor’ (Ef 5, 19), até que todos nós entremos na eterna canção de louvor, na Festa de Núpcias do reino celeste.”

(Angelus Press, março/abril de 2012.)

Não dirás falso testemunho contra o teu próximo

Irmãs da Fraternidade São Pio X

 

"Mamãe, o Lucas me empurrou!" "Professor, o Vianney está me copiando!" "Mamãe, Joana pegou meu livro!" Como devemos responder a tais acusações? Devemos encorajá-las endossando-as, ou tirar partido dessas informações recém-descobertas? Será que o acusador é movido por um senso de justiça, pelo desejo de ver o triunfo de tudo o que é bom e verdadeiro? Ou será egoísmo e amor-próprio o que inspira tais comentários?

Infelizmente, a última hipótese é mais frequente. Se completássemos as acusações mencionadas, ouviríamos: "Lucas não me empurrou de propósito, mas, não estou pronto para perdoar essa leve falta de respeito involuntária." "Vianney me copiou, e como ele não é legal, resolvi puni-lo." "Joana pegou meu livro porque fui egoísta e não queria emprestar."

Portanto, podemos interromper o acusador dizendo "Eu não escuto dedo-duro." A criança entenderá que não é correto dizer tais coisas e, em seguida, não dará continuidade à acusação. No entanto, quando essas acusações seguem ocorrendo diariamente, é preciso parar e se dedicar a fazer com que a criança reflita sobre a moralidade dos seus atos.

Por exemplo, ao ouvir uma acusação, podemos responder: "Você acabou de me dizer que Cecilia trapaceou no jogo. Trapaceou mesmo? O que ela fez?” Ao fazer mais perguntas e se aprofundar um pouco mais, a mãe descobre que Cecília não tinha realmente trapaceado: "Só um pouco, mãe, porque ela soprou os dados para que desse um seis e seu cavalo pudesse avançar..."

"Mas isso não é trapaça, você sabe disso! Você está acusando a Cecilia de ter trapaceado quando ela não o fez. Disse coisas que não são verdadeiras, você sabe qual é o nome disso?”

"Mentira..."

"Você precisa perceber que mentiu. Será que fez isso porque a Cecilia estava ganhando o jogo?"

"Sim, mamãe..."

"Será que você estava com um pouco de ciúmes e procurou se vingar dela?"

"Um pouco..."

"Ora, esse é o tipo de mentira que chamamos de calúnia. Calúnia é dizer uma mentira sobre alguém a fim de causar-lhe algum dano; para puni-lo, por exemplo. Isso é pecado." E com ar de gravidade, a mãe conclui: "Nunca mais quero ouvir você dizer essas coisas novamente." Finalmente, em tom mais suave, acrescenta: "Que tal você correr e retomar o jogo com Cecilia, não se esqueça de estar de bom humor e de ser caridosa com sua irmã."

Aqui vai outra história:

Alice volta para casa toda agitada. "Mamãe, Maria não tem mais sua caneta rosa porque a Ana roubou dela. Todas as meninas têm certeza de que foi a Ana, porque ela ama canetas cor-de-rosa!” "Lá vamos nós de novo", suspira a mãe.  Agora uma história de roubo na escola... e se for verdade? Por prudência, ela se limita a dizer: "Eu não escuto dedo-duro." No entanto, procurará conversar com a professora. A freira conhece bem os alunos de sua turma e esclarecerá rapidamente a situação. "Maria certamente perdeu sua caneta em algum lugar, não será a primeira vez que perde os seus pertences. Quanto à Ana, é uma mocinha passando por um surto de crescimento, bastante desajeitada, e, portanto, não é muito querida pelas suas colegas de classe. Mas não é nenhuma ladra. Talvez a Alice precise de uma lição sobre o respeito devido à reputação dos outros”.

Naquela mesma noite, a mãe chama Alice: "Filha, ontem, você disse que Ana tinha roubado a caneta da Maria. Você a viu fazer isso?”

"Não mamãe, mas Ana gosta muito de canetas cor-de-rosa."

"Isso não é razão para acusá-la! Você também gosta de canetas cor-de-rosa, mas isso não significa que está pronta para roubá-las. Você acusou a Ana de ser uma ladra sem motivo. Você sabe como isso é chamado?”

"Não, mamãe".

"Julgamento temerário, que é algo que não se deve fazer. Todas as meninas da escola estão dizendo que a Ana é ladra. Você gostaria que todos estivessem te chamando de ladra, mesmo que não seja verdade?

"Eu não sou ladra!"

"Você não percebe? A Ana também não é. Você se comportou mal com ela. Amanhã, irá se entender com a Ana, dirá que ela não é ladra e, em seguida, vai brincar com ela no recreio”.

O oitavo mandamento nos proíbe revelar qualquer mal cometido por outro sem justa causa. No entanto, há quatro casos em que uma criança não só pode, mas deve dizer que testemunhou um pecado. Esses casos não são "inúteis" quando conhecidos, porque permitem que os adultos acabem rapidamente com o grave escândalo em questão. São eles: blasfêmia, crueldade, sabotagem e impureza.

Por exemplo, quando o Alan voltou para casa do internato, disse: "Mãe, estou um pouco enojado com o que o Luís fez. Ele descobriu uma maneira de levar seu celular para a escola e, em seguida, passou a visitar certos sites à noite com outros meninos do dormitório. Para dizer o mínimo, os sites eram muito vulgares..."

Algumas perguntas garantem à mãe a gravidade do que aconteceu. "Alan, você fez a coisa certa falando comigo porque isso é muito sério e é considerado um escândalo. Ou seja, algo que incita os outros a pecar também. Agora que falou comigo sobre isso e cumpriu seu dever, gostaria que esquecesse e não falasse mais da situação com os outros. E lembre-se, evite as más amizades como quem evita a peste." De agora em diante, a mãe de Alan tem o desagradável dever de ir à escola, sem que o filho esteja presente. Ela deve apresentar as informações recebidas ao diretor da escola, e deixá-lo lidar com o problema.

A língua é uma pequena parte do nosso corpo, mas pode acender um grande fogo! Na epístola de São João, lemos "Se um homem não peca na palavra, ele é perfeito." É essa perfeição que queremos e buscamos para nossos filhos.

 

(The Angelus, março de 2021)

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